O Desenho e o Canteiro no Renascimento Medieval (séculos XII e XIII): Indicativos da formação dos arquitetos mestres construtores – Capítulo V (1ª parte)

Clase Arq.GóTica By Mao

5. Ferramentas e instrumentos nos séculos XII e XIII

A partir da segunda metade do século XII, produz-se uma mudança muito significativa no aspecto das construções. Esta mudança responde a modificações de conceitos religiosos e litúrgicos, refletindo-se em nova definição dos espaços internos das igrejas.

Este novo estilo aparece e desenvolve-se com a melhoria das condições materiais nas cidades. Enquanto o estilo românico tinha um caráter rural, aparecendo sempre em igrejas próximas aos monastérios, o gótico é, desde sua origem, um fenômeno urbano que surge pela vontade de comunidades mais complexas e desenvolvidas.

A catedral gótica, máxima expressão da construção da época, é uma necessidade não só religiosa, como social – ponto de reuniões e demonstração de pujança econômica e espiritual da comunidade.

Construir é, então, o principal e quase único trabalho coletivo da época. A única “ferramenta técnica” é uma geometria muito simples e é com ela que procuram resolver os problemas que aparecem com o aumento da altura das naves e da complexidade das coberturas.

O talhe das pedras tem grande precisão, embora sua forma não seja uniforme em virtude da necessidade de se economizar e racionalizar o seu uso. Apenas no Renascimento é que as pedras dos arcos terão tamanhos iguais: no período medieval o uso pelo gótico de arcos ogivais de mesmo raio e diferentes alturas, permitirá a economia e a agilização da produção das peças. Os sistemas de medidas não são comuns às várias cidades e “loggias” das obras, não há papel e as ferramentas são caras e de baixa qualidade.

Apesar disso, recebiam no canteiro todas as milhares de peças, para as quais criou-se um sistema de marcação, transporte, armazenagem e colocação, sem que fossem possíveis muito retoques ou erros em virtude da natureza do material que era a pedra.

Isto remete-nos à suposição de um alto grau de profissionalismo entre os participantes do processo, o que na verdade era conseguido com longos períodos de aprendizado com os mestres de ofício.

A construção das catedrais era mencionada com vários detalhes em muitas crônicas, como a do monge Gervase, sobre a reconstrução da catedral de Canterbury, após o incêndio de 1174. (COWAN,op.cit.,1977).

Poucas contém desenhos sobre a obtenção e beneficiamento de materiais ou seu assentamento. Nenhuma, porém, dá qualquer indicação sobre o método de projeto que era objeto do “segredo” dos mestres pedreiros. Nós sabemos menos sobre os projetos das catedrais medievais do que sobre a arquitetura romana ou renascentista.

Algumas razões para este fato podem ser o baixo nível de alfabetização que, no século XII, ficava restrita aos religiosos e a transmissão oral dos conhecimentos profissionais.

Mesmo os manuscritos mais recentes (século XV) dos mestres pedreiros – caderno de desenhos anônimo encontrado na Biblioteca Nacional de Viena em 1450; geometria de Heutsch escrita provavelmente em 1472; geometria de Schmuttermeyer escrita provavelmente em 1486; o livro sobre a Verticalidade dos Pináculos de Roriczer de 1486 – explicam somente procedimentos de montagem (como tirar a elevação do plano), mas não de projeto, que ficava restrito aos “traçados reguladores” ou a escolha da “Grande Unidade” pelo arquiteto, conforme as pesquisas de Kossman (FRANKL,op.cit.,1945).

Outra provável razão para a ausência de registros sobre o projeto pode ser que após as opções do arquiteto, as principais orientações seguiam um conjunto de parâmetros definidos “a priori” pelo mestre, que às vezes socorria-se de um modelo, maquete ou desenho de épura em v.g. (verdadeira grandeza).

Os desenhos não são objeto de preocupação quanto à conservação: são destruídos ou seu suporte (raro ou caro) reutilizado. Apesar disto, alguns textos mostram a importância do desenho e aspectos de sua utilização, garantindo a propriedade ao seu autor. Um exemplo é o trecho de contrato entre o rei da Inglaterra no final do século XIV e dois mestres pedreiros:

“(…) de acordo com o sentido do projeto e dos gabaritos feitos sob recomendação do mestre Henry Yevely e entregue para os ditos pedreiros por Watkins Walton seu encarregado.”

O importante era o fazer dirigido por quem tinha o encargo de conceber ou a um sucessor a quem fosse permitido conhecer o projeto original (naturalmente, através de desenhos).

Através do estudo dos conjuntos de instrumentos e ferramentas poderemos conhecer um pouco mais sobre os procedimentos do trabalho – geometria do projeto e do canteiro – no Renascimento Medieval, que é como ficaram conhecidos os séculos XII e XIII.

Estes conhecimentos geométricos eram utilizados nas diversas instâncias – pelo uso de instrumentos e ferramentas – no projeto ou na obra, no beneficiamento do material (pedra), em sua extração e colocação no canteiro e até o seu posicionamento na edificação.

5.1. O Renascimento Medieval: a construção e o conhecimento

A civilização na chamada Baixa Idade Média (ou Idade Média Central – VINCENT,op.cit.,1995), começa a apresentar grandes diferenças do período anterior (Alta Idade Média), notadamente nos âmbitos religioso e intelectual.

Os sentimentos mudam para um crescente interesse pelas coisas terrenas em contraposição ao pessimismo com o destino e a vida do homem nos séculos anteriores. Algumas causas apontadas para estas mudanças devem-se a progressos na educação monástica e disseminação de escolas episcopais, a um governo mais estável e a uma economia mais sólida em função da retomada do comércio nas rotas terrestres e marítimas (Mediterrâneo,Mar do Norte,Mancha e Báltico).

A influência das civilizações islâmica (presente na Península Ibérica até 1492 – século XV) e bizantina (herdeiros do Império Romano que desapareceram apenas em 1453 -século XV – com a tomada de Constantinopla pelos turcos) e ainda o renascimento, fundação e prosperidade de vilas e cidades, levam a realizações materiais e intelectuais nos séculos XII e XIII, que justificam a denominação de “Renascimento Medieval”.

Apresentamos a seguir, de maneira resumida, as principais realizações destes dois séculos. Importante ressaltar-se ainda que todas as Cruzadas, da Segunda (1147-1149) até a Oitava (1270 – morte de São Luiz em Tunis) ocorreram dentro do período em questão.

Século XII
1109 – Abadia de Cluny;
1120 – Tradução de “Os Elementos” de Euclides do árabe para o latim por Adelard de Bath;
1126 – Escola de Tradutores de Toledo;
1132 – Abadia de Vézelay (Borgonha);
1141 – Tradução do Corão para o latim por Pierre, o Venerável, Abade de Cluny;
1144 – Reconstrução da Abadia de Saint-Denis pelo Abade Suger – nascimento do gótico;
1160 – Catedral de Laon[1];
1163 – Catedral de Notre Dame de Paris;
1175 – Catedral de Canterbury;
1194 – Catedral de Chartres[1].
Século XIII
1211 – Catedral de Reims[1];
1214 – Privilégios à Universidade de Oxford;
1215 – Fundação oficial da Universidade de Paris;
1220 – Catedral de Amiens;
1226 – Santa Inquisição;
1245 – Abadia de Westminster;
1248 – Catedral de Cologne;
1250 – Catedral de Strasbourg;
1265 – Summa Teológica de São Tomás de Aquino.

De quais materiais, utensílios, instrumentos e organização dispunham os construtores para possibilitar nos séculos XII e XIII o desenvolvimento de um novo estilo arquitetônico como o gótico? É necessário imaginar os conhecimentos teóricos e práticos ao alcance do criador – que aqui chamamos de “Arquiteto” – e de seu auxiliar, o “parlier”

Este é quem transmite as tarefas do projeto aos executantes, verifica a conformidade dos detalhes previstos, dá indicações aos talhadores de pedra e carpinteiros, explica os traçados ou os reproduz em escala, conforme os desenhos do arquiteto.

Na sala de traços, recobrindo o chão de gesso ou nas argamassas das paredes, o arquiteto desenha suas épuras em verdadeira grandeza (tamanho natural) com seus equipamentos.

Os executantes são geralmente capazes e zelosos, porém iletrados.

Contrariamente à ideia romântica de que todo o povo participava, a construção das catedrais era feita por profissionais pouco numerosos. Algumas dezenas de permanentes e até algumas centenas em período de pico. O máximo número de trabalhadores conhecidos é de 700 trabalhadores na Abadia de Westminster, por desejo do rei.

O arquiteto precisa se preocupar com os materiais colocados no obra, sua origem, seu custo e demais características técnicas: isso vai refletir a organização e os equipamentos existentes no canteiro.

É preciso sempre evocar as condições técnicas em que aqueles construtores se encontravam: as novas possibilidades que surgiram, mas também as dificuldades e obstáculos que enfrentavam em todos os níveis, desde o aprovisionamento e transporte, nos diferentes estágios da concepção, lançamento do projeto, execução e comunicações das disposições prévias.

A este propósito, o trabalho do arquiteto orientava-se para simplificar (selecionar poucos padrões) e facilitar a comunicação do projetado aos executantes sempre que isso fosse possível (BECHMANN,op.cit.,1993).

Após a escolha dos padrões, o carpinteiro fabrica os gabaritos para serem entregues ao mestre talhador que os utiliza em função dos blocos de pedra retirados da pedreira.

Assim, notamos um aparente conflito com um parágrafo de Walter Gropius:

“…cada artesão, participante da obra, podia não apenas executar, mas também projetar a parte que lhe cabia, desde que se subordinasse à clave de proporções geométricas de seu mestre: esta servia às guildas de construção – tal como a clave musical serve ao compositor – com recursos geométricos. Quase nunca existiam projetos no papel; o grupo de trabalho vivia junto, discutia a tarefa comum e transpunha as idéias diretamente para o material.”( Walter Gropius. Bauhaus: Nova Arquitetura. São Paulo: Perspectiva, 1972, p. 25 – citado por BICCA,1984).

As noções da inteira liberdade do trabalhador medieval quanto ao exercício de seu ofício não parecem ser muito verdadeiras, uma vez que a organização econômica do canteiro impunha medidas de padronização e repetição de tarefas.

Além dos problemas internos à organização das obras, é preciso considerar também quais as condições gerais em que se achavam os construtores da época: o contexto ecológico (pedreiras e florestas/pedras e madeira) e sócio-econômico que atuava sobre eles sujeitava e condicionava não somente seu modo de vida, mas também suas escolhas técnicas.

A superexploração das florestas, que era uma consequência não somente dos grandes desmatamentos produzidos pela expansão demográfica, mas também pelo manejo tradicional da época (matéria para combustível (lenha e carvão) e madeira para utilização em obras), levou o nordeste da França, berço da arquitetura gótica a uma grande escassez de madeira com secções adequadas para construção.

Esta dificuldade provocou uma necessária evolução técnica, que a hagiografia, as crônicas e os Cadernos de Villard de Honnecourt nos informam.

Os custos dos transportes, sobretudo por via terrestre, incidem decisivamente sobre as técnicas empregadas e refletem-se notadamente no talhe das pedras em uma “estandartização” ou modulação na pedreira.

O emprego das janelas e arcos ogivais, que podem ser construídos com diversas curvas de mesmo raio, porém com alturas diferentes, utiliza-se de peças de mesmo perfil e curvatura, prestando-se assim aos propósitos de usar um pequeno repertório formal para compor arcos de várias inclinações.

Além das novas possibilidades trazidas pelo emprego das janelas e arcos ogivais e dos arcobotantes, desenvolve-se também, por exigências das mudanças litúrgicas, a arte dos vitrais, que permite trazer a luz para dentro das naves, proteger contra a chuva e o frio e aliviar as fachadas pelo emprego de menor volume de pedras.

O Abade Suger em Saint-Denis, berço do gótico, queria uma igreja na qual a luz brilhasse e a escuridão fosse dali varrida. Afirmava que a alma é fortemente arrastada para Deus ao contemplar o brilho cintilante da luz refletida em pedras preciosas (BROOKE,op.cit.,1972).

A ciência da construção, inteiramente empírica, apoiando-se nas experiências mais arrojadas, progredia rapidamente e os construtores do país que desenvolveram a nova arquitetura, adquiriram uma competência que os fizeram requisitados por toda a Europa, como mestres de obras ou arquitetos.

Foi provavelmente por um desses títulos que Villard de Honnecourt foi levado a viajar ao exterior e assim sair de sua terra natal, a Picardia, para visitar a Île-de France, a Champagne, a Suíça e a Hungria.

Os conhecimentos extremamente rudimentares em matéria de Geometria foram evidenciados pela correspondência de 1025 (século XI) entre os escolásticos Radolf de Liège e Ragimbold de Cologne sobre suas pesquisas e pelos esforços de outros escolásticos com Francon, Wazron, Razegan e Adelman que se esforçavam para demonstrar corretamente o Teorema dos ângulos internos de um triângulo. Mesmo através dos desenhos de Roriczer em 1486 (século XV) no “Livro da Construção Exata dos Pináculos”, percebemos a limitação dos conhecimentos em Geometria.

O conhecimento teórico e matemático da Geometria era pequeno por parte dos mestres construtores e havia uma imensa dificuldade no diálogo com os sábios e intelectuais pelas barreiras entre o latim culto e o latim vulgar.

Esta afirmação sobre os limitados conhecimentos dos mestres construtores era provavelmente exata para os teóricos, mas não parecia ser verdadeira no mundo do trabalho.

Ao domínio da demonstração como entendemos hoje – aquelas que interessam aos matemáticos, teóricos, filósofos ou sábios e que demonstrariam a plena compreensão da obra de Euclides – contrapõe-se a prática do “traço”, o plano de traçados reguladores com sua geometria prática.

É admirável que se possa imaginar como, deste modo, as catedrais góticas puderam ser erguidas sem maiores conhecimentos dos domínios da Geometria.

Restam os traços ou riscos como é mais comum entre nós e os modelos e maquetes. O risco em escala natural era importante etapa na passagem do plano para a forma esculpida ao longo de toda a história da construção erudita (TOLEDO,op.cit.,1978).

Lúcio Costa explica o significado da palavra risco na Arquitetura:

“Da mesma forma que e expressão inglesa design, a palavra risco, na sua acepção antiga, está sempre associada à idéia de concepção ou feitio de alguma coisa e como tal não significa apenas o desenho, drawing, senão desenho visando a feitura de um determinado objeto ou a execução de uma determinada obra, ou seja, precisamente o respectivo projeto.”

A função do risco em escala natural – aqui como desenho aberto na argamassa de uma parede ou em camada de gesso no piso – seria servir de guia para marcar a pedra segundo a projeção da peça num plano (vertical ou horizontal) e orientar seu corte (TOLEDO,op.cit.,1978). Restam exemplos ainda nas Catedrais de Wells e York, ambas na Inglaterra.

Os modelos – que aparecem muito na iconografia medieval – prefiguram os resultados finais da edificação, servindo também para ser mostrado ao Capítulo da futura catedral para conhecimento e aprovação do projeto.

Se os métodos utilizados não são auxiliados por desenhos na época, é notável que os traçados estão destinados a servir por um curto período de tempo e que são feitos geralmente sobre suportes efêmeros ou reutilizáveis. São desenhados sobre pergaminhos (suporte bastante caro e de dimensões reduzidas), placas de madeira, superfícies de gesso, argamassas de cal e muito raramente sobre placas de pedra.

Em razão da necessidade já referida de aprovação do projeto perante o Capítulo e o próprio Bispo, os Arquitetos eram levados a desenhar grandes fachadas, caprichosamente preenchidas com cor.

Mas, os métodos são guardados em segredo, apenas acessíveis para aqueles que possuíam os conhecimentos do ofício dos construtores, os quais eram transmitidos de forma oral e através de esquemas desenhados e identificados por textos quase “criptográficos”.

A experiência é baseada em métodos estabelecidos empiricamente, transmitidos de geração em geração e que são enriquecidos pelo acréscimo de conhecimentos obtidos nas “loggias” das novas obras.

Entre o mundo dos práticos e aquele dos sábios e intelectuais existiam barreiras que não permitiam que o saber fosse compartilhado.

Os arquitetos mestres construtores, iniciados na prática geométrica da construção, guardavam ciosamente seus segredos corporativos, enquanto que os “teóricos” desprezavam a utilização prática dos conhecimentos geométricos.

Além disso, as barreiras entre as línguas culta e vulgar e as dificuldades dos arquitetos mestres construtores com a matemática, complicavam ainda mais uma possível cooperação com os teóricos.

Mesmo assim, como a Geometria sempre foi considerada uma Arte Liberal e de alguma forma ela era utilizada pelos arquitetos, seu ofício era altamente considerado, embora implicasse em um trabalho manual.

Por isso, é provável que apesar do livro Os Elementos de Euclides ter sido vertido para o latim logo nas primeiras décadas do século XII, ele pouco deve ter acrescido de imediato ao trabalho prático dos mestres construtores (PADOVAN,op.cit.,1999).

Podemos então perguntar: qual geometria auxiliava os construtores?

Geometria, sem dúvida, com fonte na Geometria de Euclides ou em tratados como o de Vitruvius, cujas cópias, hoje sabemos, existiram sempre pela Europa?

É particularmente difícil penetrar nos métodos de certas técnicas, pois a discrição no seu detalhamento é rigorosamente observada pelos pedreiros e arquitetos.

Esses “segredos de ofício” aparecem ratificados num famoso documento resultante de um encontro de talhadores de pedras em Ratisbonne (1459 – século XV) que rezava que

“nenhum trabalhador, mestre, parlier ou jornaleiro, ensinará a quem não for de nosso ofício e nem tenha jamais exercido o ofício de pedreiro, como tirar a elevação do plano.”

Se a discrição ou segredo dos métodos é respeitável e justificável por várias razões, ela constituiu-se num freio à cooperação de todos os que poderiam, com conhecimentos complementares, fazer avançar as técnicas antigas que constituíam o patrimônio comum.

Continua…

Autor: Francisco Borges Filho

Tese apresentada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Doutor. Área de concentração: Estruturas Ambientais Urbanas.

Fonte: Digital Library USP – Theses and Dissertations

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Nota

[1] – Registradas nos Cadernos de Villard de Honnecourt

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O Desenho e o Canteiro no Renascimento Medieval (séculos XII e XIII): Indicativos da formação dos arquitetos mestres construtores – Capítulo IV

Retificação: os construtores das catedrais da França | Caetano de ...

4. O conhecimento geométrico : desenho para o projeto e o canteiro

A geometria prática conhecida e utilizada pelos mestres construtores – a Geometria Fabrorum – era composta de partes da geometria teórica, trabalhada com o auxílio de instrumentos e ferramentas, porém sem a utilização de cálculos matemáticos.

Embora a educação formal durante a Idade Média não tenha servido diretamente aos mestres construtores, ela foi importante para manter determinados estratos sociais em contacto com textos de geômetras da Antiguidade.

As primeiras experiências no sentido de reorganizar o ensino formal, destruído pelas invasões bárbaras da Alta Idade Média, foram iniciativas da Igreja, por razões de sua própria organização. Os reflexos destes conhecimentos culminarão nas Corporações de Ofício.

