Tiradentes e a semente da independência: a quebra de dormência aconteceu em Minas (Parte II)

Do grupo de intelectuais que se revelaram na literatura, três poetas tiveram participação decisiva na Conjuração – Cláudio, Gonzaga e Alvarenga Peixoto, ao lado de juristas formados em Coimbra, além de padres, comerciantes e militares, alimentando um fervedouro cultural e social orientado pelo sonho de independência do Brasil do domínio português, principalmente após a repercussão da independência dos EUA em 1776, com a ajuda de liberais franceses, quando “exemplares da Constituição Americana, em traduções francesas, tendo como preâmbulo a Declaração de Direitos, andavam às escondidas, como livros heréticos, sendo lidos e comentados, em segredo, pelos grupos de iluministas disfarçados e alojados em toda a parte, nos navios, na tropa, nas repartições públicas, nos conventos e seminários” (LIMA JÚNIOR, 2010). Repercutia-se a notícia de que, dos 56 homens que assinaram a Declaração de Independência dos Estados Unidos, em 4 de julho de 1776, muitos eram maçons, incluindo Benjamin Franklin e o próprio George Washington.

A moderna Maçonaria tem como referência o ano de 1717 (ou 1721 para os puristas), quando se estabeleceu Londres, em seguida estendendo-se por toda a Europa[1]. No que se refere à maçonaria no contexto do Brasil, inobstante pilhérias e manifestações desrespeitosas de luminares lacradores, atualmente turbinadas pelos componentes de um etéreo tribunal das redes sociais, é recorrente o argumento de que ela não teria atuado na Inconfidência Mineira pela inexistência de Lojas regulares à época, já que a instalação da primeira Loja Simbólica reconhecida teria ocorrido apenas em 1801, com o nome de “Reunião”, no Rio de Janeiro, filiada a uma Obediência francesa. É por demais sabido que a maçonaria naquele tempo era uma sociedade secreta e clandestina, não admitida em território brasileiro, assim como na Metrópole, onde seus membros eram perseguidos e presos.

Qualquer tentativa de regularização de uma “Loja” local junto a uma das Obediências Inglesa ou Francesa naquele período poderia ser considerada um ato suicida. Segundo vários registros, bastaria ter livros escritos em francês ou possuir a constituição dos Estados Unidos para que um cidadão fosse perseguido, preso e processado por alta traição. Merece destaque a observação de JARDIM (1989), no sentido de que “a atuação da Maçonaria foi importante, mas, paradoxalmente, secundária, porque seu papel foi apenas o de aglutinar elementos e ideias predispostos por condições estruturais ao movimento de independência”.

Daquele grupo de estudantes mineiros que frequentavam cursos de universidades europeias, alguns foram iniciados na maçonaria francesa por volta de 1776 e passaram a arquitetar a libertação da sua terra natal, com destaque para José Álvares Maciel, José Joaquim da Maia, Domingos Vital Barbosa, José Pereira Ribeiro, José Mariano Leal…. “todos de vinte e poucos anos, que iam e vinham portadores de ideias contagiosas, que pegavam nos outros” (OLIVEIRA, 1985). Para CASTELLANI (1992) “Consta que Maia, Maciel e Vital Barbosa, entre outros, foram maçons, o que é plausível, pois a Maçonaria europeia já era bastante pujante, principalmente na França e na Inglaterra”. Complementa, afirmando que “Em 1776, na França, já existiam 547 Lojas, dez das quais estavam localizadas em Montpellier, que, por sua grande atividade universitária, tinha, também, grande atividade maçônica, pois a Maçonaria da época reunia o topo da intelectualidade europeia”.

Na sua obra “Gonzaga e a Inconfidência Mineira”, ALMIR DE OLIVEIRA (1985) comenta que “na Vila Rica daqueles tempos havia um grupo de literatos, que formava a Arcádia Ultramarina. Eram intelectuais, que se reuniam em sessões, onde se debatiam coisas do espírito. Poetas e juristas. E clérigos. É natural que, num ambiente de inteligências polidas, afeitas ao trato de problemas humanos, surgisse a ideia de fazer-se de Minas, quiçá do Brasil, um Estado livre, nos moldes da República americana do norte”. PEDRO CALMON (História do Brasil, 4º Vol. p. 1.248), citado em nota por ROBERTO LETTIÈRE (2001), registra que “o ‘clima’ do fim do século era nefasto aos congressos intelectuais. Nem estes eram apenas intelectuais. A Maçonaria repontara, instalava-se, estendia-se. Não seria de admirar que as esdrúxulas Academias….fossem… conventículos de pedreiros-livres…”.

A Comarca de Vila Rica, perto dos anos 1780, passou a ser dominada pelas ideias sobre progresso das ciências, necessidade de se estudarem as riquezas do país e a possibilidade de se construir uma nação separada de Portugal. Mas, as efetivas tratativas pelo grupo mais restrito dos conjurados tiveram curta duração, iniciando-se em meados de 1788 com a chegada “ao Rio de Janeiro, de regresso da Universidade de Coimbra, de uma larga viagem por alguns países da Europa, entre eles a Inglaterra, o jovem José Álvares Maciel, que se filiara à maçonaria e que participara das conversações para que se obtivesse o apoio de alguns países para o levante no Brasil” (LIMA JÚNIOR, 2010).

Tiradentes, nas suas andanças, expunha as muitas queixas que os mineiros tinham de seus governadores e acrescentava, sem restrições, que eles assolavam a Capitania e a garroteavam com seu despotismo, demonstrando que vinham aqui para enriquecer-se à custa do povo, conforme esclarecimento prestado pelo Padre Manoel Rodrigues da Costa, em depoimento na Devassa (Vol. 1º, pag.154). Argumentava que estes ficavam abastados ou então voltavam com grandes haveres à Metrópole, enquanto os mineradores, ainda quando senhores de muitas catas, não conseguiam a prosperidade que lhes era lícito ambicionar, pois eram despojados pela nefanda política dos quintos do ouro (JOSÉ, 2019). Os habitantes de Minas Gerais estavam asfixiados política e economicamente. Distantes dos portos achavam-se “fechados, encurralados numa estrutura econômica que precisava ser mudada, a fim de dar vazão à sua capacidade empresarial, cujos interesses são eram mais os da Metrópole, nem se atinham apenas e exclusivamente à atividade mineradora” (JARDIM, 1989).

Às vésperas do malogro da conjuração, a Tiradentes foram ainda atribuídos os apelidos de “República e Liberdade”, “Corta-vento e Gramaticão”, como resultado do entusiasmo e insistência com que empregava essas palavras nas conversações pré-revolucionárias, demonstrando como era do conhecimento amplo sua pregação, aberta, livre de receios, destemerosa. A propósito dos apelidos de Tiradentes, segundo OILIAM JOSÉ (2019), desde os primeiros momentos de sua atribulada civilização, apreciavam os mineiros o hábito de atribuir apelidos aos que viviam em sua sociedade, ora por certas semelhanças e do exercício de profissões, ora os tiravam de vícios e virtudes possuídos ou de hábitos, filiação e outros elementos. A alcunha “o Tiradentes” atribuída a Joaquim José da Silva Xavier é um exemplo.

O Visconde de Barbacena, Luís Antônio Furtado de Mendonça, como governador e Capitão-General da capitania de Minas Gerais, assumira o cargo em 11 de julho 1788, sucedendo a Luiz da Cunha Meneses, e recebera instruções da Corte Portuguesa para superar a herança maldita daquele momento, representada pela queda da arrecadação dos impostos resultante da decadência da mineração, e a viabilizar a urgente necessidade de cobrança dos atrasados. Nesse contexto entra em cena a ameaça da trágica derrama e aceleram-se as tratativas sobre a conjura. A insatisfação representava o clima espiritual da Capitania.

Curiosamente, nas instruções recebidas pelo Visconde constava o alerta de Martinho de Melo e Castro, então Primeiro Ministro e secretário de Estado da Marinha e do Ultramar entre 1770 e 1795, que já tinha conhecimento da predisposição das gentes de Minas para uma revolta, quando alertou: ”Entre todos os povos de que se compõem as diferentes capitanias do Brasil, nenhum talvez custaram mais a se sujeitar e reduzir à devida obediência e submissão de vassalos ao seu soberano, como foram os de Minas Gerais”. Outro Ministro Ultramarino, Antônio Rodrigues da Costa, bem antes, em 1732, já havia assinalado: “Essas imensas riquezas são que naturalmente fazem aqueles soberbos, inquietos, mal sofridos e desobedientes” (BRANT, 1991). A semente já fora detectada no solo mineiro desde longa data.

Nos preparativos da rebelião, nas casas de Cláudio Manuel e Tomás Gonzaga tratavam-se programas de doutrina e planos de organização política do projetado Estado. A casa do Tenente-Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade era o quartel-general onde se traçavam as operações militares do levante.

Porém, como resultado da traição de Silvério dos Reis, todo o sonho da independência em Vila Rica encerrou-se em maio de 1789, transformando-se em pesadelo com a prisão dos envolvidos. Com a destruição dos documentos antes da apreensão dos conjurados e a adulteração de muitos depoimentos pelos juízes, a verdadeira história do movimento “tornou-se muito obscura e difícil de reedificada”.

Resumiu-se, assim, aos papeis oficiais contidos nos Autos da Devassa de natureza sumária e inquisitorial, eivadas de vício, sem ter havido qualquer contraditório, pela impossibilidade de arrolar e fazer ouvir testemunhas, e prestando-se, portanto, aquele período a especulações de toda ordem. Vitoriosa a repressão, resta-nos o consolo de saber que a beleza da germinação e a verdade, símbolos do perene anseio de libertação da alma humana, estavam ao lado dos derrotados, mas não vencidos. E esse é um desafio aberto aos pesquisadores e muito existe ainda a ser esclarecido, inclusive no que se refere ao efetivo rol dos conjurados.

As narrativas existentes sobre a Conjuração Mineira não identificam uma liderança em especial por parte de algum membro. Tiradentes chegou a declarar que o movimento não tinha chefe. Todos os envolvidos negaram participação no movimento, exceto o próprio Tiradentes que, conservando extrema dignidade durante os longos meses de interrogatório, afinal assumiu toda a responsabilidade de chefia, imolando-se por uma pátria livre e demostrando um grandioso gesto de fraternidade.

Rematando o processo, ficou a sentença aos réus da Conjuração, fruto das devassas iniciadas, a primeira no Rio de Janeiro em 7 de maio e, a segunda, em Minas, em 12 de junho de 1789, com duração de quase três anos, com o encerramento na capital, no Rio de Janeiro, em 18 de abril de 1892, com 11 conjurados condenados à morte, o sequestro de bens e familiares declarados infames e todo o sofrimento daí decorrente. O simples envolvimento, mesmo que superficial, e nada reportar às autoridades, era considerado crime de lesa-majestade, isto é, de traição contra a pessoa do Soberano ou de seu Real Estado, conforme definido no Título VII, do Livro V, das Ordenações Filipinas, sancionadas em 1595, punível com execução pública e sequestro de bens, além de ter os familiares condenados à infâmia. “Inconfidência” significava crime de lesa-majestade.

Entretanto, um decreto de D. Maria I (que já estava pronto e aguardando o momento apropriado) anunciado no dia seguinte, comutou a pena de morte de todos em degredo, à exceção de Tiradentes, que foi executado em 21 de abril de 1792 (sábado), às onze horas e vinte minutos, tendo seu corpo tratado com crueldade, como o fora Filipe dos Santos, exemplo para os moradores da Província e advertência para que ninguém ousasse tramar contra o reino de Portugal. Enforcaram e esquartejaram o homem Tiradentes, mas não as suas ideias e sonhos.

Pagou-se, naquele momento, o preço pela audácia de vislumbrar a data da derrama, estrategicamente suspensa no dia 23 de março de 1789, como sonho para deflagrar a frustrada revolta emancipadora contra a opressão e a exploração por parte da Coroa Portuguesa, interrompida pelo gesto da traição, permitindo a reação violenta do governo.

Faltou ousadia aos conjurados, dizem alguns críticos, que teriam colocado nas mãos do inimigo o estopim do levante ao fazer da Derrama o início da rebelião. Por outro lado, nas palavras de CELSO BRANT (1991):

 “a Inconfidência Mineira não é um movimento episódico, mas essencial: é um dos grandes momentos da multissecular luta da libertação dos povos e dos indivíduos. Ao lado das razões objetivas que então surgiram, entre as quais se incluíam, naturalmente, a insatisfação dos que criavam riquezas e as viam levadas para a metrópole, encontravam-se as razões essenciais, eternamente presentes na história humana: o desejo que cada povo tem de se autodeterminar, isto é, de escolher a sua forma de governo e os seus governantes”….”Admitir que a Inconfidência tenha chegado ao fim com o sacrifício de Tiradentes, seria o mesmo que aceitar que o Cristianismo terminou com a morte de Cristo na cruz quando, na realidade, foi ali que começou”.

Naquele grandioso episódio, prelúdio da independência nacional, a emergência e florescimento da semente da liberdade já era uma realidade, quando foram então edificadas as bases para as mudanças que se tornaram realidade com a frutificação da liberdade apenas 30 anos depois, proclamada por D. Pedro, neto de Dona Maria I, em 1822, e que neste ano temos o privilégio de comemorar o bicentenário.

E para não dizer que não falamos das flores (Vandré), raízes dessa semente não ficaram contidas e se disseminaram, com emergências na Revolução dos Alfaiates ou Conjuração Baiana (1798) e na Revolução Pernambucana de 1817. Para o escritor, filósofo e poeta estadunidense Ralph Waldo Emerson (1803-1882), “o pensamento é a semente da atividade”. Diz um Provérbio Latino: “a esperança da colheita reside na semente” (spes messis in semine).

Dissertando sobre o valor do sacrifício, OILIAM JOSÉ (2019), afirma que o mesmo foi utilíssimo à causa da Independência, pois fez crepitar, com maior intensidade, na alma brasileira, a chama emancipadora que, no momento propício, separado da execução do líder da Conjuração Mineira por apenas 30 anos, nos deu a liberdade para orientar nosso destino político.

Ainda segundo esse autor: O esmagamento da Conjuração e os excessos com que feriram seus revolucionários se colocam entre as causas que mais direta e poderosamente antecipa o triunfo do 7 de setembro…. E, para a compreensão dessa cadeia de causas e consequências, basta lembrar a poderosa influência exercida pelos mineiros José Joaquim da Rocha e Pe. Belchior Fernandes Pinheiro, respectivamente nos episódios do Fico e do Grito do Ipiranga. Eles trazem consigo os mesmos ideais que haviam animado a ação revolucionária de Tiradentes e procuraram concretizá-la em vitoriosa ação política, ao poderem influir sobre o ânimo de D. Pedro, o Regente.

O primeiro [José Joaquim da Rocha] aparece como sendo o verdadeiro responsável pelo Fico e é inegável que esse episódio marcou praticamente a separação política entre Brasil e Portugal. Conspirou com outros ilustres brasileiros em prol da independência nacional.

José Joaquim da Rocha (1777-1848), mineiro de Mariana, que ocupou influentes posições sociais e políticas no Rio de Janeiro, organizou em sua casa da Rua da Ajuda, 64, em dezembro de 1821, o “ardoroso Grupo da Independência, formado para convencer o Príncipe Regente a ficar no Brasil em cuja composição estava pelo menos mais cinco mineiros: Tenente Coronel Joaquim José de Almeida, Innocêncio Maciel da Rocha, Juvencio Maciel da Rocha, Pedro Dias Paes Leme e Paulo Barbosa da Silva” (JOSÉ, 2019). Com a chegada ao Rio de Janeiro das novas ordens de Lisboa para o retorno do Príncipe Regente a Portugal, José Joaquim da Rocha criou o Clube da Resistência, enviando emissários às províncias de São Paulo e Minas Gerais em busca de apoio; José Clemente Pereira, presidente do Senado da Câmara do Rio de Janeiro, começou a colher assinaturas pedindo ao príncipe que ficasse. A partir de então, nova página se abre na nossa História, marcando o início do processo da efetiva Independência.

Ao segundo [Padre Belchior], mineiro decidido, pertence o conselho dado a Dom Pedro, às margens do Ipiranga, de que não era mais possível recuar no processo de desligar nosso País da tutela do soberano luso. Conforme registra LAURENTINO GOMES (1822, p.36): Quatro anos mais tarde, em depoimento por escrito, padre Belchior registrou o que havia testemunhado a seguir: “E agora, padre Belchior?” – Eu respondi prontamente: “Se vossa alteza não se faz rei do Brasil, será prisioneiro das cortes e, talvez, deserdado por elas. Não há outro caminho senão a independência e a separação…”.

No que se refere ao reconhecimento da figura de Tiradentes, o Decreto nº 155-B, de 14 de janeiro de 1890, do Governo Provisório, declarou os dias de festa nacional, decretando, dentre outras datas, o 21 de abril, no aniversário da morte Tiradentes (1746-1792), precursor da independência, dia de festa nacional e resgatando a sua importância na história brasileira, na condição de Herói Nacional.

Em nove de dezembro de 1965, pela Lei 4897, Tiradentes foi proclamado Patrono Cívico da Nação Brasileira, evidenciando que “a sentença condenatória de Joaquim José da Silva Xavier não é labéu que lhe infame a memória, pois é reconhecida e proclamada oficialmente pelos seus concidadãos, como o mais alto título de glorificação do nosso maior compatriota de todos os tempos”.

Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, figura emblemática e reconhecida como Protomártir da Independência, Patrono das Polícias Militares e Civis do Brasil e Patrono Cívico da Nação Brasileira, foi o primeiro personagem a estrear, em 21 de abril de 1992, o “Livro dos Heróis e das Heroínas da Pátria”, produzido com páginas de aço e que registra os nomes dos heróis oficialmente reconhecidos pelo Brasil, instalado no Panteão da Pátria Tancredo Neves, localizado na Praça dos Três Poderes, em Brasília.

A semente se mantém viável por longo período, aguardando condições adequadas para germinar, o que ocorre em diferentes pontos, momentos e locais.

Finis

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da Loja Maçônica Águia das Alterosas Nº 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte; Membro Academia Mineira Maçônica de Letras e da Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras; Membro da Loja Maçônica de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda; Membro Correspondente Fundador da ARLS Virtual Luz e Conhecimento Nº 103 – GLEPA, Oriente de Belém; Membro Correspondente da ARLS Virtual Lux in Tenebris Nº 47 – GLOMARON, Oriente de Porto Velho; colaborador do Blog “O Ponto Dentro do Círculo”.

*Trabalho apresentado em 02.04.2022, na solenidade de comemoração de 29 anos de fundação da Academia Mineira Maçônica de Letras – A Casa de Tiradentes, como parte do Ciclo de Palestras Sobre a Inconfidência Mineira, em parceria com o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais – A Casa de João Pinheiro, Polícia Militar do Estado de Minas Gerais, Grande Loja Maçônica de Minas Gerais, IHG de Congonhas, IHG de Tiradentes e Academia de Letras Guimarães Rosa da PMMG.


