O Mestre Maçom perante si próprio

Todo o maçom, desde o primeiro dia que adquiriu essa condição sabe que o seu maior inimigo é aquele que vê quando, de frente, olha para o espelho. Mas também sabe que a melhor maneira de acabar com o inimigo não é prendê-lo (pode sempre libertar-se…), ou matá-lo (pode dele fazer um mártir ou herói para outros, e assim afinal multiplicar os seus inimigos…). A melhor maneira de acabar com o seu inimigo é fazer dele seu aliado, seu amigo. A amizade tem mais força que a força…

Todo o maçom sabe, desde o dia em que adquiriu essa condição, que dentro de si convive o que potencialmente o destrói, o desvaloriza, o apouca – os seus vícios, os seus defeitos – e o que o engrandece – as suas virtudes e capacidades. Por isso aprende que é crucial cavar masmorras aos seus vícios e cultivar suas virtudes. Só assim aquele que vê quando, de frente, olha para o espelho deixará de ser o inimigo que arrasta para as sombras da depravação para passar a ser efetivamente o aliado amigo que acompanha no caminho para a Luz.

O Mestre Maçom, quando se coloca – o que deve fazer com frequência… – perante si próprio, deve sempre recordar-se que o esforço para ser melhor pode não necessitar de ser muito grande, mas inevitavelmente tem que ser contínuo. Tal como aquele que anda de bicicleta precisa de manter o movimento para não cair, assim aquele que cessa o esforço para melhorar verá degradar-se o que atingiu.

Assim, a palavra que, no meu entendimento, se deve utilizar para ilustrar o que se impõe ao Mestre Maçom perante si próprio é “persistência”.

Persistência no contínuo esforço de melhoria. Persistência em aprender e ensinar e em aprender ensinando. Persistência no Estar como meio para o Ser. Persistência em fazer, dia após dia, mês após mês, ano após ano, mais do mesmo, como forma de descobrir, afinal, que o mesmo continuamente se reinventa e, quando damos por ela, já é outro e melhor.

Persistência no trabalho mais importante que existe, o trabalho em si próprio, o trabalho que lhe permite reconhecer-se e ser reconhecido como aquilo de que se apelida, Maçom.

Persistência no lapidar da única obra que, apesar de todas as obras que construa ou que crie, afinal realiza durante o tempo que passa neste plano da existência, a sua verdadeira obra-prima, a sua vida e quem a vive.

Persistência na busca da forma de melhorar o que parece bom, mas pode sempre ser um pouco melhor – para descobrir que, após a melhoria, o que é melhor, pode ainda ser melhorado mais um pouco, desde que… persista no trabalho.

Persistência na lapidação da sua Pedra Bruta até conseguir dar-lhe a desejada forma de Pedra Cúbica. Persistência para polir essa Pedra Cúbica, face a face, para bolear bem as arestas, uma a uma, para que essa Pedra Cúbica seja capaz de ser encaixada onde deve, seja sólida para bem assegurar o seu papel, se enquadre harmoniosamente entre as demais, aumentando com o seu brilho o brilho das vizinhas.

Persistência para nunca se sentir satisfeito, para ter a noção de que é sempre possível fazer e ser um pouco melhor e para efetivamente agir para assim fazer e ser – e descobrir que continuar a lapidar uma Pedra Cúbica não a faz mais pequena, paradoxalmente engrandece-a.

Persistência em ser realmente e completamente aquilo que se reclama ser: Mestre Maçom!

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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O vício

Não convém embandeirar demasiadamente porque, aprendi em criança, “cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém…” e na verdade os portugueses “desconfinaram”, mas o Coronavírus não. Ou pelo menos eu estou convencido que “ele” continua por aí. É, de resto, a opinião expressa pelos técnicos de saúde que nestes tempos de pandemia pululam as televisões, rádios, jornais, …

Alguma coisa pode ser aproveitada nestes tempos de ócio pandémico e não havendo nada para fazer ocupei alguns momentos a refletir sobre a vida maçônica.

Isto de refletir é, obviamente, uma boa ocupação quando não há mais nada para fazer.

Estamos claramente em tempo de “vacas magras” (alguma vez não estivemos?).

Empresas (de todas as dimensões) a ressentirem-se da paragem da economia mundial, muitas a fecharem portas e a desaparecerem do mercado, desemprego a aumentar inevitavelmente, famílias inteiras em gravíssimas dificuldades e a esperança em melhores dias, sendo a última coisa a morrer (como de costume), mantém-se muito tênue.

Direi que é maior a desconfiança e o medo do que a esperança em recuperação rápida.

Esta reflexão trouxe-me para os meses do calendário que, para muitos, ficam cada vez “mais compridos” enquanto os vencimentos ficam cada vez mais curtos, obrigando a prodígios de imaginação para a manutenção do dia a dia das famílias. As dificuldades com as obrigações pecuniárias mensais foram em muitos casos disfarçadas, durante estes quase 2 anos de “fechamento”, por efeito das moratórias que a banca promoveu com o apoio estatal. Só que este sistema acabou ou está em vias de acabar com o regresso das prestações a terem de ser cumpridas sob pena de sofrerem as penas previstas nos contratos acordados na época em que ninguém podia prever a pandemia, nem as dificuldades que arrastou. 

Estas dificuldades são evidentemente generalizadas tocando também, e em muitos casos fortemente, alguns Irmãos.

Sabe-se que a admissão na nossa obediência implica uma “contratualização” com o cumprimento de um conjunto de regras comportamentais, morais e éticas, às quais se juntam outras de caráter pecuniário.

Nada a obstar em termos regulamentares. O candidato, enquanto candidato, fica a conhecer as regras que irão balizar a sua existência maçônica se admitido e quando admitido. Mas a vida dá muitas voltas, como bem se constata, e nenhum de nós está livre de ser apanhado por uma qualquer dessas voltas que lhe altere a situação financeira deixando-o em dificuldades no cumprimento dos seus deveres materiais. Todos nós sabemos que as propaladas vantagens de toda a ordem que a Maçonaria proporciona aos seus membros são uma ficção e os Maçons estão tão sujeitos às condições do mercado de trabalho como qualquer outro cidadão. E se, entre os Maçons, há quem viva com o conforto suficiente para não sentir, ou sentir muito pouco, estas dificuldades, também há os que as sentem com todo o peso do sofrimento arrastado pelo desemprego e/ou pela redução dos seus ganhos mensais.

Há, pois, Irmãos em dificuldade e a há que ter em atenção o que se passa com os mais vulneráveis. É um trabalho que compete às Lojas e em particular ao Irmão Hospitaleiro, inteirar-se do que acontece com cada membro da loja, sentir os sinais de dificuldade e movimentar os meios práticos para amenizar essas situações.

“Quem não tem dinheiro não tem vícios” é provérbio antigo e até sou capaz de aceitar esta “boca” com alguma razoabilidade.

Vício (do termo latino “vitium”, que significa “falha” ou “defeito”) é um hábito repetitivo que degenera ou causa algum prejuízo ao viciado e aos que com ele convivem.

Fui buscar esta definição à Wikipédia. Não é grande “coisa”, mas serve para o efeito que pretendo neste momento.

No mundo da Maçonaria os integrantes são escolhidos e reconhecidos como Maçons por quem já é Maçom. Digamos que a integração na Maçonaria, sendo um ato voluntário individual não o é só.

É também, e muito, a vontade de quem já ganhou o reconhecimento de Maçom e reconhece agora, também, naquele outro, as qualidades humanas necessárias para integrar o conjunto dos seus Irmãos.

A responsabilidade do cumprimento dos deveres maçônicos não é exclusivamente individual, é também responsabilidade de quem convidou, desafiou, reconheceu o “outro” para integração na Ordem Maçônica.

E esta responsabilidade deve ser verdadeiramente assumida por toda a Loja, em Irmandade (é esse um dos seus deveres) e em particular pelo seu Padrinho. Por isso, e para isso há “Padrinhos”, na Maçonaria tal como na vida civil corrente, no registo do nome do recém-nascido, no casamento, no batizado… Sempre alguém que se corresponsabiliza pelo bom resultado do ato que é celebrado.

Ora bem, misturar a integração Maçônica com os “vícios” é, pelo menos, leviano!

Tenho para mim que seria muito bom que as causas, os princípios da Maçonaria, se tornassem verdadeiros vícios para todos, mesmo para os não Maçons, daqueles vícios que se agarram à pele, que se integram no sangue correndo pelas veias enchendo o coração e o cérebro. É minha convicção que a Humanidade teria muito a ganhar.

Mas “quem não tem dinheiro não tem vícios” aplicado à Maçonaria, não!

A Maçonaria não é um vício, tal como não é, não pode ser, um degrau de promoção individual, seja ela social ou financeira. Ou ambas…

Autor: JP Setúbal

Fonte: Blog A Partir Pedra

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O silêncio em Loja ou o silêncio do discurso?

Introdução

Uma das questões que sempre me chamou a atenção dentro das lojas ou Obediências é a regra de silêncio imposta aos Aprendizes, e que tanto me faz lembrar muito dos meus dias de noviciado, e eu já digo que não estou valorizando o silêncio, seus efeitos e as orientações dadas na interpretação do Ritual.

Podemos ver esta regra do silêncio nas colunas do Norte em várias versões, por um lado, o silêncio imposto diretamente, sem outra possibilidade de poder falar, exceto pela boca do tutor das referidas colunas (2º Vigilante), uma vez que se assume que 

“O silêncio é o prelúdio da abertura à revelação.”

Outra versão é uma abordagem de natureza mais formativa em que: 

“A disciplina do silêncio é um dos ensinamentos fundamentais da Maçonaria. Quem fala muito, pensa pouco, leviana e superficialmente.” 

Geralmente, também quem se alinha nesta corrente proíbe aos aprendizes poderem falar.

Então haveria outra versão talvez mais perigosa que é quando não se regulamenta o tema do silêncio dos aprendizes e ele passa a ser colocado sob a vontade ad libitum, em função de situações e até mesmo de maçons.

Não devemos nos esquecer de que transversalmente ao silêncio dos Aprendizes, outros temas como sigilo, discrição etc … também são definidos, o que nos levaria através de outros corredores conceituais longos, e aqui estou interessado em desenvolver de onde nasce ou parte e como se desenvolve a questão de deixar ou não os Aprendizes falarem em loja.

Pessoalmente, não é um assunto que me preocupa enquanto Mestre, mas sim como formador, embora não tenha sofrido muito com a questão do silêncio que muitas vezes é imposto aos Aprendizes, já que, tanto nas lojas em que trabalhei, tais como Gran Atanor, quanto em Amigos da Natureza e Humanidade (GLSE), essa não era uma regra fixa, e era aplicada mais do que qualquer outra coisa naquelas situações estranhas para impor sobre o resto, se recorria a instalar o silêncio aos Aprendizes de forma oportuna, constituindo assim uma segunda classe de maçons.

E nem na Loja Rosario de Acuña (GOdF) é um tema que seja imposto, embora o que seja como um tema ad libitum cria certos desequilíbrios.

Em todo caso, esse silêncio imposto cria uma distinção quase esmagadora e avassaladora, porque se tem a sensação de que, se o conceito não é claro e incluído no Regulamento Geral ou Particular da Obediência ou da Loja, então fica essa mesma sensação que se produz no eterno debate profano de querer mudar a lei eleitoral, quando se obtêm votos negativos …, pois aqui é a mesma coisa.

Frustração

Essa arbitrariedade não deixa de produzir na dinâmica da loja coisas curiosas e até paradoxais, tais como optar pela liberdade de expressão para algumas questões e depois fecha-la de novo, ou envolver os Aprendizes e não lhes fornecer as informações em jogo, ou a desculpa de seu grau e desconhecimento da Maçonaria, ou de não atrapalhar seu trabalho e desenvolvimento maçônico que nos leva ao duplo jogo do silêncio e do silêncio do discurso.

Esta não é uma questão menor, e é a fonte de muitos conflitos, talvez não sua aplicação férrea, mas quando permanece nessa discricionariedade que dá origem a muitas arbitrariedades. A este respeito, estou ciente de um caso sintomático em que se pede uma participação ativa em um tema controverso e complexo aos Aprendizes para posicionar a loja em uma determinada questão; e meses depois quando chega uma documentação sobre o assunto votado e vinda da Obediência, diz-se que não deveria ser filtrada aos Aprendizes, deixando nas mãos do VM, a administração da informação sob o critério tangencial de não perturbar esse silêncio ou a concentração maçônica exigida por todo Aprendiz Maçom que, curiosamente, esteve envolvido em todas as dinâmicas anteriores. Quantas vezes isso aconteceu conosco?

