O Manuscrito Cooke

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Damos graças a Deus, nosso glorioso Pai, Criador do Céu e da Terra e tudo o que nela está e que ele conhece [em virtude] de sua Gloriosa Divindade.

Ele fez todas as coisas para ser obedecido, e muitas delas em benefício da humanidade, lhes ordenou submeterem-se ao homem, porque todas as coisas que são comestíveis e de boa qualidade [servem] para o sustento do homem.

E também deu ao homem inteligência e habilidade em várias coisas, e arte, por meio da qual podemos viajar por este mundo para assegurar a sobrevivência, para fazer muitas coisas para a Glória de Deus e também para o nosso benefício e paz de espírito.

Se tivesse que enumerar todas essas coisas, levaria muito tempo para dizer e escrever.

Mostrarei uma delas, embora deixe outras: Isto é, a forma como começou a Ciência da Geometria, e quem foram os criadores dela e de outras Artes, conforme revelado na Bíblia e outras histórias.

Vou narrar, como disse, como e de que modo começou e esta ciência digna da Geometria.

Você deve saber que existem sete Ciências Liberais e, logo saberá por que são chamadas dessa forma, e porque destas primeiras sete se originam todas as Ciências e Artes do mundo e, especialmente, porque aquela, a Ciência da Geometria é a origem de todas.

Quanto à primeira, que é chamada de fundamento da Ciência, é a Gramática, que ensina o homem a falar e escrever de forma justa.

A segunda é a Retórica, que ensina o homem a falar decorosamente de maneira precisa.

A terceira é a Dialética, e que ensina o homem a discernir o verdadeiro do falso, e é comumente chamada de Arte ou [Filosofia].

A quarta é chamada Aritmética, e ensina aos homens a arte dos números, para calcular e contar todas as coisas.

A quinta é a Geometria, que ensina aos homens os limites e a medida e ponderação dos pesos de todas as Artes humanas.

A sexta é a Música, que ensina aos homens a Arte do canto nas notas da voz e do órgão, da trompa, da harpa e todos os demais instrumentos.

A sétima é a Astronomia, que ensina ao homem o curso do Sol e da Lua e de outros planetas e estrelas do Céu.

Nosso principal objetivo é tratar do primeiro fundamento da excelente Ciência da Geometria, e de quem foram seus fundadores; como disse anteriormente, há sete Ciências Liberais, ou seja, sete artes ou ciências, ou Artes que são livres em si mesmas, as quais vivem apenas por meio da Geometria.

E a Geometria é, como se diz, a medida da Terra: “Et sic dicitur a geoge pin Px ter a Latine e metrona quod est mensuraUnde Geometria i mensura terre vel Terrarum”, ou seja, que a Geometria é, como eu disse, Geo, terra, e metron, medida e, assim, o nome Geometria é composto, e se chama medida da Terra.

Não se maravilhe que eu tenha dito que todas as Ciências vivem só pela Ciência da Geometria, porque nenhuma delas é artificial [que pressuponha, como a Geometria, o Artífice].

Nenhum trabalho que o homem faça é realizado, a não ser por meio da geometria; uma razão importante: Se um homem trabalha com as mãos e, trabalha então com qualquer tipo de utensílio, e não há qualquer instrumento feito de coisas materiais deste mundo que não venha da Terra e à Terra retorne, e não existe qualquer instrumento, ou seja, utensílio de trabalho, que não tenha proporções.

E proporção é medida, e utensílio ou instrumento, é Terra.

Por isso, pode-se dizer que os homens deste mundo vivem através do trabalho de suas mãos.

Muitas outras provas eu te dei sobre a razão pela qual a Geometria é a Ciência da qual vivem todos os homens razoáveis, mas desta vez não deixarei o longo processo da Escritura.

E agora prosseguirei com a minha tese; você compreenderá que, entre todas as Artes do mundo, a [mais importante] é a Arte do Homem; a Arte da construção tem a maior importância e a maior parte na Ciência da Geometria, conforme está escrito e dito na história, na Bíblia, e no Polycronicon, uma crônica ilustrada e na História de Beda, em De Immagine Mundi e no Ethimologiarum de Isidoro, em Metodio, bispo e mártir, e em muitos outros; digo que a Maçonaria é a principal [Arte] da Geometria, como penso que pode se dizer por que foi a primeira a ser criada; como se diz na Bíblia, no Livro I do Gênesis, Capítulo 4.

E também todos os Doutores mencionados o dizem, e alguns deles mais aberta e simplesmente [com relação], ao que é dito na Bíblia.

O Filho direto da linhagem de Adão, descendente das sete gerações de Adão antes do dilúvio, foi um homem chamado Lameth, que tinha duas mulheres; da primeira, Ada, teve dois filhos: um chamado Jabal e outro Jubal.

O mais velho, Jubal, foi o primeiro fundador da Geometria e da Construção, e construiu casas e é chamado na Bíblia de “pater habitancium in tentoriis atque pastorum”, ou seja, o pai dos homens que vivem em tendas, ou seja, em casas.

E foi professor de Caim e chefe de todos os seus trabalhadores quando construiu a Cidade de Enoch, que foi a primeira cidade jamais construída, e que Caim entregou a seu filho e a chamou Enoch.

E agora é chamada Efraim.

E a Ciência da Geometria e da Maçonaria foi primeiramente inventada e utilizada como Ciência e Arte, e, portanto, poderíamos dizer que foi a origem e o fundamento de todas as Artes e Ciências, e este homem, Jabal, foi chamado “Pater pastorum”.

O mestre da História e Beda, De Immagine Mundi, Polycronicón e muitos outros dizem que, pela primeira vez ele fez a distribuição da Terra, de modo que cada homem poderia individualizar (conhecer) seu campo e seu trabalho.

E também dividiu rebanhos e ovelhas, e por isso podemos dizer que foi o primeiro fundador dessa Ciência.

E seu irmão Jubal, ou Tubal foi o fundador da Música e do canto, como afirma Pitágoras no Polycronicón e mesmo Isidoro em suas Etimologias; em seu livro I diz que foi o primeiro fundador da música e do canto, do órgão e da trompa, e que encontrou a ciência do som através dos golpes dos metais, graças a seu irmão Jubalcaín.

A Bíblia diz na verdade no capítulo IV do Gênesis, que Lameth teve um filho e uma filha com outra mulher chamada Zillah.

Seus nomes eram Tubalcaím, o filho e a filha foi chamada Naamah, e com diz o Polycronicón, era a esposa de Noé; se isto é verdade ou não, não sabemos.

Eu lhe digo que este filho, Tubalcaín, foi o fundador da Arte da Metalurgia e de todas as Artes dos metais, ou seja, do ferro, do ouro e da prata, como dizem alguns Doutores, e sua irmã Naamah foi fundadora da Arte da Tecelagem, fiavam o fio e trabalhavam o ferro e faziam vestimentas como podiam, mas a mulher Naamah encontrou a arte da tecelagem, que agora é chamada de Arte das Mulheres; e estes três irmãos sabiam que Deus se vingaria do pecado e com o fogo ou com a água, e colocaram o máximo cuidado para salvar as Ciências que haviam encontrado e se aconselharam entre si; e graças à sua engenhosidade, disseram que havia dois tipos de pedra de tal qualidade que a primeira jamais podia ser queimada, e esta pedra é chamada mármore, e que a outra pedra não podia ser derretida, e esta pedra era chamado laterus.

E, por isso, tiveram a ideia de escrever todas as ciências que tinham encontrado nestas duas pedras, de modo que se Deus se vingasse com fogo o mármore não se queimaria, e se Deus se vingasse com a água a outra pedra não se derreteria.

E, por isso, pediram ao irmão mais velho de Jabal que construísse duas colunas com estas duas pedras, ou seja, mármore e laterus, e que esculpisse nos dois pilares todas as Ciências e a Artes que tinham encontrado.

E assim foi feito e, por isso podemos dizer que eles foram muito hábeis na ciência que se iniciou e que prosseguiu até ao seu final antes do dilúvio de Noé; sabendo que a vingança de Deus iria ocorrer, seja por fogo ou água, os irmãos – em uma espécie de profecia – sabiam que Deus ordenaria uma delas e por isso escreveram nas duas pedras as sete Ciências, pois achavam que a Vingança chegaria.

E ocorreu que Deus se vingou e aconteceu tal dilúvio que todo o mundo ficou submerso e morreram todos, menos oito pessoas.

Eles foram Noé e sua esposa e seus três filhos e suas esposas, e destes filhos se originou todo o Mundo.

E [os três filhos] foram chamados assim: Sem, Cam e Japhet.

E este Dilúvio foi chamado Dilúvio de Noé, porque só se salvaram ele e seus filhos.

E muitos anos depois do Dilúvio, como narra a Crônica, estas duas colunas foram encontradas, e como diz o Polycronicón, um grande doutor chamado Pitágoras encontrou uma, e Hermes, o filósofo encontrou a outra, e ensinaram as ciências que encontraram escritas nelas.

Qualquer crônica, a história e muitos outros documentos e, sobretudo a Bíblia testemunham a construção da Torre de Babel, e está escrito na Bíblia, Gênesis, capítulo X, que Cam, filho de Noé, gerou Nimrod, e que este se tornou um homem forte como um gigante e que foi um grande rei.

E o início de seu Reino foi o do verdadeiro Reino de Babilônia, de Arach e Archad e Calan e da Terra de Senaar.

E este mesmo Nimrod começou a construção da Torre da Babilônia, e ensinou a seus trabalhadores a arte da medida, e tinha muitos construtores, mais de quarenta mil.

E ele os amava e os tinha em grande estima.

E isto está escrito no Polycronicón e em outras Histórias e, em parte, testemunhado na Bíblia, no Gênesis, capítulo X, onde se estipula que Asur, que era um parente próximo do Nimrod saiu da Terra de Senaar e construiu a cidade de Nínive e de Plateas e muitas outros, e assim diz: “De Terra illa i de Sennam egressus est Asure et edificavit Nunyven et Plateas civitatis et Cale et Jesen quoque inter Nunyven et hec est civitas magna”.

A razão exige que digamos abertamente como e de que forma foi fundado o ofício da construção, e quem foi o primeiro a dar-lhe o nome de Maçonaria.

E você deveria saber o que é dito e escrito no Polycronicón e em Metodio, bispo e mártir, que Asur, que foi digno senhor de Senaar, solicitou ao Rei Nimrod que lhe enviasse pedreiros e operários do Ofício que lhe pudessem ajudar a construir a cidade que desejava edificar.

E Nimrod lhe enviou trezentos maçons.

E quando deviam partir, ele os chamou diante de si e lhes disse: “Vocês devem se apresentar diante de meu primo Asur para ajudá-lo a construir uma cidade, mas velem para que seja bem dirigida; vou lhes dar um encargo proveitoso para vocês e para mim.

Quando chegarem diante deste Senhor, procurem ser tão leais a ele quanto o são a mim; façam, como se fossem irmãos e permaneçam lealmente unidos; e aquele que têm maior capacidade ensine a seu companheiro e o impeça de se voltar contra seu Senhor, para que assim eu possa receber o mérito e o agradecimento por tê-los enviado a ele, e por ter-lhes ensinado a Arte.”

E eles receberam o encardo de seu patrão e Senhor e chegaram diante de Asur e construíram a cidade de Nínive, no país de Plateas, e outras cidades entre Cale e Nínive.

E assim, a Arte da construção foi engrandecida e imposta como ciência.

Nossos primeiros antepassados, os maçons, tiveram esta responsabilidade, como está escrito nos nossos Deveres, e também como já vimos escrito em francês, em latim, e na história de Euclides; mas agora diremos de que maneira Euclides veio a adquirir conhecimentos de geometria, assim como está escrito na Bíblia e em outras histórias.

No capítulo 12 do Gênesis diz-se que Abraão chegou à terra de Canaã e que o Senhor lhe apareceu e disse: “Eu darei esta terra a ti e teus descendentes”, mas houve uma grande fome sobre a Terra e Abraão tomou Sara, sua esposa, consigo e partiu para o Egito em peregrinação, e enquanto durou a escassez eles permaneceram ali.

E Abraão, como diz a Crônica, era um homem sábio e um grande Doutor e conhecia as sete ciências e ensinou aos egípcios a Ciência da Geometria.

E este digno Sábio Euclides foi seu aluno e aprendeu com ele.

E eles deram pela primeira vez o nome de Geometria, porque antes não tinha este nome.

Assim, diz-se no Ethimologiarum de Isidoro, no livro 5, capítulo I, que Euclides foi um dos fundadores da Geometria, e que lhe deu este nome porque naquele tempo havia um rio no Egito, o Nilo, que cresceu até tal ponto na terra que os homens não podiam habitá-la.

Por isso, este digno estudioso, Euclides, os ensinou a fazer grandes paredes e valas para reter a água e eles, com a geometria, mediram a terra e a dividiram em muitas partes, e cada um fechou sua parte com paredes e valas, e por isso a terra se tornou fértil e deu a todos os tipos de frutas e jovens, homens e mulheres, mas eram tantos os jovens que não podia viver bem.

E os governantes, senhores do país, reuniram-se no Conselho para ver como ajudar a seus filhos que eles não tinham encontrado sustento.

E neste Conselho estava este digno Douto Euclides, e quando viu que não podiam decidir sobre o assunto, lhes disse: “Tomem seus filhos e coloquem-nos sob o meu comando, e eu lhes ensinarei uma ciência tal que viverão com ela dos Senhores, sob a condição de jurar que me serão fiéis e eu farei isso por vocês e por eles.”.

E o Rei e todos os Senhores o garantiram.

E eles conduziram seus filhos diante de Euclides para que ele os guiasse ao seu critério, e ele lhes ensinou esta Arte, a Maçonaria, e lhes deu o nome de Geometria, devido à divisão do terreno que havia ensinado ao povo no tempo da construção dos muros e fossos, e Isidoro disse no Ethimologiarum que Euclides a chamou Geometria.

E ele lhes deu o dever de chamar Companheiro uns aos outros, e não de outra forma, porque pertenciam a uma mesma arte e eram de sangue nobre e filhos de Senhores.

E que o mais habilidoso deveria ser o guia no trabalho e ser chamado Mestre, e lhes atribuiu outras tarefas que estão escritas no livro dos Deveres.

E assim eles trabalharam com os Senhores da Terra, e construíram cidades, castelos, templos e palácios.

Naquele tempo, os filhos de Israel que viviam no Egito aprenderam a arte da Maçonaria.

E logo, quando foram expulsos do Egito, chegaram à Terra de Behest, agora chamada Jerusalém.

E o Rei David iniciou a construção do Templo de Salomão.

O Rei David amava os Maçons, e lhes deu direitos que não tinham antes.

E na construção do Templo, nos tempos de Salomão, tal como referido na Bíblia, no 3º livro Regum, capítulo quinto, Salomão tinha oitenta mil construtores ao seu serviço.

E o filho de Tiro era seu chefe.

E em outras crônicas e em outros livros de Maçonaria diz-se que Salomão lhes confirmou a tarefa que Davi, seu pai, havia dado aos maçons.

E o próprio Salomão lhes ensinou em formas pouco diferentes daquelas utilizadas hoje.

E desde então esta importante ciência foi levada para a França e outras regiões.

Houve um tempo um digno Rei da França chamado Carolus Secundus, ou seja, Carlos II, e este Carlos foi eleito Rei da França pela Graça de Deus e por sua estirpe.

E este mesmo Rei Carlos era maçom antes de ser Rei e quando chegou a Rei amou os maçons e os teve em grande estima, e lhes deu deveres e regulamentos em conformidade com o seu plano, e alguns deles ainda estão em uso na França; e ele mesmo determinou que devessem se reunir em Assembleia uma vez por ano para falar entre si, Mestres e Companheiros, e para [decidir quem] havia de guiá-los e [para acertar] todas as coisas erradas.

E pouco depois Santo Adabelio chegou à Inglaterra e converteu Santo Albano ao Cristianismo.

E Santo Albano amava os maçons e lhes pela primeira vez os cargos e usos na Inglaterra.

E lhes ficou uma hora conveniente para lhes pagar pelo trabalho.

E depois houve um importante rei da Inglaterra chamado Athelstan e seu filho mais novo amava a Ciência da Geometria, e sabia bem que a arte manual do Oficio praticava a ciência da Geometria como os Maçons, e por isso os [reuniu] em Conselho e adotou a prática desta ciência na especulação, porque na especulação era mestre e amava a Maçonaria e os maçons.

