Maçons esperando Godot

Na obra do dramaturgo irlandês Samuel Beckett de 1949, Esperando Godot, dois personagens maltrapilhos (Vladimir e Estragon) aguardam a iminente chegada de um terceiro, constantemente adiada e que nunca se concretiza ou se descobre quem é realmente. Enquanto esperam e para superar a monotonia, preenchem o tempo com uma ritualística de conversas despretensiosas e sem sentido para muitos. Nos diálogos, numa espécie de autoexílio inconsciente e de alienação, os personagens esquecem tudo, desde as suas próprias identidades até o que aconteceu no dia anterior. A modalidade se enquadra no Teatro do Absurdo, que expõe conflitos, a incoerência e a ignorância dos seus personagens em contexto bastante expressivo e presente nas atuais “bolhas sociais” que nos iludem e aprisionam.

De plano e para não deixar margem a especulações maledicentes, a introdução acima tem apenas o condão de provocar a imaginação conspirativa e despertar o espírito crítico em face de uma permanente expectativa de que a Ordem Maçônica tome alguma providência em função dos sempre alegados últimos e gravosos acontecimentos, desde que não resvale para discussão política e nos coloque em posição desconfortável.

Refrescando a memória, tema recorrente entre os maçons é a interdição para discussão de temas ligados à religião e política que deve ser observada quando reunidos os irmãos, considerando-se que “a inobservância destes preceitos tem sido e será sempre funesta à prosperidade das Lojas”, conforme profetizado na Constituição de Anderson, manuscrito que veio a ser “A Constituição do Franco-Maçons” aprovada pela Grande Loja da Londres e Westminster em 1723, que comemora 300 anos e merece as mais efusivas homenagens pelo seu valor eminentemente histórico. Referido documento não é mais utilizado pela GLUI, desde longa data.

Á época, outro personagem importante foi Desaguliers, abade e professor, que ajudara o amigo Anderson na redação daquele documento. Era membro da Royal Society, iniciado na Loja da Taverna “O Ganso e a Grelha” ou Loja São Paulo em 1709, e articulara no dia de São João Batista, em 1717, a reunião naquele local das quatro Lojas metropolitanas que implantou o sistema obediencial, reconhecido como marco histórico da divisão entre a antiga e a moderna maçonaria, oportunidade em que elegeram um Grão-mestre entre eles “até terem a honra de um irmão nobre assumir a liderança[1]”.

Esse tão sonhado patrocínio da nobreza no comando materializou-se a partir de 1721, na figura do duque de Montague, que sucedera a George Payne[2]. Como ato inicial, o duque ordenou que Desaguliers e Anderson “revisassem, organizassem e compilassem as constituições góticas, os antigos encargos e os regulamentos gerais”, cujo trabalho foi apresentado em 27 de dezembro de 1721. Após a revisão por uma comissão de catorze irmãos eruditos, foi aprovada no dia 25 de março de 1722, em reunião da Grande Loja reunida na Taverna Chafariz. O livro impresso apareceu para uso das Lojas em janeiro de 1723 (PRESTON, 2017).

Com o afluxo de homens de todos os credos conhecidos e de todas as condições sociais compartilhando o mesmo recinto das Lojas, numa época em que a disputa sectária estava sempre rondando as atividades sociais, políticas e econômicas, a proibição de discussões políticas ou religião visava à preservação da paz, da harmonia e da boa ordem. O temor era de que golpes fossem arquitetados contra governos, ameaçando o poder hereditário da monarquia. Isso, de fato, ocorreu alhures.

Como refletimos no artigo “Maçonaria e Política – Uma visão crítica na pandemia”[NB], divulgado em 04.11.2020, no Blog “O Ponto Dentro do Círculo”, “a Maçonaria, como instituição, não pode continuar na velha toada de que não deve envolver-se diretamente em temas políticos e nas grandes decisões de interesse do Brasil, candidamente delegando aos maçons que o façam individualmente, pois um regramento de 1723, editado em outro momento histórico, impede ações mais decisivas em pleno século XXI. Somente caprichar na retórica e bradar que alguém tem que tomar uma providência é muito confortável”.

O pragmatismo atual, ao que parece, tem levado à divulgação de moções ou manifestos em cada episódio crítico, preferencialmente prestando solidariedade aos detentores do poder da hora, ou mesmo passando o pano, sem consensos ou respaldo no sentimento dominante na Ordem, atendendo ou mesmo superando expectativas de deixar todos bem na fita. Uma bateria de alegria! O gesto de Pilatos continua sendo mimetizado, referendando a condenação do Mestre dos Mestres. Este, a bem da verdade, caso fosse proposto para admissão em uma de nossas respeitáveis Lojas, não passaria sequer da rigorosa fase de sindicância em face da sua condição social e dos seguidores que curtiam e compartilhavam de sua companhia.

Esse comodismo dos obreiros e o obsequioso silêncio político da Maçonaria do Brasil precisam ser quebrados e as resistências vencidas. Repetindo a questão de sempre: sabemos ou não dialogar? Acreditamos na missão de combater a tirania, a ignorância….glorificar o Direito, a Justiça e a Verdade…? Nos grupos de WhatsApp, quando o assunto aparece é logo abortado e os recalcitrantes duramente criticados, lacrados ou excluídos a bem da harmonia entre os irmãos. Em Loja, nem pensar! Ressalte-se que exclusão por postagem de notícia falsa ou opinião ofensiva é plenamente justificável por caracterizar-se crime na legislação vigente.

Entretanto, pelo que se comenta a boca pequena e sem provas, apenas refestelar-se nos ágapes, cultuar vestimentas, distintivos e títulos pomposos que compõem a síndrome de um alegado poder já se mostra suficiente e massageia egos inflados. Maçom raiz não se limita à vida contemplativa, a virtudes estéreis ou se orienta por valores anacrônicos, mas trabalha e produz. O Avental é o símbolo do seu dignificante vestuário de trabalho.

No artigo acima mencionado, alguns argumentos básicos foram sopesados. Enquanto isso, o mundo lá fora pegando fogo e a gente, por ora, apenas esperando que o Grande Arquiteto do Universo nos oriente e ilumine e que grupos continuem concentrados no seu campo, alguns bem-intencionados, outros sem escapatória e à mercê das forças dominantes, clamando por uma Justiça equânime, que enxergue por igual à direita e à esquerda.  

Conselho de um amigo macaco velho e pai-d’égua: “seja um mané gente boa e folgazão, e mesmo achando-se livre e de bons costumes, não ouse tocar na temática de política e religião, senão o bicho pega e o seu sossego acaba. Melhor ser feliz do que ter razão!”.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da Loja Maçônica Águia das Alterosas Nº 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte; Membro Academia Mineira Maçônica de Letras e da Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras; Membro da Loja Maçônica de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda; Membro Correspondente Fundador da ARLS Virtual Luz e Conhecimento Nº 103 – GLEPA, Oriente de Belém; Membro Correspondente da ARLS Virtual Lux in Tenebris Nº 47 – GLOMARON, Oriente de Porto Velho; colaborador do Blog “O Ponto Dentro do Círculo”.


Notas

[1] PRESTON, William. Esclarecimentos sobre a Maçonaria. Rio de Janeiro: Arcanun, 2017 p. 184.

[2] A maioria dos Grão-Mestres da GLUI não eram maçons e foram escolhidos pelo título nobiliárquico que detinham. Na criação do Grande Oriente da França em 1773, o Duque de Chartres, Louis Philippe Joseph d’Orleans, não maçom, foi proclamado Grão-Mestre e recebeu o Grau de Mestre. No Brasil Império é sempre louvada a carreira meteórica do irmão Guatimozim. Prerrogativas dessa natureza foram referendadas nos 25 Landmarks de Mackey, na década de 1850, ainda adotados por algumas Potências em conjunto com a Constituição de Anderson.

Nota do Blog

Clique AQUI para ler o artigo Maçonaria e Política – Uma visão crítica na pandemia.

Referências

PRESTON, William. Esclarecimentos sobre a Maçonaria. Rio de Janeiro: Arcanun, 2017;

https://resenhaliterariaecia.wordpress.com/2019/10/15/o-absurdo-do-teatro-de-samuel-beckett-em-esperando-godot-e-fim-de-partida/, acessado em 14.01.2023;

https://bibliot3ca.com/historia-da-maconaria-francesa-no-final-do-seculo-xviii/, acessado em 14.01.2023.

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Farinha do mesmo saco

Em tempos idos, depois da colheita e da debulha, tomavam os agricultores o seu grão que levavam ao moleiro para que o transformasse em farinha. Diversas variedades de grão davam origem a diversos tipos de farinha, que não se queriam misturados; afinal, farinha de trigo e farinha de centeio resultam em tipos de pão muito diferentes… Por isso, cada um dos vários tipos de farinha era cuidadosamente ensacado separadamente dos restantes. Ficava, assim, a farinha mais fina separada da mais grosseira, e a mais branca separada da mais escura.

O povo, pródigo em aforismos, terá visto nas várias qualidade de farinha uma metáfora para as qualidades humanas. Do latim nos chega, assim, a expressão ejusdem farinae (“da mesma farinha”), dizendo-se de vários indivíduos serem, como diríamos hoje, “farinha do mesmo saco”, quando apresentassem qualidades ou defeitos comuns. No fundo, a expressão dá a entender que os bons se juntam aos bons, enquanto os maus andam na companhia dos maus.

Não é segredo nenhum que os maçons procuram acolher no seu seio pessoas com determinadas qualidades. Sendo a maçonaria um instrumento cuja finalidade é o aperfeiçoamento do homem e do Homem não é de estranhar que seja essencial que o indivíduo que pretende ser maçom tenha esse desejo de se tornar numa pessoa melhor. Pretendendo-se, por outro lado, cultivar um ambiente de fraternidade obriga, igualmente, ao desenvolvimento de um proporcional sentido de tolerância. Por fim, e acima de tudo, nada disto pode ser conseguido por quem não seja uma pessoa de bem; a vileza de propósitos é absolutamente incompatível com os princípios da maçonaria.

Serão, então, os maçons uma massa homogénea – de espíritos elevados, dirão uns, ou de energúmenos, dirão outros? De modo algum. Antes do mais, porque não é isso o que se pretende; o respeito pela diversidade, mais do que acarinhado, é um dos pilares da maçonaria: a famosa “tolerância maçônica”. Por outro lado, porque os maçons nem sempre são tão eficazes quanto seria desejável no crivo pelo qual fazem passar os candidatos. Acabam, assim, por ser admitidos indivíduos que não deveriam sê-lo.

A maior parte destas admissões “por engano” acaba por se resolver num prazo curto. Não é inaudito alguém ser iniciado, aparecer a algumas sessões, e depois deixar de aparecer. Outros ficam mais tempo; no entanto, ao fim de um par de anos, chegados ao grau de Mestre, desaparecem como os primeiros. Uns e outros acarretam um desperdício de tempo e de esforço, quer dos próprios quer da Loja. No entanto, é sempre feito um esforço suplementar no sentido de se endereçar o que tenha corrido menos bem, e no sentido de se ajudar o irmão em causa a reconquistar o ânimo, a vontade, ou tão somente a disponibilidade.

Por fim, há os que vão ficando, pelo menos em corpo – mas não em espírito, em vontade ou em união com os demais. Bebem da fonte da maçonaria apenas o que lhes interessa, mas esquivam-se da reciprocidade que deles se espera – não reciprocidade material, mas de tempo, esforço e serviço. Mas como a maçonaria preza muito a liberdade de cada um, e a ninguém exige aquilo que não queira – ou não possa – dar, estes são, muitas vezes, metidos no mesmo saco dos “pouco disponíveis” ou, enfim, dos “pouco dotados”.

É inconcebível esperar que, entre milhares de pessoas, não haja um punhado de indivíduos dissimulados, de má índole, ou com uma agenda própria. E porque basta uma pequena contaminação para condenar todo um saco, se a maçonaria fosse um saco de farinha as autoridades sanitárias não nos poupavam: ia tudo pelo ralo.

Por mais que o queiramos – e que o ideal seja esse – a maçonaria real, feita de maçons de carne e osso, não é um impoluto saco de farinha fina e branca, imaculada como a neve. É, antes, uma irregular farinha de mistura de cereais diferentes, com pedaços de farelo e grão mal moído, a que não falta uma ou outra caganita de rato. Bem amassada com água e com o sal que tempera os nossos dias, submetida ao calor de um forno que a liberta dos efeitos nefastos das impurezas, obtém-se um pão saboroso e único – saboroso porque provém de todos, e único porque provém de cada um – para mais enriquecido com uma dose q.b. de elementos patogénicos para treinar o nosso sistema imunitário.

Há indivíduos na maçonaria que fazem coisas que não deveriam? Sem dúvida. E que, porventura, não deveriam ter sido recebidos maçons? Também. E que até já foram expulsos da maçonaria por causa do que fizeram? Incontestável. O que não é verdade é que sejam esses quem define o que é a maçonaria, ou o que esta deve ou não deve ser. Não basta, como fazem alguns, apontar-se um mau maçom – ou uma dúzia deles! – para descredibilizar, de imediato, toda a instituição.

Todo o pressuposto está errado. As pessoas não são farinha, as companhias não nos definem, e o mal não se propaga assim. Ou, como jocosamente disse Millôr Fernandes, “Diz-me com quem andas e dir-te-ei (que língua a nossa!) quem és. Pois é: Judas andava com Cristo. E Cristo andava com Judas.”

Autor: Paulo M.

Fonte: Blog A Partir Pedra

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As luvas e as cunhadas

Não é incomum um irmão perguntar sobre o uso das luvas por parte das cunhadas, visto que se propaga, em muitas lojas, a ideia de que essas luvas devem ser usadas como sinal de socorro em caso de necessidade, com alguns entendidos chegando até mesmo a indicar como deve ser feito um suposto sinal, seguido da troca de uma suposta senha entre a cunhada e o irmão maçom que vai ajudá-la. Consultado, sempre informo que tal procedimento não está previsto em nenhum ritual, não passando de uma invencionice que, infelizmente, tem persistido e passado como verdade para os novos iniciados.

Com o objetivo de trazer mais esclarecimentos sobre esse assunto, reproduzo abaixo texto do nosso irmão Pedro Juk, em que ele responde a um irmão que o questiona se esse tal uso das luvas é uma prática prevista nos rituais maçônicos, um mito, ou um invencionismo.

Vamos então à resposta que ele nos oferece.

Isso é o cúmulo da bobagem. Na realidade nada disso é verdade. É pura invenção de autoria de irresponsáveis que não compreendem nada das mensagens simbólicas na Maçonaria.

A entrega das luvas femininas ao neófito durante a cerimônia de Iniciação é costume da galante Maçonaria francesa – isso não é unânime na Maçonaria.

Nos ritos que utilizam essa prática, a sua entrega tem apenas o desiderato de destacar a liberdade no trato com aspectos da Ordem.

