O Capital Social da Maçonaria

Capital social: o que é e como formalizá-lo?

“Ah, você também por aqui!”

A exclamação acima foi ouvida durante a apresentação de uma palestra no Templo Nobre da GLMMG, quando dois amigos se reencontraram depois de longo tempo e se descobriram obreiros da Ordem. Por que isso acontece? Por que surpresas como essas ocorrem?

Sabemos que no universo empresarial, o Capital Social é representado pelo investimento dos sócios ou acionistas de uma empresa, baseado em um plano de negócios previamente elaborado, que permite movimentar o caixa e adquirir seus ativos para a geração de recursos que a sustente e produza o lucro estimado. Neste contexto o capital é um valor mensurável e os fins são claramente identificados.

Nas situações do dia a dia, outra forma de capital pode ser construída em decorrência das interações entre as pessoas, como resultado da criação de vínculos que melhorem as relações de amizade, cooperação mútua e satisfaçam necessidades de um modo geral, com benefícios individuais e para toda a comunidade. Para comprovar, nesta era da internet, estão aí os modernos meios de comunicação, com as redes de relacionamentos online repercutindo com uma força avassaladora e que, bem utilizadas, se constituem instrumentos valiosos de aproximação, participação, mobilização e transformação social. Dados recentes da União Internacional das Telecomunicações, órgão vinculado à ONU, informam que já são 3,2 bilhões de internautas no mundo.

Ao professor e escritor americano Lyda Judson Hanifan (1879-1932), da área de educação rural e apologista da importância do envolvimento da comunidade para as escolas de sucesso, é atribuída a introdução do conceito de capital social, entendido como as variáveis intangíveis que são importantes para o cotidiano das pessoas, como a boa vontade, o companheirismo, a simpatia e as relações sociais entre os indivíduos e as famílias que compõem uma unidade social. Segundo ele, o indivíduo é impotente socialmente se entregue a si mesmo, porém, quando entra em contato com o(s) seu(s) vizinho(s) haverá uma acumulação de capital social que pode imediatamente satisfazer suas necessidades sociais e ainda ostentar uma potencialidade social suficiente para a melhoria substancial das condições de vida de toda a comunidade. Enquanto o indivíduo vai encontrar nas suas associações as vantagens da ajuda, da simpatia e da comunhão dos seus vizinhos, a comunidade como um todo se beneficiará pela cooperação de todas as suas partes.

Para o antropólogo organizacional Ignácio García, da Universidade de Buenos Aires, o termo Capital Social envolve as redes de relacionamentos baseadas na confiança, cooperação e inovação que são desenvolvidas pelos indivíduos dentro e fora da organização, facilitando o acesso à informação e ao conhecimento.

O capital social tem sido utilizado como referência de pesquisa promovida pela ONU para elaboração do “Relatório Mundial da Felicidade”, que classifica os países em mais ou menos felizes. O ranking leva em consideração, além do Produto Interno Bruto (PIB) e da expectativa de vida, valores como o apoio mútuo entre os indivíduos, a boa governança, a preservação da cultura e do meio ambiente, o desenvolvimento econômico sustentável, a confiança, a liberdade de fazer escolhas, a ausência de corrupção, dentre outros. Um pequeno país que fica no Himalaia, conhecido como Butão, foi o pioneiro e tem sido tomado como modelo, onde há mais de três décadas é medido o índice de Felicidade Interna Bruta (FIB).

Nesse cenário, a Maçonaria Universal como uma escola de aperfeiçoamento moral, intelectual e espiritual, se impõe como um celeiro de construtores e articuladores sociais, que se caracteriza por um rico capital humano. Seus valorizados membros, portanto, gozam de reconhecimento e diferenciação pelos bons princípios perseguidos.

Grandes nomes da Maçonaria são vinculados a momentos decisivos da história e à fundação de entidades de ajuda humanitária, que funcionam em todo o mundo, e congregam pessoas de todos os matizes. São notórias as ações de manutenção de hospitais, asilos e entidades filantrópicas ao redor do mundo, prestando serviço desinteressado e minorando o sofrimento daqueles menos favorecidos pela sorte. Sabe-se que em alguns países a Ordem mantém instituições que acolhem Maçons em idade provecta e que demandam por amparo qualificado.

Por seu turno, a Ordem Maçônica oferece uma rede de proteção bem discreta a seus associados, em face da possibilidade de ajuda entre os irmãos, quando enfrentam dificuldades momentâneas como, por exemplo, algum tipo de assistência financeira proporcionado pelos membros da sua Loja, inclusive em caso de falecimento de um dos cônjuges, este com recursos administrados por um Fundo de Assistência Maçônica, além de solução de conflitos familiares, por intermédio do aconselhamento entre os irmãos de cada Loja, dentre outros.

Para a Maçonaria, a família é a célula da humanidade e, portanto um patrimônio muito especial, pois é através dela que se edificam os valores morais e humanitários e onde os laços de solidariedade se tornam fortes. Por isso, as esposas dos maçons são muito valorizadas e têm papel de destaque no fortalecimento e consolidação da estrutura familiar, dignificando, enobrecendo e edificando os princípios e valores que fundamentam a cidadania. São motivo de orgulho os trabalhos realizados pela Fraternidade Feminina das Lojas a que pertencem seus esposos e, em nosso caso particular, pela Fraternidade Feminina da Grande Loja Maçônica de Minas Gerais, tendo bastante repercussão as atividades do GFEM – Grupo Feminino Esposas de Maçons “Arco-Íris”.

É tradição na Maçonaria as cerimônias de reconhecimento conjugal, onde o Obreiro após ter se casado devidamente segundo as leis civis,  pode apresentar sua esposa aos  demais irmãos de forma solene ou em comemoração de bodas. Outro costume é a adoção de Lowtons, onde filhos, enteados e netos (de ambos os sexos) de Maçons, que tenham idade entre 7 e 14 anos, são adotados por uma Loja Maçônica que contrai para com eles a obrigação de servir-lhe de tutor e guia na vida social. Prestando o último tributo e marcando a passagem do Maçom para o oriente eterno e quando autorizado pelos familiares, causa grande comoção o ritual fúnebre maçônico.

No campo familiar, merecem destaque, também, as quase centenárias entidades paramaçônicas, como a Ordem DeMolay, para jovens do sexo masculino entre 12 e 21 anos, e a Ordem Internacional das Filhas de Jó, para jovens do sexo feminino entre 10 e 20 anos, que orientam para os princípios fraternais, filosóficos e filantrópicos. Vale o registro de que meninos entre 9 e 11 anos, e meninas entre 6 e 9 anos,  têm também a oportunidade de participar dos projetos “Ordem dos Escudeiros “ e “Abelhinhas”, respectivamente, como etapa preparatória antes que possam ingressar como membros dessas entidades Paramaçônicas.

A Ordem da Estrela do Oriente, com mais de 150 anos de existência, e que chegou ao Brasil em 1997, é outra organização fraternal e paramaçônica constituída por homens Maçons e mulheres acima dos 18 anos com parentesco maçônico, que tem como um de seus objetivos congregarem a família maçônica e dar suporte à Ordem Internacional do Arco-Íris para Meninas e a Ordem Internacional das Filhas de Jó, tendo se destacado por inúmeras obras assistenciais.

Ainda pouco conhecida, inclusive entre os Maçons, vale registrar a fraternidade Shriners International, que se identifica como uma organização compostas exclusivamente por Mestres Maçons regulares, com a participação das esposas e que cuida do atendimento gratuito na área de saúde para crianças com até 18 anos, por intermédio dos Hospitais Shriners para Crianças®. Trata-se de uma entidade filantrópica reconhecida pela ONU e atuante em vários Países.

Em nosso meio, destaca-se, ainda, a Academia Mineira Maçônica de Letras – A Casa de Tiradentes, que reúne os pensadores da Maçonaria, com a finalidade de promover e estimular o cultivo e divulgação das artes, das ciências e das letras, e o estudo da filosofia maçônica, bem como a conservação e o desenvolvimento da Cultura em geral. Em seu mais recente trabalho de pesquisa divulgado, consubstanciado na obra “A Verdade dos Inconfidentes”, são apresentados detalhes intrigantes da vida dos personagens que bem ilustram o movimento libertário nascido em Minas Gerais.

Com essa vitrine e por outras ações é que a Ordem exerce um grande atrativo por parte de homens livres e de bons costumes que comungam dos mesmos valores, e estes, quando convidados a aderir ao movimento e aceitos, criam profundos vínculos de amizade em decorrência do companheirismo e como fruto de sadia, fraterna e ecumênica convivência.

Não é segredo que a condição para o convite de adesão tem como referência a honra ilibada e a probidade inconteste do candidato, pois a força da Maçonaria reside na seleção rigorosa de seus integrantes. Uma recomendação sempre presente é a de que “o candidato seja sincero perante sua própria consciência, quando do preenchimento da proposta de admissão”, considerando-se que todas as informações serão objeto de sindicância.

Ao incorporar-se à Maçonaria o iniciado vê descortinar-se à sua frente uma série de desafios e oportunidades de crescimento pessoal, voltados para a ampliação de conhecimentos, desenvolvimentos de habilidades para lidar com situações da vida cotidiana e conscientização acerca de atitudes decisivas e transformadoras para fazer a efetiva diferença no seu meio social, em benefício da Família, da Pátria e da Humanidade. Neste particular, a formação de líderes ganha novos contornos, vez que embasados em ideais maçônicos de melhor servir e sempre de forma desinteressada, sem vislumbrar ganhos pessoais.

Em face dos estudos e discussões proporcionados pelas reuniões de trabalho, o Maçom nunca se vê deslocado em qualquer evento social onde tenha que emitir uma opinião acerca de qualquer assunto de interesse geral, vez que nas Lojas são debatidos temas envolvendo valores familiares, ética e filosofia, arte, história, políticas sociais, economia, liderança e gestão, filantropia, autodesenvolvimento, dentre outros. Por isso, sempre que a situação assim o exigir, sem abrir mão da discrição e do respeito ao contraditório e às opiniões, o Maçom tem condições de demonstrar conhecimento e argumentação consistentes.

É por esses e outros motivos que um maçom sempre reconhece um irmão em eventos sociais ou no campo profissional, em decorrência de alguns gestos, termos ou expressões que são agregados ao seu modo de se expressar e agir e que por vezes despertam alguma curiosidade, por alguns interpretados como uma vantagem competitiva ou um dividendo do capital social e intelectual patrocinado pela Ordem.

Assim, a condição de maçom implica responsabilidades e cuidados adicionais que demandam vigilância diuturna, não permitindo deslizes rotineiros verificados no dia-a-dia de um cidadão comum. Apenas para citar um exemplo, imaginem a situação de um irmão orgulhoso de sua condição, que ostente em seu veículo de uso permanente uma identificação maçônica, e que reage a uma provocação no agito diário ao fazer um gesto obsceno ou proferir uma palavra impublicável a um motorista emocionalmente desequilibrado e apressado forçando uma ultrapassagem. Basta “ligar lé com cré” para concluir que o conceito da Ordem Maçônica fica maculado para aqueles que testemunham tal situação. Certamente, no mínimo com um quê de ironia vão pensar: “Essa é a tal Maçonaria?”.

Na mesma toada, denigre a imagem da Maçonaria aquele que maneja ser aceito para tirar proveito pessoal, servir de meio para atingir interesses na área profissional ou imagina participar de um clube social ou apenas e tão-somente conquistar novas amizades, desfrutar do seu status ou conquistar algum cargo de relevo. Esses, quando identificados, representam o joio que precisa ser expurgado por se caracterizar em erro de seleção pelos respectivos padrinhos e falha do processo de sindicância.

Conscientes desta realidade é que os obreiros vez por outra se surpreendem aos encontrar velhos conhecidos ou amigos em eventos ligados à Maçonaria e proferem a expressão de alegria (ou de espanto!) contada na abertura desta prancha. O processo de seleção dos membros é bastante discreto. Sempre há vagas na Maçonaria, mas o critério implícito é de qualidade do capital humano e não de quantidade de membros, por isso não existe um guichê de inscrições. Os Mestres espalhados pelo mundo estão sempre observando possíveis candidatos. O ambiente de trabalho na Maçonaria é agradável e o salário oferecido é compensador, apesar de não se traduzir em números. O maior orgulho é reforçar um capital social e transformador inestimável.

Não obstante todo o respeito que a história da Maçonaria inspira e é sobejamente decantado pelos seus obreiros mais dedicados e orgulhosos do status conferido pelo sentimento de pertencimento, ainda é difícil explicar a postura de alguns que preferem omitir a condição de Maçons e preferem a discrição a ponto de reagirem quando questionados a respeito, devolvendo a pergunta sobre o porquê da curiosidade da outra parte, demonstrando certo constrangimento. Permitimo-nos vislumbrar muita insegurança desse irmão, para não ser mais indelicado com os que assim se comportam. Por que não assumir? Talvez o comportamento reflita o desconhecimento da grandeza da Ordem, por falta de estudos e medo de demonstrar ignorância ou negligência nos estudos, e quem sabe seja o resultado da falta de frequência aos trabalhos em Loja. Essa constatação responde, em parte, a pergunta formulada no primeiro parágrafo acima.

É cediço que a Maçonaria face ao seu grande potencial transformador não pode ficar restrita às Lojas ou Oficinas. Por isso o maçom precisa se impor e não apenas a Maçonaria. Esta prepara seus obreiros e espera que atuem a serviço da humanidade. Urge que esteja nas ruas, praças e na sociedade civil, ensinando pelos seus valores morais, histórico de obras, não somente em discurso, mas em ações concretas. Muitos ainda, na condição de saudosistas, ficam a relembrar as glórias do passado, para não dizer que ainda vivem lá, descurando do presente e do que precisa ser feito, do capital social que precisa ser fortalecido constantemente para a construção das pontes que unam as pessoas e as demais forças da sociedade.

Um grande exemplo do que pode ser feito pela Maçonaria está representado no projeto de lei de iniciativa popular denominado “Corrupção Nunca Mais”, lançado na Assembleia Geral Plenária da Grande Loja Maçônica de Minas Gerais, realizada em 21.03.2015, acolhido e aprovada pelas 27 Grandes Lojas que compõem a Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil. O projeto visa a estabelecer procedimentos e punições mais severas para os crimes da espécie e ora se encontra na fase de coleta de assinaturas, para posterior encaminhamento ao presidente da Câmara Federal, para os trâmites legais.

Todas essas iniciativas promovem a coesão e a credibilidade da Ordem, e se constituem em ingredientes indispensáveis na formação do capital social e, estamos conscientes de que este capital quanto mais se usa mais ele aumenta e proporciona frutos inestimáveis em valor e em benefícios para toda a Sociedade.

Nestes termos, para que os dividendos deste capital social sejam sempre positivos e perenes, e se traduzam em ganhos para a sociedade, a fraternidade não pode ser utilizada em proveito próprio, devendo todos se tratarem em condições de igualdade, reconhecendo no outro um irmão, sem espaço para privilégios e exceções, unidos pelos sentimentos mais nobres e respaldados na confiança mútua que é o fruto mais saboroso da liberdade, que se consubstanciam nos pilares do edifício social, moral e ético representado pela Maçonaria Universal.

“Aprendemos a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas não sabemos a simples arte de viver juntos como irmãos”. (Martin Luther King)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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Maçonaria e Alquimia

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Em sua importante obra Hermetismo e Maçonaria, e mais concretamente no capítulo II e intitulado “Tradição Hermética e Maçonaria”, Federico González afirma que entre os amigos da Filosofia Hermético-Alquímica se costuma dizer

“Que o último grande Alquimista (e escritor sobre estes temas) foi Ireneo Filaleto no século XVII. Isto é bastante exato de uma perspectiva, só que não se toma em conta com toda claridade que a partir dessa data não se interrompe esta Tradição até o presente, mas sim se transforma, e muitíssimos de seus ensinos e símbolos passam à Maçonaria, como transmissora da Arte Real e da Ciência Sagrada, tanto nos três graus básicos como na hierarquia dos altos graus.”

Estas palavras assinalam com toda claridade que a antiga Maçonaria foi a receptora, ao longo de todo esse período chamado de “transição”, entre os séculos XVI e XVII, de um importante simbolismo hermético-alquímico, que vai ser decisivo para o surgimento da Maçonaria especulativa, que se concretiza em começo do século XVIII. A partir desse momento, pode se falar de um Hermetismo maçônico que, de algum jeito, constitui o eixo doutrinal que vertebra essa nova Maçonaria, e que se conjuga perfeitamente com a herança da antiga Maçonaria medieval, que continua estando presente através do importante simbolismo construtivo e das ferramentas que lhe são inerentes, conservando também sua forma e sua estrutura institucional através de seus antigos usos e costumes.

Fazendo um parêntese, devemos dizer que as relações entre a Maçonaria e a Alquimia, ou melhor a Tradição Hermético-Alquímica, vêm de tempo muito antigo, antes inclusive da Idade Média, época em que os maçons construtores realizam suas grandes obras em pedra, tanto igrejas românicas como catedrais góticas, mas também obra civis, como castelos, palácios, etc., e é obvio começam a construir os grandes centros urbanos de acordo a uma estrutura que tinham herdado dos Collegia fabrorum romanos, e que se continuaria durante o Renascimento, estrutura que obedecia em seus traços essenciais a uma imitação do modelo cósmico, que também estava refletido na catedral e na planta românica, e que se conjugava com outras tradições muito mais antigas que se remontavam inclusive à pré-história, aos construtores megalíticos, e é claro, principalmente, à outra grande herança vinda do Oriente: a dos construtores do Templo de Salomão, ou Templo de Jerusalém, mostrando-se assim o vínculo com a tradição judaica, e mais especialmente com seu esoterismo, quer dizer com a Cabala. Acrescentaremos neste sentido que o desenho do Templo de Salomão, ou melhor sua estrutura interior, e a Ideia que a configurou, plasmar-se-á também na catedral cristã, e certamente formará parte da arquitetura ocidental ao longo de todo o Renascimento como uma imagem da Cidade Celeste, sendo a partir do século XVIII que essa estrutura, e essa Ideia, passará a formar parte da Loja maçônica.

Tanto na herança vinda dos Collegia fabrorum, como na que procedia do Templo de Salomão, estava presente a Tradição Hermética, que é propriamente falando a Tradição do Ocidente, pois reúne em seu corpo simbólico e doutrinal o legado sapiencial grego-egípcio e romano, que se concentrou especialmente na Alexandria dos primeiros séculos de nossa era, dando como fruto, entre outras obras importantes, o Corpus Hermeticum, conjunto de livros e textos inspirados diretamente pela deidade que dá nome a esta Tradição: Hermes Trismegisto, o Thot egípcio. Esse legado se nutriu também das correntes gnósticas, tão cristãs como judaicas, e de todo esse conjunto de ensinos sustentados na Magia Natural, na Astrologia e na Alquimia próprias das tradições milenares vindas tanto do Oriente Próximo como de toda a planície mediterrânea, herdeiras em realidade de uma Ciência Sagrada e de uma Tradição Unânime que esteve presente em todos os povos, culturas e civilizações do mundo inteiro desde tempo imemorial.

Não deve, pois, resultar estranho que em muitas dessas edificações, tanto medievais quanto renascentistas e outras posteriores, que manifestavam de maneira evidente a “Harmonia Mundi” através de uma verdadeira Geometria filosofal, apareçam gravados na pedra e outros materiais um sem fim de símbolos que fazem alusão à Alquimia e às distintas fases da Grande Obra da transmutação interior, e é obvio a presença em qualquer parte de um simbolismo astrológico-astronômico que denotava claramente o fato de que os maçons construtores e os alquimistas, astrólogos, magos e teurgos realizavam seu trabalho conjuntamente, pois em realidade todos eles pertenciam a uma mesma “cadeia áurea” que tem em Hermes Trismegisto, Pitágoras e seus Platão “pais fundadores”.

Precisamente neste artigo queremos falar de como efetivamente existe uma clara correspondência entre o simbolismo alquímico e o simbolismo maçônico, sem entrar em desenvolver tudo o que o tema dá de si, que é certamente muitíssimo, mas tão só apontar algumas ideias básicas que vêm dadas de forma natural com tão somente meditar com certa atenção no rico simbolismo alquímico e maçônico. Evidentemente tampouco careceria de interesse investigar como se gerou essa mutação que deu nascimento à Maçonaria moderna, quais foram as influências que, por exemplo, serviram para que aquele ou aqueles desconhecidos autores maçônicos do século XVIII elaborassem a lenda de Hiram e do ritual do terceiro grau, tal qual chegou até nossos dias, que é essencial em toda a Maçonaria, pois não existe Rito que não tenha essa lenda e esse ritual, até com os matizes e pequenas diferenças que se queira, formando parte de seus ensinos mais elevados e profundos.

Neste sentido se assinalou que o autor, ou autores, da lenda de Hiram, tal qual se psicodramatiza no ritual do terceiro grau, é muito provável que se inspirou em uma obra hermética do século XVII intitulada Septimana Philosophica, do médico alquimista e rosa-cruz Michel Maier (autor deste modo da Atalanta Fugitiva, entre outras obras importantes), escrita em forma de diálogo e cujos interlocutores são o rei Salomão, Hiram e a rainha de Sabá. Neste contexto surge também a figura do Tubalcain, que segundo as Old Charges, ou Antigos Deveres, foi o inventor da metalurgia e um dos fundadores míticos da Maçonaria junto a sua irmã Noemá (inventora da arte do tecido), e seus irmãos Jabal (inventor da Geometria) e Jubal (inventor da Música). Tubalcain, que tem também um papel relevante no ritual do terceiro grau, aparece como um antepassado de Hiram e pertencente, como ele, a uma tradição antiquíssima relacionada com a Arte metalúrgica, e portanto com evidentes vinculações com a Alquimia, que utiliza justamente o simbolismo metalúrgico, e o fogo a ele inerente como elemento ativo e transformador da matéria, para exemplificar os processos de transmutação e purificação interior. E não deixa de ser interessante, além disso, que este antepassado de Hiram, Tubalcain, apareça em certos textos alquímicos também do século XVII tendo em suas mãos o esquadro e o compasso, ferramentas maçônicas por excelência, recordando assim ao Rebis hermético de Basilio Valentino e João Daniel Mylius, que sustenta também em suas mãos estas duas ferramentas.