Cada vez que avanço no aprofundamento do desenvolvimento deste tema, mais me lembro da imposição do silêncio em formas eclesiásticas, com essa caracterização tão própria de manipular o silêncio de acordo com as necessidades e paradoxos do sistema, o que se aproxima de certo totalitarismo perverso na forma e muito usado dependendo dos jogos de poder que são desenvolvidos, neste caso em loja, porque o tema normalmente não vai em frente até que sejam necessários votos.

E, claro, não ignorando os benefícios do silêncio, não posso negar que às vezes passou de um tema de comportamento em loja um tema pseudo-regulativo e até mesmo cerceador do discurso em alguns de seus aspectos.

As fontes

Por preocupar-se tanto com essas questões de silêncio e por comprovar de onde poderia vir essa presumível regra de silêncio em loja, pedi a meu bom amigo e irmão Joaquín Villalta, que me ilustrasse em função de rastreamento dos rituais que usamos.

Na Constituição de Anderson de 1723 (3), art.  VI: 1) Do comportamento dos Irmãos em Loja Aberta:

“Você não deve ter uma reunião privada ou conversa separada sem a autorização do Mestre, ou dizer qualquer coisa irrelevante ou não apropriada, ou interromper o Mestre ou os Vigilantes ou qualquer Irmão que esteja se dirigindo ao Mestre.”

Mas nada fala em impor silêncio aos Aprendizes.

O resultado dessa busca em outros catecismos, como  o Sceau Rompu, aparece o tema do silêncio, mas mais como um tópico de observação da conduta de âmbito geral da qualidade maçônica.

  1. O que deve observar um bom Maçom?
  2. Quatro coisas: o Silêncio, o Segredo, a Prudência, & a Caridade em relação a seus Irmãos.

E aqui está o mencionado catecismo.  Quando, por exemplo, recorremos a outra fonte, neste caso dos “modernos”, o Luquet. Este nos diz o seguinte:

..os deveres para com os Aprendizes?

  1. Ajudar os Comp.’. , obedecer aos mestres, trabalhar com assiduidade e guardar o silêncio.

Outro ritual como  o Marquês de Gages, não indica nada em particular, digamos que o silêncio está presente em muitas partes do cerimonial ritualístico, mas não parece fazer parte de um regulamento no uso da palavra.

No catecismo do Duque de Chartres, vemos que se reproduz de forma idêntica o Luquet, o que não nos leva a pensar que esse poderia ter sido sua fonte)

  1. Quais são os deveres de um Apr.’. ?
  2. Ajudar os Comp.’., trabalhar assiduamente e guardar o silêncio.

No Regulação de 1801 , que é nossa fonte de trabalho ritual por excelência, não indica nada de um trabalho restritivo dependendo do grau, exceto com a ideia de criar uma situação de expectativa no ritual. Portanto, nenhuma recomendação sobre “necessidade de silêncio“, isso sim, reconhece a introspecção como um instrumento de perfeição moral, sem no entanto especificar em que sentido essa introspecção deve ser praticada:

“A pedra bruta é a imagem do homem rude e selvagem que o profundo estudo de si só pode polir e tornar perfeito ”

Tentando encontrar fontes mais próximas que pudessem me orientar quanto à presença do silêncio em loja, vejo que parece vir de uma tradição mais propensa à “ala dogmática”, tal como recolhemos da legenda trinitária que a Grande Loja da Inglaterra adotou de “Ouvir, ver e calar” que, a propósito, não está muito em sintonia com a praxis da ala liberal maçônica.

Quem parece dar a pista para esta questão controversa, é alguém que tem sido parte da instrução e formação da maçonaria espanhola, uma vez que não foi possível acessar outros catecismos e documentos de instrução, ocorrendo paradoxos de ainda termos um Aprendiz ou um Mestre Maçom lendo e estudando textos de origem dogmática sem questionar suas procedências ou sua origens, ou a possível coerência com linha da obediência e da loja na qual se situa o maçom.

Por isso, observamos as mais estranhas misturas de escolas e doutrinas e se entenda tudo isso como parte do corpus maçônico.

Entre os textos que fazem parte da bagagem maçônica educativa espanhola estão os textos do escocista e grau 33 uruguaio, Aldo Lavagnini, que formou o conjunto “totun revolotun” que os maçons espanhóis têm em sua bagagem formadora, e cujos textos contêm essa importante mistura de escolas e orientações doutrinárias, tão assentadas na prática escocesa, e ao mesmo tempo distantes de outras escolas rituais, tal como o Rito Francês.

É o que nos diz Lavagnini em seu Manual de Aprendiz, sobre o silêncio: 

“A disciplina do silêncio é um dos ensinamentos fundamentais da Maçonaria.  Quem fala muito, pensa pouco, leve e superficialmente. Geralmente, sua visão das coisas será estreita e inflexível e, portanto, não terá elementos para valorizar novas ideias ou horizontes. Por isso, a Maçonaria busca que seus membros se tornem melhores pensadores do que oradores.”

Para justificar a presença do silêncio em loja, foram pesquisadas todas as escolas e doutrinas que inseriram a filosofia do silêncio, que vão desde os pietistas, passando por Buda e concluindo nos pitagóricos, de tal modo que se propôs uma certa etapa como método de introspecção, silenciar os sentidos, ou mesmo criar efeitos de expectativa, ou como um sistema de atitudes permanente para melhorar o trabalho de redescoberta interna, que faz parte de uma uma certa regulamentação que se torna apenas em ultima análise um roubo da palavra na loja.

As fontes que tanto nos lembram os benefícios do silêncio estão presentes nas religiões e tradições místicas, pois se considera que oferece um momento excepcional que favorece o recolhimento e a quietude espiritual necessária para a comunicação com o divino e, portanto, não é difícil observar esta diretriz naquelas famílias rituais de base cristã, como é o caso do Rito Retificado (RER), que de antemão nos indica aquilo que:

“Procurou-se ensinar com isso, que é no silêncio, no retiro e na calma dos sentidos, que o sábio se despoja de suas paixões, preconceitos e que dá passos seguros no caminho da virtude e da verdade.” (Sobre a câmara de reflexão)

E que, além disso, encontramos reforçada tal questão na instrução do Primeiro Grau do RER:

Onde fostes recebido?

– Em uma Loja justa e perfeita, onde reina a união, a paz e o silêncio.

Em alguns documentos maçônicos, inclusive do RF, alguns escritos aparecem da seguinte maneira: 

“Onde reina a União, a Paz, a Candura, o Silêncio e a Caridade, em um lugar muito iluminado, regular e santo, muito fechado e forte.”

Para fechar este capítulo vou encerrá-lo com um texto de Patrick Negrier, exposto em seu trabalho “Art Royal et Régularité”:   

“A referência explícita à prática iniciada por Pitágoras e por Sócrates, de introspecção, parece ter penetrado na Maçonaria por volta de 1746-1751 na obra “Maçom Desmascarado” onde Thom Wolson convidava o maçom a conhecer a si mesmo para desafiar-se: “Maçom, conhece a ti mesmo, coloca tua esperança em Deus.”

Outras explicações, algumas dão passagem ao discurso

Há quem extrapole esse assunto como um elemento geral essencial para o grau de Aprendiz, uma vez que ele não sabe ler nem escrever e, portanto, precisam de atitudes receptivas e criadoras de expectativas e, portanto, silenciosas, convertendo-a  por sua vez em “leis” que, como diz Valdimir Biaggi se parecem muito com a “omentá” da máfia.

Nesta pseudoescola do silêncio se embosca também Juan Carlos Daza que com seu Dicionário da Maçonaria, confirma também parte dessa bagagem que eu acho que precisa ser desmantelada, em que ele parte de que “O silêncio é o prelúdio da abertura à revelação”, para adicionar “que as lojas impõem ‘a lei do silêncio’ aos aprendizes, se não o mutismo, já que por ele falará seu tutor, o Segundo Vigilante” ; no mesmo sentido e da vertente escocista mais pura, Irene Mainguy reafirma tais teses em seu trabalho sobre o simbolismo no REAA.

Em contraste, devemos salientar que, no Regulateur, fala-se de “não devo”, talvez enfocando a prudência ou dosagem do uso da palavra nesta fase, embora sua proibição nunca apareça.

Talvez pudéssemos aventar que o silêncio na loja está mais para o campo simbolista do REAA que do Rito Francês, que é um rito mais tendente à dialética, e chegadas a este campo, o Aprendiz do Rito Francês não deve perder de vista o fato de que seu primeiro dever é aprender a levantar as questões e formulá-las, a trabalhar no domínio das ideias sem restar uma dúvida, um pouco do mundo das opiniões e convicções, uma vez que a própria caracterização da Maçonaria exige um pensamento específico e original e para isso que melhor meio que o mundo da razão que não pode permanecer em silêncio para, pelo menos, situar-se no plano do discurso.

Nesse sentido, podemos dizer que o Rito Francês deu um passo transcendental e se constitui no Rito da Razão, fugindo de paradoxos simbolistas que o ligam ao silêncio místico de uma providência que flui através de jogos de luzes, onde a coreografia simbolista desempenha um papel mais importante, onde se cabe o discurso dialético.

É por isso que quando o Rito Francês é enquadrado no Iluminismo e reivindicar a presença não do cavalheiro, mas do cidadão, como nos diz o Regulateur, o discurso é recuperado dessa maneira, pois o cidadão tem direito à palavra que além de não poder ser negada, podemos dizer que é a nova ferramenta que se apodera da loja e que vai articulá-la e projetá-la como tal.

Nesse sentido se alinham autores como Beresniak (na seção referente à seção Mestre de Harmonia) que nos dá sua visão do silêncio:

“A música é absolutamente indispensável no ritual, não somente durante cerimônias especiais, mas durante a abertura dos trabalhos ou durante a entrada na Loja. Não substitui o silêncio, já que o silêncio não existe: ela cobre os ruídos inaudíveis, os tremores internos gerados pelo que foi vivido fora do Templo. Cobre as agitações da alma e arrasta as emoções até as alturas. As emoções não geram exercícios de inteligência; mas, pelo contrário, reconfortam o espírito. A música apoia efetivamente a função do ritual de abertura dos trabalhos, uma função que consiste em favorecer um “descondicionamento” e um “recondicionamento” em direção de um modo diferente de ser. E não é por acaso que a palavra “apertura / abertura”, tão densa e bela, também constitui um termo musical. Geralmente, os termos musicais como “composição”, “execução”, “concerto”, “melodia”, “harmonia”, “gama”, “escala”, “compasso”, “tonalidade”, “atonalidade” e outros muitos nos oferecem referências precisas capazes de esclarecer as ferramentas do pensamento. Por isso, o irmão “Mestre de Harmonia” poderia, além de seu trabalho tradicional, sentir-se responsável pela missão de informar sua oficina sobre os recursos que a música pode proporcionar ao estudo sério do simbolismo.”

Para fechar este longo capítulo, que também poderia dar lugar a outras obras sobre as virtudes do silêncio em Loja, que se está programado em muitas ocasiões, e que é muito concentrado em certos estágios, propondo assim dois tipos de silêncio:

O silêncio físico que é como uma reminiscência atitudinal importada de procedimentos e/ou grupos de tipo monástico religioso e implantado na Maçonaria a partir da introdução da abordagem pitagórica e, o silêncio imposto, como estado indispensável para o processo de aprendizagem, que como diz um veterano Mestre e Venerável Mestre de uma loja como o Irmão Joaquín Villalta: 

“Tanto um como o outro têm defensores e detratores, finalmente terminando ad libitum do uso em loja. Sendo da teoria de que “É necessário em certos momentos, mas seu uso não pode ser pautado como um procedimento obrigado nem ritualmente nem atitudinalmente para os aprendizes: é preciso aprender a aquietar os sentidos, mas é preciso buscar condicionamentos (como diz Beresniak) através de processos de estímulo / linguagem fora do campo puramente racional e para isso, o sensível / auditivo é necessário.”

Sem colocar de lado que “no processo de aprendizagem, o Aprendiz. desde sua “falta de conhecimento”, ele deve ter seus momentos de “prática expressiva”, isto é, ele deve poder falar. Não existe Arte (nem mesmo a Arte Real) que não exija uma prática (bem conduzida) desde o primeiro dia. Sem esquecer um paradoxo, pois não se deve esquecer que no início do século XVIII os graus de Aprendiz e Companheiro, eras, conferidos na mesma tarde, ou seja, poderíamos nos perguntar onde estava o silêncio do Aprendiz?

Algumas propostas de regulamento de Loja

Diante dessas situações, diferentes orientações foram criadas: há Obediências, em que, de antemão, os Aprendizes não têm voz ou voto até passarem a Companheiros ou a Mestres, isso aplicando-se uma lógica cartesiana “se eles não falam eles não votam”, portanto, eles colocam os Aprendizes a salvo da possível manipulação e administração da discricionariedade dos Mestres Maçons ou Oficiais da Loja e os fluxos que poderiam ocorrer nas Oficinas.