4.1 – A geometria nas Escolas

Durante o período de refluxo da vida urbana na Idade Média em razão das invasões bárbaras, o ensino dito formal permaneceu recluso nas chamadas Escolas Monásticas, dentro dos Mosteiros e Abadias, que sempre tinham sua localização no mundo rural, distante de qualquer contato com aglomerações humanas.

As escolas leigas haviam desaparecido, tornando as Escolas Monásticas uma novidade e não uma continuidade de herança da Antiguidade.

Um exemplo maiúsculo foi Vivarium, famoso mosteiro fundado por Cassiodoro em 555 (século VI), com o propósito de preservar as tradições culturais latinas então em franca extinção. O latim sofria com as invasões bárbaras; a fusão com inúmeras línguas e dialetos trazidos pelos invasores, transformou-o de uma língua de todo o ocidente europeu em uma língua regionalizada ou na pior hipótese, morta.

Este fato acarretará dificuldades na compreensão de textos da Antiguidade, principalmente romana, pela incapacidade crescente de entendimento do latim clássico que era até então a língua do estudo e da transmissão do saber.

Ainda no século VI, S. Bento de Núrcia, no Mosteiro de Monte Cassino, na Itália, estabelece a regula (regras) para seu mosteiro e que será seguida por todos os demais.

Ela determinava que o monge permanecesse no mesmo lugar, trabalhando manualmente para garantir sua subsistência e mais importante de tudo, que se dedicasse ao estudo e ao ensino. Com isso, os mosteiros beneditinos tornaram-se os primeiros centros de cultura importantes para a civilização ocidental.

Os monges fechados no scriptorium, uma espécie de oficina de escrita e iluminuras e na biblioteca copiavam obras da Antiguidade, multiplicando os exemplares e tornando-os mais acessíveis.

Em recente artigo, o paleobiólogo Cisne (op.cit.,2005,p.1305) destaca a importância do scriptorium através de uma analogia entre as obras aí produzidas e os fósseis. Assim como os trilobitas (parentes de quatrocentos milhões de anos de insetos e crustáceos) que ele costuma estudar, os manuscritos só se multiplicam se copiados individualmente, mas quanto mais deles existir, mais eles se multiplicam, simplesmente porque há mais indivíduos capazes de se reproduzir e ser copiados.

É aí, longe das cidades que surgiram as Escolas Monásticas, a princípio apenas para a formação de futuros monges. Mais tarde, estas escolas abrem-se para o público externo, com o propósito de formar leigos cultos (filhos da nobreza e de seus servidores).

O programa de ensino, de início era bastante elementar: aprender a ler, escrever, conhecer a Bíblia, canto e aritmética. O canto (música) e a aritmética são componentes do Quadrivium (música, aritmética, geometria e astronomia), herança da influência da Antiguidade sobre a Idade Média.

Com o tempo, o programa vai se enriquecendo, incluindo o estudo do latim e do Trivium (gramática, retórica e dialética). O sistema educacional baseado no Trivium e no Quadrivium havia sido estabelecido desde a Antiguidade,apoiado sobre as Sete Artes Liberais: Gramática, Retórica e Dialética compunham o Trivium, destinado à uma educação mais refinada (para treinar a mente) e Música, Aritmética, Geometria e Astronomia que compunham o Quadrivium, destinava-se a uma educação mais informativa, voltada para algum tipo de aplicação prática ou profissional.

Embora a Geometria figurasse no Quadrivium, seu estudo era teórico e calcado sobre os textos existentes (principalmente de Boécio), não tendo absolutamente nada, por exemplo, com a geometria registrada por Villard de Honnecourt em seus cadernos.

Os arquitetos mestres construtores gozavam um especial prestígio e consideração da sociedade, pois apesar de seu trabalho resultar em intervenções manuais, o ato de conceber ou projetar, denotava seu domínio sobre a Geometria (uma Arte Liberal), que o
distinguia dos operadores manuais.

Leonardo da Vinci diria mais tarde que o projeto é cosa mentale, corroborando o sentimento coletivo.

No século XII, Hugh de St. Victor nomeia as Sete Artes Mecânicas, nas quais percebemos que o trabalho manual e o esforço físico são denominadores comuns a todas elas. São elas: Lanificium (vestuário), Armatura (arte militar e arquitetura), Navigatio (navegação), Agricultura, Venatio (caça e pesca), Medicina e Theatrica (teatro). As Artes Liberais sempre foram consideradas superiores às Mecânicas e esta condição foi também justificada pela filosofia escolástica de Tomás de Aquino que ensinava que a alma (mente) era livre e o corpo sua prisão.

A posição da Geometria dentre as Artes Liberais explica-se pelo seu caráter teórico-mental, que necessita de instrumentos apenas quando se faz necessário materializar os conceitos de ponto, linha, etc…

O mesmo Hugh de St. Victor em seu livro Praticae Geometriae, divide a Geometria em dois campos: a Geometria Teórica e a Geometria Prática. A Geometria Teórica investiga espaços e distâncias por razões especulativas enquanto que a Geometria Prática investiga os mesmos espaços e distâncias, mas por meio de certos instrumentos que permitem decisões sobre as proporções ao juntar uma coisa à outra.

Sua Geometria Prática tratava ainda de três campos específicos: Altimetria, Planimetria e Cosmimetria (futura Estereotomia).

A Geometria Prática, também conhecida como geometria do artesão, infelizmente foi excluída do Praticae Geometriae, originalmente de Hugh de St. Victor, quando foi completada por Leonardo de Pisa em 1220. Esta exclusão provavelmente deveu-se ao fato de que o trabalho final de Leonardo de Pisa resultou num tratado matemático avançado, em que ele se sentiu desobrigado de iniciar com a habitual distinção entre Geometria Teórica e Prática.

Seu trabalho foi muito pouco lido ou utilizado, não somente em razão da sofisticação matemática, mas também pelo latim clássico em que foi escrito. Mais uma vez fica ressaltado o fato de que se a unidade proporcionada pela língua latina favoreceu o intercâmbio de conhecimento entre os pensadores e intelectuais, dificultou ou tornou-o inacessível aos mestres construtores.

A existência das Escolas Monásticas e as obras civis nos mosteiros, sem dúvida aproximaram leigos construtores de alguns monges também construtores. Esta união de dois grupos aparentemente tão distintos quanto ao acesso a fontes de conhecimentos da Antiguidade, pode ter resultado nas primeiras experiências de transmissão de algumas técnicas ou recursos geométricos dos monges para os trabalhadores contatados.

Gimpel (op.cit.,1973) dedica todo um capítulo aos monges construtores, indicando uma grande habilidade a ser considerada. Os mosteiros contratavam também muitos artistas e artesãos para a produção de objetos encomendados às suas oficinas pelas igrejas e cortes. Há registros que a Abadia de St. Gall contratava muito destes operários ambulantes. Era um pequeno mercado de trabalho.

Era prática geral empregar mestres construtores, da mesma maneira que canteiros, carpinteiros e ferreiros para a construção das igrejas. As oficinas monásticas ocupavam-se também, além da produção de artefatos, com a investigação técnica (Hauser,p.89).

No final do século XI, o monge beneditino Teófilo descreve na sua Schedula Diversarum Artium, uma série de invenções dos mosteiros: produção de vidro, uso do fogo na execução de vitrais, tintas, etc…

Operários e artistas ambulantes adquiriam prática nas oficinas monásticas em contato com monges letrados e com acesso à biblioteca. A preparação de jovens artistas era uma preocupação e a educação uma obrigação de toda ordem religiosa. Em muitos mosteiros essas oficinas de trabalhos manuais preparavam artistas para as catedrais e casas senhoriais, num esforço à parte da Escola Monástica.

A partir do século XI, quando as atividades humanas retornam ao ambiente urbano, ocorrem mudanças de forte repercussão no campo da disseminação do conhecimento. Essas mudanças vão desde o aparecimento das sucessoras das Escolas Monásticas, as Escolas Episcopais, de um novo grupo social que é a burguesia urbana, das Universidades e finalmente das Corporações de Ofícios.

Como resultado da revolução agrícola a partir do ano 1000, produziu-se excedentes, o que estimulou o comércio e as finanças (uso da moeda ao invés da troca de mercadorias). A mudança da matriz energética foi decisiva para a revolução agrícola. Aprimorou-se a força motriz do cavalo com novos arreios que permitiram o uso de arados profundos que revolviam melhor o terreno e introduziu-se o sistema de rodízio de campos de cultivo, o que aumentou consideravelmente a produção. O homem ficou assim liberado do uso da força motriz humana.

As Escolas Episcopais começam a funcionar em dependências da catedral ou da casa do bispo. Surgem pela necessidade de uma melhor formação de quadros para o clero, para a burocracia da Igreja e para o enfrentamento de ameaças heréticas.

A retórica, a argumentação e o conhecimento deveriam se contrapor às heresias e defender a doutrina da Igreja na vida civil. São recrutados eruditos e intelectuais para ministrarem aulas. Todos são chamados de clérigos, mesmo os alunos que não se destinam ao sacerdócio.

Existe agora na cidade, ao lado da sociedade feudal rural, um novo grupo social que é a burguesia urbana, dedicada às atividades mercantis, manufatureiras e financeiras. Seu poder, riqueza e importância cultural vão crescendo rapidamente.

Esta ânsia em ocupar novos lugares na sociedade faz com que se inicie uma renovação das ideias de escola, que aparecerá justamente nas Escolas Episcopais das Catedrais. Estas escolas, que foram instituídas no século XI pelo Concílio de Roma de 1079, passam a partir do século XII, com o Concílio de Latrão de 1179, a ser mantidas através de benefícios para a remuneração dos mestres, garantindo-lhe assim um vigoroso impulso neste século.

A novidade é que a atividade intelectual abre-se para o exterior, absorvendo elementos das culturas judaica e árabe e redescobrindo os autores clássicos como Aristóteles e Platão. Em 1126, a Escola de Tradutores de Toledo na Espanha está em plena atividade, traduzindo obras da Antiguidade do árabe para o latim. É desta época a tradução de Adelard de Bath da obra Os Elementos de Euclides.

No século XII, Thierry de Chartres fez uma compilação dos textos e autores utilizados como base para as aulas das Sete Artes Liberais (Trivium e Quadrivium ) na Escola da Catedral de Chartres.

No Trivium , a Gramática era ensinada com textos de Donato e Prisciano; a Retórica, com textos de Cícero, Severiano e Martianus Capella e a Dialética com textos de Porfírio, Aristóteles e Boécio.

No Quadrivium, a Música era ensinada com textos de Boécio; a Aritmética, com textos de Boécio, Martianus Capella; a Geometria, com textos de Abelardo, Isidoro de Sevilha, Frontino, Columelle, Gerberto, Gerland e Boécio e a Astronomia com textos de Hygino e Ptolomeu.

O método utilizado é principalmente o comentário sobre o texto lido, estabelecendo-se as famosas Questiones Disputate entre os candidatos, à frente do Mestre e dos demais alunos (Pernoud,op.cit.,2004,p.6).

Os textos de Boécio utilizados no ensino da Geometria eram conhecidos como a Geometria de Boécio, embora fossem compilações parciais de Os Elementos de Euclides.

Shelby (op.cit.,1972) assegura que, embora o conhecimento dos mestres construtores pudesse teoricamente ser obtido na educação formal, não era isso que acontecia. Ler e escrever eram privilégios do clero, mas há evidências de um aumento nas taxas de alfabetização na Baixa Idade Média. Com isso, provavelmente, mais mestres construtores
aprenderam a ler e escrever, embora o fizessem em linguagem vernacular e não em latim, pois isto exigia a frequência desde cedo a cursos da educação formal, muitas vezes inacessível a este grupo.

Mesmo assim, a alfabetização traria benefícios pois, segundo Gimpel (op.cit.,1972), nas Escolas Episcopais de Chartres e Paris havia manuscritos em latim e também na língua da Picardia. Chama a atenção, nos séculos XII e XIII, que o monopólio da Igreja na organização escolar não é contestado pelo poder secular.

O século XIII é o século da Igreja triunfante e de poder incontrastável com a construção de inúmeras catedrais; da consolidação da universidade (1200 – Universidade de Paris), talvez a maior contribuição medieval à civilização ocidental e ainda é o século das Corporações de Ofícios.

Estamos também sob a égide da filosofia escolástica com sua organização, divulgação da filosofia de Aristóteles e do intelecto de Tomás de Aquino (1226 – 1274) em justificar a fé com a razão.

As universidades que se consolidarão neste século, eram originariamente chamadas de Studium Generale, agregando mestres e alunos dedicados a algum ramo do saber (Medicina, Direito ou Teologia). Com a efervescência da Baixa Idade Média, logo passou a
referir-se ao estudo universal do saber, sendo seu nome substituído por Universitas Magistrorum et Studiorum.

A universidade de mestres e alunos forma uma sociedade autônoma que tem seus membros retirados da jurisdição civil, isto é, dos tribunais reais. Eles ficam submetidos a tribunais eclesiásticos, o que é considerado como privilégio e consagra a autonomia desta corporação de elite (Pernoud,op.cit.,2004,p.3).

Mesmo nas universidades, diferente modalidade de educação formal, não encontramos o conhecimento dos mestres construtores.

Este conhecimento não seria encontrado num ambiente de estudos teóricos, porque a percepção da geometria pelo artesão é clara: é a geometria que manipula os materiais com instrumentos e de acordo com as regras de seu ofício. É conhecida como a Geometria Fabrorum, ou seja a geometria que fabrica um determinado artefato.

As cidades, agora com população fixa e com grande atividade comercial, tornam-se centros de atração pelas oportunidades que passam a oferecer. A atividade da construção, com os grandes canteiros de obras das catedrais é a maior força de atração.

Assim como a universidade logo constituiu uma corporação de mestres professores e alunos, os diferentes artífices que intervêm na obra arquitetônica, até por força do pensamento escolástico em dividir, classificar e organizar, isolam-se também em entidades civis chamadas Corporações de Ofícios, com o claro intuito de proteger os interesses dos praticantes daquele ofício.

As cidades estavam atraindo, com suas atividades de construção, muitos estrangeiros e moradores das vizinhanças, o que muitas vezes deixava seus próprios habitantes sem trabalho. Desta época vêm a denominação pedreiro livre (free mason), indicando aquele que não tinha vínculo com nenhuma Corporação.

O surgimento destes múltiplos ofícios rompeu com a ordem social que retratava o sistema feudal. As novas atividades urbanas, comerciais e artesanais em sua diversidade, propiciaram uma liberdade pessoal para os homens, até então inexistente na relação servo-senhor. Eram agora pessoas desligadas da terra e que sobreviviam na cidade com seu trabalho que já não era ligado à produção de alimentos.

Os trabalhos de projeto e construção corriam até então sob a organização das loggias, que ficavam localizadas dentro do próprio canteiro de obras. As loggias, que se diferenciariam das futuras Corporações de Ofícios, eram associações de trabalhadores autônomos organizados.

A loggia dos pedreiros dos séculos XII e XIII era uma organização cooperativa de artistas e artesãos contratados para a construção de uma grande obra – igreja ou catedral – sob a direção e administração de pessoas indicadas pela entidade que tinha encomendado o edifício. Fica clara a relação de dependência a um plano concebido antes da execução, portanto um projeto. Um projeto medieval.

Hughes Libergier é um exemplo destes diretores e administradores das obras ou seu arquiteto mestre construtor. Ele era o responsável pelo plano artístico (projeto), distribuição de tarefas e coordenação dos trabalhos individuais.

Nas loggias, o arquiteto mestre construtor trabalha quase sempre com as mesmas equipes. Alguns trabalhadores continuam com o mestre mesmo após o término de suas tarefas.

Por ser um grupo autônomo, tinha grande mobilidade e caso o trabalho terminasse ou se interrompesse, mudava sob a chefia de seu arquiteto mestre construtor e tomava novas tarefas. O que acontecia muitas vezes era a loggia ficar no mesmo local por gerações, em virtude da duração do tempo de obra.

Se a mobilidade não era tão importante para a loggia como grupo, era fundamental para a produção artística da época, cujo artista levava uma vida errante, trabalhando individualmente em vários grupos, como era a tradição dos operários contratados nas antigas oficinas monásticas.

Com a entrada da moeda em circulação, o trabalho livre e de fora da localidade passa a ser mais empregado pelos mestres. O mercado de trabalho se fortalece e agora a velocidade das obras depende dos recursos em dinheiro da entidade promotora.

A construção da catedral gótica era um processo muito mais longo e complicado que a construção da igreja românica. Requeria maior variedade de operários e mais tempo para a execução.

Estes inúmeros profissionais tinham seu trabalho organizado pelas regras da loggia: o tipo de empreitada, pagamento e treino de operários, hierarquia entre arquiteto, mestres especializados e operários, restrições à propriedade intelectual do trabalho e subordinação incondicional às necessidades da tarefa comum.

O objetivo era uma divisão e integração do trabalho produtivo sem atritos, com a maior especialização possível e a mais completa harmonia entre os diferentes indivíduos. Procura-se constituir uma união de espírito do grupo com uma subordinação voluntária à direção do arquiteto e um contato estreito deste com cada componente, para tornar possível a unidade artística da obra.

Esta organização do trabalho nas loggias era a mais apropriada à uma época em que a Igreja e algumas entidades da cidade eram as únicas compradoras das obras de arte por elas produzidas.

Quando o poder de compra da burguesia mercantil urbana alcançou um nível suficiente, esta passou a constituir-se num novo mercado para as obras de arte, permitindo que os artistas e artesãos abandonassem a loggia e se instalassem na cidade como mestres independentes.

É um momento único e sem retorno na relação projeto e obra: as diversas categorias intervenientes na obra agora podem trabalhar fora dela. É o afastamento do arquiteto da obra, pela separação entre o local de trabalho do artista e o local da edificação.

A concentração de artistas e artesãos nas cidades e a competição naturalmente criada, levaram a uma organização econômica coletiva, que resultou nas Corporações de Ofícios.

As Corporações de Ofícios na Idade Média surgiam sempre que um grupo profissional sentia-se ameaçado economicamente por competidores vindos de fora. Era uma organização própria de cada cidade.

O objetivo da Corporação era excluir ou ao menos restringir a competição: desde o início caracterizou-se por um protecionismo intolerante contra os que não fossem seus membros. Os regulamentos visavam somente à proteção do produtor dos artefatos. Mesmo a prescrição de qualidades mínimas ao produto procurava garantir mercados aos produtores.

Apesar de tudo, se comparados os regulamentos da loggia com os das Corporações, estes deram um passo à frente no tocante à liberdade do artista. Nas oficinas individuais que compunham a Corporação, os mestres de Ofício eram livres na utilização de seu tempo e na escolha dos meios artísticos. A Corporação apenas mantinha os mestres dentro de limites aceitos pela tradição profissional.

Agora, as diferenças do trabalho em relação aos séculos XI e XII já são bastante grandes. No século XI, em pleno período românico, todo o trabalho do artista era feito no próprio local da edificação, em sua posição final: a decoração de paredes pelo pintor era feita exclusivamente através de murais e o escultor trabalhava sobre andaimes, cinzelando a pedra após o pedreiro tê-la assentado.

A loggia do século XII, oferecia ao escultor um local de trabalho mais conveniente e melhor equipado que o andaime: uma oficina ao pé da igreja ou catedral, onde as esculturas eram esculpidas, marcadas e depois colocadas em sua posição definitiva no edifício.

