A “mais bela” explicação sobre a Criação, segundo Albert Einstein

Sabemos que ciência e religião nunca se deram muito bem. Houve um tempo, já distante, que conciliar os dois termos não só era aconselhável, mas quase obrigatório. Caso contrário, perguntem às cinzas de Giordano Bruno ou a seu compatriota Galileu, forçado muito a contragosto a reposicionar a Terra no centro do Universo quando esta já havia encontrado seu lugar. Se para os católicos a situação era difícil, os protestantes não ficavam muito atrás, e Kepler, um contemporâneo de Galileu e Bruno, esteve a ponto ver sua mãe queimada na fogueira assim como a imaginação de Bruno por suposta bruxaria.

No entanto, nem sempre os preconceitos circulam na mesma direção. Mesmo em tempos mais recentes.

Talvez um exemplo disso seja o físico e matemático belga Georges Lemaître. Nem mesmo uma cratera na Lua e o nome de uma nave espacial da ESA —o ATV5, que também já virou cinza— nos faz lembrar dele. E isso porque estamos falando do homem que se atreveu a corrigir —educadamente, é verdade— o próprio Albert Einstein, antevendo o que Edwin Hubble comprovaria mais tarde com telescópios de Mount Wilson: a expansão do Universo. O que todos nós conhecemos hoje como o Big Bang.

Lemaître nasceu em Charleroi (Bélgica), em 1894. Apaixonado pelas ciências e engenharia, teve que interromper seus estudos aos 20 anos para defender seu país, imerso na Primeira Guerra Mundial, sendo até mesmo condecorado como oficial de artilharia. Não deve ter gostado nada da experiência e, horrorizado, decidiu virar padre.

Era o ano de 1923. Mas Lemaître não abandonou sua primeira vocação. Sua formação acadêmica em física e matemática foi formidável, começando por sua passagem pela Universidade de Cambridge e terminando com um doutorado no ainda mítico Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Pouco depois, em 1927, publicaria em uma revista local o esboço de seu modelo de universo. Partindo dos postulados de Einstein —um cosmos estático de massa constante—, chega a um resultado totalmente diferente: o raio do universo tinha de crescer continuamente para ser estável. Ao tomar conhecimento da hipótese, o gênio alemão rejeita a ideia veementemente: “Seus cálculos estão corretos, mas o modelo físico é atroz”. E isso mesmo levando em conta que Lemaître sempre fazia uso da famosa constante cosmológica inventada pelo próprio Einstein, a qual mais tarde o alemão renegaria com mais veemência do que a utilizada por Galileu para escapar da fogueira purificadora. Em 1931, seu trabalho chegou às páginas da Nature, detalhando sua teoria completa do “átomo primordial” ou “ovo cósmico”, e de suas linhas surgiria o que depois foi chamada exclusivamente Lei de… Hubble.

Einstein e Lemaître concordaram em várias ocasiões. Einstein, agnóstico, duvidava do padre belga, já que seu modelo cosmológico logicamente era acompanhado de uma origem divina (?) no espaço-tempo, e tanto ele quanto muitos astrofísicos não gostavam nada disso. Mas o admirava. Uma vez, durante uma estadia em Bruxelas e dando uma palestra diante de um público erudito, Einstein espetou: “Suponho que não devem ter entendido nada, exceto, claro, o abade Lemaître”. Em território comanche, juntos em Princeton, Einstein também deixou escapar ao ouvir seu colega belga pregar: “Esta [de Lemaître] é a mais bela explicação da Criação que já ouvi”. O detalhe é que realmente estava falando sério.

Naturalmente, a fama de Lemaître não demorou para chegar ao Vaticano. Apesar das tentativas depreciativas do tão brilhante quanto desbocado Fred Hoyle e dos seguidores da teoria do universo estacionário — o mesmo Hoyle, durante um programa da rádio BBC, batizaria com bastante veneno a teoria de Lemaître como Big Bang, em 1949 —, o modelo de universo em permanente expansão era imparável. Lemaître ocupou diferentes cargos na Academia Pontifícia das Ciências, sendo assessor pessoal do Papa Pio XII. E este não queria deixar passar tal oportunidade. Se o Universo tem 13,7 bilhões de anos, importaria muito se fosse criado em sete dias bíblicos ou em pouco mais de 10 segundos? Para o grande pesar de Pio XII —que, curiosamente, foi elogiado por Einstein em sua defesa dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial—, Lemaître evitou explorar a ciência para o benefício da religião. São suas as palavras:

“O cientista cristão tem os mesmos meios que seu colega não crente. Também tem a mesma liberdade de espírito, pelo menos se a ideia que tem das verdades religiosas está à altura de sua formação científica. Sabe que tudo foi feito por Deus, mas também sabe que Deus não substitui suas criaturas. Nunca será possível reduzir o Ser Supremo a uma hipótese científica. Portanto, o cientista cristão avança livremente, confiante de que sua pesquisa não pode entrar em conflito com sua fé”.

Depois de escutar Lemaître, o prudente Pio XII abandonou a ideia de transformar o Big Bang em um dogma de fé.

Lemaître morreu em 1966, apenas dois anos após a descoberta irrefutável da radiação de fundo em micro-ondas, o eco proveniente da origem do Universo, de seu Big Bang. Talvez seu nome pintado na placa de uma nave espacial não faça justiça suficiente a uma mente —crente ou não— divina.

Autor: Enrique Joven Álvarez

Enrique Joven Álvarez é doutor em Ciências Físicas e trabalha como engenheiro no Instituto de Astrofísica de Canarias (IAC). Combina suas tarefas técnico-científicas com a divulgação e publicação de obras de ficção. Publicou dois romances com a astronomia como eixo principal: El Castillo de las Estrellas (RocaEditorial, 2007) e, recentemente, El Templo del Cielo (RocaEditorial, 2013).

Fonte: El País

O humano do futuro dá medo

Imagem relacionadaExiste um desenho icônico de como a espécie humana evoluiu do símio curvado ao erguido e orgulhoso Homo sapiens, com os progressivos estágios representados por indivíduos caminhando em fila indiana. Algumas versões incluem, no fim do caminho, um novo homem tecnológico curvado, dessa vez, sobre seu computador.

A evolução biológica para os seres humanos parece ter chegado à irrelevância. Ocorre por seleção natural, embora sempre façamos com que o meio se adapte a nós (a água sai da torneira, o alimento está na geladeira e a calefação combate o frio, quando se dispõe de todos esses recursos, claro), e se dá em períodos geológicos de milhões de anos, motivo pelo qual seria difícil acompanhá-la em nossa curta existência.

Mas a evolução continuará por outros roteiros: incorporaremos a tecnologia a nossos corpos e mentes. Além disso, experimentando um salto: as mudanças podem acontecer em alguns anos ou décadas. Iremos além do ciborgue, até o pós-humano, um ser que ainda nem imaginamos. Será parecido a um robô ou a um incompreensível perfil de Facebook? Será máquina ou consciência pura? Estamos perante o salto da humanidade à pós-humanidade. Como período de transição, virá o transhumanismo.

A utopia transhumanista

“Os transhumanistas acham que devemos usar a tecnologia para superar nossas limitações biológicas”, diz o filósofo David Pearce. “Usada sabiamente, a tecnologia pode propiciar um futuro de superinteligência, superlongevidade e superfelicidade. No entanto, são muitos os empecilhos”. Junto com Nick Bostrom, Pearce foi o co-fundador da Associação Transhumanista Mundial (agora Humanity Plus ou H+) e hoje é o diretor da BLTC Research, uma organização que tem como finalidade promover o que denomina “engenharia celestial”. Ou seja, “a abolição dos substratos biológicos do sofrimento e a criação de estados gloriosos de prazer sublime”. Como base de tudo, está a implosão tecnológica.

Singularidade Tecnológica é o termo que define a confluência de ramos como a nanotecnologia, a biotecnologia, a engenharia genética, a inteligência artificial, a clonagem terapêutica, a farmacologia e a ciência espacial, que, em breve, segundo futuristas como o engenheiro do Google Ray Kurzweil, mudará o mundo que conhecemos.

