O Mestre Maçom perante si próprio

Todo o maçom, desde o primeiro dia que adquiriu essa condição sabe que o seu maior inimigo é aquele que vê quando, de frente, olha para o espelho. Mas também sabe que a melhor maneira de acabar com o inimigo não é prendê-lo (pode sempre libertar-se…), ou matá-lo (pode dele fazer um mártir ou herói para outros, e assim afinal multiplicar os seus inimigos…). A melhor maneira de acabar com o seu inimigo é fazer dele seu aliado, seu amigo. A amizade tem mais força que a força…

Todo o maçom sabe, desde o dia em que adquiriu essa condição, que dentro de si convive o que potencialmente o destrói, o desvaloriza, o apouca – os seus vícios, os seus defeitos – e o que o engrandece – as suas virtudes e capacidades. Por isso aprende que é crucial cavar masmorras aos seus vícios e cultivar suas virtudes. Só assim aquele que vê quando, de frente, olha para o espelho deixará de ser o inimigo que arrasta para as sombras da depravação para passar a ser efetivamente o aliado amigo que acompanha no caminho para a Luz.

O Mestre Maçom, quando se coloca – o que deve fazer com frequência… – perante si próprio, deve sempre recordar-se que o esforço para ser melhor pode não necessitar de ser muito grande, mas inevitavelmente tem que ser contínuo. Tal como aquele que anda de bicicleta precisa de manter o movimento para não cair, assim aquele que cessa o esforço para melhorar verá degradar-se o que atingiu.

Assim, a palavra que, no meu entendimento, se deve utilizar para ilustrar o que se impõe ao Mestre Maçom perante si próprio é “persistência”.

Persistência no contínuo esforço de melhoria. Persistência em aprender e ensinar e em aprender ensinando. Persistência no Estar como meio para o Ser. Persistência em fazer, dia após dia, mês após mês, ano após ano, mais do mesmo, como forma de descobrir, afinal, que o mesmo continuamente se reinventa e, quando damos por ela, já é outro e melhor.

Persistência no trabalho mais importante que existe, o trabalho em si próprio, o trabalho que lhe permite reconhecer-se e ser reconhecido como aquilo de que se apelida, Maçom.

Persistência no lapidar da única obra que, apesar de todas as obras que construa ou que crie, afinal realiza durante o tempo que passa neste plano da existência, a sua verdadeira obra-prima, a sua vida e quem a vive.

Persistência na busca da forma de melhorar o que parece bom, mas pode sempre ser um pouco melhor – para descobrir que, após a melhoria, o que é melhor, pode ainda ser melhorado mais um pouco, desde que… persista no trabalho.

Persistência na lapidação da sua Pedra Bruta até conseguir dar-lhe a desejada forma de Pedra Cúbica. Persistência para polir essa Pedra Cúbica, face a face, para bolear bem as arestas, uma a uma, para que essa Pedra Cúbica seja capaz de ser encaixada onde deve, seja sólida para bem assegurar o seu papel, se enquadre harmoniosamente entre as demais, aumentando com o seu brilho o brilho das vizinhas.

Persistência para nunca se sentir satisfeito, para ter a noção de que é sempre possível fazer e ser um pouco melhor e para efetivamente agir para assim fazer e ser – e descobrir que continuar a lapidar uma Pedra Cúbica não a faz mais pequena, paradoxalmente engrandece-a.

Persistência em ser realmente e completamente aquilo que se reclama ser: Mestre Maçom!

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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O primeiro dever do Venerável Mestre é criar futuros bons Veneráveis Mestres

Instalação e posse

Nas Grandes Lojas do Estado de São Paulo (GLESP), na abertura solene  da Cerimônia de Instalação e Posse do Venerável Mestre, o dirigente roga o auxílio do Grande Arquiteto do Universo para que aquele ilustre Irmão, M.·.M.·. que foi legalmente eleito para exercer o cargo, seja dotado de sabedoria para compreender, de discernimento para julgar e de meios para executar a Sagrada Lei, para que possa guiar e governar com Retidão, Verdade e  Justiça sua Aug.·. e Resp.·. Loj.·. Simbólica.

O papel do Venerável é parecido com o do maestro de uma orquestra. Pode ensinar a teoria da música e tirar sons de um instrumento musical. Mas precisa ter a habilidade para juntar tantos músicos diferentes e fazê-los tocar a música em harmonia. Levá-los a executar a música em uníssono (no mesmo tom, ao mesmo tempo). Ele deve ser capaz de proporcionar essa habilidade ao grupo.

Preparação do eleito

O que acontece com aquele que acaba de ser eleito para dirigir sua Loja? Acreditamos como base imutável do trabalho de preparação do mesmo a valorização e apoio ao Irmão, independente do Rito praticado, uma vez que os Ritos são respeitáveis e contêm, em suas essências, a necessidade da Construção Social dos Maçons. É uma providência muito usual, às vésperas da “passagem do malhete”, o Resp.·. Ir.·. Delegado Regional promover uma reunião dos  Mestres Instaladores e dos Veneráveis Eleitos com o objetivo de eliminar dúvidas sobre a realização do ato.

O treinamento breve e superficial, onde nem sequer os interessados se apercebem da grandiosidade que significa a Cerimônia, pode ter um impacto negativo no desempenho do futuro Venerável, se esses Irmãos não tiveram apoio e acompanhamento necessário para que sejam bem sucedidos nessa tarefa de tanta responsabilidade. A Potência espera muito dos novos Veneráveis e lhes cobrará conhecimento, desembaraço, responsabilidade, eficiência e acertos. Mas os Veneráveis por seu lado, sabem das dificuldades pelas quais irão passar e têm a expectativa, a curiosidade, a vontade do acesso a uma orientação oficial preparatória, segura, através da Potência. Um têm a expectativa do outro.

Sabemos que nada mais lógico e razoável seria a existência de um compêndio elementar  destinado ao Venerável eleito, onde pudesse buscar  a técnica  de dirigir e orientar os seus liderados nos rudimentos da arte, da filosofia, da ciência e da doutrina, antes de iniciar seu Veneralato.

Missão do Venerável

Inspirar seus liderados a viverem uma vida melhor, cada um dando o melhor de si, lembrando-lhes da sua missão e dos valores que regem a vida maçônica: amor, honestidade, humildade, paciência, educação, bondade, compromisso, respeito, abnegação, perdão.

O Venerável, é o instrumento de ligação entre todos os elementos que constituem a sua Loja e os delegados do Grão-mestre. Não gerencia os Irmãos, influencia e os lidera para darem o melhor de si.

Conceitos de liderança

A maioria dos candidatos ao cargo de Venerável Mestre, tem o desejo sincero de exercer liderança da melhor forma possível. No fundo, as pessoas anseiam por uma vida significativa e satisfatória e, por isso, procuram por alguma coisa especial que faça aflorar o que eles têm de melhor. De preferência, buscam uma harmonia entre seus valores pessoais e os valores da Instituição. Uma coisa é certa: os Irmãos querem fazer parte de algo especial; de uma Loja da qual possam se orgulhar, e ao termino dos trabalhos que todos fiquem felizes porque se sentem fazendo a coisa certa.

Defendemos a tese de que a liderança não é poder e sim autoridade, conquistada com amor, dedicação e respeito pelos liderados.

Liderar significa conquistar os Irmãos, envolvê-los de forma que coloquem o coração, mente, espírito, criatividade e excelência à disposição da Loj.·. e da Ordem. É preciso fazer com que haja o máximo empenho na missão, dando tudo pelo conjunto.

Lembremos, outrossim, de que não é preciso ser Venerável da Loja para ser um líder e influenciar os Irmãos a terem mais entusiasmo, mais empenho e mais disposição – enfim, para se tornarem o melhor que podem ser.

O que define a palavra liderança é a capacidade de influenciar os Irmãos para o bem. Na verdade, na Loja todos são líderes, assumindo cada um a responsabilidade pessoal pelo sucesso da Oficina.