É uma medida antidemocrática?  Pode ser que sim, mas em pleno século XXI, que se negue a condição de “ser e estar” ao cidadão, ou à pessoa, mesmo que em loja e em virtude de seu aperfeiçoamento pessoal, soa pelo menos estranho e duro.

Mas tem, em todo caso, uma virtude e é que eles sabem de antemão as regras do jogo relacional em que se move a loja e os possíveis benefícios e desvantagens do sistema.

Deixá-lo à discrição, sem que ele se recolha nos Regulamento da Oficina ou da Obediência, traz consigo questões paradoxais e discricionárias que podem resultar ainda mais antidemocráticas e tirânicas que as anteriores, já que joga com as pessoas e Irmãos em função dos interesses, não criando certas regras gerais do jogo, mas muito particulares que se aplicam ou não dependendo de critérios tais como poder, conveniência, oportunidade, etc.

No entanto, existem Obediências e Lojas que não regulam esta situação, nem criam um ambiente regulamentar especial, no qual se afirme que o silêncio não é uma regra de regulamentação e sim uma regra de comportamento individual em loja quanto ao grau de Aprendiz.

Em todo caso, esta questão na órbita do Rito Francês, eu pessoalmente acredito que tal limitação não deva estar presente, a menos que seja voluntária por parte do Aprendiz, pois se partimos de que estamos em um Rito da Razão, um rito por antonomásia dialética, libertário em relação a certos anexos pseudo-religiosos presentes em outros ritos, não deveria partir da imposição de restrições a que a palavra flua, é certo que o Aprendiz não sabe “nem escrever nem falar”, mas o exercício dessas funções é o que lhe dá, em última análise, a capacidade de se tornar um cidadão e que a loja se constitua desde o primeiro momento uma escola de razão e formação, poderia caber a ideia de que em outro século essa limitação poderia fazer sentido, dadas as abismais diferenças sociais e culturais entre Maçons, continuar sujeitando-se hoje  em pleno século XXI, a uma norma que mitiga a liberdade individual de poder falar, ou seja a expressão viva, usando para a língua de outro, não faz sentido

Tema que deixo levantado para o debate.

Autor: Victor Guerra
Traduzido por: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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O primeiro dever do Venerável Mestre é criar futuros bons Veneráveis Mestres

Instalação e posse

Nas Grandes Lojas do Estado de São Paulo (GLESP), na abertura solene  da Cerimônia de Instalação e Posse do Venerável Mestre, o dirigente roga o auxílio do Grande Arquiteto do Universo para que aquele ilustre Irmão, M.·.M.·. que foi legalmente eleito para exercer o cargo, seja dotado de sabedoria para compreender, de discernimento para julgar e de meios para executar a Sagrada Lei, para que possa guiar e governar com Retidão, Verdade e  Justiça sua Aug.·. e Resp.·. Loj.·. Simbólica.

O papel do Venerável é parecido com o do maestro de uma orquestra. Pode ensinar a teoria da música e tirar sons de um instrumento musical. Mas precisa ter a habilidade para juntar tantos músicos diferentes e fazê-los tocar a música em harmonia. Levá-los a executar a música em uníssono (no mesmo tom, ao mesmo tempo). Ele deve ser capaz de proporcionar essa habilidade ao grupo.

Preparação do eleito

O que acontece com aquele que acaba de ser eleito para dirigir sua Loja? Acreditamos como base imutável do trabalho de preparação do mesmo a valorização e apoio ao Irmão, independente do Rito praticado, uma vez que os Ritos são respeitáveis e contêm, em suas essências, a necessidade da Construção Social dos Maçons. É uma providência muito usual, às vésperas da “passagem do malhete”, o Resp.·. Ir.·. Delegado Regional promover uma reunião dos  Mestres Instaladores e dos Veneráveis Eleitos com o objetivo de eliminar dúvidas sobre a realização do ato.

O treinamento breve e superficial, onde nem sequer os interessados se apercebem da grandiosidade que significa a Cerimônia, pode ter um impacto negativo no desempenho do futuro Venerável, se esses Irmãos não tiveram apoio e acompanhamento necessário para que sejam bem sucedidos nessa tarefa de tanta responsabilidade. A Potência espera muito dos novos Veneráveis e lhes cobrará conhecimento, desembaraço, responsabilidade, eficiência e acertos. Mas os Veneráveis por seu lado, sabem das dificuldades pelas quais irão passar e têm a expectativa, a curiosidade, a vontade do acesso a uma orientação oficial preparatória, segura, através da Potência. Um têm a expectativa do outro.

Sabemos que nada mais lógico e razoável seria a existência de um compêndio elementar  destinado ao Venerável eleito, onde pudesse buscar  a técnica  de dirigir e orientar os seus liderados nos rudimentos da arte, da filosofia, da ciência e da doutrina, antes de iniciar seu Veneralato.

Missão do Venerável

Inspirar seus liderados a viverem uma vida melhor, cada um dando o melhor de si, lembrando-lhes da sua missão e dos valores que regem a vida maçônica: amor, honestidade, humildade, paciência, educação, bondade, compromisso, respeito, abnegação, perdão.

O Venerável, é o instrumento de ligação entre todos os elementos que constituem a sua Loja e os delegados do Grão-mestre. Não gerencia os Irmãos, influencia e os lidera para darem o melhor de si.

Conceitos de liderança

A maioria dos candidatos ao cargo de Venerável Mestre, tem o desejo sincero de exercer liderança da melhor forma possível. No fundo, as pessoas anseiam por uma vida significativa e satisfatória e, por isso, procuram por alguma coisa especial que faça aflorar o que eles têm de melhor. De preferência, buscam uma harmonia entre seus valores pessoais e os valores da Instituição. Uma coisa é certa: os Irmãos querem fazer parte de algo especial; de uma Loja da qual possam se orgulhar, e ao termino dos trabalhos que todos fiquem felizes porque se sentem fazendo a coisa certa.

Defendemos a tese de que a liderança não é poder e sim autoridade, conquistada com amor, dedicação e respeito pelos liderados.

Liderar significa conquistar os Irmãos, envolvê-los de forma que coloquem o coração, mente, espírito, criatividade e excelência à disposição da Loj.·. e da Ordem. É preciso fazer com que haja o máximo empenho na missão, dando tudo pelo conjunto.

Lembremos, outrossim, de que não é preciso ser Venerável da Loja para ser um líder e influenciar os Irmãos a terem mais entusiasmo, mais empenho e mais disposição – enfim, para se tornarem o melhor que podem ser.

O que define a palavra liderança é a capacidade de influenciar os Irmãos para o bem. Na verdade, na Loja todos são líderes, assumindo cada um a responsabilidade pessoal pelo sucesso da Oficina.

Limitações

Os humildes consideram sua liderança uma enorme responsabilidade e levam muito a sério a posição de confiança e os Irmãos a ele confiados. O Venerável sabe que os Irmãos vão cometer erros. Os VVig.·., o Orador, o M.·. de CCer.·., o Secretário e outros – muitas vezes, vão decepcioná-lo, vão magoá-lo, não se esforçarão como ele acha que deveriam e alguns não reagirão aos seus esforços. Por isso, aceitam as limitações nos outros e tem uma enorme capacidade de tolerar a imperfeição.

Autêntico, ele não posa de sábio, está sempre disponível e, de certa forma, vulnerável, porque tem sempre seu ego sob controle e não se baseia em ilusões de conhecimento por “iluminismo do Alto”, de grandeza, acreditando que é indispensável para a Instituição. Sabe muito bem que “os cemitérios estão repletos de pessoas indispensáveis”.

Seguro de suas forças e limitações, o Venerável humilde está consciente de que só com a ajuda de todos será capaz de manter as coisas em sua devida perspectiva.

Os menos humildes, não devem ficar ressentidos com as coisas que machucam e desapontam. Devem lembrar-se de que qualquer um pode liderar pessoas perfeitas – se elas existem – o que não devem esquecer jamais os que optam por liderar é que devem servir: “quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo” (Jesus Cristo).

Muitos dos que assumem a liderança de sua Loja, enganam-se achando que é sua vez de serem servidos, agora que se tornaram líderes. A todo verdadeiro Maçom cabe tal responsabilidade: “deve servir nunca se servir”.

Responsabilidade

O Mestre Instalado vai se apropriando de ideias dentro de si, interpenetrando a fusão de culturas, tradições, sentimentos, em estilo cultural comum, cabedal de conhecimentos adquiridos ao longo do tempo e burilados durante a sua presença à frente dos cargos que desempenhou na Loja, conhecimentos esses que deverá necessariamente ser posto de forma total  “em pé e à ordem” da Sublime Instituição.

Conflitos

Obviamente, uma Loja Maçônica não é um lugar sem conflitos. Afinal, quando duas ou mais pessoas se reúnem para um propósito, uma coisa é certa, haverá conflito (especialmente se a Loja for saudável). O interessante é usar a inteligência para encontrar o caminho da comunicação entre os Irmãos e  transformar a Loja num local onde os conflitos são solucionados e os participantes aprendam a não evitar divergências – mas a ter respeito, a escutar, a ser assertivos uns com os outros, a ser aberto a novos desafios, a valorizar a diversidade que existe em qualquer equipe saudável.

NÃO àquelas alianças destrutivas entre dois ou mais Irmãos que preferem falar dos outros (panelinhas), em vez de levantarem o problema para toda a Loja, a fim de que se encontre uma solução. NÃO aos integrantes dessas “panelinhas” que não têm a coragem moral de fazer a coisa certa em momentos de desafio e controvérsia.

Os Irmãos Jubelos existem sempre, são justamente os veículos necessários, como Pedro e Judas o foram para Jesus. Um o traiu antes da morte; o outro, O negou em vida por três vezes.

Simbolizam os três assassinos as expressões da nossa natureza material, os que fazem oposição aos nossos bons sentimentos; os assassinos podem ter outros nomes: Ignorância, Fanatismo e Ambição.

Essas fases negativas poderão ser, com o auxílio de nossos Mestres, transformadas em Sabedoria, Tolerância e Amor.

Disciplina é uma palavra cuja raiz vem de discípulo, que é aquele que recebe ensinamento ou treinamento.

Lembrem-se de que disciplinar não é punir e humilhar os Irmãos. O objetivo é levá-los para o caminho certo, ajudando-os a se tornarem melhores, a vencer e ser bem-sucedidos e que respeito não é algo que se ganha quando se torna Ven.·. O respeito assim como o reconhecimento é conquistado pouco a pouco e exige que as partes renunciem interesses pessoais pelo bem maior, para que o todo se torne maior do que a soma de suas partes. Isso nos ensinou o Mestre dos Mestres: “quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva”; “e quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo” Qualquer um que queira ser um líder deve primeiro ser o servidor.  Servir uns aos outros, conforme o dom que recebeu.

Venerável Mestre, Deus  em sua infinita sabedoria, o colocou como dirigente de sua Loja, lugar onde pode aprender com eficiência e servir melhor.  Hoje o imaginei recitando a magnífica Oração de Amor de São Francisco de Assis, adaptada para nossos dias:

 “Ó Senhor, fazei de mim instrumento de tua paz:
Onde há ódio, faze que eu leve Amor e uma palavra de união;
onde há ofensa que eu leve o Perdão;
onde há discórdia e onde tantos procuram ser servidos, que eu leve a alegria de servir;
onde há dúvida, que eu leve a Fé;
onde há erro, que eu leve a Verdade;
onde tantos fecham a mão para bater, que eu abra meu coração para acolher;
onde há desespero porque a vida perdeu o sentido, que eu leve o sentido de viver, que eu leve a Esperança;
onde tantos sofrem a solidão que faz morrer, que eu seja o amigo que faz viver;
onde há tristeza, que eu leve a Alegria;
onde há trevas, que eu leve a Luz.

Ó Mestre faze que eu procure menos ser consolado do que consolar;
ser compreendido do que compreender;
ser amado do que amar;
onde tantos adoram a máquina, que eu saiba venerar o homem;
onde tantos endeusam a técnica, que eu saiba humanizar a pessoa;
onde tantos pedem o pão, que eu saiba ensinar a plantar o trigo;
onde tantos estão distantes, que eu seja  sempre presente.

Porquanto – é dando que se recebe;
é perdoando que se é perdoado;
e onde tantos morrem na matéria que passa que eu viva no espírito que fica;
pois, é morrendo que se ressuscita para a vida eterna.
Onde tantos olham para a Terra, que eu saiba olhar para o Céu.”