O ritmo do avanço tecnológico é exponencial e, graças a isso, de acordo com Kurzweil, o ser humano se livrará das cadeias biológicas. Pearce dá exemplos dos últimos passos rumo à pós-humanidade: o software que supera os humanos em atividades como jogar xadrez (o supercomputador Deep Blue, em 1997, venceu Gary Kasparov) ou dar um diagnóstico médico (como a inteligência artificial de Watson da IBM, que processa a informação de forma mais semelhante a um humano do que a uma máquina, aprende, responde perguntas e cria hipóteses).

A duração da vida pode ser estendida em animais induzindo mutações, e, em biotecnologia, a revolução da edição dos próprios genes anuncia uma era na qual a rápida modificação do seu próprio genoma pode ser a norma. Partindo para exemplos mais próximos, no filme Ela (2013), de Spike Jonze, o protagonista se apaixona por um sistema operacional que tem uma voz doce, parecido ao atual assistente pessoal Siri instalado em iPhones e iPads. Além disso, já estão disponíveis no mercado os óculos do Google (Google Glasses) e outros acessórios que, colocados em nosso próprio corpo, nos fazem ver o mundo de outra maneira.

Evolução apenas para os ricos?

O urbanista e advogado Albert Cortina e o biólogo Miquel Ángel Serra acreditam que chegou a hora de iniciar um debate aberto e multidisciplinar sobre o futuro da humanidade. Por isso, escreveram o livro ¿Humanos o posthumanos? Singularidad tecnológica y mejoramiento humano, no qual 213 vozes de diferentes disciplinas opinam sobre o que o ser humano deveria ou não se transformar. “Existem posturas bioconservacionistas que opinam que a vida deve permanecer inalterada. No outro extremo, estão os tecno-otimistas, a favor de qualquer avanço tecnológico para melhorar a humanidade”, explicam Serra e Cortina.

A verdade é que o movimento transhumanista gera críticas morais e religiosas (sobretudo a respeito da manipulação genética) e socioeconômicas. “Uma consequência negativa é a possibilidades de que só as elites possam ter acesso às melhorias tecnológicas e de que se crie uma humanidade que evolua a duas velocidades”, afirmam os autores do livro.

Um cenário semelhante ao mostrado no filme Elysium (2013), dirigido por Neill Blomkamp, onde os ricos aproveitam a tecnologia para abandonar a Terra e viver confortavelmente, deixando os demais para trás. No entanto, para os mais otimistas, como Kurzweil, há uma prova de que essa desigualdade não é inevitável: a internet e a telefonia celular, que chegaram a todo o planeta, inclusive aos países menos desenvolvidos.

O panorama parece de ficção científica: “Temos a evolução das máquinas, que podem conseguir chegar à inteligência artificial e, como um filho adolescente, querer emancipar-se de seus criadores, os humanos”, afirma Cortina.

“Houve muitíssimos avanços, mas isso não é nada comparado ao que vamos ver daqui em diante. Nos próximos 20 anos, vivenciaremos mais mudanças do que nos últimos dois milênios”, explica o cientista José Luis Cordeiro, co-fundador da Associação Transhumanista Venezuelana e professor da Singularity University do Vale do Silício, criada por instituições como o Google e a Nasa para “educar e inspirar” um quadro de líderes que possam compreender e guiar a Singularidade Tecnológica.

Cordeiro acredita que a inteligência artificial alcançará a humana em menos de duas décadas e que os cérebros artificiais vão complementar os humanos, não substituí-los. Em três ou quatro décadas, poderemos prevenir todas as doenças. A humanidade está a ponto de dar o salto à pós-humanidade; a tecnologia, segundo Cordeiro, substituirá a biologia: “Os pós-humanos não dependerão apenas de sistemas baseados na química do carbono, mas em componentes como o silício e outras plataformas mais convenientes para diferentes entornos, como as viagens espaciais”.

Assim é o futuro transhumanista

Que aspecto teriam os pós-humanos do futuro? Os transhumanistas defendem a liberdade morfológica, esclarece Pearce:

“Cada um tem o direito de ter o gênero, o corpo e a imagem que desejar. Algumas escolhas corporais extraordinárias podem ser previstas, tanto na realidade virtual como no mundo de carne e osso… Mas, suspeito que muitos devem optar por desenhos corporais que expressem os cânones de beleza ideal adaptativa de nossos ancestrais da savana africana”.

Seremos ciborgues? “O futuro é mais complexo do que isso”, diz Cordeiro. “Veremos uma explosão de novas formas de vida inteligentes”. Surgem termos como os bio-orgues (organismos modificados por meio de proteínas), os geborgues (modificados geneticamente), e os silorgues (organismos com base de silício). Uma nova fauna… Já estamos presenciando a existência de transhumanos.

Neil Harbisson vê em preto e branco, mas tem um terceiro olho que, mediante vibrações, permite que ele perceba as cores. O atleta sul-africano Oscar Pistorius teve as pernas amputadas quando era criança mas, graças a suas próteses biônicas de fibra de carbono, participou dos Jogos Paralímpicos de Londres.

Outro exemplo é Tim Cannon, um biohacker que fundou a companhia Grindhouse Wetware em Pittsburgh, dedicada a melhorar o ser humano através da tecnologia. Cannon implantou nele mesmo chips e aparelhos eletrônicos, em cirurgias caseiras, para melhorar suas habilidades: “Agora, graças à medicina moderna e à ciência, somos, pela primeira vez, capazes de tomar o controle da Evolução”.

Universo consciente, futuro real?

Para Raymond Kurzweil, chefe de engenharia do Google, o universo passa por diferentes fases. Primeiro veio, a época da física e da química, com a informação contida em estruturas atômicas. Depois, aparece o DNA que engloba a informação crescente. Em seguida, surgem os cérebros, que criam a tecnologia: essa é a época na qual vivemos e que, segundo Kurzweil, chegou ao fim. A partir de agora, a tecnologia, com inteligência própria, dominará os métodos de troca de informação das épocas anteriores, integrando-as e incluindo a inteligência humana. Finalmente, todo o universo estará cheio de tratamento de informações e conhecimento. O universo desperta e emerge uma inteligência que emprega todo o seu conteúdo nela mesma.

Autor: Sergio C. Fanjul

Fonte: El País

O triunfo do homem-macaco

A descoberta na África do Sul de uma nova espécie de hominídeo, o Homo naledi, que mostra características muito primitivas (as mãos, o tamanho do cérebro), mas também muito evoluídas (os dentes, os pés), voltou a colocar sobre a mesa o debate em torno de uma questão crucial que parece uma obviedade, mas sobre a qual os cientistas debatem desde Darwin sem encontrar uma resposta única: o que nos transforma em humanos? O que nos diferencia dos outros primatas? “As características mescladas desses restos pré-históricos representam um desafio para a teoria mais aceita sobre a origem de nossa espécie, segundo a qual o bipedismo foi a causa do desenvolvimento da tecnologia, a mudança de dieta e uma inteligência maior”, escreveu essa semana no The New York Times o célebre primatologista Frans de Waal, da Universidade Emory de Atlanta.

Bill Gates fez a pergunta “O que nos transforma em humanos?” em sua página do Facebook e recebeu 1.500 respostas, a grande maioria delas diferente. O que parece óbvio, que os seres humanos são diferentes das outras espécies, nunca encontrou uma resposta unânime e novas dúvidas aparecem à medida que novos fósseis são descobertos. O neurocientista francês Thierry Chaminade, especialista na evolução do cérebro humano, explica que a “evidência fenomenológica” se impõe “já que a observação de nossa cultura e nossa história nos leva necessariamente à conclusão de que, ainda que continuemos sendo um animal, somos diferentes do resto”. Essa resposta, entretanto, deixa aberta a pergunta fundamental: certo, somos diferentes, mas por que?

