A consolidação e a transformação do mito da “conspiração maçônica” em terras brasileiras (Parte 2)

Resultado de imagem para A consolidação e a transformação do mito da “conspiração maçônica” em terras brasileiras

No âmbito internacional, o clima hostil entre a Maçonaria e a Igreja parecia não ter fim. Em 1879 a Maçonaria francesa declarava apoio incondicional a todos os elementos que tinham interesse em combater o catolicismo. Em resposta, os setores católicos intensificaram ainda mais a propaganda antimaçônica, que assumiu as formas mais diversas, desde as declarações do Magistério Romano e de livros sérios, até panfletos, destituídos de todo rigor científico, que utilizavam argumentos muitas vezes fantasiosos. Dentre estes últimos, destacamos Os mistérios da franco-maçonaria revelados (1885), de autoria do ex-maçom e jornalista francês Gabriel Jogand Pages, mais conhecido como Leo Taxil. Rapidamente esta obra se tornou um best-seller da época, difundindo ainda mais a narrativa antimaçônica nos meios católicos.

Taxil “revelava” ao mundo a existência de uma ordem maçônica secreta chamada Palladium, no interior da qual haveria maçons incorporados pelo demônio. Nos rituais os maçons dançavam ao redor de Baphomet, uma criatura pagã cultuada pelos Templários que possuía um corpo humano com cabeça de bode. Além disso, o livro descrevia o aparecimento pessoal de Satanás em rituais maçônicos – “aparentemente ele tomou a forma de um crocodilo e tocou piano” – e os laboratórios secretos sob Gibraltar onde demônios fabricavam germes de pestilência para devastar a Europa católica[23].

O livro ficou tão famoso que Taxil ganhou uma audiência com o papa Leão XIII, em 1887. Depois do encontro, o Vaticano patrocinaria sua campanha antimaçônica e a publicação de vários outros livros.

Desde minha admissão sob o estandarte da Igreja, estava bem convencido de uma verdade: que não saberia ser um bom ator se não me metesse na pele do personagem que representava; se não acreditasse – ao menos de momento – que estava acontecendo. No teatro, se representa uma cena de desespero, não se pode dissimular as lágrimas; o cômico enxuga com seu lenço olhos secos; o artista chora realmente. Por esta razão, durante toda a manhã que precedeu minha recepção, concentrei-me na situação de uma forma tão completa que estava pronto para tudo e era incapaz de dar um tropeço, apesar de toda surpresa. Quando o Papa me perguntou: – Filho meu, que desejais? Respondi-lhe: – Santo Padre, morrer a vossos pés, agora, neste momento… Seria minha maior sorte…Leão XIII se dignou dizer-me, sorrindo, que minha vida era mais útil, todavia, para os combates da fé. E abordou a questão da Maçonaria. Tinha todas minhas novas obras em sua biblioteca particular; ele as havia lido de cabo a rabo e insistiu no direcionamento satânico da seita.[24]

Finalmente, em 1897, Taxil comunicou que iria reunir um grupo de pessoas para apresentar uma senhorita que desejava renunciar a Satã e converter-se ao catolicismo. No dia marcado, o salão encontrou-se abarrotado de religiosos, maçons e jornalistas e, surpreendentemente, Taxil informou que nada havia de revelar, porque nunca havia existido a tal Ordem Palladium e que tudo não passava de uma brincadeira que visava ridicularizar a credulidade católica.

Não vos aborrecei, meus reverendos Padres, riais melhor, com vontade, ao saber hoje que o que aconteceu é exatamente o contrário do que acreditastes ter acontecido. Não houve, de modo algum, nenhum católico que se dedicou a explorar a Alta Maçonaria do paladismo. Pelo contrário, houve um livre-pensador que para seu proveito pessoal, de modo algum por hostilidade, veio passear por vosso campo, durante onze anos, talvez doze; e… é vosso servidor. Não há o menor complô maçônico nesta história e o provarei imediatamente. É preciso deixar Homero cantar os êxitos de Ulisses, a aventura do legendário cavalo de madeira; esse terrível cavalo não tem nada que ver no caso presente. A história de hoje é muito menos complicada.[25]

A lição de Taxil para aquela plateia era clara “o demônio só existe na cabeça de quem acredita”. Entretanto parecia que a lição de Taxil não foi aprendida, pois apesar de todos terem ouvido de modo indignado a sua confissão, seria tarde demais para a Maçonaria. Sua imagem já se encontrava solidamente associada às práticas satânicas, rituais macabros e, principalmente, à incômoda figura de Baphomet.

Segundo Marco Morel, nem só de histórias bíblicas, heroicas e exemplares é constituído o conjunto lendário que explica as origens da Maçonaria e alimenta o imaginário acerca desta sociedade. Há também aquelas narrativas que, ao contrário de enaltecer e legitimar a organização dos Pedreiros-Livres, procuram desqualificá-la, relacionando sua origem e seus objetivos com tudo o que há de mais obscuro e contrastante com os valores morais, principalmente, no que se refere àqueles advindos da cultura cristã. Seja por razões de natureza religiosa, por desavenças políticas ou tão somente com o intuito de criar polêmica, o fato é que as chamadas narrativas antimaçônicas são tão ou mais abundantes do que as elaboradas pelos próprios maçons. Aliás, são também mais criativas e pitorescas, o que as tornam mais populares e frequentes na imaginação coletiva. Não obstante a constante referência a elementos esotéricos, assim como a representações do imaginário cristão como o inferno e o diabo, todos os escritores antimaçônicos, ironicamente, procuraram dar um caráter de cientificidade aos seus relatos, embasando-os, no dizer destes, em uma “sólida” documentação e metodologia[26].

Não obstante, a Maçonaria adentrava o século XX como sinônimo de anticlericalismo e anticristianismo. Nas palavras de Leão XIII, a Ordem maçônica representava a própria materialização do Diabo.

Nesta empreitada insana e pervertida nós quase podemos ver o ódio implacável e o espírito de vingança com o qual o próprio Satanás está inflamado contra Jesus Cristo – Do mesmo modo o estudado esforço dos Maçons para destruir as principais fundações da justiça e honestidade, e para cooperar com aqueles que desejarem, como se fossem meros animais, fazer o que eles quiserem, tende somente para a ignominiosa e desgraçada ruína do gênero humano.[27]

Os novos elementos de uma velha narrativa: o mito da conspiração judaica-maçônica-comunista

É interessante observar que o mito da “conspiração maçônica” não permaneceu estático em sua forma, vindo a se modificar com o tempo e adequando-se conforme o contexto histórico em que estava inserido. No Brasil, por exemplo, o mito adquiriu uma nova roupagem nas primeiras décadas do século XX, transformando-se numa versão contemporânea das antigas teorias dos Protocolos dos sábios de Sião. Neste sentido, um dos principais autores foi o acadêmico Gustavo Barroso, que além de traduzir e comentar os Protocolos… também elaborou uma série de livros que fortaleciam a ideia da ligação da Maçonaria com o comunismo soviético e de ambos com o estado de Israel.

Os argumentos de Gustavo Barroso apoiavam-se, sobretudo, numa literatura estrangeira que incitava as ditas “teorias conspirativas”. Os autores Léon de Poncins e Emmanuel Malynski a todo o momento são referenciados no livro. Mas foi talvez a proximidade que Barroso mantivera até 1938 com clássicos anti-semitas sua maior fonte de inspiração. O autor acreditava que por traz da história contada publicamente existia uma muito mais importante e, por isso mesmo, escondida do resto da sociedade.

Na perspectiva de Maria Luiza Tucci Carneiro, os conceitos e valores anti-semitas sustentados por Barroso foram alimentados através de seus freqüentes contatos com a Alemanha, o que lhe rendeu um conhecimento aprofundado da literatura nazi-fascista. Além disso, a autora salienta que, apesar da temática polêmica, suas obras foram reeditadas sucessivamente, o que nos permite afirmar que existia um público no Brasil e no exterior, consumidor e apreciador das suas idéias. Alguns de seus trabalhos foram publicados em outros países, como, Roosevelt é Judeu traduzido para o castelhano por Mario Buzatto na Argentina, em 1938, nos Cuadernos Antijudios. Para Carneiro, Barroso não estava completamente isolado em sua postura, pois intelectuais do Sigma, em vários momentos, pronunciaram conferências sobre o racismo alemão, não escondendo sua admiração pelo Reich e pelo Führer, pela nova Itália e por Mussolini [28].

Além disso, como sabemos, os Protocolos são reconhecidamente um dos maiores best-sellers do mundo. Vários pesquisadores já despenderam enormes esforços, a fim de esmiuçar o conteúdo deste polêmico clássico. Alguns estudiosos acreditam que na classificação mundial dos best-sellers, a obra apareça em segundo lugar, logo depois da Bíblia. Trata-se provavelmente de um exagero, mas o que é certo, é que novas edições dos Protocolos apareceram nos quatro cantos do mundo[29].

Conforme sugeriu o historiador italiano Carlo Ginzburg, o clássico foi inspirado num texto de 1864, intitulado Dialogue aux Enfers entre Maquiavel e Montesquieu, de autoria do jornalista francês Maurice Joly. Deste modo, os Protocolos seriam a fortuna póstuma do referido texto. A obra, publicada pela primeira vez na Rússia em 1903, teria como autor um membro da polícia secreta do Czar Nicolau II. O texto, apresentado em forma de ata, foi supostamente redigido num Congresso realizado em Basileia no ano de 1807, onde sábios maçons, judeus, bolcheviques, rosacruzes, enfim, todas as elites das sociedades secretas, estavam reunidas em torno de um único ideal, a destruição do cristianismo. Com a Revolução Bolchevique de 1917, ocorreu definitivamente a materialização deste mal. Para as forças reacionárias, esse episódio fora revelado pelos Protocolos, alguns anos antes[30].

Por volta de 1919, apareceu na Alemanha a primeira tradução do livro, vários comentários e notas foram anexados ao documento, dando ênfase especial à “Conspiração Sionista” que ameaçava as monarquias e as igrejas cristãs. Foi a partir desta versão, nitidamente direcionada, que os Protocolos chegaram à Inglaterra, Espanha, França, Portugal… espalhando-se incrivelmente pelo globo. Na análise de Ginzburg, esta foi a obra que melhor ilustrou a versão moderna do anti-semitismo, pois todas as indicações de cunho religioso e econômico, características da cultura judaica, são organizadas no texto, como mecanismos de atuação política[31].

Em 1936, o livro foi traduzido e comentado por Barroso. A obra lhe foi apresentada logo que ingressou na AIB em 1933. Até então o autor dizia-se um leigo no assunto e não tinha escrito nada com relação ao anti-semitismo.

Quando entrei para o Integralismo, era já um escritor mais ou menos conhecido, com algumas dezenas de obras publicadas. O meu publico poderia estar que eu nunca escrevera uma palavra contra os judeus. Sabia alguma coisa a respeito da questão, mas não o bastante para me imprimir uma atitude espiritual. Foi o Integralismo que me tornou anti-judaico. A primeira pessoa que comigo conversou profundamente sob o judaísmo foi o chefe nacional Plínio Salgado. A segunda, o companheiro Madeira de Freitas, que me emprestou para ler a edição francesa dos Protocolos dos Sábios de Siao, obra que eu não conhecia. Os estudos para a feitura do livro Brasil: Colônia de banqueiros desvendaram-se os últimos mistérios da organização secreta do judaísmo. Passei então, a dar-lhe combate, baseado na doutrina e palavra de Plínio.[32]

Os comentários acrescentados por Barroso ao longo dos 24 capítulos em que se constituem o livro, na perspectiva de Jefferson William Gohl, atribuem uma importância maior a Maçonaria na ordem do complô. Ou seja, a apropriação dos originais dos Protocolos por Barroso e suas notas explicativas emprestou um segundo plano de leitura que conferiu à Maçonaria um poder até mais significativo que teria nos originais[33]. O livro obteve uma boa receptividade, prova disso é que ainda em 1936, mais uma edição foi lançada, e em 1937 a obra já estava em sua terceira edição. Igualmente ao que ocorreu na Rússia, quando o livro só ficou famoso após a Revolução de 1917, no Brasil os Protocolos também só atingiram respaldo depois da chamada “Intentona Comunista” de 1935.

Nos comentários acrescidos por Barroso, a Maçonaria além de controlar as agências de informações internacionais, manipulando e disseminando as notícias de acordo com as “necessidades do judaísmo”, estaria comandando também os vários levantes extremistas. As acusações eram no sentido de demonstrar que atualmente o Kahal, ou poder secreto judeu, trabalhava na articulação da Revolução comunista que se queria impor ao Brasil. Esta “ameaça” crescia à medida que se aproximavam as eleições de 1938, por isso desqualificar os oponentes rotulando-os como maçons e/ou comunistas foi uma tática muito bem empregada pelo Chefe das Milícias integralistas.

O líder comunista João Mangabeira tem toda a razão quando afirma no seu Manifesto que o Sr. Jose Américo de Almeida é espiritualmente da esquerda. O antigo ministro da Viação nega ser maçom e diz-se católico: mas quem conhece a sua obra de escritor realista e freudiano não pode acreditar nessa afirmação dos dentes para fora. O que ele mostra ser no que escreve é um espírito anti-religioso, anti-clerical, maçônico e imoralista, virtualmente demolidor, que nada respeita e que tem o prazer masochista das causas imorais… Vamos documentar o que estamos dizendo, serenamente, com os próprios escritos do candidato à presidência da Republica.[34]

Na perspectiva de Barroso o nexo de união entre judeus e maçons, naquilo que ele chamou de complô “judaico-cabalista-maçônico”, era o ódio comum pela religião católica. Na argumentação do teórico integralista, o plano judaico de dominação do mundo, só não tinha sido ainda estabelecido devido a “vigilância e energia” dos governos cristãos, que impediam que se realizasse este programa. Com estas revelações, Barroso acreditava ter encontrado o fio da meada podendo desvendar um dos primeiros grandes segredos da história, o fato de que no passado os judeus agiram escondidos nas antigas corporações dos Pedreiros Livres, mas, que atualmente, eles se concentravam, sobretudo nas agremiações judaicas-comunistas, criadas no Brasil desde a década de 1920. Para o autor, era “farinha do mesmo saco judaísmo e comunismo” que juntos lutavam contra a civilização cristã e a atual ordem social.