Ao passar o cargo

Finalmente, se na Palavra sobre o ato realizado, algum Ir.·. pedir a palavra e quiser falar sobre a mais elevada distinção de reconhecimento que um obreiro pode almejar de sua Loja, que não fale por muito tempo.

Digam para não mencionar carreira da vida profana ou maçônica – isso não é importante. Falem que um dia foi plantado uma semente, minúscula, e que nasceu a plantinha que ajudamos a adubar, a regar, a podar esta pequena árvore cresceu, floriu, deu frutos e hoje nossa Loja com nome, número, Carta Constitutiva Definitiva, Estandarte e Hino no qual se enaltece a glória de Deus, do Patrono e da história da Loja.

Digam para não mencionarem Iniciações, Elevações, Exaltações ou Filiações realizadas, pois essas fazem parte das atividades normais de uma Oficina.

Façam sim, referência ao nosso denodo para ajudar os outros. Que tentamos amar qualquer um e a todos os Obreiros.  Que procuramos ser justos.

Digam que não mencionem o sucesso que a Loja teve no equilíbrio das finanças, no trabalho sem igual da Secretaria, nas atividades da Chancelaria, isso não é importante.

Falem do esforço em arrecadar o possível para que nossa Hospitalaria pudesse apoiar as Associações que alimentam os moradores de rua, os que têm fome, que vestem os nus. Lembrem que acompanhamos os Irmãozinhos e familiares em suas enfermidades.

Concluindo

Ensinando, pesquisando, conversando, trazendo novas ideias à baila, mas principalmente revelando, em todos os momentos e ocasiões, o extremo dinamismo e amor à Ordem, que devem caracterizar aqueles que, um dia, tiveram a honra de ocupar o Trono de Salomão. Certo é que todos deixam sua marca na equipe – a única questão é o tipo de marca que cada um quer deixar.

E quando, por fim, formos atingidos pela foice da noite, nosso espírito poderá erguer seu voo de fronte altiva e satisfeito conosco mesmo, chegar aos pés do Redentor, cobrindo as marcas de nossos pés cansados, de mãos vazias, mais calejadas por termos legado à Humanidade a dádiva de uma existência que comoverá pela tenacidade, beleza, grandeza e pela abnegação que procuramos servir nossos Irmãos, nossa Loja e a Humanidade…

Autor: Valdemar Sansão

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O Orgulho, a Vaidade e a Ira no “Meio Maçônico”

O PECADO é uma atitude humana contrária às leis divinas tendo sido definido pela Igreja Católica, no final do século VI, durante o papado de Gregório Magno que anunciou para o mundo profano, os sete pecados capitais provenientes da natureza humana: avareza, gula, ira, luxúria, preguiça, soberba e vaidade.

Posteriormente, no século XIII, foram definitivamente incorporados e firmados pelo teólogo São Thomás de Aquino. Por questões práticas, no sentido de alcançar o nosso objetivo relativamente ao tema destacado, trataremos apenas dos três pecados capitais que permeiam com maior realce no nosso meio.

Neste sentido, necessário se faz que definamos cada pecado ou pelo menos identifiquemos suas principais características. Usamos o termo meio maçônico, entre aspas, no título deste artigo para destacar o antagonismo existente entre a postura que deve ser adotada nesse meio e os pecados capitais ou vícios de conduta citados, os quais, infelizmente, os percebemos.

Um dos sete pecados capitais que se manifesta nas pessoas na forma de ORGULHO e ARROGÂNCIA é a SOBERBA, termo que provém do latim –  superbia, é um sentimento negativo caracterizado pela pretensão de superioridade sobre as demais pessoas, levando à manifestações ostensivas de arrogância, por vezes sem fundamento algum em fatos ou variáveis reais.

As manifestações de soberba podem ser demostradas de forma individual ou em grupo. Nos casos de grupos, escolhidos ou eleitos, se firma na crença de que é superior.

A manipulação da soberba, do orgulho e da pretensão de superioridade de um grupo pode mobilizar conflitos sociais, onde os sentimentos de uma massa humana pouco crítica servem aos interesses políticos, econômicos, ideológicos de seu líder.

O soberbo quer superar sempre os outros, mas quando é superado, logo se deixa dominar pela inveja. Quando se sente ameaçado, atingido, procura depreciar os outros e vangloriar-se, sem que para isso se estruture para se superar ou até fazer uma avaliação da vida, dando-se em determinado momento por satisfeito.

O soberbo produz desarmonia na sociedade como estratégia para manter a soberba e se colocar sempre em evidência. A sociedade se tornando harmônica, com todos os indivíduos sendo e vivendo de maneira igual, liberta e fraterna, não propiciará espaço para a soberba.

Agindo com humildade se consegue combater a soberba nas suas mais diversas formas, evitando a ostentação, contendo as vaidades e fazendo com que o soberbo olhe o mundo não apenas a partir de si, mas principalmente ao redor de si.

O orgulho como uma das formas de manifestação da soberba se traduz pela satisfação incondicional do soberbo ou quando seus  próprios valores são superestimados, acreditando ser melhor ou mais importante do que os outros, demostrando vaidade e ostentação que em limite extremo transforma-se em arrogância.

A arrogância é uma outra forma de manifestação da soberba. É o sentimento que caracteriza a falta de humildade. É comum conotar a pessoa que apresenta este sentimento como alguém que não deseja ouvir os outros, aprender algo de que não saiba ou sentir-se ao mesmo nível do seu próximo.

O orgulho excessivo e a vaidade sem limites que se traduz na arrogância,  se mostra na forma de luta pelo poder econômico, pela posição social e pela perpetuação no poder.

Quando chega a ocupar cargo eletivo ou de nomeação busca impressionar os incautos, realçando o despotismo que trata  os súditos como escravos.

Diferentemente da ditadura ou da tirania, o despotismo não depende de o governante ter condições de se sobrepor ao povo, mas sim de o povo não ter condições de se expressar e autogovernar, deixando o poder nas mãos de apenas um, por medo e/ou por não saber o que fazer.

No Despotismo, segundo Montesquieu, apenas um só governa. É como não houvesse leis e  regras, arrebata tudo sob a sua vontade e seu capricho.

A VAIDADE humana, como um dos sete pecados capitais, se manifesta nas pessoas pela preocupação excessiva com o aspecto físico para conquistar a admiração dos outros, pela posição social que busca ocupar na sociedade ou através de ocupação de cargos.

Uma pessoa vaidosa pode ser gananciosa, por querer obter algo valioso, mas é só para promover ostentação perante os outros.

Um ser humano invejoso, por sua vez, identifica com bastante facilidade um ser humano vaidoso, pois os dois vícios se complementam, um é objeto do outro.

Nos Ensaios de Montaigne há um capítulo sobre vaidade. Um escritor brasileiro, Flávio Gikovate, tem se dedicado a analisar a influência da vaidade na vida das pessoas e seus impactos na sociedade.

Uma das abordagens da vaidade na literatura é feita por Oscar Wilde no livro “O Retrato de Dorian Gray”, onde o principal tema é a vaidade do personagem Dorian, onde o jovem é ao mesmo tempo velho, e o velho é ao mesmo tempo novo.

Por fim, trataremos da IRA como pecado capital.

A ira é uma atitude que às pessoas manifestam pelo sentimento de vingança, de ódio, de raiva contra seus semelhantes ou às vezes até contra objetos.

É uma emoção negativa que aniquila a capacidade de pensar e de resolver os problemas que a originam.

Sempre que projetamos a ira a outro ser humano, produz-se a derrubada de nossa própria imagem e isto nunca é conveniente no mundo das inter-relações.

A ira combina-se com o orgulho, com a presunção e até com a autossuficiência. A frustração, o medo, a dúvida e a culpa originam os processos da ira. A ira humana facilmente se torna pecaminosa.

Quando começamos a defender nosso Ego, quando atacamos alguém ao invés de atacar o erro dele, quando a chama da ira é alimentada, ela se torna um fogo que destrói.

Feitas as devidas considerações sobre o conjunto de alguns vícios da conduta humana ou pecados capitais, vamos nos transportar para o meio maçônico e estabelecer uma relação de homomorfismo para que possamos fazer uma reflexão sobre algumas práticas que constatamos no nosso cotidiano.

O comportamento de um maçom, segundo os ditames da nossa Sublime Ordem, deve ser irreparável.

Não se deve, nem se pode, adotar ação alguma que realce soberba, vaidade e ira, sobretudo quando essa ação é praticada por irmão que é autoridade maçônica, que ocupa cargo maçônico eletivo ou de nomeação.

Em caso de comportamento ou ação que comprometem a imagem da nossa ordem e atentam contra os postulados universais da Maçonaria.

Deve seu autor ser alertado por qualquer irmão que perceba o desvirtuamento no sentido de que o mesmo possa proceder a correção do seu comportamento ou ação.

O Irmão alertado deve receber a observação de forma natural entendendo que o irmão que o alertou o fez no sentido de promover a sua melhoria, o seu crescimento.

Nunca deve reagir com ira.

A excelência da Maçonaria se ergue sobre o suporte da Fraternidade e não do Ódio.

O irmão deve ter humildade suficiente para compreender o reparo. Não deve ser soberbo nem vaidoso e receber a crítica como construtiva, principalmente pelo fato de ocupar cargo maçônico.

Não há demérito para a autoridade maçônica quando é alertada por um irmão hierarquicamente inferior. Em primeiro lugar está o irmão maçom não a autoridade maçônica.

O Maçom tem por dever cavar masmorras aos vícios em todas as suas formas, inclusive aos vícios de conduta aqui anunciados, pois assim, estará levantando templos às virtudes e, por conseguinte, fazendo novos progressos.

As atitudes que expressam, com clareza, esses pecados capitais, esses sentimentos pífios e inconsequentes, que levam ao desânimo àqueles maçons que podem afirmar com toda propriedade “MEUS IRMÃOS COMO TAL ME RECONHECEM”, devem ser banidas do nosso meio.

As autoridades Maçônicas constituídas têm que asseverar a hierarquia sim, mas não cometer excessos.

Tem que conhecer, e conhecer bem a disciplina.

A disciplina e a hierarquia são sustentáculos da Maçonaria, logo, o verdadeiro Maçom deve ser um homem disciplinado e que respeita a hierarquia.

O  Maçom disciplinado é instruído, não é propenso a soberba, nem a vaidade e nem a ira.

O Maçom não tem orgulho, tem honra. O Maçom não tem vaidade, tem felicidade. O Maçom não tem ira, tem irresignação.

A disciplina se constitui de um conjunto de ações planejadas e coordenadas que obedecem regras, leis.

Portanto, para exercitar a disciplina precisamos nos deter aos ensinamentos maçônicos contidos na Prancheta de Traçar, na régua de 24 polegadas, no esquadro e no compasso.

Não podemos agir de forma desordenada, indisciplinada e exigirmos que os outros façam de forma diferente. Os nossos atos falam mais do que as nossas próprias palavras.

A Pior coisa que existe é o Maçom dar um bom conselho e em seguida um mal exemplo.

Valendo-me das sábias palavras do meu pranteado pai, que dizia: “meu filho se você quiser saber quem é a pessoa, não preste atenção o que ela diz, preste atenção o que ela faz”, pelo direito hereditário que me assiste, vou plagiar a máxima do meu velho e dizer: “meus irmãos se quiseres saber quem é o maçom, não preste atenção ao que ele diz e escreve, preste atenção ao que ele faz”.

O verdadeiro maçom se faz ser reconhecido, não pelas suas palavras, mas sim, pelos seus atos.

A maior autoridade é o exemplo. Quando recebemos críticas, sobretudo críticas construtivas, precisamos ser disciplinados para ouvi-las, processá-las, fazer uma autoavaliação e uma reflexão para melhorar nossos procedimentos, adequando-os as regras do bom convívio.

Precisamos dar bons exemplos, principalmente, para Aprendizes e Companheiros, eles precisam de bons ensinamentos, eles precisam serem bem instruídos, eles precisam de referência para defenderem a nossa Sublime Instituição.

Um Maçom disciplinado, instruído, é um maçom humilde, dedicado, útil, competente nos Augustos Mistérios.

Não é soberbo, não tem vaidade e não tem ira.

Nunca oportunista e inconsequente, nunca com comportamento de desrespeito aos Irmãos e aos nossos Templos Sagrados. Temos que fazer de nossos Templos, além do natural relicário da Fraternidade, centros operativos de Cultura e Civismo, na sustentação dos supremos fins de Liberdade, Justiça e Paz.

Um Maçom disciplinado, instruído, dificilmente será manipulado para se tornar massa de manobra e se deixar levar por ofertas de medalhas, títulos, cargos e elogios.

Um Maçom disciplinado e instruído ao ocupar cargos maçônicos jamais se transformará em um déspota.

