O tempo de Companheiro

O tempo de Companheiro é um tempo difícil. O obreiro já não é um Aprendiz rodeado, apoiado, apetece até dizer mimado, por todos os Mestres da Loja. Alcançado o seu aumento de salário, afinal o prémio que obtém é apenas uma mudança do seu lugar na Loja, um pouco de cor no seu avental e… uma sensação de menor apoio.

Após uma Cerimónia de Passagem que é um verdadeiro anticlímax em relação à sua recordação do que experimentou quando foi iniciado, depara-se com um par de símbolos novos, metem-lhe uns regulamentos e um ritual e catecismo na mão e… parece que se desinteressaram dele, ele que se oriente…

Não é assim, embora pareça que seja assim. E é assim que deve ser.

A Iniciação foi o nascimento para a vida maçónica. O tempo de Aprendiz é a sua infância, em que se é guiado, educado, amparado, mimado. O tempo de Companheiro, esse, é o da adolescência. Já não se admite ser tratado como criança – como Aprendiz – pois já se cresceu – já se evoluiu – mas… sente-se a falta do apoio que se recebia em criança. Já não se quer, mas ainda afinal se tem a nostalgia do apoio do tempo de Aprendiz. O Companheiro, tal como o adolescente, sofre a sua crise de crescimento. É o preço que tem a pagar pelo seu trajeto em direção à idade adulta maçónica, em que será reconhecido como Mestre.

No entanto, só aparentemente o Companheiro é deixado só. Os Mestres permanecem atentos a ele e, de entre eles, em especial o Primeiro Vigilante, responsável pelos Companheiros. Simplesmente já não tomam a iniciativa de sugerir caminhos, orientar trabalhos, avançar explicações, dar opiniões. Porque o Companheiro já não é Aprendiz, tal como o adolescente já não é criança. O tempo é de aprendizagem por si próprio, de exploração segundo os seus interesses. E só se houver grande desorientação no caminho se deve intervir. Tal como em relação ao adolescente é contraproducente pretender-se guiá-lo, impor-lhe caminhos, pois ele ou não aceitará o que considerará indesejável intromissão ou tornar-se-á dependente de uma superproteção que muito dificultará a sua vida adulta, também os Mestres não devem abafar o Companheiro com recomendações, intromissões, solicitudes a destempo. O tempo é de o deixar explorar, ele próprio, o que tiver a explorar. Se errar, aprenderá com o erro. Mas, no final, crescerá até à responsável maturidade da Mestria. É o que se pretende.

No início é – sabemo-lo bem! – confuso. Mas afinal as ferramentas foram fornecidas ao Companheiro logo no primeiro dia, tal como o guia de trabalho lhe foi apresentado. O Companheiro só tem de perceber isso, pegar nas ferramentas e seguir o trilho que, desde o início, lhe foi mostrado. Só não foi levado, empurrado, carregado, até ao seu início. Afinal, já não é criança…

A prancha de proficiência culmina o percurso do Companheiro. Mostra que ele entendeu o que escolheu entender, que trabalhou no que optou por trabalhar. A idade adulta está ao virar da esquina. O que implica virar essa esquina já é outra história…

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Buscadores da Verdade…sois mesmo? (Parte III)

4 – Primeiras Considerações

O leitor atento já percebeu que o caminho no sentido à verdade não só é sinuoso como possui armadilhas que podem levar ao retrocesso.

Primeiramente eu quero reforçar a atenção sobre um ponto a partir da sequência da apresentação das ferramentas: a dialética; o silogismo; as quaestio disputata; indução vs dedução; e, método científico. Para discorrer sobre silogismo foi necessário recorrer à dedução (tema só apresentado posteriormente), mas para definir dedução foi necessário recorrer à noção de silogismo … há, pois, uma aparente circularidade. Ademais, as hipóteses, mais exploradas no MC, são partes integrantes do silogismo … Trago essas questões para chamar a atenção que, tal como um maestro, o buscador deve combinar os diferentes instrumentos necessários à harmonia sinfônica que encanta – a verdade.

Algumas das chamadas “ferramentas”, a exemplo das Questões Disputadas (QD), em razão da sua estrutura são, efetivamente e antes de tudo, organizadoras do pensamento, facilitam e promovem o entendimento da realidade; constituem uma efetiva plataforma para voos mais altos. A citação de Haskins, a seguir, oportuniza chamar a atenção para o fato de que as Questões Disputas eram exercitadas no contexto do desenvolvimento das Artes Liberais que, lembre-se, eram obrigatórias e antecediam os estudos mais especializados e avançados. Infelizmente, o que hoje se observa na Maçonaria é que as Artes Liberais não merecem mais do que uma tênue menção, não mais do que, en passant, e distribuídas por entre os Graus simbólicos, tendo-se perdido, completamente, o seu potencial formador, organizador e transformador:

[…] igualmente notável é a grande importância dada à lógica ou a dialética. Os primeiros estatutos das universidades, ou seja, aqueles de Paris em 1215, exigem que se estudem todos os escritos de Aristóteles que versem sobre lógica, um material que durante toda a Idade Média permaneceu como espinha dorsal do curso de artes […] a lógica não era assunto de estudo que tinha importância apenas por si mesmo, mas também permeava todas as outras disciplinas como um método, ao mesmo tempo em que dava à mente medieval um tom e um caráter peculiares. Silogismos, disputas, a disposição ordenada de argumentos a favor e ou contra teses específicas, eis o hábito intelectual da época […] (HASKINS, 2015, p. 48-9).

E não custa lembrar que as observações de Haskins dizem respeito ao ensino do que hoje corresponde ao II Grau, portanto, o nível médio.

Ademais é preciso estar atento, pois se de um lado a dialética tende a vir carregada de juízo de valor, o que não raro embota a apreciação crítica e objetiva, de outro chama a atenção para o fato de que a verdade, de algum modo parece convergir à unidade (senão não seria “a” verdade), a uma síntese que se não for desvelada (pela filosofia natural) deve ser construída (pela filosofia moral) ainda que a partir de contrários aparentes.

Por oportuno, cabe observar que desde a Antiguidade os homens têm estabelecido paralelos entre as verdades apreendidas no mundo natural e as verdades criadas (algumas também na forma de leis) para regular a vida em sociedade. Trata-se de uma indução forçada, pois as primeiras estão sob o domínio e são desveladas pela filosofia natural, enquanto as últimas, produtos da engenharia política e social, estão sob o domínio da filosofia moral. Nay (2007) deixa muito claro a conexão entre os dois domínios:

A nova legislação pretende claramente pôr fim aos conflitos pela realização de um equilíbrio entre as classes e a sociedade ateniense […] transpondo assim, no espaço da cidade, a concepção do universo simétrico difundido no mesmo momento pelos filósofos de Mileto (p. 27).

Adiante, referindo-se a Cícero, esclarece que:

Suas duas obras políticas maiores, De Republica e De Legibus, são fortemente influenciadas pelo pensamento “naturalista” dos estóicos […] Cícero recorda a importância da “lei natural” em política, a necessidade de recorrer à razão e ao conhecimento como instrumentos de governo […] (p. 64).

Finalmente, em apreciação histórica, Yates (1990, p. 490-1) sintetiza:

O séc. XVII é o período criativo da ciência moderna […] a filosofia mecanicista da natureza introduziu a hipótese, e o desenvolvimento da matemática proporcionou um instrumento próprio à primeira vitória decisiva do homem contra a natureza. Pois “todo o magnífico movimento da ciência moderna é essencialmente consistente, e seus posteriores ramos biológico e sociológico adquiriram da mecânica, já vitoriosa, os seus postulados básicos”.

Cumpre esclarecer que essas iniciativas são subprodutos e consequências lógicas da crença (que à época era a melhor resposta, a ciência de então, para as questões em aberto) da existência de dois mundos de algum modo interligados: o micro e o macrocosmo – enquanto primeiro referia aos fenômenos naturais, o segundo possuía elementos sobrenaturais -, e este, de algum modo (a ser descoberto), afetava aquele. Nem sempre devidos, como Marco Aurélio (o imperador filósofo) alertara já na Antiguidade, esses paralelos resistiram até o Renascimento, quando então, pouco a pouco foram ruindo (ROSSI, 1992). Todavia, a emergência da moderna física clássica – a mecânica newtoniana, que deu origem à “filosofia mecanicista” referida por Yates -, deflagrou uma nova onda de paralelos entre a ordem natural e a ordem social. E mais recentemente (início do séc. XX), tanto a Mecânica Quântica quanto a Teoria da Relatividade têm sido instrumentalizadas para fundamentar (ao atribuir status de verdade científica), indevidamente, generalizações que se estendem às construções sociais – aos comportamentos e valores. Baseado na Teoria da Relatividade, por exemplo, tenta-se mesmo fazer crer que “tudo é relativo”! Sobre o tema vale a pena ler “Pura Picaretagem: como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a ciência para te enganar. Saiba como não cair em armadilhas!”, de Bezerra e Orsi (2013).

Parece-me já claro que, se de um lado há ferramentas que auxiliam o buscador da verdade, estas mesmas ferramentas, por desconhecimento ou má fé, podem ser utilizadas para encaminhar no sentido contrário, afastando-nos da verdade, o que ficará ainda mais claro a partir da próxima seção.

5 – Falácias e sofismas

Sobre o tema não me deterei em demasia porque já está desenvolvido em Pinheiro (2021) e com vários exemplos aplicados à Ordem. Ademais, ao leitor interessado em leitura enriquecedora eu sugiro O Sofista (PLATÃO, 2013), e ao mais pragmático, o Guia das Falácias, de Stephen Downes. Entretanto, cumpre ora observar que o tema merece atenção e é relevante porque se coloca como um obstáculo, um dos principais, àquele que busca a verdade, sobretudo nos assuntos do cotidiano, mais próximos aos objetivos da Ordem. Enquanto a falácia é um erro de raciocínio por desconhecimento, o sofisma é grávido de dolo induzido pelo retor. E como a falácia dialoga com as ferramentas apresentadas? Japiassu e Marcondes (op. cit.) esclarecem:

Falácia (do lat. fallax: enganoso). Argumento envolvendo uma forma não-válida de raciocínio, no qual a conclusão é deduzida das premissas de acordo com as regras do silogismo. Argumento errôneo, que possui a aparência de válido, podendo levar à sua aceitação. (p. 94)

Sofisma (lat. e gr. sophisma). Raciocínio que possui aparentemente a forma de um silogismo, sem que o seja, sendo usado assim de modo a produzir a ilusão de validade, e tendo como conclusão um paradoxo ou um impasse. Ex.: este cão é meu, este cão é pai; logo este cão é meu pai (p. 227).

Conforme visto, é próprio da dialética a oposição dos contrários, o que, quando em jogo interesses estabelecidos, favorece ou mesmo estimula o comportamento oportunista, como bem explorado por Schopenhauer (1997) que identificou 38 estratagemas da dialética erística. Assim, a indução, o silogismo e a falácia, de mãos dadas, podem ser instrumentos úteis à conveniência dos interesses encobertos pela dialética erística, em especial nos temas que envolvem crenças, ideologias e, sobretudo, poder – política. Como subproduto desses embates as verdades são ressignificadas, não no sentido já esclarecido – pelo método racional, lógico, submetido à reiteradas provas transparentes e auxiliadas por ferramentas -, mas literalmente por imposição, seja doutrinária, psicológica e até mesmo física mediante coação, como bem explorado nas sátiras distópicas de Orwell (2005, 2007) e Huxley (2014). E é bom frisar, como alerta, que essas distorções são próprias do comportamento humano, daí antigas (insuperáveis?), como revela Jaulent (2006, p. 9) na apresentação ao Livro das Bestas, de Raimundo Lúlio (Llull em catalão), escrito no séc. XIII:

Servindo-se precisamente do simbolismo das bestas, Lúlio faz desfilar perante o leitor a intriga, a ideologia, o adultério, a mentira, enfim, todas as mazelas que amargam a sociedade dos homens quando estes, incoerentes com a sua condição racional, deixam-se subjugar pela sensibilidade cega.

O texto de Llull, que traz a natureza humana ao centro dos debates, convida à abordagem do tema – buscador da verdade – a partir de outra perspectiva que é muito própria à Maçonaria – a simbólica.

6 – Os níveis de análise

Ser livre e de bons costumes são exigências básicas para o ingresso na Maçonaria. A essas uma terceira condição completa os requisitos fundamentais à Iniciação: a crença no Grande Arquiteto do Universo [GADU] – o décimo nono landmark de A. Mackey -, mas que também pode ser depreendida do Artigo Primeiro das Constituições de Anderson – concernente a Deus e Religião -, de onde se extrai que “um maçom […] nunca será um ateu estúpido, nem um libertino irreligioso […]” (ANDERSON, 2012, p. 149).

Muita tinta e páginas já foram consumidas em análises críticas sobre o tema, mas quero aqui chamar a atenção para um desdobramento lógico da crença no GADU porque pertinente ao tema ora desenvolvido, uma cosmovisão particular, admitida por muitos, mas não por todos, qual seja: a existência de um plano transcendente à razão objetiva que, em princípio, é (seria) inatingível pelas ferramentas apresentadas. Isso implica na concepção do homem noético, também denominado de noopsônico (PONTES, 2012) que, em síntese, é constituído por matéria (físico), intelecto e espírito. Alguns, a exemplo de Smith (2002), identificam quatro dimensões: corpo, psique, alma e espírito; enquanto que Descartes se restringiu à dualidade corpo vs alma.

Até então o construto “verdade” vinha sendo abordado sobretudo no âmbito da dimensão física (ainda que invisível, por vezes não mais do que uma elaboração teórica, porém com resultados práticos), em que pese as noções de intelecto, psique e alma já há tempos serem objetos de estudo dos buscadores da verdade auxiliados pelas ferramentas apresentadas. Entretanto, a noção de “espírito” demanda uma abordagem diferenciada, em parte complementar, bem como ferramentas de outra natureza capazes de alcançar, então, a “verdade revelada”. Enquanto as ferramentas já vistas são instrumentos para a aproximação da verdade dita objetiva (racional) que constitui o corpus do conhecimento exotérico, a nova dimensão (esotérica) requer ferramentas capazes de proporcionar um novo tipo de experiências, de natureza mística que, por sua vez, levam à descoberta da revelação – a verdade esotérica.

E como é possível chegar à verdade revelada que, segundo estudos, requer estados diferenciados de consciência capazes de proporcionar o necessário senso de autotranscedência? A literatura sugere ferramentas que já têm sido objetos de estudo pela ciência (HAMER, 2005), a exemplo da ioga, da meditação, da gnose, da oração e da vida ascética, mas também o recurso às substâncias químicas.

Assim, tal como o Homem, a verdade também pode ser figurada em outro plano que, à primeira leitura, guarda semelhanças com o Mundo das Ideias já referido. E mais uma vez, por ser um tema demasiado amplo, não será possível, por ora, tecer considerações mais aprofundadas sobre a experiência mística, o conhecimento esotérico e a revelação; não obstante cabe ressaltar que esse domínio também vem sendo explorado a partir das ferramentas exotéricas (auxiliadas por novas tecnologias) e já constitui um campo próprio e crescente de conhecimento (PINHEIRO, 2021a).