Enfim, como dissemos é este um tema extremamente interessante e que aos maçons brinda a excelente oportunidade de conhecer mais em profundidade sua Venerável Tradição, herdeira dos Antigos Mistérios, e cujo lema mais importante é aquela sentença que já figurava no frontispício do templo de Apolo em Delfos: “conhece-te a ti mesmo”. Diremos que esse Conhecimento é gradual e necessita de uma didática e de um ensino que vem dado efetivamente através do percurso pelos três graus maçônicos: aprendiz, companheiro e mestre, que sintetizam na realidade todos os graus iniciáticos, chamados altos graus, que recolhem também numerosos ensinos herméticos e alquímicos, e nos fazem ver que na realidade, e como deixávamos vislumbrar anteriormente, a Maçonaria atual forma parte integrante da Tradição Hermética, e reproduz através do desenvolvimento de todos seus graus as etapas da Grande Obra Alquímica, análoga igualmente ao processo de criação do Cosmo, como mais adiante veremos.

Por outro lado esta expressão, “conhece-te a ti mesmo”, encerra todo o sentido da Maçonaria como via Iniciática, palavra que como todos vocês sabem indica a aspiração no homem de empreender ou iniciar o caminho para a busca de sua verdadeira identidade, de seu autêntico “Eu”, ou como se diz na tradição hindu, de seu autêntico Si Mesmo. Para a Maçonaria, o ser humano, em seu estado ordinário, ou “profano”, não se conhece apenas, não sabe quem é em realidade, de tal maneira que nesse estado vive uma existência completamente “exterior” ao que é sua verdadeira Essência, aquela que na Maçonaria recebe o nome de Grande Arquiteto do Universo. Recordemos que a palavra “profano” quer dizer “fora do templo”, aludindo o templo à “casa do Pai”, quer dizer o lugar de nossa origem, a terra nutriz espiritual, a pátria celeste, ou a Loja maçônica “do Alto” de que se fala na Maçonaria, que um dia abandonamos porque sobreveio em nós o esquecimento, essa terrível enfermidade da alma que se cura invocando à Memória, a Mnemósyne, que os gregos consideravam uma deusa.

Aos que empreendiam esse caminho, o caminho do autoconhecimento, antigamente se chamavam “peregrinos”, ou “estrangeiros” que deve ser o mesmo, e percorriam as sendas do mundo e da vida como um símbolo de sua viagem interior para a “casa do Pai”, sendo precisamente as etapas dessa viagem o processo que ia assinalando a recuperação de sua memória arquetípica. Isto que dissemos não é uma licença mais ou menos poética, mas uma realidade recorrente na vida do homem sempre e que se pode expressar como queremos, mas que tem que ver com o encargo de um fato incontestável: a fragilidade da existência humana, a percepção clara de que verdadeiramente nosso passo pela vida é justamente isso: uma passagem, um trânsito entre nosso nascimento e nossa morte, e é sob a denominação de “estagiários” como também se denominavam antigamente aos construtores que viajavam de cidade em cidade deixando na pedra os rastros de sua Arte Real.

De fato, e se repararmos nisso com certa atenção, a própria existência de qualquer coisa ou ser tem algo de ilusório e de evanescente, que lhe vem de sua própria “provisoriedade”, de “estar de passagem”, e assim no-lo fazem ver os ensinos iniciáticos e esotéricos de qualquer tradição. Mas precisamente o dar-se conta deste fato, com tudo o que significa, empurra-nos a procurar o sentido de nossa própria existência, quer dizer sua razão de ser, o princípio do que ela depende e que evidentemente não tem que estar fora de nós, pois se fosse assim, sequer nos formularíamos a pergunta fundamental e com a que em realidade dá começo a busca para a verdadeira identidade: quem sou?

“Ouvi-me, poderosos liberadores! (Exclama o neoplatônico Proclo aos deuses em seu Hino IV). Concedei-me, pela compreensão dos livros divinos e dissipando a trevas que me rodeia, uma luz pura e Santa a fim de que possa compreender com claridade o Deus incorruptível e também o homem que eu sou.”

É inegável que a resposta a essa pergunta sobre nossa identidade tem que vir através do que Platão denomina a anamnesis, a “reminiscência”, ou seja “a lembrança de si”, que pode ir-se dando pouco a pouco, ou de uma vez por todas, ou combinando ambas as experiências, pois de fato é assim como ocorre na realidade, já que a “revelação é coetânea com o tempo”, e essa possibilidade sempre vem dada pela graça de Mnemósyne, e de suas filhas, as Musas, que inspiram no “peregrino” seu canto liberador e lhe fazem partícipe do mistério e da harmonia do Cosmos. Conta Platão que a alma humana ao vir a este mundo “esquece” qual é sua verdadeira origem, e como consequência disso fica encerrada na “esfera sublunar”, ou mundo inferior, onde vive como em um sonho com os olhos vendados à verdadeira realidade. A isto precisamente se refere também Platão com o famoso mito da caverna: tudo o que nela acontece é um reflexo de uma realidade mais alta, de onde procede a luz que ilumina essa caverna, a qual é evidentemente uma imagem simbólica de nosso mundo, e em consequência da existência que levamos dentro dele.

Pois bem, a despertar desse sonho, a escapar desse mundo e dessa existência que não tem em si mesmo sua realidade e sua razão de ser, vem a nos socorrer a Filosofia, a autêntica Filosofia, a que faz honra ao significado verdadeiro de seu nome: “Amor à Sabedoria”. Esse amor, ou essa filiação, é um estado da consciência próprio do ser humano, e está em todos nós, só que como estamos completamente voltados para o exterior, para “fora de nós mesmos”, não o percebemos como algo próprio e que nos pertence pelo fato de termos nascido humanos, como o único, enfim, que pode nos arrancar essa atadura que nos cobre os olhos, e que é como um encantamento enraizado no mundo dos sentidos, o “véu de Maia”, a ilusão do relativo, do impermanente e do condicionado.

Amar a Sabedoria implica pois uma aspiração impetuosa e sem trégua alguma para o Conhecimento, para a Gnose, o que supõe acontecer do exterior, ou do mundo das aparências, para o interior, ao mundo da realidade. Da periferia da roda para seu centro, que é precisamente o que dá todo seu sentido à roda e a seu movimento, vale dizer a nossa existência neste mundo, que sem esse centro, sem sua Essência, não existiria. Ir do exterior para o interior, da representação à realidade, supõe efetivamente seguir um caminho, uma via, um raio, e isso não é outra coisa que nossa “reta intenção”, nosso querer “ser”, que é o mesmo que nos orientar “na direção que assinala a luz”, como se diz em linguagem maçônica. Trata-se em definitivo de passar de uma leitura exterior das coisas, do mundo e de nós mesmos, a uma leitura interior, mais acorde com o que constitui a razão de ser dessas mesmas coisas, do mundo e de nós. “Ler interiormente” é o que quer dizer precisamente a palavra inteligência, que é, ao igual que Mnemósyne (a Memória), ou a própria Sabedoria, o nome de uma deusa: a deusa Inteligência, aquela que como diz Federico González em vários lugares de sua obra, e mais concretamente em Simbolismo e Arte, é

“Uma energia capaz de selecionar os valores e pô-los em seu lugar, criando uma ordem mental em oposição ao caos da ignorância. Daí a importância do modelo do Universo e de sua Ordem Arquetípica, ou seja, da doutrina e de sua encarnação, posto que é capaz de ativar e gerar o auxílio desta deidade, a que sempre se manifesta no microcosmo como a compreensão imediata, efetivada no coração.”

Esse Amor à Sabedoria é o que se pratica nas oficinas maçônicas, e faz dos irmãos maçons verdadeiros filósofos cuja aprendizagem na “lembrança de si”, ou seja no reconhecimento de sua identidade mais verdadeira e profunda, é constante e permanente, e vem dando uma dimensão cada vez mais ampla e universal de nós mesmos, que é inversamente proporcional ao abandono de nossas superficialidades, que são aqueles metais impuros, ou arestas da “pedra bruta” que com paciência e perseverança, duas virtudes muito elogiadas pelos alquimistas e maçons de todos os tempos, têm que ser polidas pelas ferramentas do maço e o cinzel, símbolos respectivos da vontade e da reta intenção que a dirige e com a qual se conjuga.

Na linguagem dos símbolos (que os trovadores medievais chamavam “a língua de oc” –languedoc– ou o “linguagem dos pássaros”) o coração é precisamente a sede da inteligência, não da inteligência racional, que segundo a mesma linguagem simbólica estaria localizada no cérebro, e que é dual por natureza, mas sim da inteligência superior, ou da intuição intelectual, aquela que tende para a síntese pela reunião dos contrários, e que é como um sexto sentido que tem o homem, o microcosmo, para “descobrir” esses outros estados mais sutis que estão em nosso interior, e que, tal como os raios da roda ou da circunferência, põem-nos em comunicação direta (ou seja a “compreensão imediata” de que fala Federico González) com nosso verdadeiro “Eu”, ou Si mesmo.

Mas no “descobrimento” dessa faculdade superior inerente à natureza humana é muito importante, com efeito, conhecer o modelo do Universo, que nos fala de uma Ordem Arquetípica, de uma Cosmogonia; e não só isso, mas também dito conhecimento, para ser compreendido em toda sua integridade, tem que “encarnar-se” e viver-se como tal, quer dizer que tem que ser realmente transformador e operativo, e não uma mera especulação teórica que por muitos “saberes” que acumule nunca poderá nos levar mais à frente da soleira ou da periferia da roda, nesse ponto onde realmente começa a viagem para o centro de nosso ser, o qual se vive, tornamos a repetir, como um retorno à “casa do Pai”.

Esse retorno tão somente é possível através de uma Arte que a Maçonaria chama “Arte Real”, idêntico a Grande Obra alquímica, Obra que é a que o homem pode realizar consigo mesmo em seu interior, e cujo processo criativo como dissemos ao princípio é análogo à própria criação do Cosmo, já que há uma identidade entre o homem e o Universo, entre o microcosmo e o macrocosmo, de tal maneira que existe uma relação constante e permanente entre um e outro, quer dizer que o conhecimento de si se inter-relaciona com o conhecimento do mundo, conformando ambos um todo unitário, “uma só e única coisa maravilhosa”, verdadeiro objetivo da Grande Obra, como dizem os textos herméticos segundo a fórmula da Tábua de Esmeralda: “O que está acima é como o que está abaixo, e o que está abaixo é como o que está acima, para fazer a maravilha de uma coisa única”. A isto alude sem dúvida alguma o conhecido selo de Salomão, que como sabemos são dois triângulos entrelaçados, sendo um o reflexo do outro.

Tu te acreditas um nada, e é em ti em quem reside o mundo,

Recorda-nos neste sentido René Guénon citando o filósofo Avicena.

E assim como a ordem cósmica, o Mundo, segundo os relatos mitológicos de todas as tradições da humanidade, surgiu do caos das trevas primitivas, também esse processo interior que o homem realiza consigo mesmo surge a partir do “caos de nossa ignorância”, como dizia Federico González na nota citada. Segundo a Alquimia, nesse “caos” estão em potência e sem desenvolver todas nossas virtudes e qualidades, e é graças à Arte da transmutação que esse “caos” começa pouco a pouco a ordenar-se, quer dizer, a atualizar-se, recebendo a luz da Inteligência, análoga ao Fiat Lux (“Faça-se a Luz”) que iluminou as trevas pré-cósmicas.

Por isso justamente a iniciação se concebe como uma “iluminação” interior, e a expressão “dar a luz”, que se refere ao nascimento carnal, é exatamente o mesmo que “dar a luz”, tal qual se realiza durante o rito da iniciação maçônica, e em qualquer iniciação ao Conhecimento pois se trata de um arquétipo universal, com o qual se estabelece uma correspondência entre o nascimento físico e o nascimento espiritual. A própria palavra “neófito” com que se designava ao recém iniciado nos antigos Mistérios do Elêusis, e também na Alquimia e na Maçonaria, quer dizer tanto “nova planta” como “novo nascido”. E tudo isto está vinculado com a própria palavra Conhecimento, que é realmente um “CO-nascimento” [N.T.: em espanhol, “conhecimento” é “conocimiento“; o autor faz logo atrás, então, uma correlação entre as duas palavras e ideias], um voltar a nascer novamente. Neste sentido qualquer conhecimento relacionado com estas ideias é sem dúvida alguma um nascimento a uma outra realidade, com o que o campo de nossa visão do mundo e de nós mesmos se amplia e se faz mais verdadeiramente universal.

Por isso mesmo não se ilumina, não se desperta ou não se nasce, a não ser a aquilo que o ser já possui dentro de si, pois como diz também Platão: “Tudo o que o homem aprende já está nele”. Daí que a via alquímica e maçônica seja um processo de estrita realização pessoal, e todos os meios ou ajudas que vêm do exterior contribuem de fato a facilitar esse despertar e esse nascimento, mas tendo sempre em conta que são só ajudas, ou suportes, ou veículos, para iniciar e começar esse processo, e que inclusive podem nos servir durante um comprido trajeto do caminho, mas finalmente, e como se diz nos textos alquímicos, a “quem não compreende por si mesmo, nunca ninguém poderá fazê-lo o compreender, faça-se o que se fizer”.

Os suportes mais importantes, e poderíamos dizer virtualmente os únicos, são os símbolos e o alto Ensino que se deriva deles, tendo em conta que os símbolos iniciáticos foram especialmente desenhados para cumprir essa função didática, e estão “carregados”, se nos permitem a expressão, de influxos espirituais ou, se preferirem, de ideias-força, que eles mesmos transmitem sob suas formas e modos respectivos, e que convenientemente estimulados por nosso estudo, meditação e concentração, comunicam-nos e nos fazem partícipes de seu conteúdo, que assim que seja compreendido, incorporamo-lo e fazemos plenamente nosso, quer dizer, que nos identificamos com a ideia que revelam, ou dito de outra maneira: devimos essa própria ideia, pois como diz Aristóteles, e confirmam as experiências de todos os que o viveram, e o vivem, “o ser é o que conhece”, quer dizer que há uma identidade entre ser e conhecer: a gente é o que conhece. Por isso mesmo é tão importante o conhecimento dessa Ordem Arquetípica, que é a Cosmogonia, pois na medida em que dito conhecimento se faz em nós por sua compreensão, e tendo sempre presente as correspondências e analogias entre o macrocosmos e o microcosmos, nossa consciência se universaliza ao aflorar nela outros estados de uma natureza muito mais sutil, e que até esse momento eram completamente desconhecidos, até formando parte de nós mesmos. Essa “floração” é o que no tantrismo hindu se denomina o “despertar dos chakras“, palavra que quer dizer “rodas”, e que são efetivamente estados de nossa consciência que jazem adormecidos até que são despertados pela energia espiritual (uma de cujas expressões é a paixão pelo Conhecimento), a que podemos relacionar com o enxofre alquímico, força divina que jaz no centro de nosso ser, ou também com o maço e o cinzel maçônicos, cuja ação conjunta sobre a “pedra bruta” fazem possível a transformação desta em pedra cúbica.

Esse despertar dos centros sutis nos permite ir ascendendo degrau a degrau, degrau após degrau, pela “escada filosófica” que une a terra com o céu, até chegar a conceber, e em consequência viver, a ideia da Unidade, do Si mesmo, que constitui a “chave de abóbada” ou “pedra angular”, idêntica à “pedra filosofal” da Alquimia, de todo o Edifício Cósmico – e é obvio do ser humano, que vive assim a plenitude de uma existência não circunscrita somente a sua individualidade, pois esta foi transmutada pela gradual identificação com o universal por meio de seu conhecimento e da identidade com ele.

Então aquela existência que estava sujeita ao ilusório e evanescente de que falávamos mais acima, cobra aqui todo seu sentido e passa a ser o suporte permanente dessa transmutação, que é uma sucessão constante de mortes e nascimentos, ou dito em linguagem alquímica, de dissoluções e coagulações, que vão “afinando” o “composto” humano até fazê-lo “simples”, ou seja “não composto nem duplo”, semelhante a uma semente ou um germe, que evoca claramente a parábola evangélica do “grão de mostarda” (Mateus XIII, 31-32): “Semelhante é o Reino dos Céus a um grão de mostarda, que tomando-o um homem o semeou em seu campo; que é a menor de todas as sementes, mas quando se desenvolve é maior que as hortaliças, e se faz uma árvore, de modo que vêm as aves do céu e aninham em seus ramos”. Ou este outro texto dos livros sagrados da Índia, que diz o seguinte: “Este Âtmâ (o Grande Espírito), que reside no coração, é menor que um grão de arroz, menor que um grão de cevada, menor que um grão de mostarda, menor que um grão de millium, menor que o germe que está em um grão de millium; este Âtmâ, que reside no coração, é também maior que a terra, maior que a atmosfera, maior que o céu, maior que todos os mundos em conjunto”.

O grão de mostarda, como outros exemplos semelhantes, é evidentemente uma imagem simbólica da própria Unidade, que não tem composto nem duplo, por isso é a Unidade, e que em nosso mundo aparece como o menor, mas que em si mesmo é o maior, pois a tudo contém, e ao mesmo tempo está contida em tudo. Daí o exemplo da semente ou germe, que é precisamente no que tem que converter o candidato para receber a “luz” da Inteligência, para o qual precisa purificar-se de tudo que não é ele mesmo, quer dizer precisa passar pela prova dos elementos, que é outra herança que a Maçonaria recebe da Alquimia, e cujo fim não é outro que levá-lo a um estado completamente receptivo à luz da Inteligência.

Neste sentido, é interessante assinalar que os quatro elementos alquímicos, mais o quinto que é o éter ou “quintessência”, têm sua correspondência com o simbolismo construtivo, em concreto com as quatro pedras de fundação situadas nas quatro esquinas ou ângulos de base de um edifício, mais a quinta pedra, que não está no mesmo plano ou nível das outras quatro mas sim propriamente constitui o “quinto ângulo”, ou “pedra angular”, situada na sumidade do edifício, e da qual toda a construção aparece como a “projeção” ou “emanação” dessa mesma pedra, quer dizer, que a construção em si tem realidade a partir dela, pelo que realmente esta significa como representação da Unidade metafísica. E se isto é assim no simbolismo construtivo próprio da Maçonaria também o é no alquímico, no qual dita construção não é outra coisa que a que se realiza na alma humana a base de transmutações e purificações constantes e permanentes, até obter sua total identificação com a Unidade que reside no centro ou “quintessência” dela mesma, e que é ela mesma: “Quem se conhece si mesmo conhece seu Senhor”, é também uma máxima da Tradição Unânime.

A “viagem” pelos elementos que realiza o postulante a receber a iniciação maçônica se vive inumeráveis vezes ao longo de sua vida. Poderíamos dizer que é toda a vida a qual está envolta nisso, pois ditas viagens se vivem em distintos níveis de compreensão, sendo os elementos, do ponto de vista alquímico, estados do Ser Universal, e portanto do ser individual. Se tomarmos o exemplo da Árvore da Vida cabalística, vemos que em cada um de seus quatro planos: AsiahYetsirah, Beriah e Atsiluth (relacionados também com os quatro elementos) existe uma Árvore inteira, ao que se terá que percorrer do começo até o final, o que forma um ciclo, acabado o qual começa outro na escala evolutiva de nossa consciência, que vai assim da periferia ao centro, quer dizer a quintessência, à Unidade, em si mesmo e além da qual qualquer ideia de “viagem” ou de “busca” tal e como se considerava até então carece já de todo sentido.

Aqui tão somente falaremos da primeira dessas viagens, e sem a qual não seria possível as restantes. Esta se realiza visitando o interior da terra, o que na Maçonaria se simboliza com a “Câmara de Reflexão”, que é em tudo semelhante ao atanor, um espaço “hermeticamente fechado” onde é introduzido o aspirante para “despojar-se dos metais impuros”, linguagem claramente alquímica que alude a essas “escórias” e superficialidades (os “egos” em linguagem corrente) que impedem precisamente a “recepção da luz”. Ali, encerrado em seu atanor, na solidão mais completa, o aspirante tem que encontrar sua “pedra bruta”, ou seja, sua “matéria prima”, pois sem esta é impossível a Grande Obra. Ou dito de outra maneira: tem que dar-se conta de que a tudo tem que aprender de novo, e que em consequência tem que morrer para seu estado anterior, ou seja a não se identificar com o mais denso de si mesmo, aprendendo a “separar o espesso do sutil”, pois existe a promessa de uma vida nova, e que se tiver chegado até aí, até essa “Câmara de Reflexão” que é sua própria alma recolhida em uma extrema concentração, é porque secretamente, sem o saber, está cumprindo com seu destino. Neste ponto dizem novamente os textos alquímicos:

“Meu apelido é Dragão. Sou o servo fugitivo, e me encerraram em uma fossa para que logo me recompense com a coroa real e possa enriquecer a minha família… Minha alma e meu espírito me abandonam… Que eles não me deixem nunca logo, para que veja de novo a Luz do Dia, e que este Herói da Paz que o mundo espera possa sair de mim.”