E ele mesmo se fez Maçom e lhes deu cargos e nomes que ainda estão em uso na Inglaterra e em outros países.

E estabeleceu que [os Maçons] deveriam ser pagos razoavelmente por seu trabalho, e conseguiu um decreto do Rei que [sancionou], o direito de se reunir em Assembleia quando achassem que havia passado um período razoável e que viessem [escutar] seus Conselheiros, como está escrito e se ensinava no Livro de nossos encargos e deveres, pelo que deixo já o argumento.

Os homens de bem, por esta razão e desse modo, [fizeram com que] começasse a Maçonaria.

Ocorria às vezes, que os grandes senhores não tinham grandes posses, e assim não podiam ajudar seus filhos nascidos livres, porque tinham muitos e, portanto, se aconselharam sobre a forma como lhes podiam ajudar, e estabelecer que pudessem viver honestamente.

E os enviaram aos Sábios Mestres da importante Ciência da Geometria, para que eles, com sua sabedoria, pudessem dar aos filhos uma maneira honesta de viver.

Por isso, um deles, chamado Englet, que foi um sábio fundador muito inteligente, estabeleceu uma Arte e a chamou Maçonaria, e assim, com sua Arte, instruiu os filhos dos grandes Senhores, a pedido dos pais e com a livre vontade dos filhos; quando eles foram educados com grande cuidado, após um certo período, nem todos foram igualmente capazes, de forma que o referido Mestre Englet determinou que todos os que terminaram [a aprendizagem] com habilidade deveriam ser admitidos [no ofício] com honras, e chamou o mestre mais qualificado para instruir os mestres menos qualificados, e foram chamados mestres pela nobreza de seu engenho e por sua habilidade na arte.

Assim, a referida Artes, iniciada na terra do Egito, se espalhou de Terra em Terra, de Reino em Reino.

Depois de muitos anos, na época do Rei Athelstan, que foi rei da Inglaterra, seus conselheiros e de outros grandes senhores, de comum acordo, devido a graves culpas lançadas contra os maçons, estabeleceram certa regra para eles; uma vez ao ano, ou a cada três anos [se isso correspondia] aos desejos do rei e dos Grandes Senhores do País e do povo, de província em província, e de país em país, se reuniriam em Assembleia todos os maçons e companheiros da referida Arte, e em tais reuniões os mestres seriam examinados sobre os artigos [da Constituição], que foram logo escritos e se estabeleceu que fosse verificado se os mestres eram capacitados e habilitados, em benefício de seu Soberano e para honrar sua Arte.

E, além disso, foi estabelecido que devessem cumprir bem seu encargo de empregar os bens, grandes ou pequenos, de seus senhores, porque deles recebiam o pagamento por seu serviço e seu trabalho.

O primeiro artigo é o seguinte: Que cada mestre desta arte deve ser sábio e leal ao Senhor a quem serve; e não pagar a nenhum trabalhador mais do que ele pense que seja merecido, distribuindo seus benefícios realmente como gostaria que fossem distribuídos os seus, depois de ter [levado em conta] a escassez de grãos e alimentos no país, e não prestando quaisquer favores, para que todos possam ser remunerados de acordo com o seu trabalho.

O segundo artigo é o seguinte: Que cada mestre desta arte deverá ser informado antes de entrar em sua Comunidade; que sejam [recebidos] como convém; que não possam ser desculpados [por sua ausência], senão somente por algum motivo [válidos].

Mas se forem considerados rebeldes [diante de] tal Comunidade, ou culpados de qualquer forma, de danos aos próprios Senhores, os autores nesta Arte não serão perdoados de forma alguma, [e serão julgados e será verificada] sua expulsão, e quando se encontrarem [em perigo de morte], [ou enfermos], sem risco de morte, o mestre que seja o chefe da Assembleia [quem o deve julgar] será avisado.

O terceiro artigo é este: que nenhum mestre tome um aprendiz por um período inferior a sete anos, pelo menos, porque, em um período mais curto, não pode chegar adequadamente à sua Arte e, portanto, não será capaz de servir fielmente ao seu Senhor, e de compreender [a Arte] como um Maçom deve compreendê-la.

O quarto artigo é este: que nenhum mestre tome para educar, sem proveito qualquer aprendiz ao qual esteja ligado por vínculos de sangue, já que, devido ao seu Senhor, a quem está ligado, o desviará de sua Arte e poderá chamá-lo diante de si fora de sua Loja e do lugar onde trabalha; porque seus companheiros talvez lhe ajudem e lutem por ele, e aqui poderia surgir um homicídio, o que é proibido, e também devido a que sua arte começou com os filhos de grandes senhores, nascidos livres, como já foi dito.

O quinto artigo é este: que nenhum mestre envie seu aprendiz, durante o tempo de sua aprendizagem a outro, pois nenhum benefício pode advir disso, e embora pense que pode agradar a seu novo Senhor, o mais importante é o benefício que o Senhor poderá obter do lugar onde foi treinado em seu ensino.

O sexto artigo é o seguinte: que nenhum mestre, por ganância ou proveito, tome aprendizes para lhes ensinar coisas imperfeitas, e que tenham mutilações e, portanto, não possam realmente como deveriam.

O sétimo artigo é o seguinte: Que nenhum mestre seja visto ajudando ou protegendo, ou sendo o sustento de qualquer ladrão noturno, pelo qual [por causa do roubo] seus companheiros não possam cumprir com o trabalho diário e não possam se organizar.

O oitavo artigo é o seguinte: Que não ocorra quer qualquer Maçom que seja perfeito e hábil venha buscar trabalho e encontre um modo de trabalhar imperfeito e incapaz; o mestre do lugar receberá o maçom perfeito e dispensará o imperfeito em benefício de seu Senhor.

O nono artigo é o seguinte: que nenhum mestre assumir o lugar de outro, porque foi dito na arte da construção, que ninguém deverá terminar um trabalho iniciado por outro, em benefício de seu Senhor; assim, quem já o começou [tem o direito de] acabar ao seu próprio modo, e sejam quais forem os seus métodos.

Esta resolução foi adotada por vários senhores e mestres de diversas províncias e Assembleias de Maçonaria, e diz o seguinte:

O primeiro ponto: é necessário que todos os que desejam ser Companheiros da referida arte Jurem por Deus, pela Santa Igreja e por todos os Santos, diante de seu mestre e seus Companheiros e irmãos.

O segundo ponto: ele [o companheiro] deve cumprir seu trabalho diário, em virtude do que lhe foi pago.

O terceiro ponto: ele [deve aceitar] as decisões dos seus companheiros em Loja e em Câmara e em qualquer outro lugar.

O quarto ponto: Não enganará a sua Arte, nem a prejudicará, ou sustentará afirmações contra a Arte ou contra alguém da Arte, senão que os manterá com dignidade porque ele pode.

O quinto ponto: Quando receba seu pagamento, o tomará humildemente, já que o mestre estabeleceu o tempo do trabalho e o resto (por ele) ordenado está permitido.

O sexto ponto: Se surgir qualquer discórdia entre ele e seus companheiros deverá obedecer humildemente e permanecer às ordens do mestre, ou na sua ausência, ao vigilante [nomeado] pelo mestre; e na próxima festa religiosa se colocará à disposição dos Companheiros; não em um dia útil, deixando o trabalho e o proveito de seu Senhor.

O sétimo ponto: Que não deseje a esposa ou a filha de seu mestre ou de seus companheiros, e se for casado, não tenha amante, porque poderiam surgir divergências entre eles.

O oitavo ponto: se acontecer de ser nomeado vigilante por seu mestre, que seja um transmissor seguro entre seu mestre e seus companheiros, e na ausência de seu mestre, substituindo-o com empenho, para a honra do mestre e vantagem do Senhor a quem serve.

O nono ponto: se for mais sábio e agudo que o companheiro que trabalha com ele na Loja ou em qualquer outro lugar, e se perceber que o outro deve deixar a pedra sobre a qual está a trabalhar por falta de habilidade, deverá instruí-lo para que o amor cresça entre eles e a obra do senhor não seja perdida.

Sobre a Assembleia de Justiça.

Quando o Mestre e os Companheiros sejam avisados e chegam a tais Assembleias, se for preciso serão convidados a participara junto com os companheiros e o mestre da Assembleia, o xerife do condado, o prefeito da cidade, e o conselheiro mais antigo da Cidade onde se celebra a Assembleia, para servir de ajuda contra os rebeldes e para manter o direito do Reino.

Em princípio [entram no Ofício] homens novos que nunca foram condenados, de modo que não sejam nunca ladrões, ou [cúmplices] de ladrões, e que desenvolvam seu trabalho diário pela recompensa que recebem de seu Senhor, e deem um verdadeiro resumo a seus Companheiros das coisas que devem ser explicadas e escutadas, e os amem como a si mesmos.

E devem ser leais ao Rei da Inglaterra e ao Reino, e ater-se com todas as suas forças aos artigos mencionados.

Depois disso será perguntado se algum mestre ou companheiro que tenha sido instruído infringiu algum artigo e ali se estabelecerá se nunca fez tais coisas.

Por isso, vale dizer, se algum Mestre ou Companheiro que tenha sido avisado [da acusação], antes de vir a tal Assembleia, se rebela e não comparece, ou ainda tenha transgredido algum artigo, se isso for demonstrado, deverá renegar sua qualidade de membro da Maçonaria, e não poderá, jamais, usar sua Arte.

E se ousar praticá-la, o Xerife do país em que for encontrado trabalhando deverá colocá-lo na prisão e colocar todos os seus bens nas mãos do Rei até que seja mostrada e concedida a graça.

Por este motivo, [os participantes] nesta Assembleia estabeleceram que tanto o mais baixo quanto o mais alto deve ser fiel servidor de sua Arte em todo o Reino da Inglaterra.

Amém.

Assim seja.

Traduzido do espanhol por José Filardo

Fonte: BIBLIOT3CA

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Pequena História da Maçonaria no Brasil – Parte III

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A República Velha

Durante o período da República Velha – 1889/1930 – assistir-se-á a um changez de place na Presidência da República entre dois grupos maçônicos: a matriz positivista e militar de Benjamin Constant e o núcleo civil e liberal do Estado de São Paulo. O final desta época culmina também com a grande cisão do GOB de 1927, inicio do declínio institucional da Maçonaria brasileira, que perdura até os dias atuais. Antes de 1927 a história da Maçonaria estava imbricada com a história do Brasil, para não dizer que eram a mesma, a partir de então as duas se separam.

A 24 de fevereiro de 1891, o Congresso Constituinte aprovava e promulgava a primeira Constituição da República, a qual instituiu o presidencialismo, o laicismo e o federalismo. Dois dias depois, a assembleia elegia os governantes definitivos, colocando, portanto, fim ao Governo Provisório, que marcara a etapa de transição. Uma das chapas que se apresentaram à eleição tinha, como candidato à presidência, o marechal Deodoro, Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, e, como candidato à vice-presidência, o também maçom almirante Eduardo Wandenkolk, enquanto a chapa de oposição era encabeçada pelo maçom Prudente de Moraes tendo, como candidato a vice-presidente o marechal Floriano Peixoto. Deodoro venceu por estreita margem de votos (129 a 97), enquanto Floriano derrotava Wandenkolk. A partir de então a Marinha iria contestar o Exército que detinha as rédeas da República.

Deodoro encontrou um Parlamento hostil, que só o elegera sob a ameaça de intervenção armada. Não poderia, portanto, governar com ele. E o dissolveu, a 3 de novembro de 1891. Com isso, perdeu todos os apoios, inclusive nos meios militares, pois uma ditadura seria uma mancha muito grande para um regime republicano que ainda engatinhava e que procurava sua consolidação. E quando, a 23 de novembro, o almirante Custódio de Melo, a bordo do encouraçado Riachuelo, declarou-se em revolta, em nome da Armada, Deodoro, encontrando-se só, renunciou, para não desencadear uma guerra civil, entregando o governo ao seu substituto constitucional, Floriano Peixoto.

Deodoro, desencantado, então, com tudo, renuncia também ao Grão-Mestrado, em carta de 18 de dezembro de 1891. No plano social, os maçons, diante dos problemas surgidos com a rápida industrialização do país, principalmente no estado de São Paulo, começavam a tratar dos interesses do incipiente operariado industrial, ainda sem organismos protetores. A 30 de junho de 1892, realizavam-se novas eleições para o Grão-Mestrado do Grande Oriente do Brasil, sendo eleito Macedo Soares.

Enquanto tudo isso ocorria internamente, no âmbito externo político-social, os maçons, como toda a sociedade, em geral, enfrentavam tempos agitados. Existia um conflito entre os maçons militares positivistas do estado do Rio de Janeiro e os maçons civis, principalmente do estado de São Paulo. Após um período de conflitos civis e armados, Floriano entrega o poder, no final do seu mandato ao seu sucessor paulista, o Ir. Prudente de Moraes, que era o representante das oligarquias rurais e, portanto, do federalismo, enquanto os militares positivistas retornavam à caserna, finda que estava a espinhosa missão de consolidar o regime.

Obviamente houve, durante esse período, certa confusão entre as classes mais politizadas da nação, incluindo-se a Maçonaria, dirigida pelo conselheiro Macedo Soares. Enquanto uma parte do mundo maçônico, encontrada, principalmente, entre os oficiais das forças armadas, apoiava quase geralmente os atos de Floriano, outra facção, ligada à política regional e às oligarquias rurais, promovia revoltas, como a guerra civil do Rio Grande do Sul, envolvendo os parlamentaristas do maçom Silveira Martins e os presidencialistas, liderados por Júlio de Castilhos, que tinha o apoio de Floriano.

Terminado o governo do Ir. Prudente de Morais, o poder permaneceria, pacificamente, nas mãos das oligarquias rurais – como, de resto, ocorreu até 1930 – com a eleição do Ir. Campos Sales, expoente da Maçonaria do estado de São Paulo, cujo governo foi caracterizado pelo grande realismo na política econômico-financeira do maçom Joaquim Murtinho, ministro da Fazenda.

Em fevereiro de 1901, realizadas novas eleições, no Grande Oriente do Brasil, era eleito, para o cargo de Grão-Mestre, Quintino Bocaiúva, que no dia da Proclamação da República, cavalgou ao lado do Mal. Deodoro, e tendo como adjunto Henrique Valadares, discípulo na Escola Militar de Benjamim Constant. A matriz positivista mantinha o seu controle sobre o GOB.

Quintino Bocaiúva, apesar de todo o trabalho efetuado, não podia se dedicar integralmente ao Grão-Mestrado, pois fora eleito e, a 31 de dezembro de 1900, empossado no cargo de presidente do estado do Rio de Janeiro, para um mandato de três anos, o que fez com que, em várias ocasiões, ele fosse substituído por Henrique Valadares. Mesmo assim, concluiu seu mandato no Grande Oriente, com grande saldo positivo, a 21 de junho de 1904, entregando o malhete de supremo mandatário da Maçonaria brasileira ao general Lauro Sodré, positivista, Senador da República por vários mandatos, candidato à Presidente da República contra o Ir. Campos Sales, e secretário de Benjamin Constant quanto este ocupou a Pasta da Guerra.

Esta matriz positivista, juntamente com os maçons, também positivistas, do estado do Rio Grande do Sul, entrará em conflito com os Presidentes da República da época, egressos da maçonaria liberal e civil do Estado de São Paulo. Lauro Sodré será até mesmo preso, enquanto Grão-Mestre do GOB, no encouraçado Deodoro por quase 6 meses.

Na política republicana brasileira, nessa década, entre outros maçons, sobressaiu-se o filho do visconde do Rio Branco, o barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira, que, em 1902, foi nomeado, pelo presidente Rodrigues Alves, ministro das Relações Exteriores do Brasil, ocupando o cargo até sua morte, em fevereiro de 1912, durante os governos dos IIr. Rodrigues Alves, Afonso Pena, Nilo Peçanha e Hermes da Fonseca, com grande destaque na resolução dos litígios com nações limítrofes.