E é fácil perceber a conexão metodológica entre os dois domínios: a experiência mística é uma vivência pessoal, portanto única e exclusiva; assim, o buscador reúne inúmeros casos, cataloga-os, classifica-os, procura regularidades, padrões, etc., tal como já esclarecido. Na sequência também se vale da indução para inferir, de hipóteses para deduzir resultados esperados, promove experiências cujos registros sistemáticos são submetidos à análise e testes estatísticos que corroborarão ou refutarão as hipóteses, etc. Enfim, reproduz, a partir dos insights pontuais e preliminares reportados pelos místicos (verdade que à primeira vista possui caráter essencialmente subjetivo) os mesmos procedimentos aplicados na busca da verdade objetiva. Note-se, também aqui, senão um esforço no sentido à unificação dos domínios de conhecimento, a tentativa de maior aproximação das duas vertentes: a da verdade adquirida e a da revelada. E, a rigor, a verdade revelada necessita ser desvelada, o que corresponde a ser descoberta; afinal, o que fazem os hermenêuticos, a exemplo dos cabalistas?

E sendo a crença no GADU uma conditio sine qua non, na Maçonaria só é possível admitir duas posturas: a deísta ou a teísta. Em linha de simplificação, tanto porque se trata de matéria amadurecida em vários textos, mas também para não me alongar e fugir em demasia do escopo, grosso modo, a Maçonaria deísta (a exemplo da praticada pelo Rito Moderno) segue a postura de R. Descartes, qual seja: Deus criou o mundo e o deixou por conta própria, análoga à célebre resposta de Laplace à Napoleão quando este o perguntou sobre como Deus se encaixava no seu esquema [de leis que regem o mundo]: “Senhor, não precisei dessa hipótese”. Já a postura teísta, assumida pelo Rito Escocês Retificado, admite a intervenção divina no cotidiano, o que explica a prática, por exemplo e entre outras, das orações de intercessão. Não é possível deixar de constatar que as diferenças são de tal ordem, assim como os desdobramentos lógicos e práticos, que chega mesmo a ser difícil reconhecer a ambos, entre outros Ritos, como espécies do mesmo gênero – a Maçonaria -; algo só tornado possível mediante a aplicação filtros seletivos (redutores) aos mínimos elementos constituintes.

A dificuldade para apreender a última dimensão (a espiritual) não é a única, mas está na raiz dos motivos para uma característica central à Maçonaria: o largo emprego do simbolismo. Considerando que essa matéria foi desenvolvida com maior profundidade em Pinheiro (2020), deste trago apenas alguns excertos à guisa de ilustração e em síntese: • A reunião das três chaves auxiliares à análise simbólica em um quadro (que se revela sinóptico) proporciona não apenas novos e importantes ensinamentos, como revela um efetivo padrão; e para deixar à evidência, ao lado das designações, em esforço de síntese, foram destacadas algumas expressões-chaves:

  • Em primeiro lugar, se vários autores apontam que existem níveis (graus) de percepção e entendimento da realidade apresentada, parece ser boa lição nunca se satisfazer com a primeira impressão pois “o que é ou pode ser” quiçá esteja encoberto por véus de ignorância superpostos. Do primeiro ao último nível há claramente um escalar de complexidade e abstração. Se o primeiro nível está relacionado à base (matéria, concretude), o último sugere o topo (o espírito, a abstração). É possível, também, tecer conjecturas acerca dos progressivos graus de certeza insertos em cada modalidade interpretativa e submetê-los à testagem.
  • Grosso modo, enquanto as primeiras interpretações têm como fonte e repercutem nos limites do universo primário de significados de cada indivíduo, o aprofundamento (mas que também corresponde à elevação) ao nível tropológico demanda considerações a partir de um novo marco: o dos relacionamentos, assim, o conjunto de valores pessoais deve ser sopesado aos códigos sociais, isto é, se cada iniciativa vai ao encontro ou de encontro às expectativas, ao que é aceito, valorizado ou, ao contrário. Finalmente, o nível anagógico volta a ter de caráter absolutamente pessoal, pois a descoberta (o desvelar do véu da ignorância) de regra se dá a partir do acúmulo de conhecimentos assim como da experiência, algo que ninguém pode adquirir ou fazer por outro. Analogamente o mesmo se verifica com a elevação e com a revelação, eis que ambas exigem pré-qualificações. Todavia, tanto a descoberta quanto a elevação e a revelação são experiências transformadoras, isto é, depois de tê-las vivenciado não é possível retornar ao estágio anterior; assim, e desde então, o agente passa a ser movido por outro código de valores, novas visões de mundo e padrões de relacionamento. E fecha-se, assim, o ciclo: o indivíduo, inicialmente a partir de um dado nível de conhecimento (inferior) relaciona-se com o coletivo, ascende a novos estágios (superiores) de conhecimento que possibilitam que estabeleça relacionamentos influenciando o seu habitat a partir de novas métricas e padrões, e assim sucessivamente até o último estágio idealizado: a revelação.

Por fim, cumpre chamar a atenção para uma situação sui generis mas que se apresenta aos buscadores da verdade, notadamente aos maçons:

  • conforme visto, é prática antiga e nem sempre apropriada, a transposição por analogia de entendimentos extraídos do mundo natural para o mundo social que, juntos, grosso modo, constituem o que ora se denomina de microcosmo – o mundo exotérico;
  • ademais, explicar determinados fenômenos verificados no microcosmo como decorrentes da vontade (leis, ainda que desconhecidas) proveniente do macrocosmo também faz parte das tradições. Vale lembrar que a magia, que nada tem a ver com a acepção contemporânea do termo, já foi a melhor explicação científica para os fenômenos observados, a exemplo da influência dos astros sobre o clima, a agricultura, a saúde e o comportamento dos seres vivos, etc.;

a) – conectar esses dois mundos (o micro, exotérico, científico; e, o macro, esotérico, gnóstico) chega a ser sedutor como chama a atenção Yates (op. cit., p. 496): “Pois não é toda ciência uma gnose, uma visão íntima da natureza do Tudo, que ocorre por meio de sucessivas revelações?”;

b) – nem mesmo R. Descartes, esclarece a autora, em momentos de dúvidas e angústias intelectuais escapou à tentação do pitagorismo hermético;

  • aos poucos, a magia e a ciência tomaram caminhos diversos a partir da melhor delimitação dos seus domínios. Todavia, a ausência de respostas definitivas pela ciência a incontáveis fenômenos e o surgimento de inusitadas questões, mantêm viva e mesmo estimulam a forte presença da magia, a identificação de paralelos, bem como a percepção (para alguns uma certeza) da existência de vínculo entre os dois mundos, como visto, entre outros, em Capra (1993); assim,
  • deve ser redobrada a cautela na busca pela verdade na esfera social, no mundo das relações cotidianas, pois ela sofre as influências de duas fontes que embora diversas somam as suas contribuições para desviar o foco e levar a enganos. E efetivamente parece ser o que mais ocorre.

7 – Considerações Finais

Conforme visto, ser um buscador da verdade corresponde a dedicar-se a empreendimento que comporta diferentes níveis de complexidade, seja pela variedade de instrumentos que requerem algum grau de domínio, quanto pela natureza fugidia do próprio objeto da busca. Contudo, não há qualquer dificuldade que com estudo, treino, orientação e passo a passo, não possa ser superada para alcançar os níveis mais elevados de conhecimento – aproximações da verdade.

E para aqueles que antecipam desânimo frente às dificuldades e também pelo reconhecimento apriorístico de que a verdade absoluta é uma miragem, cabe lembrar que o que efetivamente importa não é a linha de chegada, mas antes o caminho, os ganhos contabilizados ao longo da trajetória. É por sucessivas tentativas e erros que nos aproximamos da verdade. É o exercício continuado para atingir a verdade que proporciona o aperfeiçoamento físico, cognitivo, moral e espiritual.

Em tempos de disseminação viral de fake news, da primazia das pós-verdades na abordagem das questões do cotidiano, e intransigência no trato das mais diversas matérias (comportamentos, valores, opções políticas, crenças, etc.), o que leva à maior dificuldade no reconhecimento da integralidade do outro, s.m.j., talvez mais até do que no passado, revela-se indispensável exercitar a condição de ser um efetivo buscador da verdade.

A Maçonaria, instituição que não sem motivos regimentalmente afasta das Lojas o debate político-partidário e religioso, parece revelar-se como o ambiente apropriado para a realização de tais exercícios. Como? Muito simples! Para começar, dado qualquer tema, ao invés de iniciar com a enumeração de um rol de opiniões sem fundamento e descompromissadas com qualquer noção que possa ser considerada “verdade”, habituar-se a refletir antes de falar, bem como justificar as declarações emitidas. Em dúvida, ou se não tem o que dizer, o silêncio também é sinal de sabedoria; busque esclarecimentos, senão em Loja aberta, quando fechada, retornando ao tema no momento oportuno para refinar e compartilhar o novo grau de conhecimento, a nova aproximação da verdade.

Todas as ferramentas disponibilizadas estão ao alcance de qualquer um e de todos, claro que em diferentes de graus de complexidade ajustados às idiossincrasias e contingências particulares. Entretanto, o que eu observo, amplamente disseminado na Ordem, são lições, ou melhor, tentativas de se aproximar ou mesmo ensinar “a verdade”, como se fosse possível, essencialmente a partir de aforismos, notadamente de ordem moral… de fato uma prática (à época uma ferramenta) muito em voga na Grécia… anterior a Tales, o mais notável dentre os pré-Socráticos.

Xico Trolha (2019, p. 9) destacou que “O Maçom, por si só, é um pesquisador nato, é um crítico abalizado que não costuma aceitar qualquer verdade como “verdade” (DESTAQUE NO ORIGINAL)”, ao que ora eu acrescento: não se chega à “verdade”, ou minimamente próximo a ela apenas com meros aforismos que não resistem minimamente ao pensamento crítico porque não passam de falácias encobertas pelo argumento da autoridade conferida aos chamados gurus.

Isto é, sem reflexão, estudo, orientação e troca de ideias que permitam ir à essência subjacente às matérias trazidas à lide, são reduzidas, para não dizer inexistentes, as possibilidades de os Iniciados virem a ser efetivos buscadores da verdade.

E pode não demorar muito para que alguns percebam Lojas que mais se assemelham aos clubes sociais-recreativos do que às Escolas Iniciáticas, a exemplo das de Pitágoras, Platão e Aristóteles (sempre reverenciados na Maçonaria, mas raramente lidos), nas quais alcançar a verdade era o objetivo de e com todos.

Nesse quadro, aqueles que se tornam cientes do que já foi, deveria, e que hoje a Maçonaria se autoafirma ser, tendem à desmotivação, seguida da baixa frequência que culmina com a evasão devido a percepção da falta de sentido, pois, afinal, no que então o maçom se distinguiria dos não Iniciados? Por que então pagar (por vezes elevadas) taxas para Iniciação, Elevação, Exaltação, mensalidades, trajes próprios, deslocamento, etc.?

Autor: Ivan A. Pinheiro

* Ivan é membro da Loja Mário Juarez de Oliveira nº. 4547, jurisdicionadas ao Grande Oriente do Brasil – Rio Grande do Sul.

Fonte: Revista Ad Lucem | São Luís, V. I, n. 2, p. 14-28, maio/ago, 2021.

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Referências

ANDERSON, James. As Constituições de Anderson. 7ª Reimp. Curitiba-PR: Juruá, 2012. BEZERRA, Daniel; ORSI, Carlos. Pura Picaretagem. São Paulo: Leya, 2013. CAPRA, Fritjof. O Tao da Física: um paralelo entre a física moderna e o misticismo oriental. São Paulo: Cultrix, 1993. COSTA, Frederico G. A Trolha na Universidade. Londrina, PR: A Trolha, 1998. DAMÁSIO, António R. E o Cérebro Criou o Homem. São Paulo: Cia. das Letras, 2011. DESCARTES, René. Discurso do Método. São Paulo: Escala, s.d. Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal – 10. FREIRE-MAIA, Newton. A Ciência por Dentro. 3ª Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995. HAMER, Dean. O Gene de Deus: como a herança genética pode determinar a fé. São Paulo: Mercuryo, 2005. HASKINS, Charles H. A Ascensão das Universidades. Balneário Camboriú, SC: Danúbio, 2015. HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. São Paulo: Globo, 2014. JAPIASSU, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1990. JAULENT, Esteve. Apresentação. In: LÚLIO, Raimundo. O Livro das Bestas. São Paulo: Escala, 2006. Coleção Grande Obras do Pensamento Universal – 50. LASZLO, Ervin. A Ciência e o Campo Akáshico – uma teoria integral de tudo. São Paulo: Cultrix, 2008. MACKNIK, Stephen L., MARTINEZ-CONDE, Susana. Truques da Mente. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. MLODINOW, Leonard. O Arco-Íris de Feynman. Rio de Janeiro: Sextante, 2005. NAY, Oliver. História das Ideias Políticas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007. NICOLELIS, Miguel. Muito Além do Nosso Eu. São Paulo: Cia. das Letras, 2011. NOUGUÉ, Carlos. Do Papa Herético e outros opúsculos. Formosa, GO: Santo Tomás, 2017. NOVA CULTURAL. Vida e Obra. In: Aristóteles. São Paulo: Nova Cultural, 2000. Coleção: Os Pensadores. ORWELL, George. 1984. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 2005. ORWELL, George. A Revolução dos Bichos: um conto de fadas. São Paulo: Cia. das Letras, 2007. PETRÔNIO, Rodolfo. Apresentação. In: AQUINO, Tomás de. O Bem: questões disputadas sobre a verdade – questão 21. Campinas, SP: Ecclesiae, 2015. PINHEIRO, Ivan A. Abordagens interpretativas de texto aplicadas à Maçonaria – sobre o ritual de Iniciação ao Grau de Aprendiz Maçom. Edições “Universum”, Ed. 37, julho 2017, p. 107128. Porto Alegre, RS: GLMERGS, Loja de Estudos e Pesquisas Universum n0 147. PINHEIRO, Ivan A. Decifrando Símbolos: um exercício retificado. Manuscrito compartilhado através das redes sociais e disponível, a pedido, em: ivan.pinheiro@ufrgs.br. Agosto, 2020. PINHEIRO, Ivan A. Dez Discursos: fundamentos para o atraso de uma loja maçônica. Revista Magister Magistrorum, Ed. 1, Ano 1, Julho – 2021, p. 34-8. PINHEIRO, Ivan A. Maçonaria e Religião: por uma perspectiva diferenciada. Manuscrito compartilhado através das redes sociais e disponível, a pedido, em: ivan.pinheiro@ufrgs.br. Julho, 2021a. PLATÃO. A República. São Paulo: Nova Cultural, 2000. Livro VII. PLATÃO. Timeu. In: Timeu-Crítias. Portugal, Coimbra: Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, 2011, p. 69-211. PLATÃO. A Teoria das Ideias. São Paulo: Hunter Books, 2013. Inclui os diálogos: O Sofista; e, Fédon. PONTES, Alisson de M. Evidências Empíricas de um Modelo Teórico para Explicar a Noopsicossomática em Pessoas Vivendo com HIV/AIDS. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal da Paraíba. PPG em Ciências das Religiões, 2012. ROSSI, Paolo. A Ciência e a Filosofia dos Modernos: aspectos da revolução científica. São Paulo: USP, 1992. SCHOPENHAUER, Arthur. Como vencer um debate sem precisar ter razão. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997. SMITH, Huston. Por que a Religião é Importante – o destino do espírito humano num tempo de descrença. São Paulo: Cultrix, 2002. TALEB, Nassim. A Lógica do Cisne Negro: o impacto do altamente improvável. Rio de Janeiro: BestSeller, 2008. VON HIPPEL, William. A Evolução Improvável. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2019. WEINBERG, Steven. Sonhos de uma Teoria Final: a busca das leis fundamentais da natureza. Rio de Janeiro: Rocco, 1996. XICO TROLHA. Ritos & Rituais. Londrina, PR: A Trolha, 2019. Vol. 1 YATES, Frances A. Giordano Bruno e a Tradição Hermética. São Paulo: Cultrix, 1990.