A tudo isto aludem sem dúvida alguma os símbolos que se encontram na Câmara de Reflexão, todos destinados a nos fazer precisamente “refletir” sobre seu sentido profundo. Aí encontramos, por exemplo, ao galo, pássaro solar e de Hermes que anuncia a luz; aos três princípios alquímicos: enxofre, mercúrio e sal, quer dizer ao princípio ativo, ao passivo, e a síntese de ambos respectivamente; à caveira que nos indica o estado em que nos encontramos e ao mesmo tempo nos permite entender que no impermanente e no fugitivo, como a própria vida que nos escapa dentre as mãos, existe uma imagem do imutável, pelo que permanece, quer dizer que esses ossos nos evocam uma primordialidade e uma origem incorruptível. Por isso mesmo, nas correspondências entre o cosmo e o homem, os ossos estão regidos pelo planeta Saturno, o rei da Idade de Ouro, que é também o chumbo, o mais vil e denso de todos os metais mas no qual, entretanto, está encerrado o ouro, o mais precioso e sutil de todos eles. E ali, enfim, encontramos as siglas alquímicas VITRIOL, ou VITRIOLUM, que dão pleno sentido à Câmara de Reflexão: “Visita o Interior da Terra e Retificando Encontrará a Pedra Oculta. Verdadeiro Remédio”.

Visitar o interior da terra é fazê-lo em si mesmo, procurar em nossa memória os sinais que nos levem ao país dos antepassados, a nossa linhagem espiritual, como faz o mestre Hiram, quando vai procurar no interior da terra, no mundo subterrâneo, a seu antepassado Tubalcain, segundo se relata em outras lendas que revestem Hiram com os características de um herói civilizador. Ressoam aqui as palavras de todos os iniciados de todos os tempos: para ascender ao mais alto tens de descer ao mais baixo, e este fato se cumpre indefinidas vezes no processo iniciático, pois o percurso pelo eixo que comunica os diferentes planos do Ser universal, e do ser individual, faz-se sempre nas duas direções: ascendente-descendente:

Sobe da Terra ao Céu, desce de novo à Terra, e une os poderes das coisas de cima e das de baixo,

Podemos ler na “Tábua de Esmeralda” hermética, fundamento doutrinal e síntese magistral de todos os trabalhos alquímicos.

Na realidade, a Pedra Oculta, o verdadeiro remédio ou elixir da imortalidade de que se fala nas siglas VITRIOL, não é outra coisa que a obtenção do Conhecimento, já que como antes recordávamos, também se disse que “Quem se conhece si mesmo conhece seu Senhor”, quer dizer à Unidade. O “prêmio”, se é que houvesse algum neste caminho de enormes contrastes que realiza o peregrino para sua pátria de origem, não é outro que esse Conhecimento, ao que alguns preferem pôr o nome de Tradição Primitiva, que é a Fonte da qual emana a Ciência Sagrada ou Filosofia Perene de todos os tempos e lugares. Neste sentido, em um momento determinado dessa viagem, a Câmara de Reflexão passa a ser outra Câmara: a Câmara do Meio, situada na base do Eixo do Mundo durante o rito de recepção ao terceiro grau, ali onde têm lugar outros mistérios que fazem referência também a uma morte e a um novo nascimento.

Isto nos faz recordar indevidamente que quando Dante, em sua viagem ao centro da terra, desce ao ponto mais baixo desta, “retifica” imediatamente o sentido dessa direção e começa a subir pelo eixo do mundo, que é seu próprio eixo interior, para a saída à “Luz do Dia”, à Realidade, abandonando o “reino das sombras” ao encontro com sua dama Beatriz, personificação da Sabedoria.

E não queríamos terminar estas reflexões que quis compartilhar com todos vós sem citar novamente o livro Simbolismo e Arte, concretamente o capítulo titulado “Arte Alquímica”, onde se diz o seguinte:

E de igual forma que todo nascimento se transforma em morte e esta é continuada por um renascimento – qualquer seja o ponto de vista que se adote, posto que a criação é perene –, assim estes estados se sucedem no ser, sujeito ao espaço, ao tempo e à memória. Pelo que o xamã vive em seu processo alquímico indefinidos falecimentos e ressurreições. (…) Entretanto também devemos observar que de modo acorde em Alquimia se destacam diversas etapas significativas no processo geral, que se realiza escalonadamente na projeção temporal, que estão vinculadas com os ciclos que, embora universalmente se sucedem sem solução de continuidade, têm um sentido claro no subciclo de uma existência particular, onde a dimensão de uma vida humana reconhece os tênues e sutis sinais de uma transformação, que por leve e esfumada que pareça, faz-se de repente transparente e se arraiga profundamente no coração do atanor, ou o que é o mesmo, da alma humana, permitindo-lhe assim ao operário seguir desenvolvendo-se para enfrentar novos trabalhos de sua ciência evolutiva, graças à intuição intelectual, direta, que não admite dúvidas nem demonstrações pois, de face à certeza, resultam completamente desnecessárias.

Pode-se compreender, então, que este processo do adepto – ou o xamã, que recebeu sucessivas iniciações, ou compreendido distintos estados do Ser Universal – que vai obtendo para si paulatinamente as cores da Obra, é uma verdadeira imersão no tempo, já que adverte a simultaneidade de todo o possível (que se dá mercê à projeção temporal, ou seja, gradualmente), e reconhece estados não humanos de uma perspectiva distinta, onde vê girar a roda dos sucessos e fenômenos sem apego, tal qual o alquimista metálico observa de uma maneira imparcial as substâncias que combustam – coagulam e se dissolvem – em seu atanor. Em tudo isto tem um papel decisivo a memória, matéria com que está tecido o tempo e portanto o homem, já que este é tanto o que conhece como o que recorda, e em todo caso se for algo em si, é por sua memória: imprecisa e frágil substância que troca com os momentos e os dias e constantemente se atualiza.

Autor: Francisco Ariza

Tradução: Igor Silva

Fonte: Hermetismo y Masoneria

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Sessão Maçônica Motivadora

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O objetivo do Maçom em Loja é participar de Sessão Maçônica motivadora para realimentar sua alma na vivência do dia a dia. Sessões com assuntos administrativos reduzidos ao mínimo para sobrar mais tempo para degustar bons pensamentos em animadas atividades que visam o crescimento e a auto-educação. O tempo de instrução e estudos é a alma da Sessão Maçônica!

Cabe apenas aos Aprendizes e Companheiros Maçons a tarefa de manterem acesa a chama do pensamento maçônico? Aprendizes e Companheiros são pessoas sedentas de informações e conhecimentos ou os instrutores nas Sessões? Instrução é dever do Mestre Maçom! Ultimamente os Aprendizes e Companheiros, e só estes, por obrigação regimental, apresentam peças de arquitetura, trabalhos de cunho intelectual, visando aumento de salário. Por que os Mestres Maçons não se encontram motivados para tal? Faltam provocações! Carecem de debates e conversas informais dos assuntos da Maçonaria dentro e fora da Loja. Tristemente, é comum os Aprendizes e Companheiros ensinarem de forma proativa enquanto os Mestres Maçons dormem! Como aconteceu isto? Por que o Mestre Maçom está tão desmotivado? São as Sessões Maçônicas desmotivadoras! Ou o Mestre desce do pedestal em que ele foi colocado em resultado de Sessões monótonas ou deixa de ser o eterno e motivado Aprendiz ou deixa a Ordem Maçônica! Esta última é a realidade universal!

Mestre motivador e motivado nasce do atrito com os outros intelectos que o acompanham numa Sessão Maçônica, daí a importância de debates. A tarefa dos embates por pensamentos em animadas argumentações é arrancar lascas de imperfeição das pedras uns dos outros, o polimento exige trabalho, atividade em equipe – não é assim que são formadas as pedras roladas dos fundos de rios? Uma pedra vai batendo na outra até que todas adquirem formas harmoniosas, quase lisas, nunca perfeitas, apenas aperfeiçoadas. São pancadas ora suaves ora bruscas, mas continuas! O resultado são pedras diferentes umas das outras: grandes, pequenas, achatadas, ovais, arredondadas, mas nunca perfeitas. Cada pedra mantém sua forma própria e reflete a luz com maior ou menor intensidade, dependendo de quanto ela rolou em contato com outras pedras maiores e menores, até com pedras tão pequenas com o grãos de areia. Todas se modificam pelo atrito constante. Não há necessidade de erudição elevada, apenas conhecimento médio já é suficiente numa motivadora Sessão Maçônica, é semelhante à diversificação das pedras do fundo dos rios. Em verdade, basta apenas uma mente sadia – qualquer mente humana! O objetivo deve ser o canteiro de obras movimentado onde cada Obreiro é Aprendiz, um eterno Aprendiz, mesmo que seja apenas um grão de areia em erudição ele vai influir no pensamento de seu Irmão.

Promover debate em Loja é retornar à prática da Maçonaria Especulativa, que preconiza o filosofar, o estudo teórico, o raciocínio abstrato e investigativo, que usos e costumes deturparam a ponto de descaracterizar as Sessões Maçônicas. Urge despertar nos Irmãos a salutar capacidade em desenvolver o pensamento em animadas discussões das coisas da sociedade e da Ordem Maçônica. O propósito central das Sessões motivadoras é eliminar o inconformismo gerado pelo comparecimento semana após semana em Loja apenas para ouvir o som seco, duro, impessoal dos Malhetes, em detrimento do trabalho no polimento das pedras chocando-se umas nas outras no exercício do pensamento. Sessões sem debate e com instruções mecânicas revelam perda de tempo; são vazias e sem propósito; devem ser defenestradas do Templo. O Obreiro da pedra deve terminar seu dia em Loja com algo novo e consistente dentro da mochila que ele leva de volta para casa. Urge acabar com a mente desocupada, oca, vazia, cheia de lacunas em resultado de atividade passiva e deixar a capacidade de pensar fazer sua parte na construção do Templo ideal da sociedade, onde cada homem é apenas uma pedra. Atividades motivadoras em Loja levantam a Egrégora, um campo de força do pensamento em uníssono e vibrante, algo revelado no brilho dos olhos dos participantes. Como é possível ver os olhos do Irmão que dorme o sono dos anjos? O objetivo da Maçonaria é despertar o equilíbrio da razão, emoção e espiritualidade – quando poderão fazer isto, se suas mentes estão adormecidas pelo enfadonho e repetitivo som monótono das mesmas ideias repetidas vez após vez?

O Obreiro deve voltar à prática do salutar e edificante afiar da espada, a língua, e praticar o manuseio do Maço e do Cinzel, dar tratos à capacidade de pensar, que há muito foi substituído por outras atividades nada motivadoras; mesmices, tão entediantes que apenas embalam o sono dos ouvintes passivos. Urge incrementar a qualidade das Sessões Maçônicas de modo a torná-las motivadoras de tal forma que estabeleçam contágio para edificantes conversas entre Irmãos, o que é de fato o real objetivo da Maçonaria Especulativa com sua filosofia e liturgia.

Mestres Maçons devem ser compelidos na confecção de peças de arquitetura? Não! Ninguém é obrigado a fazer nada além do determinado pelas leis que regem a Loja. O Mestre Maçom só confeccionará peças de arquitetura quando estiver inspirado para isto. Tais construções surgem no canteiro de obras principalmente se esta for a sua vontade e depois do Obreiro se ver provocado por novas inspirações provindas em Loja dos Irmãos, das outras pedras, pedriscos e grãos de areia.

O salão é o mesmo, as músicas e o ritmo é que devem mudar. O baile será alegre e trará prazer aos dançarinos se a Sessão for motivadora e entusiasta! O que interessa é cada músico dar o que tem de bom em si e animar o baile ao sabor de seus pensamentos temperados com alegria. O que se objetiva é alimentar com o sadio, construtivo e consistente alimento da filosofia maçônica. A sede de conhecimento maçônico deve ser aplacada para que o homem produza frutos. O gênio da motivação vem do ritmo impelido pelos músicos e maestro, onde todos participam da orquestra e ao mesmo tempo dançam ao som de seus pensamentos, sonhos e até devaneios. E assim, os dançarinos vão se movimentando na pista do tempo construído à semelhança de um rio e onde cada pedra lustra a outra para honra e a glória do Grande Arquiteto do Universo.

Autor: Charles Evaldo Boller

Fonte: Segredo Maçônico – A busca do segredo interior

Bibliografia

DANTAS, M arcos André M alta. Do Aprendiz ao Mestre. Ia cd. Londrina: “A TROLHA”, 2010. PUSCH, Jaime. ABC do Aprendiz. 2a ed. Tubarão: 1982. RODRIGUES, Raimundo. A Filosofia da Maçonaria Simbólica. Londrina: “A TROLHA”, 2007. v. 04.

Qual é a arte da Arte Real?

Arte Real Atelier de Paramentos Maçônicos - Vila Gomes Cardim, São ...

Liberdade vai buscando, que é tão querida
Como sabe quem por ela rechaça a vida.
Dante, Purgatório. I, 71-72. [1]

Segundo os antigos rituais e as antigas Constituições maçônicas, a finalidade da franco-maçonaria é o aperfeiçoamento do homem.

Os antigos mistérios clássicos não tinham outro objeto e conferiam a télétê, perfeição iniciática. Este termo técnico estava vinculado etimologicamente aos três sentidos de fim, morte e perfeição, como já observa o pitagórico Plutarco. Jesus utiliza também a palavra téleios quando exorta seus discípulos a serem “perfeitos como vosso Pai que está nos céus”, inclusive se, por uma dessas frequentes incongruências das Santas Escrituras, afirma que “ninguém é perfeito exceto meu Pai que está nos céus”.

Essa definição poderia parecer explícita e precisa; e, não obstante, uma ligeira mudança formal alterou fundamentalmente o conceito. Tomemos como exemplo o dicionário de Pianigiani que afirma que a finalidade da franco-maçonaria é o aperfeiçoamento da humanidade; grande quantidade de profanos, assim como numerosos maçons, aceitam essa definição. A primeira vista pode parecer que aperfeiçoamento do homem e aperfeiçoamento da humanidade significam a mesma coisa. Na realidade, se referem a dois conceitos profundamente distintos, e sua aparente sinonímia gera um equívoco e oculta uma incompreensão. Outros utilizam a expressão aperfeiçoamento dos homens, igualmente equivocada. Evidentemente, é quase impossível decretar qual é a expressão correta, porque qualquer franco-maçom pode declarar correta a que está mais de acordo com suas preferências, e ainda comprazer-se, talvez, no equívoco. Mas quando se trata de determinar, histórica e tradicionalmente, a interpretação correta e conforme com o simbolismo maçônico, a questão muda de aspecto e já não se trata de preferências particulares.

O manuscrito encontrado por Locke (1696) na Bodleian Library – e que não foi publicado até 1748 – e atribuído a Henrique VI, da Inglaterra – define a franco-maçonaria como “o conhecimento da natureza e a compreensão das forças que há nela”; enuncia expressamente a existência de um vínculo entre a Maçonaria e a Escola Itálica, pois afirma que Pitágoras, um grego, viajou para instruir-se, ao Egito, à Síria e a todos os países onde os Venezianos [leia-se os Fenícios] haviam introduzido a Maçonaria. Admitido em todas as lojas dos Maçons, adquiriu um grande saber, voltou à Magna Grécia… e fundou uma importante loja em Crotona[2].

Para dizer a verdade, o manuscrito fala de Peter Gower; e, como o nome Gower existe na Inglaterra, Locke ficou bastante perplexo ante a identificação de Gower com Pitágoras. Mas outros manuscritos e as Constituições de Anderson mencionam explicitamente Pitágoras. O manuscrito de Cooke diz que a Maçonaria é a parte principal da Geometria, e que foi Euclides, sábio e sutil inventor, quem deu as regras desta arte e a chamou de Maçonaria. Há outros traços de reminiscências pitagóricas tanto nas “Old Charges” como no mais antigo dos rituais impressos (1724)[3], que atribui uma importância particular aos números ímpares, de acordo, neste caso, com a tradição pitagórica[4].

Todos os antigos manuscritos maçônicos concordam ao assinalar o aperfeiçoamento do homem, ou do simples indivíduo, como único objetivo da franco-maçonaria. As provas iniciáticas, as viagens simbólicas, o trabalho do aprendiz e do companheiro têm um caráter manifestamente individual e não coletivo.

Segundo a mais antiga concepção maçônica, a “grande obra” do aperfeiçoamento é realizada trabalhando sobre a “pedra bruta”, ou seja, sobre o indivíduo, desbastando, polindo e esquadrinhando a pedra bruta até transformá-la em “pedra cúbica da Maestria”, graças às regras tradicionais da “Arte Real” maçônica de edificação espiritual. Existe uma perfeita analogia com uma tradição paralela, a tradição hermética, que, pelo menos desde 1600, se encontra enxertada nela e ensina que a “grande obra” é realizada trabalhando sobre a “matéria prima”, transformando-a em “pedra filosofal” segundo as regras da “Arte Real hermética”. Operação que resume a máxima de Basílio Valentino: V.I.T.R.I.O.L. (Visita Interiora Terrae retificando Invenies Occultum Lapidem = Visita o interior da Terra, por retificação encontrarás a pedra oculta) ou a Tábua de Esmeralda, que modernos arabistas atribuem ao pitagórico Apolônio de Tiana. Pelo contrário, segundo a concepção maçônica profana e mais moderna, o trabalho de aperfeiçoamento deve ser realizado sobre a coletividade humana. É a humanidade ou a sociedade que ela há que transformar e aperfeiçoar; e, desse modo, substitui-se a ascese espiritual do indivíduo pela política coletiva. Os trabalhos maçônicos acabam por ter então uma meta e um caráter primeiramente social, às vezes unicamente social. O verdadeiro fim da franco-maçonaria – o aperfeiçoamento do indivíduo – passa a segundo plano quando não é francamente descuidado, esquecido e ignorado.

Tradicionalmente a primeira concepção é sem dúvida a correta e na literatura maçônica do século XVIII estiveram muito em moda as comparações e identificações exageradas e fantasiosas entre os mistérios de Elêusis e a franco-maçonaria. É indiscutível que o patrimônio ritual e simbólico da ordem maçônica somente se harmoniza com a concepção mais antiga da finalidade da maçonaria; efetivamente, o testamento do candidato à iniciação, as viagens simbólicas, as terríveis provas, o nascimento para a Luz iniciática, a morte e a ressurreição de Hiram, não podem ser compreendidos em sua relação com os trabalhos maçônicos e com a finalidade da franco-maçonaria caso tudo deva ser reduzido a fazer apenas política.

Historicamente, o interesse e a intervenção da franco-maçonaria nas questões políticas e sociais se manifesta apenas por volta de 1730, e unicamente em algumas regiões europeias, com a introdução da franco-maçonaria inglesa no continente. O pouco que se sabe das antigas lojas de antes do século XVII mostra a presença e o uso nos trabalhos maçônicos de um simbolismo de ofício, arquitetônico, geométrico, numérico, que, tendo por sua natureza um caráter universal, não se encontra ligado nem a uma civilização determinada nem a uma língua em particular e permanece independente de todo credo de ordem política e religiosa; é por essa razão que o maçom, de acordo com o ritual, não sabe ler nem escrever.

Com a lenda de Hiram e a construção do Templo faz sua aparição um elemento hebraico; e as palavras sagradas do aprendiz e do companheiro (as únicas graduações ou graus então existentes) que se referem a esta lenda são hebraicas. Mas esta lenda não pertence ao patrimônio tradicional da Ordem; a morte de Hiram não figura nos antigos manuscritos maçônicos, e as Constituições de Anderson ignoram o terceiro grau. De todas as maneiras, não há nada de extraordinário na presença de elementos e palavras hebraicas em uma época em que o hebreu era considerado como uma língua sagrada, a língua sagrada, aquela que Deus havia utilizado para falar ao homem no Paraíso Terrestre; trata-se de um fato cuja importância e significado não há que ser exagerado e que de nenhuma maneira é suficiente para se justificar a afirmação do caráter hebreu da franco-maçonaria. A letra G do alfabeto greco-latino, inicial de geometria e de Deus (God) em inglês, que aparece na Estrela Flamejante ou no Delta maçônico, parece ser apenas uma inovação (sem utilidade para quem não sabe ler nem escrever), enquanto que os dois símbolos fundamentais da ordem são os dois mais importantes do pitagorismo: o pentalfa ou pentagrama e a tetraktys pitagórica. A arte maçônica ou arte real, termos utilizados pelo neoplatônico Máximo de Tiro[5], era identificada com a geometria, uma das ciências do quadrivium pitagórico, e é difícil compreender como um Oswald Wirth, maçom erudito e hermetista, pode escrever que os maçons do século XVII[6] se proclamavam adeptos da Arte Real porque em outro tempo houve reis que se interessaram pela obra das privilegiadas corporações dos construtores da Idade Média. Os elementos de puro caráter maçônico constituem, junto com o simbolismo numérico e geométrico, o patrimônio simbólico e ritual arcaico e autêntico da fraternidade. Não dizemos seu patrimônio característico, porque estes elementos aparecem também, pelo menos parcialmente, no Companheirismo (compagnonnage), que de resto é muito próximo da franco-maçonaria.

Posteriormente, entre os séculos XVII e XVIII, quando as lojas inglesas começaram a receber como irmãos os accepted masons (pessoas que não exerciam a profissão de arquiteto ou o ofício de pedreiro), fazem sua aparição elementos herméticos e rosacrucianos como, por exemplo, Elias Ashmole (1617-1692), tal como assinala Gould em sua história da franco-maçonaria. O contato entre a tradição hermética e a maçônica fora da Inglaterra se produziu igualmente quase à mesma época, o que, evidentemente, implica a existência no continente de lojas maçônicas independentes da Grande Loja Inglesa. O frontispício de um texto hermético importante, editado em 1618[7], reproduz junto aos símbolos herméticos (o Rebis) os símbolos estritamente maçônicos do esquadro e do compasso; ocorre o mesmo em um opúsculo italiano de alquimia[8], impresso em lâminas de chumbo e que remonta praticamente a essa época.

