Maçons esperando Godot

Na obra do dramaturgo irlandês Samuel Beckett de 1949, Esperando Godot, dois personagens maltrapilhos (Vladimir e Estragon) aguardam a iminente chegada de um terceiro, constantemente adiada e que nunca se concretiza ou se descobre quem é realmente. Enquanto esperam e para superar a monotonia, preenchem o tempo com uma ritualística de conversas despretensiosas e sem sentido para muitos. Nos diálogos, numa espécie de autoexílio inconsciente e de alienação, os personagens esquecem tudo, desde as suas próprias identidades até o que aconteceu no dia anterior. A modalidade se enquadra no Teatro do Absurdo, que expõe conflitos, a incoerência e a ignorância dos seus personagens em contexto bastante expressivo e presente nas atuais “bolhas sociais” que nos iludem e aprisionam.

De plano e para não deixar margem a especulações maledicentes, a introdução acima tem apenas o condão de provocar a imaginação conspirativa e despertar o espírito crítico em face de uma permanente expectativa de que a Ordem Maçônica tome alguma providência em função dos sempre alegados últimos e gravosos acontecimentos, desde que não resvale para discussão política e nos coloque em posição desconfortável.

Refrescando a memória, tema recorrente entre os maçons é a interdição para discussão de temas ligados à religião e política que deve ser observada quando reunidos os irmãos, considerando-se que “a inobservância destes preceitos tem sido e será sempre funesta à prosperidade das Lojas”, conforme profetizado na Constituição de Anderson, manuscrito que veio a ser “A Constituição do Franco-Maçons” aprovada pela Grande Loja da Londres e Westminster em 1723, que comemora 300 anos e merece as mais efusivas homenagens pelo seu valor eminentemente histórico. Referido documento não é mais utilizado pela GLUI, desde longa data.

Á época, outro personagem importante foi Desaguliers, abade e professor, que ajudara o amigo Anderson na redação daquele documento. Era membro da Royal Society, iniciado na Loja da Taverna “O Ganso e a Grelha” ou Loja São Paulo em 1709, e articulara no dia de São João Batista, em 1717, a reunião naquele local das quatro Lojas metropolitanas que implantou o sistema obediencial, reconhecido como marco histórico da divisão entre a antiga e a moderna maçonaria, oportunidade em que elegeram um Grão-mestre entre eles “até terem a honra de um irmão nobre assumir a liderança[1]”.

Esse tão sonhado patrocínio da nobreza no comando materializou-se a partir de 1721, na figura do duque de Montague, que sucedera a George Payne[2]. Como ato inicial, o duque ordenou que Desaguliers e Anderson “revisassem, organizassem e compilassem as constituições góticas, os antigos encargos e os regulamentos gerais”, cujo trabalho foi apresentado em 27 de dezembro de 1721. Após a revisão por uma comissão de catorze irmãos eruditos, foi aprovada no dia 25 de março de 1722, em reunião da Grande Loja reunida na Taverna Chafariz. O livro impresso apareceu para uso das Lojas em janeiro de 1723 (PRESTON, 2017).

Com o afluxo de homens de todos os credos conhecidos e de todas as condições sociais compartilhando o mesmo recinto das Lojas, numa época em que a disputa sectária estava sempre rondando as atividades sociais, políticas e econômicas, a proibição de discussões políticas ou religião visava à preservação da paz, da harmonia e da boa ordem. O temor era de que golpes fossem arquitetados contra governos, ameaçando o poder hereditário da monarquia. Isso, de fato, ocorreu alhures.

Como refletimos no artigo “Maçonaria e Política – Uma visão crítica na pandemia”[NB], divulgado em 04.11.2020, no Blog “O Ponto Dentro do Círculo”, “a Maçonaria, como instituição, não pode continuar na velha toada de que não deve envolver-se diretamente em temas políticos e nas grandes decisões de interesse do Brasil, candidamente delegando aos maçons que o façam individualmente, pois um regramento de 1723, editado em outro momento histórico, impede ações mais decisivas em pleno século XXI. Somente caprichar na retórica e bradar que alguém tem que tomar uma providência é muito confortável”.

O pragmatismo atual, ao que parece, tem levado à divulgação de moções ou manifestos em cada episódio crítico, preferencialmente prestando solidariedade aos detentores do poder da hora, ou mesmo passando o pano, sem consensos ou respaldo no sentimento dominante na Ordem, atendendo ou mesmo superando expectativas de deixar todos bem na fita. Uma bateria de alegria! O gesto de Pilatos continua sendo mimetizado, referendando a condenação do Mestre dos Mestres. Este, a bem da verdade, caso fosse proposto para admissão em uma de nossas respeitáveis Lojas, não passaria sequer da rigorosa fase de sindicância em face da sua condição social e dos seguidores que curtiam e compartilhavam de sua companhia.