[1] Ver artigos publicados em 23 e 26.04.21 em:

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Referências

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ALENCAR, Francisco. História da Sociedade Brasileira, 3ª Edição. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1985;

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BARROSO, Gustavo. História Secreta do Brasil – Volume 1. Porto Alegre: Editora Revisão, 1990.

BRANT, Celso. Tiradentes e a Libertação Nacional. Rio de Janeiro: Editora da Mobilização Nacional, 1991;

CÁCERES, Florival. História do Brasil. São Paulo: Moderna, 1995.

CASTELLANI, José. A Maçonaria e o movimento republicano brasileiro. São Paulo: Editora Traço, 1989;

CASTELLANI, José; COSTA, Frederico Guilherme. A Conjuração Mineira e a Maçonaria que não houve. Londrina: Editora A Gazeta Maçônica, 1992.

D’ALBUQUERQUE, A. Tenório. A Maçonaria e a Inconfidência Mineira.  Rio de Janeiro:  Aurora, 1960.

DÓRIA, Pedro. 1789: A História de Tiradentes e dos contrabandistas, assassinos e poetas que lutaram pela independência do Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014;

FERREIRA, Tito Lívio; Manoel Rodrigues. A Maçonaria na Independência Brasileira – Volume I. São Paulo: Gráfica Biblos, Ltda.- Editora, 1972;

FURTADO, João Pinto. O Manto de Penélope: história, mito e memória da Inconfidência Mineira de 1788-9. São Paulo: Companhia das Letras, 2002;

GOMES, L. 1822: como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram Dom Pedro a criar o Brasil, um país que tinha tudo para dar errado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010;

GOMES, Márcio dos Santos. Tiradentes: o legado de um herói em xeque. Revista Libertas Nº 22, janeiro a abril de 2021, da AMML: em https://drive.google.com/file/d/1FamQOVX8-OrXzfls8nkx8p1tI2h2_qWu/view;

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Tiradentes e a semente da independência: a quebra de dormência aconteceu em Minas (Parte I)

“… O primeiro compromisso de Minas é com a liberdade. Liberdade é o outro nome de Minas.…” (Tancredo Neves: discurso de posse no governo de Minas Gerais em 15 de março de 1983).

A expansão territorial do que viria a contribuir para a delimitação do domínio português na maior parte do Brasil como hoje conhecemos deu-se a partir dos séculos XVII e XVIII, por obra de vaqueiros, dos jesuítas e das entradas e bandeiras. Até então, a colonização se restringia à região costeira, onde vários fortes foram construídos para afastar os invasores provenientes das nações que foram excluídas do Tratado de Tordesilhas, que dividiu o Novo Mundo descoberto e por descobrir entre portugueses e espanhóis.

Até meados do século XVII, a autonomia política dos colonos era relativamente grande. O Brasil era um Estado da monarquia portuguesa, chamado de “Província do Brasil”. A partir da Restauração em 1668 – independência de Portugal em relação à Espanha, a soberania da nova dinastia governante foi estabelecida. Os colonos, sentindo-se explorados, mudaram a visão em face da dominação portuguesa, aflorando sentimentos de revolta contra a nova política para o Brasil.

Com a queda das exportações do açúcar nordestino, frente à concorrência da produção dos espanhóis e ingleses, e dos holandeses e franceses (expulsos do Nordeste) nas Antilhas, no final do século XVII, deu-se início ao chamado ciclo do ouro, gerando grande fluxo de pessoas do litoral nordestino e de Portugal para o garimpo na região produtora das minas, referenciado como montanhoso solo onde o ouro “se desprendia dos ricos veios e se derramava abundante pelos caldeirões e areias dos regatos”. Para custear suas importações, a Coroa portuguesa necessitava do ouro e prata de suas colônias. As primeiras descobertas de ouro ocorreram na região do atual Estado de Minas, em 1695, quando as bandeiras então se dirigiram para a área e, em seguida, para o Centro-Oeste.

Em 1702 foi criada a Intendência de Minas, com a função de controlar e fiscalizar a distribuição, o arrendamento e a produção das jazidas e cobrar o quinto, ou seja, os 20% da produção total. Com o contrabando do ouro em pó correndo solto, a Coroa criou as Casas de Fundição, em 1720. O ouro passou a ser fundido em barras, assegurando a cobrança do imposto. As descobertas de ouro e diamantes no Distrito Diamantino levaram o rei de Portugal, dom João V, a criar a Intendência dos Diamantes logo a partir de 1729, decretando o monopólio da Coroa.

Os primeiros conflitos já em fins do século XVII e nas primeiras décadas do século XVIII ainda não eram movidas pelo desejo de autonomia, mas por questões meramente regionais contra a política de exploração, do monopólio das privilegiadas companhias de comércio, além de conflitos entre senhores de engenho e comerciantes ou da disputa com os bandeirantes paulistas pelo domínio das minas. O Brasil era uma extensa e despovoada colônia, com regiões isoladas e sem comunicação.

A revolta de Beckman, no Maranhão em fevereiro de 1684, provocada pelos altos preços cobrados pelos produtos importados e os baixos valores pagos à produção local, culminou em prisões, degredos e o enforcamento do principal líder. Por sua vez, a chamada Guerra dos Mascates, movimento ocorrido em Pernambuco entre 1709 e 1710, colocou em lados opostos os senhores de engenho e os comerciantes portugueses moradores de Recife, tendo como uma de suas causas a crise açucareira. A rebelião terminou com a punição dos envolvidos e Recife permaneceu na condição de vila independente de Olinda. No mesmo período, entre 1709 e 1710, na região de Minas, então pertencente à Capitania de São Vicente, eclodiu o conflito pela disputa da posse de jazidas de ouro, que ficou conhecida como Guerra dos Emboabas. Vencido o conflito, a Coroa resolveu criar a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, desmembrada da Capitania de São Vicente, preservando a capacidade de fiscalizar a distribuição das jazidas e cobrar os impostos.

Aqui pelas bandas das Minas de Ouro merece destaque a Revolta de Vila Rica, também conhecida como Revolta de Filipe dos Santos, em 1720, que levou o nome do personagem à frente do movimento que se opunha ao fisco português com a criação das Casas de Fundição. Filipe dos Santos, tropeiro e rancheiro no povoado de Antônio Dias, liderou um motim de quase 2.000 mineiros. Acuado, o odiado governador português da região, sediado em Vila do Carmo (atual Mariana), o Conde de Assumar (Pedro de Almeida), negociou com os revoltosos prometendo o perdão e a suspensão da criação das Casas de Fundição. Tudo não passou de um artifício para ganhar tempo e articular a repressão aos rebeldes.

Com a desarticulação do movimento, foram presos os líderes e Filipe dos Santos foi enforcado em julho de 1720 e seu corpo atado a quatro cavalos, sendo dilacerado. Partes de seu corpo (cabeça, pernas e braços) foram colocadas em pedaços de madeira e espalhadas pela cidade, para mostrar à população o destino de quem desafiasse a Corte. Para justificar a justiça sumária contra portugueses perante o monarca, o Conde de Assumar, que não tinha jurisdição para tal ato, alegou que se tratara de crime de lesa-majestade e que o movimento encobriria ideal de liberdade e de formação de uma república. Indiretamente, e com a licença de puristas e céticos, uma semente de liberdade fora então lançada a terra. Sangue de mártir é semente.

A Revolta de Filipe dos Santos teve como consequência a cisão da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, materializando-se a autonomia administrativa da Capitania de Minas Gerais, por ato do rei Dom João V, em 2 de dezembro de 1720, com a capital em Vila Rica. Fora então criada mais uma Comarca: Serro Frio (com sede em Vila do Príncipe). Dessa forma, o território mineiro ficou dividido em quatro Comarcas: Vila Rica (Centro e Leste), Rio das Mortes (Sul), Rio das Velhas (Oeste) e Serro Frio (Norte/Nordeste).

Em 1735, a Coroa instituiu o “Imposto de Capitação”, por acreditar que o contrabando estaria comprometendo a arrecadação. O mecanismo consistia no pagamento, pelo minerador, de uma quantia de 17 gramas de ouro por cada um de seus escravos. Pelo Alvará de 3 de dezembro de 1750, foi alterada a cobrança com a imposição do pagamento de 100 arrobas anuais de ouro pela região de Minas. Com a queda da mineração e devido ao atraso, sob a ameaça de penhora de bens, foi instituída a “derrama”, em 1760. Outros impostos também recaiam sobre a região mineradora, como o das “entradas”, semelhante ao imposto sobre circulação de mercadorias. Pagava-se sobre a importação e a exportação de quaisquer produtos, mesmo de outras Capitanias e seu fato gerador era a entrada e saída do território mineiro. Havia ainda o “dízimo” como sua fonte de custeio e depois transformado num imposto sobre rendimentos de pessoa física e sobre a entrada e saída de mercadorias. Isso sem falar em outros impostos menores como o pedágio, taxas dos ofícios de justiça etc., onerando sobremaneira o custo de vida local.

Portugal não tinha nenhuma política colonial, tendo como única a estratégia de arrancar o máximo com o mínimo de despesas, indiferente ao bem-estar dos povos sujeitos ao seu domínio, impedindo de todas as formas que a população criasse riquezas e melhorasse as condições de vida. Naquele período, os contratadores da cobrança de tributos e comerciantes que vendiam a crédito tinham grandes valores a serem recebidos dos detentores das grandes fortunas. Essa situação deixava os contratadores comprometidos junto à Coroa. Na realidade, era uma economia de endividados cujos bens pessoais não eram suficientes para quitar as dívidas.

A dispersão da semente da liberdade ocorreu em outros momentos, pontos e locais da capitania de Minas Gerais, que fora ainda palco de outras sedições, desde a primeira metade do século XVIII, afrontando a imposição da soberania régia. Foi o caso da sedição do sertão do Rio São Francisco, ocorrida em 1736 e que se voltou contra as autoridades reais e a capitação — cobrança dos quintos reais realizada com base no número de escravos. Durante o reinado de D. José I (1750–1777), eclodiram inconfidências em locais isolados de Minas — Curvelo (1760-1763), Mariana (1768), Sabará (1775) e de novo Curvelo (1776) —, sempre em função de atritos com autoridades e seus aliados. Ao contrário da Inconfidência Mineira, esses motins anteriores implicavam manifestações concretas de violência, com a população na rua, arruaças, vivas à liberdade e referência a apoios de outras potências colonizadoras (Wikipédia).

Desde meados do século XVIII fazia-se sentir o declínio da produção aurífera na Capitania de Minas Gerais. A Comarca de Vila Rica havia se transformado, em poucos anos, graças ao ouro, na maior metrópole do Brasil. Em meados do Século XVIII, todo o território português possuía 2.900.000 habitantes, sendo 200 mil em Lisboa; na mesma época, só em Vila Rica havia 100 mil, ou seja, metade da população da capital do Reino. A Capitania contava com 320.000 habitantes em 1776. Dez anos depois, em 1786, a população de Minas Gerais era de aproximadamente 400.000 habitantes, sendo 206.000 livres e 190.000 escravos; a população do Brasil alcançava o número de 3.500.000, sendo 2/5 de escravos (JARDIM, 1989).

Por essa razão, na segunda metade desse século, a Coroa portuguesa intensificou o controle fiscal sobre a sua Província na América do Sul, proibindo, em 1785, as atividades fabris e artesanais, tendo em vista a necessidade de mais braços para a mineração, além de aumentar as taxas dos produtos vindos da metrópole.

Como visto, a partir da segunda metade do século XVIII, os valores do sistema colonial começaram a ser questionados, não só por pessoas de baixa condição social, mas também, com mais vigor, pelos grandes proprietários. Valores necessários à segurança do Estado absolutista português e da exploração colonial suscitavam controvérsias, como a ideia de bom pagador da Fazenda Real, o respeito à monarquia, a condição de vassalo zeloso, o direito divino do rei, que tinha o poder de vida e de morte sobre seus súditos. Temas como o luxo e a ostentação da Corte, grandes propriedades, escravidão, república, liberdade e separação de Portugal, ganharam relevo.

Com as transformações decorrentes da urbanização, cresciam a camada de comerciantes, funcionários públicos, professores, letrados, militares, artesãos e homens livres em geral, tornando a sociedade mais complexa. Embora precárias as comunicações, já se colhia um sentimento de incômodo com a prepotência das autoridades coloniais e a legislação metropolitana cada vez mais rígida e que dificultava a vida dos colonos.

Naquela quadra da história, constituía-se tradição as famílias abastadas enviarem seus filhos para estudar em Coimbra, cujo ensino havia sido reformado pelo Marquês de Pombal. Alunos também eram aceitos na França (Montpellier e Bordeaux) e no Reino Unido (Londres e Edimburgo). Na Europa tiveram a oportunidade de estudar o pensamento dos filósofos iluministas que combatiam o absolutismo, o mercantilismo e os monopólios, conhecidos como ideias francesas. Entre os anos de 1768 e 1788, vinte anos, portanto, 157 estudantes das diversas capitanias luso-brasileiras foram diplomados na Universidade de Coimbra (FERREIRA, 1972).

Nos portos brasileiros o contrabando trazia livros dos melhores autores e pensadores da época, como Rousseau, Voltaire, Montesquieu, enciclopedistas como Diderot e D’Alembert e Adam Smith, dentre outros. Naquele período, o Brasil não possuía universidades, imprensa e bibliotecas eram proibidas, a circulação de livros estava submetida a três instâncias de censura, de modo que os mecanismos de exploração e opressão não fossem fragilizados. A política oficial permitia o funcionamento das escolas religiosas, dominadas pelos jesuítas até suas expulsões, em 1759, depois assumidas por outros padres e mestres laicos. O ambiente sociocultural se apoiava nas realizações de caráter artístico, expressos através da religiosidade popular, da escultura, da música e da arquitetura. Em 1768, o Marquês de Pombal instalou a Real Mesa Censória, centralizando e organizando o trabalho da seleção do que podia ou não ser lido (DÓRIA, 2014). O direito de reunião era vigiado. De cada cem brasileiros, menos de dez sabiam ler e escrever.

As ideias revolucionárias que por aqui aportaram propiciaram grande crescimento cultural e tinham relevo nas reuniões e saraus musicais e literários então promovidos pelas famosas academias. Por isso, as academias se revestiram de alguma importância cultural e mesmo política. Nesse meio, os livros passavam de mãos em mãos. Seus rituais acadêmicos eram uma maneira de passar o tempo de forma mais agradável nas cidades provincianas como Salvador, Vila Rica e Rio de Janeiro.

Sem dúvida, naqueles eventos discutiam-se poesias, literatura, e, claro, filosofia e política. Em meados do século XVIII, surgiu a primeira escola literária brasileira – o Arcadismo. “Nessa época, portugueses e jesuítas deixaram de monopolizar a cultura. Liam-se também, principalmente em Minas Gerais, autores franceses e ingleses que eram críticos do absolutismo, do mercantilismo e da intolerância religiosa, louvadores da natureza, do progresso e da liberdade” (CÁCERES, 1995).

Efetivamente, o movimento árcade se desenvolveu no Brasil com a fundação, em Vila Rica, no ano de 1768, da “Arcádia Ultramarina”, tendo como referência a publicação, por Cláudio Manuel da Costa, de suas “Obras Poéticas”, constituindo o embrião de uma geração literária brasileira. Além de Cláudio Manuel, vários escritores se destacaram no Arcadismo brasileiro, como Tomás Antônio Gonzaga (autor de “Cartas Chilenas” e “Marília de Dirceu”), Frei José de Santa Rita Durão (autor do poema “Caramuru”), Inácio de Alvarenga Peixoto (autor de “A poesia dos inconfidentes: poesia completa”), José Basílio da Gama (autor de “O Uruguai”), Manuel Inácio da Silva Alvarenga (autor de “O Desertor das Letras”, “Glaura – Poemas Eróticos”). (GOMES, 2016).

No campo das expressões artísticas, Minas atingiu um dos mais altos pontos de sua civilização. “Só a arquitetura é um atestado indiscutível das proporções do progresso daquela sociedade, o que desmente a tendência preconceituosa de diminuir as possibilidades do movimento revolucionário de 1789 baseadas na existência de capacidade para a construção de um novo país” (JARDIM, 1989). Outra premissa falsa é a de que sendo o interior brasileiro uma região extremamente atrasada, de arraiais incipientes, não poderia comportar um movimento político de importância considerável.

O pensamento iluminista de caráter burguês e anticlerical pregava conceitos considerados subversivos pela Corte Portuguesa, por envolverem “abomináveis ideias francesas” ligadas a separatismo, república e legitimidade do poder, por considerar que a finalidade do governo era a de atender ao bem comum. Os iluministas defendiam a liberdade como elemento fundamental e inalienável para a realização do destino humano. Tinham como meio de difusão as Academias, a Enciclopédia, a Maçonaria, os Clubes, Cafés e Salões e as Universidades.

Em virtude da situação política, econômica e social, em especial dos interesses dos grandes proprietários de terras, minas e escravos, deu-se início à articulação do movimento que passou à história como a Inconfidência Mineira, como o primeiro a “compreender e criticar a exploração do sistema colonial e fazer a ligação entre essa exploração e a decadência das minas dos grandes proprietários. A Conjuração Mineira foi o primeiro movimento a propor objetivamente o rompimento do pacto colonial, ao tentar criar uma nação independente e a ver nessa independência um futuro de progresso” (CÁCERES, 1995). Neste movimento, em Vila Rica, podemos vislumbrar a quebra de dormência da semente da independência que fora lançada por ocasião do suplicio de Filipe dos Santos, germinando na mesma região, onde encontrou o terreno fértil como na parábola do semeador.

Continua….

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Loja de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda, da Academia Mineira Maçônica de Letras e, para nossa alegria, um colaborador do blog.

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Veneráveis vitalícios e donos de loja – Maçonaria Francesa do século XVIII

Essa não é uma história que se possa contar em poucas linhas, pois ela é construída sobre fatos e acontecimentos pertinentes ao desenvolvimento da Maçonaria Francesa nos séculos XVIII e XIX.

Em resumo, os episódios se alinharam pelo aparecimento de dois ramos de Maçonaria em solo francês: um “stuartista” (escocesismo), livre, que não se sujeitava a nenhuma Obediência e a outra dependente da Primeira Grande Loja que fora fundada no ano de 1727 em Londres.

Essa última vertente francesa absorvia o sistema dos Modernos ingleses que havia se expandido pelo continente europeu na época. Segundo alguns autores, na França, a Maçonaria foi introduzida em Paris por volta de 1725 em uma Loja instalada por iniciativa de Charles Radclyffe, o Conde de Derwentwater e teria sido frequentada principalmente por maçons de origem irlandesa e jacobitas (católicos) exilados.

Desse modo, no curso da história as Lojas francesas ficariam então divididas em dois grupos – as Lojas derivadas do “stuartismo” e as derivadas da Grande Loja inglesa de 1717. Essas últimas que eram em menor número.