Considerações finais

Talvez o maior mérito deste trabalho fosse tentar demonstrar a importância que a narrativa antimaçônica possui para o entendimento da história da Maçonaria no Brasil. Neste sentido, foi possível constatar que o “poder” da Maçonaria está tanto em sua capacidade de inserção e influência na sociedade “profana”, quanto na reação negativa que esta inserção e influência despertaram em setores que concorriam pelos mesmos espaços sociais. Ao contrário do que seria de se esperar, todo esse conjunto lendário antimaçônico não gerou somente efeitos nocivos à sociedade maçônica. Isto porque tais narrativas acabaram criando uma supervalorização do papel da Maçonaria nos destinos da história mundial.

Quanto mais os detratores da Ordem reafirmavam sua imagem conspiratória, mais eles colaboravam para que os Pedreiros Livres emergissem como importantes agentes históricos. Aos olhos da sociedade isto acabou propagandeando a Maçonaria e tornando-a bem mais poderosa do que, de fato, ela foi. Deste modo, mesmo sabendo que a instituição maçônica possuía outras finalidades, podemos perceber que a partir do momento em que os maçons conquistaram maior visibilidade social e, conseqüentemente, começaram a requerer maior participação política, criou-se um ambiente potencialmente conflituoso. No Brasil esta situação ficou ainda mais delicada com a proclamação da República em 1889 e, sobretudo, a partir da enorme presença de Pedreiros Livres nos quadros da política federal, estadual e municipal.

Assim, para além das tradicionais denúncias de satanismo ou de agentes da conspiração revolucionária, Gustavo Barroso também procurou dar um tom político atual as suas acusações. Deste modo, os ideais maçônicos de igualdade e fraternidade universal foram associados à ideologia comunista. O autor defendia a ideia de que somente os altos graus da Maçonaria conheciam os verdadeiros planos da Ordem, enquanto a grande maioria era ludibriada. Igualmente, afirmava que os trabalhadores iludidos pelos ideais igualitários do comunismo eram levados num caminho sem volta. Não obstante, outra estratégia adotada foi demonstrar que maçons, judeus e comunistas eram todos elementos estranhos à cultura brasileira e por isso deveriam ser combatidos.

Sem dúvida, as transformações políticas, econômicas e culturais ocorridas pelo aumento da imigração contribuíram para insuflar em Barroso o temor por tudo àquilo que vinha do estrangeiro e, que em última instância, poderia perturbar a “velha ordem”. Além do mais, o intelectual sabia que o Partido Comunista recrutou entre os imigrantes um número expressivo de novos adeptos e que era real a presença de imigrantes judeus ligados ao “campo socialista”.

Não obstante, mais uma vez, a tese de Girardet é reforçada, pois segundo ele nos momentos de crise o mito do complô ressurgiria com força total. Dessa maneira, por baixo das grandes ondas da história humana fluiria a corrente subterrânea e furtiva das sociedades secretas, que frequentemente determinam, nas profundezas, as mudanças que serão feitas na superfície. Diante de tais “evidências”, ou na impossibilidade de refutar tais acusações o mais prudente e seguro parece ser acreditar na Maçonaria como uma sociedade poderosa e onipresente[35]. Pois como vimos o próprio mito do complô maçônico surgiu como conseqüência dos abalos causados pela Revolução Francesa e pelo advento da modernidade. Diante de transformações tão rápidas e profundas, difíceis de explicar e de digerir, as pessoas buscavam formas de tornar o destino novamente inteligível ou, ao menos, coerente. Para tal, bastava encontrar um agente a quem pudesse incutir todas as responsabilidades. Sendo a Maçonaria uma sociedade fechada e cercada de mistérios, ela acabava por reunir todas as características que fariam dela o “bode expiatório” da vez.

Autor: Luiz Mário Ferreira Costa

Fonte: Revista de Estudios Históricos de la Masonería Latinoamericana y Caribeña

Clique AQUI para ler a primeira parte do artigo.

Notas

[23] – Leo Taxil, “Conferência”. http://www.guatimozin.org.br/artigos/taxil_confer.htm (Acesso em: 05 de Janeiro de 2009).

[24] – Ibíd.

[25] – Taxil.

[26] – Marco Morel & Françoise Jean de Oliveira Souza, O poder da Maçonaria: a história de uma sociedade secreta no Brasil (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008), 35.

[27] – Ver : “Bula Humanus Genus”.
http://www.vatican.va/holy_father/leo_xiii/encyclicals/documents/hf_lxiii_enc_18840420_humanum-genus_po.html. (Acesso em: 03 de novembro de 2008).

[28] – Maria Luiza Tucci Carneiro, “Sob a máscara do nacionalismo. Autoritarismo e anti-semitismo na Era Vargas. (1930-1945)”. http://www.tau.ac.il/eial/I_1/carneiro.htm. (Acessado 10 de março de 2009)

[29] – Carlo Ginzburg, O fio e os rastros: verdadeiro, falso, fictício (São Paulo: Companhia das Letras, 2007), 201.

[30] – Carneiro, 201.

[31] Ibíd., 202.

[32] – Gustavo Barroso, Reflexões de um Bode (Rio de Janeiro: Gráfica Educadora, 1937), 161- 162.

[33] – Jefferson William Gohl, “O real e o Imaginário: A Experiência da Maçonaria na Loja União III em Porto União da Vitória -1936 a 1950” (Dissertação de Mestrado em História, Universidade Federal do Paraná, 2003), 60.

[34] – Barroso, 2.

[35] – Girardet, 12.

Bibliografia

Barbosa, Ruy, Novos Discursos e conferencias. colligido e revisto por Homero Pires (São Paulo. Editores Livraria Acadêmica. Editora: Saraiva & Cia., 1933).
Barroso, Gustavo, Reflexões de um Bode (Rio de Janeiro: Gráfica Educadora, 1937).
“Bula Humanus Genus”.
http://www.vatican.va/holy_father/leo_xiii/encyclicals/documents/hf_lxiii_enc_18840420_humanum-genus_po.html.
Colussi, Eliane Lúcia, A Maçonaria Gaúcha no Século XIX (Passo Fundo: Editora UPF, 2000).
Ginzburg, Carlo, O fio e os rastros: verdadeiro, falso, fictício (São Paulo: Companhia das Letras, 2007).
Girardet, Raoul, Mitos e mitologias políticas (São Paulo: Companhia das Letras, 1987).
Gohl, Jefferson William, “O real e o Imaginário: A Experiência da Maçonaria na Loja União III em Porto União da Vitória -1936 a 1950” (Dissertação de Mestrado em História, Universidade Federal do Paraná, 2003), 60.
Gueiros Vieira, David, O Protestantismo, a Maçonaria e a Questão Religiosa Brasil (Brasília: Editora Universidade de Brasília).
Martins Terra, João Evangelista, Maçonaria (Lisboa: Communio 62, 1993).
Morel, Marco & Oliveira Souza, Françoise Jean de, O poder da Maçonaria: a história de uma sociedade secreta no Brasil (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008).
Taxil, Leo, “Conferência”. http://www.guatimozin.org.br/artigos/taxil_confer.htm.
Tucci Carneiro, Maria Luiza, “Sob a máscara do nacionalismo. Autoritarismo e anti-semitismo na Era Vargas. (1930-1945)”. http://www.tau.ac.il/eial/I_1/carneiro.htm.
Véscio, Luiz Eugênio, O crime do Padre Sório: Maçonaria e Igreja Católica no Rio Grande do Sul (1893-1928) (Santa Maria: EDUFSM; Porto Alegre: EDUFRGS, 2001).

Anúncios
Publicado em História | Marcado com , , , | Deixe um comentário

A consolidação e a transformação do mito da “conspiração maçônica” em terras brasileiras (Parte 1)

Resultado de imagem para conspiração maçônica em terras brasileiras

Introdução

No Brasil das últimas décadas, pode-se observar que a história da Maçonaria passou por um profundo processo de amadurecimento teórico-metodológico, com emprego de novos enfoques e novos modelos interpretativos. Consequentemente, diante desta “renovação”, surgiu o interesse em aprofundar-se no campo das narrativas contrárias à Ordem dos Pedreiros-Livres. Desde então, a história dos discursos e imagens que condenavam e degeneravam a própria instituição passou a despertar um interesse crescente entre alguns historiadores.

Para Raoul Girardet, estas narrativas surgiram da associação feita entre a Maçonaria e a ideia de “conspiração”, uma característica peculiar das sociedades que vivenciaram momentos conturbados de crise e de grande tensão social. Segundo o autor, numa realidade coproduzida “a lógica da manipulação se vê substituindo a imprevisibilidade da história”[1].

Quanto à construção do mito da conspiração, Girardet destacou três tipos diferentes de narrativas onde a ideia do complô se faz presente. A primeira forma refere-se ao “complô judaico”, identificado pela “profecia do velho rabino diante de seus companheiros”. A profecia tratava de um plano metódico de conquista do mundo, realizado pelo povo de Israel contra o resto da humanidade[2]. Na segunda teoria conspiratória, eram os jesuítas que planejavam dominar o mundo. Assim, como analisou Girardet, o princípio essencial sobre o qual repousava o temível poder da Companhia de Jesus era “a traição no lar, a mulher espiã do marido, a criança, da mãe…[3]. E a terceira narrativa, que mais nos interessa, denominada por Girardet como mito da “conspiração maçônica”, adquiriu seus principais fundamentos teóricos a partir das obras do abade francês Augustin de Barruel em fins do século XVIII. Para o clérigo, a gênese e a conduta da Revolução Francesa eram essencialmente atribuíveis às maquinações da franco-maçonaria. Uma maquinação dirigida neste caso por uma seita particular, a dos Iluminados da Baviera, que se havia infiltrado e apoderado do controle da Ordem maçônica[4].

A “Questão Religiosa” e a difusão da narrativa antimaçônica no Brasil

Na perspectiva da historiadora Eliane Lucia Colussi, no Brasil oitocentista pode-se identificar pelo menos dois projetos ideológicos opostos. O primeiro foi consubstanciado pela influência das correntes de pensamento liberal e cientificista que transpunha para a esfera da política e da cultura a defesa de noções como racionalismo, progresso e modernidade, representada, sobretudo, pela Maçonaria. O segundo projeto, uma reação do catolicismo mundial frente aos avanços do liberalismo, que, no Brasil, reuniu os defensores do pensamento católico-conservador[5].

Este último, como bem observou Luiz Eugênio Véscio, pretendia impor à religiosidade popular os princípios definidos no Concilio de Trento. A Igreja reformada esperava reverter o quadro de decadência e ignorância no qual se encontrava a doutrina católica. Suas ações efetuaram-se através do regramento do clero, da criação de grandes redes escolares católicas, da expulsão dos padres maçons que não abjurassem a Maçonaria e da suspensão dos trabalhos das irmandades e confrarias que estivessem sob suspeita de influência maçônica, criando assim o terreno perfeito para ocorrer aquilo que veio a se chamar Questão Religiosa[6].

Naquilo que tange, especificamente à Questão Religiosa, David Gueiros Vieira destacou que diversos elementos entraram em choque e ocasionaram o conflito[7]. Essa agitação não teve lugar somente no Brasil, mas por toda a Cristandade. Em sentido geral, o conflito foi, de um lado, uma colisão do galicanismo, jansenismo, liberalismo, Maçonaria, racionalismo e o protestantismo, todos vagamente “aliados” contra o conservantismo e ultramontanismo da Igreja Católica do século XIX.

No Brasil a Igreja Católica aos poucos efetivava um profundo movimento de renovação e afirmação de sua doutrina, caracterizado pela reafirmação do escolasticismo, pelo restabelecimento da Sociedade de Jesus (1814) e por uma série de encíclicas, bulas e alocuções que foram fulminantemente lançadas contra o que a Igreja considerava serem elementos errôneos e tendências perigosas dentro da religião e da sociedade civil[8].

Como nos informa Vieira, os mais ilustres mestres do escolasticismo e tomismo na primeira parte do século XIX foram o padre português Patrício Muniz (1820-1871) e o italiano Mons. Gregório Lipparoni, que haviam estudado em Roma. Cumpre ressaltar, entretanto, que o ultramontanismo do Padre Muniz não era intransigente. Entre os ultramontanos radicais, dois foram de grande influência, como os padres Luís Gonçalves dos Santos e William Paul Tilbury. O primeiro, cognominado “Padre Perereca”, foi talvez o mais vocifero dos ultramontanos no Brasil. Entrou em violentas disputas com o Padre Feijó sobre o projeto legislativo que daria permissão aos padres brasileiros de se casarem. O Padre Perereca atacou Feijó com termos insultantes, aos quais Feijó revidou à mesma altura. Tanto o Padre Tilbury como o padre Perereca têm o crédito de terem sido um dos pioneiros da narrativa antimaçônica no Brasil. Em 1826, Tilbury publicou Exposição Franca Sobre a Maçonaria. A contribuição do padre Perereca foi em forma de uma série de cartas publicadas nos jornais do Rio de Janeiro contra a Maçonaria e o jornal o Despertador Constitucional[9].

O folhetim intitulado de Antídoto Salutifero contra O Despertador Constitucional… que
circulou na década de 1820 dá o tom do seu discurso antimaçônico.

Carta Primeira. (Quinta do Corcovado aos 15 de Abril de 1825)
Senhor Despertador Constitucional. Com grande prazer, e satisfação dou a V.S. os sentimentos do mau sucesso, que teve na defesa, que fez, da sua decantada, e venerável Ordem Maçônica: igualmente me congratulo com todos os Brasileiros honrados, amantes da Religião, do Império, da Verdade, e do Bem Público, de que V.S., em lugar de tosquiar, tivesse ficado de tal modo tosquiado, que lhe levaram pele, e cabelo.
[10]

Entre os ultramontanos estrangeiros que mais influenciaram a formação de várias gerações de ultramontanos brasileiros, encontramos os lazaristas que, em 1821, fundaram o Colégio Caraça, em Tejuco (Diamantina hoje) em Minas Gerais. Vários lazaristas franceses foram importados para lecionar no mencionado colégio. Os jansenistas, galicanos e liberais de todos os matizes se revoltaram contra a volta dos frades estrangeiros. O Deputado Bernardo Pereira de Vasconcelos foi um dos primeiros a protestar contra esse retorno e apresentou uma “indicação” propondo que se recomendasse ao governo a execução das leis que, “pra sempre”, tinham abolido no Império do Brasil a Sociedade de Jesus. Vasconcelos foi secundado por Raimundo José da Cunha Matos, que dizia estarem jesuítas voltando ao país, a convite do Gabinete, e que esses jesuítas estavam regressando disfarçados em capuchinhos e lazaristas[11]. Os debates no Parlamento sobre a presença de frades estrangeiros no Brasil continuaram por muito tempo. Em face do que foi debatido na Câmara durante esse período, diríamos que o consenso entre os jansenistas, galicanos de todas as espécies e liberais, no Parlamento brasileiro, era que o ultramontanismo representado pelas ordens religiosas estrangeiras não deveria ser importado e, se já estivesse no Império, deveria ser confinado aos conventos e nunca lhe ser permitido “contaminar” o povo com “ideias absolutistas”. O Deputado baiano José Lino Coutinho expressou, em poucas palavras, o que os liberais desejavam: “O Brasil, Sr. Presidente, precisa de estrangeiros que lhe venham trazer a indústria e as artes”, disse ele, o que devemos “é dar à mocidade uma educação de verdadeiros católicos mais livres de preconceitos; devemos ensinar-lhes a religião de Jesus Cristo e não a hipocrisia”. Por essa razão, Coutinho se opunha à importação de frades e exigia outro tipo de imigração para o Brasil[12].