Buscadores da Verdade…sois mesmo? (Parte II)

3 – Ser um buscador

Assim, grosso modo, buscar a verdade pela via da ciência corresponde a eleger a primazia da dúvida (por vezes apresentada como curiosidade, ceticismo), seguida da observação (coleta de dados) sistemática da realidade (mais precisamente o fenômeno objeto de estudo), da catalogação (organização) dos registros, da realização de análises longitudinais, comparações (identificando as semelhanças, os contrastes), cruzamento entre as variáveis para verificar a existência de relações (associações positivas, exclusões mútuas), etc., tudo, é claro, planejado detalhadamente. Em síntese muito resumida, submeter um determinado fenômeno a esses procedimentos, para melhor conhecê-lo, descrevê-lo e explicá-lo corresponde a tratá-lo cientificamente, e como resultado tem-se um conhecimento admitido como verdadeiro, ainda que temporário, isto é, até que novas investigações autorizem a revisão do entendimento estabelecido.

Entre tantas, merecem destaque: a dialética (tese, antítese e síntese); o silogismo (premissa maior, premissa menor e conclusão); quaestio disputata; indução vs dedução; o método científico; e, como tópicos complementares: os níveis de análise e a cautela frente às falácias e sofismas.

3.1 – A dialética

Japiassu e Marcondes (1990, p. 71-2) descrevem o verbete “dialética” em perspectiva histórica, no que resultam 4 (quatro) acepções: a de Platão; a de Aristóteles; a de Hegel; e, a de Marx. Por ora excluo as de Aristóteles e Marx porque as demais estão mais próximas ao tema específico desta empresa:

1. Em Platão, a dialética é o processo pelo qual a alma se eleva, por degraus, das aparências sensíveis às realidades inteligíveis ou ideias. Ele emprega o verbo dialeghestai em seu sentido etimológico de “dialogar”, isto é, de fazer passar o logos na troca entre dois interlocutores. A dialética é um instrumento de busca da verdade, uma pedagogia científica do diálogo graças ao qual o aprendiz de filósofo, tendo conseguido dominar suas pulsões corporais e vencer a crença nos dados do mundo sensível, utiliza sistematicamente o discurso para chegar à percepção das essências, isto é, a ordem da verdade.

O texto remete ao que já havia sido comentado sobre a Teoria das Ideias, de Platão (séc. V a.C.), bem como chama a atenção para aspectos importantes: a) a verdade está associada à essência e a esta se chega ao longo de um processo, degrau por degrau; b) os sentidos e as pulsões, como Descartes já apontara, podem iludir a percepção da realidade; por fim, c) à verdade se chega pelo diálogo, mais pelo contraste de ideias do que pela reafirmação. Mas mesmo na ausência de um interlocutor, as mentes mais brilhantes, a exemplo da de A. Einstein, desenvolvem autonomamente experimentos mentais sem prejuízo à crítica.

2. Em Hegel, a dialética é o movimento racional que nos permite ultrapassar uma contradição […] é um movimento conjunto do pensamento e do real […] movimento racional superior em favor do qual esses termos na aparência separados (o ser e o nada) passam espontaneamente uns nos outros, em virtude mesmo daquilo que eles são, encontrando-se eliminada a hipótese de sua separação.

O estudo da dialética pode ser tão complexo e profundo quanto se queira, não sendo esta, aqui, a intenção. Da dialética hegeliana se diz que é a unidade dos contrários, pois é do diálogo (embate) entre os opostos (a tese ou situação inicial vs antítese ou oposição à tese) que se deve chegar à síntese (nova situação ou realidade resultante dos elementos presentes na tese e na antítese) que, por sua vez, no momento subsequente se constitui em nova tese que necessariamente faz surgir a sua antítese e, assim, em espiral sucessiva e indefinida. Reforça-se, aqui, a ideia de que a verdade tem caráter dinâmico, histórico, o que não pode passar desapercebido aos agentes sob pena da exacerbação permanente do estado de conflito.

3.2 – O silogismo

É o método dedutivo que permite extrair uma conclusão a partir de duas premissas – uma chamada maior e, a outra, menor -, por implicação lógica. Aristóteles, a quem é atribuída a primazia da sua formulação, esclarece que: “o silogismo é um argumento em que, estabelecidas certas coisas, resulta necessariamente delas, por serem o que são, outra coisa distinta do anteriormente estabelecido” (ARISTÓTELES apud JAPIASSU e MARCONDES, op. cit., p. 224). Em outras palavras, o silogismo é o raciocínio no qual, de determinadas coisas afirmadas, segue-se inevitavelmente outra afirmativa em caráter conclusivo. Um exemplo, certamente bastante conhecido, permite melhor identificar os elementos do silogismo:

  • Premissa maior: todos os homens são mortais;
  • Premissa menor: Sócrates é homem;
  • Conclusão: logo, Sócrates é mortal.

“Todo o mecanismo silogístico repousa no papel desempenhado pelo chamado termo médio (homem), que fornece a razão do que é afirmado na conclusão: porque é homem, Sócrates é mortal” (NOVA CULTURAL, 2000, p. 18). Todavia, é preciso cautela (razão pela qual se afirmou que as ferramentas devem ser utilizadas de modo combinado), pois também é possível construir silogismos a partir de premissas falsas, como é o caso do silogismo anterior e agora ligeiramente modificado:

  • Premissa maior: todos os homens são imortais;
  • Premissa menor: Sócrates é homem;
  • Conclusão: Sócrates é imortal.

3.3 – As quaestio disputata

Da lavra de Nougué (2017, p. 235) se extrai que a quaestio disputata:

[…] se divide em artigos, que por sua vez se dividem em etapas ou partes fixas. Em primeiro lugar, formula-se a pergunta ou questão de que se tratará. Em segundo lugar, apresentam-se o mais perfeitamente possível as objeções à doutrina sustentada no artigo […]. Em terceiro lugar dão-se os “mas contrariamente”, que argumentam contra essas objeções, e que podem coincidir ou não com a doutrina do artigo. Em quarto lugar, vem o corpus, no qual a doutrina do artigo ou se demonstra ou, excepcionalmente, se mostra apenas como a mais provável. Em quinto lugar solucionam-se as objeções à doutrina do artigo. E, em sexto lugar, se e quando necessário, solucionam-se as argumentações postas contrariamente às objeções.

A complexidade e a dificuldades são apenas aparentes. Em síntese, o procedimento enumera as etapas para solução da disputa em torno de uma questão que encerra polêmicas, admite pontos vista controversos, razão pela qual demanda análise crítica a partir de todas as perspectivas. Além disso, chama a atenção para o fato de que as respostas não devem ser buscadas de modo isolado, mas no âmbito de uma tradição, de uma doutrina mais alargada e que orienta o entendimento.

As quaestio disputata foram largamente empregadas durante a escolástica medieval, tendo sido, infelizmente, abandonada em que pese a sua contribuição ao desenvolvimento da cognição lógica. Sobre os usos e os costumes no ambiente universitário medieval Haskins (2015) revela que:

As preleções formais, por mais importantes que tenham sido numa época em que não havia laboratórios e em que os livros eram escassos, não eram de maneira alguma os únicos meios de instrução. Um exame cuidadoso do ensino universitário também precisaria levar em conta as preleções menos formais […] as revisões e repetições […] e as disputas que preparavam o estudante para a aprovação final, aquele momento em que teria de defender publicamente a sua tese de graduação (p. 62-3); Cantai ao senhor um cântico novo […] pois o vosso filho teve uma disputa gloriosa, na qual esteve presente um grande número de professores e estudantes. Ele respondeu todas as perguntas sem cometer um erro, e ninguém foi capaz de resistir aos seus argumentos […] Inception designa a cerimônia em que o estudante era aceito com um mestre nas universidades medievais […] Primeiro o candidato participava de uma disputa formal chamada vésperas, que seguia um formato um tanto complexo (p. 67).

Penso que essas brevíssimas citações deixam à evidência a mudança que, desde então, se operou; se para o bem ou para o mal é questão envolta por controvérsias (que exigem uma disputa!) pois os indícios são inconclusos – a contabilidade registra ganhos, mas também perdas.

O maior expoente no método das Questões Disputadas foi, sem dúvida, Sto. Tomás de Aquino (1225-1274), cuja monumental Suma Teológica foi totalmente escrita neste estilo. Ciente de que a matéria é desconhecida da maioria dos leitores, para maior clareza a seguir eu transcrevo, ainda que em redundância à citação de Nougué, a Apresentação (PETRÔNIO, 2015, p. 7) de “O Bem – questões disputadas sobre a verdade”, de Tomás de Aquino:

Neste método, Tomás inicia com uma pergunta [questão] e a desenvolve em artigos. Cada questão disputada pode conter diversos artigos. Cada artigo considera uma parte da questão mediante uma pergunta, estando composto por argumentos pró e contra e uma conclusão, na qual aparece a resposta do autor à pergunta elaborada na forma de artigo, que, por sua vez, compõe a questão. Em cada artigo Tomás procede da seguinte maneira: ante a pergunta proposta num artigo da questão, ele a afirma ou nega, expondo em contrário diversos argumentos. Em seguida, toma um ou mais argumentos fortes, que são contrários àqueles diversos raciocínios que se seguiram à pergunta inicial. Então, logo após esses argumentos, ele inicia uma resposta, em conformidade com o que pretende demonstrar, escrevendo no corpo do artigo uma conclusão, que é simultaneamente resposta à pergunta feita inicialmente, e termina esclarecendo as dificuldades ou contradições dos primeiros argumentos expostos.

Com efeito, na sequência o tema (“O Bem – questões disputadas sobre a verdade”) é desenvolvido em 6 (seis) artigos e cada um observa a seguinte estrutura tomando por base o Artigo I: 1) primeiro, pergunta-se se o bem acrescenta algo ao ente; depois, 2) seguem os argumentos a favor (e parece que sim); 3) os em contrário; 4) as respostas aos argumentos em contrário; e, finalmente, 5) as conclusões.

Ao leitor menos versado sugere-se que, no primeiro momento, não se atenha aos detalhes, mas antes perceba a essência da estrutura das Questões Disputadas: não é possível chegar à verdade acerca de qualquer matéria sem antes esclarecer e eliminar todas as objeções que contra ela se levantam.

Por fim, o leitor escolarizado já terá percebido que as Questões Disputadas estavam na antessala do Método Científico, senão introduzido, consolidado na Modernidade. Atualmente poderiam ser equiparadas à Revisão da Literatura exigida na maioria dos trabalhos universitários, em vários empreendimentos profissionais (a exemplo de grandes projetos), bem como em algumas atividades profissionais, como a persecução criminal e a prestação jurisdicional.

3.4 – Indução vs Dedução

Indutivo, na expressão popular mais difundida, é o raciocínio que conduz de enunciados (resultados, observações, etc.) particulares para enunciados gerais, como são as teorias. Já o raciocínio dedutivo transita no caminho inverso: parte dos pressupostos de uma teoria (ou hipótese) geral e infere sobre possíveis resultados particulares que devem ser submetidos à confirmação (ou não) em experimentos. Assim, como se diz, o primeiro “conduz do particular para o geral” enquanto que o segundo no sentido inverso, “do geral para o particular”.

Em termos mais formais:

É comum dizer “indutiva” uma inferência, caso ela conduza de enunciados singulares (por vezes também denominados também enunciados “particulares”), tais como descrições dos resultados de observações ou experimentos, para enunciados universais, tais como hipóteses ou teorias (POPPER, 1989, p. 27).

Já há tempos que o raciocínio indutivo não é mais aceito como método para chegar à verdade. D. Hume (1711-1776), após ter-se debruçado sobre o tema, declarou o que ficou conhecido como o Problema de Hume:

[…] nada há em qualquer objeto, considerado em si mesmo, que nos possa oferecer uma razão para tirar uma conclusão além dele […] mesmo após a observação da frequente ou constante conjunção de objetos, não temos razão para extrair qualquer inferência concernente a qualquer objeto além daqueles com os quais temos tido experiência. Não há, pois, segundo Hume, justificativa lógica para a indução (FREIRE-MAIA, 1995, p. 50).

E por que, então, continuamos tentados a, de casos particulares, a generalizar? “A resposta é simples: porque mesmo sem justificativa lógica, em geral dá certo (isto é, há uma justificativa pragmática)” (id., ibid., p. 50). Ao esclarecimento do autor eu acrescentaria outro que o acompanha muito próximo: a falta de conhecimento, seja do autor ou por parte de um do interlocutor, o que estimula as partes a generalizar à sua conveniência, e nem sempre por motivos confessáveis.

O hábito da indução é um dos mais generalizados nos debates sobre os mais variados assuntos do cotidiano, e também causador de desavenças e mesmo injustiças. Todavia, o exemplo já mencionado do Cisne Negro é a evidência de que se trata de procedimento sujeito a erro. A esse, outros tantos extraídos do diário de bordo de C. Darwin, confirmam o acerto de Hume.

Já a dedução é:

o raciocínio […] Em outras palavras, operação lógica consistindo em concluir de uma ou várias proposições, postas como verdadeiras, ou uma ou várias proposições que se seguem necessariamente. O modelo da dedução é o silogismo ou o raciocínio matemático (JAPIASSU e MARCONDES, 1990, p. 65).

Por oportuno, o silogismo já apresentado como exemplo, agora submetido às exigências da dedução, ganha nova proposição:

  • Premissa maior: se é verdade que os homens são mortais;
  • Premissa menor: e se é verdade que Sócrates é um homem;
  • Conclusão: deduz-se que Sócrates é mortal.

Como se percebe, a diferença entre o antecedente e este último é a condição de “ser verdade”, daí porque, para muitos, à frente Popper (op. cit.), só a dedução (e não a indução) merece o reconhecimento como procedimento científico que autoriza o estabelecimento de verdades – no caso acima, de duas verdades só pode (será?) decorrer outra verdade! -, ainda que temporárias, até que deem lugar a outras. Todavia, não se deve minimizar e tampouco desprezar o papel do raciocínio indutivo no empreendimento científico, pois ele se revela assaz importante em determinadas fases e modelagens da investigação ordenada à verdade.

