O vício

Não convém embandeirar demasiadamente porque, aprendi em criança, “cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém…” e na verdade os portugueses “desconfinaram”, mas o Coronavírus não. Ou pelo menos eu estou convencido que “ele” continua por aí. É, de resto, a opinião expressa pelos técnicos de saúde que nestes tempos de pandemia pululam as televisões, rádios, jornais, …

Alguma coisa pode ser aproveitada nestes tempos de ócio pandémico e não havendo nada para fazer ocupei alguns momentos a refletir sobre a vida maçônica.

Isto de refletir é, obviamente, uma boa ocupação quando não há mais nada para fazer.

Estamos claramente em tempo de “vacas magras” (alguma vez não estivemos?).

Empresas (de todas as dimensões) a ressentirem-se da paragem da economia mundial, muitas a fecharem portas e a desaparecerem do mercado, desemprego a aumentar inevitavelmente, famílias inteiras em gravíssimas dificuldades e a esperança em melhores dias, sendo a última coisa a morrer (como de costume), mantém-se muito tênue.

Direi que é maior a desconfiança e o medo do que a esperança em recuperação rápida.

Esta reflexão trouxe-me para os meses do calendário que, para muitos, ficam cada vez “mais compridos” enquanto os vencimentos ficam cada vez mais curtos, obrigando a prodígios de imaginação para a manutenção do dia a dia das famílias. As dificuldades com as obrigações pecuniárias mensais foram em muitos casos disfarçadas, durante estes quase 2 anos de “fechamento”, por efeito das moratórias que a banca promoveu com o apoio estatal. Só que este sistema acabou ou está em vias de acabar com o regresso das prestações a terem de ser cumpridas sob pena de sofrerem as penas previstas nos contratos acordados na época em que ninguém podia prever a pandemia, nem as dificuldades que arrastou. 

Estas dificuldades são evidentemente generalizadas tocando também, e em muitos casos fortemente, alguns Irmãos.

Sabe-se que a admissão na nossa obediência implica uma “contratualização” com o cumprimento de um conjunto de regras comportamentais, morais e éticas, às quais se juntam outras de caráter pecuniário.

Nada a obstar em termos regulamentares. O candidato, enquanto candidato, fica a conhecer as regras que irão balizar a sua existência maçônica se admitido e quando admitido. Mas a vida dá muitas voltas, como bem se constata, e nenhum de nós está livre de ser apanhado por uma qualquer dessas voltas que lhe altere a situação financeira deixando-o em dificuldades no cumprimento dos seus deveres materiais. Todos nós sabemos que as propaladas vantagens de toda a ordem que a Maçonaria proporciona aos seus membros são uma ficção e os Maçons estão tão sujeitos às condições do mercado de trabalho como qualquer outro cidadão. E se, entre os Maçons, há quem viva com o conforto suficiente para não sentir, ou sentir muito pouco, estas dificuldades, também há os que as sentem com todo o peso do sofrimento arrastado pelo desemprego e/ou pela redução dos seus ganhos mensais.

Há, pois, Irmãos em dificuldade e a há que ter em atenção o que se passa com os mais vulneráveis. É um trabalho que compete às Lojas e em particular ao Irmão Hospitaleiro, inteirar-se do que acontece com cada membro da loja, sentir os sinais de dificuldade e movimentar os meios práticos para amenizar essas situações.

“Quem não tem dinheiro não tem vícios” é provérbio antigo e até sou capaz de aceitar esta “boca” com alguma razoabilidade.

Vício (do termo latino “vitium”, que significa “falha” ou “defeito”) é um hábito repetitivo que degenera ou causa algum prejuízo ao viciado e aos que com ele convivem.

Fui buscar esta definição à Wikipédia. Não é grande “coisa”, mas serve para o efeito que pretendo neste momento.

No mundo da Maçonaria os integrantes são escolhidos e reconhecidos como Maçons por quem já é Maçom. Digamos que a integração na Maçonaria, sendo um ato voluntário individual não o é só.

É também, e muito, a vontade de quem já ganhou o reconhecimento de Maçom e reconhece agora, também, naquele outro, as qualidades humanas necessárias para integrar o conjunto dos seus Irmãos.

A responsabilidade do cumprimento dos deveres maçônicos não é exclusivamente individual, é também responsabilidade de quem convidou, desafiou, reconheceu o “outro” para integração na Ordem Maçônica.

E esta responsabilidade deve ser verdadeiramente assumida por toda a Loja, em Irmandade (é esse um dos seus deveres) e em particular pelo seu Padrinho. Por isso, e para isso há “Padrinhos”, na Maçonaria tal como na vida civil corrente, no registo do nome do recém-nascido, no casamento, no batizado… Sempre alguém que se corresponsabiliza pelo bom resultado do ato que é celebrado.

Ora bem, misturar a integração Maçônica com os “vícios” é, pelo menos, leviano!

Tenho para mim que seria muito bom que as causas, os princípios da Maçonaria, se tornassem verdadeiros vícios para todos, mesmo para os não Maçons, daqueles vícios que se agarram à pele, que se integram no sangue correndo pelas veias enchendo o coração e o cérebro. É minha convicção que a Humanidade teria muito a ganhar.

Mas “quem não tem dinheiro não tem vícios” aplicado à Maçonaria, não!

A Maçonaria não é um vício, tal como não é, não pode ser, um degrau de promoção individual, seja ela social ou financeira. Ou ambas…

Autor: JP Setúbal

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Iniciação

Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.

O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.

A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.

Neófito, não há morte.

Autor: Fernando Pessoa

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O silêncio em Loja ou o silêncio do discurso?

Introdução

Uma das questões que sempre me chamou a atenção dentro das lojas ou Obediências é a regra de silêncio imposta aos Aprendizes, e que tanto me faz lembrar muito dos meus dias de noviciado, e eu já digo que não estou valorizando o silêncio, seus efeitos e as orientações dadas na interpretação do Ritual.

Podemos ver esta regra do silêncio nas colunas do Norte em várias versões, por um lado, o silêncio imposto diretamente, sem outra possibilidade de poder falar, exceto pela boca do tutor das referidas colunas (2º Vigilante), uma vez que se assume que 

“O silêncio é o prelúdio da abertura à revelação.”

Outra versão é uma abordagem de natureza mais formativa em que: 

“A disciplina do silêncio é um dos ensinamentos fundamentais da Maçonaria. Quem fala muito, pensa pouco, leviana e superficialmente.” 

Geralmente, também quem se alinha nesta corrente proíbe aos aprendizes poderem falar.

Então haveria outra versão talvez mais perigosa que é quando não se regulamenta o tema do silêncio dos aprendizes e ele passa a ser colocado sob a vontade ad libitum, em função de situações e até mesmo de maçons.

Não devemos nos esquecer de que transversalmente ao silêncio dos Aprendizes, outros temas como sigilo, discrição etc … também são definidos, o que nos levaria através de outros corredores conceituais longos, e aqui estou interessado em desenvolver de onde nasce ou parte e como se desenvolve a questão de deixar ou não os Aprendizes falarem em loja.

Pessoalmente, não é um assunto que me preocupa enquanto Mestre, mas sim como formador, embora não tenha sofrido muito com a questão do silêncio que muitas vezes é imposto aos Aprendizes, já que, tanto nas lojas em que trabalhei, tais como Gran Atanor, quanto em Amigos da Natureza e Humanidade (GLSE), essa não era uma regra fixa, e era aplicada mais do que qualquer outra coisa naquelas situações estranhas para impor sobre o resto, se recorria a instalar o silêncio aos Aprendizes de forma oportuna, constituindo assim uma segunda classe de maçons.

E nem na Loja Rosario de Acuña (GOdF) é um tema que seja imposto, embora o que seja como um tema ad libitum cria certos desequilíbrios.

Em todo caso, esse silêncio imposto cria uma distinção quase esmagadora e avassaladora, porque se tem a sensação de que, se o conceito não é claro e incluído no Regulamento Geral ou Particular da Obediência ou da Loja, então fica essa mesma sensação que se produz no eterno debate profano de querer mudar a lei eleitoral, quando se obtêm votos negativos …, pois aqui é a mesma coisa.

Frustração

Essa arbitrariedade não deixa de produzir na dinâmica da loja coisas curiosas e até paradoxais, tais como optar pela liberdade de expressão para algumas questões e depois fecha-la de novo, ou envolver os Aprendizes e não lhes fornecer as informações em jogo, ou a desculpa de seu grau e desconhecimento da Maçonaria, ou de não atrapalhar seu trabalho e desenvolvimento maçônico que nos leva ao duplo jogo do silêncio e do silêncio do discurso.

Esta não é uma questão menor, e é a fonte de muitos conflitos, talvez não sua aplicação férrea, mas quando permanece nessa discricionariedade que dá origem a muitas arbitrariedades. A este respeito, estou ciente de um caso sintomático em que se pede uma participação ativa em um tema controverso e complexo aos Aprendizes para posicionar a loja em uma determinada questão; e meses depois quando chega uma documentação sobre o assunto votado e vinda da Obediência, diz-se que não deveria ser filtrada aos Aprendizes, deixando nas mãos do VM, a administração da informação sob o critério tangencial de não perturbar esse silêncio ou a concentração maçônica exigida por todo Aprendiz Maçom que, curiosamente, esteve envolvido em todas as dinâmicas anteriores. Quantas vezes isso aconteceu conosco?

Cada vez que avanço no aprofundamento do desenvolvimento deste tema, mais me lembro da imposição do silêncio em formas eclesiásticas, com essa caracterização tão própria de manipular o silêncio de acordo com as necessidades e paradoxos do sistema, o que se aproxima de certo totalitarismo perverso na forma e muito usado dependendo dos jogos de poder que são desenvolvidos, neste caso em loja, porque o tema normalmente não vai em frente até que sejam necessários votos.

E, claro, não ignorando os benefícios do silêncio, não posso negar que às vezes passou de um tema de comportamento em loja um tema pseudo-regulativo e até mesmo cerceador do discurso em alguns de seus aspectos.

As fontes

Por preocupar-se tanto com essas questões de silêncio e por comprovar de onde poderia vir essa presumível regra de silêncio em loja, pedi a meu bom amigo e irmão Joaquín Villalta, que me ilustrasse em função de rastreamento dos rituais que usamos.

Na Constituição de Anderson de 1723 (3), art.  VI: 1) Do comportamento dos Irmãos em Loja Aberta:

“Você não deve ter uma reunião privada ou conversa separada sem a autorização do Mestre, ou dizer qualquer coisa irrelevante ou não apropriada, ou interromper o Mestre ou os Vigilantes ou qualquer Irmão que esteja se dirigindo ao Mestre.”

Mas nada fala em impor silêncio aos Aprendizes.

O resultado dessa busca em outros catecismos, como  o Sceau Rompu, aparece o tema do silêncio, mas mais como um tópico de observação da conduta de âmbito geral da qualidade maçônica.

  1. O que deve observar um bom Maçom?
  2. Quatro coisas: o Silêncio, o Segredo, a Prudência, & a Caridade em relação a seus Irmãos.

E aqui está o mencionado catecismo.  Quando, por exemplo, recorremos a outra fonte, neste caso dos “modernos”, o Luquet. Este nos diz o seguinte:

..os deveres para com os Aprendizes?

  1. Ajudar os Comp.’. , obedecer aos mestres, trabalhar com assiduidade e guardar o silêncio.

Outro ritual como  o Marquês de Gages, não indica nada em particular, digamos que o silêncio está presente em muitas partes do cerimonial ritualístico, mas não parece fazer parte de um regulamento no uso da palavra.

No catecismo do Duque de Chartres, vemos que se reproduz de forma idêntica o Luquet, o que não nos leva a pensar que esse poderia ter sido sua fonte)

  1. Quais são os deveres de um Apr.’. ?
  2. Ajudar os Comp.’., trabalhar assiduamente e guardar o silêncio.

No Regulação de 1801 , que é nossa fonte de trabalho ritual por excelência, não indica nada de um trabalho restritivo dependendo do grau, exceto com a ideia de criar uma situação de expectativa no ritual. Portanto, nenhuma recomendação sobre “necessidade de silêncio“, isso sim, reconhece a introspecção como um instrumento de perfeição moral, sem no entanto especificar em que sentido essa introspecção deve ser praticada:

“A pedra bruta é a imagem do homem rude e selvagem que o profundo estudo de si só pode polir e tornar perfeito ”

Tentando encontrar fontes mais próximas que pudessem me orientar quanto à presença do silêncio em loja, vejo que parece vir de uma tradição mais propensa à “ala dogmática”, tal como recolhemos da legenda trinitária que a Grande Loja da Inglaterra adotou de “Ouvir, ver e calar” que, a propósito, não está muito em sintonia com a praxis da ala liberal maçônica.