Nenhum ritual sério prevê a entrega de pares de luvas para que eles sejam obrigatoriamente destinados às Cunhadas, mas prevê sim que essas luvas sejam oferecidas àquela que mais tiver estima e afeto do Iniciado.

Evidentemente que essa liberdade de escolha é apenas do novo Aprendiz. É ele, ninguém mais, que destinará o par de luvas femininas. Por exemplo, conforme o seu desejo e quando ele quiser, as luvas podem ser oferecidas à sua filha, esposa, mãe, madrinha, ou qualquer outra pessoa do gênero feminino que para ele seja merecedora.

Nada dessa liberdade pode ser confundida com libertinagem. Não há como se confundir o ato como um incentivo para presentear pessoas advindas de relacionamentos extraconjugais (concubinas) e outros congêneres. Obviamente que não se faz crer que uma Loja seja capaz de iniciar alguém apreciador dos maus costumes – afinal, é para isso que existem as sindicâncias.

Assim, o par de luvas femininas é entregue conforme a consciência e desejo íntimo do Irmão, portando esse ato não deve ser conduzido conforme desejo alheio – da Loja, por exemplo. Isso é erro crasso.

Não existe, portanto, é irregular, o costume de se fazer como muitas Lojas fazem por aí, reunindo as cunhadas na Loja depois da Iniciação para que o novo Irmão entregue as luvas femininas para a sua esposa. Quem decide isso é ele, ratifico não a Loja.

Igualmente, em cima dessas barbaridades inventivas é que alguém imaginou um irregular gesto ou sinal de pedido de socorro com as luvas para as nossas cunhadas.

Não existe besteira maior! Coisa de quem não tem mesmo o que fazer!

Sugiro que, em vez disso, procurassem esses inventores estudarem em fontes limpas os propósitos da verdadeira Maçonaria.

Essa de deixar a luva cair e alguém perguntar “sois uma flor?” é mesmo d’escrachar, digna de uma comédia do tipo “pastelão”. Tal o tamanho dessa barafunda, ela que não merece nem comentário.

O que aqui comentei foi com base naquilo que é real e verdadeiro na Maçonaria, por conseguinte longe dos delírios inventivos.

Se algum ritual previr esse anacronismo, tenha certeza de que ele merece urgente reavaliação. Que me perdoem os defensores desses absurdos.

A propósito, em relação às luvas na Maçonaria, além do seu caráter histórico como vestimenta de proteção nos tempos operativos, na Moderna Maçonaria elas trazem a mensagem pela sua alvura de se manter as mãos constantemente afastadas das águas lodosas do vício.

Agora… Sinais com elas… É mesmo coisa rocambolesca.

Fonte: Blog do Pedro Juk

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Perspectivas junguianas acerca de vivências na ordem maçônica (Parte II)

4 – Psicologia junguiana e a vivência maçônica

A Obediência Maçônica apresenta vários aspectos que permitem uma comparação, não necessariamente equivalente ou superior, mas no sentido de poder se aproximar de alguns conceitos junguianos, apesar de suas diferenças. Em conformidade com Maxence (2010), a psicologia junguiana pode contribuir para os estudos maçônicos que buscam uma ampliação da consciência, e, também, para o aperfeiçoamento da instrução nas sessões (trabalhos) da Maçonaria que é constituída de ritos e símbolos. Importante frisar que a psicologia junguiana não tem propósito de educar ninguém e nem servir de base ou ferramenta para doutrinação.

4.1 – A busca de sentido

Na contemporaneidade, o sentido da vida está relegado a um segundo plano de importância. Como consequência, o vazio existencial e a falta de sentido fazem com que o indivíduo procure um propósito que lhe preencha, trazendo maior motivação para vir a ser.

Começamos, no entanto a sentir as consequências deste atrofiamento da personalidade humana. Por toda a parte se levanta o problema de uma cosmovisão, o problema do sentido da vida e do mundo. Em nossa época, numerosas tem sido as tentativas de anular o curso do tempo e de cultivar uma cosmovisão de estilo antigo, ou seja, a teosofia, ou, para empregarmos um termo mais palatável, a antroposofia. Nós temos necessidade de uma cosmovisão; em todo caso tem-na a geração mais nova. Mas se não queremos retrogradar, qualquer nova cosmovisão deve renunciar à superstição da sua validade objetiva, e admitir que é apenas uma imagem que pintamos para deleite de nossa mente, e não um nome mágico com o qual tornamos presentes as coisas objetivas. A nossa cosmovisão não é para o mundo, mas para nós próprios. Se não formarmos uma imagem global do mundo, também não podemos nos ver a nós próprios, que somos cópias fiéis deste mundo. Somente quando nos contemplamos no espelho da imagem que temos do mundo é que nos vemos de corpo inteiro. Só aparecemos na imagem que criamos […] (JUNG, 2013b, p. 337).

Segundo Adoum (2011), o indivíduo que procura a iniciação na Ordem Maçônica tem a esperança de encontrar uma opção para suprir sua falta de sentido na vida. Os candidatos que serão admitidos na Ordem Maçônica são, geralmente, carentes de respostas sobre a vida, sobre a morte, são sedentos de um caminho de crescimento em liberdade, precisam de uma direção, necessitam de alguém que já percorreu o caminho para lhe passar o conhecimento, são indivíduos que querem respostas para seus questionamentos, que buscam uma conscientização maior. Importante destacar que as ausências do fanatismo, do egoísmo e, também, da vaidade (conforme será descrito adiante no presente artigo ao tratar do cerimonial de mestre maçom) são fundamentais para atingir um crescimento na vivência maçônica.

Para a Maçonaria a conscientização da finitude da existência desperta a importância de se ter um sentido de existir da criatura humana. Nascer, viver, morrer e, quem sabe, renascer, são etapas sucessivas e obrigatórias de passagem de todos os seres, elas visam uma construção. O maçom é, simbolicamente, alguém que vai passar por essas experiências nas participações ativas. Nas instruções dos graus maçônicos ao longo da aprendizagem que ocorre na ritualística simbólica da Maçonaria, é importante destacar que a perfeição nunca será alcançada. É algo que se busca sempre (CAMINO, 2015).

Edinger (2020), considera que as várias influências materiais do mundo ocidental aprisionam o indivíduo e o condicionam a um padrão de comportamento totalmente dependente de um contexto externo. Essa falta de liberdade leva o indivíduo a procurar o significado da vida nos objetos que possuem valor, no aspecto do capital e do reconhecimento externo.

Sanford (1998), nos mostra que a liberdade é o verdadeiro tesouro psicológico a ser conquistado, uma vez que ser livre, é ter a condição de se adquirir conscientização e de vivenciar um desenvolvimento de propósito no caminho que percorremos em nossas vidas. Tal opção não está necessariamente vinculada a uma direção pré-determinada, não existe um padrão ou fórmula mágica pronta.

Adoum (2010a), assevera que o ato de fazer parte da Obediência Maçônica, através do ingresso em uma cerimônia de Iniciação, com toda a ritualística e simbolismo característicos, proporciona a possiblidade de viver um renascimento, tal aspecto será apresentado mais adiante no presente estudo.

4.2 – Os Rituais

Jung (2014) descreve que os ritos serviram e, ainda, estão presentes no processo de desenvolvimento da cultura do ser humano. Eles muitas vezes são experienciados na transformação do indivíduo. Os ritos também se modificam ao longo do tempo, muitas vezes é determinado pelo contexto cultural presente.

Jung (2013c) nos instrui que o ser humano, desde os tempos remotos sente a necessidade de realizar rituais como apoio para tentar compreender o que lhe é desconhecido. Num mundo primitivo, não se deixa de acreditar nos deuses, nos espíritos, no destino e nas características fantasiosas do local e do tempo, que são referenciados com frequência nesses rituais.

De acordo com Jung (2013f), não há nada de novo em falar que as imagens arquetípicas são projetadas. Isso verdadeiramente tem de se manifestar, pois caso não, elas dominariam a consciência. O desafio consiste apenas em achar uma maneira que seja um recipiente próprio, adequado. A iniciação dentro de uma religião através do batismo é uma possibilidade para tal. No curso da diferenciação da consciência, a iniciação tem evoluído em suas manifestações ao longo do passar do tempo e do contexto que fazem parte.

Campbell (2008) afirma que o ritual permite a materialização de uma ocorrência ou projeção de um drama, visível e ativo de um determinado mito. Ao fazer parte de uma encenação através de um rito, o indivíduo se vincula no mito e este adentra ao sujeito, como se fizesse parte dele – desde que, é claro, seja influenciado significativamente pela imagem.

Jung (2012a) assevera que o simbolismo de alguns ritos, quando devidamente compreendido, vai além do aspecto simples e antigo, em direção àquela motivação psíquica presente em nosso interior, ou seja, inata, produto e armazém de toda a vida ancestral. É necessário destacar como é importante os ritos para a o ser humano. Se os ritos não produzissem nenhum efeito, não só teriam desaparecido como nem teriam originado.

Destaca-se para a compreensão do entendimento do significado de símbolo, tendo como referencial Jung (2013e), que se algo é um símbolo ou não vai necessitar, primeiramente, da atitude da consciência de quem observa. De acordo com o que aponta Jacobi (2016), essa compreensão vai depender de saber se um indivíduo tem a possibilidade e a capacidade de enxergar determinado fato, por exemplo: uma árvore não só em sua aparência física, mas também como expressão ou como imagem sensível de algo desconhecido. Portanto, é possível que o mesmo fato ou objeto seja representado para um ser como sendo um símbolo e para outra apenas um signo.

Nas mitologias dos primitivos, por exemplo, se você estuda as línguas primitivas, as palavras têm vinte sentidos, elas não são, de modo algum, fixas em um sentido. As palavras […] nas grandes palavras primitivas há todo um cosmo que é designado por essa palavra. Ainda é desse modo na visão do inconsciente, por assim dizer. O inconsciente tem uma visão sintética das situações, pode-se dizer. A essência do símbolo ainda é assim, segundo Jung. O símbolo não tem um sentido. Não se pode dizer: a cor verde é a esperança. Cada símbolo tem um sentido absolutamente complexo que não
se pode esgotar; de acordo com Jung não podemos jamais esgotar […] (FRANZ, 2018, p.27).

Sobre os rituais maçônicos, verifica-se uma influência diferenciada, no sentido psicológico, em um ambiente devidamente preparado, conhecido entre os integrantes como templo, local que possui características de contexto próprias no que se refere a possibilitar um cenário que apoia a reprodução da ritualística de acordo com as cerimônias da Ordem Maçônica.

4.3 – As imagens nos cerimoniais dos graus

A imaginação é a chave para que se consiga alcançar uma transformação, de modo que seja possível nascer de novo, de um jeito diferente. Ela tem a capacidade de dar acesso a um local intermediário no qual é possível o contato com uma nova revelação simbólica que terá uma presença significativa na realidade (STEIN, 2021).

De acordo com o estudo de Jung (2013b), os conteúdos do inconsciente são o produto da dinâmica funcional psíquica de toda a nossa ancestralidade. Em sua totalidade, eles formam uma representação natural do contexto, ou seja, do mundo, uma condensação de milhões de anos de vivência do ser humano. Essas imagens são míticas, ou seja, simbólicas, porque manifestam a sintonia do indivíduo que experimenta com o objeto experimentado. Certamente, toda mitologia e descobrimento tem origem nesse contexto de experiência e todas as nossas suposições futuras, a respeito da vida no mundo, terão como fonte original esse depósito existencial. Seria um engano crer que as imagens fantasiosas do inconsciente podem ser manipuladas diretamente como uma categoria de revelação conquistada. São apenas o material em estado rústico que necessita ainda de ser transformado para a compreensão na linguagem do presente. Se a tradução for eficiente, o contexto em que vivemos, tal qual o concebemos, será acoplado de novo à experiência primordial da humanidade através do símbolo de uma cosmovisão. O homem antigo e universal oferecerá ajuda ao homem individual recém surgido, será um modo de ser que chegará perto daquela do primitivo que se une ao seu ancestral por meio de um ritual.

4.3.1 Cerimonial de iniciação ao grau de Aprendiz

Adoum (2010a), apresenta os aspectos que caracterizam a cerimônia do grau de Aprendiz que ocorre no momento de entrada do profano, como é conhecido o candidato à Aprendiz Maçom, na Ordem Maçônica. Acontecimento que permite ao indivíduo que aspira fazer parte dos quadros da Maçonaria passar pela experiência simbólica na transposição das provas do ritual de iniciação. Dentre elas está a realização de percursos dentro dos rituais conhecidos como viagens.

Elas são dramatizadas no templo maçônico, local este, que é devidamente preparado para a encenação ritualística, tais como: a presença das pinturas nas paredes do templo maçônico das seguintes representações: o sol, a lua e os 12 signos zodiacais. As figuras ficam dispostas nas paredes laterais, no teto é pintado a abóbada celeste com a representação do cosmos, reproduzindo a galáxia do sistema solar. Há o delta luminoso localizado na parte frontal do interior do templo, simbolizando Deus ou Grande Arquiteto do Universo. Existe no local um livro sagrado, a bíblia ou outro livro (ADOUM, 2010a).

[…]

Segundo Jung (2013g), os instintos atuam com maior liberdade quando não há qualquer consciência que os detenha, ou quando uma consciência já presente está adaptada a eles. Mas este último estado está em enfraquecimento, pois sempre encontramos sistemas psíquicos que se opõem à impulsividade pura.

[…]

A sombra representa um obstáculo de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo. Ninguém é competente para adquirir consciência desta verdade sem grande esforço. Mas nessa conquista de conhecimento sobre a existência da sombra, reconhece-se as características obscuras da personalidade, tais como existem na vida real. Este procedimento é o fundamento essencial para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, em geral, ele se enxerga à frente de uma grande barreira resistente. Enquanto, por um lado, o autoconhecimento é um expediente terapêutico, por outro implica, muitas vezes, um esforço significativo que pode se propagar por um tempo longo (JUNG, 2013a).

[…]

Camino (2015), aponta que, fazendo uma comparação metafórica maçônica com o ofício de polir uma pedra em estado rústico e imperfeito, é possível observar em uma pedra bruta a própria imperfeição. O Aprendiz a submete à esquadra, retirando as pontas ou arestas, mas por melhor que execute seu ofício, que atravessa o tempo, sempre ocorrerá a presença de uma falha ou uma deficiência, fazendo-se necessário empregar com vontade e determinação muito esforço para eliminar as imperfeições, muitas vezes com mais sabedoria e técnica do que de força desproporcional.

Segundo Jung (2013a), com entendimento e força de vontade, a sombra pode ser integrada de alguma maneira na psique do indivíduo, enquanto alguns traços, oferecem uma enorme dificuldade para isso, fugindo assim a qualquer influência. De modo geral, estas dificuldades estão conectadas às projeções que não podem ser identificadas como tais e cujo conhecimento requer um dispêndio de trabalho sobre si mesmo muito grande que vai além das forças habituais do indivíduo e que requer perseverança e tempo significativo de transformação.