Limitações

Os humildes consideram sua liderança uma enorme responsabilidade e levam muito a sério a posição de confiança e os Irmãos a ele confiados. O Venerável sabe que os Irmãos vão cometer erros. Os VVig.·., o Orador, o M.·. de CCer.·., o Secretário e outros – muitas vezes, vão decepcioná-lo, vão magoá-lo, não se esforçarão como ele acha que deveriam e alguns não reagirão aos seus esforços. Por isso, aceitam as limitações nos outros e tem uma enorme capacidade de tolerar a imperfeição.

Autêntico, ele não posa de sábio, está sempre disponível e, de certa forma, vulnerável, porque tem sempre seu ego sob controle e não se baseia em ilusões de conhecimento por “iluminismo do Alto”, de grandeza, acreditando que é indispensável para a Instituição. Sabe muito bem que “os cemitérios estão repletos de pessoas indispensáveis”.

Seguro de suas forças e limitações, o Venerável humilde está consciente de que só com a ajuda de todos será capaz de manter as coisas em sua devida perspectiva.

Os menos humildes, não devem ficar ressentidos com as coisas que machucam e desapontam. Devem lembrar-se de que qualquer um pode liderar pessoas perfeitas – se elas existem – o que não devem esquecer jamais os que optam por liderar é que devem servir: “quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo” (Jesus Cristo).

Muitos dos que assumem a liderança de sua Loja, enganam-se achando que é sua vez de serem servidos, agora que se tornaram líderes. A todo verdadeiro Maçom cabe tal responsabilidade: “deve servir nunca se servir”.

Responsabilidade

O Mestre Instalado vai se apropriando de ideias dentro de si, interpenetrando a fusão de culturas, tradições, sentimentos, em estilo cultural comum, cabedal de conhecimentos adquiridos ao longo do tempo e burilados durante a sua presença à frente dos cargos que desempenhou na Loja, conhecimentos esses que deverá necessariamente ser posto de forma total  “em pé e à ordem” da Sublime Instituição.

Conflitos

Obviamente, uma Loja Maçônica não é um lugar sem conflitos. Afinal, quando duas ou mais pessoas se reúnem para um propósito, uma coisa é certa, haverá conflito (especialmente se a Loja for saudável). O interessante é usar a inteligência para encontrar o caminho da comunicação entre os Irmãos e  transformar a Loja num local onde os conflitos são solucionados e os participantes aprendam a não evitar divergências – mas a ter respeito, a escutar, a ser assertivos uns com os outros, a ser aberto a novos desafios, a valorizar a diversidade que existe em qualquer equipe saudável.

NÃO àquelas alianças destrutivas entre dois ou mais Irmãos que preferem falar dos outros (panelinhas), em vez de levantarem o problema para toda a Loja, a fim de que se encontre uma solução. NÃO aos integrantes dessas “panelinhas” que não têm a coragem moral de fazer a coisa certa em momentos de desafio e controvérsia.

Os Irmãos Jubelos existem sempre, são justamente os veículos necessários, como Pedro e Judas o foram para Jesus. Um o traiu antes da morte; o outro, O negou em vida por três vezes.

Simbolizam os três assassinos as expressões da nossa natureza material, os que fazem oposição aos nossos bons sentimentos; os assassinos podem ter outros nomes: Ignorância, Fanatismo e Ambição.

Essas fases negativas poderão ser, com o auxílio de nossos Mestres, transformadas em Sabedoria, Tolerância e Amor.

Disciplina é uma palavra cuja raiz vem de discípulo, que é aquele que recebe ensinamento ou treinamento.

Lembrem-se de que disciplinar não é punir e humilhar os Irmãos. O objetivo é levá-los para o caminho certo, ajudando-os a se tornarem melhores, a vencer e ser bem-sucedidos e que respeito não é algo que se ganha quando se torna Ven.·. O respeito assim como o reconhecimento é conquistado pouco a pouco e exige que as partes renunciem interesses pessoais pelo bem maior, para que o todo se torne maior do que a soma de suas partes. Isso nos ensinou o Mestre dos Mestres: “quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva”; “e quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo” Qualquer um que queira ser um líder deve primeiro ser o servidor.  Servir uns aos outros, conforme o dom que recebeu.

Venerável Mestre, Deus  em sua infinita sabedoria, o colocou como dirigente de sua Loja, lugar onde pode aprender com eficiência e servir melhor.  Hoje o imaginei recitando a magnífica Oração de Amor de São Francisco de Assis, adaptada para nossos dias:

 “Ó Senhor, fazei de mim instrumento de tua paz:
Onde há ódio, faze que eu leve Amor e uma palavra de união;
onde há ofensa que eu leve o Perdão;
onde há discórdia e onde tantos procuram ser servidos, que eu leve a alegria de servir;
onde há dúvida, que eu leve a Fé;
onde há erro, que eu leve a Verdade;
onde tantos fecham a mão para bater, que eu abra meu coração para acolher;
onde há desespero porque a vida perdeu o sentido, que eu leve o sentido de viver, que eu leve a Esperança;
onde tantos sofrem a solidão que faz morrer, que eu seja o amigo que faz viver;
onde há tristeza, que eu leve a Alegria;
onde há trevas, que eu leve a Luz.

Ó Mestre faze que eu procure menos ser consolado do que consolar;
ser compreendido do que compreender;
ser amado do que amar;
onde tantos adoram a máquina, que eu saiba venerar o homem;
onde tantos endeusam a técnica, que eu saiba humanizar a pessoa;
onde tantos pedem o pão, que eu saiba ensinar a plantar o trigo;
onde tantos estão distantes, que eu seja  sempre presente.

Porquanto – é dando que se recebe;
é perdoando que se é perdoado;
e onde tantos morrem na matéria que passa que eu viva no espírito que fica;
pois, é morrendo que se ressuscita para a vida eterna.
Onde tantos olham para a Terra, que eu saiba olhar para o Céu.”

Ao passar o cargo

Finalmente, se na Palavra sobre o ato realizado, algum Ir.·. pedir a palavra e quiser falar sobre a mais elevada distinção de reconhecimento que um obreiro pode almejar de sua Loja, que não fale por muito tempo.

Digam para não mencionar carreira da vida profana ou maçônica – isso não é importante. Falem que um dia foi plantado uma semente, minúscula, e que nasceu a plantinha que ajudamos a adubar, a regar, a podar esta pequena árvore cresceu, floriu, deu frutos e hoje nossa Loja com nome, número, Carta Constitutiva Definitiva, Estandarte e Hino no qual se enaltece a glória de Deus, do Patrono e da história da Loja.

Digam para não mencionarem Iniciações, Elevações, Exaltações ou Filiações realizadas, pois essas fazem parte das atividades normais de uma Oficina.

Façam sim, referência ao nosso denodo para ajudar os outros. Que tentamos amar qualquer um e a todos os Obreiros.  Que procuramos ser justos.

Digam que não mencionem o sucesso que a Loja teve no equilíbrio das finanças, no trabalho sem igual da Secretaria, nas atividades da Chancelaria, isso não é importante.

Falem do esforço em arrecadar o possível para que nossa Hospitalaria pudesse apoiar as Associações que alimentam os moradores de rua, os que têm fome, que vestem os nus. Lembrem que acompanhamos os Irmãozinhos e familiares em suas enfermidades.

Concluindo

Ensinando, pesquisando, conversando, trazendo novas ideias à baila, mas principalmente revelando, em todos os momentos e ocasiões, o extremo dinamismo e amor à Ordem, que devem caracterizar aqueles que, um dia, tiveram a honra de ocupar o Trono de Salomão. Certo é que todos deixam sua marca na equipe – a única questão é o tipo de marca que cada um quer deixar.

E quando, por fim, formos atingidos pela foice da noite, nosso espírito poderá erguer seu voo de fronte altiva e satisfeito conosco mesmo, chegar aos pés do Redentor, cobrindo as marcas de nossos pés cansados, de mãos vazias, mais calejadas por termos legado à Humanidade a dádiva de uma existência que comoverá pela tenacidade, beleza, grandeza e pela abnegação que procuramos servir nossos Irmãos, nossa Loja e a Humanidade…

Autor: Valdemar Sansão

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Por que te tornaste maçom?