Quem parece dar a pista para esta questão controversa, é alguém que tem sido parte da instrução e formação da maçonaria espanhola, uma vez que não foi possível acessar outros catecismos e documentos de instrução, ocorrendo paradoxos de ainda termos um Aprendiz ou um Mestre Maçom lendo e estudando textos de origem dogmática sem questionar suas procedências ou sua origens, ou a possível coerência com linha da obediência e da loja na qual se situa o maçom.

Por isso, observamos as mais estranhas misturas de escolas e doutrinas e se entenda tudo isso como parte do corpus maçônico.

Entre os textos que fazem parte da bagagem maçônica educativa espanhola estão os textos do escocista e grau 33 uruguaio, Aldo Lavagnini, que formou o conjunto “totun revolotun” que os maçons espanhóis têm em sua bagagem formadora, e cujos textos contêm essa importante mistura de escolas e orientações doutrinárias, tão assentadas na prática escocesa, e ao mesmo tempo distantes de outras escolas rituais, tal como o Rito Francês.

É o que nos diz Lavagnini em seu Manual de Aprendiz, sobre o silêncio: 

“A disciplina do silêncio é um dos ensinamentos fundamentais da Maçonaria.  Quem fala muito, pensa pouco, leve e superficialmente. Geralmente, sua visão das coisas será estreita e inflexível e, portanto, não terá elementos para valorizar novas ideias ou horizontes. Por isso, a Maçonaria busca que seus membros se tornem melhores pensadores do que oradores.”

Para justificar a presença do silêncio em loja, foram pesquisadas todas as escolas e doutrinas que inseriram a filosofia do silêncio, que vão desde os pietistas, passando por Buda e concluindo nos pitagóricos, de tal modo que se propôs uma certa etapa como método de introspecção, silenciar os sentidos, ou mesmo criar efeitos de expectativa, ou como um sistema de atitudes permanente para melhorar o trabalho de redescoberta interna, que faz parte de uma uma certa regulamentação que se torna apenas em ultima análise um roubo da palavra na loja.

As fontes que tanto nos lembram os benefícios do silêncio estão presentes nas religiões e tradições místicas, pois se considera que oferece um momento excepcional que favorece o recolhimento e a quietude espiritual necessária para a comunicação com o divino e, portanto, não é difícil observar esta diretriz naquelas famílias rituais de base cristã, como é o caso do Rito Retificado (RER), que de antemão nos indica aquilo que:

“Procurou-se ensinar com isso, que é no silêncio, no retiro e na calma dos sentidos, que o sábio se despoja de suas paixões, preconceitos e que dá passos seguros no caminho da virtude e da verdade.” (Sobre a câmara de reflexão)

E que, além disso, encontramos reforçada tal questão na instrução do Primeiro Grau do RER:

Onde fostes recebido?

– Em uma Loja justa e perfeita, onde reina a união, a paz e o silêncio.

Em alguns documentos maçônicos, inclusive do RF, alguns escritos aparecem da seguinte maneira: 

“Onde reina a União, a Paz, a Candura, o Silêncio e a Caridade, em um lugar muito iluminado, regular e santo, muito fechado e forte.”

Para fechar este capítulo vou encerrá-lo com um texto de Patrick Negrier, exposto em seu trabalho “Art Royal et Régularité”:   

“A referência explícita à prática iniciada por Pitágoras e por Sócrates, de introspecção, parece ter penetrado na Maçonaria por volta de 1746-1751 na obra “Maçom Desmascarado” onde Thom Wolson convidava o maçom a conhecer a si mesmo para desafiar-se: “Maçom, conhece a ti mesmo, coloca tua esperança em Deus.”

Outras explicações, algumas dão passagem ao discurso

Há quem extrapole esse assunto como um elemento geral essencial para o grau de Aprendiz, uma vez que ele não sabe ler nem escrever e, portanto, precisam de atitudes receptivas e criadoras de expectativas e, portanto, silenciosas, convertendo-a  por sua vez em “leis” que, como diz Valdimir Biaggi se parecem muito com a “omentá” da máfia.

Nesta pseudoescola do silêncio se embosca também Juan Carlos Daza que com seu Dicionário da Maçonaria, confirma também parte dessa bagagem que eu acho que precisa ser desmantelada, em que ele parte de que “O silêncio é o prelúdio da abertura à revelação”, para adicionar “que as lojas impõem ‘a lei do silêncio’ aos aprendizes, se não o mutismo, já que por ele falará seu tutor, o Segundo Vigilante” ; no mesmo sentido e da vertente escocista mais pura, Irene Mainguy reafirma tais teses em seu trabalho sobre o simbolismo no REAA.

Em contraste, devemos salientar que, no Regulateur, fala-se de “não devo”, talvez enfocando a prudência ou dosagem do uso da palavra nesta fase, embora sua proibição nunca apareça.

Talvez pudéssemos aventar que o silêncio na loja está mais para o campo simbolista do REAA que do Rito Francês, que é um rito mais tendente à dialética, e chegadas a este campo, o Aprendiz do Rito Francês não deve perder de vista o fato de que seu primeiro dever é aprender a levantar as questões e formulá-las, a trabalhar no domínio das ideias sem restar uma dúvida, um pouco do mundo das opiniões e convicções, uma vez que a própria caracterização da Maçonaria exige um pensamento específico e original e para isso que melhor meio que o mundo da razão que não pode permanecer em silêncio para, pelo menos, situar-se no plano do discurso.

Nesse sentido, podemos dizer que o Rito Francês deu um passo transcendental e se constitui no Rito da Razão, fugindo de paradoxos simbolistas que o ligam ao silêncio místico de uma providência que flui através de jogos de luzes, onde a coreografia simbolista desempenha um papel mais importante, onde se cabe o discurso dialético.

É por isso que quando o Rito Francês é enquadrado no Iluminismo e reivindicar a presença não do cavalheiro, mas do cidadão, como nos diz o Regulateur, o discurso é recuperado dessa maneira, pois o cidadão tem direito à palavra que além de não poder ser negada, podemos dizer que é a nova ferramenta que se apodera da loja e que vai articulá-la e projetá-la como tal.

Nesse sentido se alinham autores como Beresniak (na seção referente à seção Mestre de Harmonia) que nos dá sua visão do silêncio:

“A música é absolutamente indispensável no ritual, não somente durante cerimônias especiais, mas durante a abertura dos trabalhos ou durante a entrada na Loja. Não substitui o silêncio, já que o silêncio não existe: ela cobre os ruídos inaudíveis, os tremores internos gerados pelo que foi vivido fora do Templo. Cobre as agitações da alma e arrasta as emoções até as alturas. As emoções não geram exercícios de inteligência; mas, pelo contrário, reconfortam o espírito. A música apoia efetivamente a função do ritual de abertura dos trabalhos, uma função que consiste em favorecer um “descondicionamento” e um “recondicionamento” em direção de um modo diferente de ser. E não é por acaso que a palavra “apertura / abertura”, tão densa e bela, também constitui um termo musical. Geralmente, os termos musicais como “composição”, “execução”, “concerto”, “melodia”, “harmonia”, “gama”, “escala”, “compasso”, “tonalidade”, “atonalidade” e outros muitos nos oferecem referências precisas capazes de esclarecer as ferramentas do pensamento. Por isso, o irmão “Mestre de Harmonia” poderia, além de seu trabalho tradicional, sentir-se responsável pela missão de informar sua oficina sobre os recursos que a música pode proporcionar ao estudo sério do simbolismo.”

Para fechar este longo capítulo, que também poderia dar lugar a outras obras sobre as virtudes do silêncio em Loja, que se está programado em muitas ocasiões, e que é muito concentrado em certos estágios, propondo assim dois tipos de silêncio:

O silêncio físico que é como uma reminiscência atitudinal importada de procedimentos e/ou grupos de tipo monástico religioso e implantado na Maçonaria a partir da introdução da abordagem pitagórica e, o silêncio imposto, como estado indispensável para o processo de aprendizagem, que como diz um veterano Mestre e Venerável Mestre de uma loja como o Irmão Joaquín Villalta: 

“Tanto um como o outro têm defensores e detratores, finalmente terminando ad libitum do uso em loja. Sendo da teoria de que “É necessário em certos momentos, mas seu uso não pode ser pautado como um procedimento obrigado nem ritualmente nem atitudinalmente para os aprendizes: é preciso aprender a aquietar os sentidos, mas é preciso buscar condicionamentos (como diz Beresniak) através de processos de estímulo / linguagem fora do campo puramente racional e para isso, o sensível / auditivo é necessário.”

Sem colocar de lado que “no processo de aprendizagem, o Aprendiz. desde sua “falta de conhecimento”, ele deve ter seus momentos de “prática expressiva”, isto é, ele deve poder falar. Não existe Arte (nem mesmo a Arte Real) que não exija uma prática (bem conduzida) desde o primeiro dia. Sem esquecer um paradoxo, pois não se deve esquecer que no início do século XVIII os graus de Aprendiz e Companheiro, eras, conferidos na mesma tarde, ou seja, poderíamos nos perguntar onde estava o silêncio do Aprendiz?

Algumas propostas de regulamento de Loja

Diante dessas situações, diferentes orientações foram criadas: há Obediências, em que, de antemão, os Aprendizes não têm voz ou voto até passarem a Companheiros ou a Mestres, isso aplicando-se uma lógica cartesiana “se eles não falam eles não votam”, portanto, eles colocam os Aprendizes a salvo da possível manipulação e administração da discricionariedade dos Mestres Maçons ou Oficiais da Loja e os fluxos que poderiam ocorrer nas Oficinas.

É uma medida antidemocrática?  Pode ser que sim, mas em pleno século XXI, que se negue a condição de “ser e estar” ao cidadão, ou à pessoa, mesmo que em loja e em virtude de seu aperfeiçoamento pessoal, soa pelo menos estranho e duro.

Mas tem, em todo caso, uma virtude e é que eles sabem de antemão as regras do jogo relacional em que se move a loja e os possíveis benefícios e desvantagens do sistema.

Deixá-lo à discrição, sem que ele se recolha nos Regulamento da Oficina ou da Obediência, traz consigo questões paradoxais e discricionárias que podem resultar ainda mais antidemocráticas e tirânicas que as anteriores, já que joga com as pessoas e Irmãos em função dos interesses, não criando certas regras gerais do jogo, mas muito particulares que se aplicam ou não dependendo de critérios tais como poder, conveniência, oportunidade, etc.

No entanto, existem Obediências e Lojas que não regulam esta situação, nem criam um ambiente regulamentar especial, no qual se afirme que o silêncio não é uma regra de regulamentação e sim uma regra de comportamento individual em loja quanto ao grau de Aprendiz.

Em todo caso, esta questão na órbita do Rito Francês, eu pessoalmente acredito que tal limitação não deva estar presente, a menos que seja voluntária por parte do Aprendiz, pois se partimos de que estamos em um Rito da Razão, um rito por antonomásia dialética, libertário em relação a certos anexos pseudo-religiosos presentes em outros ritos, não deveria partir da imposição de restrições a que a palavra flua, é certo que o Aprendiz não sabe “nem escrever nem falar”, mas o exercício dessas funções é o que lhe dá, em última análise, a capacidade de se tornar um cidadão e que a loja se constitua desde o primeiro momento uma escola de razão e formação, poderia caber a ideia de que em outro século essa limitação poderia fazer sentido, dadas as abismais diferenças sociais e culturais entre Maçons, continuar sujeitando-se hoje  em pleno século XXI, a uma norma que mitiga a liberdade individual de poder falar, ou seja a expressão viva, usando para a língua de outro, não faz sentido

Tema que deixo levantado para o debate.