Embora sem existir ainda uma Obediência genuinamente francesa, em 1728 o Duque de Wharton, Ex-Grão-Mestre da Primeira Grande Loja londrina (1722 e 1723), foi reconhecido como o 1º Grão-Mestre dos maçons franceses, sendo sucedido por outros dois Grão-Mestres que eram também ingleses – James H. MacLean e Charles Radclyffe.

Em 1735, pelo grande número de Lojas stuartistas (tronco do escocesismo) então surgidas, pleiteou-se a necessidade de se designar um Grão-Mestre para uma Obediência genuinamente francesa, com isso as poucas Lojas de Paris ligadas à 1ª Grande Loja em Londres acabariam fundando uma Loja Provincial Na França, mesmo que a contragosto dos ingleses.

Assim, a 24 de junho de 1738 era instalado Louis de Pardaillan de Gondrin, o Duque d’Antin como “Grão-Mestre Geral e Perpétuo dos Maçons do Reino da França”. A bem da verdade, esse acontecimento estancava a subserviência da Maçonaria francesa à Primeira Grande Loja londrina.

Mais tarde, no curso dos acontecimentos e com o falecimento do Duque d’Antin em 1743, assume o grão-mestrado francês o personagem Louis de Bourbon Condé, o Conde de Clermont.

Esse grão-mestrado, contudo, trouxe consequências graves para a Maçonaria francesa, sobretudo pelo seu desinteresse pelas práticas maçônicas, o que fez com que fossem nomeados prepostos para dirigir a Grande Loja, cujos quais exercendo todo o seu poder, acabariam por fraccionar a recém criada Obediência francesa, principalmente pelas oposições que entre si eles mesmo provocavam.

Nesse contexto, pode-se citar como exemplo, o extraordinário tumulto ocorrido na festa dedicada a São João Evangelista em 27 de dezembro de 1766, quando maçons excluídos por motivos de rixas internas invadiram o local onde se realizavam os trabalhos. Houve necessidade de intervenção policial para que a ordem pudesse ser restabelecida.

O resultado desse tumulto foi a proibição das atividades maçônicas que durariam até 1771 (cinco anos de paralização).

Em 1771, com o falecimento do Conde de Clermont, muitos maçons que haviam sido excluídos conseguem o aval do Duque de Luxemburgo para conduzir Louis Philippe Joseph d’Orléans, o Duque de Chartres, primo do rei, para ser o Grão-Mestre da França, contudo esse Grão-Mestre deixa toda a administração da Grande Loja francesa para o Duque de Luxemburgo. A bem da verdade, era essa a intenção, pois visava-se aproveitar o prestígio do Duque de Chartres, que era primo do Rei, para ajudar a reerguer a então combalida Maçonaria francesa – proliferação e descontrole de Altos Graus e a fundação de centenas de Lojas com veneráveis vitalícios que ficariam conhecidos como “donos de loja”.

Ainda em 1771, um grupo de maçons, então reintegrados e consorciados com o Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente que havia sido criado em 1758 por Pirlet, formam uma comissão com a finalidade de organizar uma reforma administrativa na Maçonaria francesa, elaborando assim novos estatutos para fazer uma reorganização na desordem que prevalecia no ambiente dos Altos Graus, dentre outros.

Destaca-se nessa reforma administrativa a introdução de eleições periódicas para Venerável Mestre, o que desagradou de imediato os tais “veneráveis vitalícios”, também conhecidos como donos de Lojas, comuns nas lojas parisienses como já comentado.

Esses veneráveis vitalícios nada mais eram, de fato, do que donos das suas Lojas já que, na conturbada organização da Maçonaria francesa, muitos criavam suas próprias Lojas e assumiam seus mandatos pela vida toda, isso quando não criavam ainda Altos Graus para se promover perante a aristocracia francesa.

Esses Veneráveis com mandatos para a vida inteira acabariam resistindo contra essa reforma e por isso se ligaram a outra Grande Loja que ficaria conhecida como a Grande Loja de Clermont ou o Capítulo de Clermont. Esse Capítulo, que fora criado em 1754 pelo Cavaleiro de Bonneville, objetivava sacramentar definitivamente uma classe especial de maçons com os seus Altos Graus, dando-lhes, principalmente, uma conotação aristocrática. Teve vida efêmera e acabou se extinguiu-se em 1789.

Por conta das reformas, no final do ano de 1771, uma assembleia especialmente convocada para esse fim, declarava extinta a Grande Loja da França e, em 1772 era criada uma nova Obediência denominada Grande Loja Nacional da França. Ainda nesse mesmo ano, a 22 de outubro, a Grande Loja Nacional da França se reunia em assembleia geral e adota para si no nome de Grande Oriente da França.

Nesse sentido, a grande inovação promovida, agora pelo Grande Oriente da França, foi a chamada “democracia maçônica” que é baseada num poder central assessorado por um grupo de deputados de todas as Lojas. Enfim, esse tem sido, desde então, uma característica dos Grandes Orientes.

Vale mencionar que, já ano de 1758, era criado por Pirlet o Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente. Desse Conselho se originaria em solo francês o Rito de Perfeição, ou Heredom, com 25 graus. A bem da verdade uma concepção formada para organizar o caos que vivia o sistema de Altos Graus na França.

É bom que se diga que boa parte desses Altos Graus foram criados aleatoriamente por “donos de lojas” e serviam mais para explorar as vaidades e satisfazer egos do que trazer crescimento iniciático.

Assim, em 1778, o Grande Oriente da França nomeia uma comissão de maçons esclarecidos para realizar um profundo estudo do sistema de graus vigente, visando com isso eliminar doutrinas estranhas ao pensamento maçônico, principalmente.

Na realidade, o que se buscava era um Rito com menor número possível de graus em contraposição ao emaranhado de graus existentes no contexto francês de Maçonaria.

Depois de três anos, essa comissão concluiu que o melhor para o Rito era trabalhar apenas no franco-maçônico básico – Aprendiz, Companheiro e Mestre (o termo simbolismo ainda não era conhecido). Mas, infelizmente, para não fugir à regra latina, o Grande Oriente “achou” que isso poderia gerar descontentamentos e até mesmo cisão, tendo em vista o grande número de maçons existentes já condecorados com os Altos Graus. Com isso, mesmo antes de um parecer oficial, a comissão achou por bem renunciar.

Refletindo melhor sobre a situação, o Grande Oriente acabou acatando o parecer da comissão e expediu uma circular em 03 de agosto de 1777 na qual declarava que só reconheceria os 3 primeiros graus.

Foi o que bastou para que aflorassem enormes ressentimentos no seio da Maçonaria Francesa, pois a contaminação pelo amor a esses graus de paramentos vistosos estava por demais radicado. Para muitos maçons do Grande Oriente, sobretudo aqueles que tinham perdido o cargo de venerável vitalício, a redução de graus os levaria ainda mais a um caráter de inferioridade.

Assim, mais uma vez, diante dos descontentamentos aflorados, é que em 1782 o Grande Oriente instituiu uma Câmara dos Graus, sob a liderança de Alexandre Roëttiers de Montaleau, para formatar o Rito dando-lhe Altos Graus, porém apenas os essenciais. Com isso, em 1784 sete Lojas Capitulares Rosa-Cruz constituem o Grande Capítulo Geral da França para trabalhar nessa nova formatação capitular. Em 1786, um projeto de um Rito com apenas 7 Graus seria aprovado pela assembleia e posto em prática.

A título de ilustração, é somente em 1801, época pós Revolução Francesa, com a publicação do Le Régulateur du Maçon, é que o Rito Francês passa a ter os seus rituais e fica conhecido com sistema dos 7 graus do Grande Oriente da França.

Em 1804, a vertente maçônica francesa do escocesismo passa a ter em Paris o 2º Supremo Conselho do REAA, cujo Rito, herdado do Rito de Perfeição, ou de Héredon, com seus 25 Graus que passa para 33 Graus nos EE. UU. da América do Norte, passa a ser chamado de Escocês, Antigo e Aceito.

Aí começa um segundo capítulo da Maçonaria Francesa com uma Loja Mãe Escocesa, Lojas Capitulares em 1816 e o ingresso do 1º ritual para o simbolismo do REAA no Grande Oriente da França.

Desse modo, o simbolismo do REAA constrói a sua história na Europa a partir do seu primeiro ritual para o franco-maçônico básico datado de 1804 e já deturpado em 1821 por imposição do Grande Oriente da França ao adaptá-lo para Loja Capitular, mas essa é outra história.

Ainda sobre o Rito Moderno, o mesmo passaria ainda por revisões no curso da sua história, principalmente entre os séculos XIX e XX a exemplo da de Murat, em 1858; Amiable, em 1887; Blatin, em 1907; Gérard em 1922; Groussier, em 1946.

Foi então do ambiente conturbado da Maçonaria francesa do século XVIII, principalmente antes da Revolução Francesa, que os Veneráveis vitalícios – que criavam suas próprias Lojas – se desenvolveram e desapareceram após a reforma e a criação do Grande Oriente da França, oportunidade na qual Veneráveis Mestres passavam a ser eleitos pelos membros das Lojas.

Graças a esses acontecimentos, onde a depuração fez com que muitos maçons perdessem seu irregular status simbolizado por aventais vistosos e títulos hauridos de graus aristocráticos e cavalheirescos é que surgiu, em 1777, a Palavra Semestral como penhor de regularidade na Maçonaria francesa.

A história, mesmo que contada de modo superficial, carece muitas vezes de abordagem em tópicos que construíram as causas dessa mesma história. Assim, peço perdão pela prolixidade, mas foi o modo mais abreviado que pude encontrar para dissertar um pouco sobre a existência no passado dos então chamados “donos de loja” e os seus “mandatos vitalícios”. Na academia da história, muitas vezes os fatos somente se explicam quando lhes revelamos a sua causa.

Autor: Pedro Juk

Fonte: Blog do Pedro Juk

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Uma pedagogia através de símbolos e imagens simbólicas

A Maçonaria oferece uma maneira única de divulgar suas ideias entre os iniciados nessa organização. Esta epistemologia vem de várias fontes, mas em todas elas o símbolo, ainda mais a imagem simbólica, desempenha um papel central. Uma recente novidade editorial, Masonic Symbolism, de JJ García Arranz, estudou-o. Nas páginas seguintes, tentar-se-á delimitar um pouco em que consiste este método de comunicação de ideias, sobretudo na sua dimensão visual. Além disso, este número será aprofundado com base na já mencionada novidade editorial apresentada por García Arranz, bem como na resenha que publicou em REHMLAC +. 

No número 1 do volume 10 da REHMLAC+ (maio-novembro de 2018) foi publicada uma resenha sobre uma novidade editorial, Masonic Symbolism, escrita por José Julio García Arranz e publicada na Editorial Sans Soleil . A revisão foi realizada por Antonio Morales Benítez, pesquisador da Universidade de Cádiz.

Tanto o título do livro de García Arranz quanto a resenha de Morales Benítez enfatizam o valor dado à questão do simbólico. Assim, este artigo visa aprofundar esse aspecto, tomando como diretriz o estudo publicado por Sans Soleil, já que –como indica Morales Benítez em sua obra– o livro de García Arranz ocupa uma lacuna no mercado hispânico que era importante preencher[1]. Dada a importância dada à análise de García Arranz, toma-se o Simbolismo Maçônico como fonte principal, a ser complementada – sim – com outras referências bibliográficas.

No final de 2017, foi publicado pela editora Sans Soleil o referido livro sobre a dimensão simbólica da Maçonaria. García Arranz considera o simbólico como o eixo fundamental da epistemologia proposta pela fraternidade. De fato, o fato desta obra ter sido publicada em Sans Soleil é muito consistente, pois o simbólico e suas aplicações estéticas constituem um de seus principais eixos de divulgação. Aliás, a referida editora especializou-se na edição de alguns dos livros mais representativos das mais renomadas tendências da história da arte. Assim, em seu catálogo pode-se encontrar desde clássicos da iconologia (Panofsky, Gombrich) até grandes teóricos dos estudos visuais (Mitchell, Moxey) e estudos culturais (Haraway), além de alguns dos novos autores mais interessantes da disciplina na esfera hispânica, especialmente na academia espanhola. Entre eles, o professor García Arranz, com o referido estudo sobre a sociedade secreta.

As credenciais do professor José Julio García Arranz são importantes para entender sua perspectiva. É professor catedrático de História da Arte na Universidade da Extremadura, especializado em emblemática. Isso dá à sua pesquisa um viés claro para o aspecto visual da sociedade secreta. Consequentemente, e entre outras virtudes, o Simbolismo Maçônico compila um enorme número de imagens geradas pela sociedade secreta em sua história centenária.

Como Morales Benítez já relata em sua resenha, García Arranz foi o fundador da Sociedade Espanhola de Emblemática[2], fator a ser levado em conta pelo peso que esse modelo de transmissão logoicônica tem na história da fraternidade[3]. Aprofundando-se no exposto, além da emblemática, o professor também investigou o material visual relacionado ao imaginário hermético, alquímico, esotérico ou afins.

Quanto à abordagem do estudo de García Arranz, não será aquele que pretende fazer proselitismo para a causa maçônica. Nem a denegrir, transformando-a numa hidra que está na raiz de todas as revoluções (negativas) do mundo[4]. Apenas pesquisa acadêmica rigorosa é procurada. O livro está dividido em sete ensaios de extensão variável, aos quais se acrescenta a introdução, a conclusão e dois apêndices.

Entre as várias metodologias, o autor da obra resenhada optou por realizar um estudo de maçonologia —em homenagem à iconologia panofskyana. Portanto, aproveita as ferramentas das ciências humanas, evitando leituras partidárias, baseadas em fantasias, e realizadas por membros da fraternidade ou por detratores convictos, sem o domínio adequado das metodologias das disciplinas humanas[5]. Ou mesmo sem a necessária distância do objeto de análise, mediada por seu fervor. Devido a isso, esse tipo de pesquisadores maçônicos traçam conexões sem suporte empírico[6]. Pode-se dizer que, com tal decisão, García Arranz opta por uma leitura ética em termos de antropologia, externa ao grupo estudado.

Entre os ensaios, ele combina alguns de narração histórica com outros que funcionam como um dicionário de símbolos em uso, junto com alguns mais de tipo especulativo que – por exemplo – observam a evolução de certas ideias dentro do corpus teórico e visual maçônico.

As quatro primeiras seções — introdução e três capítulos próprios — do Simbolismo Maçônico são apresentadas como definições do assunto em questão, que vão desde uma apresentação geral até delimitações conceituais, uma indagação sobre o que é especificamente para a fraternidade ou os tipos de símbolos que podem existir, dependendo das origens, dada a natureza eclética das fontes maçônicas. Todos ensaísticos, os quatro textos constituem uma base incontornável sobre a qual se apoiará o restante, são reflexões sobre o papel do simbolismo e seu peso na história da fraternidade. Isso configurará o que Martín López chamou de “estética maçônica”, que – em sua opinião – é um rótulo melhor do que “estilo maçônico”[7].

Uma das características mais marcantes do aspecto epistemológico em que a fraternidade divulga suas ideias gira em torno de um ecletismo de fontes, o equivalente estético de seu sincretismo religioso – que bebe tanto do hermetismo quanto da alquimia, do Egito faraônico e do cristianismo. Segundo García Arranz, os símbolos de tantas religiões são retrabalhados em códigos maçônicos[8]. Na arte contemporânea dir-se-ia que a sociedade secreta se apropria de cada um deles.

Símbolo como fonte de conhecimento espiritual, mas também de ensino moral, cada um dos Ritos – mesmo cada uma das Lojas – decide qual das muitas tendências maçônicas prefere priorizar, uma escolha que terá consequências sobre como a faceta metafórica mais tarde será trabalhada. Portanto, para García Arranz, o simbolismo torna-se a espinha dorsal das lojas e da Maçonaria, pois cada obediência e cada rito têm uma abordagem parcialmente diferente em relação aos outros — o ritual apresenta mudanças, os templos são decorados com pequenas variações —, embora sempre compartilhando um fundo simbólico comum[9].

Mas antes de prosseguir, e dada a centralidade que a Maçonaria lhe confere, convém definir – na medida do possível – a que ideia de símbolo a sociedade secreta se refere. A irmandade passou a utilizá-los – segundo uma longa corrente de interpretação compartilhada, ao menos parcialmente, por simbolistas, românticos, herméticos ou neoplatônicos, que pensavam na imagem simbólica como algo que remetesse ao sagrado, metafísico ou mítico – como uma imagem que alude ao verdadeiro no sentido espiritual e que, mesmo em suas leituras mais espiritualistas — hinduísmo, religião egípcia durante os faraós ou certas correntes esotéricas — a imagem pode vir a ser a mesma[10].

Uma ideia expressa no catálogo que acompanhou uma das exposições mais interessantes de 2017, As Above, So Below: Portals, Visions, Spirits & Mystics, exibida no IMMA em Dublin, aprofunda esta ideia:

“Em tempos passados, a arte feita por humanos não representava apenas alguma coisa, ela era aquela coisa;  a divindade, espírito, humano ou animal continha a essência ou, se preferir, a alma daquela coisa.” [11]

Uma tendência já encontrada no hermetismo, um dos grandes horizontes culturais que influenciaram a fraternidade. Ficino, pensador vinculado às raízes renascentistas da referida corrente, havia teorizado sobre a capacidade do símbolo de tornar visível o invisível, orientar para a ideia e, simultaneamente, ao pensar sobre ela, reformar a mente. Devido a essas virtudes, gozaria de um alto poder heurístico[12].

No código maçônico, e como fundamento epistemológico, o símbolo maçônico alude à coisa sem perder seu caráter polissêmico: o mesmo objeto – compasso, esquadro ou qualquer outro – significa coisas complementares, mas não necessariamente iguais em diferentes graus. O compasso no grau de Aprendiz não será equivalente à mesma realidade que no de Mestre. Cada vez ele irá incorporar novas facetas. Isso pode chegar a vincular vários objetos de maneira diferente para cada série. Aí o símbolo possui uma multivalência polissêmica, cujos significados são potencialmente infinitos[13].

Por isso, a faceta lógica ou racional não se concentra exclusivamente nele, mas o que é representado se dirige à totalidade do psiquismo, tanto ao irracional quanto ao suprarracional. Ou seja, em todos os níveis que não são conscientes ou racionais, com uma natureza inevitavelmente misteriosa, ambígua, inefável ou ilimitada[14]. Assim, torna-se também uma ferramenta inestimável para compartilhar informações sobre o metafísico ou o sagrado[15].

Porém, isso não descreve completamente o uso do simbólico na fraternidade. Como muitas vezes aponta García Arranz, há dois polos hermenêuticos que vão da já mencionada forte leitura esotérica – sem lastro na documentação histórica – a uma leitura puramente racionalista que escapa à dimensão anterior. García Arranz trata desses dois polos em vários pontos do texto, com formas muito diferentes de compreender o corpus teórico e simbólico do grupo[16].