Neste opúsculo se vê, entre outras coisas, Tubalcaim com um esquadro e um compasso em suas mãos. No entanto, na Bíblia, Tubalcaim é considerado como o primeiro ferreiro. Um erro de etimologia, naquela época muito praticado, e que o erudito Vossius repetiu, o identificou com Vulcano, o ferreiro dos Deuses e Deus do fogo, o qual, segundo os alquimistas e os hermetistas, presidia o fogo hermético (ou ardor espiritual), fogo que realizava a grande obra da transmutação. Em uma de nossas obras da juventude[9] demos uma interpretação errada da p∴ de p∴ Tub∴, pois ignorávamos a equivocada identificação de Vulcano com Tub∴ que era aceita pelos hermetistas e eruditos dos séculos XVII e XVIII. Hoje, nos parece evidente que esta p∴ de p∴ e algumas outras vêm do hermetismo, e que provavelmente foram introduzidas na franco-maçonaria e acrescentadas às palavras sagradas, constituindo provas do contato que havia se estabelecido entre a tradição hermética e a maçônica. As p∴ de p∴ do 2o. e 3o. graus não existem no ritual de Prichard (1730). Hermetismo e Maçonaria têm como fim a “grande obra da transmutação” e ambas as tradições transmitem o segredo de uma arte, à qual designam com o termo Arte Real já utilizado por Máximo de Tiro. É, pois, natural que tenham se sentido muito próximas uma da outra. Observemos que a adoção do simbolismo hermético não é efetuada em detrimento da universalidade maçônica nem de sua independência frente à religião e à política, pois o simbolismo hermético ou alquímico é, também, estranho, por sua natureza, a todo credo religioso ou político. A arte maçônica e a arte hermética, ou simplesmente a arte, é um arte e não uma doutrina ou uma confissão.

Até 1717 cada loja, de fato, era livre e autônoma. Os irmãos de uma oficina eram recebidos como visitantes nas demais oficinas, com a condição de satisfazer o telhamento (uma espécie de exame que permitia reconhecer que alguém era, na verdade, um irmão); mas somente o Venerável de uma oficina detinha a autoridade única e suprema entre os irmãos da mesma.

Em 1717, foi produzida uma mudança com a constituição da primeira Grande Loja, a Grande Loja de Londres, e pouco depois o pastor protestante Anderson redigia as Constituições maçônicas para as lojas sob a Obediência da Grande Loja de Londres; e, se bem que teoricamente uma oficina podia e pode conservar sua autonomia ou filiar-se à Obediência de uma grande loja[10], na prática só se consideram hoje lojas regulares aquelas que, direta ou indiretamente, são emanações ou derivações da Grande Loja de Londres, na suposição de que esta derivação, e somente ela, possa conferir a “regularidade”.

Isso posto, é muito importante observar que as Constituições de Anderson afirmam explicitamente que, para ser iniciado e pertencer à franco-maçonaria, a única condição é ser um homem livre de costumes irrepreensíveis, e exaltam (ao contrário das diversas seitas cristãs) o princípio da tolerância de cada qual pelos credos dos demais, ressalvando somente que um maçom não será nunca um “ateu estúpido”. Poder-se-ia pensar que Anderson admite que o franco-maçom pode ser um ateu inteligente, mas é mais verossímil que, como bom cristão, pensasse que um ateu é obrigatoriamente um imbecil, segundo a máxima que diz: Dixit stultus in corde suo: Non est Deus, (O estúpido diz em seu coração: Deus não existe). Aqui, seria necessário fazer uma digressão e observar que nesta disputa tanto o que afirma como o que nega não possui em geral nenhuma noção se aquilo que afirma existe ou não e que a palavra Deus é empregada habitualmente em um sentido tão vago que toda discussão é inútil. Seja como for, as Constituições da franco-maçonaria são explicitamente teístas; e os profanos, que acusam a franco-maçonaria de ateísmo, ou o fazem de má fé ou ignoram que ela trabalha para a glória do Grande Arquiteto do Universo. Observemos ainda que esta designação, que se harmoniza com o caráter do simbolismo maçônico, tem, igualmente, um sentido preciso e inteligível, ao contrário que certas designações vagas ou carentes de sentido como as “Nosso Senhor”, “Pai de todos os homens”, etc.

A qualidade de homem livre, exigida ao profano para iniciá-lo ou ao maçom para considerá-lo como irmão, é de grande interesse. Anderson não deixa de chamar de franco-maçons aos Free Masons, restando então examinar em que consiste essa freedom (liberdade) dos Free Masons. Trata-se somente da franquia econômica e social que exclui aos escravos e servos, e das franquias e privilégios que a corporação dos franc-maçons desfrutava frente aos governos dos estados e das distintas regiões onde exercia sua atividade? Ou essa denominação de maçons francos ou liberados deve ser tomada em outro sentido, referindo-se a pessoas que não são escravas dos preconceitos nem dos credos, liberdade que seria inútil trazer à luz? Se fosse assim, resultaria vão querer buscar as provas documentais e a pergunta ficaria pendente. Não obstante, pode aportar-se um esclarecimento graças a um documento de 1509 cuja existência ou cuja importância não foi, ao que parece, destacada até o presente.

Trata-se de uma carta escrita em 4 de fevereiro de 1509 a Cornelius Agrippa por seu amigo italiano, Landolfo, para recomendar-lhe um iniciado. Landolfo lhe escreve[11]:

“É alemão como tu, originário de Nuremberg, mas que vive em Lyon. Investigador curioso nos arcanos da natureza, é um homem livre, completamente independente dos demais, que deseja, por causa da reputação que já possuís, explorar também teu abismo… Lança-o, pois, para prová-lo ao espaço; e levado nas asas de Mercúrio voa das regiões do Austro às do Aquilão, toma também o cetro de Júpiter; e se nosso neófito quer jurar nossos estatutos, associa-o à nossa fraternidade.”

Tratava-se de uma associação secreta hermética criada por Agrippa, e há uma evidente analogia entre a prova do espaço que o iniciado deve enfrentar e as terríveis provas e viagens simbólicas da iniciação maçônica, inclusive quando a prova, aqui, se faz nas asas de Hermes. Hermes Psicopompo, o pai dos filósofos segundo a tradição hermética, é o guia das almas no além clássico e nos mistérios iniciáticos. Nesta carta também, se destaca a qualidade de homem livre, suficiente para abrir ao profano a porta do templo ao qual aspira; também aqui se manifesta substancialmente o princípio da liberdade de consciência e, ao seu lado, a tolerância. Ambas as tradições paralelas, hermética e maçônica, impõem idêntica condição para iniciar o profano: a de ser um homem livre, de onde se pode presumir que ela não se referia às franquias particulares das corporações de ofício, e por outro lado não faria sentido pedir isso aos accepted Masons que não eram pedreiros de profissão mas sim franco-maçons.

O caráter fundamental das Constituições de Anderson reside, pois, no princípio da liberdade de consciência e de tolerância, que permite também aos não cristãos pertencer à Ordem. Nas Constituições de Anderson a franco-maçonaria conserva seu caráter universal, não está subordinada a nenhum credo filosófico particular nem a qualquer seita religiosa, e não manifesta nenhuma inclinação por trabalhos de ordem social ou político. Pode ser que este caráter aconfessional e livre tenha inspirado igualmente à Maçonaria anterior a 1717 e que Anderson apenas o retificou nas Constituições.

Ao ser implantada na América e no continente europeu, a franco-maçonaria conservou em geral seu caráter universal de tolerância religiosa e filosófica e permaneceu à parte de todo movimento político e social, inclusive acentuando às vezes, como na Alemanha, seu interesse pelo hermetismo. Ao redor de 1740, começaram a multiplicar-se os novos ritos e os altos graus, mas conservando cuidadosamente os rituais e o rito dos três primeiros graus, os da verdadeira franco-maçonaria, chamada igualmente Maçonaria simbólica ou azul.

Os rituais destes altos graus são por vezes um desenvolvimento da lenda de Hiram, ou se relacionam com os rosa-cruzes, o hermetismo, os templários, o gnosticismo, os cátaros…, e já não têm um autêntico caráter maçônico. Do ponto de vista da iniciação maçônica, são absolutamente supérfluos. A franco-maçonaria está completa nos três primeiros graus, reconhecidos por todos os ritos, e nos quais se baseiam os altos graus e as lojas superiores dos diferentes ritos. O companheiro franco-maçom, uma vez que tenha chegado a mestre, acabou simbolicamente sua grande obra. Os altos graus só poderiam ter uma função verdadeiramente maçônica se contribuíssem para uma interpretação correta da tradição maçônica e para uma compreensão e aplicação mais inteligente do rito, ou seja, da arte real.

Isto não significa que se tenha que abolir os altos graus, já que os irmãos que foram agraciados com eles são livres, e que quem gosta de reunir-se em ritos e corpos para efetuar trabalhos que não se opõem às obras maçônicas devem ter a liberdade de fazê-lo. Não obstante, do ponto de vista estritamente maçônico, sua pertinência a outros ritos e a outras lojas superiores não os põe acima dos mestres que querem apenas efetuar o trabalho da Maçonaria universal dos três primeiros graus. Além disso, é evidente que ritos distintos como o de Swedenborg, os Escoceses, os da Estrita Observância, de Memphis…, ao serem diferentes, já não são universais, ou o são apenas na medida em que se baseiam sobre os três primeiros graus. Esquecer ou tentar desnaturalizar o caráter universal, livre e tolerante da franco-maçonaria, para impor aos irmãos das lojas pontos de vista ou objetivos particulares, seria ir contra o espírito da tradição maçônica e contra os termos das Constituições da Fraternidade.

É na França onde aparece a primeira alteração, ao mesmo tempo em que afloram os altos graus. A efervescência das ideias nessa época, o movimento da Enciclopédia, repercutem na franco-maçonaria que se difunde ampla e rapidamente. E, pela primeira vez, o interesse da ordem se dirige para as questões políticas e sociais e nelas se concentra. Afirmar que a Revolução Francesa seja obra da franco-maçonaria nos parece pelo menos exagerado. Por outro lado, é inegável que a franco-maçonaria sofreu na França – e seria difícil que isso não tivesse ocorrido – a influência do grande movimento profano que levou à revolução e culminou no império. A franco-maçonaria francesa tornou-se então e seguiu sendo desde esse momento, uma Maçonaria comprometida e interessada nas questões políticas e sociais. Alguns quiseram considerá-la como “tradicional” quando no máximo representa a tradição maçônica francesa, bem distinta da antiga tradição. Este desvio e este compromisso é a causa principal, se não a única, da oposição que seguidamente nasceu entre a Maçonaria anglo-saxônica e a francesa; na Itália, criou as divergências destes últimos cinquenta anos, que tiveram como consequência sua desunião e a debilitação ante os ataques e a perseguição dos jesuítas e os fascistas. Seja como for, inclusive os irmãos que seguem a tradição maçônica francesa não esqueceram o princípio de tolerância, e nas lojas maçônicas italianas, muito antes da perseguição fascista, havia irmãos de todas as crenças religiosas e de todos os partidos políticos, inclusive católicos e monárquicos.

Há que se recordar também, que no período que antecedeu à Revolução Francesa, nem todos os maçons esqueceram a verdadeira natureza da franco-maçonaria, mesmo quando ficaram desorientados pela plêiade de ritos diversos e opostos. No Convento dos Philalèthes reuniram-se maçons de todos os ritos, animados todos eles pelo mesmo desejo de restabelecer a unidade. Só Cagliostro, que havia fundado o rito da Maçonaria Egípcia, que unicamente constava de três graus e era exclusivamente dedicado à obra de edificação espiritual, se negou a comparecer a este Convento por razões que seriam muito extensas para explicar.

A influência maçônica francesa ocorreu também na Itália, depois da Revolução e durante o império. Ainda hoje, a presença de certos termos técnicos nos “trabalhos” maçônicos, como o “malhete” do Venerável (traduzido, no italiano, literalmente, por “maglietto”) assim como outros termos (louveton, tradução fonético-semântica de Lufton, filho de Gabaon, nome genérico do maçom segundo os primeiros rituais ingleses e franceses) são prova de isso. A franco-maçonaria francesa e a italiana mantiveram estreitas relações durante todo o último século, e por vezes uma atitude revolucionária, republicana, mas também materialista e positivista que seguia a moda filosófica da época. Não obstante, não se pode dizer que a franco-maçonaria italiana se converteu numa franco-maçonaria materialista, pois ainda que tenha sido tolerante diante de todas as opiniões, nem por isso deixou de venerar, e muito particularmente, um grande espírito como Giuseppe Mazzini e grandes franco-maçons como Garibaldi, Bovio, Carducci, Filopanti, Pascoli, Domizio Torrigiani e Giovanni Amendola, todos idealistas e espiritualistas[12]. Foi a selvageria furiosa e o vandalismo dos incultos fascistas que devastou os nossos templos, as nossas bibliotecas e quebrou os bustos de Mazzini e Garibaldi que decoravam as nossas sedes.

Por outro lado, há de se reconhecer que se a franco-maçonaria inglesa conservou sempre um caráter espiritualista e nunca lhe ocorreu negar a existência do Grande Arquiteto do Universo, frequentemente esteve tentada, e ainda está, a conferir um certo tom cristão ao seu espiritualismo, afastando-se dessa forma do espírito de imparcialidade absoluta e não confessional das Constituições de Anderson. Não se pode negar que o fato de obrigar a prestar juramento sobre o Evangelho de São João não é uma prova de tolerância perante profanos e irmãos agnósticos ou pagãos, judeus ou livre pensadores, que não têm uma especial simpatia pelo Evangelho de São João e ignoram tudo da tradição joanista. A intolerância acentua-se com o mau costume de impingir a leitura e o comentário dos versículos do Evangelho durante os trabalhos da Loja. Se este hábito criticável adquirir importância, terminará por reduzir os trabalhos da Loja a um simples serviço religioso corriqueiro ou puritano, uma espécie de “rosário” ou de “vésperas” fastidiosas, inúteis e insuportáveis para a livre consciência de tantos irmãos que, na Inglaterra e na América, não vão à missa, não aceitam a infalibilidade do papa, nem tampouco a autoridade da Bíblia. É necessário criar mal-estar e irritação nas nossas colunas sem uma contrapartida apreciável? Pode acreditar-se que, por esses meios, se converterá os outros às próprias crenças e que dessa forma se conterá o agnosticismo inglês e americano?

Estas considerações exortam a conservar o caráter universal da franco-maçonaria acima dos credos religiosos e filosóficos e dos compromissos políticos. Isto não significa que se deva ignorar a política. Com efeito, devemos nos proteger dela. A intolerância não pode tirar o espaço da tolerância e a tolerância pode tolerar tudo exceto a intolerância deliberadamente hostil. Desde o momento em que apareceram as Constituições de Anderson com o seu princípio de liberdade e de tolerância, a Igreja católica excomungou a franco-maçonaria, culpável precisamente de tolerância; e o encarniçamento contra a franco-maçonaria nunca seria desmentido. Na Itália, a perseguição à franco-maçonaria durante estes últimos vinte anos foi iniciada e mantida pelos jesuítas e pelos nacionalistas[13]; enquanto os fascistas, para ganharem a simpatia destes senhores, não vacilaram em provocar a aversão do mundo civilizado, no que diz respeito à Itália, com o seu vandalismo contra a franco-maçonaria. Os jesuítas perderam esta guerra, mas a lepra da intolerância propaga-se sempre, reveste-se de novas formas e é necessário que nos protejamos dela. Por outro lado, chegou a hora, se não nos enganamos, de difundir a franco-maçonaria por toda a Terra e estabelecer uma fraternidade entre os homens de todas as raças, civilizações e religiões. Para levar a bom termo esta tarefa é necessário que a franco-maçonaria não assuma uma fisionomia e um tom pertencente a uma minoria perante a qual as grandes civilizações orientais, China, Índia, Japão, Malásia, o mundo do Islã, têm se mostrado refratárias. Isso é possível desde que a franco-maçonaria não se circunscreva a uma crença qualquer e permaneça fiel ao seu patrimônio espiritual, que não consiste nem de uma fé codificada, um credo religioso ou filosófico, um conjunto de postulados ou de preconceitos ideológicos e moralistas, nem de uma bagagem doutrinal considerada detentora e portadora da verdade, à qual os não crentes devam ser convertidos. Há que se pensar que, ainda que a verdadeira religião e a verdadeira filosofia existam, é uma ilusão crer que se pode conquistá-las ou comunicá-las mediante uma conversão, uma confissão ou o recitar de certas fórmulas, porque cada qual entende as palavras destes credos e fórmulas à sua maneira, de acordo com a sua civilização e a sua inteligência; e no fundo, não são, como dizia Hamlet, mais que “words, words, words[14].

Enquanto não se reflete sobre isto, tem-se a ilusão de que essas palavras são compreendidas de igual maneira; tão rápido como se começa a raciocinar, surgem seitas e heresias, cada uma convencida de que detém a verdade. A sabedoria não pode ser compreendida racionalmente, nem expressada, nem comunicada. É uma visão, uma vidya, essencial e necessariamente indeterminada, incerta. E quando os olhos se abrem à luz com o nascimento na nova vida, aproximamo-nos dessa visão. A arte maçônica ou arte real é a arte de trabalhar a pedra bruta para tornar possível a transmutação humana e a percepção gradual da luz iniciática. O que não significa, naturalmente, que a franco-maçonaria tenha o monopólio da arte real.

No decurso dos dois últimos séculos a maior parte dos inimigos da franco-maçonaria recorreram sistemática e unicamente à injúria e à calúnia, apoiando-se em sentimentos moralistas e patrióticos. Afirmaram, assim, que os trabalhos maçônicos consistiam de orgias abomináveis, e com isso se tem manipulado os rituais, se tem desvelado as cerimônias maçônicas expondo-as ao ridículo, se tem acusado os maçons de trair a sua pátria pelo caráter internacional da Ordem, se tem afirmado que a franco-maçonaria é apenas o instrumento dos judeus, sempre para enganar e levantar os crentes e o público em geral contra a “Sociedade Secreta”. Os franco-maçons, naturalmente, sabiam muito bem que se tratava apenas de calúnias. E, como nada conseguia convencê-los, pensou-se em suprimi-los ou em retirar-lhes a possibilidade de se reunirem para trabalhar ou de responder e defender-se. Recentemente, um escritor católico[15] publicou um estudo histórico sobre “Tradição Secreta”, conduzido com competência e habilidade. As habituais e costumeiras calúnias, destinadas a impressionar os profanos, foram habilmente substituídas nele por uma crítica insidiosa, destinada a impressionar o leitor culto e o espírito dos nossos irmãos.

Esta crítica afirma que, no fundo, a tradição secreta não contém senão o vazio absoluto (pág. 139) e conclui afirmando que “na Escola Iniciática ou por meio dela a Tradição Secreta não tem ensinado absolutamente nada à humanidade” (pág.155). Não se compreende muito bem então como se pode afirmar igualmente que este vazio absoluto, “esta tradição secreta coincide (pág. 141), ainda que frequentemente de uma forma corrompida, com as doutrinas gnósticas. Mas não pretendamos demasiado. A franco-maçonaria é, pois, segundo o autor, uma esfinge sem segredo, dado que não ensina nenhuma doutrina. Desse modo o leitor se vê levado a concluir que, ao estar desprovida de conteúdo, a Maçonaria não tem nenhum valor.

Nas linhas precedentes mostramos que a franco-maçonaria não ensina nenhuma doutrina e nem deve ensiná-la, destacando que esta atitude é um de seus méritos. Isso posto, para chegar a concluir que a Tradição Secreta contém o vazio ao não conter uma doutrina, deve-se crer que somente uma doutrina pode ocupar o vazio. Na página 153, o autor afirma ainda: “o sistema iniciático supõe que o homem possa chegar a compreender, por um esforço da inteligência, os problemas inexplicados do cosmos e do além”. Na página 152 escreve: “a Igreja católica opõe às vãs elucubrações dos que se autodenominam iniciados, a força intangível de seu dogma que deve ser único porque não podem existir duas verdades” e que o sistema iniciático é incompatível com o cristianismo. A estas afirmações respondemos que ignoramos a existência de um sistema iniciático, que não conhecemos iniciados que façam suposições, e ainda menos que criem ilusões sobre a possibilidade de resolver por meio de sua inteligência ou de elucubrações os problemas inexplicados. Mas nos é impossível admitir que a fé em um dogma possa constituir um conhecimento, pois saber não é crer. De fato compreendemos que a verdade é necessariamente inefável e indizível. Deixamos aos profanos a consoladora e ingênua ilusão de crer que é possível formular de alguma maneira esta verdade e este conhecimento em credos, fórmulas, doutrinas, sistemas e teorias. Além disso, até Jesus sabia que suas parábolas eram apenas parábolas. Mas dizia também a seus discípulos que a eles “lhes era dado entender o mistério do reino dos céus”. Evidentemente só fides sufficit ad firmandum cor sincerum[16], mas non sufficit[17] para entender os mistérios. O que é igualmente válido para o simples raciocínio. Com isso não queremos diminuir de nenhuma maneira o valor da fé e do raciocínio. A fé isoladamente conduz ao desespero filosófico. E ambos são um pouco como o tabaco e o café: dois venenos que se compensam, mas certamente não basta fumar cachimbo e degustar um café para alcançar-se o conhecimento. Ao conhecimento multi vocati sunt[18], mas não todos e, entre estes muitos, pauci electi sunt[19]. Segundo a Igreja Católica, pelo contrário, é suficiente ter fé no Dogma, e o conhecimento e o paraíso estão ao alcance de todos os bolsos a preços realmente insuperáveis.