Autor: Victor Guerra
Traduzido por: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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A Maçonaria e a natureza humana

Bem sabemos que a Maçonaria ou as doutrinas maçônicas estão sempre próximas da natureza humana. Todos sentimos, desde a infância, o desejo de entendermos o universo. Todos pretendemos construir uma imagem deste Universo, de o ordenarmos ao nosso jeito, à nossa volta, construindo histórias; o gérmen da fonte criadora que culmina, sem o sabermos, na filosofia maçônica. Pelo simples fato que o homem nunca deixará de promover o desejo de conhecer, das exigências da ação, na busca incessante da Verdade.

Se, para a Igreja, a Verdade já existe, para a Maçonaria ela é uma busca incessante, absorvendo as necessidades do próprio espírito, sempre num esforço pessoal sobre o Mundo e o destino. Realizado, ao longo da vida nas Lojas maçônicas, o Maçom continua no seu esforço à procura da Verdade, quer num inquérito pessoal, quer sobre o Mundo e o seu destino; inquérito silencioso, cujas conclusões encontram no seu dia a dia, ou nos momentos de calma ou alheamento nas Lojas onde reúne, com mudanças interiores, que ficam evidentes e profundamente meditadas. Assim se manifesta a Maçonaria, um genuíno agente de progresso intelectual.

Esta curiosidade superior é, muitas vezes, confundida com sentimento religioso. Mas ele constitui a aptidão que é própria da nossa espécie. Nela reside o sentimento maçônico, uma vida espiritual por mais humilde que seja é a derradeira ambição das criaturas humanas.

A Maçonaria regular e tradicional não pode, pois, representar sentimentos religiosos e, muito menos, a religião, seja ela qual for, nem confirmar ou definir a existência de uma crença ou de um criador. Mas representa o homem espiritual que se afirma, por si mesmo, numa procura incessante da Verdade.

Uma afirmação que faz progredir a ciência através de todas as formas e experiências; que coloca as religiões como mais um ponto de partida; mas esclarecendo que o esforço humano vai para além delas. A consciência humana é a imagem de um Mundo por explicar. Mas de que mundo falamos? Do Mundo material e do Mundo espiritual.

O Maçom, desta forma, começa por apresentar uma consciência humana de um mundo por explicar e parte desta forma completamente livre para a busca da Verdade. Procura trazer a ânsia da sua curiosidade, da sua certeza intelectual e do seu prazer pela defesa da perfeição moral. Por este desejo de aperfeiçoamento moral e pela certeza intelectual da sua consciência na busca da Verdade, exprime-se conforme a sua época e civilização, sendo certo que deseja ver claro em si e à sua volta.

Amar a Maçonaria e defender a sua Escola equivale a adotar esta consciência e não se limitar às respostas passadas dos formadores maçônicos. A resposta de cada Maçom deve ficar dentro de cada um, mas antecipando-se ao futuro, para poder contribuir diretamente para a construção desse futuro e de forma sistêmica. Passo a passo, a filosofia maçônica conquistará o desconhecido, ultrapassará os limites do imediato, das certezas religiosas, promovendo o risco das nossas interpretações esotéricas e simbólicas que o espírito nos impõe. Sempre frágeis nos primeiros passos de um Maçom, mas proporcionais em compreensão e em função do esforço que o Maçom lhe possa dedicar. Ao retomarmos o caminho das primeiras verdades promovemos o conhecimento e descobrimos novos horizontes.

A natureza humana transforma-se num apelo que move o coração de cada Maçom. De coragem, de compreensão, de tolerância, rodeados de mistérios próprios da natureza humana sempre disponível para a investigação e que a Escola da Maçonaria Regular e Tradicional permite alcançar.

Autores: Álvaro Carva e José Prudêncio

*Os autores são Obreiros da Grande Loja Nacional Portuguesa e membros do Supremo Conselho de Portugal do Rito Escocês Antigo e Aceite.

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Aprendizado maçônico

Geralmente os três graus são alcançados em muito pouco tempo. Porém, o verdadeiro mestrado é realmente alcançado neste período? É improvável que, em tão pouco tempo, alguém possa entender todo o significado da maçonaria simbólica.

A nós é dado um complexo sistema de aprimoramento espiritual e moral, muito rapidamente para que seja entendido imediatamente, e espera-se que balizemos nossa vida futura nele. No entanto levaremos anos de reflexões e estudos para saber como fazer isso.

Nossos rituais dificilmente abrem as nossas mentes no momento em que nos são apresentados. Podemos não enxergar imediatamente a profunda verdade e a luz que a iniciação nos oferece. Na maioria dos casos é necessário desenvolvermos rigoroso trabalho espiritual para atingir um nível de consciência mais elevado.

Entretanto, um súbito despertar poderá acontecer se estivermos preparados em coração e intenção. Para alguns acontece um verdadeiro estímulo mágico, um despertar do espírito dormente ou das capacidades reprimidas, no decorrer dos nossos trabalhos.

No entanto, essa magia com certeza ocorreria com maior frequência se os envolvidos no ritual tivessem a real compreensão do que está sendo feito, e trabalhassem juntos para que isso acontecesse.

A expansão da consciência revela-se gradualmente. Ela acontece como resultado da reflexão a respeito da doutrina e do simbolismo da Ordem e das tentativas de seguir o caminho que seus ensinamentos preconizam.

Segredos elementares e formais são necessários como uma preocupação prática contra a intrusão de pessoas despreparadas e para prevenir profanação. No entanto há segredos filosóficos velados dentro de nossa Ordem muito mais importantes. Eles devem ser por nós distinguidos dos segredos meramente formais comunicados cerimonialmente. Podemos comunicar nosso sistema, no entanto a sua síntese é de percepção individual e pessoal.

Esses segredos não são informações que possam ser compartilhadas ou ocultadas conforme nossa vontade, mas verdades inerentes ao próprio sistema. Verdades que, para termos acesso a elas, precisamos extraí-las do sistema com o nosso esforço pessoal, como a música e a poesia o são de uma página impressa, e que só podem ser consideradas como verdades pela sensibilidade da alma depois de profunda meditação e completa assimilação.

Verdades e mistérios íntimos são inevitavelmente secretos àqueles que não têm a sensibilidade de percebê-los e as Ordens secretas sempre existiram para oferecer iniciação nesses segredos e mistérios, propiciando a seus membros adentrar um santuário silencioso onde possam contemplar e atingir um conhecimento pessoal das coisas que sempre estarão fora da consciência dos profanos.

Um dos caminhos para se desvendar os segredos filosóficos da maçonaria pode estar na percepção do fato solene de que o Divino e a alma humana são em essência uma unidade e que a intenção de nosso sistema de iniciação é, pela instrução e disciplina, trazer a cada um de nós a consciência dessa unidade.

A maçonaria é uma casa do espírito e é para ser vivida tanto no espírito quanto no ritual. Os que a vivenciam sabem que as sagradas leis da vida, como nossos rituais que são imagens dramatizadas da vida, sujeitam-nos a repetidos testes e aqueles que não passam nos testes permanecem auto inibidos para moverem-se em direção a um maior conhecimento e a uma experiência mais profunda.

O propósito da nossa Ordem é ajudar seus membros a tornarem-se iniciados na ciência da vida. Se quisermos conhecer a nós mesmos, a maçonaria oferece um caminho para esse conhecimento. É uma aventura espiritual, adequada para mentes atléticas e aventureiras.

Porém, antes de explorar as profundezas espirituais da Ordem precisamos avaliar o custo. Definir o que estamos prontos e dispostos a construir sobre uma pedra, não em uma fundação pessoal instável. O iniciado vai sofrer ansiedade mental. O progresso na ciência maçônica envolve grandes mudanças em nós mesmos, nossa forma de pensar e de viver.

Os prêmios são imensos, mesmo que saibamos que não são para o nosso desfrute. A iniciação envolve a destruição do nosso senso de egoísmo pessoal que se transforma em desprendimento para a difusão da luz, da sabedoria e do amor a todos os seres.

Finalmente não nos esqueçamos que não é apenas um dever moral de todo o iniciado ajudar ao irmão menos avançado, mas um dever de obediência ao princípio espiritual que declara que aquele que recebe graciosamente precisa e deve conceder da mesma maneira.

Ninguém é iniciado para sua vantagem pessoal, mas para distribuir sua luz para todos que se apresente a ele e seja digno de recebê-la.

Se seguirmos esses preceitos, construiremos um Templo de uma humanidade perfeita.

Autor: Francisco de Assis de Góis

Fonte: Blog Estudos

Referências

Turning the Hiram Key – Robert Lomas

Making Darkness Visible – Robert Lomas

Pensamentos de W. L. Wilmshurt

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Perguntas e respostas sobre o Mestre Instalado

1 – Mestre Instalado é grau, dignidade, cargo, oficialato ou qualidade? 

R – Mestre Instalado não é grau. É apenas um título distintivo para aquele que exerce ou já tenha exercido o veneralato de uma Loja Simbólica.

2 – Se for grau por que nunca fez, e ainda não faz parte dos 33 graus da Maçonaria (Graus Superiores ou Altos Graus)?

R – Como foi dito não é grau. Agora “altos graus da Maçonaria”? O melhor seria “altos graus” como particularidade de alguns Ritos. Maçonaria Moderna Universal e tradicional é composta por três Graus – Aprendiz, Companheiro e Mestre. Daí pelo título de Mestre Instalado não ser nenhum Grau, também não há como lhe associar com os ditos altos graus que nada, mais nada mesmo, tem a ver com o Franco Maçônico Básico. Altos graus, se assim podem ser reconhecidos, são particularidades de alguns Ritos e não da Maçonaria como um todo.

3 – Se não é grau, por que em sessões de algumas Lojas no Brasil, e só no Brasil, os Mestres Instalados são convidados a ocuparem o Oriente do Templo e os Mestres Maçons investidos nos Graus Superiores ou Altos Graus (4° ao 33º) não são convidados da mesma forma para ocuparem o Oriente, sendo que estes sim são reconhecidos por todas as Potências mundiais como Graus Superiores ou Altos Graus?

R – Primeiro que “altos graus” não são reconhecidos mundialmente na unanimidade das Obediências mundiais. Como dito anteriormente, o título de Mestre Instalado, quando existe, e conforme a vertente maçônica faz parte do simbolismo maçônico. Normalmente, ex-Veneráveis têm assento no Oriente, principalmente como distinção para aqueles que já exerceram a presidência de uma Loja Simbólica. Em complemento à questão, qualquer grau dito acima do de Mestre tradicionalmente não faz parte do simbolismo. Portadores dos ditos “graus superiores” são tratados no simbolismo apenas como Mestres Maçons. Repetindo, grau acima do terceiro é particularidade de rito e não faz qualquer diferença em Loja Simbólica.

4 – Qual o avental do Mestre Instalado?

R – Em linhas gerais, ele possui no lugar das rosetas o símbolo do nível/prumo (perpendicular e vertical) chulamente conhecido como “tau” invertido, a despeito que a letra grega “tau” não tem significado algum na Maçonaria, muito menos invertido, ou de ponta-cabeça. Ainda, nos dois lados da face do avental prendem-se duas fitas na cor da borla de cujas pontas aparecem adornos compostos por correntes e bolinhas que tradicionalmente na Inglaterra são, ou eram franjas prateadas.

5 – Qual a joia do Mestre Instalado?

R – Em exercício do veneralato é o Esquadro de ramos desiguais. Na França o ex-Venerável usa uma joia composta por um Compasso sobre um quarto de Círculo com a figura do Sol ao centro e às vezes substituído pelo Olho Onividente. Já na Inglaterra o “Past-Master” carrega a joia composta pelo Esquadro e a representação pictográfica da 47ª Proposição de Euclides (Teorema de Pitágoras). Como esclarecimento, na França “instalação” em Maçonaria é sinônimo de posse e tradicionalmente não existe a figura do Mestre Instalado, senão do Venerável Mestre e do ex-Venerável. Já o título de Mestre Instalado e Mestre Instalado Passado é tradição dos Trabalhos Ingleses e, por extensão, da Maçonaria Norte-Americana.

6 – Quais os paramentos do Mestre Instalado?