3.5 – O método científico (MC)

Apesar de o MC já ter sido introduzido antes mesmo desta seção, a ele retorno porque se trata da “joia da coroa”, um conjunto de procedimentos que inclui objetivos, estratégias, táticas e ferramentas em desenvolvimento desde a Antiguidade. Aristóteles (384-322 a.C.) e até mesmo seus antecessores (Tales de Mileto, Anaximandro, Empédocles e outros), praticavam (em parte, é claro) o que ainda hoje constitui o MC: a observação sistemática da natureza ou da experimentação empírica. Todavia, o MC ganhou alavancagem a partir da Modernidade, quando entraram em cena N. Copérnico, F. Bacon, R. Descartes, G. Galilei e tantos outros.

Como já mencionado, a curiosidade humana é atávica, o desejo de saber e compreender o mundo que o cerca estão no seu no DNA e têm sido efetivos drivers ao longo da evolução da humanidade. Destarte, descobrir e explicar o que nos cerca, inclusive a razão da própria existência, não sem o intuito de prever e controlar os fenômenos, têm sido a atitude e o comportamento dominantes desde os nossos antepassados. Daí que o MC tem início com a observação dos fenômenos, a começar pelos naturais – movimento dos astros, clima, agricultura, comportamento dos animais, etc. Os deuses constituíram as primeiras explicações para o que à época era inexplicável à luz do conhecimento e da tecnologia disponíveis; é assim que Hesíodo, em Teogonia, apresenta a sua cosmogonia, bem como a índole e o comportamento dos Homens, ora irados, ora amorosos, sob a influência dos deuses.

É atribuída a Tales, nascido em Mileto (antiga colônia grega na Ásia Menor, área hoje correspondente à Turquia) a primazia de ter observado “e provado” que nem tudo, como se pensava, era dependente do humor dos deuses. E desde então, o ritmo das descobertas tem sido crescente e a trajetória parece ser interminável, bem como, contrário ao senso, não foi interrompida no medievo, reduzido o ritmo, sim.

A observação livre e sistemática dava (e dá) origem a um conjunto de registros que ao primeiro olhar podem parecer caóticos; todavia, quando classificados, ordenados e estratificados revelam o que o caos escondia: a informação que agrega e modifica o estado prévio do conhecimento.

(Detalhe importante: o que separa o dado (ou registro) da informação é o conhecimento anterior do buscador, pois para o leigo “tudo” é informação na sua acepção mais vulgar. Ex.: se ao leigo for dito que foi encontrada e atestada a autenticidade de uma Constituição Gótica datada do séc. IX, isto significará nada mais que uma mera anotação sem relevância, um registro que em nada alterará o seu status de conhecimento (mas reconhecerá como uma “informação”); já para um Iniciado e estudioso, isto corresponderá efetivamente a uma informação, algo que modifica por acréscimo o seu conhecimento, pois até o momento o documento mais antigo – a Carta de Bolonha – data do séc. XIII).

O passo subsequente corresponde à coleta de dados experimentais, o que não só agrega um novo nível de informações ao conhecimento como, em geral, abre novas perspectivas de investigação. E experimento, ressalto, não necessariamente guarda relação com laboratórios, tecnologias sofisticadas, especialistas, etc. Ao fazer uma pequena alteração em uma receita de culinária e comparar os resultados com a anterior está se procedendo a um experimento. Habitualmente não nos damos conta, mas o experimento e a indução estão mais presentes no cotidiano (familiar, profissional) do que reconhecemos à primeira vista.

O acúmulo organizado de registros permite a consecução de outro objetivo do empreendimento científico: a identificação de regularidades, padrões de comportamento que, reiterados, sugerem a existência de princípios e leis que regulam os processos em estudo. Já a partir do cruzamento de registros é possível identificar a existência ou não de algum tipo de relacionamento, a exemplo de causa-efeito, mútua exclusão ou associação em variados graus, o que pode ter grande aplicação com vistas à previsão e ao controle (direto e indireto) em variados domínios do conhecimento. Tomese, por exemplo, o caso da febre… equiparada à ponta de iceberg.

O ceticismo, conforme já mencionado, é característico do buscador da verdade, daí que, independentemente da sua certeza pessoal acerca do acervo de conhecimentos que detém, este deve ser permanentemente submetido a testes (empíricos, teóricos, estatísticos, etc.), idealmente por terceiros e mesmo desconhecidos (pela isenção) que intentem falsificá-lo ou identificar as suas fraquezas. Assim, a resistência a sucessivos testes implica na maior crença quanto a veracidade do fenômeno (teoria, hipótese, modelo) objeto de análise; já a identificação dos pontos fracos poderá levar ao abandono, ajustes temporários (ad hoc) ou ao aperfeiçoamento do enfoque sob tensão. E é esse ciclo, que no atual estado da arte é considerado como interminável, que permite progredir, etapa por etapa no sentido à verdade absoluta, isto é, pela aproximação mediante sucessivas verdades parciais ou temporárias.

O que atualmente se verifica no domínio da física contemporânea, a mãe de todas ciências, é ilustrativo do que ocorre em várias campos do conhecimento: considerando que há duas grandes teorias (por vezes referidas como modelos) que explicam a natureza, uma ao nível do microcosmo (atômico e subatômico), a outra ao nível macro, quais sejam: a Mecânica Quântica e a Teoria da Relatividade, o principal empreendimento científico da atualidade é a busca da chamada Teoria de Tudo (WEINBERG, 1996; MLODINOW, 2005; HAWKING e MLODINOW, 2011), tema também celebrizado no livro, já adaptado ao cinema, sobre a vida e obra de Stephen Hawking. Laszlo (2008), após constatar a perplexidade dos pesquisadores frente a várias ocorrências inusitadas (e mesmo exóticas) nos mais diversos campos do conhecimento, também reclama a emergência de um novo paradigma.

Concluindo, desde que o Homem se tornou um observador crítico da realidade, ele busca descrever, explicar e controlar o mundo que o cerca, o que não pode ser realizado sem método e instrumentos adequados. E ainda, em que pese a denominação “método científico”, é um equívoco pensá-lo com uma ferramenta exclusiva para o uso dos acadêmicos ou dos cientistas stricto sensu pois, tal como esclarecido para as quaestio disputata, hoje o MC só é uma ferramenta nos termos apresentados porque anteriormente revelou ser uma atitude frente ao desconhecido e mesmo às dúvidas do cotidiano, daí a relevância da sua larga aplicação na Maçonaria:

Procurar conciliar os estudos maçônicos com o método acadêmico, tem sido a nossa maior preocupação nestes dois anos de publicações. Preocupa-nos os “achismos”, assim como a falta de hermenêutica com relação aos textos que procuram historiar a Maçonaria. No lugar da interpretação, temos adornos sem maiores significados (COSTA, 1998, p. 85).

Continua.

Autor: Ivan A. Pinheiro

* Ivan é membro da Loja Mário Juarez de Oliveira nº. 4547, jurisdicionadas ao Grande Oriente do Brasil – Rio Grande do Sul.

Fonte: Revista Ad Lucem | São Luís, V. I, n. 2, p. 14-28, maio/ago, 2021.

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Buscadores da Verdade…sois mesmo? (Parte I)

Os maçons se reconhecem como buscadores da verdade; serão mesmo? Essa é a questão motivadora deste ensaio analítico-crítico alicerçado na literatura e que tem por objetivos: refletir sobre o tema, sobre os desdobramentos práticos à luz das reflexões apresentadas, bem como suscitar no leitor novas reflexões: a sua Loja está contribuindo em ordem à sua preparação para ser um buscador da verdade a ponto de diferenciá-lo dos não iniciados? É pressuposto que os buscadores necessitam, antes de tudo, conhecer o objeto da sua procura, razão qual, após problematizar o construto fundamental (verdade) são apresentadas e brevemente discutidas algumas “ferramentas”: a dialética, o silogismo, as quaestio disputata, indução vs dedução; e, o método científico. Entretanto, as próprias ferramentas, por desconhecimento ou má fé podem conduzir a destinos equivocados, o que levou à discussão sobre as falácias, sofismas e o estabelecimento de paralelos e analogias imediatas, e daí inapropriadas, entre o mundo natural e o mundo social. Não obstante, dado que a Maçonaria admite a existência de um plano metafísico-transcendente, se faz necessário ainda ampliar a noção do construto verdade, bem como oferecer ferramentas adicionais (meditação, ascese, oração, análise e interpretação simbólica) que possibilitem, senão atingi-la, dela considerar que se está próximo. A nova visão, conforme apresentado, também não é livre de armadilhas. Finalmente, apesar das diferenças entre as duas visões acerca da verdade, e mesmo a existência de armadilhas escamoteadas por entre as ferramentas, sugere-se que elas, as visões, não só apresentam semelhanças como estão mais próximas do que à primeira vista é dado perceber, ou melhor: só é (será) percebido por aqueles que se dedicarem a buscar a verdade.

1 – Introdução

Do maçom diz-se que é “um buscador da verdade”, expressão que no Rito Escocês Retificado, inclusive, integra a ritualística da Recepção (que corresponde à Iniciação) ao Primeiro Grau; já alguns autores preferem a expressão “investigador da verdade” que, em linguagem simbólica, pode também corresponder a “buscar a luz”. Lato sensu, de algum modo todos somos “buscadores da verdade” desde que adquirimos o senso da consciência, o que se dá ainda na primeira infância. O que, então, distingue os homens conforme o seu amadurecimento e dentre estes um conjunto particular, o dos maçons, que justifique o epíteto? Refletir sobre o tema, bem como sobre algumas questões decorrentes são objetivos deste texto.

Em se tratando de um ensaio analítico-crítico, o ponto de partida não poderia deixar de ser as considerações acerca duas expressões-título: “buscador”; e, “verdade”. Ambas são construtos polissêmicos, portanto, cada uma merecedora de um ensaio exclusivo, o que não é o caso, daí que o se segue é um recorte sumário para instigar novos estudos. O texto, então, explora cada expressão com o intuito de demonstrar a sua complexidade, o que, de imediato e per se já revela a dificuldade (quiçá impossibilidade) de chegar, por exemplo, ao que se pretende ser a verdade. De outro lado, a condição de ser um buscador sugere a utilização de instrumentos viabilizadores do empreendimento, razão pela qual o texto logo após a breve digressão sobre “verdade” apresenta algumas dentre as principais ferramentas utilizadas por aqueles que se dispõem a ser buscadores. Entretanto, como alertou o poeta, “Tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do aminho tinha uma pedra”, daí porque prossegue, a título de alerta, com a apresentação de alguns dos principais obstáculos levantados aos buscadores da verdade.

E considerando que a Maçonaria é gênero que abriga muitas espécies (tradições e Ritos), é preciso alargar ainda mais a noção de verdade para poder abraçar todas as espécies, o que, antecipo, gera nova ordem de dificuldades, pois há verdades que são propedêuticas, princípios orientadores, como é o caso das cosmovisões individuais, em ordem às demais verdades, neste prisma, vistas como consequentes lógicos, sequer necessitariam ser buscadas porque auto evidentes. Aos poucos, então, torna-se conveniente distinguir “a verdade” (por vezes adjetivada como absoluta) de “uma verdade”, esta então em caráter temporário ou mesmo precário. A solução à nova ordem chega a surpreender, pois se de um lado requer novas ferramentas, de outro revela que as primeiras têm sido utilizadas conjuntamente com estas últimas para, então, chegar a um novo significado do que seja a “verdade”.

Finalmente, como objetivo complementar, deixo à reflexão do leitor: se ser um buscador da verdade é empreendimento reservado ao Iniciado, é de se esperar que na sua Loja o tema seja ampla e exaustivamente debatido, com método, rigor e orientação, sobretudo das Luzes. E se tal não se verifica, com o tempo sendo despendido em questões sociais-recreativas, longas preleções históricas em meio a lendas que não disfarçam o intuito de tecer loas à Ordem, ou ainda em debates sobre as minúcias dos detalhes, parafraseando W. Shakespeare, em Hamlet, é possível que “haja algo de podre no reino da Dinamarca”.

2 – Sobre a Verdade

Como observa Freire-Maia (1995, p. 119): “Verdade é uma palavra que tem pelo menos três “dimensões”: a) passado: fidelidade ao que aconteceu […]; b) presente: exatamente o que se procurava […]; e c): futuro: digno de confiança […]”. Em outros termos, verdadeira é toda percepção pelos sentidos adequada à noção de realidade.

A ideia é muito clara, difícil de ser contestada, mas só se revela funcional se houver uma prévia noção de realidade, o que se dá com o tempo a partir e desde a infância. Assim, acostumado ao som e ao ritmo cardíaco desde o útero, entre tantas, de imediato o bebê se acalma ao acalento da sua verdadeira mãe. Essa primeira aproximação do que seja a verdade, em que pese a sua imediata aceitação, traz incontáveis dificuldades, uma delas diz respeito à amplitude da abrangência, pois abraça tanto os tangíveis quanto os intangíveis (princípios, valores, etc.), os fruíveis, os fungíveis… enfim, uma enorme e diferenciada gama de sujeitos e objetos referentes que pela acumulação na memória virão a constituir, na mente de cada um, o que é (ou não) realidade e, por contraste, verdadeiro (ou não) – por isso a referência anterior a “uma noção de realidade” ao invés de “a realidade”. Tempo e exposição à experiência são, pois, condições sine qua non à previa construção da realidade que, por contraste, atestará (ou não) o que é (ou não) verdadeiro.

A próxima dificuldade se já não está inserta deriva da anterior, eis que o primeiro nível de aprendizagem é essencialmente empírico e individual, o que traz nova ordem de obstáculos; assim, quem só teve a oportunidade de ver cisnes brancos terá dificuldade em reconhecer como verdadeira a afirmativa (e mesmo em condição de testemunho in situ) de que existem cisnes negros (TALEB, 2008); no máximo serão admitidas não mais do que semelhanças entre estes e aqueles. E assim, quantas verdades existem, mas que estão fora do nosso domínio devido à falta de experiência? Se não uma viagem, a leitura de um bom texto pode ser suficiente para revelar que realidades ordinárias para alguns se afiguram como inusitadas ou mesmo inverossímeis para outros. Ademais, qualquer limitação nos órgãos dos sentidos implicará em diferenças na percepção e, por conseguinte, na constituição da realidade-referência; o corolário é imediato: se não existem duas pessoas iguais … a rigor não é possível que dialoguem sobre a mesma realidade, se tanto, reconhecerão verossimilhança. E se a adequação à realidade é pressuposto para o reconhecimento de algo como verdadeiro…

Além da apreensão pelos sentidos, a realidade, é claro, pode vir a ser constituída (e sempre nas mentes individuais) a partir da aprendizagem teórica-abstrata a exemplo da formulada pelo sistema educacional também logo nos primeiros anos. E nesse caso é difícil contestar que pessoas com diferentes níveis de educação formal constituirão … diferentes realidades. Por analogia, recorro a um dos exemplos mais conhecidos, o Mito da Caverna (PLATÃO, 2000): o novo conhecimento amplia, ressignifica e mesmo altera a concepção do mundo, do até então admitido como real. É um caminho sem volta. O leitor interessado em saber como o cérebro cria a realidade e entender como funciona a mente, poderá ler, entre tantos, Damásio (2011), Nicolelis (2011) e também Macknik e Martinez-Conde (2011).