A esta pergunta, o novo Aprendiz responde: “Porque eu estava na escuridão e desejava a luz”.

Duas outras perguntas derivam dessa primeira. Como se pode esperar desejar algo que não conhecemos? Se admitirmos que esta Luz estava em nós, embora a ignoremos, como a Maçonaria poderá nos fazer descobri-la?

A luz!  Termo mágico … base de nossa criação, da Gênesis, fonte de vida, ela é o ponto principal de onde tudo emana. Em todos os tempos, o homem se pergunta sobre essa luz que brilha nas trevas, que inflama as mitologias, os contos, os sonhos. É a jornada secreta do homem em busca de seu futuro espiritual.  Ele transfigura o Ser e multiplica sua imaginação criadora através do tempo e do espaço.

Uma noite, Hermes teve a visão de uma forma de luz que lhe revelava o Conhecimento. Ele a questionou, dizendo: “Quem é Você? ─ Você mesmo”, respondeu ela. Tendo citado esta visão de Hermes, Henry Corbin acrescenta: “O que é o buscador? O que é buscado? A essa pergunta, Najmoddin Kobrâ, apelidado de “o criador de santos”, um mestre sufi persa, nascido em 1145, responde: “O procurado é a Luz divina, o buscador é uma parcela dessa Luz”[1].

Assim se apresenta a maravilhosa história de amor entre a Luz divina e a luz que emana dela. Esta última geralmente ignora sua origem, e é por isso que ela procura fora do que tem dentro de si. Por muito tempo, o homem, portador da luz, tende a se perder tomando as reflexões cintilantes por realidades. Percebendo seu erro, ele entende que seus sentidos externos são incapazes de ver a Luz, de tocá-la e de perceber seu apelo. Esses cinco sentidos são o sinal por excelência da manifestação grosseira e sensível que domina o estado de Aprendiz. Esses cinco sentidos permanecem inexoravelmente exotéricos, porque para encontrar a Verdade, não há necessidade de a buscar … De fato, o buscador da Verdade deve, antes de tudo, ser um buscador de erros, e uma vez que ele tenha encontrado os erros e os derrubados, a Verdade aparecerá nua, pura e simples como sempre foi e nunca deixou de ser.

Aqueles que não são feitos para a finalidade, geralmente não sendo feitos para o caminho, pararão na superfície do erro sem jamais alcançar o núcleo da Verdade e, portanto, a disciplina do arcano que convém a todo ensinamento esotérico não fará seu trabalho. Aqueles que, ao contrário, não se apegam à superfície dos cinco sentidos, compreenderão a correspondência que era feita na Antiguidade entre os sentidos físicos e os sentidos ou faculdades da alma, ou seja, entre os órgãos da percepção sensível e da percepção sutil. Porque, se é possível ao nosso corpo físico perceber o mundo através dos cinco sentidos, a alma pode ver, ouvir, provar, cheirar e tocar graças às suas faculdades sutis. E o processo de unificação do múltiplo, que preside toda iniciação, não terá qualquer problema para permitir que a alma concentre seus cinco sentidos sutis no que é chamado de “quintessência” [2]. Seus sentidos externos, portanto, sendo para isso incapazes. Pouco a pouco, seus sentidos internos nascem, mas eles ainda são frágeis, incapazes de contemplar a plenitude da Luz.

Angustiado, e às vezes vítima de uma vertigem abismal, o homem se olha imaginando quem ele é. Pelo conhecimento de si mesmo, ele percebe sua obscuridade, sua escuridão, suas trevas. Não se trata de negá-los, mas de assumir sua transmutação. Somente quando o buscador tiver sido capaz de mergulhar em sua dimensão de profundidade, em seu fundo sem fundo, é que ele poderá descobrir dentro de si a Luz viva.

É exatamente essa abordagem que é empreendida por nossa busca de desejar a Luz que nos fez procurar ser Maçom. Ela vai encontrar quem a procura e em quem ela habita. Ela gostaria de clarear tudo, sabendo que seu brilho poderia se tornar mortal para um olhar turbado. Então, por compaixão, ela se filtra. De tempos em tempos, para sinalizar sua presença, ela deixa aparecer um brilho comparável em sua brevidade a um piscar de olhos, o mesmo que percebemos inconsciente e furtivamente na Câmara de Reflexão. Esse brilho suave pode ser suficiente para capturar e seduzir aqueles que partiram em sua busca.

No processo empreendido pelo homem portador da Luz, as etapas e as peregrinações são numerosas e longas. Às vezes, o buscador anda em círculos, se cansa, se desespera com os obstáculos e tenta contorná-los. Ele se deixa distrair e corre o risco de esquecer o objetivo de sua viagem. A distância que o separa da Luz lhe parece insuperável e, por compensação, ele se apaixona pelas luzes fracas que o aprisionam. Sua ignorância é pesada e obscurece sua cegueira.  Assim que ele entende que deve purificar seu coração para receber a plenitude da Luz, ele gradualmente se liberta das trevas. Os antigos alquimistas sabiam que, sob sua aparência obscura, o chumbo contém “a flor dourada”. O importante é derretê-lo para que o ouro possa saltar. Assim, o coração do homem, duro e frio como um pedaço de gelo, derrete-se lentamente e dele flui água viva brilhante, toda iluminada por sua própria luz interior: a imagem do Princípio.

Durante sua transformação, o homem não se preocupa. Os textos das Sagradas Escrituras o tranquilizam: “Eu te livrarei de teu chumbo” (Isaías I, 25); “O chumbo é consumido pelo fogo” (Jeremias. VI, 29); “Vossos pecados se tornarão brancos como a neve” (Isaías I, 18). O homem se entristece apenas pela lentidão de seus passos. Ele gostaria de saltar diante da Luz, mas se sente como acorrentado por si mesmo. A Iniciação opera, o homem a recebe com alegria e lhe responde dirigindo seu olhar para a fonte da Luz. Mais ainda, seu olhar como se pregado se torna imóvel. Essa imobilidade é ao mesmo tempo movimento e repouso, confiança dinâmica e abandono.

De repente, eis o homem portador da Luz imerso em sua profundeza suprema. Ele entende que a Luz sempre esteve presente e que ele não sabia. Ela esperava pacientemente ser vista e aceita. Ela se escondia para incentivar a busca. Descoberta, ei-la aqui revelada. Ela ilumina o Homem que respondendo ao seu desejo de Luz, abandona suas próprias trevas.

Uma transformação total ocorre então no homem. Seu coração se torna uma chama comparável àquela que queimava, sem o consumir, a sarça ardente. Para ele, não há mais solidão e isolamento, ele não somente se une à Luz, mas também se une a todos os homens nos quais a Luz está viva através do amor fraternal. Ele participa da existência de criaturas das quais ele percebe o segredo luminoso.  Tudo é, para ele, um espelho refletindo a Luz do Princípio, assim ele amará as pedras, as plantas e os animais. Deslumbrado, o homem de Luz liga incessantemente o visível ao invisível. Agora, eles são um só para ele! Não estando mais estimulado pelos eventos externos e jogado de um lado para outro por eles, ele se liberta das formas e imagens pertencentes ao mundo da manifestação.

O espírito, isto é, o fio da alma ou o nous, tendo recuperado a Luz do Princípio, torna-se criador e, portanto, portador de germes de Vida. A renovação pela Iniciação ocorre no segredo da metanoia, que inicia a transformação gradual das trevas em Luz e de morte em vida. A passagem do obscuro para o luminoso significa a mutação ontológica que vai do múltiplo à Unidade. Assim, a nostalgia da Luz, experimentada naturalmente pelo homem, expressa uma tendência à Unidade, fonte de estabilidade, e o filho da Luz, o puer aeternus, apresenta-se como uma eclosão da Unidade.