No final do governo do Presidente Ir. Rodrigues Alves era eleito, para a presidência da República, o mineiro Ir. Afonso Pena, iniciando a alternância São Paulo–Minas Gerais no poder. Tendo sido eleito por uma coligação dos partidos situacionistas estadual – os verdadeiros donos da política da época –, que se havia oposto a um candidato da preferência de Rodrigues Alves, Afonso Pena encontraria o Congresso comandado por uma maioria liderada pelo senador Ir. Pinheiro Machado, líder político e maçônico, o que fazia supor que os problemas sucessórios deveriam ser submetidos, necessariamente, à apreciação desse grupo, composto por uma maioria de maçons de diversos estados. Tendo surgido a candidatura do Ir. Davi Campista, em 1908, suscitando grande resistência, pois ele se proclamava um intervencionista, o grupo liderado por Pinheiro Machado esposou a candidatura do maçom Hermes da Fonseca, que, em sua gestão no Ministério da Guerra, criara fama de grande administrador.

Ocorreria, então, o falecimento de Afonso Pena, no auge da crise, com a consequente ascensão, ao poder, de Nilo Peçanha, também líder maçônico, o qual iria ser Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, de 1917 a 1919. Em torno dele, se oficializou o apoio político em relação à candidatura do Ir. Hermes da Fonseca, general e sobrinho de Deodoro da Fonseca, o que provocou, pela primeira vez na história da república, uma séria candidatura de oposição, por meio de Rui Barbosa. Hermes, todavia, seria eleito, pois tinha o apoio dos principais Estados.

Terminado o período de Hermes da Fonseca, os nomes mais cotados para a Presidência da República eram os do Ir. Pinheiro Machado e do Ir. Rui Barbosa: todavia, um acordo, entre os partidos republicanos dominantes de São Paulo e Minas Gerais traria à baila o nome do vice-presidente da República, o maçom Wenceslau Brás, o qual foi eleito sem oposição, enquanto o mundo se debatia na Primeira Guerra Mundial. Com a eleição de Lauro Sodré para governador do Estado do Pará, será eleito Grão-Mestre do GOB Nilo Peçanha em primeiro de junho de 1917. O Brasil entrará na guerra a 26 de outubro do mesmo ano.

No governo da República, acabado o mandato de Wenceslau Brás, em 1918 era eleito, para um novo mandato presidencial, Rodrigues Alves, que viria a falecer antes de tomar posse, o que fez com que o vice, Ir. Delfim Moreira assumisse até julho de 1919. Como este, cansado e doente, não tinha condições de comandar a política nacional, foi eleito, para completar o quatriênio, Epitácio Pessoa, que teria de enfrentar graves crises políticas.

Em 1919, a política maçônica, liderada por Nilo Peçanha, foi geralmente de oposição ao presidente Epitácio Pessoa, pois Nilo havia indicado Rui Barbosa para completar o período governamental de Rodrigues Alves. Essa posição seria mantida, embora com menor intensidade, durante o Grão-Mestrado do general Thomaz Cavalcanti de Albuquerque, que viria a suceder Nilo Peçanha, quando este renunciou ao seu mandato, a 24 de setembro de 1919. Enquanto o ambiente político estava agitado, diante da nova eleição presidencial e dos episódios que, supostamente, envolviam Arthur Bernardes, a situação do Grande Oriente também não era tranquila, pois iniciava a década com nova cisão, provocada por uma eleição fraudulenta.

Com a morte, a 28 de janeiro de 1921, do Grão-Mestre Adjunto Luis Soares Horta Barbosa realizou-se novas eleições, a 25 de abril daquele ano, para o preenchimento do cargo vago. A 3 de março, havia se realizado, no Rio de Janeiro, uma convenção para a escolha do candidato ao cargo; nessa reunião, com pouco mais de 40 convencionais, surgiram duas candidaturas: a de Mário Marinho de Carvalho Behring, sustentada por uma pequena maioria, que detinha o poder no Grande Oriente, e a do general José Maria Moreira Guimarães. Com o apoio de São Paulo, que não se fizera representar na convenção, Moreira Guimarães obteve a maioria dos votos. Manipulando, todavia, os dados, a junta apuradora anulou votos de ambos os lados, mas principalmente os do general, de tal maneira que Behring acabaria sendo eleito. Como se verá mais adiante Behring será o responsável por uma das maiores cisões que sofrerá o GOB no século XX e que perdura até os dias atuais.

Ao final da gestão do general Thomaz Cavalcanti, Nilo Peçanha era indicado, mais uma vez, para o Grão-Mestrado. Os acontecimentos políticos do país, nesse agitado período, todavia, acabariam por tornar inoportuna sua candidatura – ele fora, inclusive, ilegalmente preso, apesar de suas imunidades como Senador da República –, fazendo com que elementos ambiciosos saíssem da sombra e iniciassem o trabalho de intriga, visando galgar os altos postos do Grande Oriente do Brasil.

Os elementos que ambicionavam o Grão-Mestrado estavam ligados ao Ministério da Justiça de Artur Bernardes, então ocupado pelo maçom João Luis Alves. A 20 de maio de 1922, Mário Behring seria eleito Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, com o beneplácito de João Luis Alves. Enquanto isso, ia agitado o ambiente político nacional, com a publicação das cartas, atribuídas Arthur Bernardes – e que se verificou, depois, serem falsas –, contendo insultos ao Exército. Liderando a revolta contra as cartas, encontrava-se o Clube Militar, presidido então por Hermes da Fonseca, o que provocaria a reação governamental, com o fechamento do Clube e a prisão de Hermes, fatos que provocariam o maior inconformismo das forças armadas e a revolta do Forte de Copacabana, a 5 de julho de 1922, no episódio conhecido como o “dos dezoito do Forte”, que iniciou a mística do movimento conhecido como “tenentismo”, o qual iria assumir o poder com o golpe de 1930.

Eleito e empossado na Presidência da República, Arthur Bernardes teve um dos mais agitados períodos presidenciais, só comparáveis ao de Floriano, governando, praticamente, sob estado de sítio e intervenção federal nos Estados, embora combatido por alguns poucos destemidos, como o maçom Nilo Peçanha, ex-Grão-Mestre do Grande Oriente. Em seu governo, eclodiu, em São Paulo, a revolta de 5 de julho de 1924 – durante a qual as Lojas maçônicas foram fechadas – chefiada pelo general Isidoro Dias Lopes e sufocada em 22 dias; no mesmo ano, em outubro, estouraria, no Rio Grande do Sul, outro movimento rebelde, liderado pelo capitão Luís Carlos Prestes, que, juntamente com os remanescentes da revolta paulista, formou a “Coluna Prestes”, que realizou a marcha de 30 mil quilômetros pelo interior do Brasil, sempre perseguida pelas forças governamentais.

Continua…

Autor: William Almeida de Carvalho

William Carvalho foi diretor da Biblioteca do Grande Oriente do Brasil e Secretário de Educação e Cultura do GODF-GOB. Autor de diversos livros sobre a Maçonaria no Brasil. Membro da Loja de Pesquisas Quatuor Coronati de Londres, da Scottish Rite Research Society. Presidente da Academia Maçônica de Letras do DF. Tesoureiro da Academia Maçônica do Brasil e da Academia Maçônica de Letras da Paraíba. Doutor em Ciência Política pela Panthéon-Sorbonne.

Fonte: Revista de Estudios Históricos de la Masonería Latinoamericana y Caribeña

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Da série “Retratos da sociedade brasileira”

Os acontecimentos dos últimos dias deram mais uma prova de como caminha nossa sociedade e o seu nível de discernimento e de senso crítico. Entendo que essas imagens representam muito bem o estágio atual de uma parcela muito significativa da população brasileira.

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Los Orígenes de la Masonería Especulativa – Parte I

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Téngase en cuenta que la pobreza bibliográfica española al uso es tremenda, por lo cual es muy generalizado ver los Hermanos “tragar” todo lo que les viene, a veces sin discernir, ni tener capacidad crítica al respecto de las muchas teorías que nos vienen como sobreañadidas.

Por ejemplo, yo estoy echando de menos desde hace muchos años , una buena traducción de la Querella de los Antiguos y los Modernos, que ya está publicada en los sencillos libros de Edimaf, pero en Francés, sería estupenda tenerla en español y comentada. Eso haría que nuestra formación subiera un peldaño, pues hay piedras esenciales para comprendernos a nosotros mismos que ni siquiera tenemos en cuenta.

Intentando paliar todo ese magma de ignorancia o confusión que existe, es lo que mueve a estos blogs a exponer trabajos que se salen del marco al uso, es lo que me hace publicar este trabajo de Roger Dachez, que iré entregando en capítulos sucesivos para ir teniendo perspectivas diferentes, y que debiera traer todo un panorama de preguntas y reflexiones sobre nuestra propia existencia, nuestra herencia y los mundos que nos hemos ido construyendo. Espero que sirva para algo. estos artículos, y pido perdón de antemano, por la deficiente traducción muy personal y un tanto basta.

De todos los debates relativos a la historia de la francmasonería, el que se refiere a los orígenes de la Masonería especulativa, no debe dudarse, es uno de los más fundamentales. Ahora bien, en Francia, este tema apareció más o menos recientemente, y yo he contribuido modestamente a que se conociera en 1989, publicándolo en la Revista Renaissance Tradicional, a través de dos largos artículos en los que ponía de manifiesto, precisamente que sobre esta cuestión podía y hay un serio debate, exponiendo por primera vez en lengua francesa una parte fundamental de los estudios efectuados hasta ese momento en Inglaterra y en Escocia, desde principios de los años setenta.

El simple hecho de plantear la cuestión de los orígenes de la Masonería Especulativa, y para decir las cosas claramente, de mencionar la ausencia de filiación directa con la Masonería operativa medieval como una hypothèse, simplemente posible, suscitó en distintos medios, y se vió en distintos estudios, en ocasiones con reacciones francamente hostiles, llegando a veces hasta la sinrazón. Observo que desde entonces varios autores, en distintos estudios y algunas obras, consideraron útil mencionar este debate, en adelante ya dado por inevitable, y por tanto era necesario que se examinasen, al menos, las teorías de sustitución y la teoría clásica de la transición , se juzgan gemelamente como dignas dentro de la masonería.

Es obviamente en Inglaterra y en Escocia, todo un progreso considerable, aunque no se puede negar que existen ciertas oposiciones, y que éstas se manifiestan de buen grado. No obstante, la emoción levantada por este nuevo problema, y el hecho mismo que hay hasta cierto punto estamos ante “debate sobre el debate”, me obligan, antes de abordar el núcleo central de la cuestión, a volver de nuevo, a la manera de un preámbulo necesario, a realizar algunas consideraciones metodológicas que valen para el conjunto de este trabajo . Nuestro estudio, desde hace treinta años, hizo suyo la posición definida en 1947 por dos grandes historiadores ingleses de la Masonería, Knoop y Jones, manifestada en el prólogo a la primera edición de su obra principal The Genesis of Freemasonry :  En primer lugar, advierten los autores, aunque haya sido hasta ahora habitual pensar la historia masonería como una cuestión aparte de la historia ordinaria, justificando de este modo un tratamiento especial, pensamos que se trata de una rama de la historia social, del estudio de una institución social particular y de las ideas que estructuran a esta institución, y que se debe abordar y escribirla exactamente de la misma forma que la historia de las otras instituciones sociales.

Sólo tenemos que retomar estas observaciones que aprobamos sin reserva, convencidos de que no hay otra vía posible en la investigación histórica. Es una elección obviamente importante que inevitablemente dista mucho de ser compartida por la unanimidad de los autores que trabajan en la historia masónica.

Así como la historia de algunas religiones, y de algunas iglesias, tratada con objetividad, es a veces dolorosa para el historiador, puesto que implica conflictos muy vivos con algunos fieles que se niegan a observar y a digerir su propia historia, es lo que sucede con la historiografía masónica que llamaremos como “la historia laica” de la Masonería, y es todo un escollo del cual el historiador de la Masonería debe se plenamente consciente.

Gran Logia Unida de Inglaterra

Hace más de una quincena de años, el erudito inglés John Hamill, que fue bibliotecario durante mucho tiempo de la Gran Logia Unida de Inglaterra, y conservador de sus fabulosos archivos y su museo, en su obra simplemente titulada The Craft, que vuelve a publicar en1994 con una trabajo revisado en el fondo y en la forma con el título: History of English Freemasonry, ya se expresaba claramente esta dificultad:

“Hay pues dos tipos de enfoques en cuanto a la historia masónica: el enfoque, propiamente dicho, como “auténtico” o científico, según el cual una teoría se funda se desarrolla a partir de hechos comprobables o de documentos; y un enfoque dicho “no auténtico” que se esfuerza por poner de nuevo a la Francmasonería en el contexto de la tradición de Misterio, buscando vínculos entre las enseñanzas, las alegorías y el simbolismo de la Masonería de una parte, y de la distintas tradiciones esotéricas por otra parte. La ausencia de algunos conocimientos sobre el período de los orígenes de la Masonería, y la diversidad de los enfoques posibles explican seguramente porqué este problema sigue siendo tan cautivante.”

[…] Saber si algún día descubriremos los verdaderos orígenes de la Francmasonería es una cuestión que permanece sin respuesta. » Con esta perspectiva deseo aportar algunas reflexiones sobre el problema de los orígenes de la Masonería Especulativa, y lo hago no aportando pesados y aburridos catálogos de teorías más o menos fundadas y de hechos o documentos escrupulosamente analizados, sino como una síntesis de diez años de trabajo, de reflexiones e investigaciones personales sobre este tema que les expongo Vulgta Masónicaque: la teoría de la transición La tesis más antigua y la más extendida, es aquélla que exponen la mayoría de las obras consagradas en cuanto a la historia masónica en Francia, y que comparten espontáneamente la inmensa mayoría de los Masones, y que necesariamente no examinan la cuestión a fondo , es la teoría conocida como transition.

Incluso en la rigurosa escuela histórica inglesa de la Masonería, fundada al final del siglo pasado por Gould y Hughan, se enseñó durante mucho tiempo esta teoría. En las últimas décadas, su partidario más brillante fue el erudito Harry Carr, que posee sobre el resto de historiadores de Inglaterra una estimable posición intelectual preeminente.

Esta teoría, afirma que al salir de la Edad Media, la Masonería Operativa, que poseía entonces una organización con logias y usos rituales, sufrió una determinada decadencia, a causa de las transformaciones económicas afectaron a los oficios de la construcción.

En Gran Bretaña, y, en particular, en Escocia, al final del Renacimiento, y más concretamente aún en el transcurso del siglo XVII, producto de una transformación sensible en la Institución , hombre ajenos al Oficio, fueron ocupando a menudo cargos importantes, en general desempeñados por intelectuales que de buen grado llevados por las especulaciones resultantes de la corriente imperante del momento de raíces alquimistas, neoplatónicas nacidas en Florencia, en el siglo XV, en combinación con la tradición Rosa-Cruz, muy difundida a partir del principio del XVII, habían hecho su entrada en logias en esos momentos muy moribundas. Estos Aceptados Masones, poco a poco, fueron aumentando su número y su influencia hasta el punto de convertirse en mayoritarios dentro de las logias, llegando hasta cierto punto a eliminar a los masones operativos, convertidos de este modo en unos extraños en su propia institución.

Esta Vulgata, que, implica también algunas otras alternativas, integra en ocasiones lo que se podría llamar como las leyendas complementarias. La primera de estas leyendas, es por ejemplo, el tema de los Maîtres Comacins, estos misteriosos masones italianos quienes, en virtud de franquicias muy conocidas que les fueron conferidas por el Papa – y que justificarían para el resto la expresión franc-maçon – hubieron de haber cruzado toda Europa, extendiendo su conocimiento arquitectónico, geométrico y esotérico, fertilizando así los primeros gérmenes de la Masonería Especulativa. Ya mostré en otra parte, hace algunos años, de donde procede esta fábula sin ningún fundamento documental, y por qué juego de copieteos sucesivos sin comprobación de las fuentes, esta leyenda ha ido adquiriendo visos de verdad.

Hypothèse Compagnonnique

Otro componente, a menudo confusa, pero muy viva dentro de la teoría de la transición, es la hypothèse compagnonnique. No es el momento de mostrar en detalle las contradicciones y las inverosimilitudes. Sin embargo descansa en gran parte, y es este punto destacaremos que hay una grave pero frecuente confusión entre la Masonería Operativa, tal como pudo existir, bajo formas extremadamente diversificadas en el resto de Europa de la Edad Media, en Francia, Gran Bretaña y Alemania, por ejemplo, con estatutos a menudo bien diferentes, y el Gremio del Compañerismo propiamente dicho, organización de origen esencial, y durante mucho tiempo, casi exclusivamente francesa, cuyos orígenes históricos parecen certificados hacia el XV siglo, pero sobre los usos de los cuales, recordémoslo, poseemos poca información sustancial o fiable antes del final del XVIII.

