Em busca de nova identidade maçônica

O termo “identidade” tem uma diversidade de conceitos e, segundo várias fontes, é entendido como um conjunto de caracteres próprios e exclusivos que permitem diferenciar pessoas, animais, plantas, objetos, produtos, a cultura de um povo, entidades, uma empresa etc.. No seu sentido mais popular representa um documento legal que acompanha um indivíduo e atesta que é o próprio. 
 
É muito comum termos acesso ao documento de identidade de uma pessoa e constatarmos que a foto é antiga e marcas do tempo distanciam as duas imagens, donde se conclui que nada é estático, que a mudança é uma consequência natural da vida.
 
Na Maçonaria, um conjunto de princípios, chamados os “Landmarks” da Ordem, por se tratarem das mais antigas leis que a regem, lhe conferem uma identidade imutável, sendo considerado os seus limites e que não poderiam sofrer modificações. Muitos dizem que sem eles a Maçonaria já não existiria ou teria tomados outros rumos. Porém, resguardando a sua essência, que a fez prosperar até os nossos dias, não se pode refutar que a Maçonaria recebe influências de época e passa por esse processo sutil de transformação.
 
Aqui não se pretende atacar a prática da tradição constante nos Rituais e no Simbolismo que se constituem na seiva que mantém a Ordem fortalecida desde o século XVIII e nem por isso sofre de obsolescência, face aos valores morais defendidos. É fato que novos ritos derivaram do original, mantidos os princípios, para atender a projetos de poder inevitáveis quando outros motivos se tornam imperiosos.
 
Desde sua estruturação em 1717, na forma como hoje a conhecemos, a Maçonaria sempre se posicionou politicamente identificando-se com causas nobres, lutas sociais e movimentos cívicos, revolucionários e libertários, que a fez prosperar até nossos dias, sempre combatendo a intolerância, os preconceitos, os privilégios e defendendo novas ideias. Por isso angariou também a antipatia de poderosos. 
 
No contexto atual, apesar do conceito positivo junto àqueles que a conhecem, ainda é desconhecida por grande parte da população brasileira. No cenário político nacional não tem nenhuma representatividade e não exerce qualquer influência a exemplo da norte-americana ou da europeia, não obstante todo o capital intelectual e consciência de sua importância para as transformações necessárias à promoção da justiça social.
 
A prática de reverenciar as glórias do passado é por muitos vista como desgastada, sob o argumento de que o seu potencial hoje não é utilizado na sua plenitude, passando ao largo de temas palpitantes e gravosos da atualidade, apenas manifestando-se a sua inconformidade através de posicionamentos perante o povo e reafirmando compromissos históricos de recolocar a Ordem na linha de combate contra as mazelas que pipocam aqui e acolá, sem, contudo, comprometer-se efetivamente na busca de soluções. Comprometimento e envolvimento têm dimensões diferenciadas. Somente caprichar na retórica e bradar que alguém tem que tomar uma providência, de que do jeito que está não pode ficar, de que não dá mais para aguentar et cetera e tal, é muito confortável. O comodismo e o obsequioso silencio político da Maçonaria do Brasil precisam ser quebrados.   
 
Esse cenário nos remete a um acontecimento histórico ocorrido em 13 de maio de 1968, em Paris, onde cerca de um milhão e meio de pessoas participaram de uma marcha contra o governo de Charles De Gaulle. O movimento começou com uma revolta estudantil e foi ampliado com a incorporação de trabalhadores, sindicalistas professores e comerciários e, entre os meses de maio e junho, mais de nove milhões de pessoas declararam greve. Entretanto, De Gaulle venceu as eleições realizadas em junho daquele ano e o movimento se viu derrotado pela então denominada “maioria silenciosa”. Mas o movimento ganhou um simbolismo e transformou-se em um marco das mobilizações políticas e influenciou inúmeras revoltas mundo afora, provocando rupturas e revisão de valores da sociedade. 
 
Neste particular, seria injusto e deselegante deixar de destacar o papel da Grande Loja Maçônica de Minas Gerais, em face de sua permanente contribuição através de parcerias com os Governos do Estado e Municípios, que muita diferença tem feito em favor da Sociedade Mineira. Mas, recorrendo à abrasileirada metáfora de Aristóteles (384-322 a.C.), “uma andorinha não faz verão”. Como fica o Brasil? 
 