Esse comodismo dos obreiros e o obsequioso silêncio político da Maçonaria do Brasil precisam ser quebrados e as resistências vencidas. Repetindo a questão de sempre: sabemos ou não dialogar? Acreditamos na missão de combater a tirania, a ignorância….glorificar o Direito, a Justiça e a Verdade…? Nos grupos de WhatsApp, quando o assunto aparece é logo abortado e os recalcitrantes duramente criticados, lacrados ou excluídos a bem da harmonia entre os irmãos. Em Loja, nem pensar! Ressalte-se que exclusão por postagem de notícia falsa ou opinião ofensiva é plenamente justificável por caracterizar-se crime na legislação vigente.

Entretanto, pelo que se comenta a boca pequena e sem provas, apenas refestelar-se nos ágapes, cultuar vestimentas, distintivos e títulos pomposos que compõem a síndrome de um alegado poder já se mostra suficiente e massageia egos inflados. Maçom raiz não se limita à vida contemplativa, a virtudes estéreis ou se orienta por valores anacrônicos, mas trabalha e produz. O Avental é o símbolo do seu dignificante vestuário de trabalho.

No artigo acima mencionado, alguns argumentos básicos foram sopesados. Enquanto isso, o mundo lá fora pegando fogo e a gente, por ora, apenas esperando que o Grande Arquiteto do Universo nos oriente e ilumine e que grupos continuem concentrados no seu campo, alguns bem-intencionados, outros sem escapatória e à mercê das forças dominantes, clamando por uma Justiça equânime, que enxergue por igual à direita e à esquerda.  

Conselho de um amigo macaco velho e pai-d’égua: “seja um mané gente boa e folgazão, e mesmo achando-se livre e de bons costumes, não ouse tocar na temática de política e religião, senão o bicho pega e o seu sossego acaba. Melhor ser feliz do que ter razão!”.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da Loja Maçônica Águia das Alterosas Nº 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte; Membro Academia Mineira Maçônica de Letras e da Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras; Membro da Loja Maçônica de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda; Membro Correspondente Fundador da ARLS Virtual Luz e Conhecimento Nº 103 – GLEPA, Oriente de Belém; Membro Correspondente da ARLS Virtual Lux in Tenebris Nº 47 – GLOMARON, Oriente de Porto Velho; colaborador do Blog “O Ponto Dentro do Círculo”.


Notas

[1] PRESTON, William. Esclarecimentos sobre a Maçonaria. Rio de Janeiro: Arcanun, 2017 p. 184.

[2] A maioria dos Grão-Mestres da GLUI não eram maçons e foram escolhidos pelo título nobiliárquico que detinham. Na criação do Grande Oriente da França em 1773, o Duque de Chartres, Louis Philippe Joseph d’Orleans, não maçom, foi proclamado Grão-Mestre e recebeu o Grau de Mestre. No Brasil Império é sempre louvada a carreira meteórica do irmão Guatimozim. Prerrogativas dessa natureza foram referendadas nos 25 Landmarks de Mackey, na década de 1850, ainda adotados por algumas Potências em conjunto com a Constituição de Anderson.

Nota do Blog

Clique AQUI para ler o artigo Maçonaria e Política – Uma visão crítica na pandemia.

Referências

PRESTON, William. Esclarecimentos sobre a Maçonaria. Rio de Janeiro: Arcanun, 2017;

https://resenhaliterariaecia.wordpress.com/2019/10/15/o-absurdo-do-teatro-de-samuel-beckett-em-esperando-godot-e-fim-de-partida/, acessado em 14.01.2023;

https://bibliot3ca.com/historia-da-maconaria-francesa-no-final-do-seculo-xviii/, acessado em 14.01.2023.

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A “Vigilância da Pátria” – A ação da maçonaria brasileira durante a década proibida (1822-1831) – Parte VIII

2.3 – A composição dos quadros e o início da abertura (1825-1828)

A composição dos quadros da Vigilância da Pátria pode ser compreendida dividindo os irmãos em dois grupos, aqueles que se filiaram à loja e já eram iniciados em outras localidades anteriormente e o grupo daqueles que foram iniciados na própria Vigilância. Essa divisão, apesar de aparentar um simples agrupamento entre antigos e novos maçons, traz em seu cerne uma divisão não apenas geracional, mas apresenta também em alguma medida as mudanças e, ao mesmo tempo, as continuidades de mentalidades no interior da fraternidade.