En cualquier caso, es importante hacer hincapié en el hecho de que la Masonería Especulativa se formó, en condiciones aún dudosas, durante el siglo XVII en Gran Bretaña, nunca jamás ha conocido p coincido con el Gremio del Compañerismo , al menos a este tiempo de la fundación.

Que se pueda situar la cuestión como organizaciones vinculadas a los oficios de la construcción – pero no exclusivamente para el Gremio Compañeros – en las semejanzas de formas y usos, no tiene que sorprendernos, pero debemos tener presente siempre este proverbio que todo historiador escrupuloso no debe olvidar “comparación no es razón”

Una Crítica Radical de la Transición

Fue necesario esperar a los años setenta para que hubiera una crítica decisiva y se llevara por delante la teoría de la transición. Fue la obra, en particular, de un notable investigador inglés: Eric Ward. La crítica de Eric Ward, está asentada sobre el significado clásicamente asignado a algunas de las palabras claves utilizadas por la teoría de la transición. Citaré algunos ejemplos. Freemason, Free-Mason. El origen y el significado de la palabra freemason es un buen ejemplo de las ambigüedades explotadas por la teoría clásica. E.Ward a podido demostrar de manera definitiva que, contrariamente a todas las etimologías fantasiosas que corren aún a día de hoy, la palabra freemason no pertenece a la Edad Media, ya que es una conformación de dos palabras freestone mason, masón de piedra franca, designando de este modo a un obrero que trabaja efectivamente una determinada calidad de piedra blanda que se puede cortar y trabajar de manera muy fina Ahora bien, si tomamos los primeros testimonios relativos a los masones no operativos ingleses del siglo XVII, observamos que estos Accepted Masons son también indiferentemente designados por las palabras Free Masons, u Free-Masons, con o sin guión, pero siempre con dos palabras.

Todo indica claramente que a partir del final del XVII, y principios del XVII, los términos Accepted et Free vienen a ser equivalentes para designar a los Masones no Operativos. Pero tal y como hizo observar E.Ward, en un análisis muy inteligente freemason no es Free-Mason. La palabra Free, en Free- Mason u Free and Accepted Mason simplemente hace referencia al hecho de que estos “nuevos” Masones son “libres” respecto al Oficio, es decir, simplemente ajenos al Oficio… En resumen, la identidad fonética y la proximidad morfológica palabras freemason (palabra muy antigua, derivada del anglonormando, y vinculada a la práctica operativa) y Free-Mason, no deben hacernos olvidar la verdadera desemejanza semántica, y no pueden autorizarnos a buscar y a introducir un parentesco entre hombres de épocas distintas, los cuales llevaron estos nombres por razones evidentemente muy diferentes. Las logias operativas inglesas? Otro problema planteado es el hecho de que la francmasonería especulativa haya nacido Inglaterra – en el sentido exacto del término. Ahora bien, nosotros sabemos que no existe ningún documento que dé prueba que de que personas ajenas al Oficio hayan sido admitidas en las logias operativas inglesas.

Continua…

Autor: Roger Dachez
Traduzido para o espanhol por Victor Guerra

Fonte: Diario Masónico

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A Simbologia da Purificação pelos Elementos e as Origens da sua Introdução nos Rituais Maçônicos

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A simbologia da purificação pelos quatro elementos encontra-se presente na maior parte dos rituais de iniciação, dos ritos maçônicos continentais, e ausente na globalidade dos ritos de origem anglo-saxônica. Este procedimento litúrgico, que integra as provas sucessivas da terra, água, ar, e fogo,baseia-se numa concepção simbólica da constituição da matéria, profundamente enraizada na cultura clássica ocidental.

O estudo do Cosmos foi um dos temas recorrentes entre os filósofos gregos pré-socráticos. Segundo Actius “Foi Pitágoras o primeiro que deu o nome de Cosmos à envolvente do universo, em razão da organização que aí se vê”.

O mesmo filósofo refere, ainda, que “Thales, Pitágoras e os da sua escola tinham dividido a totalidade da esfera celeste em cinco círculos, que eles chamavam zonas”. Estes consistiam no equador, nos trópicos, no circulo ártico, e no circulo antártico.

Tião de Esmirna nos conta dos ensinamentos de Filolaos (Filolau de Crotona), que estabelece uma correspondência simbólica entre as cinco zonas da esfera celeste e cinco elementos: “Os corpos da esfera são cinco: o fogo, a água, a terra e o ar, que se encontram contidos na esfera, aos quais se acrescenta um quinto, a casca da esfera”.

Resulta, pois, evidente a correspondência dos quatro elementos atrás referidos às cinco zonas da esfera celeste, e a crença na existência de um quinto elemento representativo da unidade de todo o Cosmos. Esta correspondência identificava a água com a região antártica, os trópicos com o ar, o ártico com o fogo e, a terra com a zona equinocial.

Para além deste arquétipo cosmológico, os quatro elementos tradicionais tiveram, também, interpretação metafísica, simbolizando Zeus o fogo, Hera a terra, Nestes (Hefesto) a água e Adônis o ar.

Tendo em conta a sua proveniência e essência, estes quatro elementos da física pré-socrática não podem ser considerados literalmente, mas apenas simbolicamente, seja no seu contexto de origem, seja no âmbito dos domínios que, posteriormente, os importaram por sincretismo, tais como a filosofia hermética, a alquimia, ou a maçonaria.

É neste último caso, que importa aprofundar a sua gênese e disseminação.

Muito embora a temática das viagens tenha estado presente, nas cerimônias de iniciação, desde os primórdios da maçonaria especulativa, o mesmo não se passa relativamente às purificações pelos quatro elementos. Assim:

  • Em 1730, Samuel Prichard na sua “Masonry Dissected” (Maçonaria Dissecada) refere, somente, que o candidato efetuava uma volta à Loja, para se apresentar à assistência;
  • Em 1737, no mais antigo Ritual Francês conhecido, o recipiendário fazia três viagens, antes de ser conduzido ao Venerável Mestre. Não existem, neste ritual, nem elementos, nem provas, nem purificações, apenas no decurso das viagens era vertida resina em pó sobre os candelabros justapostos ao Quadro de Loja, para causar maior impressão no recipiendário;
  • Em 1767, os “Rituais do Marquês de Gages” descrevem o recipiendário conduzido à volta da Loja pelo 1º Vigilante, sem que intervenham nas viagens nem elementos, nem purificações, se bem que a prova do fogo figure na iniciação;
  • Todavia, um catecismo de 1749, de uma Loja de Lille, comporta a resposta “Fui purificado pela água e pelo fogo”. Trata-se da mais antiga menção desta inovação, a qual já existia em altos graus praticados na época, podendo ter migrado daí para a maçonaria azul. Estas duas purificações não têm, aliás, origem hermética, mas sim bíblica, correspondendo aos batismos da Antiga e da Nova Aliança. Recorde-se as palavras de S. João Batista, em Mateus 3.11 “Em verdade vos batizo com água… mas aquele que vem após mim… vos batizará com o Espírito Santo e com fogo”;
  • Em 1786, no “Régulateur du Maçon” (Regulador do Maçom), documento fundador do Rito Francês, o Grande Oriente de França fixa a purificação pela água após a segunda viagem, e a purificação pelo fogo após a terceira, sem haver qualquer referência a outros elementos;
  • Os três elementos constituintes da matéria, na perspectiva Martinista (fogo, água, terra) só aparecem tardiamente na maçonaria retificada, em 1786-1787, apenas e somente com a interpretação especifica do RER, sem qualquer relação com a que se encontra nos restantes ritos;
  • O “Guide des Maçons Écossais” (Guia dos Maçons Escoceses), de 1804, mais antigo documento regulador dos graus simbólicos do REAA, faz passar o recipiendário pelas chamas purificadoras na terceira viagem, sendo as duas anteriores isentas de purificações;
  • Enfim, em 1820, o Ritual do Rito de Misraïm explicitamente prevê a purificação pelos quatro elementos, sendo a prova da terra objetivamente associada à passagem pela Câmara de Reflexões, e as purificações pela água, fogo, e ar, realizadas sucessivamente por esta ordem, associadas a três viagens realizadas fora do Templo, nos Passos Perdidos. Tratou-se, pois, de uma completa inovação, relativamente a um século de pratica maçônica anterior, neste país.

Este modelo repetiu-se no Ritual do 1º Grau do Rito de Memphis, de 1838, no qual apenas foi alterada a ordem dos elementos, para terra-ar-água-fogo. A migração desta simbologia foi quase imediata, dos Ritos Egípcios para os demais ritos praticados à época na França, passando, contudo, as purificações a serem realizadas no interior do Templo.

Muito embora nas revisões do Rito Francês efetuadas até à versão Murat, de 1858, tenha sido mantido, formalmente, o protocolo inicial das duas purificações, a identificação das viagens com os quatro elementos foi, correntemente assumida pelos autores maçônicos da época ligados a este Rito, nomeadamente por Clavel e, por Ragon.

A partir de 1877, as purificações foram retiradas dos rituais do Grande Oriente de França, na sequência de uma revisão laicizante do Rito, tendo sido reintroduzidas, já com referência aos quatro elementos, no decurso dos últimos decênios. Tanto no Rito Francês Groussier, como no Rito Francês Moderno Restabelecido, a ordem dos elementos considerada é terra-água-ar-fogo.

Tal foi, também, a ordem elegida por Robert Ambelain, na sua revisão dos rituais dos Ritos Egípcios, que deu origem ao Ritual do Rito Antigo e Primitivo de Memphis-Misraïm, atualmente praticado.

No REAA, a importação também se deu imediatamente, estando a mesma presente em todos os Rituais da Grande Loja de França, desde a sua fundação em 1896, com a ordem terra-ar-água-fogo, que é hoje característica deste Rito. Se o REAA influenciou, na sua gênese, os Ritos Egípcios, também podemos considerar que estes vieram, reciprocamente, a inspirar, de algum modo, a sua matriz original.

Perante toda esta sequência cronológica, duas perguntas surgem naturalmente:

– Porque é que estas purificações apareceram em 1820?

– E porquê num Rito Egípcio?

A resposta para elas poderá estar em… Mozart!

No libreto da ópera “A Flauta Mágica”, de 1791, no seu segundo ato, cena 7, consta a seguinte referência:

“Aquele que avançará por esta estrada plena de obstáculos
Será purificado pelo fogo, a água, o ar e a terra
Se ele pode superar os receios da morte
Se elevará da terra até ao céu”

Sendo esta ópera da autoria de dois Maçons, Mozart e Shikaneder, e reproduzindo a mesma uma iniciação, será que esta simbologia já existia na maçonaria austríaca trinta anos antes de ter surgido em França?

Mozart foi iniciado em 14 de dezembro de 1784, em Viena, na Loja “Zur Wohltätigkeit”, sob os auspícios da Grande Loja Nacional Austríaca. Antes dessa data, praticavam-se, em Viena, quatro ritos: a Estrita Observância, o Rito de Zinnendorf, o RER e o Rito de Adoção.

Muito embora a Loja-Mãe de Mozart tenha sido constituída para praticar o RER, à data da sua iniciação, a oficina utilizava já outro ritual, do qual se encontra depositada, em Copenhague, uma cópia manuscrita.

Trata-se de um ritual claramente de influencia francesa, todavia com alguns pontos comuns ao Ritual do 1º Grau do Rito de Zinnendorf. Nesta cerimônia, o recipiendário, depois de passar pela Câmara de Reflexões, faz três viagens. Segundo o texto deste ritual, o Venerável Mestre ordena ao Segundo Vigilante que faça o recipiendário realizar a primeira viagem “pelo ar e pela terra”, a segunda “pela água”, e a terceira “pelo fogo”, sem haver, contudo, qualquer referência a purificações.

Se este conceito migrou da maçonaria para a ópera, tal não pode ser objetivamente confirmado. Constitui, contudo, um facto, que Mozart foi iniciado através de um ritual que mencionava os elementos, não assumindo, todavia, no mesmo a forma presente no libreto de “A Flauta Mágica”, que se parece reproduzir no Rito de Misraïm.

No final do séc. XVIII a maçonaria austríaca irá cair na penumbra, e praticamente desaparecer, em virtude dos éditos restritivos de José II, o mesmo não sucedendo, contudo, à “A Flauta Mágica”, que conhecerá uma notoriedade assinalável por toda a Europa.

Subsistem, todavia, as perguntas: porquê 1820, e porquê num Rito Egípcio. Poderá, no entanto, ter sido recentemente descoberto o elo da cadeia, que faltava para lhes dar resposta.

Em 1801, Ludwig Wenzel Lachnit, natural de Praga, apresentou ao público parisiense uma “nova ópera de Mozart” denominada “Os Mistérios de Ísis”. Esta obra, com libreto em Francês, da autoria de Étienne de Chédeville, e música reciclada a partir da partitura da “A Flauta Mágica”, e de importações de outras óperas de Mozart, conheceu um assinalável sucesso, atingindo um total de 130 representações até 1810, com reposições em 1816, e 1827.

Terá sido a ópera mais representada durante o Império, não sendo estranho ao seu êxito o facto de a sua estreia ter coincidido com o final da Campanha do Egito, e de ter beneficiado de uma quinzena de anos nos quais os temas egípcios estiveram na moda.

No livreto desta obra, publicado em Paris, em 1806, as personagens são precipitadas “num sombrio subterrâneo”, passando posteriormente para um outro “sombrio e profundo subterrâneo destinado às provas do fogo, da água, e do ar” antes de, finalmente, acenderem ao “Templo da Luz”.

Será que, numa altura em que a informação existente sobre o Antigo Egito era escassa e mítica, o livreto de “Os Mistérios de Ísis” não poderá ter servido de inspiração aos irmãos Bédarride para escreverem o Ritual do seu Rito de Misraïm?

Trata-se, contudo, de uma pergunta que só eles poderiam responder, sendo, todavia, comprovado, que nos meios maçônicos da época, lhes foram, merecida ou imerecidamente, atribuídos propósitos idênticos aos que teria tido o promotor desta ópera, e que teriam mais a ver com metais, do que com valores maçônicos.

A ter-se verificado, este “transfer” constituiria mais um exemplo de que nem a sociedade é impermeável a ideias veiculadas na maçonaria, nem esta última o é a ideias, ou modas, provenientes da sociedade.

Este sincretismo pode, ainda, ser indiciado pelo fato de Alexandre Lenoir ter publicado, em 1814, o livro “La Franche-Maçonnerie rendue à sa véritable origine”, o qual marca a origem da Egiptologia Maçônica e, onde se descrevem as iniciações no Antigo Egito (mítico), referindo-se as purificações pelos quatro elementos e, a necessidade das cerimônias maçônicas se ajustarem aos procedimentos dos Antigos Mistérios.

Ainda no que concerne à ópera de Lachnit, apesar do enorme sucesso comercial obtido, não se eximiu de ser severamente criticada nos meios musicais mais eruditos, nomeadamente por Berlioz, ou por Otto Jahn, que lhe alterou o titulo de “Les Mystères d’Isis” para “Les Misères d’ici”.

Em conclusão, as purificações pelos elementos, introduzidas em força e vigor na maçonaria, no primeiro quarto do séc XIX, ganharam plena profundidade simbólica já no séc. XX, através da contribuição de vários simbolistas notáveis, dos quais destaco Oswald Wirth, que incorporou muitas interpretações herméticas à simbólica tradicional maçônica do REAA. Termino, pois, com palavras suas, bem elucidativas do sentido iniciático que podemos dar a este procedimento ritual:

“Esta vida de ordem superior proporciona-se através do desenvolvimento do princípio da personalidade, dado que o ser inferior não é mais do que um autômato que reage mecanicamente sobre a ação das forças das quais é o joguete. A sua vida permanece material ou elementar porque ela resulta unicamente do conflito dos Elementos… Mas as forças exteriores, tão potentes sejam elas, devem ser dominadas pela energia que acha a sua origem na personalidade. É porque o homem é chamado a desenvolver em si um princípio mais forte que os Elementos, que ele entra em luta com eles no decurso das provas iniciáticas”

Pessoalmente, penso que este princípio reside no Conhecimento, principal impulsionador da elevação da Condição Humana, entendendo-se o mesmo não só como sapiência, mas também e, fundamentalmente, como consciência. Cada um, contudo, dentro do seu livre-pensamento deverá encontrar a sua interpretação pessoal para o mesmo.