R – Além do avental e da joia citados nas questões 05 e 06, cuja joia fica presa em um colar decorado como motivos maçônicos (geralmente ramos de acácia), o Mestre Instalado usa punhos também decorados que, em muitos lugares estes somente são privativos do Venerável (no Brasil, o GOB adota esse procedimento).

7 – Quando, onde e como se declarar/identificar Mestre Instalado?

R – Não entendi a questão, salvo se for para a composição de um Conselho de Mestres Instalados para a instalação de um Venerável. Esse Conselho legalmente só existe para tal e nunca para interferir na direção da Loja. Um Conselho desse tipo é prerrogativa da Obediência que a nomeia para o ato da Instalação e a dissolve após estiver à missão cumprida. No Grande Oriente do Brasil, o RGF regula as atribuições do Mestre Instalado.

8 – Quando, onde, por que, como e em quais circunstâncias foi instituída a Instalação de Mestres na Maçonaria?

R – A figura do Mestre Instalado é tradição da Maçonaria inglesa com o advento da Moderna Maçonaria e a inauguração do primeiro sistema obediencial. Nos anos que se seguiram com a fusão dos Antigos (1.717) e os Modernos (1.751) que resultaria na Grande Loja Unida da Inglaterra em 1.813, o sistema inglês não tardaria, por influência da instalação do Rei no trono inglês, a adotar esse costume criando uma cerimônia específica acompanhada de uma exposição lendária o que viria resultar no título conhecido como Mestre Instalado. A propósito, o Grau de Mestre na Maçonaria somente viria aparecer a partir de 1.724. Anteriormente ao fato a Maçonaria Operativa e posteriormente Especulativa era composta por apenas dois graus. A razão do título de Mestre Instalado, provavelmente esteve ligada a aristocratização da Sublime Instituição (ver a influência da Royal Society) que a partir da fundação da Primeira Grande Loja em Londres, já se preparava e previa o intento em um futuro breve.

9 – Mestre Instalado é uma invenção da Maçonaria Brasileira ou faz parte da história cultural da Maçonaria Inglesa? Ou foi instituído pelas Grandes Lojas?

R – Como já comentado, o procedimento de instalação é costume integrante da Maçonaria inglesa. No Brasil em primeira instância isso acontecia nas Lojas que praticavam os Trabalhos de Emulação, confundido como título com o de York, comum no sistema Norte Americano. A Maçonaria brasileira que é filha espiritual da França, sempre teve na sua grande maioria de Lojas ritos ligados a essa espinha dorsal, dentre esses o rito majoritário no País que é o Escocês Antigo e Aceito.

Ao longo da história da Maçonaria no Brasil, uma dissidência do GOB daria origem em 1.927 às Grandes Lojas Estaduais (CMSB). Ocorreria então o fato do reconhecimento dessa nova Obediência pelas Grandes Lojas Norte Americanas que praticavam, e ainda praticam o Rito Americano que é decalcado nos Antigos de York de origem inglesa. Por essa influência as Grandes Lojas Brasileiras adotariam equivocadamente no Rito Escocês Antigo e Aceito (que é de origem francesa) práticas que poderíamos dizer anglo-americanas. Dentre as tais, apareceria o ato de Instalar o Mestre eleito para o veneralato da Loja.

Em termos de Maçonaria brasileira, esta se manteve por um longo tempo com a Instalação de Mestres restrita às Grandes Lojas, todavia ao longo desse tempo, muitos obreiros acabariam se mudando de uma para a outra Obediência e, por influência de Irmãos egressos da Grande Loja em aporte no Grande Oriente do Brasil, a partir de 1968 o GOB passaria também a praticar o costume de Instalação que prevalece até a atualidade de maneira consuetudinária. Mais tarde, nos anos de 1.972 e 1973 haveria o segundo grande cisma no seio do GOB que resultaria nos Grandes Orientes Estaduais Independentes (COMAB). Com essa dissidência e estando o costume de Instalação já arraigado no GOB as lojas pertencentes à COMAB herdariam também esse costume que hoje tem se tornado uma unanimidade na Maçonaria verde e amarela, fazendo com que ritos que nunca possuíram tradicionalmente a cerimônia de Instalação viessem praticar um costume neles inexistentes apenas em solo brasileiro.

10 – Há uma supremacia hierárquica do Mestre Instalado sobre o Mestre Maçom não instalado?

R – Não existe supremacia alguma, salvo quando o Mestre Instalado está na posse do Primeiro Malhete da Loja – o Venerável Mestre. Mestre Instalado como fora dito anteriormente é um título distintivo e, para adquirir esse título, inquestionavelmente ele precisa ter atingido a plenitude maçônica que é o Grau de Mestre, além de ser eleito para o cargo. Plenitude nesse caso significa o último estágio de evolução na Maçonaria Universal que é o simbolismo que, por extensão, possui apenas três graus. Não é dado o direito a nenhum Mestre Instalado entender que tem supremacia sobre os demais Mestres. O que pode existir, conforme a Obediência, no caso do Brasil, é que os Regulamentos indiquem atribuições e direitos relativos ao título distintivo, como por exemplo, ocupar lugar no Oriente, ou em se tratando da ausência precária do Venerável, dirigir uma Sessão Magna de Iniciação, Elevação e Exaltação, levando-se em conta de que o Primeiro Vigilante não seja também um Mestre Instalado.

11 – Se há a supremacia, há o reconhecimento dessa supremacia pela Grande Loja Unida da Inglaterra (dita Mãe da Maçonaria)?

R – Não há supremacia e a Grande Loja Unida da Inglaterra dificilmente se envolve nessas questões, já que lá existem os Preceptores para as diversas Províncias normalmente indicados pelo Grão-Mestre Provincial, além do livro de regulamentos editado sob o título de Regras Gerais. Geralmente na Maçonaria inglesa o Past Master imediato tem função de auxiliar o Mestre da Loja, porém sem qualquer intromissão nos trabalhos.

12 – Será que a dignidade do Mestre Instalado não é compatível apenas e tão somente com os ditos Ritos anglo-americanos, tais como o os Ritos Craft e York (Emulação)?

R – Esse título distintivo como já citado anteriormente é tradição da Maçonaria inglesa e, por conseguinte da americana. Particularmente a Instalação do Mestre da Loja como cerimonial lendário não é procedimento dos ritos de origem francesa. Para esses, quando porventura venham existir é um mero produto de enxerto.

Cabe aqui ainda uma consideração: No Craft inglês (working) não se reconhecem ritos, porém “Trabalhos”, por exemplo – Trabalho de Emulação, Trabalho de Bristol, Trabalho de Humber, Trabalho de Taylor’s, Trabalho de West End, etc. Já nos Estados Unidos da América do Norte o título de rito é reconhecido, cuja imensa maioria das Lojas pratica o Rito Americano que é baseado nos Trabalhos Antigos de York (inglês), organizado em solo americano por Thomas Smith Web, daí ser comum intitulá-lo como Rito de York.

Por esse esclarecimento o que se pratica aqui no Brasil comumente conhecido como York, não faz sentido algum, pois o aqui perpetrado é o Trabalho de Emulação e não o Rito de York (americano) como equivocadamente é conhecido.

13 – Os Mestres Instalados não são Mestres Maçons eleitos para administrar o Santo Arco Real, que também não é um grau?

R – Mestres Instalados que fazem parte dos “side degrees”, ou graus laterais, nada tem a ver com o Franco Maçônico Básico. Embora isso possa até parecer, o costume somente ingressaria para acomodar uma situação para os intitulados graus de aperfeiçoamento ingleses. Os integrantes do Santo Real Arco são recebidos das fileiras dos Mestres Maçons sem que haja a condição sine qua non de serem Mestres Instalados. Daí um Mestre Instalado do Santo Real Arco não é o mesmo Mestre Instalado do Franco Maçônico Básico, porém uma instalação específica do grau lateral.

Volto a repetir que Maçonaria Universal da atualidade possui apenas três graus. Nada do que acontece nos ditos graus superiores pode interferir no simbolismo. O contrário sim, pois qualquer obreiro que aspire galgar esses sistemas distintos, necessariamente precisa ser um Mestre Maçom.

14 – Será o Mestre Instalado mais um enxerto na Maçonaria?

R – Da Maçonaria em geral não, todavia poderia assim ser considerado no caso dos Ritos que não possuem tradicionalmente esse costume.

15 – É certo assinar a lista de presença em sua Loja ou em visitas a outras, no campo – GRAU – como Mestre Instalado, ou seria o correto 1, 2 ou 3, ou ainda, Apr∴ Comp∴ ou M∴M∴?

R – Como extensivamente dito, Mestre Instalado não é grau, porém um título distintivo. Se a coluna do rol de presenças solicita o grau do Irmão, ele deveria indicar apenas o seu grau simbólico.

16 – Como deve ser o tratamento ao Venerável que saí do comando da Loja, Ex-Venerável, “Past master” ou Mestre Instalado? Ou outra forma?

R – Nos ritos de vertente francesa – ex-Venerável. Nos trabalhos de vertente inglesa e Rito Americano (York) – “Past Master”. Cabe aqui também um comentário: no Brasil, além da inserção de um costume que não é tradicional em alguns ritos por conta das nossas Obediências, ainda uma boa parte delas trata ex-Veneráveis com o título de “Past Masters”.

17 – O Maçom só tem o título de Mestre Instalado enquanto ocupar o cargo de Venerável, ou mesmo depois de deixar este cargo? Por quê?

R – Há certo critério analítico no caso. Onde é tradição a Instalação, o título é sempre o de Mestre Instalado, pois todo o Venerável obrigatoriamente será um Mestre Instalado. Assim todo aquele que já exerceu o veneralato será sempre um Mestre Instalado. O que o diferencia é que ele é um Mestre Instalado no exercício do cargo de Venerável. Deixando o cargo ele continua possuir o título distintivo, só não é o Venerável. No caso da Maçonaria brasileira que adota a instalação indistintamente é a mesma coisa.

Resumindo – o título de Mestre Instalado é vitalício. Um Venerável que por extensão é sempre um Mestre Instalado, somente é Venerável no exercício do cargo. Deixando-o será um ex-Venerável, todavia sempre um Mestre Instalado.

18 – Depois de deixar o cargo de Venerável o maçom não volta a ser apenas mais um Mestre em Loja?

R – Penso que a pergunta não faz muito sentido por tudo que foi dito anteriormente. Ora, se para obter o título de Mestre Instalado o obreiro obrigatoriamente deva possuir a plenitude maçônica (grau de Mestre), ele será sempre um Mestre Maçom que possui o título distintivo vitalício de Mestre Instalado. Todo Mestre Instalado não volta a ser. Ele é um Mestre Maçom.

19 – Não seria o correto instalar um Mestre Maçom que seja investido ao menos no Grau 4°?

R – Exaustivamente eu já disse – graus superiores, ou altos graus como pomposamente muitos maçons brasileiros gostam de salientar, não interferem e nada tem a ver com o simbolismo. No rigor da lei, nenhum Mestre Maçom que esteja colado em qualquer um desses “graus” pode se considerar melhor do que o Mestre. O Mestre Maçom é aquele que atingiu a plenitude maçônica. A pura Maçonaria Universal é composta por três Graus a partir de 1.724, antes possuía apenas dois. Tenho incansavelmente dito: qualquer grau, ou sistema acima do terceiro é particularidade de um Rito maçônico que não o faz melhor por possuir essa particularidade. O que diríamos então sobre ritos que não adotam nenhum sistema ou grau acima do terceiro?

20 – Quais as prerrogativas de um M∴I∴?

R – Os Regulamentos das diversas Obediências regulam esses procedimentos. No caso do Grande Oriente do Brasil sugiro consultar o Regulamento Geral da Federação.

21 – Quais os critérios para a instalação de um Mestre?

R – Estar colado do Grau de Mestre Maçom obedecido o interstício regimental de acordo com a Obediência e ser eleito para o cargo de Venerável da Loja.

22 – Onde ele tem assento?

R – O Venerável no trono (sólio), os ex-Veneráveis (Mestres Instalados) no Oriente, porém abaixo do sólio.

23 – Onde consta na planta do templo este assento?