Como visto anteriormente, os primeiros quadros da loja eram compostos por maçons já iniciados em algum momento e que por isso, apenas se filiaram à loja. Uma vez iniciado, um maçom não necessariamente permanece vinculado a sua loja de origem, podendo migrar de loja por diversos motivos, tais como mudanças de endereço, de rito, para a fundação de outra loja, por disputas internas ou qualquer outra questão, podendo permanecer vinculado a alguma outra loja por meio de alguma distinção, como a de membro honorário253. No caso dos membros instaladores da Vigilância, não havia naquele momento outra loja de vinculação em funcionamento no país e assim os seus fundadores não possuíam vínculos com outras lojas ou mesmo as suas de origem.

Entretanto, não há nas atas da Vigilância nenhuma indicação dos locais de iniciação de seus fundadores, o que em um primeiro momento nos impede de localizar as tradições e ritos nos quais estes maçons foram iniciados254. Mas, quando analisamos o grupo instalador da loja, podemos fazer uma distinção entre aqueles que por formação profissional passaram pelas universidades europeias, como a faculdade de Direito em Coimbra, e aqueles cuja formação se deu no território brasileiro. Assim, àquele primeiro grupo pertencem Nicolau Vergueiro, Antonio Pedro da Costa Ferreira, Joaquim Francisco Alves Branco Muniz Barreto, José Lino Coutinho, Antonio José do Amaral e Candido José de Araújo Vianna255. Os demais membros fundadores têm seu local de formação, e provavelmente de iniciação no próprio Brasil. Formado majoritariamente por militares e comerciantes, além de funcionários públicos e fazendeiros, este segundo grupo tem suas atividades profissionais de formação no Exército ou na Academia Militar, atividades de comércio, e no caso de Paula Souza era um autodidata256.

Embora exista uma distinção de locais de formação do quadro original, esta não é uma garantia acerca dos locais de iniciação destes homens. A própria ausência destes dados nas atas demonstra que esta é uma questão de menor preocupação, todos estes homens se afirmavam como maçons, e eram reconhecidos como tal pelos demais membros da loja.

No primeiro ano de existência da Vigilância todos os filiados à loja eram maçons já iniciados anteriormente. A ausência de novas iniciações entre 1825 e junho de 1826 não aparenta ser uma escolha deliberada dos membros da loja, mas uma imposição das circunstâncias da construção da própria oficina, uma vez que os debates das reuniões se voltaram para as formas de organização da loja, a questão dos grupos de rodízio e demais condições de proteção dos trabalhos. Por estas razões todas, os primeiros maçons filiados neste período eram todos já iniciados em fases anteriores, sempre convidados por algum membro da loja e aprovado pelos demais por meio de consulta.

Além dos locais de formação dos membros da loja, é possível compreender a distribuição dos quadros entre alguns grupos específicos. Militares, comerciantes, deputados, fazendeiros (políticos ou não), editores de jornais, clérigos, funcionários públicos, profissionais liberais e letrados em geral. Essa composição aparentemente heterodoxa de perfis profissionais e de formação dos membros da Vigilância pode ser compreendida não apenas pela unidade da loja, mas muito por serem o típico perfil dos maçons brasileiros desde as primeiras lojas iniciadas no país.

O primeiro grupo ampliado dentro da Vigilância da Pátria é constituído pelos militares. Parte significativa dos primeiros maçons filiados à Vigilância advinham dos quadros da Academia Militar, fossem eles professores ou oficiais de menor patente. Como três dos fundadores, Vieira Souto, José do Amaral e Joaquim de Lima e Silva que eram frequentadores da Academia (os dois primeiros como professores e o terceiro como oficial graduado), assim não é de todo estranho a rápida adesão destes militares à oficina. Além disso, existiam outros militares que compunham os quadros originais e não estavam ligados à academia militar, mas sim ao comando de tropas de terra, como João e Luiz Manoel de Lima e Silva, irmãos do primeiro vigilante e responsáveis pelas tropas no extremo sul, principalmente durante a Guerra da Cisplatina.

Nas atas entre 1825 e 1828 são listados trinta e sete militares, das mais variadas patentes. Se no primeiro ano de existência da loja localizamos sobretudo militares de alta e média patente, muitos comandantes de tropas próximas ao Rio de Janeiro como os irmãos Lima e Silva, ou professores da Academia Militar, ao longo dos anos não apenas oficiais de outras patentes foram integrados, como oficiais recém-saídos da própria academia257. Entretanto, nas atas poucos militares têm seus nomes registrados por completo, sendo esta uma das categorias, que em conjunto aos comerciantes, tiveram uma identificação mais restrita, por mais que houvesse a descrição das patentes destes militares, sobretudo capitães e tenentes, as iniciais destes muitas vezes se repetem em mais de duas pessoas entre as listas de militares.