Quando o embrião de Luz toma forma nele, o homem descobre seu tesouro de Luz, um pouco como um sol, e ele agora entende a correspondência entre esse sol exterior ou melhor, o Delta Luminoso, e seu sol interior ou a Estrela Flamejante. Um e outro iluminam sem privilegiar. O espaço que eles iluminam nunca é possessivo, daí a dimensão cósmica do homem que se tornou luminoso. Assim, a Luz é a herança do homem que ainda vive no tempo, enquanto se encontra fora do tempo, da maneira que se pode viver no mundo sem ser do mundo.

Todas as tradições, sejam do Oriente ou do Ocidente, fazem alusão, em diferentes linguagens, à busca recíproca da Luz divina e da luz humana. As religiões permanecem focadas na plenitude da luz, na medida em que tentam manter seu momento inicial, mas isso sempre é sobrecarregado por desvios inevitáveis.  Agora, apenas o homem que atingiu a plenitude da era espiritual se torna capaz de estimar os diferentes caminhos, porque se trancar em uma fortaleza fechada só convém aos fracos e pusilânimes. Esta é a razão pela qual, quem estava nas trevas e desejava a Luz, tornou-se maçom. De fato, a verdadeira iniciação, conforme praticada durante o Ritual do REAA, permite satisfazer esse desejo.

Durante a Sessão, o Templo Maçônico, ao mesmo tempo que a Loja, é primeiro sacralizado e transformado em um espaço ritual. Para se tornar seu Centro físico e simbólico, o Painel da Loja deve ser ativado por meio de um Ritual que lhe comunique uma alma e o carregue, de acordo com a mesma lógica que a da abertura dos painéis do retábulo durante um ofício religioso. A partir daí, a imagem é efetivada por meio de uma cosmogonia, uma verdadeira recriação do mundo, mobilizando gestos, silêncio, palavras e … a Luz. Durante sua Iniciação, o Maçom se torna filho da Luz, porque a Luz cria o Maçom como ela criou o Universo. Princípio ativo da Criação, energia infundida no Caos pelo Espírito, a Luz sacraliza o espaço do Painel, portanto, o espaço e o tempo do Templo e da Sessão. Assim, ela própria sacralizada pelo Ritual de Abertura da Loja, emoldurada de Luz e espiritualizada pelas estrelas nos três Pilares cuja iluminação corresponde a um novo Fiat Lux, o Painel espiritualiza, por sua vez, o espaço do Templo, razão pela qual o traçado do Painel não exige nenhum comentário!

A divisa de nosso Rito não é “Ordo ab Chao”? Ela se refere-se à iniciação, à “iluminação”, uma vez que é a vibração original do Fiat Lux que determina o início do processo cosmogônico pelo qual o “caos” será ordenado a se tornará o “cosmos”. As trevas sempre representam, no simbolismo tradicional, o estado de potencialidades não desenvolvidas que constituem o “caos” [3]. A luz está, portanto, bem “depois das trevas”, e isso não apenas do ponto de vista “macrocósmico”, mas também do ponto de vista “microcósmico”, que é o da iniciação, pois, nesse sentido, as trevas representam o mundo profano, de onde vem o recipiendário, ou o estado profano em que ele se encontra primeiro, até o momento exato em que será iniciado “recebendo a Luz”. Pela iniciação, o ser passa, portanto, “das trevas à luz”, como o mundo, em sua origem, passou pelo ato do Verbo criador e ordenador. Assim, a iniciação é verdadeiramente, de acordo com uma característica muito geral dos ritos tradicionais, uma imagem do “que foi feito no começo”.

Nesse sentido, se olharmos em Gênesis I, 1-4, lemos:

“No começo, Elohim criou os céus e a terra. E a terra estava sem forma e vazia, e as trevas sobre um abismo. E o sopro de Elohim pairava sobre a face das águas. Elohim diz: que haja luz! e a luz se fez. Elohim viu a luz: que boa! e Elohim separou a luz das trevas. “

A primeira palavra criadora é “que haja luz”. A vontade original do Criador se relaciona à Luz. A cada criação, “Elohim via que aquilo era bom”, com a diferença de que no primeiro dia é a própria luz que é contemplada e declarada boa. A maravilha divina expressa na exclamação “Elohim viu a luz: que boa!” sublinha a ausência de uma função atribuída à luz. Ela nada produz. Elohim a contempla e a declara boa.  De onde vem ela? Nós o ignoramos. Sabemos apenas que é considerada boa pelo Criador. Podemos considerar, por esse fato, a primeira palavra divina como uma fórmula perfeita de criação. Palavra e criação estão intimamente ligadas nesta primeira fórmula criadora. A proximidade entre a palavra e a existência da luz é tão completa que esta é considerada boa. Do 2º ao 6º dia, “Elohim viu que era bom”, mas o ser criado não é explicitamente nomeado como o sujeito desse julgamento.  No final de 6º dia, “Elohim viu tudo o que havia feito e eis que era muito bom” [4]. Mas no primeiro dia “Elohim viu a luz: que boa!” No Sepher Ha”meq Dabar, comentário sobre Gênesis I, 4, nos é dito: “Em toda criatura, podemos encontrar um elemento, por menor que seja, que não é bom.  Da luz, no entanto, que é absolutamente boa, se diz em nosso texto “que boa”. Não está escrito: “que ela é boa”, porque a expressão “que boa” conota uma qualidade superior àquela expressa no julgamento: “que ela é boa”. Então esse é o ternário do começo: o Criador, o mundo sombrio e caótico e a Luz.

Por outro lado, o cosmos, enquanto “ordem” ou conjunto ordenado de possibilidades, não é apenas extraído do “caos” enquanto estado “não ordenado”, mas ele também é produzido propriamente a partir deste (ab Chao), onde essas mesmas possibilidades estão contidas no estado potencial e “indistinto” e que é assim o ponto de partida “substancial” para a manifestação deste mundo, como o Fiat Lux o é, por sua vez, o ponto de partida “essencial”. De maneira semelhante, o estado de ser anterior à Iniciação constitui a substância “indistinta ou pedra bruta” de tudo o que poderá se tornar efetivamente depois. Mas a Iniciação não pode ter o efeito de introduzir nele possibilidades que não estariam lá em primeiro lugar (e, além disso, essa é a razão de ser das qualificações exigidas como pré-requisito). Mas, essas possibilidades, quando existem, ainda são encontradas apenas no estado “caótico e tenebroso” ou thohû vabohû do Gênesis, e é preciso “iluminação”, ou seja, Iniciação efetiva, para que eles possam começar a se ordenar e, da mesma forma, passar de potência ao ato. De fato, deve ser claramente entendido que essa passagem não ocorre instantaneamente, mas continua durante todo o trabalho iniciático. É o trabalho interior que vem após a iniciação virtual que diz respeito propriamente à iniciação efetiva, que está, em suma, em todos os seus graus, o desenvolvimento “em ato” das possibilidades às quais a iniciação virtual dá acesso. Essa iniciação virtual é, portanto, a iniciação entendida no sentido mais estrito da palavra, ou seja, como uma “entrada” ou um “começo”.

A iniciação é essencialmente uma transmissão de uma influência espiritual, porque é ela que constitui essencialmente a iniciação no sentido estrito.

É precisamente “porque eu estava nas trevas e desejava a Luz”, que me tornei maçom.

Autor: Joseph Blanc Neveu 
Traduzido por: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

Notas

[1] – Henry Corbin, Da Filosofia Profética no Islã Shiita, em Eranos Jahrbuch, 1962, Zurique, 1963, pp.50-51.

[2] – Jean-Michel Pla

[3] – René Guénon, Le Règne de la Quantité et les Signes des Temps, ch. III.

[4] – Gênesis I, 31.

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Pérolas em lojas maçônicas

“A única coisa a fazer com os bons conselhos é passá-los a outros; pois nunca têm utilidade para nós próprios” (Oscar Wilde).