Esta evolução, que culmina na Idade Média com a organização das Corporações de Ofícios, levou à independência do trabalho do escultor e a crescente separação entre arquitetura e escultura. Os painéis pintados também seguem a mesma tendência.

A transmissão dos conhecimentos do ofício era predominantemente oral, sendo feita pelo mestre a seus aprendizes.

Neste trabalho, os mestres não empregavam livros didáticos no sentido escolástico e nem formas literárias definidas. Os aprendizes faziam uma espécie de estágio por longos anos e mudavam de categoria ao comprovar competência em um trabalho completo, apresentado aos mestres da Corporação.

As Corporações tornaram-se também um círculo fechado de parentesco, onde a tradição em exercer determinado ofício ficava por muitas gerações com a mesma família, resguardando o imenso prestígio social que o arquiteto mestre construtor carregava.

Esta posição de quem dirigia e supervisionava pessoalmente as obras, pode ser avaliada pela lápide do mestre Hughes Libergier. Após sua morte em 1263, este arquiteto mestre construtor da igreja de Saint-Nicaise em Reims foi retratado em sua lápide como uma espécie de homem de letras, com o modelo de sua igreja, a virga e outros instrumentos de trabalho (N.B.: esquadro e compasso). A posse da virga, bastão que indicava o comando era também um padrão de unidade escolhido para a obra.

Hugo Libergier – Wikipedia

Apesar da Escolástica ter monopolizado a formação intelectual e ter cunhado o que se chamou de hábito mental que atingia os arquitetos com esta formação, não é possível afirmar-se que estes mestres arquitetos eram escolásticos. Shelby (op.cit.,1972) demonstra que os procedimentos utilizados na Geometria Prática pelos arquitetos eram independentes e distintos do pensamento matemático da tradição erudita e depois escolástica.

4.2 – A geometria no ofício

Uma fonte muito importante de informações sobre a tradição dos arquitetos mestres construtores surgiu de um autor anônimo – provavelmente um clérigo – por volta de 1400. Era o Artigos e Pontos de Alvenaria que afirmava o papel essencial da geometria no ofício dos pedreiros. Apresenta costumes e regulamentos referentes ao trabalho dos pedreiros da Inglaterra de então.

O autor estabelece a conexão entre geometria e trabalho com ferramentas e prossegue registrando que

“entre todos os ofícios do mundo, o ofício dos pedreiros era o mais notável e mais participante da ciência da geometria.”

O texto apresenta ainda uma versão das mais interessantes sobre as origens da Geometria e a história de Euclides. De acordo com o autor, Euclides teria sido empregado de Abraão durante sua estada no Egito. Assim, teria sido Abraão que ensinara a ciência da Geometria a Euclides, que por sua vez ensinou-a aos egípcios.

Esta visão ressalta a relevância do significado da Geometria para o autor e os pedreiros da época, principalmente pela tentativa de ligá-la a um personagem bíblico.

Para os pedreiros medievais, Euclides era o herói do ofício e a palavra Geometria tornara-se sinônimo de seu ofício.

Apesar da firme convicção de que a Geometria era a base do ofício, vimos anteriormente que não era através dos meios educacionais formais existentes à época que este contato se dava. A educação e formação dos pedreiros se davam no corpo da tradição de seu ofício, por meio do qual os conhecimentos técnicos necessários ao projeto e execução eram transmitidos de mestre para aprendiz,de pai para filho, do parlier ou jornaleiro para os menos experientes no trabalho.

Os arquitetos mestres construtores também adquiriam conhecimentos e habilidades em construção pelo estudo e profundo conhecimento das tradições do ofício. A capacitação no ler e escrever tornou possível o contato com textos antigos escritos sobre o ofício e traduzidos em língua vernácula.

Estas tradições, guardiãs de grande volume de conhecimento técnico e que eram transmitidas oralmente de uma geração à outra, desapareceram quando a tradição oral extinguiu-se ao final do período gótico.

As condições para resgatar os conhecimentos dos arquitetos mestres construtores foram dadas pelos escritos de alguns mestres alemães do final do século XV, portanto ao final do período histórico convencionado como Idade Média, porém já nos ares do Renascimento.

Sobre as traduções de Os Elementos de Euclides e sua disseminação pela Europa medieval, sabemos que no início da Idade Média houve a circulação de traduções em latim (Boécio) de partes da obra destinada a estudantes, com algumas Definições, Postulados, Axiomas e Proposições, porém sem as provas matemáticas.

Somente no século XII todo o conteúdo de Os Elementos foi traduzido de versões árabes para o latim por Adelard de Bath, mas permaneceu também na esfera dos estudos formais.

As tradições do ofício ligam-se ao artífice da prática, àqueles que usam a Geometria no trabalho. O pedreiro trabalhando com argila ou pedra, produz linhas, superfícies, quadrados e círculos em corpos sólidos da melhor maneira para sua tarefa e com suas próprias ferramentas: espátula, martelo, cinzel, corda, fio de prumo, etc…

Os documentos medievais referentes à Geometria (Folhas dos cadernos de Villard de Honnecourt, por exemplo) informam-nos que os problemas de estereotomia eram resolvidos pelos pedreiros medievais por meio apenas das ferramentas e instrumentos por eles conhecidos: eram procedimentos aproximados, seguidos passo a passo, que não envolviam cálculos matemáticos e eram eminentemente práticos.

Este proceder é realçado no livreto do mestre alemão Matthias Roriczer, intitulado Geometria Deutsch, publicado em 1488 e provavelmente inspirado no tratado De Inquisicione Capacitatis Figurarum de meados do século XV. Trata especificamente da Geometria conhecida pelo mestre pedreiro.

São doze páginas que contém figuras com letras e explicações sobre como resolver nove problemas: construir um ângulo reto, um pentágono, um heptágono, um octógono, como encontrar o comprimento da circunferência do círculo, como encontrar o centro de uma circunferência com apenas uma parte conhecida, como construir um quadrado e um triângulo que tenham a mesma área, como modelar e arrematar um frontão e como levantar um frontão da planta.

É um registro claro da Geometria Prática – a Geometria Fabrorum – pois ressalta sua independência da Geometria Teórica, uma vez que em nenhum caso as construções mostram-se matematicamente corretas.

Este tratado intitulado De Mensura Circuli, foi traduzido da árabe para o latim no século XII por Gerard de Cremona. Como retificar a circunferência do círculo, segundo a versão de Roriczer para o teorema de Arquimedes:

“faça três círculos um perto do outro e divida o diâmetro do primeiro círculo em sete partes iguais, como mostram as letras h,a,b,c,d,e,f,g. Coloque antes de a uma parte, obtendo i : ik é o comprimento retificado da circunferência do círculo.”

Este traçado era um recurso construtivo importante, pois apenas munido de régua e compasso, o pedreiro poderia obter a circunferência do círculo (colunas, torres circulares, etc…) “construindo” a solução do problema sem conhecer o teorema de Arquimedes ou suas provas matemáticas. Geometria Deutsch revela que o pedreiro medieval enfrentava problemas geométricos que poderiam requerer algum cálculo matemático através de métodos passo a passo que utilizavam seus instrumentos de trabalho e evitavam qualquer espécie de cálculo.

Um exemplo comprobatório disso é a comparação entre a solução de Roriczer com a dada pelo De Inquisicione Capacitatis Figurarum para o mesmo problema do comprimento da circunferência do círculo:

“dado o diâmetro, encontrar a circunferência do círculo. Vamos supor que o círculo dado tem diâmetro ab e ab=14. O triplo do diâmetro é 42. Se adicionarmos ao produto 1/7 do diâmetro ab, isto significa 2. O número resultante é 44, que é o comprimento da circunferência do círculo.”

O autor do De Inquisicione desenvolve o teorema de Arquimedes em forma de cálculo matemático, enquanto Roriczer apresenta sua construção geométrica, perfeitamente acessível aos pedreiros.

A diferença fundamental entre Geometria Deutsch e o De Inquisicione é que Roriczer retirou do tratado apenas formas que poderiam ser expressas em termos geométricos, evitando todas as que pudessem requerer conhecimentos matemáticos.

Estas diferenças contrastam a geometria dos arquitetos mestres construtores e a geometria clássica desenvolvida por Arquimedes. Ambas pressupõem que toda construção geométrica seja possível de ser obtida com poucas ferramentas ou instrumentos.

Euclides aceitou esta pressuposição como uma restrição teórica no sentido de desenvolver seus argumentos enquanto que os pedreiros medievais a tomavam por uma prática absolutamente necessária em virtude de a eles faltar a habilidade do raciocínio matemático. A manipulação do mundo de Euclides torna-se possível através de suas ferramentas e instrumentos.

Para Euclides, a construção de uma figura geométrica com régua e compasso era uma parte, não absolutamente necessária do exercício matemático: Geometria – arte liberal – uso da mente. Sua preocupação era maior quanto à correção matemática da tarefa do que à sua construção.

Para Roriczer e os arquitetos mestres construtores, como a construção era geométrica, ou matematicamente falando, o final do exercício, a principal tarefa não era provar sua correção matemática, mas transformar a construção geométrica em forma arquitetônica em pedra: Geometria Prática – Arquitetura – Arte Mecânica – uso das mãos (Shelby,1972,p.416).

A mais famosa sequência de transformação de figuras geométricas em formas arquitetônicas é ilustrada por Roriczer no seu outro livreto sobre o projeto de pináculos: Booklet on the correct design of pinnacles.

Este livreto é dedicado ao bispo Wilheim von Reichenau com quem Roriczer trabalhou e que teria possibilitado seu acesso ao De Inquisicione. Além disso, o bispo era reconhecido como entusiasta e patrocinador da “arte livre da Geometria”. Este contato pode indicar e comprovar a absorção de conhecimento teórico pela aproximação com clérigos que tinham acesso a bibliotecas e textos mais antigos e da cultura clássica.

Esta interação, patrão eclesiástico e seu arquiteto mestre construtor, deve ter sido responsável por grande parte da cultura clerical nas tradições do ofício dos pedreiros na Baixa Idade Média.

O que Roriczer fez em seu livreto, foi descrever numa exposição detalhada, um problema de projeto e sua solução geométrica, afastando de vez a ideia de uma Idade Média que trabalhava sem plano ou projeto.

A forma do texto sugere o registro de um tipo de ensinamento oral que era tradicional no ofício, talvez a mesma explanação que o mestre fazia a seus aprendizes sobre os desenhos de Villard de Honnecourt.

Como não existia régua graduada com um padrão unitário universal e as unidades de mediadas eram regionais, havia duas possibilidades para transportar o desenho do projeto para a escala natural.

O arquiteto mestre construtor escolhia dimensões para os elementos arquitetônicos, que o pedreiro deveria executar sem uma régua graduada. Sem régua graduada e como a noção de escala embute conhecimentos matemáticos, este recurso estava fora do alcance do pedreiro.

Assim, métodos tinham de ser desenvolvidos para habilitar o pedreiro a transportar o desenho do arquiteto para o tamanho natural, num procedimento passo a passo.

No método de Roriczer, o pedreiro ao finalizar o pedestal do pináculo, poderia saber quanto o corpo principal estaria recuado em relação à face, diretamente na face superior deste pedestal. Ele não precisava estar preocupado com o tamanho especial do pináculo, porque a escala de todo o pináculo mudava proporcionalmente com a dimensão básica dada. Era o segredo dos pedreiros: como tirar a elevação da planta.

Ele não precisava de pergaminho ou prancha de madeira: usava a própria verdadeira grandeza do objeto em execução para obter as demais dimensões. O pedreiro tinha de conhecer a figura chave que o arquiteto havia escolhido e suas prescrições de uso. Às vezes, as razões de proporção eram incomensuráveis (irracionais) como era o caso da figura com quadrados de Roriczer.

Kossmann apontou uma segunda opção ao descobrir que entre os Cistercienses havia uma medida para planos de trabalho que era chamada de Grande Unidade (Grosse Einheit).

O tamanho variável desta unidade (de cinco a sete pés) era função do comprimento do pé utilizado na região em que o trabalho era executado.

O uso desta Grande Unidade presta-se também aos traçados reguladores, uma espécie de grade de eixos para posicionar paredes ou elementos de sustentação. A groma servia perfeitamente para este trabalho de lançamento do traçado regulador sobre o solo.

Esta hipótese difere do método das figuras chaves, pois aqui as proporções são entre números racionais. As unidades são materializadas através de ripas de madeira e marcadas tantas vezes quanto o esquema planejado determinar. (Frankl,op.cit.,1945,p.48).

A Geometria Fabrorum tinha assim as condições fundamentais para sua existência: trabalho com ferramentas e instrumentos e ausência de cálculos para estabelecer as proporções.

Continua…

Autor: Francisco Borges Filho

Tese apresentada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Doutor. Área de concentração: Estruturas Ambientais Urbanas.

Fonte: Digital Library USP – Theses and Dissertations

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O Desenho e o Canteiro no Renascimento Medieval (séculos XII e XIII): Indicativos da formação dos arquitetos mestres construtores – Capítulo III

The Portfolio of Villard de Honnecourt « Facsimile edition

3. Villard de Honnecourt : os Cadernos da Geometria Prática

Da Antiguidade, na bacia do Mediterrâneo e na Idade Média no Ocidente europeu, herdamos dois monumentais trabalhos de caráter enciclopédico onde se uniam os conhecimentos da construção de estruturas, de máquinas e da natureza: o tratado de Vitrúvio (escrito aproximadamente em 27 AC) e o manuscrito de Villard de Honnecourt da Picardia (região do nordeste da França) escrito 1250 anos mais tarde.

O paralelo entre as obras de Villard de Honnecourt e a do arquiteto romano autor do De Architectura serve para destacar o grau de importância que também é atribuída à primeira, pela possibilidade de permitir acesso ao volume, tipo e qualidade do conhecimento geométrico entre os arquitetos mestres construtores no século XIII.

Este acesso não é muito amigável, pois enquanto o conteúdo da obra de Vitrúvio é relativamente mais fácil de compreender, porque é explicitado no texto, o manuscrito de Villard é de muito mais difícil compreensão, pois consiste de desenhos que permanecem obscuros para os não iniciados na tradição oral do século XIII.

No estudo de seus desenhos, defrontamo-nos com a Geometria Prática – a Geometria Fabrorum – que tinha de resolver problemas diários nos canteiros de obra e que revela uma fonte já pressentida: excertos de Os Elementos de Euclides.

Entender os cadernos de viagem de Villard de Honnecourt é realmente uma tarefa árdua que requer conhecimentos transdisciplinares. Entre questões de linguagem (dialeto da Picardia no século XIII) e vocabulário técnico, a análise dos desenhos de Villard também requer conhecimentos avançados em mecânica civil e militar, em arquitetura (materiais e técnicas), em gromática, a disciplina de medição da terra com a groma, assim como a medição de sólidos e objetos à distância e em estereotomia, a ciência do cálculo, desenho e corte de sólidos complexos, de pedra ou madeira para construção, conhecida na França como a art du trait ou a arte do traçado. (ZENNER,op.cit,2002).

Na bibliografia existente sobre os cadernos (segundo Carl F. Barnes Jr. a primeira menção é de 1666), aparecem ocasionalmente questões práticas de geometria da construção e bem raramente outras sobre as bases matemáticas da geometria vista como ciência.

O texto do geômetra Pappus (c.290 – c.350), também de Alexandria citado por Zenner (op. cit.,2003) e transcrito adiante, há muito havia advertido que era impossível adquirir competências em ambos os domínios e que se alguém precisasse trabalhar com geometria, o melhor caminho era através da experiência do que da teoria.

Diz Pappus:

“A Escola Mecânica de Heron dizia que a mecânica podia ser dividida entre Teoria e Parte Manual; a parte Teórica composta pela geometria, aritmética, astronomia e física, a Manual, por trabalho em metais, arquitetura, carpintaria e alguma coisa envolvendo habilidades com as mãos. O homem que tenha sido treinado desde sua juventude nas ciências anteriormente citadas, bem como praticado nas mesmas artes também citadas e que tenha uma mente versátil, poderia ser melhor arquiteto e inventor de aparelhos mecânicos. Mas como é impossível para a mesma pessoa familiarizar-se com os estudos matemáticos e ao mesmo tempo aprender sobre as artes mencionadas, instrui-se a pessoa a empreender tarefas práticas mecânicas, para usar os recursos dados a si pela atual experiência de sua arte especial.”

Neste contexto, Villard de Honnecourt foi sem dúvidas, um trabalhador geômetra (de acordo com o termo francês opératif) mais do que teórico.

Nas traduções latinas, os Livros de 1 a 4 de Os Elementos de Euclides, sobreviveram intactos, aparecendo no século VI, principalmente nos trabalhos de Boécio e Cassiodoro. Ao final do século VIII, estes textos são combinados com trabalhos dos agrimensores romanos – os gromáticos. Este interesse renovado pela geometria parece ter sido teórico e prático e o centro desta produção geométrico-gromático, localizou-se na Abadia de Corbie (cerca de 15 km a leste de Amiens).

Como não há documentação gráfica das ideias em projeto e construção durante o período românico, os historiadores confiaram em comparações entre os dois únicos documentos remanescentes de projeto arquitetônico: o plano de Saint-Gall (c.817 – 819) e os cadernos de Villard de Honnecourt (c. 1220 – 1235).

Como Corbie, a Abadia de Saint-Gall dedicava um profundo respeito ao aprendizado e ao conhecimento antigo. Além disso, o plano de Saint-Gall é contemporâneo ao reaparecimento dos textos geométricos-gromáticos de Corbie. A área compreendendo o nordeste da França, noroeste da Suíça e partes da Bélgica e Alemanha é considerada a principal zona influenciada por estes estudos da Abadia de Corbie. É também a maior concentração econômica, financeira e intelectual do norte da Europa no século XIII.

Fernand Braudel (op.cit.,1986) colocou a seguinte questão: “a geografia inventou Villard?” De fato, sua cidade natal localizava-se num cruzamento de caminhos comerciais, de saber e conhecimento que acompanhava muito de perto as mudanças econômicas daquela região europeia.

Esta região contava com a maior concentração de centros monásticos tradicionais, literários, Escolas Episcopais Urbanas, Escolas Urbanas e a nascente universidade de Paris.

3.1 – A estrutura e o conteúdo dos Cadernos

Os cadernos de Villard de Honnecourt, um documento do século XIII, infelizmente incompleto, está atualmente depositado na Biblioteca Nacional de Paris, com o número de tombo Ms Fr 19093.

Seu pequeno formato (160 mm x 240 mm) denota que sua natureza é mais de um caderno de anotações do que de um “tratado”, onde a sequência de pergaminhos recolheu as observações de um artista itinerante e curioso.

Os cadernos contêm croquis rápidos e outros mais elaborados, ideias, invenções e receitas para uso do próprio autor, mas que também foram dedicados aos seus sucessores no metier, como nos demonstra o texto de abertura da obra:

“Villard de Honnecourt vos saúda e pede a todos os que usarem os esquemas encontrados neste livro rezem por sua alma e lembrem-se dele. Neste livro você encontrará conselhos sobre alvenaria e carpintaria. Você também encontrará importante ajuda para desenhar figuras de acordo com as lições ensinadas pela arte da geometria.” ( Folha F1 v).