É recorrente o argumento de que a Maçonaria brasileira não age como instituição, mas através dos Maçons, o que não comprova a sua história de verdadeiro partido político no passado. Essa realidade e as várias Potências em que se dividiu a Ordem, com destaque para as cisões de 1927 e 1973, com reconhecida perda de sinergias, nos relembra a necessidade de reflexão sobre o conceito de família unida representada pelo “Feixe de Esopo”, do fabulista grego de mesmo nome (séc. VI a.C), que relembra o combalido conceito de que a união faz a força. 
 
Embora haja impedimentos regulamentares para discussão política partidária nas Lojas, dentre outros temas, nada obsta à promoção de debates públicos, fóruns de discussão, seminários, oferecimento de projetos e estudos, investimento em obreiros com potencial eleitoral e orientação do voto maçônico, que promovam o retorno da Maçonaria ao cenário político nacional, em especial na trincheira de combate às mazelas que desvirtuam os valores mais caros do nosso povo. 
 
Para esse fim, torna-se inadiável para a Ordem no Brasil reaprender a traduzir em linguagem política os descontentamentos e anseios latentes em nossa sociedade, mostrando alternativas, ocupando espaços que permitam aos obreiros a reivindicarem, de forma organizada, as mudanças que todos exigem “como nunca antes na história deste país”, pois a perda de contato com a realidade paralisa a consciência crítica. O dramaturgo e poeta Bertolt Brecht (1898-1956) certa vez escreveu em uma poesia: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala. Nem participa dos acontecimentos políticos...”. Aquele pensador ainda reforçou: “Que continuemos a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem”.  
 
Essa reflexão invariavelmente resvala na dúvida a respeito da identidade da Maçonaria. Teria ela se perdido nestes tempos de mudanças-minuto, ideias curtas e respostas rápidas? Atualmente, bastaria apenas parecer bonito e importante na foto? Restaria à Maçonaria no Brasil apenas um grande passado pela frente e permanecer contemplando-se no retrovisor da história? 
 
E assim retomamos os questionamentos primitivos onde precisemos saber primeiro o que somos, para onde iremos, o que nos motiva, que questões nos unem e nos moldam. Sem isso a imagem no documento de identidade ficará cada vez mais irreconhecível em confronto com a realidade de quem a exibe.
 
Não somos responsáveis apenas pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer.” (Molière, dramaturgo francês)  
 
 

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras e, para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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O estudo da ordem e doutrina maçônica

Qualquer que tenha sido o vosso propósito e o anseio de vosso coração ao ingressar na Augusta Instituição que fraternalmente vos acolheu como um de seus membros é certo que não tereis entendido, a princípio, toda a importância espiritual deste passo e as possibilidades de progresso que com ele vos foram abertas.

A Maçonaria é instituição hermética no tríplice e profundo sentido da palavra. O segredo maçônico é de tal natureza, que não pode nunca ser violado ou traído, por ser mística e individualmente realizado por aquele maçom que o busca para usá-­lo construtivamente, com sinceridade e fervor, absoluta lealdade, firmeza e perseverança no estudo e na prática da arte.

A Maçonaria não se revela efetivamente senão a seus adeptos, aqueles que a ela se doam por inteiro, sem reservas mentais, para tornarem-­se verdadeiros maçons, isto é, obreiros iluminados da inteligência construtora do universo, que deve manifestar-­se em sua mente como verdadeira luz que ilumina, desde um ponto de vista superior, todos os seus pensamentos, palavras e obras.

Isto é conseguido por intermédio das provas que constituem os meios pelos quais se torna manifesto o potencial espiritual que dorme em estado latente na vida rotineira, as provas simbólicas iniciais e as provas posteriores do desânimo e da decepção. Quem se deixar vencer por elas, assim como aquele que ingressar na associação com um espírito superficial, deixará de conhecer aquilo que a ordem encerra em sua forma e seu ministério exterior: deixará de conhecer seu propósito real e a força espiritual oculta que interiormente anima a ordem.

O tesouro acha-­se escondido profundamente na terra. Só escavando, buscando-­o por debaixo das aparências, pode-se encontrá-lo. Quem passa pela instituição como se fosse uma sociedade qualquer ou um clube de serviço, não pode conhecê-­la: somente permanecendo nela longamente, com fé, esforçando-se e tornando-se maçom, reconhecendo o privilégio inerente a esta qualidade, ela revelará o tesouro oculto.