As pérolas têm origem biológica e são produzidas por alguns moluscos, as ostras e mexilhões, em reação a corpos estranhos que invadem os seus organismos, como vermes ou grãos de areia, provocando um tipo de irritação e, ao defender-se do intruso, segregam uma substância branca, brilhante e rica em calcário, o nácar ou madrepérola, que ataca esse agente, cristalizando-se rapidamente, dando origem a um material geralmente esférico.

Apreciadas desde a Antiguidade, com referências que datam de cerca de 2000 anos a.C., simbolizam a pureza e a beleza. Há registros de que durante a Idade Média, nos séculos XIII e XIV, o uso de pérolas era restrito, em muitos países europeus, à aristocracia por força de lei, como símbolo de poder e de riqueza, sendo usadas como adorno nas mais valiosas joias da época.

Variadas são as interpretações simbólicas sobre o processo de formação das pérolas, notadamente quando vistas como o resultado de um processo de cura decorrente de um sofrimento doloroso. Ensina Rubem Alves que “ostra feliz não faz pérola”. Segundo esse autor, “isso é verdade para as ostras e é verdade para o ser humano”.

A presente reflexão derivou-se do conselho de um provecto irmão que se diz calejado e não se surpreende mais com o inusitado. Segundo ele, conforme a situação da Loja, é melhor não argumentar quando a gestão do momento não se abre nem sequer se mobiliza para o incremento dos conhecimentos ou incentivo aos debates e integração, limitando-se a inibir manifestações nesse sentido e a focar apenas na ritualística, às vezes alterando-a a seu bel-prazer, muitas vezes sôfrega e claudicante.

“É como lançar pérolas aos porcos”, afirma ele, “não devemos gastar nosso tempo em produzir trabalhos que causarão mais desconforto do que satisfação, pois não estão ainda prontos para ouvir e debater”, e arremata: “pode ser que na próxima administração tenhamos espaço para contribuições”.

Em Mateus 7,6 Jesus alerta:

“Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem.”

Na alegoria bíblica, porcos e cães eram associados à impureza e ao perigo. No contexto bíblico, a referência envolvia pessoas resistentes ao evangelho que lhes era pregado. Assim, jogar uma pérola ao porco poderia ofendê-lo como se tivesse sido atingido por uma pedra. O gesto de dar pérolas aos porcos pode significar gastar o que temos de precioso com quem não aprecia ou recusa nossa ajuda.

Conforme ensinam nossas instruções, em Loja devemos ser sempre participativos, focados e dedicados aos estudos e aos projetos e atividades sociais aprovados pelos obreiros. Porém, em determinados momentos nossos esforços podem causar mais incômodo do que benefícios, quando a direção da Loja não se orienta pelo trabalho em equipe, não entrega valor aos membros da Loja, interdita ideias e as decisões ficam sempre restritas ao gestor principal, que exclui os demais por deficiências nas habilidades de condução dos trabalhos.

Alguns dirigentes, por insegurança, partem da premissa de que os irmãos mais experientes representam ameaça à sua gestão e tremem diante de seus prestígios e reconhecimentos no meio maçônico, chegando, em determinadas situações, a simular uma pretensa superioridade intelectual e sugerir que os mesmos se recolham, “cada um, às suas próprias insignificâncias ou que forneçam orientações prudentes, da qual se acham donos, para que não sejam criticados”, conforme mensagem direcionada a velhos mestres de uma determinada Oficina longínqua. É cediço que, quando a Coluna da Sabedoria abdica de suas atribuições, abre-se espaço para a intolerância e rupturas.

Gestores com esse perfil procuram apenas e tão-somente desfrutar do prestígio do cargo e a exercer naturalmente o autoritarismo, fomentando a desconfiança, a desagregação, em especial o conflito entre gerações, por acreditarem que os mais velhos, alguns referenciados por eles como “decorebas” de rituais e de poemas, são vazios de conhecimento e sabedoria e não têm mais como contribuir e os mais jovens nada com eles a aprender e muito a ensinar-lhes. E pasmem, a depender do perfil de um candidato em especial, atrevem-se a insinuar que a Loja não tem Mestres com estofo suficiente para orientar aquele “tal” de currículo supremo e lustroso que, já deveria, de plano, ser Iniciado, Elevado, Exaltado e quem sabe, conduzido ao Veneralato!

Em muitas situações, esses gestores demonstram favoritismos, impõem suas decisões sem discussão em Loja e promovem o cancelamento dos que porventura representem alguma ameaça. Nesse sentido, merece destaque um depoimento colhido em uma reunião de estudos por videoconferência onde a venerabilidade teria se regozijado, em evento social, de que teria tido sucesso em silenciar algumas estrelas da Loja por ele consideradas decadentes. E é essa postura desafiadora que os acalentam. Normalmente, não zelam pela harmonia, pelo diálogo e pela construção, e sentem certa atração pelo caos, olvidando que o bom legado de cada gestão é que dá sustentação para a caminhada dos obreiros e o fortalecimento da Oficina.

Nesse cenário burlesco, não faltam os que sempre aplaudem e compõem um grupo exclusivo de aduladores, incentivadores desse tipo de comportamento, que outro irmão irreverente e certeiro nas curtas mensagens classifica de “babaovistas” (derivado do pejorativo baba-ovo), atributo dos bajuladores contumazes. Isso para não falar daqueles que, por conveniência ou pusilanimidade mesmo, mantêm-se “em cima do muro” ou só querem receber paparicos. Esses, respaldando-nos na lição de Rubem Alves, não sofrem e não produzem pérolas.

Para ilustrar, citamos o exemplo de uma manifestação em um grupo de conversas de uma hipotética Loja de Oriente distante, quando o Venerável, resistente aos avanços tecnológicos, pouco afeito à liturgia do cargo e usuário do malhete como porrete, afirmou que não haveria reunião por videoconferência durante sua gestão: “Perfeeeiiito! Concordo plenamente com o nosso poderosíssimo e amantíssimo Venerável”, postou em áudio um irmão chegado a superlativos. Outro apoiador sentenciou: “comentários a respeito de instruções maçônicas somente em sessão ritualística, fora disso é uma excrescência”. Seguiu-se silêncio obsequioso, observando-se a conveniente prudência, segundo a fonte.

Prossegue o desabafo. Um “iluminado conselheiro para as Lojas dos outros”, teria ainda perguntado: “mas os demais não fazem nada, acatam simplesmente?” Redarguiu o irmão: “quem tenta argumentar leva pancada de bate-pronto e é tachado de pavão e convidado a recolher as plumas, com o lembrete de que a porta da rua é serventia da casa, além de outros devaneios, recados tortos e ironias, estas notadamente dirigidas aos associados de Lions, Shriners ou aos que chegaram ao topo da pirâmide. Então é melhor ser paciente e exercitar a tolerância, pois essa gestão passará logo e, pelo visto, deixará um histórico de desacertos, mágoas e baixas no quadro de obreiros!”. Nesse contexto, nunca se mostrou tão consistente a frase indevidamente atribuída a Abraham Lincoln: “Quer conhecer o caráter de uma pessoa? Dê-lhe poder!”. Mutatis mutandis, in casu, um malhete.

Mas, questiona-se: é isso mesmo? Dúvida de um jovem e perplexo Aprendiz:

“Existe um balcão de reclamações na Maçonaria? De preferência anônimo, para evitarem-se eventuais constrangimentos e não atrasar ainda mais a minha Elevação? [no caso foi utilizada a linguagem dos videogames: ‘passagem de fase’].”

Sabe-se que nos bastidores dessa improvável Loja o assunto continuaria rendendo, ao amparo do “truquezinho do entre colunas”. Dizem que chegou a ser cogitada uma DR até o fim da gestão, da qual não se tem notícias.

Se o irmão teve perseverança para ler até aqui e não se lembrou de nenhuma situação semelhante (Glória a Deus!), que fique bem claro que esta prancha não tem endereço específico e nem pretende dar conselhos ou dizer o que os componentes dessa ou de outras Lojas devam fazer em tais situações, caso venham a ocorrer, o que não acreditamos. As Lojas são autônomas quanto à gestão. Por outro lado, cautelarmente, qualquer eventual semelhança com a realidade, como sempre, terá sido mera coincidência mesmo. A proposta é apenas a de suscitar reflexões. Quem sabe dar origem a uma nova e valiosa pérola.