Villard emprega em seu manuscrito, uma tendência que se afirmava rapidamente em sua época: o uso da língua nacional (vulgar) nos documentos públicos, na literatura e nos escritos científicos, abandonando assim o latim de norma culta, que era o usual para estes casos. Foi precisamente na Champagne e na Picardia que apareceram as primeiras manifestações deste novo proceder.

Seu trabalho demonstra ainda um conhecimento de documentos herdados da Antiguidade, cuja fonte deve ter sido a Abadia de Corbie, testemunhando erudição segura e uma inspiração em monumentos que lhe eram contemporâneos.

Os cadernos de Villard de Honnecourt contêm numa parte, numerosos desenhos de figuras, homens, animais, motivos decorativos imaginados ou reproduzidos e noutra, projetos e levantamentos de máquinas e engenhos de canteiro de obras ou guerra, automação primitiva e acessórios móveis, figuras de geometria elementar e por fim plantas, elevações, cortes de edifícios e esquemas de construção ou detalhes técnicos.

Certos desenhos e textos são contribuições tardias de outros autores, como o Mestre II (c. 1250 – 1260), assim como alguns comentários são devidos aos sucessores – a Folha F1 r indica a posse do manuscrito por um herdeiro (BOWIE,op.cit.,1959) – responsáveis também por transcrições equivocadas dos comentários originais.

Os desenhos técnicos dos cadernos de Villard estão em duas grandes categorias: uma refere-se a procedimentos práticos do canteiro, dos processos de traçado ou corte de pedras e que parecem ser da experiência própria do autor e a outra aos mecanismos, que são desenhados ao natural ou de memória.

Dentre todos os desenhos dos cadernos, encontram-se alguns que os especialistas denominam de recursos mneumônicos ou de visualização e recordação de propriedades geométricas conhecidas pelo Ofício a que pertence o trabalhador e que devem permanecer ocultas ou como segredo profissional por imposição da Corporação.

Sua mais notável contribuição é mostrar-nos o quanto da geometria Euclidiana era conhecida e dominada praticamente, posto que seu ensino teórico ocorria unicamente nas Escolas Episcopais e Universidades, através dos textos de Boécio (c. 480 – 525) para a pequena parcela letrada da população que estudava o Quadrivium.

O manuscrito apresenta-se atualmente na forma de cadernos recobertos por uma capa marrom em couro, contendo uma série de folhas de pergaminho, de espessuras variáveis, com desenhos nas duas faces e que apresentam interferências pela transparência do próprio suporte. Supõe-se que oito folhas foram perdidas, pois uma anotação do século XV feita em sua última folha indicava que o original tinha quarenta e uma folhas (frente e verso).

A obra foi encadernada e costurada, porque Villard queria que seus desenhos e notas constituíssem um volume de fácil manuseio, o que só enfatiza sua destinação prática.

As folhas que subsistiram foram numeradas de 1 a 33 e estão reunidas em “cadernos” costurados. A denominação dessas trinta e três folhas de pergaminho de pele do porco aparece com um numeral seguido das letras r ou v.

Segundo o Dicionário Websters New Universal – Unabridged Dictionary, a letra r indica o lado direito de um livro ou manuscrito aberto – é a página da direita (recto folio) e a letra v indica o lado esquerdo de um livro ou manuscrito aberto – é a página da esquerda (verso folio).

A ordem em que os originais se encontram atualmente pode não ser necessariamente a original, pois se sabe que algumas folhas desapareceram. Além disso, como o manuscrito pertenceu a vários proprietários, estes podem ter mudado sua primeira organização.

Continua…

Autor: Francisco Borges Filho

Tese apresentada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Doutor. Área de concentração: Estruturas Ambientais Urbanas.

Fonte: Digital Library USP – Theses and Dissertations

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O Desenho e o Canteiro no Renascimento Medieval (séculos XII e XIII): Indicativos da formação dos arquitetos mestres construtores – Capítulo II

Vitrúvio – Wikipédia, a enciclopédia livre

2 – Vitrúvio – De Architectura Libri Decem

A noção que nos foi legada acerca do grau de conhecimento da obra de Vitrúvio durante a Idade Média, provocou um equívoco, que a exemplo do epíteto Idade das Trevas perdurou até o período contemporâneo.

Nele, transparecia a ideia de que sua monumental obra sobre o saber arquitetônico acumulado desde a Antiguidade somente teria sido redescoberta pelos europeus através de um manuscrito do livro em 1416 (século XV). Esta façanha devia-se a um secretário apostólico que participava do Concílio de Constança no Mosteiro de Saint-Gall.

Hoje sabemos que isso é completamente falso. Procuraremos resgatar todo o percurso possível desde a gênese da obra até os séculos XII e XIII, com o intuito de demonstrar quais edições estavam (ao menos teoricamente) disponíveis neste período histórico, chamado de Renascimento Medieval e de onde vem o melhor registro gráfico do conhecimento geométrico medieval que era aplicado nas edificações, os Cadernos de Villard de Honnecourt.

Marcus Vitruvius Pollio foi um arquiteto que viveu no período republicano da Roma Antiga. As datas de seu nascimento e morte são controversas, mas localizam-se em torno de 90 AC e 20 AC. Era natural de Latium, de origem respeitável e que por isso recebeu boa educação.

Trabalhou em engenharia militar, tendo sido designado pelo Imperador como supervisor permanente das máquinas. Tinha pouca prática na profissão de arquiteto e aparentemente teve pouco sucesso.

Sua referência à Basílica de Fano como sendo de sua autoria, dá-nos a certeza de que era realmente um arquiteto e não um construtor de muralhas, portos, pontes ou aquedutos.

Na velhice, escreveu o De Architectura Libri Decem conhecido entre nós como Os Dez Livros da Arquitetura, um tratado arquitetônico que dedicou ao Imperador Otávio Augusto aproximadamente no ano 27 AC.

Ele não foi um homem de muita importância em seu tempo, mas seu trabalho escrito foi o único sobre a Arquitetura Antiga que sobreviveu, tornando-se de grande importância principalmente para os italianos no Renascimento e leitura essencial para os arquitetos. Sistematizou seu tratado, no qual discutiu com grande precisão e detalhe a teoria e a prática da arte arquitetônica.

Comenta vários escritores gregos e trata seu próprio trabalho como uma compilação de conhecimentos prévios. Por esta razão, o professor Júlio Roberto Katinsky ao prefaciar o livro Vitrúvio – Da Arquitetura na tradução de Lagonegro, 2002 comenta que Françoise Choay “remete o livro de Vitrúvio (talvez fazendo eco a Boullée) à categoria de livros de engenharia, nada tendo a ver com Arquitetura”.

Apesar da idade do texto (século I AC.) a primeira edição impressa e ilustrada foi feita em Roma apenas em 1511 (século XVI). A primeira edição impressa em latim – sem ilustrações – é de Veneza em 1486 (século XV).

Durante todo este tempo, cerca de 1500 anos, o texto não tinha o auxílio das ilustrações. Rafael supervisionou uma tradução italiana em 1520 e outra edição foi impressa em Como (1521) com comentários detalhados feitos por Cesare Cesariano e acompanhados de numerosas ilustrações.

O texto de Vitrúvio é obscuro e um pouco místico; seu latim muito difícil provocou o comentário de Alberti de que “os gregos pensavam que ele estivesse escrevendo em latim e os latinos, em grego”.

O trabalho de Vitrúvio é um dos muitos exemplos de textos latinos que devem sua sobrevivência ao escritório – scriptoria – do palácio de Carlos Magno, no início do século IX.

A procura e a cópia de manuscritos antigos ficou conhecida como Renascimento Carolíngio. Um dos mais antigos manuscritos do trabalho de Vitrúvio encontra-se na Biblioteca do Museu Britânico, conhecido como o Manuscrito Harley 2767.

Ainda que sua obra tenha sido conhecida na Idade Média, ela popularizou-se de fato no século XVI, provavelmente por efeito das ilustrações que se apresentam cada vez mais elaboradas. No corpo do trabalho são descritos muitos instrumentos utilizados pelos mestres pedreiros como por exemplo o chorobate, utilizado para nivelamentos e que aparece no Livro VIII, capítulo VI (RUA,op.cit,1998).

Na verdade, segundo o professor Júlio Roberto Katinsky, a revelação para o mundo do tratado de Vitrúvio ocorre em plena Renascença, passando assim a integrar-se após 1414 à nossa cultura ocidental e deixando de ser uma leitura de especialistas. Sua obra passa a ser mais citada e comentada então do que nos mil e quinhentos anos passados.

2.1 – De Architectura – referências do século I ao século XV

No longo caminho da história do conhecimento do texto de Vitrúvio, ele aparece sempre visto por duas ópticas: servindo como manual técnico para uns e obra erudita para outros.

Katinsky (op.cit.,1985,p.219-220) sustenta que a grande difusão do texto do engenheiro e arquiteto romano durante a Idade Média foi levada com certeza pelos frades e monges ligados à Igreja Romana, ilustrando a apreciação erudita. Face à disseminação de técnicas práticas, levanta ainda uma segunda hipótese (sugerida por William L. MacDonald), na qual a obra de Vitrúvio teria sido escrita para profissionais socialmente secundários, ficando este viés denotado pelos conselhos e observações morais frequentes nas introduções dos Livros e pela sua utilização como um manual de orientação técnica.

As referências à obra de Vitrúvio serão anotadas conforme sua aparição através dos séculos, no intuito de documentar períodos de maior ou menor contacto com seu texto.

Século I (1 – 100 da Era Cristã)

As primeiras referências a Vitrúvio aparecem cerca de 90 anos após sua morte, com Plínio, o Velho (23-79) em sua História Natural, a qual difere nas proporções estabelecidas por Vitrúvio para as ordens dórica e jônica e concorda com a toscana. Sextus Julius Frontinus (25-104) com sua obra De Aquis et Aqueductibus Urbis Romae, ao descrever o sistema de captação e condução de água que abastecia Roma, cita Vitrúvio como o possível introdutor na cidade do módulo quinaria, que tinha secção muito apropriada.

Século II (101 – 200)

Não se conhecem referências a Vitrúvio, mas supõe-se que seu texto fosse conhecido por eruditos como Tácio, Plínio, o Jovem e Suetônio. Embora os letrados não tenham deixado provas deste seu conhecimento, a atividade construtora foi intensa nos tempos de Trajano (98 – 117) e de seu sucessor Adriano (117 – 138): Fórum de Roma, as Termas e o Mercado.

Século III (201 – 300)

Aparece uma nova e atuante geração literária que se apaixona pelos escritores do passado. Ao lado de inúmeras obras, Cetius Faventinus e Gargilius Martialis retomam a obra de Vitrúvio.

Cetius Faventinus intitulou sua compilação como Artis Architectonicae Privatis Abreviatus Líber. Aqui, aparece pela primeira vez a palavra Polio junto ao nome de Vitrúvio. Isto fez surgir a hipótese de que eram várias as pessoas chamadas Vitrúvio. Choisy (1909,p.259) interpôs uma vírgula entre os nomes Vitrúvio e Polio, para justificar que era outro autor.

Isto nunca foi comprovado e assim o sobrenome Polio agregou-se naturalmente ao nome. No século IX, havia uma cópia desta obra na Biblioteca do Mosteiro de Saint-Gall.

Trata exclusivamente da arquitetura civil privada, não tendo seu texto o rigor científico de Vitrúvio, talvez por ser produto de um compilador e não de um arquiteto. Esta obra marca o início de um hábito muito importante, que é o de produzir manuais práticos, que seriam muito utilizados nos séculos seguintes.

Gargilius Martialis é posterior a Cetius Faventinus. Escreveu um compêndio prático, para o qual utilizou fontes como Vitrúvio e Cetius.

Sérvio (360 – 411), quatro séculos após a morte do arquiteto romano, em seu livro Commentarii sobre a Eneida de Virgílio, recorda que Vitrúvio escreveu sobre arquitetura. Embora seja uma breve citação, fica demonstrada que a memória de Vitrúvio não havia sido esquecida.

Século V (401 – 500)

Os últimos testemunhos da civilização antiga no Ocidente aparecem com grande importância na transmissão da cultura às épocas vindouras ao suceder antigos eruditos que se dedicaram principalmente à matemática, geografia e medicina.

Martianus Capella escreveu entre 410 e 439, As Bodas de Mercúrio, da Filologia e das Sete Artes Liberais, uma enciclopédia onde se sistematizava os estudos que perdurariam por toda a Idade Média: o Trivium (Gramática, Retórica e Dialética) e o Quadrivium (Aritmética, Geometria, Astronomia e Música) que juntos compõem as Sete Artes Liberais.

No seu Quadrivium desaparecem as matérias referentes a Arquitetura e Medicina que haviam sido aí anteriormente incluídas por Marcus Terencius Varron (116 – 27 AC). Apesar de Capella não tratar de arquitetura, refere-se ao gnomon descrito por Vitrúvio. Isto nos leva a crer que conhecia o De Architectura, fato comum entre os intelectuais da época.

Sidônio Apollinar (430 – 486) era de família nobre, tendo sido prefeito de Roma quando os bárbaros já invadiam as províncias romanas e o Império já dava mostras de seu colapso. Referiu-se a Vitrúvio em suas Cartas, comparando-o a Orfeu, Esculápio, Arquimedes e outros sábios da Antiguidade, entre estes Perdix, o mítico inventor do compasso.

Foi o último testemunho deixado pela Antiguidade sobre Vitrúvio nestes anos cruciais de encontro entre as civilizações romana e bárbara.

O agonizante Império Romano finalmente cai em 476, com a deposição do Imperador pelo godo Odoacro, inaugurando assim uma nova civilização no ocidente europeu que seria chamada de Idade Média.

Século VI (501 – 600)

Aparecem neste e no próximo século, os homens que pelo estudo e sabedoria serão denominados de Fundadores da Idade Média: Boécio, Cassiodoro, Isidoro de Sevilha e o Venerável Beda (do qual não se tem registro do conhecimento do texto vitruviano).

Mancio Severino Boécio (Roma 480 – Pávia 525) – de família romana nobre, tinha o cargo de mestre do palácio na corte do rei ostrogodo Teodorico. Boécio é chamado de o último romano, tendo escrito suas ideias baseado em Platão e Aristóteles.

Escreveu valiosos trabalhos sobre Geometria – tão importantes que ficaram por muito tempo conhecidos como a Geometria de Boécio – Aritmética, Astronomia e Música, não por acaso, disciplinas que integravam o Quadrivium.

Por força de seu cargo palaciano, conheceu as restaurações arquitetônicas empreendidas por Teodorico no Teatro de Pompeia, nas muralhas de Roma e nos Aquedutos de Ravena. Esta experiência faz supor que Boécio conheceu o texto de Vitrúvio, ainda mais que ideias e conceitos do arquiteto romano aparecem em seus escritos.

Admite também a missão que Vitrúvio atribuiu ao arquiteto, aumentando a diferença entre sensibilidade e razão: o operário trabalha empiricamente com a ferramenta e deve aceitar a direção do arquiteto e este, calcula com precisão por meio dos instrumentos (compasso). Aos sentidos correspondem aproximações, à razão, instrumentos de precisão.

Seus textos foram lidos e consultados por estudiosos durante toda a Idade Média.

Fávio Magno Aurélio Cassiodoro (Squillace 490 – 583) – ocupou o cargo de Mestre de Ofícios de Teodorico, no trabalho de salvar os monumentos antigos. No ano de 540 abandona a vida pública e funda em sua terra natal um monastério, denominado Vivarium, para onde se retirou com sua biblioteca.

Este monastério destaca-se pelas suas oficinas e pela contratação de artesãos não religiosos. O modelo de comunidade monástica apoiava-se na colaboração espiritual e manual. Seus monges copiam manuscritos clássicos e iniciou-se uma nova sistematização do Trivium e do Quadrivium.

Sua maior obra Institutiones Divinarum et Saecularium Litterarum é um ensaio sobre as artes e ciências. Cassiodoro busca sua estética nos números e nas proporções. Discute a dispositio, que é um termo derivado de Vitrúvio, provando com isso seu conhecimento do texto.

Recomenda ainda a seus monges, a leitura do obra de Gargilius Martialis, que provinha diretamente de Vitrúvio.

Século VII (601 – 700)

Isidoro de Sevilha (570 – 636) – foi nomeado arcebispo de Sevilha no ano 600, tornando-se chefe da Igreja cristã na Espanha. É o mais importante dos Fundadores da Idade Média.

Continuando com os critérios de Boécio e Cassiodoro, incorpora grande volume de conhecimentos ao compilar notas científicas, artísticas e todo tipo de trabalho de escritores e tratadistas da Antiguidade.

Valeu-se para tanto do primeiro Scriptorium da Espanha, onde reuniu vasta biblioteca. Nesta biblioteca encontravam-se duas obras de Vitrúvio: o De Architectura e o De Diversis Fabricis Architectonicis e os comentários de Sérvio sobre Virgílio, que fazem referências ao arquiteto romano.

Século VIII (701 – 800)

Das cópias conhecidas do De Architectura feitas até o final do século VIII figuram, a Harlleianus 2767 do Museu Britânico e a Regia Latina 1504 da Biblioteca do Vaticano, que provavelmente foi terminada no século IX.

Neste século, nasce Eginardo (770 – 840), artista e estudioso que terá papel destacado no Renascimento Carolíngio que se inicia com a coroação de Carlos Magno no ano 800.

Século IX (801 – 900)

Carlos Magno, o grande imperador do Ocidente, coroado no Natal do ano 800 pelo próprio Papa, tentou reviver o antigo Império do Ocidente, tendo como missão sustentar o cristianismo com a espada e com a cultura. Assim com a colaboração de guerreiros e sábios, tem início um renascimento cultural que ficou conhecido como o Renascimento Carolíngio e que se estendeu entre os séculos IX e X.

É neste meio que apareceu Eginardo, que conhecendo o tratado de Vitrúvio, interpreta-o para resolver problemas construtivos e criar soluções para as obras que perseguiam as ideias da arquitetura romana.

Eginardo compunha com os cânones do classicismo, aconselhando à compreensão e interpretação do De Architectura. Carlos Magno manifesta nos Libri Carolini seu orgulho em levantar igrejas magníficas segundo os modelos da Antiguidade indicados por Vitrúvio.

De acordo com o desejo do Imperador, Eginardo reviveu os fundamentos estéticos e técnicos da Antiguidade, procurando construir more romanorum, por efeito direto dos conceitos vitruvianos.

No ano 844, Rabano Mauro, arcebispo em Maguncia e autor do tratado De Universo Libri XXII,menciona no capítulo II do Livro XXI, as condições vitruvianas de dispositio, constructo e venustas.

As cópias conhecidas são: Bruxellensis 5253 da Biblioteca Real de Bruxelas (copiada entre 850 e 863) e a Gudianus 132 da Biblioteca Herzog-August de Wolfenbüttel, que contém um resumo de Cetius Faventinus.

Século X (901 – 1000) – Idade Média Central

No ano de 926, aparece a Constitutio de York que na verdade é um conjunto de regras de comportamento, convivência e obrigações dos Mestres Pedreiros, a qual em uma de suas prescrições aconselha o estudo dos tratados de Euclides e Vitrúvio.