Resumindo: não existe uma doutrina maçônica secreta[20]; mas existe uma arte secreta, chamada Arte Real ou mais simplesmente Arte. É a arte da edificação espiritual à qual corresponde a arquitetura sagrada. Os instrumentos maçônicos têm, pois, um sentido figurado na obra da transmutação, e ao segredo da Arte Real corresponde o segredo arquitetônico dos construtores das grandes catedrais medievais. É natural que os franco-maçons venerem o Grande Arquiteto do Universo, mesmo que não se defina o que se deve entender por esta fórmula.

Na arquitetura antiga, especialmente na arquitetura sagrada, as questões de relação e proporção tinham uma importância capital. A arquitetura clássica estabelecia a proporção das diferentes partes de um edifício, e em particular dos templos, baseando-se em um módulo secreto ao qual alude Vitrúvio. Existe toda uma literatura referente à arquitetura egípcia e sobretudo à pirâmide de Quéops, que ilustra seu caráter matemático. E, inclusive, procedendo com a maior circunspeção, é certo, por exemplo, que esta pirâmide se encontra exatamente a 30o de latitude para formar com o centro da Terra e o Polo Norte um triângulo equilátero. É certo que está perfeitamente orientada e que a face voltada para o setentrião é exatamente perpendicular ao eixo de rotação terrestre, em função da posição que este tinha na época de sua construção. Quanto aos construtores da Idade Média, não eram guiados somente por alguns critérios estéticos. Preocupavam-se com a orientação da igreja, com o número de naves, etc. A arte dos construtores estava relacionada à ciência da geometria. O esquadro e o compasso são os dois símbolos de ofício fundamentais na arte maçônica; e a régua e o compasso os dois instrumentos fundamentais na geometria elementar. A Bíblia afirma que Deus fez omnia in numero, pondere et mensura[21]. Os pitagóricos criaram a palavra cosmos para indicar a beleza do universo no qual reconheciam uma unidade, uma ordem, uma harmonia, uma proporção. E entre as quatro ciências liberais do quadrivium pitagórico, a aritmética, a geometria, a música e a astronomia, a primeira estava na base de todas as demais. Dante comparava o céu do Sol com a aritmética porque “como da luz do Sol todas as estrelas se iluminam, assim da luz da aritmética se iluminam todas as ciências” e da mesma forma “que o olho não pode olhar ao sol, assim o olho do intelecto não pode olhar o número que é infinito”[22].

Sem entrar na crítica desta passagem, não deixa de ficar estabelecida a posição que a Aritmética ocupa segundo Dante. Por outro lado, tanto a Bíblia como a arquitetura aconselhavam considerar os números. Hoje em dia, ainda que se negue a reconhecer no cosmos uma unidade, uma ordem, uma harmonia, uma lei, e aceitando apenas o determinismo limitado pela lei das probabilidades, a física moderna continua considerando os números e as relações numéricas. De fato, não ficam senão eles, e tanto Einstein como Bertrand Russell constataram e reconheceram que a ciência moderna retornava ao pitagorismo.

Assim, pois, não há nada de surpreendente no fato de que os franco-maçons tenham identificado a arte arquitetônica com a geometria e tenham dado ao conhecimento dos números uma importância tal que ela (geometria) justifica sua tradicional pretensão de serem os únicos a conhecer os “números sagrados”.

Mas ainda temos de fazer algumas observações. A geometria, em seu aspecto métrico, ou seja, nas medidas, exige o conhecimento da aritmética. Isso posto, antigamente a acepção da palavra geometria era menos específica que hoje, e geometria significava genericamente toda a matemática. Assim a identificação da Arte Real com a geometria, tradicional na franco-maçonaria, não se refere à geometria tomada em seu sentido moderno, mas também à aritmética. Além disso, devemos observar que a relação entre geometria, Arte Real da arquitetura e edificação espiritual é a mesma que inspira a máxima platônica: “Que ninguém entre aqui se não é geômetra”. Máxima cuja atribuição é algo duvidosa, pois apenas é mencionada por um comentarista bastante tardio. Mas em obras que indiscutivelmente são de Platão podemos ler:

“…a geometria é um método para dirigir a alma para o ser eterno, uma escola preparatória para um espírito científico, capaz de voltar as atividades da alma para as coisas supra-humanas”, […] “inclusive é impossível chegar a uma verdadeira fé em Deus caso não se conheça a matemática, a astronomia e a íntima união desta última com a música.”[23]

Estas concepções e atitudes de Platão devem ser as da Escola Itálica ou pitagórica, que exerceu sobre ele uma grande influência, o que permite dizer quando se quer sustentar que a Maçonaria se inspirou em Platão que, em última análise, se volta sempre à geometria e à aritmética dos pitagóricos. O vínculo entre a franco-maçonaria e a ordem pitagórica, sem que se trate de uma derivação histórica ininterrupta, mas somente de uma filiação espiritual, é seguro e manifesto. O arcipreste Domenico Angherà no prefácio que escreveu para a reedição dos Estatutos Gerais da Sociedade dos Franco-maçons do Rito Escocês Antigo e Aceito (1874), que já haviam sido publicados em Nápoles em 1820, afirma categoricamente que a ordem Maçônica é idêntica à ordem pitagórica. Mas , mesmo sem ir tão longe, a afinidade entre ambas as ordens é certa. A arte geométrica da franco-maçonaria, em particular, provém direta ou indiretamente da geometria e da aritmética pitagóricas. E não é anterior, porque os pitagóricos foram os criadores destas ciências liberais, segundo o que se pode deduzir historicamente e a partir dos testemunhos de Proclo.

Aparte de algumas propriedades geométricas atribuídas, sem dúvida equivocadamente, a Tales, a geometria – diz Paul Tanery – brotou completa do cérebro de Pitágoras da mesma forma que Minerva saltou inteiramente armada do cérebro de Júpiter. E os Pitagóricos foram os primeiros a estudar a aritmética e os números.”

Para estudar as propriedades dos números sagrados dos franco-maçons e sua função na franco-maçonaria, a via que se oferece por ela mesma é, pois, a do estudo da antiga aritmética pitagórica. E o estudá-la tanto do ponto de vista aritmético ordinário como do ponto de vista da aritmética simbólica ou formal, como a chama Pico da Mirandola, correspondente à tarefa filosófica e espiritual que Platão atribui à geometria. Ambos os sentidos se encontram estreitamente ligados no desenvolvimento da aritmética pitagórica. A compreensão dos números pitagóricos facilitará a dos números sagrados da Maçonaria.

Autor: Arturo Reghini

Tradução: S.K.Jerez

Fonte: BIBLIOT3CA

Arturo Reghini (1878-1946), matemático e filólogo, ocupou um alto cargo na Maçonaria italiana (Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito, e membro honorário de Supremos Conselhos de outros países). Manteve correspondência com René Guénon, fundou e dirigiu as revistas Atanor – onde este último publicou em primeira versão o Esoterismo de Dante e o Rei do Mundo – e Ignis (1924-25) e contribuiu com a Ur (1927-28); escreveu numerosos artigos, e foi também chefe de redação daRassegna Massonica. Entre suas obras, Cagliostro, documents et études; Notes brèves sur le Cosmopolite; Considérations sur le Rituel de l’Apprenti Franc-Maçon; les Mots sacrés et de passe des trois premiers grades et le plus grand mystère maçonique; Aritmosofia; les Nomes Sacrés dans la Tradition Pythagoriciene Maçonique, todos editados hoje por Archè, Milano, e uma obra inédita em sete tomos: Dei Numeri Pitagorici.

NOTAS

[1] – Libertà va cercando ch’è si cara Come sa chi per lei vita rifiuta. (Dante, Purgatorio. I, 71-72.)

[2] – Hutchinson, Spirit of Masonry; Preston, Illustrations of Masonry; G. De Castro, Mondo segreto, IV, 91; A. Reghini, Noterelle iniziatiche, Sull’origine del simbolismo, en Rassegna Massonica, junio-julio 1923.

 [3]The Grand Mystery of Freemasons discovered wherein are the several questions put to them at their Meetings and installation, Londres 1724.

[4] – Virgilio, Bucólicas, Égloga VIII

[5] – Máximo de Tiro, Discours philosophiques, tradução Formey, Leyden, 1764: Discurso XI, pág. 173.

[6] – Cf. Oswald Wirth, Le Livre du Maître, 1923, pág. 7.

[7] – Johannes Daniel Mylius, Basilica Philosophica, Francfort, 1618.

[8] – Cf. Pietro Negri [= A. Reghini], Un codice plumbeo alchemico italiano, en UR, números 9 e 10, 1927

[9] – Cf. A. Reghini, Le parole sacre e di passo ed il massimo mistero massonico, Todi 1922.

[10] – O. Wirth expressa categoricamente esta opinião, cf. Le Livre du Maître, pág. 189.

[11] – Cornelius Agrippa, Cartas. Cf. também a monografía de A. Reghini, prefacio da versão italiana da Filosofía Oculta de Agrippa

[12] -Giuseppe Mazzini (1805-1872), fundador da “Jovem Itália” (sociedade secreta que trabalhava para o estabelecimento da república na Itália). Giuseppe Garibaldi (1807-1882), patriota italiano que luchó para libertar a Itália do domínio austríaco, dos Bourbons (reino das Duas Sicílias) e, finalmente, do papado. Giovanni Bovio  (1841-1903) filósofo e político radical de esquerda. Giosue Carducci (1835-1907) poeta. Quirico Filopanti (1812- 1894) patriota e universitário. Giovanni Pascoli (1855-1912) poeta. Domizio Torrigiani (1879-1932). Giovanni Amendola (1882-1926) político, filósofo, fundador do Movimento União Democrática Nacional.

[13] – Cf. os artigos de Emilio Bodrero em Civiltà cattolica, orgão da Companhia de Jesus, e em Roma Fascista, periódico; cf. também Ignis yRassegna Massonica, ano de 1925.

[14] – palavras, palavras, palavras (N.T.)

[15] – Cf. Raffaele Del Castillo, La tradizione segreta, Milão 1941

[16] – a fé é sincera o suficiente para compreender (N.T.)

[17] – não suficiente (N.T.)

[18] – muitos são chamados (N.T.)

[19] – poucos foram escolhidos (N.T.)

[20] – O. Wirth já havia dito a mesma coisa em 1941: “Como o método iniciático se nega a inculcar o que quer que seja, apenas é admissível que se tenha ensinado uma doutrina positiva no seio dos Mistérios”, no Livre du Maître, pág. 119. Del Castillo sustenta, ao contrário – e sem nenhuma prova – que a Maçonaria pretendeu ensinar uma doutrina secreta, e constata que não se encontra traço desta doutrina positiva. Ao invés de reconhecer que seu ponto de vista não é defensável, acusa a Maçonaria de ser redundante e incapaz. O vos qui cum Jesu itis, non ite cum Jesuitis.

[21] – Todas as coisas em número, peso e medida (N.T.)

[22] – “come del lume del Sole tutte le stelle si alluminano, così del lume dell’aritmetica tutte le scienze si alluminano […] che l’occhio dell’intelletto non può mirare […] il numero […] è infinito”. Dante, O Banquete, II, XIII, 15 e 19.

[23] – Gino Loria, Le scienze esatte nell’antica Grecia, 2ª edição, Milão 1914, pág. 110.

O Homem que queria ser Rei: uma aventura maçônica

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Resumo

O presente trabalho busca demonstrar a influência da filosofia e do simbolismo maçônico presentes no conto “O homem que queria ser Rei”, de Rudyard Kipling, ressaltando as lições maçônicas que se podem extrair daquela obra.

Introdução

A literatura, arte milenar, oferece ao autor múltiplas oportunidades de se fazer entender e ao leitor, múltiplas vias de entendimento. São exemplos dessas obras “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, “O Livro de Jó”, de William Blake, “Paraíso Perdido” de John Milton e a presente obra, o conto “O Homem que queria ser Rei”, de Rudyard Kipling.

Kipling é hoje considerado um dos maiores autores modernos da língua inglesa, ainda que seu legado seja hoje controverso, dada a associação de seu nome ao imperialismo britânico. Nasceu em Bombaim, na então colônia britânica da Índia, em 1865, filho de pai e mãe ingleses. Aos cinco anos, como era costume entre os colonos que possuíam condições para tal, foi enviado para a Inglaterra para viver sob a tutoria de um casal de amigos da família, a fim de receber uma educação propriamente britânica, um período que o marcou negativamente (JAFFA, 2011).

Demonstrando desde jovem talento para as letras, retornou para a Índia em 1882, aos 16 anos, para trabalhar como jornalista, publicando a partir deste período vários contos e poemas, conquistando com o passar dos anos uma sólida reputação, culminando com o Prêmio Nobel de Literatura de 1907.

De espírito cosmopolita, viajou por vários países do mundo, sempre registrando suas impressões sobre as culturas locais.

Sua carreira maçônica principiou com a sua iniciação na Loja Maçônica “Esperança & Perseverança” nº 782 em Lahore, no atual Paquistão, no mês de abril de 1885, pelo Ritual de Emulação. Kipling necessitou de uma autorização especial para ser iniciado, posto que contava na ocasião com 19 anos. Após um mês foi passado ao grau de Companheiro Maçom e, em dezembro daquele ano, foi elevado ao grau de Mestre Maçom (JAFFA, 2011).

Sobre este momento, escreveu Kipling:

Ali eu conheci muçulmanos, hindus, sikhs, membros do culto de Araya, Brahmos e um sentinela Judeu, que era sacerdote e açougueiro de sua pequena comunidade. Então um novo mundo se abriu diante de mim.”

Apesar de jovem e da rápida carreira pelos graus da maçonaria simbólica, neste período Kipling apresentou dois trabalhos em Loja, um sobre as origens do Grau de Aprendiz Maçom e outro sobre as visões populares acerca da maçonaria, nenhum dos quais chegou aos nossos dias (CARR, 1964).

Kipling foi avançado ao grau de Mestre da Marca na Loja de Marca “Fidelidade” n. 98 em 14 de abril de 1887, sendo elevado ao grau de Nauta da Arca Real na Loja “Monte Ararat”, ambas na cidade de Lahore, no mesmo dia. Não consta, todavia, que tenha sido maçom do Real Arco.

Em 1887, todavia, diante das necessidade profissionais da sua carreira de jornalista e seu sucesso ascendente como escritor forçaram-no a pedir o afastamento dos trabalhos da Loja, apesar de ter continuado a frequentar trabalhos maçônicos na cidade de Allahabad até 1889, quando se afastou definitivamente das Lojas indianas.

Kipling se destaca entre os maçons famosos pelo fato de a Arte Real ter deixado profundas impressões em seu espírito, e por consequência na sua obra, não sendo apenas uma nota de rodapé na sua biografia.

Referências à Maçonaria – veladas ou expressas – estão presentes em vários dos seus contos e poemas, como em “Kim” e um belo poema chamado “À minha Loja-mãe” (CARR, 1964) e em “Mowgli” (DILLINGHAM, 2005), além, é claro, de “O homem que queria ser Rei”, escrito ainda em 1888, objeto do presente estudo.

A Narrativa de “O homem que queria ser rei”

A história de “O homem que queria ser Rei” começa na Índia. Um jornalista, cujo nome não é declinado (provavelmente um alter ego do próprio Kipling) conhece por acaso um outro europeu num trem, e ambos se reconhecem como maçons. Seu nome é Peachey Carnegham. É um ex-soldado, veterano de guerra, que vive a vadiar pela Colônia.

Peachey lhe pede um favor, que por conta da fraternidade – e de uma dose de curiosidade – o jornalista assente em cumprir: ele deveria levar um recado cifrado a um terceiro sujeito num entroncamento ferroviário. Eles planejam – Peachey e seu amigo – fingir-se de jornalistas (do mesmo jornal do personagem inominado) para extorquir um Marajá que havia assassinado a viúva de seu pai (os Marajás têm medo da imprensa britânica).

Na data acertada o narrador se dirige ao entroncamento e dá o recado para Daniel Dravot, o amigo de Peachey.

Preocupado, entretanto, com a segurança dos dois, o narrador denuncia suas pretensões às autoridades britânicas, que os deportam antes que cheguem ao Marajá.

O tempo passa e o jornalista não ouve mais falar dos dois vagabundos do trem. Um dia, entretanto, ambos aparecem de surpresa no seu jornal. Se apresentam propriamente e pedem a ajuda do relutante jornalista. Eles explicam suas pretensões: Tendo decidido que não havia mais espaço para lucrar com a Índia, já tomada pela intervenção estatal da Coroa Britânica, os dois querem seguir rumo ao Kafiristão, um território nunca visitado por europeus (ao menos desde Alexandre, O Grande, 3.000 anos antes) e nem por muçulmanos, sem estado central, com uma população de tribos pagãs em estado permanente de guerra umas com as outras. Lá pretendem oferecer sua expertise militar a qualquer dos líderes tribais, montar um exército, ajudá-lo a conquistar o país, para então derrubá-lo em seguida, tornarem-se reis, saquearem o país e voltarem ricos para a Índia.

Para tanto firmam entre si um contrato. Possui três cláusulas, apenas. A primeira, de que ambos serão reis do Kafiristão; A segunda, de que não consumirão álcool ou se deitarão com mulheres até completarem a primeira cláusula; Terceiro, que se portarão com dignidade e discrição, cláusula que, alegavam, conferia regularidade ao instrumento.

O jornalista serve de testemunha do contrato, apesar de não levá-los a sério, deixando-os entretidos com mapas e enciclopédias. No dia seguinte, entretanto, ele os encontra no ponto de partida das caravanas, disfarçados de sacerdote e ajudante, entretendo os nativos. Ao encontrá-lo, eles lhe mostram a carga de contrabando: vinte fuzis Martini-Henry, os mais avançados da época, e bastante munição no lombo dos camelos, dissimulados sob quinquilharias.

O jornalista percebe então que eles estão falando sério apesar de todos os riscos. Deseja-lhes sorte, apesar de ter certeza de que morrerão.

Deles tem notícia dez dias depois por meio de uma mensagem escrita. Haviam cruzado, efetivamente, a fronteira entre a Índia e o Afeganistão. O tempo passa, sem notícias deles, até que três anos depois uma figura esfarrapada e alquebrada aparece no escritório do jornalista suplicando um trago de bebida. Era Peachey, contando que chegara do Kafiristão, onde de fato ele e Daniel foram reis.

Peachey passa a narrar a sua epopeia. Após separarem-se da caravana e seguirem sozinhos em direção ao Kafiristão, Peachey e Daniel enfrentam ladrões e as montanhas até se depararem com duas tribos em guerra. Após tomarem partido da mais fraca – e vencerem a refrega contra a mais forte graças aos fuzis – os dois caem nas suas graças.

O plano se desenvolve como esperado. Qual um dominó as tribos vão caindo, uma a uma, engrossando o exército dos trambiqueiros até que todas as tribos estivessem unificadas sob um comando.

É então que o inusitado acontece. Os dois descobrem que os líderes das tribos conhecem os sinais, toques e palavras dos dois primeiros graus da Maçonaria, e também têm suas marcas gravadas na pedra, apesar de não conhecerem os elementos do Grau de Mestre.

Eles decidem, então, abrir uma Loja. Ordenam a confecção de aventais no padrão e pintam quadrados brancos sobre o piso negro de uma sala, criando um pavimento mosaico.

Mais uma surpresa ocorre quando os heróis se preparam para abrir a Loja. Um dos sacerdotes, um velho que não tirava o olho dos dois, viu a marca distintiva do avental de Venerável Mestre vestido por Daniel e se exaltou, revelando no fundo da pedra que servia de trono de Salomão a mesma marca, convencendo-se, e a todos, que Peachey e Daniel eram deuses. Os dois são entronados como Reis e Daniel, ainda, como “Grão-Mestre da Maçonaria no Kafiristão”.

Eles começam, então, a governar salomonicamente o país, utilizando-se dos conhecimentos que possuem da Bíblia, ensinando os nativos a se organizar, a plantar, a estocar os grãos, a lançarem pontes de corda entre as montanhas, unindo o país.

Nesse ponto o plano dos dois começa a se desfazer. Daniel começa a gostar de ser rei do Kafiristão, e resolve se casar, violando o contrato. Peachey é contra, alegando que eles não podem desviar o foco naquele momento. Os dois se estranham.

Os nativos também são contra o casamento, pois não lhes parece próprio de um Deus desposar uma mortal, visto que ela com certeza morreria. Um dos líderes tribais mais fieis também adverte contra o casamento.

No momento em que Daniel tenta beijar a esposa ela, aterrorizada, o morde, fazendo com que sangre. À visto do sangue os sacerdotes e o público percebem que Daniel e Peachey são, afinal, mortais, e portanto, impostores.

Uma revolta dos nativos toma corpo, e Daniel e Peachey estão cercados e sozinhos, salvo por alguns poucos acólitos, lutando por suas vidas contra uma turba numericamente muito superior.

Percebendo a futilidade da resistência, Daniel se entrega para a turba, que o faz atravessar uma ponte de corda sobre o desfiladeiro, o que o faz com dignidade e altivez, após pedir perdão a Peachey. A ponte é cortada e Daniel mergulha para a morte. Peachey é crucificado, mas tendo sobrevivido, é libertado pelos nativos, conseguindo retornar à Índia após uma longa e exaustiva jornada.

O jornalista permanece incrédulo, até que Peachey lhe exibe a cabeça coroada de Daniel, última prova de que eles foram um dia reis do Kafiristão.

Peachey está desidratado e sofrendo de insolação, perdendo a sanidade. O jornalista o encaminha para um hospital. Ao visitá-lo, no dia seguinte, descobre que ele não sobrevivera, e que a cabeça coroada do Irmão Dravot desaparecera.