R – Se a pergunta estiver direcionada ao REAA∴, sinceramente penso que deverias consultar o Ritual de Aprendiz do REAA∴ em vigor, páginas 22 e 23, no caso do Grande Oriente do Brasil.

Em sendo de outro Rito, consultar o ritual específico e ainda, inexistindo a indicação, sugere-se consultar o Secretário do rito. Outras Obediências certamente fazem a indicação da mesma forma nos seus respectivos rituais.

24 – Qual a diferença entre o avental do Venerável? Existe o avental de Mestre Instalado?

R – O do Venerável está descrito na resposta nº 4. O do Mestre Instalado que deixou o cargo de Venerável tradicionalmente tem os emblemas nível/prumo presos aos aventais cobertos por fios bordados na mesma cor da orla do avental. Algumas Obediências não adotam esse sistema, como é o caso do GOB, onde o avental permanece o mesmo, sendo que o que o diferencia é que o ex-Venerável possui joia conforme descrita na resposta nº 5 quando alude ao costume francês. Também no GOB o ex-Venerável não usa punhos. O Ritual de Mestre Maçom do GOB para o REAA∴ em vigência demonstra essa explicação.

25 – Se em Loja Simbólica os Aprendizes e Companheiros não podem subir ao Oriente, reservado somente os Mestres e Mestres Instalados, por que essas sessões são realizadas em Templos que possuem dois pisos, sendo o Oriente o mais elevado?

R – No caso de ritos que assim procedem, o desnível indica o limite do quadrante. Para esses casos, ao Oriente delimitado só tem acesso em Loja aberta os Mestres Maçons. Isso implica em doutrina iniciática, cujas explicações não fazem parte do mote desses questionamentos. O costume de elevar o Oriente não é unanimidade nos ritos maçônicos.

26 – Será que o Oriente elevado e circunscrito nunca fez parte da ritualística dos graus simbólicos e todos os Irmãos deveriam estar num mesmo plano, visto que um dos pilares da maçonaria é a IGUALDADE?

R – Aqui não é bem o caso de igualdade, porém de doutrina iniciática. Na pura Maçonaria nunca existiu essa divisão topográfica que limita o quadrante oriental. Nesse caso o Oriente é a parede oriental e o lugar do Venerável, considerando-se também os Irmãos dispostos à sua esquerda e direita. Com a profusão dos ritos a partir do século XVIII, sistemas doutrinários viriam caracterizar o Canteiro (Loja) de acordo com muitos costumes regionais e culturais.

27 – Qual outro Rito é semelhante ao Rito Schroeder que todos rodeiam o Tapete em um mesmo plano, Aprendizes, Companheiros, Mestres Instalados ou não?

R – Não é bem o caso de rodear o Tapete e nem o de se ocupar lugar em Loja indistintamente. Nos Trabalhos ingleses, por exemplo, a Sala da Loja possui o mesmo plano, destacando-se apenas o sólio por três degraus onde tem assento o Mestre da Loja (Venerável). Agora, Aprendizes se sentam no Norte e Companheiros no Sul. Já ritos de ilharga francesa geralmente há desnível e divisão entre o Oriente e Ocidente.

Nesse particular o Rito Escocês Antigo e Aceito que é de origem francesa, nos primórdios do seu simbolismo como pode se notar no primeiro ritual simbólico (1.804) o Templo era exatamente no mesmo nível e nem existia balaustrada. Por influência dos tais “graus superiores” que seriam incorporados pelo Grande Oriente da França junto com o simbolismo até o Grau 18 no primeiro quartel do Século XIX, criavam-se as Lojas Capitulares. Para satisfazer as particularidades capitulares, o Oriente era então elevado e dividido por uma balaustrada. Posteriormente com o retorno dos graus a partir do 4 até o 18 para o Segundo Supremo Conselho na França, extinguiam-se as Lojas Capitulares.

O problema é que mesmo extintas as Lojas Capitulares, o Oriente elevado e a balaustrada acabariam equivocadamente por permanecer no simbolismo do Rito. Essa prática arraigou-se de tal forma que hoje é praticamente impossível extirpá-la do simbolismo do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Autor: Pedro Juk

Fonte: JB News nº 754

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O lado sombrio de Hiram Abiff

Introdução

O século 19 viu florescer uma enormidade de graus e sistemas, a maioria dos quais acabou não sobrevivendo. Seria possível passar décadas escrevendo sobre eles e a maioria traz apenas variações em cima dos mesmos temas. Leia-se: Mudam os personagens e os cenários, mas as lições são fundamentalmente as mesmas.

Nessa profusão de graus, contudo, um deles chama muito a atenção: O grau de Mestre Marcado. Pouco se sabe sobre esse grau, exceto pelo fato de que ele surgiu no século 18, supostamente na Escócia, chegando a ser praticado também nos EUA.

Esse grau fazia parte de um sistema de 44 graus, chamado de Early Grand Rite of Scotland, algo como “Grande Rito Primitivo da Escócia”, que não deve ser confundido com um homônimo posterior criado por Ambelain. Hoje extinto, alguns graus desse sistema sobrevivem na Allied Masonic Degrees (AMD) e entre os Knight Templar Priests (KTP). Não se sabe, contudo, se o grau é originário desse sistema, ou apenas foi a ele agregado.

O que torna o grau diferente?

Mas o que o diferencia dos demais graus é o fato de ser o único que traz o que chamo de lado sombrio de Hiram Abiff, apresentando-o como invejoso, negligente e responsável por homicídio culposo!

E, por se passar num período anterior à sua morte, acaba por trazer uma interpretação totalmente diferente para o grau 3. Para os maçons que receberam o grau, certamente serviria como um “twist” no estilo dos filmes hollywoodianos que os faria pensar que isso muda tudo. Abaixo, passo a narrar a lenda desse grau:

A lenda de Hiram e Cavelum

O grau se passa no começo das obras do Templo de Salomão. Nessa época, Hiram Abiff teria ido a Jerusalém para participar da construção do Templo de Salomão, achando que ele seria o Mestre-Construtor.

Ao chegar, contudo, deparou-se com o fato de que um parente do rei Salomão, denominado Cavelum[1], havia sido apontado para supervisionar a obra. Hiram Abiff teria sentido inveja de Cavelum e, indignado por não ter recebido a honraria que esperava e ter sido relegado a um papel de menor importância, teria ficado amargurado.

A amargura de Hiram teria atrapalhado na condução de seus trabalhos.

Certo dia, Hiram inspecionava os trabalhos sobre o portão norte do complexo do Templo. Totalmente absorvido por seus sentimentos, Hiram não percebeu que uma das pedras estava mal fixada. Hiram acabou deslocando essa pedra, que caiu justamente sobre Cavelum, matando-o.

Profundamente entristecidos pelo acidente, Hiram Abiff e o rei Salomão mandaram fechar o portão norte.

Observações

O leitor que conhece a lenda de Hiram Abiff imediatamente perceberá que o fechamento do portão norte teria impacto direto sobre a lenda do terceiro grau, que o autor do artigo evitará de comentar por zelo maçônico.

O objetivo central dessa lição era a ideia de que a falta de domínio sobre nossas paixões pode levar a consequências desastrosas, mesmo que essa não seja a nossa intenção.

Mas, mais do que isso, o grau pretendia fazer com que o recipiendário visse a lenda de Hiram como parte de um ciclo de causa e efeito, provocando-o a pensar se as injustiças sofridas não seriam decorrentes de ações anteriores, por nós desconhecidas.

Problemas de aceitação

Todavia, para ensinar essas lições, o grau sacrificava a reputação de Hiram Abiff. O que nos leva ao comentário de Arthur Edward Waite:

“Por um lado, a lenda do Mestre Marcado o representa como em primeira instância subordinado a Cavelum, um dos parentes reais, que estava encarregado das operações antes da chegada daquele artista cuja genialidade e fidelidade encheram o mundo da Maçonaria com louvor para sempre. Essa é a anomalia na superfície; mas o que se segue, também na superfície, é pior, pois é uma mancha na reputação do Construtor. Ele é descrito como descontente e invejoso por causa de sua posição inferior; e sua negligência conduziu a uma fatalidade que tem quase um aspecto homicida.” (1911)

Teria sido esse sacrifício ousado demais, mesmo que a lição simbólica, abaixo da superfície, seja nobre?

Nos dias atuais, isso seria encarado com relativa naturalidade, pois nossa sociedade se acostumou com o fato de que até os super-heróis são às vezes reportados como tendo lados obscuros, sombrios e, por muitas vezes, recheados de esqueletos no armário.

Semelhantemente, nenhum maçom minimamente esclarecido nos dias de hoje acredita que a lenda de Hiram Abiff seja uma história literal.

Porém, se até hoje em dia as pessoas reagem mal quando não gostam de um dado desdobramento na história de um personagem de um filme ou série, quanto mais um personagem tão central para um sistema filosófico, como é o caso de Hiram Abiff na Maçonaria.

Assim sendo, não é improvável supor que a ousadia na lenda desse grau tenha causado aversão a muitos maçons no passado.

Teria sido essa amarga impressão um dos motivos pelos quais acabou deixando de ser praticado? Ou, talvez, a razão pela qual outros graus foram preservados por outros corpos e esse acabou sendo deixado de lado?

O último registro que se tem de qualquer coisa referente a esse grau ocorre numa alusão à sua lenda, feita num jornal neozelandês datado de 1937, o que dá a entender que o grau pode ter se espalhado por mais países.

Embora não seja mais praticado, pelo menos não pelos corpos maçônicos convencionais, o grau conserva ainda grande curiosidade por ter a distinção de ser singular na releitura que faz de um personagem tão importante para a Maçonaria.

Autor: Luis Felipe Moura

Fonte: O Prumo de Hiram

*Luis Felipe é M∴ M∴, membro da ARLS Conde de Grasse-Tilly 301 (Grande Oriente Paulista/COMAB). É bacharel em Letras (Inglês), mestre em Teologia e em Psicanálise, atualmente trabalha como psicanalista e professor de Bíblia Hebraica.

Nota

[1] – O nome Cavelum não é bíblico. E há duas hipóteses etimológicas: Pode ser que venha do latim cavellum, que significa um pequeno buraco ou lugar oco, talvez aludindo à pedra posta sobre o portão norte. Ou pode ser que faça alguma alusão à cavalaria, já que vários autores e rituais se empenharam em fazer conexões entre a cavalaria e a lenda da construção do Templo.

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Referências

CAMPBELL, WM. The Stone of Destiny. The New Zealand Herald, Auckland, 28 jan. 1937, p. 13.

HUGHES, Paul T. Old Legends of Hiram Abiff. Tucson: Southern Arizona Research Lodge, 1982.

WAITE, Arthur E. A New Encyclopedia of Freemasonry, vol. II: Mark Masonry. Nova Iorque: Cosimo, 1921.

WAITE, Arthur E. The Secret Tradition in Freemasonry and an Analysis of the Inter-Relation Between the Craft and the High Grades, vol. I. Londres: Rebman Limited, 1911.

SMITH, M.A. Common Words with Curious Derivations: Cavil. Londres: Bel and Daldy, 1865.

ARCHITECT. Grand Council – Allied Masonic Degrees. Disponível em: <http://www.amdusa.org/degrees/ARC.html>. Acesso em: <29/12/2019>.

HISTORY. The Grand College of America – Holy Royal Arch Knight Templar Priests. Disponível em: <http://www.hraktp.org/history.html>. Acesso em: <29/12/2019>.

EGSR: The Early Grand Rite of Scotland. Disponível em: <http://ecossais.net/index.html>. Acesso em: <29/12/2019>.

O Inefável da Maçonaria

“O mistério gera curiosidade e a curiosidade é a base do desejo humano para compreender” (Neil Armstrong)

Na Grécia antiga, à iniciação aos mistérios do sagrado denominava-se mistagogia, que é uma palavra composta de duas partes: mist + agogiaMist relacionado a mistério, mysterium; agogia, agein, ligado a conduzir, guiar. Portanto, guiar para dentro dos mistérios; iniciar ao conhecimento, à interpretação dos mistérios. Daí o mistagogo, o sacerdote que iniciava os neófitos nos mistérios; o guia (mentor/mestre) que orienta desde os primeiros passos.