Em 1864, as teses ultramontanas foram sistematizadas na Encíclica Quanta cura e no Sillabus, anexo à mesma. Portanto, grosso modo, pode se dizer que o ultramontanismo do século XIX colocou-se, não apenas numa posição a favor de uma maior concentração do poder eclesiástico nas mãos do papado, mas também contra uma série de coisas que eram consideradas erradas e perigosas para a Igreja[13]. Entre esses “perigos” estavam: o galicanismo, o jansenismo, o protestantismo e a Maçonaria.

No Brasil, o ultramontanismo conquistou setores importantes da Igreja. Essa “vitória” foi em parte alcançada quando os bispos conseguiram o direito de suspender qualquer clérigo ex-informata conscientia (Decreto n°. 1911 de 28 de março de 1857), sem que o clérigo afetado pudesse apelar para a Coroa, bem como quando obtiveram o controle dos Seminários. Com o seu desejo de obter para o país um clero bem mais educado, mandou para a Europa um grande número de seminaristas brasileiros que absorveram ideias ultramontanas nos seminários da França e da Itália. Ao voltarem ao Brasil, esses jovens em pouco tempo conquistaram posições de liderança dentro da Igreja. Muitos deles chegaram a bispo em pouco tempo. A verdade é que, pelos idos do Concílio Vaticano I (1869-1870), todos os bispos brasileiros e seus colegas latinoamericanos eram ultramontanos e se juntaram na defesa das “Constituições Dogmáticas” que estabeleciam a “Fé Católica” e a “infalibilidade do Papa”[14].

Em 1872, os bispos de Olinda, D. Vital Maria Gonçalves de Oliveira, e o de Belém D. Antônio de Macedo resolveram atender às ordens de Roma e expulsaram os maçons das organizações religiosas. Naquela época, a Maçonaria se encontrava infiltrada na Igreja em Pernambuco, fato que levou D. Vital a se levantar contra essa instituição, proibindo inúmeras vezes os padres de celebrarem missas encomendadas pelos maçons. Soma-se a esta delicada situação o fato da imprensa maçônica atacar os dogmas da Igreja Católica, o que fez com que D. Vital, a 21 de novembro de 1872 escrevesse uma carta pastoral ao clero, acautelando, seus padres e colaboradores a estarem premunidos a respeito das doutrinas pregadas pela Maçonaria[15].

A Maçonaria, na figura do Grão Mestre do Lavradio, o Visconde do Rio Branco –Presidente do Conselho de Ministros – ofendida com a reação do bispo, que invocava textos pontifícios não placitados pelo governo imperial para atacar a imagem da instituição, utilizou-se de sua forte presença no Gabinete e no Senado para desencadear uma guerra pelos jornais contra o episcopado brasileiro. Neste sentido, em 17 de maio de 1873, Visconde do Rio Branco em discurso no Senado defendeu com vigor os princípios maçônicos contra as acusações da Igreja.

Eu entrei na maçonaria há muitos annos, e nunca vi que ella se ocupasse com a religião nem com a política do Estado: foi sempre a meus olhos, pela experiência que tenho, uma associação destinada a socorrer os seus membros e a promover o aperfeiçoamento moral e intellectual do homem. Se ella faz pouco neste empenho, se tem ereado poucas escolas, os actos de beneficência são incontestáveis (apoiados); muitas famílias recebem auxílios dessas sociedades, que se pretende estygmatisar, a que se pretende mesmo negar os foros de cidade no Brazil.[16]

O Conselho de Estado considerava o interdito ilegítimo porque a excomunhão não respeitava a Constituição Brasileira de 1824, que garantia ao Imperador o direito do beneplácito. Assim, a indicação de bispos, arcebispos, cardeais, superiores de ordens e beneficiários, além da autorização de bulas e breves papais deveriam receber a autorização de D. Pedro II. Na sessão do Senado de 24 de maio de 1873, o discurso pronunciado pelo Sr. Alencar Araripe elucidava alguns pontos desta questão e ao mesmo tempo denunciava a desobediência dos bispos perante as leis imperiais.

Lamento profundamente que o nosso episcopado não conheça o perigo, e tente a árdua empreza contra as attribuições da autoridade civil (Apoiados), sonhando com a restauração de uma ordem de cousas que jamais voltará. Longe vai a época do domínio temporal do clero, e essa época não figurará mais na historia futura da humanidade. O estudo do que entre nós se passa demonstra que resurgio a idéa de restabelecer um domínio decahido; e para rehabilitar a supremacia do poder temporal no episcopado, os nossos bispos planejarão investir contra a associação maçônica, e depois proceder, em aberta resistência, contra o próprio poder civil. Havião bullas papaes excommungando os maçons; portanto os bispos brasileiros, na execusão do seu plano, devião começar dizendo que a associação estava condemnada, e que não podia existir porque merecia a reprovação da igreja.[17]

É interessante observar que o agravamento do conflito possibilitou algo que parecia impossível no Brasil: a união entre os dois Grandes Orientes. Os dois grão-mestres, Rio Branco e Saldanha Marinho, convocaram os maçons de todo o Brasil para a batalha que se ia travar contra a Igreja. Os jornais maçônicos se agitaram: A Família do Rio de Janeiro; A Família Universal e A Verdade, de Pernambuco; O Pelicano, do Pará; A Fraternidade, do Ceará; A Luz, do Rio Grande do Norte; A Laborum, de Alagoas; O Maçom, do Rio Grande do Sul. Em vários pontos do país, foram fundados novos jornais com a finalidade confessada de combater o que chamavam “ultramontanismo” ou “jesuitismo”. Essa imprensa sectária era liderada, principalmente, por Saldanha Marinho, sob o pseudônimo de Ganganelli. Palavras como padrecos, ferrenhos detratores, maltrapilhos, capadócios de grande força, irrisórios pedagogos, sicofantas, tornaram-se comum nestes textos[18].

O governo imperial tentou tranquilizar os ânimos enviando o Barão de Penedo até Roma. Em carta, o papa Pio IX pediu aos clérigos brasileiros para terem mais cautela e tolerância, mas a correspondência papal não chegou a tempo e o agravamento da crise foi inevitável. O bispo de Olinda, acusado perante o Supremo Tribunal, foi preso e recolhido ao arsenal da marinha do Recife, a 2 de janeiro de 1874. Na sessão do julgamento apresentaram-se para defendê-lo o Conselheiro Zacarias de Góis e Vasconcelos e o senador Cândido Mendes de Almeida. Todavia D. Vital foi condenado a 4 anos de prisão com trabalhos forçados. Por decreto de 12 de março, foi-lhe comutada a pena a prisão simples na fortaleza de São João, no Rio de Janeiro[19].

A reação negativa da opinião pública nacional e internacional levou ao desgaste e, consequentemente, a queda do Gabinete Conservador liderado por Rio Branco. Em resposta, o Imperador nomeia outro conservador, Luiz Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, para chefiar o novo Gabinete. Duque de Caxias também era maçom, mas condicionou a aceitação do Ministério à concessão da anistia aos dois bispos. Fez ver ao Imperador que a solução da anistia incondicional dos prelados era a única medida capaz de estancar a crise[20].

Finalmente, em 17 de setembro de 1875, o governo decidiu recuar e assinou o decreto que libertava os clérigos, colocando um fim à Questão Religiosa, que se arrastava por três longos anos. Entretanto os ataques continuavam de ambos os lados, demonstrando que o impasse ainda permanecia entre as duas instituições. Do lado maçônico as críticas à hierarquia clerical, à intervenção nos assuntos civis e o atraso representado pelo catolicismo permanecia em pauta. Em conferência realizada, no dia 21 de julho de 1876, no Grande Oriente Unido do Brasil, o orador Ruy Barbosa elucidou de forma precisa os contornos dessa situação.

Subscrever á falsidade ultramontana, confessar em si chagas que está consciente de não ter, sentar-se resignada e humildemente no muladar de vilependio que lhe indicam e murmurar, na inércia, as palavras de Job? Não!Nunca! (Bravos, Apoiados Geraes). Não seria simplesmente suicídio, mas pusillanimidade; não seria unicamente ruína, mas covardia; não seria só aniquilamento, mas apostasia, deserção, opprobrio… (Aplausos) [21].

Segundo Ruy Barbosa, a Questão Religiosa foi antes de tudo uma “Questão Política”, uma disputa travada entre a ortodoxia religiosa e o legalismo monárquico. Em meio a esta situação, a Maçonaria foi tomada como “bode expiatório”. Por isso, para Ruy Barbosa, a luta dos maçons deveria continuar no sentido de construir um Estado laico e secular.

Eis a pedra de tropeço, pedra de escândalo entre elles e vós. Eis o nosso symbolo, o segredo immortal da nossa força: o crente emancipado na igreja, a igreja livre no Estado, o Estado independente da igreja. Eis o nosso terreno, onde os legisladores somos nós, não o papa, onde os decretos são os do nosso parlamento, não os da cúria. Trata-se de nossas pessoas, de nossas almas, de nossa prosperidade individual e collectiva, de nossa incommunicavel responsabilidade perante Deus.[22]

No âmbito internacional, o clima hostil entre a Maçonaria e a Igreja parecia não ter fim. Em 1879 a Maçonaria francesa declarava apoio incondicional a todos os elementos que tinham interesse em combater o catolicismo. Em resposta, os setores católicos intensificaram ainda mais a propaganda antimaçônica, que assumiu as formas mais diversas, desde as declarações do Magistério Romano e de livros sérios, até panfletos, destituídos de todo rigor científico, que utilizavam argumentos muitas vezes fantasiosos. Dentre estes últimos, destacamos….

Continua….

Autor: Luiz Mário Ferreira Costa

Fonte: Revista de Estudios Históricos de la Masonería Latinoamericana y Caribeña

Clique AQUI para ler a primeira parte do artigo.

Notas

[1] – Raoul Girardet, Mitos e mitologias políticas (São Paulo: Companhia das Letras, 1987), 33.

[2]Ibíd., 35.

[3]Ibíd., 37.

[4]Ibíd., 32.

[5] – Eliane Lúcia Colussi, A Maçonaria Gaúcha no Século XIX (Passo Fundo: Editora UPF, 2000), 12.

[6] – Luiz Eugênio Véscio, O crime do Padre Sório: Maçonaria e Igreja Católica no Rio Grande do Sul (1893-1928) (Santa Maria: EDUFSM; Porto Alegre: EDUFRGS, 2001), 88-89.

[7] – David Gueiros Vieira, O Protestantismo, a Maçonaria e a Questão Religiosa Brasil  (Brasília: Editora Universidade de Brasília), 16.

[8] – Vieira, 32.

[9]Ibíd., 34.

[10] – Antídoto Salutifero contra O Despertador Constitucional Extranumerário No. 3. Dividido em sete cartas dirigidas ao Auctor d’aquelle folheto impio, revolucionário, e execravel. Para beneficio da Mocidade Brasileira, especialmente da Fluminense, por hum seu patricio fiel aso deveres, que lhe impõe a religião, e o Imperio. Lisboa: Impressão Regia, 1827. (Impressa no Rio de Janeiro) [BNL – RES 16951 -V – Reservados]

[11] – Vieira, 36.

[12]Ibíd., 37.

[13]Ibíd., 33.

[14]Ibíd., 38

[15] – João Evangelista Martins Terra, Maçonaria (Lisboa: Communio 62, 1993), 158.

[16] – Defesa da Maçonaria no Parlamento Brasileiro pronunciado no Senado pelo Sr.Visconde do Rio Branco (Presidente do Conselho de Ministros) e Alencar Araripe (Membro da Camara Temporia) Ouro Preto Typ. do Echo de Minas, 1873, 4.

[17] – Martins Terra, 9.

[18] Ibíd., 156.

[19]Ibíd., 156.

[20]Ibíd., 162.

[21] – Ruy Barbosa, Novos Discursos e conferencias. corrigido e revisto por Homero Pires (São Paulo. Editores Livraria Acadêmica. Editora: Saraiva & Cia., 1933), 12.

[22] – Barbosa, 13.

Publicado em História | Marcado com , , , | Deixe um comentário

As Armadilhas da Perfeição

Resultado de imagem para perfeição

A perfeição impõe ao homem o controle total sobre a vida, não abrindo espaço à experiência, à pesquisa e à livre criação. Ao negar-lhe qualquer possibilidade de erro, este homem está se impedindo de aceitar a si mesmo e de buscar o seu conhecimento interior.

O conceito de perfeição, que a cultura ocidental considera como sinônimo de valor máximo em todas as ordens, foi exaltado por certa expressão histórica do cristianismo como o mais sagrado dos imperativos para o gênero humano: ser perfeito como Deus é perfeito.

Os que vivem tomados por esta dinâmica acusam uma sensação constante de inadequação, sentindo-se malfeitas e incapazes de aceitar os próprios erros. Vivem na presença de um juiz implacável. Descobrem-se desprovidos de espontaneidade, necessitando funcionar com a precisão de um relógio suíço, vivendo em função de normas, programas e certezas, como se tudo fosse um laboratório.

A perfeição exige seres frios emocionalmente, que se nutrem de desestima, de sentimentos de culpa e de remorso todas as vezes que cometem um erro ou insucesso. Seus atos tem a necessidade de ser aprovados pelo juiz interior e pelos outros.

O ideal de perfeição exerce um controle sobre a nossa realidade, não havendo espaço para a espontaneidade, impedindo a pesquisa, sondagens ou experiências e aventuras.

Aceitar as próprias limitações é aceitar a si mesmo, daquilo que se é realmente, sem alienar-se de nada nem do passado nem do presente. Quem é dominado pela ideia de ser perfeito funciona com uma espécie de “repelente”, mas ao repelir-se quando erra, está errando porque se rejeita. A perfeição predispõe a pessoa a tratar com antipatia tudo o que é imperfeito, sendo muita baixa a sua tolerância com o que se afasta do perfeito.