Chaminade acredita que o homem é “o resultado de um salto evolutivo que lhe deu vantagens psicológicas – capacidade de aprender e transmitir o conhecimento através da cultura – que explica o fato de sermos únicos”. Uma reportagem recente da rede de televisão britânica BBC traça uma lista de 15 mutações genéticas desde que começamos a nos separar dos macacos há sete milhões de anos, como o gene RNF213, que aumenta o tamanho da carótida que leva sangue ao cérebro; o FOXP2, que permite a linguagem completa; o AMY1, que produz uma enzima na saliva que permite digerir o amido (e, portanto, permite a agricultura em torno da qual foram criadas as sociedades nas quais vivemos agora).

“Não existe um fator único que nos transforma em humanos”, afirma de Harvard o paleontólogo Daniel Lieberman, diretor do Departamento de Biologia Evolutiva da universidade norte-americana, uma opinião que reflete a teoria aceita pela maioria dos especialistas: não existiu uma varinha mágica que nos transformou no que somos; foi na verdade uma série de golpes de sorte evolutivos. “Muitos fatores que foram mudando ao longo da evolução humana nos ajudaram a sermos humanos: ser bípedes, ter um cérebro maior, construir e utilizar ferramentas, a linguagem, a cultura, elevados níveis de cooperação, a capacidade de nos movimentar por longas distâncias”, prossegue.

Uma a uma, a maioria dessas qualidades pode ser encontrada, ainda que em versões mais simples, em outras espécies (e não somente de primatas); o conjunto delas, não. De fato, ao longo da história da paleontologia muitas certezas foram mudando, não somente por conta da descoberta de fósseis, como também por avanços no estudo do comportamento dos símios. Raymond Dart, autor da primeira teoria de que o homem vinha da África, acreditava que era a violência a nos fazer humanos. Stanley Kubrick estampou essa teoria em uma das cenas mais famosas de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Estudos mostram, entretanto, que os chimpanzés fazem algo muito parecido com nossa guerra.

Os primeiros hominídeos sobre os quais existe a certeza de que caminharam erguidos foram os Australopitecos, que viveram há quatro milhões de anos na África. Fazem parte de nosso tronco, mas estão muito distantes de nós. Eles, por sua vez, evoluíram ao Homo habilis (por volta de 1,8 milhão de anos), o primeiro primata da espécie Homo que acabaria se transformando no Homo sapiens (200.000 anos), nós. Josep Call, primatologista da Universidade de St. Andrews e diretor do Wolfgang Köhler Primate Research Center do Instituto Max Planck, na Alemanha, explica que Louis Leakey, um dos pais da paleoantropologia e o descobridor dos primeiros fósseis de Homo habilis na Tanzânia, “criou o gênero Homo para indicar que era um hominídeo que utilizava instrumentos, mas é uma distinção que oscila porque os chimpanzés também utilizam instrumentos”. Ainda que o próprio Call lance o contra-argumento: “É verdade que utilizam pedras para descascar nozes, mas não as modificam, não têm indústria lítica”. Mas a diferença está na nuance, no fato em si.

O professor da Universidade de Jerusalém Yuval Noah Harari, autor do livro sobre a evolução humana De Animais a Deuses, que se transformou em um best-seller internacional pela simplicidade e brilhantismo com os quais enfrenta a pergunta de quem somos nós, busca a resposta fora de nosso próprio corpo: “É óbvio que possuímos peculiaridades, além da linguagem, como a empatia, a crueldade e a violência extrema, mas as compartilhamos com outras espécies”, explica Harari por e-mail. “Nós seres humanos somos especiais em nossa habilidade única para cooperar de maneira flexível em grandes números. Muitas outras espécies, das abelhas aos chimpanzés, cooperam; mas somente os membros da espécie Homo cooperam de maneira flexível com um número indefinido de estranhos”.

Para outros pensadores e divulgadores como Bill Bryson a evidência de que, após várias levas de hominídeos que saíram da África, somente os Homo sapiens colonizaram territórios viajando por mar aberto (como a Austrália) transforma a sede de aventura e exploração em nossa característica definidora. O famoso “porque estava lá” de Mallory para explicar sua primeira subida ao Everest seria a chave de nossa espécie. Harari segue um caminho semelhante, também intangível. “O que faz com que os Sapiens cooperem dessa maneira? Nossa imaginação. Podemos cooperar com estranhos porque podemos inventar histórias sobre coisas que existem somente em nossa imaginação – deuses, nações, dinheiro – e levá-las a milhões de pessoas. Nenhum chimpanzé acreditaria em um céu cheio de bananas por toda a eternidade. Somente nós podemos acreditar em algo assim. E por isso dominamos o mundo”.

Quando não estávamos sozinhos

O fato do Homo sapiens ser o único Homo sobre a Terra é bastante extraordinário porque é assim há pouquíssimo tempo. Até 12.000 anos atrás (nada em termos evolutivos) viveu o Homem das Flores, um hominídeo muito pequeno (um metro) que ficou isolado em uma ilha da Indonésia e que alguns cientistas consideram uma espécie. Mas houve um longo período (dezenas de milhares de anos) durante o qual o Homo sapiens dividiu não só o planeta, mas os mesmos territórios nos quais vivia com os neandertais (que se extinguiram por volta de 30.000 anos atrás por motivos ainda discutidos), o Homo erectus (que se extinguiu há 50.000 anos após passar 1,7 milhões de anos sobre a Terra) e os denisovanos (descobertos há pouco tempo na Sibéria, dos quais foram encontrados escassos fósseis, ainda que se saiba que seu genoma está presente, por exemplo, nos aborígenes australianos. Um dos filmes mais famosos sobre a pré-história, A Guerra do Fogo, para o qual o grande escritor Antony Burguess inventou as línguas e o primatologista Desmond Morris, autor de O Macaco Nu, a comunicação gestual, fala precisamente sobre esse momento, quando o homem não estava sozinho.

Antonio Rosas, autor do livro Primeiros Hominídeos, diretor de paleoantropologia do Museu Nacional de Ciências Naturais e especialista em neandertais, afirma sobre essa convivência (que acabou com o desaparecimento de todas as demais espécies com exceção da nossa): “Nos faz menos únicos, sem dúvida. Copérnico nos retirou do centro do universo e a paleoantropologia nos coloca no contexto de que no planeta existiram diferentes humanidades. Precisamos relativizar e aprender a pensar o que significa ser humano porque existem variáveis. É um caminho que ainda precisamos explorar”.

Autor: Guillermo Altares

Fonte: El País

Buracos Negros e Universos Paralelos

De acordo com Hawking, os buracos negros possuem, sim, uma saída

Supõe-se que seria uma viagem só de ida, mas em uma nova reviravolta nas explicações sobre o que ocorreria quando se “cai” em um buraco negro, o físico britânico Stephen Hawking afirmou que viajantes espaciais poderiam terminar em outro universo.

“Se cair em um buraco negro, não se renda”, disse Hawking em uma entrevista coletiva em Estocolmo, na Suécia. “Há uma saída.”

Hawking afirmou ainda que se o buraco fosse suficiente grande e estivesse girando, poderia ter uma passagem a um universo alternativo.

O famoso cientista considera que os objetos podem acabar armazenados sobre os limites de um buraco negro, região conhecida como horizonte de eventos. São as fronteiras do espaço a partir das quais supostamente nenhuma partícula pode sair, incluindo a luz.

Assegurando que essas estruturas não seriam um poço tão escuro como se pensa, Hawkins indicou que os humanos não desapareceriam ao cair em um buraco negro, mas permaneceriam como um “holograma” na margem ou “cairiam em outro lugar”.

Mistério prolongado

Os buracos negros são fenômenos cósmicos que se originam quando uma estrela colapsa. O restante de sua matéria fica limitado a uma pequena região, que logo dá lugar a um imenso campo gravitacional.

Stephen Hawking é o cientista mais reconhecido de nossos tempos

Por muito tempo se pensou que nada poderia escapar de sua gravidade, nem sequer a luz.