Passado o tempo, mas paralelamente, outras lentes, a exemplo das crenças, culturas e ideologias (sistemas de valores) serão utilizadas para modular a realidade em permanente construção, tendo, pois, uma dimensão histórica: varia no tempo e no espaço. E mesmo entre os cientistas, ou sobretudo entre estes, as perspectivas acerca da realidade são distintas porque provenientes de (pontos de partida) teorias (visões de mundo) divergentes. Hawking e Mlodinow (2011) referem que algumas teorias mais parecem ficção científica… mas não são, ao contrário, são bem fundamentadas (para quem entende, é claro), mas escapam ao senso comum. É notória a resistência e os embates de A. Einstein com os seus colegas teóricos precursores da mecânica quântica. No mundo da ciência há ainda outra concepção de realidade, de natureza probabilística, mas sobre esta não cabe, aqui, tecer maiores considerações, seja porque mais específica, mas sobretudo porque, de regra, distante do cotidiano. Mas simplesmente saber dessa existência (o que não nos exige conhecimentos aprofundados e específicos) já nos situa a partir de outra perspectiva valorativa frente à realidade e, por conseguinte, à verdade.

Penso que essas menções são suficientes para deixar claro que a tarefa dos que se propõem a conceituar a realidade – em definitivo – se equipara à de Sísifo, e se a adequação à realidade (pretérita ou presente) é critério para o reconhecimento da verdade, definir esta última acaba por ser tarefa, senão impossível, tão difícil quanto a do personagem mitológico.

Contudo, a vida em sociedade requer o estabelecimento de um acordo básico sobre o que é real (verdadeiro), e que, por extensão de entendimento (do concreto ao abstrato) será utilizado como baliza referencial para o reconhecimento da verdade, inclusive para a formação de juízos a exemplo de certo vs errado, bem vs mal, belo vs feio, igual vs diferente, vício vs virtude, etc. – base dos códigos morais (do que é permitido, valorizado, estimulado, etc.) que orientam e normatizam os relacionamentos, inclusive com os animais.

À guisa de ilustração, mesmo no domínio da Justiça, um dos temas mais salientes no seio da Ordem, orientado pela norma positiva firmada pelas maiorias nos Estados Democráticos e de Direito, não raro há dificuldades para se chegar à verdade dos fatos capaz de promover a justiça. Aliás, a própria noção de ato delituoso (e mesmo crime) varia no tempo e no espaço: tanto o que não era considerado pode vir a ser (ou até mesmo já é); quanto o que hoje não é, no futuro poderá vir a ser – ato delituoso ou crime. Ademais, no limite, a diferença entre o herói e o criminoso pode ser sútil, assim como as apreciações dos atos cometidos podem ser matizadas em razão do agente, se público ou privado, e frente às circunstâncias. No domínio da Justiça a verdade não só depende de provas, elementos factuais da realidade (o que à primeira vista é incontestável) como da observação da ritualística (o devido processo legal); todavia, não raro essas exigências abrem oportunidades para o projeto do crime perfeito – sem punição, seja pela ausência de provas ou pelo gerenciamento até a prescrição. Como se percebe, o tema é amplo e aberto a controvérsias; demanda permanente estudo e reflexão.

Até o momento, para registrar a complexidade que envolve a noção de “verdade”, adotou-se a atitude conhecida como realista, que admite a apreensão da realidade em si mesma; contudo, a matéria admite abordagem diversa: a do idealismo, que tem em Platão, se não a primeira, uma das mais conhecidas referências históricas. É provável que as dificuldades apontadas, entre outras no domínio do realismo, estejam por detrás da enorme acolhida à Teoria das Ideias (PLATÃO, 2000, 2011, 2013) que, impregnada nos corações e mentes, encontra-se miscigenada com inúmeras crenças que igualmente se propõem a encontrar a verdade em estado puro. E se essa não pode ser encontrada ao nível do microcosmo, o do nosso cotidiano, talvez possa no macrocosmo, bem como existir entre ambos uma via de comunicação.

Nesse caso, a realidade objetiva é tão somente uma sombra, imperfeita, apreendida e filtrada pelos sentidos, de uma realidade idealizada, perfeita. Trata-se de uma engenhosa construção conciliatória ajustada à natureza humana ávida por conhecimento, explicações. Assim, ao fim e ao cabo, a busca pela verdade é deslocada para um plano ainda mais elevado que muitos textos, a priori, referem como incognoscível, daí, inatingível, mas que no plano do microcosmo pode ser representada, em grande síntese, pelas chamadas 3 (três) questões fundamentais: de onde viemos, para onde vamos e qual a razão (o sentido) da existência? E é no curso da investigação ordenada a essas questões que as demais verdades com implicações mais pragmáticas serão descobertas. Por oportuno, é digno de nota que, nessa linha, para muitos as questões que no âmbito da Justiça não foram devidamente solucionadas no microcosmo ficam, então, adiadas para solução no plano do macrocosmo, tido como superior, o que faz deste comportamento uma atitude perante a vida.

E antes concluir esta breve introdução ao tema da verdade, importa salientar que, em que pesem as dificuldades apontadas, somente superadas por convenções sociais, nunca em termos absolutos, esta condição de impossibilidade tem sido extremamente útil e funcional à humanidade, pois a curiosidade, a dúvida, a eterna e inquietante busca para compreender a realidade estão na base dos empreendimentos que direta ou indiretamente, como que em reação em cadeia, proporcionaram a humanidade o atual estágio de desenvolvimento. Nesse contexto, os tipos ideais weberianos constituem um bom exemplo contemporâneo da importância do alvo móvel e inatingível: o fato de serem abstrações, nunca encontrados na sua plenitude, não implica redução da sua importância enquanto quadro de referência que motiva e cria sinergias nos agentes. Ainda que por tentativa e erro, o objetivo passa a ser, então, chegar o mais próximo possível (no caso, da verdade) mesmo que a priori se saiba que o alvo jamais será atingido.

3 – Ser um buscador

À primeira vista, a impossibilidade de chegar à verdade absoluta, corolário da exposição antecedente, implicaria no reconhecimento de que ser um “buscador da verdade” é contrário ao senso. Todavia, se assim fosse, sendo essa uma verdade antiga, há muito a humanidade teria de deixado de procurar… o que, por sua vez, claramente não é verdade. Após tanto buscar, a experiência, já constituída em sabedoria, revelou que independentemente da existência da verdade absoluta – o alvo -, dela é possível se acercar por aproximações sucessivas, algo como a verdade mais próxima ou temporariamente válida, atingível ou aceitável à luz das contingências. E como é possível saber, com maior certeza, que dela se está mais próximo? Pelos resultados alcançados no dia a dia, como, por exemplo: maior previsibilidade dos fenômenos naturais, controle de doenças e pestes, produção de alimentos, maior longevidade com qualidade de vida, menor número de conflitos internos e entre os grupamentos sociais, em meio a tantas outras evidências ora representadas pelos avanços científicos e tecnológicos (o hardware) só tornados possíveis pelo nível de cooperação das sociedades (o software), o desenvolvimento do que Von Hippel (2019) denomina de homo socialis.

E como é possível abeirar-se à verdade? Pelo uso do método, pois este é a alma da ciência (ROSSI, 1992).

A palavra método vem do grego, methodos, composta de meta: através de, por meio, e de hodos: via, caminho. Servir-se de um método é, antes de tudo, tentar ordenar o trajeto através do qual se possa alcançar os objetivos projetados.

A clareza, pelo menos desde o Renascimento, de que a verdade, hoje tão cara aos maçons não estava por completo revelada nos textos sagrados, foi determinante para o desenvolvimento da investigação metódica da natureza. As recomendações de R. Descartes (1596-1650) até hoje são válidas:

Em lugar, portanto, desse grande número de preceitos de que se compõe a lógica, julguei que me seriam suficientes os quatro seguintes, desde que tomasse a firme e inalterável resolução de não deixar uma só vez de observá-los. O primeiro era o de nunca aceitar alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal, ou seja, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção e de nada mais incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e distintamente a meu espírito, que não tivesse motivo algum de duvidar dele. O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu analisasse em tantas parcelas quantas fossem possíveis e necessárias, a fim de melhor resolvê-las. O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para elevar-me, pouco a pouco, como que por degraus, até o conhecimento dos mais compostos e presumindo até mesmo uma ordem entre aqueles que não se precedem naturalmente uns aos outros. E o último, o de elaborar em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir (DESCARTES, s.d., p. 26-7).

Quanto às vantagens e o alcance do método:

[…] efetivamente ouso dizer que a exata observação desses poucos preceitos […] tendo começado pelas mais simples e mais gerais e constituindo cada verdade que encontrava uma regra que me servia depois para encontrar outras, não somente consegui resolver muitas que antes considerava muito difíceis, como me pareceu também, perto do fim, que podia determinar, até mesmo aquelas que ignorava, por quais meios e até onde seria possível resolvê-las (op. cit., p. 28).

Assim, grosso modo, buscar a verdade pela via da ciência corresponde a eleger a primazia da dúvida (por vezes apresentada como curiosidade, ceticismo), seguida da observação (coleta de dados) sistemática da realidade (mais precisamente o fenômeno objeto de estudo), da catalogação (organização) dos registros, da realização de análises longitudinais, comparações (identificando as semelhanças, os contrastes), cruzamento entre as variáveis para verificar a existência de relações (associações positivas, exclusões mútuas), etc., tudo, é claro, planejado detalhadamente. Em síntese muito resumida, submeter um determinado fenômeno a esses procedimentos, para melhor conhecê-lo, descrevê-lo e explicá-lo corresponde a tratá-lo cientificamente, e como resultado tem-se um conhecimento admitido como verdadeiro, ainda que temporário, isto é, até que novas investigações autorizem a revisão do entendimento estabelecido. A ciência não é, pois, um caminho que leva a lugares definitivos. Para dar conta desse conjunto de iniciativas, várias técnicas foram desenvolvidas, algumas mais bem sucedidas e aprimoradas hoje correspondem a efetivas ferramentas disponíveis a quem quer que se proponha uma aproximação com a verdade em qualquer domínio do conhecimento, das ciências naturais às sociais. Na sequência, a apresentação sumária, pois a rigor cada tópico exige um texto específico, de algumas dessas ferramentas; umas mais outras menos apropriadas a este ou aquele caso (quanto a natureza da dúvida, das situações-problema, objetivos, etc.) e que, na maioria das vezes têm o efeito potencializado quando utilizadas conjuntamente, o que sugere o estabelecimento de uma estratégia a ser desenvolvida ao longo do processo de busca.

Entre tantas, merecem destaque: a dialética (tese, antítese e síntese); o silogismo (premissa maior, premissa menor e conclusão); quaestio disputata; indução vs dedução; o método científico; e, como tópicos complementares: os níveis de análise e a cautela frente às falácias e sofismas.

Continua…

Autor: Ivan A. Pinheiro

* Ivan é membro da Loja Mário Juarez de Oliveira nº. 4547, jurisdicionadas ao Grande Oriente do Brasil – Rio Grande do Sul.

Fonte: Revista Ad Lucem | São Luís, V. I, n. 2, p. 14-28, maio/ago, 2021.

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

O Mestre Maçom perante si próprio

Todo o maçom, desde o primeiro dia que adquiriu essa condição sabe que o seu maior inimigo é aquele que vê quando, de frente, olha para o espelho. Mas também sabe que a melhor maneira de acabar com o inimigo não é prendê-lo (pode sempre libertar-se…), ou matá-lo (pode dele fazer um mártir ou herói para outros, e assim afinal multiplicar os seus inimigos…). A melhor maneira de acabar com o seu inimigo é fazer dele seu aliado, seu amigo. A amizade tem mais força que a força…

Todo o maçom sabe, desde o dia em que adquiriu essa condição, que dentro de si convive o que potencialmente o destrói, o desvaloriza, o apouca – os seus vícios, os seus defeitos – e o que o engrandece – as suas virtudes e capacidades. Por isso aprende que é crucial cavar masmorras aos seus vícios e cultivar suas virtudes. Só assim aquele que vê quando, de frente, olha para o espelho deixará de ser o inimigo que arrasta para as sombras da depravação para passar a ser efetivamente o aliado amigo que acompanha no caminho para a Luz.

O Mestre Maçom, quando se coloca – o que deve fazer com frequência… – perante si próprio, deve sempre recordar-se que o esforço para ser melhor pode não necessitar de ser muito grande, mas inevitavelmente tem que ser contínuo. Tal como aquele que anda de bicicleta precisa de manter o movimento para não cair, assim aquele que cessa o esforço para melhorar verá degradar-se o que atingiu.

Assim, a palavra que, no meu entendimento, se deve utilizar para ilustrar o que se impõe ao Mestre Maçom perante si próprio é “persistência”.

Persistência no contínuo esforço de melhoria. Persistência em aprender e ensinar e em aprender ensinando. Persistência no Estar como meio para o Ser. Persistência em fazer, dia após dia, mês após mês, ano após ano, mais do mesmo, como forma de descobrir, afinal, que o mesmo continuamente se reinventa e, quando damos por ela, já é outro e melhor.

Persistência no trabalho mais importante que existe, o trabalho em si próprio, o trabalho que lhe permite reconhecer-se e ser reconhecido como aquilo de que se apelida, Maçom.

Persistência no lapidar da única obra que, apesar de todas as obras que construa ou que crie, afinal realiza durante o tempo que passa neste plano da existência, a sua verdadeira obra-prima, a sua vida e quem a vive.

Persistência na busca da forma de melhorar o que parece bom, mas pode sempre ser um pouco melhor – para descobrir que, após a melhoria, o que é melhor, pode ainda ser melhorado mais um pouco, desde que… persista no trabalho.

Persistência na lapidação da sua Pedra Bruta até conseguir dar-lhe a desejada forma de Pedra Cúbica. Persistência para polir essa Pedra Cúbica, face a face, para bolear bem as arestas, uma a uma, para que essa Pedra Cúbica seja capaz de ser encaixada onde deve, seja sólida para bem assegurar o seu papel, se enquadre harmoniosamente entre as demais, aumentando com o seu brilho o brilho das vizinhas.

Persistência para nunca se sentir satisfeito, para ter a noção de que é sempre possível fazer e ser um pouco melhor e para efetivamente agir para assim fazer e ser – e descobrir que continuar a lapidar uma Pedra Cúbica não a faz mais pequena, paradoxalmente engrandece-a.

Persistência em ser realmente e completamente aquilo que se reclama ser: Mestre Maçom!