Só assim estaremos, realmente, a fazer Maçonaria.

Autor: Joaquim G dos Santos
Loja de S. João Fiat Lux nº 537, Oriente de Lisboa, filiada ao G.’.O.’.L.’.

Fonte: Ritos & Rituais

Publicado inicialmente em https://independent.academia.edu/joaquimSantos4

Referências Bibliográficas

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– Dachez Roger ”Les Rites Maçonniques Égyptiens”, PUF, Paris, 2012;

– Dachez Roger e Pétillot Jean-Marc ”Le Rite Écossais Rectifié”, PUF, Paris, 2012;

– Dachez Roger ”Quatre elements: Epreuves élementaires ou baptêmes successifs?”, Paris, 2013;

– Giambello Sylvain ”Les Mystères d’Isis (Lachnit, Paris, 1801)”, Paris, 2013;

– Guérillot Claude ”Les trois premiers degrés du Rite Écossais Ancien et Accepté”, Guy Trédaniel Éditeur, Paris, 2003;

– Mainguy Iréne ”La Symbolique maçonnique du troisième millénaire”, Éditions Dervy, Paris, 2006;

– Marcos Ludvic ”Histoire Illustrée du Rite Français”, Éditions Dervy, Paris, 2012;

– Négrier Patrick ”Les Symboles Maçonniques d’après leurs sources”, Éditions Télètes, Paris, 1990;

– Nöel Pierre ”Les Grades Bleus du Rite Écossais Ancien et Accepté”, Éditions Télètes, Paris, 2003;

– Ragon Jean-Marie ”Cours Philosophique et Interprétatif des Initiations Anciennes et Modernes”, Berlandier Libraire-Éditeur, Paris, 1841;

– Ragon Jean-Marie ”Tuileur Général de la FrancMaçonnerie”, Collignon Libraire-Éditeur, Paris, 1861;

– Win Jean van ”Le rituel de récepcion au grade d’apprenti de Mozart et ses épreuves purificatrices”, Bruxelles, 2013;

– Wirth Oswald ”La Franc-Maçonnerie rendue intelligible à ses adeptes”, Éditions Dervy, Paris, 2007.

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Pequena História da Maçonaria no Brasil – Parte II

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 Adormecimento, Reinstalação e um Oriente Concorrente

No período compreendido entre a suspensão dos trabalhos do Grande Oriente, em outubro de 1822, e a abdicação de D. Pedro I, a atividade maçônica foi bastante atenuada, embora não tenha parado totalmente, nem nos trabalhos de Loja nem na política. Antes de abdicar, D. Pedro I, nomeou José Bonifácio tutor de seu filho. Turbulências políticas não faltaram neste reinado de D. Pedro I, sendo que o principal fato foi o movimento revolucionário de 1824, que visava congregar sob regime republicano – na chamada Confederação do Equador – as províncias do Nordeste, que se haviam rebelado contra os atos de D. Pedro.

Movimento de nítida inspiração maçônica, a Revolução de 1824 teve, como um de seus principais líderes, o frei Caneca – Joaquim do Amor Divino Rabelo e Caneca –, frade carmelita, maçom e republicano, que já havia sido um dos expoentes da Revolução Pernambucana de 1817 e que, entre dezembro de 1823 e agosto de 1824, fez intensa pregação republicana em 29 números do Typhis Pernambucano, jornal que publicou no Recife, desferindo campanha contra o imperador, desde a dissolução da Constituinte e a imposição da Constituição de 24 de fevereiro de 1824.

De 1824 a 1829, pouco se sabe sobre a atividade maçônica. Após a abdicação de D.Pedro I, a 7 de abril de 1831, os maçons começaram a se reagrupar. Os remanescentes do primeiro reconhecido Grande Oriente Brasileiro, vendo que, após a renúncia, havia um clima mais liberal, que seria propício aos trabalhos maçônicos, reuniram-se em outubro de 1831, reinstalando os três primeiros quadros. E, para que esse ato fosse legal, os primeiros oficiais da Obediência instalada em 1822 juntaram-se em assembleia, juntamente com o primeiro Grão-Mestre José Bonifácio, sob a determinação de que todos só serviriam provisoriamente, até que fosse concluída a Constituição do Grande Oriente do Brasil, sucessor do Grande Oriente Brasiliano. Logo depois que foi reinstalado, o Grande Oriente publicou um manifesto, assinado por José Bonifácio, dirigido a todos os maçons brasileiros e às Obediências estrangeiras, anunciando que seus trabalhos retomavam força e vigor.

Antes, todavia, da reinstalação do Grande Oriente do Brasil, já havia surgido outro, denominado Grande Oriente Nacional Brasileiro, ou simplesmente Grande Oriente do Passeio, em alusão à rua onde funcionava. O Grande Oriente do Brasil, que se considerava sucessor do Grande Oriente Brasílico (ou Brasiliano), de 1822, seria reinstalado a 23 de novembro de 1831. No manifesto do Grande Oriente do Brasil, entre uma visão do desenvolvimento na Maçonaria no Brasil até aquela data, havia o convite, para que os membros do Grande Oriente do Passeio se reunissem em um só círculo maçônico, o qual, todavia, foi rejeitado.

Assistir-se-á um conflito permanente entre os dois Orientes na busca de representar a Maçonaria brasileira. Os problemas aumentariam no fim de 1832 com a introdução, por Francisco Gê Acayaba de Montezuma, filiado a ambas as Obediências, de um Consistório e um Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito, já que o Grande Oriente do Passeio iria fazer com que suas oficinas adotassem o rito. E o Grande Oriente do Brasil assumia o Rito Moderno, ou Francês.

Apesar desses percalços, o Grande Oriente do Brasil continuava trabalhando no terreno social, começando sua luta pela libertação dos escravos, com autorização de despesas para cartas de alforrias, até desembocar, na metade do século, em franca e decidida campanha abolicionista. Após a renúncia de D. Pedro, o país passou a ser governado por Regência – trina ou unas – ocupadas por maçons de tendências liberais, gerando neste período uma série de convulsões políticas e sociais. A fragilidade da regência fazia com que setores conservadores trabalhassem pela restauração do primeiro imperador brasileiro, enquanto os setores liberais queriam impedir qualquer tentativa de retorno do Imperador deposto.

Em 1835, o GOB instalava, a 6 de agosto, o Soberano Capitulo do Rito Francês, ou Moderno. A 26 de março de 1836, era fundado, no Rio de Janeiro, o Ilustre Conselho Kadosh Nº 1. Em 1836, José Bonifácio era reeleito Grão-Mestre. Em 1837, constituía-se, em lugar dos Capítulos, um Grande Colégio de Ritos, ficando, com isso, regulamentado o REAA, embora o rito oficial da Obediência continuasse a ser o Francês. No final do mesmo ano, a 3 de dezembro, José Bonifácio, com a saúde bastante abalada – viria a falecer a 6 de abril de 1838 – entregava o Grão-Mestrado ao futuro Visconde de Albuquerque, Holanda Cavalcanti de Albuquerque, que havia sido eleito para o cargo. O novo Grão-Mestre tenta uma reaproximação com o Passeio. No mesmo ano ainda era reinstalada uma loja no Rito Adonhiramita, que não era mais praticado no Brasil. O Rito Adonhiramita, até pouco tempo atrás, era praticado somente no Brasil, perecendo no resto do mundo.

No início da década de 40, o Passeio começa a entrar em decadência, perdendo diversas lojas para o GOB. No terreno político, membros das duas Obediências participavam ativamente dos acontecimentos do período da Regência, em que quase todos foram maçons, e iriam ter atuação marcante no movimento pela maioridade do herdeiro do trono. Neste período regencial, as correntes políticas organizavam-se em diversos grupos, trazendo instabilidade ao regime: o grupo dos exaltados queria chegar, logo, à república e ao federalismo; temendo esses excessos, os reacionários (chamados de restauradores, ou “caramurus”) desejavam a volta do imperador, enquanto se formava a corrente preponderante, a dos moderados, liderada pelo maçom e jornalista Evaristo Ferreira da Veiga.

Quando foi tomada a decisão de substituir a Regência Trina pela Regência Una, o Ir. Feijó foi eleito, a 7 de abril de 1835, Regente do Império, com 2.828 votos, ante 2.251 dados a Holanda Cavalcanti, futuro Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil. Assistia-se, mais uma vez, o eterno embate entre maçons liberais e conservadores.

Com o acirramento das lutas entre os restauradores, os exaltados e os moderados, os regentes, não mais podendo suportar a pressão, retiraram, por decreto de 1833, José Bonifácio da tutoria, após o que ele foi preso e posto em sua casa, onde ficaria confinado, sendo Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, cargo para o qual fora eleito a 6 de novembro de 1832. Embora confinado – já ostentando o 33º grau, recebido a 5 de março de 1833, do Supremo Conselho criado por Montezuma –, ele continuaria com a autoridade do cargo.

Ainda durante esse período, teria início, em 1835, a Revolução Farroupilha, movimento autonomista que se estenderia até 1845 e que, tendo sido liderado pelo maçom Bento Gonçalves da Silva, teve entre os seus expoentes outros dois maçons: David Canabarro e Giuseppe Garibaldi, que iria posteriormente lutar pela unificação italiana.

A 1º de janeiro de 1842 era dissolvida a Câmara dos Deputados, ainda durante as sessões preparatórias, o que enfureceu os liberais, ocasionando as revoluções armadas de Minas Gerais e de São Paulo, esta última chefiada, pelos maçons padre Feijó e senador Vergueiro.

A 9 de setembro de 1850, sucedendo a Holanda Cavalcanti, tomava posse, como Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, o então Visconde – depois Marquês – de Abrantes, Miguel Calmon du Pin e Almeida.

O Ocaso do Passeio e a Criação dos Beneditinos

Enquanto isso, o Grande Oriente do Passeio conhecia um processo de franca deterioração. No início de 1861, o Grande Oriente do Passeio estava quase liquidado, com a passagem do Visconde do Uruguai, ex-Grão-Mestre do Passeio, para o Grande Oriente do Brasil, acompanhado por cerca de 20 Lojas.

Em 1863, quando o Grande Oriente do Brasil, que funcionava agora na Rua do Lavradio e era conhecido daí por diante como Grande Oriente do Lavradio, livre das divisões, depois de absorver o Grande Oriente do Passeio, preparava-se para um período de pujança interna e externa, eis que surge uma grave cisão, com o afastamento de cerca de 1.500 maçons, que, sob a liderança do Ir. Joaquim Saldanha Marinho fundou uma nova Obediência, a qual tomou o nome do local onde funcionava: Grande Oriente do Vale dos Beneditinos ou, simplesmente, Grande Oriente dos Beneditinos.

A 25 de novembro de 1863, em uma sessão tumultuada por elementos da oposição, o Barão de Cayru era aclamado – dadas às circunstâncias – novo Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil. Com o falecimento de Cayru, a 26 de dezembro de 1864 era eleito Joaquim Marcelino de Brito para o Grão-Mestrado. Mesmo perdendo algumas Lojas para a agremiação de Saldanha Marinho, o Grande Oriente aumentou seu número de Oficinas, por meio da dinamização que a ele foi imposta, como reflexo da própria emulação provocada pela dissidência.

Em 1869, começavam gestões para reunificar as duas Obediências, por interferência da Maçonaria portuguesa, que, em outubro daquele ano, realizara a fusão do Grande Oriente Lusitano com o Grande Oriente Português, daí resultando o Grande Oriente Lusitano Unido.

Ocorre que o antigo Grande Oriente Lusitano havia assinado tratado de amizade e reconhecimento com o Grande Oriente dos Beneditinos, enquanto o Português possuía o mesmo tratado com o Grande Oriente do Lavradio, o que, depois da fusão, criou uma situação de mal-estar, fazendo com que os maçons portugueses pressionassem os brasileiros, para que estes imitassem as Obediências portuguesas.

Em decorrência disso, Saldanha Marinho propõe a Marcelino de Brito, no final de 1869, o início de um diálogo para a união das duas Obediências, o que foi aceito pelo Lavradio, formando, cada um dos grêmios, em 1870, comissão destinada a estudar a questão e cujos trabalhos se estenderiam até 1871. No plano político-social, a atuação dos maçons e da Maçonaria foi, nessa década, bastante evidente e produtiva, em torno do abolicionismo, já bastante amadurecido, e do nascente movimento republicano.

Em relação ao abolicionismo, embora só nessa década tivesse se tornado mais marcante, o fato é que diversos atos isolados, inclusive de maçons, já marcavam o movimento, como é o caso da atitude pioneira da República Rio-grandense, originária da eclosão da Revolução Farroupilha, liderada pelos maçons Bento Gonçalves e David Canabarro, fazendo libertar os escravos.

Depois da lei do maçom Eusébio de Queirós, de 1850, que extinguia o tráfico, a escravatura, no Brasil, continuou a ser mantida pela reprodução. Isso levou o Comitê Francês de Emancipação, entidade organizada pelo Grande Oriente da França, a solicitar, ao governo brasileiro, em 1867, a libertação total dos escravos no País; o governo imperial, por meio de Zacarias de Góes, chefe do Gabinete, responderia atenciosamente ao pedido, esclarecendo que, após a Guerra do Paraguai, em que o Brasil se empenhava, a questão seria tratada com carinho.

A essa altura dos acontecimentos, muitas Lojas já se encontravam em plena efervescência abolicionista, além de republicana, já que, na realidade, a campanha pela abolição ocorreu, nos meios maçônicos, com a campanha republicana, sendo ambas baseadas na radicalização de posições assumidas por uma ala jovem da Maçonaria brasileira, representada no governo central, no Parlamento, nos quartéis, nas letras e nas ciências.

No tocante ao movimento republicano, não foi menor a atuação no período, já que, como fruto desse trabalho, era lançado, a 3 de dezembro de 1870, o Manifesto Republicano, de inspiração maçônica, liderado por Saldanha Marinho e redigido pelo também maçom Quintino Bocayuva, futuro Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil. Ficava, assim, criado o Partido Republicano, que iria crescer extraordinariamente nos anos seguintes.

Os estudos para a fusão do Grande Oriente do Brasil com o Grande Oriente do Vale dos Beneditinos, encerrando a dissidência de 1863, acabariam dando em nada, diante das posições que seriam assumidas por ambas as Obediências, a partir de abril de 1871.

Uma comissão de notáveis havia sido designada para encontrar um nome aglutinador e experiente, para dirigir o Grande Oriente naqueles agitados dias. Indicado inicialmente, o conselheiro José Tomaz Nabuco de Araújo acabou por não aceitar, o que fez com que a comissão se fixasse no nome de José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco. Essa escolha suscitou muitas objeções, já que a oposição alegava que o visconde, não sendo membro efetivo do Supremo Conselho, não poderia se candidatar ao cargo de Soberano Grande Comendador Grão-Mestre. A objeção acabaria sendo superada, quando o Grande Oriente do Brasil resolveu considerar elegíveis todos os portadores do 33º grau do Rito Escocês, para os cargos de Grão-Mestre e de Grão-Mestre Adjunto.

Em 1870, como ministro dos Estrangeiros, no gabinete, do Marquês de Itaboraí (Joaquim José Rodrigues Torres, que havia sido Grande Orador do Grande Oriente do Passeio), Paranhos havia assinado o tratado de paz com Assunção (Paraguai), o que lhe valeu a nomeação para o Conselho de Estado e o título de visconde do Rio Branco. Alguns dias antes de assumir o Grão-Mestrado do Grande Oriente do Brasil, ele se tornaria presidente do Conselho de Ministros, tendo seu Gabinete, sido o de mais longa duração de toda a história do Império, de 7 de março de 1871 a 25 de julho de 1875.

O mandato do Visconde do Rio Branco no GOB representa um dos pontos altos da Maçonaria brasileira. A gestão de Rio Branco, à frente do Gabinete, foi das mais profícuas do Segundo Império. Do ponto de vista maçônico, entretanto, sua contribuição mais notável foi a apresentação da lei aprovada a 28 de setembro de 1871, a qual declarava livres, daí em diante, as crianças nascidas de escravas e que passou à história com o nome vulgar de Lei do Ventre Livre (embora tenha, legislativamente, sido denominada “Lei Visconde do Rio Branco”). Sob pressão não só maçônica, mas também política, por parte dos que viam, nessa lei, uma alternativa ao caos que representaria uma imediata e extemporânea extinção total da escravatura, Rio Branco, aproveitando a viagem do imperador e da imperatriz Tereza Cristina à Europa, com a consequente regência entregue à princesa Isabel, apresentou a lei, que levou seu nome.