Em 1974, Hawking descreveu como os buracos negros emitiriam radiação, algo que com o tempo passou a ser conhecido como “radiação de Hawking”, ideia com a qual muitos físicos concordam hoje em dia.

Ele, contudo, também apontou inicialmente que a radiação emitida por um buraco negro acabaria evaporando e todas as informações sobre cada partícula despareceriam para sempre.

Em 2004, Hawking surpreendeu o mundo com um novo estudo, denominado O Paradoxo da Informação em Buracos Negros, em que mudava sua própria versão: em vez de absorver tudo, os buracos negros permitem que certas radiações escapem.

Deste modo, um buraco negro deixaria de ser o poço infinito que destrói tudo o que cai nele, e sua fronteira não estaria tão definida como se pensava.

Viagem ‘sem volta’

En 2012, enquanto buscavam esclarecer se a informação desaparece para sempre dentro de um buraco negro, John Polchinski e outros físicos já haviam descoberto que outro destino é possível.

Os físicos discutem há décadas sobre o que ocorre com o estado físico dos objetos que caem em um buraco negro

Mas acrescentaram que o horizonte de eventos se converte em uma barreira antifogo gigante que incinera o que passar por ele.

À medida que você se aproximasse do buraco, a diferença de gravidade entre seus pés e a sua cabeça aumentaria cada vez mais, e em algum momento você se partiria em dois. E logo a força de maré, como se denomina essa atração, desgarraria cada célula, molécula e átomo de seu corpo.

Muitos físicos não gostaram dessa ideia. Segundo um dos princípios da relatividade de Einstein, uma pessoa que cruzasse o horizonte de eventos não deveria sentir nada diferente, apenas flutuaria no espaço.

A barreira antifogo, portanto, deixaria vulnerável o “princípio de equivalência”, uma regra muito respeitada, daí a resistência dos físicos a descartá-la.

De toda maneira, para verificar o que ocorre em um buraco negro você provavelmente teria que viajar ao interior de um deles.

E o próprio Hawking não é candidato a essa jornada.

“(Após entrar em um buraco negro) Não poderia voltar ao nosso universo, de modo que, ainda que esteja interessado em viajar ao espaço, não vou tentar.”

Artigo extraído do site da BBC Brasil

Por que beijamos (e outros animais não)?

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O ato de beijar pode ser uma ‘invenção’ recente dos humanos

Analisando friamente, beijar é algo um tanto estranho: a troca prolongada de saliva com outra pessoa aumenta a possibilidade de transmitir até 80 milhões de bactérias com um único gesto.

Ainda assim, praticamente todo mundo se lembra de seu primeiro beijo, com todos os detalhes íntimos e deliciosos. E beijar continua sendo uma parte importantíssima do romance.

Quem vive nos países do Ocidente pode pensar que o beijo na boca é um comportamento humano universal.

Mas um estudo recente, realizado por especialistas das Universidades de Nevada e Indiana, nos Estados Unidos, sugere que menos da metade das culturas do mundo adota o gesto. Beijar também é extremamente raro entre os bichos.

De onde vem o beijo, então? Se é algo útil, por que não é adotado por todos os humanos e outros animais?

Invenção recente

Bem, pode ser justamente o fato de outros não beijarem o que explicaria nossa preferência pelo gesto.

Segundo o estudo americano, que analisou 168 sociedades em todo o mundo, apenas 46% delas cultivam o hábito do beijo como uma demonstração romântica. Anteriormente, pensava-se que seriam 90%. A pesquisa excluiu o beijo entre pessoas da mesma família e se concentrou apenas no beijo na boca entre casais.

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Os chimpanzés costumam se beijar depois de uma briga

Muitas sociedades que se baseiam na caça não demonstraram interesse em beijar, e algumas até consideram o ato repugnante. A tribo dos Meinacos, que vive no Xingu, teria se referido ao ato como “nojento”, de acordo com os pesquisadores americanos.

Como esses grupos são os que possuem um estilo de vida mais próximo do de nossos ancestrais, é possível imaginar que o beijo tenha sido uma invenção recente.

Segundo o antropólogo William Jankowiak, um dos autores do estudo, o gesto parece ser um produto das sociedades ocidentais, passado de uma geração a outra.

‘Aspirar a alma’

Algumas evidências históricas ajudam a comprovar essa tese.

O psicólogo Rafael Wlodarski, da Universidade de Oxford, na Grã-Bretanha, passou um pente fino em inúmeros estudos para encontrar indícios de como o beijo mudou ao longo do tempo.

O sinal mais antigo de um comportamento parecido com o beijo vem de textos em sânscrito védico hindu de mais de 3,5 mil anos atrás. Neles, beijar é descrito como “aspirar a alma um do outro”.

Por outro lado, hieróglifos egípcios retratam pessoas perto umas das outras, mas não com seus lábios colados.

Será, então, que o beijo é algo natural que algumas culturas reprimiram?

A melhor maneira de descobrir é observando os animais.

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Os machos da aranha viúva negra conseguem sentir pelo olfato o melhor momento de copular

O poder dos odores

Os chimpanzés e os bonobos, nossos parentes mais próximos, se beijam.

O primatólogo Frans de Waal, da Universidade Emory, em Atlanta, nos Estados Unidos, já presenciou várias cenas de chimpanzés se beijando e se abraçando após um confronto. Para eles, o beijo é uma forma de reconciliação, e é mais comum entre machos. Ou seja, não é um ato romântico.

Já os bonobos se beijam com mais frequência e costumam usar suas línguas no gesto. Isso talvez não seja surpreendente porque essa espécie é altamente sexual: quando dois seres humanos são apresentados pela primeira vez, provavelmente trocam um aperto de mão; já os bonobos fazem sexo. Portanto, seus beijos não são necessariamente românticos.

Esses dois primatas são uma exceção. Até onde se sabe, outros animais não beijam. Alguns podem esfregar os rostos mas não trocam saliva ou estalam seus lábios.

Em vez disso, as espécies exalam odores tão fortes para atrair o sexo oposto que elas não precisam se aproximar para senti-lo. O principal componente desse odor são os feromônios, que despertam o desejo de acasalar.

Mamíferos como o javali, o hamster e o rato têm um olfato apurado e seguem o rastro dos odores para conseguir encontrar parceiros geneticamente diferentes.

Até mesmo as aranhas são dotadas do mesmo recurso: o macho da viúva negra consegue sentir o cheiro dos feromônios liberados pela fêmea que sinalizam se ela está de barriga cheia. Ele só se acasala com ela se entender que ela não está faminta e não o matará após a cópula.

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Os elefantes demonstram afeição usando as trombas

Ou seja, os animais não precisam chegar muito perto uns dos outros para encontrar um bom parceiro em potencial.

O ser humano possui um olfato bastante rudimentar. Portanto, chegar bem perto de outra pessoa pode ser uma vantagem. E estudos mostram que, apesar do odor não ser o único sinal que usamos para avaliar se um parceiro é apropriado, ele tem um papel fundamental nessa escolha.

Suor masculino

Um estudo publicado em 1995 mostrou que as mulheres, assim com os camundongos, preferem os odores dos homens geneticamente diferentes delas. Isso faz sentido, já que a mistura de genes distintos tende a produzir filhotes mais saudáveis. Ou seja, beijar pode ser uma ótima maneira de se estar próximo o suficiente para farejar os genes do parceiro.

Em 2013, Wlodarski entrevistou centenas de voluntários sobre suas preferências na hora do beijo. A importância do cheiro foi citada pela maioria deles, e aumentava ainda mais quando as mulheres estavam em seu período mais fértil.

Cientistas descobriram que os homens também produzem uma versão do feromônio que é tão atraente entre os animais. O hormônio está presente no suor masculino e, quando as mulheres o percebem, tendem a ficar ligeiramente mais excitadas.