Um Maçom disciplinado respeita às autoridades constituídas e os seus irmãos outros por entender, na essência, o estado democrático de direito, a importância administrativa e política desses cargos e o papel de cada um desses irmãos no processo de democratização da sociedade.

O maçom disciplinado entende que a livre expressão do pensamento como direito fundamental do homem em qualquer seguimento da sociedade moderna, sobretudo em uma sociedade maçônica, deve ser exercido na sua plenitude para transformação da sociedade na busca de melhores dias.

Um maçom disciplinado e instruído ver na autoridade maçônica, primeiro um irmão, não um superior hierárquico, e por este fato, exige comportamento maçônico deste.

As autoridades constituídas, mais que os demais irmãos maçons que não ocupam cargos, tem por obrigação dar bons exemplos.

A hierarquia e a disciplina, sobretudo a disciplina, têm levado a nossa Sublime Ordem a obter a confiança e o respeito da sociedade em todo orbi terrestre, contudo, é necessário que se saiba que de quando em vez nos deparamos com alguns irmãos que atropelam os limites e passam a claudicar no exercício do seu desiderato, promovendo a desarmonia, provocando a discórdia e, consequentemente, gerando a indisciplina.

O maçom pode e deve discordar de uma autoridade maçônica constituída quando esta não desempenha o seu cargo com dignidade, probidade, humildade e competência.

Logicamente, é ´preciso que seja feito dentro dos padrões de civilidade e de urbanidade, sem ira, com contestações fundamentadas e nunca levianas, uma contestação responsável que exija dessa autoridade o fiel cumprimento dos encargos que o cargo lhe impõe por estrita obrigação do dever.

O respeito à hierarquia deve acontecer visando servir à instituição e não à pessoas.

A nossa capacidade de opinar sobre a vida política e administrativa da nossa Obediência obtém maior expressividade no ato do voto, que é secreto, quando elegemos nossos representantes, quando elegemos um irmão para um cargo maçônico.

Lamentamos que os membros dos tribunais maçônicos, ainda, não sejam eleitos pelo povo maçônico.

ORGULHO, VAIDADE e IRA, essa trilogia não é nossa. Precisamos bani-la do nosso meio. Só depende de você, só depende de nós.

Autor: Otacílio Batista de Almeida Filho

*Mestre Instalado, membro da ARLS Obreiros da Justiça n.º 3209, Oriente de Campina Grande – PB

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Maçonaria e Filosofia – O ensaio de um adeus

“Homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses.” Sócrates 

A Maçonaria, tal como um austero templo românico, originalmente era harmoniosa. Um lugar de arte e espiritualidade, um legado de saber pouco dado a decorações supérfluas e fácil de definir no seu propósito. Contudo, os sucessivos restauros e acréscimos tornaram-na num edifício híbrido, desfigurado interiormente e adulterado no seu traçado original. Já houve uma Idade do Ouro maçônica, mas o tempo fez suceder as idades rapidamente e hoje é difícil encontrar a Luz que vinha do Oriente. 

A Maçonaria revestiu-se de muitas Maçonarias diferentes ao longo dos séculos, fazendo, nesse percurso, papel de heroína e vilã. Fundou nações, reclamou liberdades e direitos cívicos, mas procurou, de igual modo, liquidar a religião em nome do progresso. Defendeu os fracos e os aflitos, é certo, mas ajudou a manter no poder os já poderosos. A história da Maçonaria é uma história de contradições aparentemente irresolúveis, sujeita às paixões e temperamento dos próprios homens. 

Na concepção daqueles que originalmente redigiram os rituais e catecismos só havia uma Maçonaria. Tudo o que se desviava da ética, espiritual, estrutural e filosoficamente dos seus princípios fundamentais era uma fantasia criada por ignorantes da Arte Real. Efetivamente ao Maçom exigia-se que soubesse responder de maneira invariável a um conjunto de questões que descreviam a sua iniciação e definiam a Ordem. Dentro destes limites fazia-se Maçonaria. Fora deles estava o mundo profano. Hoje a Maçonaria é “plural”, feita de visões múltiplas e inconstantes nos seus princípios, estrutura e filosofia, e as perguntas e respostas de outrora já não são conhecidas da maioria dos Irmãos. As fronteiras entre o que é a Maçonaria e o mundo profano foram-se diluindo. 

Sob o mesmo nome “Maçonaria” subsistem um sem número de organizações de tendências diversas e não importa estar aqui a dissecar as inúmeras variantes conhecidas e os seus ritos mas, se nos reportarmos aos documentos antigos, verificamos claramente que existem limites simbólicos tradicionais na sua raison d’être. A Maçonaria de hoje, ao não aceitar limites, em tudo incluir, cai presa dessa enorme gula e, embora seja dita Universal, aceita negar esse mesmo Universo de onde provém. Assim sendo, o que é afinal a Maçonaria? 

Tal como todos os grandes conceitos como a Justiça e a Liberdade, a Maçonaria é uma afirmação em abstrato e outra bem diferente no plano concreto das realizações. Ali revela-se como uma sociedade iniciática, fraternal e simbólica, capaz de melhorar homens e de lhes dar uma visão de transcendência que os coloca numa posição justa e perfeita para intuírem a Verdade Universal, a essência das coisas, a Luz que sai por si mesma das trevas. Aqui está sujeita à imperfeição dos seus membros, ás suas paixões e ao seu entendimento limitado sobre o seu propósito e natureza. Cada um vive-a à sua maneira e move os limites filosóficos do que ela é realmente para os adaptar à sua estreita inaptidão humana, à dimensão do seu mundo. Os homens que não a entendem não querem crescer para abarcar a sua transcendência. Adaptam-na. Amputam-na. Reduzem-na para que caiba no bolso e se possa arrumar numa estante ou num vão de escada.  

Hoje, depois de três séculos de transformações na Maçonaria especulativa, é difícil encontrar uma definição aceitável para o que ela é. Um dos refúgios gerados pelo pensamento moderno é abordar a questão maçônica pelo lado utilitário. Não se trata apenas de saber o que é a Maçonaria, mas sim e também para que serve. É aqui, ao tentar-se ser objetivo que se perde a objetividade de entender que a Maçonaria é uma Escola Iniciática e nada mais. Sempre que procure ser outra coisa qualquer, perde simplesmente o rumo por perder a sua essência. Aliás, para a maior parte dos Maçons o conceito de Iniciação escapa totalmente à sua compreensão. A Maçonaria hoje perdeu o seu papel na sociedade porque a sociedade atual criou outras formas de fazer um seu equivalente. Por outro lado, a Maçonaria esqueceu-se do que é (uma via iniciática) e procura viver o que não é. Antes do mais, a Maçonaria não é uma sociedade filantrópica, caritativa e beneficente. Para fazer filantropia não são necessários templos, rituais, passagens de grau, nomes simbólicos, medalhas ou aventais.

Noutra perspectiva, a Maçonaria não é uma escola de doutrinamento moral e espiritual do indivíduo, porquanto a mesma não comporta uma doutrina. A Maçonaria também não é um fórum de livres-pensadores porque, para além de extravasar o quadro racional, há componentes dogmáticos de “livre pensamento” que excluem, por exemplo, o pensamento místico nas suas lojas. E será a Maçonaria um lobby? Há uma percepção pública, de índole negativa, em que a Maçonaria é tida como uma agência de interesses, um grupo de negociatas ou um areópago de decisões políticas. São conhecidas as tristes histórias de grupos de homens que se serviram do nome da Maçonaria para agirem em nome de interesses específicos e individuais pouco salutares. Os títulos de jornais chamaram-lhes Maçons, mas podiam dizer com a mesma legitimidade que eram advogados, arquitetos, membros do clube do livro ou adeptos de um determinado clube de futebol. 

Sendo a Maçonaria uma via iniciática esta implica uma transformação interior do indivíduo. A Iniciação obriga o homem a trabalhar as suas imperfeições e ambições, confrontando-o com elas. Assim, para ensinar a sabedoria e a virtude, a Maçonaria usa o véu dos símbolos. Os símbolos são, por sua vez, as regras da linguagem metafísica, do código linguístico partilhado por todos os seus estudantes. Há, assim, uma necessidade imperiosa de estudo no campo da Maçonaria. Nenhum homem se transforma se não se conhecer a si mesmo, como profetizou um dia o Oráculo de Delfos. E para se conhecer é preciso estudar! O estudo de si mesmo chama-se reflexão, o estudo do meio que nos envolve, sob o ponto de vista as grandes questões existenciais, chama-se Filosofia.

A Maçonaria aguçou em mim o profundo respeito pela Verdade. Só a Verdade é congruente. Como refere o Novo Testamento sobre o tema da Verdade: 

“Quem pratica a VERDADE, aproxima-se da Luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus.” (JOÃO 3:21)

“CONHECEREIS a verdade e a verdade vos LIBERTARÁ”. (JOÃO 8:32)

Como costumo referir algumas vezes em jeito de brincadeira, antes de ser Maçom já o era. Cruzei-me com a via maçônica, como antes escrevi outros textos, por “fatalismo” inevitável do destino. Digamos que era um acontecimento da minha vida destinado a sê-lo. Nesse propósito, a Maçonaria, para além de toda a áurea de mistério que desde sempre a envolveu na minha percepção, tinha a acompanhá-la um modelo (perfeito) de comportamento humano. E a Verdade, nesse quadrante, era para mim a sua pedra de toque. A verdadeira humildade do homem está em ser-se verdadeiro. Consigo e com os outros. Só na verdade se constroem os grandes desígnios humanos. Com o cinismo e com a hipocrisia por colunas nenhum edifício se portará à continuidade duradoura. Assim, no meu modesto entendimento, a Verdade é contígua à perfectibilidade. Individual e societária. Como determina o preceito bíblico, a Verdade aproxima-nos da Luz, de Deus, e, nenhuma instituição, pessoal ou societária, se deve desviar do seu Oriente. Como Maçom é-me imperativo dizer a Verdade, mesmo que incômoda, no seio da loja a que pertenço. O direito à crítica, desde que justa e necessária, deve prevalecer sobre as conveniências relacionais. Expresso o meu direito à crítica, nesta prancha, por entender que o caminho maçônico trilhado pela nossa Ordem não o é. Pelo menos não o é como eu o entendo. Não que tenha a fórmula e o conhecimento exatos do que é a Maçonaria justa e perfeita, mas tenho, pelo menos, a formulação e equação do seu estudo e trabalho. Tenho o direito à crítica, construtiva, por entender merecer o direito de opinar sobre o que me parece incorreto e enviesado no caminho trilhado. 

Ter Irmãos em loja que sentem que fazer Maçonaria é “fazer acontecer” em contraposição a um pretenso intelectualismo de “clube do livro”, denegando a essência filosófica da obra maçônica, não é, no meu entendimento, conhecer da verdadeira via iniciática. A Maçonaria não são as obras paramaçônicas nem os encontros de lazer (e de trabalho) entre Irmãos fora das portas do Templo. Poderão dela fazer parte como complemento, natural e afetivo, de uma relação de fraternidade. Não são a prioridade! E não o são para os Maçons que têm da Maçonaria porventura uma visão, se quiserem, mais “filosófica”! Há espaço para todos na Maçonaria, mas dentro da Maçonaria, não no reduto das nossas prioridades de estômago! Muita celeuma se levantou, durante estes tempos de pandemia, sobre a impossibilidade de se realizarem sessões maçônicas com mais de dez maçons em templo. Correto. Era de lei, da sua interpretação, e uma questão de premente salvaguarda da saúde pública. No entanto, na primeira oportunidade de se organizarem os conhecidos almoços de clube não se hesitou, por um segundo, em se equacionar sobre a moralidade/legalidade de tais atos. Se para as realizações de sessões em loja se levantaram as “armas e os barões assinalados” porque se renderam tão facilmente às seduções das ninfas de Pantagruel? 

Alguns Irmãos tomaram esta minha posição, já feita no fórum do WhatsApp, como se de um ataque pessoal se tratasse. Nada mais errado! Nada tenho contra as realizações da “maçonaria à mesa”, como as classifiquei de forma amistosa, porque sei que muita obra se produziu às mesas do restaurante do … FC, mas a pergunta subsiste: é preciso ser-se sócio do clube para nos inteirarmos das obras maçônicas da Ordem? E quem não participa dos prazeres da cabidela? 