Geralmente, a leitura esotérica prefere refletir sobre uma dimensão mítica ou espiritual, uma interpretação ocultista que seguiria a tradição hermética, segundo a qual as verdades últimas do mundo inteligível são incorporadas em símbolos[17]. Por outro lado, as lojas que optam por filtrar os símbolos por um código moral mais didático preferem uma Maçonaria laica e racionalista, com prioridade para o político ou o sociológico, muitas vezes de forma progressista.

Essa dupla abordagem maçônica, com a sensibilidade mais metafísica por um lado e a histórico-sociológica por outro, lembra a dualidade com que Ernst Gombrich descreveu a hermenêutica do simbólico. Segundo o grande historiador da arte, em um estudo clássico, podem-se distinguir duas formas de abordar a interpretação dos símbolos. De um lado, a mentalidade que chamou de “intelectual aristotélica”, um método de definição visual baseado em associações de conceitos e imagens, algo que pode ser delimitado, estudado e estabelecido. No outro, o que chamou de “misticismo neoplatônico”, cuja origem é mais religiosa e em que, no que diz respeito à comunicação, o símbolo se torna expressão de algo inefável e que nunca pode ser completamente definido[18]. Assim, ao longo de sua história, a Maçonaria vem manifestando ambas as tendências em suas operações. É claro que, embora o autor destas linhas concorde com a apreciação de García Arranz, segundo a qual a Maçonaria utiliza ambas, dá a impressão –porém– que o uso original de seu método partiria do chamado neoplatônico místico, corrigido durante sua já longa história para a outra opção, mais racionalista.

De qualquer forma, a imagem simbólica apresenta sua informação superando a literalidade das coisas, sendo ela mesma (o compasso) e, ao mesmo tempo, sugerindo outras realidades, em um mostrar e esconder simultaneamente – um espetáculo de ocultação que, por outro lado, é a quintessência da arte. A atividade cognitiva gerada pelas imagens simbólicas ativa a imaginação — que é seu domínio —, provocando também a geração de sentimentos, o que explica em grande parte, pelo menos, sua eficácia como método pedagógico.

O quinto e muito curto capítulo do livro de García Arranz ainda mantém o tom ensaístico. Nele, o autor se pergunta justamente sobre a função dos símbolos, desdobrados em identificação mútua entre maçons, a difusão moral —com suas lendas e afins—, ou uma propedêutica filosófico-moral, considerando através de seu estudo como deve se comportar um verdadeiro maçom. Mas, além disso, observam-se também outras funções de natureza mais metafísica, como a possível união com uma realidade transcendente, graças a esses símbolos arquetípicos, transformados na encarnação do transcendental. Graças a eles, o maçom pode libertar-se do condicionamento[19].

As duas seções seguintes são as centrais dentro do Simbolismo Maçônico. Para começar, elas expandem o formato do ensaio para propor uma exibição como verbetes do dicionário. E fazem isso para duas áreas maçônicas fundamentais. Na primeira, os mitos da fraternidade e os objetos para explicar suas ideias. No segundo, os espaços do templo. Embora o tema varie, a estrutura de ambos os capítulos é compartilhada. E em termos de extensão, essas seções ultrapassam a metade do estudo.

O primeiro de ambos – o sexto capítulo – descreve um a um, alguns dos símbolos e mitos mais comuns das Lojas. Esta é a seção mais variada e complexa, baseada na constituição dos mitos da fraternidade. Ao contrário dos capítulos anteriores, do tipo ensaio, focados no desenvolvimento de um tema unitário, nesta passagem todos esses conceitos – e mais alguns – são explicados como verbete de dicionário. Combina alguns dos elementos cruciais do léxico da corrente iniciática ligada ao trabalho de construção – como o compasso, o cinzel e os demais exemplos – com reflexões sobre a geometria sagrada de inspiração pitagórica, como o Delta do Oriente, a Estrela Flamejante, o hexagrama, o ponto e a circunferência ou outras figuras semelhantes.

O longo capítulo também explica algumas das histórias fundadoras extraídas do legado bíblico. Ele esclarece muitas delas, oriundas de fontes do Antigo Testamento, lidas como germe de ensinamentos morais ou por suas analogias com a instrução da irmandade, como a de Hiram Abif, arquiteto do templo de Salomão — tema básico da bagagem de uma fraternidade com uma figura chamada Grande Arquiteto do Universo[20] —, tudo relacionado ao referido templo, as colunas Jakim e Boaz, a construção da Torre de Babel, a construção da arca de Noé ou escada de Jacó, entre outros episódios, personagens e objetos relevantes da Bíblia.

Nessa mesma epígrafe, o autor faz um exercício semelhante com influência esotérica, pegando uma série de temas e desenvolvendo-os. Entre eles, o templário e o espírito cavalheiresco que derivou de seu exemplo, o rosacrucianismo, a alquimia, os cultos de mistério ou a arte da memória. García Arranz sai da exaustividade do dicionário de termos para voltar ao ensaio reflexivo. Com ele, levanta-se o que há de factual nessa suposta herança ou – pelo menos – transferência do oculto.

Na minha opinião, García Arranz minimiza um pouco seu peso. A Maçonaria tornou-se um dos redutos tradicionais da corrente esotérica ocidental. Sua influência é percebida tanto no tipo de epistemologia — a necessidade de ritual, o uso de símbolos e, portanto, a tentativa de evitar o literal, o uso neoplatônico de exemplos morais para aprender o comportamento…— como no conteúdo mitológico — o próprio uso dos mitos e do pensamento mítico, a Rosacruz, o Templário, até mesmo partes dos rituais—. Sem esquecer, muitos dos elementos simbólicos em que ressoa o hermetismo-esoterismo, a tríade enxofre-mercúrio-sal, o pavimento em mosaico… relacionado com a sociedade secreta 

Além disso, se traçarmos as origens de alguns símbolos, e como exemplo, a alquimia serviu de referência na exibição visual dentro das lojas. Por exemplo, nas imagens da loja e no material visual encontrado nos livros de gravuras da ciência de Hermes (alquimia). Mas, na minha opinião, a influência nesse sentido é menor. Embora seja verdade que os emblemas alquímicos possam inspirar nos casos em que se representa uma combinação heterogênea de elementos de múltiplos significados — como acontece nos painéis dos graus de Aprendiz e Companheiro —, a influência é muito menor no que diz respeito às gravuras com cenas –muitas vezes mitológicas– e que devem ser decodificadas, comparando-as com os processos observados no ritual. Contudo, este tema é complexo e merece pesquisas futuras focadas nele.

Se voltarmos ao estudo de García Arranz, o capítulo termina no mesmo tom especulativo, pensando na lenda e na realidade do papel maçônico na Revolução Francesa. Apesar da heterogeneidade da Maçonaria, composta por atitudes muito diversas – até opostas –, os teóricos da conspiração acusaram a fraternidade de ter desencadeado o movimento revolucionário e o consequente terror, o que teria significado uma vingança templária contra seus inimigos monárquicos. Mas nem as Lojas reagiram unanimemente a esses acontecimentos — muito pelo contrário —, nem o lema revolucionário, com as três virtudes (Liberdade, Igualdade, Fraternidade) tão cruciais dentro do ritual da ordem, foi um empréstimo maçônico, sendo que o que aconteceu foi justamente o contrário do ronda o senso comum.[21]

O sétimo capítulo, “Os lugares da imagem-símbolo”, continua com o formato do dicionário. Mas, neste caso, para descrever os elementos simbólicos do templo, o pavimento em mosaico, os locais de assento do Aprendiz, Companheiro e Mestre, os painéis da Loja…, assim como as luzes em várias variantes e significados. Sendo a Maçonaria uma corrente iniciática especialmente interessada no simbolismo da luz, pode-se deduzir o valor dado a esta parte do léxico da fraternidade.

No último capítulo, García Arranz retoma o tom ensaístico para refletir sobre uma de suas áreas de especialização: a forma artística dos emblemas, tão relevante sobretudo nos séculos XVI e XVII. Para forjar sua forma logoicônica, ou seja, a combinação de informações textuais com outros gráficos, uma mistura emblemática para a qual era importante a teoria dos hieróglifos que existia naqueles séculos, assim como as fantasias que gerava[22]. Muitos dos motivos dos livros de emblemas serviram de inspiração para a rica herança simbólica da sociedade secreta.

Sobre a capacidade de revelação da imagem no sentido hermético, convertida no que pensavam ser um hieróglifo no século XV ou XVI, o professor Díaz-Urmeneta aponta um argumento que pode ser estendido à fraternidade e seu uso do simbólico:

Esta é a afirmação da magia renascentista. Partindo do pensamento árabe, de algumas de suas recepções pela escola e de escritos herméticos, o Renascimento busca uma imagem efetiva que tenha a força que o tempo atribuiu aos hieróglifos dos antigos egípcios. Tal imagem não procura significar ou comunicar, mas tornar presente. Traga aqui a força oculta na natureza. Ao despertar assim a virtude de qualquer ser, encerrado em seu nome ou em sua figura, os homens poderiam intervir no curso dos eventos naturais. O hieróglifo era a linguagem das coisas que, roubadas da natureza, continham a eficácia manifesta ou oculta das próprias coisas. [23]

No uso de imagens com valências hieroglíficas, a Maçonaria está ligada a um clássico da utopia do século XVII, Cidade do Sol , escrito por Campanella, autor muito próximo do pensamento hermético. Neste romance utópico, o antigo anseio renascentista pela linguagem através de imagens, hieróglifos e significado pedagógico é fabulado. O personagem Sin, que na cidade ideal se encarrega da ciência, mandou pintar murais e cortinas da cidade com desenhos de estrelas, matemática, minerais, metais, bebidas, animais, ervas, árvores ou países do mundo, com os quais ilustram visualmente os cidadãos.

O conjunto relatado no romance utópico segue o ideal hermético da instrução por imagens hieroglíficas, tendo os afrescos como lição, numa combinação de imagem e palavras, já que os professores os utilizam para instruir. Além disso, as várias representações se entrelaçam como em uma tapeçaria, para mostrar como funciona a teoria das correspondências, tendência também próxima da Maçonaria. A finalidade pedagógica dos murais da Cidade do Sol é aplicada a partir dos três anos de idade. Esse fator torna-se o enredo da história utópica justamente no momento em que franciscanos e jesuítas catequizaram com imagens, quando se buscaram significados esotéricos para hieróglifos ou quando imagens e versos foram combinados em emblemas[24].

García Arranz aplica a união logoicônica à leitura das pinturas da loja, nas quais se fundem graficamente os principais elementos simbólicos maçônicos. Mas, na minha opinião, essas pinturas de loja carecem do componente textual, essencial para que uma forma visual seja emblemática. Em vez disso, encontra-se neles a densidade simbólica e alegórica da parte visual dos emblemas.

De qualquer forma, eles também se aproximariam de exemplos um pouco mais avançados de livros de emblemas alquímicos, nos quais a informação textual desaparece quase completamente, com o exemplo por excelência do Mutus liber, intitulado como o Livro Mudo, que tentou alcançar a tradução hermética ideal de ideias a imagens para pensar através delas. E, assim, contornar as limitações do logos e sua linguagem verbal[25].

Que sim, como já se antecipou um pouco acima, é claro que, entre os membros das sucessivas gerações de maçons, podem ser contados vários que tinham consciência dessa bagagem cultural e que seu próprio discurso – bem como a ideologia de a fraternidade – foi influenciado por ele.

Essa influência é perceptível de forma mais clara naqueles emblemas que contêm elementos simbólicos compartilhados pela Maçonaria, como o compasso, o esquadro e outros. Mas, na visualidade maçônica, em suas imagens, quase sempre falta o aspecto textual, essencial para que a forma do emblema aconteça. Provavelmente, isso se deve ao fato de a instrução maçônica ser constituída por imagens, mas também por recitações dos rituais, aspecto que deve ser sempre levado em consideração ao se analisar a epistemologia da fraternidade[26].

Sobre os rituais, os tratados do antropólogo Víctor Turner podem lançar luz sobre essa parte da Maçonaria. Turner praticamente se especializou no pensamento simbólico e no performativo como derivado do ritual. Ele também estudou cuidadosamente os fundamentos do ritual, bem como sua evolução na forma de teatro em sociedades cada vez mais complexas. O antropólogo afirmou que tinha vínculos com o teatro, era como uma performance, a consumação de um ato que tem um componente religioso constitutivo[27]. Ambos os tipos de ações estão ligados às crises daqueles que as vivenciam, o que implica uma mudança de status social para eles[28]. Mas isso não afeta apenas eles. Os rituais coletivos nas sociedades pré-industriais atraem toda a comunidade, dizem respeito ao grupo que compartilha a cultura. Toda narração desse tipo resulta em um drama social para aquele todo, uma experiência liminar, uma transição de um estado para outro ou uma experiência limiar, que significa limen em latim, na terminologia de Turner[29].

A conclusão do livro de García Arranz constitui outro capítulo de ensaio. Investiga a preferência maçônica por não estabelecer uma leitura oficial e ortodoxa de sua simbologia, mas também ficar sempre dentro dos canais estabelecidos pela tradição de sua história, por onde fluem os diversos afluentes que dão conteúdo à Maçonaria, como o Templário, o Rosacruz, a emblemática alquímica… É através da constante meditação sobre os símbolos, uma reflexão que se reflete nos trabalhos apresentados em loja, na medida que se forma o maçom. Assim, os símbolos tornam-se substrato pedagógico para o ensino, no duplo aspecto comentado que se encontra dentro da Maçonaria: aquele que os interpreta de forma mais esotérica e aquele que o faz uma forma mais próxima de um ensino moral explicável em termos racionais.

O livro termina com dois anexos. Um dedicado a animais e plantas usados ​​para fins metafóricos. E, o outro, às cores. Amostras fiéis dos dois estilos que caracterizam o texto: o primeiro esmiúça, como um dicionário, o uso do pelicano, do galo ou da rosa em rituais, enquanto o segundo opta pela outra estratégia, já levantada anteriormente. Ou seja, o estilo ensaístico para pensar como as cores são usadas em vários rituais.

Em suma, a abordagem de García Arranz em seu livro, o fato de combinar ensaios com verbetes de dicionários, permite que seu trabalho seja usado tanto como ferramenta de trabalho para buscar breves análises de elementos simbólicos, quanto para refletir mais detalhadamente sobre questões centrais para a epistemologia da Maçonaria. E o valor da pesquisa se dá pelo papel central que esse aspecto mantém dentro da fraternidade, bem como pela escassez de estudos sobre ele no âmbito hispânico, para o qual – nas palavras de seu revisor Morales Benítez – o simbolismo maçônico começa a preencher uma lacuna nesse campo linguístico[30].

Um objeto que se tentou manter neste artigo, que tomou a obra de García Arranz e a resenha em REHMLAC + como percussores, graças ao qual refletir sobre a dimensão simbólica e sua tradução em imagens dentro da Maçonaria, com suas peculiaridades. epistemológica e pedagógica, uma vez que existem poucas outras organizações no presente cujo sistema de transmissão de conhecimento é baseado em símbolos em tal medida. Essa especificidade maçônica tornou necessário um estudo como o de García Arranz.

Autores: Ventosa Roger Ferrer
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: REHMLAC 

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Notas

[1] Antonio Morales Benítez, “Revisão do Simbolismo Maçônico. História, fontes e iconografia de José Julio GarcíaArranz”, REHMLAC+ 10, no. 1 (2018): 394,          https://doi.org/10.15517/rehmlac.v10i1.331

[2] Morales Benítez, “Reseña de Symbolismo masónico”, 392. Foi também secretário dessa sociedade.

[3] Logoicônico como a união de uma informação textual com outra visual que caracteriza e singulariza a forma emblemática. Mais sobre isso em Fernando R. de la Flor, Emblemas. Leituras da imagem simbólica (Madri: editorial da Alianza,1995), 22. O professor Rodríguez de la Flor é outro dos grandes especialistas da esfera hispânica em relação aos emblemas.

[4] Um exemplo desta última tendência difamatória seria encontrado em Los masones de César Vidal.

[5] Abordagem valorizada como “sucesso” na resenha de Morales Benítez, 393, boa avaliação que compartilho.

[6] José Julio García Arranz, Simbolismo Maçônico. História, fontes e iconografia (Vitoria-Gasteiz: SansSoleil, 2017), 24. Como exemplo dessa tendência, podemos citar uma obra editada por Arturo de Hoyos e S. Brent Morris, Freemasonry in Context. História, Ritual, Controvérsia, escrito por e para Maçons, ou Maçonaria: A Tradição Esotérica , de Fabio Venzi, que também acrescenta uma guenoniana. Do lado oposto, o já citado César Vidal. O problema reside, então, no fato de sua abordagem não pertencer ao campo acadêmico mais ou menos objetivo, interessado na própria coisa como objeto de análise.

[7] David Martín López, “Arte e Maçonaria: considerações metodológicas para seu estudo”, REHMLAC+1, no. 2 (dezembro de 2009 a abril de 2010): 19-20,https://revistas.ucr.ac.cr/index.php/rehmlac/article/view/6615/6304

[8] García Arranz, “Simbolismo maçônico”,19.

[9] García Arranz, “Simbolismo maçônico”, 20-21.

[10] Fernando R. de la Flor, Emblemas. Leituras da imagem simbólica(Madri: Editorial Alliance, 1995), 188. Roger Ferrer Ventosa, “O ovo e o zero: do nada ao infinito”, Revista Sans Soleil- Estudios de la imagen 8 (2016): 89. A imagem que ocupa o lugar do que é representado: E H Gombrich, Imagens simbólicas. Estudos sobre a arte do Renascimento, 2(Madrid: Debate, 2001),124-125 e 177.

[11] Mark Pilkington, “The Active Surface: Art as Magical Technology”, em As Above, So Below: Portals, Visions, Spirits & Mystics, eds. Rachel Thomas e Sam Thorne (Dublin: Museu Irlandês de Arte Moderna, 2017): 43-44, 43.

[12] Juan Bosco Díaz-Urmeneta Muñoz, A terceira dimensão do espelho: um ensaio olhar renascentista (Sevilha: Universidade de Sevilha, 2004), 243.

[13] R. de la Flor, “Emblemas. Leituras da imagem simbólica”, 166.

[14] Mircea Eliade, Mefistófeles y el andrógino (Barcelona: Labor, 1984), 273. Também Ferrer Ventosa, “O ovo e o zero: do nada ao infinito”, Revista Sans Soleil– Estudios de la imagen8 (2016) : 96 .

[15] Ferrer Ventosa, “Imagens como uma encarnação do sagrado” , em Interpreting Sacred Stories(Wallingford: Cabi, no prelo).

[16] Por exemplo, García Arranz, “Simbolismo maçônico”, 63-70.

[17] Eugenio Garin, A Revolução Cultural Renascimento (Barcelona: Crítica, 1981), 149.

[18] Gombrich, Symbolic Images,13 e 179.

[19] García Arranz, “Simbolismo maçônico”, 101-106.