Por sua vez, mysterium vem da palavra muein, que significa “fechar os olhos e a boca”, enxergar o segredo e calar-se. O conteúdo é um segredo acessível somente às pessoas que estão sendo iniciadas e que serão guiadas por um caminho que as leva do mundo perceptível, real, envolvendo a vida, os símbolos e ações rituais, em direção a seu significado escondido. Diz o Aurélio: o segredo é o que se oculta à vista, ao conhecimento, que não se divulga. Portanto, o mistério está estreitamente ligado a silêncio, prudência e segurança.

Na Antiguidade Clássica, as escolas não tinham os contornos como hoje compreendemos, pois a cultura era adquirida pela forma iniciática e com um sentido de sabedoria sagrada revelada. Os sacerdotes da alta hierarquia dos mistérios da Grécia e do Egito (hierofantes) e os legisladores (arcontes) excitavam a curiosidade das pessoas e ocultavam as verdades sob o véu de alegorias encorajando dedicação e estudos. Os “Mistérios” eram dramatizações que exibiam alguma lenda significativa das mudanças da natureza. Cada centro de ensinamento possuía uma história simbólica que servia de base a toda concepção dos mistérios onde divindades eram reveladas.

Não obstante o passar do tempo, como as pessoas gostam de contar histórias, que crescem e se multiplicam de fogueira em fogueira, os mistérios se renovam e os exemplos e narrativas se frutificam sempre envoltos em diferentes roupagens e denominações. Conforme ensinou Gustav Meyrink, escritor, dramaturgo, tradutor e banqueiro austro-húngaro, que escreveu principalmente dentro do gênero literatura fantástica,

“Quem não tem a intuição suficiente para descobrir por si mesmo o mistério, não é digno de possuí-lo por outros meios.”

A Ciência existe no mistério e o que não faltam são fenômenos que fogem à compreensão comum e intrigam pesquisadores, sendo a origem da vida, surgida há não mais que 4,2 bilhões de anos, o mais desafiador deles. E a pergunta que sempre intrigou os cientistas é exatamente porque as coisas são do jeito que são. E o ser humano, de modo geral, diante da morte, se enche de medo. É a dúvida sobre o mistério da transformação.

Hoje temos a difusão da moderna tecnologia, na iminência da geração de um “ser artificial e inteligente”, com contornos de algo fascinante e misterioso, mas tratando-se apenas e tão somente de uso intensivo da informática, que em breve tornará muito difícil separar o que é real do digital. Com o avanço das pesquisas sobre prevenção e tratamento de doenças, vislumbra-se mesmo a criação de um ser pós-humano, o que é bem mais assustador.

Na sua obra “2001 – Uma odisseia no Espaço”, Arthur Clark dizia que “qualquer tecnologia suficientemente avançada parece ser mágica”, e como sempre, poucos são os “iniciados” nessa seara e despertam curiosidade quanto à aura mística, ao simbolismo e linguagem cifrada através da qual se comunicam e protegem seus conhecimentos e descobertas, aí incluindo segredos militares, empresariais e de Estado, em muitas situações protegidos por legislações e estratégias digitais de segurança específicas. A guerra ora em andamento na Ucrânia acontece também no espaço cibernético, com sites oficiais sendo atacados e sanções sendo aplicadas às plataformas de notícias estatais russas. Nessa guerra híbrida, a tecnologia já é considerada um novo tipo de “soldado”. Cibercrime e invasão de privacidade estão aí para ficar.

Todo negócio tem o seu segredo e, concordemos ou não, todas as disciplinas (economia, matemática, física…), religiões, governos, associações etc., têm lá seus mistérios e uma linguagem própria, carregada de jargões, que não é clara para os leigos e é acessível apenas para os iniciados e pertencentes às respectivas bolhas.

Conforme ensina a doutora em teologia Ione Buyst (2011),

“O mistério é uma realidade tão rica, complexa, abrangente e profunda que é impossível expressá-la ou explicá-la racionalmente. O mistério não é irracional, mas ultrapassa nossa razão. Por isso, só temos acesso a ele por um caminho feito de experiência e de sabedoria, que valoriza o conhecimento simbólico.”

Nos registros do Concílio Vaticano II, NA 2, consta:

“Desde os tempos mais remotos até aos nossos dias, encontra-se nos diversos povos certa percepção daquela força oculta presente no curso das coisas e acontecimentos humanos; encontra-se por vezes até o conhecimento da divindade suprema ou mesmo de Deus Pai.”

Como principal instrumento pedagógico, a Maçonaria veicula em seus símbolos, mitos e alegorias, mensagens que estimulam reflexão sobre a espiritualidade, somente acessíveis aos iniciados que conhecem a linguagem e decodificam os seus sentidos, de acordo com a capacidade interpretativa de cada um, protegidos por compromissos e juramentos de discrição, favorecendo a identificação e a coesão do grupo. A interpretação e a compreensão de suas verdades é que farão o diferencial na percepção do mundo e na prática das virtudes a eles vinculadas. Por cultuar a razão, a Maçonaria não possui dogmas[1], porém usa essas ilustrações como um caminho para o autoconhecimento. Seus símbolos não são objetos de adoração, mas se constituem em ícones que veladamente encerram Verdades.

Esse “Iniciado” distingue-se do “Profano”[2] (do latim: pro=ante + fanum=templo). O primeiro, tendo ingressado no Templo simbólico da Maçonaria, conhece-o por dentro; o segundo, popularmente referenciado como leigo, fica fora dele, fora do Templo da Sabedoria ou de um real conhecimento da Verdade e da Virtude, das quais reconhece unicamente os aspectos profanos ou exteriores que constituem a moeda corrente do mundo.

Nas religiões e escolas filosóficas antigas (egípcios, persas, gregos, judeus, romanos, celtas e escandinavos), homens e mulheres de qualquer posição e cultura podiam solicitar sua iniciação nos diversos mistérios. Os ensinamentos ministrados aos iniciados, ou discípulos, denominavam-se esotéricos (do grego, esoterikós – interno) ou Mistérios Maiores. E aqueles transmitidos ao público em geral, sem restrições, conhecidos como exotéricos (do grego, exoterikós – exterior) ou Mistérios Menores.

Para Buyst (2011),

“Quem olha de fora, ou quem está dentro sem ter sido iniciado, não conseguirá captar este ‘mistério’ e ser transformado por ele”. “O conhecimento esotérico aliado ao aprendizado permite estabelecer a diferença entre teoria e realidade, consubstanciando-se a experiência pessoal na condição essencial para discernir a opinião da verdade, que é o conhecimento interior.”

Nos evangelhos reconhecemos essa forma de ensinamento. Quando perguntado por seus discípulos por que usava parábolas para falar ao povo, Jesus disse: “Porque a vocês foi dado conhecer os mistérios do Reino do Céu, mas a eles não” (Mt, 13,11). “Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que ele revela seus mistérios” (Eclo, 3,20). “A vós foi dado o mistério do Reino de Deus: aos de fora, porém, tudo acontece em parábolas, a fim de que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam” (Mc 4, 10-12). Para os Cristãos, o mistério de Deus se revela na pessoa de Jesus.

Anatalino (2013) afirma que todo Maçom, ao ser iniciado nos augustos Mistérios da Arte Real (outra denominação para a Maçonaria) está na verdade penetrando no Reino da Enteléquia, vocábulo este que significa a qualidade de ser que tem em si mesmo a capacidade de promover seu próprio desenvolvimento. Essa passagem do estado de não iniciado para iniciado se dirige mais à mente inconsciente do Aprendiz do que à sua consciência. Na Loja, o simbolismo permite ao não Maçom que vivia nas trevas da ignorância encontrar a luz, representada pelo conhecimento, renascer tal como uma semente depositada na terra para uma nova vida, a vida maçônica, que aprimorando o caráter o torna capaz de exercer na sociedade um papel diferenciado, como um agente cidadão.

Esse mistério da cerimônia de iniciação marca o fim de um ciclo e início de outro, como uma “morte” seguida de uma aparente ressurreição ou renascimento simbólico dentro de uma nova família bastante numerosa, simbolizando renovação ou rejuvenescimento, mediante encenação de testes alegóricos, contemplando ritualísticas próprias do ofício de construtor e os conhecimentos esotéricos a elas vinculados, com um simbolismo arquitetônico introduzido não para servir às crenças, porém ligado aos mistérios da edificação do templo interior, com foco no despertar da consciência, visando a promover no homem a busca do conhecimento de si mesmo, ao gerar uma visão de sua própria estrutura mental[3].

A experiência da iniciação é individual, cada um absorve de uma forma muito particular, por isso se diz que é inefável. Tão simples e considerada “um mistério!”. Devemos nos lembrar de que passamos por várias “iniciações” ou “rituais de passagem” em nossa vida, como aniversários, formaturas, casamentos etc.

Na sequência de sua recepção como Aprendiz, o neófito (planta nova) passa a ser instruído nos primeiros mistérios que somente a ele caberá desvendar, sendo apresentado a uma sequência de instruções e instrumentos simbólicos que o ajudarão nessa empreitada para desbastar a pedra bruta da sua personalidade, numa escalada de graus sobre os quais passará a refletir e trabalhar, paulatinamente tomando ciência dos segredos a que aspira conhecer, e que se resumem na vivência dos princípios maçônicos, os quais não podem ser considerados mistérios na sua essência e sim um farol a iluminar o caminho do aperfeiçoamento pessoal.

Esses assim chamados “Mistérios Maçônicos” são constituídos de todas as verdades morais, ocultas sob a forma de alegorias, expressas por sinais, palavras, números, fórmulas, lendas e cerimoniais, que funcionam como auxiliares de memória. Mas, é importante que fique bem claro, a Maçonaria não é detentora de nenhum segredo oculto, fórmulas mágicas ou poderes escondidos. O considerado “Mistério” maior e pouco compreendido é representado pela magia que encerra o amor entre os irmãos, uma verdadeira forma da União, que purifica a amizade e as relações fraternais.

A recepção ou aceitação de um novo membro na Ordem deve ser entendida como o ingresso em um novo estado de consciência, e num modo de ser interior, do qual a vida exterior é efeito e consequência. Pressupõe, no entanto, o compartilhamento, no seio de uma comunidade iniciática, de um “segredo” por meio de símbolos e instruções expressos por um ritual que fará de um candidato um autêntico iniciado ao grau de Aprendiz Maçom. Nicola Aslan ensina que “não existem segredos na maçonaria para aqueles que se propõem a estudar”. Ademais, esses supostos segredos podem ser vistos por qualquer um, mas por estarem no fundo dos corações dos obreiros não são desvendados pelos olhos ou sentidos, e sim pelo estudo, pesquisa e o silêncio da meditação.

Porém, o que mais se destaca é a questão do “segredo” e que é própria de todos os grupos e organizações que desenvolvem algum conhecimento corporativo com linguajar próprio e por isso representam a garantia de que os Maçons não estão sós no mundo e abandonados à própria sorte, pois aprendem a se reconhecer em qualquer ambiente. A necessidade de manter esses “segredos” de reconhecimento mútuo, tratados nos recintos das Lojas, que funcionam como um canteiro simbólico, e restrito aos seus membros, vem de uma tradição de cuidados que deviam ser mantidos em um ambiente de intolerância e repressão que a Ordem sofreu ao longo da história, quando uma simples indiscrição podia custar prisão, tortura ou até mesmo morte, e por isso se mantinha “invisível”.

A principal causa do ódio e perseguição contra os cristãos primitivos na sociedade romana devia-se ao estilo de vida diferenciado. A humanidade sempre olhou com suspeita para aqueles que são diferentes.

“A conformidade, não a distinção, é o caminho para uma vida livre de problemas, e quanto mais os cristãos primitivos levaram sua fé a sério, mais eles corriam o risco da reação da multidão.”

E eles ainda foram vítimas de calúnias, como a suspeita de que as reuniões cristãs fossem orgias sexuais e disfarce para todo tipo de crime, inclusive com acusação de canibalismo, no sentido de que alguém era comido, com referências às palavras de Jesus: “Este pão é meu corpo, este cálice é meu sangue”. Os pagãos entendiam que os cristãos deveriam estar comendo carne humana e bebendo sangue humano. Essas acusações provavelmente surgiram de um fato característico da natureza humana: o segredo gera desconfiança (Shelley, 2018).