Enfim, na condição de maçons, o exemplo que precisamos ter sempre em nossos corações são as palavras de Tertuliano (c.160 – c.220) a respeito dos primeiros Cristãos, onde o afeto fraterno chamava a atenção dos pagãos, que assim a eles se referiam: “vejam como eles se amam entre eles” (Vide, inquint, ut invicem se diligant).  

“Uma palavra escrita é semelhante a uma pérola.” (Goethe)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da Loja Maçônica Águia das Alterosas Nº 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte; Membro Academia Mineira Maçônica de Letras e da Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras; Membro da Loja Maçônica de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda; Membro Correspondente Fundador da ARLS Virtual Luz e Conhecimento Nº 103 – GLEPA, Oriente de Belém; Membro Correspondente da ARLS Virtual Lux in Tenebris Nº 47 – GLOMARON, Oriente de Porto Velho; colaborador do Blog “O Ponto Dentro do Círculo”.

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Para que nos reunimos aqui?

Logo no início dos trabalhos de Aprendiz Maçom, o Venerável Mestre, ao indagar o 1º Vigilante sobre os motivos da realização da reunião, tem como resposta:

“Para combater a tirania, a ignorância, os preconceitos e os erros, e glorificar o Direito, a Justiça e a Verdade, para promover o bem-estar da Pátria e da Humanidade, levantando Templos á virtude e cavando masmorras ao vício.”

Apesar do assunto ser bem trabalhado na sessão de Iniciação, a intensidade da cerimônia talvez não atraia a atenção necessária. Lado outro, talvez tal resposta seja uma das mais importantes para a vida do maçom. Muitas vezes, afetado pelos problemas do dia a dia, o maçom pode se indagar: por que continuo maçom? Para que serve mesmo a reunião? 

A resposta está no próprio ritual e é repetida, reiteradamente, toda reunião.

Necessário nos aprofundarmos sempre no ensinamento ali contido:

“(…) combater a tirania, a ignorância, os preconceitos e os erros (…)”

Vejam meus irmãos que a ideia aqui é mostrar ao maçom que ele deve sempre preservar o livre pensamento da pessoa humana, preservando-o das adversidades do mundo profano. Se volvermos nossos olhos à época de fundação das primeiras lojas maçônicas e da edição de nossos landmarks, constataremos que toda a doutrina maçônica se baseia no ideal iluminista, que tinha como pensadores pessoas como Descartes, Adam Smith, Diderot e Montesquieu, entre outros. O movimento iluminista que serve como pano de fundo para a maioria das revoluções do século XVIII, como a Revolução Francesa, a Revolução Americana e até mesmo a nossa Inconfidência Mineira (uma tentativa frustrada de revolução).

Tal doutrina tem como elemento principal o direito de o cidadão viver e agir de maneira digna, reduzindo, sensivelmente, o poder do Estado sobre o indivíduo. A partir daí, valorizam o pensamento racional (e daí o direito de questionar até mesmo o Estado), os direitos naturais (que nascem com ele) e a crítica a governos autoritários, com ampla liberdade política, econômica e religiosa.

A ideia do maçom de se combater os tiranos é exatamente de evitar render louvores a posições autoritárias, com supressão pelo Estado de direitos individuais do cidadão. O ritual vai além e exige do maçom que ele não se renda aos preconceitos e à ignorância, ou seja, que lute contra o posicionamento típico daqueles que levam o pensamento dogmático (muitas vezes nutridos por uma religiosidade sem questionamento), literalmente.

Não cabe ao maçom apenas cumprir sem questionar! O maçom é um pensador na essência e, como tal, tem a obrigação de questionar.

Propagar ignorância (ausência de estudo sobre um determinado termo) ou preconceito (opinião desprovida de um mínimo de pensamento crítico), é vedado ao maçom. Necessário um especial cuidado!

Mas daí poderíamos pensar: Ora, então cabe ao maçom desrespeitar deliberadamente as autoridades? Não é esse o ideal maçônico…

O ritual diz:

“(…) glorificar o Direito, a Justiça e a Verdade, para promover o bem-estar da Pátria e da Humanidade, levantando Templos á virtude e cavando masmorras ao vício(…)”

A primeira parte de tal frase chama a atenção por usar os termos Direito, Justiça e Verdade em letra maiúscula. O uso do termo “Direito” com letra maiúscula é a consagração da “ciência do Direito”. Se partirmos do princípio de que o REAA é originalmente em inglês, a palavra original seria o termo “law” e não “right”. Por força do nosso idioma, o termo Direito (como ciência) e direito (certo, correto) são palavras homônimas, mas não são sinônimas. O uso da palavra varia conforme o significado.

Quando o ritual opta pelo Direito como ciência, diz que cabe ao maçom respeitar a ciência do Direito, aí incluindo, especialmente, nossa Constituição Federal (norma máxima e base do Estado Democrático de Direito). O respeito à Constituição pressupõe o respeito às autoridades constituídas.

Ou seja, cabe ao maçom questionar racionalmente, mas jamais propor o desrespeito às leis; jamais propagando a desobediência civil.

E o ritual continua pregando o respeito da Justiça e da Verdade. Aqui, uma vez mais, o termo Justiça não advém da noção de “justo ou injusto”, noção totalmente individual. O que é justo para mim pode não ser para o meu irmão e vice-versa.

A noção de Justiça que o ritual traz, interpreto como sendo a autoridade judiciária; ou seja, respeito àquele a quem a nossa Constituição dota o poder de “dizer o Direito”, o que a doutrina jurídica chama de jurisdição. Assim, nossos juízes são as pessoas a quem a Constituição deu o poder para definir o que é justo ou injusto, dentro dos limites da própria Constituição.

A noção de Verdade talvez seja um dos principais deveres do maçom, especialmente em época em que o ser humano tem acesso infinito à informação (de todos os tipos), com o uso do sistema mundial de computadores. Nosso ritual exige que apenas propaguemos a verdade. Devemos ter noção de saber muito bem diferenciar a opinião (livre convicção do indivíduo) do que é fato (verdade indiscutível).

Em época das malfadadas “Fake News”, o maçom deve ser um catalisador de informações, tendo o dever de apenas passar à frente aquilo que seja fato e de desmentir o que seja falso! É nosso dever saber e propagar o que é verídico! Apenas com a estrita observância de nossos ensinamentos é que sairemos de casa com a justa consciência do objetivo de nossas reuniões, lembrando que, se nos desvirtuarmos de nosso objetivo, nos desvirtuaremos como maçons.

Autor: Fernando Ramos Bernardes Dias

*Fernando é ex-Venerável Mestre da ARLS Renovação e Progresso, nº 250, do oriente de Patrocínio, jurisdicionada à GLMMG.