Para ser feliz, o homem deve aceitar-se tal como é. Nenhum outro animal, exceto o homem, dá-se ao desprezo devido às próprias imperfeições. O conceito que temos de perfeição nos faz elaborar conceitos, emoções e comportamento de tal modo que poderemos ser vítima de uma psicologia da perfeição, exigindo que o nosso sistema mental trabalhe de forma indefectível e infalível, admitindo que o erro e o insucesso são inimigos da vida.

Mas é sabido que o erro é a matéria-prima da vida, podendo surgir numerosos recursos, e oferece a oportunidade de limar as asperezas de nossa conduta em relação a nós mesmos e aos outros.

O verdadeiro sucesso está em tirar proveito de nossas fraquezas, fazer um uso construtivo de nossos erros. A perfeição caracteriza-se pelo excesso, na ansiedade de ir cada vez mais para cima, sobressair-se, de estar por cima.

Se mudarmos o modo de pensar poderemos alterar a nossa relação com este fardo de imperfeições que carregamos.

Conhecer nosso limite poderá consequentemente orientar o sistema mental de tal modo que as reações emocionais e comportamentais em relação a nós mesmos, aos outros e à vida em geral, se torne um exercício constante de adaptação à realidade, proporcionando mudanças com qualidade.

Não temos como não cometer erros, não ter defeitos, podemos porém aprender a servir-nos deles. O sistema mental coloca-se na condição de aceitar os próprios defeitos. A perspectiva produz representações internas aptas à aceitação de si.

A perspectiva do limite reorienta a pessoa para aquilo que ela realmente é. Nessa reorientação não sofremos uma limitação, ao contrário, aceitamos nossa própria realidade limite. Nesse caso, aceitamos algo essencial: o próprio eu.

Autor: Jurandy Cordeiro de Souza Júnior

*Baseado no primeiro capítulo do livro Respeita o teus Limites – Fundamentos Filosóficos da Terapia da Imperfeição, de Ricardo Peter (São Paulo, Paulus, 1999).

Publicado em Filosofia | Marcado com , , | Deixe um comentário

Humano. Uma Viagem pela Vida

Imagem relacionada

Com testemunhos e imagens aéreas exclusivas, o introspectivo documentário aborda quem nós somos hoje em dia. Não só como comunidade, mas como indivíduos. Através das guerras, descriminações e desigualdades, confrontamos a realidade que também contempla discursos de solidariedade. Uma reflexão do futuro que queremos para nós, seres humanos, e o planeta.

Publicado em Documentário | Marcado com , | Deixe um comentário

Primeiras Impressões de um Aprendiz Maçom

Resultado de imagem para aprendiz maçom

Após algumas reuniões e momentos de estudo, utilizando apenas do que foi apresentado para o grau, além das observações cotidianas do convívio prazenteiro de uma Loja Regular, um aprendiz está apto a apresentar suas primeiras impressões sobre o processo de iniciação, principalmente sobre a cerimônia que concede o titulo de Aprendiz Maçom e as transformações ocasionadas pela sua entrada e frequência na ordem iniciática.

Ao entrar para a maçonaria o profano passa por um longo e minucioso processo de admissão, dividido em quatro etapas distintas. Esse processo tem por objetivo conhecer bem o postulante à insígnia de aprendiz maçom.

O processo de escolha de um candidato, principalmente aos olhos deste, pode ser considerado algo demasiadamente moroso. Contudo esse tardo no desenrolar no cumprimento fidedigno das etapas, constitui-se de elementos fundamentais para uma escolha coerente e responsável de um futuro membro da irmandade. O postulante à insígnia de aprendiz maçom, por sua vez, precisa se manter discreto durante todo o processo de escolha. Não se pode deixar que a euforia do convite se transforme em convicção de aceitação pela ordem. Quanto mais circunspecto for o candidato, menor a chance de decepção deste em caso de uma possível rejeição ao seu nome. É importante também salientar que o candidato não deve agir de forma obsedante, a fim de forçar e/ou acelerar o rito normal das etapas de escolha/aceitação/iniciação. A utilização de um parco espaço de tempo na concretização das etapas e do procedimento como um todo, aumentaria consideravelmente a probabilidade de uma escolha equivocada.

Ao citar a palavra processo, que tem a sua origem no latim procedere, que por sua vez significa ‘mover adiante, avançar’, o faço de modo proposital, a fim de deixar bem claro a importância de uma escolha bem sucedida e consequente aceitação de um candidato indicado. Do contrário corre-se o risco de acolher um candidato que não trará bons fluídos para a “irmandade”. De uma forma análoga, quero dizer que uma “erva daninha” pode causar a deterioração do seu hospedeiro, levando-o ao enfraquecimento e/ou a morte. Diante dessa premissa, é necessário seguir as etapas que antecedem as “provas de iniciação” com rigor, coerência e responsabilidade, não permitindo queimar etapas ou acelerar o seu desenvolvimento.

A escolha e aprovação de um candidato devem passar necessariamente por uma avaliação criteriosa de qualidades importantes e inerentes ao ser humano. Contudo, não se deve destacar o caráter, a honestidade e a honra como sendo características indispensáveis ao candidato indicado, pois, tais qualidades devem ser entendidas como uma obrigação de todo e qualquer ser humano em pleno gozo de suas faculdades mentais e consciente de suas responsabilidades e obrigações frente a sociedade que vive.

Para poder fazer parte da ordem iniciática, e frequentar uma Augusta e Respeitável Loja Regular, não basta apenas o candidato indicado ser um homem de bons costumes, acreditar em um Princípio Criador, ser solidário, gozar de boa saúde física e financeira. É preciso, sobretudo, amar a pátria, respeitar os princípios fundamentais do Estado democrático de Direito, que encontram as mais sublimes inspirações nos ideais da Revolução Francesa (1789-1799), e no tão pujante lema, liberté, égalité, fraternité. É preciso também que o pretenso candidato deixe florescer em seu coração um desejo candente de mudanças, que seja capaz de cavar masmorras aos mais profundos e nocivos vícios, lutando diariamente contra toda e qualquer forma de perversão, degradação ética e moral, corrupção, depravação em todos os sentidos, desregramentos, libertinagem, bem como contra toda dependência física ou psicológica que possa corromper o homem e suas virtudes.

Após a iniciação, e passada a euforia do momento, um aprendiz necessariamente precisa desenvolver uma disciplina de observações e estudos, pois, só assim se tornará um maçom virtuoso. A lapidação da pedra bruta só acontecerá se o aprendiz for capaz de compreender o que acontece em seu entorno.

Quando um profano aceita o convite de um maçom para iniciar o processo que poderá levá-lo a fazer parte da ordem iniciática e a frequentar uma Augusta e Respeitável Loja Regular, inicia-se nesse momento uma conexão, direta e bilateral, entre a irmandade (maçonaria universal), ciente e consciente do que é ser um maçom, seus deveres e obrigações e um profano totalmente ignorante e desconhecedor do que o espera. Leigo em sua essência, o profano inicia sua caminhada em direção ao desconhecido, completamente desnudo de conhecimento sobre a ordem, inteiramente “pedra bruta”, ansioso para ser lapidado e fazer parte de algo que não conhece. Ao aceitar o convite o profano assume o risco de uma caminhada, com ângulos e retas bem distintas, que a princípio não fazem sentido e muito menos levam a lugar algum, tamanho o desconhecimento do candidato. Tal caminhada será feita na mais completa escuridão, sendo permitido enxergar a luz somente ao final desta, como um prêmio pela coragem e perseverança do candidato.

Diante de tamanha incongruência entre as partes, como pode um profano querer fazer parte de algo que não lhe és apresentado? O que motiva um homem envolto em um mundo místico, cheio de vícios e preconceitos, aceitar um convite para fazer parte de algo tão ignoto? A resposta para tantas perguntas não é tarefa fácil para um aprendiz, talvez o desconhecido intimida ao mesmo tempo que fascina o profano. Talvez esse seja o segredo da longevidade da maçonaria. Apenas suposições.

Ao longo do processo o profano é movido pelos mais variados sentimentos, mas nenhum assusta mais do que o medo do desconhecido. Entre todas as etapas nenhuma é mais gratificante ao mesmo tempo em que aterrorizante do que as provas de iniciação. A escuridão que ofusca o candidato  não só o deixa cego para o mundo exterior, como também leva-o a pensamentos singulares e reflexivos. A cada passagem sentimentos, medos e dúvidas afloram, frutos de uma encenação quase dramática. É inevitável não ter medo, pois, o desconhecido assusta. O silêncio estarrecedor, quebrado apenas por sussurros desconexos e enigmáticos, não deixa dúvidas de que algo está acontecendo.

Tomado de uma pressão psicológica, o profano completamente desorientado e embriagado por um misto de emoções, fruto, sobretudo, de um teatro psicodélico, ainda precisa terminar sua jornada, se assim quiseres fazer parte da ordem. Sendo submetido ao juramento. Terminada as provas é chegada a hora mais surreal de todo o processo, quando o neófito vê a luz, uma visão que leva o ex-profano ao mais sublime deleite, o desvendar de um mundo desconhecido, uma emoção indescritível, que não se deve ser transcrita, apenas sentida, pois, transcende o belo, e surpreende a mais incrédula das criaturas, uma verdadeira recompensa por toda a espera e provações. Como prêmio por toda bravura, perseverança e retidão, o agora aprendiz maçom assume seu lugar na Coluna do Norte. Um mero aprendiz, ansioso para se embebedar de conhecimentos e aprendizados.

Diante dos augustos mistérios o profano até o último minuto antes de ver a luz se manteve “em pé e á ordem”, mesmo desconhecendo o desconhecido. Ao alcançar seu prêmio, o agora aprendiz, passa a ter real noção do que o espera. Passa a entender que não está aceitando fazer parte de uma ordem iniciática para ganhar status e/ou lograr êxito em sua vida financeira, mas sim, quando de coração, ele está aceitando uma mudança de vida de princípios, atitudes e principalmente está assumindo um compromisso com uma nova e complexa família, espalhada pelos mais distantes rincões desse planeta.

O aprendiz maçom será parte viva de um instrumento, onde para se tornar um bom maçom deverá buscar o aperfeiçoamento diariamente, em um exercício constante de autocrítica e mudança de hábitos. Até se tornar um maçom de corpo e alma o aprendiz terá que desbastar a “Pedra Bruta” cotidianamente, “cavando Masmorras aos vícios e levantando Templos à Virtude”, processo que pode levar uma vida inteira.

Ao final do seu primeiro estágio, o aprendiz maçom passa a compreender perfeitamente que não foi ele que escolheu ser maçom e sim a maçonaria que o escolheu para ser um dos seus. Uma simbiose única entre a perfeição sublime da maçonaria e a imperfeição dos homens que vestem ternos e capas pretas.

Autor: Kleist Alan Tameirão

*Kleist é aprendiz maçom da ARLS Deus, Pátria e Família, nº154, situada no oriente de Corinto e jurisdicionada à GLMMG.

Publicado em Maçonaria | Marcado com , , | 3 Comentários

Lilith. Um Texto Fundador da Mulher na Maçonaria

Resultado de imagem para lilith

A maçonaria, como todos sabem, procura suas origens em mitos fundadores de origens longínquas na corte de Salomão. São contribuições lendárias que estão ligadas aos grandes mitos da criação.

O nome “Lilith” tem uma filiação semítica e indo-europeia. A palavra suméria “lil” significa “vento”, “ar” e “tempestade”. Lilith foi inicialmente associada às forças hostis da natureza, parte de um grupo de três demônios, um masculino e duas femininas: Lilu, Lilithu e Ardat Lili, esta última sendo a companheira do portador da luz.[1]

Lilith também está sempre associada a uma mulher lasciva, sedutora e de rara beleza. Com seus longos cabelos negros mostra-se altamente sensual e destrutiva. Muito provavelmente os judeus a conheceram no cativeiro da Babilônia.

Lilith é mencionada no Antigo Testamento, Livro dos Profetas, Isaías 34/14:

“Lá também descansará Lilith, achará um pouso para si em companhia dos gatos selvagens, das hienas, dos sátiros da víbora e dos abutres.”

Para transportar Lilith para a modernidade, entendida como estilo, costume de vida ou organização social que emergiu na Europa a partir do século XVII e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua influência[2], vou chamar a atenção para os dois relatos da criação do homem e da mulher nos capítulos I e II do Gênesis de onde foi extraído o mito reatualizado de Lilith.

Modernamente ela é considerada a primeira mulher que ousou pronunciar o nome inefável que lhe deu as asas por meio das quais fugiu do Éden, abandonando o seu companheiro, com quem não se entendia.

Apesar de perseguida por três anjos – Sinou, Sinsinoi e Samengelof – recusou-se a deixar sua nova morada no mar vermelho e a sua fuga transformou-se em expulsão. Tornou-se, posteriormente à criação da segunda mulher – Eva – , não mais criada do barro, mas de uma costela, uma rival vingativa para fazer o mal aos descendentes de Adão e Eva. Esta a razão de diversos textos judaicos associarem Lilith aos demônios com asas e formas humanas, inclusive na Cabala, onde vemos Lilith unir-se a Sammael.

Interessa neste estudo mostrar a Lilith transformada na mulher libertada e revoltada na afirmação dos seus direitos, na busca da igualdade em relação ao homem. Uma mulher rejeitada pela sociedade dos homens e que está sempre buscando o seu reconhecimento, ainda que para isso tenha que fazer “mal” aos homens.

Em diversas formas de sociabilidades, e entre elas, fundamentalmente, a maçonaria, ela, a “mulher”, está excluída sob o argumento de que, por sua própria essência, arrastaria os homens para o infortúnio.

É o próprio Pierre Brunel[3] que nos lembra certas associações de Lilith com a Rainha de Sabá na aparência falsamente luminosa. Cumulando com seus dons, o homem, se deixa prender por seus atrativos, ela o orienta para uma procura que o isola dos outros e o arrasta para um caminho que segue em sentido contrário à vida.

Portanto, o mito de Lilith, assim como a mulher moderna na maçonaria, tem por objetivo afastá-la dos homens, por ser perigosa e destrutiva, apesar de certos homens estarem dispostos a visitá-lo no seu exílio.

Assim, Lilith pode vir a representar possíveis respostas para a mulher excluída em determinadas sociabilidades centradas simbolicamente nos mitos fundadores de origens longínquas que não têm nada a ver com o racional. Trata-se do arrebatamento do Ser em contraposição ao Não Ser. O único caminho que pode ser transitado.