Deste ponto de vista, e qualquer que seja o grau exterior que se possa conseguir, ou que já tenham sido conferidos para compensar de alguma forma os anseios e desejos de progresso, dificilmente pode-­se realmente superar o grau de aprendiz.

Na finalidade iniciática da ordem, somos e continuaremos sendo aprendizes por um tempo muito maior que os simbólicos três anos de idade. Oxalá, fossemos todos bons aprendizes e continuássemos sendo-o por toda nossa existência!

Se todos os maçons se esforçassem primeiro em aprender, quantos males têm sido lamentados e que ainda serão lamentados, não mais teriam razão de existir.

Ser um aprendiz, um aprendiz ativo e inteligente que envida todos os esforços para progredir se iluminando no caminho da verdade e da virtude, realizando e colocando em prática, fazendo-­a carne de sua carne, sangue de seu sangue e vida de sua vida, a doutrina iniciática que se encontra escondida e é revelada no simbolismo do grau, é, sem dúvida, muito melhor que ostentar o mais elevado grau maçônico. Permanecendo na mais odiosa e destruidora das ignorâncias dos princípios e fins sublimes de nossa ordem não levam à evolução.

Não devemos ter pressa na ascensão a graus superiores. O grau que nos foi outorgado, e pelo qual exteriormente somos reconhecidos, é sempre superior ao grau real que alcançamos e realizamos interiormente, e a permanência neste primeiro grau dificilmente poderá ser taxada de excessiva, por maiores que sejam nossos desejos de progresso e os esforços que façamos nesse sentido. Compreender efetivamente o significado dos símbolos e cerimônias que constituem a fórmula iniciática deste grau, procurando a sua prática todos os dias da vida é melhor que sair prematuramente dele, ou desprezá-­lo sem tê-­lo compreendido.

A condição e o estado de aprendiz referem-­se, de forma precisa, à nossa capacidade de apreender; somos aprendizes enquanto nos tornamos receptivos, abrindo-­nos interiormente e colocando todo o esforço necessário para aproveitarmos construtivamente todas as experiências da vida e os ensinamentos que de algum modo recebemos. Nossa mente aberta e a intensidade do desejo de progredir determinam esta capacidade.

Estas qualidades caracterizam o aprendiz e o distinguem do homem comum dentro ou fora da ordem. No profano, segundo se entende maçonicamente esta palavra, prevalecem a inércia e a passividade, e, se existe desejo de progresso, aspiração superior, encontram-se como que sepultados ou sufocados pela materialidade da vida, que converte os homens em escravos completos de seus vícios, de suas necessidades e paixões.

O que torna patente o estado de aprendiz é exatamente o despertar do potencial latente que se encontra em cada ser e nele produz um veemente desejo de progredir, caminhar para frente. Leva a superar todos os obstáculos e limitações, tira proveito de todas as experiências e ensinamentos que encontra em seus passos. Este estado de consciência é a primeira condição para que seja possível tornar-­se maçom em sentido lato.

Toda a vida é para o ser ativo, inteligente e zeloso, uma aprendizagem incessante. Tudo o que encontramos em nosso caminho pode e deve ser um proveitoso material de construção para o edifício simbólico de nosso progresso. O templo que assim erigimos a cada hora, cada dia e cada instante à glória do Grande Arquiteto do Universo: é o princípio construtivo e evolutivo em nós mesmos. No fundo tudo é bom, pode e deve ser utilizado construtivamente para o bem: apesar de que possa ter-­se apresentado sob a forma de experiência desagradável, contrariedade imprevista, dificuldade, obstáculo, desgraça ou inimizade.

Eis o programa que o aprendiz deve esforçar-se em realizar na vida diária. Somente mediante este trabalho: inteligente, zeloso e perseverante, ele tem a possibilidade de converter-se em obreiro da inteligência construtora, e companheiro de todos os que estão animados pelo mesmo programa e finalidade interior.

O esforço individual é condição necessária para o progresso. O aprendiz não deve contentar-se em receber passivamente as ideias, conceitos e teorias vindas do exterior, e simplesmente assimilá-­las, mas trabalhar com estes materiais, e assim aprender a pensar por si mesmo, pois o que caracteriza a instituição maçônica são a mais perfeita compreensão e realização harmônica de dois princípios: liberdade e autoridade. Estes se encontram amiúde em franca oposição ao mundo profano. Cada um deve aprender a progredir por meio de sua própria experiência e por seus próprios esforços, ainda que aproveitando segundo seu discernimento e experiência daqueles que procederam nesse caminho.