Segundo Wlodarski, os feromônios são essenciais na escolha de parceiros entre os mamíferos, e nós, humanos, temos alguns deles.

Desse ponto de vista, o beijo seria apenas uma maneira culturalmente aceitável de se chegar perto o suficiente de alguém para detectar seus feromônios.

Em algumas culturas, esse comportamento evoluiu para o contato físico entre os lábios. “É difícil saber quando exatamente isso aconteceu, mas o objetivo do beijo é o mesmo do farejar entre os animais”, conclui o cientista.

Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Earth.

Além da "Partícula de Deus"

Foto: CERN/LHCB Collaboration

Cientistas que trabalham no Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês) – um acelerador de partículas gigantesco que fica na fronteira entre a França e a Suíça – anunciaram a descoberta de uma nova partícula, batizada de pentaquark.
A primeira previsão da existência do pentaquark foi feita na década de 1960, mas, assim como o Bóson de Higgs (ou “partícula de Deus”), os cientistas não conseguiram detectar o pentaquark durante décadas.
Em 1964, dois físicos, Murray Gell-Mann e George Zweig, propuseram, separadamente, a existência de partículas subatômicas conhecidas como quarks.
As teorias deles afirmavam que as propriedades mais importantes de partículas conhecidas como bárions e mésons poderiam ser melhor explicadas se, na verdade, elas fossem formadas por partículas ainda menores. Zweig chamou estas partículas menores de “ases”, um nome que não ficou muito popular.
Gell-Mann as chamou de “quark”, o nome pelo qual elas são conhecidas hoje.
O modelo proposto pelos cientistas também permitiu a descoberta de outros estados dos quarks, como o pentaquark. Esta partícula – antes puramente teórica – é composta de quatro quarks e um antiquark (o equivalente em antimatéria de um quark comum).
O anúncio é o equivalente à descoberta de uma nova forma de matéria e foi divulgado na revista especializada Physical Review Letters.

Descobertas

Durante a primeira década dos anos 2000, várias equipes de cientistas alegaram ter detectado os pentaquarks, mas estas descobertas foram questionadas por outros experimentos.
“Existe uma história e tanto com os pentaquarks, por isso estamos sendo muito cuidadosos ao apresentar esta pesquisa”, afirmou à BBC Patrick Koppenburg, físico coordenador do LHC no Cern, o laboratório europeu de pesquisas nucleares, na fronteira franco-suíça.
“É só a palavra ‘pentaquark‘, que parece ser amaldiçoada de alguma forma, pois foram feitas muitas descobertas que, em seguida, foram superadas por novos resultados que mostravam que as anteriores eram, na verdade, flutuações, e não sinais verdadeiros (da existência da partícula)”, acrescentou.
Os físicos estudaram a forma como uma partícula subatômica, a Lambda b, se transformou em outras três partículas dentro do Grande Colisor de Hádrons. A análise revelou que estados intermediários estavam envolvidos, em algumas ocasiões, na produção das três partículas.
Estes estados intermediários foram chamados de Pc (4450)+ e Pc (4380)+.
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Uma configuração alternativa para o pentaquark, mostrando uma partícula méson (um quark e um antiquark) e um bárion (três quarks)

“Examinamos todas as possibilidades para estes sinais e concluímos que eles só podem ser explicados (pela existência) dos estados (de matéria) pentaquark“, afirmou o físico do LHC Tomasz Skwarnicki, da Universidade de Syracuse, nos Estados Unidos.
Experiências anteriores tinham medido apenas a chamada distribuição de massa, na qual um pico estatístico pode aparecer contra o ruído de fundo, um possível sinal da existência de uma nova partícula.
Mas, o colisor permitiu que os pesquisadores analisassem os dados de outras perspectivas, principalmente os quatro ângulos definidos pelas direções diferentes das trajetórias das partículas dentro do LHC.
“Estamos transformando este problema de (um problema) de uma dimensão em um de cinco dimensões… conseguimos descrever tudo o que acontece na transformação (da partícula Lambda b)”, afirmou Koppenburg, que identificou os primeiros sinais em 2012.
“Não tem como o que vimos ser devido a qualquer outra coisa que não a adição de uma nova partícula que não tinha sido observada antes.”
“O pentaquark não é apenas uma nova partícula qualquer… Representa uma forma de agregar quarks, os principais componentes dos prótons e nêutrons comuns, em um padrão que nunca foi observado antes em mais de 50 anos de buscas experimentais”, afirmou Guy Wilkinson, porta-voz do LHC.
“Estudar suas propriedades pode permitir uma melhor compreensão de como a matéria comum, os prótons e nêutrons, são constituídos.”
O Grande Colisor de Hádrons foi ligado novamente em abril depois de um desligamento que durou dois anos para completar um programa de reparos e atualizações.

O poder dos Estados Unidos está declinando?

Testemunhando a virada do milênio no Washington Mall (o parque americano em frente ao Capitólio), era impossível não sentir o poder americano e sua influência global.Queima de fogos em Washington: poder dos EUA pode estar sendo reduzido com sua economia sendo superada pela China e problemas geopolíticos
A vitória na Guerra Fria tornou o país hegemônico em um mundo unipolar.
Até a queima de fogos de Ano Novo, que iluminou o obelisco do Monumento de Washington de uma maneira que ele ficou parecendo um número “1” gigantesco, projetava a supremacia do país como a única superpotência.
Mas, nos últimos 15 anos a sorte americana começou a mudar a uma velocidade vertiginosa.
Primeiro vieram os temores sobre o colapso das empresas de internet e as eleições presidenciais de 2000. Depois as convulsões massivas: a destruição das Torres Gêmeas em 2001 e a quebra do banco Lehman Brothers em 2008.
Longas guerras no Afeganistão e no Iraque cobraram um alto preço – as vidas de 6.852 militares americanos – sem mencionar despesas da ordem de US$ 6 trilhões.
O centro de detenção da Baía de Guantánamo minou os ideais americanos e os escândalos de espionagem da NSA revelados pelo Wikileaks enfraqueceram a diplomacia do país.
George W.Bush, um presidente com uma visão de mundo maniqueísta, foi retratado como ansioso demais para promover o poderio militar americano, sem adequadamente considerar as consequências de longo prazo.
Já Barack Obama, que baseou sua campanha de 2008 na plataforma de retirar a América de suas guerras impopulares e exaustivas, foi criticado por se afastar demais.
Sob os dois presidentes – o primeiro unilateralista impulsivo e o segundo um multilateralista instintivo – a posição global americana diminuiu.

Fator de perda do medo

Pesquisas mostram regularmente que os americanos reconhecem que a posição internacional do país minguou.

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Obama é criticado por não ter feito mais em termos de massagear os egos dos líderes mundiais

Entre os jovens, a percepção da influência americana caiu rapidamente. Apenas 15% dos jovens com idades entre 18 e 29 anos diz acreditar que os Estados Unidos são “o país mais grandioso do mundo” – de acordo com o centro de pesquisa Pew.
Mas não houve grandes queixas em relação a isso.
Não há mais tanto apetite para ver a América exercendo um papel a longo prazo de polícia global – mesmo no momento em que surge o grupo que se autoproclama Estado Islâmico.
O custo, humano e financeiro, é considerado elevado demais. Os americanos cada vez mais pensam que outros países devem ajudar a carregar o fardo.
Obama regularmente pontua declarações sobre política externa reconhecendo os limites do poder americano, também sem gerar reclamações.
A conclusão é que os Estados Unidos não estão mais tão interessados em exercer liderança em um mundo cada vez mais confuso.
Contudo, uma das razões do mundo ter se tornado tão desordenado é porque a América não está mais tão ativa, impondo ordem.
Ao longo do curso deste século Washington perdeu seu fator de produzir medo.