As cópias conhecidas são: Pithoeanus Lat.10277 da Biblioteca Nacional de Paris; Scletstatensis,ms.17 da Biblioteca e Arquivos Municipais de Selestat; Cottonianus da Biblioteca Britânica; Franckeranus da Biblioteca Provincial de Leeuwarden (com texto integral); Leidensis Voss 88 da Universidade de Leiden e a Escorialensis 111,F.19 da Biblioteca do Monastério de San Lorenzo (com texto integral).

Século XI (1001 – 1100)

Durante este século, embora continuasse ainda a tradição carolíngia, aparece a Escolástica, com suas diversas escolas e começa a preparação para o maior momento criativo da Idade Média, que será chamado de renascimento do século XII, o Renascimento Medieval. É aqui que dar-se-á o nascimento efetivo da cristandade ocidental.

Embora floresça a arquitetura românica, encontramos alguns testemunhos de Vitrúvio através do uso de termos técnicos de seu vocabulário e da aplicação de sua teoria de proporções do corpo humano na igreja de São Fidelis em Como.

As cópias conhecidas são: Paris Lat. 7227 da Biblioteca Nacional de Paris (contém algumas ilustrações); Paris Lat. 1236 da Biblioteca Nacional de Paris; Harleianus 3859 da Biblioteca Britânica; Leidensis Voss 107 da Biblioteca de Leiden e Gudianus 69 da Biblioteca HerzogAugust de Wolfenbüttel.

Século XII (1101 – 1200)

O mundo medieval sente neste século melhorias nos aspectos materiais decorrentes de importantes progressos na agricultura, como a rotação dos campos para plantio, domínio da tração animal dos cavalos com o aprimoramento dos arreios e a liberação do uso da energia humana nos trabalhos.

Estas novas condições fortaleceram as cidades, com a produção de excedentes que para lá eram carreados. O crescimento demográfico logo se faz sentir e o consequente incremento comercial transforma a economia de tradição essencialmente agrícola em uma nova, de caráter monetário. O novo panorama transmite-se à arquitetura e às artes.

Este pré-Renascimento (do século XVI) , ficou conhecido como o Renascimento Medieval, surgindo então um grande interesse pela arqueologia e pela aquisição de antiguidades clássicas, especialmente elementos arquitetônicos utilizados pelos romanos.

John de Salisbury conheceu os tratados de Frontino e Capella, Adelard of Bath traduz do árabe Os Elementos de Euclides e na Espanha são traduzidos inúmeros manuscritos árabes dos clássicos gregos abrangendo uma infinidade de campos do conhecimento e da
filosofia. O Almagesto de Ptolomeu é uma destas obras traduzidas.

Da seleta classe dos literatos de então, os únicos que citam Vitrúvio são Thierry de Saint Trond em dois poemas onde celebra as máquinas maravilhosas (deve ter conhecido o De Architectura por ter residido na abadia de Eginardo) e Isaac Tzetzes em seus comentários ao Alexandra de Licofronte.

Não se conhecem citações pelos escritores escolásticos no século XII.

Petrus Diaconus continuou o Chronicon Monasterii Casinensis de Leo Ostiensis (1046 – 1115) onde descreve em detalhes a construção da abadia de Montecassino, que foi planejada de acordo com as ideias de Vitrúvio. As medidas e proporções do templo são relacionadas às do corpo humano.

Petrus escreveu também o Vitruvium De Architectura Abbreviavit, que é um resumo do tratado e que foi conservado na biblioteca da Abadia.

As cópias conhecidas são: Berlin 601 da Biblioteca Estatal de Berlim, contendo o texto quase completo e ainda o tratado De Arithmetica de Boécio; British Add. 38818 da Biblioteca Britânica com o texto completo; Roma Reg. Lat. 2079 e Roma Urb. Lat. 293, ambas da Biblioteca do Vaticano e com o texto completo.

Século XIII (1201 – 1300)

É o chamado Grande Século, pois abrigou um grande rei, São Luiz; um grande filósofo, São Tomás de Aquino; um grande pintor, Giotto e um grande literato, Dante Alighieri. É também o século das catedrais francesas – opus francigenum – e das universidades.

Restaura-se a filosofia grega com as traduções de textos árabes na importante Escola de Tradutores de Toledo na Espanha a aparecem as Summas de São Tomás de Aquino, Alberto Magno e Hugo de São Vitor.

A cristandade ocidental precisa então definir quais os aspectos da cultura pagã aristotélica poderia aceitar. As respostas serão tentadas pela Escolástica.

À estética do século XII que girava em torno de composição, beleza e proporções, junta-se um especial interesse a tudo que é claridade, luz e esplendor. É a resposta estética ao bem estar material que se instala e alarga os limites da vida terrena: se a luz é a fonte de
toda beleza, a luminosidade da arquitetura gótica se impõe.

A estética cisterciense de São Bernardo recusava tudo o que pudesse excitar a curiosidade ou o prazer nas abadias e com isso conduz a uma arquitetura despojada, simples e de proporções apenas necessárias. Os refinamentos levariam a arquitetura gótica, a partir da metade do século XIII, a iniciar sua decadência e a extrema habilidade dos Mestres Construtores, a executar variações formais de um problema já resolvido.

Neste ambiente de rigor cisterciense, mas de prosperidade econômica viveram três homens muito interessados no tratado de Vitrúvio: Vicente de Beauvais (1190 – 1264), São Alberto Magno (1206 – 1280) e São Tomás de Aquino (1225 – 1274).

Este interesse confirma a importância que os círculos cultos devotavam ao De Architectura, mesmo na época mais vigorosa da arte gótica.

Vicente de Beauvais cita textualmente a teoria vitruviana das proporções humanas em seu Speculum Naturale.

São Alberto Magno é o responsável por trazer a doutrina de Aristóteles para junto do cristianismo. Cita Vitrúvio em sua obra De Natura Locorum.

São Tomás de Aquino recebeu educação esmerada até a universidade e quando ingressou na ordem dos dominicanos, teve São Alberto Magno por professor. A ideia tomista de arte é aristotélica e encontra-se desenvolvida na Summa Teológica. Na arquitetura segue Vitrúvio, mas concede grande importância ao sentido da visão, pois na
ideia da apprehensio – conhecimento intuitivo – considera a contemplação visual o mesmo que o prazer estético, introduzindo com isso a perspectiva e a óptica.

As cópias conhecidas são: Harleianus 2760 da Biblioteca Britânica, com o texto completo; Roma Lat. 2230, Roma Lat. 6020, Roma Reg. Lat. 1328 todas da Biblioteca do Vaticano e com texto completo; Leidensis Voss. 93 da Biblioteca de Leiden que contem apenas extratos do texto; Escorialensis O .H.5 da Biblioteca do Monastério de San Lorenzo com o texto completo e Florentinus Plut.XXX,13 da Biblioteca Laurentiana de Florença também com o texto completo.

Século XIV (1301 – 1400) – o Trecento – Idade Média Tardia

Continua a concentração de riquezas e a elevação do nível material de vida, circunstância que possibilitará o aparecimento dos mecenatos que impulsionarão a produção e a divulgação da arte e da cultura.

Apesar de inúmeras calamidades como a Peste Negra que irrompeu em meados do século, o enriquecimento deu-se em proporção maior que no século anterior, onde determinados hábitos de vida estavam limitados às classes sociais superiores.

Os costumes ligados especialmente ao luxo difundiram-se para largos extratos da sociedade: prenunciava-se uma nova etapa da vida medieval.

Seria uma época tão diferente da medieval de até então, como esta fora da Antiguidade. Dante (1265 – 1321) escreve sua Divina Comédia em língua vulgar, destinada aos leitores leigos que tinham grandes dificuldades com o latim de norma culta, o padrão então vigente para as obras de literatura.

Esta nova postura frente à produção intelectual expandia a difusão da cultura erudita e escolástica às diferentes camadas da sociedade laica.

A concepção europeia de poder vai se tornando mais civil, derivada principalmente do estudo do Direito Romano. A nobreza e o clero ainda dominam a sociedade embora a crescente burguesia vá se infiltrando nos altos círculos do poder.

A individualidade humana começa a ser percebida através da busca do reconhecimento, colocando-se o artista não mais anonimamente a serviço da nobreza ou do clero, mas afirmando claramente seus dotes e talentos.

O trabalho dos artistas medievais dos séculos anteriores que quase sempre ficava anônimo é substituído pelo trabalho assinado do artista deste século. De fato, ainda permanecemos na Idade Média por convenção histórica, pois as transformações são muito relevantes.

Deste modo, a cristandade ocidental experimenta na literatura deste século, sob a influência dos Humanistas do Trecento, Dante (1265 – 1321), Petrarca (1304 – 1374) e Boccaccio (1313 – 1375) a nova tendência que a arte apresentará no próximo século: o culto apaixonado ao glorioso passado da Antiguidade.

Francesco Petrarca adquiriu entre 1351 – 1353 uma cópia do De Architectura, possivelmente de um exemplar francês, cujo texto corrigiu cuidadosamente. Seu propósito era a depuração da língua latina, a restauração do estudo do grego e o conhecimento pontual de textos da Antiguidade.

Giovanni Boccaccio era amigo e discípulo de Petrarca e contrariamente ao seu mestre, cujo tema básico era a volta aos clássicos, o seu era a volta à natureza. Copiou seu próprio exemplar do De Architectura do volume existente na Biblioteca da Abadia de Montecassino. Seu interesse pela obra foi provavelmente a curiosidade histórica e os aspectos filológicos.

As cópias conhecidas são: Paris Lat. 7228 da Biblioteca Nacional de Paris com texto completo; Eton B.I.4.10 da Biblioteca de Eton com texto completo; Etonensis Auctar F.5.7 da Biblioteca Blodeian de Oxford com texto completo; Medicensis Plut. XXX.10 da Biblioteca Laurentiana de Florença com texto completo; Estensis VI.B.10 da Biblioteca de Módena com o texto completo e o Da Aqueductibus de Frontino; Basilicus H.34 da Biblioteca da Basílica de São Pedro em Roma com texto completo; Cicognara 691 da Biblioteca do Vaticano com texto completo; Ottoboni 1522 da Biblioteca do Vaticano com texto completo; Roma Lat. 2229 da Biblioteca do Vaticano com texto completo; Wratislaviensis R.142 da Biblioteca Municipal de Wroclaw com texto completo e Oxford Laud 66B da Biblioteca do St. John’s College de Oxford com texto completo.

Século XV (1401 – 1500) – o Quattrocento

Em 1440 é fundada em Florença a Academia Platônica, com o propósito de abandonar a Escolástica e renovar a filosofia antiga. O espectro da necessidade de uma reforma religiosa começa a materializar-se.

Niccolo Cusano (1401 – 1464) tenta superar as contradições e colocar de acordo o mundo e Deus, acalmando as inquietudes espirituais que a força do pensamento racionalista suscita e que vai provocando uma deterioração nos conceitos da Igreja.

Os grandes nomes deste século: Filippo Brunelleschi (1377 – 1446), arquiteto, vencedor do concurso para a construção da cúpula da Igreja de Santa Maria das Flores em Florença; Fra Angélico (c.1400 – 1455) que pinta a primeira pespectiva; Paolo Ucello (1397 – 1475) com a complexa perspectiva do afresco da Natividade e com grande influência sobre Piero della Francesca e Leonardo da Vinci e Leon Batista Alberti (1404 – 1472) que escreve em língua vulgar seu tratado Da Pintura e o dedica a Brunelleschi.

As formas arquitetônicas criadas por Brunelleschi e baseadas na maneira romana, ressuscitaram o modo antigo de construir e seu trabalho de restaurador da arquitetura clássica iria condicionar os séculos seguintes.

Isto faz supor que Brunelleschi conheceu o tratado de Vitrúvio, embora não se tenha prova disso. Mas, se considerarmos o seu relacionamento social e cultural, num meio onde se encontravam artistas, eruditos, cientistas e construtores, é muito provável que algum deles conhecesse o De Architectura e comentasse o fato. Além disso, a descoberta em 1416 do texto de Vitrúvio no Mosteiro de Saint Gall foi um fato de grande repercussão para o circuito cultural.

Talvez o fato de Brunelleschi não dominar muito bem o latim, possa fortalecer a hipótese do conhecimento do texto através de outras pessoas e com isso desobrigá-lo de seguir estritamente seus preceitos, fato confirmado em sua interpretação pessoal de alguns daqueles cânones vitruvianos.

Lorenzo Ghiberti, que conhecia o tratado de Vitrúvio também foi escolhido no concurso para a construção da cúpula de Florença, tendo colaborado com Brunelleschi. Escreveu no fim da vida, os Commentarii, onde seu o programa para a educação do arquiteto é retirado de Vitrúvio, as proporções prescritas são criticadas em função do estabelecimento de suas próprias.

Muitos historiadores consideram que é no Quattrocento italiano que se reiniciou o culto a Vitrúvio, com a descoberta da cópia de seu tratado por Poggio Bracciolini no Monastério de Saint-Gall em 1416, quando estava a serviço da Chancelaria do Vaticano no Concílio na cidade de Constanza.

Na verdade, Petrarca e seus amigos já haviam iniciado esta difusão desde o século XIV.

Leon Batista Alberti, chamado de o último vitruviano medieval, desenvolve uma interpretação pessoal dos conceitos de Vitrúvio. O artista utilizando o critério medieval de repetidas medições nas ruínas romanas, procurava recuperar as proporções e estudá-las comparativamente com as normas vitruvianas.

Com estes critérios e seu espírito humanista, escreve o Descriptio Urbis Romae por volta de 1450, onde os edifícios são locados com a utilização de coordenadas polares.

Sua obra maior, porém é o tratado De Re Aedificatoria, que supera toda sua produção anterior.

O mesmo caminho de Vitrúvio que aprendeu analisando monumentos, textos e documentos gregos, Alberti trilhou ao modernizar para sua época as tradicionais ideias helenísticas. Catorze séculos depois, Alberti aprende com a análise das ruínas romanas para escrever sua obra.

Ambos se apoiavam em conceitos análogos, mas tinham objetivos diferentes: Vitrúvio escreveu primeiramente para arquitetos e depois para literatos; Alberti se dirige aos humanistas e secundariamente aos arquitetos, que poderiam eventualmente tirar daí alguma utilidade.

Esta postura deixa claro que o propósito desta produção cultural é dirigido às classes eruditas e não à categoria dos mestres construtores das Corporações de Ofícios. Aí, como veremos reinará a Geometria Fabrorum e a transmissão oral do conhecimento prático.

Vitrúvio, como arquiteto compôs o De Architectura para ensinar a prática da arquitetura e define para isso as regras de execução: firmitas, utilitas e venustas enquanto Alberti como humanista em sua De Re Aedificatoria valoriza a arquitetura como arte suprema, considerando que seus materiais, função e beleza têm como única  finalidade criar um edifício que valorize o entorno e a cidade (CERVERA VERA,1978).

Este século apresenta o maior número de cópias do tratado de Vitrúvio. As cópias conhecidas são: Wien Ms.54 com resumo do texto vitruviano; Wien Ms.310 com fragmentos do Livro III; Wien Ms.3113 com o texto completo, todos da Biblioteca Nacional de Viena; Paris Lat. 7382 com texto completo; Paris Nouv.Acq.Lat.1422 com texto completo, ambos da Biblioteca Nacional de Paris; Berlin Cód. Lat.Quart.735 com texto completo da Biblioteca de Berlim; British Arundel 122 com texto completo; British Harley 2508 com texto completo; British Harley 4870 com texto completo, todos da Biblioteca Britânica; Budapest Ms.32 com texto completo da Biblioteca Universitária de Budapeste; Bologna Ms. 1215 com texto completo da Biblioteca Universitária de Bologna; Cesena Plut. XX,Cód.111 com texto completo da Biblioteca Malatestiana de Cesena; Medicea-Laurenziana Acq.E Don.297 com texto completo; Medicea-Laurenziana Plut. XXX,11 com texto completo; MediceaLaurenziana Plut. XXX,12 com texto completo, todos da Biblioteca Laurentiana de Florença; Firenze Magl. XVII, Cód.5 com texto completo da Biblioteca Nacional de Florença; Ambrosiana A 90 Sup. com texto completo; Ambrosiana A 137 Sup. com texto completo, ambos da Biblioteca Ambrosiana de Milão; Corsini Ms. 784 com texto completo da Biblioteca Corsini de Roma; Vallicella Ms. D31 com texto completo e uma seleção de textos de Faventinus da Biblioteca Patrum Oratori de Roma; Barberini Lat. 90 com o texto completo; Chisianus H. IV. 113 com texto completo; Chisianus H. VI. 189 com texto completo; Cicognara 692 contendo apenas os três primeiros Livros; Ottoboni 1233 com texto completo; Ottoboni 1561 com texto completo; Ottoboni 1930 com texto completo; Palatinus Lat. 1562 com texto completo; Palatinus Lat. 1563 com texto completo e o tratado Stratagematicon de Frontino; Roma Reg. Lat. 1965 com texto completo; Roma Urb. Lat. 1360 com texto completo, todos da Biblioteca do Vaticano; Marciano Classis XVIII, Cód. 1 com texto completo; Marciano Classis XVIII, Cód. 2 com texto completo, ambos da Biblioteca Marciana de Veneza; Kurnik com texto completo da Biblioteca do Monastério Zamoyski em Kurnik na Polônia; Toledo Reg. CDXVI, 581 com texto completo da Biblioteca do Cabildo de Toledo; Valencia Ms. 2411 com texto completo da Biblioteca da Universidade de Valencia e Metropolitan Museum com texto completo do Departamento de Impressos do Museu Metropolitano de Artes de Nova York.

Em 1453, cai Constantinopla em poder dos turcos e junto com o Império Bizantino termina historicamente a Idade Média. Os diferentes aspectos culturais e condições materiais existentes no século XV serão impulsionados e claramente definidos no século XVI, com o Renascimento, na Idade Moderna.

2.2 – A organização da Obra

Marcus Vitruvius Pollio produziu o mais famoso e importante texto do mundo ocidental, versando sobre arquitetura paisagística, arquitetura, engenharia civil, engenharia mecânica e planejamento urbano.

A preocupação em varrer campos tão extensos e diferentes no entender atual justificava-se, pois nos tempos romanos, o arquiteto era o técnico principal, exatamente como ensinava a etimologia grega de origem desta palavra.

O conteúdo da obra revela mais aspectos de engenharia (construção de portos, planejamento urbano, aquedutos, bombas, relógios e máquinas de guerra), parecendo ser este o principal escopo do autor. Somente uma pequena porção de assuntos tem como foco principal a arquitetura.

Os assuntos principais e os capítulos de cada um dos Dez Livros de Vitrúvio, em terminologias atuais são relacionados a seguir.

