A Lenda do Ofício – análise crítica: antes do Dilúvio

Tendo presente os limites e condicionalismos que apontei no texto anterior, vamos então tentar proceder a uma análise crítica do início da Lenda do Ofício.

Para que estejamos identificados, recordemos, então, o que nessa Lenda reza quanto aos tempos antediluvianos:

Vou contar-vos como estas valiosas ciências apareceram. Antes do Dilúvio de Noé, havia um homem, chamado Lamech, tal como está escrito na Bíblia, no quarto capítulo do Gênesis; e este Lamech tinha duas mulheres, uma chamada Ada e outra chamada Sella; da sua primeira mulher, Ada, teve dois filhos, Jabell e Tuball e da sua outra mulher, Sella, teve um filho e uma filha. E estes seus quatro filhos criaram o princípio de todas as ciências no mundo. O seu filho mais velho, Jabell, fundou a ciência da Geometria. (…) E o seu irmão Tuball fundou a ciência da música (…). E o terceiro irmão, Tuball Cain, fundou a ciência de trabalhar ouro, prata, cobre, ferro e aço (…). Esses filhos sabiam bem que Deus iria tirar vingança dos pecados, ou pelo fogo, ou pela água; portanto, escreveram as suas ciências em dois pilares de pedra, que pudessem ser encontrados após o Dilúvio de Noé. E uma das pedras era mármore, pois essa não arderia com o fogo; e a outra pedra era argila cozida em tijolos e não afundaria na água de Noé.

Obviamente que nenhum documento histórico suporta esta parte da Lenda. O único elemento em que se baseia é a Bíblia, no Livro do Gênesis.

No Gênesis, existe a referência a dois personagens com o nome de Lamech. Um era descendente em sexta geração de Caim, filho de Methusael e a primeira referência a um polígamo na Bíblia, com duas mulheres, Ada e Tselah (na Lenda, Sella). O outro era descendente de oitava geração de Seth (Abel), filho de Methuselah, e foi o pai de Noé.

Alguns estudiosos consideram que estes dois personagens corresponderão a um único ser, apontando a semelhança dos nomes dos respetivos progenitores e, sobretudo notando que, na coletânea rabínica Genesis Rabba, refere-se que Na’amah, a filha de Tselah e Lamech, filho de Methushael (Methusael), foi a mulher de Noé, alegadamente o filho do outro Lamech, filho de Methuselah.

Seja como seja, a Lenda do Ofício não se perde em rabínicas subtilezas e toma como personagem Lamech, o primeiro polígamo referenciado na Bíblia, descendente em sexta geração de Caim.

Lenda do Ofício parte, portanto, do mito bíblico, acrescentando-lhe os elementos da fundação das ciências pelos filhos de Lamech e a premonição de que o castigador e vingativo Jehovah do Antigo Testamento iria punir duramente os pecados humanos, fosse pela água, fosse pelo fogo – os dois grandes elementos com capacidade destruidora da Antiguidade Primitiva. E, anacronicamente – pois a escrita ainda não tinha sido inventada – relata a escrita do registo de todas as ciências em dois pilares, concebidos para resistir à água, um, e ao fogo, o outro.

Mito, evidentemente! Lenda, obviamente! No entanto, que deduções ou ilações de natureza histórica (melhor dito: proto-histórica) podemos tirar desta parte da Lenda?

Albert Mackey, na sua História da Maçonaria, informa-nos que esta história, na parte não bíblica, deriva de um registo de Josephus (historiador romano do Povo Judeu da Antiguidade, autor das Antiguidades dos Judeus), que conta a história do fabrico dos dois pilares como tendo ocorrido com descendentes de Seth (Abel).

Não sendo de presumir que os autores medievais da Lenda estivessem familiarizados com os textos rabínicos e fossem dados às subtilezas dos estudiosos que defendem serem os “dois” Lamech um único personagem, verifica-se que a Lenda parte da história relatada por Josephus, mas alterando os personagens.

Segundo Mackey, tal ter-se-á devido a uma adulteração do texto de Josephus ocorrida numa obra intitulada Polychronicon, da autoria de um monge beneditino, Ranulph Higden, que viveu no século XIV.

Portanto – e não esqueçamos que a Lenda do Ofício se estruturou na época medieval – esta parte da Lenda do Ofício radica num relato de um historiador, adulterado por outro. Mas resulta do que, na época da sua construção, era tido como um fato histórico. Esta parte da Lenda do Ofício terá, assim, sido incluída na mesma não antes do século XIV – altura da adulteração, no Polychronicon, do que Josephus escrevera. E corresponde ao que, na época, era tido como um fato histórico.

Continua…

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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A Lenda do Ofício – análise crítica: Introdução

Uma análise do ponto de vista histórico da Lenda do Ofício deve ser feita segundo as regras da Ciência da História. E regra básica desta ciência é que a História é constituída por FATOS – não lendas, nem mitos, nem hipóteses, nem probabilidades. Fatos! Este o alimento da História e os fatos são estabelecidos por DOCUMENTOS. Traços ou registos inequívocos de que algo sucedeu mesmo. O documento pode ser um registo de um fato ou um relato sério e credível. Tanto mais sério quanto maior crédito merecer o seu autor. Tanto mais credível quanto mais contemporâneo for o seu narrador.

Este princípio ou regra da Ciência Histórica coloca um problema sério, quiçá insolúvel, quanto a um grande período de sucessos da Humanidade Primitiva. Tudo o que sucedeu antes de haver escrita não está registado. Daí que se chame ao (imenso) período anterior à invenção da escrita Pré-História.

Em relação à Pré-História, por força da natureza das coisas, a fixação de fatos não se faz mediante a sua comprovação documental, mas em face de indícios credíveis. Daí que sejam importantes todas as descobertas arqueológicas, que permitem analisar “livros não escritos” que indiciam como era a vida dos nossos longínquos antepassados dessas primitivas eras.

Mas se os indícios arqueológicos nos permitem deduzir as condições de vida genéricas de um determinado período, não nos possibilitam estabelecer um dado fato concreto – à míngua de registo contemporâneo, ou próximo disso.

No entanto, sucessos existem que estão marcados nas culturas de vários povos de muitos lugares. Os mitos primitivos, com algumas variantes, mais ou menos acentuadas, são comuns, na sua essência às culturas ocidentais como orientais, mediterrânicas como nórdicas, africanas, asiáticas ou europeias. Mesmo em alguns mitos dos povos primitivos do continente americano podemos reconhecer traços comuns com mitos do resto do globo.

A ciência dos nossos dias estabeleceu que o homem terá deixado de ser símio em África. Daí ter-se-á espalhado para a Ásia, desta para a América e a Europa, em movimentos diversos e momentos distintos e autônomos. O conjunto de mitos primitivos dos vários ramos de distribuição geográfica do bicho que se tornou Homem é, quando dotado de similitudes essenciais, significativo. Corresponde, pensa-se com foros de lógica, a memórias de fatos relevantes efetivamente ocorridos, memórias passadas oralmente de geração em geração, alteradas quer por virtude do decurso do tempo, quer em face das diferentes condições geográficas e evoluções culturais dos diversos povos ou tribos.

Os relatos míticos de sucessos ocorridos milhares de anos antes da sua fixação escrita são, obviamente, inaceitáveis enquanto fonte histórica. Mas são significativos de uma dada tradição cultural – e tanto mais significativos e merecedores de atenção quanto comuns a diversas tradições.

Os Livros Sagrados de todas as religiões não terão sido ditados ou dados diretamente pela Divindade ou Divindades. Mas esses Livros Sagrados, enquanto repositórios de tradições, de contos, de lendas, de lembranças alteradas e adulteradas pelo decurso do tempo e do acrescentar de um ponto por quem conta um conto, são elementos indiciários de panos de fundo, de fatos memoráveis ou extraordinários que, pela sua magnitude, importância, bizarria ou incapacidade de serem compreendidos, marcaram os imaginários primitivos.

O que de similar existe nas várias tradições das diferentes civilizações ou, simplesmente, povos primitivos é elemento fortemente indiciário de que algo dessa natureza comum efetivamente sucedeu. Não sabemos quando, nem onde, nem como, nem concretamente o quê (não há registos documentais…). Mas temos por indiciado que algo da natureza da essência dos diferentes mitos comuns terá sucedido e terá sido tão importante que impressionou, ao ponto de o seu relato ser transmitido e alterado e adulterado, de geração em geração, até ser fixado em escrita, milhares de anos depois da ocorrência.

Um desses sucessos é o que na Bíblia é descrito como Dilúvio. Não podemos saber se terão sido chuvas prolongadas e fortes, se alterações geológicas, se inundações fortes e inesperadas. Mas a existência de um mito primordial e comum a diversas civilizações de que existiu um alagamento, uma destruição de lugar ou civilização importante – tão importante que, no registo bíblico, é descrito como universal – é indício seguro de que algo cataclísmico relacionado com a água e a sua força destruidora ocorreu. Que muitos pereceram e só poucos sobreviveram. E que os poucos sobreviventes tiveram como que recomeçar de novo. A Bíblia chamou-lhe o Dilúvio. Outras tradições e mitos chamam-lhe, por exemplo, a destruição da mítica Atlântida…

Quanto mais recuados os tempos, menos provas existem, de menos indícios dispomos. Recuando aos primórdios do bicho feito Homem, muitas vezes, para além de ossadas aqui e ali descobertas – que de pouco, em termos factuais, servem – os únicos elementos que restam ao estudiosos são os relatos míticos dos ditos Livros Sagrados.

Os relatos dos Livros Sagrados, particularmente da Bíblia, não sendo fontes documentais históricas, assumem, à falta de melhor, o papel de registos de mitos correspondentes a sucessos muito antes ocorridos, seguramente adulterados, quiçá embelezados, porventura exagerados. Mas indiciam que algo do género ocorreu, algures nas profundezas do passado do primitivo bicho que se tornou Homem e se agrupou em tribos e se fixou aqui e acolá e construiu e viu destruído, e vagueou e lutou e algo fez e viu e viveu e achou memorável – e por isso passou de geração em geração, alterando, adulterando, acrescentando, embelezando, imaginando, relatando, contando, derivando, criando uma estória que não será História, mas que se baseia numa história efetivamente ocorrida.

Relativamente à Antiguidade profunda verdadeiramente antiga, tão antiga que já era antiga e imemorial nos primitivos tempos em que os textos bíblicos – e outros textos sagrados – foram escritos, apesar dos pesares o registro bíblico é um indício de que algo do gênero, parecido, tendencialmente da mesma natureza, ocorreu, repito, não se sabe quando, nem onde, nem exatamente o quê e como.

Lenda do Ofício inicia-se nessas profundezas do tempo que foi a Antiguidade da Antiguidade, o tempo que os Primitivos, se deles tivessem consciência, considerariam primitivo. O relato bíblico não é – longe disso! – elemento histórico. Mas é o menos longínquo que possuímos para deduzir o que terá acontecido nessa infância da Humanidade.

Por aí – com todas as limitações para que neste texto alerto – começarei a minha análise crítica da Lenda do Ofício.

Continua…

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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A Lenda do Ofício – 2ª Parte: a Idade Média

Continuo a divulgação, em tradução livre minha, da Lenda do Ofício, a lenda da origem da Maçonaria, tal como consta no manuscrito Downland, um manuscrito da maçonaria operativa, que se considera datar de cerca do ano 1.500. Relembro que, ao tempo, e conforme se verifica de vários manuscritos da maçonaria operativa que foram descobertos e estudados, as palavras Maçonaria e Geometria eram consideradas sinônimos entre os maçons operativos, os construtores em pedra reunidos em associações profissionais, que preservavam e transmitiam aos mais novos os segredos da construção, nomeadamente as regras geométricas que lhes permitiam facilmente determinar com acerto ângulos retos, alinhar paredes na vertical, etc..

No texto anterior, a Lenda evolui desde os primórdios da Humanidade, na era pré-diluviana, até à época do rei Salomão. O texto que segue prossegue a partir daí.

Homens da Fraternidade curiosos viajaram por diversos países, uns para aprenderem mais da arte de construir e aparelhar, outros para ensinar aqueles que tinham poucos conhecimentos. E assim sucedeu que houve um curioso Maçom, chamado Maymus Grecus, que esteve na construção do Templo de Salomão e que veio para França e aí ensinou a ciência da Maçonaria aos homens da França. E houve um, da linhagem real de França, chamado Carlos Martel; e ele era um homem que gostava muito desta ciência e aproximou-se deste Maymus Grecus, acima referido, e aprendeu com ele a ciência e obteve através dele os Deveres e as Regras; e mais tarde, pela graça de Deus, foi escolhido para ser Rei da França. E quando ele estava nessa função, contratou Maçons e ajudou a fazer Maçons de homens que não eram nada; e pô-los a trabalhar e deu-lhes os Deveres e as Regras e bom salário, tal como tinha aprendido de outros Maçons; e confirmou-lhes uma determinação de se reunirem anualmente; e acarinhou-os muito; e assim chegou esta ciência a França.

A Inglaterra em todo este tempo manteve-se alheia, quanto a qualquer assunto de Maçonaria, até ao tempo de Santo Albano. E nos dias deste o rei da Inglaterra, que era pagão, edificou as muralhas da cidade que agora se chama Saint Alban. E Santo Albano era um valoroso cavaleiro e nobre da corte do Rei e tinha a direção dos assuntos do reino e da edificação das muralhas da cidade; e gostava dos Maçons e acarinhava-os muito. E fixou o seu salário bem, de acordo com os padrões do reino; pois deu-lhes dois xelins e seis dinheiros por semana e três dinheiros para as suas refeições. E antes desse tempo, por toda esta terra, um Maçom recebia apenas um dinheiro por dia e a sua refeição, até que Santo Albano emendou isso e deu-lhes uma carta patente do Rei e do seu Conselho para reunirem em conselho geral e deu-lhe o nome de Assembleia; e, a partir daí, ele próprio ajudou a fazer Maçons e deu-lhes Deveres, tal como ouvirão mais tarde.

Pouco tempo depois da morte de Santo Albano, houve diversas guerras no reino da Inglaterra entre diversas nações, pelo que a boa regra da Maçonaria foi destruída até ao tempo dos dias do Rei Athelstone, que foi um valoroso Rei da Inglaterra e trouxe a esta terra descanso e paz; e construiu muitas grandes obras de Abadias e Torres e muitos outros tipos de edifícios; e gostava muito dos Maçons. E ele tinha um filho chamado Edwin, que gostava dos Maçons muito mais do que o seu pai. E era um grande praticante da Geometria; e dedicou-se muito a falar e a confraternizar com Maçons e a aprender a sua ciência; e depois, pelo amor que dedicava aos Maçons e à ciência, ele foi feito Maçom e obteve do rei seu pai uma carta patente para realizar todos os anos uma assembleia, onde lhes conviesse, no reino da Inglaterra; e para corrigirem os erros uns dos outros e os atropelos que fossem feitos dentro da ciência. E realizou ele próprio uma Assembleia em York, e estes fez maçons e deu-lhes Deveres e ensinou-lhes as regras e ordenou que esta norma seria seguida para todo o sempre, e guardou então a carta patente para a conservar e deu ordem para que fosse renovada de rei para rei.

E quando a Assembleia estava reunida, anunciou que todos os Maçons, velhos e novos, que tivessem alguma notícia ou conhecimento dos Deveres ou das regras que foram feitos antes nesta terra, ou em qualquer outra, deveriam deles dar conhecimento. E quando assim se fez, foram encontrados alguns em francês e alguns em grego e alguns em inglês e alguns em outras línguas; e o seu propósito foi de reunir todos num único. E fez um livro deles e de como a ciência foi fundada. E ele próprio proclamou e determinou que deveria ser lido ou contado sempre que um Maçom fosse feito, para lhe dar a conhecer os seus Deveres. E desde esse dia até agora as regras dos Maçons mantiveram-se dessa forma, tanto quanto os homens as podem executar. E a partir daí diversas Assembleias tiveram lugar e ordenaram certos Deveres, segundo o melhor juízo dos Mestres e Obreiros.

Por natureza, uma lenda não é realidade histórica. Nesta Lenda da Ordem é fácil, por exemplo, detectar anacronismos evidentes: Abraão contemporâneo de Euclides, um obreiro do Templo de Salomão contemporâneo de Carlos Martel.

Outros anacronismos não serão tão evidentes a quem não conhecer profundamente História e a História de Inglaterra, mas estão lá. Mas, anacronismos à parte, imprecisões expectáveis de uma estória que passa de geração em geração por tradição oral, se analisarmos bem a Lenda tendo sempre presente que Maçonaria é palavra utilizada como sinônimo de Geometria e que maçom é palavra utilizada tanto para significar o trabalhador de construção em pedra, como o estudioso de Geometria, como aquele que aplica noções de Geometria à arte de construir, como ainda aquele que se insere numa corporação organizada de construtores em pedra, poderemos verificar que esta Lenda tem mais correspondência com fatos históricos do que, à primeira vista, se poderá supor.

Faço notar que, embora em inglês moderno se faça a distinção entre “mason” e “freemason”, significando o primeiro termo “pedreiro” ou “construtor em pedra” e o segundo o que hoje se designa por maçom, aquele que se integra na Maçonaria especulativa, tal como existe desde o século XVIII, tal distinção inexistia, obviamente na época da maçonaria operativa, em que os termos “mason” e “freemason” eram indistintamente usados. Nesta tradução livre, optei por utilizar sempre indistintamente o termo maçom. Numas passagens do texto, significará o oficial do ofício da construção, noutras o cultor da ciência da geometria, noutras ainda o membro da corporação de construtores, e também porventura nalgumas delas assumirá simultaneamente dois ou mais destes significados.

Procurarei distinguir os vários significados do uso do termo, ao longo da análise crítica da Lenda do Ofício que me proponho levar a cabo. Sempre seguindo de perto os ensinamentos de Mackey, essa análise crítica será o objeto da série de textos que se seguirá.

Traduzido por: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

Referência bibliográfica

MACKEY, Albert G. The History of Freemasonry. Gramercy Books, New York.

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A Lenda do Ofício – 1ª Parte: Antiguidade

O manuscrito Downland, que se pensa datar de cerca do ano 1.500, é um dos manuscritos da maçonaria operativa que foram encontrados e estudados. Nele está, além do mais, transcrita a Lenda do Ofício a lenda da origem da Maçonaria (não esquecer que, conforme assinalei em Maçonaria = Geometria = Arquitetura, naqueles já remotos tempos Maçonaria e Geometria eram sinônimos).

Dada a sua extensão, vou divulgá-la em dois textos. Eis a primeira parte, em tradução livre minha:

(…) Pode um homem verificar que a ciência do trabalho se funda na Geometria, pois a Geometria ensina ao homem a dimensão e a medida, a forma e o peso, de todas as coisas na Terra, e por isso não existe homem algum que execute alguma ciência, sem que utilize alguma dimensão ou medida, nem nenhum compra ou vende sem que compre ou venda algo com medida ou peso, e tudo isto é Geometria. (…) Daí que se pense que a ciência da Geometria é a mais valiosa e que contém todas as outras.

Vou contar-vos como estas valiosas ciências apareceram. Antes do Dilúvio de Noé, havia um homem, chamado Lamech, tal como está escrito na Bíblia, no quarto capítulo do Gênesis; e este Lamech tinha duas mulheres, uma chamada Ada e outra chamada Sella; da sua primeira mulher, Ada, teve dois filhos, Jabell e Tuball e da sua outra mulher, Sella, teve um filho e uma filha. E estes seus quatro filhos criaram o princípio de todas as ciências no mundo. O seu filho mais velho, Jabell, fundou a ciência da Geometria. (…) E o seu irmão Tuball fundou a ciência da música (…). E o terceiro irmão, Tuball Cain, fundou a ciência de trabalhar ouro, prata, cobre, ferro e aço (…). Esses filhos sabiam bem que Deus iria tirar vingança dos pecados, ou pelo fogo, ou pela água; portanto, escreveram as suas ciências em dois pilares de pedra, que pudessem ser encontrados após o Dilúvio de Noé. E uma das pedras era mármore, pois essa não arderia com o fogo; e a outra pedra era argila cozida em tijolos e não afundaria na água de Noé.

O nosso propósito é contar-vos com verdade como e de que maneira foram encontradas as pedras em que estas ciências estavam escritas. O grande Hermarynes, que foi filho de Cuby, o qual foi filho de Sem, que foi filho de Noé, mais tarde chamado de Hermes, o patrono dos homens sábios, encontrou um dos dois pilares de pedra e encontrou a ciência nele escrita e ensinou-a a outros homens. E na construção da Torre de Babel se fez o primeiro uso da Maçonaria. E o rei da Babilônia, que se chamava Nimrod, era ele próprio um maçons; e amava bem a ciência, e isto é dito pelos mestres em História. E quando a cidade de Nínive e outras cidades do Oriente foram construídas, Nimrod, o rei da Babilônia, enviou para lá três mil maçons a pedido do rei de Nínive, seu primo. E, quando os enviou, deu-lhes um Dever do modo seguinte: Que deveriam ser verdadeiros uns com os outros e que deviam gostar de estar uns com os outros e que deviam servir lealmente o seu senhor em troca do seu salário (…). E outros deveres de conduta lhes deu. E esta foi a primeira vez que aos Maçons foram impostos Deveres da sua ciência.

Mais tarde, quando Abraão e Sara, sua mulher, foram para o Egito, ali ele ensinou as sete ciências aos egípcios; e teve um valioso discípulo, chamado Euclides, que aprendeu bem e foi Mestre das sete ciências liberais. E no seu tempo, sucedeu que o senhor e os nobres do reino tinham tido muitos filhos, alguns das suas mulheres, outros de outras senhoras do reino; porque aquela terra é uma terra quente e propícia a gerar. E eles não tinham encontrado modos de vida satisfatórios para os seus filhos, de que muito gostavam, e então o rei do país convocou um grande Conselho e Parlamento para decidir como poderiam encontrar um modo de vida honesto para os nobres seus filhos, e não conseguiram encontrar boa maneira. E então anunciaram por todo o reino que se houvesse algum homem que os informasse, então deveria comparecer perante eles e seria recompensado pelo seu trabalho, de forma a deixá-lo satisfeito.

Depois que este pregão foi feito, veio então o valoroso Euclides e disse para o rei e todos os seus nobres: “Se me entregarem os vossos filhos para que eu os governe e lhes ensine uma das sete ciências, de forma que eles possam viver honestamente como nobres, deverão dar-me a mim e a eles uma carta patente, de que eu tenho o poder de lhes determinar o modo como essa ciência deve ser regulada.” E o rei e o seu Conselho concederam-lhe isso e selaram a sua carta patente. Então o valoroso Doutor levou consigo os filhos dos nobres e ensinou-lhes a ciência da aplicação da Geometria ao trabalho de construção em pedra de igrejas, templos, castelos e palácios; e deu-lhes Deveres da seguinte forma.

O primeiro era que deviam ser verdadeiros para o Rei e para o Senhor de quem dependiam. E que deveriam gostar de estar juntos, ser verdadeiros uns com os outros. E que deviam chamar-se uns aos outros Companheiro ou Irmão, não por servo, ou escravo, ou outros nomes tolos. E que deveriam merecer o salário pago pelo Senhor ou pelo Mestre que servissem. E que deveriam designar o mais sábio deles para Mestre do trabalho e não deixar que essa designação fosse afetada por linhagem, riqueza ou favor, pois então o senhor seria mal servido e eles desonrados. E também que deveriam tratar o responsável pelo trabalho por Mestre, durante o tempo em que trabalhassem com ele. E muitos mais deveres de conduta que seria longo contar. E a todos estes Deveres fez jurar um grande juramento que naquele tempo se usava; e determinou que deveriam receber salários razoáveis, com os quais pudessem viver honestamente. E também que deveriam reunir-se anualmente, para discutir como poderiam trabalhar melhor e melhor servir o seu senhor, para ganho dele e deles próprios; e para corrigirem no seu próprio seio aquele que tivesse errado contra a ciência. E assim ali foi implantada a ciência; e o valoroso senhor Euclides deu-lhe o nome de Geometria. E agora é chamada em toda esta terra por Maçonaria.

Muito depois deste tempo, quando os filhos de Israel chegaram à Terra Prometida, que agora é chamada entre nós de Jerusalém, o rei David iniciou a construção do Templo que é chamado entre nós de Templo de Jerusalém. E o rei David apreciava os maçons e tratava-os bem e dava-lhes bom salário. E deu-lhes os Deveres pela forma que tinha aprendido no Egito, dada por Euclides, e outros deveres de conduta de que ouvirão falar mais tarde. E depois da morte do rei David, Salomão, que era filho de David, concluiu o Templo que o seu pai começara; e mandou vir maçons de diversos países e várias terras; e juntou-os, de forma a ter 40.000 trabalhadores em pedra e chamou-lhes maçons. E escolheu de entre eles 3.000 que determinou fossem Mestres e responsáveis pelo trabalho. E, para além disso, havia um rei de outra região que os homens chamavam Hiram, que era amigo de Salomão e que lhe deu madeira para a sua construção. E ele tinha um filho chamado Aynam (hoje designado por Hiram Abif) e ele era Mestre de Geometria e foi o Mestre Chefe de todos os maçons e foi o Mestre de todos os aparelhamentos e gravações das pedras e de toda a espécie de Maçonaria que dizia respeito ao Templo; e isto é testemunhado pela Bíblia, no Livro dos Reis, capítulo terceiro. E Salomão confirmou, quer os Deveres, quer as disposições que o seu pai tinha dado aos maçons. E assim foi a valiosa ciência da Maçonaria confirmada na terra de Jerusalém e em muitos outros países.

Traduzido por: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

Referência bibliográfica

MACKEY, Albert G. The History of Freemasonry. Gramercy Books, New York.

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A Maçonaria, o Eu e a ideia de Morte

“Não se pode julgar da beleza da vida senão pela da morte (…)
Não se pode julgar da beleza da morte senão pela da vida.”
Isidore Ducasse – Conde de Lautrémonte, Poesias II

Segundo Deepak Chopra, o mundo é a vibração do infinito e é assim que ele existe na nossa imaginação. A filosofia vedanta afirma:

“Quando o infinito não vibra, os mundos parecem afundar-se”.

Tudo o que conseguimos pensar – uma cadeira, uma cor, uma montanha, um pensamento, um arco-íris – é apenas uma vibração diferente da nossa essência. Algo está a vibrar e a criar tudo e essa vibração está a acontecer na presença da alma. A alma vibra e cria os pensamentos. A alma vibra e cria o corpo. A alma vibra e cria todo o Universo. Todos, ao longo da Antiguidade, dos alquimistas egípcios aos filósofos gregos, afirmaram que a criação é vibração. Criar é trazer para o Ser ou para a existência. E, para criar algo de novo, é preciso morrer para o que já existe. Algo tem que morrer para que algo novo possa emergir. Assim, cada morte é um salto quântico de criatividade. Através da morte recriamo-nos a todos os níveis: ao nível do intelecto, do corpo e da personalidade. A cada morte armazenamos a sabedoria das nossas experiências desde o início dos tempos e efetuamos saltos quânticos de criatividade para que possamos olhar de novo para nós como se fosse a primeira vez. Ciclos de nascimento, transformação e morte mantêm-se frescos para que possamos imaginar novos reinos para a nossa existência.

Na Biologia há um termo denominado apoptose, que traduz a morte celular programada. Na ausência de apoptose, as células esquecem-se de morrer e esta condição é denominada por cancro. As células cancerígenas perderam a memória da morte e, na sua busca da imortalidade, matam o corpo hospedeiro do qual dependem para sobreviver. Assim, a morte é o bilhete para a vida e a morte está a ocorrer neste preciso momento no nosso corpo-mente. Nesse sentido, há algo que em nós sobreviva na morte? Antes do mais, a alma. E a personalidade, sobrevive? A personalidade não sobrevive sequer enquanto estamos vivos, porque o indivíduo que tomamos pelo “Eu” é diferente a cada momento, de hora para hora, de semana para semana, de ano para ano. Se a personalidade sobrevivesse de qual delas estaríamos a falar? A da nossa criancice, a da adolescência, ou a dos vários estágios de adultez?

A larva que morre para se tornar uma crisálida opera, efetivamente, uma transformação. Não uma morte efetiva. Também a morte, em si, é um processo de transformação, um movimento para outro lugar ou tempo, uma alteração na qualidade da nossa consciência. O mundo que experienciamos, com terra e céu, plantas e pessoas, Sol e Lua, é uma expressão particular da consciência a uma dada frequência. Estes estados de consciência são experiências vibratórias da consciência infinita, em que o Cosmos se movimenta e afirma a sua existência. É mais que certo que infinitas frequências de consciência existem e dá-se a presença simultânea de muitos planos de existência, de inúmeros universos paralelos.

Tudo na vida se revela passageiro e mutável, porque essa é a natureza do nosso mundo. Há quem procure, por natureza, resistir à mudança. Contrariar a própria natureza do universo em que vivemos parece ser um exercício de pura impossibilidade ou juízo de loucura. Contudo, quando se utiliza a autorreferência, esta mudança não se revela “adversa” (por contrária aos nossos desejos) mas positiva. No entanto, temos que ir além de uma mente positiva ou negativa para alcançarmos uma mente silenciosa, que se abstenha de julgamentos, análises ou interpretações. Por outras palavras, a paz com o “momento” só se consegue pela experiência da testemunha silenciosa, pela consecução do silêncio interior. Na pureza do silêncio, sentimo-nos ligados à nossa origem e a tudo o resto. As tendências que emergem desta ligação são evolucionárias e espontâneas. O reconhecimento do nosso universo dual, onde toda a experiência é feita por contrastes (luz-sombra, nascimento-morte, frio-calor, etc.), permite compreender que é possível “viver (e morrer) além do bem do e do mal”, como diria Nietzsche, no campo da pura potencialidade.

Quando um profano entra na Maçonaria, ou numa qualquer outra Ordem iniciática, ele dá, ainda que muitas vezes não tenha disso consciência, os seus primeiros passos naquilo que se considera uma via espiritual. Compreender essa via é lembrarmo-nos, a cada momento, que o nosso mundo é apenas uma parte visível, perceptível dos nossos sentidos, de um universo muito mais vasto, de um mundo espiritual de onde emana a realidade objetiva. Para o conjunto das religiões do mundo a realidade dissimula a realidade objetiva dum outro universo, o Reino de Deus ou dos Deuses, povoado de espíritos. “O visível é o reflexo do invisível”, diz o Zohar. É, assim, muito difícil ao homem comum, graduado na materialidade, perceber, e ainda menos compreender, esse outro mundo, muito mais real que o nosso, sem o qual o nosso simplesmente não existiria. Todavia, o Homem participa na realidade desses dois mundos, porque possui uma dupla natureza. Uma terrestre, material, temporal, mortal, e a outra celeste, espiritual, intemporal e imortal. Com a “Queda”, o Homem esqueceu a sua natureza divina e chegou ao ponto de crer que só a sua natureza terrestre existe. A via espiritual não mais é que o conjunto de meios que permite ao Homem operar o reconhecimento da sua natureza primeira.

A Iniciação, cerimônia eminentemente simbólica, visa provocar no candidato uma ruptura da representação condicionada e egóica do mundo para lhe abrir um acesso ao Real, ao espaço de liberdade da sua natureza plena. A natureza deste trabalho, uma profunda metanoia reflexiva – até porque o iniciado é confrontado com os caracteres da vida e da morte -, é levar ao questionamento mais profundo do “Quem sou eu?”. Serei este corpo? Serei o meu espírito ou a minha alma? Ou, ainda, serei a minha personalidade? A natureza humana é complexa e é evidente que o Homem não é o que ele pensa. Interpretamos vários papéis no teatro da vida e rapidamente nos identificamos com eles, que constituem, no seu conjunto, aquilo que classificamos como “pessoa”, a personalidade ou o nosso eu. Esta “mentalização” do mundo e de nós próprios tem pesadas consequências, sendo responsável, desde logo, pela criação da noção de tempo, tão fundamental na nossa época. É curioso notar que a noção de tempo evoluiu com a própria evolução da história e a natureza sociológica do homem e nunca, como hoje, essa noção foi tão premente e acelerada. Contudo, outra das fabricações da mente foi a elaboração do eu, que, de fato, não passa de uma ficção, de um fantasma. A ideia que temos de nós próprios é uma construção mental, uma inacreditável mistura de instintos, de condicionantes da nossa educação, das nossas experiências, da influência da sociedade, de sentimentos, de emoções, de pulsões mais ou menos controladas e de recordações acumuladas, às quais damos sentido através de uma narrativa. No quadro dessa artificialidade, o Eu pode tornar-se cambiante, turvo e dividido.

Como atrás referido, o que somos hoje é diferente do que fomos há 30 anos, 20 ou 10 anos atrás. Temos, todavia, a sensação de sermos sempre os mesmos. Essa sensação é sólida? Uma observação atenta permite compreender que não temos apenas um eu variável, mas antes uma multitude de “eus”, que muitas vezes, se opõem, se contrariam ou negoceiam mutuamente. Muito do nosso tempo é usado a gerir as nossas contradições e as nossas incoerências para as tornar suportáveis. Isto não seria dramático se, de maneira inconsciente, mas muito vibrante, não sentíssemos que o nosso “eu” é frágil, fragmentado, dividido, instável, e se não sentíssemos então a necessidade imperiosa de o afirmarmos, a fim de mantermos, a todo o custo, o que pensamos ser o “eu”. É esta identificação com o “eu” e a necessidade de manter essa falsa identidade que causam as manifestações mágicas do ego que afetam a vida de todos os seres humanos em graus diversos. Note-se que o medo de ver esse “eu” desaparecer torna a perspectiva da morte particularmente angustiante.

Em todos os Mistérios se congregou a ideia de uma alma espiritual no homem e uma vida para além da morte. Nesse conceito a alma seria preexistente, habitando num espaço astral, num mundo superior dos deuses e dos espíritos. Por ser uma visão tão subjetiva, a imortalidade da alma não se ajusta à visão prática da ciência e da sua evolução, ainda que a física quântica, no último quartel do século XX e entrada no século XXI tenha vindo a redefinir a questão. Ainda assim, milhões de pessoas testemunham o privilégio de terem vislumbrado uma realidade que abrange espaço e tempo como uma vasta bolha multidimensional. Algumas dessas pessoas parecem ter contactado este reino atemporal através de experiências próximas da morte. Outros, como Einstein, experimentaram episódios de completa libertação das fronteiras do espaço-tempo, através dum processo de ampla lucidez:

“Em tais momentos imagina-se que se está de pé em qualquer ponto desde pequeno planeta apreciando, deslumbrado, a fria e, mesmo assim, profundamente comovente beleza do eterno, do imperscrutável. Vida e morte fluem numa coisa só e não há evolução nem eternidade, apenas Ser.”

O medo da morte marca muito mais as nossas vidas do que as nossas mentes conscientes estão dispostas a admitir. Conforme escreveu David Viscott:

“Quando se diz que se tem medo da morte, na verdade está-se a dizer que se tem medo de não ter vivido a sua verdadeira vida. Este medo cobre o mundo de silencioso sofrimento.”

Na realidade, a morte não é força toda-poderosa que o nosso medo diz que é. Na natureza, a morte faz parte do ciclo maior do nascimento e da renovação. O ciclo interminável da renovação da vida não se situa além da morte – ela incorpora a morte, usando-a para um objetivo maior. Presumir que a morte existe é, de igual modo, uma meia verdade, pois há muitos níveis do nosso corpo que nem tomam conhecimento de algo designado como extinção. Os nossos átomos têm bilhões de anos de idade e ainda restam neles outros bilhões de anos de vida. Sabiamente, dizia Shakespeare:

“Nós somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos”.

Sim, como “afirmara” já o grande poeta inglês do século XVI, os átomos não passam de energia transformada, e se somos compostos por estes ingredientes imortais, porque não nos vemos à mesma Luz?

Também a morte – esta simbólica -, opera no processo iniciático maçônico uma tradição primordial. Quer no processo iniciático quer no processo de exaltação, a morte, nas suas várias interpretações alegóricas, é tida como um fator impressivo de aprendizagem. Como afirmou Fernando Schwarz:

“A morte é um valor essencial, e os valores morte e iniciação são interativos”.

A morte física acaba por ser assimilada a um rito de passagem a uma condição superior. Não podemos transformar o neófito num homem superior sem “matar” o homem inferior que nele existe. Esta, mais que a morte física, representa a morte do Ego. Não se trata de uma morte efetiva, mas sim de um processo de apaziguamento do nosso homem-animal, do aniquilamento possível dos nossos mecanismos egoístas. A morte é assim encarada como um processo de renascimento, de evolução do homem dentro do homem. A morte não é um fim, é sim um recomeço. A maçonaria transmite esse conhecimento imemorial que, para se renascer, física e simbolicamente, é preciso “morrer” primeiro. Esta, na sua conceção deísta-teísta, concebe a imortalidade da alma humana e crê – como via espiritual – na regeneração (em vida) do Homem. A vincada alegoria da morte no simbolismo maçônico é uma mensagem vivente de fé na imortalidade do Ser. Não de uma fé cega e dogmática, mas de uma fé prenhe de saber espiritual e racional. O mundo é vibração. O pensamento é energia. Tudo vibra na compleição da existência e a morte – estado vibratório pretensamente nulo-, só pode ser concebida como estado transitivo, porque tudo no universo “vive”. Mesmo a morte, por artificio poético, estético ou literário, só pode ser concebida como a antecâmara de mais vida, de mais sonho e de maior imaginação. O que existirá para além da morte? O que é a morte? Qual o sentido da morte? Há um eu na compleição da morte? Relatos de quase morte evidenciam esse plano ascensional como centro observatório. Será a morte a matéria inefável reveladora da consciência, dessa individualidade única forjada no momento da Iniciação final?

Autor: [Giordano Bruno], M∴M∴

Fonte: Academia.edu

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O silêncio em Loja ou o silêncio do discurso?

Introdução

Uma das questões que sempre me chamou a atenção dentro das lojas ou Obediências é a regra de silêncio imposta aos Aprendizes, e que tanto me faz lembrar muito dos meus dias de noviciado, e eu já digo que não estou valorizando o silêncio, seus efeitos e as orientações dadas na interpretação do Ritual.

Podemos ver esta regra do silêncio nas colunas do Norte em várias versões, por um lado, o silêncio imposto diretamente, sem outra possibilidade de poder falar, exceto pela boca do tutor das referidas colunas (2º Vigilante), uma vez que se assume que 

“O silêncio é o prelúdio da abertura à revelação.”

Outra versão é uma abordagem de natureza mais formativa em que: 

“A disciplina do silêncio é um dos ensinamentos fundamentais da Maçonaria. Quem fala muito, pensa pouco, leviana e superficialmente.” 

Geralmente, também quem se alinha nesta corrente proíbe aos aprendizes poderem falar.

Então haveria outra versão talvez mais perigosa que é quando não se regulamenta o tema do silêncio dos aprendizes e ele passa a ser colocado sob a vontade ad libitum, em função de situações e até mesmo de maçons.

Não devemos nos esquecer de que transversalmente ao silêncio dos Aprendizes, outros temas como sigilo, discrição etc … também são definidos, o que nos levaria através de outros corredores conceituais longos, e aqui estou interessado em desenvolver de onde nasce ou parte e como se desenvolve a questão de deixar ou não os Aprendizes falarem em loja.

Pessoalmente, não é um assunto que me preocupa enquanto Mestre, mas sim como formador, embora não tenha sofrido muito com a questão do silêncio que muitas vezes é imposto aos Aprendizes, já que, tanto nas lojas em que trabalhei, tais como Gran Atanor, quanto em Amigos da Natureza e Humanidade (GLSE), essa não era uma regra fixa, e era aplicada mais do que qualquer outra coisa naquelas situações estranhas para impor sobre o resto, se recorria a instalar o silêncio aos Aprendizes de forma oportuna, constituindo assim uma segunda classe de maçons.

E nem na Loja Rosario de Acuña (GOdF) é um tema que seja imposto, embora o que seja como um tema ad libitum cria certos desequilíbrios.

Em todo caso, esse silêncio imposto cria uma distinção quase esmagadora e avassaladora, porque se tem a sensação de que, se o conceito não é claro e incluído no Regulamento Geral ou Particular da Obediência ou da Loja, então fica essa mesma sensação que se produz no eterno debate profano de querer mudar a lei eleitoral, quando se obtêm votos negativos …, pois aqui é a mesma coisa.

Frustração

Essa arbitrariedade não deixa de produzir na dinâmica da loja coisas curiosas e até paradoxais, tais como optar pela liberdade de expressão para algumas questões e depois fecha-la de novo, ou envolver os Aprendizes e não lhes fornecer as informações em jogo, ou a desculpa de seu grau e desconhecimento da Maçonaria, ou de não atrapalhar seu trabalho e desenvolvimento maçônico que nos leva ao duplo jogo do silêncio e do silêncio do discurso.

Esta não é uma questão menor, e é a fonte de muitos conflitos, talvez não sua aplicação férrea, mas quando permanece nessa discricionariedade que dá origem a muitas arbitrariedades. A este respeito, estou ciente de um caso sintomático em que se pede uma participação ativa em um tema controverso e complexo aos Aprendizes para posicionar a loja em uma determinada questão; e meses depois quando chega uma documentação sobre o assunto votado e vinda da Obediência, diz-se que não deveria ser filtrada aos Aprendizes, deixando nas mãos do VM, a administração da informação sob o critério tangencial de não perturbar esse silêncio ou a concentração maçônica exigida por todo Aprendiz Maçom que, curiosamente, esteve envolvido em todas as dinâmicas anteriores. Quantas vezes isso aconteceu conosco?

Cada vez que avanço no aprofundamento do desenvolvimento deste tema, mais me lembro da imposição do silêncio em formas eclesiásticas, com essa caracterização tão própria de manipular o silêncio de acordo com as necessidades e paradoxos do sistema, o que se aproxima de certo totalitarismo perverso na forma e muito usado dependendo dos jogos de poder que são desenvolvidos, neste caso em loja, porque o tema normalmente não vai em frente até que sejam necessários votos.

E, claro, não ignorando os benefícios do silêncio, não posso negar que às vezes passou de um tema de comportamento em loja um tema pseudo-regulativo e até mesmo cerceador do discurso em alguns de seus aspectos.

As fontes

Por preocupar-se tanto com essas questões de silêncio e por comprovar de onde poderia vir essa presumível regra de silêncio em loja, pedi a meu bom amigo e irmão Joaquín Villalta, que me ilustrasse em função de rastreamento dos rituais que usamos.

Na Constituição de Anderson de 1723 (3), art.  VI: 1) Do comportamento dos Irmãos em Loja Aberta:

“Você não deve ter uma reunião privada ou conversa separada sem a autorização do Mestre, ou dizer qualquer coisa irrelevante ou não apropriada, ou interromper o Mestre ou os Vigilantes ou qualquer Irmão que esteja se dirigindo ao Mestre.”

Mas nada fala em impor silêncio aos Aprendizes.

O resultado dessa busca em outros catecismos, como  o Sceau Rompu, aparece o tema do silêncio, mas mais como um tópico de observação da conduta de âmbito geral da qualidade maçônica.

  1. O que deve observar um bom Maçom?
  2. Quatro coisas: o Silêncio, o Segredo, a Prudência, & a Caridade em relação a seus Irmãos.

E aqui está o mencionado catecismo.  Quando, por exemplo, recorremos a outra fonte, neste caso dos “modernos”, o Luquet. Este nos diz o seguinte:

..os deveres para com os Aprendizes?

  1. Ajudar os Comp.’. , obedecer aos mestres, trabalhar com assiduidade e guardar o silêncio.

Outro ritual como  o Marquês de Gages, não indica nada em particular, digamos que o silêncio está presente em muitas partes do cerimonial ritualístico, mas não parece fazer parte de um regulamento no uso da palavra.

No catecismo do Duque de Chartres, vemos que se reproduz de forma idêntica o Luquet, o que não nos leva a pensar que esse poderia ter sido sua fonte)

  1. Quais são os deveres de um Apr.’. ?
  2. Ajudar os Comp.’., trabalhar assiduamente e guardar o silêncio.

No Regulação de 1801 , que é nossa fonte de trabalho ritual por excelência, não indica nada de um trabalho restritivo dependendo do grau, exceto com a ideia de criar uma situação de expectativa no ritual. Portanto, nenhuma recomendação sobre “necessidade de silêncio“, isso sim, reconhece a introspecção como um instrumento de perfeição moral, sem no entanto especificar em que sentido essa introspecção deve ser praticada:

“A pedra bruta é a imagem do homem rude e selvagem que o profundo estudo de si só pode polir e tornar perfeito ”

Tentando encontrar fontes mais próximas que pudessem me orientar quanto à presença do silêncio em loja, vejo que parece vir de uma tradição mais propensa à “ala dogmática”, tal como recolhemos da legenda trinitária que a Grande Loja da Inglaterra adotou de “Ouvir, ver e calar” que, a propósito, não está muito em sintonia com a praxis da ala liberal maçônica.

Quem parece dar a pista para esta questão controversa, é alguém que tem sido parte da instrução e formação da maçonaria espanhola, uma vez que não foi possível acessar outros catecismos e documentos de instrução, ocorrendo paradoxos de ainda termos um Aprendiz ou um Mestre Maçom lendo e estudando textos de origem dogmática sem questionar suas procedências ou sua origens, ou a possível coerência com linha da obediência e da loja na qual se situa o maçom.

Por isso, observamos as mais estranhas misturas de escolas e doutrinas e se entenda tudo isso como parte do corpus maçônico.

Entre os textos que fazem parte da bagagem maçônica educativa espanhola estão os textos do escocista e grau 33 uruguaio, Aldo Lavagnini, que formou o conjunto “totun revolotun” que os maçons espanhóis têm em sua bagagem formadora, e cujos textos contêm essa importante mistura de escolas e orientações doutrinárias, tão assentadas na prática escocesa, e ao mesmo tempo distantes de outras escolas rituais, tal como o Rito Francês.

É o que nos diz Lavagnini em seu Manual de Aprendiz, sobre o silêncio: 

“A disciplina do silêncio é um dos ensinamentos fundamentais da Maçonaria.  Quem fala muito, pensa pouco, leve e superficialmente. Geralmente, sua visão das coisas será estreita e inflexível e, portanto, não terá elementos para valorizar novas ideias ou horizontes. Por isso, a Maçonaria busca que seus membros se tornem melhores pensadores do que oradores.”

Para justificar a presença do silêncio em loja, foram pesquisadas todas as escolas e doutrinas que inseriram a filosofia do silêncio, que vão desde os pietistas, passando por Buda e concluindo nos pitagóricos, de tal modo que se propôs uma certa etapa como método de introspecção, silenciar os sentidos, ou mesmo criar efeitos de expectativa, ou como um sistema de atitudes permanente para melhorar o trabalho de redescoberta interna, que faz parte de uma uma certa regulamentação que se torna apenas em ultima análise um roubo da palavra na loja.

As fontes que tanto nos lembram os benefícios do silêncio estão presentes nas religiões e tradições místicas, pois se considera que oferece um momento excepcional que favorece o recolhimento e a quietude espiritual necessária para a comunicação com o divino e, portanto, não é difícil observar esta diretriz naquelas famílias rituais de base cristã, como é o caso do Rito Retificado (RER), que de antemão nos indica aquilo que:

“Procurou-se ensinar com isso, que é no silêncio, no retiro e na calma dos sentidos, que o sábio se despoja de suas paixões, preconceitos e que dá passos seguros no caminho da virtude e da verdade.” (Sobre a câmara de reflexão)

E que, além disso, encontramos reforçada tal questão na instrução do Primeiro Grau do RER:

Onde fostes recebido?

– Em uma Loja justa e perfeita, onde reina a união, a paz e o silêncio.

Em alguns documentos maçônicos, inclusive do RF, alguns escritos aparecem da seguinte maneira: 

“Onde reina a União, a Paz, a Candura, o Silêncio e a Caridade, em um lugar muito iluminado, regular e santo, muito fechado e forte.”

Para fechar este capítulo vou encerrá-lo com um texto de Patrick Negrier, exposto em seu trabalho “Art Royal et Régularité”:   

“A referência explícita à prática iniciada por Pitágoras e por Sócrates, de introspecção, parece ter penetrado na Maçonaria por volta de 1746-1751 na obra “Maçom Desmascarado” onde Thom Wolson convidava o maçom a conhecer a si mesmo para desafiar-se: “Maçom, conhece a ti mesmo, coloca tua esperança em Deus.”

Outras explicações, algumas dão passagem ao discurso

Há quem extrapole esse assunto como um elemento geral essencial para o grau de Aprendiz, uma vez que ele não sabe ler nem escrever e, portanto, precisam de atitudes receptivas e criadoras de expectativas e, portanto, silenciosas, convertendo-a  por sua vez em “leis” que, como diz Valdimir Biaggi se parecem muito com a “omentá” da máfia.

Nesta pseudoescola do silêncio se embosca também Juan Carlos Daza que com seu Dicionário da Maçonaria, confirma também parte dessa bagagem que eu acho que precisa ser desmantelada, em que ele parte de que “O silêncio é o prelúdio da abertura à revelação”, para adicionar “que as lojas impõem ‘a lei do silêncio’ aos aprendizes, se não o mutismo, já que por ele falará seu tutor, o Segundo Vigilante” ; no mesmo sentido e da vertente escocista mais pura, Irene Mainguy reafirma tais teses em seu trabalho sobre o simbolismo no REAA.

Em contraste, devemos salientar que, no Regulateur, fala-se de “não devo”, talvez enfocando a prudência ou dosagem do uso da palavra nesta fase, embora sua proibição nunca apareça.

Talvez pudéssemos aventar que o silêncio na loja está mais para o campo simbolista do REAA que do Rito Francês, que é um rito mais tendente à dialética, e chegadas a este campo, o Aprendiz do Rito Francês não deve perder de vista o fato de que seu primeiro dever é aprender a levantar as questões e formulá-las, a trabalhar no domínio das ideias sem restar uma dúvida, um pouco do mundo das opiniões e convicções, uma vez que a própria caracterização da Maçonaria exige um pensamento específico e original e para isso que melhor meio que o mundo da razão que não pode permanecer em silêncio para, pelo menos, situar-se no plano do discurso.

Nesse sentido, podemos dizer que o Rito Francês deu um passo transcendental e se constitui no Rito da Razão, fugindo de paradoxos simbolistas que o ligam ao silêncio místico de uma providência que flui através de jogos de luzes, onde a coreografia simbolista desempenha um papel mais importante, onde se cabe o discurso dialético.

É por isso que quando o Rito Francês é enquadrado no Iluminismo e reivindicar a presença não do cavalheiro, mas do cidadão, como nos diz o Regulateur, o discurso é recuperado dessa maneira, pois o cidadão tem direito à palavra que além de não poder ser negada, podemos dizer que é a nova ferramenta que se apodera da loja e que vai articulá-la e projetá-la como tal.

Nesse sentido se alinham autores como Beresniak (na seção referente à seção Mestre de Harmonia) que nos dá sua visão do silêncio:

“A música é absolutamente indispensável no ritual, não somente durante cerimônias especiais, mas durante a abertura dos trabalhos ou durante a entrada na Loja. Não substitui o silêncio, já que o silêncio não existe: ela cobre os ruídos inaudíveis, os tremores internos gerados pelo que foi vivido fora do Templo. Cobre as agitações da alma e arrasta as emoções até as alturas. As emoções não geram exercícios de inteligência; mas, pelo contrário, reconfortam o espírito. A música apoia efetivamente a função do ritual de abertura dos trabalhos, uma função que consiste em favorecer um “descondicionamento” e um “recondicionamento” em direção de um modo diferente de ser. E não é por acaso que a palavra “apertura / abertura”, tão densa e bela, também constitui um termo musical. Geralmente, os termos musicais como “composição”, “execução”, “concerto”, “melodia”, “harmonia”, “gama”, “escala”, “compasso”, “tonalidade”, “atonalidade” e outros muitos nos oferecem referências precisas capazes de esclarecer as ferramentas do pensamento. Por isso, o irmão “Mestre de Harmonia” poderia, além de seu trabalho tradicional, sentir-se responsável pela missão de informar sua oficina sobre os recursos que a música pode proporcionar ao estudo sério do simbolismo.”

Para fechar este longo capítulo, que também poderia dar lugar a outras obras sobre as virtudes do silêncio em Loja, que se está programado em muitas ocasiões, e que é muito concentrado em certos estágios, propondo assim dois tipos de silêncio:

O silêncio físico que é como uma reminiscência atitudinal importada de procedimentos e/ou grupos de tipo monástico religioso e implantado na Maçonaria a partir da introdução da abordagem pitagórica e, o silêncio imposto, como estado indispensável para o processo de aprendizagem, que como diz um veterano Mestre e Venerável Mestre de uma loja como o Irmão Joaquín Villalta: 

“Tanto um como o outro têm defensores e detratores, finalmente terminando ad libitum do uso em loja. Sendo da teoria de que “É necessário em certos momentos, mas seu uso não pode ser pautado como um procedimento obrigado nem ritualmente nem atitudinalmente para os aprendizes: é preciso aprender a aquietar os sentidos, mas é preciso buscar condicionamentos (como diz Beresniak) através de processos de estímulo / linguagem fora do campo puramente racional e para isso, o sensível / auditivo é necessário.”

Sem colocar de lado que “no processo de aprendizagem, o Aprendiz. desde sua “falta de conhecimento”, ele deve ter seus momentos de “prática expressiva”, isto é, ele deve poder falar. Não existe Arte (nem mesmo a Arte Real) que não exija uma prática (bem conduzida) desde o primeiro dia. Sem esquecer um paradoxo, pois não se deve esquecer que no início do século XVIII os graus de Aprendiz e Companheiro, eras, conferidos na mesma tarde, ou seja, poderíamos nos perguntar onde estava o silêncio do Aprendiz?

Algumas propostas de regulamento de Loja

Diante dessas situações, diferentes orientações foram criadas: há Obediências, em que, de antemão, os Aprendizes não têm voz ou voto até passarem a Companheiros ou a Mestres, isso aplicando-se uma lógica cartesiana “se eles não falam eles não votam”, portanto, eles colocam os Aprendizes a salvo da possível manipulação e administração da discricionariedade dos Mestres Maçons ou Oficiais da Loja e os fluxos que poderiam ocorrer nas Oficinas.

É uma medida antidemocrática?  Pode ser que sim, mas em pleno século XXI, que se negue a condição de “ser e estar” ao cidadão, ou à pessoa, mesmo que em loja e em virtude de seu aperfeiçoamento pessoal, soa pelo menos estranho e duro.

Mas tem, em todo caso, uma virtude e é que eles sabem de antemão as regras do jogo relacional em que se move a loja e os possíveis benefícios e desvantagens do sistema.

Deixá-lo à discrição, sem que ele se recolha nos Regulamento da Oficina ou da Obediência, traz consigo questões paradoxais e discricionárias que podem resultar ainda mais antidemocráticas e tirânicas que as anteriores, já que joga com as pessoas e Irmãos em função dos interesses, não criando certas regras gerais do jogo, mas muito particulares que se aplicam ou não dependendo de critérios tais como poder, conveniência, oportunidade, etc.

No entanto, existem Obediências e Lojas que não regulam esta situação, nem criam um ambiente regulamentar especial, no qual se afirme que o silêncio não é uma regra de regulamentação e sim uma regra de comportamento individual em loja quanto ao grau de Aprendiz.

Em todo caso, esta questão na órbita do Rito Francês, eu pessoalmente acredito que tal limitação não deva estar presente, a menos que seja voluntária por parte do Aprendiz, pois se partimos de que estamos em um Rito da Razão, um rito por antonomásia dialética, libertário em relação a certos anexos pseudo-religiosos presentes em outros ritos, não deveria partir da imposição de restrições a que a palavra flua, é certo que o Aprendiz não sabe “nem escrever nem falar”, mas o exercício dessas funções é o que lhe dá, em última análise, a capacidade de se tornar um cidadão e que a loja se constitua desde o primeiro momento uma escola de razão e formação, poderia caber a ideia de que em outro século essa limitação poderia fazer sentido, dadas as abismais diferenças sociais e culturais entre Maçons, continuar sujeitando-se hoje  em pleno século XXI, a uma norma que mitiga a liberdade individual de poder falar, ou seja a expressão viva, usando para a língua de outro, não faz sentido

Tema que deixo levantado para o debate.

Autor: Victor Guerra
Traduzido por: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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O primeiro dever do Venerável Mestre é criar futuros bons Veneráveis Mestres

Instalação e posse

Nas Grandes Lojas do Estado de São Paulo (GLESP), na abertura solene  da Cerimônia de Instalação e Posse do Venerável Mestre, o dirigente roga o auxílio do Grande Arquiteto do Universo para que aquele ilustre Irmão, M.·.M.·. que foi legalmente eleito para exercer o cargo, seja dotado de sabedoria para compreender, de discernimento para julgar e de meios para executar a Sagrada Lei, para que possa guiar e governar com Retidão, Verdade e  Justiça sua Aug.·. e Resp.·. Loj.·. Simbólica.

O papel do Venerável é parecido com o do maestro de uma orquestra. Pode ensinar a teoria da música e tirar sons de um instrumento musical. Mas precisa ter a habilidade para juntar tantos músicos diferentes e fazê-los tocar a música em harmonia. Levá-los a executar a música em uníssono (no mesmo tom, ao mesmo tempo). Ele deve ser capaz de proporcionar essa habilidade ao grupo.

Preparação do eleito

O que acontece com aquele que acaba de ser eleito para dirigir sua Loja? Acreditamos como base imutável do trabalho de preparação do mesmo a valorização e apoio ao Irmão, independente do Rito praticado, uma vez que os Ritos são respeitáveis e contêm, em suas essências, a necessidade da Construção Social dos Maçons. É uma providência muito usual, às vésperas da “passagem do malhete”, o Resp.·. Ir.·. Delegado Regional promover uma reunião dos  Mestres Instaladores e dos Veneráveis Eleitos com o objetivo de eliminar dúvidas sobre a realização do ato.

O treinamento breve e superficial, onde nem sequer os interessados se apercebem da grandiosidade que significa a Cerimônia, pode ter um impacto negativo no desempenho do futuro Venerável, se esses Irmãos não tiveram apoio e acompanhamento necessário para que sejam bem sucedidos nessa tarefa de tanta responsabilidade. A Potência espera muito dos novos Veneráveis e lhes cobrará conhecimento, desembaraço, responsabilidade, eficiência e acertos. Mas os Veneráveis por seu lado, sabem das dificuldades pelas quais irão passar e têm a expectativa, a curiosidade, a vontade do acesso a uma orientação oficial preparatória, segura, através da Potência. Um têm a expectativa do outro.

Sabemos que nada mais lógico e razoável seria a existência de um compêndio elementar  destinado ao Venerável eleito, onde pudesse buscar  a técnica  de dirigir e orientar os seus liderados nos rudimentos da arte, da filosofia, da ciência e da doutrina, antes de iniciar seu Veneralato.

Missão do Venerável

Inspirar seus liderados a viverem uma vida melhor, cada um dando o melhor de si, lembrando-lhes da sua missão e dos valores que regem a vida maçônica: amor, honestidade, humildade, paciência, educação, bondade, compromisso, respeito, abnegação, perdão.

O Venerável, é o instrumento de ligação entre todos os elementos que constituem a sua Loja e os delegados do Grão-mestre. Não gerencia os Irmãos, influencia e os lidera para darem o melhor de si.

Conceitos de liderança

A maioria dos candidatos ao cargo de Venerável Mestre, tem o desejo sincero de exercer liderança da melhor forma possível. No fundo, as pessoas anseiam por uma vida significativa e satisfatória e, por isso, procuram por alguma coisa especial que faça aflorar o que eles têm de melhor. De preferência, buscam uma harmonia entre seus valores pessoais e os valores da Instituição. Uma coisa é certa: os Irmãos querem fazer parte de algo especial; de uma Loja da qual possam se orgulhar, e ao termino dos trabalhos que todos fiquem felizes porque se sentem fazendo a coisa certa.

Defendemos a tese de que a liderança não é poder e sim autoridade, conquistada com amor, dedicação e respeito pelos liderados.

Liderar significa conquistar os Irmãos, envolvê-los de forma que coloquem o coração, mente, espírito, criatividade e excelência à disposição da Loj.·. e da Ordem. É preciso fazer com que haja o máximo empenho na missão, dando tudo pelo conjunto.

Lembremos, outrossim, de que não é preciso ser Venerável da Loja para ser um líder e influenciar os Irmãos a terem mais entusiasmo, mais empenho e mais disposição – enfim, para se tornarem o melhor que podem ser.

O que define a palavra liderança é a capacidade de influenciar os Irmãos para o bem. Na verdade, na Loja todos são líderes, assumindo cada um a responsabilidade pessoal pelo sucesso da Oficina.

Limitações

Os humildes consideram sua liderança uma enorme responsabilidade e levam muito a sério a posição de confiança e os Irmãos a ele confiados. O Venerável sabe que os Irmãos vão cometer erros. Os VVig.·., o Orador, o M.·. de CCer.·., o Secretário e outros – muitas vezes, vão decepcioná-lo, vão magoá-lo, não se esforçarão como ele acha que deveriam e alguns não reagirão aos seus esforços. Por isso, aceitam as limitações nos outros e tem uma enorme capacidade de tolerar a imperfeição.

Autêntico, ele não posa de sábio, está sempre disponível e, de certa forma, vulnerável, porque tem sempre seu ego sob controle e não se baseia em ilusões de conhecimento por “iluminismo do Alto”, de grandeza, acreditando que é indispensável para a Instituição. Sabe muito bem que “os cemitérios estão repletos de pessoas indispensáveis”.

Seguro de suas forças e limitações, o Venerável humilde está consciente de que só com a ajuda de todos será capaz de manter as coisas em sua devida perspectiva.

Os menos humildes, não devem ficar ressentidos com as coisas que machucam e desapontam. Devem lembrar-se de que qualquer um pode liderar pessoas perfeitas – se elas existem – o que não devem esquecer jamais os que optam por liderar é que devem servir: “quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo” (Jesus Cristo).

Muitos dos que assumem a liderança de sua Loja, enganam-se achando que é sua vez de serem servidos, agora que se tornaram líderes. A todo verdadeiro Maçom cabe tal responsabilidade: “deve servir nunca se servir”.

Responsabilidade

O Mestre Instalado vai se apropriando de ideias dentro de si, interpenetrando a fusão de culturas, tradições, sentimentos, em estilo cultural comum, cabedal de conhecimentos adquiridos ao longo do tempo e burilados durante a sua presença à frente dos cargos que desempenhou na Loja, conhecimentos esses que deverá necessariamente ser posto de forma total  “em pé e à ordem” da Sublime Instituição.

Conflitos

Obviamente, uma Loja Maçônica não é um lugar sem conflitos. Afinal, quando duas ou mais pessoas se reúnem para um propósito, uma coisa é certa, haverá conflito (especialmente se a Loja for saudável). O interessante é usar a inteligência para encontrar o caminho da comunicação entre os Irmãos e  transformar a Loja num local onde os conflitos são solucionados e os participantes aprendam a não evitar divergências – mas a ter respeito, a escutar, a ser assertivos uns com os outros, a ser aberto a novos desafios, a valorizar a diversidade que existe em qualquer equipe saudável.

NÃO àquelas alianças destrutivas entre dois ou mais Irmãos que preferem falar dos outros (panelinhas), em vez de levantarem o problema para toda a Loja, a fim de que se encontre uma solução. NÃO aos integrantes dessas “panelinhas” que não têm a coragem moral de fazer a coisa certa em momentos de desafio e controvérsia.

Os Irmãos Jubelos existem sempre, são justamente os veículos necessários, como Pedro e Judas o foram para Jesus. Um o traiu antes da morte; o outro, O negou em vida por três vezes.

Simbolizam os três assassinos as expressões da nossa natureza material, os que fazem oposição aos nossos bons sentimentos; os assassinos podem ter outros nomes: Ignorância, Fanatismo e Ambição.

Essas fases negativas poderão ser, com o auxílio de nossos Mestres, transformadas em Sabedoria, Tolerância e Amor.

Disciplina é uma palavra cuja raiz vem de discípulo, que é aquele que recebe ensinamento ou treinamento.

Lembrem-se de que disciplinar não é punir e humilhar os Irmãos. O objetivo é levá-los para o caminho certo, ajudando-os a se tornarem melhores, a vencer e ser bem-sucedidos e que respeito não é algo que se ganha quando se torna Ven.·. O respeito assim como o reconhecimento é conquistado pouco a pouco e exige que as partes renunciem interesses pessoais pelo bem maior, para que o todo se torne maior do que a soma de suas partes. Isso nos ensinou o Mestre dos Mestres: “quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva”; “e quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo” Qualquer um que queira ser um líder deve primeiro ser o servidor.  Servir uns aos outros, conforme o dom que recebeu.

Venerável Mestre, Deus  em sua infinita sabedoria, o colocou como dirigente de sua Loja, lugar onde pode aprender com eficiência e servir melhor.  Hoje o imaginei recitando a magnífica Oração de Amor de São Francisco de Assis, adaptada para nossos dias:

 “Ó Senhor, fazei de mim instrumento de tua paz:
Onde há ódio, faze que eu leve Amor e uma palavra de união;
onde há ofensa que eu leve o Perdão;
onde há discórdia e onde tantos procuram ser servidos, que eu leve a alegria de servir;
onde há dúvida, que eu leve a Fé;
onde há erro, que eu leve a Verdade;
onde tantos fecham a mão para bater, que eu abra meu coração para acolher;
onde há desespero porque a vida perdeu o sentido, que eu leve o sentido de viver, que eu leve a Esperança;
onde tantos sofrem a solidão que faz morrer, que eu seja o amigo que faz viver;
onde há tristeza, que eu leve a Alegria;
onde há trevas, que eu leve a Luz.

Ó Mestre faze que eu procure menos ser consolado do que consolar;
ser compreendido do que compreender;
ser amado do que amar;
onde tantos adoram a máquina, que eu saiba venerar o homem;
onde tantos endeusam a técnica, que eu saiba humanizar a pessoa;
onde tantos pedem o pão, que eu saiba ensinar a plantar o trigo;
onde tantos estão distantes, que eu seja  sempre presente.

Porquanto – é dando que se recebe;
é perdoando que se é perdoado;
e onde tantos morrem na matéria que passa que eu viva no espírito que fica;
pois, é morrendo que se ressuscita para a vida eterna.
Onde tantos olham para a Terra, que eu saiba olhar para o Céu.”

Ao passar o cargo

Finalmente, se na Palavra sobre o ato realizado, algum Ir.·. pedir a palavra e quiser falar sobre a mais elevada distinção de reconhecimento que um obreiro pode almejar de sua Loja, que não fale por muito tempo.

Digam para não mencionar carreira da vida profana ou maçônica – isso não é importante. Falem que um dia foi plantado uma semente, minúscula, e que nasceu a plantinha que ajudamos a adubar, a regar, a podar esta pequena árvore cresceu, floriu, deu frutos e hoje nossa Loja com nome, número, Carta Constitutiva Definitiva, Estandarte e Hino no qual se enaltece a glória de Deus, do Patrono e da história da Loja.

Digam para não mencionarem Iniciações, Elevações, Exaltações ou Filiações realizadas, pois essas fazem parte das atividades normais de uma Oficina.

Façam sim, referência ao nosso denodo para ajudar os outros. Que tentamos amar qualquer um e a todos os Obreiros.  Que procuramos ser justos.

Digam que não mencionem o sucesso que a Loja teve no equilíbrio das finanças, no trabalho sem igual da Secretaria, nas atividades da Chancelaria, isso não é importante.

Falem do esforço em arrecadar o possível para que nossa Hospitalaria pudesse apoiar as Associações que alimentam os moradores de rua, os que têm fome, que vestem os nus. Lembrem que acompanhamos os Irmãozinhos e familiares em suas enfermidades.

Concluindo

Ensinando, pesquisando, conversando, trazendo novas ideias à baila, mas principalmente revelando, em todos os momentos e ocasiões, o extremo dinamismo e amor à Ordem, que devem caracterizar aqueles que, um dia, tiveram a honra de ocupar o Trono de Salomão. Certo é que todos deixam sua marca na equipe – a única questão é o tipo de marca que cada um quer deixar.

E quando, por fim, formos atingidos pela foice da noite, nosso espírito poderá erguer seu voo de fronte altiva e satisfeito conosco mesmo, chegar aos pés do Redentor, cobrindo as marcas de nossos pés cansados, de mãos vazias, mais calejadas por termos legado à Humanidade a dádiva de uma existência que comoverá pela tenacidade, beleza, grandeza e pela abnegação que procuramos servir nossos Irmãos, nossa Loja e a Humanidade…

Autor: Valdemar Sansão

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O Orgulho, a Vaidade e a Ira no “Meio Maçônico”

O PECADO é uma atitude humana contrária às leis divinas tendo sido definido pela Igreja Católica, no final do século VI, durante o papado de Gregório Magno que anunciou para o mundo profano, os sete pecados capitais provenientes da natureza humana: avareza, gula, ira, luxúria, preguiça, soberba e vaidade.

Posteriormente, no século XIII, foram definitivamente incorporados e firmados pelo teólogo São Thomás de Aquino. Por questões práticas, no sentido de alcançar o nosso objetivo relativamente ao tema destacado, trataremos apenas dos três pecados capitais que permeiam com maior realce no nosso meio.

Neste sentido, necessário se faz que definamos cada pecado ou pelo menos identifiquemos suas principais características. Usamos o termo meio maçônico, entre aspas, no título deste artigo para destacar o antagonismo existente entre a postura que deve ser adotada nesse meio e os pecados capitais ou vícios de conduta citados, os quais, infelizmente, os percebemos.

Um dos sete pecados capitais que se manifesta nas pessoas na forma de ORGULHO e ARROGÂNCIA é a SOBERBA, termo que provém do latim –  superbia, é um sentimento negativo caracterizado pela pretensão de superioridade sobre as demais pessoas, levando à manifestações ostensivas de arrogância, por vezes sem fundamento algum em fatos ou variáveis reais.

As manifestações de soberba podem ser demostradas de forma individual ou em grupo. Nos casos de grupos, escolhidos ou eleitos, se firma na crença de que é superior.

A manipulação da soberba, do orgulho e da pretensão de superioridade de um grupo pode mobilizar conflitos sociais, onde os sentimentos de uma massa humana pouco crítica servem aos interesses políticos, econômicos, ideológicos de seu líder.

O soberbo quer superar sempre os outros, mas quando é superado, logo se deixa dominar pela inveja. Quando se sente ameaçado, atingido, procura depreciar os outros e vangloriar-se, sem que para isso se estruture para se superar ou até fazer uma avaliação da vida, dando-se em determinado momento por satisfeito.

O soberbo produz desarmonia na sociedade como estratégia para manter a soberba e se colocar sempre em evidência. A sociedade se tornando harmônica, com todos os indivíduos sendo e vivendo de maneira igual, liberta e fraterna, não propiciará espaço para a soberba.

Agindo com humildade se consegue combater a soberba nas suas mais diversas formas, evitando a ostentação, contendo as vaidades e fazendo com que o soberbo olhe o mundo não apenas a partir de si, mas principalmente ao redor de si.

O orgulho como uma das formas de manifestação da soberba se traduz pela satisfação incondicional do soberbo ou quando seus  próprios valores são superestimados, acreditando ser melhor ou mais importante do que os outros, demostrando vaidade e ostentação que em limite extremo transforma-se em arrogância.

A arrogância é uma outra forma de manifestação da soberba. É o sentimento que caracteriza a falta de humildade. É comum conotar a pessoa que apresenta este sentimento como alguém que não deseja ouvir os outros, aprender algo de que não saiba ou sentir-se ao mesmo nível do seu próximo.

O orgulho excessivo e a vaidade sem limites que se traduz na arrogância,  se mostra na forma de luta pelo poder econômico, pela posição social e pela perpetuação no poder.

Quando chega a ocupar cargo eletivo ou de nomeação busca impressionar os incautos, realçando o despotismo que trata  os súditos como escravos.

Diferentemente da ditadura ou da tirania, o despotismo não depende de o governante ter condições de se sobrepor ao povo, mas sim de o povo não ter condições de se expressar e autogovernar, deixando o poder nas mãos de apenas um, por medo e/ou por não saber o que fazer.

No Despotismo, segundo Montesquieu, apenas um só governa. É como não houvesse leis e  regras, arrebata tudo sob a sua vontade e seu capricho.

A VAIDADE humana, como um dos sete pecados capitais, se manifesta nas pessoas pela preocupação excessiva com o aspecto físico para conquistar a admiração dos outros, pela posição social que busca ocupar na sociedade ou através de ocupação de cargos.

Uma pessoa vaidosa pode ser gananciosa, por querer obter algo valioso, mas é só para promover ostentação perante os outros.

Um ser humano invejoso, por sua vez, identifica com bastante facilidade um ser humano vaidoso, pois os dois vícios se complementam, um é objeto do outro.

Nos Ensaios de Montaigne há um capítulo sobre vaidade. Um escritor brasileiro, Flávio Gikovate, tem se dedicado a analisar a influência da vaidade na vida das pessoas e seus impactos na sociedade.

Uma das abordagens da vaidade na literatura é feita por Oscar Wilde no livro “O Retrato de Dorian Gray”, onde o principal tema é a vaidade do personagem Dorian, onde o jovem é ao mesmo tempo velho, e o velho é ao mesmo tempo novo.

Por fim, trataremos da IRA como pecado capital.

A ira é uma atitude que às pessoas manifestam pelo sentimento de vingança, de ódio, de raiva contra seus semelhantes ou às vezes até contra objetos.

É uma emoção negativa que aniquila a capacidade de pensar e de resolver os problemas que a originam.

Sempre que projetamos a ira a outro ser humano, produz-se a derrubada de nossa própria imagem e isto nunca é conveniente no mundo das inter-relações.

A ira combina-se com o orgulho, com a presunção e até com a autossuficiência. A frustração, o medo, a dúvida e a culpa originam os processos da ira. A ira humana facilmente se torna pecaminosa.

Quando começamos a defender nosso Ego, quando atacamos alguém ao invés de atacar o erro dele, quando a chama da ira é alimentada, ela se torna um fogo que destrói.

Feitas as devidas considerações sobre o conjunto de alguns vícios da conduta humana ou pecados capitais, vamos nos transportar para o meio maçônico e estabelecer uma relação de homomorfismo para que possamos fazer uma reflexão sobre algumas práticas que constatamos no nosso cotidiano.

O comportamento de um maçom, segundo os ditames da nossa Sublime Ordem, deve ser irreparável.

Não se deve, nem se pode, adotar ação alguma que realce soberba, vaidade e ira, sobretudo quando essa ação é praticada por irmão que é autoridade maçônica, que ocupa cargo maçônico eletivo ou de nomeação.

Em caso de comportamento ou ação que comprometem a imagem da nossa ordem e atentam contra os postulados universais da Maçonaria.

Deve seu autor ser alertado por qualquer irmão que perceba o desvirtuamento no sentido de que o mesmo possa proceder a correção do seu comportamento ou ação.

O Irmão alertado deve receber a observação de forma natural entendendo que o irmão que o alertou o fez no sentido de promover a sua melhoria, o seu crescimento.

Nunca deve reagir com ira.

A excelência da Maçonaria se ergue sobre o suporte da Fraternidade e não do Ódio.

O irmão deve ter humildade suficiente para compreender o reparo. Não deve ser soberbo nem vaidoso e receber a crítica como construtiva, principalmente pelo fato de ocupar cargo maçônico.

Não há demérito para a autoridade maçônica quando é alertada por um irmão hierarquicamente inferior. Em primeiro lugar está o irmão maçom não a autoridade maçônica.

O Maçom tem por dever cavar masmorras aos vícios em todas as suas formas, inclusive aos vícios de conduta aqui anunciados, pois assim, estará levantando templos às virtudes e, por conseguinte, fazendo novos progressos.

As atitudes que expressam, com clareza, esses pecados capitais, esses sentimentos pífios e inconsequentes, que levam ao desânimo àqueles maçons que podem afirmar com toda propriedade “MEUS IRMÃOS COMO TAL ME RECONHECEM”, devem ser banidas do nosso meio.

As autoridades Maçônicas constituídas têm que asseverar a hierarquia sim, mas não cometer excessos.

Tem que conhecer, e conhecer bem a disciplina.

A disciplina e a hierarquia são sustentáculos da Maçonaria, logo, o verdadeiro Maçom deve ser um homem disciplinado e que respeita a hierarquia.

O  Maçom disciplinado é instruído, não é propenso a soberba, nem a vaidade e nem a ira.

O Maçom não tem orgulho, tem honra. O Maçom não tem vaidade, tem felicidade. O Maçom não tem ira, tem irresignação.

A disciplina se constitui de um conjunto de ações planejadas e coordenadas que obedecem regras, leis.

Portanto, para exercitar a disciplina precisamos nos deter aos ensinamentos maçônicos contidos na Prancheta de Traçar, na régua de 24 polegadas, no esquadro e no compasso.

Não podemos agir de forma desordenada, indisciplinada e exigirmos que os outros façam de forma diferente. Os nossos atos falam mais do que as nossas próprias palavras.

A Pior coisa que existe é o Maçom dar um bom conselho e em seguida um mal exemplo.

Valendo-me das sábias palavras do meu pranteado pai, que dizia: “meu filho se você quiser saber quem é a pessoa, não preste atenção o que ela diz, preste atenção o que ela faz”, pelo direito hereditário que me assiste, vou plagiar a máxima do meu velho e dizer: “meus irmãos se quiseres saber quem é o maçom, não preste atenção ao que ele diz e escreve, preste atenção ao que ele faz”.

O verdadeiro maçom se faz ser reconhecido, não pelas suas palavras, mas sim, pelos seus atos.

A maior autoridade é o exemplo. Quando recebemos críticas, sobretudo críticas construtivas, precisamos ser disciplinados para ouvi-las, processá-las, fazer uma autoavaliação e uma reflexão para melhorar nossos procedimentos, adequando-os as regras do bom convívio.

Precisamos dar bons exemplos, principalmente, para Aprendizes e Companheiros, eles precisam de bons ensinamentos, eles precisam serem bem instruídos, eles precisam de referência para defenderem a nossa Sublime Instituição.

Um Maçom disciplinado, instruído, é um maçom humilde, dedicado, útil, competente nos Augustos Mistérios.

Não é soberbo, não tem vaidade e não tem ira.

Nunca oportunista e inconsequente, nunca com comportamento de desrespeito aos Irmãos e aos nossos Templos Sagrados. Temos que fazer de nossos Templos, além do natural relicário da Fraternidade, centros operativos de Cultura e Civismo, na sustentação dos supremos fins de Liberdade, Justiça e Paz.

Um Maçom disciplinado, instruído, dificilmente será manipulado para se tornar massa de manobra e se deixar levar por ofertas de medalhas, títulos, cargos e elogios.

Um Maçom disciplinado e instruído ao ocupar cargos maçônicos jamais se transformará em um déspota.

Um Maçom disciplinado respeita às autoridades constituídas e os seus irmãos outros por entender, na essência, o estado democrático de direito, a importância administrativa e política desses cargos e o papel de cada um desses irmãos no processo de democratização da sociedade.

O maçom disciplinado entende que a livre expressão do pensamento como direito fundamental do homem em qualquer seguimento da sociedade moderna, sobretudo em uma sociedade maçônica, deve ser exercido na sua plenitude para transformação da sociedade na busca de melhores dias.

Um maçom disciplinado e instruído ver na autoridade maçônica, primeiro um irmão, não um superior hierárquico, e por este fato, exige comportamento maçônico deste.

As autoridades constituídas, mais que os demais irmãos maçons que não ocupam cargos, tem por obrigação dar bons exemplos.

A hierarquia e a disciplina, sobretudo a disciplina, têm levado a nossa Sublime Ordem a obter a confiança e o respeito da sociedade em todo orbi terrestre, contudo, é necessário que se saiba que de quando em vez nos deparamos com alguns irmãos que atropelam os limites e passam a claudicar no exercício do seu desiderato, promovendo a desarmonia, provocando a discórdia e, consequentemente, gerando a indisciplina.

O maçom pode e deve discordar de uma autoridade maçônica constituída quando esta não desempenha o seu cargo com dignidade, probidade, humildade e competência.

Logicamente, é ´preciso que seja feito dentro dos padrões de civilidade e de urbanidade, sem ira, com contestações fundamentadas e nunca levianas, uma contestação responsável que exija dessa autoridade o fiel cumprimento dos encargos que o cargo lhe impõe por estrita obrigação do dever.

O respeito à hierarquia deve acontecer visando servir à instituição e não à pessoas.

A nossa capacidade de opinar sobre a vida política e administrativa da nossa Obediência obtém maior expressividade no ato do voto, que é secreto, quando elegemos nossos representantes, quando elegemos um irmão para um cargo maçônico.

Lamentamos que os membros dos tribunais maçônicos, ainda, não sejam eleitos pelo povo maçônico.

ORGULHO, VAIDADE e IRA, essa trilogia não é nossa. Precisamos bani-la do nosso meio. Só depende de você, só depende de nós.

Autor: Otacílio Batista de Almeida Filho

*Mestre Instalado, membro da ARLS Obreiros da Justiça n.º 3209, Oriente de Campina Grande – PB

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Maçonaria e Filosofia – O ensaio de um adeus

“Homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses.” Sócrates 

A Maçonaria, tal como um austero templo românico, originalmente era harmoniosa. Um lugar de arte e espiritualidade, um legado de saber pouco dado a decorações supérfluas e fácil de definir no seu propósito. Contudo, os sucessivos restauros e acréscimos tornaram-na num edifício híbrido, desfigurado interiormente e adulterado no seu traçado original. Já houve uma Idade do Ouro maçônica, mas o tempo fez suceder as idades rapidamente e hoje é difícil encontrar a Luz que vinha do Oriente. 

A Maçonaria revestiu-se de muitas Maçonarias diferentes ao longo dos séculos, fazendo, nesse percurso, papel de heroína e vilã. Fundou nações, reclamou liberdades e direitos cívicos, mas procurou, de igual modo, liquidar a religião em nome do progresso. Defendeu os fracos e os aflitos, é certo, mas ajudou a manter no poder os já poderosos. A história da Maçonaria é uma história de contradições aparentemente irresolúveis, sujeita às paixões e temperamento dos próprios homens. 

Na concepção daqueles que originalmente redigiram os rituais e catecismos só havia uma Maçonaria. Tudo o que se desviava da ética, espiritual, estrutural e filosoficamente dos seus princípios fundamentais era uma fantasia criada por ignorantes da Arte Real. Efetivamente ao Maçom exigia-se que soubesse responder de maneira invariável a um conjunto de questões que descreviam a sua iniciação e definiam a Ordem. Dentro destes limites fazia-se Maçonaria. Fora deles estava o mundo profano. Hoje a Maçonaria é “plural”, feita de visões múltiplas e inconstantes nos seus princípios, estrutura e filosofia, e as perguntas e respostas de outrora já não são conhecidas da maioria dos Irmãos. As fronteiras entre o que é a Maçonaria e o mundo profano foram-se diluindo. 

Sob o mesmo nome “Maçonaria” subsistem um sem número de organizações de tendências diversas e não importa estar aqui a dissecar as inúmeras variantes conhecidas e os seus ritos mas, se nos reportarmos aos documentos antigos, verificamos claramente que existem limites simbólicos tradicionais na sua raison d’être. A Maçonaria de hoje, ao não aceitar limites, em tudo incluir, cai presa dessa enorme gula e, embora seja dita Universal, aceita negar esse mesmo Universo de onde provém. Assim sendo, o que é afinal a Maçonaria? 

Tal como todos os grandes conceitos como a Justiça e a Liberdade, a Maçonaria é uma afirmação em abstrato e outra bem diferente no plano concreto das realizações. Ali revela-se como uma sociedade iniciática, fraternal e simbólica, capaz de melhorar homens e de lhes dar uma visão de transcendência que os coloca numa posição justa e perfeita para intuírem a Verdade Universal, a essência das coisas, a Luz que sai por si mesma das trevas. Aqui está sujeita à imperfeição dos seus membros, ás suas paixões e ao seu entendimento limitado sobre o seu propósito e natureza. Cada um vive-a à sua maneira e move os limites filosóficos do que ela é realmente para os adaptar à sua estreita inaptidão humana, à dimensão do seu mundo. Os homens que não a entendem não querem crescer para abarcar a sua transcendência. Adaptam-na. Amputam-na. Reduzem-na para que caiba no bolso e se possa arrumar numa estante ou num vão de escada.  

Hoje, depois de três séculos de transformações na Maçonaria especulativa, é difícil encontrar uma definição aceitável para o que ela é. Um dos refúgios gerados pelo pensamento moderno é abordar a questão maçônica pelo lado utilitário. Não se trata apenas de saber o que é a Maçonaria, mas sim e também para que serve. É aqui, ao tentar-se ser objetivo que se perde a objetividade de entender que a Maçonaria é uma Escola Iniciática e nada mais. Sempre que procure ser outra coisa qualquer, perde simplesmente o rumo por perder a sua essência. Aliás, para a maior parte dos Maçons o conceito de Iniciação escapa totalmente à sua compreensão. A Maçonaria hoje perdeu o seu papel na sociedade porque a sociedade atual criou outras formas de fazer um seu equivalente. Por outro lado, a Maçonaria esqueceu-se do que é (uma via iniciática) e procura viver o que não é. Antes do mais, a Maçonaria não é uma sociedade filantrópica, caritativa e beneficente. Para fazer filantropia não são necessários templos, rituais, passagens de grau, nomes simbólicos, medalhas ou aventais.

Noutra perspectiva, a Maçonaria não é uma escola de doutrinamento moral e espiritual do indivíduo, porquanto a mesma não comporta uma doutrina. A Maçonaria também não é um fórum de livres-pensadores porque, para além de extravasar o quadro racional, há componentes dogmáticos de “livre pensamento” que excluem, por exemplo, o pensamento místico nas suas lojas. E será a Maçonaria um lobby? Há uma percepção pública, de índole negativa, em que a Maçonaria é tida como uma agência de interesses, um grupo de negociatas ou um areópago de decisões políticas. São conhecidas as tristes histórias de grupos de homens que se serviram do nome da Maçonaria para agirem em nome de interesses específicos e individuais pouco salutares. Os títulos de jornais chamaram-lhes Maçons, mas podiam dizer com a mesma legitimidade que eram advogados, arquitetos, membros do clube do livro ou adeptos de um determinado clube de futebol. 

Sendo a Maçonaria uma via iniciática esta implica uma transformação interior do indivíduo. A Iniciação obriga o homem a trabalhar as suas imperfeições e ambições, confrontando-o com elas. Assim, para ensinar a sabedoria e a virtude, a Maçonaria usa o véu dos símbolos. Os símbolos são, por sua vez, as regras da linguagem metafísica, do código linguístico partilhado por todos os seus estudantes. Há, assim, uma necessidade imperiosa de estudo no campo da Maçonaria. Nenhum homem se transforma se não se conhecer a si mesmo, como profetizou um dia o Oráculo de Delfos. E para se conhecer é preciso estudar! O estudo de si mesmo chama-se reflexão, o estudo do meio que nos envolve, sob o ponto de vista as grandes questões existenciais, chama-se Filosofia.

A Maçonaria aguçou em mim o profundo respeito pela Verdade. Só a Verdade é congruente. Como refere o Novo Testamento sobre o tema da Verdade: 

“Quem pratica a VERDADE, aproxima-se da Luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus.” (JOÃO 3:21)

“CONHECEREIS a verdade e a verdade vos LIBERTARÁ”. (JOÃO 8:32)

Como costumo referir algumas vezes em jeito de brincadeira, antes de ser Maçom já o era. Cruzei-me com a via maçônica, como antes escrevi outros textos, por “fatalismo” inevitável do destino. Digamos que era um acontecimento da minha vida destinado a sê-lo. Nesse propósito, a Maçonaria, para além de toda a áurea de mistério que desde sempre a envolveu na minha percepção, tinha a acompanhá-la um modelo (perfeito) de comportamento humano. E a Verdade, nesse quadrante, era para mim a sua pedra de toque. A verdadeira humildade do homem está em ser-se verdadeiro. Consigo e com os outros. Só na verdade se constroem os grandes desígnios humanos. Com o cinismo e com a hipocrisia por colunas nenhum edifício se portará à continuidade duradoura. Assim, no meu modesto entendimento, a Verdade é contígua à perfectibilidade. Individual e societária. Como determina o preceito bíblico, a Verdade aproxima-nos da Luz, de Deus, e, nenhuma instituição, pessoal ou societária, se deve desviar do seu Oriente. Como Maçom é-me imperativo dizer a Verdade, mesmo que incômoda, no seio da loja a que pertenço. O direito à crítica, desde que justa e necessária, deve prevalecer sobre as conveniências relacionais. Expresso o meu direito à crítica, nesta prancha, por entender que o caminho maçônico trilhado pela nossa Ordem não o é. Pelo menos não o é como eu o entendo. Não que tenha a fórmula e o conhecimento exatos do que é a Maçonaria justa e perfeita, mas tenho, pelo menos, a formulação e equação do seu estudo e trabalho. Tenho o direito à crítica, construtiva, por entender merecer o direito de opinar sobre o que me parece incorreto e enviesado no caminho trilhado. 

Ter Irmãos em loja que sentem que fazer Maçonaria é “fazer acontecer” em contraposição a um pretenso intelectualismo de “clube do livro”, denegando a essência filosófica da obra maçônica, não é, no meu entendimento, conhecer da verdadeira via iniciática. A Maçonaria não são as obras paramaçônicas nem os encontros de lazer (e de trabalho) entre Irmãos fora das portas do Templo. Poderão dela fazer parte como complemento, natural e afetivo, de uma relação de fraternidade. Não são a prioridade! E não o são para os Maçons que têm da Maçonaria porventura uma visão, se quiserem, mais “filosófica”! Há espaço para todos na Maçonaria, mas dentro da Maçonaria, não no reduto das nossas prioridades de estômago! Muita celeuma se levantou, durante estes tempos de pandemia, sobre a impossibilidade de se realizarem sessões maçônicas com mais de dez maçons em templo. Correto. Era de lei, da sua interpretação, e uma questão de premente salvaguarda da saúde pública. No entanto, na primeira oportunidade de se organizarem os conhecidos almoços de clube não se hesitou, por um segundo, em se equacionar sobre a moralidade/legalidade de tais atos. Se para as realizações de sessões em loja se levantaram as “armas e os barões assinalados” porque se renderam tão facilmente às seduções das ninfas de Pantagruel? 

Alguns Irmãos tomaram esta minha posição, já feita no fórum do WhatsApp, como se de um ataque pessoal se tratasse. Nada mais errado! Nada tenho contra as realizações da “maçonaria à mesa”, como as classifiquei de forma amistosa, porque sei que muita obra se produziu às mesas do restaurante do … FC, mas a pergunta subsiste: é preciso ser-se sócio do clube para nos inteirarmos das obras maçônicas da Ordem? E quem não participa dos prazeres da cabidela? 

Insisto, a Maçonaria tem o seu campo específico e os assuntos paramaçônicos devem ficar circunscritos ao espaço de quem deles quer participar. Não devem, em circunstância alguma, sobrepor-se aos vetores estritamente maçônicos. Todos os projetos culturais discutidos para a Ordem não saíram do seu juízo de intenções, da sua fátua vontade em fazê-los, do seu jogo de vaidades pueris. É isso que lamento. À mais ténue tentativa de realização dos nossos prazeres de mesa dispomo-nos prontamente aos “trabalhos maçônicos”, mas para apresentar Filosofia Maçônica, seja num simples trabalho escrito ou numa palestra pública, isso é trabalho para as calendas gregas (sempre a Grécia, maldita Filosofia!) …

Além de que não é unânime que esse seja esse o vetor e razão substancial da existência da Ordem, da obra maçônica em si. Como ficamos, afinal? Há uma essência filosófica na aspiração maçônica ou a prioridade são as realizações paramaçônicas, obras de realização física, de importância primordial na sociedade (e ainda mais nos tempos que vivemos), mas necessariamente coincidentes com as realizações de outras instituições profanas?

Este é o meu terceiro ensaio de saída. Aquilo que me motivou a voltar, das outras duas vezes em que saí, era muito mais forte que as razões para o abandono. Neste momento, quando se percebe que o livre pensamento, pedra basilar na construção do edifico maçônico, ofusca a fundação das relações pessoais, é sentido que é hora para o abandono definitivo. Não que deixe alguma vez a condição de Maçom; isso vou sê-lo eternamente. Aliás, antes de o ser já o era. Nada me demove nas minhas convicções de espírito, na minha fundação da Verdade, no meu propósito de homem e Maçom. Ser-se Maçom é ser-se livre, frontal e arrojado nas suas ideais, expressando-se as na sua clareza de espírito e no desassombro das suas convicções. A Maçonaria é uma escola de Mistérios, que leva o Homem a combater os seus vícios e exaltar as suas virtudes. A livre expressão da palavra, palavra essa pela qual tantos homens (e tantos Maçons) deram a vida para a deterem e usarem expressamente, é o cinzel do Maçom, o seu controle da vontade e a expressão visível da sua futura obra. Nenhum Maçom é Maçom sem obra feita, sem um caminho trilhado no qual outros Irmãos se revejam e nele se reconheçam como tal. Aspirar a ser-se Maçom sem um compromisso de Vontade, sem a sua expressão da Verdade e sem o seu manifesto de Virtude, é o mesmo que tentar fazer Filosofia numa gaiola de vaidades. 

Encerro este meu percurso nesta Ordem com um manifesto trinitário. Elaborei antes dois trabalhos onde concatenei a Maçonaria com a Psicologia (o Ego) e com a Literatura (a Poesia), encerro hoje com a Filosofia (como manifesto de um adeus). Para mim não existe Maçonaria sem Filosofia, porque a Maçonaria é razão e sentimento. É mente e coração. Pensar sem filosofar é esquadrinhar o vazio sem o propósito do Conhecimento. Saber sair quando as circunstâncias o impõem não é um ato de amuo, de vindicta momentânea, de afirmação dum ego pretensamente ofendido, é sim uma afirmação filosófica, um ato de amor maçônico. A Maçonaria que alguns dos meus Irmãos pretendem praticar nesta Ordem não é a minha Maçonaria, não é a Maçonaria que eu concebo por via iniciática. Por saber que posso ser eu a estar errado deixo-vos em liberdade decisória, mas também em incerteza filosófica. Do caos surgirá a ordem, hoje e sempre. 

Até sempre!

Autor: [Giordano Bruno], M∴M∴

Fonte: Academia.edu

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A Cadeira de Salomão

Denomina-se de Cadeira de Salomão a cadeira onde toma assento o Venerável Mestre da Loja quando a dirige em sessão ritual.

Em si, não tem nada de especial. É uma peça de mobiliário como outra qualquer. É como qualquer outra cadeira. Porventura (mas não necessariamente) um pouco mais elaborada, com apoio de braços, com maior riqueza na decoração, com mais cuidado nos acabamentos. Ou não…

Como quase tudo em maçonaria, a Cadeira de Salomão tem um valor essencialmente simbólico. Integra, conjuntamente, com o malhete de Venerável e a Espada Flamejante (esta apenas nos ritos que a usam), o conjunto de artefatos que simbolizam o Poder numa Loja maçônica. Ninguém, senão o Venerável Mestre, usa o malhete respetivo. Ninguém, senão ele, utiliza a Espada Flamejante. Só ele se senta na Cadeira de Salomão.

A Cadeira de Salomão destina-se, pois, tal como os outros dois artefatos referidos, a ser exclusivamente utilizada pelo detentor do Poder na Loja. Assim sendo, importante e significativo é o nome que lhe é atribuído. Não se lhe chama a Cadeira de César ou o Trono de Alexandre. Sendo um atributo do Poder, não se distingue pelo Poder. Antes se lhe atribui o nome do personagem que personifica a Sabedoria, a Prudência, a Justa Sageza. Ao fazê-lo, está-se a indiciar que, em Maçonaria, o Poder, sempre transitório, afinal ilusório, sobretudo mais responsabilidade que imperiosidade, só faz sentido, só é aceito, e portanto só é efetivo e eficaz se exercido com a Sabedoria e a Prudência que se atribui ao rei bíblico.

Quem se senta naquela cadeira dispõe, no momento, do poder de dirigir, de decidir, de escolher o que e como se fará na Loja. Mas, em maçonaria, se é regra de ouro que não se contraria a decisão do Venerável Mestre, porque tal compromisso se assumiu repetidamente, também é regra de platina que, sendo-se livre, não se é nunca obrigado a fazer aquilo com que se não concorda. O Poder do Venerável Mestre é indisputado. Mas, para ser seguido, tem de merecer a concordância daqueles a quem é dirigido. E esta só se obtém se as decisões tomadas forem justas, forem ponderadas, forem prudentes. O Poder em maçonaria vale o valor intrínseco de cada decisão. Nem mais, nem menos.

A Cadeira de Salomão é pois o lugar destinado ao exercício do Poder em Loja, com Sabedoria e Prudência. Sempre com a noção de que não é dono de qualquer Poder, que só se detém (e transitoriamente) o Poder que os nossos Irmãos em nós delegaram, confiando em que bem o exerceríamos.

Não está escrito em nenhum lado, não há nenhuma razão aparente para que assim tenha de ser. Mas quase todos os que se sentaram na Cadeira de Salomão sentem que esta os transformou. Para melhor. Não porque esta Cadeira tenha algo de especial ou qualquer mágico poder. Porque a responsabilidade do ofício, o receber-se a confiança dos nossos Irmãos para os dirigirmos, para tomar as decisões que considerarmos melhores, pela melhor forma possível, por vezes após pronúncia dos Mestres da Loja em reunião formal, outras após ter ouvido conselho de uns quantos, outras ainda em solitária assunção do ônus, transforma quem assumiu essa responsabilidade. A confiança que no Venerável Mestre é depositada pelos demais é por este paga com o máximo de responsabilidade. Muito depressa se aprende que o Poder nada vale comparado com o Dever que o acompanha. Que aquele só tem sentido e só é útil e é meritório se for tributário deste.

A primeira vez que um Venerável Mestre se senta na Cadeira de Salomão não lhe permite distinguir se é confortável ou não. Não é apta a que sinta que se encontra num plano superior ou central ou especial em relação aos demais. A primeira vez que um Venerável Mestre se senta na Cadeira de Salomão vê todos os rostos virados para ele. Aguardando a sua palavra. Correspondendo a ela, se ela for adequada. Calmamente aguardando por correção, se e quando a palavra escolhida não for adequada. A primeira vez que um Venerável Mestre se senta na Cadeira de Salomão fá-lo instantaneamente compreender que está ali sentado… sem rede!

E depois faz o seu trabalho. E normalmente faz o seu trabalho como deve ser feito, como viu outros antes dele fazê-lo e como muitos outros depois dele o farão. E então compreende que não precisa de rede para nada. Que o interesse é precisamente não ter rede…

Quem se senta na Cadeira de Salomão aprende a fazer a tarefa mais complicada que existe: dirigir iguais!

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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