[20] García Arranz especula que a ideia platônica do demiurgo, artesão divino, poderia ser encontrada no ponto de partida do Grande Arquiteto do Universo (García Arranz, “Simbolismo maçônico”, 167).

[21] García Arranz, “Simbolismo maçônico”, 243-246.

[22] Para aprofundar esta questão, Ferrer Ventosa. “Pensando em Imagens Hieroglíficas: Da Tradição Hermética no Renascimento à Vanguarda à Arte Contemporânea”, Art, Individual and Society 30, no. 2 (2018): 311-328.

[23] Juan Bosco Díaz-Urmeneta Muñoz, A terceira dimensão do espelho: um ensaio olhar renascentista (Sevilha: Universidade de Sevilha, 2004), 46.

[24] Tommaso Campanella, A Cidade do Sol (Madri: Tecnos, 2007).

[25] Ferrer Ventosa, “Pensando em imagens hieroglíficas”, 311-328, 321-323.

[26] Junto com isso, a Maçonaria foi inspirada no memento mori, bem como em outros emblemas cristãos da arte alegórica moralista: (García Arranz, “Simbolismo maçônico”,300 e ss.).

[27] Victor Turner, Do Ritual ao Teatro. The Human Seriousness of Play (Nova York: PAJ Publications, 1982), 79-80.

[28] Turner, “Do Ritual ao Teatro”, 24.

[29] Turner, “Do Ritual ao Teatro”,24 e 41.

[30] Morales Benítez, “Review of Masonic Symbolism”, 392-294, 394. 

Bibliografia

Campanella, Tommaso. La ciudad del sol. Madrid: Tecnos, 2007.

Díaz-Urmeneta Muñoz, Juan Bosco. La tercera dimensión del espejo: ensayo sobre la mirada renacentista. Sevilla: Universidad de Sevilla, 2004.

Eliade, Mircea. Mefistófeles y el andrógino. Barcelona: Labor, 1984.

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Ferrer Ventosa, Roger. “Pensando en imágenes jeroglíficas: de la tradición hermética en el Renacimiento a las vanguardias hasta el arte contemporáneo”. Arte, individuo y sociedad 30, no. 2 (2018): 311-328.

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Morales Benítez, Antonio. “Reseña de Simbolismo masónico. Historia, fuentes e
iconografia de José Julio García Arranz”. REHMLAC+ 10, no. 1 (2018): 392-294.
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Pilkington, Mark. “The Active Surface: Art as Magical Technology”. En As Above, So Below: Portals, Visions, Spirits & Mystics. Editado por Rachel Thomas y Sam Thorne. Dublin: Irish Museum of Modern Art, 2017.

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Venzi, Fabio. Freemasonry: The Esoteric Tradition. Addlestone: Lewis Masonic, 2016.

Vidal, César. Los masones. Barcelona: Planeta, 2005.

Albert G. Mackey sobre a Lenda de Enoque

No estudo das ciências, ao ensiná-las a seus filhos e contemporâneos, e ao instituir os ritos de iniciação, Enoque deve ter passado os anos de sua vida pacífica, piedosa e útil, até que os crimes da humanidade cresceram de tal modo que, nas palavras expressivas das Sagradas Escrituras, “toda imaginação dos pensamentos no coração do homem era continuamente má”. Foi então, de acordo com uma tradição maçônica, que Enoque, enojado com a maldade que o cercava e horrorizado com o pensamento de suas consequências inevitáveis, fugiu para a solidão e o sigilo do Monte Moriá e se dedicou à oração e à piedosa contemplação. Foi naquele local então consagrado pela primeira vez por este eremitério patriarcal, e posteriormente tornado ainda mais santo pelos sacrifícios de Abraão, Davi e Salomão – que somos informados de que a Shekinah, ou presença sagrada, apareceu a ele, e deu-lhe as instruções que deveriam preservar a sabedoria dos antediluvianos para sua posteridade quando o mundo, com exceção de apenas uma família, deveria ser destruído pelo dilúvio que se aproximava. As circunstâncias que ocorreram naquela época são registradas em uma tradição que constitui o que foi chamado de Grande Lenda Maçônica “de Enoque”, e que segue para este efeito:

Enoque, sendo inspirado pelo Altíssimo e em comemoração a uma visão maravilhosa, construiu um templo subterrâneo e o dedicou a Deus. Seu filho, Matusalém, construiu o edifício; embora ele não conhecesse os motivos de seu pai para a edificação. Este templo consistia em nove abóbadas de tijolos, situadas perpendicularmente umas às outras e comunicando-se por aberturas deixadas no arco de cada abóbada.

Enoque então fez com que uma placa triangular de ouro fosse feita, cada lado da qual tinha um côvado de comprimento; ele a enriqueceu com as pedras mais preciosas e incrustou a placa sobre uma pedra de ágata da mesma forma. No túmulo ele gravou, em caracteres inefáveis, o verdadeiro nome da Divindade e, colocando-o sobre um pedestal cúbico de mármore branco, depositou o todo dentro do arco mais profundo.

Quando esta construção subterrânea foi concluída, ele fez uma porta de pedra e, prendendo a ela um anel de ferro, pelo qual poderia ser ocasionalmente levantado, colocou-o sobre a abertura do arco superior e o cobriu para que a abertura não pudesse ser descoberta. O próprio Enoque só tinha permissão para entrar uma vez por ano; e com a morte de Enoque, Matusalém e Lameque e a destruição do mundo pelo dilúvio, todo o conhecimento deste templo e do tesouro sagrado que ele continha foi perdido até que, em tempos posteriores, foi acidentalmente descoberta por outro digno da Maçonaria, que, como Enoque, se envolveu na construção de um templo no mesmo local.

A lenda continua para nos informar que depois que Enoque completou o templo subterrâneo, temendo que os princípios das artes e ciências que ele cultivou com tanta assiduidade se perdessem naquela destruição geral da qual ele recebeu uma visão profética, ergueu duas colunas – uma de mármore, para resistir à influência do fogo, e outra de bronze, para resistir à ação da água. No pilar de bronze ele gravou a história da criação, os princípios das artes e das ciências e as doutrinas da Maçonaria Especulativa como eram praticadas em sua época; e no de mármore inscreveu caracteres em hieróglifos, informando que perto daquele local se encontrava um precioso tesouro depositado em uma abóbada subterrânea.

Josefo dá conta desses pilares no primeiro livro de suas Antiguidades. Ele os atribui aos filhos de Seth, o que não é de forma alguma uma contradição da tradição maçônica, visto que Enoque foi um desses filhos. “Para que suas invenções”, diz o historiador, “não se perdessem antes de serem suficientemente conhecidas, com a predição de Adão de que o mundo seria destruído em um momento pela força do fogo e em outro momento pela violência e quantidade de água , eles fizeram dois pilares – um de tijolo, o outro de pedra; eles inscreveram suas descobertas em ambos, que no caso de a coluna de tijolo ser destruída pelo dilúvio, a coluna de pedra poderia permanecer e exibir essas descobertas para a humanidade, e também informá-los que havia outra coluna de tijolo erguida por eles. Agora, isso permanece na terra de Siriad até hoje”.

Enoque, tendo completado esses trabalhos, convocou seus descendentes si no Monte Moriá e, tendo-os avisado da maneira mais solene sobre as consequências de sua iniquidade, exortou-os a abandonar suas idolatrias e retornar mais uma vez à adoração do Deus verdadeiro. A tradição maçônica nos informa que ele então entregou o governo da Arte a seu neto, Lameque, e desapareceu da terra.

Autores: Albert G. Mackey
Traduzido por: Rodrigo de Oliveira Menezes

Fonte: Ritos & Rituais

Nota do Blog

O texto deste post está na pág. 245 da edição de 1912 de “Uma Enciclopédia da Maçonaria e a Suas Ciências Relacionadas” (An Encyclopaedia of Freemasonry and Its Kindred Sciences) de Albert G. Mackey. A edição completa da Enciclopédia pode ser acessada pelos links abaixo (em inglês):

Mackey’s Encyclopaedia of Freemasonry: Volume I

Mackey’s Encyclopaedia of Freemasonry: Volume II

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Os que ficam pelo caminho

“Nem todos os Aprendizes chegam a Companheiros. Nem todos os Companheiros ascendem a Mestres. E seguramente que nem todos os Mestres virão a exercer o ofício de Venerável Mestre. É assim a realidade!” 

Assim escreveu o Rui Bandeira num texto publicado em 2008, ainda não tinha eu recebido o meu avental branco. Na altura, quando o li, achei estranho o tom, a naturalidade, e o que tomei por critérios de seleção apertadíssimos. Recordo-me de ter pensado algo como 

“Estes tipos não brincam em serviço… Devem ser bestialmente exigentes, e só escolhem os melhores para progredir… Isto devem ser chumbos de três em pipa…”

Estava tão enganado!

Com o tempo vim a perceber que dificilmente a Loja “chumbava” fosse quem fosse, a não ser nas circunstâncias mais excepcionais, mas que, não obstante, o Rui tinha razão: havia muitos que ficavam pelo caminho.

Mas, se a Loja não chumbava ou impedia a progressão, quem o fazia então? Ora… o próprio, quem mais?! 

Comecei a perceber que por detrás de cada nome que era chamado no início da sessão pelo Secretário e a que se seguia um silêncio em vez de ser anunciada a presença se encontrava um Irmão que não viera. E que os nomes que eu ouvia repetidamente e a que não associava uma cara eram de Irmãos que, de todo, não apareciam.

Uns – já Mestres – haviam-se desencantado, suponho, com a rotina da vida da Loja e tinham, agora, outros entreténs – razão por que não punham os pés numa Sessão fazia tempo. Outros tinham, simplesmente, prioridades – frequentemente profissionais ou familiares – que se impunham sobre a presença em Loja, ou não tinham de todo disponibilidade para integrar a Linha de Sucessão assumindo um Ofício. Uns e outros lá iam aparecendo, uns mais e outros menos frequentemente, mas alguns desapareciam completamente de circulação.

A outros – ainda Companheiros – sucedia perderem o estímulo, ou não aguentarem tanto tempo sem poder falar e sem ser exaltados a Mestre. Ao fim de um tempo, também alguns destes começavam a faltar, a envolver-se pouco, e a certa altura eram, também eles, um desses nomes que se ouve e se associa a uma cara, mas que se tem uma certa nostalgia de não ver há meses…

Por fim, alguns Aprendizes eram iniciados, achavam graça à coisa, mas não tinham vida nem disponibilidade para pertencer a uma Loja que se reúne duas vezes por mês em dias e horas certos. Outros, quiçá mal conduzidos ou defeituosamente escrutinados, acabavam por se aperceber que a Maçonaria não lhes fazia vibrar corda nenhuma, e desapareciam.

Alguns interiorizavam que não queriam mais pertencer à Maçonaria, e pediam para sair. Outros, divididos entre o querer e o não poder, não assumiam a impossibilidade de permanecer, e iam ficando sem ficar. A certa altura, já nem as quotas pagavam, nem asseguravam os “mínimos olímpicos” da assiduidade – nós nem somos esquisitos: uma presença por ano basta-nos – e tinha que se lhes chamar a atenção para que cumprissem com os seus deveres.

E de fato confirmei ser precisamente assim, como o Rui tinha dito: há os que ficam pelo caminho, e os que vão progredindo de degrau em degrau, uns mais depressa e outros mais lentamente. Por vezes, alguns metem-se por becos sem saída e, ou adormecem, ou corrigem o percurso. Mas se é sempre triste vermos um irmão sentar-se na beira do caminho, descalçar as botas e adormecer encostado a uma árvore – pois sabemos que a maioria ficará ali para sempre – já nos enche de orgulho ver um irmão subir mais um degrau, assumir mais uma responsabilidade, receber mais um reconhecimento.

Os caminhos são muitos, e o destino é cada um que o escolhe. Não é, portanto, a Loja que é exigente e o “chumba” – pois para isso teria que ser a Loja a determinar os objetivos, e estes pertencem a cada um. É antes o Maçom que é muito ocupado, desiludido, ou simplesmente complacente, e se retira pelo seu pé. E assim deve ser. É que a Maçonaria não é para todos: é só para aqueles que de fato queiram – e façam por isso.

Autor: Paulo M.

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Maçonaria dividida -com Deus ou sem Ele?

Em meados de 2016, a Grande Loja da Escócia alertou que o número crescente de pessoas que voltam as costas à religião pode afetar o futuro da Maçonaria  – uma vez que exige a crença em um Ser Supremo. A referência à população “sem Deus” trouxe lembranças amargas da minha jornada maçônica.

Por quase 25 anos estou tentando entender o(s) maior(es) paradoxo(s) da Maçonaria, e ainda estou lutando com isso…

Por um lado, sou um maçom orgulhoso e um estudante diligente de todas as coisas maçônicas: estou escrevendo artigos maçônicos e apresentando palestras; e leio ainda mais livros, estudos, ensaios e trabalhos sobre nossa Arte. Tudo me diz que somos a fraternidade de homens de bem que só podem ser descritos por superlativos: o mais velho, o maior, o maior, o mais tolerante, o… aquele que tem em sua bandeira os ideais mais nobres da humanidade – liberdade, igualdade (BTW, este era o nome da minha loja mãe!), amor fraterno, verdade, caridade.

Por outro lado, a estrutura e fragmentação mundial (cisma) absolutamente não reflete esses ideais. Vamos entrar no meio disso: por cerca de 140 anos a Maçonaria universal(?) está dividida em dois grupos concorrentes, deixando agora de lado os muitos grupos falsos e espúrios. De um lado estão os maçons anglo-americanos, que se autodenominam – desde 1929 – os “regulares” e do outro os maçons “franceses” (também conhecidos como maçonaria continental ou latina). Às vezes se autodenominam “liberais” ou “dogmáticos”. Já que soaria estúpido se eles seguissem os regulares e se chamassem “irregulares”.

A questão é o Grande Arquiteto do Universo (GADU) – como os maçons gostam de chamar o Ser Supremo ou Divindade… Em sua igreja, eles podem se referir a essa divindade simplesmente como Deus.

A Maçonaria Regular não pergunta sobre as especificidades de seu deus/Deus ou detalhes sobre sua religião. Tudo o que eles exigem é que o candidato confesse sua crença em um Ser Supremo – o que quer que esteja na fé do candidato. Em outras palavras: eles não admitem ateus entre eles. A Maçonaria liberal e adogmática considera que isso é um assunto privado, e a crença em uma divindade não é necessária; consequentemente, até os ateus podem se juntar às suas lojas. Mais exatamente, cabe às lojas, individualmente, decidir os requisitos.

primus inter pares para os regulares é a Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE) – toda nova Grande Loja “regular” do mundo buscará sua aprovação, na forma de ‘reconhecimento‘; é muito parecido com a forma como os países recém-formados imploram por reconhecimento diplomático por parte dos estados existentes. O corpo principal correspondente para o outro grupo (lembre-se, Londres os chama de “irregulares”) é o Grande Oriente da França (GOF ou GOdF) . Algumas fontes dizem que de todos os maçons do mundo cerca de 80% pertencem a lojas regulares (reconhecidas pela UGLE) e os 20% restantes são de filiação francesa.

O cisma aconteceu em 1877. No entanto, alguns dias ouvindo os “regulares” tem-se a impressão de que o outro grupo é composto por assassinos, criminosos e vigaristas da atualidade… Certos maçons menos instruídos usam palavras muito duras ao descrever o liberalismo Maçonaria Continental e considerá-los os piores inimigos. Uma breve lição de história pode não doer neste momento.

* * *

A história do “grande cisma” na Maçonaria não é tão clara quanto muitos maçons anglo-americanos acreditam. O Grand Orient de France (GOF), na verdade é mais antigo que a maioria das lojas norte-americanas: data de 1728! Curiosamente, mais de cem anos depois, em 1849, o GOF fez uma exigência para seus membros: a crença em uma divindade (Deus). Tanto a Constituição dos Modernos quanto a dos Antigos (ou seja, as duas Grandes Lojas concorrentes entre 1751 e 1813) na Inglaterra tinham inicialmente uma vaga referência a Deus, sem formulá-la, expressis verbis, como “requisito”. Nem mesmo em 1813, quando a atual UGLE foi formada pela “amalgamação” dos Modernos e Antigos, isso era uma exigência. Então, em 1877, o GOF decidiu removê-lo e deixar para o julgamento de todos os homens maduros em que acreditar.

Antes disso, eles (GOF) também cometeram alguma “invasão” no sul dos EUA: reconheceram um grupo maçônico na Louisiana sem qualquer discriminação racial, enquanto as lojas locais eram instituições racistas abertamente brancas, proibindo negros e homens de cor de ingressar. Então, sua Grande Loja cortou os laços com o GOF e pediu a outras Grandes Lojas americanas que fizessem o mesmo.

No entanto, mesmo a decisão de 1877 da UGLE de declarar o GOF “irregular” não foi automaticamente seguida por todas as Grandes Lojas regulares. No início do século XX e até o final da Grande Guerra (Primeira Guerra Mundial) havia Grandes Lojas Americanas e outras que ainda mantinham relações amigáveis ​​com o Grande Oriente, ou seja, elas se reconheciam como maçons “regulares” e a intervisitação era permitida.

… esse detalhe teológico praticamente admitiria principalmente os seguidores das três principais religiões abraâmicas …

Então, pela primeira vez em sua história, a UGLE – nas boas e velhas tradições coloniais dos britânicos – publicou, em 1929, seu conjunto de “Princípios Básicos”: uma lista de regras usadas para determinar se uma Grande Loja era regular aos olhos de ‘Londres’. Embora os maçons gostem de pensar que estas eram ou são regras “eternas” – elas foram discretamente modificadas em 1989. Por exemplo, um detalhe importante, a saber, a “crença na vontade revelada ” do Grande Arquiteto do Universo foi removida porque esse detalhe teológico praticamente admitiria principalmente os seguidores das três maiores religiões abraâmicas, que consideram o ‘livro’ sagrado de sua religião a vontade revelada de sua Divindade. (Infelizmente, a maioria das outras Grandes Lojas anglo-americanas, incluindo minha grande loja em Ontário, não seguiu… O que significa que eles se anunciam como tolerantes em relação a qualquer religião, mas depois eles usam o requisito restritivo – crença na revelação – em seus questionários .)

* * *

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A história da minha Loja Mãe e sua Grande Loja pode ilustrar a confusão mundial em poucas palavras. Apenas uma década antes desta grande confusão entre a Maçonaria Francesa e Inglesa começar, as lojas maçônicas finalmente foram permitidas na parte húngara da Monarquia Austro-Húngara, em 1868 (mas não na metade austríaca… onde a proibição geral de 1795 ainda estava em vigor ). Imediatamente surgiram duas grandes Lojas: uma de tradição “Joanita” – que significa o tradicional Craft ou Lojas Azuis, conferindo os três graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom; e outro corpo trabalhando no (vermelho) Rito Escocês, ritual ligado à Maçonaria “francesa”, conferindo também os três graus básicos e os “mais altos” 4-33 graus. Ainda hoje, em muitos países latinos, esse é o rito mais praticado! Tudo isso aconteceu no final da década de 1860 e início da década de 1870.