É possível que surjam aporias[4] a este ensaio. Entretanto, já ensinava Aristóteles que existe uma interessante ligação entre a lógica e a metafísica. O que procurei fazer foi convidar os meus leitores para verem as coisas de um outro modo, mas sempre cauteloso com os conceitos e com a linguagem. Lilith é o desejo libertado: a contestadora. Ela representa a mãe das excluídas.

Ela é o prazer, o desejo, logo, o perigo, a transgressão, a culpa e o medo. Ela não pode participar do centro, da Ágora. Ela deve ser excluída do espaço da produtividade. Enfim, ela deve viver no exílio que escolheu porque corrompeu os valores da dominação masculina e ousou dizer que foi feita do mesmo pó e não admitir a submissão. Esta é Lilith!

Autor: Frederico Guilherme Costa

Notas

[1] – Remeto o interessado ao excelente trabalho de Pierre Brunel (organização), Dicionário de Mitos Literários, Brasília: Editora UNB/José Olympio Editora, 1997, pp. 582/85.

[2] – Anthony Giddens, As Consequências da Modernidade, São Paulo: Edusp, 1991, p11.

[3] – Pierre Brunel, op. , cit., p. 584.

[4] – . Estou me referindo a eventuais conflitos entre opiniões, contrárias e igualmente concludentes, em atenção às questões aqui expostas.

Publicado em Filosofia | Marcado com , | 3 Comentários

Liberdade de Pensamento

Resultado de imagem para liberdade de pensamento tumblr

Quando dizemos que a Maçonaria é uma Escola do filosofar, fazemo-lo porque entre nós se exige estudo, pesquisa, meditação.

No entanto, não tememos afirmar que nossa Ordem é fundamentalmente filosófica, uma vez que ela tem por mira alcançar um ideal superior. A beleza do filosofar maçônico está
no estudo comparativo dos sistemas filosóficos que a história nos proporciona.

A Maçonaria não se prende a uma escola ou a um determinado sistema, porque se tal o fizesse estaria tirando a liberdade de pensamento de seus membros, obrigando-os a seguir um único e mesmo caminho.

Haveria, então, é de supor-se, uma verdadeira lavagem cerebral; se tal ocorresse mais cedo ou mais tarde, nossa Ordem ou se desvirtuaria ou desapareceria.

O Maçom tem inteira liberdade de interpretação, pois o símbolo permite exegese variada e, muitas vezes, desigual.

Se houvera uma uniformidade obrigatória de interpretação, isto seria um verdadeiro atentado contra um dos sagrados postulados que ela prega: liberdade.

Portanto, é impossível, maçonicamente, alguém pretender fixar determinada corrente ideológica.

A preocupação maçônica pelo ser, pelo conhecer, pelo alcançar a verdade, exige análises, debates, troca de idéias e, sobretudo, respeito ao pensamento alheio.

O esoterismo se sobrepõe ao exoterismo, porque os problemas interiores merecem maior atenção que os exteriores.

O Maçom deve conscientizar-se de que tem um compromisso consigo mesmo, com o seu pensar, com o que fazer de sua vida maçônica.

Ele não pode prescindir de si próprio, não pode prescindir de seus direitos e, sobretudo, de seus deveres, porque se o fizera estaria negando-se como ser, como homem, como Maçom.

Não podemos escapar da grande verdade de que o saber humano, mormente o saber filosófico – vem do homem, pelo homem e para o homem.

Devemos ter sempre diante dos olhos esta verdade: a Maçonaria proporciona aos seus membros os meios necessários para que adquiram o saber. Infeliz do Maçom que disto não se aperceber. É necessário, no entanto, que tenhamos a melhor boa vontade em assimilarmos tudo aquilo que ela põe ao nosso dispor não só para adquirirmos o saber, mas também para alcançarmos aquele Grau de educação maçônica que nos projetará como verdadeiros e autênticos Maçons.

Autor:  Raimundo Rodrigues

Do livro A Filosofia da Maçonaria Simbólica – Vol. 1,Londrina : A Trolha, 1999,

Publicado em Filosofia | Marcado com , , | 1 Comentário

Jesus, maçom?

Resultado de imagem para jesus maçom

A Imaginação

“Emanuel foi o nome dado a Jesus ao vir ao mundo. Era um menino possuidor de alta inteligência, Q.I. bastante alto. Na ordem maçônica dos essênios só era permitido iniciar candidatos com idade mínima de dezessete anos: Emanuel, com doze anos de idade, procurou ingressar na Ordem Maçônica, mas como não era permitida Iniciação com aquela idade, os padres essênios levaram-no para educa-lo numa escola na Alexandria. Quando completou dezessete anos, Emanuel foi iniciado na Ordem Maçônica dos essênios. Os Maçons receberam nomes simbólicos em suas Iniciações, Elevações e Exaltações a depender do Ritual utilizado pela Loja. Emanuel, em sua Iniciação, recebeu o nome simbólico de Jesus que quer dizer JUSTO, e na Exaltação recebeu o nome simbólico de CRISTO, que significa PERFEITO. Até a idade de dezessete anos só era conhecido pelo seu nome profano, Emanuel. A Exaltação de Jesus ou seu ingresso no terceiro Grau, da Ordem Maçônica dos essênios ocorreu no dia vinte e cinco de dezembro do ano trinta. Os Reis Magos também eram maçons. Os seus nomes simbólicos eram: Gaspar, Melchior e Baltazar. Gaspar era Rei da Índia, Melchior, Rei do Egito, Baltazar, Rei da Babilônia. Eles estiveram presentes às solenidades de Exaltação de Emanuel. Emanuel nasceu em vinte e três de dezembro do ano um. Os Reis Magos não estiveram presentes no nascimento de Emanuel e sim em sua Exaltação na Ordem Maçônica. Jesus foi um grande maçom. Tudo foi tão JUSTO E PERFEITO com Jesus Cristo, que tornou-se muito mais conhecido na história da humanidade pelos seus nomes simbólicos – Jesus, Cristo – do que pelo seu nome profano, Emanuel. A Iniciação na Maçonaria dá-se no primeiro Grau, a Elevação no segundo Grau e a Exaltação no terceiro Grau. Já sabemos que no primeiro Grau, Emanuel recebeu o nome simbólico de Jesus e de Cristo no terceiro. O segundo Grau era também conhecido como o Grau de profeta. Nesse Grau Jesus recebeu o nome simbólico de Issa”. 

Jesus foi nosso Irmão, iniciado numa Loja essênia”.

O primeiro texto está inserido no certificado de presença de uma Loja brasileira, sem que conste o nome de qualquer autor, ou bibliografia. O segundo fez parte de uma palestra feita por um antigo maçom. Asas à imaginação!

A Realidade Histórica

Dificilmente são vistas tantas informações sem qualquer compromisso com a verdade histórica, que vive apenas de fatos e não de especulações. Alguns tópicos merecem uma análise mais profunda:

  • “Emanuel foi o nome dado a Jesus ao vir ao mundo. Era um menino possuidor de alta inteligência. Q.I. bastante alto”.

Comentário:

Inicialmente, cabe perguntar como é que se media o Q.I. há 2000 anos, já que essa prática é recente, do século XX. Em segundo lugar, é necessário esclarecer que Emanuel – que, realmente, significa Deus conosco – foi o título pelo qual o profeta Isaías chamou o Messias que viria, como se pode constatar em Isaías, 7 – 14 e em 8-8 e em Mateus 1 – 23;

O nome do Messias, na realidade, era mesmo Jesus, forma latina da palavra hebraica Ieshua, que significa Salvador. E existiram, na História hebraica, outros homens com esse nome: um Jesus, sumo sacerdote, depois do exílio na Babilônia (538 a.C.); um Jesus, chamado o Justo, louvado por Saulo (S. Paulo) como auxiliar no reino de Deus: e um Jesus, filho de Sirac, autor do Eclesiastes.

  • “Na ordem maçônica dos essênios só era permitido iniciar candidatos com idade mínima de dezessete anos; Emanuel, com doze anos, procurou ingressar na Ordem Maçônica, mas como não era permitida iniciação naquela idade, os padres essênios levaram-no para educá-lo numa escola de Alexandria: quando completou dezessete anos, Emanuel foi iniciado na Ordem Maçônica dos essênios”.

Comentário:

A maçonaria, mesmo que os místicos fantasistas e sem base histórica desejem o contrário, é uma ordem que surgiu na Idade Média. Não havia, portanto, maçonaria no início do Universo, na Pré-História, no Parque dos Dinossauros, no Paraíso, ou no início da era atual. Falar, portanto, em “ordem maçônica dos essênios” é absoluta heresia histórica. Além de tudo, os essênios foram bem conhecidos, historicamente, graças a Flávio Josefo e Filón, historiadores contemporâneos de Jesus, os quais nos dão conta de que eles – que nem são citados no Evangelho – formavam uma comunidade de homens e mulheres, que levavam uma vida austera, praticavam o celibato e tinham os seus bens em comum. Nada, historicamente, autoriza a afirmação de que eles possuíam ritos iniciáticos para a sua seita, simplesmente contemplativa, e muito menos de que havia uma idade mínima – 17 anos – para a “iniciação”. De onde foi tirado isso? Existe, sim, a iniciação religiosa do menino e da menina judia – o bar-mitsvá e o bat-mitsvá, respectivamente – aos 13 anos de idade.

Os hebreus e – a partir do exílio na Babilônia – judeus, tinham de maneira geral, os seus sacerdotes, da tribo dos Levitas, os quais oficiavam os serviços do templo de Jerusalém. Mas os essênios, que não participavam dos serviços litúrgicos do templo, não possuíam sacerdotes (muito menos “padres”, que são sacerdotes católicos), segundo os historiadores, já citados, da época.

A afirmação de que Jesus foi levado, para ser educado numa escola de Alexandria, é altamente temerária, por incidir em improbabilidades. Em primeiro lugar, Alexandria foi fundada pelo macedônio Alexandre Magno, em 332 a.C., no Mediterrâneo, a 206 quilômetros do Cairo, e disputava, com Roma, o título de maior cidade do mundo, sendo um grande centro da cultura grega. Mas a Judeia era província romana, o que tornava, portanto, muito mais lógico e racional que alguém, de lá saindo, fosse estudar em Roma e não na Alexandria grega.

Em segundo lugar, muitos levantam dúvidas sobre a existência real de Jesus, que teria nascido no ano 749 de Roma, ou ano 4 antes da era atual. Porém, a sua existência histórica é amplamente aceita pela comunidade científica, por comparação do contexto político, religioso e social de sua vida com os documentos e as informações arqueológicas. Embora Flávio Josefo e os historiadores romanos Tácito e Suetônio não o mencionem, suas descrições dos locais, dos costumes e das pessoas da época confirmam os dados dos evangelhos escritos por contemporâneos de Jesus. Existe, todavia, uma fase oculta em sua vida, a qual não é abordada nem por esses contemporâneos, por ser absolutamente desconhecida. Seu nascimento e infância são descritos nos evangelhos, principalmente no de Lucas, terminando no regresso da família a Nazaré, depois da fuga para o Egito. O período da vida oculta de Jesus compreende os anos passados em Nazaré, após o retorno do Egito, e, dele, os evangelistas apenas abordam o episódio da peregrinação a Jerusalém – ao templo – quando ele tinha doze anos de idade. Depois disso, só há registro de sua vida pública, cerca de vinte anos depois, quando ele iniciou a sua pregação e a divulgação de suas ideias, como se pode ver no Evangelho segundo Mateus.

É exatamente esse período, por não ter nenhum relato – por isso é chamado de “vida oculta” – que é altamente explorado pelos fantasistas, cujas elucubrações não têm nenhum compromisso com a realidade. Assim, segundo alguns, Jesus teria estado no Tibete; ou, segundo outros, na Índia, onde, entre budistas, teria o nome de Jessé; ou, ainda, no Egito, ou……, ou……… . e até numa escola em Alexandria e na “ordem maçônica dos essênios”!!!

  • “Emanuel, em sua iniciação, recebeu o nome simbólico de Jesus, que quer dizer Justo, e, na Exaltação, recebeu o nome simbólico de Cristo, que quer dizer Perfeito”.

Comentário:

Como já foi visto, Ieshua (Jesus) significa “Salvador”, ou “Deus é o seu auxílio”. Existiu um outro Jesus, que foi cognominado “o Justo” – não que o nome significasse “Justo” – mas não se devem misturar alhos com bugalhos. Já a palavra Cristo é originária do grego “Khristos”, que é a tradução do termo hebraico “Meshiakh”, que significa “Messias”, ou “Ungido”. Não tem nada de “Justo e Perfeito”. Parece que o texto do certificado quer ligar Jesus a essa expressão, que era típica dos canteiros – operários que esquadrejavam a pedra de cantaria – medievais e que chegou à moderna maçonaria. Entre os canteiros, um Zelador, ou Vigilante, media a horizontalidade da pedra, com o nível, enquanto o outro media a sua verticalidade com o prumo, anunciando, depois, ao proprietário (ou o master): “tudo está justo e perfeito”; isso era feito no início e no fim dos trabalhos, para surpreender possíveis sabotagens do trabalho, coisa comum diante da rivalidade das organizações profissionais de canteiros, que eram muito requisitados e considerados, já que, da perfeita forma cúbica das pedras, dependia a estabilidade das construções.

  • “A exaltação de Jesus, ou seu ingresso no terceiro grau, da Ordem maçônica dos essênios ocorreu no dia 25 de dezembro do ano trinta”.

Comentário:

Alguém deve ter visto a ata dessa sessão de Exaltação!

E por que falar de ano trinta, se o calendário atual estava longe de ser inventado? Por que não 3791 da era hebraica, já que os essênios eram judeus, como Jesus?

Fantasia, imaginação e mistificação! Seria bom que o desconhecido redator do texto conhecesse um pouco da História maçônica, para saber que o terceiro grau só foi introduzido no século XVIII e o segundo, no século XVII. E para saber que só se afirma alguma coisa à luz de documentos, ou de bibliografia fidedigna e não “sonhando”. Seria interessante conhecer, também, a situação político-religiosa da época de Jesus.

Desde a reconstrução do templo de Jerusalém, após o exílio na Babilônia – 586 a 538 a.C. – por Zorobabel, a vida religiosa em torno dele sempre foi muito intensa e vibrante, com a finalidade de preservar a pureza e a autenticidade das tradições hebraicas, constantemente ameaçadas pelos invasores. Existiam, todavia divergências teológicas e rivalidades políticas, que iriam originar três seitas, ou, na realidade, verdadeiros partidos de política religiosa: a dos saduceus, a dos fariseus e a dos essênios.