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A caminhada do maçom

Sei que minha caminhada tem um destino e um sentido, por isto devo medir meus passos, devo prestar atenção no que faço e no que fazem os que por mim também passam ou pelos quais passo eu… 

Que eu não me iluda com o ânimo e o vigor dos primeiros trechos, porque chegará o dia em que os pés não terão tanta força e se ferirão no caminho, cansando-se mais cedo… Todavia, quando o cansaço houver chegado, que eu não desespere e acredite que ainda terei forças para continuar, principalmente, quando houver quem me auxilie… 

É oportuno que em meus sorrisos eu me lembre de que existem os que choram e, assim, que meu sorriso não ofenda os que sofrem. Por outro lado, quando chegar a minha vez de chorar, que eu não me deixe dominar pela desesperança, mas que eu entenda o sentido do sofrimento que me nivela, que me iguala, que torna todos os homens iguais… 

Bota nos pés e chapéu na cabeça e, assim não temer o vento e o frio, a chuva e o tempo, que não me considere melhor do que aqueles que ficarão para trás, porque pode vir o dia em que nada mais terei para a jornada e aqueles que ultrapassei na caminhada me alcançarão e poderão, como eu fiz, nada de fato fazerem por mim, que ficarei no caminho sem concluí-lo… 

Quando o dia brilhar que eu tenha vontade de ver a noite em que a caminhada será mais fácil e amena, porém quando for noite e a escuridão tornar mais difícil à chegada, que eu saiba esperar o dia como a aurora o espera, que eu saiba esperar o calor como Bênção… 

Que eu perceba que sozinho a caminhada pode ser mais rápida, mas que é mais vazia… 

Quando eu tiver sede que encontre a fonte no caminho e quando me perder que eu ache a indicação, o sentido… 

Que eu não siga os que se desviam. Mas, principalmente, que ninguém se desvie seguindo os meus passos… 

Que a pressa em chegar não me afaste da alegria de ver as flores à beira do caminho, que eu não perturbe a caminhada de ninguém, e que perceba, que se seguir faz bem, às vezes é preciso ter-se a bravura de voltar atrás e recomeçar e tomar outra direção… 

Que eu não caminhe sem rumo, que eu não me perca nas encruzilhadas, tampouco não tema os que assaltam e os que embuçam, mas que eu vá aonde devo ir. E, se eu cair no meio do caminho, que fique a lembrança de minha queda para impedir que outros caiam no mesmo abismo… 

Que eu chegue sim, mas ainda mais importante é que eu faça chegar quem me perguntar, me pedir conselho e, acima de tudo, que continuem a me seguir, apoiando em mim, porque Maçom, meus irmãos como tal me reconhecem.

Autor: Geraldo M. de Castro

Fonte: JB News – Informativo nº 183 – 26/02/2011

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O maçom e o conflito

O conflito faz parte das nossas vidas. Quer queiramos, quer não. Existem interesses divergentes, quantas vezes inconciliáveis. Quando tal sucede, várias formas de lidar com o assunto existem: a força, a imposição de poder, a desistência, a conciliação, a cooperação, a hierarquização, etc.

Os maçons também vivem e estão sujeitos a conflitos. Tanto como qualquer outra pessoa vivendo em sociedade.

Mas os maçons aprendem a lidar melhor com o conflito. Desde logo, porque aprendem, interiorizam e procuram praticar a Tolerância. Esta postura não elimina, obviamente, os conflitos, nem leva quem a pratica a deles fugir, ou a ceder para os evitar. Pelo contrário, ensina e possibilita a melhor gerir o conflito. E melhor gerir um conflito não é procurar ganhar a todo o custo. Melhor gerir um conflito consiste em detectar e obter a melhor solução possível para ele. Por vezes, “vencer” o conflito pode parecer a melhor solução no curto prazo, mas revelar-se desastrosa depois.

O maçom aprende a gerir o conflito, desde logo treinando-se a fazer algo que, sendo básico, é muitas vezes esquecido: ouvir! Ouvir o outro, as suas razões, pretensões. Ouvir o outro não é apenas deixá-lo falar. É prestar efetivamente atenção ao que diz e como o diz. Para procurar determinar porque o diz e para que o diz. E assim lobrigar exatamente em que medida existe realmente conflito de interesses entre si e o outro – ou se existe apenas uma aparência de conflito de interesses, por deficiente entendimento, de uma ou das duas partes, de propósitos, intenções, objetivos.

Ouvir o outro é o primeiro exercício prático da Tolerância, da verdadeira Tolerância. Porque esta não é o ato de, condescendentemente, admitir que o outro tenha uma posição diferente da nossa e permitirmos-lhe, “generosamente”, que a tenha. A verdadeira Tolerância não é um ponto de chegada – é uma base de partida. A verdadeira Tolerância resulta do pressuposto filosófico de que ninguém está imune ao erro. Nem nós – por maioria de razão. Portanto, tolerar a opinião do outro, a exposição do seu interesse, porventura conflituais com a nossa opinião e o nosso interesse, não é um ato de generosidade, de condescendente superioridade. É a consequência da nossa consciência da Igualdade, fundamental entre nós e o outro. Que implica o inevitável corolário de que, sendo diferentes as opiniões, se alguém está errado, tanto pode ser o outro como podemos ser nós. A Tolerância não é um ponto de chegada – é uma base de partida. Não é demais repeti-lo.

Porque a consciência disto possibilita a primeira ferramenta para a gestão do conflito: a disponibilidade para cooperar com o outro, para determinar (1) se existe verdadeiramente divergência entre ambos; (2) existindo, qual é ela, precisamente; (3) em que medida é essa divergência, superável, total ou parcialmente; (4) ocorrendo superação parcial da divergência, se o conflito se mantém e, mantendo-se, se conserva a mesma gravidade; (5) finalmente, em que medida é possível harmonizar os interesses conflituantes: cada um abdicando de parte do seu interesse inicial? Garantindo ambos os interesses, seja em tempos diferentes, seja em planos diversos?

Treinando-se na prática da Tolerância, o maçom aprende a lidar melhor com o conflito, porque é capaz de, em primeiro lugar, determinar se existe mesmo conflito, em segundo lugar predispõe-se para cooperar na superação do conflito e finalmente adquire a consciência de que existem várias, e por vezes insuspeitas, formas de superar, controlar, diminuir, resolver, conflitos – quantas vezes logrando-se garantir o essencial dos interesses inicialmente em confronto.

E tudo, afinal, começa por saber ouvir e por saber tolerar (o que implica entender) a posição do outro.

Por isso o primeiro exercício que é exigido ao maçom é a prática do silêncio. Para que aprenda a ouvir, para que se aperceba do que realmente é dito, para que reflita sobre a melhor forma de resolver os problemas que ouça expostos.

Através do silêncio, aprende o maçom a sair de si e a atender ao Outro. Através da Tolerância da posição do Outro, aprende o maçom a descobrir a forma de harmonizá-la com a sua. Através da busca da Harmonia, aprende o maçom a gerir os conflitos. Através da gestão dos conflitos, torna-se o maçom melhor, mais eficiente, mais bem sucedido.

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Os que ficam pelo caminho

“Nem todos os Aprendizes chegam a Companheiros. Nem todos os Companheiros ascendem a Mestres. E seguramente que nem todos os Mestres virão a exercer o ofício de Venerável Mestre. É assim a realidade!” 

Assim escreveu o Rui Bandeira num texto publicado em 2008, ainda não tinha eu recebido o meu avental branco. Na altura, quando o li, achei estranho o tom, a naturalidade, e o que tomei por critérios de seleção apertadíssimos. Recordo-me de ter pensado algo como 

“Estes tipos não brincam em serviço… Devem ser bestialmente exigentes, e só escolhem os melhores para progredir… Isto devem ser chumbos de três em pipa…”

Estava tão enganado!

Com o tempo vim a perceber que dificilmente a Loja “chumbava” fosse quem fosse, a não ser nas circunstâncias mais excepcionais, mas que, não obstante, o Rui tinha razão: havia muitos que ficavam pelo caminho.

Mas, se a Loja não chumbava ou impedia a progressão, quem o fazia então? Ora… o próprio, quem mais?! 

Comecei a perceber que por detrás de cada nome que era chamado no início da sessão pelo Secretário e a que se seguia um silêncio em vez de ser anunciada a presença se encontrava um Irmão que não viera. E que os nomes que eu ouvia repetidamente e a que não associava uma cara eram de Irmãos que, de todo, não apareciam.

Uns – já Mestres – haviam-se desencantado, suponho, com a rotina da vida da Loja e tinham, agora, outros entreténs – razão por que não punham os pés numa Sessão fazia tempo. Outros tinham, simplesmente, prioridades – frequentemente profissionais ou familiares – que se impunham sobre a presença em Loja, ou não tinham de todo disponibilidade para integrar a Linha de Sucessão assumindo um Ofício. Uns e outros lá iam aparecendo, uns mais e outros menos frequentemente, mas alguns desapareciam completamente de circulação.