Ignorando a Casa Branca

Os líderes mundiais agora parecem dispostos a provocar a ira da Casa Branca confiantes de que ela nunca se abaterá sobre eles.
Isso explica porque o presidente sírio Bashar al-Assad após desencadear o uso de armas químicas contra seu povo os continua bombardeando com bombas “barril”.
Ou porque Vladimir Putin anexou a Crimeia e ainda ofereceu abrigo para Edward Snowden, que expôs segredos da NSA.

nullLíderes mundiais, como o presidente sírio Bashar al-Assad, parecem dispostos a provocar a ira da Casa Branca confiantes de que ela nunca se abaterá sobre eles

E também porque Benjamin Netanyahu aceitou um convite da liderança republicana para falar no Congresso americano contra o acordo nuclear com o Irã.
O desrespeito de Assad às advertências americanas é notório.
Matando civis com armas químicas ele cruzou de forma flagrante a “linha vermelha” imposta por Obama – mas escapou de punição.
Até apoiadores de Obama dizem acreditar que ele cometeu um erro estratégico fatal ao demonstrar flexibilidade sem limites e falta de resolução.
Não é preciso dizer que déspotas ao redor do mundo tomaram nota.

Mão fraca

A relutância americana a lançar novas ações militares também tiveram influência nas negociações nucleares com o Irã.
Teerã conseguiu extrair notáveis concessões, como a atual habilidade de enriquecer urânio, até agora descartada pelos americanos.
Mas não são apenas os inimigos dos Americanos que não temem mais a Casa Branca. Em meses recentes, dois aliados próximos, a Grã Bretanha e a Austrália, desafiaram a administração Obama ao juntar-se ao Banco de Infraestrutura e Investimento da Ásia.
Ao se juntar à instituição, estão efetivamente endossando o esforço de Pequim para estabelecer rivais para as instituições de Bretton Woods, o Banco Mundial e o FMI (Fundo Monetário Internacional), que são dominados pela América.

Linguagem ambígua

Ao procurar melhorar relações diplomáticas e comerciais com a China, a Grã-Bretanha e a Austrália estão se garantindo.
Eles suspeitam que os Estados Unidos podem não ser a potência militar dominante indefinidamente, nem a potência econômica mais importante do mundo.
Outros aliados americanos também se queixariam de que o “fator de dependência” desapareceu.
Israel se sente desiludido com a administração Obama em relação à negociação com o Irã e as relações entre Benjamin Netanyahu e Barack Obama são venenosas.

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Bush é acusado de ter sido um presidente com uma visão de mundo maniqueísta e ansioso demais para promover o poderio militar americano

O presidente, usando linguagem deliberadamente ambígua, até assinalou que sua administração pode acabar com sua tradicional proteção a Israel nas Nações Unidas.
Como Israel, a Arábia Saudita se enfureceu com a perspectiva de negociação nuclear com os Iranianos.
Riad também sabe que a América não é mais dependente de seu petróleo, o pilar das relações entre essas nações desde a Segunda Guerra.

Ex-inimigos

Além de tudo, Obama não investiu a mesma energia fomentando alianças como seus predecessores.
Aqui, eu suponho, Obama reconhece intelectualmente que ele poderia fazer muito mais em termos de massagear os egos dos líderes mundiais, mas não consegue fazê-lo.
De fato, uma queixa comum é que a administração Obama priorizou normalizar relações com ex-inimigos, como Irã e Cuba ao preço de longevas amizades.
Percebendo que a América não está dando apoio, não está mais engajada no Oriente Médio, os sauditas recentemente tomaram ações militares próprias no Iêmen.
Também houve um aquecimento das relações entre Riad e Moscou.
O Egito lançou ataques aéreos em fevereiro contra o Estado Islâmico na Líbia.
A presença americana no Oriente Médio minguou inquestionavelmente.

África e Ásia

Mais surpreendente foi o deslize na África, terra dos ancestrais de Obama, e na Ásia, foco de sua alardeada articulação.
Na Ásia, a média de aprovação dos americanos em 2014 foi de 39%. Segundo a Gallup uma queda de 6% em 2011.
Na África, a aprovação média americana caiu para 59%, a mais baixa desde o inicio das pesquisas, apesar de Obama ter sediado a Cúpula de Líderes EUA-África em agosto do ano passado em Washington.

Presidente ou Congresso

O republicano John Boehner convidou Netanyahu a falar ao Congresso, sabendo que isso influenciaria a Casa Branca.
Democratas com reservas sobre o livre comércio tentaram sabotar a Parceria Trans-Pacífica, o maior tratado de negócios desde o Nafta.
Também houve grande oposição do Congresso para uma das maiores iniciativas do segundo mandado de Obama, a reaproximação com Cuba.
Os países devem então ouvir o presidente ou o Congresso?
A América não pode nem reivindicar mais seu grande e inconteste crescimento desde 1872, sendo a maior economia do mundo. O FMI estima agora que a economia da China seja maior.
Porém seria um erro exagerar a redução da influência americana.
O investimento militar americano continua muito superior ao de seus rivais e até o ano passado era maior que a soma das quantias aplicadas pelos países nas dez posições seguintes. Em 2014, a América gastou US$ 731 bilhões. A China US$ 143 bilhões.
Apesar da América estar rivalizando com o crescimento do resto dos países – China, Índia, Alemanha e Rússia – ela ainda não foi superada pelos rivais emergentes.
De fato, há analistas de política internacional aqui que estimam que os Estados Unidos vão preservar sua preeminência por pelo menos mais 20 anos
Contudo o momento unipolar desencadeado pela queda do muro de Berlim provou ser apenas isso: momentâneo.
Além disso, sonhos de uma nova ordem mundial após o colapso da União Soviética deram passagem a um pessimismo sobre a difusão da desordem global.
Se foram as certezas do pensamento americano da Guerra Fria, quando as ações dos Estados Unidos eram governadas pela contenção do comunismo.
Foram-se as doutrinas que deram à política externa americana seu formato rígido ao longo da Guerra Fria e dos desdobramentos de 11 de Setembro.
E também se foi a noção de qualquer luta é uma luta Americana – e com isso uma redefinição do que constitui o interesse nacional Americano.
Barack Obama ao contrário sustentou o pragmatismo e a destreza diplomática, tentando conduzir a nação sem que ela fique sobrecarregada ou pouco comprometida.
O desafio primordial para a diplomacia americana nos próximos 20 anos é atingir esse equilíbrio.

9 de Julho: Epopeia Paulista

Sobre a Revolução Constitucionalista de 1932, irradiada de São Paulo, muita coisa poder-se-ia dizer. Apesar de passados tantos anos, esse movimento ainda provoca polêmicas. As causas e as razões mudam, de acordo com o ponto de vista de quem tenta escrever a História. Entretanto, uma coisa é inquestionável: a guerra foi deflagrada contra aqueles que, depois da Revolução de 30, queriam servir-se dela para perpetuarem no poder. 

Os paulistas ficaram decepcionados com os rumos da Revolução de 30, que fez com que a desordem administrativa e o fortalecimento central imperassem, prejudicando a autonomia do Estado. Havia, ainda, o agravamento da crise econômica, que veio se somar às agitações proletárias e a humilhante ocupação militar. 

Ao contrário do que se apregoou na época (e que muitos ainda, infelizmente, repetem) não foi um movimento separatista. Naqueles dias, sob a ditadura de Getúlio Vargas, o tema foi intensamente explorado pelo Governo Federal para obter os reforços e coesão dos demais Estados contra São Paulo. 

O estopim da mobilização popular foi a missão de Oswaldo Aranha, que em Maio de 32 foi incumbido de promover a reforma do secretariado de Pedro de Toledo, então interventor de São Paulo. Essa medida foi tida como intromissão na vida política paulista. O povo é convocado para manifestar-se na Praça do Patriarca no dia 22 de Maio. Após alguns discursos, a massa humana se inflama e rompe-se a passeata. O exército promete não atirar contra o povo A marcha segue para o bairro da Luz e a cavalaria, na tentativa de dispersar a multidão, deixa alguns feridos. O conglomerado segue, então, para o Palácio dos Campos Elísios, sede do governo estadual, e pressiona o interventor Pedro de Toledo. Este pede vinte e quatro horas para resolver a questão a contento.