Os saduceus compunham o partido sacerdotal e dos poderosos, baseando toda a sua atividade na fidelidade intransigente aos texto da Torá – os cinco primeiros livros bíblicos : Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio – e lutando pela supremacia do povo eleito e pela grandeza espiritual do templo. Para os saduceus, somente as disposições legais e as crenças explícitas na Torá é que determinavam o rumo da fé de Israel. Daí a sua extrema severidade nas leis penais e o fato de não aceitarem interpretações e especulações sobre o texto da lei, que teria sido recebida por Moisés, no monte Horeb, no Sinai. Por isso, eram adversários dos fariseus, que defendiam princípios não formulados, explicitamente, na Torá. Aferrados ao templo, os saduceus desapareceriam junto com ele, quando da destruição de Jerusalém, no ano 70 da era atual (3830 da era hebraica), pelas tropas romanas do imperador Tito, no dia 9 do mês av.

Os fariseus (do hebraico: perushin = separados), cuja importância havia crescido a partir do século II a.C., admitiam, além da tradição escrita da Torá, uma extensa tradição oral, que, segundo eles, autorizava, aos doutores da Lei, a interpretação do texto e a adaptação dele às diversas circunstâncias concretas da História. Compondo uma ordem religiosa, contemplativa e docente, os fariseus definiram as estruturas básicas do judaísmo, as quais iriam ser, em larga escala, absorvidas pelo cristianismo: a justiça de Deus e a liberdade do homem; a imortalidade pessoal: o julgamento após a morte; o paraíso, o purgatório e o inferno; a ressurreição dos mortos; o reinado de glória. Tais conceitos doutrinários seriam levados, ao cristianismo, por Saulo – canonizado como São Paulo – que se proclamava “fariseu, filho de fariseus”.

No primeiro século antes da era cristã, o movimento farisaico dividia-se em duas facções rivais: a de Shamai, rigorosa e intransigente na interpretação da Torá – a ala extremista dos zelotes, que inspirou a revolta contra Roma era dessa facção – e a de Hilel, o Velho, mais moderada. Quando o templo foi definitivamente destruído, foi a corrente de Hilel que manteve a unidade doutrinária do farisaísmo e que, por meio dele, proporcionou a sobrevivência do judaísmo. Com o conhecimento, que se possui, sobre a doutrina farisaica e sobre o aproveitamento desta pela Igreja, não se compreende o grosseiro conceito que se faz dos fariseus, o juízo pejorativo, geralmente injusto e que não considera a função fundamental que eles exerceram na vida religiosa judaica e, por extensão, na de toda a humanidade, através do aproveitamento de sua doutrina por outras religiões. O conceito pejorativo, que deles se faz, deve-se, fundamentalmente, à interpretação clerical dos Evangelhos, a qual os rotula como fanáticos e hipócritas, em geral, embora fanáticos e hipócritas existam em qualquer grupo religioso, ou seita.

Os essênios, embora sua atividade fosse descrita por Flávio Josefo e Filon, tornaram-se mais conhecidos a partir da descoberta dos manuscritos de Cumrán, ou manuscritos do Mar Morto. Eles formavam comunidades que praticavam um monaquismo, através do qual homens e mulheres, provindos de diversas regiões de Israel, agrupavam-se, para uma vida consagrada ao ideal de uma vida religiosa de isolamento, contemplação e silêncio. O ingresso na comunidade implicava o voto de viver, de acordo com os preceitos da Torá, uma existência de oração, pobreza, obediência e pureza, através da submissão à vontade de Deus. Isolados e quase enquistados, não participavam das atividades do templo, tendo pouca influência na vida religiosa judaica, embora alguns de seus hábitos, exclusivamente religiosos, tivessem sido aproveitados, chegando até à Igreja: preces e estudos em comum, preparando a alma para a eternidade; ressurreição dos mortos; purificação pela água; e a comunhão da confraria no vinho e no pão consagrados, origem da eucaristia. A comunidade dos essênios também iria desaparecer com a derrocada nacional, após a destruição de Jerusalém e do terceiro templo.

  • “Emanuel nasceu a 23 de dezembro do ano um.”

Comentário:

Eureka! Fez-se a luz! Ninguém, até hoje, sabia a data exata do nascimento de Jesus, nem mesmo os mais profundos estudiosos da História e da Arqueologia. Agora já se sabe, graças à sábia informação contida nesse folheto!

Sabe-se – ou seria melhor dizer “sabia-se”? – que a data de 25 de dezembro, para o nascimento de Jesus, é completamente fictícia e foi baseada no mitraísmo persa, adotado pelos romanos. Como a noite de 24 para 25 de dezembro é a mais longa – e, geralmente, a mais fria – do ano, no hemisfério Norte, os adoradores do deus Mitra (o Sol), realizavam uma cerimônia, “Natalis Invicti Solis” (Nascimento do Sol Vitorioso), onde, durante a longa e fria noite, eram realizados cultos propiciatórios, pela volta da luz do Sol e do calor. O cristianismo, aproveitando essa cerimônia mitraica e assimilando Jesus à luz do mundo, fixou essa data, como se fosse a do nascimento de Jesus, já que não se sabe nem o dia e nem o ano em que isso ocorreu. Ou melhor, não se sabia!!!!

  • “Gaspar era rei da Índia; Melchior, rei do Egito; Baltazar, rei da Babilônia”

Comentário:

Nada prova que os três personagens eram, realmente, reis, embora sejam tidos, popularmente, como tal. As Escrituras, em momento algum, fornecem informações suficientes para que se possa estabelecer qual é o país de cada um, destacando, apenas, que eram do Oriente. Até o número dos “reis magos” é motivo de controvérsia, pois já se falou em 3, 4, 5, 6 e até 12! O número de três se deveu à tradição, segundo a qual eles se apresentavam como representantes das três raças: branca, negra e amarela.

Os nomes pelos quais ficaram conhecidos também são duvidosos, pois resultam de uma tradição tardia e não da época em que os fatos teriam acontecido. E é mais provável que tais personagens fossem meros viajantes, com conhecimentos de ciências naturais e de astrologia. Quem disse que eles eram, respectivamente, reis da Índia, do Egito e da Babilônia? Da Babilônia, seria impossível! Depois do domínio persa, iniciado com Ciro, o Grande, em 539 a.C., a Babilônia conheceu o período helenístico, quando entrou em decadência, desaparecendo antes do início da era cristã. O termo “babilônia” surge, no Novo Testamento, apenas de forma metafórica, para designar a Roma pagã, ou o próprio mundo. Como Baltazar poderia ser rei de um Estado desaparecido? E como Melchior poderia ser rei do Egito, se o Egito, desde 30 a.C., era província romana? E nem se fale da Índia, que, na época, estava tão dividida, que nem se poderia falar em um governo único. Conclusão: “invenção”!

  • “O segundo grau era também conhecido como o grau de profeta. Nesse grau, Jesus recebeu o nome simbólico de Issa”.

Comentário:

Abstraindo essa história fantástica de segundo grau, sem qualquer comprovação – o segundo grau, na maçonaria, surgiria no final do século XVII – a própria explicação sobre
esse nome, a mais aceita, é, também, mera especulação: “Issa” teria sido o nome de Jesus, quando de sua permanência nos claustros do Tibete. Isso, obviamente, é mera suposição, embora Raul Silva, um místico sem bagagem histórica, em seu antigo livro “Maçonaria Simbólica” – da editora ocultista Pensamento – diga que “um nosso irmão russo, de nome Nicktowysk, compulsando esses documentos da antiguidade, neles encontrou a permanência de Jesus, durante anos, no convento do Tibete, sendo ali conhecido com o nome de profeta Issa”. Só que ninguém sabe quem é Nicktowysk e tais “documentos” nunca foram exibidos, o que leva à conclusão de que se trata de mais uma farsa. Mais uma!

Acrescente-se, porém, que, para o Islã – a religião fundada por Mohammed ibn Abdallah (Maomé), no século VI da era atual – Adão foi o primeiro profeta e Jesus, um dos profetas mais perfeitos. Daí a origem desse título, que nada tem a ver com o Tibete e nem com uma eventual e fantástica “maçonaria dos essênios”.

  • “Os Reis Magos também eram maçons”.

Comentário:

SEM COMENTÁRIOS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Autor: José Castellani

*Do livro Mania e Crendices em nome da maçonaria.

Publicado em História | Marcado com , | 2 Comentários

Porque a vaidade é um vício

post

Procurando algo na internet dia desses, deparei-me com postagens sobre contos de Machado de Assis e comecei a lê-los, um seguido do outro. Escrevi certa vez que um livro é clássico quando pode ser lido em qualquer época e continua absolutamente atual. Bem, não preciso nem dizer que Machado de Assis é um dos mais clássicos dos clássicos.

O conto O Espelho me levou a pensar na questão da aparência versus mundo interno, ou seja, o “eu” que os outros veem e o “eu verdadeiro”, aquele que está dentro de mim. O conto é curto e genial. Assim, minha sugestão é: leia. Leia logo, o quanto antes. Ele é de Domínio Público, podendo ser lido gratuitamente.

O conto fala sobre um homem que acreditava que somos feitos de duas almas, “uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro…”. A alma que olha de dentro para fora seria nosso “eu interior” e a que olha de fora para dentro seria a forma como os outros nos veem, o personagem que criamos, a imagem – o perfil nas redes sociais, talvez…

No conto, o homem era pobre e quando foi nomeado alferes da Guarda Nacional, muita coisa mudou para ele. O posto militar lhe trouxe um reconhecimento externo, um status, que ele não tinha antes. Ele passou a ser visto pelos outros como alferes. E eis que as duas almas que ele considerava como duas metades da mesma laranja tornam-se apenas uma.

“O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado”.

Fico imaginando que “a cortesia e os rapapés da casa” hoje em dia se traduzem em curtidas, compartilhamentos, comentários e visualizações nos nossos perfis em redes sociais; ou em reconhecimentos públicos, entrevistas, alguma aparição na mídia ou momentos de fama instantânea; ou ainda privilégios que essa carcaça externa que vestimos muitas vezes nos proporciona, como tratamento diferenciado por se apresentar como médico, por exemplo.

E a “parte mínima de humanidade” acaba absolutamente sombreada e raquítica por trás dessa nossa “patente”, dessa nossa máscara, dessa nossa imagem, dessa nossa “alma exterior” que depende totalmente dos olhos dos outros.

No entanto, o conto continua. Devido justamente a esse novo status alcançado, foi convidado por uma tia a passar uns dias em sua fazenda e foi presenteado com um espelho por ela. Por motivos que não vou contar aqui, para não estragar a leitura do conto, ele se vê totalmente sozinho na fazenda por uns dias e perde completamente sua identidade. Ao se olhar no tal espelho, não consegue mais ver sua imagem nítida. Ele via apenas um borrão. O problema somente se resolve quando ele decide vestir a farda novamente. Com a farda, ele volta a se reconhecer no espelho; voltara a ser o alferes.

O conto termina assim e nós ficamos com aquela sensação incômoda no estômago.

O psiquiatra Flávio Gikovate chamaria essa tal alma exterior de Machado de Assis de vaidade, e a alma interior de autoestima. Ele escreveu certa vez um livro que classificava a vaidade como “o vício dos vícios”. Segundo comentário feito por ele mesmo certa vez, o livro foi um dos que teve pior resultado em vendas. Tanto que está disponível para download gratuito em seu site (mais um livro gratuito recomendado).

As pessoas não se interessaram em ler sobre vaidade, provavelmente porque esse é, realmente, um dos vícios mais humanos, demasiado humanos, de todos. A vaidade é mãe da inveja. Gikovate classificava a vaidade como um prazer erótico que sentimos ao perceber que nos destacamos de alguma maneira do restante do grupo, seja por questões materiais, intelectuais, físicas.

Gikovate dizia que todos nós sentimos um certo incômodo, um certo vazio, uma angústia, que está relacionado a inúmeras dúvidas que temos a respeito de nós mesmos, bem como à constatação de nossa insignificância. “A sensação de abandono e de insignificância que resta é, em certo sentido, insuportável”.

Assim, usamos diversos subterfúgios para amenizar esses vazios que sentimos diante da crueza da vida humana e de suas inúmeras tragédias e a vaidade é um deles. Sabemos que somos insignificantes no Universo e, dessa forma, a busca por um destaque individual dentro do grupo social nos gera esse prazer.

No entanto, ele classificou a vaidade como vício porque “o prazer que sentimos é sempre de natureza efêmera; precisamos de novas coisas para que a sensação se repita. Precisamos de cada vez mais coisas para sentirmos a mesma emoção; é como se fosse um vício no qual vamos nos afundando cada vez mais.”

Dessa forma, quando perdemos o “status” – que, no caso do livro, era o de alferes, mas pode ser status de médico, advogado ou ator, muito dinheiro, muita beleza, muita inteligência, uma família perfeita, ou até mesmo uma aparente ausência de vaidade, que também é uma maneira de se destacar, já que o ‘despojado’ quer parecer assim e isso lhe causa igual prazer – “perdemos ‘importância’ e isto nos remete à insignificância”, que ele diz que evitamos a todo momento de pensar;

Podemos dizer que se o atenuador do desconforto psíquico for apenas um paliativo e de duração temporária, nossa dor voltará a surgir de uma hora para outra e de forma cada vez mais intensa”, disse o Gikovate.

Ele, no entanto, afirma que não há como nos livrarmos da vaidade, que é uma condição humana. O que temos que fazer é nos esforçar para nos livrar da vaidade como vício, percebendo como ela funciona e tentando sempre atuar no caminho do bom senso, o que “não é nada fácil, especialmente para nós que não fomos treinados para esta tarefa; fomos educados para valorizarmos os exageros, os extremos, confundidos com a noção de destaques, de sucesso.”

Não é fácil, mas é o caminho. Exige esforço e um certo desapego de nossa parte, mas traz como recompensa um espelho nítido, mais fiel à nossa “alma interna”e bem menos dependente dos olhos, aplausos e curtidas dos outros.

Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.” (Eclesiastes)

Autora: Juliana Santin

Fonte: Genialmente Louco

Notas

[1] – A imagem que ilustra o texto é uma cena de O Espelho de Machado de Assis em HQ. Editora Mercuryo, 2012. Arte: João Pinheiro.

[2] – Para ler o conto O Espelho clique AQUI

[3] – Para ler o livro de Flávio Gikovate vá até a página da biblioteca do blog clicando AQUI

Publicado em Vícios | 2 Comentários

Maçonaria, anticlericalismo e livre pensamento no Brasil (1901-1909)

Imagem relacionada

Introdução

Componente inseparável da História das Ideias desde o início do século XIX aos dias atuais, a história da Maçonaria, do anticlericalismo e do livre pensamento é também a da cultura, da religião, da educação e do poder na sociedade contemporânea. Sistemas característicos de ideias e teorias, o anticlericalismo e o livre pensamento organizaram-se, em diferentes períodos, como movimentos específicos de feições particulares, sobretudo no final do século XIX e inícios do XX, articulando-se em primeiro lugar com tendências políticas liberais e radicais tais como o anarquismo e o socialismo e em seguida, com a Maçonaria e com correntes espiritualistas[1].

Desde meados do século XIX, os movimentos de livre pensamento e anticlericalismo marcaram profundamente a sociedade contemporânea. A crise das religiões cristãs tradicionais, os avanços do pensamento materialista, racionalista e científico, o surgimento de novas formas políticas de pensar o poder, fizeram parte da difusão das ideias anticlericais e de livre pensamento.

Mas, apesar da importância desta corrente de pensamento, poucos estudos históricos vêm sendo realizados sobre este tema. Pierre Lévêque ao estudar as relações entre livre pensamento e socialismo entre 1889 e 1939, a difusão de tais ideias entre a classe operária, afirma:

“Un désert bibliographique: telle aparait l’Histoire de Libre Pensée française, vieille pourtant de plus de trois quarts de siécle.” (“ Libre Pensée et Socialisme (1889/1939): Quelques points de repère” in Cristianisme et Monde Ouvrier, Cahiers du Mouvement Social, n. 1, Paris, Les Editions Ouvrières, pp. 117-153, 1989.).

Como exceção que confirma a regra, está o trabalho já clássico de René Rémond, L’Anticlericalisme en France de 1815 à nos jours. (Paris, Fayard, 1976). Para este autor, o anticlericalismo raramente é estudado por ele mesmo, assim como acontece com o livre pensamento, apontando alguns poucos trabalhos sobre o assunto especificamente, entre eles o de Alec Mellor, Histoire de l’Anticlericalisme français (Tours, 1966, 496 pp.) e o de George Weil, Histoire de l’Idée laique en France au XIX siécle (Paris, 1929).

Segundo Remond, o anticlericalismo como movimento só teria surgido no século XIX. No campo das ideias, o anticlericalismo não foi uma mera ideologia negativa porém um campo fértil de proposições, uma matriz de movimentos, de ideias políticas que manifestavam-se na organização de grupos e ligas, na literatura e na imprensa. Seria, portanto, um campo de ação política, dotado de uma positividade atuante ao denunciar a hipocrisia clerical, construindo um sentido moral/ético laico ao atacar os focos de corrupção da Igreja e depois da política. Surgindo como reação organizada ao ultramontanismo do século XIX, era ao mesmo tempo, movimento e ideologia. Sem um corpo teórico fechado, o anticlericalismo e livre pensamento podem ser vistos como um vasto campo de sínteses de ideias e escritos circunstanciais, numa dinâmica viva enraizada nas mentalidades e sensibilidades.

Assim sendo, para Rémond, o historiador tem que partir da análise acurada das fontes, frequentemente diversas e ambivalentes, para reconstruir o universo cultural do anticlericalismo e do livre pensamento. O que une tanta diversidade teórica e conceitual são temas clássicos: a Igreja vista como um corpo singular separado da sociedade; a Igreja como uma ameaça ao Estado, a Nação, ao indivíduo e a família. Poderia-se, portanto, falar em uma grande gama de formas de anticlericalismos. Temos vertentes que  não contestam a moral cristã mas a posição incoerente da Igreja face a esta moral. Em outros casos, afirmam-se os ensinamentos evangélicos mas vai contra os princípios anti-naturais propostos pela Igreja (ex. o celibato). Há também uma postura libertária que recusa a imposição de qualquer forma de coerção moral exterior, valorizando as relações e a busca individual do conhecimento e do comportamento perfeito, correto e adequado. Fica marcada a antinomia entre a sociedade moderna e o clericalismo. A modernidade deveria combater as pretensões clericais de ascendência através da irreligião, do poder político laico forte, de uma legislação concisa, através da liberdade de cultos, do ensino científico não religioso. O papel do poder político e constitucional seria o de garantir a liberdade de consciência. É desta forma que o autor fala das diferentes filiações dos tipos de anticlericalismo (jansenismo, radical democrático, direita liberal, anticlericalismo cristão e protestante, etc.).

A historiografia portuguesa tem trabalhos clássicos sobre o tema. O de Fernando José de Almeida Catroga, A Militância e a Descristianização da Morte em Portugal: 1865-1911 (2 vols., Coimbra, Univ. de Coimbra, 1988) estuda a penetração do positivismo e do cientificismo em Portugal destacando a importância de movimentos que definiram as estratégias culturais para que tal processo fosse possível: secularismo, laicismo, anticlericalismo, livre pensamento e Maçonaria. Destaca como as elites intelectuais portuguesas influenciadas pelo positivismo e cientificismo oriundos destas tendências diferentes, porém convergentes, fomentaram uma nova moral social e mesmo cívica.

No 6° volume da História de Portugal: A Segunda Fundação (1890-1926) (Lisboa, Ed. Estampa, 1994), Rui Ramos destaca o papel dos intelectuais, sobretudo escritores anticlericais como Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro, entre outros, na formação de uma nova mentalidade cultural e política que procurava construir um republicanismo ideal apoiado no positivismo científico, liberalismo, civismo. Aponta o papel de fundamental importância que as organizações maçônicas portuguesas tiveram no acolhimento, discussão, e difusão destes novos ideais bem como a sua estreita associação com movimentos e idéias secularizantes.

No caso do Brasil, destacam-se alguns trabalhos. O de Carlos Alberto de Freitas Balhana, Ideias em Confronto (Grafipar, Curitiba, 1981) tornou-se referência obrigatória. Para este autor, a organização e difusão de novas ideias políticas, religiosas e filosóficas esteve profundamente ligada ao surgimento do movimento de anticlericais e livre pensadores que se incorporaram aos discursos modernizadores dos projetos de reorganização da sociedade brasileira, associados com a expansão da Maçonaria por ser esta o abrigo natural para as diferentes correntes de ideias e movimentos sociais, filosóficos e espiritualistas, tentando contudo ela própria, por preceito básico, enquanto instituição, respeitar a liberdade e o direito às crenças individuais, evitando tomar partido político ou religioso de forma sectária e radical, o que lhe é, ademais, expressamente vedado através das suas leis, códigos, regulamentos, regimentos e estatutos. Porém, dentro do conjunto das grandes linhas do pensamento nacional do final do século XIX e inícios do XX, a mentalidade “conservadora” x “liberal” fizeram parte da história cultural da Maçonaria brasileira e traduziram-se dentro das facções deste movimento nas vertentes anticlericais e livre pensadoras.

Segundo Balhana, o livre pensamento não resumiu-se em uma simples proposta de retomada da consciência individual mas abrangia propostas libertárias em todas as campos e níveis, sendo o anticlericalismo uma derivada. O anticlericalismo combatia principalmente o poder papal e da Igreja, tanto no plano religioso como temporal, sobretudo no seu caráter ideológico e religioso observando neles um forte caráter e instrumento de dominação, consolidação de poder e enriquecimento. Pode-se observar, desta forma, ser o livre pensamento uma posição mais abrangente que o anticlericalismo.

Em A Guerra aos Párocos: Episódios Anticlericais na Bahia (Salvador, EGBA, 1991), o antropólogo Thales de Azevedo define o anticlericalismo como uma manifestação pública e hostil de oposição a uma instituição eclesial, que se articula com o laicismo social, liberalismo, positivismo, cientificismo e maçonaria. No caso preciso do anticlericalismo do século XIX, o autor destaca como marco inicial no qual questões políticas entre monarquistas e republicanos são destacadas, o brado do deputado francês Leon Gambetta em 4 de maio de 1877: “Le Clericalisme, voilé l´ennemi!”. Tal questão desdobra-se, em surtos, na Itália, Espanha, Portugal, Bélgica, Áustria, por inspiração liberal, maçônica ou socialista, e atingindo protestantes e judeus. Expandiu-se, inclusive no Brasil, através de uma pluralidade de formas e motivações básicas: a Igreja como uma ameaça ao Estado, à Nação, aos Indivíduos, à Família; o contraste entre a moral ensinada preconizada e a conduta corrompida do clero; os resultados desastrosos do ensino religioso, etc. Para Thales de Azevedo o anticlericalismo é uma ideologia negativa e um fenômeno coletivo que contamina grupos de perceptível extensão e continuidade, traduzido por líderes, intérpretes e manifestações públicas. Destaca a importância para a difusão destas tendências, da atuação da maçonaria brasileira, sobretudo após o episódio da Questão Religiosa e a consequente expulsão dos maçons das irmandades e cargos pelos Bispos do Pará, D. Antônio Macedo Costa, e de Olinda, D. Vital Maria da Conceição, que evidenciaram e agravaram as tensões e a situação favorecendo o acirramento de posições. Aponta para importância de maçons como Saldanha Marinho, o Visconde do Rio Branco, entre outros, na difusão do anticlericalismo no Brasil, com especial destaque para a obra de Saldanha Marinho A Igreja e o Estado (1874-1875).

É, desta forma, evidente em diversos autores, a profunda articulação entre a maçonaria e o anticlericalismo, bem como todas as outras formas laicistas do século XIX. As lojas maçônicas eram centros de difusão de tendências laicistas europeias, de positivismo, de formas alternativas de expressão religiosa tais como o espiritualismo em geral e do espiritismo em particular, bem como do protestantismo. Era o direito à voz e onde se abrigavam minorias e grupos intelectuais.

No livro Protestantes, Liberales y Francomasones; Sociedades de Ideas y Modernidad en America Latina (Ed. Siglo XXI, México/CEHILA, 1990) organizado por Jean Pierre Bastian, há uma contextualização da importância das “sociedades de ideias” que teriam servido como espaços para a elaboração de alternativas sociais e políticas, de novas visões de sociedade onde a igualdade e a autonomia do indivíduo como autor democrático eram o centro das proposições. Tratava-se de uma ampla frente anticatólica romana integrada  por maçons, espíritas, protestantes, liberais radicais, socialistas e anarquistas, organizados em grupos, associações, centros, lojas maçônicas, grupos literários que manifestavam-se em palestras, conferências, literatura e, principalmente, na imprensa. Eram redes de oposição que se consideravam portadoras da modernidade combatendo os conservadores, a Igreja Católica e os próprio liberalismo quando este tornou-se autoritário e começou a aliar-se com os conservadores, inclusive a Igreja. Para Bastian, as minorias liberais agrupadas em trono de lojas maçônicas e sociedades de ideias, tais como grupos anticlericais e de livre pensadores, radicalizaram-se à partir da segunda metade do século XIX e tornaram-se decadentes com a consolidação dos ideais republicanos. Da mesma forma, é possível pensar que dentro do ecletismo que caracterizava o universo cultural das sociedades de ideias do período (que ia da leitura de Lamartine, Comte a Allan Kardec), as diferentes tendências eram um reflexo das lutas e confrontos de ideias internas aos grupos e tendências liberais que iam de um liberalismo conservador, autoritário e antidemocrático em franca conciliação com a Igreja Católica a grupos minoritários sempre mobilizados que denunciavam e propunham transformações mais radicais através da educação, de um crítico civismo liberal que, com freqüência, levou ao socialismo e ao anarquismo, bem como a projetos de transformação espiritual da sociedade.

Também neste livro destacam-se os artigos de David Gueiros Vieira, “Liberalismo, Masoneria y Protestantismo en Brasil – siglo XIX”, e outro de Antônio Gouveia de Mendonça, “La Cuestion religiosa y la incursion del Protestantismo en Brasil durante el siglo XIX”, onde as referências ao relacionamento da maçonaria com outras tendências e movimentos de época passam por liberalismo, ideais de progresso, liberdade de crenças e cultos, separação Igreja-estado, a modernidade, o ensino leigo e científico, etc.

Um outro autor, Alexandre Barata, em seu artigo “A Maçonaria e a Ilustração Brasileira” (in Manguinhos, vol. I (1), jul-out., 1994) redimensiona a atuação da instituição maçônica brasileira no século XIX, mostrando-a engajada (ou pelo menos setores importantes e atuantes dela) com a construção de uma nova identidade nacional, batendo-se contra a Igreja católica, ampliando os investimentos em beneficência e instrução como forma de influenciar a reorganização da sociedade e contrapor-se a Igreja, destacando a atuação dos maçons na imprensa, na administração pública, no ensino.

Anticlericalismo e Maçonaria vistos através do A Lanterna e O Livre Pensador (1901-1909)

No caso do trabalho aqui apresentado serão destacadas as análises particulares da articulação de idéias anticlericais e de livre pensamento com grupos maçônicos a partir de dois periódicos específicos, A Lanterna  e O Livre Pensador.

A Lanterna começou a ser publicado em 1901, parou em 1902, sendo sua publicação retomada entre 1903 até 1904. Após um período de interrupção que vai até 1909, passou por um período de auge que se estendeu até 1916. Neste ano foi transformado no jornal anarquista A Plebe, reaparecendo como A Lanterna entre 1933-5.

Sua periodicidade foi variada nestes anos devido, sobretudo, a problemas financeiros, dificuldade de distribuição, interferência clerical, proibição de venda e outras formas de repressão mais ou menos sutis aos seus membros e leitores. No ano de 1903, houve uma fusão com dois outros periódicos anticlericais, O Livre Pensador e o L´Asino, e passou a ser publicado com o subtítulo de “diário da noite anticlerical e independente”. No seu cabeçalho encontramos junto com a data normal uma data segundo o calendário revolucionário francês. Em 1904 acontece a dissolução da sociedade entre A Lanterna editada por Benjamim Mota e O Livre Pensador de Everardo Dias e Antônio Garcia de Oliveira, devido a problemas pessoais e profissionais. O Livre Pensador reenceta sua publicação sob a direção de Everardo Dias, mas A Lanterna com a saída de Benjamim Mota, não sobrevive muito tempo, só reaparecendo em 1909 sob a direção de um grupo de anticlericais com o apoio de Mota e tendo como subtítulo “folha anticlerical de combate”. O jornal teve onze anos de publicação e um dos seus diretores foi Edgard Leuenroth.

Os dois jornais tem grande quantidade de artigos de propaganda do livre pensamento e do anticlericalismo, seções para correspondentes de outras localidades, temas que saem durante longos períodos voltados para a discussão de religião, ciência, ensino laico x religioso, a situação da mulher na sociedade, bem como notícias nacionais e internacionais do movimento livre pensador e anticlerical, de Congressos e Ligas, etc. Há espaço também para folhetins de natureza anticlerical, anúncios variados, indicações e comentários sobre jornais, revistas e obras literárias de caráter anticlerical, de livre pensamento e maçônicas.

O que se percebe, pela análise dos artigos e da correspondência que chegava aos dois jornais, era a difusão das propaganda anticlerical e do livre pensamento em diversas regiões e localidades brasileiras. Porém, não podemos dizer que esta tendência tenha sido disseminada em amplos setores sociais. Uma corrente de simpatizantes que se encarregava de fortalecer e disseminar, de forma articulada, idéias anticlericais e de livre pensamento. O movimento estava restrito a um grupo de intelectuais, profissionais liberais, pequenos comerciantes, funcionários públicos e algumas esferas da política.

Temas, tendências e imagens de A Lanterna e O Livre Pensador

Neste dois jornais, as tendências não são iguais embora apresentem as características básicas do movimento anticlerical de período,. No que se refere a relação com a maçonaria apresentavam aspectos singulares que refletem com clareza as tensões entre diferentes grupos e ideias características desta época da história do Brasil republicano.

O jornal A Lanterna  definiu-se, quando surgiu, como um órgão de propaganda anticlerical que deveria denunciar e julgar a Igreja Católica Apostólica Romana e seus membros, vistos como causadores da ignorância e miséria de populações inteiras pelo mundo. Defendia projetos de constituição de uma sociedade laica, do progresso e da civilização em oposição às concepções clericais. Em 1909, quando reaparece, pretende ser “(..) uma tribuna de livre discussão, para uma investigação sincera da verdade, eco às aspirações do nosso tempo.”(A Lanterna, ano IV, n.1).

Os ataques eram dirigidos aos dogmas e crendices da Igreja, às incoerências existentes entre o cristianismo primitivo, puro e seu desdobramento nas explorações do Vaticano, assim como às relações de poder que garantiam aos sacerdotes desta instituição livre trânsito na sociedade brasileira, intervindo em círculos que iam da política até a intimidade familiar. Atacava-se o papado, o clero em geral, a vinda de ordens religiosas para o Brasil, os desmandos da República que se dobrava à Igreja, a violência da polícia defendendo o clero. O jesuitismo, associado a Inquisição, foi a imagem de tudo o que era atrasado, mal e imoral, representando a corrupção e o passado, sendo o oposto dos ideais de progresso e civilização moderna. A moralidade dos padres é colocada em dúvida: os seminários são locais de perversão e devassidão. Denunciam, entre outros, casos de abuso sexual de menores e mulheres, pederastia, concubinato, abortos, filhos ilegítimos, alcoolismo, exploração da fé, vadiagem, impunidade, desvio de doações, riqueza do clero, etc.

A propaganda anticlerical do A Lanterna procurava desacreditar a Igreja católica como instituição e o caráter nocivo e pernicioso de seus sacerdotes. Os rituais da Igreja são criticados por serem pura hipocrisia e exploração da ignorância. A confissão aparece como um grande mal, sendo considerada absurda, imoral e perigosa para crianças inocentes sem a possibilidade de maiores transgressões além de manter informados os seus “confessores” acerca do que ocorria no âmbito familiar,  e mulheres que expondo seus segredos, suas intimidades e sua vida particular, poriam-se à mercê e sob a tutela direta de padres de comportamento duvidoso.

Na propaganda anticlerical o projeto de laicização da sociedade passava pelo necessário desmantelamento da Igreja Católica vista como uma instituição incoerente, imoral e propagadoras de formas de dominação que mantinham os homens no conformismo, na ignorância e na miséria, calando anseios de rebeldia, liberação e progresso. Contra a Igreja, devia-se investir forte na educação laica feminina e infantil, valorizando a racionalidade, a cultura, o trabalho, a igualdade, a moralidade pública, a ética pessoal e social, as artes, a sensibilidade, e uma espiritualidade desvinculadas dos cabrestos de dogmas e instituições, etc. Era fundamental a completa separação de Igreja e estado, da política e religião.

O ensino tornou-se um ponto fundamental. Reafirmava-se a necessidade do governo coibir a atuação dos clérigos na educação através do incentivo e promoção de um ensino laico moral e sadio, público e científico.

Cabe destacar o caráter maniqueísta da propaganda anticlerical: de um lado, livre pensadores e anticlericais, representando a razão, o progresso, a civilização, a ciência, a liberdade, a sociedade, a aspiração justa; de outro, a Igreja e seus membros, representando a hipocrisia, a ignorância, o atraso e a miséria, tudo que era nocivo. Algo assim como um verdadeiro cancro que deveria ser extirpado o quanto antes, ainda que por métodos enérgicos, conforme defendiam algumas alas. A decadência de alguns países, como Portugal e Espanha, era intimamente associada a influência da Igreja Católica. Se o Brasil quisesse progredir devia livrar-se do clericalismo, do jesuitismo, do domínio católico, sob pena de se condenar ao imobilismo, ao atraso, ao definhamento e a asfixia. A ciência, essencial para este progresso, seria sempre perseguida pelas forças clericais lançando mão, para isso, de todos os meios ao seu dispor.

Aliás, o caráter internacional do movimento era destacado de forma constante: tanto perseguições como os avanços do movimento no mundo eram noticiados. Artigos traduzidos e ficava muito claro o contato com o movimento anticlerical e de livre pensamento internacional, principalmente em Portugal.

No A Lanterna aparecem muitas críticas às influencias clericais no governo de Rodrigues Alves e ao protecionismo que ele dá ao clero. Afirmava que a presença da maçonaria e de maçons na política deveria representar uma arma contra este tipo de aliança. Tempos depois alguns maçons no governo como Campos Sales, Prudente de Morais, Bernardino de Campos, Rio Branco, foram citados como traidores, fracos e omissos, diante dos avanços políticos dos aliados do clericalismo no poder. Defendiam o papel da maçonaria no combate ao jesuitismo. Em setembro de 1903 esta questão ganhou destaque no artigo intitulado “O jesuitismo e a Maçonaria” onde foi apresentada a moção aprovada na Assembleia Geral do Grande Oriente de São Paulo e dirigida ao Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, Quintino Bocaiúva, que “(..) resolveu em sessão de 21 corrente votar uma moção de confiança ao Gr∴ Or∴ do Brasil certo de que ele saberá manter as tradições gloriosas de Saldanha Marinho e Rio Branco, opondo barreira forte à invasão perigosa que ameaça tudo avassalar, desde as mais altas regiões da vida nacional até as mais ínfimas camadas das classes sociais.” (19-27 de setembro de 1903, ano II, nº 16-7).

A Lanterna sempre esteve ligado a maçonaria, ou, pelo menos a certos grupos de maçons fortes e influentes. Surgiu de um esforço de Benjamim Mota (advogado) e de um grupo de maçons da Loja Luso Brasileira (cf. A Lanterna, ano III, n.16). Maçons aparecem nas listas de subscrição que sustentavam o jornal, como articulistas, anunciantes. Há notas e artigos referentes a Lojas Maçônicas – tanto nacionais como internacionais – a associações maçônicas beneficentes, políticos relacionados com a Maçonaria e críticas aos setores da maçonaria que não defendiam o anticlericalismo.

Existem informações sobre auxílio financeiro que lojas maçônicas fizeram para garantir a existência do jornal. O noticiário dava conta da vida das lojas maçônicas. Por exemplo, no A Lanterna de 14-15 de novembro de 1901 (ano 1, nº 9) existe uma referência a instalação do Grande Oriente de São Paulo como integrante do Grande Oriente do Brazil. A articulação do movimento livre pensador e anticlerical revelam aspectos sociais amplos. Em junho de 1903, o A Lanterna noticia o falecimento da livre pensadora D. Antonietta Algaya de Almeida, fundadora da Associação Beneficente de Senhoras do Rio Grande do Sul e filha de José Domingues de Almeida, Gr∴ Sec∴ do Grande Oriente de Rio Grande do Sul.

O Livre Pensador dirigido por Everardo Dias, maçom, socialista e espiritualista, tem uma faceta característica: embora esteja dentro das tendências gerais do movimento anticlerical e de livre pensamento revela algumas nuances distintas. Quando o assunto era desmoralizar a Igreja surgiam os artigos contra o papismo, o dogmatismo, a exploração da fé, a teologia, a canonização, etc. Apareciam muitas críticas contra os padres que atacavam protestantes, maçons, espíritas, livre pensadores, socialistas, etc., em suas prédicas. (p.ex. O Livre Pensador, ano II, n. 73).

Procurava-se “dessacralizar” a verdade absoluta da religião católica amparando-a com cultos pagãos, desmistificando relatos bíblicos. A ciência, o conhecimento histórico de outras religiões e da própria história da Igreja eram elementos fundamentais para determinar novos parâmetros da religião. A investigação, as explicações científicas baseadas em fenômenos físico-químicos ou em dados empíricos, o método científico-experimental, seriam os crivos pelos quais a religião seria analisada e julgada.

No O Livre Pensador apareciam, claramente colocadas, duas tendências no que se referia a religião: uma detração completa ao pensamento religioso em geral e ao da Igreja em particular; ou então, uma comparação entre o cristianismo primitivo puro e autêntico e o catolicismo caracterizado como corrompido, nocivo e retrógrado. Havia também defesa do que eram chamadas seitas mais humanas, mais científicas, como o espiritualismo e o espiritismo, defendidas dos ataques dos clericais e dos protestantes.

Os temas eram os tradicionais: a mulher na sociedade, igualdade, ensino laico. Surgiam críticas aos maçons, espíritas e republicanos que, na vida política e pública, cediam às pressões da Igreja e não defendiam ideais anticlericais. A República era cobrada por permitir que o clero interferisse em decisões importantes como as propriedades de ordens religiosas e na educação.

Destacavam os projetos que estavam no Congresso referentes à liberdade de cultos e de associações religiosas, a intransigente defesa da função de uma imprensa livre pensadora e anticlerical. Citavam viagens de propaganda pelo interior de São Paulo, no meio operário. Estas “Conferências Livre Pensadoras e Maçônicas-Liberais” eram feitas ao longo das ferrovias Mogiana e Paulista (cf. O Livre Pensador, ano VI, n.193). São constantes as notícias do exterior, bem como a tradução de artigos, editoriais. A natureza dos assuntos era eclética: espiritualismo, medicina preventiva, homeopatia, combate ao alcoolismo, tuberculose, doenças sexualmente transmissíveis e tabagismo, etc.

No O Livre Pensador é possível perceber uma convivência do materialismo e do cientificismo com a defesa dos espíritas e de sua doutrina contra os argumentos clericais: tratava-se da defesa da liberdade de culto. Também instrumentalizavam o passado através de análises sobre a Inquisição e de figuras como Galileu, Giordano Bruno, colocados como mártires do livre pensamento.

As diferentes características dos dois periódicos refletiam tendências do movimento em sua época, encarnadas nas figuras de seus editores: O Livre Pensador dirigido por Everardo Dias, maçom, anarquista e espiritualista, revela um contexto intelectualizado, de discussão e defesa do espiritualismo e doutrinas afins; A Lanterna de Benjamim Mota, maçom e anarquista, revela uma tendência de discussão de temas relacionados à política e ao anticlericalismo mais ferrenho.

Evidentemente que este artigo levanta questões que devem ser aprofundadas através de pesquisas. Não estamos diante de um movimento representativo para amplos setores da população, de uma mentalidade popular, mas não devemos subestimar a existência e propagação de alguns destes ideais e sentimentos em setores da sociedade e outros movimentos tais como a própria maçonaria. Não devemos entendê-los como cópias de movimentos similares estrangeiros. As similaridades existem mas as especificidades brasileiras devem ser mais estudadas, assim como a instrumentalização ou adaptação de uma determinada linha de argumentação usada contra os clericais.

A queixa frequente da falta de coerência de maçons, espíritas, republicanos, socialistas brasileiros que não eram ostensivamente anticlericais é, por exemplo, um dado que nos coloca em confronto com outros movimentos internacionais. Pusilanimidade? Este era o argumento dos articulistas ferozes. Os jogos de poder, a sobrevivência, a ascensão social, as mentalidades de uma época são elementos que não podem ser desqualificados ou esquecidos: devem ser investigados, interpretados e reinterpretados, revelando tendências, movimentos e debates que desfazem o manto homogeneizador sob o qual abrigam-se denominações genéricas, como maçonaria que sabemos ser hoje também, dividida em “Potências” de várias obediências. Assim também revelam-se múltiplas as denominações de anticlericalismo e livre pensamento.

O que surge até agora, é um tecido cultural riquíssimo para a elucidação e melhor compreensão de diversos aspectos não muito claros porém repleto de espaços para jogos políticos os mais sedutores, curiosos e interessantes, embates de vontades, poderes e influências, de dissimulação, de interesses escusos em posturas, atos e discursos, de ideários febris,  sonhadores, utópicos e delirantes, de utopias transformadoras em nome de interesses comunitários locais, nacionais ou, até mesmo, mundiais, através das quais determinada concepção de sociedade deveria ser colocada em prática. Porém, o elemento de união foi a crença, por vezes contraditória, na existência de verdades e ideais que apontavam o “verdadeiro Destino Natural do Gênero Humano”, definindo e justificando todas as suas ações e argumentações, expressando-se não somente através da imprensa, mas também em manifestações  e ações políticas – nem sempre bem sucedidas.

Autora: Eliane Moura Silva

Nota

[1] – Este artigo faz parte de um projeto mais amplo de pesquisa intitulado O Espiritualismo no século XIX: Correntes culturais e religiosidade, financiado pelo CNPq desde 1995. A observação destas ligações no campo de uma história cultural das idéias do século XIX e XX surgiram durante o trabalho de doutorado que levou a tese Vida e Morte: O Homem no Labirinto da Eternidade (Unicamp, 1993). Ao estudar as crenças e atitudes diante da morte e do após a morte no século XIX ficou claro que o pensamento racionalista e materialista tivera, neste período, opositores no campo da própria ciência, com destaque para  certas construções teóricas ecléticas que produziram discursos sobre Ciência e Fé, Religião e Razão. Espíritas, Esoteristas, Ocultistas, maçonaria mística, espiritualistas em geral, aliaram-se ao livre pensamento e ao anticlericalismo.

Publicado em História | Marcado com , | Deixe um comentário