O conto se tornou filme na década de 70 do século passado, dirigido por John Huston e estrelado por Sean Connery e Michael Caine, que interpretam Danny e Peachey, respectivamente. O filme traz inovações em relação à narrativa do conto, mas sua condução magistral o eleva à condição de complemento do livro.

Uma Lição Maçônica

“O homem que queria ser Rei” narra a história de um fracasso. A chegada da figura estropiada de Peachey ao escritório do jornalista no começo da história já adverte ao leitor que ele não foi bem sucedido na sua pretensão de se tornar rei do Kafiristão.

A entronação de Daniel como Rei e Grão-Mestre da Maçonaria se revela um sucesso efêmero: Para ser Rei Daniel tem que se assumir primeiro como um deus, abdicando da sua humanidade. E de nada adianta ser um rei “verdadeiro” sem gozar dos prazeres que se esperavam de tal posto.

De início o papel de deus é relativamente fácil: eles se utilizam do conhecimento que têm da Bíblia e mimetizam o poder divino ao ditar semi-mandamentos e semi-profecias.

Kipling adere na história às correntes, populares desde as Constituições de James Anderson, que atribuíam à Maçonaria origens ancestrais, antediluvianas. No caso do conto, Alexandre, o Grande, rei da Macedônia que morreu em 323 a.C. teria sido o introdutor da Maçonaria no Kafiristão.

Neste contexto a Maçonaria aparece como o elemento que liga e une os desconhecidos: o jornalista aos pilantras e depois eles ao povo do Kafiristão. Eles só conhecem os dois primeiros graus, mas não o terceiro. Aparentemente também conhecem o grau de Mestre da Marca, ou algo parecido com ele, pois Danny nota que eles têm suas marcas gravadas na pedra.

Apesar de não falarem a mesma língua os aventureiros e os nativos se entendem na Loja ad hoc montada. A concessão do terceiro grau vira um sinal inequívoco de autoridade, pois todos os chefes de tribo desejam tê-lo. Para não “banalizar” o grau Danny e Peachey conferem-no somente aos líderes mais fieis – entre eles um, apelidado Billy Fish, que dá uma prova final de fidelidade quando a farsa cai.

Mas a incapacidade de Danny de frear suas paixões e controlar seus instintos põe tudo a perder. Sendo um deus ele não poderia desposar uma mortal. Na interpretação de Peachey tal comportaria, ainda, uma violação do contrato firmado entre eles, ao que Danny dá a entender já estar superado.

Disse Danny:

“Eu não vou fazer uma nação” ele dizia “vou construir um Império! Estes homens não são negros, são ingleses! Veja os seus olhos, veja as bocas. Veja o seu jeito de ficar em pé. Sentam em cadeiras dentro das próprias casas. São as Tribos Perdidas, ou qualquer coisa parecida, e nasceram para ser ingleses(…) Vamos ser imperadores, Imperadores da Terra! O Rajá Brooke vai parecer criança perto de nós. Vou falar com o Vice-Rei de igual para igual. (…) vou escrever pedindo uma Dispensa para a Grande Loja pelo que fiz como Grão Mestre (…) Quando tudo estiver no ponto eu entrego a coroa, esta coroa que estou usando agora, de joelhos para a Rainha Vitória e ela vai dizer: levantai-vos Sir Daniel Dravot! Ah, é máximo! É o máximo, estou lhe dizendo!” (KIPLING, 2010, p. 40-41)

Só que o inverno se aproxima e Daniel deseja uma esposa. Peachey o adverte: eles estariam violando o contrato. Há muito o que se fazer e não é próprio de um Rei desperdiçar energia com as mulheres. Danny lhe responde:

Quem está falando de mulheres? Eu falei esposa: uma Rainha que dê um Filho ao Rei. Uma Rainha saída da tribo mais forte, que fará de você irmão de sangue deles e que ficará do seu lado dizendo o que o povo acha de você e dos problemas lá deles. É isso o que eu quero.” (Idem, p. 43)

Mas o Conselho não gosta da ideia. Danny fica furioso, nas palavras de Peachey:

“O Dravot xingou eles todos: “Que há de errado comigo? Sou um cachorro ou não sou homem o bastante para estas fulanas? Não botei minha mão sobre este país? Quem deteve o último ataque afegão? ‘Na verdade fui eu, mas o Dravot estava bravo demais para se lembrar. „Quem trouxe as armas para vocês? Quem consertou as pontes? Quem é o Grão-Mestre do sinal gravado na pedra?‟, falou, e bateu a mão no bloco que usava para sentar na Loja e no conselho, já que sempre iniciava os trabalhos feito uma Loja.

Danny não compreende a razão da rejeição e Peachey pergunta a Billy Fish, que o responde francamente e o alerta para a natureza do problema:

“Como um homem pode dizer isso a você, que sabe de tudo? Como as filhas de homens podem se casar com Deuses ou Demônios? Não combina.‟ 

“Um deus pode fazer qualquer coisa‟, falei. “Se o rei gostar de uma garota, ele não vai deixar ela morrer.’. ‘Ela tem que morrer‟, disse o Billy Fish. “Nessas montanhas tem todo tipo de deuses e demônios, e de vez em quando uma moça se casa com um e desaparece para sempre. Além do mais, vocês dois conhecem a Marca gravada na pedra. Só os Deuses sabem disso. Achamos que eram homens até que mostraram a Marca do Mestre.”

A estrutura da realidade oferece um limite para a ação. A onipotência, propriedade divina, não é o poder de fazer qualquer coisa, mas o de fazer qualquer coisa que seja possível de fazer.

A filosofia maçônica utiliza a alegoria do desbaste da pedra bruta para explicar aos aprendizes o processo de aperfeiçoamento do homem. Através do trabalho a pedra bruta vai sendo burilada e desbastada, até se tornar uma pedra polida pronta para ser utilizada na construção do Templo Universal.

Há correntes na Maçonaria que passam da ideia de perfectibilização do homem para a ideia da perfectibilidade da natureza humana. A perfectibilização é uma possibilidade que se traduz precisamente no reconhecimento das imperfeições naturais do gênero humano e sua atenuação pela civilização. A perfectibilidade, por outro lado, é intangível, pois implicaria na divinização do homem. O homem deve se mirar na perfeição buscando emulá-la, mas ter em conta de que não conseguirá atingi-la, dando-se por satisfeito em ficar o mais perto possível dela.

Dravot, embriagado pelo delírio de onipotência trazido pelo cargo esqueceu-se de respeitar a estrutura da realidade. Sua jovem noiva, horrorizada com a ideia de ser fulminada pelo Deus, acabou arranhando-o. À vista do sangue todos perceberam que eles não eram, afinal, deuses.

A população se revolta. Os soldados fieis da Danny e Peachey são quase todos mortos, até que sobram apenas Billy Fish e mais uns poucos. Nesta hora Dravot dá-se conta do seu erro e se redime com Billy Fish e com Peachey:

‟Foi minha maldita loucura que trouxe você até aqui. Volte, Billy Fish, e leve seus homens. Você já fez o que pôde, agora chega. Carneham, aperte a minha mão e vá embora com o Billy. Talvez não matem vocês. Vou encontrá-los sozinho. Fui eu quem fez isso. Eu, o Rei!‟

“Vai‟, falei, “vai para o inferno, Dan! Eu estou aqui com você. Billy Fish, você some, e nós dois vamos enfrentar esse povo‟.

“Eu sou um Chefe‟, disse Billy Fish calmo. “Fico com vocês. Meus homens podem ir.”

Este é o momento da elevação de Danny à nobreza verdadeira, a de caráter. Ele encara a morte de frente, não sem antes pedir perdão ao amigo e irmão, e ser por ele perdoado, antes de ser jogado despenhadeiro abaixo.

Billy Fish é degolado. Peachey é crucificado, mas sobrevive. Já delirando e falando de si na terceira pessoa, Peachey diz:

Foram cruéis ao ponto de lhe darem comida no templo, porque disseram que ele era mais Deus que o velho Daniel, que era homem. Viraram ele para o lado da neve e lhe disseram que fosse para casa, e o Peachey levou bem um ano para chegar em casa, mendigando nas estradas, mas em segurança, porque o Daniel Dravot, ele andava na frente e dizia “Vamos embora, Peachey. Temos muito o que fazer‟. As montanhas dançavam de noite e queriam cair na cabeça do Peachey, mas o Dan levantou a mão e o Peachey passou por baixo. Ele sempre guardou a mão e a cabeça do Peachey. Eles lhe deram de presente no templo para ele se lembrar e nunca mais voltar, e apesar de a coroa ser de ouro puro, e do Peachey estar morrendo de fome, nunca a vendeu. O senhor conheceu o Dravot! O senhor conheceu o Valoroso Irmão Dravot! Olhe para ele agora!

Peachey exibe a cabeça “seca, esbranquiçada” de Dravot, coroada, como prova da fantástica narrativa. Após, o narrador o coloca numa charrete e o leva para atendimento médico, onde Peachey, ex rei do Kafiristão, morre.

A morte e a “ressurreição”, tal como apresentadas na história, oferecem um paralelismo bastante claro tanto à narrativa cristã como à narrativa da lenda do terceiro grau.

Conclusão

É interessante a conclusão dos nativos sobre Peachey, a de que ele seria “mais Deus do que o velho Daniel”. A jornada de Peachey e Daniel é efetivamente uma jornada heroica, ainda que tenha redundado no mais absoluto fracasso.

A diferença que se pode observar entre Daniel e Peachey é a de que Peachey logrou vencer suas paixões e subjugar suas vontades, ao passo que Daniel deixou-se seduzir pelo poder ilusório que detinha (já que ele sabia – ou devia saber – que não era, concretamente, um deus), e por esta razão acabou abdicando da autoridade moral que tinha, causando a própria ruína.

O contrato firmado entre Peachey e Danny é uma exemplificação, bastante sucinta e resumida, das old charges maçônicas. Serve de guia para os dois, e enquanto eles nele se mantiveram, o plano deu certo.

A jornada dos dois, desta forma, bem pode corresponder à jornada iniciática maçônica, tendo os heróis vencido as dificuldades interpostas, experimentando o gosto da glória e da honra e, ao final, por conta da ignorância dos próprios limites, contemplado a morte e a “ressurreição”, ensinando-nos a lição de que ninguém pode ser mestre antes de ser mestre de si.

Autor: Edgard da Costa Freitas Neto

Fonte: Revista Ciência & Maçonaria

Referências
CARR, Harry. Kipling and the Craft. Ars Quatuor Coronati, v. 77. Londres, 1964. DILLINGHAM, William. Rudyard Kipling: Hell and heroism. Londres: Palgrave Macmillan, 2005. Fussel Jr, Paul. Irony, Freemasonry, and Humane Ethics in Kipling’s “The Man Who Would be King”. ELH, Vol. 25, No. 3. 1958. JAFFA, Richard. Man and Mason – Rudyard Kipling. Londres: AuthorHouseUK, 2011. KIPLING, Rudyard. O homem que queria ser rei e outras histórias. São Paulo: Abril, 2010

O Hospitaleiro

 
O Hospitaleiro é o elemento da Loja que tem o ofício, a tarefa, de detectar as situações de necessidade e de prover o alívio dessas situações, quer agindo pessoalmente, quer convocando o auxílio de outros maçons ou, mesmo, de toda a Loja, quer, se a situação o justificar ou impuser, solicitando, por meio da Grande Loja e do Grande Oficial com esse específico encargo, o Grande Hospitaleiro ou Grande Esmoler, a ajuda das demais Lojas e dos respectivos membros.
 
Um dos traços distintivos da Maçonaria, uma das características que constituem a sua essência de Fraternidade, é a existência, o cultivo e a prática de uma profunda e sentida solidariedade entre os seus membros. Solidariedade que não significa cumplicidade em ações ilícitas ou imorais, ou encobrimento de quem as pratica, ainda que Ir.’., ou auxílio ou facilitação à impunidade de quem viole as leis do Estado ou as regras da Moral. O maçom deve ser sempre um homem livre e de bons costumes. 
 
De bons costumes, não violando as leis nem as regras da Moral e da Decência.
 
Livre, porque autodeterminado e, portanto, responsável pelos seus atos, bons e maus. Perante a Sociedade e perante os seus IIr.’.. 
 
A solidariedade dos maçons existe e pratica–se e sente-se em relação às situações de necessidade, aos infortúnios que a qualquer um podem acometer, às doenças que, tarde ou cedo, a todos afetam, às perdas de entes queridos que inevitavelmente a todos sucedem.
 
Sempre que surgir ou for detectada uma situação de necessidade de auxílio, de conforto moral ou de simples presença amiga, os maçons acorrem e unem-se em torno daquele que, nesse momento, precisa do calor de seus IIr.’.. Esse auxílio, esse conforto, essa presença, são coordenados pelo Hospitaleiro. Note-se que a palavra utilizada é “coordenados”, não “efetuados” ou “realizados”. O Hospitaleiro não é o Oficial que efetua as ações de solidariedade, desobrigando os demais elementos da Loja dessas ações. O Hospitaleiro é aquele elemento a quem é cometida a função de organizar, dirigir, tornar eficientes, úteis, os esforços de TODOS em prol daquele que necessita.
 
É claro que, por vezes, muitas vezes até, a pretendida utilidade do auxílio ou apoio ou presença determina que seja só o Hospitaleiro a efetuar a tarefa, ou delegá-la a outro Ir.’. que seja mais conveniente que a efetue. Pense-se, por exemplo, na situação, que aliás inevitavelmente ocorre com alguma frequência, de um Irmão que é acometido de uma doença aguda, que necessita de uma intervenção cirúrgica ou que precisa estar por tempo apreciável hospitalizado, acamado ou em convalescença. Se todos os elementos da Loja se precipitassem para o visitar, isso já não seria solidariedade, seria romaria, isso já não seria auxílio, seria perturbação.
 
O Hospitaleiro assume, assim, em primeira linha, a tarefa de se informar do estado do Ir.’., de o auxiliar e confortar e de organizar os termos em que as visitas dos demais IIr.’. se devam processar, de forma a que, nem o Ir.’. se sinta negligenciado, nem abandonado, nem, por outro lado, fique assoberbado com invasões fraternais ou constantemente assediado pelos contatos dos demais, prejudicando a sua recuperação e o seu descanso, maçando-o, mais do que confortando-o. Também na expressão da solidariedade o equilíbrio é fundamental… 
 
A solidariedade maçônica pode traduzir-se em atos (visitas, execução de tarefas em substituição ou auxílio, busca, localização e obtenção de meios adequados para acorrer à necessidade existente), em palavras de conforto, conselho ou incentivo (quantas vezes uma palavra amiga no momento certo ilumina o que parece escuro, orienta o que está perdido, restabelece confiança no inseguro), no simples ato de estar presente ou disponível para o que for necessário (a segurança que se sente sabendo-se que se não precisa, mas, se precisar, tem-se um apoio disponível…) ou na obtenção e disponibilização de fundos ou meios materiais (se uma situação necessita ou impõe dispêndio de verbas, não são as palavras ou a companhia que ajudam a resolvê-la: é aquilo com que se compram os melões…). 
 
A escolha, a combinação, o acionamento das formas de solidariedade aconselháveis em cada caso cabe ao Hospitaleiro. Porque a ajuda organizada normalmente dá melhores resultados do que os atos generosos, mas anárquicos e descoordenados… 
 
O Hospitaleiro deve estar atento ao surgimento de situações de necessidade, graves ou ligeiras, prolongadas ou passageiras, e atuar em conformidade. Mas não é omnisciente. Portanto, qualquer maçon que detecte ou conheça uma dessas situações deve comunicá-la ao Hospitaleiro da sua Loja. E depois deixá-lo avaliar, analisar, atuar, coordenar, e colaborar na medida e pela forma que for solicitado que o faça. Porque, parafraseando o princípio dos Mosqueteiros de Alexandre Dumas, a ideia é que sejam “todos por um”, não “cada um pelo outro, todos ao molho e fé em Deus”…
 
A solidariedade maçônica é assegurada, em primeira linha, entre IIr.’.. Mas também, com igual acuidade, existe em relação às viúvas e aos filhos menores de maçons já falecidos. Porque a solidariedade não se extingue com a vida, cada maçon, auxiliando a família daqueles que já partiram, sabe que, quando chegar a sua vez de partir, deixará uma rede de solidariedade em favor dos seus que dela necessitem verdadeiramente! 
 
E a solidariedade é algo que não se esgota em circuito fechado. Para o maçom, a beneficência é um simples cumprimento de um dever. As ações de solidariedade ou beneficência em relação a quem – maçom ou profano – necessita, em auxílio das organizações ou ações que benevolamente ajudam quem precisa são, em relação à Loja, coordenadas pelo Hospitaleiro.
 
O ofício de Hospitaleiro é, obviamente, um ofício muito importante em qualquer Loja maçônica. Deve, por isso, ser desempenhado por um maçom experiente, se possível um ex-Venerável.
 
O símbolo do Hospitaleiro é uma bolsa ou um saco, ou ainda uma mão segurando um saco. Bolsa em que o Hospitaleiro deve guardar os meios de auxílio. Bolsa que deve figurativamente sempre carregar consigo, pois nunca sabe quando necessitará de prestar auxílio, material ou moral. Saco como aquele em que, em cada sessão, se recolhe os donativos que cada maçom dá para o Tronco de Solidariedade. Mão segurando o saco, no modo e gesto como, tradicionalmente, após a recolha dos óbolos, o Hospitaleiro exibe o saco contendo esses óbolos perante a Loja, demonstrando estar à disposição de quem dele necessite. 
 
Mas o ofício de Hospitaleiro, a função que assegura, vai muito além do auxílio material. Muitas vezes, o mais importante auxílio que é prestado não implica a necessidade de recorrer ao metal, que só é vil se não o soubermos nobilitar pelo seu adequado e útil uso.
 
A propósito de solidariedade: já se decidiu se contribui, na medida do que puder e quiser, para auxiliar a Inês? Se sim, não guarde para amanhã o que pode fazer hoje. Relembre aqui como pode ajudar e… trate disso! Já! Não se deixe vencer pela inércia!
 
 Autor: Rui Bandeira

Fonte: A Partir da Pedra

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Indagações filosóficas sobre o rito maçônico

Indagações Filosóficas Sobre o Rito Maçônico :: Loja "Alferes ...

O Rito Maçônico

O rito é da essência do ato. A conclusão se baseia na assertiva aristotélica de que a matéria, antes de se apresentar como tal no mundo dos sentidos percorreriam as três fases: – potência, ato e ação.

A potência, para Aristóteles seria o projeto da matéria, sem a presença do sujeito idealizador. Aqui Aristóteles toma de empréstimo o conceito de Platão. O ato seria a definição da ideia que, com a inoculação (enteléquia – forma imanente), resultaria na ação ou no ser perceptível (a matéria).

Os mestres, entretanto, não se preocuparam em questionar a realidade subjacente ao ato de existir e a trama ritualística desse engenho criativo. Levando em conta a afirmação de Hermes Trismegisto de que o que está em cima é o mesmo que está em baixo (monismo) podemos supor que a investigação acerca dos fenômenos e das coisas equivale a mergulhar na intimidade da matéria até o plano em que desapareçam as variáveis de massa e peso, embora se tenha certeza de que o nada é uma ficção e não tem qualquer significado, devendo existir a antimatéria, cuja configuração é certamente feita pelo processo ritualístico, ou seja, a dinâmica de vetores harmoniosamente sincronizados e programadores do ato da existência dos seres. O rito, ao invés de práxis meramente formalista ou reverencial, assume na Maçonaria, face ao caráter marcadamente especulativo da Instituição, eficácia transmutativa da estrutura do espaço.

Está demonstrado cientificamente que as radiações das partículas elementares induzem a preexistência de uma usina de ideias atrás da natureza perceptível, a prática de uma textura ritualística poderá, em sentido inverso – do sensível para o transcendental, gerar mutações na estrutura íntima dos corpos, potencializando-os a assumir novas feições morfológicas na sistematização do seu comportamento, condutas e teorias.

O rito, assim conjecturado, é instrumento eficaz de teorização e mutação da vida a suas manifestações físicas, sociais e transcendentais. É a hipótese fascinante de o homem mudar os rumos de sua gênese e escatologia. O exercício do rito será, como nas transmutações físico-químicas, o veículo catalisador capaz de influir e plasmar o homem e o cosmo do futuro para se alcançar a desejada harmonia e unificação da humanidade com a dissipação da miséria e das hostilidades e uma programação social e científica primorosa.

Conceituação Filosófica

Para verificarmos a exuberância das linhas geométricas ou ontométricas do rito na elaboração da matéria, vamos reciclar em retrospecto as diversas teorias cosmogônicas, físicas e filosóficas que marcaram essa grandiosa pesquisa através dos tempos.

Os números abstratos de Pitágoras, o átomo de Demócrito, as enteléquias de Platão, as mônadas de Leibniz, o apriorístico de Kant, as nebulosas de La Place, a física teocêntrica de Newton, permitiram cogitações sobre um mundo paralelo mascarado pelo invólucro da existência visível e sensível. O radical positivismo de Auguste Comte resolve enterrar essas divagações chamadas metafísicas na obra grito de sua autoria, formulando a sua chamada lei dos três estados, segundo a qual “o pensamento humano passara pelo estado teológico”, em que por agentes sobrenaturais se explicavam as anomalias aparentes do universo.

Maçonaria

É comum o espanto dos profanos ante tantos desenhos, símbolos, alegorias e instrumentos estranhos que se ostentam às suas vistas.