No dia seguinte, 23 de Maio, demonstrando sua insatisfação com a demora em solucionar o problema, o comércio cerra as portas. Novamente, o povo vai postar-se defronte ao Palácio e, inteirando-se das liberações lá tomadas, ruma para o centro. No caminho jornais simpatizantes à ditadura são empastelados. A sede do Partido Popular Paulista, que apoiava o Governo Federal, que ficava na praça da República, é atacada. Há revide com disparos de tiros contra a multidão. Vários manifestantes são atingidos e morrem Mário Martins Almeida, Euclides Bueno Miragaia, Dráusio Marcondes Souza e Antônio Américo Camargo Andrade. Com as iniciais desses quatro heróis compõem-se o MMDC, entidade que passou a congregar todas as organizações civis e secretas para combater a ditadura. O movimento, estrategicamente, armado estruturou-se através de uma central secreta.

Muitos alegam que nessa homenagem aos heróis, foi esquecido o nome de um mineiro de Muzambinho, Orlando Oliveira Alvarenga, e, que a sigla deveria ter sido MMDCA. Alvarenga foi gravemente atingido por metralhadora no mesmo embate; socorrido pelo acadêmico Silveira Peixoto, foi conduzido a um consultório médico e, de imediato, transferido para o Hospital Santa Rita, vindo a falecer após meses de a atroz sofrimento. Quando da formação da sociedade, somente Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo haviam falecidos.

O MMDC conclamou o povo conseguindo sensibilizar o opinião pública. A bandeira MMDC mexeu com o brio dos paulistas dando-lhes coragem para mobilização geral para pegar em armas e lutar por um direito, lutar pela Constituição do Brasil.

Às 11:40h do dia 9 de Julho de 1932, um sábado, estourava a revolução armada sob a direção militar do coronel Euclides Figueiredo. A coordenação civil, inclusive os trabalhos de retaguarda, esteve sob a orientação da Maçonaria que, entre os seus membros, contava com personalidades proeminentes da política, indústria, comércio e imprensa.

As emissoras de rádio exerceram papel político preponderante, jamais visto no Brasil. E houve um locutor que se destacou como porta-voz do movimento: César Ladeira. Como o Estado de São Paulo não possuía um hino, César Ladeira começou a tocar o dobrado “Paris-Belfort”, que havia sido criado na França, quando da Primeira Grande Guerra Mundial, com objetivo ufanista. O dobrado “Paris-Belfort” acabou tornando-se hino de guerra de São Paulo e um dos símbolos da Revolução Constitucionalista.

Menos de três meses duraria a revolta, mas o bastante para mostrar uma sucessão de lances heroicos, de abnegação e táticas desesperadoras diante da maioria numérica do inimigo. Soldados, precariamente armados, enfrentando com inaudita coragem os aviões do ditador, revelaram o indômito espírito paulista e a glória de combater pelo Brasil ! Apesar do prometido apoio de outros Estados, São Paulo ficou sozinho e não conseguiu avançar além da divisa com o Rio de Janeiro.

Há que se destacar a participação da Mulher Paulista nesse importante acontecimento histórico. As virtudes cívicas e morais da Mulher Paulista, reveladas nos três meses da Revolução Constitucionalista foram de grandeza e esplendor, tendo sido o verdadeiro esteio desse movimento admirável e arrebatador. Ela também ajudou a escrever páginas brilhantes e inesquecíveis da campanha Constitucionalista, dando provas diárias, como os homens, de devotamento e dedicação.

Em 1° de Outubro, sábado, celebrou-se a Convenção Militar, e a Força Pública do Estado de São Paulo, obediente, deixou as trincheiras, obrigando a cessação da luta armada.

A amargura da derrota, nas armas, foi transformada em júbilo de vitória quanto aos objetivos: Os vencidos obrigaram os vencedores à convocação da Assembleia Constituinte. Houve fugas, prisões e exílio, mas o movimento tornar-se-ia, moralmente, vencedor. Os paulistas não tinha lutado em vão. 

A Revolução Constitucionalista de 1932, ainda que derrotada no campo de batalha e a despeito das controvérsias que, ideologicamente, possa provocar, foi, sem dúvida, o maior, o mais importante e o mais espontâneo movimento cívico ocorrido no Brasil ! 


Autor: E. Figueiredo 
Jornalista 
Pertence ao CERAT – Clube Epistolar Real Arco do Templo 
Integra o GEIA – Grupo de Estudos Iniciáticos Athenas 
Membro do GEMVI – Grupo de Estudos Maçônicos Verdadeiros Irmãos
Obreiro da ARLS Verdadeiros Irmãos– 669 (GLESP) 


Como Starbucks consegue cobrar uma fortuna por grãos baratos

Café do Starbucks
Nesta manhã, milhões de pessoas grogues pagaram entre cinco e vinte centavos de dólar a mais por sua dose de Starbucks. Sem crise. A maioria provavelmente passou o cartão ou pagou com bitcoins e nem percebeu.
Mas, para a Starbucks, esses centavos fazem sentido – especialmente porque a empresa está pagando menos pelos grãos e cobrando mais caro pelos lattes.
O custo do café nos mercados de commodities – os grãos verdes sem torrar, ou “bagas”, que são cortados do galho – tem caído, acima de tudo por causa de muita chuva e temperaturas altas no Brasil.

Portanto, grãos mais baratos para eles, preços mais altos para você – uma mistura simples e forte, com um toque de mercados financeiros e uma pitada de marketing.
O império do café arábica disse que não tinha mexido nos preços de várias de suas bebidas durante cerca de dois anos.
A empresa tem que “equilibrar a necessidade de administrar o negócio de forma rentável sem deixar de fornecer valor para os clientes fiéis e de atrair novos clientes”, disse a porta-voz Lisa Passe em um comunicado. Tradução: Às vezes percebemos que vocês pagarão mais.
Cobertura
Observando a grande queda dos preços dos grãos de café no segundo trimestre, a Starbucks comprou todos os grãos de que precisará para o restante do ano e cerca de dois terços dos que necessitará para o ano que vem.
“Esperávamos que os preços do café caíssem, considerando o que observamos no mercado”, disse o diretor financeiro Scott Maw durante uma teleconferência no fim de abril. “Nós esperamos, fomos pacientes, e quando eles entraram na nossa faixa-alvo, suprimos nossas necessidades para o ano”.
As coberturas também podem ter o efeito inverso: a queda recente nos preços do café implicou que a Starbucks tenha sido obrigada a comprar alguns dos grãos que torrou no segundo trimestre a taxas superiores às do mercado porque tinha fechado o preço meses antes, quando era mais caro.
Contudo, se o mercado agir como a Starbucks espera, os preços do café subirão no ano que vem e a empresa continuará pagando as taxas baixas deste ano. Enquanto isso, a companhia vai continuar acrescentando esses cinco a vinte centavos de dólar a mais por copo no saco dos lucros (e no saco das bonificações para essa equipe perspicaz de coberturas).
Em poucas palavras, a Starbucks está aumentando os preços por um motivo muito simples: porque pode.

Reportagem de Kyle Stock, da Bloomberg

Por que o tempo só anda para a frente?