4.3.2 Cerimonial do grau de Companheiro

De acordo com o autor Adoum (2010b), atesta que nesse ritual, o Companheiro Maçom deve realizar viagens que possibilitarão a conquista progressiva da liberdade. Destaca-se ainda que é fundamental a reflexão, nesse grau, da seguinte pergunta: quem somos?

[…]

A pedra cúbica não serve ainda para a construção social. O que é essencial é conseguir uma pedra em perfeito esquadro em suas seis faces. O lapidar, constante, é uma necessidade do ser, para isso ele utiliza as seis faculdades espirituais: a vontade, o livre-arbítrio, a harmonia, o equilíbrio, a força e a sabedoria. Essas são simbolizadas pelas […] ferramentas utilizadas pelo Companheiro em suas viagens: […] (ADOUM, 2010b).

[…]

Em resumo: é mais vantajoso, e psicologicamente mais “correto”, considerar certas forças naturais que se manifestam em nós, sob a forma de impulsos, como sendo a “vontade de Deus”. Com isso nos pomos em consonância com o habitus da vida psíquica ancestral, isto é, funcionamos tal qual tem funcionado o ser humano em todos os lugares e em todas as épocas. A existência desse habitus demonstra sua capacidade de sobreviver, pois, se não a tivesse, todos os que o seguiram teriam perecido por não haverem se adaptado. Se estivermos em consonância com ele, existirá para
nós uma possibilidade racional de sobreviver. Se uma concepção tradicional nos garante tal coisa é porque não só não há motivo algum para considerar tal concepção como errônea como também temos toda razão de considerá-la “verdadeira” ou “correta”, precisamente no sentido psicológico. Verdades psicológicas não são conhecimentos metafísicos. São, pelo contrário, modos (modi) habituais de pensar, de sentir e de agir que se revelam úteis
proveitosos à luz da experiência (JUNG, 2013a, p.40).

No cerimonial descrito, simbolicamente, o Companheiro adquire conhecimento sobre o seu mundo interno, um processo de aumento de consciência de si próprio. Na próxima dramatização esse conhecimento será utilizado para um possível alcance da completude na vivência maçônica, conforme será apresentado logo adiante.

Kast (2013), nos traz a informação que uma fração importante da experiência da obtenção de nossa identidade é a conquista de uma parte da autonomia, pois ela não é totalmente incorporada ao longo da existência, mas nos tornamos, a cada tempo, um pouco mais livres. Podemos afirmar que a independência substitui o lugar da subordinação nos tornando mais livres. Percebemos estar, cada vez mais, como nós mesmos em nossa identidade. Sendo assim, deixamos de ser apenas o resultado da situação moldada, por nós mesmos, pelo outro e pelo meio.

4.3.3 Cerimonial do grau de Mestre

Adoum (2011), nos esclarece que os ensinamentos desta dramatização, conhecida como exaltação, tem como centro a Lenda de Hiram. Ela transmite a mensagem que a edificação do templo significa que o progresso se faz pelo uso da dedicação no trabalho com objetividade. Tal esforço busca a conquista da verdade e a prática desinteressada do bem. O templo de Salomão é a representação da estrutura física do corpo humano. Jerusalém, considerada cidade paz, é a configuração do mundo interno (ADOUM, 2011).

[…]

A experiência proporcionada pelo contexto ritualístico cria um ambiente com forte poder de despertar os conteúdos do inconsciente e são materiais a serem ressignificados e revividos, daí a importância da mitologia e dos rituais.

As poderosas forças do inconsciente manifestam-se não apenas no material clínico, mas também no mitológico, no religioso, no artístico e em todas as outras atividades culturais através das quais o homem se expressa. Obviamente, se todos os homens receberam uma herança comum de padrões de comportamento emocional e intelectual (a que Jung chamava arquétipos), é natural que os seus produtos (fantasias simbólicas, pensamentos ou ações) apareçam em praticamente todos os campos da atividade humana (FRANZ, 2016, p.207).

Conforme Adoum (2011), ao atingir o terceiro grau, conhecido como o grau de Mestre, o maçom passa a ter uma conduta que é influenciada por um duplo sentido: individual e coletivo — inseparáveis — como tópicos que pertencem ao seu mundo interior e que encontra abrigo no contexto em que se vive, aquilo que é feito passa a ter uma influência na vida de toda a humanidade. É imprescindível ter conhecimento para poder passar esse saber e tornar-se capaz de contribuir para o contexto em que está inserido, de modo que possa auxiliar na evolução de todos.

Aquilo que mantém as coisas juntas, é adesivo, razão pela qual, na alquimia, cola, goma e resina, são sinônimos da substância transformadora: essa substância semelhante à força vital (vis animans) é comparada por outro comentador, com a cola do mundo (glutinum mundi), o espaço intermediário entre a mente e o corpo e sua união. (EDINGER, 2006, p.239).

Stein (2007) afirma que ao passar pela experiência da separação e aceitar a transformação, a alma liberta-se das amarras de uma identidade antiga, através de um processo de conscientização das limitações da vida. Essa forma de separação é uma amostra experiencial de morte e um passo para uma nova vida mais consciente.

Segundo Zimmer (1998), nascimento, morte e renascimento, em ciclo infinito, materializam o caráter estável do processo da vida. Exemplificam-no os ciclos do ano e do dia, a passagem das gerações e as metamorfoses do ser humano durante a etapa de uma existência. Este é o mais antigo romance da alma, implementado pelo aspecto mítico que é capaz de atingir nossa intuição com significado para os enigmas da existência.

4.4 – Individuação e vivência maçônica

Conforme Maxence (2010), a individuação é, em diversas ocasiões, confundida com a conquista de consciência do Eu. O Eu é então posto como sendo o Si-mesmo, ocasionando equívocos nos conceitos. Logo, a individuação não seria senão egocentrismo ou autoerotismo. O Si-mesmo é mais amplo do que um simples Eu. Assim, o Si-mesmo é um conceito, um arquétipo central que deve ser bem assimilado para melhor entender que é realmente uma individuação em processo. O Si-mesmo é uma figura da totalidade psíquica.

O conceito de individuação desempenha papel não pequeno em nossa psicologia. A individuação, em geral, é o processo de formação e particularização do ser individual e, em especial, é o desenvolvimento do indivíduo psicológico como ser distinto do conjunto, da psicologia coletiva. É, portanto, um processo de diferenciação que objetiva o desenvolvimento da personalidade individual. É uma necessidade natural; e uma coibição dela por meio de regulamentos, preponderante ou até exclusivamente de ordem coletiva, traria prejuízos para a atividade vital do indivíduo […] (JUNG, 2013e, p.467).

Nise da Silveira (1981), nos esclarece que a evolução das capacidades do ser humano pode ser proporcionada por forças de origem inatas, inconscientes. Além disso, é notório destacar que esse ser humano tem uma condição de adquirir consciência desse crescimento. Esclarecendo que indivíduo é possuidor de energia capaz de influenciar na aquisição desse desenvolvimento. Tal possibilidade é obtida, justamente, no embate do inconsciente com o consciente, na disputa ou na união entre ambos, permitindo que os inúmeros integrantes da personalidade se conscientizem e juntem-se em um todo, numa síntese, ou seja, na realização de um indivíduo específico e inteiro.

Individuação não quer dizer perfeição. Aquele que procura individuar-se não tem o menor desejo de se tornar perfeito e sim de evoluir para um indivíduo melhor, no sentido de completar-se, situações que são totalmente diferentes. Em busca desta completude, será necessário conhecer e entender as forças psíquicas opostas que agem dentro de si e no universo, tais como: bem ou mal e claro ou escuro. Outro equívoco, seria confundir individuação com individualismo. Observa-se que o processo de individuação leva em consideração os integrantes do inconsciente coletivo (SILVEIRA, 1981).

Boucher (2015), argumenta que a verdadeira iniciação maçônica é uma participação prática que pode produzir efeitos em si mesma, depois de serem vencidos e vividos os degraus de: Aprendiz, Companheiro e Mestre. O iniciado adquire a capacidade de estar acima dos rótulos e das amarras que o limitam no saber, sendo capaz de ultrapassar o racionalismo estéril para atingir a sabedoria. Da mesma forma que o movimento se faz pela ação, tal como o caminhar, a Maçonaria procura fazer uso do simbolismo na instrução de seus integrantes de forma disciplinada e organizada, amparada em seus regulamentos, estatutos, manuais e rituais. Tais dramatizações podem despertar a imaginação em seus membros através dos rituais que ocorrem nos templos devidamente preparados para as encenações. Tudo de acordo com os graus dos rituais e suas ritualísticas que são vividas na prática dos trabalhos.

A vivência de uma ocorrência na vida, de maneira muito significativa, pode oferecer elementos essenciais (a prima matéria alquímica) para as etapas que se
seguem rumo ao conhecimento e a totalidade na obra de individuação (STEIN, 2020). Essas experiências precisam, em diversas oportunidades, continuar sendo trabalhadas no processo terapêutico.

Stein (2021) pontua que comparando os diversos avanços na tomada de consciência do indivíduo e levando em consideração os diversos contextos que se desenvolveu essa conscientização, a individuação é um conceito que também está presente em outras culturas e em outras possibilidades de ocorrência.

A individuação não passa apenas pela consciência e, por conseguinte, não está associada a uma intencionalidade ou busca de uma divindade sagrada. Ela é a conscientização e a integração dos níveis somático, psicológico e espiritual do ser humano, nos aspectos individual e coletivo (STEIN, 2020).

“O alvo do processo de individuação é obter uma relação consciente com o Si-mesmo” (EDINGER, 2020, p. 294). Esse caminho de conquista é uma viagem ao
encontro do desconhecido em si mesmo.

Para Camino (2015), a experiência proporcionada pelo ensino maçônico tem como metas: dar condições à convivência harmônica que se situe longe da polarização radical, permitir a busca por uma conscientização ampla, alcançar um sentido para a vida a fim de possibilitar a felicidade individual e reverberar tais conquistas em benefício do contexto social.

Gennep (2012) enfatiza que ao considerarmos os grupos, ou os seus integrantes individuais, o fato de existir é constantemente marcado pela ação de decompor-se e compor-se novamente de maneira diferente, em novo estado e forma, morrer e renascer, transformar-se e transformar. É necessário trabalhar arduamente, parar, esperar, repousar, recomeçar a peleja em seguida, de uma maneira diferente, mais eficiente. A certeza de novos desafios a vencer, verão ou inverno, dia ou noite, nascimento, adolescência, idade madura, velhice, morte e limiar da outra vida – para os que alimentam essa esperança.

5 – Considerações finais

A psicologia arquetípica possui fundamentos que estão contidos na literatura de Jung e, também, em importantes estudiosos que seguem os postulados junguianos, como os que fazem parte das referências do presente estudo, dentre
outros. Eles podem nos ajudar a compreender a jornada do indivíduo rumo à realização pessoal e à aquisição de uma totalidade, sem estar ligada ao dogmatismo, estando fora da ortodoxia.

A psicologia profunda, como também é conhecida, possui base conceitual que pode apoiar no desenvolvimento mais amplo da compreensão dos significados simbólicos e ritualísticos da Ordem Maçônica. A busca pelo aprimoramento é uma necessidade na mesma, sendo fundamental evidenciar que o sentido de se chegar à perfeição é algo inalcançável para o ser humano, seja ele maçom, junguiano ou de outras escolas de pensamento.

A imaginação despertada nas participações ativas nos rituais da Maçonaria tem a possibilidade de fazer emergir os conteúdos inconscientes adormecidos e negados. Eles poderão ser compreendidos e vivenciados de uma maneira consciente e com novo significado. Tal aspecto pode dar acesso ao desenvolvimento da tolerância, atributo essencial, que é sempre considerada para os trabalhos de aprimoramento individual e coletivo na Ordem Maçônica. A conquista supracitada é obtida como algo que está em um patamar superior ao das forças contrárias que se polarizam e trazem atraso no alcance da completude ou totalidade.

Entre os principais aspectos, comuns em diversos simbolismos, estão as imagens arquetípicas, tais como: o sol, a lua, os pontos cardeais, o cosmos, a pedra bruta a ser trabalhada, o fogo, o ar, a terra, a água, o delta luminoso, a cripta (caverna) de reflexão, tão presentes nos cenários de dramatização ritualística na Maçonaria. A codificação de significados simbólicos na ritualística maçônica é um ponto de afastamento em relação aos ensinamentos junguianos, pois o símbolo é algo que possui uma significação viva e singular ao indivíduo.

A Ordem Maçônica pode aprender com os ensinamentos da psicologia profunda no que se refere a ampliação da consciência pelo conhecimento dos preceitos junguianos. A psicologia profunda tem sua independência e não é ferramenta de apoio a nenhuma forma codificada de ensinamento, mas isso não impede que o maçom considere seus fundamentos em sua própria conscientização. Esse apoio não é uma doutrina, nem é uma máxima, pois não existe, com certeza, um percurso único e uniforme para todos, não há conhecimento de uma fórmula pronta para encontrar a individuação, uma vez que ela pode ser encontrada em diferentes contextos que comungam perspectivas simbólicas e respeitam a singularidade de cada um.

Autores: Claudiney Rodrigues Calsavara e Paulo Ferreira Bonfatti

Fonte: Cadernos de Psicologia, Juiz de Fora, v. 3, n. 6, p. 542-567, jul./dez. 2021.

Nota do Blog

*Clique AQUI para ler a primeira parte do artigo.