  • Livro I – Arquitetura Paisagística
    Prefácio – Elogios e agradecimentos ao Imperador
    Capítulo I – A educação do arquiteto
    Capítulo II – Os principais fundamentos da Arquitetura
    Capítulo III – As divisões da Arquitetura
    Capítulo IV – O sítio da cidade
    Capítulo V – Os muros da cidade
    Capítulo VI – A direção das ruas e comentários sobre os ventos
    Capítulo VII – Os lugares para edifícios públicos
  • Livro II – Materiais de construção
    Introdução
    Capítulo I – As origens da habitação
    Capítulo II – A substancia primordial de acordo com os físicos
    Capítulo III – Tijolos
    Capítulo IV – Areia
    Capítulo V – Cal
    Capítulo VI – Cimento Pozolânico
    Capítulo VII – Pedras
    Capítulo VIII – Métodos para construir muros
    Capítulo IX – Madeiras
    Capítulo X – Abetos da região do mar Tirreno e do Adriático
  • Livro III – Templos (Parte I)
    Introdução
    Capítulo I – Simetria nos templos e no corpo humano
    Capítulo II – Classificação dos templos
    Capítulo III – As proporções de intercolúnios e colunas
    Capítulo IV – Fundações e infraestrutura dos templos
    Capítulo V – Proporções: base, capitel e entablamento da ordem Jônica
  • Livro IV – Templos (Parte II)
    Introdução
    Capítulo I – A origem das três ordens e as proporções do capitel coríntio
    Capítulo II – Os ornamentos das ordens
    Capítulo III – Proporções dos Templos Dóricos
    Capítulo IV – A Câmara Principal e o Vestíbulo
    Capítulo V – A aparência dos Templos
    Capítulo VI – A circulação nos Templos
    Capítulo VII – Templos Toscanos
    Capítulo VIII – Templos circulares e variantes
    Capítulo IX – Altares
  • Livro V Espaços Públicos
    Introdução
    Capítulo I – O Fórum e a Basílica
    Capítulo II – O Tesouro, a Prisão e o Senado
    Capítulo III – O Teatro: seu lugar, fundações e acústica
    Capítulo IV – Harmonia
    Capítulo V – Som no Teatro
    Capítulo VI – Planta do Teatro
    Capítulo VII – Teatro Grego
    Capítulo VIII – Acústica do lugar do Teatro
    Capítulo IX – Colunatas e passeios
    Capítulo X – Banhos
    Capítulo XI – O Ginásio
    Capítulo XII – Portos, quebra-mar e estaleiros
  • Livro VI – Habitação Privada
    Introdução
    Capítulo I – O clima como determinante no estilo da casa
    Capítulo II – Simetria e modificações para adaptação ao sítio
    Capítulo III – Proporções das principais salas
    Capítulo IV – Exposições apropriadas nos diferentes espaços
    Capítulo V – Adaptação de salas
    Capítulo VI – O proprietário
    Capítulo VII – A casa da fazenda
    Capítulo VIII – A casa grega
    Capítulo IX – Fundações e infraestrutura
  • Livro VII – Acabamentos e Cores
    Introdução
    Capítulo I – Pisos
    Capítulo II – Cal extinta para estuques
    Capítulo III – Abóbadas e trabalho em estuque
    Capítulo IV – O trabalho de estuque em lugares úmidos e a decoração
    da sala de jantar
    Capítulo V – A decadência do afresco
    Capítulo VI – Mármore para uso em estuque
    Capítulo VII – Cores naturais
    Capítulo VIII – Cinabre e mercúrio
    Capítulo IX – Cores artificiais: preto, azul e ocre queimado
    Capítulo X – Chumbo, pátina de cobre e resina amarela
    Capítulo XI – Roxo púrpura
    Capítulo XII – Substitutos para roxo púrpura, amarelo ocre, verde e anil
  • Livro VIII – Abastecimento de Água
    Introdução
    Capítulo I – Como encontrar água
    Capítulo II – Água de chuva
    Capítulo III – Propriedades de diferentes águas
    Capítulo IV – Testes para determinar boas águas
    Capítulo V – Nível e instrumentos de nivelamento
    Capítulo VI – Aquedutos, fontes e cisternas
  • Livro IX – Relógios de Sol e Relógios
    Introdução
    Capítulo I – O Zodíaco e os planetas
    Capítulo II – As fases da Lua
    Capítulo III – O curso do Sol através dos doze signos
    Capítulo IV – As constelações do Norte
    Capítulo V – As constelações do Sul
    Capítulo VI – Astrologia e previsão do tempo
    Capítulo VII – Escala gráfica da declinação do sol e aplicações
    Capítulo VIII – Relógio de Sol e Relógio de Água
  • Livro X – Engenharia Mecânica
    Introdução
    Capítulo I – Máquinas e Implementos
    Capítulo II – Máquinas de levantar pesos
    Capítulo III – Os elementos do movimento
    Capítulo IV – Máquinas para elevar água
    Capítulo V – Engrenagens e Moinhos d’água
    Capítulo VI – O parafuso de Arquimedes (rosca d’água)
    Capítulo VII – A bomba de Ctesibius
    Capítulo VIII – O órgão de água
    Capítulo IX – O Hodômetro
    Capítulo X – Catapultas e escorpiões
    Capítulo XI – Balística
    Capítulo XII – Cabos e ajustes da catapulta
    Capítulo XIII – Máquinas para sitiar cidades
    Capítulo XIV – A Tartaruga (plataforma de ataque)
    Capítulo XV – A Tartaruga de Hegétor de Bizâncio
    Capítulo XVI – Medidas de defesa

Continua…

Autor: Francisco Borges Filho

Tese apresentada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Doutor. Área de concentração: Estruturas Ambientais Urbanas.

Fonte: Digital Library USP – Theses and Dissertations

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Anais do Colégio Invisível – XIII – As Catedrais

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XIII

As Catedrais

No artigo “Teologia Negativa” mencionei alguns dos problemas causados ​​por pessoas que pensam que sabem alguma coisa sobre Deus: pessoas, não como Dionísio, o Areopagita, João Escoto Erígena, ou Meister Eckhart, que insistiam que Deus é indescritível, mas dos teólogos positivista “tão propensos a discutir uns com os outros”. Talvez o problema realmente venha do fato de usar palavras tão inadequados para essa finalidade porque refletem a construção gramatical e limitações da consciência racional no lado esquerdo do cérebro. Este ensaio olha na direção oposta, o único legado da Idade Média que quase todo mundo pode aplaudir: as catedrais góticas.

Se você já viajou para uma das cidades da Europa, com uma grande catedral, você teve a experiência de ter visto primeiro a catedral, de longe, antes da cidade aparecer. Ela supera qualquer outra contribuição humana para a paisagem, e o contraste foi ainda maior no momento em que foi construído. As torres e pináculos apontando para o céu como um símbolo da aspiração de Deus. Mas também poderia ser visto como pára-raios, atraindo influências celestes a partir do éter para a terra. De qualquer maneira, a Catedral, com o seu grande tamanho e altura sobrenatural, parece surgir em algum lugar entre o céu e a terra.

Em termos quantitativos, as catedrais góticas são tão incríveis como as Pirâmides. Na França, por noventa anos de 1180-1270, foram construídas 80 catedrais e quase 500 abadias. Toda a economia do país estava comprometida com essas obras. A única comparação com tal fato hoje seria com a corrida armamentista, pela qual os povos dos países do Terceiro Mundo sofreram tanto. Mas uma catedral também gerava dinheiro, atraindo comerciantes para as feiras nos feriados da Igreja, e as hordas de peregrinos atraídos pelas relíquias. Em vez de ser santuário silencioso ou a armadilha para turistas de hoje, o local estava cheio de vida real, servindo como bazar, escola, tribunal, intercâmbio de experiências, e até mesmo dormitório.

Mas aqui estamos interessados ​​no aspecto qualitativo, e nas catedrais góticas como prova de sabedoria oculta que tem sido transmitida ao longo dos séculos. Tal projeto requer o esforço de toda a comunidade, mas o conceito original não é criado através de um debate democrático, nem o seu design. Eles exigem o conhecimento e o poder da imaginação criativa especializada por vezes chamamos de “gênio”.

Qual era a finalidade de uma catedral gótica? Era um veículo especialmente preparado para conduzir as almas para o céu. Aqueles que a conceberam e aqueles que a utilizaram, consideravam muito mais importante o mundo invisível que o mundo dos sentidos. Sem esse conjunto de prioridades, nunca teriam investido tanta energia na adoração de relíquias, no costume de peregrinação, e as generosas doações para a causa santa. A catedral foi para eles uma recompensa temporária a sua devoção. Dominar o mundo material, físico e econômico, como os  arranha-céus de Wall Street, também oferecia (ao contrário destes) um prazer antecipado das alegrias do céu.

Dionísio, o Areopagita, o cristão platônico que fundou a escola de “teologia negativa”, também foi uma luz metafísica. Apesar de o próprio Deus ser uma obscuridade três vezes desconhecido, quando da criação do universo a primeira aparição é a luz divina. Os primeiros capítulos do Gênesis e do Evangelho de João são claros sobre isso. Para Dionísio, a luz que conhecemos na Terra é eco sensível mais claro dessa primeira criação. A luz divina brilha do Pai e flui para nós, enchendo-nos com a memória das coisas que estão acima e guiando-nos de volta para a unidade com Deus.

Hoje, as catedrais góticas podem parecer escuras, iluminadas apenas pelas suas janelas. Mas em comparação com o estilo românico anterior, elas foram inundadas de luz. Isso podemos agradecer a Suger, abade de Saint-Denis, que reconstruiu sua própria abadia em meados do século XII, quando foi arrebatado pela luz mística de Dionísio, dando início ao estilo gótico. Suger tinha a intenção de encher o edifício com a substância mais divina que existe. Ele escreveu: “brilhantemente brilha o que multiplica o brilhante esplendor é o nobre trabalho através do qual brilha uma nova luz” – este último também referindo-se a Cristo, a Luz do Mundo.

A iluminação gótica não foi a pureza branca preferimos hoje, mas as cores do arco-íris que os avanços na fabricação de vidro haviam tornado possível. Pela primeira vez na história, as pessoas foram capazes de experimentar efeitos em grande escala de luz direta na cor, ao contrário da luz refletida a partir do pinturas, flores, etc. Experimentos de terapia de luz modernos mostram que esta exposição tem um efeito físico e psicológico definitivo. Hoje, alguém mais sensível que visite as catedrais percebe tal fato com facilidade. Como eles poderiam parar de pensar sobre a Nova Jerusalém, com suas paredes feitas de doze diferentes pedras preciosas, iluminado pela luz do Cordeiro?

Antes que as paredes das catedrais góticas começassem a subir, norte da França já abrigava uma escola de filosofia espiritual única no seu gênero, a Escola da Catedral de Chartres. Eram leitores de Dionísio e Erígena, e também de Platão e dos neoplatônicos, isso antes do afluxo de manuscritos gregos que somente ocorreria  na Renascimento. No Timeu de Platão leram sobre como o cosmos foi criado, não pela luz, mas pelo poder do número e da geometria. Timeu, falando na maior parte do diálogo foi um pitagórico, e expõe a perspectiva de sua escola: os meios da criação são os números matemáticos e formas geométricas. Os elementos e tudo derivado deles torna-se possível através de sua combinação. Os filósofos de Chartres tinham quase tanto respeito pelo mito da criação de Platão como pelo do Gênesis. A ideias de Platão tinha a vantagem de ser um sistema racional, que o homem poderia compreender; isso fazia de Deus um ser racional. Além disso, o Livro da Sabedoria tinha dito: “Você criou todas as coisas em número, peso e medida.” Então, Deus, o Pai era às vezes representado nos manuscritos como o Geômetra, traçando o cosmos com uma compasso. O Mistério da Trindade, disse um mestre de Chartres, é como um triângulo equilátero, outra imagem comum em manuscritos e pinturas. Engenhosamente acrescenta que a relação de Jesus com o Pai é como o primeiro número quadrado, 1 x 1 = 1: permanecendo na unidade.

A geometria e o número são os primeiros princípios de qualquer construção, até mesmo uma simples cobertura do jardim. Para ser construída deve ter uma forma e ter suas medidas planejada. As catedrais – e isso inclui as romanas e bizantinas, não apenas as góticas –  são o supremo esforço humano para imitar Deus através da imposição de geometria e número na matéria. Elas são princípios matemáticos tornados visíveis, tangíveis e habitáveis. Se pode dizer o mesmo dos templos egípcios, gregos e romanos, e de todas as estruturas sagradas em todo o mundo.

Há dois aspectos fundamentais na matemática dos edifícios sagrados. O primeiro é o aritmético, que consiste em escolher um módulo (p. Ex. Do pé) e seus múltiplos (p. Ex. Os quadrados que formam o plano horizontal). Os construtores de catedrais às vezes escolhiam os números para o seu valor simbólico. Na catedral de Chartres, por exemplo, as dimensões principais, expressas pelas unidades da época, correspondentes à gematria de palavras como “Beata Virgem Maria Mater Dei” (Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus). Ninguém sabia disso desde que foi feito pelo arquiteto até sua redescoberta por John James em 1970. Mas isso não tem importância para o pensamento platônico, assim não importa para mim conhecer todos os ajustes que fazem trabalhar o meu carro ou o meu computador. A catedral “funciona” precisamente porque é bem feita.

O segundo aspecto da matemática é a geometria sagrada, que usa as ferramentas do compasso e esquadro, enquanto a aritmética usa o ábaco. A aritmética dita as dimensões, a forma geométrica; portanto, é responsável pela engenharia da construção. Se sustentará? Esta foi a principal preocupação dos arquitetos góticos, que, obedientes à metafísica da luz, sempre abriram suas paredes para cobrir áreas mais amplas com vidros coloridos. O arco com dois centros ou arco apontado foi o seu mais notável de recurso para reforçar a sua segurança. O traçado da roseta era seu júbilo, que exibiu seu virtuosismo nas divisões simbólicas do círculo.

A geometria pode ser transposta, em certa medida com a aritmética, isto é, de uma certa maneira pode ser atribuído dimensões definidas. Mas, em parte, para além do número mensurável. Um dos problemas mais fascinantes da matemática da antiguidade foi a incapacidade de chegar a uma expressão aritmética para as coisas mais fáceis de desenhar, como o círculo ou a diagonal de um quadrado, ou a expansão infinita da Seção de Ouro. Essas proporções irracionais também têm o seu lugar na concepção das catedrais, e ainda mais por ser tão evidente na concepção do cosmos.

Até agora, a catedral foi calculada para ser um reflexo de inteligência matemática de Deus, e um receptáculo para a sua primeira criação da luz. Era necessário algo mais para completar o efeito: a catedral deve ser feita também para produzir o som. Assim, as três faculdades principais da mente, o olho e o ouvido poderiam estar presentes.

Eu não pretendo sugerir que um pequeno grupo de músicos sentou-se para determinar que tipo de música seria adequado para o novo estilo arquitetônico, em analogia com o Mestre maçons e cristãos platônico sem dúvida inventou a estrutura do edifício. Mas há uma sincronicidade agradável no fato de que eles estavam lançando as bases para todas as futuras músicas europeias durante este período, quando o estilo Gótico estava desenvolvendo. O que distingue a arte musical europeia do resto da música do mundo é o grau em que temos explorado a harmonia: o soar simultâneo de um ou mais tons. A primeira tentativa, totalmente bem sucedida, reunindo duas melodias simultâneas estava em Notre-Dame de Paris por volta de 1160. Por “bem sucedida” significa que os compositores de Notre Dame criaram um repertório de música harmônica que se tornou popular. Ela se espalhou por toda a Europa e serviu de base e inspiração para o desenvolvimento do novo século. Uma linha clara pode ser traçada de lá para a música clássica que todos nós conhecemos.

Por que é importante a harmonia? A músico Pitágoras dirá que é porque através dela que podemos perceber as proporções com que o cosmos é criado. Você pode escrever os cinco primeiros números, 1 2 3 4 5: isso é aritmética. Você pode construir estruturas baseadas nessas dimensões: isso é geometria. Mas se você toca cinco cordas, cujos comprimentos são em relação 1 2 3 4 5 e ouvir um acorde! A harmonia é o número tornado audível. Algumas combinações numéricas produzem melodias; outras dissonâncias. E da tensão entre os dois surge toda a nossa música.

Algumas pessoas sustentam que os edifícios com proporções harmoniosas são acusticamente melhores do que aqueles que não são bem desenhados. A acústica das catedrais góticas, e também das inúmeras igrejas menores construídas de acordo com os mesmos princípios, é mais apropriada para a música dos tempos antigos, era harmonicamente simples e destinada para vozes sem acompanhamento instrumental. A música romântica instrumental (com todo o respeito à escola do órgão francês) soa caótica nessas catedrais. A razão para o sucesso da música antiga parece ser porque estes edifícios intensificam as harmonias naturais que estão presentes em cada tom. Um simples par de vozes cantando sozinho uma das representações da missa de Leonin, o primeiro compositor de Notre-Dame, são cobertos com um rico buquê de harmonias que enchem todo o edifício. Nada mais era necessário para completar a atmosfera intencionalmente espiritual.

A catedral gótica era um deleite para os sentidos. Eu disse pouco sobre como era também foi um prazer para a mente, enquanto os vitrais retratam milhares de figuras bíblicas, cada um com sua própria história. Tampouco mencionei as esculturas que repetiam no exterior do edifício os temas que os vitrais mostravam no interior. Eu não disse nada da missa, o mistério central da liturgia cristã, com sua mágica transubstanciação do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo. Para um crente, o milagre da catedral em toda a sua vastidão e beleza, não era nada em comparação com o milagre diário que acontecia em seus altares. Há também o tema tão amado pelos modernos redescobridores do gótico : o rosto feminino da divindade representada pela Virgem Maria, cujo culto em um santuário como Chartres é como um renascimento dos cultos à deusa do mundo antigo. Com tudo isso junto, podemos ver como as sementes lançadas por poucos cristãos platônicos, auxiliados por alguns especialistas em arquitetura e harmonia, cresceram para se tornarem um dos maiores ornamentos da civilização que o mundo já conheceu.

Se houver um Colégio Invisível trabalhando para iluminar o mundo, esta pode ter sido sua maior conquista. Não só serviu a elite e aos iniciados, mas a qualquer indivíduo, tocando cada um no nível apropriado, desde uma certa superstição em que não podemos acreditar hoje, passando por todos os graus de harmonização religiosa, até as alturas misticismo devocional. Anteriormente foram chamadas de veículo preparado para conduzir as almas para o céu. Tudo isso vale mesmo se houver apenas o céu que nós fazemos na Terra.

Autor: Joscelyn Godwin
Tradução: Luiz Marcelo Viegas

Fim da série Anais do Colégio Invisível

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Secular e cosmopolita é a nossa Ordem, perdendo-se nos anais dos tempos sua origem. E, como as demais Escolas de Iniciação, tem suas peculiaridades, que devem ser observadas e refletidas durante nossa ousada e solitária vereda nos caminhos da iniciação maçônica. Antes de abordá-las, em detalhes, permitam-me uma breve definição: a palavra “iniciação” se define como o ato ou a ação de iniciar; de iniciar uma ação; de sair do estado de inércia; de iniciar-se nos Mistérios de uma determinada doutrina.

Não é por casualidade que é chegado o momento em nossas vidas, que deparamos com perguntas sobre a origem do homem, seu destino e quais os objetivos a serem alcançados neste plano físico. Quando despertamos a atenção para estes questionamentos, quando não mais encontramos contentamento na “fé cega”, naquilo que tentam nos fazer acreditar como verdade, é neste incômodo momento de busca dessas respostas que, por causalidade, somos levados aos Portais de uma Escola de Iniciação.

Ao longo da história da humanidade, um sem número de Ordens de Mistérios surgiu na face da Terra, sempre com o objetivo de acolher e preparar, aqueles que, por mérito cármico, alcançaram em sua trajetória evolucional, grau de consciência para sorver os seus excelsos ensinamentos. Essas Ordens, e aqui falo das verdadeiras Ordens de Iniciação, estão ligadas à Grande Fraternidade Branca, ao Governo Espiritual do Mundo. Cada uma tem, em sua época, seu campo de atuação, seus objetivos, conforme os desígnios do GADU.