A autoridade dos mestres é simplesmente guia, luz e apoio para o aprendiz, enquanto não aprender a caminhar por si mesmo. Seu progresso será sempre proporcional aos seus próprios esforços. Assim é que esta autoridade, a única reconhecida pela Maçonaria, nunca será resultado de imposição ou coação, mas o implícito reconhecimento interior de superioridade espiritual, de um maior avanço na mesma senda que todos indistintamente percorrem. Aquela autoridade natural que somente conseguimos reconhecendo a verdade e praticando a virtude.

O aprendiz que realizar esta sublime finalidade da ordem, reconhecerá que em suas possibilidades há muito mais do que fora previsto quando, inicialmente, pediu sua filiação e foi recebido como irmão.

O impulso que o moveu desde então foi radicalmente mais profundo que as razões conscientes determinantes. Naquele momento atuava nele uma vontade mais elevada que a da sua personalidade comum, sua própria vontade individual, a vontade do divino em nós. Seja ele consciente desta razão oculta e profunda que motivou sua filiação à augusta e sagrada ordem por suas origens, natureza e finalidades.

A todos é dado o privilégio e a oportunidade de cooperar para o renascimento iniciático na Maçonaria, para o qual estão maduros os tempos e os homens. Façamos-lo com aquele entusiasmo e fervor que, tendo superado as três provas simbólicas, não se deixa vencer pelas correntes contrárias do mundo nem arrastar pelo ímpeto das paixões nem desanimar pela frieza exterior, e que, chegando a tal estado de firmeza, amadurecerá e dará ótimos frutos.

Mas antes aprendamos o que é a ordem em sua essência: origem, significado da iniciação simbólica pela qual fomos recebidos. A filosofia iniciática da qual provêm os elementos. O estudo dos primeiros princípios e dos símbolos que os representam. A tríplice natureza e valor do templo alegórico de nossos trabalhos e a sua qualidade. A palavra dada para uso e que constitui o ministério supremo e central. Receberemos assim o salário merecido como resultado de nossos esforços e nos tornaremos obreiros aptos e perfeitamente capacitados para o trabalho que de nós é exigido.

Texto extraído do livro Manual do Aprendiz Franco-Maçom
Sociedade de Ciências Antigas

 

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Não precisa ser assim!

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“… A Maçonaria no século XVIII foi um movimento radical, muitas vezes contra abusos de poder por parte do Establishment. Seu desenvolvimento e crescimento foram uma parte vital da Era do Iluminismo.”

Tente isto e veja como se encaixa. Os maçons pertencem a uma organização que deve ser dedicada ao autoconhecimento, à natureza do ser, amor, tolerância, à fraternidade entre os homens, à liberdade de consciência e, sim, talvez à uma conexão com a Divindade no meio. Mas nós ficamos atolados em sistemas que parecem uma hierarquia, obsessão com promoção a graus superiores, discussões sobre precedência, noções confusas sobre Deus, os méritos relativos deste ou daquele local para o jantar e um papaguear sem sentido sobre o que é, em si mesmo, um ritual significativo. Talvez, o pior de tudo é nós nos acharmos uma organização caritativa, quando o que nós somos é, primariamente, uma organização com todos os atributos que eu mencionei, em adição, alguns filantrópicos.

Na noite em que eu fui iniciado, um dos Mestres Instalados apertou-­me a mão dizendo: “Bem, rapaz, de agora em diante você não necessita de outros passatempos!” Eu, no mesmo momento, senti isso ofensivo, percebendo (corretamente) que a Maçonaria é uma profissão ou uma vocação, não um passatempo. Minha impressão, formada tão precocemente, foi, logo em seguida, reforçada por visitas à lojas na Alemanha, onde eles levam essas coisas muito mais a sério do que nós, na Inglaterra.