Imagine tentar fazer malabarismos com ovos. Se um deles acabar quebrando na sua cabeça, um banho e uma roupa limpa parecem ser as únicas soluções. Afinal, colocar a clara e a gema de volta na casca e juntar os pedaços é impossível, certo?
Bem, na realidade, não. Não há nenhuma lei fundamental da natureza que impeça que um ovo seja “desquebrado”. Físicos, aliás, garantem que qualquer acontecimento do nosso cotidiano poderia ser revertido, a qualquer momento.
Mas por que, então, não podemos “desquebrar” um ovo, ou “desqueimar” um fósforo ou até “destorcer” o tornozelo? Por que as coisas não se revertem? Por que o futuro é totalmente diferente do passado?
Parecem ser perguntas simples. Mas para respondê-las, temos que ir até a origem do Universo e fora das fronteiras da Física.
Assim como várias outras histórias da Ciência, esta aqui também começa com Isaac Newton. Em 1666, um surto de peste bubônica o obrigou a deixar a Universidade de Cambridge e voltar para a casa da mãe no interior da Grã-Bretanha. Entediado e isolado, Newton mergulhou nos estudos.
Foi aí que ele criou suas famosas três leis da dinâmica, entre elas a conhecida máxima de que para cada ação há uma reação oposta da mesma intensidade.
As leis de Newton conseguem descrever o mundo de maneira espantosa. Elas explicam por que as maçãs caem das árvores e por que a Terra gira em torno do Sol. Mas elas têm uma estranha característica: funcionam tão bem de trás para a frente quanto de frente para trás – se um ovo se quebra, as leis de Newton dizem que ele pode ser “desquebrado”.
Obviamente, isso está errado, mas quase todas as teorias formuladas por físicos desde Newton têm o mesmo problema. “As leis fundamentais da Física não distinguem entre o passado e o futuro”, define Sean Carroll, físico do Instituto de Tecnologia da Califórnia, nos Estados Unidos.

A Importância da Entropia

nullLeis da física não conseguem explicar porque é impossível “desquebrar” um ovo

A primeira pessoa a encarar esse problema seriamente foi o físico austríaco Ludwig Boltzmann, que viveu na segunda metade do século 19. Naquela época, muitas das ideias que hoje sabemos serem verdadeiras ainda estavam sendo discutidas, inclusive a de que tudo é feito de minúsculas partículas chamadas átomos.
Boltzmann estava convencido de que os átomos existiam. Mesmo tendo sido desprezado pela comunidade científica da época, ele defendia uma relação entre o aquecimento de materiais e a passagem do tempo.
Na época, os físicos desenvolveram a teoria da termodinâmica, que descreve o comportamento do calor. Contrariamente a seus colegas, Boltzmann acreditava que o aquecimento era provocado por uma movimentação aleatória de átomos, e que a termodinâmica poderia ser explicada assim.
O austríaco partiu de um estranho conceito: a entropia. Pela termodinâmica, todos os objetos do mundo têm uma certa quantidade de entropia associada a ele, e quando algo acontece, essa quantidade aumenta.
Por exemplo, ao colocarmos cubos de gelo em um copo d’água, a entropia dentro do copo aumenta.
O aumento da entropia é diferente de tudo o mais na Física: é um processo que ocorre em apenas uma direção.
Para explicar isso, Boltzmann descobriu que a entropia mede o número de maneiras pelas quais os átomos podem se rearranjar, assim como a energia que eles carregam. Ou seja, a entropia aumenta quando os átomos ficam mais desordenados.
Por isso, o gelo derrete na água. Há muito mais formas para as moléculas se rearranjarem no estado líquido do que no estado sólido.
Segundo Boltzmann, a entropia está relacionada com possibilidades. Objetos com baixa entropia são arrumados e, portanto, com menos probabilidade de existir ou permanecer como estão. Objetos com alta entropia são desordenados, o que os torna mais passíveis de existir.

A Seta do Tempo 

nullO conceito de entropia ajuda entender porque o gelo derrete em contato com a água fria

Essa teoria pode ser um pouco deprimente, principalmente se você é do tipo organizado. Mas as ideias de Boltzmann parecem ter um lado positivo: elas conseguem explicar a direção do tempo.
Basicamente, se o universo como um todo se desloca de uma baixa entropia para uma alta entropia, nunca poderemos ver os acontecimentos se reverterem.
Nunca veremos um ovo se “desquebrar” porque existem várias maneiras para rearranjar os pedaços dele, e todas elas levam a um ovo rachado em vez de um ovo intacto.
A definição de entropia de Boltzmann explica até por que podemos nos lembrar do passado mas não podemos adivinhar o futuro. Para ele, o futuro é diferente do passado simplesmente porque a entropia aumenta.
Como forma de endossar sua teoria, o físico também desenvolveu a hipótese do passado, segundo a qual, em algum ponto em um passado distante, o universo estava em um estado de baixa entropia.
Mas se um estado de baixa entropia é pouco provável, como o universo permaneceu assim por um certo tempo?
Bem, isso Boltzmann nunca conseguiu explicar.

A Ação da Gravidade

Mas cientistas que o sucederam fizeram descobertas que sugerem uma resposta. Para começar, no século 20 aprendemos que o universo teve um início, quando era uma partícula incrivelmente quente e densa que rapidamente se expandiu e se resfriou, formando tudo o que existe hoje. Esta rápida expansão é o que conhecemos como o Big Bang.
É verdade que uma enorme explosão cósmica não parece algo com uma baixa entropia. Mas, aparentemente, esse conceito é ligeiramente diferente quando há um excesso de matéria.
Imagine uma vasta região vazia do espaço, no meio da qual está uma nuvem de gás com a massa do Sol. A gravidade mantém o gás unido, de maneira a compactá-lo e acabar formando uma estrela. Como isso é possível, se a entropia só aumenta?
A resposta é simples: a gravidade afeta a entropia. No caso de objetos verdadeiramente gigantescos, ser grumoso tem mais entropia do que ser denso e uniforme. Ou seja, um universo com galáxias, estrelas e planetas tem uma entropia mais alta do que um universo cheio de gases quentes e densos.
Para entender melhor o Big Bang, Sean Carroll e seus ex-alunos propuseram um modelo pelo qual “universos bebês” estão constantemente surgindo do nada, separando-se de seu “universo-mãe” e se expandindo para se tornarem universos como os nossos. E é a entropia desse “universo de universos” que sempre será grande, apesar de cada parte ter uma baixa entropia.
Se isso for verdade, o universo só parece ter uma baixa entropia porque não podemos ver tudo o que está à sua volta. Isso também valeria para a direção do tempo.
A Física moderna se baseia em duas grandes teorias. A mecânica quântica explica o comportamento de pequenos objetos, como os átomos, enquanto a relatividade descreve coisas grandes, como as estrelas.

A “Teoria de Tudo”

Para descrever o universo em sua origem, é preciso combinar as duas teorias para formar uma “teoria de tudo”.
Essa máxima será a chave para entendermos a seta do tempo. “Descobrir essa teoria vai nos ajudar a compreender como a natureza construiu o espaço e o tempo”, diz Marina Cortês, física na Universidade de Edinburgo, na Escócia.
Por enquanto, a mais promissora teoria de tudo é aquela que diz que todas as partículas subatômicas são compostas de minúsculos cordões. Essa teoria também defende que o espaço tem mais do que três dimensões e que nós vivemos em uma espécie de ‘multiverso’, onde as leis da física são diferentes em cada universo.
Agora, Cortês está trabalhando em teorias alternativas a essa que possam incorporar a seta do tempo em um nível fundamental.
Ela sugere que o universo é feito de uma série de eventos únicos, que nunca se repetem. Cada conjunto de eventos só pode influenciar os eventos do conjunto seguinte. Assim, se forma uma direção para o tempo.
“O tempo não é uma ilusão. Ele existe e está realmente avançando”, explica a cientista.
Seja qual for a maneira de explicar a direção do tempo, ela sempre estará ligada àquele estado de baixa entropia do princípio do universo.
E para entender isso, nossa maior esperança é a maior máquina já desenvolvida pelo homem: o Grande Colisor de Hádrons (LHC), o acelerador de partículas que funciona em uma circunferência de 27 quilômetros na fronteira entre a França e a Suíça.
Esse equipamento é capaz de esmagar prótons a uma velocidade muito próxima à da luz. A energia fenomenal dessas colisões cria novas partículas.
O LHC ficou fechado para manutenção nos últimos dois anos, mas recentemente voltou a funcionar em sua capacidade máxima. Com sorte, a máquina poderá observar novas e inesperadas partículas fundamentais que poderão apontar para uma teoria de tudo.
Reportagem de Adam Becker

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