Insisto, a Maçonaria tem o seu campo específico e os assuntos paramaçônicos devem ficar circunscritos ao espaço de quem deles quer participar. Não devem, em circunstância alguma, sobrepor-se aos vetores estritamente maçônicos. Todos os projetos culturais discutidos para a Ordem não saíram do seu juízo de intenções, da sua fátua vontade em fazê-los, do seu jogo de vaidades pueris. É isso que lamento. À mais ténue tentativa de realização dos nossos prazeres de mesa dispomo-nos prontamente aos “trabalhos maçônicos”, mas para apresentar Filosofia Maçônica, seja num simples trabalho escrito ou numa palestra pública, isso é trabalho para as calendas gregas (sempre a Grécia, maldita Filosofia!) …

Além de que não é unânime que esse seja esse o vetor e razão substancial da existência da Ordem, da obra maçônica em si. Como ficamos, afinal? Há uma essência filosófica na aspiração maçônica ou a prioridade são as realizações paramaçônicas, obras de realização física, de importância primordial na sociedade (e ainda mais nos tempos que vivemos), mas necessariamente coincidentes com as realizações de outras instituições profanas?

Este é o meu terceiro ensaio de saída. Aquilo que me motivou a voltar, das outras duas vezes em que saí, era muito mais forte que as razões para o abandono. Neste momento, quando se percebe que o livre pensamento, pedra basilar na construção do edifico maçônico, ofusca a fundação das relações pessoais, é sentido que é hora para o abandono definitivo. Não que deixe alguma vez a condição de Maçom; isso vou sê-lo eternamente. Aliás, antes de o ser já o era. Nada me demove nas minhas convicções de espírito, na minha fundação da Verdade, no meu propósito de homem e Maçom. Ser-se Maçom é ser-se livre, frontal e arrojado nas suas ideais, expressando-se as na sua clareza de espírito e no desassombro das suas convicções. A Maçonaria é uma escola de Mistérios, que leva o Homem a combater os seus vícios e exaltar as suas virtudes. A livre expressão da palavra, palavra essa pela qual tantos homens (e tantos Maçons) deram a vida para a deterem e usarem expressamente, é o cinzel do Maçom, o seu controle da vontade e a expressão visível da sua futura obra. Nenhum Maçom é Maçom sem obra feita, sem um caminho trilhado no qual outros Irmãos se revejam e nele se reconheçam como tal. Aspirar a ser-se Maçom sem um compromisso de Vontade, sem a sua expressão da Verdade e sem o seu manifesto de Virtude, é o mesmo que tentar fazer Filosofia numa gaiola de vaidades. 

Encerro este meu percurso nesta Ordem com um manifesto trinitário. Elaborei antes dois trabalhos onde concatenei a Maçonaria com a Psicologia (o Ego) e com a Literatura (a Poesia), encerro hoje com a Filosofia (como manifesto de um adeus). Para mim não existe Maçonaria sem Filosofia, porque a Maçonaria é razão e sentimento. É mente e coração. Pensar sem filosofar é esquadrinhar o vazio sem o propósito do Conhecimento. Saber sair quando as circunstâncias o impõem não é um ato de amuo, de vindicta momentânea, de afirmação dum ego pretensamente ofendido, é sim uma afirmação filosófica, um ato de amor maçônico. A Maçonaria que alguns dos meus Irmãos pretendem praticar nesta Ordem não é a minha Maçonaria, não é a Maçonaria que eu concebo por via iniciática. Por saber que posso ser eu a estar errado deixo-vos em liberdade decisória, mas também em incerteza filosófica. Do caos surgirá a ordem, hoje e sempre. 

Até sempre!

Autor: [Giordano Bruno], M∴M∴

Fonte: Academia.edu

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A Cadeira de Salomão

Denomina-se de Cadeira de Salomão a cadeira onde toma assento o Venerável Mestre da Loja quando a dirige em sessão ritual.

Em si, não tem nada de especial. É uma peça de mobiliário como outra qualquer. É como qualquer outra cadeira. Porventura (mas não necessariamente) um pouco mais elaborada, com apoio de braços, com maior riqueza na decoração, com mais cuidado nos acabamentos. Ou não…

Como quase tudo em maçonaria, a Cadeira de Salomão tem um valor essencialmente simbólico. Integra, conjuntamente, com o malhete de Venerável e a Espada Flamejante (esta apenas nos ritos que a usam), o conjunto de artefatos que simbolizam o Poder numa Loja maçônica. Ninguém, senão o Venerável Mestre, usa o malhete respetivo. Ninguém, senão ele, utiliza a Espada Flamejante. Só ele se senta na Cadeira de Salomão.

A Cadeira de Salomão destina-se, pois, tal como os outros dois artefatos referidos, a ser exclusivamente utilizada pelo detentor do Poder na Loja. Assim sendo, importante e significativo é o nome que lhe é atribuído. Não se lhe chama a Cadeira de César ou o Trono de Alexandre. Sendo um atributo do Poder, não se distingue pelo Poder. Antes se lhe atribui o nome do personagem que personifica a Sabedoria, a Prudência, a Justa Sageza. Ao fazê-lo, está-se a indiciar que, em Maçonaria, o Poder, sempre transitório, afinal ilusório, sobretudo mais responsabilidade que imperiosidade, só faz sentido, só é aceito, e portanto só é efetivo e eficaz se exercido com a Sabedoria e a Prudência que se atribui ao rei bíblico.

Quem se senta naquela cadeira dispõe, no momento, do poder de dirigir, de decidir, de escolher o que e como se fará na Loja. Mas, em maçonaria, se é regra de ouro que não se contraria a decisão do Venerável Mestre, porque tal compromisso se assumiu repetidamente, também é regra de platina que, sendo-se livre, não se é nunca obrigado a fazer aquilo com que se não concorda. O Poder do Venerável Mestre é indisputado. Mas, para ser seguido, tem de merecer a concordância daqueles a quem é dirigido. E esta só se obtém se as decisões tomadas forem justas, forem ponderadas, forem prudentes. O Poder em maçonaria vale o valor intrínseco de cada decisão. Nem mais, nem menos.

A Cadeira de Salomão é pois o lugar destinado ao exercício do Poder em Loja, com Sabedoria e Prudência. Sempre com a noção de que não é dono de qualquer Poder, que só se detém (e transitoriamente) o Poder que os nossos Irmãos em nós delegaram, confiando em que bem o exerceríamos.

Não está escrito em nenhum lado, não há nenhuma razão aparente para que assim tenha de ser. Mas quase todos os que se sentaram na Cadeira de Salomão sentem que esta os transformou. Para melhor. Não porque esta Cadeira tenha algo de especial ou qualquer mágico poder. Porque a responsabilidade do ofício, o receber-se a confiança dos nossos Irmãos para os dirigirmos, para tomar as decisões que considerarmos melhores, pela melhor forma possível, por vezes após pronúncia dos Mestres da Loja em reunião formal, outras após ter ouvido conselho de uns quantos, outras ainda em solitária assunção do ônus, transforma quem assumiu essa responsabilidade. A confiança que no Venerável Mestre é depositada pelos demais é por este paga com o máximo de responsabilidade. Muito depressa se aprende que o Poder nada vale comparado com o Dever que o acompanha. Que aquele só tem sentido e só é útil e é meritório se for tributário deste.

A primeira vez que um Venerável Mestre se senta na Cadeira de Salomão não lhe permite distinguir se é confortável ou não. Não é apta a que sinta que se encontra num plano superior ou central ou especial em relação aos demais. A primeira vez que um Venerável Mestre se senta na Cadeira de Salomão vê todos os rostos virados para ele. Aguardando a sua palavra. Correspondendo a ela, se ela for adequada. Calmamente aguardando por correção, se e quando a palavra escolhida não for adequada. A primeira vez que um Venerável Mestre se senta na Cadeira de Salomão fá-lo instantaneamente compreender que está ali sentado… sem rede!

E depois faz o seu trabalho. E normalmente faz o seu trabalho como deve ser feito, como viu outros antes dele fazê-lo e como muitos outros depois dele o farão. E então compreende que não precisa de rede para nada. Que o interesse é precisamente não ter rede…

Quem se senta na Cadeira de Salomão aprende a fazer a tarefa mais complicada que existe: dirigir iguais!

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Quando o GOB era Socialista e a guinada maçônica brasileira ao Conservadorismo

1 – A promotora do Ensino Laico…

Muitos dos maçons brasileiros da atualidade, tão tolerantes, para não dizer concordantes, com discursos e argumentos considerados reacionários, quando não pró-ditadura, talvez não imaginem que o GOB – Grande Oriente do Brasil por anos defendeu oficialmente a bandeira socialista.

Isso ocorreu em decorrência das ações sociais maçônicas promovidas durante a última década do século XIX e as duas primeiras do século XX, quando, após a Proclamação da República, a Maçonaria resolveu colaborar para o desenvolvimento de um estado laico, focando principalmente no ensino laico, que foi levado tão a sério a ponto do Grande Oriente do Brasil, em 1915, decretar que:

O ensino primário da língua nacional é obrigatório para todos os filhos de maçons entre sete e doze anos. (…) Em todos os orientes onde não houver escolas gratuitas mantidas pelo governo no país, ou por associação leiga de qualquer natureza, as Lojas e os maçons aí residentes são obrigados a suprir essa falta e a essa missão. (…) As escolas assim criadas serão públicas. (GOB. Decreto No. 513 de 23/12/1915).

O resultado dessa política obrigatória foi computado em uma pesquisa interna realizada pelo GOB em 1922, quando se tinha o registro de 132 escolas maçônicas públicas e 22 bibliotecas maçônicas públicas. A maioria dessas escolas era noturna e técnica, voltada a trabalhadores adultos analfabetos (BARATA, 1999).

No entanto, juntamente com a promoção do ensino laico e a formação de profissionais em suas escolas técnicas, surgiu no Grande Oriente do Brasil uma preocupação quanto a exploração desses trabalhadores. E a única literatura que combatia tal exploração naquela época era a socialista. Por essa razão, o Grande Oriente do Brasil apresentou em seus boletins, entre 1892 e, pelo menos, 1917, uma série de manifestações oficiais a favor da implementação do socialismo no Brasil. Afirmava acreditar “no dia da vitória da causa socialista” (Boletim do GOB, No. 12, 1892), e que “devemos concluir que a maçonaria e o socialismo têm numerosos pontos de contato” e os maçons brasileiros deveriam “cooperar com o socialismo para o triunfo definitivo de seus bons e sagrados ideais” (Boletim do GOB, No. 5, 1917).

Fato é que, naquela época, ocorreram inúmeras “conferências maçônico-socialistas” no Brasil, promovidas pelo GOB e suas Lojas, e o discurso socialista no âmbito maçônico só diminuiu o tom quando a revolução soviética triunfou e começaram a chegar as notícias de perseguição à Maçonaria na Rússia e em outros países (MOREL; SOUZA, 2008).

Você pode estar agora se perguntando: mas o que levou à Maçonaria brasileira a essa guinada, de socialista a reacionária?

2 – De perseguida na Ditadura Varguista…

Depois de ter sua chama socialista abafada pela perseguição soviética à Maçonaria, a Maçonaria brasileira passou praticamente toda a década de 20 vivenciando os atos que culminaram na grande cisão maçônica de 1927, que originou as Grandes Lojas Estaduais brasileiras (PIRES, 2015). O cenário maçônico brasileiro então iniciou a década de 30 polarizado. De um lado o Grande Oriente do Brasil tentando se reestruturar do caos gerado pela cisão. Do outro, as recém-criadas Grandes Lojas Estaduais tentando se estruturarem e criar novas Grandes Lojas nos Estados que ainda não havia. A busca pela felicidade da sociedade brasileira teria que esperar. Mas, pelo menos, o Presidente da República, Washington Luís, era maçom!

No entanto, este nono Presidente da República maçom, dentre os 13 primeiros Presidentes que houve no Brasil, sofre, em 24 de outubro de 1930, um golpe militar. Assume o poder Getúlio Vargas, que acaba sinalizando favoravelmente ao discurso antimaçônico dos integralistas, tão comum nas ditaduras. Trata-se da crença na teoria da conspiração judaico-maçônica-socialista, promovida pela Igreja Católica, dentre outras instituições.

Ao decretar, em 1937, estado de guerra interna, Vargas determina o fechamento de todas as Lojas Maçônicas, pela suspeita das Lojas terem comunistas infiltrados. Considerando as conferências maçônico-socialistas e os boletins oficiais do GOB na década anterior, isso não era de se estranhar.

Durante a Ditadura de Vargas, Octávio Kelly, que havia sido Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil no período da cisão, foi nomeado para o Supremo Tribunal Federal, posto que ocupou de 1934 a 1942. Mas, enquanto muitas lideranças maçônicas da época esperavam nessa nomeação a salvação da Maçonaria brasileira contra o fechamento sumário de suas Lojas, Octávio Kelly não realizou qualquer pronunciamento contra o fechamento das Lojas enquanto
ministro do STF, traindo assim a Maçonaria. Para os apoiadores de Mário Behring, o qual falecera em 1933 como o maior desafeto de Octávio Kelly, isso era o mínimo que se podia esperar de alguém que colocava o interesse por cargos e títulos acima do interesse da instituição.