Onde está a espiritualidade, a tentativa de auto melhoramento, as incursões no simbolismo, as incursões, por assim dizer, no inexplicado, tanto externa como internamente? Se nós examinarmos onde a Maçonaria está, na Inglaterra, neste momento, para dizer o minímo, nós estamos engajados em iniciar cada vez mais homens na confraria e conferir-­lhes o segundo e o terceiro graus, de modo que eles possam, por sua vez, ser designados como oficiais, numa loja, no devido tempo tornando-­se Veneráveis Mestres. Com que finalidade? A finalidade, infelizmente, é tal que eles possam iniciar mais homens, de modo que esses homens possam fazer o mesmo a outros homens, usque ad infinitum. Parece que nós fazemos isso com a justificativa de “um avanço diário no conhecimento maçônico”. Seria muito perguntar que avanço? O que aconteceu com eles? Como a Maçonaria moldou suas vidas, afinal? Cresceram eles e, se afirmativo, de que maneira? O que aprenderam eles? Estas não são perguntas teóricas, porque, para alguns desses irmãos, algo aconteceu; a Maçonaria modificou suas vidas, mesmo que em uma maneira limitada; eles podem, realmente, ter crescido sem o perceber; eles, quase certamente, aprenderam alguma coisa, nem que seja algum ritual obrigatório. Mas, para muitos de nós, eu desconfio que a concessão de graus muito cedo se tornou um fim em si mesmo.

É fácil esquecer que a Maçonaria no séc. XVIII era um movimento radical, frequentemente posicionando-­se contra os abusos do poder de parte do Establishment. O seu desenvolvimento e crescimento foram uma parte vital da Era do Iluminismo. Ela foi, para muitos, uma rota para o conhecimento que lhes era negado por um sistema religioso ou político opressivo. Assim, depois de uma recente palestra sobre educação na Maçonaria, quando eu perguntei ao palestrante se seria possível incluir palestras sobre assuntos históricos ou filosóficos como uma característica normal dos trabalhos de loja (tal como são costumeiros em muitas lojas continentais[1]), a resposta foi que “isto não serviria para a maioria – afinal, as pessoas usufruem a sua Maçonaria em muitos níveis diferentes”, uma regra de maçom de garfo-­e­-faca, se é que exista uma.

A boa notícia é que isso não tem que ser assim. Como Collin Dyer indicou, o modo apropriado de instruir nossos jovens maçons não é pela repetição das cerimônias de grau, mas pelos vários sistemas de palestras maçônicas. No final do séc. XVIII e início do séc. XIX, as lojas de instrução não ensinavam cerimônias de graus, pois estavam muito mais engajadas em debates morais e filosóficos. Os Maçons eram, frequentemente, feitos fora da loja, juntos e, então, trazidos para a loja onde o seu real trabalho começava, na busca moral, intelectual e espiritual. Cerimônias de grau, em contraste, são os únicos meios (apesar de enfeitados) de fazer maçons e adiantá-­los aos outros graus assim que tenham aprendido alguma coisa. Graus de quê? Para atingir um grau mais elevado, certamente você tem, antes, que estudar, aprender, ganhar proficiência.

Este é o princípio de uma progressão acadêmica e o método progressivo empregado por qualquer instituto merecedor do nome; por que as exigências da Maçonaria deveriam ser menores? As questões perfunctórias que nós exigimos, hoje em dia, dos nossos candidatos para avanço são meramente os restos de um intricado sistema de palestras morais que, no séc XVIII, tinham que ser ministradas verbalmente (uma vez que nada era escrito) e aprendido de cor antes que um candidato pudesse avançar para um grau superior. Hoje em dia, até mesmo um mínimo que tenha sobrado disso não se constitui num teste real, de modo algum, uma vez que qualquer quantidade de ajuda pelo Diácono, por seu lado, é permitida[2]. Comparo isso com as lojas alemãs que eu visitei, onde, em cada reunião, o Mestre encarregava um de seus irmãos mais novos de preparar e de realizar, na sessão seguinte, uma palestra sobre um assunto filosófico à sua escolha e ficar preparado para responder questões sobre ele. Ou a loja francesa que eu visitei, onde um candidato à iniciação não foi aceito depois de meses de pesquisas sobre as suas atitudes morais e filosóficas.

Quando eu escrevi este texto pela primeira vez, eu tinha em mente as experiências de um ou dois de nossos irmãos mais novos, cujos segundo e terceiro graus vieram bem depois de suas iniciações. Eles se mostraram surpresos de que não se esperava deles um avanço mais significativo no conhecimento maçônico e pareciam aborrecidos pela falta de atividade; em resumo: eles se sentiram abandonados. Eu tenho a nítida impressão que eles tinham o direito de se sentirem assim.