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

O primeiro dever do Venerável Mestre é criar futuros bons Veneráveis Mestres

Instalação e posse

Nas Grandes Lojas do Estado de São Paulo (GLESP), na abertura solene  da Cerimônia de Instalação e Posse do Venerável Mestre, o dirigente roga o auxílio do Grande Arquiteto do Universo para que aquele ilustre Irmão, M.·.M.·. que foi legalmente eleito para exercer o cargo, seja dotado de sabedoria para compreender, de discernimento para julgar e de meios para executar a Sagrada Lei, para que possa guiar e governar com Retidão, Verdade e  Justiça sua Aug.·. e Resp.·. Loj.·. Simbólica.

O papel do Venerável é parecido com o do maestro de uma orquestra. Pode ensinar a teoria da música e tirar sons de um instrumento musical. Mas precisa ter a habilidade para juntar tantos músicos diferentes e fazê-los tocar a música em harmonia. Levá-los a executar a música em uníssono (no mesmo tom, ao mesmo tempo). Ele deve ser capaz de proporcionar essa habilidade ao grupo.

Preparação do eleito

O que acontece com aquele que acaba de ser eleito para dirigir sua Loja? Acreditamos como base imutável do trabalho de preparação do mesmo a valorização e apoio ao Irmão, independente do Rito praticado, uma vez que os Ritos são respeitáveis e contêm, em suas essências, a necessidade da Construção Social dos Maçons. É uma providência muito usual, às vésperas da “passagem do malhete”, o Resp.·. Ir.·. Delegado Regional promover uma reunião dos  Mestres Instaladores e dos Veneráveis Eleitos com o objetivo de eliminar dúvidas sobre a realização do ato.

O treinamento breve e superficial, onde nem sequer os interessados se apercebem da grandiosidade que significa a Cerimônia, pode ter um impacto negativo no desempenho do futuro Venerável, se esses Irmãos não tiveram apoio e acompanhamento necessário para que sejam bem sucedidos nessa tarefa de tanta responsabilidade. A Potência espera muito dos novos Veneráveis e lhes cobrará conhecimento, desembaraço, responsabilidade, eficiência e acertos. Mas os Veneráveis por seu lado, sabem das dificuldades pelas quais irão passar e têm a expectativa, a curiosidade, a vontade do acesso a uma orientação oficial preparatória, segura, através da Potência. Um têm a expectativa do outro.

Sabemos que nada mais lógico e razoável seria a existência de um compêndio elementar  destinado ao Venerável eleito, onde pudesse buscar  a técnica  de dirigir e orientar os seus liderados nos rudimentos da arte, da filosofia, da ciência e da doutrina, antes de iniciar seu Veneralato.

Missão do Venerável

Inspirar seus liderados a viverem uma vida melhor, cada um dando o melhor de si, lembrando-lhes da sua missão e dos valores que regem a vida maçônica: amor, honestidade, humildade, paciência, educação, bondade, compromisso, respeito, abnegação, perdão.

O Venerável, é o instrumento de ligação entre todos os elementos que constituem a sua Loja e os delegados do Grão-mestre. Não gerencia os Irmãos, influencia e os lidera para darem o melhor de si.

Conceitos de liderança

A maioria dos candidatos ao cargo de Venerável Mestre, tem o desejo sincero de exercer liderança da melhor forma possível. No fundo, as pessoas anseiam por uma vida significativa e satisfatória e, por isso, procuram por alguma coisa especial que faça aflorar o que eles têm de melhor. De preferência, buscam uma harmonia entre seus valores pessoais e os valores da Instituição. Uma coisa é certa: os Irmãos querem fazer parte de algo especial; de uma Loja da qual possam se orgulhar, e ao termino dos trabalhos que todos fiquem felizes porque se sentem fazendo a coisa certa.

Defendemos a tese de que a liderança não é poder e sim autoridade, conquistada com amor, dedicação e respeito pelos liderados.

Liderar significa conquistar os Irmãos, envolvê-los de forma que coloquem o coração, mente, espírito, criatividade e excelência à disposição da Loj.·. e da Ordem. É preciso fazer com que haja o máximo empenho na missão, dando tudo pelo conjunto.

Lembremos, outrossim, de que não é preciso ser Venerável da Loja para ser um líder e influenciar os Irmãos a terem mais entusiasmo, mais empenho e mais disposição – enfim, para se tornarem o melhor que podem ser.

O que define a palavra liderança é a capacidade de influenciar os Irmãos para o bem. Na verdade, na Loja todos são líderes, assumindo cada um a responsabilidade pessoal pelo sucesso da Oficina.

Limitações

Os humildes consideram sua liderança uma enorme responsabilidade e levam muito a sério a posição de confiança e os Irmãos a ele confiados. O Venerável sabe que os Irmãos vão cometer erros. Os VVig.·., o Orador, o M.·. de CCer.·., o Secretário e outros – muitas vezes, vão decepcioná-lo, vão magoá-lo, não se esforçarão como ele acha que deveriam e alguns não reagirão aos seus esforços. Por isso, aceitam as limitações nos outros e tem uma enorme capacidade de tolerar a imperfeição.

Autêntico, ele não posa de sábio, está sempre disponível e, de certa forma, vulnerável, porque tem sempre seu ego sob controle e não se baseia em ilusões de conhecimento por “iluminismo do Alto”, de grandeza, acreditando que é indispensável para a Instituição. Sabe muito bem que “os cemitérios estão repletos de pessoas indispensáveis”.

Seguro de suas forças e limitações, o Venerável humilde está consciente de que só com a ajuda de todos será capaz de manter as coisas em sua devida perspectiva.

Os menos humildes, não devem ficar ressentidos com as coisas que machucam e desapontam. Devem lembrar-se de que qualquer um pode liderar pessoas perfeitas – se elas existem – o que não devem esquecer jamais os que optam por liderar é que devem servir: “quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo” (Jesus Cristo).

Muitos dos que assumem a liderança de sua Loja, enganam-se achando que é sua vez de serem servidos, agora que se tornaram líderes. A todo verdadeiro Maçom cabe tal responsabilidade: “deve servir nunca se servir”.

Responsabilidade

O Mestre Instalado vai se apropriando de ideias dentro de si, interpenetrando a fusão de culturas, tradições, sentimentos, em estilo cultural comum, cabedal de conhecimentos adquiridos ao longo do tempo e burilados durante a sua presença à frente dos cargos que desempenhou na Loja, conhecimentos esses que deverá necessariamente ser posto de forma total  “em pé e à ordem” da Sublime Instituição.

Conflitos

Obviamente, uma Loja Maçônica não é um lugar sem conflitos. Afinal, quando duas ou mais pessoas se reúnem para um propósito, uma coisa é certa, haverá conflito (especialmente se a Loja for saudável). O interessante é usar a inteligência para encontrar o caminho da comunicação entre os Irmãos e  transformar a Loja num local onde os conflitos são solucionados e os participantes aprendam a não evitar divergências – mas a ter respeito, a escutar, a ser assertivos uns com os outros, a ser aberto a novos desafios, a valorizar a diversidade que existe em qualquer equipe saudável.

NÃO àquelas alianças destrutivas entre dois ou mais Irmãos que preferem falar dos outros (panelinhas), em vez de levantarem o problema para toda a Loja, a fim de que se encontre uma solução. NÃO aos integrantes dessas “panelinhas” que não têm a coragem moral de fazer a coisa certa em momentos de desafio e controvérsia.

Os Irmãos Jubelos existem sempre, são justamente os veículos necessários, como Pedro e Judas o foram para Jesus. Um o traiu antes da morte; o outro, O negou em vida por três vezes.

Simbolizam os três assassinos as expressões da nossa natureza material, os que fazem oposição aos nossos bons sentimentos; os assassinos podem ter outros nomes: Ignorância, Fanatismo e Ambição.

Essas fases negativas poderão ser, com o auxílio de nossos Mestres, transformadas em Sabedoria, Tolerância e Amor.

Disciplina é uma palavra cuja raiz vem de discípulo, que é aquele que recebe ensinamento ou treinamento.

Lembrem-se de que disciplinar não é punir e humilhar os Irmãos. O objetivo é levá-los para o caminho certo, ajudando-os a se tornarem melhores, a vencer e ser bem-sucedidos e que respeito não é algo que se ganha quando se torna Ven.·. O respeito assim como o reconhecimento é conquistado pouco a pouco e exige que as partes renunciem interesses pessoais pelo bem maior, para que o todo se torne maior do que a soma de suas partes. Isso nos ensinou o Mestre dos Mestres: “quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva”; “e quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo” Qualquer um que queira ser um líder deve primeiro ser o servidor.  Servir uns aos outros, conforme o dom que recebeu.

Venerável Mestre, Deus  em sua infinita sabedoria, o colocou como dirigente de sua Loja, lugar onde pode aprender com eficiência e servir melhor.  Hoje o imaginei recitando a magnífica Oração de Amor de São Francisco de Assis, adaptada para nossos dias:

 “Ó Senhor, fazei de mim instrumento de tua paz:
Onde há ódio, faze que eu leve Amor e uma palavra de união;
onde há ofensa que eu leve o Perdão;
onde há discórdia e onde tantos procuram ser servidos, que eu leve a alegria de servir;
onde há dúvida, que eu leve a Fé;
onde há erro, que eu leve a Verdade;
onde tantos fecham a mão para bater, que eu abra meu coração para acolher;
onde há desespero porque a vida perdeu o sentido, que eu leve o sentido de viver, que eu leve a Esperança;
onde tantos sofrem a solidão que faz morrer, que eu seja o amigo que faz viver;
onde há tristeza, que eu leve a Alegria;
onde há trevas, que eu leve a Luz.

Ó Mestre faze que eu procure menos ser consolado do que consolar;
ser compreendido do que compreender;
ser amado do que amar;
onde tantos adoram a máquina, que eu saiba venerar o homem;
onde tantos endeusam a técnica, que eu saiba humanizar a pessoa;
onde tantos pedem o pão, que eu saiba ensinar a plantar o trigo;
onde tantos estão distantes, que eu seja  sempre presente.

Porquanto – é dando que se recebe;
é perdoando que se é perdoado;
e onde tantos morrem na matéria que passa que eu viva no espírito que fica;
pois, é morrendo que se ressuscita para a vida eterna.
Onde tantos olham para a Terra, que eu saiba olhar para o Céu.”

Ao passar o cargo

Finalmente, se na Palavra sobre o ato realizado, algum Ir.·. pedir a palavra e quiser falar sobre a mais elevada distinção de reconhecimento que um obreiro pode almejar de sua Loja, que não fale por muito tempo.

Digam para não mencionar carreira da vida profana ou maçônica – isso não é importante. Falem que um dia foi plantado uma semente, minúscula, e que nasceu a plantinha que ajudamos a adubar, a regar, a podar esta pequena árvore cresceu, floriu, deu frutos e hoje nossa Loja com nome, número, Carta Constitutiva Definitiva, Estandarte e Hino no qual se enaltece a glória de Deus, do Patrono e da história da Loja.

Digam para não mencionarem Iniciações, Elevações, Exaltações ou Filiações realizadas, pois essas fazem parte das atividades normais de uma Oficina.

Façam sim, referência ao nosso denodo para ajudar os outros. Que tentamos amar qualquer um e a todos os Obreiros.  Que procuramos ser justos.

Digam que não mencionem o sucesso que a Loja teve no equilíbrio das finanças, no trabalho sem igual da Secretaria, nas atividades da Chancelaria, isso não é importante.

Falem do esforço em arrecadar o possível para que nossa Hospitalaria pudesse apoiar as Associações que alimentam os moradores de rua, os que têm fome, que vestem os nus. Lembrem que acompanhamos os Irmãozinhos e familiares em suas enfermidades.

Concluindo

Ensinando, pesquisando, conversando, trazendo novas ideias à baila, mas principalmente revelando, em todos os momentos e ocasiões, o extremo dinamismo e amor à Ordem, que devem caracterizar aqueles que, um dia, tiveram a honra de ocupar o Trono de Salomão. Certo é que todos deixam sua marca na equipe – a única questão é o tipo de marca que cada um quer deixar.

E quando, por fim, formos atingidos pela foice da noite, nosso espírito poderá erguer seu voo de fronte altiva e satisfeito conosco mesmo, chegar aos pés do Redentor, cobrindo as marcas de nossos pés cansados, de mãos vazias, mais calejadas por termos legado à Humanidade a dádiva de uma existência que comoverá pela tenacidade, beleza, grandeza e pela abnegação que procuramos servir nossos Irmãos, nossa Loja e a Humanidade…

Autor: Valdemar Sansão

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Por que te tornaste maçom?

A esta pergunta, o novo Aprendiz responde: “Porque eu estava na escuridão e desejava a luz”.

Duas outras perguntas derivam dessa primeira. Como se pode esperar desejar algo que não conhecemos? Se admitirmos que esta Luz estava em nós, embora a ignoremos, como a Maçonaria poderá nos fazer descobri-la?

A luz!  Termo mágico … base de nossa criação, da Gênesis, fonte de vida, ela é o ponto principal de onde tudo emana. Em todos os tempos, o homem se pergunta sobre essa luz que brilha nas trevas, que inflama as mitologias, os contos, os sonhos. É a jornada secreta do homem em busca de seu futuro espiritual.  Ele transfigura o Ser e multiplica sua imaginação criadora através do tempo e do espaço.

Uma noite, Hermes teve a visão de uma forma de luz que lhe revelava o Conhecimento. Ele a questionou, dizendo: “Quem é Você? ─ Você mesmo”, respondeu ela. Tendo citado esta visão de Hermes, Henry Corbin acrescenta: “O que é o buscador? O que é buscado? A essa pergunta, Najmoddin Kobrâ, apelidado de “o criador de santos”, um mestre sufi persa, nascido em 1145, responde: “O procurado é a Luz divina, o buscador é uma parcela dessa Luz”[1].

Assim se apresenta a maravilhosa história de amor entre a Luz divina e a luz que emana dela. Esta última geralmente ignora sua origem, e é por isso que ela procura fora do que tem dentro de si. Por muito tempo, o homem, portador da luz, tende a se perder tomando as reflexões cintilantes por realidades. Percebendo seu erro, ele entende que seus sentidos externos são incapazes de ver a Luz, de tocá-la e de perceber seu apelo. Esses cinco sentidos são o sinal por excelência da manifestação grosseira e sensível que domina o estado de Aprendiz. Esses cinco sentidos permanecem inexoravelmente exotéricos, porque para encontrar a Verdade, não há necessidade de a buscar … De fato, o buscador da Verdade deve, antes de tudo, ser um buscador de erros, e uma vez que ele tenha encontrado os erros e os derrubados, a Verdade aparecerá nua, pura e simples como sempre foi e nunca deixou de ser.

Aqueles que não são feitos para a finalidade, geralmente não sendo feitos para o caminho, pararão na superfície do erro sem jamais alcançar o núcleo da Verdade e, portanto, a disciplina do arcano que convém a todo ensinamento esotérico não fará seu trabalho. Aqueles que, ao contrário, não se apegam à superfície dos cinco sentidos, compreenderão a correspondência que era feita na Antiguidade entre os sentidos físicos e os sentidos ou faculdades da alma, ou seja, entre os órgãos da percepção sensível e da percepção sutil. Porque, se é possível ao nosso corpo físico perceber o mundo através dos cinco sentidos, a alma pode ver, ouvir, provar, cheirar e tocar graças às suas faculdades sutis. E o processo de unificação do múltiplo, que preside toda iniciação, não terá qualquer problema para permitir que a alma concentre seus cinco sentidos sutis no que é chamado de “quintessência” [2]. Seus sentidos externos, portanto, sendo para isso incapazes. Pouco a pouco, seus sentidos internos nascem, mas eles ainda são frágeis, incapazes de contemplar a plenitude da Luz.