Nessa época, o GOB, então governado por um General, optou por se submeter e colaborar com o novo regime em detrimento de seus próprios membros (entre eles alguns comunistas) e dos ideais maçônicos (de Liberdade, por exemplo). O Decreto 1.519 de 03 de março de 1938, tratou de substituir o lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, então considerado muito “revolucionário”, por “Ordem, Fraternidade e Sabedoria” (pasmem); enquanto que o Decreto 1.579, de 02 de junho de 1938, determinou a expulsão automática, sem efeito suspensivo de recurso, de maçons que “professarem ideologias contrárias ao regime político-social brasileiro” (CASTELLANI, 2003, p. 25).

Mas, sejamos justos: a colaboração com a Ditadura de Vargas não ficou restrita ao GOB, sendo também observada no Supremo Conselho de Behring e por algumas Grandes Lojas. O retorno oficial da Maçonaria brasileira e a reabertura de suas Lojas somente veio ocorrer em novembro de 1939.

Apesar do retorno oficial, a ditadura varguista não aliviou para a Maçonaria. O local das reuniões e suas datas tinham de ser informados aos delegados da Ordem Pública, assim como os nomes completos e dados de todos os membros de cada Loja. E não era raro um Venerável Mestre ser intimado a depor se um ou outro membro de sua Loja era comunista ou simpatizante.

Cabe registrar que também foi na Era Vargas, mais precisamente em 1935, que o Grande Oriente do Brasil opta por voltar atrás na decisão tomada anteriormente pelo patriota Lauro Sodré (que, em 1912, havia garantido a soberania nacional maçônica), abrindo as portas para a criação de uma Grande Loja Distrital da Grande Loja Unida da Inglaterra em território brasileiro e concedendo Lojas a essa Grande Loja Distrital, em troca de que a Grande Loja Unida da Inglaterra não reconhecesse suas novas concorrentes, as Grandes Lojas Estaduais que surgiram da cisão de 1927 (ISMAIL, 2014).

3 – A defensora da Ditadura Militar…

Nas duas décadas seguintes, de 40 e 50, o mundo viveu o medo, guerras e consequências da Guerra Fria, polarizada entre comunismo e capitalismo. E já no início da década de 60, o Grande Oriente do Brasil, aquele mesmo que, por muitos anos defendeu em seus boletins oficiais o socialismo, passa a condenar, mais especificamente em 1963, o movimento grevista sindical.

Nessa época o Brasil começa a sofrer com a pressão da classe média e dominante contra o proletariado, simbolizado, principalmente, pela “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, ocorrida no início de 1964 e promovida por senhoras católicas de classe média e alta, que pediam pela deposição do presidente da República. Em muitas localidades, a marcha contou com o apoio de Lojas Maçônicas.

As preces das carolas foram escutadas pelos militares, que mobilizaram, em 31 de março de 1964, tropas rumo ao Rio de Janeiro, iniciando assim a ditadura militar. Três dias depois, o GOB já se manifestava oficialmente a favor do golpe (ou seria revolução?), que “neutralizou os perigos do comunismo e do caos” (MOREL; SOUZA, 2008, p. 231). Essa foi a primeira de muitas outras manifestações formais e públicas em favor do governo militar, realizadas nos anos seguintes.

Sem realizarmos qualquer juízo de valor, é curioso observar que a obediência maçônica que censurara as Lojas paulistas que apregoaram a proclamação da República no final do século XIX, por estarem se manifestando politicamente, o que era contra os princípios maçônicos; é a mesma que se manifestou por anos a favor do socialismo e em defesa dos direitos dos trabalhadores no início do século XX, mesmo isso indo contra os tais princípios maçônicos; e passa então a se manifestar a favor da ditadura e contra o comunismo, na segunda metade do século XX. Qual a razão para isso? Não podemos ignorar o fato, explicitado anteriormente, da Ditadura Varguista ter fechado as Lojas Maçônicas. Diante de uma nova ditadura militar, pode-se supor que fora uma simples estratégia de sobrevivência, como muitos pesquisadores assim defendem. O que se tem registrado é que esse discurso pró-ditadura militar foi acompanhado de incontáveis condecorações e homenagens maçônicas concedidas a militares e civis postos no poder por vias não democráticas.

Dois manifestos públicos foram divulgados pelo GOB durante a Ditadura Militar. O primeiro apontava as razões da incompatibilidade entre o comunismo e a Maçonaria (sim, pela mesma Obediência que, em 1917, havia concluído oficialmente que “a Maçonaria e o Socialismo têm numerosos pontos de contato”). No segundo manifesto, no período mais duro da Ditadura, o de Médici (1969-1974), o GOB ataca diretamente os críticos às Forças Armadas, ao dizer que esses críticos estavam “ignorando deliberadamente o seu relevante papel histórico na unificação e integração nacional ou apontando-a como opressora do povo, quando, ao contrário, o seu papel em 31 de março de 1964 foi, justamente, o de libertadora da nação”. Esse manifesto foi publicado justamente no cume de prisões, torturas, exílios, desaparecimentos e mortes do regime militar, o que não pegou muito bem para o Grande Oriente do Brasil.

4 – E, por fim, baluarte do conservadorismo

A ditadura militar, enfim, acabou, na década de 80. E como a Maçonaria saiu desse período e assistiu ao fim do século XX? Uma dúzia de anos antes do fim da ditadura, o GOB havia sofrido sua segunda grande cisão, por questões eleitorais (SOBRINHO, 1998). Já externamente, segue aqui uma pequena reflexão de Morel e Souza (2008, p. 237) a respeito:

Finda a ditadura, em 1985, a maçonaria brasileira precisaria, novamente, repensar seus valores, reaver seus princípios originais. Toda autoanálise, porém, não conseguiria fazer com que a ordem retomasse uma trajetória que, há quase um século, havia sido abandonada. Já era fato consumado que, de liberal e crítica no século XIX, passando pelo servilismo ao estado varguista nos anos 1930 e 1940, a maçonaria brasileira chegara ao fim do século XX como baluarte do conservadorismo. (GRIFO NOSSO)

A reflexão dos autores Morel e Souza condiz com o estranhamento que alguns críticos apresentam ao se depararem com os postulados maçônicos que afirmam se tratar de uma instituição “progressista”, enquanto assistem a Lojas, e até mesmo Obediências Maçônicas, realizando menções honrosas ao período da Ditadura Militar e condecorando acusados de tortura.

Enfim, o Brasil atravessou o final do século XX reexperimentando a democracia direta e contando com uma Maçonaria brasileira dividida basicamente em três vertentes (isso sem contar as cisões menores vivenciadas por essas), sem qualquer expressão política em nível nacional, sem a maioria das escolas e bibliotecas públicas que havia criado no final do século XIX e no início do XX, sem relevantes projetos sociais permanentes, sofrendo mais de um século de ataques da Igreja Católica e de outras denominações religiosas que adotaram posteriormente o mesmo discurso preconceituoso. Uma Maçonaria vivendo do passado, de sua glória no período entre 1822 e 1930, sem qualquer ação relevante nas décadas seguintes (apenas algumas um tanto quanto constrangedoras).

Durante a década de 90, num país que, aos poucos, passava a ser governado principalmente pelos perseguidos e aquelas lideranças estudantis que sofreram a ditadura militar, a Maçonaria brasileira se viu condenada por boa parcela da sociedade brasileira economicamente ativa, não sendo mais atrativa aos novos intelectuais, lideranças e formadores de opinião como havia sido anteriormente.

Deve-se levar em consideração que a Maçonaria, anteriormente às democracias
contemporâneas, já praticava uma forma de governança democrática, na qual o voto já era bem do indivíduo e não por propriedade ou localidade (JACOB, 1991), o que reforça a teoria da Maçonaria como uma instituição emancipadora do indivíduo e uma das precursoras do ideal democrático. Um dos vários exemplos que relacionam Maçonaria e democracia é a indiscutível participação da instituição na independência dos Estados Unidos (BULLOCK, 1996), tida como a primeira nação democrática do mundo moderno.

Torna-se, assim, plausível a proposição de que a Maçonaria, munida do mais profundo princípio de igualdade entre os homens, realmente colaborou, por intermédio da liderança libertadora de seus membros, para a implementação dos primeiros regimes democráticos. E no Brasil não foi diferente, tendo a mesma colaborado para a proclamação da república. Entretanto, a postura foi outra durante as duas ditaduras vividas pelo país no século XX, um século em que a Maçonaria brasileira praticamente não pôde viver seus princípios (o que significaria lutar pela democracia), mas apenas garantiu sua própria sobrevivência, ensinando lições que mal praticava enquanto instituição.

Autor: Kennyo Ismail

Fonte: No Esquadro

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Referências Bibliográficas

BARATA, A. M. Luzes e sombras: a ação da maçonaria brasileira (1870-1910). Campinas: editora Unicamp, 1999.

BULLOCK, S. C. Revolutionary Brotherhood: Freemasonry and the Transformation of the American Social Order, 1730–1840, Chapel Hill, 1996.

CARVALHO, W. A. Pequena História da Maçonaria no Brasil. REHMLAC, Vol. 2, No.1, 2010, p. 31-58.

CASTELLANI, J. Fragmentos da Pedra Bruta. Londrina: Editora A Trolha, 2003.

CASTELLANI, José. Do Pó dos Arquivos, Vol. III. Londrina: Editora Maçônica A trolha, 2003.

COSTA, Cruz. O Positivismo na República. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956.

ISMAIL, Kennyo. A colonização maçônica inglesa: na contramão dos princípios maçônicos. Revista C&M, Vol. 2, n.2, 2014, p. 97-104.

JACOB, M. C. Living the Enlightenment: Freemasonry and Politics in Eighteenth-Century Europe. New York: Oxford University Press, 1991.

LINHARES, Marcelo. A Maçonaria e a Questão Religiosa do Segundo Império. Coleção Ruy Santos. Brasília: Senado Federal, 1998.

MORAIS, Efraim; CAVALCANTI, Mozarildo. O Senado e a Maçonaria: Uma coletânea de discursos. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008.

MOREL, Marco; SOUZA, Françoise Jean de Oliveira. O poder da maçonaria: a história de uma sociedade secreta no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

PIRES, Joaquim da Silva. A Cisão Maçônica Brasileira de 1927. Londrina: Editora Maçônica “A Trolha”, 2015.

SILVA, M. J. D. Maçonaria e laicismo republicano na imprensa católica cearense. Revista C&M, Vol. 1, n.1, 2013, p. 7-19.

SOBRINHO, Octacílio Schüler. Uma Luz na História: o sentido e a formação da COMAB. Florianópolis: Ed. O PRUMO, 1998.

SOUSA, Octávio Tarquínio de. Fatos e Personagens em Torno de um Regime. São Paulo: Editora USP. 1988.

SUPREMO Conselho do Brasil. Revista Astréa de Estudos Maçônicos, Rio de Janeiro: Ano: II, Nº 04, 1928.

SWANSON, P. A História da Maçonaria Simbólica ‘Craft’ no Brasil. Rio de Janeiro: Comp. Litho Ferreira Pinto, 1928.

O sentido da vida

Todo o ser humano, mais tarde ou mais cedo, mais ou menos frequentemente, se interroga sobre o sentido da vida. As religiões resultam, em última análise, dessa primordial interrogação, procurando cada uma delas dar resposta à mesma. 

Confrontado com a crença religiosa que a sua cultura lhe disponibiliza, o indivíduo tem, basicamente, uma de três reações. Ou aceita essa doutrina, ou a rejeita ou aceita elementos, ainda que modificando-os, dessa tradição, mas busca ir mais além e mais fundo.

Se o indivíduo aceita a doutrina da crença religiosa que a sua cultura lhe disponibiliza, o seu problema está resolvido: o sentido da sua vida contém-se nos princípios dessa doutrina, cumpre, ou procura cumprir, os preceitos dessa religião e busca a Salvação ou a Evolução que a doutrina da sua religião preconiza. Sabe qual é o seu lugar e a sua função no mundo e na vida. Não precisa de se questionar mais.

Se o indivíduo rejeita a crença religiosa que a sua cultura lhe disponibiliza, das duas, uma: ou fá-lo porque se identifica com outra doutrina religiosa, a que se converte, ou, pura e simplesmente não crê. Na primeira hipótese, o seu problema de responder à interrogação primordial sobre o sentido da vida fica resolvido, em termos semelhantes à situação anterior. 