O postulante à iniciação “baterá as portas”, intuitivamente, da Escola relativa ao seu grau de consciência, pois tudo está medido, contado e pesado nos planos da Divindade.

Nossa Ordem, no aspecto exotérico, tem sua atuação no campo sócio-político. As campanhas filantrópicas, ações emergenciais de ajuda aos flagelados, etc. As Ações Sociais e de Filantropia das Potências/Obediências Maçônicas são o mais fiel retrato disso, preocupadas com as áreas da política, dos direitos humanos e do meio ambiente, e em dar apoio participativo aos bons projetos e, principalmente, em fiscalizar a atuação dos nossos políticos.

O trabalho filantrópico é fantástico e muito necessário, alivia a dor, a fome e a sede daqueles nossos irmãozinhos desafortunados. Isso, não deixa de ser um resgate cármico do passado. A fiscalização dos nossos políticos é o nosso papel de cidadão e a Democracia Participativa, nos organizará para a excelência do exercício da cidadania.

No aspecto esotérico, também, temos como objetivo a transformação do mundo, mas, agora, não mais atuando de fora para dentro, e, sim, de dentro para fora, pois para transformar o mundo, mister se faz nos transformarmos. E, é justamente dentro deste aspecto, o esotérico, que eu gostaria de, apenas, lembrar, já que não é novidade, o papel importante que o iniciado tem dentro da doutrina que ousa seguir.

Palavras de um Mestre a um postulante à iniciação: “Se souberes das responsabilidades do caminho, talvez, jamais ousarias segui-lo.”

A milenar egrégora maçônica, alimentada e manutenida por nossas vibrações mentais, é um poderosíssimo vórtice energético, quando evocada conscientemente em nossas reuniões, atuando através dos nossos centros de força – os chacras, despertando valores atentes e nos condicionando à percepção, cada vez maior, dos seus Arcanos. Se apenas este singelo parágrafo for entendido, hermeneuticamente, nem se faz necessário a leitura e a compreensão do restante deste texto.

Como dissemos anteriormente, tudo está medido, contado e pesado. Em nossos rituais, mais do que instruções relativas ao grau, ocultam-se verdadeiras “chaves do conhecimento iniciático”, que se forem bem utilizadas, permitir-nos-ão abrir os nossos “portais internos”. Os ensinamentos ali contidos, oriundos de grandes Escolas da Antiguidade, têm o nome de “Ciência Iniciática das Idades”, que, através dos tempos, chegam-nos trazidos pelos Avataras cíclicos, portadores dos conhecimentos futuros, em prol da evolução da espécie humana, adotando, em cada época, um rótulo, como Gnose; Gupta-Vidya; Teosofia; Eubiose; Brahma-Vidya; Caibalion e tantos outros.

Além de nossos rituais, também, encontramos essas “chaves”, arquetipicamente, na ornamentação do nosso Templo, esperando-nos para decifrá-las e empregá-las, assim como se apresenta a Édipo, a Esfinge de Tebas: “Decifra-me ou te devoro”. Tal Esfinge somos nós próprios e a frase de Sócrates poderá melhor nos fazer entender: “Homem, conheça-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses”.

A guisa de as Catedrais da Idade Média, que são consideradas, verdadeiros “Livros de Pedra”, nosso Templo, também, é um grande livro aberto à nossa percepção, desde que saibamos nos enveredar nas entrelinhas dos excelsos ensinamentos da doutrina de nossa Ordem.

Ao iniciado cabe seguir, sempre, em frente. E, assim, a cada passo galgado, abrir-se-á, em sua retaguarda, um abismo, certificando-o de que retornar representará uma queda evolucional.

Palavras do Mestre JHS: “O Mestre aponta o caminho, o discípulo segue sozinho, até encontrar novamente o Mestre, mas agora, dentro de si mesmo.” Cabe, também, ter consciência de si mesmo, estudar, colocar esses ensinamentos em prática, no teatro da vida, e repassá-los quando a oportunidade lhe aparecer, buscando, sempre, atingir à compreensão daquele que, sedento de Luz, lhe pedir auxílio.

Por uma questão de equilíbrio e polaridade, nossa caminhada deve ser exotérica e esotérica, aliviando o carma do passado e adquirindo consciência para o futuro. Uma atuação exotérica, horizontal, no plano material e outra esotérica, vertical, no plano espiritual. Formando a Cruz, o iniciado se posiciona em seu eixo, como a Rosa na Cruz, o Cristo na Cruz. E, então, por analogia, poderíamos citar as palavras do Mestre Joshua Ben Pandira, o Jesus bíblico: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, ninguém vai ao Pai se não por Mim.

Seria este Caminho, e não outro o da iniciação? A Verdade é a qualidade “Ver”, a capacidade de contemplar e decifrar os Mistérios através dos arquétipos.

O iniciado se transforma por esforços próprios. A centelha Divina, que habita em nós e, também, em todas as criaturas, tem que se transformar em Luz. O despertar do fogo serpentino de Kundaliniirá, gradual e ascendentemente, perpassando nossos canais etéreos ao longo da nossa coluna vertebral, (com suas 33 vértebras, os mesmos 33 Graus do REAA, como, também, a idade do Cristo), acendendo os 7 candelabros místicos, mayavicamente, citados no livro Apocalipse, que nada mais são do que os nossos centros de força, ou chacras para os orientais, até chegar ao topo da cabeça (coronal), mostrando-se, ao olhar clarividente, uma auréola de Luz dourada, a própria Iluminação.

Nós Iniciados Maçons, fomos, intuitivamente, escolhidos por nossos padrinhos para participarmos da Grande Obra do Eterno na face da Terra. Pautando nossas ações nos ensinamentos da doutrina maçônica, fomos transformados em verdadeiras ferramentas, as quais o Grande Construtor se utilizará em sua construção, e para tanto, precisamos estar aferidos, afiados, ajustados e calibrados, conforme os ditames do Grande Mestre, O Senhor dos Mundos, para que “exo e esotericamente” possamos executar a parte que nos cabe dentro do plano traçado em sua Sacrossanta Prancheta.

Fiquemos por aqui!

Autor: Francisco Feitosa

Os Maçons Operativos

Maçonaria Operativa no Século 21 – Bibliot3ca FERNANDO PESSOA

Hoje é geralmente aceito pelas autoridades maçônicas que a moderna fraternidade dos maçons teve sua origem entre as corporações de construtores da Inglaterra na Idade Média. Uma pesquisa rápida do sistema de corporações em geral, já foi publicada no blog; agora é o momento de se examinar com mais cuidado as próprias corporações maçônicas, com vistas à obtenção de um retrato (necessariamente um pouco bruto, e em linhas gerais) dos usos e costumes de nossos antepassados Maçônicos, um assunto que escapa de ser acadêmico e seco pelo fato de que a maioria das regras, regulamentos e costumes em funcionamento entre nós hoje são traçados até os antigos Maçons Operativos (como é hábito descrevê-los), de modo que é impossível para nós compreender a Maçonaria de hoje separada da Maçonaria de muitos séculos atrás.

O assunto é reconhecidamente difícil.

Não temos uma série de documentos, nem mesmo uma abordagem a uma série, suficientemente extensa para nos permitir criar qualquer história da conexão entre as instituições centenárias de Pedreiros e Maçons. Não temos, de fato, qualquer material através do qual possamos formar alguma ideia definida da natureza exata daquelas primeiras sociedades.

Estas palavras de Halliwell-Phillips, descobridor do Poema Regius, o mais antigo e mais precioso de todos os manuscritos maçônicos, foram proferidas em 1839; muito foi adicionado ao nosso conhecimento da história maçônica desde então; na verdade, a história maçônica estritamente assim chamada só viria a surgir quase meio século mais tarde, mas mesmo assim a declaração permanece substancialmente correta. Nossas fontes são dispersas, bem como escassas e muitas vezes exigem grande habilidade para encontrar absolutamente qualquer fonte. Além disso, deve-se ter em mente que a Maçonaria da Inglaterra antes de 1717 era uma instituição em desenvolvimento e mudança, de modo que variava muito de um lugar para outro e de tempos em tempos; é um erro generalizar muito amplamente, com base em algum fato isolado.

Também é necessário que desafiemos cada escritor sobre o assunto a nos fornecer suas autoridades e fontes, e que ele prove ser ele próprio livre de partidarismo; um vasto negócio da chamada “literatura maçônica”, que flutua sobre o mundo é derivado de segunda ou terceira mão de autores acríticos que tomam suas próprias teorias a partir de boatos, ou de má interpretação ignorante de fatos conhecidos. A existência de uma declaração em algum livro antigo, mesmo que seja um volume das “Constituições” mais ou menos oficialmente sancionado pela Grande Loja não é de forma alguma uma prova de sua autenticidade. As teorias dos escritores mais velhos – conhecidos há tanto tempo e tão frequentemente amados entre nós – a de Anderson, de Preston, de Oliver, de Hutchinson, e o resto, são, afinal, apenas teorias, e não mais a serem protegidas do escrutínio da crítica histórica que as teorias lançadas em nossos dias.

As fontes em geral a partir das quais os historiadores autênticos reúnem informações relativas à Maçonaria operativa podem ser divididas em sete ou oito grupos, tabulados por conveniência da seguinte forma:

  • A história geral da arquitetura medieval. Um estudo da arte da construção em toda a Idade Média, tal como se desenvolveu na Itália, Alemanha, Holanda, França e Inglaterra revela muito sobre os construtores, de modo que se pode muitas vezes, aprender mais sobre Maçonaria de um historiador não maçom que em outros lugares. A História Medieval de Porter em dois volumes é um desses casos.
  • A história geral do povo da Inglaterra. A vida corporativa da Idade Média desempenhou um papel tão visível na vida das pessoas quanto às igrejas e escolas o fazem na história dos povos e nos ajuda a compreender melhor as instituições em seu meio.
  • Os estatutos passados por diferentes reis e parlamentos para governar os trabalhadores. A Portaria dos Operários de 1349 e o Estatuto dos Operários de 1350 são casos típicos. Sob o mesmo cabeçalho geral podem ser incluídos os relatórios da corporação, que eram relatórios feitos pelas corporações ao governo mediante demanda oficial. Alguns escritores acreditam que o Manuscrito ou Poema Regius foi escrito em resposta a algum desses pedidos, a fim de fornecer informações oficiais sobre a história e a prática dos Maçons no final do século XIV.
  • Os Antigos Manuscritos do Ofício, o primeiro dos quais foi o “Poema” que acabamos de mencionar, geralmente datado de 1390. Estes documentos foram escritos por homens crédulos e amantes de milagres em uma época em que era mais fácil acreditar em maravilhas que não fazê-lo, de modo que como fontes da história eles devem ser lidos com muita atenção; mas a aplicação aos mesmos do método histórico conhecido popularmente como críptico “mais alto” e “mais baixo” gera resultados e raro valor.
  • Diários, cartas, atas de loja, rolos de tecido, etc. Os registros da Companhia da cidade de Londres, apresentado à Ordem por Edward Conder, e as antigas atas de lojas da Escócia são os casos em questão.
  • A literatura geral do século XVII e início do XVIII. Sir Richard Steele menciona a Maçonaria, assim como Plot, Dugdale, etc.
  • As relíquias do passado incorporadas à instituição atual, como restos fossilizados de uma camada de rocha, lembrando uma das linhas familiares do irmão Rudyard Kipling, que, ao escrevê-los, pode muito bem ter tido isso em mente:

“Eu limpei o terreno para um Palácio como um Rei deve construir. Eu decretei e corte até meus níveis, atualmente, sob o lodo, cheguei às ruínas de um Palácio como um Rei tinha construído.”

  • Uma análise cuidadosa do ritual, por exemplo, no contexto da história geral da Maçônica produz, nas mãos certas, achados seguros e valiosos.

I. Muitos problemas permanecem obscuros

Foi uma tarefa enorme desenvolver estas fontes de possíveis informações a respeito de nossa história antiga; o fim está longe ainda, de modo que um aluno sábio, como o caro Horace Bushnell costumava dizer, “pendura muitos assuntos em ganchos, como ainda não resolvidos”. Muitos dos mais importantes de nossos problemas históricos, como, por exemplo, a questão de saber o número de graus antes de 1717, ainda estão dependurados, e manuscritos longos, provavelmente ainda não descobertos e inúmeros outros ainda não examinados por estudiosos maçônicos.

O ofício do maçom operativo não era fácil de aprender, especialmente porque não havia livros, manuais e escolas, como as que estão agora em uso; um trabalhador tinha de ser ele próprio um aprendiz quando era apenas um menino, a fim de aprender a arte em primeira mão na escola da experiência. Uma organização compacta era necessária (como o era na maior parte dos outros ofícios), não só para proteger os segredos comerciais, mas também como um meio de ensino.

Muitas vezes, um pedreiro trabalhava sozinho, passando de um lugar para outro à medida que o trabalho exigia, e em conformidade com as normas e regulamentos existentes em diferentes comunidades, cada qual com suas próprias leis e “costumes” – este último normalmente reconhecido pelos tribunais como tendo o peso de lei. Neste caso a Maçonaria podia ser praticada em uma aldeia em que não existisse loja ou corporação.

Em muitas cidades, os maçons tinham suas próprias corporações, como os outros ofícios; neste caso, eles realizavam seu trabalho da maneira descrita nos artigos anteriores. É um fato digno de nota que a corporação dos pedreiros não deixou muitas marcas na vida da cidade, sendo geralmente relativamente pouco importante em comparação com corporações de outros ofícios; e, em alguns casos, eles eram simplesmente proibidos de ter corporação, o que nem sempre é fácil determinar, embora seja provável que grande parte dos edifícios das cidades médias era monopolizada pelos carpinteiros, porque estruturas de tijolo e pedra não entraram geralmente em uso até um período relativamente tardio.

Por exemplo, em Norwich, a cidade das igrejas, os pedreiros parecem não ter tido uma corporação própria em 1375, mas eram anexadas aos carpinteiros. Nas obras de Exeter os pedreiros dividem uma obra com os ourives, e em York estão unidos com os Chapeleiros. Em 1604, encontramos que uma corporação em Oxford recebeu estatutos que incluíam maçons. Carpinteiros, Marceneiros e Telhadistas.” (Vibert)

Parece que a “loja“ era peculiar dos Pedreiros, embora seja provável que outros ofícios tivessem por vezes edifícios ou salas próprias próximas ao local de trabalho; os carpinteiros, por exemplo; mas a loja como uma organização, um corpo controlador, assim como o edifício, a cabana, ou local onde ela se reunia, era característica apenas dos construtores. Ela estava geralmente anexada ao edifício em construção, mas às vezes era uma estrutura permanente, como em Aberdeen. Em alguns casos, como em York e Westminster, grupos permanentes de trabalhadores estavam em constante presença e, provavelmente, usavam salas ou edifícios permanentes. A existência de uma loja onde admitir aprendizes  é mencionada no Poema Regius, entre as normas que regulamentam os aprendizes está a de que eram proibidos de divulgar o que acontecia na “loja”. O Manuscrito Cooke ordena que um Pedreiro deva “ocultar o conselho de seus companheiros em loja e em câmara”, uma regra sábia que poderia, nestes dias atuais ser pendurada nas paredes da loja.

II. Existiu uma “grande fraternidade”?

Eram todas essas diferentes lojas e operários individuais regidos por “uma grande fraternidade” que tinha jurisdição sobre todo o Ofício? Costumava ser uma opinião comum que este era o caso; mas todos os fatos posteriormente descobertos apontam na direção oposta, uma conclusão bem indicada pelo Sr. Wyatt Papworth, em Transações do Real Instituto de Arquitetos:

Todos os documentos que me levaram a acreditar que não houve qualquer corporação suprema na Inglaterra, embora possa parecer provável a existência de tal órgão. Assim, as “ordens” dadas aos Pedreiros na Catedral de York em 1352, dão apenas uma ideia pobre de que houvesse, na época, naquela cidade alguma coisa como uma corporação ou fraternidade reivindicando autoridade em virtude de um estatuto, que se supunha tivesse sido concedida por Atheistan em 926, não só sobre a cidade, mas sobre toda a Inglaterra.

R.F. Gould, que cita o referido, concorda, e diz, com relação à teoria de uma corporação suprema, que “todos os elementos que possuímos apontam em uma direção completamente oposta”. A unidade da atividade dos Pedreiros era mantida como a de qualquer outro oficio, por leis gerais, regras, regulamentos e costumes respeitados por todo o país, e também, conforme explicado no primeiro capítulo desta série, pela natureza do trabalho em si que, como as ocupações técnicas dos dias atuais não admite ampla variação na prática. O controle uniforme de todas as lojas a partir de uma autoridade central só surgiu muito mais tarde; ele não foi tentado até depois da formação da Grande Loja em Londres em 1717, e não foi aperfeiçoado até a organização da Grande Loja Unida da Inglaterra, no primeiro quarto do século XIX.

Uma questão mais difícil de tornar simples, mas que é absolutamente vital para a compreensão do assunto, é a diferença entre corporação de Pedreiros e Pedreiros-livres. Esses dados que possuímos são tanto fragmentados quanto confusos, de modo que os melhores especialistas não foram capazes de esclarecer todos os problemas envolvidos. No entanto, parece bastante certo que sempre houve uma divisão bastante ampla entre os membros das corporações locais estacionárias, que tinham o monopólio da construção em cada cidade, e os Pedreiros-livres empregados para construir catedrais e outras estruturas eclesiásticas. A corporação de Pedreiros estava vinculada por leis locais e não estava autorizada a trabalhar fora de sua própria comunidade, fato que assumirá mais força, quando é lembrado que na Idade Média as cidades eram muito mais independentes e autocentradas do que são agora, e mais zelosas das leis e costumes locais. Mas não havia, naturalmente, nenhum trabalho constante em qualquer cidade para homens treinados para trabalhar em catedrais, uma forma especializada de arquitetura tão difícil e exigindo tanto conhecimento especial que é muito difícil entender como os construtores de catedrais conseguiram resolver alguns dos seus problemas. É quase certo que esses Pedreiros-livres eram uma classe à parte da corporação de Pedreiros, e que, ao contrário da corporação de Pedreiros, eles tinham regras e regulamentos próprios, e estavam autorizados a aderir aos mesmos onde quer que estivessem trabalhando, e qualquer que fossem as ordenanças obrigatórias vinculantes para os Pedreiros locais. Também é quase certo que a Maçonaria, como ela mais tarde evoluiu para o que hoje chamamos Maçonaria Especulativa, originou-se entre as lojas de construtores de catedrais, e não entre as corporações de Pedreiros, embora, naturalmente, devesse ter havido certa interação e sobreposição entre as duas, nossas Antigas Obrigações, nossas tradições, lendas e nosso simbolismo chegaram até nós a partir das lojas migratórias associadas a estruturas eclesiásticas. Pode não ser possível provar esta teoria para satisfação de um tribunal, mas todas as evidências disponíveis, direta e indireta indicam isso. O ponto é de extrema importância, não só no que diz respeito à história, mas sempre que pretendemos reger nossa Ordem atual por atividades do passado.