No caso da Igreja Católica, até o século VI, as catequeses eram dadas depois da celebração dos sacramentos da iniciação cristã, porque naquele tempo era praticada a chamada ‘disciplina do arcano’, que mandava guardar segredo a respeito dos ‘mistérios’ da fé, seja da doutrina, seja dos sacramentos. Não se podia revelar nada disso aos não batizados, para evitar mal-entendidos, gozações e até perseguições.

“E, assim, havia para os batizandos o ’elemento psicológico da surpresa’ que destacava de certo modo ‘a eficácia da experiência espiritual’ do sacramento” (Buyst, 2011).

A Maçonaria tem os seus segredos, mas não é uma organização secreta, tem endereço e personalidade jurídica registrada nos órgãos competentes (Estatuto, Regimento Interno e CNPJ). Porém, os seus detratores distorcem esse entendimento. Caso não fossem verdadeiros e consistentes seus propósitos, já teria desaparecido há muito. Fort Newton destaca:

“Quando todos os homens praticarem seus preceitos simples, os segredos inocentes da Maçonaria serão postos de lado, pois sua missão estará cumprida e seu trabalho terminado.”

Na Maçonaria Operativa, os pedreiros livres se reuniam em lugares fechados para discutir questões de trabalho e problemas de interesse da corporação, sendo tratados como secretos todos os assuntos. Inclusive, em épocas de perseguições na maçonaria moderna, chegou a ser adotado o uso de um nome simbólico no intuito de o obreiro ocultar o seu verdadeiro nome, prática essa ainda mantida simbolicamente em alguns ritos.

É consenso na história da Maçonaria que, se a sua essência e aparência fossem claros aos não iniciados em seus alegados mistérios, a Ordem já teria desaparecido, sucumbindo a pressões de impérios e ideologias. O seu glamour é exatamente esta aura de segredo e mistério, que nada mais é do que um véu que cobre certos aspectos a serem preservados através da tradição. Essa aura de mistérios e segredos foi reforçada a partir de 1717, em Londres, com o nascimento da Moderna Maçonaria, quando James Anderson inseriu exposições lendárias em suas “Constituições”, publicados nos diários londrinos da época, com o fito de agregar novos adeptos e com isso chamar atenção com fatos tidos como misteriosos segredos guardados pela Maçonaria. Porém, conforme contido no art. 1º da referida “Constituição”, o foco era que a Maçonaria se tornasse “o centro de união e o meio para estabelecer uma amizade sincera entre homens que de outra forma permaneceriam separados para sempre”.

A narrativa de uma possível transição de Maçonaria Operativa para Especulativa ou dos Aceitos e, em seguida, para a Especulativa por excelência ou Moderna[4], formada então por homens espiritualizados, teria absorvido e adaptado conhecimentos em voga na sua época áurea, atraindo intelectuais de diversas correntes de pensamentos, que agregaram elementos místicos e ocultistas, muitos inspirados na Bíblia, relativamente à época da construção do Templo de Jerusalém, além de elementos da Cabala, do hermetismo, da astrologia e de antigas religiões e processos iniciáticos históricos. Assim, a Maçonaria se assumia como guardiã (alguns dizem “legatária”) de determinados conhecimentos arcanos oriundos de fontes bastante amplas, que seriam comunicados aos membros nas iniciações e nos diversos graus.

Registre-se que ocultismo não é temática maçônica. Mas, isso já é tema para discussões acaloradas entre os defensores da “Maçonaria Autêntica” e da “Maçonaria Romântica”, que desvirtua o sentido dos objetivos primordiais da Maçonaria.  O glamour da Maçonaria ao qual nos referimos anteriormente, que deu a ela uma conotação diferenciada em relação aos clubes sociais vigentes à época de sua estruturação moderna, foi o conteúdo iniciático e esotérico introduzido no século XIX por obreiros provenientes da Ordem Rosa-Cruz. Segundo Rizzardo da Camino (2017), a Rosa-Cruz seria a legítima promotora da Maçonaria Simbólica. Sem essa influência, afirma ele, a Maçonaria teria permanecido até hoje na Inglaterra como corporação puramente profissional[5].

No entanto, dizer que ela é mística tem o condão apenas de afirmar que não é materialista (vide nota 1 acima), pois alimenta o entendimento da existência de um princípio criador, que é Deus, e na imortalidade da alma, “e que todas as formas vivas e belas são símbolos de coisas mais sublimes do que elas”. “Não sendo religião, no sentido do culto litúrgico, aceita e amplia todos os conceitos religiosos, extraindo deles lição de que necessita para orientar seus filiados” (Camino, 2017).

Quanto a dizer que teria na sua origem elementos ocultistas, vale dizer que tal tendência se desfez ao longo do tempo com os modernos recursos de difusão de informações e conhecimento, pelo progresso no campo científico com o surgimento de novas ciências como a psicologia e a parapsicologia no campo experimental, aliados à evolução do comportamento e do pensamento humano, restando ao mundo ocultista o plano esotérico e espiritual. A absoluta liberdade de consciência e o racionalismo se constituem nos efetivos pilares da Maçonaria.

É sabido que vários escritores maçônicos imaginosos dotaram seus símbolos históricos e tradicionais de significados que nunca tiveram, além de introduzirem dramatizações descabidas e que somente os verdadeiros iniciados vislumbram as diferenças e não repercutem essas lorotas. Alguns evocam uma suposta egrégora em Loja, que não faz parte da tradição maçônica que prima pela razão, e ainda fazem mise-en-scène para plateias desinformadas ou pose de maçons misteriosos exatamente por não estudarem e usam de subterfúgios para camuflar a ausência de conhecimentos. Parodiando a escritora e teósofa Annie Besant, ensinam o que não sabem, como seguro refúgio de sua ignorância.

Fort Newton ensina: “aquele que professa uma religião, que não seja somente teoria ou forma, é um místico, existindo entre ele e os grandes místicos apenas uma diferença de Grau”. Acrescenta ainda, “misticismo não é patrimônio exclusivo de um grupo de adeptos para ser encarado como um segredo …. Qualquer homem que se curve numa oração, ou eleva seu pensamento ao céu, é um Iniciado no misticismo eterno, que é a força e o consolo da vida humana”. O misticismo diferencia os seres humanos dos animais e a vida se manifesta por meio de atos místicos. Importante, ainda, refletir sobre o pensamento de Joseph Campbell:

“Mitologia é nome que damos à religião dos outros.”

Conforme ensina Camino (2017), “o homem necessita sempre de um amparo vindo do Alto, do mistério extraterreno, do Infinito, poderoso e que atenda a seus caprichos”. Ao fim e ao cabo, é com o autoconhecimento, olhando para dentro, que misteriosamente encontramos o que tanto procuramos alhures. Cícero afirmava que “nos Mistérios, nós percebemos os princípios reais da vida e aprendemos a viver de maneira feliz, mas principalmente a morrer com uma esperança mais justa.”

“Por que é que o cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga”. (Clarice Lispector)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da Loja Maçônica Águia das Alterosas Nº 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte; Membro Academia Mineira Maçônica de Letras e da Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras; Membro da Loja Maçônica de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda; Membro Correspondente Fundador da ARLS Virtual Luz e Conhecimento Nº 103 – GLEPA, Oriente de Belém; Membro Correspondente da ARLS Virtual Lux in Tenebris Nº 47 – GLOMARON, Oriente de Porto Velho; colaborador do Blog “O Ponto Dentro do Círculo”.

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Notas


[1] Sobre a alegada inexistência de dogmas, pergunta-se o que seria a crença em um “Princípio Criador” e na imortalidade da alma, presente em alguns Ritos.  O Rito Sueco, mais praticado nos países escandinavos (Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia, além da Islândia), e em muito menor escala nos Países Baixos e na Alemanha, com origem a partir de 1759, tem sentido profundamente cristão. Conclui-se, assim, que não existe uma Maçonaria, mas Maçonarias e inúmeros Ritos, cada um com suas tradições, usos e costumes inerentes à sua estrutura iniciática e que podem variar entre as Potências.

[2] Infelizmente, o termo “profano”, dentre seus vários significados, somente é referenciado como aquele que deturpa ou viola coisas sagradas. Essa é uma situação que constrange e que poderia ser substituída, no caso da Ordem, pela expressão “não maçom”, muito mais palatável. Guénon (1947) ensina que a palavra “clero” significa “instruído”, e se opõe ao “secular”, que se refere ao homem do povo, ou seja, o vulgar, assimilado ao ignorante ou ao “profano”, de quem só se pode pedir para acreditar no que não se pode compreender, porque só assim se faz participar da tradição na medida de suas possibilidades.

[3]  Ver o Artigo “A alegoria do Templo e a Iniciação Maçônica”, em: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2019/03/12/a-alegoria-do-templo-e-a-iniciacao-maconica/

[4] https://opontodentrocirculo.com/2021/04/23/maconaria-moderna-o-legado-escoces-parte-i/

[5]  Ver Influência da Bíblia na Maçonaria em: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2018/08/28/a-influencia-da-biblia-na-maconaria/

Referências:

BUYST, Ione. O Segredo dos Ritos: ritualidade e sacramentalidade da liturgia cristã. São Paulo: Paulinas, 2011.

CAMINO, Rizzardo da. Simbolismo do Terceiro Grau. São Paulo: Madras, 2017.

CONCÍLIO VATICANO II: NA 2 – declaração Nostra Aetate sobre a igreja e as religiões não-cristãshttp://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decl_19651028_nostra-aetate_po.html, acesso em 09.02.2020.

OLIVEIRA FILHO, Denizart Silveira de. Da Iniciação rumo à Elevação. Londrina: Ed. “A Trolha”, 2012.

FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio. Dicionário de Maçonaria: seus mistérios, ritos, filosofia, história. São Paulo: Pensamento, 2016.

GUÉNON, René. Autoridade Espiritual e Potência Temporal (1947), disponível em https://docero.com.br/doc/cxv5vx1. Acesso em 20.01.2022.

KRIWACZEK, Paul. Babilônia: a Mesopotâmia e o nascimento da civilização. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

NEWTON. Joseph Fort. Os Maçons Construtores: uma história e um estudo sobre a Maçonaria. Londrina: Ed. Maçônica “A Trolha”, 2000.

RODRIGUES. João Anatalino. O Tesouro Arcano – a maçonaria e seu simbolismo iniciático. São Paulo: Madras, 2013.

SHELLEY, Bruce L. História do Cristianismo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2018.

XAVIER, Arnaldo. Saiba o que são Maçonarias. Belo Horizonte: Label Artes Gráficas, 2010.

A casa está queimando…

Eu simplesmente não consigo entender o incêndio criminoso de três templos maçônicos na área de Vancouver. Servimos nossas comunidades e nosso país por séculos por meio de caridade, auto sacrifício e boas ações. W Bro. Syd Schatzker[1]

Por mais triste que seja este momento, talvez possamos usá-lo para repensar nossas estratégias de comunicação, nossos esforços de construção de imagem e – mais importante – nossas práticas de educação e mentoria.

Deixe-me ser franco:

Para servir a sua comunidade, você não precisa ser um maçom. Basta ir e ser voluntário em qualquer organização de serviço comunitário.

Para servir nosso país você não precisa ser maçom. Basta ir e se inscrever no exército (ou pior cenário: entrar na política pública com honestidade).

O auto sacrifício não é um conceito ensinado em nossa educação maçônica. [Embora eu tenha lido nos últimos dias uma “constituição” de uma defunta obediência maçônica do século 18, onde eles costumavam colocar o candidato em um julgamento para testar sua vontade de auto sacrifício.]

Fazendo boas ações …? Qualquer religião é mais óbvia e significativa sobre tais ações – e mesmo se fizermos “boas ações” – não é a ideia (apontando para o auto sacrifício) que não se espera receber carinho por fazer boas ações? Se fizermos boas ações para obter “boa reputação” como recompensa… estava vindo do coração ou apenas uma simples troca comercial?

Agora, talvez, seja hora de parar e pensar sobre nós mesmos, nosso lugar no mundo, o significado da Maçonaria e a imagem que criamos de nós mesmos. E as perguntas que fiz acima.