Como chefe do Gabinete, ele viria a enfrentar, também, a agitada Questão Religiosa, a qual, embora tenha sido uma pendência entre o alto clero e o governo imperial, acabou envolvendo ambas as Obediências maçônicas brasileiras da época. O pretexto para o desencadeamento das hostilidades foi uma festa maçônica realizada a 2 de março de 1872, para comemorar a aprovação da lei Visconde do Rio Branco. Durante essa solenidade, pronunciou-se um discurso em que enaltecia a atuação da Maçonaria na libertação dos escravos, abordando os fatos, desde a lei Euzébio de Queirós. Mas o estopim da crise foi aceso, na solenidade, quando o Grande Orador Interino, padre José Luiz de Almeida Martins, destacado maçom, pronunciou um veemente discurso, no qual enaltecia a Maçonaria e o Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, pela obra realizada em torno da abolição gradual da escravatura. O discurso foi publicado, no dia seguinte, pelos jornais diários, causando a reação do bispo do Rio de Janeiro, que, advertindo o padre, exigiu que ele abandonasse a Maçonaria. Diante da recusa deste, o bispo o suspendeu. Isso acabaria desencadeando a querela.

Diante da reação do bispo do Rio de Janeiro, as duas Obediências, do Lavradio e dos Beneditinos, apressaram-se a defender o Irmão atingido. Após o entrevero com os bispos, os dois Orientes tentaram se reunir, mas tudo foi em vão. No cenário político, no ano de 1873, ocorreria um fato de extraordinária importância para o movimento republicano: a Convenção de Itu, de inspiração maçônica e que tivera seus perídromos a 10 de novembro de 1871, quando 78 partidários da república federativa haviam se reunido, em Itu, na Província de São Paulo, com a finalidade de organizar o partido republicano local, criando um clube republicano, que pudesse servir de núcleo e centro do partido. Como corolário desse movimento, a 18 de abril de 1873, com a presença das principais lideranças políticas, era realizado a primeira Convenção Republicana no Brasil, a qual ficou conhecida como Convenção de Itu.

A par da campanha republicana, encetada por várias dessas Lojas, prosseguia a luta abolicionista, que contava com maçons de peso, como Luís Gama, Joaquim Nabuco e José do Patrocínio. Em 1880, nas eleições realizadas a 15 de março, Rio Branco era reeleito para o cargo de Grão-Mestre. O GOB, todavia, seria na prática, dirigido pelo Adjunto, pois Rio Branco, cada vez mais doente, não tinha mais condições físicas para o exercício do cargo, vindo a falecer a 1º de novembro do mesmo ano.

Em 1882 e sob o Grão-Mestrado de Cardoso Júnior, chegava ao fim a cisão na Maçonaria brasileira, com a fusão das duas Obediências. Saldanha Marinho, já doente e cansado, sem poder comandar, convenientemente, seu Grande Oriente “Unido”, pedira demissão de seu cargo, a 30 de março de 1882, incentivando, inclusive, a fusão, cujas negociações foram mais incrementadas a partir do momento em que o Supremo Conselho dos Estados Unidos, jurisdição Norte, reconhecia o Grande Oriente do Brasil, em junho do mesmo ano, ocasião em que foram expedidas as patentes de reconhecimento mútuo. Assim, a 18 de dezembro de 1882, era considerado extinto o Grande Oriente Unido, antigo dos Beneditinos, oficializando-se a união 30 dias depois, a 18 de janeiro de 1883, permanecendo uma Obediência única, sob o título original: Grande Oriente do Brasil.

No plano político-social, prosseguia a luta abolicionista e recrudescia a campanha republicana, com participação ativa de muitas Lojas. A lei dos sexagenários que libertava os escravos que se encontravam nessa faixa etária, ou acima dela, e a lei Áurea de 13 de maio de 1888, que extinguia totalmente a escravidão, completariam a luta abolicionista e ajudariam a precipitar o fim do império, já que a abrupta abolição causara grande descontentamento entre os proprietários de terras, pois não houvera tempo suficiente para que eles substituíssem, em suas lavouras, o braço escravo.

A campanha republicana, por seu lado, era incrementada pela Questão Militar, que, na verdade, consistiu em uma série de atritos, acontecidos entre 1883 e 1889, entre políticos e militares, causados pelo brio destes e pela inabilidade de políticos e ministros. Esses atritos iriam criar uma atmosfera propícia para o levante militar final, em 1889, que resultaria na implantação do regime republicano, sob a liderança de maçons militares como Manuel Deodoro da Fonseca e Benjamin Constant Botelho de Magalhães. Apesar da intensa movimentação, os velhos militares, com patente de major para cima, tinham grande respeito pelo imperador, que, durante a guerra do Paraguai, se mantivera firme ao lado dos alvos nacionais da campanha sustentada pelas forças armadas. Os postos inferiores, entretanto, estavam preenchidos por jovens alunos das escolas militares, os quais, além de não experimentar sentimentos semelhantes aos dos oficiais mais antigos, estavam altamente doutrinados pelo professor de maior prestígio da Escola militar, aquele que viria, por sua atuação, a ser cognominado “o pai da República”: o maçom e positivista tenente-coronel Benjamin Constant, que fazia aberta apologia do movimento republicano e era um dos mais categorizados críticos do governo imperial.

A par das atividades militares, com a atuação de muitos maçons, era grande a efervescência nas Lojas e nos clubes republicanos de inspiração maçônica, destacando-se, nesse período, muitos maçons civis, que seriam chamados de “republicanos históricos”: Quintino Bocayuva (fundador do jornal A República e futuro Grão-Mestre do GOB), Campos Sales (futuro Presidente da República), Prudente de Moraes (primeiro presidente civil da República), Silva Jardim, Rangel Pestana, Francisco Glicério, Américo de Campos, Pedro de Toledo, Américo Brasiliense, Ubaldino do Amaral, Aristides Lobo, Bernardino de Campos e outros.

O levante para a Proclamação da República ocorreu em 15 de novembro de 1889. Deposto todo o Conselho de Ministros, presidido pelo Visconde de Ouro Preto, Deodoro, todavia, em um rasgo de sua antiga fidelidade a D. Pedro II, não se dispunha a tomar providências para implantar a república, tendo declarado, a Ouro Preto, que iria mandar procurar o imperador, em Petrópolis, para propor-lhe um novo gabinete. Foi aí que, mais uma vez, entrou em cena Benjamin Constant, que fez ver, a Deodoro, o perigo que eles correriam daí em diante, por sua rebeldia, com a sobrevivência do governo imperial. E, assim, se fez a república no Brasil.

Implantada a república, Deodoro assumiria o poder, como chefe do Governo Provisório, com um ministério totalmente constituído por maçons: Quintino Bocayuva, na Pasta dos Transportes; Aristides Lobo, na do Interior; Benjamin Constant, na da Guerra; Rui Barbosa, na da Fazenda; Campos Salles, na da Justiça; Eduardo Wandenkolk, na da Marinha; e Demétrio Ribeiro, na da Agricultura. Esses homens foram escolhidos pelo fato de representarem – com exceção de Rui Barbosa -, a nata dos “republicanos históricos”, que, por feliz coincidência, pertencia ao Grande Oriente do Brasil, em uma época em que a Maçonaria abrigava os melhores homens do país e a elite intelectual da nação.

A 19 de dezembro do mesmo ano de 1889, pouco mais de um mês após a implantação da república, Deodoro, sendo chefe do Governo Provisório, era eleito Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil. A partir desta data, a “matriz Benjamim Constant” positivista toma o poder no GOB.

Continua…

Autor: William Almeida de Carvalho

William Carvalho foi diretor da Biblioteca do Grande Oriente do Brasil e Secretário de Educação e Cultura do GODF-GOB. Autor de diversos livros sobre a Maçonaria no Brasil. Membro da Loja de Pesquisas Quatuor Coronati de Londres, da Scottish Rite Research Society. Presidente da Academia Maçônica de Letras do DF. Tesoureiro da Academia Maçônica do Brasil e da Academia Maçônica de Letras da Paraíba. Doutor em Ciência Política pela Panthéon-Sorbonne.

Fonte: Revista de Estudios Históricos de la Masonería Latinoamericana y Caribeña

Nota do Blog

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Pequena História da Maçonaria no Brasil – Parte I

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Introdução

O presente artigo visa dar uma ideia panorâmica da Maçonaria Brasileira através da história do Grande Oriente do Brasil GOB, o tronco básico, e de suas posteriores cisões, principalmente a de 1927 e a de 1973. Para uma visão mais completa e aprofundada sobre o assunto pode ser consultado o livro História do Grande Oriente do Brasil de José Castellani e William Carvalho da Editora Madras de 2009. Até a primeira cisão de 1927, a história da Maçonaria brasileira se confundia com a história do Brasil. A partir de então, ou seja, no momento em que a Maçonaria deixa de ser um grupo estratégico, a história se bifurca, seguem rumos paralelos, com alguns contatos ocasionais. A partir da gestão de Jair Assis Ribeiro (1983-1993) no GOB assistiu-se a um ponto de inflexão do desenrolar da Maçonaria brasileira. Atualmente cresce a taxas chinesas, mas ainda não voltou a ser um interlocutor estratégico do país, como fora no passado.

A Maçonaria brasileira, pelo menos, está entrando num patamar de efervescência cultural e educacional com a criação de lojas de pesquisas, universitárias, academias etc. que dentro em breve, inevitavelmente terá desdobramentos significativos. Assim como no passado, a Maçonaria emprestou a sua organização para um país que não possuía partidos políticos, ele poderá, neste limiar do século XXI, ajudar o país, que ainda possui instituições políticas com ranço de desempenho pré-iluministas, a criar valores e instituições verdadeiramente republicanos. O Brasil proclamou a República, mas seus valores ainda são patrimonialistas. Este é o grande desafio que a Maçonaria poderá ajudar o Brasil adequar sua escala de valores e desempenho neste século.

Deu-se particular ênfase às duas cisões no século XX por sua importância estratégica. Compõem ainda o presente trabalho dois anexos: i) a relação dos Grão-Mestres do GOB e ii) um quadro estatístico sobre as Obediências e os maçons brasileiros, considerados regulares, tais como o GOB, as Grandes Lojas e a COMAB (Confederação Maçônica do Brasil). Convém ainda salientar que todas as cisões no Brasil se devem à perda de eleições e não a divergências doutrinárias. Pelos dados apresentados pode-se afirmar que o Brasil possui mais de 6.000 lojas maçônicas e quase 200.000 maçons. Essas são as potências ditas regulares.

Primórdios

Com os dados hoje disponíveis, a primeira referência a uma Loja maçônica brasileira que se tem notícia teria sido em águas territoriais da Bahia, em 1797, em uma fragata francesa La Preneuse, denominada Cavaleiros da Luz, sendo pouco tempo depois transferida para a Barra, um bairro de Salvador. Contudo, a primeira Loja regular do Brasil foi a Reunião, fundada em 1801, no Rio de Janeiro, filiada ao Oriente da Ilha de França (Ille de France), antigo nome da Ilha Maurício, à época possessão francesa e hoje britânica.

Dois anos depois o Grande Oriente Lusitano, desejando propagar, no Brasil, a “verdadeira doutrina maçônica”, nomeou para esse fim três delegados, com plenos poderes para criar lojas regulares no Rio de Janeiro, filiadas àquele Grande Oriente. Criaram, então, as Lojas Constância e Filantropia, as quais, junto com a Reunião, serviram de centro comum para todos os maçons existentes no Rio de Janeiro, regulares e irregulares, tratando de iniciar outros, até ao grau de Mestre. Apesar de controvérsias a exigir maiores pesquisas nesta área, essas foram as primeiras Lojas oficiais e consideradas regulares, pois já existiam, anteriormente, agrupamentos secretos, em moldes mais ou menos maçônicos, funcionando mais como clubes, ou academias, mas que não eram Lojas na acepção da palavra.

Depois da fundação daquelas três primeiras Lojas “oficiais”, espalharam-se, nos primeiros anos do século XIX, Lojas nas províncias da Bahia, de Pernambuco e do Rio de Janeiro, livres, ou sob os auspícios do Grande Oriente Lusitano e do da França. Convém salientar que os governos coloniais da época tinham instruções precisas para impedir o funcionamento de Lojas no Brasil. Tanto assim que aquelas Lojas – Constância e Filantropia – foram fechadas em 1806 no Rio de Janeiro, cessando as atividades maçônicas nesta cidade, mas continuando e se expandindo, principalmente na Bahia e em Pernambuco. O Rio de Janeiro, contudo, não podia ficar sem uma Loja, e apesar desta proibição os trabalhos prosseguiam com as Lojas São João de Bragança e Beneficência.

Um fato importante para a história do futuro Grande Oriente do Brasil foi que a Loja Comércio e Artes, fundada em 1815, conservaram-se independente, adiando sua filiação ao Grande Oriente Lusitano, porque os seus membros pretendiam criar uma Obediência brasileira. Convém ainda salientar que no ano de 1817 ocorreram dois fatos de suma gravidade em termos de crime de lesa-majestade. Estouraram duas revoluções:

  • a Revolução Pernambucana de 1817, um movimento revolucionário, de caráter fortemente nacionalista, feito no sentido de implantar a República em Pernambuco; e
  • a Conspiração Liberal de Lisboa de 1817 liderada pelo nosso Ir. General Gomes Freire de Andrade, ex-Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano.

Dado esse clima de sedição, tanto em Portugal como no Brasil, houve a expedição do draconiano alvará de 30 de março de 1818, que proibia o funcionamento das sociedades secretas. As Lojas resolveram então cessar seus trabalhos, até que pudessem ser reabertas sem perigo. Os maçons, todavia, continuaram a trabalhar secretamente como no Clube da Resistência, fundado no Rio de Janeiro.

Estoura a Revolução Liberal do Porto em 1820, liderada pelos maçons portugueses, exigindo a volta de D. João VI para Portugal. A partir de então os acontecimentos começam a se precipitar. Também é desencadeada na Espanha a Revolução de 1820. A vaga liberal (maçônica) começava contestar os Estados Absolutistas da Península Ibérica. No Brasil, o ano de 1821 começou com uma série de acontecimentos político-militares que culminariam na Independência do Brasil. Como naquela época inexistiam os partidos políticos, foi necessária uma organização que coordenasse e mobilizasse o descontentamento político e a Maçonaria brasileira emprestou sua organização para tal fim. Voltava, então, à plena atividade.

O primeiro fato foi à sedição das tropas a 26 de fevereiro que impunham ao rei D. João VI o juramento à Constituição portuguesa, o que provocou o início de intensa conspiração, entre os quais muitos maçons, visando à independência do Brasil. Os acontecimentos seguintes foram os de 20 e 21 de abril, quando houve a sedição dos eleitores, exigindo a permanência do rei no País, o que provocou a pronta reação das tropas portuguesas, que garantiram o embarque da família real. Todos esses fatos atraíram a atenção policial contra os maçons, o que não impediu, todavia, que a Loja Comércio e Artes voltassem a trabalhar secretamente, reerguendo suas colunas a 24 de junho de 1821. Agora com o nome de Loja Comércio e Artes na Idade do Ouro, sob os auspícios do Grande Oriente de Portugal, Brasil e Algarves.

A afluência de adesões foi tão grande nos meses seguintes que logo se pensou em criar uma Obediência nacional, o que aconteceria a 17 de junho de 1822, com a subsequente divisão do “Comércio e Artes”, formando o trio de Lojas fundadoras do Grande Oriente. A partir deste momento, a Maçonaria brasileira deixava de ser um grupo heterogêneo de Lojas esparsas ou ligadas a algumas Obediências Estrangeiras para se transformar em mais uma célula do sistema obediência mundial.