Se a rejeição da crença religiosa ocorre porque, pura e simplesmente, não crê, o seu problema fica também resolvido, mas com outra resposta: não existe qualquer sentido na vida, a vida, como o Universo, resulta de uma combinação de fatores físicos e químicos, tudo se resume ao mundo material, onde se nasce, vive-se o melhor que se pode e um belo dia morre-se e nada de nada resta, para além do que se enterra ou é cremado, para dar lugar a outros que, sucessivamente, nascerão, viverão e morrerão, sem que deles nada reste também, para além do que se enterra ou é cremado, até que um dia uma qualquer combinação de fatores físicos e químicos a tudo ponha fim – do começo ao final nada faz sentido, tudo sucede, sucedeu e sucederá por acaso, por mecânica combinação de uma miríade de fatores físicos e químicos.

Se o indivíduo, confrontado com a crença religiosa da sua cultura, aceita, ainda que modificando-os, elementos dessa tradição, mas busca ir mais além e mais fundo, esse é o que mais longa e persistentemente se debate com a interrogação sobre o sentido da vida. A resposta institucional não o satisfaz, a opção no ateísmo materialista também não. Esse rejeita que tudo sucedeu por acaso, por mera consequência de fatores físicos e químicos e que a vida não tenha sentido. Esse considera que existe, sim, um sentido na vida, ainda que ele o desconheça, mas entende que existe um Propósito, um Objetivo, na existência do Universo e, principalmente, da Vida. O que materialmente vê e sente é apenas uma parte do quadro da Vida. Acredita que outros planos de existência ocorrem, que a passagem por este plano material tem um propósito, simplesmente não se satisfaz plenamente com as respostas dadas pela religião da sua cultura – nem com as respostas dadas pelas demais religiões.

Esse, ou se conforma com o desconhecimento e vive segundo os preceitos da sociedade em que se insere, ainda que porventura os não aceitando plenamente, ou busca, por si, com a sua Razão, resposta ou caminhos para resposta suscetível de o satisfazer. É crente, mas não se identifica com nenhuma religião em concreto. É crente porque a sua Razão o conduz a que o seja, mas, por isso mesmo, procura as respostas por si mesmo. É o que se denomina de deísta.

Há ainda os que – talvez a maioria – vão evoluindo ao longo da sua vida, em resultado do seu crescimento, das suas experiências, dos seus encontros e desencontros com pessoas, ideias e ideais. O mesmo indivíduo pode, ao longo da sua vida, passar por mais do que um – no limite, até por todos – dos estádios acima referidos.

Cada um é como cada qual. A pergunta – qual o sentido da vida? – é a mesma, impõe-se a todos, mas cada um dá-lhe a resposta que entende ou que pode dar e, se muda os termos dessa resposta, uma ou várias vezes, é porque a sua natureza o impele a assim fazer.

Muitos, a maioria, interrogam-se sobre o sentido da vida na solidão do diálogo consigo próprio ou podem apenas obter as respostas institucionalizadas da sua tradição religiosa. Outros confrontam a sua interrogação com as similares interrogações de outrem, e daí resultam apostasias, conversões, mas também lutas, por vezes ferozes, ou indiferenças perante as diferenças.

Há uns quantos, porém, que têm a possibilidade de colocar essa interrogação em conjunto com outros, sem confrontos, com aceitação das respostas de cada um, com partilha de pontos de vista e de experiências, pondo todos em comum o que cada um tem, de forma a que cada um retire do todo posto em comum o que necessite para ir mais além e mais fundo, na sua busca pessoal de resposta à interrogação primordial que o venha a satisfazer.

Esses são os maçons!

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Pérolas em lojas maçônicas

“A única coisa a fazer com os bons conselhos é passá-los a outros; pois nunca têm utilidade para nós próprios” (Oscar Wilde).

As pérolas têm origem biológica e são produzidas por alguns moluscos, as ostras e mexilhões, em reação a corpos estranhos que invadem os seus organismos, como vermes ou grãos de areia, provocando um tipo de irritação e, ao defender-se do intruso, segregam uma substância branca, brilhante e rica em calcário, o nácar ou madrepérola, que ataca esse agente, cristalizando-se rapidamente, dando origem a um material geralmente esférico.

Apreciadas desde a Antiguidade, com referências que datam de cerca de 2000 anos a.C., simbolizam a pureza e a beleza. Há registros de que durante a Idade Média, nos séculos XIII e XIV, o uso de pérolas era restrito, em muitos países europeus, à aristocracia por força de lei, como símbolo de poder e de riqueza, sendo usadas como adorno nas mais valiosas joias da época.

Variadas são as interpretações simbólicas sobre o processo de formação das pérolas, notadamente quando vistas como o resultado de um processo de cura decorrente de um sofrimento doloroso. Ensina Rubem Alves que “ostra feliz não faz pérola”. Segundo esse autor, “isso é verdade para as ostras e é verdade para o ser humano”.

A presente reflexão derivou-se do conselho de um provecto irmão que se diz calejado e não se surpreende mais com o inusitado. Segundo ele, conforme a situação da Loja, é melhor não argumentar quando a gestão do momento não se abre nem sequer se mobiliza para o incremento dos conhecimentos ou incentivo aos debates e integração, limitando-se a inibir manifestações nesse sentido e a focar apenas na ritualística, às vezes alterando-a a seu bel-prazer, muitas vezes sôfrega e claudicante.

“É como lançar pérolas aos porcos”, afirma ele, “não devemos gastar nosso tempo em produzir trabalhos que causarão mais desconforto do que satisfação, pois não estão ainda prontos para ouvir e debater”, e arremata: “pode ser que na próxima administração tenhamos espaço para contribuições”.

Em Mateus 7,6 Jesus alerta:

“Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem.”

Na alegoria bíblica, porcos e cães eram associados à impureza e ao perigo. No contexto bíblico, a referência envolvia pessoas resistentes ao evangelho que lhes era pregado. Assim, jogar uma pérola ao porco poderia ofendê-lo como se tivesse sido atingido por uma pedra. O gesto de dar pérolas aos porcos pode significar gastar o que temos de precioso com quem não aprecia ou recusa nossa ajuda.

Conforme ensinam nossas instruções, em Loja devemos ser sempre participativos, focados e dedicados aos estudos e aos projetos e atividades sociais aprovados pelos obreiros. Porém, em determinados momentos nossos esforços podem causar mais incômodo do que benefícios, quando a direção da Loja não se orienta pelo trabalho em equipe, não entrega valor aos membros da Loja, interdita ideias e as decisões ficam sempre restritas ao gestor principal, que exclui os demais por deficiências nas habilidades de condução dos trabalhos.

Alguns dirigentes, por insegurança, partem da premissa de que os irmãos mais experientes representam ameaça à sua gestão e tremem diante de seus prestígios e reconhecimentos no meio maçônico, chegando, em determinadas situações, a simular uma pretensa superioridade intelectual e sugerir que os mesmos se recolham, “cada um, às suas próprias insignificâncias ou que forneçam orientações prudentes, da qual se acham donos, para que não sejam criticados”, conforme mensagem direcionada a velhos mestres de uma determinada Oficina longínqua. É cediço que, quando a Coluna da Sabedoria abdica de suas atribuições, abre-se espaço para a intolerância e rupturas.

Gestores com esse perfil procuram apenas e tão-somente desfrutar do prestígio do cargo e a exercer naturalmente o autoritarismo, fomentando a desconfiança, a desagregação, em especial o conflito entre gerações, por acreditarem que os mais velhos, alguns referenciados por eles como “decorebas” de rituais e de poemas, são vazios de conhecimento e sabedoria e não têm mais como contribuir e os mais jovens nada com eles a aprender e muito a ensinar-lhes. E pasmem, a depender do perfil de um candidato em especial, atrevem-se a insinuar que a Loja não tem Mestres com estofo suficiente para orientar aquele “tal” de currículo supremo e lustroso que, já deveria, de plano, ser Iniciado, Elevado, Exaltado e quem sabe, conduzido ao Veneralato!

Em muitas situações, esses gestores demonstram favoritismos, impõem suas decisões sem discussão em Loja e promovem o cancelamento dos que porventura representem alguma ameaça. Nesse sentido, merece destaque um depoimento colhido em uma reunião de estudos por videoconferência onde a venerabilidade teria se regozijado, em evento social, de que teria tido sucesso em silenciar algumas estrelas da Loja por ele consideradas decadentes. E é essa postura desafiadora que os acalentam. Normalmente, não zelam pela harmonia, pelo diálogo e pela construção, e sentem certa atração pelo caos, olvidando que o bom legado de cada gestão é que dá sustentação para a caminhada dos obreiros e o fortalecimento da Oficina.

Nesse cenário burlesco, não faltam os que sempre aplaudem e compõem um grupo exclusivo de aduladores, incentivadores desse tipo de comportamento, que outro irmão irreverente e certeiro nas curtas mensagens classifica de “babaovistas” (derivado do pejorativo baba-ovo), atributo dos bajuladores contumazes. Isso para não falar daqueles que, por conveniência ou pusilanimidade mesmo, mantêm-se “em cima do muro” ou só querem receber paparicos. Esses, respaldando-nos na lição de Rubem Alves, não sofrem e não produzem pérolas.

Para ilustrar, citamos o exemplo de uma manifestação em um grupo de conversas de uma hipotética Loja de Oriente distante, quando o Venerável, resistente aos avanços tecnológicos, pouco afeito à liturgia do cargo e usuário do malhete como porrete, afirmou que não haveria reunião por videoconferência durante sua gestão: “Perfeeeiiito! Concordo plenamente com o nosso poderosíssimo e amantíssimo Venerável”, postou em áudio um irmão chegado a superlativos. Outro apoiador sentenciou: “comentários a respeito de instruções maçônicas somente em sessão ritualística, fora disso é uma excrescência”. Seguiu-se silêncio obsequioso, observando-se a conveniente prudência, segundo a fonte.

Prossegue o desabafo. Um “iluminado conselheiro para as Lojas dos outros”, teria ainda perguntado: “mas os demais não fazem nada, acatam simplesmente?” Redarguiu o irmão: “quem tenta argumentar leva pancada de bate-pronto e é tachado de pavão e convidado a recolher as plumas, com o lembrete de que a porta da rua é serventia da casa, além de outros devaneios, recados tortos e ironias, estas notadamente dirigidas aos associados de Lions, Shriners ou aos que chegaram ao topo da pirâmide. Então é melhor ser paciente e exercitar a tolerância, pois essa gestão passará logo e, pelo visto, deixará um histórico de desacertos, mágoas e baixas no quadro de obreiros!”. Nesse contexto, nunca se mostrou tão consistente a frase indevidamente atribuída a Abraham Lincoln: “Quer conhecer o caráter de uma pessoa? Dê-lhe poder!”. Mutatis mutandis, in casu, um malhete.

Mas, questiona-se: é isso mesmo? Dúvida de um jovem e perplexo Aprendiz:

“Existe um balcão de reclamações na Maçonaria? De preferência anônimo, para evitarem-se eventuais constrangimentos e não atrasar ainda mais a minha Elevação? [no caso foi utilizada a linguagem dos videogames: ‘passagem de fase’].”

Sabe-se que nos bastidores dessa improvável Loja o assunto continuaria rendendo, ao amparo do “truquezinho do entre colunas”. Dizem que chegou a ser cogitada uma DR até o fim da gestão, da qual não se tem notícias.

Se o irmão teve perseverança para ler até aqui e não se lembrou de nenhuma situação semelhante (Glória a Deus!), que fique bem claro que esta prancha não tem endereço específico e nem pretende dar conselhos ou dizer o que os componentes dessa ou de outras Lojas devam fazer em tais situações, caso venham a ocorrer, o que não acreditamos. As Lojas são autônomas quanto à gestão. Por outro lado, cautelarmente, qualquer eventual semelhança com a realidade, como sempre, terá sido mera coincidência mesmo. A proposta é apenas a de suscitar reflexões. Quem sabe dar origem a uma nova e valiosa pérola.

Enfim, na condição de maçons, o exemplo que precisamos ter sempre em nossos corações são as palavras de Tertuliano (c.160 – c.220) a respeito dos primeiros Cristãos, onde o afeto fraterno chamava a atenção dos pagãos, que assim a eles se referiam: “vejam como eles se amam entre eles” (Vide, inquint, ut invicem se diligant).  

“Uma palavra escrita é semelhante a uma pérola.” (Goethe)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da Loja Maçônica Águia das Alterosas Nº 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte; Membro Academia Mineira Maçônica de Letras e da Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras; Membro da Loja Maçônica de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda; Membro Correspondente Fundador da ARLS Virtual Luz e Conhecimento Nº 103 – GLEPA, Oriente de Belém; Membro Correspondente da ARLS Virtual Lux in Tenebris Nº 47 – GLOMARON, Oriente de Porto Velho; colaborador do Blog “O Ponto Dentro do Círculo”.

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