A outros – ainda Companheiros – sucedia perderem o estímulo, ou não aguentarem tanto tempo sem poder falar e sem ser exaltados a Mestre. Ao fim de um tempo, também alguns destes começavam a faltar, a envolver-se pouco, e a certa altura eram, também eles, um desses nomes que se ouve e se associa a uma cara, mas que se tem uma certa nostalgia de não ver há meses…

Por fim, alguns Aprendizes eram iniciados, achavam graça à coisa, mas não tinham vida nem disponibilidade para pertencer a uma Loja que se reúne duas vezes por mês em dias e horas certos. Outros, quiçá mal conduzidos ou defeituosamente escrutinados, acabavam por se aperceber que a Maçonaria não lhes fazia vibrar corda nenhuma, e desapareciam.

Alguns interiorizavam que não queriam mais pertencer à Maçonaria, e pediam para sair. Outros, divididos entre o querer e o não poder, não assumiam a impossibilidade de permanecer, e iam ficando sem ficar. A certa altura, já nem as quotas pagavam, nem asseguravam os “mínimos olímpicos” da assiduidade – nós nem somos esquisitos: uma presença por ano basta-nos – e tinha que se lhes chamar a atenção para que cumprissem com os seus deveres.

E de fato confirmei ser precisamente assim, como o Rui tinha dito: há os que ficam pelo caminho, e os que vão progredindo de degrau em degrau, uns mais depressa e outros mais lentamente. Por vezes, alguns metem-se por becos sem saída e, ou adormecem, ou corrigem o percurso. Mas se é sempre triste vermos um irmão sentar-se na beira do caminho, descalçar as botas e adormecer encostado a uma árvore – pois sabemos que a maioria ficará ali para sempre – já nos enche de orgulho ver um irmão subir mais um degrau, assumir mais uma responsabilidade, receber mais um reconhecimento.

Os caminhos são muitos, e o destino é cada um que o escolhe. Não é, portanto, a Loja que é exigente e o “chumba” – pois para isso teria que ser a Loja a determinar os objetivos, e estes pertencem a cada um. É antes o Maçom que é muito ocupado, desiludido, ou simplesmente complacente, e se retira pelo seu pé. E assim deve ser. É que a Maçonaria não é para todos: é só para aqueles que de fato queiram – e façam por isso.

Autor: Paulo M.

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Não se chega muito longe sem uma tribo

Numa galáxia muito, muito distante…

… a ficha de um ex-caçador de recompensas um dia cai!

Pois bem, Sr. Boba Fett.

A sociabilidade sempre fez parte da natureza.

Como disse Aristóteles, a característica específica do homem em comparação com os outros animais é que somente ele tem o sentimento do bem e do mal, do justo e do injusto e de outras qualidades morais, e é a comunidade de seres com tal sentimento que constitui a família e a cidade.” (Política, I, 1253b, 15).

O individualismo pode impor réguas de sucesso e de felicidade. Mas sempre haverá quem questione os limites da ilusão.

É vital não confundir o individualismo materialista com a individuação do sujeito, o processo de se tornar um indivíduo psicológico, uma unidade autônoma, atingir a forma da sua unicidade mais íntima, como ensina Carl Jung, pai da psicologia profunda.

Pelas iniciações sucessivas, o Iniciado mergulha ao interior de si mesmo, de sua pedra bruta, numa rota cada vez mais atômica, visando aperfeiçoamento pessoal.

O Buscador almeja ser ponto.

Mas, pelo agrupamento associativo, o buscador almeja compartilhar saberes e experiências. Isso potencializa seu esforço em sabedoria para romper as fronteiras das dualidades ilusórias impostas. Sua percepção expande em ciclos, rumo ao infinito.

O buscador almeja também ser círculo.

Tudo é símbolo. E sábio é quem lê em tudo, como cunhou Plotino.

E o primeiro dever de todo Iniciado é apurar a interpretação do simbólico. Nesta senda, tal como a beleza da mandala, o Iniciado, em sua jornada, também é um ponto dentro do círculo.

Nessa curiosa correlação, a constatação de Boba Fett, na aridez do deserto de Tatooine[1], confirma o “animal social” proposto por Aristóteles: “não se chega muito longe sem uma tribo”. Descubra a sua.

Autor: Luciano Alves

* Luciano é Mestre Maçom da ARLS Jacques DeMolay n.º 22, do oriente de Belo Horizonte e jurisdicionada à Grande Loja Maçônica de Minas Gerais.

Nota

[1]O Livro de Boba Fett. Criação de Jon Favreau. Estados Unidos, 2021.  45min.  Série exibida pela Disney+. Temporada 1, episódio 4. Acesso em: 26/01/2022.

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Homo homini lupus

Lectures Bureau | ” Homo homini lupus”, man is a wolf to another man (A.  SCHOPENHAUER)

A organização social das alcateias tem vindo a ser extensivamente estudada desde os anos 60 do século passado por L. David Mech, que começou pela observação do comportamento de várias alcateias que se haviam constituído em cativeiro a partir de indivíduos dispersos – reproduzindo o entendimento que se tinha, de que estes se reuniriam para, juntos, fazerem frente aos desafios trazidos pelo Inverno. 

A hipótese inicial a que as observações levaram este cientista foi a de que os lobos se organizariam em torno de um “macho alfa”, mais forte, que exigia acesso preferencial à comida e às fêmeas, por exemplo, mas também a locais de abrigo ou certos papéis nas atividades do grupo. Esta hipótese do “macho alfa” explicava o comportamento verificado, de constantes lutas entre machos no sentido da dominância de uns indivíduos sobre os demais.

Mais de trinta anos depois, Mech apercebeu-se de um erro que derrubava impiedosamente as suas conclusões: o que tomara por alcateias típicas não passava de agregados disfuncionais de indivíduos não relacionados entre si, o que raramente se encontrava na natureza. As verdadeiras alcateias eram constituídas por um casal reprodutor e pelos filhos mais novos – das ninhadas dos dois ou três anos anteriores. Nestes grupos não havia lutas pelo poder, e reinava a paz e a harmonia. Após confirmação do erro, Mech rejeitou oficialmente as suas conclusões anteriores.

Uma loja maçônica é uma alcateia de indivíduos dispersos, reunidos para fazer frente aos desafios que a vida levanta. Como em qualquer grupo, especialmente quando exclusivamente constituído por machos, a tendência natural é de confrontação e de medição de forças. É precisamente o domínio de si mesmo, no sentido de não deixar prevalecer os aspetos mais vis da natureza humana, que se procura incentivar.

Não é fruto do acaso o fato de os maçons se tratarem uns aos outros por “meu irmão”. O estabelecimento deste “laço familiar” voluntário transforma a nossa visão do outro, trazendo-o de uma esfera em que é um estranho, um outsider, um potencial inimigo, para outra em que é “um dos nossos”.

Não é arbitrária a imposição de que, no momento próprio de cada sessão, cada um possa intervir apenas uma vez sobre determinado assunto; esta limitação impede, na prática, a discussão do tema, sem impedir a exposição da posição de cada um.

Por fim, não é fortuita a rotação dos papéis que cada um vai desempenhando ao longo dos anos, e a recordação constante de que o papel que se desempenha é, acima de tudo, um serviço que se presta,  e nunca um exercício de poder absoluto.

O aforismo segundo o qual “o homem é o lobo do homem” – homo homini lupus – remete-nos para as atrocidades de que o Homem é capaz – e tem demonstrado sê-lo ao longo da História. O potencial destruidor de um homem que se sinta acossado é virtualmente ilimitado.

O propósito último da maçonaria consiste, precisamente, em incentivar-nos a contrariar esta faceta da nossa natureza. O estabelecimento de laços de “fraternidade voluntária” é instrumental nesse sentido. De fato, mesmo correndo o risco de abuso, tratar aqueles que nos rodeiam como se fossem elementos do nosso núcleo familiar é um dos mais eficazes caminhos para a paz desta grande alcateia na qual todos fomos lançados.

Autor: Paulo M.

Fonte: Blog A Partir Pedra

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