Apresenta-se um breve resumo dos primórdios até a fundação do Grande Oriente do Brasil, a mais antiga, a maior e a mais tradicional Obediência brasileira. Apesar da precariedade documental, pode-se apresentar a seguinte cronologia:

  • 1796 – Fundação, em Pernambuco, do Areópago de Itambé, que não era uma verdadeira Loja, pois, embora criado sob inspirações maçônicas não fosse totalmente composto por maçons;
  • 1797 – Fundação da Loja Cavaleiros da Luz, na povoação da Barra, Bahia;
  • 1800 – Criação, em Niterói, da Loja União;
  • 1801 – Instalação da Loja Reunião, sucessora da União;
  • 1802 – Criação, na Bahia, da Loja Virtude e Razão;
  • 1804 – Fundação das Lojas Constância e Filantropia;
  • 1806 – Fechamento, pela ação do conde dos Arcos, das Lojas Constância e Filantropia;
  • 1807 – Criação da Loja Virtude e Razão Restaurada, sucessora da Virtude e Razão;
  • 1809 – Fundação, em Pernambuco, da Loja Regeneração;
  • 1812 – Fundação da Loja Distintiva, em S. Gonçalo da Praia Grande (Niterói);
  • 1813 – Instalação, na Bahia, da Loja União;
  • 1813 – Fundações de uma Obediência efêmera e sem suporte legal – que alguns consideram como o primeiro Grande Oriente Brasileiro – constituída por três Lojas da Bahia e uma do Rio de Janeiro;
  • 1815 – Fundação, no Rio de Janeiro, da Loja Comércio e Artes;
  • 1818 – Expedições do Alvará de 30 de março, proibindo o funcionamento das sociedades secretas, o que provocou a suspensão – pelo menos aparentemente – dos trabalhos maçônicos;
  • 1821 – Reinstalação da Loja Comércio e Artes, no Rio de Janeiro;
  • 1822 – 17 de junho: fundação do Grande Oriente.

 A Luta pela Independência

O objetivo principal dos fundadores do Grande Oriente era a independência do país no momento em que a Família Real era forçada a voltar a Portugal, pela Revolução Constitucionalista do Porto de 1820. Os maçons brasileiros irão aos poucos perceber que, além da solidariedade e da fraternidade internacionais, a geopolítica portuguesa, manejada pelos maçons do Porto, buscaria levar o Brasil ao status quo ante de colônia, depois de ser elevado a Reino Unido de Portugal e Algarves no final de 1815 por D. João VI, então Príncipe Regente no Reinado de D. Maria I, sua mãe.

O primeiro passo oficial dos maçons, nesse sentido, foi o Fico, de 9 de janeiro, o qual representou uma desobediência aos decretos, emanados das Cortes Gerais portuguesas, e que exigiam o imediato retorno do príncipe a Portugal e, praticamente, a reversão do Brasil à sua condição colonial, com a dissolução da união brasílico-lusa, elaborada por influência do Congresso de Viena.

Assiste-se então ao embate de duas forças econômicas nos dois países: os comerciantes do Porto, que sempre foram o entreposto entre a Colônia e a Metrópole e a Base Escravocrata do Brasil, representada pelas grandes famílias do Tráfico de Escravos e os grandes fazendeiros, que a partir da vinda da Família Real em 1808, já operava com os interesses britânicos. Os maçons brasileiros que, no início estavam embalados pelas ideias do Reino Unido ou implantação de uma República, vão aos poucos se desligando das Cortes Gerais portuguesas.[1]

O episódio do “Fico” 9 de janeiro de 1822 foi feito, no Rio de Janeiro, sob a liderança dos maçons José Joaquim da Rocha e José Clemente Pereira e com a representação de diversas províncias ao príncipe, principalmente a Província de São Paulo, cujo motor principal era o Ir. José Bonifácio de Andrada e Silva, o futuro Patriarca da Independência, no sentido de que desobedecesse aos decretos, permanecendo no País.

Começava, neste momento, o processo de aliciamento do Príncipe Regente – D. Pedro que começava a perceber a força do Grande Oriente, o qual continuaria, logo depois, quando os maçons fluminenses, resolviam, a 13 de maio de 1822, outorgarem-lhe o título de Defensor Perpétuo do Brasil, numa cartada política a qual não faltavam, porém, interesses das lideranças, que pretendiam melhorar seu prestígio político junto ao regente e até suplantar o respeito de que José Bonifácio, já então o ministro todo-poderoso das pastas do Reino e de Estrangeiros, desfrutava junto a ele. As escaramuças entre os grupos de Gonçalves Ledo, de tendência mais republicana e de José Bonifácio, de tendência mais monárquica constitucional, já começavam a se propagar.

Com o grande número de adesões à Loja líder do movimento emancipador, a Comércio e Artes, Primaz do Brasil, dividiu-se em três – Comércio e Artes, União e Tranquilidade e Esperança de Nichtheroy para então formar o Grande Oriente Brasílico ou Brasiliano, o primeiro nome do Grande Oriente do Brasil – GOB, a 17 de junho de 1822. Já existia uma instituição paramaçônica chamada Apostolado da Nobre Ordem dos Cavaleiros da Santa Cruz, ou simplesmente Apostolado fundada por José Bonifácio a 2 de junho de 1822. Era uma organização nos moldes da Carbonária europeia cuja atuação Bonifácio bem conhecera, durante os anos em que permanecera na Europa.

O Apostolado e o Grande Oriente viriam a representar facções diferentes da Maçonaria brasileira, a primeira, sob a liderança de José Bonifácio, que teve papel importante na História do Brasil, e a segunda, sob a de Gonçalves Ledo, com papel considerável na História da Maçonaria, ambas defendendo a emancipação política do País, mas sob formas diferentes de governo e maneiras diversas de encarar a questão. O grupo filo republicano de Ledo, Clemente Pereira, Francisco Nóbrega e cônego Januário Barbosa defendia o rompimento total dos laços com a metrópole monárquica portuguesa e um regime que o aproximasse mais daquele dos demais países latino-americanos, que, paulatinamente, iam conseguindo sua independência da Coroa espanhola. O grupo de Bonifácio, presente no Grande Oriente, mas encastelado principalmente no Apostolado, pregava a união brasílico-lusa, ou seja, uma comunidade luso-brasileira de países autônomos, que englobasse as colônias e não admitisse a escravização dos negros e, mais tarde, a união do Brasil em torno da figura imperial de D. Pedro I. Crucial para entender o Zeitgeist da época são as Anotações à Biografia de Vasconcelos de Drummond, escritas pelo próprio. José Bonifácio foi o primeiro Grão-Mestre do Grande Oriente, sendo, pouco depois, sucedido pelo próprio Imperador no grão-mestrado.

Após a Proclamação da Independência por D. Pedro I em 7 de setembro de 1822, o mesmo resolveu fechar o Grande Oriente em 25 de outubro do mesmo ano, permanecendo adormecido até 1831. Trabalhos maçônicos continuaram, contudo, a ser executados em lojas individuais. O próprio Imperador chegou a montar uma Loja no palácio.

Os maçons deputados na Assembleia Nacional Constituinte continuaram atuando em forte oposição ao Imperador que resolveu fechá-la e outorgar uma Constituição em 24 de março de 1824 que durou todo o período imperial. Depois disso, os maçons do Grande Oriente e os do Apostolado, que tinham visto suas entidades serem fechadas pelo imperador, uniram-se contra ele, em um processo de solapamento do trono, o qual viria a culminar na abdicação de 7 de abril de 1831, após a qual foi reinstalado o Grande Oriente.

Continua…

Autor: William Almeida de Carvalho

William Carvalho foi diretor da Biblioteca do Grande Oriente do Brasil e Secretário de Educação e Cultura do GODF-GOB. Autor de diversos livros sobre a Maçonaria no Brasil. Membro da Loja de Pesquisas Quatuor Coronati de Londres, da Scottish Rite Research Society. Presidente da Academia Maçônica de Letras do DF. Tesoureiro da Academia Maçônica do Brasil e da Academia Maçônica de Letras da Paraíba. Doutor em Ciência Política pela Panthéon-Sorbonne.

Fonte: Revista de Estudios Históricos de la Masonería Latinoamericana y Caribeña

Nota

[1] – CARVALHO, William Almeida de, Maçonaria, Tráfico de Escravos e o Banco do Brasil (São Paulo: Ed. Madras, 2010).

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A Grande Viagem: Conhece-te a ti mesmo

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A temática da viagem tem uma importância fundamental na maçonaria. O compromisso maçônico é visto como um percurso. E sem grande exceção, não de grau, de lendas aferentes, sem ideia de encaminhamento, de viagem em stricto sensu, de busca … O maçom, especialmente a partir do segundo grau é convidado a ir ao encontro do outro, que muitas vezes é apenas ele mesmo. Mas é toda a vida que passa por uma grande jornada desde o nascimento até a morte … e talvez além. Uma grande viagem com suas provas, seus objetivos, suas alegrias, suas dores, respondendo a esquemas narrativos constantes cuja consideração assegurará o sucesso do percurso: o confronto consigo mesmo provavelmente passando por uma – ou várias – transformação).

Alguns puderam fazer da viagem do primeiro – se não único – modelo do mito. Este é notavelmente o caso conhecido do mitógrafo Joseph Campbell e seu conceito de monomito[1], que ele desenvolveu em seu best-seller “O herói de mil faces”[2]. E mesmo que seu esquema possa às vezes ser contestado, ele não deixa de ser uma referência e sua estrutura será um bom ponto de partida para abordar o lado iniciático-transformador da viagem.

Sobre a ideia da viagem em maçonaria … e em outros lugares

Essa dimensão transformadora da viagem é, logicamente, um elemento importante da maçonaria, em cada acesso a um novo grau, como ela o são quase todas as mitologias ou lendas fundadoras do mundo. Vale a pena mencionar, entre muitas outras histórias de jornadas iniciáticas, o livro bíblico de Êxodo, a Odisseia de Homero – cujos nomes são agora sinônimos de grandes viagens – mas ainda a viagem de Bran / Saint Brendan, as sagas escandinavas, o épico de Gilgamesh, as grandes viagens ao mundo dos mortos (Osíris, Orfeu, Enéas, Balder …), o asno de ouro de Apuleio, as histórias do Caminho de Santiago (o “Campo da Estrela”), as gestas Arturianas com sua busca pelo Graal, até o Mapa de Tendre do século XVII, de Gulliver e Pinóquio, bem como os contos de fada, a Viagem ao centro da Terra de Verne, ao Senhor dos Anéis de Tolkien, à Viagem profundamente iniciático-transformadora ao Oriente de Herman Hesse, até mesmo ao Alquimista de Paulo Coelho e mesmo Tintin[3].

Se encontramos em algumas dessas histórias, um eco das grandes migrações originais de povos nômades, de caçadores-coletores, elas são principalmente evocações de metamorfoses de personagens em busca de algo para finalmente encontrarem a si mesmos. Será que nos surpreenderá que a maioria dos maiores “iniciados” – alguns dos quais são exaltados na maçonaria – sejam também caminhantes: Jesus, Buda, Maomé, Aristóteles? Esse processo de transformação não é sem paralelo com a abordagem hermético-alquímica, que subjaz a certos ritos maçônicos.

Escreve J.E. Bianchi:

“Sobre a tradição hermética, reteremos o significado que nossos ancestrais nos deram desde a Antiguidade até a Renascença incluída. Trata-se de um ensinamento secreto, iniciático, conhecido até na China, já praticado pelos gregos e os árabes. Esse ensinamento veio até nós sob a forma de uma “técnica”: a Alquimia, onde o Aprendiz Maçom encontra os símbolos pela primeira vez na Câmara de Reflexão (pelo menos no Rito Escocês Antigo e Aceito).”[4]

“A alquimia não pode ser classificada como ciência física, mas (…) deve ser entendida antes como um conhecimento estético da matéria, situado entre a poesia e a matemática. Ela empresta seus princípios da metafísica e, tradicionalmente, também encontra seu lugar entre o universo dos símbolos e o mundo dos números sagrados. Simbolicamente, pode-se dizer que os materiais reais teriam se transformado em ouro se tivessem permissão para “crescer”, à medida que o iniciado crescesse espiritualmente através do trabalho sobre si mesmo.”[5]

Seguramente, com a alquimia, é uma questão de ciência, mas também, conforme observa Bianchi, de “poesia”. E alegorias de viagem não faltam, seja em formas literais ou sob o véu de algumas imagens subliminares, às vezes transmitidas por aquilo que muitos – a começar pelos alquimistas – chamavam de “linguagem dos pássaros” – a linguagem do céu na terra ou da terra ao céu (não podemos deixar de ver aqui uma correspondência direta com a sentença fundamental da Tábua de Esmeraldas de Hermes Trismegistus, “O que está em baixo assim como o que esta em cima”). Esta linguagem “hermética” joga com as palavras. Há exemplos bem conhecidos, como o famoso “O Mercúrio é um Sal” de Fulcanelli, que, por trás dessa evidência química, pode ocultar uma fórmula espagírica “Mercúrio-estanho-sal” ou um igualmente explícito e inspirador “O Mercúrio brilha”. Quanto a peregrinação à Compostela, como objetivo de viagem sagrada, se transforma em “componst-asa”: o composto de matéria-prima se transforma em volátil (pela alquimia da estrela). E já que estávamos falando sobre a Tábua de Esmeralda, essa linguagem volátil facilmente nos impressionará – e, com relação a nosso assunto – um “aime – (la) rode”, um apetite por rondar, navegar, buscar … (os jogos de palavra somente têm sentido em francês).

Para esta “linguagem secreta” os trovadores occitanos tinham um termo: trobar clus, a arte de trovar – sua arte poética – “fechada”. Mas se para os linguistas, o termo trovar – que deu “trovador” – pode ter significado, a partir do século XII, “compor [em verso]”, “inventar”, originalmente, e como seus equivalentes do Norte, os “Trouvères”, esse nome veio da raiz latino-occitana de “encontrar”, “descobrir”…

É aqui que, na nossa peregrinação poética e hermética, voltamos ao nosso tema da viagem. Porque a origem mítica desta sociedade de trovadores – que quase nos sentiríamos tentados a chamar de “alquímico-especulativa”, mas isso é ainda outra história – nos remete a uma das grandes narrativas de viagem: a de Jasão e os Argonautas partindo em busca do Velocino de Ouro. Segundo sua lenda, o primeiro trovador da história teria se chamado “Salvador”, que não é nada mais que o significado do nome grego, Jasão (ou ainda “Curandeiroc).

O Velocino de Ouro teria sido o supremo segredo iniciático que os trovadores, os “buscadores de ouro” da Occitânia, iam buscar e cujos mistérios eles ocultavam sob a alegoria de sua linguagem secreta. “A fábula do Velocino de Ouro”, escreveu Fulcanelli, “é um completo enigma do trabalho hermético que deve terminar na Pedra Filosofal. Na linguagem dos Adeptos, chama-se Velocino de Ouro o material preparado para a obra, assim como o resultado final.”[6] Em O Asno de Ouro de Apuleio (século II), já mencionado acima, nessa verdadeira viagem iniciática mascarada sob um passeio libertino, Psique é ordenada por Vênus a se apossar do Velocino de Ouro de ovelhas assassinas. Quanto a Newton, ele considerava em A Cronologia dos antigos reinos corrigida que muitas das constelações refletiam uma evocação da epopeia dos Argonautas. O que está acima é como o que está abaixo…

A viagem como elemento transformador

A lenda de Jasão, em seu aspecto particularmente arquetípico, fornece uma boa oportunidade para retornar a Campbell e seu monomito. Se seus trabalhos “narratológicos”, baseados no estudo de diferentes mitologias, inspiraram muitos autores, contadores de histórias e cineastas, de Georges Lucas para sua série Star Wars a Spielberg, passando por Coppola ou Georges Miller e muitos outros, ele mesmo se inscreve na esteira de Carl-Gustav Jung e sua psicanálise dos arquétipos.

De acordo com Campbell, é através do monomito da viagem que a transformação – até poderíamos dizer transmutação – do herói deve vai se manifestar. É um verdadeiro processo alquímico que ele define: “A aventura mitológica do herói segue um itinerário típico que é uma ampliação da fórmula expressa nos ritos de passagem: separação-iniciação-retorno, uma fórmula que poderia ser definida como a unidade nuclear do mito.[7] Separação(ou partida)–iniciação-retorno … Tem-se aí quase o ternário alquímico da Grande Obra entre Putrificação / Dissolução-Purificação-Rubificação / Sublimação. Mas, de uma maneira quase prática, também se pode imaginar a viagem através de um modelo simples pela busca arturiana:

  • Identificar o objetivo da busca;
  • Armar-se bem [encontrar um ou mais guias e adquirir qualidades físicas ou psíquicas usadas como armas ou armaduras];
  • Partir [esperar o momento certo];
  • A busca em si [associada às viagens e provas em geral triplas, visando o autocontrole, frequentemente apresentada em forma alegórica do domínio de um dragão [e claramente seu dragão interior]];
  • Encontrar.