Ao neófito, durante e após a cerimônia de iniciação, tudo se lhe apresenta intrincado, fantástico e extravagante. Mas, é certo também que velhos maçons se habituam a essa gama de alegorias e símbolos e se acomodam com explicações triviais que lhe são passadas por outros maçons de pouca sensibilidade especulativa, que praticam o rito de modo imitativo e não enfrentam meditações sobre a complexidade do acervo de conhecimentos que a Maçonaria pode oferecer.

A loja maçônica expõe, por seus símbolos, alegorias e instrumentos, aspectos de uma realidade cultural que não guarda afinidades com o que se passa na mentalidade profana hodierna.

A mística maçônica induz um exo-esoterismo em que se unifica o homem e sua história, o criador e a criação, o tempo e o espaço, a vida e o ser, o corpo e a alma, o abstrato e o concreto.

A essência dos graus se prende, acima de tudo, a conclamações ritualísticas no sentido de conscientizar o maçom de sua origem e destinação histórica e simultaneamente convocá-lo à prática de sua preparação interior para o êxito da jornada de pacificação da sociedade humana. A Maçonaria portanto, encampa um esoterismo por via do desdobramento da razão, representando o processo ritualístico como de discernimento racional da vida e do ser por meio das técnicas da auto-descoberta e decifração do enigma cósmico.

O segredo da existência não é, para a Maçonaria, alheio à substância racional e, se o fosse, novamente cairíamos nos angustiosos dualismos que aviltaram e vêm aviltando o pensamento humano, contra os quais os clássicos da meditação egípcia, persa, indiana e eleática se insurgiram. A Maçonaria em seu esoterismo procura racionalizar todo o trabalho da consciência individual, aprimorando as suas faculdades na aquisição dos estados elevados de comunicação com os níveis transcendentais de toda a criação Aprendemos a compreender o homem no seu todo orgânico-social, através de uma constante convocação para a luta contra todos os desequilíbrios da harmonia cósmica e social.

O Deus Maçônico

Para os maçons que acham que o Deus maçônico tem cores teológicas, fica aqui a narrativa do incomparável Fernando Pessoa em carta que escreveu a Deolfo Casais Monteiro:

Pergunta-se se creio no ocultismo. Feita assim, a pergunta não é bem clara; compreendo porém a intenção e a ela respondo. Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, sutilizando-se até se chegar a um Ente Superior, que presumivelmente criou esse mundo. Pode ser que haja outros entes, igualmente supremos, que tenham criado outros universos, e que esses universos coexistem com o nosso, interpenetradamente ou não. Por essas razões, e ainda outras, a Ordem Externa do Ocultismo, ou seja, a Maçonaria, evita a expressão “Deus”, dadas as suas implicações teológicas e populares e prefere dizer “Grande Arquiteto do Universo”, expressão que deixa em branco o problema de se ele é criador ou Governador do Mundo.”

A Palavra “Bode

A palavra “bode” pode muito bem ser ligada à teoria maravilhosa da árvore da sabedoria, a que se referem os místicos do Oriente. Essa sabedoria foi chamada de Bodhi (árvore) do conhecimento gradual em direção ao Absoluto. Os sete planos do ser, consoante indicado pelos místicos do Oriente eram denominados “lokas” que guardam afinidades inegáveis com a nossa “Câmara de Reflexões”.

O livro dos Preceitos Áureos dos Indus descreve cenas da travessia do rio da existência, onde fica clara a sobrevivência do espírito após a morte do corpo físico…

Conclusão

Se a conclusão inarredável é que a Maçonaria procura mostrar aos seus adeptos os caminhos que podem levá-lo à busca da perfeição; que esse caminho passa necessariamente pela prática do rito, que enfim é a essência da instituição; que a instituição não tem doutrina e muito menos dogmas, dando inteira liberdade de pesquisa aos seus iniciados, vemos, com toda certeza que o resultado esperado é que na encenação do “teatro da vida” que fazemos diuturnamente conseguimos alterar o estado de nossa consciência.

Quando a luz do interior, que tem papel de suma importância nos misticismos, começa a ser despertada no maçom, sempre há uma alteração no seu estágio de consciência e ele evolui. Todas as práticas espirituais levam ao mesmo ponto místico final: são apenas caminhos diferentes que levam ao topo de mesma montanha. Será que entre o estado de consciência do maçom, do samadhi, dos indus, do yogue, ou das várias religiões ou filosofias tem a mesma equivalência?

Acreditamos que no seu objetivo final, a resposta é positiva, mas na prática de como percorrer os caminhos é que reside a substancial diferença.

O iniciado deve saber que na Maçonaria inexiste pregação e doutrinação relacionadas com a ética baseada no medo convencional e na moralidade da culpa, que diz faça assim e ele vai fazer. Ao contrário é uma disciplina mental baseada na compreensão fraterna e moral, evitando as vibrações que produzem estados mentais destrutivos, como a cobiça, o ódio, a atitude condenatória de ciúmes e invejas.

Na Maçonaria inexiste o espírito de concentração, semelhante a outra filosofia ou religião, existe a constante preocupação da ritualística, que encaminha o homem ao aprimoramento moral e espiritual.

Quando atinge o ápice da pirâmide e se assemelha a águia bicéfala, que estando no presente pode ver o passado e auscultar o futuro, ele se realiza espiritualmente e sua convicção é a de que é uma partícula do Grande Arquiteto do Universo, ou seja, o “homem templo”. Neste estágio estará quase alcançando o objetivo máximo da instituição, que é investir no homem por ele mesmo, para que estando próximo da condição de saber de onde veio, porque veio e para onde vai, tenha plena consciência de que está integrado harmonicamente à majestosa sinfonia cósmica universal, e será então feliz.

Autor: Janir Adir Moreira
Grão Mestre Ad-Vitam  da GLMMG e membro da Academia Mineira Maçônica de Letras
 

Fonte: Revista Triângulo

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Maçonaria e Compromisso

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Na Iniciação, a Maçonaria como que “firma um contrato” com o novo homem: uma promessa mútua ou obrigação será mantida desde o instante do juramento (compromisso) e enquanto durar a recíproca confiança. Apesar dos juramentos serem tomados na primeira pessoa do iniciando, também a Loja – e a Ordem como um todo – assumem obrigações para com o Maçom. A partir da entrega do avental, o iniciado deverá estar seguro de encontrar amigos entre os Maçons – mais que amigos, Irmãos dedicados e leais – prontos a prestarem o justo e necessário auxílio nos momentos aflitivos e durante os combates travados sob o escudo da Virtude. Além disso, a estrutura administrativa e cultural da instituição deverá propiciar a Luz do Conhecimento em favor de cada um dos seus obreiros. Nas etapas da nova vida em Loja a palavra “virtude” revelará sua característica mais íntima: um PODER (virtus = vir, virilidade, força) pronto a passar do dever ao ato com coragem e desprezo pela dor. É por isso que usamos o tratamento “poderoso irmão” que corresponde a VIRTUOSO IRMÃO.

A palavra “Maçonaria” traz à mente, para quem não foi iniciado na Ordem que leva este nome, um relacionamento ou entendimento entre pessoas. É neste sentido que podemos conceituar a natureza social da Maçonaria: um acordo ou entendimento que produz uma série de compromissos.

Um compromisso, por sua vez, resulta de uma promessa a ser cumprida. A palavra promissum que herdamos do latim tem esse significado: coisa devida e obrigação solene assumida perante alguém ou um grupo de pessoas.

A obrigação solene é o principal elemento que faz dos rituais maçônicos atividades sagradas. Os juramentos (compromissos) são tomados em nome do que há de mais puro, tanto para a Loja quanto para o neófito recebido em seu quadro. Se for transcendente, essa pureza, inefável por si mesma, é tomada como o Princípio Criador e sua contraparte – a Consciência Moral. Ambos são invioláveis, sacrossantos e representados num livro sagrado (a Lei) que não pode ser levianamente tocado, infringido ou violado sem repercussões de foro íntimo. Assim, cada maçom, curvado em genuflexão diante do Mistério, deposita no escrínio de seu coração as cláusulas de um “contrato” gravado nos arquivos perenes da memória e de sua história pessoal.

A partir da Iniciação o candidato torna-se Aprendiz, isto é, aprende como aplicar a tríade Liberdade-Igualdade-Fraternidade em seus deveres para com Deus, para consigo mesmo e para com a humanidade. A Iniciação e seu tempo de Aprendiz não visam fazer dele um homem livre e de bons costumes, pois essas são condições necessárias (sine qua non) que ele deve trazer da vida secular. É necessário que o candidato possua o sentimento de sua própria liberdade e esteja plenamente consciente da distinção entre o bem e o mal. Se, sob quaisquer circunstâncias, ele age contra seus próprios valores é porque ainda é um escravo. Na Loja de Aprendiz o neófito vai tomar conhecimento, mediante o estudo, a observação e a experiência das ferramentas úteis à aplicação de sua liberdade e de seus bons costumes na condução de seus pensamentos, palavras e ações em direção a Deus, à pátria e à família.

A Consciência Moral consiste em tomarmos certa distância de nossos atos, o que nos permite reavaliá-los e conceber novas atitudes capazes de implementar o bem. Nesse particular vale a advertência de Schopenhauer: “é mais fácil pregar moral do que fundamentá-la na prática“.

Herdamos do antigo Direito Romano o sentido de “obrigação” que tem a promessa: ela retrata um vínculo entre coisas ou pessoas. Esse vínculo ou ligação (ligatio) constitui uma espécie de encargo (obligatio) – servidão voluntária que alguém toma sobre si em determinado momento e que deve ser levada a cabo desde então e até o futuro.

Assim é o Direito, conjunto de condições pelas quais o arbítrio de um pode conciliar-se com o arbítrio do outro, ordenando as associações humanas num sistema de normas lógicas, legítimas e válidas.

O compromisso visto por ambos prismas é, portanto, uma ligação que subordina a vontade singular à pluralidade que rege as relações humanas. Numa Loja maçônica esse acordo ou pacto é um vínculo moral que, além de gerar direitos (benefícios) dá origem a restrições, ônus e gravames (deveres). Como nas obrigações jurídicas, há sempre uma tarefa ou ofício – um fazer – , mas também o “não fazer” (non facere), duplo aspecto que reflete um ordenamento maior que o Direito e as leis.

Os sujeitos desse “contrato maçônico” oscilam entre a parte que tem o direito de exigir e a outra sobre quem recai o compromisso. Pactua-se sobre o pressuposto de que ambas nutrem uma permanente disposição para querer o bem sendo o objeto (o debitum) sempre o mesmo: um trabalho análogo ao dos antigos pedreiros (os operativos), mas desta vez construindo e reconstruindo a sociedade (os especulativos), levantando novos templos à Consciência Moral, à prática do dever, da justiça, da caridade e das grandes concepções da vida pública.

Toda esta analogia reflete o cenário do Direito das Obrigações com seus quatro elementos:

  • um sujeito ativo ou credor que tem o direito de exigir a solvência do encargo;
  • o sujeito passivo ou devedor, sobre quem recai o trato a ser cumprido;
  • o objeto do compromisso (debitum) que o devedor deve praticar ou abster-se de praticar em favor do sujeito ativo;
  • o vínculo jurídico que liga os sujeitos dessa obrigação.

Enquanto nas obrigações ditas “civis” um compromisso tem início, meio e término – ou seja, esgota-se ao ser satisfeito seu objeto integralmente – na Lei Natural e no âmbito moral os direitos e as obrigações possuem um conteúdo ditado pela natureza e válido para qualquer tempo ou lugar. Por exemplo: toda pessoa nasce entranhada de direitos que se desenvolvem à medida que sua personalidade amadurece, dando lugar a compromissos e obrigações de caráter social. São as convenções, ajustes e pactos.

Na mesma esteira o desenvolvimento da sociedade vem marcado por três estágios de reconstrução social dos quais brotaram a inclusão dos direitos e deveres do indivíduo:

Relativamente à cultura do Ocidente, contemplamos o primeiro estágio da reconstrução social no ordenamento religioso e moral contido do pensamento judaico-cristão. Segundo a tradição, no Antigo Testamento (primeiro acordo ou pacto) a aliança se desenvolveu desde Abraão até o decálogo entregue por Deus a Moisés com três deveres (mandamentos) para com Deus e sete outros de cunho social: “Honrarás o teu pai e a tua mãe, não cometerás homicídio nem adultério; não furtarás, não darás falso testemunho, nem cobiçarás a casa do teu próximo“. Desse conjunto de leis originaram-se 613 disposições, ordens e proibições em benefício de uma coletividade essencialmente nômade. Os direitos e deveres contidos nas tábuas da Lei e na Arca da Aliança visavam primeiro a coletividade – o povo hebreu – antes de se destinarem ao indivíduo.

Na nova aliança (Novo Testamento) Jesus autenticou as obrigações mosaicas e os direitos dela decorrentes, transformando-os em fundamentos de um nascente humanismo face ao poderio de Roma. O rigor da antiga lei, cuja maior parte fora adaptada pelos patriarcas a partir dos costumes egípcios, do Código de Manu e da Lei de Talião, foi explanado em termos de misericórdia e compaixão através do Evangelho condensado em apenas dois preceitos: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda tua alma e de todo teu entendimento”. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo é semelhante a este: “Amarás o teu próximo como a si mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.”

O Direito natural ou jusnaturalismo de John Locke, Hugo Grotius e outros se baseia na existência de conteúdos desse tipo. Mesmo quando não falam de uma transcendência admitem os padrões estabelecidos pela natureza e, portanto, válidos em qualquer tempo ou lugar. Paulo de Tarso, na Epístola aos Romanos, lembra o conjunto das obrigações naturais ressaltando a superioridade das mesmas em relação à criatura, dizendo: “… mesmos os gentios, que não têm lei, fazem por natureza as coisas que são da lei“. O primeiro desses compromissos sociais consiste no direito à vida e no dever de garanti-la em todos os aspectos.

O segundo grande estágio da reconstrução social foi firmado na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, aprovada em 1789 pela Assembleia Nacional Constituinte. Nessa Declaração de Direitos moldaram-se os ideais da primeira fase da Revolução Francesa sintetizados no seu Artigo. 1.º: “Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum.” Esta tese, cláusula pétrea da cidadania, foi inspirada na Revolução Americana de 1776 e nas ideias do Iluminismo.

Cento e cinquenta e nove anos mais tarde sobreveio o terceiro estágio da reconstrução: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade“, Declaração Universal dos Direitos Humanos adotada pela ONU em 10 de dezembro de 1948.

Entre o primeiro estágio (lei mosaica) e o segundo passaram-se dezessete séculos. Mas entre o segundo e o terceiro (Declaração dos Direitos pela ONU), apenas um século e meio. Apesar de tudo, reconheçamos ou não este fato, a Consciência Moral avança mais rápido do que o progresso científico.

Outra consequência dos estágios da reconstrução social é a constante busca de uma solução possível do conflito entre obedecermos aos ditames da sociedade e a vontade que emana do nosso íntimo. Vem em socorro dos novos construtores a primeira norma do imperativo categórico da filosofia de Immanuel Kant (1724-1804): “age sempre de maneira que a norma de vontade possa ser erigida como legislação universal“. Kant definiu o imperativo categórico como o impulso que leva as pessoas a agirem em conformidade com os princípios determinantes da natureza humana. A ação, neste sentido, deve ser entendida como um objetivo, nunca como um meio.

Por isso os símbolos da Maçonaria apontam para uma diversidade de interpretações. A cada Aprendiz, Companheiro e Mestre deve ser dada a máxima liberdade para compreenderem e traduzirem no âmago da consciência o significado dos símbolos. Cada construtor do Templo maneja suas próprias ferramentas e descobre seu método de lavrar a pedra, desvendando por si mesmo o que ele deverá ser a partir do que é. A obra pela qual ele responde é o edifício inteiro (o Templo da Virtude) onde uma simples pedra colocada fora de esquadria compromete a estabilidade de todas as colunas, arcos e abóbada. Mais uma vez é a consciência que fiscaliza os trabalhos. Só ela pode corrigir os ângulos e a geometria. E quando julga, são valores que nascem da experiência individual, pois os símbolos existem mais para velar do que para revelar. O avental e cada ferramenta de trabalho possibilitam ao Maçom sua entrada no Templo Interior segundo recursos de sua consciência. Dessa forma, na consecução do “contrato” o Iniciado sai vencedor – contente e satisfeito – a um só tempo solitário e participante da Ordem.

Como se inserem nos dias de hoje e na vida do Maçom – seja ele Aprendiz, Companheiro ou Mestre – as promessa e obrigações assumidas que garantam seu vínculo com a Loja e com cada um dos Irmãos que o cercam?

Para os autênticos construtores sociais, ancorados no ontem (tradição), voltados para o hoje, com a firme bússola da Lei e seu significado, permanecem intactas as colunas que sustentam o humanismo lógico e ético:

  • a ação de uns para com os outros em espírito de FRATERNIDADE, garantindo-se o equilíbrio dos direitos, isto é – uma IGUALDADE;
  • a preservação da LIBERDADE com que todos nasceram (livres e iguais em dignidade e em direitos).

Contemplando este significado, comparado à luz dos estágios acima descritos, torna-se explicável a tríade com a qual a Maçonaria se identifica: LIBERDADE, IGUALDADE e FRATERNIDADE.

Algumas correntes menos atentas ao conteúdo histórico, filosófico e sociológico do lema “Liberdade-Igualdade-Fraternidade”, consideram-no “mero apanágio da Revolução Francesa“, negando-lhe autenticidade entre os Livres Pensadores e Iluministas que lapidaram os cânones da Franco-Maçonaria a partir do século XVIII.

Para o Iluminismo há desigualdades naturais às quais temos que nos curvar: desigualdade de talentos, de saúde, de inteligência, de aptidões, e na aceitação delas reside a virtude da tolerância. Mas, sabedor disso, o maçom tem o dever de combater as desigualdades artificiais oriundas da injustiça social, fomentadas pela má distribuição de renda, pela avareza, pela corrupção e pelos falsos prestígios advindos dessas mazelas. Mesmo as desigualdades naturais podem resultar daquelas provocadas pela injustiça e falta de liberdade.

Cabe às Lojas e a cada Maçom em particular investigarem esses fatos sociais e promoverem a equidade de oportunidades – primeiro no seio da Ordem para depois – alicerçados no exemplo do “dever de casa” – expandirem o ideal nos quatro cantos da Terra. É nisso que reside o caráter especulativo da Maçonaria.

Finalmente, o vínculo que liga os sujeitos da obrigação maçônica pode ser apreciado nas seguintes cláusulas ou decálogo da Iniciação:

  • I – Cada obreiro, Loja e Potência Maçônica zelam pela manutenção da Ordem protegida da curiosidade e dos ataques a que possa ser exposta.
  • II – Desenvolvem seus trabalhos com disciplina, ordem e o respeito necessário.
  • III – Buscam uma convivência que propicie a maior perfeição possível em relação aos hábitos e aos costumes.
  • IV – Dirigem seus trabalhos em direção à Virtude e ao esclarecimento dos assuntos da Instituição.
  • V – Combatem sem trégua os vícios, a tirania, a ignorância, os preconceitos e os erros.
  • VI – Glorificam permanentemente o Direito, a Justiça e a Verdade.
  • VII – Promovem, em todos os setores da sociedade, atos que visem o bem estar da Pátria e da Humanidade.
  • VIII – Fazem de cada empreendimento fonte inesgotável de felicidade.
  • IX – Escudados na misericórdia praticam e ensinam a tolerância e a paz.
  • X – Mesmo nos momentos mais difíceis, esforçam-se para que prevaleça o amor à Ordem e o respeito às autoridades.

Estamos às portas do quarto grande estágio da reconstrução social. Parte da humanidade já percebeu isso e se apressa para adequar-se à Nova Era. O joio já está separado do trigo. É nas Ordens Iniciáticas que a colheita vem se tornando mais evidente. Aperta-se o tempo para o cumprimento integral do contrato: há os que permanecem em seus postos e os que, por infelicidade, buscam na deformação das cláusulas do contrato um abrigo temporário para a inadimplência.

Autor: José Maurício Guimarães

José Maurício foi o primeiro Venerável Mestre da Loja de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda – GLMMG. Também é membro da Academia Mineira Maçônica de Letras.

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Maçonaria: uma grande universidade

20 de agosto, Dia do Maçom - Homens Livres e de Bons Costumes.

A Maçonaria é uma Universidade na qual se estuda várias ciências, dentre as quais destacamos: Filosofia; Psicologia; Sociologia; Moral; Estética; História; Lógica; e, Metafísica.

Maçonaria e Filosofia

Na Maçonaria estuda-se Filosofia porque, etimologicamente, esta palavra (de origem grega) significa “amigo da sabedoria”. Bem, sabemos que da mesma forma, a Maçonaria é “amiga da Sabedoria” e ensina e incentiva aos Maçons a também serem “amantes da Sabedoria”.

Filosofia é, hoje, considerada a síntese geral de todos os conhecimentos humanos; a visão uniforme e conjunta de todas as ciências. É a própria sabedoria, porque sua finalidade é tal qual a da sabedoria, melhorar os homens e torná-los virtuosos pela prática do bem, consubstanciado nos seus deveres para com Deus, para com o próximo e para consigo mesmo.

Como sabemos, esses deveres, quando fielmente executados, se transformam em virtudes. A exaltação dessas virtudes e o incentivo à sua prática são preconizados na Maçonaria, em geral, e nos 33 graus do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), em particular.

Dessa forma, na Maçonaria estuda-se Filosofia porque nossa Sublime Ordem com ela se identifica pela finalidade, que é melhorar os homens, conduzindo-os ao cumprimento dos seus deveres, acima mencionados. Também porque, tal qual a Filosofia, a Maçonaria respeita as convicções alheias e só quer o bem da Humanidade.