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Referências

ADOUM, Jorge. Grau do aprendiz e seus mistérios. São Paulo: Pensamento, 2010a. ADOUM, Jorge. Grau do companheiro e seus mistérios. São Paulo: Pensamento, 2010b. ADOUM, Jorge. Grau do mestre maçom e seus mistérios. São Paulo: Pensamento, 2011. BOUCHER, Jules. A Simbólica maçônica. 2. ed. São Paulo: Pensamento, 2015. CAMINO, Rizzardo da. Rito escocês antigo e aceito: 1º ao 33º. São Paulo: Madras, 2015. CAMPBELL, J. Mito e transformação. São Paulo: Ágora, 2008. EDINGER, F. Edward. Anatomia da psique: o simbolismo alquímico na psicoterapia. São Paulo: Cultrix, 2006. EDINGER, F. Edward. Ego e arquétipo. São Paulo: Cultrix, 2020. FRANZ, Marie-Louise von. A Busca de sentido. São Paulo: Paulus, 2018. FRANZ, Marie-Louise von. O processo de individuação. In: JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2016. GENNEP, Arnold Van. Os ritos de passagem (Coleção Antropologia). Petrópolis: Vozes, 2012. Edição do Kindle. JACOBI, Jolande. Complexo, arquétipo e símbolo. Petrópolis: Vozes, 2016. JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b. (Obra completa, v. 8/2). JUNG, Carl Gustav. A vida simbólica. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2013c. (Obra completa, v. 18/1). JUNG, Carl Gustav. Aion – Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a. (Obra completa, v. 9/2). JUNG, Carl Gustav. Freud e a psicanálise. 7.ed. Petrópolis; Vozes 2013d. (Obra completa, v. 4). JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. (Obra completa, v. 9/1). JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2012a. (Obra completa, v. 12). JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2012b. (Obra completa, v. 11/1). JUNG, Carl Gustav. Símbolos da transformação: análise do prelúdio de uma esquizofrenia. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2013g. (Obra completa, v. 5). JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2013e. (Obra completa, v. 6). JUNG, Carl Gustav. Um mito moderno sobre coisas vistas no céu. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2013f. (Obra completa, v. 10/4). KAST, Verena. A dinâmica dos símbolos: fundamentos da psicoterapia junguiana (Coleção Reflexões Junguianas). Trad. Milton Camargo Mota. Petrópolis, RJ: Vozes, Edição do Kindle. MAXENCE, Jean-Luc. Jung é a aurora da maçonaria. São Paulo: Madras, 2010. NEUMAN, Erich. Psicologia profunda e nova ética. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2021. SANFORD, John A. Mal, o lado sombrio da realidade. Trad. Sílvio José Pilon e João Silvério Trevisan. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 1988. (Coleção Amor e Psique). SANFORD, John A. O homem que lutou com Deus: luz a partir do antigo testamento sobre a psicologia da individuação. Trad. Gentil Avelino Titton. Petrópolis: Vozes, 2020. (Coleção Reflexões Junguianas) SILVEIRA, Nise da. Jung: vida e obra. 7. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981. (Coleção Vida e Obra) STEIN, Murray. Jung e o caminho da individuação: uma introdução concisa. São Paulo: Cultrix, 2020. STEIN, Murray. No meio da vida: uma perspectiva junguiana. São Paulo: Cultrix,
2007. STEIN, Murray. Sincronizando tempo e eternidade: Ensaios sobre psicologia junguiana. São Paulo: Cultrix, 2021. WARD, J.S.M. Quem foi Hiram Abiff? São Paulo: Madras, 2010. ZIMMER, Heinrich. A conquista psicológica do mal. Compilado por Joseph Campbell. Trad. Marina da Silva Telles Americano. São Paulo: Palas Athenna, 1998.

Perspectivas junguianas acerca de vivências na ordem maçônica (Parte I)

A psicologia junguiana, através do conceito de individuação, pode oferecer uma possibilidade de compreensão do entendimento dos símbolos, mitos e rituais, ajudando no aperfeiçoamento e na busca de sentido para a jornada daquele que inicia na Ordem Maçônica. Ao longo dos séculos, a Maçonaria vem realizando os seus trabalhos com base em aspectos históricos, progressistas, filosóficos, iniciáticos, mitológicos, ritualísticos e simbólicos. A procura de um propósito para a vida, a princípio, é o motivador para aqueles que desejam a iniciação na organização. A vivência dos estudos maçônicos tem como meta oferecer a oportunidade para que o maçom trabalhe nesse objetivo que pode ser reverberado para a sociedade. O processo de evolução dentro da Obediência Maçônica é uma possibilidade de conscientização. Algo parecido com um aprimoramento na direção de uma totalidade, uma vez que há um trabalho constante que visa o progresso do próprio indivíduo, sem deixar de dar o devido valor ao contexto que lhe é característico. Tem como parâmetro o esforço árduo e singular na meta de adquirir maior conhecimento da presença das forças opostas, tais como: sombra e luz, mal e bem e ativo e passivo. A individuação não passa apenas pela consciência e, por conseguinte, não está associada a uma intencionalidade ou busca de uma divindade sagrada. Assim há possibilidade, não garantia, de ocorrer nos trabalhos maçônicos uma ampliação da consciência. Para isso, foi utilizada a revisão narrativa de caráter exploratória, tendo como foco produções bibliográficas de autores junguianos e maçônicos.

1 – Introdução

O presente estudo traz aspectos da vivência maçônica experienciados pelos integrantes da Maçonaria, conhecidos como maçons, que seguem e estudam os ensinamentos que estão contidos nos regulamentos, rituais, cerimoniais, símbolos, alegorias e instruções normativas dessa organização.

É-se levado a considerar que essa experiência pode proporcionar uma modificação no sentido de ampliar a consciência de seus integrantes, não na meta de chegar à perfeição ou com a finalidade de obter uma fórmula mágica que garanta o sucesso. Mas algo que está em uma possível sintonia com o resultado proporcionado por um processo de individuação, conceito presente na psicologia junguiana que tem como meta levar a um processo de transformação psicológico na busca de uma totalidade psíquica.

Os principais conceitos da psicologia analítica junguiana e da Obediência Maçônica, relacionados ao processo de individuação e a vivência maçônica, servirão de referência para o presente artigo, o qual, em seus estudos, tomou como base uma revisão de narrativa de caráter exploratória.

A necessidade de se ter uma abordagem que procura entender o que traz sentido à vida, faz parte dos instintos inatos do ser humano e de seus impulsos profundos fundamentais. Jung (2013d) coloca que o ser humano apresenta, sem variações notáveis, pontos de entendimento filosóficos e religiosos sobre o sentido da existência e de sua própria experiência vivencial. Alguns se gabam de não se enquadrarem nisso. Porém são raros entre a maior parte dos seres humanos; carece-lhes uma função fundamental que já foi constatada como necessária à psique humana.

A crença maçônica no Grande Arquiteto do Universo deixa cada maçom livre para escolher como crer em sua manifestação na existência. Segundo Maxence (2010), esse termo seria a maneira que os maçons se referem a Deus. Seu significado não é imposto como um objeto de veneração ou de crença. Ele é algo significativo e representativo. Não sendo colocado como dogma redutor e é o representante de uma dimensão que perpassa o homem.

Buscar o sentido da vida permanece uma necessidade da humanidade como um todo, e, especificamente, do maçom na Ordem Maçônica. Considerar a compreensão da mitologia é uma possibilidade para encontrar esse propósito, tendo em vista que, juntamente com o simbolismo, ela está presente nos rituais e cerimoniais de iniciação da maçonaria auxiliando nessa procura (MAXENCE, 2010).

Jung (2012b) nos proporcionou estudos sobre o que é o inconsciente. A psique possui aspectos individuais e coletivos, não é apenas um produto da experiência pessoal, uma vez que envolve, ainda, uma dimensão muito maior que se manifesta em padrões e imagens universais, tais como os que se podem encontrar em mitologias e crenças diversas (EDINGER, 2020).

Importante destacar que essas imagens estão presentes nos cerimonias da Ordem Maçônica, estes serão descritos, em suas partes essenciais, ao longo do presente artigo. Na sequência, serão apresentados conceitos da psicologia profunda que permitirão uma melhor compreensão da perspectiva junguiana que está particularmente relacionada à vivência maçônica em seus aspectos fundamentais.

2 – Conceitos da psicologia junguiana

Segundo Sanford (2020), um termo de muita importância na psicologia profunda é o conceito de individuação e entender o seu significado é essencial para a compreensão da psicologia junguiana. A Individuação é a identificação dada ao processo de transformação psíquico que ocorre constantemente em nós e que tem como fim o desenvolvimento de uma personalidade completa. Esse processo não é aquilo que queremos fazer com consciência, mas uma necessidade imperativa que tem origem espontânea na nossa psique.

A individuação, seguindo o estudo de Stein (2020), tem como material a ser trabalhado as forças opostas, como por exemplos: bem e mal, luz e sombra, ativo e passivo, dentre outras. Para ser alcançada é fundamental a integração desses componentes divergentes pelo indivíduo em sua consciência.

Tendo como referencial Stein (2020), o processo de individuação não se limita a uma especificação simples da maneira como um indivíduo se desenvolve ao longo da infância e da juventude, vivenciando, então, essa forma de ser construída que se apresenta como adulto. O processo de individuação pode ser caracterizado quando o ego-consciência vai além de suas características e hábitos pessoais determinados. Ele ultrapassa as atitudes contextuais introjetadas e pode chegar a um maior autoconhecimento e totalidade.

Outro importante conceito da psicologia profunda, conforme Jacobi (2016), é o conceito de complexos que podem ser considerados como sendo energias psíquicas desconhecidas de forte carga afetiva que estão em raízes profundas da psique, sendo possíveis de conscientização. Tal conquista de consciência, pode ser alcançada através do método analítico da psicologia junguiana, por exemplo. (JACOBI, 2016).

Esclarece a autora supracitada, especificamente, que os arquétipos são fatores e temas que organizam elementos psíquicos, formando determinadas imagens que são percebidas pelas consequências que trazem no comportamento do ser humano ao longo de sua vida. O arquétipo é sempre atualizado de acordo com a vida interior e exterior do indivíduo.

Em sintonia com os esclarecimentos de Stein (2020), os arquétipos podem ser considerados como não necessariamente presentes no passado ou no tempo, são a-históricos e atemporais. Eles materializam estruturas genéricas e motivos de vida. A identificação com um arquétipo é algo totalmente inconsciente em seu processo. Somente para alguns é possível perceber claramente essa ocorrência.

As diversas ocorrências culturais estão em nosso mundo exercendo mudança de comportamento em diversos grupos sociais e transformando as suas visões de mundo. Da perspectiva da psicologia profunda, argumentamos que diversas manifestações do saber cultural são comportamentos com ligações aos arquétipos universais que continuam a exercer influência com o passar do tempo, tais como: persona, sombra, mãe e pai (STEIN, 2021).

Ainda em conformidade com Jacobi (2016), o arquétipo se manifesta no aqui e agora do espaço e do tempo. Caso pudermos percebê-lo na consciência de alguma maneira, então falaremos de símbolo. Isso quer dizer que cada símbolo é, também, ao mesmo tempo, uma expressão de um arquétipo, de maneira que seria um desenho básico arquetípico imaginado.

Edinger (2020) observa que o homem é carente de uma vida constituída de símbolos, assim como necessita de um contexto contendo os signos. Para melhor compreensão é importante deixar claro que o signo é uma unidade de significado que materializa algo de nosso entendimento, exemplificando: a língua é um sistema de signos, e não de símbolos. O signo veicula um significado abstrato e objetivo. Ele é morto. Já o símbolo, por sua vez, é vida. Ele é uma imagem ou representação que nos mostra o desconhecido, algo subjetivo, ele é dotado de um dinamismo que exerce sobre o indivíduo uma poderosa atração e um poderoso fascínio.

Um símbolo que impõe a sua natureza simbólica, ainda não é necessariamente vivo. Pode atuar, por exemplo, apenas sobre a compreensão histórica ou filosófica. Desperta interesse intelectual ou
estético. Um símbolo é vivo só quando é para o observador a expressão melhor e mais plena possível do pressentido e ainda não consciente. Nessas condições operacionaliza a participação do inconsciente. Como diz Fausto: Quão diferente é a atuação deste sinal em mim […] (JUNG, 2013e, p. 489).

Jung (2013d) instrui que o símbolo está presente ao longo dos anos em nossa civilização. Ele participa em diversos processos da evolução da humanidade. O desenvolvimento do indivíduo é muitas vezes alcançado pela vivência, singular, do significado simbólico.

De acordo com Edinger (2020), a psicologia junguiana nos traz o conhecimento de que a psique arquetípica conta com um princípio estruturador ou organizador de conteúdos arquetípicos: o Si- mesmo. O Si-mesmo pode ser identificado, na psicologia junguiana, como a divindade empírica interna e equivale à imago Dei, a imagem de Deus e não Deus. Observemos a explicação seguinte de Carl Gustav Jung:

A imagem divina decorrente de um ato de criação espontâneo é uma figura viva, uma entidade que existe de per si e por isto se torna autônoma com relação a seu aparente criador. Como prova disto lembramos que a relação entre o criador e sua obra é dialética e, de acordo com a experiência, não raro é a obra que fala a seu criador. Certa ou erradamente, o homem comum conclui daí que não foi ele quem a criou, mas que ela se moldou dentro dele – uma possibilidade que crítica alguma pode refutar, pois o vir a ser desta figura é um processo natural orientado para um determinado fim, no qual a causa antecipa a finalidade. Como se trata de um fenômeno natural, fica em aberto se uma imagem divina é criada ou se cria a si mesma. O homem comum não consegue negar esta independência e desenvolve na prática seu relacionamento dialético. Assim, em todas as situações difíceis ou perigosas apela para sua presença, com o intuito de deixar a seu cargo as dificuldades aparentemente insuportáveis e esperar a sua ajuda […] (JUNG, 2013g, p. 82-
83).

Edinger (2020) complementa nos trazendo a informação que o Si-mesmo é o ordenador e unificador da psique total, consciente e inconsciente, assim como o ego é o centro da personalidade consciente. O ego está ligado a identidade subjetiva, ao passo que o Si-mesmo à identidade objetiva.

Segundo Sanford (2020), por intermédio da relação entre o ego e o Si-mesmo é que começa o processo de conscientização. O ego é o componente de nós com o qual estamos estreitamente ligados e identificados. Devido a isso, é comum se entender que a personalidade não vai além da divisa do ego, ainda que, de fato, a parte significativa da psique esteja contida no inconsciente. O Si-mesmo é o nome que Jung deu à psique em sua totalidade na seguinte descrição: “A este cabe funcionalmente o significado de um Senhor do mundo interior, isto é, do inconsciente coletivo” (JUNG, 2013g, p. 433). Jung aqui se expressa metaforicamente, tanto que utiliza a palavra “significado” e o pronome indefinido “um”. Ele não diz que o Si-Mesmo “é” o Senhor do mundo interior.

O Si-mesmo pode ser visto como nossa personalidade plena. O Si-mesmo é composto tanto pelo consciente quanto pelo inconsciente numa totalidade paradoxal. Ele está presente dentro de nós a partir do início da vida como uma força com potencialidade (SANFORD, 2020).

Ainda conforme Sanford (2020), caso a individuação vir a ser, a experiência do Si-mesmo precisa realizar-se através da vida que participamos realmente. Para isso, é imprescindível o trabalho conjunto entre o ego e o Si-mesmo, porque o ego precisa tornar-se uma espécie de recipiente através do qual o Si-mesmo é realizado e manifesto.

Neumann (2021) coloca que o conceito junguiano de persona se refere a uma veste psíquica utilizada pelo indivíduo. Por detrás dessa, podem, muitas vezes, estar presentes as sombras, aquilo que está fora do que se considera certo, algo que está secreto ou é misterioso, dentre outras possibilidades.

O bem e o mal são forças psíquicas opostas que nos acompanham, tanto individualmente quanto no ambiente externo ou contextualmente. Assim sendo, a conscientização de suas presenças permite o desenvolvimento ao longo da vida de uma possível totalidade de consciência. A negação da existência do mal leva a sua manifestação sem controle, tais como podemos observar nas diversas guerras pelo mundo, nas inúmeras formas de agressões, no fanatismo religioso e instabilidades no meio que vivemos (NEUMANN, 2021).