A viagem do herói (+ imagem de Ulisses)

Campbell decorticou a “viagem do herói” em 17 etapas (que, mais ou menos, ecoam os mitemas de Claude Lévi-Strauss), divididas entre essas três fases ou “atos” antropo-alquímicos:

Fase Partida

O herói recebe o chamado; ele está relutante, mas receberá ajuda, particularmente de um mentor, para cruzar o primeiro limiar e permanecer na matriz fundadora.

  1. O chamado da aventura (problema ou desafio a revelar);
  2. A recusa da aventura (medo do desconhecido);
  3. A ajuda sobrenatural (geralmente um sábio mentor, suprimento de armas mágicas);
  4. A transição do primeiro limiar (ponto de não retorno até o sucesso);
  5. O ventre da baleia (pausa matricial antes da prova)[8].

Fase Iniciação

Depois de cruzar o limiar, ele entra em outro “mundo”, onde enfrentará provas, com ou sem ajuda, até a última prova, a Apoteose, na caverna central, para alcançar seu propósito, sua transformação, seu “Elixir”, seu Graal.

  1. O caminho das provas;
  2. O encontro com a deusa (uma ajuda);
  3. A mulher tentadora (ameaça);
  4. O encontro com o pai (outra imagem do mentor no “outro lado”);
  5. Apoteose (a prova final, enfrentando a morte);
  6. O dom supremo (a recompensa, o objeto da busca, o elixir ou uma resposta).

Fase Retorno

  1. A recusa do retorno (hesitação em retornar a um mundo imperfeito);
  2. A fuga mágica (perseguida pelos guardiões do tesouro);
  3. A libertação vinda de fora (ajuda externa);
  4. A passagem do limiar no retorno;
  5. Mestre dos dois mundos (herói realizado em duas dimensões, “o que está acima e o que está abaixo”;
  6. Livre frente à vida (o herói transformado é capaz de melhorar a vida de seu mundo original).

Para ter sucesso na busca, é preciso ter-se transformado, corrigido, “curado”. Ao curar o rei mutilado [“ferido”], graças às boas perguntas que ele lhe faz, Percival deve se curar por um efeito de espelho.

O Fim do Caminho?

“Visite o interior da terra e, por retificação, encontrarás a pedra oculta”, diziam então os alquimistas [e agora os maçons], que eles sintetizaram na sigla VITRIOL. Muitas buscas ou viagens alegóricas partem do reino da morte, chegam lá ou pelo menos passam por ele. No curso transformador da jornada, existe, em todos os sentidos, uma ideia de morte e renascimento, sob uma forma ou de outra, que é também uma das fontes do percurso maçônico, em diferentes estágios de progresso – da partida até os cruzamentos de limite.

No paradoxal Atanor estático de transformação do ser que é a loja, o maçom parte como o herói viajante, passa por crises, provas que ele deve vencer para se transformar… Mas de onde ele retorna depois seu percurso? A viagem é uma jornada? Um retorno ao ponto de partida, o que sugeriria uma abordagem alquímica?

“O grande princípio do ensino hermético é a Unidade: “Um e Todo”, que contém em si o começo e o fim, que se opõe a qualquer divisão como a de eu e não-eu ou o ser interior e o ser exterior. O símbolo que a representa é o círculo, ou a cobra que morde a cauda: o “Ouroboros”, que ao mesmo tempo representa a Grande Obra, em outras palavras, a realização total do homem por meio da alquimia espiritual.[9] Essa singularidade alquímico-espiritual está no coração da viagem, e em particular da grande jornada vida-morte, que o mito de Er [narrado por Platão na República, Livro X] traduz: “A história da Er nos diz que o cosmos é uma unidade e que somos parte de um grande Todo que evolui de acordo com leis ordenadas e harmoniosas neste vasto sistema organizado. A morte é apenas uma etapa no continuum do grande Um “.[10]

Em muitas narrativas, o verdadeiro termo da busca não é o sucesso da busca em si, a realização do objetivo, a aquisição do tesouro visado [ou sua destruição, se é o propósito redentor invertido, como em O Senhor dos Anéis], mas a capacidade de retornar ao ponto de partida. O indivíduo deve ser transformado para voltar a transformar o aqui e agora de seu mundo de origem. O mito de Er, precisamente, ilustra até que ponto, escalar e ascendente ou descendente conforme possa ser o caminho, sempre se chega a um momento em que o ser deve operar o caminho oposto.

Alegórica e literalmente, o significado da viagem mudou hoje em dia. Agora em diante “ignora-se o que estamos almejando. Ignora-se porque somos movidos.”[11] Isto é explicado pelo fato de que “toda a comunicação entre a zona consciente e a zona inconsciente da psique humana foi quebrada e estamos cortados em dois”. Mas se o “sentido” da viagem mudou, sua razão de ser fundamental permanece: “O ato a ser executado pelo atual herói não é mais o mesmo que nos dias de Galileu. Lá onde reinava a escuridão encontra-se hoje a luz; mas também lá onde a luz estava hoje se encontram as trevas. A proeza do herói moderno é tentar trazer de volta à luz esta Atlântida perdida que é a nossa alma reunida.”[12]

Autor: Francis Moray
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

Publicado inicialmente na Revista FM-Franc-Maçonnerie Magazine

Notas

[1] – Um termo emprestado de James Joyce, que ele usa em Finnegans Wake.

[2] – Robert Laffont, 1977 (ed original: O Herói com Mil Faces, 1949).

[3] – A misteriosa estrela, para citar apenas uma, supostamente reproduz a lenda de Jasão e os Argonautas. Sobre esoterismo – em particular alquímico – de Hergé, ver em particular Bertrand Portevin, O mundo desconhecido de Hergé, Dervy, 2001, e O demônio desconhecido de Hergé, Dervy, 2004, e Étienne Badot A chave alquímica do trabalho de Hergé, The Philosopher’s Stone, 2016.

[4] – Jean-Émile Bianchi, Simbolismo Tradicional e Busca Espiritual, Edições PF, 2017, p. 92

[5] – Ibid, p. 92-93

[6] – O Mistério das Catedrais, Pauvert [ed. original, 1926] p. 194.

[7] – Op. Cit., P. 50 [paginações são levadas aqui da edição de bolso J’ai Lu, 2014]

[8] – “A ideia de que a passagem do limiar mágico permite o acesso a uma esfera de renascimento é representada pela imagem simbólica do ventre, vasto como o mundo, da baleia” Campbell, p. 128.

[9] – Bianchi, op. cit., p. 93.

[10] – Liz Greene & Juliet Sharman-Burke, Viagem ao coração dos mitos: mitos como guias da nossa vida, Dervy, Paris, 2013, p. 291

[11] – Campbell, p. 515

[12] – Ibid.

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Palestra “A Desinformação na Rede e a Era da Pós Verdade”

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Em evento promovido pela Loja de Pesquisas ‘Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda-GLMMG, foi proferida a palestra sobre um mal que atinge todos nós, sem distinção de classe social, religião ou grau de instrução: as fake news.

Veja a palestra através dos vídeos abaixo:

Primeira parte:

Segunda parte:

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Juramento e Compromisso Maçônicos

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Quando se segue uma Via Espiritual ou se é admitido numa Ordem de tipo esotérico-iniciática tal como a Maçonaria se define, é habitual o novo membro efetuar um juramento no momento da sua admissão ou durante a execução de uma cerimónia de cariz iniciático, no qual se assume um determinado compromisso. E somente após a realização desse juramento é que o neófito é recebido e integrado no seio da respetiva Ordem.

No caso que irei abordar e que será sobre a Maçonaria, é natural quando se fala em compromisso maçónico também se abordar simbióticamente o juramento maçónico. Tanto um como o outro são indissociáveis, porque um obriga ao outro e o mesmo, reciprocamente.

Durante o desenrolar de uma Iniciação Maçónica, no seu “ponto alto”, o neófito concorda em submeter-se a um juramento onde assume como compromisso de honra, aceitar e respeitar as Regras, Usos e Costumes da Maçonaria bem como as regras e leis do país onde se encontra sediada a Obediência Maçónica e a respetiva Loja da qual irá fazer parte. Nomeadamente e de entre os vários princípios maçónicos que se aceitam cumprir, os mais conhecidos pelo mundo profano são a Fraternidade entre todos os Irmãos, a prossecução do espírito da  Liberdade na Sociedade Civil e o sentimento de Igualdade entre todos.

Assim, assumir-se um compromisso com a Ordem Maçónica é assumir-se um compromisso pela Ordem e a bem da Ordem. Isto é que é o tão propalado estar à Ordem.

E estar-se é mais do que o ser-se! E digo isto porque qualquer um pode “o ser”, mas “estar” apenas se encontra ao alcance de poucos…

Estar implica sacrifício, comprometimento, trabalho, prática e estudo, e isto de forma incansável e perene.

Por isto é que assumir um compromisso deste género e com a relevância que este tem, nunca deverá ser feito de forma leviana; o mesmo se passa com os outros compromissos que se assumem durante a nossa vida profana e que também não devem ser assumidos se não estivermos capacitados para os cumprir.

Há que se ter a noção daquilo a que nos propomos a fazer.

Por isso é que o compromisso maçónico é feito com a nossa Palavra e sobre a nossa Honra. Desvirtuar estas duas qualidades, é desvirtuar a própria Maçonaria.

Da mesma forma que, se não respeitarmos a nossa palavra e não mantivermos a nossa dignidade na sociedade civil, também não somos dignos de nela estarmos integrados e sofreremos as consequências ou punições que forem legitimadas pelas leis do país.

De certa maneira, a Maçonaria atua e se assemelha com a sociedade profana, com as suas leis e os seus costumes, competindo aos maçons respeitar a sua aplicação e observar o seu cumprimento. É mais que um dever ou obrigação tal. É a assumpção que assim o deve ser e nada mais!

Porque assim tem funcionado há quase três séculos e o deverá continuar a ser noutros tantos…

Aliás, ainda na Maçonaria contemporânea se encontra algo que dificilmente se encontra na profanidade atualmente, ou seja, o valor da palavra sobre a escrita. O que não deixa de ser curioso dados os tempos que correm.

Nesta Augusta Ordem, ainda hoje aquilo que um maçom afirma tem um valor tal, que se poderá assumir que não necessitará de ser escrito para que o seja considerado; basta se dizer, que assim o será.

O tal “contrato verbal” na Maçonaria ainda hoje tem lugar. E somente pessoas de bons costumes o usam fazer, pois a sua honra e a sua conduta serão sempre os seus melhores avalistas.

Não obstante, o compromisso maçónico ao ser albergado por um juramento, obriga a que quem se submete a ele, o faça de forma permanente. Não se jura somente aquilo que gostamos ou somente aquilo que nos dá jeito cumprir.

Quando entramos para a Maçonaria sabemos que, tal como noutra associação ou organização qualquer, existem regras e deveres para cumprir; pelo que o cooptado compromete-se em respeitar integralmente todas as regras e deveres que existem na sua Obediência. E quem age assim, fá-lo porque decidiu livremente que o quer fazer e não porque alguém a tal o obriga.

E uma vez que a adesão à Maçonaria se faz por vontade própria, aborrece-me bastante (para não ser mais acutilante ainda…) assistir ou ter conhecimento de casos em que este juramento foi atraiçoado e em que os compromissos assumidos perante todos, foram deliberadamente e conscientemente esquecidos.

Será que quem age desta forma, poderá ser reconhecido como um verdadeiro maçom?

Ou será apenas gente que simplesmente enverga um avental e um par de luvas brancas nas sessões da sua Loja?

Em alguns casos destes, creio que foram pessoas que entraram na Maçonaria, mas que por sua vez, a Maçonaria certamente não entrou neles…

Algumas vezes, infelizmente, isto pode acontecer porque quem vem para a Maçonaria vem “desavisado”, isto é, pouco conhece ou percebe o que é a Maçonaria e o que ela representa, “vem ao escuro” por assim dizer, e caberá a quem apadrinha uma candidatura maçónica, informar ou retirar algumas dúvidas que se ponham ao seu futuro afilhado e consequente irmão. Em última instância, devem os responsáveis pelas inquirições que decorrem no âmbito de um processo de candidatura maçónica, no momento das entrevistas aos candidatos, terem a sensibilidade para se aperceberem do desconhecimento do entrevistado sobre os princípios e causas que movem os maçons e sobre a Ordem da qual este manifesta a vontade de vir a fazer parte, e nesse caso, serem os próprios inquiridores nessas alturas em concreto, a efetuar o trabalho que deveria ter sido feito anteriormente pelo proponente da referida candidatura, no que toca a esclarecer o profano e a fornecer-lhe as informações que lhe sejam necessárias para que esta (possível) adesão possa decorrer sem sobressaltos, nem que esta admissão venha a causar problemas (previsíveis!) no futuro, seja para a respetiva Loja ou até mesmo para a Obediência que porventura o vier a acolher.

Todavia, normalmente no momento do juramento maçónico, o neófito fá-lo sem saber/compreender o que estará a jurar e para o que estará a jurar, pois o véu que o cobre na sua Iniciação é de tal densidade que muitas vezes somente passado algum tempo é possível se perceber o juramento que se fez e o compromisso que se tomou, e que por vezes pode ser diferente daquilo que são as crenças pessoais e respetiva forma de estar de cada um ou até mesmo porque se acreditava que se “vinha para uma coisa e afinal se encontrou outra”…

E o trabalho que um padrinho deve desenvolver com o seu afilhado durante a formação deste tanto como a responsabilidade que assumiu perante o afilhado e a Ordem ao subscrever a candidatura dele, serão fulcrais neste tipo de situação concreta. O padrinho (pelo dever moral) e a Loja em si (porque é um dever da loja acompanhar e tentar integrar corretamente os Irmãos nos valores maçónicos) devem tentar perceber o motivo pelo qual alguém se “distancia” da Maçonaria. E apenas ulteriormente, se for caso disso, devem aconselhar a um possível adormecimento desse irmão por não ser do seu intento continuar a pertencer a algo com o qual não se identifique mais.

Pelo que desta forma se prevenirão certos casos e eventuais “lavagens de roupa suja” ou fugas de informação que poderão surgir, as quais na sua maioria nem sequer são informações plausíveis nem verídicas sequer, pelo que apenas posso especular que estas ocorrências se devem a paixões e vícios mal combatidos e nem sequer evitados… E como se costuma dizer, “o mal corta-se pela raiz”, pelo que “as desculpas devem evitar-se”…

E quem entra na Maçonaria deve ter a noção que as suas atitudes já não lhe dirão respeito apenas a si, mas a todos os integrantes desta Augusta Ordem, a conduta de um maçom estará sempre sob um fino crivo pela sociedade e sempre debaixo do escrutínio de todos, seja de fora ou internamente. – Porque um, pode sempre e a qualquer momento, “por em xeque” os demais -. E ter esta noção e assumir esta responsabilidade é algo que deve ser intrínseco desde os primeiros momentos de vida maçónicos.

Já não é o Nuno, o X ou o Y que fazem isto ou aquilo, serão os maçons Nuno, X ou Y que o fazem… Logo é a Maçonaria na sua generalidade que será atentada com a má conduta que os seus membros possam ter, para além da Ordem poder vir a ser acusada de cumplicidade pelos atos efetuados pelos seus membros.

Assumir que a nossa forma de estar e agir condiciona e se reflete na Maçonaria é um dos maiores compromissos que os maçons poderão tomar. Tanto que o dever de honrar a nossa Obediência, a nossa Loja e a Maçonaria em geral, deve permanentemente se encontrar na mente de todos os maçons.

Um juramento implica obrigações, e jurar ser-se maçom, mas fundamentalmente ser-se reconhecido maçom pelos nossos iguais, implica que sejamos maçons a “tempo inteiro” e não apenas às segundas-feiras ou quintas-feiras de manhã ou à noite, ou quando nos dará mais jeito, é sempre!

Sermos maçons, não é quando visitamos a loja e usamos os respetivos paramentos. Não basta envergarmos um avental, calçar umas luvas brancas e fazer uns “gestos estranhos”, é muito mais que isso! É cumprir preceitos, rituais e trabalhar em prol da Ordem.

E se não estivermos prontos para tal, de nada valerão os juramentos que fizermos, porque nunca nos iremos comprometer com nada na realidade e em último caso, nem sequer reconhecidos como tal seremos.

E a palavra persistirá perdida

Autor: Nuno Raimundo

Fonte: Blog A Partir da Pedra

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