Então, tivemos o impasse UGLE-GOF em 1877. Se examinarmos os registros históricos, o mundo não prestou muita atenção a isso…

De volta aos nossos corpos húngaros, de uma forma única não vista em nenhum outro lugar do mundo, eles também decidiram amalgamar e ‘dividir’ as funções entre eles, formando em 1886 a Grande Loja Simbólica da Hungria, ficando exclusivamente a cargo dos três Graus do Craft, e o Conselho Escocês administrando os altos graus de 4 a 33. As diferentes lojas trouxeram suas próprias tradições para a recém-formada grande loja (simbólica).

Nunca saberemos se Londres os considerava regulares ou não – naquela época isso não era um problema tão grande como se tornou depois de 1929 , quando a UGLE publicou sua lista de Princípios Básicos.

E nessa época, a Maçonaria Húngara já foi banida (desde 1920), o que significa que a questão do reconhecimento nunca surgiu.

[Um intermezzo interessante do período da Guerra Fria: Por um breve período após a Segunda Guerra Mundial, a Grande Loja Húngara ganhou vida, embora na bagunça daqueles anos houvesse muitas tarefas mais importantes do que buscar “reconhecimento” de Grandes Lojas distantes… E então os comunistas a proibiram novamente, confiscando o prédio da Grande Loja e todos os documentos. Assim, quando os maçons fugiram dos soviéticos e chegaram como imigrantes exilados ao Canadá, legalmente não eram maçons, devido à falta de reconhecimento adequado entre as duas Grandes Lojas. Que bagunça… Isso os torna “clandestinos”?]

Então a história e o colapso dos regimes comunistas na Europa Oriental permitiram o reinício da Maçonaria legal em 1989 no leste de Budapeste. Durante as décadas de maravilhamento no deserto, as lojas no exílio guardavam a luz, iniciavam os maçons e esperavam por tempos melhores. Uma das lojas húngaras mais solidárias e ativas no exílio foi uma loja “francesa”, ou seja, sob a jurisdição do Grande Oriente de França (GOF).

Apesar disso, a reinstituída Grande Loja da Hungria prometeu ‘lealdade’ à UGLE, tendo em consideração que cerca de 80% dos maçons do mundo pertencem a jurisdições cujas Grandes Lojas são reconhecidas por Londres – como a UGLE é frequentemente chamada.

Segundo um dos maçons que sugeriu e promoveu essa ideia de adesão ao tipo UGLE da Maçonaria, foi um momento doloroso e triste na história da Maçonaria Húngara. Eles tiveram que cortar os laços com metade de suas tradições e (quase) repudiar metade de sua história.

E depois que foi decidido, em 1989, que os maçons húngaros deveriam seguir o tipo “regular” de maçonaria anglo-americana, muitos membros descontentes saíram e organizaram um corpo reconhecido pelo Grande Oriente da França. Tendo em mente o quão fatalmente eles guardaram a luz e preservaram as tradições maçônicas, apesar das duras circunstâncias históricas durante os anos da tirania…, é extremamente difícil e doloroso dizer que aqueles “não são maçons”, que eles “não são irmãos”. Quem é maçom, se não são considerados maçons?

* * *

Hoje em dia, muitos maçons, lojas e Grandes Lojas da tradição inglesa (UGLE) consideram seus ex-irmãos das lojas continentais/francesas como inimigos mortais. Literalmente. É compreensível que, obedecendo as regras de sua Grande Loja, os maçons não interajam “maçonicamente”, já que a intervisitação é proibida de qualquer maneira, se o reconhecimento mútuo não existir. No entanto, a animosidade e os sentimentos quase de ódio em relação aos corpos maçônicos não reconhecidos parecem ser difíceis de justificar.

Além disso, se olharmos para a história do mundo, a história moderna dos últimos dois ou três séculos, é absolutamente claro que os maçons pertencentes ao tipo continental de maçonaria fizeram muito mais para implementar essas nobres ideias de liberdade e igualdade do que qualquer jurisdição regular. Claro, ninguém nunca tenta explicar essa controvérsia.

Apenas para esclarecimento: fui feito maçom em uma loja “regular” sob a jurisdição de uma Grande Loja totalmente reconhecida pela UGLE. E mais tarde me juntei a outra loja “regular” na jurisdição de Ontário, Canadá, uma descendente direta dos corpos das Ilhas Britânicas e uma antiga Grande Loja Provincial da UGLE. E estou absolutamente ciente de minhas obrigações e das promessas que fiz de respeitar as regras e cumprir as leis maçônicas da jurisdição onde sou maçom ativo. Deixando claro: não tenho relações maçônicas com membros de lojas pertencentes a jurisdições apoiadas e reconhecidas pelo GOF. No entanto, tenho colegas de escola e amigos, velhos amigos de antes de ser maçom, que trabalham – maçonicamente – do outro lado da cerca. Eu não vou me sentar com eles em uma loja… mas eu nunca vou negar sua amizade! E, apesar das minhas obrigações, tenho dificuldades moralmente – para chamá-los de não-maçons.

* * *

Eu conheci meu outro significativo no Canadá, anos depois de me tornar um maçom. Quando revelei minha participação na fraternidade, falei longa e eloquentemente sobre os nobres ideais da Ordem e o que acreditamos. Então, em um certo ponto, tive que responder a duas grandes perguntas. Primeiro, o discutido acima, por que não são os maçons franceses irmãos, se realmente somos uma irmandade tão tolerante, grande e universal… Infelizmente, sempre me sinto perdendo toda a minha credibilidade quando não consigo explicar isso. Claro, estou familiarizado com todos os chavões usuais sobre a exigência da crença no GADU e a devoção do GOF à ideia de Laïcité (caráter secular). Mas, convenhamos: não há explicação razoável que um humano decente possa invocar, sem vergonha, para o ódio em nome da tolerância, igualdade e amor fraterno.

A outra grande questão será o assunto de um outro post: maçons negros. Excluídos por razões raciais pelos maçons brancos da América do Norte, todos os defensores da igualdade na terra supostamente criada com base nos princípios maçônicos…

Autores: Istvan Horvath
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: The Other Mason

*Horvath é Mestre Maçom, Maçom do Arco Real, membro da Philaletes Society, do Quatuor Coronati Correspondence Circle e da Scottish Rite Research Society. 

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Sobre a natureza da interpretação simbólica

O Ponto Dentro do Círculo

35957463886_4320399039_b L’énigme – Gustave Doré (1871)

Neste ensaio apresento minhas reflexões sobre a natureza da interpretação simbólica, com base nos meus estudos sobre o Tratado de Simbólica, de Mário Ferreira dos Santos (1956).

Na Grécia antiga, quando alguém recebia uma visita em casa, costumava partir uma moeda ao meio em sinal de amizade. Cada parte tendo a metade da moeda, esta só teria valor se as duas metades estivessem coladas uma à outra, significando que cada uma das duas pessoas só tem valor porque mantém estreito vínculo de amizade com a outra. A palavra símbolo vem de συμβολή (symbolé), formada por βολή (bolé), que significa bola (que se lança), disco, a moeda propriamente dita, e pelo prefixo σύμ (sým), que transmite a ideia de junção. Como essa palavra era interpretada como significando o vínculo entre duas partes, passou, com o tempo, a significar qualquer menção a algo maior, algo além…

Ver o post original 1.954 mais palavras

O venezuelano Francisco de Miranda, maçom iniciado após a morte?

Muita tinta foi gasta tentando abrir pontes entre a Maçonaria e o precursor da independência venezuelana, Francisco de Miranda. Essas linhas começam na França com o encontro de dois grandes homens: Miranda e Bonaparte. Ambos têm algo em comum além de seu grande gênio militar: geralmente são classificados dentro das fileiras maçônicas sem que haja evidências suficientes para apoiá-lo. Neste artigo procuramos dar uma olhada nas ligações de Dom Francisco de Miranda com membros desta irmandade, sem que por isso ele deva ser incluído na lista da famosa irmandade.

Encontro de celebridades. Por meio de introdução

Em nossa opinião, um dos trabalhos mais exaustivos já realizados sobre o general Francisco de Miranda pertence a Caracciolo Parra Pérez. Chegou às nossas mãos uma edição feita pela Fundação Bancaribe em 1989 de tão louvável obra intitulada Miranda et la Révolution française. Terminado como estava, o autor o envia e o dedica ao general Juan Vicente Gómez de Berna em 1924.

Achamos interessante abrir este trabalho sobre um tema polêmico como a suposta filiação maçônica do General Miranda, com um fato curioso que extraímos do referido livro: O encontro do eminente herói e precursor da independência hispano-americana com o não menos notável figura política e militar francesa, representada por Napoleão Bonaparte. O capítulo IX é dedicado aos encontros entre figuras políticas e militares. A primeira delas ocorreu em 1795, isso segundo o depoimento que o próprio Miranda prestou ao general Serviez em Caracas em 1812, no bairro Chaussée d’Antin, no IX Distrito de Paris, na casa da cortesã Julie Talma. Julie Carreau é a primeira esposa do trágico François Joseph Talma que atua na Comédia Francesa sob a proteção do pintor Jacques Louis David, líder revolucionário e fundador do “Estilo Império” sob Napoleão. Sua casa era ponto de encontro de pessoas ligadas a determinados meios de comunicação, mas a anfitriã foi amplamente criticada pela imprensa monarquista e marata. Miranda tem então 45 anos e é Comandante-em-Chefe do Exército Francês. Napoleão tem 26 anos e sua fama ainda está por vir. Tendo descoberto que Miranda era um general americano, Napoleão fez inúmeras perguntas, às quais Miranda respondeu “com a devida educação”.

Mas Napoleão teria que dar outra versão dos acontecimentos ocorridos na casa da Sra. Laure Permon, Duquesa de Abrantes:

J’ai dîné, hier, chez un homme qui est singuilier; je le crois espion de la court d’Espagne et de l’Angleterre tout à la fois. Il loge à un troisième étage et il est meublé comme un satrape; il chore misère au milieu de cela et puis donne des dîners faits par Méot et servis dans de la vaissele plate  ; c’est une bizarro escolheu que je veux éclaircir. [1]

Depois disso, Napoleão acrescenta uma comparação interessante, embora inadequada, sobre o general venezuelano: “J’ai là avec des hommes de la plus grande import; il e um por um, entre autres que je veux revoir: c’est un Don Quichotte, avec cette différence que celui-ci n’est pas fou[2]. E quando a Sra. Permon perguntou o nome, Napoleão respondeu imediatamente que era o general Miranda, “um homem com fogo na alma”. Logo em seguida, Bonaparte saiu e Salicetti tomou a palavra e disse que Napoleão tinha mesmo razão e que o homem a quem se referia acreditava ser mexicano, sem ter certeza. Ele o qualifica de “malandro” e acrescenta que ele é o mais sutil de toda a Espanha. 

Independentemente de qual das duas versões esteja correta, os dois generais se encontrariam novamente na casa da Sra. Permon, provavelmente convidado pelo Sr. Emilhaud que afirmava conhecer Miranda. Aparentemente a Sra. Permon, ao saber de Miranda, manifestou grande desejo de conhecê-lo, e o Sr. Emilhaud disse que o apresentaria a ele, acrescentando que o general sonhava em dar liberdade ao mundo inteiro. Dois dias depois eles se conheceram e a Sra. Permon diria mais tarde que Miranda tinha um toque mais de originalidade do que de beleza.

Na casa da dita senhora, Miranda ouviu Napoleão falar de seu ódio à Inglaterra. Combinaram um jantar na Residência Mirabeau, na rue Mont Blanc, onde Miranda morava. Não está claro, no entanto, que o general Miranda tivesse uma ou duas residências. A verdade é que Bonaparte está deslumbrado com o luxo com que Miranda vive. Segundo Bonaparte , o apartamento de Miranda é um sonho, localizado atrás dos jardins das Tulherias. “Il possède la plus exquise petite bibliothèque et un appartement installé avec un goût que je n’ai jamais vu de meilleur: on pourrait se croire à Athènes, à la maison de Périclès”[3], diz Bonaparte.

Após esses encontros em 1795, os dois homens provavelmente nunca mais se cruzaram.

Tabela 1

Resultados para a entrada “Napoleon Bonaparte Freemason” vs. pesquisa semelhante sobre Francisco de Miranda.

LinguagemMaçom Napoleão BonaparteFrancisco
de Miranda Maçom
Espanhol372.000395.000
Inglês90.400164.000
Francês22.4005.870

Algumas linhas sobre Bonaparte e Maçonaria

Vale a pena perguntar neste ponto qual é o sentido dessa possível referência desnecessária a Napoleão Bonaparte. Bem vamos ver:

Como mostra a tabela 1, quando investigamos a Internet, o motor de busca Google propõe 372.000 resultados em espanhol para a entrada “Napoleón Bonaparte masón” que contrasta com 90.400 em inglês ou 22.400 em francês. Da mesma forma, os resultados de uma pesquisa semelhante sobre Francisco de Miranda são os seguintes: 395.000 em espanhol, 164.000 em inglês e 5.870 em francês. Parece que os mais discretos nesse sentido são os franceses e os mais transbordantes no improvável, os falantes de espanhol, numa questão que não admite dúvidas pelo menos até o sol de hoje. Nem Napoleão Bonaparte nem Francisco de Miranda, salvo prova em contrário, eram maçons. A única forma de demonstrar tangivelmente a pertença à Maçonaria é a apresentação do diploma do Maçom ou documentos comprovativos de iniciação ou frequência em lojas, que no caso de Napoleão e Miranda são inexistentes. Tampouco vemos o interesse que as lojas envolvidas na iniciação dessas figuras conhecidas teriam em manter em segredo seus membros.

Antes de nos dedicarmos às nossas considerações a respeito de Dom Francisco de Miranda, vamos dar uma rápida olhada nas ligações de Napoleão com a Maçonaria, começando pelas chamadas lojas regimentais. Uma forma eficaz de se comunicar com os notáveis ​​dos países conquistados é usada por Napoleão I, que usa as lojas regimentais através das quais os maçons entram em contato com as figuras mais importantes das áreas ocupadas e transmitem ao mesmo tempo a cultura e o pensamento francês. Apesar das opiniões generalizadas, até o momento não há provas de que o imperador pertencia à ordem maçônica. Deve-se reconhecer, no entanto, que a família Bonaparte tinha fortes laços com a Maçonaria. Seu pai Charles Marie pertencia à loja de Ajaccio. Numerosos filhos deste último, irmãos de Napoleão, foram iniciados: José, iniciado em 1783 na loja de Marselha “La Parfaite Sincerité”, antes de se tornar, em 1804, o Grão-Mestre do Grande Oriente da França. Luís Bonaparte, futuro rei dos Países Baixos, pai de Napoleão III, é nomeado Grande Orador do Grande Oriente da França. Jérôme, o futuro rei da Vestfália, é iniciado na loja “La Paix” em Toulon em 1801, tornando-se depois Grão-Mestre do Grande Oriente da Vestfália. Seu filho, Jérôme Napoleón, pertence em 1848 à loja parisiense “Les amis de la Patrie”. Pierre Napoleon, filho de Lucien, sobrinho de Napoleão, foi em 1848 Oficial Honorário da Loja Parisiense Saint-Lucien. Josephine pertence a um pavilhão de adoção parisiense. Em 1805, 3.032 oficiais, 1458 suboficiais e 437 soldados do exército napoleônico pertenciam às filas da franco-maçonaria[4]. Entre os 25 marechais do Império, 17 são maçons; Todos os generais que participaram da Batalha de Waterloo eram maçons: Wellington, Ney, Grouchy, Cambronne, Wellesley e Blücher[5]. O cunhado de Napoleão, o marechal Joachim Murat, casado com sua irmã Caroline e sucessor de Joseph Bonaparte como rei de Nápoles, e seu enteado, Eugène de Beauharnais, filho de Josephine de um casamento anterior, também eram maçons[6].

Mas até agora, como já delimitamos, não foi comprovada nenhuma filiação direta entre o imperador e a irmandade maçônica, embora seja comum ouvir expressões como “irmão Bonaparte” com adjetivos que também exaltam, nos círculos maçônicos, como “o mais ilustre”, “o venerável”, etc. As mesmas fórmulas se repetem para Dom Francisco de Miranda na boca dos historiadores nacionais e estrangeiros. Na história costuma ser bastante confortável repetir o que os outros dizem, com todo o respeito por quem tenta ir às fontes para expor a verdade.

Miranda e os maçons

Em 1771, o jovem Miranda tornou-se um viajante inveterado e alimentou suas ideias de liberdade com leituras de filósofos pertencentes a algumas das fileiras maçônicas. A partir daqui, suas experiências serão relacionadas, sem qualquer comprovação, à Maçonaria. Ao chegar a Espanha, em 1772, adquiriu a patente de capitão do batalhão do Regimento de Infantaria da Princesa. Os defensores da tese maçônica de Miranda dizem que no ano seguinte ele se torna representante de “sua loja” no exterior. Até hoje não foram apresentados o diploma do maçom nem os documentos que o ligam à Maçonaria, mas há quem, além de adiantar hipóteses sobre sua iniciação, se lance em elucubrações sem qualquer fundamento. Os enciclopedistas Denis Diderot e D’Alembert são responsabilizados pelas possíveis relações para o ilustre americano ser iniciado. Testes? Não há. Onde foi iniciado? Também não é conhecido. Se conhecido, seria um grande orgulho para os membros de qualquer loja francesa, americana, espanhola, venezuelana ou inglesa revelar que esse grande homem foi iniciado dentro deles. Alguns acreditam que foi o marechal Lafayette quem capturou as grandes virtudes de Miranda que o tornaram um candidato ideal para as fileiras maçônicas e que ele o teria patrocinado em uma loja da Filadélfia. Nesse sentido, muitos repetem até em atos oficiais frases comprometedoras desse tenor:

“Aparentemente, Miranda recebeu a luz na loja da Filadélfia em 1783, patrocinada pelo general francês Marco José Lafayette (sic.), Grão-Mestre. Obtém a condição de aprendiz em Londres e de grande mestre na França” (no discurso proferido na cerimônia especial de nascimento de Dom Francisco de Miranda em 28 de março de 2016, dia da maçonaria na Venezuela).[7]

Deve-se entender que a loja da Filadélfia não deu uma razão para a filiação, bem como os respectivos anônimos da Inglaterra e da França. Mas aqui há até abordagens conflitantes, para usar as palavras de Wilfredo Padrón Iglesias, já que não há consenso sobre o local e a data da iniciação[8]. Para uns, o ato teve lugar em Madrid, outros pensam que teve lugar em Gibraltar e, por fim, há quem acredite que o evento tenha ocorrido nos Estados Unidos da América, na Filadélfia, como já foi dito. Em suma, se houve alguma iniciação maçônica por Miranda, esta ocorreu na Venezuela sob as circunstâncias mais inusitadas e em um momento que parece bastante improvável. Mas deixemos por enquanto esta questão em suspenso, que trataremos mais adiante.