Franz (2018) argumenta que a abordagem do sentido do mal em qualquer indivíduo é o problema da sombra; do mal que lhe é característico. Todos temos uma fuga no sentido a não atentar para a nossa sombra ou a utilizar uma suavização através do uso de eufemismos e justificá-la em determinados conjuntos de ideias. Sem o reconhecimento de nossas deficiências ou daquilo que nós negamos, não se pode desenvolver um processo de individuação com progresso rumo à totalidade.

3 – Conceitos da Maçonaria

A Maçonaria, contemporaneamente, não pode ser considerada tão secreta como outrora, pois é uma instituição civil que possui registro nos livros dos cartórios, tendo personalidade jurídica, estando assim, sob a obediência das Leis Constitucionais. No Brasil, a Ordem Maçônica tem progredido multiplicando suas representações locais, conhecidas entre os maçons como lojas maçônicas. Nelas são recepcionados novos adeptos que comporão seus quadros pessoais. Elas possuem seus templos e suas características próprias para a ritualística (CAMINO, 2015).

Conforme nos ensina Boucher (2015), a Obediência Maçônica preserva tradições presentes nos ensinamentos iniciáticos e na simbologia maçônica. O símbolo possui a capacidade de fazer adquirir certos detalhes que podem estar fora da ciência, mas que nem por isso é menos importante. O símbolo, na perspectiva maçônica, é uma possibilidade ou espécie de descobrimento e de esclarecimento (BOUCHER, 2015).

Camino (2015), aponta que a Ordem Maçônica se manifesta por intermédio de reuniões que buscam uma referência ao Ser Supremo, conhecido como Grande Arquiteto do Universo. Ela faz uso dos ritos e dos símbolos. Um exemplo do simbolismo no templo é a presença no interior do ambiente de um livro considerado sagrado. Ele simboliza a palavra divina, o verbo ou verdade suprema, escrita em nosso arquivo da memória, é a lei natural.

Para os países de predominância católica e protestante é representado pelo uso de uma Bíblia, mas em outros credos pode ser o Livro dos Mortos, o Vedas, o Torah ou o Alcorão. Evidencia-se na Ordem o culto ao amor fraterno, a liberdade e a igualdade que são reconhecidos como valores importantes (CAMINO, 2015).

Segundo Boucher (2015), a Maçonaria tem como grande meta abrir o caminho à conscientização do Aprendiz maçom que se inicia na Ordem. Para isso, faz uso da dramatização ritualística nos cerimoniais de iniciação dos diferentes graus e conta com instruções ministradas pelos Mestres maçons. Além disso, faz uso da simbologia maçônica que está contida nos diferentes ritos, manuais, na decoração e harmonia do interior dos espaços de reuniões. A maneira de agir do maçom depende muito da afinidade, da capacidade cognitiva de aprendizagem e principalmente da dedicação de seus integrantes.

A tolerância é um atributo importante no processo de conscientização dos maçons, a aceitação das diferentes visões de Deus presentes nos integrantes da Obediência Maçônica é respeitada. Para ser admitido na organização, há a necessidade de se crer em Deus, pois os ensinamentos são baseados na existência de um Ser Supremo (CAMINO, 2015).

A crença em uma Força Superior na Ordem Maçônica materializa um significado de algo muito maior e muito mais complexo, muito além da capacidade de compreensão da inteligência humana. Ele é conhecido na Ordem como “Grande Arquiteto do Universo”. Existe na vida maçônica a liberdade de crer, sem ortodoxia ou dogmatismo (CAMINO, 2015).

A estruturação ou organização da Ordem Maçônica se baseia em três graus de simbolismo maçônico, grau 1 ou de Aprendiz, grau 2 ou de Companheiro e grau 3 ou de Mestre (CAMINO, 2015).

Seguindo o estudo de Adoum (2010b), no grau de Aprendiz a meta é o estudo de onde se origina o ser. Já no grau de Companheiro, que é o segundo grau, o foco é buscar uma resposta à pergunta: Quem Somos? No grau de Mestre, fica evidente a efemeridade da vida com a percepção da morte a nos aguardar em um futuro inevitável.

Segundo Camino (2015), a aprendizagem do maçom na Ordem não é uma fórmula pronta, não é um gabarito para se chegar a um padrão de excelência e ausência de defeito, sendo destaque, entender que a singularidade de cada um é imprescindível para o aumento da conscientização do ser. Além disso, a compreensão dos postulados simbólicos da Maçonaria, a capacidade de transformar em prática para si mesmo e reverberar esse progresso para o contexto social são fundamentais.

Continua…

Autores: Claudiney Rodrigues Calsavara e Paulo Ferreira Bonfatti

Fonte: Cadernos de Psicologia, Juiz de Fora, v. 3, n. 6, p. 542-567, jul./dez. 2021.

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A paleta de cores dentro da Maçonaria

A Escola de pintura

Outro dia um amigo perguntou o que eu acho que é a vida.
Resposta difícil, não é?
Vou contar como respondi.
Imagine uma escola de pintura. Ao entrar, você recebe uma tela em branco e encontra vários alunos pintando. Muitos estão trabalhando há anos, e os quadros são de todos os tipos, desde obras maravilhosas,
até telas completamente destruídas. As tintas, os pinceis e os materiais de pintura estão espalhados pela
sala, alguns bem acessíveis, outros em locais difíceis. Apesar de ser uma escola não há professores. É
tudo por sua conta (Régua e Compasso que nos incumbe a realidade concreta as quais estamos
habituados).
O que você faria nessa situação? Pegaria qualquer pincel e simplesmente espalharia por sua tela?
Observaria os que estão trabalhando e tentaria imitar alguém talentoso? Juntaria a sua tela a de outras
pessoas e pintaria um grande painel em equipe? Tentaria criar uma obra original e aprender com seus
próprios erros? Utilizaria apenas os materiais mais acessíveis ou batalharia para conseguir também os mais
difíceis?
Volto a perguntar, o que você faria?
Na minha opinião, a vida é como essa escola de pintura. As pinceladas são as nossas ações.
Às vezes damos pinceladas de mestre. Usamos o tipo certo de pincel, a mistura correta das cores e
movimentos precisos. São as nossas boas ações. Aquelas que nos fazem dormir tranquilo e com sorrisos
nos lábios (Alavanca para uma vontade inflexível, quando inteligentemente aplicada).
Outras vezes, borramos todo o nosso quadro e pensamos: “Argh! Estraguei tudo. Não tem mais
jeito”. Desejamos até jogar a tela fora e parar tudo. Vamos dormir arrasados e querendo morrer.
É nessa hora que precisamos lembrar da escola de pintura. Não se desespere. Por mais borrado
que seu quadro esteja, você sempre pode pegar um pincel limpo, as tintas certas e pintar por cima.
Se você disse algo ruim para alguém, peça perdão (Maço e o Cinzel para corrigir nossos
defeitos). Se fez algo que não deveria, volte lá e conserte. Se deixou passar uma oportunidade de elogiar,
procure a pessoa ou pegue o telefone e faça o elogio.
Se teve vontade de acariciar alguém e não fez, faça-o na próxima vez que encontrá-lo (a) e diga-lhe
que apenas está acertando o seu quadro – tenho certeza de que você será compreendido.
A única coisa que você não deve fazer é deixar os borrões aparecendo (Esquadro que consiste,
para o ser humano, na justeza com que se coloca na sociedade). Não interessa quão antigo eles sejam.
Se estiverem lá, corrija-os. É corrigindo que aprendemos a não cometê-los e nos tornamos artistas cada
vez melhores.
Fazendo assim, não importa se teremos mais duzentos anos ou apenas mais um dia, para a nossa
pintura. Quando formos chamados para expô-la, ela estará perfeita. Talento tenho certeza, todos nós
temos.”


Roberto Lopes

1 – Introdução

O presente trabalho, através de literatura comparada, propõe uma tentativa de compreensão mais profunda em relação aos instrumentos dentro do grau de C∴ M∴, associando-os a paleta de cores emocionais e seus processos de amadurecimentos, vivenciadas dentro da Maçonaria.

Com o objetivo de elucidar de forma simples e clara a primeira parte apresentará um pouco dos significados do maço e do cinzel como um desses instrumentos simbólicos de C∴ M∴, entendendo um pouco seus significados e, quando possível, sua história.

No segundo momento, considerando a busca incessante dos irmãos em levantar templos as virtudes e masmorras ao vício, será abordado esse processo de desdobramento dos instrumentos fazendo uma menção as questões emocionais e a sua tentativa constante pela evolução espiritual. Processo que deve ser ininterrupto e crescente para que a maçonaria esteja mais presente dentro de si. Com esse foco faremos um cotejamento com as análises do psiquiatra Daniel Martins de Barros que faz uma analogia com as emoções primárias e seus desdobramentos secundários.

Por último discutiremos a ideia do essencialismo na maçonaria. Tema que aplicado dentro dos contextos expostos, junto ao significado filosófico dos instrumentos, podem trazer um crescimento e uma maturidade para a loja e os irmãos. O controle dos pensamentos, o imprevisto no cotidiano dos irmãos, tanto no mundo profano como em loja, atrelado as suas emoções primárias podem gerar um caos que não seria de todo o mal. As suas consequências podem gerar uma anti-fragilidade, que é um processo necessário para a evolução espiritual que tanto se fala e discuti de forma mais incisiva a partir desse grau.

2 – O maço e o cinzel

Dentro dos mistérios impenetráveis ao mundo profano, sendo somente conhecido por aquele que passam por uma ordália [1] iniciação e, posteriormente, em sua evolução, passam por um processo de detenção das doutrinas ocultas existentes através dos simbolismos [2].

O simbolismo que apresenta como características alguns significados tais como: pressentir, ligar, aproximar, confrontar, comparar. Assim, pode-se considerar os instrumentos da viagem de C∴ M∴ representações simbólicas no processo de sua evolução rumo a elevação.

No caso do Maço e do Cinzel, dois dos instrumentos mais antigos já encontrados [3], pois eram utilizados dentro da Maçonaria operativa, onde os trabalhadores cortavam, facejavam as pedras brutas fazendo dela pedras de canto, colunas, de centro e ornamentações que abrilhantavam as mais diversas obras, hoje representam na Maçonaria moderna os meios do Ir∴ desbastar a pedra bruta do seu caráter.

É do artesão que se originavam os desenhos das grandes obras e projetos arquitetônicos projetados naquela época. Assim se deriva essa representação na Maçonaria Moderna. O Maço e o Cinzel eram considerados verdadeiros instrumentos da arte real e por isso a sua rica simbologia.

Através de estudos filosóficos e a prática das virtudes é que o homem é capaz de alcançar a obra perfeita. A disposição do homem para o bem pode ser representada pelo maço aplicada corretamente sobre o cinzel que pode trazer a plenitude do ser e a beleza da obra. Essa metáfora foi usada brilhantemente pelo Padre Vieira em seus famosos sermões.

“Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta,
dura, informe e, depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o
cinzel na mão e começa a formar um homem; primeiro membro a
membro, e depois feição por feição, até à mais miúda: ondeia-lhe os
cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe
a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os
braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os
vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama e fica um homem
perfeito, talvez um santo, que se pode pôr no altar.”

O maço na maçonaria moderna é a mente do Ir∴, onde suas atitudes representadas pelo cinzel podem levá-lo ao aperfeiçoamento. Suas escolhas poderão guiá-lo as virtudes para se tornar um maçom “justo e perfeito. “Isso não está atrelado a frequência e força como é feito e sim às suas habilidades como e critérios para ter o melhor entendimento e compreensão no seu processo evolutivo, respeitando esses dois símbolos profissionais tão valiosos a Maçonaria.

3 – A paleta de cores dentro da Maçonaria

Sempre que me remeto a Maçonaria pondero os momentos mais complexos que vivenciei no meu processo de iniciação a elevação. Interessante que esse processo se repete da elevação rumo à exaltação. Apesar da minha pouca idade maçônica, percebo que essa mistura de sentimentos e percepções é comum aos novos irmãos e, não excludentes, aos demais dos mais diversos graus. O que muitas vezes nos trazem angústias, dúvidas, medos e até a sensação de desistência dentro da irmandade.

Pensando nesse tema, é factível se apoiar nas observações de BARROS, Daniel (P.18- 19), que demonstra que o ser humano vive sempre em uma ciranda emocional. O autor faz uma analogia desses aspectos ao círculo cromático onde temos as cores primárias (amarelos, vermelho e azul) que dão origem as cores secundárias (verde, roxo e laranja) que mais uma vez se desdobram as cores terciárias.

Nesse sentido ele demonstra que essas cores mudam suas paletas e tonalidades, como também suas definições conforme as intensidades das misturas e tons dispostos em suas bases. Temos as bases emocionais como Alegria, medo, tristeza, nojo, raiva como as emoções primárias que dependendo das experiências podemos desenvolver o que seriam os “sentimentos secundários” tais como contentamento, alegria, serenidade, timidez, ansiedade, culpa, luto, irritação, desprezo, ciúme, fúria, orgulho, êxtase, esperança etc.

Sendo assim, os sentimentos supostamente primários seriam norteadores das nossas emoções no dia a dia. Digo não só dentro da loja, mas principalmente no mundo profano, local das nossas maiores masmorras emocionais. Isso não é uma ideia recente, sendo pautado sempre por diversos pesquisadores como René Descartes que postulava no século XVII a existência de seis emoções básicas – amor, ódio, alegria, tristeza, desejo e admiração -, e dizia ser capaz de explicar todas as outras a partir dela.

Mesmo que alguns estudiosos concordem sobre sentimentos básicos que, mais do que perceptível, se desdobram de um autor para outro, percebemos ainda que há uma pequena variação de alguns sentimentos bases como ponto de partida para as demais reações. De qualquer forma ainda sim temos expressões universais comprovadas e testada como meio de start das emoções primitivas. Isso não se limita apenas pelos sentimentos e expressões básicas, mas deve ser levado em conta o desenvolvimento infantil.

Tendo em vista a complexidade das relações humanas proveniente das suas emoções existem várias teorias e experiências para tentar explicar e entender o assunto. Como dizia o Professor José Cippola Neto, que lecionava neurofisiologia para o segundo ano de faculdade de Medicina, se existem muitas teorias para explicar algo, é porque nenhuma delas acertou precisamente a ponto de conseguir convencer a todos. (O lado bom do lado ruim, BARROS, Daniel p.25).

Toda essa contextualização serve apenas para evidenciar que muitas vezes em loja percebemos uma relação complexa na tentativa de trazer uma harmonia entre os irmãos e melhor desenvolvimento dos trabalhos, o que muita vez não é alcançado. Além das bases emocionais existentes, que faz parte da experiencia de cada irmão, outro ponto pode comprometer essa interação e anseios pelo desenvolvimento coletivo ou individual. Os pontos de vistas únicos levam a visões parciais de todos limitando a compreensão total.