Então, e daí? Qual é o nosso avanço diário no conhecimento maçônico e como nós tratamos desse negócio de autoconhecimento, crescimento interno? Ou são, todas elas, apenas palavras vazias?

Autor: Julian Rees

Para acessar o texto original em inglês, clique AQUI

Notas

[1] – Lojas continentais – referência às lojas europeias fora da Inglaterra, situadas no continente, val dizer, outros países fora da ilha britânica. (N. T.)

[2] – Referência ao fato de que o 1.º Diácono, muitas vezes, “assopra” partes do texto aos irmãos que estão sendo submetidos a questionário ou telhamento. (N. T.)

Maçonaria Fast Food

Estava eu outro dia conversando com um irmão e amigo que pertence a outra Loja e Obediência. Era nosso primeiro encontro após uma visita que ele havia feito à minha Loja. Papo vai, papo vem, e eis que o irmão pergunta se poderia indicar um candidato para ingressar em minha Loja.

Eu, conhecendo a idoneidade moral desse irmão, respondo afirmativamente. Afinal de contas, é direito de todo Mestre Maçom regular indicar candidatos e, se ele havia escolhido a minha para realizar a indicação, era motivo de honra para mim. Porém, a dúvida ficou no ar, e logo questionei o irmão do porquê dele não realizar a indicação em sua própria Loja, já que eu sabia que ele era inclusive o Secretário da Loja, e poderia acompanhar o processo para a Iniciação mais de perto.

Tenho que confessar que a resposta não me surpreendeu muito, visto ser algo cada dia mais comum de ser visto na Maçonaria Brasileira: o irmão se queixou de sua Loja, dizendo que a mesma está sem conteúdo, reunindo-se apenas para bater malhete, isso quando não está ocupada com brigas internas e externas; reclamou ainda que toda tentativa dele e de outros irmãos mais novos de inovar é frustrada pelos “donos da Loja”.

E tendo o irmão visitado algumas vezes nossa Loja e observado seu modus operandi, se sentia mais à vontade para indicar um amigo no qual enxergava os princípios maçônicos básicos e o interesse no aperfeiçoamento moral e espiritual.

Compreendendo a situação do irmão, reafirmei minha concordância e disponibilidade em avalizar tal indicação em minha Loja, dizendo que seria para nós uma honra receber o futuro afilhado dele, é claro que após a devida sindicância e seguindo todos os trâmites de costume. Ao tocar no assunto, o irmão aproveitou para perguntar como era nosso processo de sindicância, os documentos, exigências e custos para ingresso na Loja. Sendo ele um irmão sempre muito interessado e participativo, não me incomodei de explicar todo o processo, desde a indicação até a iniciação. Ao final, informei ainda o valor do investimento para Iniciação, o qual cobre o kit de Aprendiz (avental, luvas, ritual, broche, identidade, diploma, etc.) e um jantar comemorativo em que o iniciado é apresentado aos Irmãos.

Nesse momento, vi o espanto no rosto do irmão, que logo exclamou que o valor informado era exorbitante, impraticável, e que o processo para iniciação era muito burocrático. Ao escutar tais comentários, perguntei-me como era possível fazer o mesmo com menos tempo e recursos… não contive a curiosidade e questionei: – E como é em sua Loja? – O irmão então me respondeu que sua Obediência estava dispensando muitas das exigências para a Iniciação, além de isentar os candidatos da taxa do placet. Por conta disso, sua Loja consegue fazer todo o processo para Iniciação em apenas um mês, e cobra apenas R$100,00 do candidato.

Após escutar o irmão, fiquei refletindo por um momento sobre o assunto. Eu já conhecia essa história “de outros carnavais” e meu raciocínio era de que, de uma certa forma, um valor mais substancial, o processo relativamente demorado, e as exigências documentais como quase de um concurso de policial federal, serviam como filtros, peneiras, para separar os curiosos daqueles realmente interessados. Todos aqueles documentos, entrevistas e consultas teoricamente garantiam a qualidade mínima social e moral dos indivíduos que pleiteiam ingresso na Maçonaria. Mas, será que aquela fórmula “fast food” de Maçonaria estava funcionado para a Loja dele e outras Lojas daquela Obediência?