Esse panorama, repleto de imprecisões, obviamente não pode ser sustentado sem suporte documental, mas os defensores da tese buscam evidências em outras vertentes. Por exemplo, eles relacionam permanentemente o legado do Precursor à filosofia maçônica, especialmente o direito à autonomia dos povos, a separação do poder da Igreja e do Estado e a liberdade de consciência religiosa. A Maçonaria Mundial afirma sua ideia permanente de liberdade de consciência, de se livrar de jugos opressores, ideia que Dom Francisco de Miranda sempre abrigou. O personagem de Miranda, um amante da liberdade, longe de todo dogma e fanatismo, é facilmente associado ao do espírito maçom.

Navegando em fantasias, há até quem aponte que depois de sua iniciação…

nenhum movimento que o Ilustre e Poderoso Irmão Francisco de Miranda tenha feito pelo mundo, sempre o fez com o prévio consentimento das lojas maçônicas a que pertencia, prestando contas de todo o seu trabalho realizado em suas constantes viagens e visitas; tanto na Europa como na América e no Caribe.[9]

Historiadores como Cesáreo González Navedo lhe dão o título de “Grão-Mestre” e o colocam à frente dos ramos do “Grande Oriente”. Da mesma forma, ele o responsabiliza por ter constituído o Grande Oriente da Maçonaria Americana e por ter fundado uma grande Loja Lautaro em Cádiz, uma loja que segundo o historiador se estenderia por toda a América Latina[10]. Como veremos mais adiante, tudo se perde na suposição e se confunde na especulação. Nesse sentido, é bastante comum ler que O’Higgins contou a Miranda a lenda de “Lautaro”, o cacique indígena dos araucanos que conseguiu reconquistar seu território e dar liberdade ao seu povo. Miranda é felizmente responsabilizado, muitas vezes, como o fundador da Loja Lautaro, em Londres, em 1797, em homenagem ao herói chileno que deu a vida para libertar seu povo, uma Loja que ficaria conhecida como o Grande Encontro Americano ou Loja de os Cavaleiros Racionais e que teria filiais em Cádiz e em algumas cidades americanas[11]. Don Mariano Picón Salas, antes de falar deste encontro, mostra a carreira multifacetada do Precursor que abre o campo entre os notáveis ​​de seu tempo, infelizmente sem especificar dados:

Com a mesma vitalidade faustiana, ele entra no tribunal e tece suas inesgotáveis ​​aventuras aristocráticas ou participa de uma discussão de “espíritos fortes” que analisam a superstição e o fundo comum de impostura que o voltairismo do século XVIII atribuiu a todas as religiões.[12]

Em seguida, também ecoando o encontro de Miranda com O’Higgins, acrescenta, sem muito apoio, que o Precursor “inicia um jovem americano como O’Higgins nas sombras de uma loja maçônica ou visita um bordel italiano e o descreve em seu Diário com os traços mais plebeus e materialistas”[13]. Um pouco mais adiante, Picón Salas fala-nos do suposto gosto de Miranda pelas sociedades iniciáticas:

Junte-se à contradição típica do seu século o materialismo mais implacável com aquele gosto pelo mistério, pelo “lado escuro da natureza humana” que animava as sociedades secretas, os cultos de iniciação, mesmerismo e frenologia.[14]

Depois de analisar cuidadosamente a biografia escrita por Don Mariano Picón Salas e outros textos e artigos referentes a Miranda, extraímos os nomes de cerca de 150 pessoas que, de alguma forma, tiveram alguma relação, direta ou indiretamente, com o Precursor da Independência Hispano-Americana para para poder estabelecer, com maior precisão, as extensas relações públicas do herói da independência com personagens de conhecida importância histórica ou determinantes em seu tempo. Filtramos aqueles cuja filiação à Maçonaria foi comprovada. Em outros casos, se não temos certeza, apontamos o que a tradição diz sobre sua proximidade com a Maçonaria sem pretender ser exaustivo a esse respeito. Não devemos necessariamente prestar atenção ao ditado que diz “diga-me com quem você anda e eu direi quem você é”. Nem todos os amigos de Miranda eram maçons, mas devemos admitir que alguns nomes entre seus “contatos” aparecem nas listas dos filhos da viúva. Aqui estão eles em detalhes:

Durante sua estada nas Antilhas (1780-1783), em sua visita à Jamaica, Miranda trouxe uma carta de recomendação de Juan Manuel Cajigal ao Almirante Sir Peter Parker, que na época servia como Grão-Mestre Provincial da Grande Loja da Jamaica.[15]

Nos Estados Unidos, a lista é, sem dúvida, encabeçada por George Washington, que Miranda conheceu durante sua estada na Filadélfia. Washington voltava da guerra e os encontros entre os dois eram frequentes a partir de dezembro de 1784. Como se sabe, Washington, um dos mais famosos maçons, havia sido iniciado em 1752 na loja de Fredericksburg e em 1788 foi nomeado Venerável Mestre da Loja Alexandria. Bem conhecida é a colocação da pedra fundamental do Capitólio dos Estados Unidos por Washington, vestindo roupas maçônicas. Henry Knox, Secretário de Guerra durante o governo de Washington (1789-1798), é um grande amigo de Miranda e maçom. Ambos mantiveram uma correspondência fluida. Knox descreve Miranda como “Senhor espanhol de caráter e grande informação… com inteligência e talento… entusiasta da causa da liberdade… possuidor de um amplo conhecimento dos homens e das coisas”[16]. Na Filadélfia, Miranda vai ao encontro de Thomas Jefferson, então deputado federal e que, segundo depoimento do Dr. Guillotin, teria participado das reuniões da Loja As Nove Musas de Paris e que teriam marchado em uma procissão maçônica junto com os membros da loja Los Hijos de la viuda No. 60 e Charlottesville Lodge No. 90 em 1817. O estudo das 25.000 cartas do ex-presidente americano não mostra, no entanto, qualquer referência à Maçonaria, mesmo que uma loja na Virgínia apareça com seu nome em 1801, Jefferson Lodge No. 65 e que após sua morte as Grandes Lojas da Carolina do Sul e Louisiana tenham realizado funerais e procissões em sua homenagem. James Monroe (1758-1831), que mais tarde se tornou o quinto presidente dos Estados Unidos e que demonstrou grande interesse pelos projetos de Miranda, havia sido iniciado em 1775 na Williamsburg Lodge No. 6, na Virgínia, aos 17 anos. Monroe foi o embaixador dos Estados Unidos em Paris nos dias de glória de Miranda na França. Um bom amigo de Miranda foi também o maçom Alexander Hamilton (1755-1804), economista, estadista, advogado, conselheiro de Washington e secretário do Tesouro sob este último. Definido seu projeto de invasão e mais uma vez nos Estados Unidos, Miranda contatou John Jacob Astor (1763-1848) com vistas a adquirir armas para a expedição. Astor fizera fortuna no comércio de peles e negócios imobiliários, bem como, mais tarde, no comércio de ópio com a Ásia. O comerciante era um Maçom e Mestre da Loja Holandesa nº 8, em Nova York em 1788, mais tarde Grande Tesoureiro da Grande Loja de Nova Iorque.

Durante sua primeira estada em Londres, Miranda decide fazer uma viagem pela Europa com seu amigo, o coronel americano William Smith, secretário do ministro em Londres e futuro presidente dos Estados Unidos, John Adams. Sinais maçônicos de certo peso são dados por William Smith na obra de Ovidio Aguilar Meza intitulada Em busca da verdade: Miranda era um maçom? Smith e Miranda acompanham um ao outro a Viena, onde Miranda se encontrará com um notável maçom, o compositor Franz Joseph Hyden. Em Christiania, Noruega, Miranda é convidada por Bernard Anker para visitar a “casa dos maçons”. Anker era um maçom que havia inaugurado a loja San Olai em cujo prédio morava no térreo e a referida loja funcionou no primeiro andar até 1811[17]. Fato curioso é que durante sua visita à casa do Sr. Khan em Cristiania, Miranda anota o número de bens da ordem maçônica, informação de certa forma sigilosa. Em Gotemburgo visita o “salão dos maçons” e em Estocolmo um orfanato mantido pelos filhos da viúva. Em setembro de 1788, ele se encontra em Zurique com Johann Kaspar Lavater, distinto filósofo e teólogo protestante, maçom da Ordem da Estrita Observância.

Também em Londres, Miranda era parente de outro famoso norte-americano: Rufus King, embaixador dos Estados Unidos no Reino Unido, um maçom convicto que compartilhava das ideias libertárias de Miranda e do jesuíta peruano Juan Pablo Vizcardo y Guzmán. Mas Londres também abrirá as portas para Miranda a diversas personalidades como o historiador britânico Edward Emily Gibbon (1737-1794), historiador de enorme importância e autor da História do Declínio e Queda do Império Romano (1776-1788). Gibbon, que sucede Oliver Goldsmith na Royal Academy como professor de história antiga, é iniciado como maçom em 1774 na Primeira Grande Loja da Inglaterra , Friendship Lodge No. 3. Também entre seus amigos britânicos está o dramaturgo e diretor de teatro Richard Brinsley Sheridan (1751-1816), maçom de acordo com a Grande Loja da Escócia. À lista acrescentamos Jeremy Bentham (1748-1832), filósofo, economista, pensador e escritor inglês. Bentham é um verdadeiro revolucionário para sua época. Por volta de 1785 ele escreve o primeiro argumento para a reforma da lei homossexual na Inglaterra. Luta pela liberdade individual e econômica, separação entre Igreja e Estado, igualdade de gênero, direito ao divórcio. Ele também defendia a abolição da escravatura, a pena de morte e o castigo físico. Bentham era um maçom com marcada influência dos jesuítas. Joseph Priestly (1723-1804), cientista, teólogo, filósofo e teórico político com mais de 150 obras publicadas, amigo de Benjamin Franklin e membro da Royal Society, sociedade intimamente ligada à Maçonaria pelo fato de ambas proclamarem ideais filosóficos e filantrópicos. Priestly aparece citado como maçom na la obra Keats, Hermetismo e Sociedades Secretas de Jennifer Wunder. Tanto Benjamin Franklin quanto Joseph Priestly são membros da chamada Sociedade Lunar. Miranda também conhece Arthur Wellesley (1759-1852), duque de Wellington, soldado, político e estadista britânico, general durante as guerras napoleônicas, duas vezes primeiro-ministro do Reino Unido, que estuda a possibilidade de formar e preparar um exército para a invasão da América. O Duque de Wellington, embora um membro da Loja do Grande Firmamento em Londres, havia sido iniciado na Loja Irlandesa No. 494 Trimem Meath, em 7 de dezembro de 1790. Em Londres Miranda forja amizade com o escritor, teólogo e escritor espanhol José María Blanco White (1775-1841), que, embora maçom, acabou desencantado com a irmandade.

Na França, conheceu também o padre Guillaume-Thomas Raynal (1713-1796), autor de The Philosophical and Political History of European Settlements and Trade in the Two Indies (1770). Raynal é acima de tudo um enciclopedista cujo trabalho é proibido na França. Sua possível adesão à Maçonaria, ainda não comprovada, pode ser sugerida pelos laços de amizade e parentesco com vários membros da loja St. Geniez d’Olt. Acredita-se também que as altas recomendações com que chega a Paris permitirão que Raynal seja iniciado na loja Les neuf soeurs, loja que daria grande apoio à revolução americana. Em Paris, Raynal faz amizade com maçons de alto calibre como Lafayette, para quem ele será um verdadeiro mentor. Miranda também conhece Jacques Pierre Brissot ou Brissot de Warville (1754-1793), escritor e líder político francês, líder girondino durante a Revolução Francesa. Brissot e Miranda se conheceram em 1792 e o soldado venezuelano contaria com o inestimável apoio de Brissot à causa patriótica. Brissot dirá da revolução libertária:

“le destin de cette révolution dépend d’un homme, vous le connaissez, vous l’estimez, vous l’aimez: c’est Miranda.” [18]

É ele quem o propõe como governador de Santo Domingo. Brissot é o fundador de uma sociedade chamada “Sociedade dos amigos dos negros” que teve uma importante influência na política colonial francesa. As memórias de Brissot não deixam dúvidas de que ele pertencia à maçonaria, principalmente a uma loja alemã, mas rituais e sigilo eram coisas que não combinavam muito com o personagem de Brissot, então o escritor rapidamente se separou das fileiras maçônicas. Em suma, essa ligação inicial abriu-lhe um campo no Círculo Social de Nicolas de Bonneville, um círculo político bastante dinâmico nos primeiros anos da Revolução, cuja origem maçônica é inegável. Outro membro da “Sociedade dos Amigos dos Negros” e que milita nas fileiras maçônicas é o prefeito de Paris Jerôme Pétion (1756-1794), que Miranda conhece em 1792. Durante os dias difíceis de Miranda em Paris, o jurista, político e maçom francês Jean Denis Lanjuinais (1753-1827) defenderá o general. Emmanuel Joseph Sieyès (1748-1836) se tornaria um eclesiástico, político, ensaísta e acadêmico francês, um dos mais importantes teóricos constitucionalistas da Revolução Francesa. Sieyès, segundo Picón Salas, escreve um projeto constitucional com Miranda. Se associa à Maçonaria, especialmente às lojas Les Amis devenus Frères no leste de Fréjus antes da Revolução e depois, em Paris, à Loja das Nove Irmãs., também conhecida como Loja dos Filósofos e Loja Rue du Coq Héron. Um americano bastante influente em Miranda é o poeta Joel Barlow (1754-1812), que conheceu em Paris e de quem tirou a ideia do nome para o continente emancipado que o militar venezuelano sonha, Colombeia. Barlow era um membro do St. John Lodge No. 4 , a leste de Hartford em Connecticut.

Antes de falar dos hispano-americanos com quem Miranda conviveu, convém mencionar a suposta visita que José del Pozo y Sucre e Manuel de Salas fizeram a Miranda. Há muitas inconsistências em tal afirmação. A primeira é que tal visita ocorre em Londres, em dezembro de 1797, mas o fato é que Miranda ainda vive em Paris nessa época. Diz-se que assinaram um documento no qual se estabeleceram as bases políticas de um projeto de independência. Tem sido amplamente divulgado que del Pozo e Salas eram jesuítas e maçons, uma afirmação posta em questão em um trabalho recente de Manuel Hernández González intitulado “Francisco de Miranda e os jesuítas expulsos[19]. O trabalho demonstra a impossibilidade de tal encontro. Por um lado, Manuel de Salas em 1797 estava em seu Chile natal e talvez nunca tenha conhecido Miranda. Por outro lado, José del Pozo não era jesuíta nem peruano, mas amigo de infância de Miranda, segundo a referida obra. O livro Oh Admirable Freemasons (2007) de Claudio A. Torres Chávez cita José del Pozo y Sucre como maçom e parte da premissa altamente improvável de que Miranda é o iniciador da maçonaria peruana.

Outro amigo de infância de Miranda foi Manuel Gual. Todos conhecem sua luta incansável pela liberdade e sua tentativa contra o poder espanhol. Manuel Gual era um aficionado da filosofia e da política e tinha algum interesse pelas sociedades secretas que lhe permitiam conhecer as ideias revolucionárias francesas. Junto com José María España e outros, teve encontros com maçons espanhóis na prisão, encontros que lhe permitiram uma iniciação maçônica. Em 12 de julho de 1799, ele escreveu uma carta a Miranda, que escreveu extensas recomendações ao governo inglês para apoiar a causa de Gual, mas Gual, como sabemos, seria assassinado um ano depois. As implicações maçônicas de Bernardo O’Higgins são amplamente conhecidas, mas infelizmente as referências à origem da Maçonaria desde a independência centram-se no papel que Francisco de Miranda teria desempenhado na fundação das Lojas Lautaro. Segundo Picón Salas, o jovem O’Higgins pediu a Miranda que lhe ensinasse matemática durante sua estada em Londres. É preciso destacar, porém, que o próprio O’Higgins não menciona esse episódio. É claro que essas conversas determinariam em grande parte o pensamento do futuro libertador chileno. Da mesma forma, Miranda mantém correspondência com o maçom Saturnino Rodríguez Peña, importante político cujas ações contribuíram para a independência das Províncias Unidas do Rio da Prata. Também em Londres, no final de 1799, recebeu o naturalista e economista de Nova Granada Pedro Fermín de Vargas y Sarmiento (1762-1813?), que depois de uma longa estadia na Europa retorna ao Caribe com a ajuda de maçons antes de acompanhar Miranda na tentativa de independência de Ocumare. Fermín de Vargas havia encontrado asilo na Jamaica, uma ilha onde se reuniam refugiados políticos perseguidos pelas autoridades reais espanholas. Fermín de Vargas era amigo de outro maçom fugitivo, Antonio Nariño, com quem fundou a loja “El arcano sublime de la philantropía”, disfarçada de círculo literário. Devemos lembrar que Antonio Nariño e Miranda se conheceram na França em 1796, talvez por mediação do próprio Fermín de Vargas. Já em Londres, em 11 de setembro de 1810, recebe, no número 27 da Grafton Street, a comissão formada por Simón Bolívar, Luis López Méndez e Andrés Bello. Bolívar era um maçom ativo, começou há alguns anos na Loja Saint Alexander da Escócia (11 de novembro de 1805), a leste de Paris. Há quem afirme que tanto Bello quanto López Méndez foram maçons iniciados, do que não há certeza. Nem todas as relações de Miranda com os maçons eram cordiais. Temos como exemplo o impulsivo padre das planícies Ramón Ignacio Méndez (1761-1839), representante no Congresso Constituinte de 1811 que, após uma polêmica e por não concordar com os “métodos” de Miranda, deu um tapa no general durante a sessão de 3 de julho.

Outra figura decisiva nos tempos da emancipação venezuelana foi o prelado e maçom chileno José Cortés de Madariaga (1766-1826). Algumas versões indicam que ele teria sido iniciado na Espanha e que na França teria alcançado o grau de Companheiro. Foi em Londres onde os dois homens se cruzaram pela primeira vez para simpatizar uma vez, especialmente por seus pensamentos em comum. “Eu gloriei-me em ser americano quando tratei este homem”[20], exclamou Madariaga doze anos depois, quando soube em San Carlos da nomeação de generalíssimo que o governo de 19 de abril de 1810 havia feito Miranda. A principal sede de Madariaga na Europa era a cidade de Cádiz, onde morava na casa do banqueiro literário La Cruz em cuja propriedade também residia o padre e maçom paraguaio Juan Pablo Fretes. Após os acontecimentos de 19 de abril de 1810, Madariaga foi a Bogotá como enviado da Junta Suprema perante o Governo de Nova Granada para formar uma liga em defensa da campanha de Miranda, porém será perseguido e capturado por Monteverde, e lodo enviado para a Espanha. Outro maçom de renome e amigo próximo de Miranda é Carlos Soublette (1789-1879), militar e futuro presidente do Estado da Venezuela. Carlos Soublette seria aluno do também maçom Antonio José de Sucre. Como engenheiro militar, em maio de 1810, juntou-se às tropas de Francisco de Miranda, onde foi rapidamente promovido a tenente-coronel e ajudante de campo do próprio general como primeiro ajudante de campo. Entre 1850 e 1855, Soublette seria Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho Confederado do Grau 33. Em 31 de julho de 1812, Miranda é feito prisioneiro em La Guaira. Da prisão participam Bolívar, Chatillón e Mariano Montilla (1782-1851), que se tornou maçom alguns anos depois na primeira loja fundada em Angostura pelo capitão inglês James Ambrose, no mesmo local onde será instalado o Congresso convocado pelo Libertador. Esta loja será chamada de “Concordia”. Da mesma forma, Montilla seria o venerável mestre da loja “La Beneficencia” de Cartagena, à qual se juntou em 1822. 