Há – fora da nossa fraternidade – autores de ficção e lunáticos, em igual quantidade, que escrevem sobre os maçons, suas origens, seus rituais, seus objetivos e suas atividades presumidamente “secretas”. O público em geral, e muitas vezes também os maçons, não conseguem discernir a diferença entre o real e o imaginário. O motivo: falta de educação e orientação.

Durante séculos, seguindo a postura da Maçonaria Inglesa, todas as Grandes Lojas permaneceram silenciosas e indiferentes a tais exercícios mentais exibidos por obras literárias ou malucos adeptos de teorias de conspiração. Enquanto a única mídia a atingir as massas foi a impressa, que não era acessível para tais “escritores”, talvez essa atitude oficial tenha se justificado. No entanto, o século XXI trouxe grandes mudanças também neste campo: a internet, a Web 2.0 (introduzindo a interatividade), as mídias sociais, os e-books etc. De repente, os grafomaníacos obcecados ganharam um meio de fácil acesso, uma plataforma mundial para espalhar suas fantasias… e as Grandes Lojas estavam, e ainda estão, à margem, como se isso não as afetasse. Talvez devêssemos questionar a validade dessa posição. A torre de marfim pode não funcionar desta vez. Para uma analogia, olhe para a economia: a disrupção tornou-se a norma. As velhas maneiras de fazer as coisas são obsoletas e não são eficazes.

A internet e a mídia cheia de conspiração não é apenas mais uma “exposé” como as iniciadas na década de 1730… não é apenas mais uma farsa impressa como a de Taxil… misteriosa Maçonaria. É um ataque com esforços concentrados (embora não cometamos o mesmo erro: não é uma conspiração mundial dirigida por um cérebro central!). Mesmo que não tenha origem em só lugar – está convergindo em uma única direção: contra nossa Sublime Ordem.

Devido aos nossos mais de 300 anos de silêncio e ao sigilo real e percebido, perdemos há muito tempo a chance de controlar nossa própria imagem pública. Quando mais de uma geração de maçons cresceu (e envelheceu) sem ser capaz de comunicar de forma coerente, nem mesmo para suas próprias famílias, o que é a Maçonaria e por que ela é importante na vida de um homem… perdemos o barco. Se nós, como maçons, não fomos capazes de comunicar às nossas amadas famílias o que é a Maçonaria – como esperamos convencer as massas paranoicas sobre as qualidades de nossa fraternidade?

(Antes que você se oponha nervosamente a essa ideia: pense em todos aqueles jovens anunciando publicamente que seu pai ou avô era maçom, mas eles nunca disseram uma palavra à geração mais jovem… eles podem dizer por que nunca foram orientados e educados adequadamente sobre a Arte Real!)

Fazer doações para instituições de caridade e/ou distribuir pacotes de alimentos para os necessitados – não é Maçonaria. É, sem dúvida, uma intenção nobre e uma ideia nobre ajudar os menos afortunados e contribuir para causas nobres. Mas quando a Maçonaria, para o iniciado, termina aí, ou, eventualmente, adicionando algumas cervejas com os “camaradas” … aí a Maçonaria acaba também.

Mentes brilhantes, como Thomas W. Jackson, o conhecido estudioso e maçom de longa data que viajou extensivamente ao redor do mundo, escreveu que distinguia cinco estilos de maçonaria: filosófico, social, sociológico, político e caritativo. Definitivamente, os exemplos destacados do Charitable Style são a América do Norte, tanto o Canadá quanto os EUA. O que significa que perdemos todo o resto … Como o Ir. Jackson colocou: nós “nos afastamos mais de suas raízes do que qualquer Maçonaria no mundo”.

Poderíamos citar muitos de seus artigos, e de muitos outros estudiosos maçônicos. Também poderíamos dar uma dica do nosso próprio programa de Grão-Mestre: Ritual, Educação, Mentoring. Sem isso, que tipo de “maçonaria” você tem? Vindo de um lugar onde a Maçonaria manteve vivo seu “estilo” filosófico e raízes, onde a elite intelectual costumava ser e ainda é atraída pelos ideais da Maçonaria, fiquei amargamente chocado quando um jovem maçom canadense não muito brilhante se opôs veementemente ao uso da palavra “elite” em conexão com a Arte. Ele pensou que era algum tipo de palavrão… e quando as pessoas podem associar com a palavra apenas os infames 1% mais ricos do país e nada mais, é um triste retrato de como fomos negligentes em nossa obrigação de orientar e educar nossos membros. Enquanto não mudarmos isso, não conseguiremos atrair a “elite”, nenhum tipo de elite.

Muitos maçons respeitam o autor John J. Robinson (pelo motivo errado, devo acrescentar, porque ele não é um historiador qualificado do Ofício). No entanto, todos podemos concordar com esta afirmação dele: “O problema com a Maçonaria é que ela não pratica mais a Maçonaria”.

Como isso está relacionado aos incêndios criminosos de BC?, você pode perguntar. Reflita sobre isso: quem é responsável pela discrepância entre nossa autoimagem e a imagem que existe na sociedade em geral?

Autor: Istvan Horvath
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: The Other Mason

*Horvath é Mestre Maçom, Maçom do Arco Real, membro da Philaletes Society, do Quatuor Coronati Correspondence Circle e da Scottish Rite Research Society. 

Nota

[1] – O autor dessa citação se referiu ao caso de incêndio criminoso de 30 de março de 2021 em Vancouver, BC. Veja reportagens da mídia: https://www.cbc.ca/news/canada/british-columbia/north-vancouver-fires-1.5969506https://globalnews.ca/news/7731273/arson-charges-masonic-hall-vancouver/ 

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O que é Cabala e qual sua verdadeira relação com a Maçonaria?

O que é Cabala?

Cabala é o esoterismo judaico. Existe o esotérico e o exotérico. O exotérico é o conhecimento ensinado ao povo, enquanto o esotérico é o conhecimento oculto no exotérico, restrito aos escolhidos, aos iniciados.

Trata-se de um sistema de simbologia e numerologia de origem judaica que teoricamente serve para desvendar os segredos ocultos na Torá.

Apesar dos cabalistas acreditarem que a Cabala foi transmitida pelo próprio Deus a Moisés, vários historiadores concordam que sua origem é nórdica, baseada na lenda de Odin. Por coincidência, a Capela de Roslin, considerada por muitos como um verdadeiro Templo Maçônico do século XV, possui a lenda de Odin com sua árvore sagrada ilustrada na chamada “Coluna do Aprendiz”.

O alfabeto hebraico possui 22 letras, enquanto a Cabala possui 22 caminhos que ligam às 10 esferas (sefirás) que formam sua estrutura, comumente chamada de “árvore da vida”. A árvore da vida é de uma certa maneira formada por triângulos, quadrados e círculos, três formas geométricas muito comuns na Maçonaria.

Qual sua relação com a Maçonaria?

Muitos são os trabalhos, estudos e livros relacionando a Cabala com a Maçonaria. Alguns chegam a inventar que existe a Cabala Operativa e a Cabala Especulativa, para aproximá-la ainda mais das raízes da Maçonaria. Porém, nenhum autor faz o favor de citar um fato ou documento histórico que liga a Cabala à Maçonaria ou mostrar onde há Cabala na Maçonaria. Tudo é muito vago ou, como alguns preferem, está tudo “oculto”, “entre linhas”.

A verdade é que a Cabala se popularizou entre os intelectuais do século XVIII e XIX. E se poderiam haver ensinamentos ocultos na Torah, muitos acreditavam que também poderia haver na Bíblia, nos rituais antigos, etc. A busca pelo oculto se tornou obsessão para a classe intelectual dessa época, aproveitando a onda de decadência da Igreja e das Monarquias e o fortalecimento da massa crítica da sociedade. Nessa época, Maçonaria era moda na Europa e várias outras sociedades secretas brotavam nas cidades, prometendo conhecimento oculto. Somente na Maçonaria Francesa, mais de 1.000 graus maçônicos surgiram dentro de dezenas de Ritos, todos com supostas origens honrosas como Egito Antigo, Palestina, Templários, celtas, Antiga Grécia e outras. O conteúdo e costumes nascidos da Maçonaria Operativa tentavam sobreviver em meio a essa avalanche de novas histórias, crenças, símbolos e práticas, todas novas, mas se autointitulando como “antigas”.

Os “criadores” dos Ritos e rituais chamados “Superiores” necessitavam de conteúdo para criar tantos graus. Ora, a Maçonaria sempre teve uma relação com o Templo de Salomão, com uma Palavra Perdida. Não há misticismo mais próximo disso do que a Cabala, a moda do momento! A origem judaica e a busca por um conhecimento que se perdeu nas brumas do tempo e pode estar oculto é um prato cheio para aqueles sedentos por conteúdo para enxertar na criação de dezenas de novos graus de um sistema.

Dessa forma, a Cabala foi introduzida na Maçonaria quando da criação dos Ritos Maçônicos, entre eles, o Rito de Heredom, sistema de 25 graus, que deu origem ao Rito Escocês.

Onde pode ser visto a Cabala no REAA?

Sua presença mais evidente está no Templo do Rito Escocês: o Templo e suas mesas e altar seguem a famosa Árvore da Vida.

Nos templos originais do REAA, o trono do 2º Vigilante ficava no lado ocidental da Coluna do Sul, paralelo ao trono do 1º Vigilante, assim como ainda é mantido nos Graus Superiores do REAA. A mudança do 2º Vigilante para o centro da Coluna do Sul, como podemos observar nas Lojas Simbólicas atuais, somente ocorreu pela influência dos templos ingleses e do Rito de York.

Observando o formato original do Templo do REAA, o mesmo formato em que a Loja de Perfeição é organizada, vê-se claramente a formação da Árvore da Vida:

O Átrio, onde os candidatos aguardam para serem iniciados, é onde se inicia a senda maçônica. É o ponto intermediário, que separa o profano do sagrado. Em seguida há a Porta do Templo, no Ocidente, que dá acesso à Luz, a partir de onde se inicia o trabalho. Os tronos dos dois Vigilantes seguem paralelos, em suas extremidades, representando o VM no governo de suas Colunas. Tem-se o Altar dos Juramentos no Centro. Observe que o Altar é o único ponto da Árvore em que todos os outros pontos têm caminho direto, menos o Átrio de onde só há acesso ao Altar após atravessar a Porta. Isso mostra que todos estão ligados por meio do GADU, representado pelo Livro da Lei no Altar. Seguindo, vê-se as mesas do Chanceler e o Tesoureiro, paralelas. A partir daí, inicia-se o Oriente, onde se vê as mesas do Secretário e do Orador nas laterais e, por fim, a cabeça da Árvore da Vida, ponto mais alto da Sabedoria da Cabala, o trono do Venerável Mestre.

Essa herança da Cabala se faz presente nos Templos do Rito Escocês e demais Ritos de origem francesa. Já nos templos ingleses (Rituais ingleses modernos, pós 1813) e nos templos americanos (Rito de York, a partir de 1797), não se vê tal característica, visto os templos serem mais próximos do chamado “Antigo Ofício”, ou seja, dos costumes da Maçonaria Operativa, exatamente por não terem sofrido essa influência “ocultista” ou “esotérica” que a maçonaria da Europa Latina (França, Portugal, Espanha e Itália) sofreu.

A Maçonaria Simbólica brasileira, por desconhecimento, promoveu com o passar dos tempos diversas adaptações em seus templos do REAA, desfigurando a Árvore da Vida pela influência de outros Ritos e Rituais. Porém, ela encontra-se preservada através dos Graus Superiores, ainda inviolados.

Por que não há registros explícitos disso?

Porque os criadores e líderes dos Ritos na época buscavam a atração e aceitação de seus adeptos através de afirmações de que o Rito surgiu de uma expedição de Napoleão ao Egito, ou dos escritos de um antigo Imperador, ou de um pergaminho protegido por um cavaleiro templário que sobreviveu à Inquisição. Era mais interessante do que confessar que se tratava de um trabalho um pouco mais recente, fruto de uma miscelânea de história, parábola, símbolos, com uma pitada de Cabala e outros misticismos.

Autor: Kennyo Ismail

Fonte: No Esquadro

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