Angustiado, e às vezes vítima de uma vertigem abismal, o homem se olha imaginando quem ele é. Pelo conhecimento de si mesmo, ele percebe sua obscuridade, sua escuridão, suas trevas. Não se trata de negá-los, mas de assumir sua transmutação. Somente quando o buscador tiver sido capaz de mergulhar em sua dimensão de profundidade, em seu fundo sem fundo, é que ele poderá descobrir dentro de si a Luz viva.

É exatamente essa abordagem que é empreendida por nossa busca de desejar a Luz que nos fez procurar ser Maçom. Ela vai encontrar quem a procura e em quem ela habita. Ela gostaria de clarear tudo, sabendo que seu brilho poderia se tornar mortal para um olhar turbado. Então, por compaixão, ela se filtra. De tempos em tempos, para sinalizar sua presença, ela deixa aparecer um brilho comparável em sua brevidade a um piscar de olhos, o mesmo que percebemos inconsciente e furtivamente na Câmara de Reflexão. Esse brilho suave pode ser suficiente para capturar e seduzir aqueles que partiram em sua busca.

No processo empreendido pelo homem portador da Luz, as etapas e as peregrinações são numerosas e longas. Às vezes, o buscador anda em círculos, se cansa, se desespera com os obstáculos e tenta contorná-los. Ele se deixa distrair e corre o risco de esquecer o objetivo de sua viagem. A distância que o separa da Luz lhe parece insuperável e, por compensação, ele se apaixona pelas luzes fracas que o aprisionam. Sua ignorância é pesada e obscurece sua cegueira.  Assim que ele entende que deve purificar seu coração para receber a plenitude da Luz, ele gradualmente se liberta das trevas. Os antigos alquimistas sabiam que, sob sua aparência obscura, o chumbo contém “a flor dourada”. O importante é derretê-lo para que o ouro possa saltar. Assim, o coração do homem, duro e frio como um pedaço de gelo, derrete-se lentamente e dele flui água viva brilhante, toda iluminada por sua própria luz interior: a imagem do Princípio.

Durante sua transformação, o homem não se preocupa. Os textos das Sagradas Escrituras o tranquilizam: “Eu te livrarei de teu chumbo” (Isaías I, 25); “O chumbo é consumido pelo fogo” (Jeremias. VI, 29); “Vossos pecados se tornarão brancos como a neve” (Isaías I, 18). O homem se entristece apenas pela lentidão de seus passos. Ele gostaria de saltar diante da Luz, mas se sente como acorrentado por si mesmo. A Iniciação opera, o homem a recebe com alegria e lhe responde dirigindo seu olhar para a fonte da Luz. Mais ainda, seu olhar como se pregado se torna imóvel. Essa imobilidade é ao mesmo tempo movimento e repouso, confiança dinâmica e abandono.

De repente, eis o homem portador da Luz imerso em sua profundeza suprema. Ele entende que a Luz sempre esteve presente e que ele não sabia. Ela esperava pacientemente ser vista e aceita. Ela se escondia para incentivar a busca. Descoberta, ei-la aqui revelada. Ela ilumina o Homem que respondendo ao seu desejo de Luz, abandona suas próprias trevas.

Uma transformação total ocorre então no homem. Seu coração se torna uma chama comparável àquela que queimava, sem o consumir, a sarça ardente. Para ele, não há mais solidão e isolamento, ele não somente se une à Luz, mas também se une a todos os homens nos quais a Luz está viva através do amor fraternal. Ele participa da existência de criaturas das quais ele percebe o segredo luminoso.  Tudo é, para ele, um espelho refletindo a Luz do Princípio, assim ele amará as pedras, as plantas e os animais. Deslumbrado, o homem de Luz liga incessantemente o visível ao invisível. Agora, eles são um só para ele! Não estando mais estimulado pelos eventos externos e jogado de um lado para outro por eles, ele se liberta das formas e imagens pertencentes ao mundo da manifestação.

O espírito, isto é, o fio da alma ou o nous, tendo recuperado a Luz do Princípio, torna-se criador e, portanto, portador de germes de Vida. A renovação pela Iniciação ocorre no segredo da metanoia, que inicia a transformação gradual das trevas em Luz e de morte em vida. A passagem do obscuro para o luminoso significa a mutação ontológica que vai do múltiplo à Unidade. Assim, a nostalgia da Luz, experimentada naturalmente pelo homem, expressa uma tendência à Unidade, fonte de estabilidade, e o filho da Luz, o puer aeternus, apresenta-se como uma eclosão da Unidade.

Quando o embrião de Luz toma forma nele, o homem descobre seu tesouro de Luz, um pouco como um sol, e ele agora entende a correspondência entre esse sol exterior ou melhor, o Delta Luminoso, e seu sol interior ou a Estrela Flamejante. Um e outro iluminam sem privilegiar. O espaço que eles iluminam nunca é possessivo, daí a dimensão cósmica do homem que se tornou luminoso. Assim, a Luz é a herança do homem que ainda vive no tempo, enquanto se encontra fora do tempo, da maneira que se pode viver no mundo sem ser do mundo.

Todas as tradições, sejam do Oriente ou do Ocidente, fazem alusão, em diferentes linguagens, à busca recíproca da Luz divina e da luz humana. As religiões permanecem focadas na plenitude da luz, na medida em que tentam manter seu momento inicial, mas isso sempre é sobrecarregado por desvios inevitáveis.  Agora, apenas o homem que atingiu a plenitude da era espiritual se torna capaz de estimar os diferentes caminhos, porque se trancar em uma fortaleza fechada só convém aos fracos e pusilânimes. Esta é a razão pela qual, quem estava nas trevas e desejava a Luz, tornou-se maçom. De fato, a verdadeira iniciação, conforme praticada durante o Ritual do REAA, permite satisfazer esse desejo.

Durante a Sessão, o Templo Maçônico, ao mesmo tempo que a Loja, é primeiro sacralizado e transformado em um espaço ritual. Para se tornar seu Centro físico e simbólico, o Painel da Loja deve ser ativado por meio de um Ritual que lhe comunique uma alma e o carregue, de acordo com a mesma lógica que a da abertura dos painéis do retábulo durante um ofício religioso. A partir daí, a imagem é efetivada por meio de uma cosmogonia, uma verdadeira recriação do mundo, mobilizando gestos, silêncio, palavras e … a Luz. Durante sua Iniciação, o Maçom se torna filho da Luz, porque a Luz cria o Maçom como ela criou o Universo. Princípio ativo da Criação, energia infundida no Caos pelo Espírito, a Luz sacraliza o espaço do Painel, portanto, o espaço e o tempo do Templo e da Sessão. Assim, ela própria sacralizada pelo Ritual de Abertura da Loja, emoldurada de Luz e espiritualizada pelas estrelas nos três Pilares cuja iluminação corresponde a um novo Fiat Lux, o Painel espiritualiza, por sua vez, o espaço do Templo, razão pela qual o traçado do Painel não exige nenhum comentário!

A divisa de nosso Rito não é “Ordo ab Chao”? Ela se refere-se à iniciação, à “iluminação”, uma vez que é a vibração original do Fiat Lux que determina o início do processo cosmogônico pelo qual o “caos” será ordenado a se tornará o “cosmos”. As trevas sempre representam, no simbolismo tradicional, o estado de potencialidades não desenvolvidas que constituem o “caos” [3]. A luz está, portanto, bem “depois das trevas”, e isso não apenas do ponto de vista “macrocósmico”, mas também do ponto de vista “microcósmico”, que é o da iniciação, pois, nesse sentido, as trevas representam o mundo profano, de onde vem o recipiendário, ou o estado profano em que ele se encontra primeiro, até o momento exato em que será iniciado “recebendo a Luz”. Pela iniciação, o ser passa, portanto, “das trevas à luz”, como o mundo, em sua origem, passou pelo ato do Verbo criador e ordenador. Assim, a iniciação é verdadeiramente, de acordo com uma característica muito geral dos ritos tradicionais, uma imagem do “que foi feito no começo”.

Nesse sentido, se olharmos em Gênesis I, 1-4, lemos:

“No começo, Elohim criou os céus e a terra. E a terra estava sem forma e vazia, e as trevas sobre um abismo. E o sopro de Elohim pairava sobre a face das águas. Elohim diz: que haja luz! e a luz se fez. Elohim viu a luz: que boa! e Elohim separou a luz das trevas. “

A primeira palavra criadora é “que haja luz”. A vontade original do Criador se relaciona à Luz. A cada criação, “Elohim via que aquilo era bom”, com a diferença de que no primeiro dia é a própria luz que é contemplada e declarada boa. A maravilha divina expressa na exclamação “Elohim viu a luz: que boa!” sublinha a ausência de uma função atribuída à luz. Ela nada produz. Elohim a contempla e a declara boa.  De onde vem ela? Nós o ignoramos. Sabemos apenas que é considerada boa pelo Criador. Podemos considerar, por esse fato, a primeira palavra divina como uma fórmula perfeita de criação. Palavra e criação estão intimamente ligadas nesta primeira fórmula criadora. A proximidade entre a palavra e a existência da luz é tão completa que esta é considerada boa. Do 2º ao 6º dia, “Elohim viu que era bom”, mas o ser criado não é explicitamente nomeado como o sujeito desse julgamento.  No final de 6º dia, “Elohim viu tudo o que havia feito e eis que era muito bom” [4]. Mas no primeiro dia “Elohim viu a luz: que boa!” No Sepher Ha”meq Dabar, comentário sobre Gênesis I, 4, nos é dito: “Em toda criatura, podemos encontrar um elemento, por menor que seja, que não é bom.  Da luz, no entanto, que é absolutamente boa, se diz em nosso texto “que boa”. Não está escrito: “que ela é boa”, porque a expressão “que boa” conota uma qualidade superior àquela expressa no julgamento: “que ela é boa”. Então esse é o ternário do começo: o Criador, o mundo sombrio e caótico e a Luz.

Por outro lado, o cosmos, enquanto “ordem” ou conjunto ordenado de possibilidades, não é apenas extraído do “caos” enquanto estado “não ordenado”, mas ele também é produzido propriamente a partir deste (ab Chao), onde essas mesmas possibilidades estão contidas no estado potencial e “indistinto” e que é assim o ponto de partida “substancial” para a manifestação deste mundo, como o Fiat Lux o é, por sua vez, o ponto de partida “essencial”. De maneira semelhante, o estado de ser anterior à Iniciação constitui a substância “indistinta ou pedra bruta” de tudo o que poderá se tornar efetivamente depois. Mas a Iniciação não pode ter o efeito de introduzir nele possibilidades que não estariam lá em primeiro lugar (e, além disso, essa é a razão de ser das qualificações exigidas como pré-requisito). Mas, essas possibilidades, quando existem, ainda são encontradas apenas no estado “caótico e tenebroso” ou thohû vabohû do Gênesis, e é preciso “iluminação”, ou seja, Iniciação efetiva, para que eles possam começar a se ordenar e, da mesma forma, passar de potência ao ato. De fato, deve ser claramente entendido que essa passagem não ocorre instantaneamente, mas continua durante todo o trabalho iniciático. É o trabalho interior que vem após a iniciação virtual que diz respeito propriamente à iniciação efetiva, que está, em suma, em todos os seus graus, o desenvolvimento “em ato” das possibilidades às quais a iniciação virtual dá acesso. Essa iniciação virtual é, portanto, a iniciação entendida no sentido mais estrito da palavra, ou seja, como uma “entrada” ou um “começo”.

A iniciação é essencialmente uma transmissão de uma influência espiritual, porque é ela que constitui essencialmente a iniciação no sentido estrito.

É precisamente “porque eu estava nas trevas e desejava a Luz”, que me tornei maçom.

Autor: Joseph Blanc Neveu 
Traduzido por: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

Notas

[1] – Henry Corbin, Da Filosofia Profética no Islã Shiita, em Eranos Jahrbuch, 1962, Zurique, 1963, pp.50-51.

[2] – Jean-Michel Pla

[3] – René Guénon, Le Règne de la Quantité et les Signes des Temps, ch. III.

[4] – Gênesis I, 31.

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Pérolas em lojas maçônicas

“A única coisa a fazer com os bons conselhos é passá-los a outros; pois nunca têm utilidade para nós próprios” (Oscar Wilde).

As pérolas têm origem biológica e são produzidas por alguns moluscos, as ostras e mexilhões, em reação a corpos estranhos que invadem os seus organismos, como vermes ou grãos de areia, provocando um tipo de irritação e, ao defender-se do intruso, segregam uma substância branca, brilhante e rica em calcário, o nácar ou madrepérola, que ataca esse agente, cristalizando-se rapidamente, dando origem a um material geralmente esférico.

Apreciadas desde a Antiguidade, com referências que datam de cerca de 2000 anos a.C., simbolizam a pureza e a beleza. Há registros de que durante a Idade Média, nos séculos XIII e XIV, o uso de pérolas era restrito, em muitos países europeus, à aristocracia por força de lei, como símbolo de poder e de riqueza, sendo usadas como adorno nas mais valiosas joias da época.

Variadas são as interpretações simbólicas sobre o processo de formação das pérolas, notadamente quando vistas como o resultado de um processo de cura decorrente de um sofrimento doloroso. Ensina Rubem Alves que “ostra feliz não faz pérola”. Segundo esse autor, “isso é verdade para as ostras e é verdade para o ser humano”.

A presente reflexão derivou-se do conselho de um provecto irmão que se diz calejado e não se surpreende mais com o inusitado. Segundo ele, conforme a situação da Loja, é melhor não argumentar quando a gestão do momento não se abre nem sequer se mobiliza para o incremento dos conhecimentos ou incentivo aos debates e integração, limitando-se a inibir manifestações nesse sentido e a focar apenas na ritualística, às vezes alterando-a a seu bel-prazer, muitas vezes sôfrega e claudicante.

“É como lançar pérolas aos porcos”, afirma ele, “não devemos gastar nosso tempo em produzir trabalhos que causarão mais desconforto do que satisfação, pois não estão ainda prontos para ouvir e debater”, e arremata: “pode ser que na próxima administração tenhamos espaço para contribuições”.

Em Mateus 7,6 Jesus alerta:

“Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem.”

Na alegoria bíblica, porcos e cães eram associados à impureza e ao perigo. No contexto bíblico, a referência envolvia pessoas resistentes ao evangelho que lhes era pregado. Assim, jogar uma pérola ao porco poderia ofendê-lo como se tivesse sido atingido por uma pedra. O gesto de dar pérolas aos porcos pode significar gastar o que temos de precioso com quem não aprecia ou recusa nossa ajuda.