Maçonaria e Psicologia

Na Maçonaria estuda-se Psicologia porque esta ciência é seu método indutivo de transmitir ensinamentos, tal qual o é o da Filosofia. Por este método, parte-se dos efeitos e das consequências, para chegar-se às causas e aos princípios; parte-se do particular, para chegar-se ao geral; parte-se do relativo e contingente, para atingir-se o absoluto e o necessário, que são, em última instância, também os objetivos da Ordem.

Também porque Psicologia é a ciência da alma; a ciência do espírito; a ciência daquilo que nos faz sentir, pensar, querer e agir, que são também os objetivos da Maçonaria.

O sistema maçônico de ensino, velado por alegorias e ilustrado por símbolos, segue o sistema de ensino da Psicologia, apelando para os fatos da consciência mais rudimentares na natureza humana: o sistema nervoso; as sensações; a associação de ideias; a atenção; a percepção; e, as imagens efetivas e representativas de seus símbolos.

Finalmente, na Maçonaria estuda-se Psicologia porque o iniciado, desde o trabalho de Aprendiz, tem por missão “conhecer-se a si mesmo”, a base da Filosofia de Sócrates; o microcosmo da sua personalidade; a imperfeição e a grandeza do seu mundo interior; e, a excelsitude do seu destino natural.

Maçonaria e Sociologia

Na Maçonaria estuda-se Sociologia, porque esta ciência tem por fim explicar a causa dos fenômenos sociais e formular as leis gerais que regem o funcionamento e a evolução das sociedades humanas, temas sempre presentes e estudados nos Rituais dos 33 graus do REAA.

Também porque o fundamento da moral maçônica é a solidariedade humana, aspecto eminentemente social da Ordem.

Ao Maçom cabe o papel de “construtor social e edificador do templo social da humanidade”, combatendo a tirania, os preconceitos e os erros, e glorificando o Direito, a Justiça e a Verdade.

Para a Maçonaria,

homens melhores formarão uma sociedade humana melhor e, consequentemente, a humanidade melhor.

Finalmente, na Maçonaria estuda-se Sociologia porque o dever do Maçom é o bem social e a educação maçônica visa o aperfeiçoamento da humanidade, pregando a Liberdade de Consciência, a Igualdade de direitos e a Fraternidade social, respeitando as crenças políticas e religiosas de cada um. Por isso, a sabedoria da Maçonaria consiste na justeza com que o Maçom se coloca na sociedade.

Maçonaria e Moral

Na Maçonaria estuda-se a Moral (Ética) porque esta ciência traça as normas que orientam o homem para a prática do bem. Também porque, tal qual a Moral, a Maçonaria condena os vícios e exalta as virtudes.

Finalmente, porque a Moral é a marca característica da Maçonaria, eis que todos os seus ensinamentos e todos os seus símbolos e alegorias têm por finalidade mostrar a realidade do dever, que é a prática do bem e das virtudes. Não é por acaso que uma das instruções do Ritual de Aprendiz Maçom do REAA diz que: “na Maçonaria encontra-se a moral mais pura”, que, fora dela, só é encontrada em Cristo Jesus, pela doutrina que nos legou.

Maçonaria e Estética

Na Maçonaria estuda-se Estética porque esta ciência conduz a sensibilidade humana para o Belo, que é a Filosofia da Arte. A Estética, como ciência, estuda o Belo-Artístico, seja por meio das artes fonéticas (música, poesia, eloquência), seja por meio das artes plásticas (arquitetura, escultura, pintura).

Também porque, no interior se seus templos, a Maçonaria faz reviver a construção do Templo de Salomão, o que demonstra a preocupação estética da educação maçônica, porque a arquitetura é uma arte plástica em que se realizam as leis do belo e do útil.

Como vimos, o Maçom tem por dever ser o artista construtor de seu próprio Templo Espiritual, seja como operário, desbastando a pedra bruta do seu caráter, personalidade e inteligência, seja como artista, arquitetando a construção do edifício do seu auto aperfeiçoamento, com sabedoria, força e beleza.

Finalmente, na Maçonaria estuda-se Estética porque todo o trabalho maçônico é uma obra de arte, onde os iniciados são obreiros e o lugar de trabalho é uma oficina, onde constrói seu templo vivo, com harmonia e beleza.

Maçonaria e História

Na Maçonaria estuda-se História porque esta ciência tem por objetivos investigar, pesquisar, analisar criticamente, e narrar metodicamente os fatos notáveis ocorridos na vida dos povos, em particular, e na vida da humanidade, em geral, objetivos também presentes na Ordem.

Também porque a Maçonaria, seja institucionalmente, seja por iniciativa isolada de Maçons, sempre esteve presente e atuante nesses fatos notáveis referidos.

Finalmente, porque a Maçonaria é também a História. Não se pode estudar sobre a Maçonaria sem estudar a História geral (universal) e a História do país onde se encontra.

Maçonaria e Lógica

Na Maçonaria estuda-se Lógica porque esta ciência, tal qual a Sublime Ordem, tem por objetivo principal dirigir a inteligência ou o espírito humano para a Verdade. Lógica é a ciência das leis do raciocínio ou do pensamento e a arte de aplicá-las à aquisição e à demonstração da Verdade.

Também porque esta ciência (Lógica) é seu método pedagógico de ensino usado há milhares de anos pelas antigas escolas filosóficas, o método esotérico. Por este, os ensinamentos são ministrados exclusivamente aos iniciados, cujo grau de desenvolvimento moral e espiritual os capacita ao ingresso na Ordem.

Finalmente, porque a Lógica, como ciência, repousa a sua ação na Verdade; conduz o espírito, movido pela força da razão, ao cultivo das ideias superiores; e, leva a inteligência à compreensão de sublimes analogias, exatamente o que faz a Maçonaria.

Maçonaria e Metafísica

Na Maçonaria estuda-se Metafísica porque esta ciência trata dos magnos problemas da razão humana, o “por quê” supremo das coisas, temas também abordados na Ordem, especialmente nos graus dos “Altos Corpos” do REAA.

Esta palavra (do grego metà tà physiká) significa etimologicamente “depois dos tratados da física”,  escritos por Aristóteles. Segundo Aristóteles, Metafísica é o estudo do ser enquanto ser e especulação em torno dos primeiros princípios e das causas primeiras do ser.

Segundo o Aurélio, é a parte da filosofia (que com ela muitas vezes se confunde), que consiste num corpo de conhecimentos racionais que procura determinar as regras fundamentais do pensamento, e que nos dá a chave do conhecimento do real, tal como este verdadeiramente é.

Segundo Sebastião Dodel dos Santos, é o estudo do ser em relação aos primeiros princípios e causas; parte da filosofia que, segundo Aristóteles, penetra pela teosofia na busca de uma explicação racional sobre a existência de Deus, como o primeiro motor imóvel que deu partida ao que realmente existe.

Segundo Rizzardo da Camino, o termo é usado para designar as “essências de todas as coisas”. Diz-se hoje, em linguagem maçônica, em substituição desse vocábulo, uma “situação esotérica”.

Concluímos sobre as definições e conceitos, dizendo que Metafísica é a reflexão sobre os problemas gerais relativos aos sumos princípios de interpretação do mundo e à intuição universal da realidade, em que ele se fundamenta.

A Metafísica divide-se em quatro áreas:

  • Ontologia, que estuda o ser considerado em si mesmo;
  • Cosmologia, que estuda a origem e a natureza das coisas sensíveis;
  • Psicologia racional, que estuda a origem e natureza da alma humana; e,
  • Teodiceia, que estuda a existência e os atributos de Deus, o Criador de todas as coisas.

Finalmente, na Maçonaria estuda-se Metafísica por dois motivos outros:

  • Porque, desde a Iniciação, ela impõe à todo candidato, duas condições essenciais e imprescindíveis, de ordem Metafísica: a crença em Deus e na imortalidade da Alma; e,
  • Porque, desde o grau de Companheiro, o iniciado aprende a apelar para as energias superiores que dirigem o mundo; a passar do plano físico para o plano espiritual; a melhor compreender a simbologia mística dos números, iniciada no grau de Aprendiz; a meditar sobre o enigma da vida; a ser amigo da sabedoria; a acreditar na imortalidade da alma.

Tudo isso indica a base profundamente espiritualista da Instituição Maçônica.

Autor: Denizart Silveira de Oliveira Filho

Fonte: Recanto das Letras

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Os detratores da Maçonaria

À época do recebimento do convite de um dileto amigo para avaliar a possibilidade de entrar para a Ordem Maçônica, creio ter experimentado o mesmo comportamento de inúmeros candidatos que se socorrem, num primeiro momento, da fonte secundária de pesquisas representada pela rede eletrônica mundial de informações à procura de subsídios para fundamentar a decisão que se esboçava ainda com certo grau de insegurança.

Quanto à lisura, honestidade e reputação irrepreensível do portador do convite não me restavam dúvidas. Ademais, a sua condição de Maçom já era do meu conhecimento e suas atitudes já me haviam evidenciado a nobreza do caráter constatado em nossas atividades comuns à frente de um importante Clube de Serviço do qual participamos.

A confirmar as minhas percepções, reforçava ainda este diagnóstico as atitudes de vários outros associados desse mesmo Clube, que também eram Maçons, e vez por outra os surpreendia fazendo um ou outro comentário a respeito de algum assunto “estratégico”, que logo desconversavam ao amparo da metáfora de que havia “goteira” no recinto.

Portanto, a dúvida que me assaltava decorria mais de algum preconceito recôndito, fruto de desinformação ou mesmo de ausência de provocação para instruir-me a respeito do assunto, à míngua de um convite mais retumbante, como o ocorrido em uma segunda e terceira investida desse amigo de sempre.

Pressenti, naquela oportunidade, que a situação exigia uma posição mais assertiva de minha parte e acelerei minhas “pesquisas” sobre a temática, recorrendo a algumas obras de referência. De tudo li um pouco. Contra e a favor. Das mais sublimes loas às mais exaltadas detrações.

Refleti sobre as várias correntes e concluí que era uma busca insólita o conhecimento cabal do mister. Não seria possível entender toda a ritualística, simbolismo e riqueza de conteúdo sem mergulhar no clima e na vivência das dinâmicas que evoluem das sutilezas da literatura e dos estudos filosóficos envolvidos.

Por outro lado, não me pairavam incertezas quanto ao mérito e qualidades exponenciais daqueles companheiros de trabalho voluntários, sempre unidos e vibrantes, quando enalteciam os valores e propósitos da Ordem, no sentido de tornar melhores as pessoas. Concluí, assim, que era uma honra ser o destinatário de tal convite e, apoiado pela esposa, dei o sinal para que os proclamas corressem.

Decisão tomada. Documentação organizada. Diligência realizada. Data agendada. Preparativos tomados. Iniciação concluída. Missão assumida.

Na senda dos estudos e trabalhos encetados veio aquela conclusão que já é comum a quase todos que se aventuram nessa experiência transformadora: por que não comecei um pouco antes? Mas a sabedoria dos Irmãos sempre serve de consolo: “tudo tem a sua hora, o seu momento. Siga o seu caminho, procure a Verdade”!

A partir de então, passamos a nos ver no plural e os estudos sempre despertam novos temas e pesquisas, a princípio orientados pelos Irmãos mais experientes, mas em dado momento nos coloca na vanguarda dos próprios interesses dado o universo que se abre de novas perspectivas, vez que cada Maçom escolhe e desenvolve o seu caminho evolutivo, de forma individual, sem nenhuma interferência da Ordem, não se evidenciando uma busca dirigida da Verdade, por ferir princípio da liberdade de pensamento e do livre arbítrio. O Maçom, como livre pensador, tem compromisso com a livre investigação da Verdade e, nesse contexto, reflete sobre assuntos de vital importância para a compreensão da história.

Quando se abraça uma causa ou ideia parece-nos que se canalizam energias ou despertamos a sensibilidade para vislumbrar as minudências de um determinado ângulo de observação sobre um tema ou objeto de reflexão até então desprezado ou mesmo desconhecido, mas não inédito. E provocações, questionamentos e inquietações em todos os sentidos se apresentam.

Frente a essa escolha, deparei-me com algumas posturas mais combativas de pessoas amigas e mesmo familiares que passaram a questionar-me os motivos de minha adesão à Ordem e que tipo de vantagem tal situação me proporcionaria, considerando-se que não há unanimidade de opiniões favoráveis e sobram comentários às vezes depreciativos ou mesmo curiosidades sobre mistérios acalentados ou cobertos por compromisso de sigilo. Vicejam, ainda, questionamentos ridículos, eivados de má-fé, muitos ao nível de sabotagem, porém, sempre lastreados na ignorância e na incapacidade de entender com clareza conceitos como liberdade de pensamento, busca de conhecimento e livre-arbítrio.

Nesta toada, vale abrir espaço para reportamo-nos aos recorrentes comentários sobre antigos conflitos com a Igreja, à época impeditiva da aproximação das duas instituições, e que somente os mais desinformados não realizaram que tais questiúnculas já foram superadas. As fronteiras estão bem mais claras e as informações bastante democratizadas: a Maçonaria trabalha pelo aperfeiçoamento do homem, com foco na moral e na ética social, e a religião prega a salvação do espírito. A Maçonaria está aberta a qualquer religião, mas exige de seus seguidores a crença em Deus e a condição de justos e de bons costumes. Ademais, os tempos são outros, tanto no aspecto social quanto no legal, não havendo guarida para infantilidades e outro disparates.

No mesmo embalo, sobressai a particularidade de a Maçonaria se constituir em um grupo fechado e eminentemente masculino. O argumento não subsiste ao efeito comparativo de uma empresa, que tem faculdade de selecionar e recrutar seus servidores, e não apenas receber aqueles que se apresentam voluntariamente exigindo uma colocação. Neste caso, é preciso haver um convite e avaliação dos demais membros de uma Loja, que funciona como uma empresa, com todas as obrigações legais decorrentes. No que se refere à característica masculina, trata-se de uma condicionante histórica e se funda nos princípios do Rito Escocês Antigo e Aceito. Existem diversos outros Ritos, que amparam Lojas Femininas e Mistas, mas que não são amplamente divulgadas, pelo número ainda reduzido e também pela forma discreta de abordagem. E os Ritos são apenas caminhos. A derradeira comparação com o futebol é clássica, pois existem times masculinos e femininos, nos quais a atuação daqueles ainda é mais destacada.

Nessa hora, é decisivo ancorarmo-nos no histórico de vida e da coragem moral sustentada pelos valores e exemplos de realizações que nos precedem e que despertam o respeito e consideração de interlocutores mais afoitos. Nada como honra ilibada, probidade inconteste e o reconhecimento para fazer valer um bom argumento sobre uma boa causa. Aliás, é bom ressaltar que esses se constituem nos condicionantes para o recebimento do convite supramencionado, pois a força da Maçonaria reside na seleção rigorosa de seus integrantes.

Os ensinamentos maçônicos norteiam os estudos e os argumentos necessários a um sólido processo de convencimento, pois proporciona o aprimoramento da tolerância, a compreensão do verdadeiro amor ao próximo e à Pátria, despertando o interesse e exaltando a necessidade de trabalho pela felicidade do gênero humano e à consagração da solidariedade como a primeira das virtudes. O que para uma pessoa não iniciada na Ordem possa ser uma qualidade rara, no Maçom é o cumprimento elementar de um dever.

Nessa seara não se pode olvidar todo o contraditório que acompanha a saga da Maçonaria desde sua organização como entidade operativa nos primórdios da Idade Média e reformulação como especulativa nos anos vinte do Século XVIII. Também não se pode desmerecer a contribuição de destacados Maçons aos grandes e decisivos movimentos da história, combatendo a ignorância, o despotismo, na luta incessante pela liberdade, igualdade e fraternidade, indispensáveis à felicidade e à emancipação progressiva e pacífica da humanidade.

Eventuais argumentos que possam desviar para a existência de segredos ou teorias conspiratórias se revelam mais de cunho preventivo ou de base para reforço de preconceitos, em face de divagações deletérias não combatidas pelos Maçons menos preparados ou mesmo para servir de vantagem comparativa para obreiros ainda imaturos em relação àqueles não iniciados, que somente contribui para reforço argumentativo dos detratores da Ordem.

Esses tão propalados mistérios são fruto de imaginação e se evidenciam com maior ardor por se tratar de dificuldade de se expressar, com palavras, sentimentos inefáveis que emanam das fases de aprimoramento do culto à virtude e combate aos vícios inerentes ao ser humano, que é o escopo a ser perseguido diuturnamente.

Nesse particular, se vislumbra extremamente doloroso falar sobre os próprios defeitos ou fazer o “mea-culpa”, em especial quando se é exigido um comportamento exemplar e este se constitui no esteio do Movimento. Tal dificuldade é enfrentada por diversas instituições, que muita vezes procura acobertar as mazelas de seus representantes mais vistosos, por dificuldade de encontrar os argumentos cabíveis ou mesmo pela proteção decorrente do “espírito de corpo”.

Mas, como se diz no popular “colocar o dedo na ferida” ou apertar “onde dói o calo” é condição sine qua non para reverter esses antagonismos. Reconhecer que aqueles vícios tão combatidos, como a vaidade, o orgulho arrogante, a prepotência, a soberba, a negligência, dentre outros menores, são comuns entre vários apologistas e seguidores da Ordem, é o passo inicial para seguimento dos princípios de uma severa moral. Cavar masmorras bem profundas para enterrá-los definitivamente exige o exercício daquela dose de sacrifício necessária ao cumprimento dos deveres que elevam o homem aos próprios olhos e o torna digno de sua missão sobre a Terra.

E é sempre pelo ideal, e só por ele, que os Maçons se sacrificam sob pena de se tornarem traidores dos compromissos assumidos de devotamento e de obediência aos princípios de uma severa moral. Para isso se apoiam no lema:

A sabedoria não está em castigar os erros, mas em procurar-lhes as causas e afastá-las.

É forçoso reconhecer que em várias situações “o inimigo mora ao lado” e não precisamos procurar ao longe para identificar as causas de muitos dos problemas enfrentados no cotidiano das Lojas. Como ocorre em várias empresas, a falha, na maioria das vezes, se situa no recrutamento e seleção dos candidatos. Daí a importância da observação e cautela nas diligências encetadas para aquilatar o grau de qualificação e valores demonstrados pelos possíveis interessados. Qualquer procedimento mais sumário de escolha, com vistas a manter ou repor os quadros de uma Loja, pode redundar em danos irreversíveis, decorrentes do comprometimento dos valores tão caros à Ordem, facultando a entrada de pessoas despreparadas ou em busca de vantagens pessoais.

Tal cenário tende a se consumar em face de comprometimento da continuidade das Lojas, pela falta de reposição planejada dos obreiros, da canibalização entre as Lojas, de ausência de medidas de retenção daqueles que se iniciam ou no descuido com o clima de permanente busca do crescimento, redundando na perda de interesse ou mesmo de deturpação dos mesmos, ou da famigerada acomodação à ritualística, pela falta de aprofundamento nos estudos assinalados.

O sucesso e o fortalecimento das colunas de sustentação de uma Loja demandam de seus dirigentes ações no sentido de identificar, preparar e manter reserva de obreiros prontos a assumir os cargos em qualquer situação imprevista. Para tal fim, torna-se de bom alvitre aproveitar as eventuais ausências dos oficiais para fazer rodízio de treinamento dentre aqueles são ocupantes de cargos, mesmo que visitantes, uma vez que a condição de Maçom vinculado a uma Loja é apenas para fins de organização burocrática, considerando-se que a condição de pertencer à Ordem é pré-requisito para atuar em qualquer célula, quando regularmente atuante.

Não é de todo descabido afirmar que a falta de quadros para suprir cargos, notadamente em sessões de iniciação, elevação e exaltação pode ser considerado um ponto fraco a ser combatido com urgência, vislumbrando-se horizontes de comprometimento de continuidade dos trabalhos e possibilidade e tombamento das colunas de sustentação da Loja.

Obreiros motivados, que têm oportunidade de contribuir na ritualística em Loja, que se esmeram em apresentar trabalhos no “Quarto-de-Hora de Estudos” são o sustentáculo da Ordem, pois são estes que, na maioria das vezes, apresentam candidatos movidos pelos mesmos sentimentos de crescimento e diferenciação na vida pessoal demonstrado pelos Maçons ativos e cidadãos exemplares no seu convívio social e profissional. Importa destacar que, à medida que o obreiro se aperfeiçoa, ganham seus familiares, colegas de trabalho e amigos.

Despiciendo citar-se teóricos da administração moderna para concluir-se que dos Veneráveis Mestres se demanda a mesma habilidade necessária a um coach (treinador) do mundo esportivo, no sentido de incentivar e ajudar os obreiros a desenvolver atitudes e habilidades de gestão para aumentar a eficiência e efetividade dos trabalhos sob sua tutela.

Nessas condições, com a devida vênia, podemos deduzir que os detratores não estão todos lá fora, podendo estar sorrateiramente ancorados entre as colunas de uma Loja, disputando cargos e criando “panelinhas”, conspirando contra aqueles atuantes e bem intencionados. Isso, sem aprofundarmos na desmoralização causada por aqueles que não se portam como exemplos de cidadania, chefes de família, ou mesmo que destacam por um ou outro vício repreensível, que mancha a honra própria e respinga nos outros Irmãos. Nesse ponto a Maçonaria sabe cortar na carne. Mas é tema para outro trabalho.

Finalmente, é pacífico o entendimento de que temos parcela de culpa fundada em posturas de acomodação ou desinteresse de muitos dirigentes que não pensam a longo prazo e se mostram omissos à frente dos ideais e desafios lançados pelos nossos geniais antecessores, que se sacrificaram por visões e forjaram as bases desse magnífico movimento de construção permanente do Templo Moral das Virtudes representado pela Maçonaria Especulativa.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras e, para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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