Era uma coisa difícil de governar adequadamente uma loja de Pedreiros construtores de catedrais, não somente por seu caráter essencialmente temporário, mas também pelo fato de ter em mãos a obra mais admirável possível na Idade Média, envolvendo o dispêndio de grandes somas, a importação de trabalhadores do exterior e da movimentação de massas de material caro. Em uma empresa desse tipo todos os tipos e maneiras de homens foram empregados, desde o superintendente geral, que seria um artista ilustre, até os trabalhadores rudes e moços de recados, um grupo cosmopolita no qual todas as classes seriam representadas, sacerdotes, bispos, senhores, homens livres, escravos, servos, necessitando um sistema complexo e altamente desenvolvido de administração. O controle geral de tal empresa, às vezes, ficava inteiramente nas mãos de religiosos, às vezes, totalmente em mãos leigas, e muitas vezes em um grupo misto.

III. Os oficiais das lojas eram os líderes 

O encarregado do trabalho seria um chefe geral, de diversos estilos de superintendente, supervisor, arquiteto, chefe de obras, guarda das obras, mantenedor da fabrica, diretor, inventor, etc. O presidente era chamado mestre, guardião, diácono, presidente, conforme determinassem os costumes locais; o detentor dos fundos era um mestre de caixa ou tesoureiro; além disso havia outros funcionários, como contadores, que, naturalmente, caíram totalmente fora da forma de organização quando o Oficio se tornou especulativo, porque os oficiais das lojas operativas eram escolhidos tendo em conta o trabalho a ser feito, e não como representantes de graus ou categorias de uma ciência especulativa. Não parece que um cobridor era empregado, embora seja certo que alguns meios eram utilizados para guardar a porta da loja.

Os membros da Ordem eram regidos de acordo com um conjunto de regras e regulamentos que cada Pedreiro jurava respeitar, versões dos quais estão incorporadas em diferentes versões das Antigas Obrigações, a mais velha delas, assim se acredita, sendo a do Manuscrito Cooke, datado de meados do século XV, e preservado com algumas alterações nas constituições ainda usadas por Grandes Lojas; essas regras eram adaptadas às necessidades de tempo e lugar, e pode-se supor, mas, em linhas gerais, foram fielmente preservadas por muitos séculos. As “Ordens aos Pedreiros e Trabalhadores” encontradas nos Registros de Fabrica da Catedral de York, fornecem uma ideia razoável do horário de trabalho, condições de trabalho, e as regras gerais:

Os primeiro e segundo Pedreiros, que são chamados de mestres da mesma, e os carpinteiros, farão o juramento que eles farão com que os costumes antigos assumidos sejam fielmente observados. No verão, eles devem começar a trabalhar imediatamente após o nascer do sol até o toque do sino da Virgem Maria; depois até café da manhã na loja da fábrica (logium fabricae), então um dos mestres deverá bater à porta da loja, e imediatamente todos devem voltar a trabalhar até o meio dia. Entre Abril e Agosto, depois do jantar, eles dormirão na loja; em seguida, trabalharão até o primeiro sino de Vésperas, depois sentar-se-ão para beber até ao final do terceiro toque do sino, e retornarão ao trabalho enquanto puderem ver a luz do dia. No inverno, eles devem começar a trabalhar ao nascer do dia, continuar como antes, até o meio-dia, tomar sua refeição, e voltar ao trabalho até o fim da luz do dia. Em Vigílias e aos Sábados eles devem trabalhar até o meio-dia.

Parece que de tempos em tempos, assembleias eram realizadas, também chamadas congregações, e em um Manuscrito (O Papworth) era colocado as regras das associações, para que todas as lojas em um determinado distrito se mantivessem em devida ordem e sob o controle dos agentes do rei. As Antigas Obrigações fazem muitas menções a elas, apesar de apenas três assembleias serem claramente mencionadas; o Regius refere-se a uma convocada pelo rei Athelstan à qual compareceram grandes senhores e burgueses; outra versão fala de uma assembleia realizada em Windsor, quando Edwin foi iniciado; e quase todos eles referem-se às assembleias de York. “Cada mestre que seja um Pedreiro-livre”, diz o Regius, “deve estar na congregação geral.” É provável que algumas dessas reuniões fossem convocadas por oficiais da ordem, e outras pelo xerife do rei ou de outras autoridades, neste último caso, para zelar para que a Ordem estivesse obedecendo rigorosamente as leis do reino. O Manuscrito Cooke deixa claro que o comparecimento era obrigatório para os mestres: “Que cada Mestre seja notificado para vir a sua congregação, que ele venha no devido tempo, a não ser que seja desculpado por algum motivo. Mas, aqueles que desobedeciam a tais congregações, ou fossem falsos com seus empregadores, ou tivessem agido de modo a merecer a reprovação pela Ordem, deveriam ser dispensados somente por doença grave, notícia sobre a qual devia ser data ao Mestre que presidia a assembleia”. Não há registro de qualquer assembleia em nível nacional, nem é possível ter certeza sobre quando e onde tais reuniões eram realizadas; ou por quanto tempo o costume continuou; os registros são tão escassos, e muitas vezes tão confusos, que não podemos ter certeza de qualquer ponto, exceto que algum tipo de assembleia era realizado ocasionalmente. Alguma ideia da extensão do território abrangido pela autoridade de tal assembleia geral é sugerida pelas Antigas Obrigações, como em Cooke, Grande Loja, York, Sloane e outros que mencionam oitenta quilômetros; o Harleian, dezesseis quilômetros, e ainda outros, todos de uma data posterior, oito quilômetros. Com o passar do tempo e o aumento das cidades e da população da Inglaterra, as assembleias simplesmente saíram de moda; pode muito bem ser que a ideia de formar uma “Grande Loja” em Londres, em 1717, fosse sugerida a “algum velho irmão” pela leitura das Antigas Obrigações; podemos pelo menos estar certos de que os irmãos naquele tempo sentiam-se justificados em tomar a medida radical pelo fato de que as assembleias gerais “tinham sido realizadas em tempos antigos.”

IV. Quantos graus existiam?

As Lojas Maçônicas Operativas não empregavam graus, em nosso sentido moderno do termo, mas graus reconhecidos de trabalhadores e tinham regulamentos e, provavelmente, cerimônias correspondentes. Um jovem era feito aprendiz com apenas doze ou catorze anos de idade, portanto não é provável que o seu ingresso no ofício fosse realizado com qualquer cerimônia muito pesada, mas é certo que ele era obrigado a ouvir a Lenda do Oficio, suas regras e regulamentos, e era obrigado a fazer um juramento. Após sete anos, ele passava para o outro grau, e se tornava Mestre Pedreiro ou Companheiro, os dois sendo dois termos para o mesmo grau. As autoridades estão quase igualmente divididas quanto a ser esse avanço realizado por meio de qualquer tipo de cerimônia secreta; o fato de que se sabe que os aprendizes estavam presentes ao “se fazer um mestre” poderia indicar que tal coisa não ocorreu; mas o outro fato de haver uma divisão entre os dois graus sugeriria que um mestre recebia alguns segredos que nunca eram dados a um aprendiz. No continente, um operário viajava por cerca de dois anos ou mais, depois de ter sido feito Companheiro, mas este não era o costume na Inglaterra, onde, no século XIV, era expressamente proibido por lei. Todos os mestres estavam no mesmo nível com relação a direitos e privilégios, mas alguns mestres gozavam da maior honra de serem escolhidos para fiscalizar o trabalho, e que, portanto, estavam em um grau ainda mais elevado no que diz respeito à posição; mas mesmo assim eles não possuíam segredos do ofício que os companheiros não possuíssem. Os salários variavam de tempos em tempos, muitas vezes fixados por lei; geralmente os trabalhadores recebiam luvas, túnicas, aventais, e às vezes cama e comida; os aprendizes nada recebiam ou então pequenos montantes, além de cama e comida. Em cada construção, muitos trabalhadores não membros da loja eram necessariamente empregados, dos quais temos registros abundantes; eles eram conhecidos como pedreiros ordinários, profanos, assentadores, “pedreiros sem a palavra”, paredeiros, estucadores, etc. Era terminantemente proibido para qualquer mestre pedreiro expor os planos ou empregar seus segredos de ofício na presença destes homens, que eram vistos como “profanos”, ou estranhos. Além disso – este é um fato importante – era necessário dar a “liberdade da loja” a certos homens relacionados com as obras que não eram Pedreiros treinados, podia ser um bispo, estando encarregado de todo o trabalho, ou um homem especialmente qualificado em geometria ou outros itens importantes da maçonaria “especulativa”. Na Escócia, estes irmãos, assim, recebido na loja, mas não como trabalhadores efetivos, eram conhecidos como Maçons “geomáticos“ ou “cavalheiros”. Alguns deles eram, sem dúvida, muito sábios, e não é um palpite supor que certa quantidade de simbolismo e “trabalho” esotérico que, finalmente, evoluiu até o magnífico Ritual agora empregado pode, no início, ter sido devido à presença destes cavalheiros educados.

Quando o Oficio se transformou em uma instituição especulativa no século XVIII, as cerimônias antigas e provavelmente muito simples empregadas pelos Maçons Operativos foram enormemente modificadas e ampliadas, em alguns casos, pela adição, pode-se acreditar, de materiais provenientes de fontes diferentes da Maçonaria Operativa; os um ou dois graus foram reorganizados e um terceiro foi adicionado, algum tempo depois de 1720. Após esse sistema de três graus se tornar permanentemente estabelecido – algo que levou muito tempo para ser feito, e depois de encontrar oposição – foi adotado na Escócia, na Irlanda e no Continente, dando origem à Fraternidade presente em todo o mundo. Deve-se notar aqui, e como um fato que nunca deve ser esquecido pelo estudante, que, embora muitos países além da Inglaterra tivessem um sistema de Maçonaria Operativa, foi só na Inglaterra que a Maçonaria Especulativa se desenvolveu; toda a Maçonaria Especulativa existente hoje veio inicialmente daquela única fonte. As tentativas de explicar em nossas práticas atuais por meio de referências à Maçonaria Operativa na Alemanha, Itália, Espanha e França são geralmente enganadoras. O segredo era vital para a Maçonaria naqueles primeiros tempos como é agora, e por razões semelhantes, exceto na questão das fórmulas comerciais, a posse dos quais tinha o mesmo tipo de valor monetário para um Maçom Operativo que a posse de uma patente tem hoje em dia. Sem uma cuidadosa guarda de tudo o que se passava na loja, todo o sistema teria ficado em pedaços, a arquitetura teria se tornado uma arte perdida, e o mundo teria ficado muito mais pobre, uma coisa que se poderia dizer com igual ênfase sobre a Maçonaria Especulativa, que mantém as portas fechadas aos estranhos, não porque tenha alguma coisa de que se envergonhar, como é a moda em alguns círculos se presumir, mas porque sem os seus arcanos, ela em breve deixaria de ser algo mais que um mero clube social, de que, só Deus sabe, já temos em abundância. Mas, enquanto nossos segredos são morais e especulativos, aqueles mantidos tão cuidadosamente pelos nossos antepassados eram da variedade comercial, e tinham a ver com os métodos de projeto e construção. Eu já citei um trecho do Poema Regius comandando o aprendiz a “ocultar” o “conselho de seus companheiros”; a regulamentação de importância semelhante ocorre em todas as Antigas Obrigações, conforme testemunha esta passagem do Harleian:

Você não revelará seu Mestre ou Dama [esposa do Mestre] seus Conselhos ou segredos, que eles lhe deram, ou o que deve ser ocultado, falado ou feito, dentro do perímetro de sua casa.

Esta passagem mostra que o segredo Maçônico Operativo tinha seu lado moral, bem como profissional. Assim é entre nós; a Maçonaria Especulativa ensina que o segredo é uma virtude a ser praticada em todos os lugares e sempre, e não apenas um dispositivo para manter os estranhos no escuro quanto aos assuntos da loja, uma sábia advertência em um mundo tão cheio de pessoas, onde a confiança que alguém coloca em um companheiro seu precisa ser mantida em confiança sagrada.

V. Os maçons se diferem de outros profissionais

O ofício dos Maçons Livres é diferente em um aspecto muito importante daquele de quase todas as outras corporações, ou seja, que o trabalho de seus predecessores permaneceu visível em seu meio. Um alfaiate, um carpinteiro, um funileiro poderia se importar pouco sobre a história de seu ofício, suas tradições ou seus ideais; por que ele haveria de fazê-lo, porque seu trabalho rapidamente pereceu e não poderia deixar para trás restos duradouros. Com os construtores de catedrais, foi o contrário. Eles estavam familiarizados com o trabalho que seus pais haviam feito, amado e reverenciado, e encontraram nele um livro aberto de lições, um poço de inspiração, uma casa de doutrina. Da mesma forma, era uma questão de grande importância para eles preservar as tradições do passado, sua luz e sua fama, porque eles estavam, eles mesmos, engajados em fábricas que durariam de geração em geração, e transmissores de uma arte tão duradoura quanto pedras forjadas em contraforte e paredes.

Por este fato em si, parece-me, ignorando todos os outros, seria quase inevitável o desenvolvimento de um sistema de simbolismo. Os homens que construíram igrejas tinham de pensar e praticar a religião, tinham que se familiarizar com a filosofia e saber algo de arte, e todos estes interesses nos dias em que não havia imprensa e o analfabetismo era geral poderia ser expresso de alguma outra forma que não fosse simbólica. O simbolismo era a língua popular, de modo que as esculturas na fachada de uma catedral eram um livro para o povo, a história do mundo, uma Bíblia para os olhos. Num tempo como este, teria sido realmente estranho, se os artistas que falavam ao povo através de símbolos não tivessem utilizado o mesmo meio para ensinar a seus próprios aprendizes e preservar os seus próprios segredos.

Basta olhar para a fotografia da fachada de uma catedral para ver que os homens que a construíram tinham mentes simbólicas, não para esconder as suas ideias, mas expressá-las; e que os pensadores mais poderosos do período deixaram para trás em símbolos algumas das ideias mais ricas e raras jamais conhecidas, e que muitas vezes não seriam descobertas de outra forma. Interpretar seus símbolos não é um jogo de antiquário, como o de juntar um velho quebra-cabeças, mas é um legítimo trabalho da mente, esforçando-se para traduzir em nossa própria linguagem e formas de pensamento as verdades aprendidas pelos maçons-livres e ensinadas por eles da maneira que sabiam; é como a tradução de um livro sábio e antigo de uma língua morta para uma língua viva.

Foi a Reforma que deu à Maçonaria Operativa seu golpe de misericórdia. Henrique VIII, após dissolver os mosteiros e conventos, foi secundado por Eduardo VI, que varreu os últimos vestígios das irmandades, confrarias e associações religiosas que não fossem a igreja, ambos os reis embolsando o dinheiro em nome da bolsa privada. Os mosteiros tinham sido os principais empregadores dos Maçons Operativos, e com a chegada de uma época de puritanismo no pensamento, na moral e na arte o período de construção das catedrais chegou a um triste, mas não inglório fim. As os pedreiros Operativos abandonaram e perderam completamente o interesse no Oficio; só os mais inteligentes entre os graus mais leves de trabalhadores continuaram a valorizar as antigas tradições, ler os velhos manuscritos, e debruçar-se sobre os símbolos consagrados pelo tempo.

No século XVII as lojas começaram a se tornar definitivamente especulativas, ou pelo menos não operativas; e até o primeiro quartel do século seguinte, todo o sistema foi reestruturado de cima para baixo, a Maçonaria Operativa desapareceu, exceto em casos isolados, e a Maçonaria Especulativa surgiu. Mas, afinal, e na sequência, o mundo foi quem ganhou. Muitos de nós são Maçons que nunca seguraram uma colher de pedreiro, continuando os vetustos costumes e mantendo vivo o fogo antigo, não porque somos supersticiosamente reverentes do passado, mas porque em nossa herança dos Maçons Operativos temos um tesouro de riquezas insondáveis pelas quais se é habilitado a se tornar em sua alma secreta um templo não profanado onde habita uma luz trazida do passado, através da qual somos ajudados a guiar nossos passos ao longo dos caminhos tortuosos da vida em direção à vocação de um homem, que é a honra, a retidão e a fraternidade.

Autor: H.L. Haywood
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

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LIVROS CONSULTADOS NA PREPARAÇÃO DESTE ARTIGO

A.Q.C., Antigrapha; ;Brewster, History of Freemasonry; ; Robert I. Clegg, Mackey’s Revised History of Freemasonry; ; Edw. Conder, Records of the Hole Crafte and Fellowship of Masons; ; Dallaway, Master, and Freemason; ; Findel, History of Freemasonry; ; Fort, Early History and Antiquities of Freemasonry; ; Fr. Funck-Brentano, The Middle Ages; ; R.F. Gould, Collected Essays on Freemasonry; R. F. Gould, Concise History of Freemasonry; ; R. F. Gould, The Four Old Lodges; ; R.F. Gould, History of Freemasonry; ; William Herbert, History of the Twelve Great Livery Companies; ; W.J. Hughan, Old Charges of the British Freemasons; ; W.J. Hughan, Origin of the English Rite of Freemasonry; ; Lethaby, Medieval Art; ; Lethaby, Westminster Abbey and the King’s Craftsmen; ; Murray D. Lyon, History of the Lodge of Edinburgh; ; Meredith, Economic History of England; ; J.F. Newton, The Builders; Frederick A. Paley, Manual of Gothic Architecture; ; Pierson, Traditions, Origin, and Early History of Freemasonry; ; Robert Plot, The Natural History of Staffordshire; ; A. K. Porter, Medieval Architecture; ; Wm. Preston, Illustrations of Masonry; ; Toulmin Smith, English Guilds; ; F.J. Snell, The Customs of Old England; ; Lionel Vibert, Freemasonry Before the Existence of Grand Lodges; ; Lionel Vibert, Story of the Craft; ; Paul Vinogradoff, English Society in the Eleventh Century; ; A. E. Waite, New Encyclopedia of Freemasonry; ; J.S.M. Ward, Freemasonry and the Ancient Gods; ; E.M. Wilmot-Buxton, A Social History of England: ; Robert Wylie, History of the Mother Lodge Kilwinning.

REFERÊNCIAS SUPLEMENTARES

Mackey’s Encyclopedia of Freemasonry (Revised Edition). Anderson. 57-58; Apprentice, 70-71; Architect, 75; Architecture, 75; Athelstan, 85; Builder, 123; Church, 151; Comacine Masters, 161-167; Company of Masons, 472; Congregations, 174; Corporations of Builders, 123; Cowan, 183-184; Craft, 184; Craftsman, 184; Deacon, 197-198; Fellow, 261; Fellow Craft, 261-262; Gentleman Mason, 294; Geomatic, 295; Gloves, 299-300; Grand Lodges, 306-307; Hale, 313; Halliwell Manuscript, 616; Harleian, 317; Hutchinson, 342-343; Lodge, 449-451; Master, 473-476; Master of the Work, 476; Master Mason, 474-475; Middle Ages, 483; Oliver, 527-529; Old Masonic Manuscripts, 464-467; Operative Art, 532; Operative Masonry, 532; Overseer, 540; Preston, 579-582; Regius Manuscript, 616; Revival, 622-623; Ritual, 627; Sloane, 694-695; Stone-Masons of the Middle Ages, 718-722; Symbol, 751- 755; Tiler. 786: Tyler, 811; Wages, 834; Warden, 835-836; York, 867-871.

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