Conforme sabiamente exemplificado pelo BARROS, Daniel (p.25),

“é como a história dos cegos e do elefante, famosa em várias tradições
ocidentais. Os detalhes da parábola variam de uma tradição para
outra, mas em todas as versões um grupo de homens cegos encontram
um animal até então desconhecido para eles. Aproximam-se com
cautela para apalpá-lo, e começam a descrever o que percebem. O
homem que toca a orelha espanta-se com a sua maleabilidade e atribui
ao corpo todo do bicho, comparando-o a um leque. Mas o que examina
tromba imediatamente discorda, pois embora ela seja flexível,
assemelha-se mais a um tubo. Nessa hora, o que apalpa a pata entra
na conversa, pois até poderia aceitar a comparação com um tubo, mas
a rigidez e o diâmetro típicos de um tronco estão evidentes. O homem
que se aproximou por trás, tocando o rabo do elefante, não concorda com ninguém, descreve o animal como fino, delicado, com cerdas.
Finalmente aquele que subiu no lombo se desespera com as descrições
incompatíveis com a magnitude que testemunha ali em cima.”

Fica clara nessa parábola a vivência que se tem hoje nas atribuições maçônicas. O que não seria nem um pouco difícil de entender a situação do apego a pontos de vista únicos levando a uma visão parcial do todo e limitando a compreensão total.

Isso deveria ficar mais em evidência aos irmãos quando menor a idade experimentada. Porém, os pontos de vista dos mais experientes são pontuais e muitas vezes parciais dando ao iniciado uma percepção fragmentada dos processos. Não quero deixar aqui uma percepção de que não é necessário um processo de aprendizado, elevação e exaltação de cada irmão, mas trazê-lo a mesma perspectiva sem a mesma base muitas vezes podem desencadear sensações muitas vezes indefinidas e que contribuem para evasões maçônicas físicas e emocionais.

Essas situações de informações ainda em construção na pedra bruta e em elevação à cúbica nos trazem um iminente processo reativo na tentativa de compensar as frustações fazendo com que, muitas vezes, tomemos decisões erroneamente precipitadas.

Segundo o Psiquiatra Augusto Cury, esse problema é denominado Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA). Ainda dentro desse conceito, em seu livro “Ansiedade, como enfrentar o mal do século” isso é uma doença coletiva e está presente em toda a humanidade.

O sofrimento nesse sentido faz parte do crescimento. Ele nos fortalece e traz mais discernimento das coisas potencializando os nossos sensos críticos. Dessa maneira podemos somar as observações e ponderações dos irmãos em loja para a construção de algo maior e sólido. Entendo que só sofremos por aquilo que realmente é importante para nós.

Mas então qual a grande questão dentro da nossa paleta emocional?

Quais os seus propósitos e ganhos?

Na verdade, o grande objetivo desse debate é refletirmos em como fazer isso sem perder os irmãos iniciados. Falo pela minha própria experiência. Quando iniciei como aprendiz, fui inserido em loja sem o devido acompanhamento, o que faria minha jornada mais fácil. Sem fazer juízo de valores, cabendo esse papel não só ao padrinho e o irmão primeiro vigilante, mas todos os que ali se encontram com o mesmo propósito. Meu período de iniciação veio carregado de vária mudanças e interpelações do mundo profano.

Dentro dessas mudanças que cada um enfrenta em sua vida particular, juntamente com a busca pela evolução como ser humano, nos questionamos qual seria a nossa real busca e sentido na maçonaria, já que nada nos é revelado em meio ao convite para ingressar.

Compartilhando um pouco da minha experiência dentro desse processo de iniciação, o que me manteve dentro da irmandade foi exatamente esse acompanhamento e dedicação de um irmão que conseguiu avaliar as minhas paletas emocionais, exercer a empatia e trazer algumas verdades para o meu sofrimento e minhas angústias. Foi nesse momento que, mais do que entrar na maçonaria, procurei deixar a maçonaria entrar em mim. Sempre buscando equilibrar os verdadeiros princípios maçônicos de liberdade de pensamentos, igualdade sem distinção de raças, classes sociais e a fraternidade entre os homens.

Esse processo foi fundamental para a minha real inserção dentro da irmandade, trazendo uma nova iniciação ao iniciado. Uma nova perspectiva de objetivos e valores. Percebemos assim que esse processo de dores e angústias são importantes e necessários para ativar os sinais de que algo não está certo, algo não faz sentido, que as respostas ainda não vieram e que algo precisa ser feito a respeito. Contudo quando nos debatemos em loja e identificamos alguns irmãos, já não tão iniciados, em conflito, tentando impor, por mais que não aceitem ou vislumbrem dessa forma, sua maneira de pensar. Provavelmente suas dores não foram trabalhadas e aperfeiçoadas nos períodos introdutórios da maçonaria, tornando-se cláusulas pétreas em loja.

A ignorância nos proporciona menos questionamentos e mais aceitação, mas à medida que o aprendizado avança, que a lapidação da pedra cúbica evolui perecemos maior controle de nossas emoções, maior controle dos nossos pensamentos intuitivos e reativos e as nossas paletas de cores assumem tons pastéis.

4 – Essencialismo no processo evolutivo

Em convergência com o mundo profano, na Maçonaria há um dinamismo de pautas e responsabilidades que agregam à ordem. Temas que devem ser considerados e conduzidos. Entretanto, entendo que não se trata do essencialismo para os IIr∴ dentro de um processo de evolução espiritual no qual almejamos. Quando pautamos a necessidade de desbastar a nossa personalidade para o nosso crescimento espiritual, precisamos analisar todas as variáveis disponíveis. Deve se desprender o maior tempo possível nas escolhas do que temos disponível em nossa vivência para ser base para nosso aperfeiçoamento.

Deve ser levado em consideração o histórico do mundo profano nos aspectos de família, relações interpessoais e seus processos de anti-fragilidade dentro das experiências vividas. Nesse caso pode-se entender como anti-fragilidade a capacidade de se “beneficiar” com o caos, que as vezes é apresentado, e o fato de não se ter meios com o qual se possa mitigá-lo, fazendo com que nasça uma forma de aprender e se adaptar à nova realidade existente. Esse processo muitas vezes traz resultados melhores do que quando pensamos na “vacina DO CAOS”, a fim de tentar evitar colapsos emocionais. Saímos mais experientes, flexíveis e maduros. O que entra em questão é como vamos utilizar esse benefício dali em diante.

Dentro da Maçonaria as pautas que se tornam contribuintes para o desenvolvimento estão mais relacionadas aos estudos filosóficos, os aprendizados em loja e o compartilhamento das vivências dos IIr∴.

No segundo momento, após o desprendimento de um considerável tempo para análise nos pontos existentes no mundo profano e Maçonaria, deve ser feito um critério de seleção do que realmente é essencial para o seu desenvolvimento espiritual. Os demais assuntos e rotinas, não menos importantes, devem ser deixados para outras discussões, uma vez que se entende que já se dedicou um grande momento de reflexão nessa escolha.

Ao trazer essa elegibilidade dos caminhos do crescimento espiritual podemos fazer uma conexão com a paleta de cores das nossas emoções, interligadas ao Maço e o Cinzel tendo-os como principais instrumentos no processo de crescimento. Como já mencionado, cabe reforçar que as dores e angústias são importantes e necessárias para ativar os sinais de que algo não está certo ou ainda não está fazendo sentido. O medo, o receio e as insatisfações são dignos de considerações. Contudo, isso não pode ser um recurso que te paralise. Deve servir sempre como subsídios emocionais para que se possa direcionar a mente (Maço) para uma evolução espiritual com escolhas e atitudes (Cinzel) relevantes e que façam diferença no meio onde se encontra e, principalmente, dentro de si.

Essa reconstrução espiritual, considerando que já nasceu e está sendo conduzido um espírito existente no mundo profano, deve ser realizada de forma cuidadosa e lenta. Sem antecipar momentos e, dentro da loja, os graus, para que a irmandade se faça de forma sólida e com alicerces duradouros.

Nesse processo de aprendizagem e reformulações de caráter e experiência é que os IIr∴ devem se unir, mesmo que ainda míope à luz, do menor ao mais elevado grau, para que se entendam sem tirar conclusões precipitadas de suas convicções diante de um elefante. Devem focar no essencial que é o fato de maior espiritualidade, maiores percepções e aberturas as novas propostas que podem ser boas para todos.

5 – Considerações finais

O que torna o crescimento maçônico interessante é a divergência do ponto de vista de cada um. A discordância traz crescimentos e possiblidades de se entender o que realmente pode ser melhor a se seguir. Comigo não foi diferente desde a minha iniciação até aqui. Momentos de incompreensão, conturbações e medos que quase me paralisaram. Quase paralisei. Quase fiz parte da evasão maçônica. Foi nesse momento que me permiti viver a dor e o luto que sentia. Enfurecer-me com a destruição das minhas hipócritas convicções e pedir auxílio aos IIr∴ que se encontravam mais próximos de mim.

Com as oportunidades corretas e busca dos estudos que me completam com ser humano foi com que fui capaz de seguir em frente. Capaz de trazer para dentro de mim a maçonaria que tanto busco e me permito vivenciar. É nessa trajetória que entendo que não ter certas convicções são saudáveis para o crescimento, que os conflitos devem existir e que há uma irmandade maior do que preceitos e regras.

No entanto, quanto mais busco o meu desenvolvimento espiritual, percebo o quanto sou pequeno diante as obras do G∴A∴D∴U∴ e o que nada é por acaso. Que não existe um papel mais importante do que o outro, mas que cada um cumpre os seus desígnios de acordo com o momento ali disposto. É dessa forma que pretendo buscar entender mais para que possa ser alguém melhor e contribuir para o auxílio daqueles que estão em meu entorno. Principalmente estar pronto para qualquer atuação no mundo maçônico e profano. Peço sempre ao G∴A∴D∴U∴ que sempre interceda em meus caminhos para que eu jamais esqueça o Maço e o Cinzel do meu ser.

Autor: Marcelo Marcus Martins Costa*

*Marcelo é membro da ARLS Jacques DeMolay, nº 22, do oriente de Belo Horizonte e jurisdicionada à GLMMG.

Notas

[1] – Expressão procedente do germânico ordael (sentença), as ordálias foram práticas de julgamento utilizadas principalmente no período denominado “Alta Idade Média” (séculos V ao X). De cunho estritamente religioso, as ordálias, também conhecidas como “juízo de Deus”, consistiam em um ritual em que o réu se submetia a uma provação, onde por meio de participação de elementos da natureza, estimava-se que a intervenção divina iria provar ou não sua inocência.

[2] – O termo “simbolismo” é derivado da palavra “símbolo”, que por sua vez deriva de symbolum em latim, um símbolo de fé e symbolus, um sinal de reconhecimento, da língua grega clássica σύμβολον symbolon, um objeto cortado pela metade constituindo um sinal de reconhecimento.

[3] – Um dos registros arqueológicos operativos mais antigos é um conjunto de maço e cinzel, datado de cerca de 2 mil a.C. (4 mil anos atrás) e encontrado numa tumba egípcia em Tebas. As ferramentas foram utilizadas durante o reino do faraó Mentuhotep II e são parte do acervo do Metropolitan Museum, de Nova Iorque.

Referências

CURY, Augusto. Ansiedade, como enfrentar o mal do século. Pinheiro, São Paulo. Editora Saraiva. 1ª edição 2015, 4ª tiragem 2016. BARROS, Daniel Martins. O lado bom do lado ruim. SP, São Paulo. Editora Sextante. Ano 2020. LOPEZ, Roberto. O livro da bruxa. SP, São Paulo. Editora Ediouro Publicações S.A. Ano 2008. ISMAIL, Kennyo. Ordem sobre o caos. Brasília, DF, No esquadro, 2020. TALEB, Nassim Nicholas. Anti-frágil, Coisas que se beneficiam com o Caos; Capítulo Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 1ª edição. 2020. https://www.freemason.pt/o-maco-e-o-cinzel-simbolos-maconicos/ O maço e o cinzel – Símbolos Maçónicos. Acesso dia 03 de outubro de 2022 22:08 horas
https://www.recantodasletras.com.br/ensaios/3696864/O MAÇO E O CINZEL-SIMBOLOS MAÇÔNICOS SIMBOLOS MAÇÔNICOS. Acesso dia 09 de outubro de 2022 às 17:52 horas

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Por que você é maçom?

Eu cresci em um lugar onde a Maçonaria era ilegal – proibida. Poderia significar até mesmo prisão. Às vezes se cochichava cautelosamente que esse grande poeta ou aquele escritor, filósofo ou figura de destaque na história era membro de uma loja, sem entrar em detalhes sobre o que isso significava. Isso deixou minha mente jovem, curiosa – embora não houvesse lugar onde procurar respostas. Além disso, eu não vinha de uma família com a formação habitual de ser maçom. Meus ancestrais eram principalmente camponeses da Transilvânia, comerciantes, pequenos empresários, pessoas simples, trabalhadoras – e os maçons na Europa Oriental, tradicionalmente, eram intelectuais, aristocratas, burgueses ricos, profissionais, artistas. Nunca trabalhadores sem nome! Por acaso, este filho de um comerciante habilidoso e neto de camponeses tornou-se um membro notável dessa classe conhecida como “intelligentsia “: o primeiro graduado universitário de toda a grande família; e o primeiro homem a ganhar a vida através do trabalho intelectual: ensinando, escrevendo jornais, escrevendo e traduzindo livros.

Com o passar do tempo, aprendi mais e mais sobre a história da Arte na minha Transilvânia natal, e na Hungria (para onde me mudei no final dos anos oitenta). Em meus anos de jornalista, uma vez entrevistei o Grão-Mestre da Grande Loja Simbólica da Hungria – eu simplesmente não sabia com quem estava falando na época. Foi, provavelmente, um dos primeiros artigos de jornal falando abertamente sobre maçons na época do colapso dos regimes comunistas no Bloco do Leste Europeu [1]. Para meu interesse pessoal, até consegui alguns folhetos “reimpressos” para aqueles que buscavam a luz, mas não agi de acordo com eles. Pensando bem, eu não estava pronto.

Durante um jantar de feriado nacional [2] em Budapeste, sentei-me ao lado do marido da diretora do Concerto Festivo no teatro da cidade. O homem usava um pequeno broche na lapela. Quando olhei de perto, ele me disse que era um maçom. E ele me colocou em contato com o mais maravilhoso mentor e professor maçônico que alguém poderia desejar, um ex-Grão-Mestre da Grande Loja [3], Ir. István Galambos. Eu tinha centenas de perguntas e ele era um baú do tesouro em se tratando de conhecimento maçônico; ele podia conversar e dar palestras sobre tópicos maçônicos em pelo menos quatro idiomas. Além disso, teve a paciência de responder todas as minhas perguntas bobas, incentivando minha busca e dando um exemplo de estimular o buscador de luz e (mais tarde) o novato Aprendiz e Companheiro Maçom.