Conforme ensinam nossas instruções, em Loja devemos ser sempre participativos, focados e dedicados aos estudos e aos projetos e atividades sociais aprovados pelos obreiros. Porém, em determinados momentos nossos esforços podem causar mais incômodo do que benefícios, quando a direção da Loja não se orienta pelo trabalho em equipe, não entrega valor aos membros da Loja, interdita ideias e as decisões ficam sempre restritas ao gestor principal, que exclui os demais por deficiências nas habilidades de condução dos trabalhos.

Alguns dirigentes, por insegurança, partem da premissa de que os irmãos mais experientes representam ameaça à sua gestão e tremem diante de seus prestígios e reconhecimentos no meio maçônico, chegando, em determinadas situações, a simular uma pretensa superioridade intelectual e sugerir que os mesmos se recolham, “cada um, às suas próprias insignificâncias ou que forneçam orientações prudentes, da qual se acham donos, para que não sejam criticados”, conforme mensagem direcionada a velhos mestres de uma determinada Oficina longínqua. É cediço que, quando a Coluna da Sabedoria abdica de suas atribuições, abre-se espaço para a intolerância e rupturas.

Gestores com esse perfil procuram apenas e tão-somente desfrutar do prestígio do cargo e a exercer naturalmente o autoritarismo, fomentando a desconfiança, a desagregação, em especial o conflito entre gerações, por acreditarem que os mais velhos, alguns referenciados por eles como “decorebas” de rituais e de poemas, são vazios de conhecimento e sabedoria e não têm mais como contribuir e os mais jovens nada com eles a aprender e muito a ensinar-lhes. E pasmem, a depender do perfil de um candidato em especial, atrevem-se a insinuar que a Loja não tem Mestres com estofo suficiente para orientar aquele “tal” de currículo supremo e lustroso que, já deveria, de plano, ser Iniciado, Elevado, Exaltado e quem sabe, conduzido ao Veneralato!

Em muitas situações, esses gestores demonstram favoritismos, impõem suas decisões sem discussão em Loja e promovem o cancelamento dos que porventura representem alguma ameaça. Nesse sentido, merece destaque um depoimento colhido em uma reunião de estudos por videoconferência onde a venerabilidade teria se regozijado, em evento social, de que teria tido sucesso em silenciar algumas estrelas da Loja por ele consideradas decadentes. E é essa postura desafiadora que os acalentam. Normalmente, não zelam pela harmonia, pelo diálogo e pela construção, e sentem certa atração pelo caos, olvidando que o bom legado de cada gestão é que dá sustentação para a caminhada dos obreiros e o fortalecimento da Oficina.

Nesse cenário burlesco, não faltam os que sempre aplaudem e compõem um grupo exclusivo de aduladores, incentivadores desse tipo de comportamento, que outro irmão irreverente e certeiro nas curtas mensagens classifica de “babaovistas” (derivado do pejorativo baba-ovo), atributo dos bajuladores contumazes. Isso para não falar daqueles que, por conveniência ou pusilanimidade mesmo, mantêm-se “em cima do muro” ou só querem receber paparicos. Esses, respaldando-nos na lição de Rubem Alves, não sofrem e não produzem pérolas.

Para ilustrar, citamos o exemplo de uma manifestação em um grupo de conversas de uma hipotética Loja de Oriente distante, quando o Venerável, resistente aos avanços tecnológicos, pouco afeito à liturgia do cargo e usuário do malhete como porrete, afirmou que não haveria reunião por videoconferência durante sua gestão: “Perfeeeiiito! Concordo plenamente com o nosso poderosíssimo e amantíssimo Venerável”, postou em áudio um irmão chegado a superlativos. Outro apoiador sentenciou: “comentários a respeito de instruções maçônicas somente em sessão ritualística, fora disso é uma excrescência”. Seguiu-se silêncio obsequioso, observando-se a conveniente prudência, segundo a fonte.

Prossegue o desabafo. Um “iluminado conselheiro para as Lojas dos outros”, teria ainda perguntado: “mas os demais não fazem nada, acatam simplesmente?” Redarguiu o irmão: “quem tenta argumentar leva pancada de bate-pronto e é tachado de pavão e convidado a recolher as plumas, com o lembrete de que a porta da rua é serventia da casa, além de outros devaneios, recados tortos e ironias, estas notadamente dirigidas aos associados de Lions, Shriners ou aos que chegaram ao topo da pirâmide. Então é melhor ser paciente e exercitar a tolerância, pois essa gestão passará logo e, pelo visto, deixará um histórico de desacertos, mágoas e baixas no quadro de obreiros!”. Nesse contexto, nunca se mostrou tão consistente a frase indevidamente atribuída a Abraham Lincoln: “Quer conhecer o caráter de uma pessoa? Dê-lhe poder!”. Mutatis mutandis, in casu, um malhete.

Mas, questiona-se: é isso mesmo? Dúvida de um jovem e perplexo Aprendiz:

“Existe um balcão de reclamações na Maçonaria? De preferência anônimo, para evitarem-se eventuais constrangimentos e não atrasar ainda mais a minha Elevação? [no caso foi utilizada a linguagem dos videogames: ‘passagem de fase’].”

Sabe-se que nos bastidores dessa improvável Loja o assunto continuaria rendendo, ao amparo do “truquezinho do entre colunas”. Dizem que chegou a ser cogitada uma DR até o fim da gestão, da qual não se tem notícias.

Se o irmão teve perseverança para ler até aqui e não se lembrou de nenhuma situação semelhante (Glória a Deus!), que fique bem claro que esta prancha não tem endereço específico e nem pretende dar conselhos ou dizer o que os componentes dessa ou de outras Lojas devam fazer em tais situações, caso venham a ocorrer, o que não acreditamos. As Lojas são autônomas quanto à gestão. Por outro lado, cautelarmente, qualquer eventual semelhança com a realidade, como sempre, terá sido mera coincidência mesmo. A proposta é apenas a de suscitar reflexões. Quem sabe dar origem a uma nova e valiosa pérola.

Enfim, na condição de maçons, o exemplo que precisamos ter sempre em nossos corações são as palavras de Tertuliano (c.160 – c.220) a respeito dos primeiros Cristãos, onde o afeto fraterno chamava a atenção dos pagãos, que assim a eles se referiam: “vejam como eles se amam entre eles” (Vide, inquint, ut invicem se diligant).  

“Uma palavra escrita é semelhante a uma pérola.” (Goethe)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da Loja Maçônica Águia das Alterosas Nº 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte; Membro Academia Mineira Maçônica de Letras e da Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras; Membro da Loja Maçônica de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda; Membro Correspondente Fundador da ARLS Virtual Luz e Conhecimento Nº 103 – GLEPA, Oriente de Belém; Membro Correspondente da ARLS Virtual Lux in Tenebris Nº 47 – GLOMARON, Oriente de Porto Velho; colaborador do Blog “O Ponto Dentro do Círculo”.

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Para que nos reunimos aqui?

Logo no início dos trabalhos de Aprendiz Maçom, o Venerável Mestre, ao indagar o 1º Vigilante sobre os motivos da realização da reunião, tem como resposta:

“Para combater a tirania, a ignorância, os preconceitos e os erros, e glorificar o Direito, a Justiça e a Verdade, para promover o bem-estar da Pátria e da Humanidade, levantando Templos á virtude e cavando masmorras ao vício.”

Apesar do assunto ser bem trabalhado na sessão de Iniciação, a intensidade da cerimônia talvez não atraia a atenção necessária. Lado outro, talvez tal resposta seja uma das mais importantes para a vida do maçom. Muitas vezes, afetado pelos problemas do dia a dia, o maçom pode se indagar: por que continuo maçom? Para que serve mesmo a reunião? 

A resposta está no próprio ritual e é repetida, reiteradamente, toda reunião.

Necessário nos aprofundarmos sempre no ensinamento ali contido:

“(…) combater a tirania, a ignorância, os preconceitos e os erros (…)”

Vejam meus irmãos que a ideia aqui é mostrar ao maçom que ele deve sempre preservar o livre pensamento da pessoa humana, preservando-o das adversidades do mundo profano. Se volvermos nossos olhos à época de fundação das primeiras lojas maçônicas e da edição de nossos landmarks, constataremos que toda a doutrina maçônica se baseia no ideal iluminista, que tinha como pensadores pessoas como Descartes, Adam Smith, Diderot e Montesquieu, entre outros. O movimento iluminista que serve como pano de fundo para a maioria das revoluções do século XVIII, como a Revolução Francesa, a Revolução Americana e até mesmo a nossa Inconfidência Mineira (uma tentativa frustrada de revolução).

Tal doutrina tem como elemento principal o direito de o cidadão viver e agir de maneira digna, reduzindo, sensivelmente, o poder do Estado sobre o indivíduo. A partir daí, valorizam o pensamento racional (e daí o direito de questionar até mesmo o Estado), os direitos naturais (que nascem com ele) e a crítica a governos autoritários, com ampla liberdade política, econômica e religiosa.

A ideia do maçom de se combater os tiranos é exatamente de evitar render louvores a posições autoritárias, com supressão pelo Estado de direitos individuais do cidadão. O ritual vai além e exige do maçom que ele não se renda aos preconceitos e à ignorância, ou seja, que lute contra o posicionamento típico daqueles que levam o pensamento dogmático (muitas vezes nutridos por uma religiosidade sem questionamento), literalmente.

Não cabe ao maçom apenas cumprir sem questionar! O maçom é um pensador na essência e, como tal, tem a obrigação de questionar.

Propagar ignorância (ausência de estudo sobre um determinado termo) ou preconceito (opinião desprovida de um mínimo de pensamento crítico), é vedado ao maçom. Necessário um especial cuidado!

Mas daí poderíamos pensar: Ora, então cabe ao maçom desrespeitar deliberadamente as autoridades? Não é esse o ideal maçônico…

O ritual diz:

“(…) glorificar o Direito, a Justiça e a Verdade, para promover o bem-estar da Pátria e da Humanidade, levantando Templos á virtude e cavando masmorras ao vício(…)”

A primeira parte de tal frase chama a atenção por usar os termos Direito, Justiça e Verdade em letra maiúscula. O uso do termo “Direito” com letra maiúscula é a consagração da “ciência do Direito”. Se partirmos do princípio de que o REAA é originalmente em inglês, a palavra original seria o termo “law” e não “right”. Por força do nosso idioma, o termo Direito (como ciência) e direito (certo, correto) são palavras homônimas, mas não são sinônimas. O uso da palavra varia conforme o significado.

Quando o ritual opta pelo Direito como ciência, diz que cabe ao maçom respeitar a ciência do Direito, aí incluindo, especialmente, nossa Constituição Federal (norma máxima e base do Estado Democrático de Direito). O respeito à Constituição pressupõe o respeito às autoridades constituídas.

Ou seja, cabe ao maçom questionar racionalmente, mas jamais propor o desrespeito às leis; jamais propagando a desobediência civil.

E o ritual continua pregando o respeito da Justiça e da Verdade. Aqui, uma vez mais, o termo Justiça não advém da noção de “justo ou injusto”, noção totalmente individual. O que é justo para mim pode não ser para o meu irmão e vice-versa.

A noção de Justiça que o ritual traz, interpreto como sendo a autoridade judiciária; ou seja, respeito àquele a quem a nossa Constituição dota o poder de “dizer o Direito”, o que a doutrina jurídica chama de jurisdição. Assim, nossos juízes são as pessoas a quem a Constituição deu o poder para definir o que é justo ou injusto, dentro dos limites da própria Constituição.

A noção de Verdade talvez seja um dos principais deveres do maçom, especialmente em época em que o ser humano tem acesso infinito à informação (de todos os tipos), com o uso do sistema mundial de computadores. Nosso ritual exige que apenas propaguemos a verdade. Devemos ter noção de saber muito bem diferenciar a opinião (livre convicção do indivíduo) do que é fato (verdade indiscutível).

Em época das malfadadas “Fake News”, o maçom deve ser um catalisador de informações, tendo o dever de apenas passar à frente aquilo que seja fato e de desmentir o que seja falso! É nosso dever saber e propagar o que é verídico! Apenas com a estrita observância de nossos ensinamentos é que sairemos de casa com a justa consciência do objetivo de nossas reuniões, lembrando que, se nos desvirtuarmos de nosso objetivo, nos desvirtuaremos como maçons.

Autor: Fernando Ramos Bernardes Dias

*Fernando é ex-Venerável Mestre da ARLS Renovação e Progresso, nº 250, do oriente de Patrocínio, jurisdicionada à GLMMG.

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

A caminhada do maçom

Sei que minha caminhada tem um destino e um sentido, por isto devo medir meus passos, devo prestar atenção no que faço e no que fazem os que por mim também passam ou pelos quais passo eu… 

Que eu não me iluda com o ânimo e o vigor dos primeiros trechos, porque chegará o dia em que os pés não terão tanta força e se ferirão no caminho, cansando-se mais cedo… Todavia, quando o cansaço houver chegado, que eu não desespere e acredite que ainda terei forças para continuar, principalmente, quando houver quem me auxilie… 

É oportuno que em meus sorrisos eu me lembre de que existem os que choram e, assim, que meu sorriso não ofenda os que sofrem. Por outro lado, quando chegar a minha vez de chorar, que eu não me deixe dominar pela desesperança, mas que eu entenda o sentido do sofrimento que me nivela, que me iguala, que torna todos os homens iguais… 

Bota nos pés e chapéu na cabeça e, assim não temer o vento e o frio, a chuva e o tempo, que não me considere melhor do que aqueles que ficarão para trás, porque pode vir o dia em que nada mais terei para a jornada e aqueles que ultrapassei na caminhada me alcançarão e poderão, como eu fiz, nada de fato fazerem por mim, que ficarei no caminho sem concluí-lo… 

Quando o dia brilhar que eu tenha vontade de ver a noite em que a caminhada será mais fácil e amena, porém quando for noite e a escuridão tornar mais difícil à chegada, que eu saiba esperar o dia como a aurora o espera, que eu saiba esperar o calor como Bênção… 

Que eu perceba que sozinho a caminhada pode ser mais rápida, mas que é mais vazia… 

Quando eu tiver sede que encontre a fonte no caminho e quando me perder que eu ache a indicação, o sentido… 

Que eu não siga os que se desviam. Mas, principalmente, que ninguém se desvie seguindo os meus passos… 

Que a pressa em chegar não me afaste da alegria de ver as flores à beira do caminho, que eu não perturbe a caminhada de ninguém, e que perceba, que se seguir faz bem, às vezes é preciso ter-se a bravura de voltar atrás e recomeçar e tomar outra direção… 

Que eu não caminhe sem rumo, que eu não me perca nas encruzilhadas, tampouco não tema os que assaltam e os que embuçam, mas que eu vá aonde devo ir. E, se eu cair no meio do caminho, que fique a lembrança de minha queda para impedir que outros caiam no mesmo abismo… 

Que eu chegue sim, mas ainda mais importante é que eu faça chegar quem me perguntar, me pedir conselho e, acima de tudo, que continuem a me seguir, apoiando em mim, porque Maçom, meus irmãos como tal me reconhecem.

Autor: Geraldo M. de Castro

Fonte: JB News – Informativo nº 183 – 26/02/2011

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

%d blogueiros gostam disto: