A paleta de cores dentro da Maçonaria

A Escola de pintura

Outro dia um amigo perguntou o que eu acho que é a vida.
Resposta difícil, não é?
Vou contar como respondi.
Imagine uma escola de pintura. Ao entrar, você recebe uma tela em branco e encontra vários alunos pintando. Muitos estão trabalhando há anos, e os quadros são de todos os tipos, desde obras maravilhosas,
até telas completamente destruídas. As tintas, os pinceis e os materiais de pintura estão espalhados pela
sala, alguns bem acessíveis, outros em locais difíceis. Apesar de ser uma escola não há professores. É
tudo por sua conta (Régua e Compasso que nos incumbe a realidade concreta as quais estamos
habituados).
O que você faria nessa situação? Pegaria qualquer pincel e simplesmente espalharia por sua tela?
Observaria os que estão trabalhando e tentaria imitar alguém talentoso? Juntaria a sua tela a de outras
pessoas e pintaria um grande painel em equipe? Tentaria criar uma obra original e aprender com seus
próprios erros? Utilizaria apenas os materiais mais acessíveis ou batalharia para conseguir também os mais
difíceis?
Volto a perguntar, o que você faria?
Na minha opinião, a vida é como essa escola de pintura. As pinceladas são as nossas ações.
Às vezes damos pinceladas de mestre. Usamos o tipo certo de pincel, a mistura correta das cores e
movimentos precisos. São as nossas boas ações. Aquelas que nos fazem dormir tranquilo e com sorrisos
nos lábios (Alavanca para uma vontade inflexível, quando inteligentemente aplicada).
Outras vezes, borramos todo o nosso quadro e pensamos: “Argh! Estraguei tudo. Não tem mais
jeito”. Desejamos até jogar a tela fora e parar tudo. Vamos dormir arrasados e querendo morrer.
É nessa hora que precisamos lembrar da escola de pintura. Não se desespere. Por mais borrado
que seu quadro esteja, você sempre pode pegar um pincel limpo, as tintas certas e pintar por cima.
Se você disse algo ruim para alguém, peça perdão (Maço e o Cinzel para corrigir nossos
defeitos). Se fez algo que não deveria, volte lá e conserte. Se deixou passar uma oportunidade de elogiar,
procure a pessoa ou pegue o telefone e faça o elogio.
Se teve vontade de acariciar alguém e não fez, faça-o na próxima vez que encontrá-lo (a) e diga-lhe
que apenas está acertando o seu quadro – tenho certeza de que você será compreendido.
A única coisa que você não deve fazer é deixar os borrões aparecendo (Esquadro que consiste,
para o ser humano, na justeza com que se coloca na sociedade). Não interessa quão antigo eles sejam.
Se estiverem lá, corrija-os. É corrigindo que aprendemos a não cometê-los e nos tornamos artistas cada
vez melhores.
Fazendo assim, não importa se teremos mais duzentos anos ou apenas mais um dia, para a nossa
pintura. Quando formos chamados para expô-la, ela estará perfeita. Talento tenho certeza, todos nós
temos.”


Roberto Lopes

1 – Introdução

O presente trabalho, através de literatura comparada, propõe uma tentativa de compreensão mais profunda em relação aos instrumentos dentro do grau de C∴ M∴, associando-os a paleta de cores emocionais e seus processos de amadurecimentos, vivenciadas dentro da Maçonaria.

Com o objetivo de elucidar de forma simples e clara a primeira parte apresentará um pouco dos significados do maço e do cinzel como um desses instrumentos simbólicos de C∴ M∴, entendendo um pouco seus significados e, quando possível, sua história.

No segundo momento, considerando a busca incessante dos irmãos em levantar templos as virtudes e masmorras ao vício, será abordado esse processo de desdobramento dos instrumentos fazendo uma menção as questões emocionais e a sua tentativa constante pela evolução espiritual. Processo que deve ser ininterrupto e crescente para que a maçonaria esteja mais presente dentro de si. Com esse foco faremos um cotejamento com as análises do psiquiatra Daniel Martins de Barros que faz uma analogia com as emoções primárias e seus desdobramentos secundários.

Por último discutiremos a ideia do essencialismo na maçonaria. Tema que aplicado dentro dos contextos expostos, junto ao significado filosófico dos instrumentos, podem trazer um crescimento e uma maturidade para a loja e os irmãos. O controle dos pensamentos, o imprevisto no cotidiano dos irmãos, tanto no mundo profano como em loja, atrelado as suas emoções primárias podem gerar um caos que não seria de todo o mal. As suas consequências podem gerar uma anti-fragilidade, que é um processo necessário para a evolução espiritual que tanto se fala e discuti de forma mais incisiva a partir desse grau.

2 – O maço e o cinzel

Dentro dos mistérios impenetráveis ao mundo profano, sendo somente conhecido por aquele que passam por uma ordália [1] iniciação e, posteriormente, em sua evolução, passam por um processo de detenção das doutrinas ocultas existentes através dos simbolismos [2].

O simbolismo que apresenta como características alguns significados tais como: pressentir, ligar, aproximar, confrontar, comparar. Assim, pode-se considerar os instrumentos da viagem de C∴ M∴ representações simbólicas no processo de sua evolução rumo a elevação.

No caso do Maço e do Cinzel, dois dos instrumentos mais antigos já encontrados [3], pois eram utilizados dentro da Maçonaria operativa, onde os trabalhadores cortavam, facejavam as pedras brutas fazendo dela pedras de canto, colunas, de centro e ornamentações que abrilhantavam as mais diversas obras, hoje representam na Maçonaria moderna os meios do Ir∴ desbastar a pedra bruta do seu caráter.

É do artesão que se originavam os desenhos das grandes obras e projetos arquitetônicos projetados naquela época. Assim se deriva essa representação na Maçonaria Moderna. O Maço e o Cinzel eram considerados verdadeiros instrumentos da arte real e por isso a sua rica simbologia.

Através de estudos filosóficos e a prática das virtudes é que o homem é capaz de alcançar a obra perfeita. A disposição do homem para o bem pode ser representada pelo maço aplicada corretamente sobre o cinzel que pode trazer a plenitude do ser e a beleza da obra. Essa metáfora foi usada brilhantemente pelo Padre Vieira em seus famosos sermões.

“Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta,
dura, informe e, depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o
cinzel na mão e começa a formar um homem; primeiro membro a
membro, e depois feição por feição, até à mais miúda: ondeia-lhe os
cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe
a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os
braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os
vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama e fica um homem
perfeito, talvez um santo, que se pode pôr no altar.”

O maço na maçonaria moderna é a mente do Ir∴, onde suas atitudes representadas pelo cinzel podem levá-lo ao aperfeiçoamento. Suas escolhas poderão guiá-lo as virtudes para se tornar um maçom “justo e perfeito. “Isso não está atrelado a frequência e força como é feito e sim às suas habilidades como e critérios para ter o melhor entendimento e compreensão no seu processo evolutivo, respeitando esses dois símbolos profissionais tão valiosos a Maçonaria.

3 – A paleta de cores dentro da Maçonaria

Sempre que me remeto a Maçonaria pondero os momentos mais complexos que vivenciei no meu processo de iniciação a elevação. Interessante que esse processo se repete da elevação rumo à exaltação. Apesar da minha pouca idade maçônica, percebo que essa mistura de sentimentos e percepções é comum aos novos irmãos e, não excludentes, aos demais dos mais diversos graus. O que muitas vezes nos trazem angústias, dúvidas, medos e até a sensação de desistência dentro da irmandade.

Pensando nesse tema, é factível se apoiar nas observações de BARROS, Daniel (P.18- 19), que demonstra que o ser humano vive sempre em uma ciranda emocional. O autor faz uma analogia desses aspectos ao círculo cromático onde temos as cores primárias (amarelos, vermelho e azul) que dão origem as cores secundárias (verde, roxo e laranja) que mais uma vez se desdobram as cores terciárias.

Nesse sentido ele demonstra que essas cores mudam suas paletas e tonalidades, como também suas definições conforme as intensidades das misturas e tons dispostos em suas bases. Temos as bases emocionais como Alegria, medo, tristeza, nojo, raiva como as emoções primárias que dependendo das experiências podemos desenvolver o que seriam os “sentimentos secundários” tais como contentamento, alegria, serenidade, timidez, ansiedade, culpa, luto, irritação, desprezo, ciúme, fúria, orgulho, êxtase, esperança etc.

Sendo assim, os sentimentos supostamente primários seriam norteadores das nossas emoções no dia a dia. Digo não só dentro da loja, mas principalmente no mundo profano, local das nossas maiores masmorras emocionais. Isso não é uma ideia recente, sendo pautado sempre por diversos pesquisadores como René Descartes que postulava no século XVII a existência de seis emoções básicas – amor, ódio, alegria, tristeza, desejo e admiração -, e dizia ser capaz de explicar todas as outras a partir dela.

Mesmo que alguns estudiosos concordem sobre sentimentos básicos que, mais do que perceptível, se desdobram de um autor para outro, percebemos ainda que há uma pequena variação de alguns sentimentos bases como ponto de partida para as demais reações. De qualquer forma ainda sim temos expressões universais comprovadas e testada como meio de start das emoções primitivas. Isso não se limita apenas pelos sentimentos e expressões básicas, mas deve ser levado em conta o desenvolvimento infantil.

Tendo em vista a complexidade das relações humanas proveniente das suas emoções existem várias teorias e experiências para tentar explicar e entender o assunto. Como dizia o Professor José Cippola Neto, que lecionava neurofisiologia para o segundo ano de faculdade de Medicina, se existem muitas teorias para explicar algo, é porque nenhuma delas acertou precisamente a ponto de conseguir convencer a todos. (O lado bom do lado ruim, BARROS, Daniel p.25).

Toda essa contextualização serve apenas para evidenciar que muitas vezes em loja percebemos uma relação complexa na tentativa de trazer uma harmonia entre os irmãos e melhor desenvolvimento dos trabalhos, o que muita vez não é alcançado. Além das bases emocionais existentes, que faz parte da experiencia de cada irmão, outro ponto pode comprometer essa interação e anseios pelo desenvolvimento coletivo ou individual. Os pontos de vistas únicos levam a visões parciais de todos limitando a compreensão total.

Conforme sabiamente exemplificado pelo BARROS, Daniel (p.25),

“é como a história dos cegos e do elefante, famosa em várias tradições
ocidentais. Os detalhes da parábola variam de uma tradição para
outra, mas em todas as versões um grupo de homens cegos encontram
um animal até então desconhecido para eles. Aproximam-se com
cautela para apalpá-lo, e começam a descrever o que percebem. O
homem que toca a orelha espanta-se com a sua maleabilidade e atribui
ao corpo todo do bicho, comparando-o a um leque. Mas o que examina
tromba imediatamente discorda, pois embora ela seja flexível,
assemelha-se mais a um tubo. Nessa hora, o que apalpa a pata entra
na conversa, pois até poderia aceitar a comparação com um tubo, mas
a rigidez e o diâmetro típicos de um tronco estão evidentes. O homem
que se aproximou por trás, tocando o rabo do elefante, não concorda com ninguém, descreve o animal como fino, delicado, com cerdas.
Finalmente aquele que subiu no lombo se desespera com as descrições
incompatíveis com a magnitude que testemunha ali em cima.”

Fica clara nessa parábola a vivência que se tem hoje nas atribuições maçônicas. O que não seria nem um pouco difícil de entender a situação do apego a pontos de vista únicos levando a uma visão parcial do todo e limitando a compreensão total.

Isso deveria ficar mais em evidência aos irmãos quando menor a idade experimentada. Porém, os pontos de vista dos mais experientes são pontuais e muitas vezes parciais dando ao iniciado uma percepção fragmentada dos processos. Não quero deixar aqui uma percepção de que não é necessário um processo de aprendizado, elevação e exaltação de cada irmão, mas trazê-lo a mesma perspectiva sem a mesma base muitas vezes podem desencadear sensações muitas vezes indefinidas e que contribuem para evasões maçônicas físicas e emocionais.

Essas situações de informações ainda em construção na pedra bruta e em elevação à cúbica nos trazem um iminente processo reativo na tentativa de compensar as frustações fazendo com que, muitas vezes, tomemos decisões erroneamente precipitadas.

Segundo o Psiquiatra Augusto Cury, esse problema é denominado Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA). Ainda dentro desse conceito, em seu livro “Ansiedade, como enfrentar o mal do século” isso é uma doença coletiva e está presente em toda a humanidade.

O sofrimento nesse sentido faz parte do crescimento. Ele nos fortalece e traz mais discernimento das coisas potencializando os nossos sensos críticos. Dessa maneira podemos somar as observações e ponderações dos irmãos em loja para a construção de algo maior e sólido. Entendo que só sofremos por aquilo que realmente é importante para nós.

Mas então qual a grande questão dentro da nossa paleta emocional?

Quais os seus propósitos e ganhos?

Na verdade, o grande objetivo desse debate é refletirmos em como fazer isso sem perder os irmãos iniciados. Falo pela minha própria experiência. Quando iniciei como aprendiz, fui inserido em loja sem o devido acompanhamento, o que faria minha jornada mais fácil. Sem fazer juízo de valores, cabendo esse papel não só ao padrinho e o irmão primeiro vigilante, mas todos os que ali se encontram com o mesmo propósito. Meu período de iniciação veio carregado de vária mudanças e interpelações do mundo profano.

Dentro dessas mudanças que cada um enfrenta em sua vida particular, juntamente com a busca pela evolução como ser humano, nos questionamos qual seria a nossa real busca e sentido na maçonaria, já que nada nos é revelado em meio ao convite para ingressar.

Compartilhando um pouco da minha experiência dentro desse processo de iniciação, o que me manteve dentro da irmandade foi exatamente esse acompanhamento e dedicação de um irmão que conseguiu avaliar as minhas paletas emocionais, exercer a empatia e trazer algumas verdades para o meu sofrimento e minhas angústias. Foi nesse momento que, mais do que entrar na maçonaria, procurei deixar a maçonaria entrar em mim. Sempre buscando equilibrar os verdadeiros princípios maçônicos de liberdade de pensamentos, igualdade sem distinção de raças, classes sociais e a fraternidade entre os homens.

Esse processo foi fundamental para a minha real inserção dentro da irmandade, trazendo uma nova iniciação ao iniciado. Uma nova perspectiva de objetivos e valores. Percebemos assim que esse processo de dores e angústias são importantes e necessários para ativar os sinais de que algo não está certo, algo não faz sentido, que as respostas ainda não vieram e que algo precisa ser feito a respeito. Contudo quando nos debatemos em loja e identificamos alguns irmãos, já não tão iniciados, em conflito, tentando impor, por mais que não aceitem ou vislumbrem dessa forma, sua maneira de pensar. Provavelmente suas dores não foram trabalhadas e aperfeiçoadas nos períodos introdutórios da maçonaria, tornando-se cláusulas pétreas em loja.

A ignorância nos proporciona menos questionamentos e mais aceitação, mas à medida que o aprendizado avança, que a lapidação da pedra cúbica evolui perecemos maior controle de nossas emoções, maior controle dos nossos pensamentos intuitivos e reativos e as nossas paletas de cores assumem tons pastéis.

4 – Essencialismo no processo evolutivo

Em convergência com o mundo profano, na Maçonaria há um dinamismo de pautas e responsabilidades que agregam à ordem. Temas que devem ser considerados e conduzidos. Entretanto, entendo que não se trata do essencialismo para os IIr∴ dentro de um processo de evolução espiritual no qual almejamos. Quando pautamos a necessidade de desbastar a nossa personalidade para o nosso crescimento espiritual, precisamos analisar todas as variáveis disponíveis. Deve se desprender o maior tempo possível nas escolhas do que temos disponível em nossa vivência para ser base para nosso aperfeiçoamento.

Deve ser levado em consideração o histórico do mundo profano nos aspectos de família, relações interpessoais e seus processos de anti-fragilidade dentro das experiências vividas. Nesse caso pode-se entender como anti-fragilidade a capacidade de se “beneficiar” com o caos, que as vezes é apresentado, e o fato de não se ter meios com o qual se possa mitigá-lo, fazendo com que nasça uma forma de aprender e se adaptar à nova realidade existente. Esse processo muitas vezes traz resultados melhores do que quando pensamos na “vacina DO CAOS”, a fim de tentar evitar colapsos emocionais. Saímos mais experientes, flexíveis e maduros. O que entra em questão é como vamos utilizar esse benefício dali em diante.

Dentro da Maçonaria as pautas que se tornam contribuintes para o desenvolvimento estão mais relacionadas aos estudos filosóficos, os aprendizados em loja e o compartilhamento das vivências dos IIr∴.

No segundo momento, após o desprendimento de um considerável tempo para análise nos pontos existentes no mundo profano e Maçonaria, deve ser feito um critério de seleção do que realmente é essencial para o seu desenvolvimento espiritual. Os demais assuntos e rotinas, não menos importantes, devem ser deixados para outras discussões, uma vez que se entende que já se dedicou um grande momento de reflexão nessa escolha.

Ao trazer essa elegibilidade dos caminhos do crescimento espiritual podemos fazer uma conexão com a paleta de cores das nossas emoções, interligadas ao Maço e o Cinzel tendo-os como principais instrumentos no processo de crescimento. Como já mencionado, cabe reforçar que as dores e angústias são importantes e necessárias para ativar os sinais de que algo não está certo ou ainda não está fazendo sentido. O medo, o receio e as insatisfações são dignos de considerações. Contudo, isso não pode ser um recurso que te paralise. Deve servir sempre como subsídios emocionais para que se possa direcionar a mente (Maço) para uma evolução espiritual com escolhas e atitudes (Cinzel) relevantes e que façam diferença no meio onde se encontra e, principalmente, dentro de si.

Essa reconstrução espiritual, considerando que já nasceu e está sendo conduzido um espírito existente no mundo profano, deve ser realizada de forma cuidadosa e lenta. Sem antecipar momentos e, dentro da loja, os graus, para que a irmandade se faça de forma sólida e com alicerces duradouros.

Nesse processo de aprendizagem e reformulações de caráter e experiência é que os IIr∴ devem se unir, mesmo que ainda míope à luz, do menor ao mais elevado grau, para que se entendam sem tirar conclusões precipitadas de suas convicções diante de um elefante. Devem focar no essencial que é o fato de maior espiritualidade, maiores percepções e aberturas as novas propostas que podem ser boas para todos.

5 – Considerações finais

O que torna o crescimento maçônico interessante é a divergência do ponto de vista de cada um. A discordância traz crescimentos e possiblidades de se entender o que realmente pode ser melhor a se seguir. Comigo não foi diferente desde a minha iniciação até aqui. Momentos de incompreensão, conturbações e medos que quase me paralisaram. Quase paralisei. Quase fiz parte da evasão maçônica. Foi nesse momento que me permiti viver a dor e o luto que sentia. Enfurecer-me com a destruição das minhas hipócritas convicções e pedir auxílio aos IIr∴ que se encontravam mais próximos de mim.

Com as oportunidades corretas e busca dos estudos que me completam com ser humano foi com que fui capaz de seguir em frente. Capaz de trazer para dentro de mim a maçonaria que tanto busco e me permito vivenciar. É nessa trajetória que entendo que não ter certas convicções são saudáveis para o crescimento, que os conflitos devem existir e que há uma irmandade maior do que preceitos e regras.

No entanto, quanto mais busco o meu desenvolvimento espiritual, percebo o quanto sou pequeno diante as obras do G∴A∴D∴U∴ e o que nada é por acaso. Que não existe um papel mais importante do que o outro, mas que cada um cumpre os seus desígnios de acordo com o momento ali disposto. É dessa forma que pretendo buscar entender mais para que possa ser alguém melhor e contribuir para o auxílio daqueles que estão em meu entorno. Principalmente estar pronto para qualquer atuação no mundo maçônico e profano. Peço sempre ao G∴A∴D∴U∴ que sempre interceda em meus caminhos para que eu jamais esqueça o Maço e o Cinzel do meu ser.

Autor: Marcelo Marcus Martins Costa*

*Marcelo é membro da ARLS Jacques DeMolay, nº 22, do oriente de Belo Horizonte e jurisdicionada à GLMMG.

Notas

[1] – Expressão procedente do germânico ordael (sentença), as ordálias foram práticas de julgamento utilizadas principalmente no período denominado “Alta Idade Média” (séculos V ao X). De cunho estritamente religioso, as ordálias, também conhecidas como “juízo de Deus”, consistiam em um ritual em que o réu se submetia a uma provação, onde por meio de participação de elementos da natureza, estimava-se que a intervenção divina iria provar ou não sua inocência.

[2] – O termo “simbolismo” é derivado da palavra “símbolo”, que por sua vez deriva de symbolum em latim, um símbolo de fé e symbolus, um sinal de reconhecimento, da língua grega clássica σύμβολον symbolon, um objeto cortado pela metade constituindo um sinal de reconhecimento.

[3] – Um dos registros arqueológicos operativos mais antigos é um conjunto de maço e cinzel, datado de cerca de 2 mil a.C. (4 mil anos atrás) e encontrado numa tumba egípcia em Tebas. As ferramentas foram utilizadas durante o reino do faraó Mentuhotep II e são parte do acervo do Metropolitan Museum, de Nova Iorque.

Referências

CURY, Augusto. Ansiedade, como enfrentar o mal do século. Pinheiro, São Paulo. Editora Saraiva. 1ª edição 2015, 4ª tiragem 2016. BARROS, Daniel Martins. O lado bom do lado ruim. SP, São Paulo. Editora Sextante. Ano 2020. LOPEZ, Roberto. O livro da bruxa. SP, São Paulo. Editora Ediouro Publicações S.A. Ano 2008. ISMAIL, Kennyo. Ordem sobre o caos. Brasília, DF, No esquadro, 2020. TALEB, Nassim Nicholas. Anti-frágil, Coisas que se beneficiam com o Caos; Capítulo Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 1ª edição. 2020. https://www.freemason.pt/o-maco-e-o-cinzel-simbolos-maconicos/ O maço e o cinzel – Símbolos Maçónicos. Acesso dia 03 de outubro de 2022 22:08 horas
https://www.recantodasletras.com.br/ensaios/3696864/O MAÇO E O CINZEL-SIMBOLOS MAÇÔNICOS SIMBOLOS MAÇÔNICOS. Acesso dia 09 de outubro de 2022 às 17:52 horas

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A sociedade da desinformação

Desinformação enquanto um fenômeno social criou uma nova desordem global, onde as novas condições de produção, circulação e consumo de informação fizeram das notícias falsas um importante instrumento geoestratégico que, associado às técnicas híbridas, coloca as ações das mídias comunicacionais em sintonia na geração de notícias falsas. Analisamos a maneira como os meios de comunicação disseminam informações tomando como base cinco filtros indicados por Chomsky e Herman (2003): Filtro 1: Importância, propriedade e orientação dos benefícios dos meios de comunicação; Filtro 2: A publicidade como principal fonte de renda; Filtro 3: O fornecimento de notícias para a mídia; Filtro 4: As medidas corretivas como método para disciplinar a mídia; Filtro 5: Anticomunismo como mecanismo de controle. A análise realizada demonstra que, além de notícias falsas, as notícias reais são manipuladas e orientadas para polarizar ideologicamente, requerendo uma adaptação da sociedade na construção de marcos regulatórios, ao passo que as empresas (desenvolvedoras das redes sociais, por exemplo) e seus logaritmos não conseguem contrariar as redes globais da desinformação que atravessam países, continentes e línguas.

1 – Introdução

Passamos a vida acumulando conhecimento e experiências para construir uma identidade pessoal e uma visão de mundo individual, através da qual observamos e entendemos novas informações e conhecimentos. A construção dessas lentes é contínua e subconsciente para a maioria de nós na maioria das vezes. Frequentemente, quando recebemos novas informações cognitivas que “parecem certas” para as lentes que construímos, continuamos sem fazer muitos ajustes. Podemos chegar a um momento em que algo nos abala o suficiente para exigir que mudemos o foco completamente ou encontremos um novo par de lentes. Não importa como eventos ou mensagens individuais possam moldar nossa compreensão interna e percepção externa, é provável que nos beneficiemos mais ao ver o máximo da imagem a partir do maior número possível de pontos. Ou seja, nossa compreensão e precisão da visão são mais garantidas ao entender o contexto e ver o suficiente para fazer nossas próprias escolhas de onde e como “escolher” a informação que faça sentido a nossa realidade.

Desse modo, se o papel da visão de mundo na construção de uma sociedade viável depende das informações que recebemos, cabe questionarmos:

o que acontece quando as informações que estamos recebendo são falsas e manipuladas; além disso, não se encontram prontamente visíveis?

Desinformação, mentiras, trotes, propaganda enganosa e “notícias falsas” foram atualizadas sob o nome de “fake news”. Portanto, não se trata de um fenômeno novo. Embora o uso do termo notícias falsas seja relativamente recente – popularizado durante e pela campanha nos EUA entre Hillary Clinton e Donald Trump – o fenômeno da desinformação é muito mais antigo do que a história recente sugere.

Já no século VI a.C., o general e estrategista chinês Sun Tzu explicou no célebre livro Arte da Guerra a importância do engano na condução de um conflito. Ele insistiu, em particular, na necessidade de encontrar um compromisso entre verdade e falsidade, a fim de tornar as notícias falsas tão credíveis e eficazes quanto possível. Para isso, era necessário calibrar adequadamente seu objetivo e, em particular, as pessoas alvo, jogando uma combinação entre dados reais e o propósito do interlocutor (CLAVELL, 2003).

Esse método também foi utilizado no século I para justificar as perseguições romanas contra os cristãos. O casamento entre “irmãos e irmãs” significava comer “o corpo de Cristo”. Os que praticavam tal delito eram acusados de incesto e canibalismo. As autoridades romanas manipulavam as emoções das multidões para despertar um sentimento de indignação e rejeição que legitima a condenação política, ela mesma baseada na reprovação moral.

Desde a década de 1880 e durante os sessenta anos em que o antissemitismo contemporâneo esteve incansavelmente ancorado na Europa, as notícias falsas dirigidas aos judeus aumentaram e cresceram, desde o Protocolo dos Sábios de Sião, um plano falso para conquistar o mundo pelos judeus e pelos maçons, até os debates sobre a entrada no território canadense de dezenas de milhares de refugiados judeus europeus em 1943-44 (SORJ, 2007).

Na Idade Média e nos tempos modernos, os mesmos mecanismos estão em funcionamento nas sociedades em que o boato circula rapidamente e onde os poderes não hesitam em instrumentalizar os ruídos múltiplos e infundados em um espaço público em que eles moldam. Nos últimos anos, essa luta contra a desinformação – ou “fake news” – se tornou um dos fundamentos do debate político contemporâneo. Serve de apoio aos políticos que desejam defender sua ação pública ou a serem isentos de qualquer comportamento prejudicial à sua carreira, ou mesmo aos Estados que procuram desestabilizar um adversário (BRAND ÃO, 2013).

O fenômeno da informação falsa passou a ser multiplicado por um novo modelo que se baseia em uma tríade: criar um boato, fortalecê-lo por meio da mentira e disseminar em fontes de informação de acesso público. Esses recursos permitem e diversificam a disseminação de informações falsas. Os mecanismos utilizados nessa tríade visam essencialmente capturar a atenção dos usuários da Internet que gerem impacto e convençam o usuário a compartilhar e ampliar sua aceitação. O objetivo é simples: manipular a realidade dos fatos. Esse mecanismo envolve, por exemplo, desacreditar uma figura pública, desestabilizá-la ou minar sua reputação. Uma vez que o boato é compartilhado pelo maior número de pessoas, ela se torna crível. O mesmo “esquema” funciona para alterar a realidade sobre qualquer conceito ou realidade diferente da crença do disseminador de uma notícia falsa. Nos tempos contemporâneos, a mudança qualitativa e quantitativa na disseminação de informações é uma virada na maneira como recebemos conteúdos de toda natureza, ampliando o alcance e o poder da informação, centralizado em grandes centros da mídia.

Este artigo analisa uma teoria sobre a manipulação criada pelas empresas de mídia de massa, responsáveis por grande parte de “conteúdo” atual de informações e entretenimento. Descreveremos esse processo de enquadramento, à luz das tendências atuais dos meios de comunicação, incluindo teorias adicionais sobre as influências e forças motrizes por trás da produção/distribuição de informações para o grande público. Finalmente, discutiremos algumas maneiras e sugestões para preservar o equilíbrio, aumentando a conscientização sobre o “enquadramento” e visões alternativas (aquelas fora dos principais meios de comunicação de massa/multimídia que temos acesso).

2 – Como a informação é selecionada?

Todos os dias, centenas de notícias chegam às redações dos grandes jornais e conglomerados de mídia. Como os redatores decidem o que vão nos informar sobre cada região do mundo? Por que as notícias contraditórias às vezes aparecem e, em outras, todas se repetem de forma sincronizada?

A seleção e construção das notícias, do ponto de vista discursivo-argumentativo, nos sinaliza a inexistência de que não há neutralidade ou imparcialidade informativa. A própria defesa deste tipo de argumento do ponto de vista editorial, trata-se, acima de tudo, de uma posição ideológica em relação aos discursos que os jornais constroem.

Quando um jornal escolhe uma capa com a denúncia de um ato de corrupção ou a metodologia educacional do Ministério da Educação, por mais aparentemente que sua apresentação seja objetiva, ele está assumindo uma certa posição, atrelada às posições ideológicas defendidas pelo jornal. Portanto, nossa primeira missão deve ser descobrir o mecanismo de seleção de notícias.

Uma análise a esse respeito vem do linguista americano Noam Chomsky e do economista e analista de mídia Edward S. Herman, no livro A Manipulação do Público (2003). Em suas análises, nos apresentam o que chamam “Filtros”, isto é, os vereditos pelos quais dinheiro e poder filtram as notícias até que estejam prontas para publicação, marginalizam discrepâncias e permitem que o governo e interesses privados dominantes encontrem uma mensagem adequada ao público. São estruturas de poder e ideologia que muitas vezes são ignoradas pelos profissionais da informação. Isso ocorre porque o modelo atual é absolutamente internalizado. Vejamos um exemplo: Em abril de 2008, a compra de DVD, televisão ou celular foi autorizada em Cuba [1]. Todos os jornalistas e também os cidadãos interpretaram como um avanço das liberdades dos cubanos; noticiaram sobre liberdade não no sentido econômico, mas no sentido político. Esqueceram que esse critério de liberdade ignora um detalhe: a disponibilidade de dinheiro para acessar os produtos que carregam as notícias. Em nosso modelo, chamamos tudo o que podemos fazer de liberdade, se tivermos dinheiro para isso; portanto, não se trata de liberdade. Os cubanos que não tinham dinheiro não puderam comprar esses produtos.

Com este exemplo não pretendemos colocar em pauta a medida do governo cubano, queremos apenas destacar o viés ideológico imperceptível que a mídia e os cidadãos aplicam na interpretação da realidade. Quando se diz que um sinal da repressão cubana é que os pescadores de lagosta são proibidos de ficar com eles, consumi-los ou comercializá-los, esquecemos que nem os garçons dos restaurantes de frutos do mar em Porto Alegre têm dinheiro para ir a esse restaurante para jantar com seus amigos. Nem mesmo o pedreiro que constrói moradias de luxo na praia pode passar um único dia de verão em uma delas, ou seja, existe no fundamento das construções discursivas, sua historicidade, ideologia, lutas de classes sociais, atuação do poder econômico, político e social.

Mas voltemos aos filtros, aos mecanismos pelos quais é determinado o que é notícia e o que não é, no que devemos estar interessados, no que falaremos na cafeteria quando tomarmos café da manhã com nossos colegas de trabalho, o que os especialistas chamam de agenda setting [2]. Não é tanto que eles definem nossa ideologia, ao ponto de selecionar quais são os tópicos que devem nos interessar, que é mais do que impor uma ideologia, porque significa substituir a realidade, ainda mais em um mundo em que as relações sociais diminuíram muito em detrimento do nosso papel como consumidores de mídia.

Segundo o modelo de Chomsky e Herman, a mídia opera através de 5 filtros. São eles:

Filtro 1: Importância, propriedade e orientação dos benefícios dos meios de comunicação

No século XIX, a imprensa operária no Reino Unido tinha um papel fundamental junto aos trabalhadores, nos seus problemas culturais e no potencial para favorecer a organização e a conscientização (MACIEL, 2016). Por mais que isso incomodasse o governo, não podiam tentar sufocá-lo porque arriscavam revoltas populares. Foi no final do século XIX e dos princípios do século XX que chegou a industrialização da imprensa, de modo que os investimentos necessários para iniciar um jornal passaram de 1.000 libras em 1837 para 50.000 em 1867. The Sunday Press, que apareceu em 1918, precisava de dois milhões de libras. Para que o desenvolvimento industrial alcançasse o que nenhum governo havia conseguido: extinguir todos os projetos informativos que não tinham um grande investimento (LAIGNER, FORTES, 2009). Os mais humildes perderam o direito de coadministrar um meio de comunicação em consequência das grandes fortunas que passaram a dominar o mercado editorial. Este é um fenômeno ocasionado pela globalização. Basta observar o panorama atual para perceber que, por trás da mídia, existem poderosos grupos empresariais que disseminam informações internacionais por meio da mídia local, que se limita a replicar o conteúdo de grandes agências. Atualmente, 80% das notícias que circulam pelo mundo vêm de quatro agências internacionais de informação: Associated Press, United Press International, Reuters e Agence France Press. Essas agências são as que definem a agenda e fornecem a maioria das notícias internacionais (COSTA, 2018). No caso brasileiro os jornais de grande circulação são controlados por cinco famílias, que buscam atender a interesses próprios e dos grupos políticos que representam. Gostaríamos de recordar um episódio relatado por Fernando Morais (1996) em sua biografia do jornalista Assis Chateaubriand: Rubem Braga contrariado pela censura promovida por Chateaubriand em uma crônica que seria publicada nos Diários Associados, protestou ao dono do jornal, esse teria respondido da seguinte forma “Se você quiser ter liberdade plena, Rubem, compre um jornal para escrever tudo que desejar”. Acreditamos que essa anedota retrate a realidade dos conglomerados de mídia, ou seja, opinião no jornal só existe no espectro da atuação do próprio conglomerado.

Até recentemente, a principal ameaça à pluralidade informativa era a concentração da mídia em algumas empresas de comunicação. Essas empresas conseguiram tornar seu trabalho mais rentável oferecendo o mesmo produto informativo para alimentar o jornal, o rádio e a televisão de um mesmo grupo de mídia. Como os proprietários de mídia deixaram de ser grupos puros de comunicação, agora são simplesmente grupos econômicos colossais que não precisam ter a comunicação como atividade principal. A acusação progressiva de que eles transformaram informações em negócios também foi abandonada. Eliminada nos países desenvolvidos grande parte dos mecanismos de dominação pela violência, agora o valor da conformação da opinião pública é tão alto que vale a pena dedicar dinheiro a fundos perdidos. Portanto, muitos meios de comunicação tornaram-se meros departamentos de imagem dos setores de negócios. Assim, temos em nossa imprensa, acionistas de rádio e televisão que são bancos, companhias financeiras, seguradoras, empresas de telecomunicações ou mesmo armas. Banqueiros e executivos de negócios que não têm relação com informações fazem parte dos conselhos de administração dessas empresas de comunicação.

A engenharia financeira é tal que nem conseguimos saber se eles têm lucros. Se desejam melhorar a demonstração de resultados do jornal, basta injetar publicidade do acionista (Vale, Petrobrás, etc.).

Filtro 2: A publicidade como principal fonte de renda

Obviamente, no caso da imprensa britânica no século XIX o preço de venda do jornal deveria cobrir todos os custos de produção. Dessa maneira, a renda dependia apenas do número de cidadãos que a compravam. O acréscimo da publicidade passou a servir como renda extra para a mídia que atendia as preferências do público. Os jornais que a obtiveram poderiam até reduzir seu preço de venda. Por outro lado, aqueles que não atraíam anúncios tiveram preços mais caros, reduziram suas vendas, sofreram perdas ou menos benefícios para reinvestir e melhorar suas possibilidades de vendas (cor, formato atraente etc.). Como diz Chomsky e Herman (2003), com publicidade, o mercado livre não oferece um sistema neutro no qual o comprador finalmente decide. As escolhas dos anunciantes são aquelas que influenciam a prosperidade e a sobrevivência da mídia. Basta verificar como os pedidos de boicote não são direcionados ao público, mas aos anunciantes. Atualmente, o que pagamos por um jornal é equivalente a 50% de seu custo e os anunciantes pagam o restante. O jornal que não tem a aprovação dos anunciantes deve custar o dobro, mesmo supondo que o mesmo número de pessoas o compre; se o comprarem menos o que seria lógico se custar o dobro o preço por exemplar aumenta muito mais. Esta tese sobre o fator de distorção da publicidade é neutralizada quando se tenta argumentar que os anunciantes não condicionam o conteúdo e que, se a mídia tiver um grande público, os anunciantes ficarão sem considerar que tipo de informação é oferecida. Vejamos a falácia dessa teoria: para iniciantes, nem todos os cidadãos são iguais para a publicidade: aquele com maior poder de consumo é mais valioso do que aquele sem ele. Um jornal lido por mil executivos não é o mesmo que por mil desabrigados. Enquanto um jornal de finanças apresenta um anúncio promocional para atrair anunciantes, lembrando que é o mais lido por executivos e empresários; não é esperado que um jornal sindicalista consiga captar muitos anunciantes, embora seja o mais lido pelos metalúrgicos que cobram melhores condições de trabalho e salário. É por isso que a Petrobrás é anunciada na imprensa e as Casas Bahia distribui folhetos nas caixas de correio. Para a revista mensal da associação de advogados não faltará anunciantes, mas a revista voltada para refugiados venezuelanos custará muito mais para obter publicidade e certamente as taxas serão mais baixas. O atual sistema de publicidade, em termos de democracia eleitoral, seria como viver com um sistema de votação ponderada.

A publicidade também desencadeia uma diminuição no nível cultural do conteúdo e faz com que o público seja recrutado, até apelando para os elementos mais miseráveis da natureza humana. Se olharmos atentamente, verificaremos se o que a mídia vende não é um bom conteúdo informativo, mas sim o público: eles nos vendem para agências de publicidade. Uma rede de televisão oferece anúncios de 30 segundos mais caros que o outro, porque o primeiro coloca como principal valor o fato de ter três milhões de telespectadores assistindo e o segundo anúncio uma audiência muito inferior. Acreditamos que a mídia nos oferece conteúdo, mas em realidade o que está oferecendo são espectadores para as empresas de publicidade. É por isso que uma revista semanal oferece produtos cosméticos com valor maior do que a revista, pois, dessa forma, atinge números de alta circulação para oferecer aos anunciantes. Coloque aqui a sua publicidade: tenho meio milhão de leitores para divulgar um folheto na revista.

Mas a afirmação de que os anunciantes não têm ideologia é falsa. Em 2019 a operadora de cartões Mastercard decidiu suspender suas campanhas publicitárias que circulariam durante a Copa América com Neymar devido à acusação de estupro contra o jogador. Em certas ocasiões, o orçamento do anunciante serve não apenas para anunciar, mas também para garantir que eles não apareçam notícias negativas da sua empresa. É fácil entender: os anúncios não podem coexistir com a imagem de mal comportamentos, ao menos em tese, de modo que o patrocinador não seja visto como apoiador de mal comportamentos.

No Brasil, as televisões a cabo funcionam vendendo espaços de programação e cada produtor deve encontrar seus patrocinadores para financiar seu programa. Por isso, não encontramos empresa patrocinadora de um programa que denuncie as violações de multinacionais na África, a corrupção em Brasília ou que defenda a diminuição do consumo na busca de um modelo de desenvolvimento sustentável. Se existe um suplemento sobre carros na imprensa escrita, é porque houve uma publicidade potencial das empresas automobilísticas. Partindo da mesma lógica sobre a demanda de mercado, a seção de Obituários foi criada quando se viu que havia um mercado para a publicação de anúncios pagos.

Filtro 3: O fornecimento de notícias para a mídia

O mercado exige redução de custos, a mídia deve aproveitar ao máximo seus recursos, não pode ter jornalistas e câmeras em todos os lugares. A economia os obriga a se concentrar naqueles onde são produzidas notícias importantes, nas quais são realizadas coletivas de imprensa e existem pessoas influentes cujas decisões têm grande relevância.

Segundo dados do IBGE (2018), o percentual de domicílios que utilizavam a Internet subiu de 69,3% para 74,9%, de 2016 para 2017 e em 96,7% dos 70,4 milhões de domicílios do país havia aparelho de televisão, dos quais 79,8% tinham conversor para receber o sinal digital de televisão aberta. Portanto, fica para trás a máxima que é notícia aquilo que alguém não quer que seja conhecido, para ser apenas o que alguém quer que seja conhecido. No jornalismo, sabemos que não é oferecida a mesma garantia, nem se pode tratar da mesma maneira as fontes que estão “ansiosas” em contar à imprensa algo como aqueles que desejam ocultá-lo podem ser tratadas da mesma maneira. Nem a fonte que faz parte ou tem uma posição afetada pelas notícias de que quem não é parte interessada no relatório pode ter a mesma consideração. Dentre os noticiários televisivos das principais redes brasileiras, a maioria são preparados com o conteúdo fornecido por um informante cujos interesses estão diretamente relacionados ao que a notícia diz. E o modelo já está tão consolidado que até os políticos divulgam comentários para os jornalistas cumprirem as “regras do jogo”, isto é, apenas espalham o que os políticos pedem para espalhar. Por outro lado, de acordo com Souza (2018), a maioria das fontes são resultado de atos declarativos que consiste em fornecer uma versão que confirme um fato ou acontecimento. A televisão comenta de maneira empírica, não sobre o que acontece. Não há fatos. O barulho reina. Esse é o menu principal. Todos os dias, nas horas anteriores à transmissão das notícias das redes brasileiras, milhares de jornalistas estão dispostos a não perder suas posições. É o domínio informativo das fontes organizadas sobre o que Tarso Genro (2017) chamou de “jornalismo geneticamente modificado”.

Para a mídia, é muito caro ter um jornalista por semanas investigando um assunto em comparação com a facilidade de reescrever comunicados à imprensa, transcrever declarações públicas ou copiar notícias. A imprensa regional é o exemplo mais claro e qualquer jornalista local sabe qual é a sua rotina de trabalho: o editor-chefe ou o chefe de seção analisa os comunicados à imprensa ou as conferências de imprensa, escolhe as fontes que melhor se ajustam para sua linha editorial e envia os editores para fazer o tour com o gravador. Então retornam à redação e se dedicam a transcrever as notícias de cada uma das fontes. Para informações nacionais e internacionais, as notícias são analisadas, escolhidas e reproduzidas de acordo com o perfil do público antes de ser em publicadas. Da mesma forma, a vida política e social se encaixa perfeitamente com o seguinte modelo: os médicos emitem comunicados de imprensa, com relatórios médicos sobre o status das celebridades quando estão doentes, os políticos transferem suas posições para as salas de imprensa mais do que nas instituições e oferecem mais explicações e detalhes à mídia do que aos juízes. Assim, os jornais se tornam quadros de avisos, mas com conteúdo filtrado pelos gerentes.

Mas também existem diferentes tipos de ” notícias” quando se trata de vender. Para um veículo de notícias, sempre será mais credível e confortável reproduzir um lindo dossiê de impressão colorida com gráficos de barras e pizza de uma empresa importante (talvez anunciante ou acionista) que possa s er entregue ao público, que um comunicado de imprensa precariamente escrito por uma assembleia de trabalhadores onde eles denunciam o não pagamento de horas extras. Os vizinhos de um bairro que serão despejados de suas casas não terão uma boa agenda de mídia e emails para enviar uma nota indecorosa convocando-os para uma conferência de imprensa em uma sala acarpetada e iluminada onde instalar câmeras de televisão. Necessitarão enfrentar a polícia para que a mídia lembre deles.

Por outro lado, a mídia oficial sempre tem uma aura de veracidade e neutralidade que seduz os periódicos, o que para Pecheux e Fuchs (1975), vamos conhecer como a atuação da ideologia de forma que ocorra o apagamento de sua formulação (ideológica). Uma declaração de um guerrilheiro levanta mais questões sobre a autenticidade de seu conteúdo do que uma conferência de imprensa do Ministro da Defesa, porque existe em seu discurso uma autoria definida e institucionalizada. Embora, no final, não possamos deixar de verificar que as maiores inverdades sobre a realidade do desmatamento da Amazônia foram anunciadas pelo governo federal e acabariam por ser desmentidas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE, 2019). O capital financeiro e as influências ideológicas têm o potencial necessário para disseminar suas crenças e interesses comerciais, contratar jornalistas, preparar imagens de arquivo que fornecem às televisões e induzir jornalistas comprometidos em contar sua versão. Nossa polícia convida jornalistas para acompanhá-los em seu carro de patrulha, mas também são acusados de fazer apologia ao crime quando mostram a realidade da violência policial.

Filtro 4: As medidas corretivas como método para disciplinar a mídia

Lobbies, fundações e grupos de poder político ou empresarial tem capacidade organizacional, financeira e política suficiente para organizar campanhas de pressão contra a mídia ou jornalistas que deixam a linha dominante. É o que mostra a edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, publicado pela orga nização Repórteres sem Fronteiras (RSF, 2019). Ameaças, insultos e agressões fazem agora parte dos “riscos ocupacionais” da profissão em muito países, incluindo o Brasil, que caiu três posições no ranking e ocupa o 105º lugar, cada vez mais próximo da zona vermelha da classificação (que indica o nível de dificuldade para profissionais de imprensa).

Nos países onde há repressão contra a imprensa, existem fundações criadas com o único objetivo de se envolver em campanhas de pressão contra a mídia rebelde. Há empresas ligadas ao petróleo que atuam como um lobby contra informações sobre o aquecimento global, indústria fazendo lobby para aumentar os limites do glifosato, o veneno mais usado no Brasil, empresas de tabaco contra acusações de doenças ligadas ao consumo de cigarros ou produtos farmacêuticos que pressionam a mídia que divulga notícias sobre os efeitos colaterais dos medicamentos (BBC, 2019). ou ausência de valor terapêutico. Para a maioria da mídia, é mais lucrativo e menos problemático aceitar essas pressões do que enfrentar esses lobbies. O resultado é que as informações de organizações sociais humanas, grupos de trabalhadores precariamente organizados ou grupos de direitos humanos de baixo orçamento não atendem às demandas desses filtros e são excluídos dos meios de comunicação.

Filtro 5: Anticomunismo como mecanismo de controle

O filtro final é a ideologia do anticomunismo. O comunismo como o mal supremo sempre foi o espectro que assombra os proprietários, pois ameaça a própria raiz de sua posição de classe e status superior. Essa ideologia tem o potencial de mobilizar a sociedade contra um inimigo. Pode se valer de um conceito confuso para ser usado contra qualquer pessoa que defenda políticas que ameacem os interesses de propriedade ou apoiem a acomodação com os estados comunistas e o radicalismo. Portanto, ajuda a fragmentar os movimentos de esquerda e trabalhista e serve como um mecanismo de controle político. Se o triunfo do comunismo é o pior resultado imaginável, o apoio do fascismo no exterior é justificado como um mal menor. A oposição aos socialdemocratas que são muito brandos com os comunistas e “jogam em suas mãos” é racionalizada em termos semelhantes.

Os liberais em casa, frequentemente acusados de serem pró comunistas ou insuficientemente anticomunistas, são mantidos continuamente na defensiva em um ambiente cultural em que o anticomunismo é a religião dominante. Se eles permitem que o comunismo, ou algo que possa ser rotulado de comunismo, triunfe nas províncias enquanto estão no cargo, os custos políticos são pesados. A maioria deles internalizou completamente a religião de qualquer maneira, mas todos estão sob grande pressão para demonstrar suas credenciais anticomunistas. Isso faz com que eles se comportem muito como reacionários. Seu apoio ocasional aos socialdemocratas geralmente se deteriora, quando estes são insuficientemente duros com seus próprios radicais indígenas ou com grupos populares que estão se organizando entre setores geralmente marginalizados.

Deve-se notar que, quando é despertado o fervor anticomunista, a demanda por evidências sérias em apoio a reivindicações de abusos “comunistas” é suspensa, e os charlatães podem prosperar como fontes de evidência. Os desertores, informantes e vários outros oportunistas passam para o centro do palco como “especialistas”, e continuam lá mesmo após a exposição como mentirosos altamente não confiáveis, se não completamente.

3 – Discussão

Nos últimos anos, diante de vários conflitos impostos pela política e ideologias de toda natureza, além da concorrência por novas tecnologias, mercados, energia, recursos biológicos e praticamente toda a cadeia produtiva em massa, a ameaça da disseminação deliberada de informações falsas (desinformação) na Internet aumentou bastante. Sabe-se que, através da desinformação, pode-se enganar as pessoas e impor uma opinião pública inadequada. Também é possível, em certa medida, a manipulação da consciência e do comportamento de indivíduos e grupos de pessoas. Os invasores podem fortalecer ou enfraquecer a visão das pessoas sobre vários eventos, valores da vida, trabalho realizado, comportamento nas situações atuais, etc. O fato de a Internet ser um dos canais para a disseminação de informações falsas deve-se aos recursos da infraestrutura de informações, que incluem a simplicidade e o baixo custo de acesso, amplas possibilidades de manipulação de informações e sua percepção e um alto nível de anonimato referente ao compartilhamento de informações em rede.

É possível encontrar sites com informações objetivamente falsas com relativa facilidade. Notícias falsas sobre eventos supostamente ressonantes (ataques terroristas, morte de pessoas famosas, turbulência financeira) são disseminadas em grande número. Frequentemente são usadas técnicas de captação de atenção que distorcem as informações sobre os eventos que ocorreram.

Para proteger o público de informações falsas na Internet, é necessário um sistema eficaz para combatê-las. Em termos gerais, esse sistema é entendido como um conjunto de medidas interrelacionadas, organizacionais, técnicas, legais e outras que garantem: prevenção oportuna, detecção, bloqueio, exclusão de informações falsas na Internet, eliminação de consequências, responsabilidade dos atacantes por ações ilegais. Para garantir o funcionamento de tal sistema, é necessário suporte científico e metodológico adequado.

O problema da proteção contra informações falsas existe há muito tem po, mas com o advento e o desenvolvimento ativo da Internet, a situação mudou drasticamente. O volume de informações disseminadas e as possibilidades de seu uso com o objetivo de enganar pessoas aumentaram substancialmente. Como os eventos internacionais dos últimos anos demonstraram, impactos informativos em larga escala sobre as pessoas, para diversos fins terroristas, políticos, religiosos, econômicos e outros, são possíveis com o uso de robôs e inteligência artificial, via Internet. Ao mesmo tempo, as tarefas de detecção operacional, reconhecimento de impactos nas informações, identificação das fontes de geração e previsão de tais ameaças se tornaram mais complicadas. Os métodos de proteção tradicionais nessas condições não são eficazes o suficiente. Eles necessitam a participação ativa de uma pessoa na análise de informações sobre o tema de sua destrutividade e perigo para os usuários da Internet. Isso requer um gasto significativo de recursos humanos e materiais.

O mundo da mídia se retroalimenta constantemente. A obsessão pela competitividade é tal que, em muitas ocasiões, esquecem a realidade para se dedicar a tudo ao mesmo tempo, para competir pelas mesmas notícias. Isso é algo como a contra programação que as redes de televisão fazem em questões não relacionadas a notícias. Todo mundo quer explorar as mesmas supostas notícias convencidas de que quem não comparecer será retirado do pelotão. Portanto, mesmo que em um determinado momento vários eventos estejam acontecendo no mundo, toda a mídia será direcionada para um mesmo foco. Por isso, durante uma semana, as queimadas na Amazônia ocupam a primeira página dos jornais e abre o noticiário da televisão, e na semana seguinte desaparece do presente, como se a devastação na selva também tivesse desaparecido.

Um exemplo evidente no mundo inteiro é que um dos maiores conflitos silenciados pela mídia é o dos povos indígenas em qualquer parte do mundo (América Latina, Ásia ou África são exemplos claros). Os conflitos do chamado “Primeiro Mundo” também sofrem uma clara distorção, principalmente porque o que suscitam são mudanças estruturais que afetam os fundamentos do sistema. Através da mídia exploram plenamente todo o seu potencial para desacreditar ou esconder as demandas desses movimentos.

A necessidade de rentabilizar os recursos humanos causa a diminuição de correspondentes estáveis e com conhecimento no país; a mobilidade de enviados especiais é enorme para aumentar sua produtividade. Mesmo em alguns casos, os jornalistas não são deslocados para relatar notícias da região que podem estar a milhares de quilômetros de distância. Países invadidos sofrem diariamente a ferocidade e barbárie da obsessão moderna com o controle, enquanto a invasão e a guerra são consumidas como um espetáculo, como uma fusão de imagem e realidade, com uma hiper-realidade na qual a imagem não representa mais a realidade. Nela, a guerra é consumida como algo eletrônico, pré-programado, algo que é conduzido de acordo com os interesses de quem produz e consume a informação.

Na verdade, o problema é um pouco de distorção das regras com o mecanismo errado. Até agora, fazendo as pessoas ficarem confusas não há pontos estacionários que possam ser usados para determinar quais não devem ser. As palavras bom, moralidade, ética e justiça, todas são capturadas quando impedidas de acesso. Até a palavra logicamente é distorcida pouco a pouco, até ser deformada. Todos nós temos motivos para diferentes versões, juntamente com as questões da sociedade que devem ser vistas juntas.

Existem novas regras que dão origem à razão em uma lógica estranha: ela é reproduzida em muitos níveis até que as pessoas façam sozinhas. A aquisição das regras é repetidamente errada, até que as pessoas estejam confusas e confundidas por estarem “certas”. Toda vez que isso é feito, a estrutura está sendo distorcida. Finalmente, todos os lados podem pensar em suas próprias regras. Combinado com a divulgação de notícias na Internet com a intenção de ser consumida pela comunidade internacional, o processo de universalização das verd ades se torna mais rápido e consensual. Se estabelece conteúdos que foram rapidamente apresentados para serem auto interpretados. A “verdade” pode ser apresentada em partes para que alguns problemas sejam vistos tal como apresentados: separados. Depois, a mídia ou o indivíduo pode escolher uma das partes dessa verdade para se sustentar.

As eleições, que deveriam ser uma ferramenta para reiniciar o funcionamento dessa mecânica, não funcionam. Assim, as informações seguem sendo constantemente distorcidas. Com o a sociedade se move em uma velocidade menor do que o indivíduo, a maioria das pessoas buscam ser líderes de pensamentos e ideologias, porque se movem mais rápido que a velocidade da sociedade. Quando a sociedade não se move de acordo com o que acreditamos, nos perturbamos enquanto indivíduos, porque o que expressamos não transforma a realidade a nossa volta. Por isso buscamos as redes, um cluster para criar ondulações em harmonia com o que pensamos, sentimos e expressamos.

O problema também não se limita apenas às informações com conteúdo errado, mas também ao seu legado. A qualidade das notícias, informações publicitárias e comentários da sociedade são dependentes. No passado, as principais notícias eram frequentemente encontradas no conteúdo publicado. A gora, quando são publicadas começam a se desenvolver com hiper conexões; uma extensão da verdade em si, onde as redes sociais desempenham o papel de veredito sobre certo e errado, verdade e mentira.

De fato, todos sabemos menos do que esperamos. Isso se aplica as ideias sobre a quantidade total de nosso conhecimento. A única coisa em que temos certeza é que depois de tantos esforços científicos as pessoas ainda pensam pouco, não gostam de pensar e não apreciam particularmente aqueles que pensam. É provável que uma das principais causas de poder generalizado das notícias falsas seja a inércia do nosso pensamento, pois dificilmente concordamos em acionar mecanismos de pensamento crítico. Muitas vezes seguimos a liderança de nossos desejos, acreditando no que é simples e compreensível. Não queremos criticar as informações que correspondem às nossas expectativas. No espaço midiático dos canais profissionais e das redes sociais as pessoas obtêm acesso ilimitado a série de conteúdos sobre tudo no mundo e absorvem informações em modo de compulsão alimentar. Notícias falsas nesta situação são graciosas somente para quem sente satisfação ou interesse em propagar informações falsas. Sociólogos, profissionais da saúde e até virologistas veem seu objeto de estudo sendo manipulado em notícias falsas.

Espalhar desinformação não é muito diferente da propagação de uma infecção viral: primeiro de pessoa para pessoa, depois de grupo para grupo e, finalmente, a população de um país ou continente inteiro para outro. Junto a distribuição de notícias falsas pela mídia, vem à tona um processo de compartilhamento pelos grandes grupos de pessoas. O papel das redes sociais na distribuição de mensagens falsas, incluindo Facebook, Twitter ou Instagram, são capazes de lançar um “modelo epidêmico”, enquanto que a mídia tradicional pode incorrer, por engano, ou para fortalecer uma mentira, ampliar a cobertura de notícias falsas.

A história recente tem registrado muitos exemplos do uso de notícias falsas para fins diversos, competindo com publicações verificadas pela mídia que valoriza sua reputação. O século XXI tornou-se a era digital da comunicação, onde não há autoridades. Em veículos de comunicação de grande audiência o conteúdo fornecido é capaz de competir com a própria audiência. O New York Times ou a Folha de São Paulo não competem mais pelas suas opiniões ou qualidade investigativa diante dos seus leitores. O principal prêmio são o número de visualizações. O que com base em Orlandi (2007), estamos falando da autoria e seus significados, ou seja, à medida que as redes sociais dão voz aos discursos desinstitucionalizados, o sentido da autoria, como atribuído a um ministro, um médico ou um professor subsistiu-se pela autoria construída em redes.

A desinformação é estruturada de tal maneira, que ela inspira confiança no consumidor e afeta a sua opinião, suas decisões ou comportamento geral, de acordo com os objetivos pretendidos pelos criadores de desinformação. É importante lembrar que a desinformação pode servir como um caso especial de propaganda. Em particular o serviço de inteligência militar que utiliza a desinformação faz parte de um jogo no qual estão envolvidos a mídia. É um espaço que utiliza uma arma psicológica tremendamente perigosa de manipulação, cujo efeito sobre a consciência de massa possa ser imprevisível em termos de influência e consequências extremamente negativas.

4 – Considerações Finais

A atual “época social online” em que vivemos faz com que o comportamento das pessoas mude na Internet. O uso da informação, antes restrito à televisão e aos jornais, atualmente podem ser acompanhadas e estudadas em sites ou postagens em Redes Sociais e postagens de conteúdo em uma variedade de plataformas, com conteúdos textuais, de áudio, visuais etc. Por um lado, a possibilidade de todos ser em produtores de informações é um avanço no contexto das liberdades individuais. Por outro, quando há mais maneiras de acessar informações sem orientação, o problema que emerge é a credibilidade dessas informações.

Quando existem fontes de notícias para acessarmos com mais facilidade, a conveniência de seguir os canais de comunicação que possuímos maior identificação com nossos interesses pessoais podem se tornar uma armadilha bem elaborada, conforme demonstrado nos 5 filtros de Chomsky e Herman (2003). Precisamos distinguir a confiabilidade das informações, sendo necessários usar algumas habilidades analíticas. Muitas pessoas não compreendem esses mecanismos de manipulação; se torna mais fácil acreditar nessas informações e compartilhá-las novamente, tornando um ciclo de compartilhamento e retroalimentação contínua de informações de baixa qualidade. O problema agravou-se porque as informações falsas passaram ser amplamente compartilhadas devido à falta de análise das fontes ou capacidade de discernimento das pessoas. Sendo neste contexto necessária a intervenção do estado afim de criminalizar a disseminação de notícias falsas. Em relação ao seu conteúdo textual, quanto imagético e sonoro, também recebem comentários que deturpam ou mentem, na sequência em que são publicadas. Para aumentar a visibilidade, muitas empresas de mídia vendem junto com os espaços nos seus canais de comunicação a sua credibilidade. O leitor olha o fornecedor, quem transmite, antes de chegar ao conteúdo.

As empresas de mídia sabem que seu abuso, quando descoberto, faz com que percam sua credibilidade e seja muito difícil de recuperá-la. Por isso, não apenas tentam nos dizer o que é importante e como aconteceu, mas também nos convencer de que está certa em sua seleção e não mente, por isso arrisca muito se a falsidade for descoberta.

O historiador e analista de mídia Michael Parenti (2001) acredita que a propaganda mais eficaz é baseada na realidade, em vez de centrar na falsidade. Tecendo a verdade em vez de violá-la. Usando ênfase e fontes auxiliares, os comunicadores podem criar a impressão desejada sem recorrer a pronunciamentos explícitos e sem se afastar demais da aparência da objetividade. O enquadramento é alcançado através da maneira como as notícias são “empacotadas”, a extensão da exposição, sua localização (primeira página ou dentro de alguma sessão secundária, artigo principal ou última página), o tom da apresentação (aberta ou depreciativa), manchetes e fotografias e, no caso dos meios audiovisuais, efeitos de imagem e som.

Os filtros apresentados por Chomsky e Herman (2003) evidenciam que a manipulação dos meios de comunicação nos conduz para uma conclusão tão óbvia quanto natural: vivemos em uma sociedade amorfa. Somos amorfos porque há uma enorme incompatibilidade entre o que achamos que sabemos sobre as coisas e o que realmente sabemos. Não há ousadia pior do que aquilo que emerge da ignorância.

Tudo é um sublime paradoxo. Temos as mais sofisticadas ferramentas, canais e acesso à informação na história da humanidade. No entanto, estamos mais vulneráveis do que nunca à negligência intelectual e à memória. Se o diagnóstico do que lemos, vemos do que buscamos– e principalmente for realizado sob a lente dos discursos midiáticos, reconheceremos filtros que antecedem a notícia, os fatos em si. A informação que queremos nem sempre combina com a informação que necessitamos. E quando combinadas, nem sempre está disponível.

O problema por trás de muitas das ondas de mentiras são as pessoas que não querem a verdade, mas concordam com ela. Elas são as terraplanistas das redes, provando que na sociedade da informação predomina a desinformação.

Autor: Fabiano Couto Corrêa da Silva

Fonte: LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 143-161, set. 2022/fev. 2023.

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Notas

[1] – VOSS, Michael. Cuba libera venda de computadores residenciais. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/reporterbbc/story/2008/05/080503_cubacomputadores_fp.shtml . Acesso em: 25 de agosto de 2022.

[2] – A hipótese do agenda setting é um tipo de efeito social da mídia que compreende a seleção, disposição e incidência de notícias sobre os temas de interesse público (BRUM, 2003).

Referências

BAUDRILLARD, Jean. Requiém por las Twin Towers. Madrid: Arena libros, 2003. BBC News. Glifosato: Por que a Anvisa propõe manter liberada a venda do agrotóxico mais usado no Brasil. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-47374656. Acesso em: 25 agosto 2022. BRANDÃO, Sílvia Sgroi. Perseguições e martírios na história eclesiástica: análise dos escritos de eusébio de cesareia. Revista História e Cultura, Franca-SP, v.2, n.3 (Especial), p.268-279, 2013. BRUM, Juliana de. A Hipótese do Agenda Setting: Estudos e Perspectivas. Razón y palabra. Out. N. 35. 2003. Disponível em: http://www.razonypalabra.org.mx/anteriores/n35/jbrum.html. Acesso em: 25 agosto 2022. CHOMSKY, Noam; HERMAN, Edward S. A manipulação do público. S.l.: Futura. 2003. CLAVELL, James; SUN-TZU. A arte da guerra. 31. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. COSTA, Siliana Dalla. A presença das agências internacionais hegemônicas no jornalismo online brasileiro. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. 41º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Joinville. 2018. GENRO, Tarso. Jornalismo geneticamente modificado: na semana que findou a imprensa tradicional lotou de notícias positivas seus surrados jornalões e noticiários. Brasil247. 2017. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/jornalismo-geneticamente-modificado. Acesso em: 25 agosto 2022. IBGE. Agência de notícias. PNAD Contínua TIC 2017: Internet chega a três em cada quatro domicílios do país. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-deimprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/23445-pnad-continua-tic-2017-internet-chega-atres-em-cada-quatro-domicilios-do-pais . Acesso em: 25 agosto 2022. INPE. MINISTÉRIO DA CIÊNCIA, TECNOLOGIA, INOVAÇÕES E COMUNICAÇÕES. A estimativa da taxa de desmatamento por corte raso para a Amazônia Legal em 2019 é de 9.762 km². Disponível em: http://www.inpe.br/noticias/noticia.php?Cod_Noticia=5294 Acesso em: 25 agosto 2022. LAIGNER, Rafael; FORTES, Rafael. Introdução à história da comunicação. Rio de Janeiro: E-papers, 2009. MACIEL, Laura Antunes. Imprensa, esfera pública e memória operária. Rev. hist. São Paulo, n. 175, p. 415-448, jul.dez., 2016. http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9141.rh.2016.109940 MORAIS, Fernando. Chatô: o rei do Brasil. A vida de Assis Chateaubriand. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. PARENTI, Michael. Monopoly Media Manipulation. Maio.2001. Disponível em: http://www.michaelparenti.org/MonopolyMedia.html . Acesso em: 25 agosto 2022. ORLANDI, E. P. Autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. 5ª Edição, Campinas, SP: Pontes Editores, 2007. PECHEUX, M & FUCHS, C. A propósito da Análise Automática do Discurso: atualização e perspectivas. Tradução de Péricles Cunha. In: GADET, F.; HAK, T. (Orgs.). Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. 3. ed. Campinas: Unicamp, 1997 [1975]. p. 163-252 REPÓRTERES SEM FRONTEIRAS. Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa 2019. Disponível em: https://rsf.org/pt-br/ranking-mundial-da-liberdade-de-imprensa-2019mec%C3%A2nica-do-medo. Acesso em: 25 agosto 2022. SANCHÉZ, Javier Mayoral. Radio y TV, ni siquiera una fuente por pieza: investigación sobre el uso de las fuentes en los informativos de televisión y radio. Cuadernos de periodistas. Mar. 2008. Disponível em: http://www.cuadernosdeperiodistas.com/pdf/Cuadernos_de_Periodistas_13.pdf . Acesso em: Acesso em: 25 agosto 2022. SORJ, Bila. Anti-semitismo na Europa hoje. Novos estudos CEBRAP [online]. 2007, n. 79, pp. 97-115. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0101-33002007000300005. Epub 01 Jul 2008. ISSN 1980-5403. https://doi.org/10.1590/S0101-33002007000300005. Acesso em: 25 agosto 2022. SOUZA, Elise. Fontes jornalísticas e pluralidade: o que dizem os Manuais de Redação? VII Encontro Regional Sul de História da Mídia – Alcar Sul, 2018.

O sonho da razão produz monstros… ou seria seu sono? (Breves notas sobre as distopias contemporâneas)

No posfácio à edição brasileira de 2017 do livro Nós, do russo Ievguêni Zamiátin (1884-1937), o professor Cássio de Oliveira dialoga com a frase que Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828) escreveu em uma das gravuras da série intitulada Caprichos (1799), um conjunto de figuras inventadas e gravadas em água-forte que pretendiam mostrar, em meio a extravagâncias e desacertos tão comuns em toda a sociedade civil, ridículos autorizados pelo costume, pela ignorância ou pelo interesse, e que permitiam ao artífice exercitar suas fantasias.

Para o posfaciador de Nós, um romance distópico escrito na Rússia entre 1920 e 1921 e que influenciou Orwell e Huxley, os monstros saídos da pena de Zamiátin implicaram a edificação de um Estado Único responsável pela organização algébrica da felicidade de todos Nós. Mas são monstros que também denunciam a inviabilidade do controle total, a resiliência dos desejos individuais e humanos que talvez também povoem os sonhos da razão.

Os caprichos de Goya

Não por acaso os Caprichos de Goya foram gravurados naquela encruzilhada que separou o mundo contemporâneo das reencenações de hierarquias e vivências que marcaram o Antigo Regime. Eram tempos iluministas, em que se ousava saber perscrutando regularidades nas vidas de povos distintos, mas também tempos de onde saíram os argumentos sobre a possibilidade de hierarquia entre povos mais dados ao progresso científico e outros que talvez precisassem de “algum empurrão” para produzir ciência, para ordenar racionalmente os elementos da natureza e os desejos da sociedade.

A gravura de Goya, “o sonho da razão produz monstros”, nos coloca diante de uma importante dimensão dos debates iluministas: o entendimento de que era possível “refazer” toda a sociedade, estabelecer um contrato social que a todos obrigasse na construção da felicidade fabulada.

Em nome desta felicidade, os monstros reificados em violência e guerras, eram preço menos importante a pagar. Explorando um pouco mais esta hipótese, deixo aqui uma sugestão do amigo Rafael Ruiz: “sueño”, palavra espanhola, pode ser também sono, sono e sonho em espanhol nem sempre se diferenciam. Se é assim, seria a razão adormecida, o seu silêncio, que produz os monstros, ou seriam as suas fabulações em sonhos de futuro?

Trata-se da expressão de uma dúvida cara aos iluminismos, e que o século XIX parece ter querido diluir à medida que se espalhavam as conquistas da ciência representadas pela medicina, pelo controle das águas dos rios, pelo incremento da produtividade industrial, pelas novas edificações e arruamentos que se beneficiavam de novas técnicas de construção, etc.

A possibilidade de controlar a natureza

Os anos de 1800 trariam os pragmatismos resultantes do enraizamento de um mundo que considerava possível controlar a natureza e organizar a sociedade a partir de dados empíricos oferecidos pelas pesquisas científicas, e aqui se destacaram as teorias de controle social.

Os contrapontos estavam por ali, rondando os medos causados pelo espetáculo da pobreza produzida na época: de Frankestein a Dr. Jekill e Drácula, passando pelos miseráveis (Victor Hugo) e pelos demônios (Dostoiévski), o cânone ocidental demonstrava alguma percepção de que as luzes também podiam escurecer o entendimento do mundo, ou revelar horrores não percebidos pelo enaltecimento das capacidades humanas. A dúvida, assim, que fora o fundamento dos iluminismos, mantinha-se por ali, rondando, mas parecia não ter lugar no mundo de certezas que a ciência positivista propunha.

A ausência do debate público

Para muitos autores, os projetos totalitários que marcaram o século XX ambicionaram refundar a humanidade, banindo suas partes irredentas, irracionais e atrasadas. Seriam manifestação da razão extremada ou da sua ausência no debate público, momento em que se exige de todos a servidão? Destaque-se aqui que as distopias contemporâneas, nomeadamente as do século XX, trouxeram um elemento novo: a projeção ou radicalização de uma dimensão que se apresenta ao autor do romance em seu tempo vivido e que ele pretende mostrar aos seus leitores. Desta forma, são romances que nos expõem monstros saídos do sono/sonho da razão, sem dúvida, mas o fazem considerando possibilidades que espreitam perigosamente a humanidade.

O olho do furacão

Nós foi escrito no olho do furacão: em meio às experiências do autor que viveu a revolução russa, a guerra civil e a NEP. O título encaminha a trajetória do leitor frente ao personagem principal, D-503, que se movimenta entre as imposições e regramentos coletivos, definidos pelo Estado Único, e as manifestações incontroláveis de sua consciência e de suas sensações.

O autor viveu a época da vanguarda construtivista russa, cujas utopias articulavam movimentos sociais e artísticos, trabalhadores, poetas, escritores, músicos, fotógrafos e pintores que idealizaram manifestações artísticas para libertar a humanidade da opressão em que vivia.

A arte seria, assim, diluída no processo mesmo de construção da vida, seria marcada pela temporalidade vivida que era revolucionária e exigia comprometimento, mas não supunha silêncio ou servidão.

O principal alerta

Os vanguardistas foram engolidos pelo realismo socialista, e esse talvez o principal alerta de Nós: qual o equilíbrio possível entre os desejos e projetos de futuro e as possibilidades de construção da realidade, como alinhavar propostas e possibilidades, sonhos e ordenamentos racionais? Muito difícil, após ler Nós, considerar os avanços do totalitarismo na Rússia soviética apenas com a ascensão de Stálin, especialmente se lembrarmos os alertas de Rosa Luxemburgo ainda entre 1918 e 1919. Desenhos de totalitarismo se difundiriam pelo século XX, e se espalhariam também nas democracias.

O Conto da Aia e as liberdades fundamentais

O Condo da Aia, de Margareth Atwood, talvez seja uma das melhores expressões desta possibilidade. O livro foi publicado em 1985, em meio aos retrocessos de ordem moral que a era Reagan produziu, e que serviram de cortina para exportar barbarismos contra outros povos em nome de uma liberdade que, mesmo assim, parecia escapar aos americanos.

Conto oferece, a partir da dimensão moralista do período, uma distopia na qual as mulheres são submetidas a controles e comportamentos que negam direitos civis e políticos quando estes, em tese, seriam o fundamento da democracia americana. Mesmo se observarmos que a escrita do livro coincide com os anos finais da guerra fria, não se pode afirmar que se trate apenas de uma crítica relacionada a um possível avanço do mundo comunista sobre o mundo livre.

O romance dialoga com as dúvidas acerca das possibilidades de uma institucionalidade política capaz de conviver com as liberdades fundamentais: essas sempre trazem pluralidade, sentimentos e opiniões partilhados para ajustes de pactos, definições sobre os direitos que historicamente, desde os iluminismos, veem sendo afirmados como da natureza humana. Mas esses são elementos da vida democrática que prescindem da homogeneidade fabulada pelos totalitarismos.

Expressões políticas

Tudo isso, leitor, porque totalitarismos não são apenas possibilidades políticas colocadas pela experiência soviética, nazista ou fascista para manutenção da ordem comunista ou capitalista, são expressões políticas resultantes dos desajustes e sofrimentos humanos vividos quando apartamos espaços de experiência e expectativas de futuro (Koselleck), racionalizações extremadas que buscam controlar sensações, projetos e possibilidades não inteiramente apreensíveis quando se considera a razão como único elemento ordenador da realidade, e quando se esquece o mais relevante da libertação que a razão pode oferecer: a possibilidade de duvidar a partir do conhecimento acumulado e partilhado republicanamente.

Autora: Ana Nemi

Fonte: Livro & Café

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Os comunistas e a maçonaria no Brasil

Em 2022 serão celebradas duas efemérides importantes na História do Brasil. Uma delas é bicentenário de fundação do Grande Oriente do Brasil, primeira e mais antiga obediência maçônica criada no país, em 1822. Além disso, também será celebrado o centenário de fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB), em1922.Embora há décadas a relação entre maçons e comunista seja de tensão, nas primeiras décadas do século XX ambos viviam uma relação de relativa proximidade. Sabe-se que,

no Brasil e outros países da América Latina, muitos viam no republicanismo, no positivismo, no anarquismo, no sindicalismo revolucionário, nas várias vertentes de socialismo e em seguida no comunismo, mas também na Maçonaria e até em religiões com pretendida cientificidade, como o espiritismo, maneiras de se contrapor à ordem estabelecida e de buscar um lugar ao sol na sociedade renovada (RIDENTI, 2010, p. 18-19).

Desde o final do século XIX, alguns segmentos maçônicos, ao se depararem com a questão operária, flertavam com as ideias socialistas então difundidas na Europa. Contudo, não era a tomada do poder pelo proletariado nem a construção de um partido operário o que os maçons ansiavam para o Brasil. O socialismo, para eles,

era aquele que poderia ser obtido pelas vias democráticas, dentro da mais perfeita ordem republicana. Disso se conclui que, em meio à amplitude de sentidos que permeavam as correntes naquele momento, os maçons brasileiros propunham a busca da conciliação entre as classes por meio das melhorias sociais (MOREL; SOUZA, 2008, p. 189).

Desde a década de 1920, há um paulatino afastamento dos maçons em relação às diferentes correntes políticas e teóricas do movimento operário. Nesse período, “as positivas referências maçônicas ao socialismo e às lutas operárias foram escasseando até o seu total desaparecimento” (MOREL; SOUZA, 2008, p. 191). Trata-se de um período de mudanças na organização política dos trabalhadores, na medida em que “o comunismo de cunho revolucionário, em detrimento do anarquismo e do socialismo reformista, impõe-se como ideologia norteadora da atuação política da classe operária” (MOREL; SOUZA, 2008, p. 191).

O período também está marcado pela proibição de maçons nos partidos comunistas na Europa. Em 1917, após a revolução na Rússia, o regime soviético proibiu o funcionamento das lojas maçônicas. Essa política antimaçônica também foi adotada nos partidos comunistas vinculados à Internacional Comunista (IC), cujo IV Congresso, realizado em novembro de 1922, votou pela proibição da adesão à Maçonaria por parte dos membros dos partidos. Nos termos discutidos no congresso, a Maçonaria representava um processo de infiltração da pequena burguesia em todas as camadas sociais e, devido a seu caráter secreto, seria “uma espécie de Estado dentro do Estado” (BENIMELI, 2013, p. 137). No debate acerca do partido francês, do qual um número considerável de membros pertencia a lojas maçônicas, afirmou-se ser lamentável que o partido conservasse,

não apenas a herança psicológica da época reformista, parlamentar e patriótica, como também estabelecesse vínculos bem concretos e comprometedores, por tratar-se da cúpula do Partido, com as instituições secretas, políticas e arrivistas da burguesia radical (INTERNACIONAL COMUNISTA, 1977, p. 278).

Os maçons eram associados, segundo o debate realizado no congresso, à burguesia, portanto, a um inimigo de classe que deveria ser combatido. Nesse congresso, os maçons “foram denunciados como ambiciosos, oportunistas e partidários da colaboração de classes” (BENIMELI, 2013, p. 138). Entre as resoluções finais, o congresso recomendou ao

Comitê Central do Partido comunista francês a tarefa de liquidar, antes de 1º de janeiro de 1923, todos os vínculos do Partido com alguns de seus membros e de seus grupos com a franco-maçonaria. Todo aquele que antes de 1º de janeiro de 1923 não declarar abertamente à sua organização e dado à público através da imprensa do partido sua ruptura total com a franco-maçonaria ficará automaticamente excluído do Partido comunista sem direito a refiliar-se no futuro. O ocultamento de sua condição de franco-maçom será considerado como infiltração no Partido de agente inimigo e recairá sobre este indivíduo uma mácula de afronta pública diante de todo o proletariado (INTERNACIONAL COMUNISTA, 1977, p. 279).

No Partido Comunista do Brasil (PCB), a polêmica mais importante acerca da relação do partido com a Maçonaria terminou com a expulsão de Antônio Bernardo Canellas, em dezembro de 1923. Canellas representou o partido no IV Congresso da IC, cometendo, na interpretação de Carone (1989, p. 113), uma série de erros, “que o marginaliza de outros membros da Internacional e vai provocar embaraço ao PCB”. Entre outras declarações, Canellas afirmou que não caberia ao congresso deliberar sobre a questão da Maçonaria, pois, no seu entendimento, o socialismo seria neutro em questões morais e de caráter privado. Canellas afirmou durante o congresso, em referência ao PCB: “o nosso partido, que conta, entre os seus aderentes alguns bons camaradas maçons, cuja ação pró-revolucionária no seio de sua seita é notável e notória, decerto não julgará de grande urgência a abertura de uma campanha contra a Maçonaria” (CANELLAS, 1982, p. 31). No entendimento de Canellas, o único cuidado a ser tomado seria o de evitar que esses militantes vinculados à Maçonaria ocupassem cargos de responsabilidade política no partido. Segundo Canellas, essa proposta também deveria “ser extensiva aos camaradas católicos, positivistas, protestantes, israelitas etc., que ocupem posições de destaque no seio das suas respectivas seitas” (CANELLAS, 1982, p. 31).

Essas posições são o estopim para que, no congresso não se aprovasse o pedido de adesão do PCB à Internacional Comunista. Na resolução da Internacional Comunista, afirmou-se que o PCB “não é ainda um verdadeiro Partido Comunista”, na medida em que “conserva restos da ideologia burguesa, sustentados pela presença de elementos da Maçonaria e influenciados por preconceitos anarquistas” (CARONE, 1982, p. 33-4). Segundo a resolução, o PCB deveria ser o núcleo que viria a formar “um bom e forte Partido Comunista” (CARONE, 1982, p. 34). Em função disso, aprovou-se que “provisoriamente, o Partido Comunista do Brasil deve ser aceito na Internacional Comunista como partido simpatizante” (CARONE, 1982, p. 34). O PCB somente foi aceito como membro da Internacional Comunista em 1924. Canellas foi expulso do partido em dezembro do ano anterior por publicar sem autorização do partido os documentos referentes à sua participação no congresso da Internacional Comunista (CARONE, 1989, p. 117).

Nos anos seguintes, o aprofundamento da disciplina partidária levaria ao afastamento de importantes dirigentes do partido. Em documento da Internacional Comunista publicado no jornal A Classe Operária de abril de 1930, apontava-se uma série de problemas na política e na organização do PCB. No documento afirmava-se:

Diversos fatos indicam que, no seio do Partido Comunista do Brasil, muito longe estão ainda de compreender a importância da hegemonia do proletariado na revolução democrático-burguesa, e a necessidade absoluta de um partido “independente” do proletariado, para realizá-la. No partido, prega-se abertamente a teoria da “revolução democrática pequeno-burguesa”, sob cuja cobertura “o proletariado poderia preparar-se para a conquista do poder” (camarada Brandão) (INTERNACIONAL COMUNISTA, 1930, p. 3)

O documento criticava abertamente a política que vinha adotando o partido, nos anos anteriores, de aproximação a setores da chamada “pequena-burguesia”, especialmente os tenentistas. Criticava-se se a “direitização” das atividades do partido, sua política de alianças com “elementos da pequena burguesia”, a exemplo do BOC, o que estaria prejudicando “sua independência como condutor da classe operária” (MARQUES NETO, 1993, p. 124). Segundo a análise que vinha sendo defendida pelo partido, considerando os desdobramentos das revoltas militares de 1922 e 1924, “caberia ao partido apoiar os revoltosos pequeno-burgueses”, que colocariam “a burguesia industrial no poder. O passo seguinte seria a tomada do poder pelo proletariado”(SILVA, 2002, p. 63-64).Contudo, no III Congresso do PCB, realizado entre dezembro de 1928 e janeiro de 1929, essas posições foram revistas, reavaliando o “papel desempenhado pela pequena burguesia na revolução democrático-burguesa”(SILVA, 2002, p. 65).Embora o partido mantivesse a caracterização do caráter democrático-burguês da revolução, passava a adotar a avaliação de que “a única classe historicamente habilitada para realizar tal tarefa era a classe operária”(SILVA, 2002, p. 65).O partido deveria se diferenciar da pequena-burguesia, ou, mais precisamente, dos setores identificados como tenentistas. A política do PCB criticada pela IC em 1930 teria se concretizado principalmente por meio do BOC:

O Bloco Operário e Camponês não representa, no Brasil, um partido operário e camponês. Ele não tem nenhuma ligação com a massa camponesa e com o proletariado agrícola. De fato, o Bloco Operário e camponês transformou-se num segundo partido operário, que não faz uma política revolucionária consequente (INTERNACIONAL COMUNISTA, 1930, p. 3).

Nesse sentido, além de modificar sua política, a IC orientava a “depuração” que viria a provocar uma profunda crise no partido. Em âmbito internacional, em nome da “bolchevização”, conduziu-se “em toda sua amplitude a depuração dos elementos dirigentes que, originários da esquerda ou da direita, não se alinham incondicionalmente com a equipe dirigente da Comintern em Moscou” (BROUÉ, 2007, p. 479). Em grande medida a trajetória pessoal desses militantes pareceria ter relevância, sendo excluídos do partido, por exemplo, maçons e aqueles considerados “intelectuais”. No documento a IC propunha-se:

O partido deve depurar resolutamente os quadros dirigentes de todos os elementos liquidacionistas, oportunistas de direita, que se arrastam a reboque da massa e escolher a composição de órgãos dirigentes de modo a assegurar a realização consequente e firme da política proletária revolucionária (INTERNACIONAL COMUNISTA, 1930, p. 3).

O PCB buscou implantar as novas orientações políticas da IC, sendo uma de suas principais ações a desarticulação do BOC. Em outro âmbito, no que se refere ao desligamento de dirigentes que não seriam considerados de confiança da direção internacional, foi publicado no jornal A Classe Operária, no mês de novembro de 1932, um longo artigo no qual se anunciava que o Comitê Central havia votado, “por unanimidade uma resolução expulsando Astrojildo Pereira como traidor e renegado da causa do proletariado” (BRADO, 1932, p. 2). O texto afirma que o ex-secretário geral e fundador do partido teria “passado inteiramente para o outro lado da barricada, para o lado dos nossos inimigos de classe” (BRADO, 1932, p. 2). Nesse partido que buscava “demarcar as fronteiras de classe na luta revolucionária”, chamado por adjetivos como “indivisível”, “monolítico”, “centralizado”, “bolchevizado”, não militavam mais, conforme o texto menciona, nomes como Minervino de Oliveira, Everardo Dias, Freire de Oliveira, Cristiano Cordeiro, Odilon Machado, entre outros (BRADO, 1932, p. 2).

Por sua vez, no interior da Maçonaria, percebe-se uma “guinada conservadora”, que levaria a ordem inclusive a assumir posturas anticomunistas (SILVA, 2015). O movimento de afastamento em relação às diversas correntes do movimento operário redundou em ações de condenação tanto do comunismo como de outras posições consideradas extremistas, tanto à direita como à esquerda. Em 1934, no mesmo documento que se proibia na Maçonaria a presença de membros da Ação Integralista Brasileira (AIB), também se orientava como proceder em relação aos comunistas [1]. Segundo o documento, emitida pelo Grande Oriente do Brasil (GOB), no que se refere ao comunismo seria “preciso distinguir entre os que adotam o materialismo histórico, a dialética marxista, como instrumento, como método de pesquisa, e os que militam no Partido Comunista” (MOREL; SOUZA, 2008, p. 211).

No interior da Maçonaria rapidamente se incorporou o discurso anticomunista, que permeava o conjunto da sociedade e começou a se fortalecer principalmente a partir da década de 1930. O anticomunismo assumiu diferentes características, durante o século XX, marcado pelas características particulares dos grupos e lugares sociais em que foi elaborado e reelaborado, sendo possível falar de vários “anticomunismos”. Sabe-se que o anticomunismo se constitui,

antes que um corpo heterogêneo, uma frente reunindo grupos políticos e projetos diversos. O único ponto de união é a recusa ao comunismo, em tudo o mais impera a homogeneidade. Se esta diversidade muitas vezes passa despercebida, isto se deve ao fato de que, nos momentos de conflito agudo, os diversos tipos de anticomunismo se uniram contra o inimigo comum (MOTTA, 2002, p. 15).

O anticomunismo se marca algumas das posições defendidas pela Maçonaria no período. Em documento publicado em 1937, pelo GOB, reafirmava-se o caráter da Maçonaria como “instituição eminentemente nacionalista”, destacando seu combate aos “desalmados inimigos da ordem e do regime, da família e da nação” e criticando as doutrinas “antinacionais” e “oriundas de inspiração estrangeira” (MOREL; SOUZA, 2008, p. 212). O anticomunismo apresentava o comunismo como “o inimigo, o estrangeiro, o ‘outro’ que ameaçava despedaçar a unidade do corpo nacional”, sendo atitudes inaceitáveis “o discurso internacionalista dos comunistas e sua vinculação ao Estado soviético” e devendo a defesa da nação e da unidade nacional “estar acima de quaisquer considerações, fossem elas de natureza social, econômica ou política, e os valores nacionais não poderiam jamais ser suplantados por uma ordem internacional”(MOTTA, 2002, p. 31-32).

Com a crescente influência da Guerra Fria, a Maçonaria, bem como o restante da sociedade, viu-se cada vez mais assombrada pelo suposto “perigo vermelho”. Em função disso, no ano de 1949, o GOB publicou novas orientações para lidar com os comunistas, proibindo “a iniciação de elementos que professavam a ideologia comunista, recomendando a máxima severidade nas sindicâncias, de forma a evitar o ‘ingresso de elementos totalitário’ entre os irmãos” (MOREL; SOUZA, 2008, p. 228). Esse rumo conservador consolidou-se nas décadas seguintes, materializando-se principalmente no apoio maçônico ao golpe civil-militar de 1964. No contexto do golpe, ainda que houvesse tensões internas na Maçonaria, produto de uma suposta política de infiltração comunista na instituição, o seu contingente mais numeroso se opunha aos setores de esquerda. Esses maçons, segundo José Castellani,

defendendo os valores básicos da cultura e do meio social brasileiros, além da tradição maçônica, que fez uma Instituição de cunho político, mas sem ser ligada a qualquer corrente partidária, passou a lutar ativamente pela legalidade constitucional, ameaçadas pelos propósitos continuístas do presidente da República (CASTELLANI, 2001, p. 154).

Identifica-se, assim, uma mudança na relação entre maçons e comunistas ao longo do século XX. Na Primeira República parecia haver certa confluência entre essas e outras experiências organizativas, materializada na defesa da ampliação de direitos políticos e sociais. O anticlericalismo unia diferentes correntes no sentido de construção dos diversos modelos propostos para a República, fazendo com que, entre o fim do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX, fosse possível identificar grupos em que se articulavam anticlericais, liberais, abolicionistas, anarquistas, socialistas, positivistas, espíritas, maçons, comunistas, entre outros. Para esses setores, o ponto comum era o combate à ordem vigente e a luta por uma sociedade diferente, tendo, para isso, de enfrentar inimigos que exerciam influência sobre a nascente República, como as oligarquias rurais ou mesmo o clero católico.

Outro fator que pode explicar a aproximação entre maçons e socialistas passa, por um lado, pela frágil penetração do marxismo no Brasil e, por outro, pelo desconhecimento dos fatos que se relacionam à Revolução Russa. Nas primeiras décadas do século XX, não havia por parte dos marxistas uma análise teórica consistente acerca do Brasil que pudesse confrontar-se com as demais correntes no embate por um projeto de nação ou de classe. Por outro lado, as contraditórias e escassas informações acerca da Revolução Russa paulatinamente deram lugar ao combate ideológico promovido pelos setores conservadores. Esses setores procuraram se diferenciar da forma mais clara possível da estratégia política dos comunistas, ou seja, a derrubada do capitalismo e a construção do socialismo. Portanto, quando os comunistas mostraram de forma mais clara suas estratégias políticas, que passavam pela transformação radical da sociedade a defesa da revolução, levaram a cisões e polêmicas entre as diferentes correntes política e teóricas que até então viviam em relativa harmonia. Os embates políticos por uma nova sociedade criaram, assim, tanto inimigos como aliados ao longo do século XX.

Autor: Michel Goulart da Silva*

Fonte: Boletim de Conjuntura, ano IV, vol.9, n.26, Boa Vista, 2022.

* Michel é pós-doutorando no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Técnico em assuntos educacionais no Instituto Federal Catarinense (IFC). Este ensaio parte de temas antes discutidos em Silva (2014; 2016).

Nota

[1] – O integralismo é uma doutrina política tradicionalista, conservadora e de cunho religioso, que, entre outras coisas, defende que uma sociedade só pode funcionar com ordem e paz, com respeito às hierarquias sociais e com harmonia e união. Esse movimento político conservador, que se identificou inclusive com o fascismo, teve seu auge em meados da década de 1930.

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Referências

BENIMELI, José Ferrer. La masonería. Madrid: Alianza, 2013. BRADO. “O astrojildismo e a luta pela formação do partido do proletariado”. A Classe Operária, ano VIII, n.145, novembro, 1932. BROUÉ, Pierre. História da Internacional Comunista (1919-1943), tomo 1. São Paulo: Sundermann, 2007.CANELLAS, Antônio Bernardo. “Relatório de viagem à URSS”. In: CARONE, Edgard (org.). O PCB (1922-1943). São Paulo: Difel, 1982.CARONE, Edgard. Classes sociais e movimento operário. São Paulo: Ática, 1989, p. 113.CARONE, Edgard (org.). O PCB (1922-1943). São Paulo: Difel, 1982, p. 33-4. CASTELLANI, José. Ação secreta da maçonaria na política mundial. São Paulo: Landmark, 2001.INTERNACIONAL COMUNISTA. Los Cuatro Primeros Congresos de la Internacional Comunista, vol. 2. México: Pasado y presente, 1977.INTERNACIONAL COMUNISTA. “Resolução da Internacional Comunista sobre a situação brasileira”. A Classe Operária, n. 89, abril,1930. MOREL, Marco; SOUZA, Françoise Jean de Oliveira. O poder da maçonaria: a história de uma sociedade secreta no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.MARQUES NETO, José Castilho. Solidão revolucionária: Mário Pedrosa e as origens do trotskismo no Brasil. São Paulo: Paz e Terra, 1993.MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em guarda contra o “Perigo Vermelho”: o anticomunismo no Brasil (1917-1964). São Paulo: Perspectiva, 2002.RIDENTI, Marcelo. Brasilidade revolucionária: um século de cultura e política, São Paulo: Editora UNESP, 2010.SILVA, Angelo José da. Comunistas e trotskistas: a crítica operária à Revolução de 1930. Curitiba: Moinho do Verbo, 2002.SILVA, Michel Goulart da. “Uma análise da historiografia acerca da trajetória de Everardo Dias”. Revista de Estudios Historicos de la Masonería Latinoamericana y Caribeña, n.6, 2014.SILVA, Michel Goulart da. Entre a foice e o compasso: imprensa, socialismo e maçonaria na trajetória de Everardo Dias na Primeira República (Tese de Doutorado em História). Florianópolis: UFSC, 2016. SILVA, Michel Goulart da. Maçonaria no Brasil: história, política e sociabilidade. Jundiaí: Paco Editorial, 2015.

Por que você é maçom?

Eu cresci em um lugar onde a Maçonaria era ilegal – proibida. Poderia significar até mesmo prisão. Às vezes se cochichava cautelosamente que esse grande poeta ou aquele escritor, filósofo ou figura de destaque na história era membro de uma loja, sem entrar em detalhes sobre o que isso significava. Isso deixou minha mente jovem, curiosa – embora não houvesse lugar onde procurar respostas. Além disso, eu não vinha de uma família com a formação habitual de ser maçom. Meus ancestrais eram principalmente camponeses da Transilvânia, comerciantes, pequenos empresários, pessoas simples, trabalhadoras – e os maçons na Europa Oriental, tradicionalmente, eram intelectuais, aristocratas, burgueses ricos, profissionais, artistas. Nunca trabalhadores sem nome! Por acaso, este filho de um comerciante habilidoso e neto de camponeses tornou-se um membro notável dessa classe conhecida como “intelligentsia “: o primeiro graduado universitário de toda a grande família; e o primeiro homem a ganhar a vida através do trabalho intelectual: ensinando, escrevendo jornais, escrevendo e traduzindo livros.

Com o passar do tempo, aprendi mais e mais sobre a história da Arte na minha Transilvânia natal, e na Hungria (para onde me mudei no final dos anos oitenta). Em meus anos de jornalista, uma vez entrevistei o Grão-Mestre da Grande Loja Simbólica da Hungria – eu simplesmente não sabia com quem estava falando na época. Foi, provavelmente, um dos primeiros artigos de jornal falando abertamente sobre maçons na época do colapso dos regimes comunistas no Bloco do Leste Europeu [1]. Para meu interesse pessoal, até consegui alguns folhetos “reimpressos” para aqueles que buscavam a luz, mas não agi de acordo com eles. Pensando bem, eu não estava pronto.

Durante um jantar de feriado nacional [2] em Budapeste, sentei-me ao lado do marido da diretora do Concerto Festivo no teatro da cidade. O homem usava um pequeno broche na lapela. Quando olhei de perto, ele me disse que era um maçom. E ele me colocou em contato com o mais maravilhoso mentor e professor maçônico que alguém poderia desejar, um ex-Grão-Mestre da Grande Loja [3], Ir. István Galambos. Eu tinha centenas de perguntas e ele era um baú do tesouro em se tratando de conhecimento maçônico; ele podia conversar e dar palestras sobre tópicos maçônicos em pelo menos quatro idiomas. Além disso, teve a paciência de responder todas as minhas perguntas bobas, incentivando minha busca e dando um exemplo de estimular o buscador de luz e (mais tarde) o novato Aprendiz e Companheiro Maçom.

Eu sou um aficionado por história e um pensador racional, eu acho. Como percebi mais tarde, todas as camadas românticas, ocultistas e pomposas do século XIX que foram introduzidas em muitos ramos da “maçonaria” por diferentes autores com grande imaginação (reivindicando raízes antigas e conhecimentos mágicos) poderiam ter me afastado sem ter a chance de conhecer a beleza da simplicidade das lojas maçônicas. Por outro lado, os ideais originais estabelecidos na Era do Iluminismo, muito antes da existência de “Antigos” e “Modernos” (e da reunião décadas depois) entre as grandes lojas e sistemas e rituais ingleses rivais, aqueles ideais de razão, conhecimento, ciência, liberdade e igualdade de homens, representavam uma “coisa” irresistível – eu queria fazer parte daquilo! Meu antigo mentor entendia perfeitamente o que me atraía. Ele me deu livros e então eu conversava com ele sobre o que aprendi com a leitura daquelas obras; ele aproveitou o tempo para se sentar comigo para longas discussões sobre a história muito complicada da Maçonaria Húngara e as diferentes tradições que herdamos de diferentes épocas e, acima de tudo, ele foi um exemplo perfeito de tolerância, bondade, conhecimento e virtude maçônicos.

Na primeira vez, fui ao meu futuro mentor com uma intenção maluca de me inteirar sobre o que é a maçonaria (decidirei mais tarde, disse a mim mesmo). O exemplo do sábio irmão mais velho, como maçom, homem íntegro, seu jeito de ser, deu-me o último impulso; se os maçons são como este homem, eu quero ser um! Além disso, o que eu já sabia sobre tantos grandes luminares da nossa história, que eram maçons. É difícil até mesmo tentar explicar em uma língua estrangeira esse sentimento estranho e orgulhoso para aqueles que não estão familiarizados com minha origem (húngara): tornar-se membro de uma loja maçônica, que foi proibida pelos regimes de extrema direita e esquerda [4] e ditaduras dos últimos duzentos anos, e tornar-se descendente virtual desses grandes homens que moldaram a história e a cultura de nossa nação, tentando trazer uma pequena e humilde contribuição para a conclusão do edifício que começaram a construir.

Uma primeira tarefa mundana que me foi dada, por sugestão de meu querido mentor, foi catalogar a pilha de livros e o número cada vez maior de revistas maçônicas que a nova Grande Loja estava recebendo de lojas fraternas amigáveis ​​e mais ricas e irmãos do exterior. De alguma forma, eles perceberam que minha clássica bolsa de estudos me predestinava a trabalhar com livros (em muitas línguas), então comecei a cumprir meu dever. E duas coisas inesperadas aconteceram: do nada, fui nomeado “Grande Bibliotecário” e, logo depois, passei mais tempo lendo e aprendendo do que catalogando o material impresso em nossa biblioteca. Eu nem sabia que existia tal título ou cargo, e me senti completamente desajeitado entre todos aqueles ilustres senhores mais velhos que mantiveram a luz secretamente viva durante os 40 anos no deserto (como carinhosamente chamavam os anos de ilegalidade), todos os oficiais importantes da Grande Loja – e eu, um Companheiro recém-elevado, mal terminei meu ano de aprendizado, sentado com eles ao redor da mesa nas reuniões da Grande Loja. Ah, a gente tinha que ficar pelo menos um ano em cada curso para aprender as coisas, não tinha pressa… mas eles levavam a igualdade a sério! Provavelmente, não serei lembrado como o notável bibliotecário de todas as coisas maçônicas. Mas não tenho palavras para agradecer a tarefa que me deram de catalogar e organizar todas essas publicações. Era minha “universidade” maçônica – um dia passei horas lendo e tentando entender tudo, no dia seguinte visitei meu bom e velho irmão homônimo e o bombardeei com perguntas. Espero que ele tenha ficado orgulhoso, visto que meu conhecimento continuou crescendo, meu entendimento se aprofundando e, esperançosamente, meu jeito de ser mais maçom.

Enquanto era Companheiro, viajei para terras estrangeiras, assim como os companheiros medievais iam de guilda em guilda, e mais tarde um dia desembarquei no Canadá, já como Mestre Maçom, onde continuei minha jornada maçônica em outro idioma com novos irmãos, mas no mesmo espírito. Ainda uso um broche na lapela porque quero dar a chance a qualquer um que possa ter um interesse genuíno e a disposição de se tornar um maçom, de ter alguém a quem perguntar. Ainda penso com frequência no meu mentor (que partiu para o Grande Oriente) quando tenho que tomar uma decisão na minha vida e fora da loja. Eu nem sonho em conseguir o que ele fez, mas posso tentar ser um maçom digno.

Sou maçom porque nunca conheci homens melhores do que maçons. Sou maçom porque quero viver como maçom.

Autor: Istvan Horvath
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: The Other Mason

*Horvath é Mestre Maçom, Maçom do Arco Real, membro da Philaletes Society, do Quatuor Coronati Correspondence Circle e da Scottish Rite Research Society. 

Notas

[1] – 1989-1990 

[2] – 23 de outubro: em 1956 a revolta antissoviética começou neste dia 

[3] – A Grande Loja Simbólica da Hungria foi reconstituída em 27 de dezembro de 1989 e seu primeiro Grão-Mestre foi o Ir. Istvan Galambos.

[4] – A primeira loja no Reino Húngaro foi formada na cidade de Brassó/Brașov/Kronstadt (nomes Hu/Ro/De) na Transilvânia no ano de 1749. O imperador José II então baniu a Maçonaria em 1795 em todo o território dos Habsburgo Império. Em 1868, uma loja foi oficialmente estabelecida em Budapeste, que foi reconhecida pela UGLE no ano seguinte. A Maçonaria na Hungria teve sua ‘idade de ouro’ entre 1886-1919, quando se tornou ilegal novamente. Após a Segunda Guerra Mundial, foi reiniciada em 1945, mas as novas autoridades comunistas proibiram sua atividade logo após cinco anos em 1950 e foi proibida até 1989. 

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Revista Libertas Nº 26 – edição julho/setembro

Caríssimos leitores,

Já está disponível no blog O Ponto Dentro do Círculo a edição nº 26 da revista Libertas, uma publicação da Academia Mineira Maçônica de Letras.

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Fraternalmente,

Luiz Marcelo Viegas

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2 milhões de visualizações!

Prezados leitores,

Em outubro nossa página alcançou a marca de 2 milhões de visualizações! Esse número é motivo de orgulho e celebração!

Nesses sete anos e mais de existência, vocês fizeram d’O Ponto Dentro do Círculo um dos blogs maçônicos mais visitados do Brasil, proporcionando também uma significativa audiência na Europa, América do Sul e do Norte, África, Ásia e Oceania.

Quero deixar registrado o meu muito obrigado a cada um dos leitores que nos acompanham durante esses anos. Agradeço especialmente aos colaboradores que já ajudaram e aos que ainda contribuem para a manutenção do blog. A colaboração de vocês é essencial para nossa página permanecer ativa.

Fraternalmente,

Luiz Marcelo Viegas

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1717 e tudo aquilo… (Parte IV)

IV

Sentimos que já dissemos o suficiente para substanciar a visão de que a história de Anderson é fabricada e que as descrições dos eventos por Stukeley e no Livro E são mais prováveis de serem confiáveis. No entanto, durante discussões recentes, várias outras objeções e questões surgiram e gostaríamos de concluir examinando-as brevemente.

Em um discurso à Grande Loja em 14 de junho de 2017 [91], John Hamill sugeriu que o pós-escrito nas Constituições de 1723 com uma ordem de constituição de uma nova loja reimpresso nas Constituições de 1738 foi introduzido por George Payne e mostra a Grande Loja agindo como um órgão regulador em 1720. Isso está errado. As Constituições de 1723 descrevem este documento como ‘A Maneira de Constituir uma Nova Loja, conforme praticado por Sua Graça o Duque de Wharton, o atual Venerável Grão-Mestre, de acordo com os antigos usos dos maçons’ [92]. Isso o data claramente como 1722-3. Nas Constituições de 1738 isso é descrito como ‘A Antiga Maneira de Constituir uma Loja’ [93]. Não há nada em qualquer lugar que sugira que este documento date de 1720.

No mesmo discurso, John Hamill afirma que O Livro M ou Maçonaria Triunfante publicado por Leonard Umfreville em Newcastle em 1736 inclui um relatório de uma assembleia da Grande Loja em 1720 na qual um conjunto de regras elaborado por George Payne foi aprovado [94]. John afirma que estes formavam a base das regras impressas pela primeira vez nas Constituições de 1723. Novamente, isso está errado. O Livro M tem um prefácio assinado por W. Smith, aparentemente o autor do Pocket Companion 1735, o livro sobre o qual Anderson reclamou à Grande Loja. Waples afirma que Smith foi iniciado no Harodim na Swalwell Lodge em 1733 [95]. O Livro M compartilha uma grande quantidade de material dentro do Pocket Companion. Nenhum dos livros contém qualquer relato de uma assembleia da Grande Loja em 1720. As regras reproduzidas em ambos os volumes são descritas como ‘Regulamentos Gerais para o Uso de Lojas em e cerca de Londres e Westminster, sendo primeiro aprovado pela Grande Loja, no dia 24º de junho de 1721, no Stationers’ Hall, Londres, quando o nobilíssimo Príncipe John, duque de Montagu foi eleito Grão-Mestre por unanimidade’. Afirma-se que esses regulamentos foram ‘propostos pela Grande Loja, a cerca de 150 irmãos, no dia de São João Batista, 1721’. Na verdade, essas regras são, palavra por palavra, os regulamentos impressos nas Constituições de 1723. O Livro M é uma pista falsa.

Foi precisamente a adoção desses regulamentos em resposta à renúncia a privilégios pelas lojas de Londres em 24 de junho de 1721 que criou a Grande Loja. John Hamill expressou dúvidas de que a Grande Loja pudesse ter sido criada repentinamente desta forma, “como Atenas saltando totalmente armada da cabeça de Zeus”, mas os clubes e sociedades do século XVIII eram notáveis por sua prolífica geração de regras e regulamentos, e por um funcionário público como George Payne, a redação dos regulamentos para a nova Grande Loja em junho de 1721 teria sido sopa no mel.

É impressionante que o Pocket Companion e Livro M não mencionem George Payne em relação a esses regulamentos. Anderson afirma nas Constituições de 1723 que esses regulamentos foram ‘Compilados primeiro pelo Sr. George Payne, Anno 1720, quando era Grão-Mestre’ [96]. Seria tentador rejeitar isso como outro erro de Anderson, exceto que Stukeley também se refere a Payne como Grão-Mestre em seu relatório da reunião de 1721. Isso sugere que Payne adotou o posto de Grão-Mestre ao organizar e presidir a reunião de 1721, mas não mostra que existia uma Grande Loja antes de junho de 1721 ou que ela exercia qualquer autoridade reguladora.

Outra objeção, levantada por David Harrison, é que os rivais da Grande Loja de Londres em York certamente teriam dito algo se informações falsas estivessem circulando sobre a fundação da Grande Loja. Novamente, o ponto vital é que Sir Francis Drake e a Grande Loja de toda a Inglaterra não estavam interessados em assuntos da história recente. Eles estavam ansiosos para mostrar, nas palavras de Sir Francis Drake, que ‘a primeira Grande Loja, jamais mantida na Inglaterra, foi realizado nesta cidade [de York]; Onde Edwin, o primeiro rei cristão da Nortumbria, cerca do ano 600 após Cristo … sentou-se como Grão-Mestre’ [97]. Anderson se opôs a isso ao reivindicar que Santo Agostinho de Cantuária foi o primeiro Grão-Mestre da Inglaterra, mas a Grande Loja de York rebateu reivindicando o direito de ser a Grande Loja de toda a Inglaterra, ecoando as palavras tradicionalmente usadas pelo Arcebispo de Canterbury para reivindicar primazia sobre York.

Provavelmente havia razões mais imediatas pelas quais Drake e seus irmãos em York não teriam se preocupado com a história de 1717. Os editores das Constituições de 1738, Richard Chandler e Caesar Ward, estavam tentando se estabelecer em York. Ward tinha se mudado para York em 1736 e se tornado um homem livre da cidade em 1736 [98]. Ward e Chandler assumiram a falida York Courant de Alexander Staples em 1739 enquanto lançavam o Livro das Constituições no mercado. Ward tornou-se amigo íntimo de Sir Francis Drake, que depois trabalhou com Ward no vasto História Parlamentar ou Constitucional de Inglaterra. Ward envolveu-se fortemente na política local e foi eleito um vereador comum do distrito de Bootham em 1740. Não se sabe se ele era membro de uma loja em York, mas isso parece possível. Esses vários links teriam desencorajado Sir Francis Drake de criticar a nova publicação de seu amigo.

Se aceitarmos que a Grande Loja foi criada em junho de 1721, então a visita de Desaguliers a Edimburgo em agosto de 1721 assume um novo significado. O pretexto do convite de Desaguliers à cidade foi usar sua expertise em hidráulica para assessorar no abastecimento de água [99]. No entanto, isso também deu a Desaguliers a oportunidade de realizar algumas averiguações maçônicas para a nova Grande Loja. Ele visitou a Loja St Mary’s Chapel em Edimburgo em 24 de agosto de 1721, onde foi descrito nas atas como ‘Doutor John Theophilus Desaguliers, membro da Royall Societie e Capelão em Ordinário de Sua Graça James Duque de Chandois, falecido Mestre Geral das Lojas Maçônicas na Inglaterra’ [100]. Esta frase ambígua ‘Mestre Geral’ poderia ser interpretada como uma indicação de que Desaguliers tinha sido o Grão-Mestre, mas se sim, por que esse termo não é usado? Parece mais provável que Desaguliers indicou de alguma maneira geral que ele tinha algum tipo de autoridade mais ampla entre as lojas inglesas. A Loja de Edimburgo o considerou “devidamente qualificado em todos os pontos da Maçonaria”, mas eles só poderiam testar seus conhecimentos nos primeiros dois graus. Eles não tinham como estabelecer se alguém tinha sido Grão-Mestre ou não.

Talvez a maior surpresa na ata no Livro E seja a declaração de que o Duque de Wharton estava presente no Stationers’ Hall para a instalação de Montagu em junho de 1721. Isso sugere que a criação da Grande Loja pode ter sido algo como um empreendimento conjunto entre Montagu e Wharton. Entre as outras pessoas distintas listadas no Livro E como presentes no Stationers’ Hall estava Lord Hillsborough, um amigo próximo do Duque de Wharton, e os parlamentares Whig Lord Hinchingbrooke, Sir George Oxenden e Sir Robert Rich. A objeção mais substancial à exatidão das atas do Livro E é que sabemos que Wharton não era maçom em 24 de junho de 1721. Uma reportagem de jornal de 5 de agosto de 1721 descreveu como ‘Na semana passada, Sua Graça, o Duque de Wharton, foi admitido na Sociedade dos Maçons; as cerimônias sendo realizadas na taverna King’s-Arms em St. Paul’s Church-Yard, e sua Graça voltou para sua casa em Pall-Mall em um avental de couro branco [101]. Então, como Wharton pôde estar presente na instalação da Montagu um mês antes?

A resposta parece ser que o evento no Stationers’ Hall não se restringiu a maçons. Uma outra reportagem de jornal em 12 de agosto de 1721 dizia que na semana anterior Hinchingbrooke, Oxenden e Rich também se tornaram maçons na taverna King’s Arms [102]. A iniciação de Hinchingbrooke também é confirmada por Stukeley, que se refere à sua visita à sua loja na taverna Fountain. Isso pode explicar por que não há mais nenhum registro da adesão maçônica de outras pessoas registradas como estando presentes neste evento, tais como Lord Pembroke e Sir Andrew Fountaine. O fato de que havia vários não-maçons proeminentes presentes no Stationers Hall em 1721 levanta mais dúvidas sobre a história de Anderson. Como Anderson afirmou que a Grande Loja já existia, ele afirma que os irmãos foram instruídos a excluir estranhos da assembleia. No entanto, sabemos que havia não-maçons lá. Isso mina ainda mais a credibilidade da descrição de Anderson da instalação de Montagu em 1721. Anderson retrata o evento como um em que apenas maçons estiveram presentes. Como resultado, ele teve que inserir uma lengalenga elaborada e não convincente afirmando que Chesterfield foi iniciado na taverna King’s Arms antes da festa no Stationers’ Hall e que houve então uma procissão da taverna até o jantar.

No final do dia, isso importa? Afinal, estamos discutindo apenas cerca de quatro anos. Que diferença faz se dissermos 1717 ou 1721? Em si, não é grande coisa, mas o ponto importante é que ao investigar essas questões estamos melhorando nosso entendimento do contexto social, político e cultural da maçonaria no início do século XVIII. Se acreditarmos que a Maçonaria desempenhou um papel significativo na sociedade e que um período em que a Maçonaria fez uma contribuição particularmente importante para o desenvolvimento humano que foi o Iluminismo, então a exploração da forma como a Maçonaria emergiu de uma forma moderna nas tabernas e cafés de Londres é um assunto importante e urgente.

FINIS (?)

Autores: Andrew Prescott e Susan Mitchell Sommers
Traduzido por: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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Notas

[91] ‘1717 – Formation and Foundation: John Hamill on 300 Years of Freemasonry’, Freemasonry Today, 14 June 2017: http://www.freemasonrytoday.com/ugle-sgc/ugle/speeches/1717-formation-and-foundation-john-hamill-on-300-years-of-freemasonry

[92] 1723 Constitutions, p. 71.

[93] 1738 Constitutions, p. 149.

[94] John Hamill afirma que o Livro M é muito raro e, de fato, a única cópia listada no ESTC está na Biblioteca Central de Newcastle. Existem cópias na Biblioteca e Museu da Maçonaria (BE 98 SMI) e na Biblioteca J. Willard Marriot da Universidade de Utah. A cópia de Utah está disponível online (https://collections.lib.utah.edu/details?id=239506) e trechos da cópia na Biblioteca e Museu da Maçonaria são editados com uma introdução detalhada por J.A.M. Snoek em R. Peter, Maçonaria Britânica 1700-1813 (Routledge, 2016).

[95] W. Waples, ‘An Introduction to the Harodim’, AQC, 60 (1947), pp. 118–98, on p. 139.

[96] 1723 Constitutions, p. 58.

[97] Knoop, Jones and Hamer, Early Masonic Pamphlets, p. 205.

[98] Ferdinand, ‘Economics of the Eighteenth-Century Provincial Book Trade’, pp. 44-6.

[99] Carpenter, John Theophilus Desaguliers, pp. 140-1.

[100] Carpenter, John Theophilus Desaguliers, pp. 100-1.

[101] Applebee’s Original Weekly Journal, 5 August 1721, printed in Robert Peter, British Freemasonry, 1717-1813.

[102] Weekly Journal or Saturday’s Post, 12 August 1721, printed in Peter, British Freemasonry, 1717-1813.

1717 e tudo aquilo… (Parte III)

Duque de Wharton

O duque de Wharton foi uma das figuras mais carismáticas e polêmicas da época. O Livro E da Loja de Antiguidade afirma que ele estava presente em Stationers’ Hall quando Montagu foi instalado como Grão-Mestre e ele o sucedeu. Wharton conquistara grande popularidade com seus discursos na Câmara dos Lordes e, quando George I o criou duque em 1719, ele foi o mais jovem a receber tal honra fora da família real imediata desde a Idade Média. No entanto, ele também aceitou um ducado do Velho Pretendente. Ele liderou um pequeno, mas eficaz grupo de whigs (progressistas) que se opunha a Walpole, mas seu comportamento temerário o levou a uma série de crises pessoais e financeiras e ele acumulou dívidas paralisantes. Ele foi o fundador e presidente do notório Hellfire Club de 1719-23. Em maio de 1723, ele se tornou o principal defensor público do bispo jacobita de Rochester Francis Atterbury e fez um discurso apaixonado em sua defesa. Em 1725, em parte para escapar de seus credores, ele aceitou uma nomeação como diplomata jacobita em Viena e foi para o exílio. Ele se tornou católico romano em 1726.

Nas Constituições de 1738, Anderson descreve a eleição de Wharton como Grão-Mestre em 1722 como completamente irregular [53]. Ele afirma que Montagu considerara permanecer como Grão-Mestre e que “os melhores” tentaram adiar a festa anual. Mas Wharton, que Anderson diz ter ‘sido recentemente feito maçom, embora não o Mestre de uma Loja’, fez com que vários outros se reunissem com ele em Stationers’ Hall. Anderson afirma que nenhum Grande Oficial esteve presente nesta reunião, então a reunião foi presidida pelo mestre maçom mais antigo, que proclamou Wharton Grão-Mestre, “sem os cerimoniais usuais”. Anderson prossegue afirmando que nenhum Deputado foi nomeado e que a Grande Loja não foi aberta e fechada na devida forma. De acordo com Anderson, os irmãos dignos que não aceitaram irregularidades se recusaram a reconhecer a autoridade de Wharton. Eventualmente, afirma Anderson, Montagu curou a violação convocando uma Grande Loja em 17 de janeiro de 1723, na qual o ex-adjunto de Montagu, Beal, proclamou Grande Mestre Wharton, que nomeou Desaguliers como Grão Mestre Adjunto e Anderson como um dos Grandes Vigilantes.

Isso é do começo ao fim um monte de mentiras, com o objetivo de distanciar a Grande Loja, e Desaguliers em particular, da mancha de associação com Wharton, que na época de sua morte em 1731 era um pária que havia ofendido até mesmo os jacobitas. Wharton não fora nomeado maçom recentemente; relatos da imprensa afirmam que ele foi feito maçom na taverna King’s Arms (perto da Goose and Gridiron) no final de julho de 1721 [54]. Relata-se Wharton como Mestre desta loja em 1725 [55], e parece provável que ele tenha sido Mestre por algum tempo anteriormente. A festa anual de 25 de junho de 1722 não foi convocada de forma irregular. Temos cópias dos bilhetes gravados para a festa emitidos em nome de Montagu [56], e ‘a Grande Assembleia da mais nobre e antiga fraternidade dos Maçons Livres’ fora amplamente anunciado na imprensa [57]. Isso mostra que, caracteristicamente, Anderson errou a data da reunião.

Os relatos da imprensa sobre a assembleia não sugerem que tenha havido polêmica sobre a instalação de Wharton. Eles afirmam que cerca de 500 irmãos compareceram à festa e que Wharton foi eleito para suceder Montagu por unanimidade [58]. Acima de tudo, duas reportagens da imprensa declaram que Desaguliers foi nomeado grão-mestre adjunto na festa [59]. Isso contradiz a afirmação de Anderson de que nenhum Grão-Mestre Adjunto foi nomeado e que Desaguliers só foi nomeado alguns meses depois. Não há nenhuma sugestão nestas reportagens de imprensa de qualquer irregularidade. Posteriormente, Robert Samber descreveu este Grande Banquete em sua tradução de uma obra ‘O Louvor à Embriaguez’ [60]. Sua descrição de montanhas de pastéis de veado, presuntos da Westfália, galinhas, salmão e pudim de ameixa, com copiosas libações de vinho, iluminando os rostos dos maçons com um brilho avermelhado enquanto Wharton brindava ao rei e à família real, à igreja estabelecida, à prosperidade da Inglaterra, e o amor, a liberdade e a ciência, recebido com altos huzzas, está muito longe da descrição de Anderson de uma reunião ilícita convocada às pressas. Samber observa como uma pessoa de grande Gravidade e Ciência (presumivelmente Desaguliers) repreendeu a orquestra por tocar a canção jacobita “Let the King Enjoy His Own Again”, mas para Samber isso simplesmente ilustrou como a reunião evitou falar de política e religião.

Pouco antes de sua assembleia final da Grande Loja em junho de 1723, Wharton emergiu como o principal defensor do conspirador jacobita Francis Atterbury, se despedindo do desgraçado bispo ao partir para o exílio, presenteando-lhe com uma espada e nomeando Atterbury capelão de sua casa [61]. Wharton também havia lançado no início de junho um jornal chamado O Verdadeiro Bretão [62], e apoiou ativamente dois candidatos jacobitas para o cargo de xerife de Londres. Anderson sugere que a reunião no Merchant Taylor’s Hall em 24 de junho de 1723 transcorreu sem incidentes, mas a ata conta uma história diferente. Não somente a aprovação das Constituições de 1723 foi colocada em dúvida, mas Wharton, como Grão-Mestre de saída, fez uma tentativa de impedir a nomeação de Desaguliers como Grão-Mestre Adjunto para o ano seguinte [63]. Conforme Anderson relatou em uma carta a Montagu, ‘o D de W se esforçou para nos dividir contra o Dr. Desaguliers (a quem o conde [de Dalkeith] nomeou como adjunto antes de sua senhoria deixar Londres), de acordo com um concerto do dito D[u]que a alguns ele persuadiu a se juntar a ele’ [64]. Mais uma vez, é impressionante como Anderson denigre Wharton – a votação para aprovar a nomeação de Desaguliers foi 43 a favor e 42 contra, sugerindo que as opiniões sobre Desaguliers eram igualmente divididas. Enfurecido com a reeleição de Desaguliers, Wharton deixou o salão bufando, sem as cerimônias habituais.

O principal beneficiário do relato inventado de Anderson sobre o grão-mestrado de Wharton foi Desaguliers. Como refugiado huguenote e calvinista convicto, Desaguliers ficaria horrorizado se seu nome fosse vinculado a Wharton, e estava ciente de que as ações de Wharton colocavam em questão sua renomeação como Grão-Mestre Adjunto em 1723. A falsa narrativa de Anderson retratava Desaguliers como um protegido do duque de Montagu, resistindo às ações irregulares de Wharton. No entanto, isso criou um problema, pois sugeria que a própria nomeação de Desaguliers como Grande Mestre Adjunto era duvidosa. Uma maneira fácil de resolver esse problema era alegar que Desaguliers havia sido Grão-Mestre por seus próprios méritos em 1719. A ideia para isso provavelmente veio do próprio Desaguliers. As atas começam a se referir a ele como antigo Grão-Mestre em novembro de 1728, a primeira vez que ele aparece na Grande Loja após completar seu terceiro mandato como Grão-Mestre Adjunto, e provavelmente pareceu-lhe uma maneira adequada de reconhecer sua antiguidade no ofício.

Anderson ficou tão magoado com as controvérsias em torno das Constituições de 1723 e com a última resistência de Wharton na Grande Loja que não compareceu à Grande Loja por mais sete anos. No entanto, ele tomou o cuidado de garantir que seu trabalho nas Constituições fosse lembrado, presenteando uma cópia à Biblioteca Bodleian em Oxford em 1 de julho de 1723 com uma inscrição em latim abundante afirmando que este humilde livro foi doado à renomada Biblioteca Bodleian, por seu autor James Anderson, do London Master of Arts da University of Aberdeen [65].

Anderson reapareceu na Grande Loja em agosto de 1730, possivelmente motivado pelo escândalo causado pela publicação de Maçonaria Dissecada que Desaguliers denunciou nesta reunião [66]. Anderson também teria ouvido durante esta reunião uma petição reclamando da iniciação irregular de maçons por um certo Antony Sayer, apesar do fato de ter ele recebido assistência de caridade generosa da Grande Loja por causa de sua alegação de ter sido Grão-Mestre [67]. Anderson continuou a frequentar a Grande Loja apenas ocasionalmente.

Em 1735, os assuntos pessoais de Anderson chegaram a uma crise [68]. Ele e sua esposa haviam investido pesadamente em um projeto para fabricar tapeçarias coloridas que fracassou, envolvendo-os em processos judiciais. Sua congregação presbiteriana na Swallow Street perto de Piccadilly o dispensou em janeiro de 1735 e nomeou um novo ministro de Aberdeen. Um relato de roubo da casa de Anderson em novembro cheira suspeito como uma tentativa de arrecadar algum dinheiro, uma vez que o empregado acusado de roubar e penhorar uma lista substancial de itens não foi processado. Poucas semanas após o roubo, Anderson se viu confinado às “Regras” relativamente tolerantes, mas humilhantes, da Prisão Fleet. Os registros mostram que ele nunca foi absolvido [69].

Para aumentar as desgraças de Anderson, em janeiro de 1735 uma lista de livros publicados recentemente incluía ‘A Pocket Companion for Free-Masons’, ao preço de 2s 6d. [70]. Este fora compilado por um maçom chamado William Smith e publicado por Ebenezer Ryder, um livreiro irlandês baseado em Covent Garden. Smith não pode ser identificado com certeza, mas talvez fosse um membro da loja Swalwell, no nordeste da Inglaterra [71]. Muito do material da Smith’s Pocket Companion foi retirado das Constituições de 1723. O Constituições de 1723 eram difíceis de obter nessa época, pois o estoque de livros avulsos fora vendido em maio de 1731 após a morte de John Hooke [72].

Em 24 de fevereiro de 1735, Anderson apareceu na Grande Loja e reclamou que Smith ‘tinha, sem sua privacidade ou consentimento, pirateado uma parte considerável das referidas Constituições da Maçonaria em prejuízo do referido Ir.’. Anderson sendo sua propriedade exclusiva’ [73]. A Grande Loja exortou cada Mestre e Vigilante ‘a fazer tudo ao seu alcance para interromper uma Prática tão injusta e impedir que os referidos Livros de Smith sejam comprados por quaisquer Membros de suas respectivas Lojas’ [74]. A depreciação do volume pela Grande Loja teve pouco efeito. Em junho, Ryder, o editor do volume, mudou-se para Dublin, onde começou a publicar um jornal e lançou uma edição irlandesa do Pocket Companion [75]. Em novembro de 1738, os jornais de Londres publicaram um anúncio para outra edição do Pocket Companion por outro editor com fortes conexões irlandesas, John Torbuck, que tinha assumido as instalações de Rider em Covent Garden [76]. Anúncios subsequentes descreveram o livro como “universalmente recebido pelas Lojas Regulares da Cidade e do País” [77].

A alegação de Anderson de que os direitos autorais do livro das Constituições lhe pertenciam, era falsa. O formato da página de título de Constituições de 1723 deixa claro que, de acordo com a prática do início do século XVIII, os direitos autorais pertenciam aos editores John Senex e John Hooke. Isso é confirmado pela subsequente sucessão e venda por vários editores dos direitos ao Livro das Constituições [78]. Após a morte de John Hooke, os direitos no volume foram herdados por seu sucessor Richard Chandler. A Grande Loja não opinou sobre o assunto; seu único envolvimento foi dar sua aprovação que impulsionaria as vendas. A falsa alegação de Anderson de que o Livro das Constituições era sua única propriedade reflete tanto suas circunstâncias pessoais desesperadoras quanto a pobre memória coletiva da Grande Loja de sua história inicial.

Anderson, mesmo assim, fez uma proposta à Grande Loja de que uma segunda edição do Livro das Constituições devia ser preparada. Ele tinha algumas ideias sobre alterações e acréscimos à nova edição que ele ficaria feliz em compartilhar com a Grande Loja. A Grande Loja, consequentemente concordou que um comitê deveria ser estabelecido consistindo em Grandes Oficiais atuais e antigos, que convocariam outros mestres maçons conforme apropriado, para examinar e aprovar o novo Livro de Constituições antes que a Grande Loja colocasse seu selo de aprovação para a nova publicação.

Muito poderia ser dito sobre o trabalho de Anderson na compilação do novo Livro de Constituições. Um ponto chave é que a página de título deixa claro que os direitos autorais do novo volume também pertenciam aos editores, a ambiciosa parceria de Caesar Ward e Richard Chandler [79]. Chandler herdara o negócio de John Hooke, um dos editores de Constituições de 1723. Caesar Ward esteve fortemente envolvido na expansão dos negócios da parceria em York, onde assumiu a publicação do York Courant. Provavelmente foram os compromissos de Ward e Chandler em York que explicaram o atraso na publicação de Constituições de 1738 que só foi anunciado um ano depois que Anderson dissera à Grand Lodge que estava pronto para a impressão.

Anderson foi pago em ‘pagamento por cópia’ pela folha por seu trabalho em Constituições de 1738, como havia sido em 1723. Era de seu interesse e de seus editores produzir um volume substancial que vendesse bem, e isso o encorajou a expandir a seção histórica. Ele também esperava, sem dúvida, que sua história da maçonaria nos tempos antigos consolidaria sua reputação como historiador. Ele também teve que acomodar as demandas da Grande Loja. Ansioso por demonstrar sua antiguidade diante da concorrência de outros grupos de maçons em York, Irlanda e Escócia, a Grande Loja instruiu Anderson a inserir em seu livro os nomes de todos os Grão-Mestres que pudessem ser coletados desde o início dos tempos. Ele também foi instruído a nomear todos aqueles que serviram como Grandes Oficiais e Mordomos, para que no futuro apenas esses irmãos mais respeitáveis pudessem ser selecionados como Grandes Oficiais.

Houve pressões políticas sobre Anderson. Desaguliers e outros maçons seniores estavam cultivando assiduamente o patrocínio de Frederick Lewis, Príncipe de Gales, numa época em que o Príncipe de Gales emergia como uma figura de proa da oposição a Robert Walpole. As Constituições de 1738 com sua dedicatória proeminente ao Príncipe de Gales apareceu logo depois que Frederick Lewis foi excluído da corte, impedindo qualquer pessoa que ocupasse um cargo do rei de estar na presença de Frederick Lewis. A apresentação do Livro de Constituições pela Grande Loja a Frederick Lewis em novembro de 1739 ocorreu enquanto o príncipe estava trabalhando assiduamente para construir seu apoio político e parlamentar. Anderson na compilação de Constituições de 1738 teria estado muito consciente da necessidade de endossar as agendas da oposição política tateando em torno do Príncipe de Gales.

As características do programa patriota cultivado por Frederick Lewis incluíam uma ênfase sobre as origens anglo-saxãs, com Frederick retratado como um rei Alfred dos dias modernos. Um trabalho influente foi Ideia de um Rei Patriota de Bolingbroke que sublinhava a importância da continuidade e raízes antigas. Anderson estava muito disposto a repetir isso, realçando sua história de como a sucessão de Grandes Oficiais se estendia desde os anglo-saxões até Moisés, especialmente porque lhe dava a oportunidade de mostrar as pesquisas históricas que ele havia empreendido para seu vasto projeto sobre genealogias reais. O Anderson teria querido minimizar qualquer sugestão de que a criação da Grande Loja pode ter sido devido a uma iniciativa associada à corte de George I. A história do avivamento de 1717 foi uma maneira conveniente de demonstrar continuidade e enfatizar que a maçonaria estava enraizada em antigas tradições de ofício. Reunindo sua história a partir de vários documentos e histórias atuais na Grande Loja em meados da década de 1730, e ciente de muitas pressões políticas diferentes, que vão desde a necessidade de desacreditar Wharton e agradar a Grande Loja com o Príncipe de Gales, Anderson inventou a história de 1717 e tudo o mais.

Anderson deu-se muito trabalho para incorporar firmemente a história de 1717 em seu texto. Ele inclui em Constituições de 1738 ‘como um espécime para evitar a repetição’ uma descrição da procissão quando o duque de Norfolk foi instalado Grão-Mestre em janeiro de 1730 [80]. O livro de atas mostra que Anderson altera substancialmente a ordem da procissão. O livro de atas agrupa Grão-Mestre, Grão-mestres Adjuntos e Grandes Vigilantes, e registros de que eles caminharam em ordem de antiguidade [81]. Anderson separa os Past Grão-mestres e adiciona os nomes de Desaguliers, Payne e Sayer como Past Grão-mestres. Além disso, Anderson inverte a ordem da procissão para dar a impressão de que Payne e Desaguliers eram superiores aos Grão-Mestres. Sayer não é mencionado em nenhum lugar no livro de atas como se juntando a esta procissão e parece improvável que ele tivesse feito parte da ‘Grande Aparição de Nobreza e Pessoas de Distinção’ [82] nesta ocasião, vez que três meses depois, ele fez uma petição à Grande Loja para auxílio devido à sua grande pobreza [83].

Pode parecer surpreendente que ninguém comentou sobre a história de 1717 na época, mas parece que poucas pessoas envolvidas com a Maçonaria em 1738 tinham muito conhecimento dos primeiros anos. Não podemos ter certeza de que Ephraim Chambers era um maçom, mas ele tinha conhecimento sobre maçonaria, presumivelmente devido à sua associação com John Senex, um dos editores das Constituições de 1723 [84]. Quando Chambers produziu um resumo das Constituições de 1738 para sua revista História das obras dos eruditos, ele deixa claro que nunca tinha ouvido a história de como a Maçonaria esteve quase às portas da morte quando George I sucedeu ao trono e como ela foi revivida [85]. Além disso, para a maioria dos leitores, a notícia não era que a Grande Loja havia sido fundada em 1717, mas que seus antecedentes remontavam a Santo Agostinho e a Noé. Esta era a mensagem chave de ambos os Livros de Constituições e alguns leitores afirmaram que isso foi uma invenção ou que houve erros graves no início da história de Anderson. Uma exposição publicada em 1724 criticou severamente o aprendizado bíblico e histórico de Anderson, declarando que ele era ‘um verdadeiro Autor de Incertezas’ [86]. Outros sugeriram que as origens da sociedade na verdade só remontam ao século XIV [87]. No contexto desse debate sobre o quão antiga a sociedade realmente era, a questão do que aconteceu em 1717 parecia fora de questão.

Existem fortes paralelos entre a criação da Grande Loja dos Maçons Livres em junho de 1721 e a criação da Ordem de Bath quatro anos depois, em 1725, recentemente discutida por Andrew Hanham [88]. No caso da Ordem de Bath, o arauto John Anstis desempenhou o papel de desenvolver uma história lendária. Indo além das primeiras referências documentadas aos Cavaleiros de Bath no século XIV, Anstis traçou os precedentes da ordem até os tempos anglo-saxões. Na verdade, sua afirmação de que o primeiro desses cavaleiros foi o rei anglo-saxão Athelstan [89], quem também tem um papel de destaque na lendária história da maçonaria, provavelmente não foi coincidência. Os Cavaleiros de Bath demonstram o entusiasmo da sociedade do início do século XVIII pela criação de ordens de prestígio com ordens lendárias recentemente descobertas. No caso dos maçons e dos Cavaleiros de Bath, a força motriz era o duque de Montagu, que estava muito ansioso para aumentar o esplendor e a autoridade da corte de George I por meio de ordens destinadas a promover a lealdade e a harmonia. Os paralelos entre a criação da Grande Loja em 1721 e o lançamento da Ordem de Bath quatro anos depois são notáveis, e Montagu parece ter sido a força motriz por trás de ambos os eventos.

Em contraste com a história de Anderson em Constituições de 1738, as descrições da instalação do Duque de Montagu como Grão-Mestre em 1721 e a inauguração da Grande Loja por Stukeley e o Livro E da Loja de Antiguidade são internamente consistentes e podem ser verificadas em pontos chave a partir de outras fontes. A exatidão da lista de membros da Loja no Livro E é, por exemplo, confirmada pelo aparecimento na lista do nome de Thomas Coke, posteriormente Conde de Leicester e Grão-Mestre de 1731-2. As contas familiares de Coke incluem um pagamento por Coke a Richard Trueby, o licenciado da Taverna King’s Arms e um membro da loja, de £ 52 10s em 31 de maio de 1722 para ‘entretenimento por conta de maçons’ [90]. O nome de Coke aparece na lista de membros da Loja no Livro E exatamente no lugar que esperaríamos se ele fosse iniciado nesta época.

Continua…

Autores: Andrew Prescott e Susan Mitchell Sommers
Traduzido por: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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Notas

[53] Constitutions 1738, pp. 114-5.

[54] Diário Semanal Original do Applebee, 5 de agosto de 1721, reimpresso em Robert Peter, Maçonaria Britânica, 1717-1813 (Londres: Routledge, 2016), vol. 5

[55] QCA 10, pág.   31

[56] Por exemplo, Oxford, Bodleian Library, MS. Rawlinson C. 136, f. 5. À luz da sobrevivência dessa gravura, parece estranho que Anderson destaque a compra, sob a direção de Wharton, em 1723, de uma nova placa para a produção de ingressos gravados para a festa anual: 1738 Constitutions, p. 115

[57] Daily Post 20 de junho e 21 de junho de 1722; Daily Journal 20 e 21 de junho de 1722. O anúncio no Daily Journal de 20 de junho de 1722 afirma que ‘todos aqueles nobres e Cavalheiros que compraram ingressos e não comparecerem ao Hall serão considerados como falsos irmãos’. Isso levou a um pedido de desculpas no Daily Post no dia seguinte, esperando que ‘nenhum tipo de tal Insinuação astuta terá qualquer influência sobre a Fraternidade ‘. Isso implica uma tentativa de aumentar o comparecimento, mas não sugere que a reunião fosse irregular da maneira descrita por Anderson.

[58] Por exemplo, London Journal, 30 de junho de 1722; Weekly Journal, 30 de junho de 1722

[59] St James’s Journal 28 de junho de 1722; Freeholders Journal, 4 de julho de 1722

[60] Albert-Henri Sallengre trans Robert Samber, Ebrietatis Encomium; ou, o Elogio da Embriaguez (Reimpressão de 1910 da edição de 1723: Impresso em particular para Lewis M. Thompson, Nova York), pp. 81-3.

[61] Evening Post 18-20 de junho de 1723; British Journal 22 de junho de 1722; Jornal Semanal 22 de junho de 1723.  A espada trazia os lemas ‘Não me atraia sem Razão’ e ‘Não me levante sem Honra’.

[62] The True Briton foi publicada por Thomas Payne, que em 1724 publicou a primeira edição da exposição O Grande Mistério dos Maçons Descoberto. Uma segunda edição desta exposição produzida sob a impressão falsa ‘A. Moore’ anunciada em outubro de 1724 (Daily Post 22 de outubro de 1724) incluía um ‘Relato da mais antiga Sociedade de Gormogons’, aparentemente confirmando a sugestão de que Wharton pode ter sido o responsável pelos Gormogons.

[63] QCA 10, pp. 52-3.

[64] AQC 12 (1899), p. 106.

[65] Pierre Mereaux, Les Constitutions d’Anderson: Vérité ou Imposture? (Paris: Editions du Rocher, 1995), p. 288

[66] QCA 10, pág.   125

[67] QCA 10, pág.   131

[68] Para obter mais detalhes, consulte nosso artigo ‘Nova luz sobre James Anderson’ em Reflexões sobre Trezentos Anos de Maçonaria: Artigos da Conferência do Tricentenário da QC.

[69] London Gazette, 26 de julho de 1737. O nome de Anderson não consta no registro daqueles que foram realmente soltos: Os Arquivos Nacionais, PRIS 10, Miscelânea. Registros das prisões King’s Bench, Fleet e Marshalsea, (acessado em ancestry.com, 18 de fevereiro de 2016)

[70] Weekly Miscellany, 18 January 1732

[71] W. Waples, ‘An Introduction to the Harodim’, AQC, 60 (1947), pp. 118–98, na p. 139.

[72] Um catálogo de livros encadernados e em cadernos, cópias e partes de cópias. Sendo parte do estoque do falecido Sr. John Hooke, que será vendido em leilão apenas aos livreiros de Londres e Westminster; na Queen’s Head Tavern em Pater-noster Row, na segunda-feira, dia 31 de maio de 1731, lote 260

[73] QCA 10, pág.   244.

[74] QCA 10, pp. 244-5.

[75] Sobre Rider, consulte M. Pollard, Um Dicionário dos Membros do Comércio de Livros de Dublin (Londres: Sociedade Bibliográfica, 2000)

[76] Daily Gazetteer, 18 de novembro de 1735. Sobre Torbuck, veja Pollard, Dicionário dos Membros do Comércio de Livros de Dublin. Ele se mudou para Dublin depois de ter sido preso pela reimpressão de debates parlamentares. A publicação de debates parlamentares por Torbuck estava em concorrência com um grande projeto de Richard Chandler, um dos editores de Constituições de 1738 para a publicação dos debates da Câmara dos Lordes, e levou a uma disputa vitriólica entre eles: J. B.Shipley, ‘Fielding’s Champion e uma Disputa de Editores, Observações e consultas 200 (janeiro de 1955), pp. 25-8.

[77] London Evening Post, 10-13 de abril de 1736; Daily Post 17 de maio de 1736.

[78] Após o suicídio de Chandler em 1744 e a falência de Ward em 1746, o estoque restante de Constituições de 1738 foi vendido a um editor chamado Robinson, aparentemente uma não maçom, que relançou o volume com uma nova página de título sob sua marca, sem referência à Grande Loja: QCA 12 (1960), pp. 80-1. A venda do estoque remanescente e dos direitos autorais das Constituições de 1738 a Robinson por £ 5 15s está registrada em Um catálogo do estoque encadernado restante, os livros em fascículos e cópias do Sr. Caesar Ward, de York, livreiro, que serão vendidos em leilão, a um seleto número de livreiros de Londres e Westminster, na Rose Tavern, fora de Temple-Bar, na quinta-feira, 27 de fevereiro de 1745-6, p. 3, na Coleção John Johnson na Biblioteca Bodleian.

[79] CY Ferdinand, ‘The Economics of the 18th-Century Provincial Book Trade: O Caso de Ward e Chandler ‘em M. Bell, S. Chew, S. Eliot, L. Hunter e J. West, Reconstruindo o livro: Textos Literários em Transmissão (Aldershot: Ashgate, 2001), pp. 42-56.

[80] 1738 Constitutions, pp. 124-7.

[81] QCA 10, pp. 117-19.

[82] Daily Post, 30 de janeiro de 1730.

[83] QCA 10, pág.   123.

[84] C Revauger, ‘Chambers, Ephraim (1680-1740)’ em C. Porset e C. Revauger (eds.) Le Monde Maçonnique des Lumières (Europe-Amériques et Colonies) (Paris: Honorė Champion, 2013), Vol. 1, pp. 728-30.

[85] Efraim Chambers, Uma história das obras dos eruditos, Vol. 2 (Londres: Jacob Robinson, 1739), pp. 343-7.

[86] D. Knoop, G. Jones e D. Hamer, Panfletos Maçônicos Antigos, pp. 120-4.

[87] Knoop, Jones and Hamer, Early Masonic Pamphlets, pp. 233-6.

[88] A. Hanham, ‘The Politics of Chivalry: Sir Robert Walpole, the Duke of Montagu and the Order of the Bath’, Parliamentary History 35 (2016), pp. 262–297.

[89] John Anstis, Observations Introductory to an Historical Essay upon the Knighthood of the Bath (London: James Woodman, 1725), pp. 10-11.

[90] D. Mortlock, Aristocratic Splendour: Mony and the World of Thomas Coke, Earl of Leicester (Stroud: Alan Sutton, 2007).

1717 e tudo aquilo… (Parte II)

III

Uma data de fundação de 1721 para a Grande Loja se encaixa em nossa evidência geral muito melhor do que 1717. Não há referências contemporâneas à Grande Loja entre 1717 e 1721: sem relatos da imprensa, sem panfletos antimaçônicos, sem entradas de diário, sem burlescos teatrais de cerimônias maçônicas. Na Inglaterra, a maçonaria irrompeu repentinamente em cena em 1721. A primeira referência à Grande Loja na imprensa é uma reportagem no Post Boy de 24-27 de junho de 1721 da instalação do Duque de Montagu como Grão-Mestre. Quase imediatamente, a Maçonaria se tornou um assunto de constante fascínio para os jornais.

Foi sugerido que não devemos nos surpreender com a falta de referências à Grande Loja antes de 1721, pois ela era pouco mais do que uma obscura sociedade de tabernas. No entanto, outros clubes, que não eram mais do que alguns amigos reunidos em um pub, mesmo assim deixaram vestígios documentais. A Sociedade de Antiquários em 1707-8 consistia em um pequeno grupo que se reunia nas noites de sexta-feira nas tabernas Bear e Young Devil em Strand, mas alguns rascunhos de atas e referências a reuniões em cartas ainda assim sobreviveram. A subsequente refundação da Sociedade em ‘the Mitre Tavern, Fleet Street, na sala acima, dois lances de escadas’ em julho de 1717 foi solenemente registrada no livro de atas da Sociedade pelo próprio Stukeley [21].

Em contraste, para a história da Grande Loja entre 1716 e o início do primeiro livro de atas da Grande Loja em junho de 1723, somos totalmente dependentes do relato de Anderson. Supõe-se que, como disse Wallace McLeod, a história de Anderson não pode ser confirmada ou refutada. Sob tais circunstâncias, a posição padrão tem sido confiar em Anderson. No entanto, além do fato de que o relato de Anderson é muito posterior e em desacordo com mais dois registros contemporâneos na forma do artigo de Stukeley e do Livro E da Loja da Antiguidade, há muitas razões para duvidar do relato de Anderson. Ele está crivado de inconsistências. Muitas das referências de Anderson a pessoas e lugares são imprecisas e divergem dos relatos da imprensa contemporânea. Anderson não esteve presente nos eventos que descreve e suas fontes de informação sobre eles são suspeitas.

As inconsistências na narrativa de Anderson são evidentes desde o início de seu relato de 1717. Ele explica que a Grande Loja consistia em reuniões trimestrais dos oficiais da loja e afirma que a primeira ação de Sayer foi reativar as comunicações trimestrais. Mas ele então se refere apenas às festas anuais. De acordo com Anderson, nenhuma comunicação trimestral foi realizada até 25 de março de 1721, quando Anderson afirma que uma reunião foi realizada para nomear Montagu como Grão-Mestre [22]. É improvável que essa reunião fosse realizada no Lady Day, que era o equivalente ao Dia de Ano Novo na época, e parece provável que sua reunião tenha sido inventada por Anderson para explicar como Montagu foi escolhido. Existem mais quebra-cabeças. A identificação de Anderson das quatro lojas imemoriais não se enquadra no livro de atas da Grande Loja ou na lista gravada de 1723, que mostra a loja no Cheshire Cheese em Arundel Lodge como sênior da Horn Lodge, uma das lojas imemoriais da época [23].

Anderson inventa informações para complementar sua narrativa. A progressão aritmética do número de lojas durante 1721-2 relatada por Anderson em Constituições de 1738 é suspeitamente regular e parece ter sido fabricada: 12 em 24 de junho de 1721; 16 em 29 de setembro; 20 em 27 de dezembro; 24 em 25 de março de 1722 [24]. Esses números estão em conflito com o total de vinte lojas dado em Constituições de 1723 e com a própria lista de lojas de Anderson em Constituições de 1738 que identifica apenas seis lojas como constituídas antes de março de 1722, com apenas uma constituída antes de junho de 1721, que dificilmente se encaixa na imagem de uma grande Grande Loja em expansão. Embora Anderson afirme que os nobres se tornaram irmãos em 1719, nenhum deles foi identificado. Anderson alega que o duque de Montagu já era Mestre em uma loja quando se tornou Grão-Mestre, mas nenhuma das listas de membros o mostram como pertencente a qualquer loja.

As informações de Anderson sobre pessoas e lugares costumam ser imprecisas, em parte devido ao seu hábito pouco útil de atualizar informações. Por exemplo, Anderson afirma que John Cordwell, nomeado Vigilante em 1718, era ‘Carpinteiro da Cidade’. Cordwell era de fato o Carpinteiro Comum da Cidade em 1738, quando foi acusado de inflar os preços dos contratos de madeira para a nova Prefeitura, mas só foi nomeado para esse cargo em 1722 [25]. Da mesma forma, Anderson afirma que Richard Ware, dito ter sido Vigilante em 1720, era um matemático. Ware não tinha registro de realizações matemáticas, mas era mais conhecido como um livreiro de sucesso [26]. A Apple Tree Tavern em Covent Garden não parece ter tido esse nome em 1717, mas só ficou conhecida por esse nome em 1729.

Anderson não foi uma testemunha ocular dos eventos que descreve. A data mais próxima possível em que ele poderia ter comparecido à Grande Loja foi setembro de 1721, embora, como veremos, haja dúvidas sobre isso. Anderson reuniu seu conto de eventos entre 1716 e 1721 a partir de outras pessoas. No final das Constituições de 1738, Anderson agradece aos irmãos e lojas que o encorajaram durante a produção de seu livro [27]. Estes, sem dúvida, representam as principais fontes de informação de Anderson, mas eles só se envolveram com a Maçonaria no final dos anos 1720 e 1730.

Dos ajudantes listados por Anderson nas Constituições de 1738, apenas um afirmou ter participado dos eventos de 1716-17. Este era Jacob Lamball, um carpinteiro que teria sido nomeado o primeiro Grande Vigilante Sênior no Goose and Gridiron em 1717. Lamball era aparentemente o principal informante de Anderson sobre os supostos eventos daquela época. No entanto, existem enormes dúvidas sobre a credibilidade de Jacob Lamball como testemunha. Em 1717, Lamball ainda era apenas um aprendiz de carpinteiro, tendo feito contratos em março de 1714. Ele não se tornou um homem livre da Companhia dos Carpinteiros até 6 de junho de 1721 [28]. A afirmação de Lamball de ter sido o primeiro Grande Guardião não é convincente. Como aprendiz, o trabalho e o tempo de lazer de Lamball eram estritamente controlados por seu mestre, e ele teria poucas oportunidades de se envolver na maçonaria. Embora Lamball afirmasse ter sido nomeado Vigilante em 1717, não há mais evidências de seu envolvimento com a Maçonaria até março de 1735, quando (talvez apresentado à Grande Loja por Anderson) ele aparece como Grande Vigilante em exercício [29]. Não sabemos como sua alegação de ter sido Grande Vigilante foi testada em 1735.

O próprio Anderson ficou confuso com esses eventos. Ele afirma que Joseph Elliot foi o Primeiro Grande Vigilante em 1717 e Lamball o Segundo. Mas em suas corrigendas ele inverte a ordem, tornando Lamball o Primeiro, como de fato ele aparece na lista de oficiais do manuscrito no Livro de Atas da Grande Loja. Anderson estava no fim de sua vida quando estava trabalhando nas Constituições de 1738 e isso pode explicar parte da confusão em sua narrativa. Pouco antes de sua morte, ele enviou um resumo das Constituições a Ephraim Chambers para sua revista História das obras dos eruditos. No entanto, Anderson enviou a Chambers um rascunho incorreto e Chambers teve de revisá-lo substancialmente [30]. John Entick muito tempo depois observou que “de qualquer Causa que pudesse surgir, seja de sua falta de saúde, ou confiar na Administração de Estranhos”, as Constituições de 1738 ‘apareceram em uma condição muito mutilada’ [31].

Mas, será objetado, e quanto a George Payne, que se diz ter sido Grão-Mestre em 1718 e 1720, e Desaguliers, que se diz ter sido Grão-Mestre em 1719? Ambos são reconhecidos por Anderson e certamente teriam garantido que sua história inicial da Grande Loja fosse precisa. Além disso, a Grande Loja nomeou um comitê de Grandes Oficiais anteriores e atuais para verificar a precisão do novo Livro das Constituições. Parece provável que este comitê estaria mais preocupado com a exatidão dos regulamentos do que com a seção histórica, mas, no entanto, é surpreendente que a Grande Loja possa ter aprovado um falso relato de sua história recente. Para responder completamente a esta objeção, é necessário revisar o envolvimento de Anderson com a Grande Loja. Isso revela um padrão repetido de mentiras e duplicidade. Em particular, é evidente que o relato de Anderson da história da Grande Loja em 1722-3 é substancialmente falsificado. Grande parte dessa fabricação foi realizada com a conivência de Desaguliers, e provavelmente a seu pedido explícito. Também explica por que Desaguliers e a Grande Loja conspiraram na falsificação de Anderson de sua história inicial.

Stukeley afirma que na reunião no Stationers’ Hall quando Montagu foi instalado Grão-Mestre em 24 de junho de 1721, George Payne produziu o manuscrito Cooke que parecia ser a cópia mais antiga das Antigas Obrigações já encontrada [32]. Foi essa descoberta que impulsionou Anderson a ser contratado para resumir e atualizar a velha história lendária, provavelmente em setembro de 1721. Neste ponto, não está claro se Anderson era mesmo um maçom. Ele aparece na lista de membros de 1723 como membro do Horn Lodge em Westminster [33]. A lista de lojas que subscrevem a aprovação das Constituições de 1723 sugerem que Anderson era o Mestre da Loja no. 17 [34]. Como Songhurst aponta, é impossível identificar a loja 17 com qualquer uma das lojas nas listas gravadas ou listas de membros [35]. Os vigilantes são mostrados como Gwinn Vaughan e Walter Greenwood, dois juízes de paz de Middlesex [36]. Nem Vaughan ou Greenwood são mostrados como maçons em listas de membros de 1723 ou de 1725, e é tentador imaginar se Anderson inventou esta loja para garantir seu acesso à Grande Loja.

Anderson posteriormente afirmou que foi nomeado Grande Vigilante em algum momento no final de 1721 no lugar de William Hawkins porque Hawkins estava frequentemente fora da cidade [37]. O testemunho de Anderson é profundamente suspeito. Na lista de oficiais anexada ao livro de atas da Grande Loja, o próprio Anderson alterou a lista de oficiais, acrescentando uma declaração de que ele substituiu Hawkins como Grande Vigilante. Na ata da reunião da Grande Loja em 24 de junho de 1723, onde Anderson atuou como Grande Vigilante, as palavras “que oficiou por William Hawkins” foram apagadas por raspagem, presumivelmente pelo próprio Anderson, a fim de dar a impressão de que ele atuou como Grande Vigilante em seu próprio direito [38]. Um homem que falsifica os registros da Grande Loja deve ter sérias dúvidas contra ele como historiador.

As datas das aprovações para as Constituições de 1723 demonstram que, mesmo que Anderson fosse regularmente nomeado Grande Vigilante, o que parece improvável, ele só poderia ter atuado como Grande Vigilante em uma ou duas ocasiões. As Constituições de 1723 tiveram uma passagem tempestuosa na Grande Loja. Muitos maçons mais velhos se opuseram ao fato de que a compilação de Anderson alterasse muito as Antigas Obrigações e havia a preocupação de que o Livro de Constituições ameaçasse os antigos landmarks. A culpa por isso era dirigida tanto a Anderson, como o homem que ‘resumiu’ as Obrigações, quanto a Desaguliers, como o defensor mais destacado das mudanças.

Existem duas aprovações anexadas às Constituições 1723. A primeira aprovação é no nome do Duque de Wharton como Grão-Mestre, com Desaguliers como Adjunto e Joshua Timson e William Hawkins como Grandes Vigilantes, e os mestres e vigilantes de vinte lojas [39]. A linguagem grandiloquente da primeira aprovação é, sem dúvida, obra do próprio Anderson. Ele afirma que o duque de Montagu, tendo o manuscrito lido e corrigido por vários irmãos, ordenou que fosse impresso, mas que não estava totalmente pronto para a impressão quando Montagu deixou o cargo de grão-mestre. Isso indica que Anderson ainda estava revisando a obra em junho de 1722, o que é corroborado pela inclusão no livro de um formulário para constituição de novas lojas aprovado pelo Duque de Wharton depois que ele se tornou Grão-Mestre em 24 de junho.

A Grande Loja teve dificuldade em aprovar o trabalho de Anderson, fato que depois ele fez questão de ocultar. O Livro das Constituições ainda estava passando por impressão em janeiro de 1723 [40], e foi necessário emitir uma segunda aprovação muito mais curta e comercial nos nomes do Grão-Mestre Wharton e seu Adjunto Desaguliers, declarando que o livro havia sido publicado na comunicação trimestral em 17 de janeiro de 1723 e foi ordenado que fosse publicado e recomendado para o uso de lojas [41].

Poucos dias depois, em 23 de janeiro de 1723, o seguinte anúncio apareceu no Dayily Journal:[42]

Para o benefício da antiga Sociedade dos Maçons

Onde agora está pronto para publicação, um novo Conjunto de Constituições e Ordens, muito diferente do Antigo, pelo qual a referida Sociedade foi feliz e silenciosamente regulamentada por muitas eras passadas. Serve o presente para informar a todos os Amantes da Maçonaria pura, abstraídos das Inovações e do Auto interesse, que eles serão rapidamente preparados e entregues a eles, sem custo, As Constituições Antigas e Ordens tiradas das melhores Cópias; em que tais Erros na História e na Cronologia, que, pelo Descuido dos vários Transcritores, se insinuaram nelas, serão totalmente retificadas. A extensão extravagante das ditas novas Constituições e Ordens, excedendo a de quatro Sermões ordinários, torna mais evidente que elas são calculadas por Conta e Custo da Sociedade, apenas para servir aos interesses um único Membro, o Autor, cuja garantia era tal, que ele as imprimiu antes de apresentá-los à Censura Geral da Fraternidade. Por quais Razões, esperamos, a Irmandade não se precipitará agora em encorajar o referido Inovador; Para mostrar que ele lida com honra e justiça com seus queridos Irmãos Maçons, todo o seu Livro de Dois e Seis Pence será publicado rapidamente, em um Papel tão bom quanto o seu, ao Preço de Seis Pence; do qual Aviso oportuno será dado neste Documento.

Este é um ataque notável a Anderson, que mostra que o processo de análise das Constituições foi contencioso e provavelmente malconduzido. O anúncio foi colocado pelo livreiro James Roberts, que já havia tentado interromper a compilação das novas Constituições publicando em setembro de 1722 uma versão das Antigas Obrigações que se dizia terem sido tiradas de um manuscrito com mais de 500 anos e contendo os “novos artigos” que se dizia terem sido promulgados em dezembro de 1663 [43]. Isso levou ao aparecimento de mais anúncios em jornais

… Para avisar o Público, que o mesmo é falso e espúrio, nem o referido Livro contém nada como as verdadeiras Constituições da Sociedade, mas é calculado para enganar o Público. Desejamos que a Fraternidade tome conhecimento disso.[44]

Em 11 de fevereiro de 1723, Roberts anunciou devidamente sua edição de As Antigas Constituições ao preço prometido de seis pence [45]. Na semana seguinte, apareceu um novo ataque ofensivo na forma de um poema burlesco obsceno Os maçons que parodiava a história tradicional dos maçons. O Poema Hudibrástico, publicado sob uma impressão falsa, executou três edições em pouco mais de uma semana [46]. A popularidade do Poema Hudibrástico deve ter sido angustiante para Anderson, pois ele havia sido alvo de dois panfletos obscenos semelhantes em 1720. Embora Anderson não seja diretamente citado em O Poema Hudibrástico, a dedicatória é dirigida a ‘um dos Vigilantes da Sociedade dos Maçons’ que aparentemente é descrito como um ‘escrevinhador mercenário’.

Foi nestas circunstâncias que a publicação do Livro de Constituições foi anunciada por John Senex e John Hooke em 23 de fevereiro de 1723 [47]. Mas a controvérsia não diminuiu. O London Journal relatou em 6 de abril de 1723 que:

A Sociedade dos Maçons está determinada (ouvimos dizer) a usar todos os métodos ao seu alcance para aumentar sua reputação entre o Povo, e, dizem, eles deram ordens há poucos dias de processar um Cavalheiro, com a maior severidade, que refletiram sobre sua gestão em suas reuniões privadas.

No mês seguinte, Henry Pritchard foi julgado por agressão depois de quebrar a cabeça de um certo Abraham Barret por ‘abusar da antiga Sociedade de Maçons de uma maneira muito escandalosa e com expressões muito indecentes, particularmente relacionadas a algumas pessoas nobres daquela Fraternidade mencionadas por Nome’ [48]. O júri decidiu contra Pritchard, mas, devido à grande provocação, atribuiu apenas 20 xelins de indenização. Posteriormente, a Grande Loja fez uma coleta de £ 28 17s 6d para que Pritchard não tivesse prejuízo em sua defesa da Maçonaria [49].

Parece que foram esses confrontos que levaram a Grande Loja a nomear um Secretário e começar a manter atas de suas reuniões em junho de 1723. Nesta reunião, a primeira votação colocou em questão a validade da aprovação das Constituições de 1723 – a ata refere-se ao despacho “alegando que elas foram aprovadas” [50]. Quando a reunião foi solicitada a confirmar os regulamentos gerais impressos no livro, na medida em que eram consistentes com as antigas regras de maçonaria, foi decidido que a questão não deveria ser colocada. Em vez disso, foi aprovada uma resolução pontual ‘Que não está no poder de qualquer pessoa, ou corpo de homens, fazer qualquer alteração ou inovação no corpo de Maçonaria sem o consentimento obtido primeiro da Grande Loja Anual’, a implicação disso sendo que as Constituições efetuaram tais mudanças sem o devido consentimento. Os ânimos permaneceram em frangalhos, e muito do opróbrio foi dirigido a Desaguliers. Em novembro, William Huddlestone, o Mestre da Loja King’s Head em Ivy Lane, foi expulso da Grande Loja e removido de seu cargo de Mestre por lançar calúnias contra Desaguliers [51].

Nada dessa história contenciosa é sugerido na história da Grande Loja de Anderson entre 1721 e 1723. No entanto, as decepções e meias-verdades na narrativa de Anderson da publicação das Constituições 1723 são triviais em comparação com suas mentiras flagrantes em seu relato do Grão Mestrado do Duque de Wharton em 1722-3. Gould apontou já em 1895 como a descrição de Anderson da época de Wharton como grão-mestre é refutada diretamente por reportagens da imprensa e contém contradições insolúveis [52]. À luz das distorções e fabricações demonstráveis de Anderson neste ponto, é razoável ver o resto de sua narrativa de 1717 a 1723 como suspeito. Além disso, Anderson criou essas notícias falsas com a conivência e provavelmente a pedido de Desaguliers, explicando por que Desaguliers e seu associado Payne tinham interesse em divulgar um relato falso sobre o renascimento da Grande Loja.

Continua…

Autores: Andrew Prescott e Susan Mitchell Sommers
Traduzido por: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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Notas

[21] Joan Evans, Uma História da Sociedade de Antiquários (Oxford: Society of Antiquaries, 1956), pp. 25-9, 50-2

[22] 1738 Constitutions, p.  111

[23] Sadler, Fatos e ficções maçônicas, pp. 14-15

[24] Begemann, História antiga, 610

[25] Revista Gentleman 9 (1739), 214, 361-2; S. Perks, A História da Mansão (Cambridge: University Press, 1922), 178-87; Sally Jeffery, The Mansion House (Chichester: Phillimore, 1993), 78; Evening Post, 16 de dezembro de 1721; Post Boy, 2 de janeiro de 1722

[26] ‘Na noite de sábado passado [14 de agosto] morreu em Harefield, em Middlesex, o Sr. Richard Ware, livreiro e papeleiro em Ludgate-hill, que adquiriu uma bela fortuna com integridade e reputação: ele abandonou uma viúva desconsolada, quatro filhos e três filhas: Daily Advertiser, 16 agosto 1756

[27] 1738 Constitutions, p. 229

[28] Para obter informações sobre a Lamball dos registros da Companhia dos Carpinteiros, consulte http://www.londonlives.org.

[29] QCA 10, pág. 247.

[30] Efraim Chambers, Uma história das obras dos eruditos, Vol. 2 (Londres: Jacob Robinson, 1739), p. 317. Os comentários de Chambers sobre o relato de Anderson sobre os eventos de 1717-23 é interessante: ibid., Pp. 343-7

[31] O Companheiro de Bolso e a História dos Maçons … (Londres: J. Scott, 1754), p.v

[32] O desenho de Stukeley do manuscrito Cooke é Oxford, Bodleian Library, Top Gen b. 53 f. 89, ao qual Stukekley adicionou a seguinte legenda: A primeira e a última páginas de um MS de velino sendo Constituições dos Maçons. Exibido na reunião anual da mesma, no Stationers’ Hall no dia de São João de 1721. Pelo Sr. Payn, então Grão-Mestre, 24 de junho

[33] QCA 10, pág.  23.

[34] 1723 Constitutions, p. 74

[35] QCA 10, pp. Vii, xxiii.

[36] http://www.londonlives.org.

[37] 1738 Constitutions, p. 115

[38] QCA 10, p. xxiii

[39] 1723 Constitutions, pp. 73-4

[40] Matthew Birkhead, o autor do Música dos Enter’d Prentices morreu em 30 de dezembro de 1722 (Weekly Journal ou British Gazeteer, 5 de janeiro de 1723). Ele é nomeado como mestre da Loja No. na pág. 74 das Constituições 1723, mas anotado como tendo morrido na p. 84

[41] 1723 Constitutions, p.  91

[42] Foi reimpresso no Daily Journal em 25 de janeiro de 1723

[43] D. Knoop, G. Jones e D. Hamer, Panfletos Maçônicos Antigos, pp. 71-83. Uma reimpressão anterior desta versão das Old Charges, presumivelmente por Roberts tinha aparecido em The Post Man e o relato histórico, em julho e agosto de 1722

[44] Daily Journal, 7 de setembro de 1722 e 10 de setembro de 1722

[45] Daily Journal, 11 de fevereiro de 1723

[46] Daily Post, 15 de fevereiro de 1723; British Journal, 16 de fevereiro de 1723; British Journal, 23Fevereiro de 1723. Na impressão do Poema Hudibrástico, veja agora A. Bricker, ‘Quem foi “A. Moore”? A atribuição de publicações do século XVIII com impressões falsas e enganosas ‘, Artigos da Sociedade Bibliográfica da América 110 (2016), pp. 181-213

[47] Evening Post 23 de fevereiro de 1723; Post Boy 26 de fevereiro de 1723

[48] Daily Post, 18 de maio de 1723

[49] QCA 10, pp. 54-5

[50] QCA 10, pág.  50

[51] QCA 10, pág.   54

[52] RF Gould, ‘The Duke of Wharton’, AQC 8 (1895), pp. 114-55

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