Eu sou um aficionado por história e um pensador racional, eu acho. Como percebi mais tarde, todas as camadas românticas, ocultistas e pomposas do século XIX que foram introduzidas em muitos ramos da “maçonaria” por diferentes autores com grande imaginação (reivindicando raízes antigas e conhecimentos mágicos) poderiam ter me afastado sem ter a chance de conhecer a beleza da simplicidade das lojas maçônicas. Por outro lado, os ideais originais estabelecidos na Era do Iluminismo, muito antes da existência de “Antigos” e “Modernos” (e da reunião décadas depois) entre as grandes lojas e sistemas e rituais ingleses rivais, aqueles ideais de razão, conhecimento, ciência, liberdade e igualdade de homens, representavam uma “coisa” irresistível – eu queria fazer parte daquilo! Meu antigo mentor entendia perfeitamente o que me atraía. Ele me deu livros e então eu conversava com ele sobre o que aprendi com a leitura daquelas obras; ele aproveitou o tempo para se sentar comigo para longas discussões sobre a história muito complicada da Maçonaria Húngara e as diferentes tradições que herdamos de diferentes épocas e, acima de tudo, ele foi um exemplo perfeito de tolerância, bondade, conhecimento e virtude maçônicos.

Na primeira vez, fui ao meu futuro mentor com uma intenção maluca de me inteirar sobre o que é a maçonaria (decidirei mais tarde, disse a mim mesmo). O exemplo do sábio irmão mais velho, como maçom, homem íntegro, seu jeito de ser, deu-me o último impulso; se os maçons são como este homem, eu quero ser um! Além disso, o que eu já sabia sobre tantos grandes luminares da nossa história, que eram maçons. É difícil até mesmo tentar explicar em uma língua estrangeira esse sentimento estranho e orgulhoso para aqueles que não estão familiarizados com minha origem (húngara): tornar-se membro de uma loja maçônica, que foi proibida pelos regimes de extrema direita e esquerda [4] e ditaduras dos últimos duzentos anos, e tornar-se descendente virtual desses grandes homens que moldaram a história e a cultura de nossa nação, tentando trazer uma pequena e humilde contribuição para a conclusão do edifício que começaram a construir.

Uma primeira tarefa mundana que me foi dada, por sugestão de meu querido mentor, foi catalogar a pilha de livros e o número cada vez maior de revistas maçônicas que a nova Grande Loja estava recebendo de lojas fraternas amigáveis ​​e mais ricas e irmãos do exterior. De alguma forma, eles perceberam que minha clássica bolsa de estudos me predestinava a trabalhar com livros (em muitas línguas), então comecei a cumprir meu dever. E duas coisas inesperadas aconteceram: do nada, fui nomeado “Grande Bibliotecário” e, logo depois, passei mais tempo lendo e aprendendo do que catalogando o material impresso em nossa biblioteca. Eu nem sabia que existia tal título ou cargo, e me senti completamente desajeitado entre todos aqueles ilustres senhores mais velhos que mantiveram a luz secretamente viva durante os 40 anos no deserto (como carinhosamente chamavam os anos de ilegalidade), todos os oficiais importantes da Grande Loja – e eu, um Companheiro recém-elevado, mal terminei meu ano de aprendizado, sentado com eles ao redor da mesa nas reuniões da Grande Loja. Ah, a gente tinha que ficar pelo menos um ano em cada curso para aprender as coisas, não tinha pressa… mas eles levavam a igualdade a sério! Provavelmente, não serei lembrado como o notável bibliotecário de todas as coisas maçônicas. Mas não tenho palavras para agradecer a tarefa que me deram de catalogar e organizar todas essas publicações. Era minha “universidade” maçônica – um dia passei horas lendo e tentando entender tudo, no dia seguinte visitei meu bom e velho irmão homônimo e o bombardeei com perguntas. Espero que ele tenha ficado orgulhoso, visto que meu conhecimento continuou crescendo, meu entendimento se aprofundando e, esperançosamente, meu jeito de ser mais maçom.

Enquanto era Companheiro, viajei para terras estrangeiras, assim como os companheiros medievais iam de guilda em guilda, e mais tarde um dia desembarquei no Canadá, já como Mestre Maçom, onde continuei minha jornada maçônica em outro idioma com novos irmãos, mas no mesmo espírito. Ainda uso um broche na lapela porque quero dar a chance a qualquer um que possa ter um interesse genuíno e a disposição de se tornar um maçom, de ter alguém a quem perguntar. Ainda penso com frequência no meu mentor (que partiu para o Grande Oriente) quando tenho que tomar uma decisão na minha vida e fora da loja. Eu nem sonho em conseguir o que ele fez, mas posso tentar ser um maçom digno.

Sou maçom porque nunca conheci homens melhores do que maçons. Sou maçom porque quero viver como maçom.

Autor: Istvan Horvath
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: The Other Mason

*Horvath é Mestre Maçom, Maçom do Arco Real, membro da Philaletes Society, do Quatuor Coronati Correspondence Circle e da Scottish Rite Research Society. 

Notas

[1] – 1989-1990 

[2] – 23 de outubro: em 1956 a revolta antissoviética começou neste dia 

[3] – A Grande Loja Simbólica da Hungria foi reconstituída em 27 de dezembro de 1989 e seu primeiro Grão-Mestre foi o Ir. Istvan Galambos.

[4] – A primeira loja no Reino Húngaro foi formada na cidade de Brassó/Brașov/Kronstadt (nomes Hu/Ro/De) na Transilvânia no ano de 1749. O imperador José II então baniu a Maçonaria em 1795 em todo o território dos Habsburgo Império. Em 1868, uma loja foi oficialmente estabelecida em Budapeste, que foi reconhecida pela UGLE no ano seguinte. A Maçonaria na Hungria teve sua ‘idade de ouro’ entre 1886-1919, quando se tornou ilegal novamente. Após a Segunda Guerra Mundial, foi reiniciada em 1945, mas as novas autoridades comunistas proibiram sua atividade logo após cinco anos em 1950 e foi proibida até 1989. 

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O vício

Não convém embandeirar demasiadamente porque, aprendi em criança, “cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém…” e na verdade os portugueses “desconfinaram”, mas o Coronavírus não. Ou pelo menos eu estou convencido que “ele” continua por aí. É, de resto, a opinião expressa pelos técnicos de saúde que nestes tempos de pandemia pululam as televisões, rádios, jornais, …

Alguma coisa pode ser aproveitada nestes tempos de ócio pandémico e não havendo nada para fazer ocupei alguns momentos a refletir sobre a vida maçônica.

Isto de refletir é, obviamente, uma boa ocupação quando não há mais nada para fazer.

Estamos claramente em tempo de “vacas magras” (alguma vez não estivemos?).

Empresas (de todas as dimensões) a ressentirem-se da paragem da economia mundial, muitas a fecharem portas e a desaparecerem do mercado, desemprego a aumentar inevitavelmente, famílias inteiras em gravíssimas dificuldades e a esperança em melhores dias, sendo a última coisa a morrer (como de costume), mantém-se muito tênue.

Direi que é maior a desconfiança e o medo do que a esperança em recuperação rápida.

Esta reflexão trouxe-me para os meses do calendário que, para muitos, ficam cada vez “mais compridos” enquanto os vencimentos ficam cada vez mais curtos, obrigando a prodígios de imaginação para a manutenção do dia a dia das famílias. As dificuldades com as obrigações pecuniárias mensais foram em muitos casos disfarçadas, durante estes quase 2 anos de “fechamento”, por efeito das moratórias que a banca promoveu com o apoio estatal. Só que este sistema acabou ou está em vias de acabar com o regresso das prestações a terem de ser cumpridas sob pena de sofrerem as penas previstas nos contratos acordados na época em que ninguém podia prever a pandemia, nem as dificuldades que arrastou. 

Estas dificuldades são evidentemente generalizadas tocando também, e em muitos casos fortemente, alguns Irmãos.

Sabe-se que a admissão na nossa obediência implica uma “contratualização” com o cumprimento de um conjunto de regras comportamentais, morais e éticas, às quais se juntam outras de caráter pecuniário.

Nada a obstar em termos regulamentares. O candidato, enquanto candidato, fica a conhecer as regras que irão balizar a sua existência maçônica se admitido e quando admitido. Mas a vida dá muitas voltas, como bem se constata, e nenhum de nós está livre de ser apanhado por uma qualquer dessas voltas que lhe altere a situação financeira deixando-o em dificuldades no cumprimento dos seus deveres materiais. Todos nós sabemos que as propaladas vantagens de toda a ordem que a Maçonaria proporciona aos seus membros são uma ficção e os Maçons estão tão sujeitos às condições do mercado de trabalho como qualquer outro cidadão. E se, entre os Maçons, há quem viva com o conforto suficiente para não sentir, ou sentir muito pouco, estas dificuldades, também há os que as sentem com todo o peso do sofrimento arrastado pelo desemprego e/ou pela redução dos seus ganhos mensais.

Há, pois, Irmãos em dificuldade e a há que ter em atenção o que se passa com os mais vulneráveis. É um trabalho que compete às Lojas e em particular ao Irmão Hospitaleiro, inteirar-se do que acontece com cada membro da loja, sentir os sinais de dificuldade e movimentar os meios práticos para amenizar essas situações.

“Quem não tem dinheiro não tem vícios” é provérbio antigo e até sou capaz de aceitar esta “boca” com alguma razoabilidade.

Vício (do termo latino “vitium”, que significa “falha” ou “defeito”) é um hábito repetitivo que degenera ou causa algum prejuízo ao viciado e aos que com ele convivem.

Fui buscar esta definição à Wikipédia. Não é grande “coisa”, mas serve para o efeito que pretendo neste momento.

No mundo da Maçonaria os integrantes são escolhidos e reconhecidos como Maçons por quem já é Maçom. Digamos que a integração na Maçonaria, sendo um ato voluntário individual não o é só.

É também, e muito, a vontade de quem já ganhou o reconhecimento de Maçom e reconhece agora, também, naquele outro, as qualidades humanas necessárias para integrar o conjunto dos seus Irmãos.

A responsabilidade do cumprimento dos deveres maçônicos não é exclusivamente individual, é também responsabilidade de quem convidou, desafiou, reconheceu o “outro” para integração na Ordem Maçônica.

E esta responsabilidade deve ser verdadeiramente assumida por toda a Loja, em Irmandade (é esse um dos seus deveres) e em particular pelo seu Padrinho. Por isso, e para isso há “Padrinhos”, na Maçonaria tal como na vida civil corrente, no registo do nome do recém-nascido, no casamento, no batizado… Sempre alguém que se corresponsabiliza pelo bom resultado do ato que é celebrado.

Ora bem, misturar a integração Maçônica com os “vícios” é, pelo menos, leviano!

Tenho para mim que seria muito bom que as causas, os princípios da Maçonaria, se tornassem verdadeiros vícios para todos, mesmo para os não Maçons, daqueles vícios que se agarram à pele, que se integram no sangue correndo pelas veias enchendo o coração e o cérebro. É minha convicção que a Humanidade teria muito a ganhar.

Mas “quem não tem dinheiro não tem vícios” aplicado à Maçonaria, não!

A Maçonaria não é um vício, tal como não é, não pode ser, um degrau de promoção individual, seja ela social ou financeira. Ou ambas…

Autor: JP Setúbal

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Iniciação

Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.

O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.

A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.

Neófito, não há morte.

Autor: Fernando Pessoa

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O silêncio em Loja ou o silêncio do discurso?

Introdução

Uma das questões que sempre me chamou a atenção dentro das lojas ou Obediências é a regra de silêncio imposta aos Aprendizes, e que tanto me faz lembrar muito dos meus dias de noviciado, e eu já digo que não estou valorizando o silêncio, seus efeitos e as orientações dadas na interpretação do Ritual.

Podemos ver esta regra do silêncio nas colunas do Norte em várias versões, por um lado, o silêncio imposto diretamente, sem outra possibilidade de poder falar, exceto pela boca do tutor das referidas colunas (2º Vigilante), uma vez que se assume que 

“O silêncio é o prelúdio da abertura à revelação.”

Outra versão é uma abordagem de natureza mais formativa em que: 

“A disciplina do silêncio é um dos ensinamentos fundamentais da Maçonaria. Quem fala muito, pensa pouco, leviana e superficialmente.” 

Geralmente, também quem se alinha nesta corrente proíbe aos aprendizes poderem falar.

Então haveria outra versão talvez mais perigosa que é quando não se regulamenta o tema do silêncio dos aprendizes e ele passa a ser colocado sob a vontade ad libitum, em função de situações e até mesmo de maçons.

Não devemos nos esquecer de que transversalmente ao silêncio dos Aprendizes, outros temas como sigilo, discrição etc … também são definidos, o que nos levaria através de outros corredores conceituais longos, e aqui estou interessado em desenvolver de onde nasce ou parte e como se desenvolve a questão de deixar ou não os Aprendizes falarem em loja.

Pessoalmente, não é um assunto que me preocupa enquanto Mestre, mas sim como formador, embora não tenha sofrido muito com a questão do silêncio que muitas vezes é imposto aos Aprendizes, já que, tanto nas lojas em que trabalhei, tais como Gran Atanor, quanto em Amigos da Natureza e Humanidade (GLSE), essa não era uma regra fixa, e era aplicada mais do que qualquer outra coisa naquelas situações estranhas para impor sobre o resto, se recorria a instalar o silêncio aos Aprendizes de forma oportuna, constituindo assim uma segunda classe de maçons.

E nem na Loja Rosario de Acuña (GOdF) é um tema que seja imposto, embora o que seja como um tema ad libitum cria certos desequilíbrios.

Em todo caso, esse silêncio imposto cria uma distinção quase esmagadora e avassaladora, porque se tem a sensação de que, se o conceito não é claro e incluído no Regulamento Geral ou Particular da Obediência ou da Loja, então fica essa mesma sensação que se produz no eterno debate profano de querer mudar a lei eleitoral, quando se obtêm votos negativos …, pois aqui é a mesma coisa.

Frustração

Essa arbitrariedade não deixa de produzir na dinâmica da loja coisas curiosas e até paradoxais, tais como optar pela liberdade de expressão para algumas questões e depois fecha-la de novo, ou envolver os Aprendizes e não lhes fornecer as informações em jogo, ou a desculpa de seu grau e desconhecimento da Maçonaria, ou de não atrapalhar seu trabalho e desenvolvimento maçônico que nos leva ao duplo jogo do silêncio e do silêncio do discurso.

Esta não é uma questão menor, e é a fonte de muitos conflitos, talvez não sua aplicação férrea, mas quando permanece nessa discricionariedade que dá origem a muitas arbitrariedades. A este respeito, estou ciente de um caso sintomático em que se pede uma participação ativa em um tema controverso e complexo aos Aprendizes para posicionar a loja em uma determinada questão; e meses depois quando chega uma documentação sobre o assunto votado e vinda da Obediência, diz-se que não deveria ser filtrada aos Aprendizes, deixando nas mãos do VM, a administração da informação sob o critério tangencial de não perturbar esse silêncio ou a concentração maçônica exigida por todo Aprendiz Maçom que, curiosamente, esteve envolvido em todas as dinâmicas anteriores. Quantas vezes isso aconteceu conosco?

Cada vez que avanço no aprofundamento do desenvolvimento deste tema, mais me lembro da imposição do silêncio em formas eclesiásticas, com essa caracterização tão própria de manipular o silêncio de acordo com as necessidades e paradoxos do sistema, o que se aproxima de certo totalitarismo perverso na forma e muito usado dependendo dos jogos de poder que são desenvolvidos, neste caso em loja, porque o tema normalmente não vai em frente até que sejam necessários votos.

E, claro, não ignorando os benefícios do silêncio, não posso negar que às vezes passou de um tema de comportamento em loja um tema pseudo-regulativo e até mesmo cerceador do discurso em alguns de seus aspectos.

As fontes

Por preocupar-se tanto com essas questões de silêncio e por comprovar de onde poderia vir essa presumível regra de silêncio em loja, pedi a meu bom amigo e irmão Joaquín Villalta, que me ilustrasse em função de rastreamento dos rituais que usamos.

Na Constituição de Anderson de 1723 (3), art.  VI: 1) Do comportamento dos Irmãos em Loja Aberta:

“Você não deve ter uma reunião privada ou conversa separada sem a autorização do Mestre, ou dizer qualquer coisa irrelevante ou não apropriada, ou interromper o Mestre ou os Vigilantes ou qualquer Irmão que esteja se dirigindo ao Mestre.”

Mas nada fala em impor silêncio aos Aprendizes.

O resultado dessa busca em outros catecismos, como  o Sceau Rompu, aparece o tema do silêncio, mas mais como um tópico de observação da conduta de âmbito geral da qualidade maçônica.

  1. O que deve observar um bom Maçom?
  2. Quatro coisas: o Silêncio, o Segredo, a Prudência, & a Caridade em relação a seus Irmãos.

E aqui está o mencionado catecismo.  Quando, por exemplo, recorremos a outra fonte, neste caso dos “modernos”, o Luquet. Este nos diz o seguinte:

..os deveres para com os Aprendizes?

  1. Ajudar os Comp.’. , obedecer aos mestres, trabalhar com assiduidade e guardar o silêncio.

Outro ritual como  o Marquês de Gages, não indica nada em particular, digamos que o silêncio está presente em muitas partes do cerimonial ritualístico, mas não parece fazer parte de um regulamento no uso da palavra.

No catecismo do Duque de Chartres, vemos que se reproduz de forma idêntica o Luquet, o que não nos leva a pensar que esse poderia ter sido sua fonte)

  1. Quais são os deveres de um Apr.’. ?
  2. Ajudar os Comp.’., trabalhar assiduamente e guardar o silêncio.

No Regulação de 1801 , que é nossa fonte de trabalho ritual por excelência, não indica nada de um trabalho restritivo dependendo do grau, exceto com a ideia de criar uma situação de expectativa no ritual. Portanto, nenhuma recomendação sobre “necessidade de silêncio“, isso sim, reconhece a introspecção como um instrumento de perfeição moral, sem no entanto especificar em que sentido essa introspecção deve ser praticada:

“A pedra bruta é a imagem do homem rude e selvagem que o profundo estudo de si só pode polir e tornar perfeito ”

Tentando encontrar fontes mais próximas que pudessem me orientar quanto à presença do silêncio em loja, vejo que parece vir de uma tradição mais propensa à “ala dogmática”, tal como recolhemos da legenda trinitária que a Grande Loja da Inglaterra adotou de “Ouvir, ver e calar” que, a propósito, não está muito em sintonia com a praxis da ala liberal maçônica.

Quem parece dar a pista para esta questão controversa, é alguém que tem sido parte da instrução e formação da maçonaria espanhola, uma vez que não foi possível acessar outros catecismos e documentos de instrução, ocorrendo paradoxos de ainda termos um Aprendiz ou um Mestre Maçom lendo e estudando textos de origem dogmática sem questionar suas procedências ou sua origens, ou a possível coerência com linha da obediência e da loja na qual se situa o maçom.

Por isso, observamos as mais estranhas misturas de escolas e doutrinas e se entenda tudo isso como parte do corpus maçônico.

Entre os textos que fazem parte da bagagem maçônica educativa espanhola estão os textos do escocista e grau 33 uruguaio, Aldo Lavagnini, que formou o conjunto “totun revolotun” que os maçons espanhóis têm em sua bagagem formadora, e cujos textos contêm essa importante mistura de escolas e orientações doutrinárias, tão assentadas na prática escocesa, e ao mesmo tempo distantes de outras escolas rituais, tal como o Rito Francês.

É o que nos diz Lavagnini em seu Manual de Aprendiz, sobre o silêncio: 

“A disciplina do silêncio é um dos ensinamentos fundamentais da Maçonaria.  Quem fala muito, pensa pouco, leve e superficialmente. Geralmente, sua visão das coisas será estreita e inflexível e, portanto, não terá elementos para valorizar novas ideias ou horizontes. Por isso, a Maçonaria busca que seus membros se tornem melhores pensadores do que oradores.”

Para justificar a presença do silêncio em loja, foram pesquisadas todas as escolas e doutrinas que inseriram a filosofia do silêncio, que vão desde os pietistas, passando por Buda e concluindo nos pitagóricos, de tal modo que se propôs uma certa etapa como método de introspecção, silenciar os sentidos, ou mesmo criar efeitos de expectativa, ou como um sistema de atitudes permanente para melhorar o trabalho de redescoberta interna, que faz parte de uma uma certa regulamentação que se torna apenas em ultima análise um roubo da palavra na loja.

As fontes que tanto nos lembram os benefícios do silêncio estão presentes nas religiões e tradições místicas, pois se considera que oferece um momento excepcional que favorece o recolhimento e a quietude espiritual necessária para a comunicação com o divino e, portanto, não é difícil observar esta diretriz naquelas famílias rituais de base cristã, como é o caso do Rito Retificado (RER), que de antemão nos indica aquilo que:

“Procurou-se ensinar com isso, que é no silêncio, no retiro e na calma dos sentidos, que o sábio se despoja de suas paixões, preconceitos e que dá passos seguros no caminho da virtude e da verdade.” (Sobre a câmara de reflexão)

E que, além disso, encontramos reforçada tal questão na instrução do Primeiro Grau do RER:

Onde fostes recebido?

– Em uma Loja justa e perfeita, onde reina a união, a paz e o silêncio.

Em alguns documentos maçônicos, inclusive do RF, alguns escritos aparecem da seguinte maneira: 

“Onde reina a União, a Paz, a Candura, o Silêncio e a Caridade, em um lugar muito iluminado, regular e santo, muito fechado e forte.”

Para fechar este capítulo vou encerrá-lo com um texto de Patrick Negrier, exposto em seu trabalho “Art Royal et Régularité”:   

“A referência explícita à prática iniciada por Pitágoras e por Sócrates, de introspecção, parece ter penetrado na Maçonaria por volta de 1746-1751 na obra “Maçom Desmascarado” onde Thom Wolson convidava o maçom a conhecer a si mesmo para desafiar-se: “Maçom, conhece a ti mesmo, coloca tua esperança em Deus.”

Outras explicações, algumas dão passagem ao discurso

Há quem extrapole esse assunto como um elemento geral essencial para o grau de Aprendiz, uma vez que ele não sabe ler nem escrever e, portanto, precisam de atitudes receptivas e criadoras de expectativas e, portanto, silenciosas, convertendo-a  por sua vez em “leis” que, como diz Valdimir Biaggi se parecem muito com a “omentá” da máfia.

Nesta pseudoescola do silêncio se embosca também Juan Carlos Daza que com seu Dicionário da Maçonaria, confirma também parte dessa bagagem que eu acho que precisa ser desmantelada, em que ele parte de que “O silêncio é o prelúdio da abertura à revelação”, para adicionar “que as lojas impõem ‘a lei do silêncio’ aos aprendizes, se não o mutismo, já que por ele falará seu tutor, o Segundo Vigilante” ; no mesmo sentido e da vertente escocista mais pura, Irene Mainguy reafirma tais teses em seu trabalho sobre o simbolismo no REAA.

Em contraste, devemos salientar que, no Regulateur, fala-se de “não devo”, talvez enfocando a prudência ou dosagem do uso da palavra nesta fase, embora sua proibição nunca apareça.

Talvez pudéssemos aventar que o silêncio na loja está mais para o campo simbolista do REAA que do Rito Francês, que é um rito mais tendente à dialética, e chegadas a este campo, o Aprendiz do Rito Francês não deve perder de vista o fato de que seu primeiro dever é aprender a levantar as questões e formulá-las, a trabalhar no domínio das ideias sem restar uma dúvida, um pouco do mundo das opiniões e convicções, uma vez que a própria caracterização da Maçonaria exige um pensamento específico e original e para isso que melhor meio que o mundo da razão que não pode permanecer em silêncio para, pelo menos, situar-se no plano do discurso.

Nesse sentido, podemos dizer que o Rito Francês deu um passo transcendental e se constitui no Rito da Razão, fugindo de paradoxos simbolistas que o ligam ao silêncio místico de uma providência que flui através de jogos de luzes, onde a coreografia simbolista desempenha um papel mais importante, onde se cabe o discurso dialético.

É por isso que quando o Rito Francês é enquadrado no Iluminismo e reivindicar a presença não do cavalheiro, mas do cidadão, como nos diz o Regulateur, o discurso é recuperado dessa maneira, pois o cidadão tem direito à palavra que além de não poder ser negada, podemos dizer que é a nova ferramenta que se apodera da loja e que vai articulá-la e projetá-la como tal.

Nesse sentido se alinham autores como Beresniak (na seção referente à seção Mestre de Harmonia) que nos dá sua visão do silêncio:

“A música é absolutamente indispensável no ritual, não somente durante cerimônias especiais, mas durante a abertura dos trabalhos ou durante a entrada na Loja. Não substitui o silêncio, já que o silêncio não existe: ela cobre os ruídos inaudíveis, os tremores internos gerados pelo que foi vivido fora do Templo. Cobre as agitações da alma e arrasta as emoções até as alturas. As emoções não geram exercícios de inteligência; mas, pelo contrário, reconfortam o espírito. A música apoia efetivamente a função do ritual de abertura dos trabalhos, uma função que consiste em favorecer um “descondicionamento” e um “recondicionamento” em direção de um modo diferente de ser. E não é por acaso que a palavra “apertura / abertura”, tão densa e bela, também constitui um termo musical. Geralmente, os termos musicais como “composição”, “execução”, “concerto”, “melodia”, “harmonia”, “gama”, “escala”, “compasso”, “tonalidade”, “atonalidade” e outros muitos nos oferecem referências precisas capazes de esclarecer as ferramentas do pensamento. Por isso, o irmão “Mestre de Harmonia” poderia, além de seu trabalho tradicional, sentir-se responsável pela missão de informar sua oficina sobre os recursos que a música pode proporcionar ao estudo sério do simbolismo.”

Para fechar este longo capítulo, que também poderia dar lugar a outras obras sobre as virtudes do silêncio em Loja, que se está programado em muitas ocasiões, e que é muito concentrado em certos estágios, propondo assim dois tipos de silêncio:

O silêncio físico que é como uma reminiscência atitudinal importada de procedimentos e/ou grupos de tipo monástico religioso e implantado na Maçonaria a partir da introdução da abordagem pitagórica e, o silêncio imposto, como estado indispensável para o processo de aprendizagem, que como diz um veterano Mestre e Venerável Mestre de uma loja como o Irmão Joaquín Villalta: 

“Tanto um como o outro têm defensores e detratores, finalmente terminando ad libitum do uso em loja. Sendo da teoria de que “É necessário em certos momentos, mas seu uso não pode ser pautado como um procedimento obrigado nem ritualmente nem atitudinalmente para os aprendizes: é preciso aprender a aquietar os sentidos, mas é preciso buscar condicionamentos (como diz Beresniak) através de processos de estímulo / linguagem fora do campo puramente racional e para isso, o sensível / auditivo é necessário.”

Sem colocar de lado que “no processo de aprendizagem, o Aprendiz. desde sua “falta de conhecimento”, ele deve ter seus momentos de “prática expressiva”, isto é, ele deve poder falar. Não existe Arte (nem mesmo a Arte Real) que não exija uma prática (bem conduzida) desde o primeiro dia. Sem esquecer um paradoxo, pois não se deve esquecer que no início do século XVIII os graus de Aprendiz e Companheiro, eras, conferidos na mesma tarde, ou seja, poderíamos nos perguntar onde estava o silêncio do Aprendiz?

Algumas propostas de regulamento de Loja

Diante dessas situações, diferentes orientações foram criadas: há Obediências, em que, de antemão, os Aprendizes não têm voz ou voto até passarem a Companheiros ou a Mestres, isso aplicando-se uma lógica cartesiana “se eles não falam eles não votam”, portanto, eles colocam os Aprendizes a salvo da possível manipulação e administração da discricionariedade dos Mestres Maçons ou Oficiais da Loja e os fluxos que poderiam ocorrer nas Oficinas.

É uma medida antidemocrática?  Pode ser que sim, mas em pleno século XXI, que se negue a condição de “ser e estar” ao cidadão, ou à pessoa, mesmo que em loja e em virtude de seu aperfeiçoamento pessoal, soa pelo menos estranho e duro.

Mas tem, em todo caso, uma virtude e é que eles sabem de antemão as regras do jogo relacional em que se move a loja e os possíveis benefícios e desvantagens do sistema.

Deixá-lo à discrição, sem que ele se recolha nos Regulamento da Oficina ou da Obediência, traz consigo questões paradoxais e discricionárias que podem resultar ainda mais antidemocráticas e tirânicas que as anteriores, já que joga com as pessoas e Irmãos em função dos interesses, não criando certas regras gerais do jogo, mas muito particulares que se aplicam ou não dependendo de critérios tais como poder, conveniência, oportunidade, etc.

No entanto, existem Obediências e Lojas que não regulam esta situação, nem criam um ambiente regulamentar especial, no qual se afirme que o silêncio não é uma regra de regulamentação e sim uma regra de comportamento individual em loja quanto ao grau de Aprendiz.

Em todo caso, esta questão na órbita do Rito Francês, eu pessoalmente acredito que tal limitação não deva estar presente, a menos que seja voluntária por parte do Aprendiz, pois se partimos de que estamos em um Rito da Razão, um rito por antonomásia dialética, libertário em relação a certos anexos pseudo-religiosos presentes em outros ritos, não deveria partir da imposição de restrições a que a palavra flua, é certo que o Aprendiz não sabe “nem escrever nem falar”, mas o exercício dessas funções é o que lhe dá, em última análise, a capacidade de se tornar um cidadão e que a loja se constitua desde o primeiro momento uma escola de razão e formação, poderia caber a ideia de que em outro século essa limitação poderia fazer sentido, dadas as abismais diferenças sociais e culturais entre Maçons, continuar sujeitando-se hoje  em pleno século XXI, a uma norma que mitiga a liberdade individual de poder falar, ou seja a expressão viva, usando para a língua de outro, não faz sentido

Tema que deixo levantado para o debate.

Autor: Victor Guerra
Traduzido por: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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