O precursor da independência americana era realmente um maçom?

O mito do maçom Miranda cai especialmente com a descoberta feita pelo historiador norte-americano William Spence Robertson, que encontra na Inglaterra os arquivos de Miranda, perdidos há mais de 100 anos, após a prisão do general. Antoine Leleux, seu secretário, os colocou a bordo de um navio inglês. Os documentos permaneceram em Curaçao por dois anos antes de serem enviados para a Inglaterra, onde permaneceram sob a proteção do Ministro da Guerra Lord Barthurst e sua família até 1926. Foi então que o diplomata Caracciolo Parra Pérez fez os arranjos para a compra e transferência para a Venezuela. O governo nacional ordenaria sua publicação. Isso significa que antes dessa data as lacunas nas aventuras do Precursor eram enormes, pelo menos no que diz respeito à sua vida íntima, o que vem corroborar a hipótese de um Miranda não maçom, já que nenhuma referência de peso foi encontrada em seus escritos apesar do que alguns historiadores afirmavam desde o início do século XX[21]. As obras do historiador venezuelano Eloy Reverón revelam muitas pistas que ajudam a esclarecer essa polêmica questão.

Reverón faz um comentário interessante em seu blog sobre a Maçonaria Mirandina:

O historiador maçom, Seal Coon, membro da Loja de Pesquisa histórica Ars Quatour Coronati em Londres, que escreveu um trabalho sobre Bolívar Maçom, onde reproduz uma cópia autenticada do registro de sua recepção ao grau de Companheiro, publicou outro escrito detalhado sobre Miranda onde admite não ter encontrado nenhuma razão para pensar que Miranda teria pertencido à Maçonaria, e que isso não desmerece qualquer mérito como figura histórica, não sem fazer um comentário humorístico sobre a ingenuidade dos escritores de língua espanhola que concorreram em exaltando seus heróis nacionais. [22]

Embora não tenha sido encontrado nenhum vestígio maçônico do generalíssimo, Reverón não descarta que Miranda possa ter pertencido a alguma fraternidade militar, frequente na época napoleônica. Reverón termina seu artigo com uma nota irônica na qual aponta que se Miranda era maçom, sem dúvida é “porque quase todos os irmãos o reconhecem como tal, embora ele tenha estado tanto tempo no Oriente Eterno e nunca tenha visitado uma loja ou frequentou alguma”. [23]

De onde vem o mito? A ideia difundida de que a figura proeminente de Dom Francisco de Miranda pertenceu à Maçonaria deve sua razão muito seguramente à origem de uma sociedade política secreta cuja organização estava ligada às chamadas lojas Lautaro e à Grande Reunião Americana, uma loja de organização ideológica fundada por Miranda em 1798. Isso concorda com o que foi expresso pelo historiador espanhol José Antonio Ferrer Benimeli, que insiste na confusão que se criou entre os termos sociedade secreta e sociedade patriótica ou no erro de simplesmente fundi-los como sociedades maçônicas. Por sua vez, Miranda não faz nenhuma referência em seu diário sobre as referidas lojas Lautaro. Se fossem lojas regulares da Maçonaria, como afirma Barboza de la Torre, um pedido para sua criação teria sido feito, por exemplo, perante a Grande Loja Unida da Inglaterra[24]. No entanto, não há registro disso. Embora seja verdade que o ajudante-de-campo Antoine Leleux foi confiado por Miranda para organizar a Sociedade Patriótica, Reverón aponta que “até agora temos notícias da maçonaria como motivação e inspiração de Francisco de Miranda para ordenar discretamente suas redes de conspiração”[25]. O destacado maçonólogo deixa claro que a filiação seria forçada e continua afirmando: “[…] daí a a encontrar provas do ingresso ou participação de Francisco de Miranda na Maçonaria, não tem se quer sintonia com a criação do Rito Escocês (1802-1808) com os escassos 8 ou 14 anos de vida que Miranda teria então”[26]. Para Eloy Reverón, a ideia compulsiva de fazer de Miranda um maçom nasceu no século XX porque o assunto, mesmo o de heróis verdadeiramente maçônicos, não foi abordado durante o século XIX. Aparentemente, havia um desejo de destacar os valores maçônicos através do ato libertário latino-americano para assim tornar-se a Maçonaria “como a pedra angular do republicanismo latino-americano”, segundo as palavras de Wilfredo Padrón Iglesias, tese sustentada com segurança por Pilar González Bernaldo e Felipe del Solar, este último maçom chileno que muito gentilmente nos forneceu informações interessantes para este artigo.

Por que devemos quebrar a cabeça por um Miranda iniciado na Maçonaria se isso não aumenta ou diminui os méritos dos militares venezuelanos? As realizações pessoais de um herói não podem ser transformadas em bandeira pela força. Pelo mesmo apego à verdade que a Maçonaria promove, deve-se reconhecer, enquanto não houver provas confiáveis, que Francisco de Miranda não foi maçom e isso estaria mais de acordo com os postulados da irmandade. Uma conclusão interessante alcançada por Reverón é que os maçons venezuelanos deram mais peso ao suposto status maçônico de Miranda do que a seus méritos pessoais, mas deixaram de lado seus grandes dons de estrategista militar que lhe renderam um lugar preponderante como herói da guerra pela independência dos Estados Unidos, na Revolução Francesa ou no ato emancipatório hispano-americano.

Um dos artigos mais sérios que aborda a questão da suposta filiação de Miranda à Maçonaria foi escrito por Wilfredo Padrón Iglesias da Universidade de Pinar del Río e intitula-se “A Maçonaria, um ponto negro na trajetória de Francisco de Miranda”, publicado pela Revista de Estudos Latino-Americanos da UNAM. O cerne do artigo afirma que a historiografia carece de elementos que possam estabelecer um vínculo entre Miranda e a Maçonaria. Padrón Iglesias revisa as fontes de autores que, por um lado, foram a favor da tese de um Miranda maçom, incluindo, entre outros, os nomes de Mariano Picón Salas, Josefina Rodríguez de Alonso e Mario Briceño Perozo. Por outro lado, cita Manuel Gálvez e Caracciolo Parra Pérez, que negam qualquer relação com a referida sociedade secreta. De fato, Parra Pérez mantém sua posição afirmando: “Para falar a verdade, não há documentos confiáveis ​​que comprovem que Miranda era maçom […]. De minha parte, nunca encontrei nenhum artigo relacionado ao assunto”[27]. O artigo acrescenta que os temas abordados nos jornais mirandinos são muito variados, dos mais sofisticados aos mais pueris, mas que em nenhum caso se refere a reuniões ou ajuntamentos maçônicos, exceto visitas a “casas dos maçons” em Cristiania (Oslo, Noruega), Gotemburgo (Suécia) e Antuérpia (Bélgica). Durante sua estada na Jamaica, no final de 1781, Miranda havia comprado dois livros: Constituições da Maçonaria e Ilustrações da Maçonaria, aponta com precisão Padrón Iglesias como as únicas referências à Maçonaria que aparecem nos diários do herói da Independência. Claro, isso não é evidência suficiente para ligá-lo diretamente aos irmãos dos três pontos. Um fato curioso acrescentado pelo investigador cubano refere-se ao fato de Miranda não ter sido acusado pela Igreja Católica de pertencer à Maçonaria. O Santo Ofício iniciou um processo contra ele na segunda década de 1770 “quando o Tribunal de Sevilha e o Conselho da Inquisição o acusaram de: ‘[ …] crimes de propostas, retenção de livros proibidos e pinturas obscenas”[28]. Padrón Iglesias conclui seu artigo dizendo prudentemente que as evidências descobertas não devem ser assumidas como definidoras, e sugere aprofundar o assunto nas diferentes áreas que compõem a vida intelectual. Para Ovidio Aguilar Meza, são grandes as chances de Miranda ter se iniciado como maçom são, ao contrário, altas e ele acredita que, se aconteceu, foi na Jamaica, abrindo assim uma nova veia nesse leque que tenta discernir a possível proximidade de Miranda com a fraternidade maçônica.

O título de nosso trabalho apenas aponta para o que acreditamos ser verdade até que se prove o contrário, e nisso concordamos com a opinião de Eloy Reverón, que estudou a fundo o assunto. De fato, em seu minucioso trabalho sobre a Loja Esperanza de Caracas, o pesquisador revisou suas atas, atos e correspondências e só obteve o nome de Francisco de Miranda em 1950, ano em que José Tomás Uzcátegui, por decreto do Grão-Mestre de a Grande Loja da Venezuela, pediu para buscar os documentos que ligavam Miranda à Maçonaria, e fez de Francisco de Miranda um maçom de fato, 134 anos após sua morte. Até agora nada, ou quase nada foi encontrado. O mesmo decreto declarou 28 de março, data de nascimento de Miranda, como Dia Nacional da Maçonaria.

Conclusões

Não sem razão Caracciolo Parra Pérez disse sobre Miranda:

Ele é o herói de nossa independência sobre quem mais mentiras foram escritas, mais lendas foram inventadas e mais fantasias foram criadas. [29] 

Vender a ideia de um Miranda maçom a todo custo é certamente um gesto louvável mas carente de rigor, querendo alimentar um mito enquanto esconde a verdade com fantasias ou especulações. Devemos entender que, depois de conhecer a carreira de Miranda e de ter dado uma guinada em sua imagem desde a publicação de seus diários e de sua correspondência, quiseram enaltecê-lo justamente quando ele passou de um traidor desprezado e esquecido a um herói de grande projeção internacional.

Apesar da tradição e do que se repete com frequência em todas as esferas intelectuais, devemos admitir que, enquanto não houver registros escritos que comprovem sua filiação, Dom Francisco de Miranda não pode ser classificado como membro das fileiras maçônicas. A importante lista de maçons com os quais mantinha uma relação próxima também não prova a sua pertença a esta irmandade, apenas permitiria supor que Miranda poderia ter recebido propostas para a integrar. Seus livros e extensa formação revelam, da mesma forma, que ele não desconhece os princípios dessa fraternidade.

Autores: José Gregório Parada Ramírez
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: REHMLAC

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Notas

[1] – Caracciolo Parra Pérez, Miranda et la Révolution française (Caracas: Ed. Banco del Caribe, 1989), 322. “Jantei ontem na casa de um homem singular: acho que é espião dos tribunais espanhóis e ingleses no mesmo tempo. Ele mora no terceiro andar de um apartamento mobiliado como um sátrapa. Ele diz que vive na miséria, mas oferece jantares preparados por Méot que são servidos em pratos simples. É algo estranho que quero esclarecer” [minha tradução].

[2] – Parra Pérez, Miranda et la Révolution française , 323. “Jantei com homens da maior importância. Entre eles há alguns que quero ver novamente. É um Dom Quixote, com a diferença de que este não é louco” [minha tradução].

[3] – Parra Pérez, Miranda et la Révolution française , 325. “Tem uma pequena mas requintada biblioteca em um apartamento com gostos que não vi melhor. Alguém acreditaria em Atenas, na casa de Péricles” [minha tradução].

[4] – Jean-Pierre Bayard,La spiritualité de la franc-maçonnerie (Saint-Jean de Braye  : Ed. Dangles, 1982), 107ss .

[5] – F. Daudin, L’ABCdaire de la Franc-maçonnerie (Paris: Flammarion, 2003), 54. De acordo com J. Ridley, vinte e dois dos trinta marechais eram maçons.

[6] – J. Ridley, The Freemasons, the Most Powerful Secret Society on Earth (Buenos Aires: Byblos, 2004), 227.

[7] – Consulte o site: http://jmc-177.org.ve/la-gloria-de-miranda/

[8] – Wilfredo Padron Iglesias.“Maçonaria, um ponto negro na trajetória de Francisco de Miranda”, Revista de Estudios Latinoamericanos 61, no. 2 (2015): 13- 30, http://www.revistadeestlat.unam.mx/index.php/latino/article/view/52805/48798

[9] – Citado em http://www.monografias.com/trabajos90/ilustre-poderoso-miranda-rodriguez/ilustre-poderoso-miranda-rodriguez2.shtml#ixzz4DZJNzJFM

[10] – Cesáreo González Navedo, “Fundação e independência da Maçonaria Americana”, Cadernos de Cultura Maçônica (1943): 5.

[11] – A esse respeito, ver José Antonio Ferrer Benimeli, “Aproximação à historiografia da Maçonaria Latino-Americana”, REHMLAC 4, no. 1 (maio-novembro de 2012): 9, https://revistas.ucr.ac.cr/index.php/rehmlac/article/view/12144/11419

[12] – Mariano Picón Salas, “Miranda”, Coleção Mérida Classics (Mérida: INMUCU, Prefeitura do Município Libertador, 2006), 12.

[13] Picón S., “Miranda”, 12.

[14] – Picón S., “Miranda”, 13.

[15] – Ovidio Aguilar Meza, “Em busca da verdade, Miranda era maçom?”, Biblioteca de Autores e Temas Mirandise (Los Teques: Fundación Fondo Editorial Simón Rodríguez, 2010), 56.

[16] – Luis Xavier Grisanti, “El Precursor Miranda y los Estados Unidos” , Analítica , 22 de março de 2006, http://www.analitica.com/opinion/opinion-nacional/el-precursor-miranda-y-los-estados – juntou/

[17] – Aguilar Meza, “Miranda era maçom?”, 63.

[18] – Parra Pérez, Miranda et la Révolution , 43. “O destino desta revolução depende de um homem, você o conhece, você o estima, você o ama: ele é Miranda” [minha tradução].

[19] – Manuel Hernández González, “Francisco de Miranda e os jesuítas expulsos”, Montalbán, Revista de Naturalezas y Educación 46 (2015). 311-321.

[20] – Weildler Guerra, “Remembering Cortés de Madariaga”, El Espectador , 4 de setembro de 2015, https://www.elespectador.com/opinion/recordando-cortes-de-madariaga-columna-583974

[21] – Mitre, Vicuña Mackenna, Becerra e Mancin.

[22] – Eloy Reveron,”Iniciação de Francisco de Miranda na Maçonaria”, 13 de março de 2009, http://granlogiavzla.blogspot.com/2009/03/iniciacion-de-francisco-de-miranda-en.html

[23] – Reverón, “Iniciação de Francisco de Miranda na Maçonaria”.

[24] – Pedro A. Barboza de La Torre, Bolívar e Maçonaria, Notas Históricas (Maracaibo: Grande Loja da República da Venezuela, 1976), 4.

[25] – Reverón, “La masonería, Miranda, fontes para seu estudo”, 21 de agosto de 2014, https://masoneriamirandina.blogspot.com/2014/

[26] – Reverón, “Maçonaria, Miranda, fontes para seu estudo”.

[27] – Parra-Pérez,  Páginas de história e controvérsia (Caracas: Lithography of Commerce, 1943), 321.

[28] – Padrón Iglesias, Maçonaria, um ponto sombrio , 29.

[29] – Parra-Pérez citado em https://venezuelaenascenso.blogspot.com/2007/09/el-libertador-de-libertadores.html

Bibliografia consultada

Aguilar Meza, Ovídio. Em busca da verdade Miranda era maçom? Los Teques: Biblioteca de autores e temas Mirandinos, Fundação Fundo Editorial Simón Rodríguez, 2010.

Barboza de la Torre, Pedro A. Bolívar e Maçonaria, Notas Históricas . Maracaibo: Grande Loja da República da Venezuela, 1976.

Bayard , Jean-Pierre. A espiritualidade da franco-maçonaria . Saint-Jean de Braye  : Ed. Dangles, 1982.

Daudin , Jean-Frédéric. L’ABCdaire de la Franc-Maçonnerie . Paris  : Flammarion, 2003.

Ferrer Benimeli, José Antonio. “Aproximação à historiografia da Maçonaria Latino-Americana”, REHMLAC 4, no. 1 (maio-novembro de 2012): 9, https://revistas.ucr.ac.cr/index.php/rehmlac/article/view/12144/11419 González Navedo, Cesáreo. Fundação e Independência da Maçonaria Americana . Havana: Cadernos de Cultura Maçônica, 1943.

Hernández González, Manuel. “Francisco de Miranda e os jesuítas expulsos”. Montalbán, Revista de Humanidades e Educação 46 (2015). 311-321.

MONET , Daniel. “Les origines intellectuelles de la Révolution française, 1715-1787”. Revue d’histoire de l’Église de France 21, no. 90 (1935): 86-92.

Padron Iglesias, Wilfredo. “A Maçonaria, um ponto obscuro na trajetória de Francisco de Miranda”. Revista de Estudos Latino-Americanos , n. 61.

Parra-Perez, Caracciolo. Páginas de história e controvérsia . Caracas: Litografia do Comércio, 1943.

Parra Perez, Caracciolo. Miranda e a Revolução Francesa . Caracas: Ed. Bank of the Caribbean, 1989.

Picon Salas, Mariano. Miranda . Mérida: Coleção Mérida Classics, INMUCU, Prefeitura Municipal de Libertador, 2006.

Ridley, Jasper. Os maçons, a sociedade secreta mais poderosa da Terra . Buenos Aires: Byblos, 2004.

Wunder, Jennifer Keats. Hermetismo e Sociedades Secretas . Ashgate, 2008.

O sonhado e o possível sob a perspectiva de uma Loja Maçônica

O Ponto Dentro do Círculo

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Com a simples entrega duma proposta de admissão nos Augustos Mistérios a um candidato, temos o inicio daquilo que podemos chamar de ‘vínculo tácito’, sim, tácito, porque esta vinculação não compromete o futuro adepto materialmente a loja que fora representada pelo Mestre observador externo (expressão autoral), uma QUALIDADE importantíssima para a manutenção do status quo da Instituição.

A possibilidade de se sentir pertencido a um grupo, associação, clube, religião, sempre despertou no ser humano interesses com as mais diversas variáveis: bem comum, status, poder, prestigio, etc, e ouso a afirmar que isto faz parte do processo civilizatório.

De toda sorte, a forma de ingresso têm suas particularidades, mas não há a olhos vistos, alguma instituição que trabalhe a entrada do iniciando com tanta preocupação em desenvolver nos sentidos humanos características essenciais ao seu desenvolvimento, o Divino e a Ciência.

Como a síntese se faz necessário no “Quarto de hora do…

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