O que a Loja dele e outras da Jurisdição estavam fazendo, com a anuência da Obediência, era proporcionar aos profanos um acesso rápido e barato à Maçonaria. É o que podemos chamar de “McMaçonaria”. A questão é se isso é realmente bom para os membros e para a Instituição. Pensando nisso, perguntei ao Irmão quantos membros haviam iniciado na Loja dele nos últimos dois anos. Ele respondeu que algo em torno de 150 novos irmãos. – Uau! – imaginei. Então perguntei a ele a média de membros por reunião atualmente. Ele sabia bem: uns 26 a 28 irmãos, a maioria de irmãos mais antigos, apenas uns 10 membros da “nova safra”. Então lancei a pergunta derradeira… – E você sabe o nome desses 150 irmãos? – A resposta, é claro, foi negativa. – Talvez eu saiba de uns três deles – o irmão me respondeu.

Isso já era de se esperar… Como dito anteriormente, essa ideia não é nova. Algumas Grandes Lojas dos EUA já haviam tentado algo parecido alguns anos atrás, porém de forma mais intensa e abrangente e, é claro, foi um fracasso. Não somente causou alguns problemas internos, como também impactou na relação com outras Grandes Lojas no mundo, que não gostaram nem um pouco dessa história.

Com a tática da McMaçonaria, a tal Obediência deve ter aumentado consideravelmente o número de seus filiados. Já as Lojas que abriram mão do conceito de células de “família maçônica” não obtiveram ganhos reais em troca. Talvez, membros promissores, que se identificariam com a Loja e seus valores quando em sua forma tradicional, se entregam à desmotivação de serem mais uns entre dezenas e, ao frequentarem a Loja, que perde sua própria identidade, acabam por também se afastarem. Os agora maçons, que adquiriram um “lanche” rápido e barato de Maçonaria, podem por fim não experimentar, degustar, saborear e aproveitar a verdadeira essência da Ordem. Enfim, a curto prazo parece algo ótimo, mas a longo prazo pode ser prejudicial, assim como uma alimentação à base de fast food.

Autor: Kennyo Ismail

Interação da Maçonaria com a Sociedade

Já se foi a época que a maçonaria sofria perseguições políticas e religiosas. Hoje o que encontramos é o preconceito de elementos da sociedade em relação à Sublime Ordem. A própria palavra preconceito já mostra a deficiência de quem o tem, ou seja: fazer juízo antes mesmo de tomar conhecimento da realidade: pré + conceito.

O grande problema é que o preconceito é baseado em crenças e não no conhecimento; o preconceito tem uma base irracional que só é extinto pela instrução e esclarecimento da realidade. Se há na sociedade um resquício de aversão à maçonaria, podem ter certeza que boa parte da culpa é dos maçons. Outrora nós promovemos uma segregação da Ordem junto à Sociedade, e esta levantou suspeitas de nossa idoneidade e propósitos. Como tornar feliz a Humanidade se não estivermos inseridos e interagindo com os outros segmentos da Sociedade?

Aperfeiçoar os costumes não é apenas obrigação de cunho pessoal, é preciso também descobrir na Sociedade focos de desvirtuamento (drogas, evasão escolar, violência, etc) e cumprirmos nosso papel de “Construtores Sociais”. Toda Loja tem a obrigação de promover atividades de interação com a sociedade em que ela está inserida. O apoio aos bons projetos governamentais, a parceria com outras sociedades e agremiações e a participação efetiva em campanhas fraternais promovidas por entidades de cunho religioso só nos aproxima da população e desmentem as bobagens que falam de nós.

Há também um aspecto de suma importância: cabe aos maçons deixarem de lado comportamentos falaciosos. É muito comum perguntarem a alguns maçons qualquer coisa sobre maçonaria e eles responderem: – Isto é segredo!. Eu não sei qual a dificuldade em responder ou dizer que não sabe!

O problema é que a maioria age assim para se manter envolto nas “brumas do mistério”. É o típico Irmão que não apresenta nenhum candidato, pois se apresentar um colega de trabalho e este for admitido perderá o status quo. Temos que ficar atentos, pois preconceitos podem levar a discriminações, e não desenvolvem o pensamento arcaico que isto não atinge um “Obreiro da Arte Real”. Normalmente os alvos das discriminações não serão os Irmãos, mas sim as cunhadas e sobrinhos. Não permitam o isolamento da Loja e dos maçons. Aproximem-se dos formadores de opinião, tragam esclarecimentos para os que ignoram nossa história e aspirações.

Autor: Sérgio Quirino Guimarães
ARLS Presidente Roosevelt, 25 – GLMMG

 

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