Os militares compuseram uma força especial dentro dos quadros da Vigilância, pois suas possibilidades de deslocamento dentro do território facilitava a circulação de informações e avisos entre os círculos das províncias junto ao círculo central. Fossem andadores nomeados para o local ou eventuais, os militares da loja representavam a principal força de circulação da fraternidade, sendo os dois principais andadores militares. Pinto Coelho da Cunha, coronel, e Vieira Souto, capitão em 1825 e elevado a major em 1827, centralizaram as ações dos andadores e foram responsáveis pela indicação de vários militares. Além disso, é importante destacar que um dos círculos da cidade do Rio de Janeiro, aquele chefiado por Antonio José do Amaral, se reunia frequentemente dentro do prédio da Academia Militar258.

Assim como os militares, os comerciantes, alguns profissionais liberais e os funcionários públicos compõem outras categorias dentro da Vigilância da Pátria que representam grandes dificuldades no mapeamento de seus membros. Ainda que parte dos fundadores da loja fossem pertencentes a estas classes sociais, a grande maioria está identificada apenas por suas iniciais, sem constar qualquer informação sobre que tipo de comércio ou a localidade destes, principalmente nos grupos do Rio de Janeiro.

Sendo esta provavelmente a categoria social mais vulnerável, conjuntamente aos recém-formados da Academia Militar. A identificação dos irmãos comerciantes nas atas representava um risco grande, já que em caso do confisco das atas, estes seriam “os primeiros de nossos irmãos a serem presos pelas autoridades, acusados de qualquer descalabro que imaginarem os membros da intendência e deste governo, de forma que é dever de todo irmão desta loja a proteção de suas identidades”259.

Esta afirmação de Lima e Silva, no primeiro ano de funcionamento da loja, reforça a preocupação com a proteção dos irmãos politicamente mais desprotegidos, e também demonstra que os receios sobre a fiscalização e possíveis prisões dos membros da loja encontravam eco no passado recente, nos processos da Bonifácia e nos acontecimentos da Confederação do Equador.

Proteger as identidades de vários dos irmãos era uma necessidade tendo em vista um risco não desprezível ou longínquo, mas uma possibilidade real aos membros da Vigilância, daí a proteção dos membros da loja, assim como a escolha de apenas um livro de atas contendo os registros de atividades sob a tutela de um único secretário, que possivelmente seria o membro menos visado pela Intendência, já que era oficial de tal instituição260.

Entre os profissionais liberais e funcionários públicos, os membros identificados compõem mais da metade destas categorias, uma vez que gozavam de prestígio e proteção maiores que os comerciantes. Entre os profissionais liberais, as maiores distribuições de formação estão entre médicos, advogados e professores, alguns destes ligados à Academia Militar, como o caso de Joaquim José Rodrigues Torres, lente substituto de geometria na Academia. Estes profissionais, ainda que em sua admissão à loja não exercessem cargos políticos, como é o caso de Rodrigues Torres e outros, posteriormente seriam eleitos para diversos cargos261.

Dentre os irmãos listados, chama a atenção os casos de Joaquim Francisco Alves Branco Muniz Barreto e Vicente Ferreira dos Guimarães Peixoto, sendo o primeiro filho de um dos mais notórios maçons de 1822 e o segundo o fundador da loja Seis de Março em 1821.

Muniz Barreto é um dos membros fundadores da Vigilância, em 1825 recém-chegado de Portugal, onde se formou em direito em Coimbra. Iniciado em Coimbra durante seu período de estudos, embora não conste o nome de sua loja de iniciação, era filho de Domingos Alves Muniz Barreto, o “vovô maçom”, membro do Oriente de 1822. O seu caso desperta atenção, já que muito possivelmente este seria um membro visado por sua história familiar, ainda que essa preocupação não conste nas atas. O próprio Domingos aparece na sessão de 25 de outubro de 1827 identificado como visitante do círculo de Salvador, o que levantou debate entre os círculos da corte sobre a possibilidade de que maçons notórios, que tinham sua filiação à Vigilância proibidos em 1825 pudessem ou não frequentar reuniões de círculos fora do Rio de Janeiro, possibilidade esta que foi vetada naquela sessão262.

Mas, se Muniz Barreto era filho de um maçom notório, o que não impactava em sua filiação, uma vez que a restrição era apenas a seu pai, o caso de Guimarães Peixoto também é singular, uma vez que este figurava entre os fundadores da Seis de Março, loja bastante atuante em Pernambuco durante a Confederação, como visto no capítulo anterior. Entretanto, Peixoto não estaria em Recife durante os acontecimentos de 1824, posto que, segundo Mário Melo, teria sido preso em 1821 por ter liderado a conspiração e atentado contra o governador português Luiz do Rego, sendo enviado para Lisboa, onde foi inocentado em 1822. Entretanto, Guimarães Peixoto teria retornado para o Rio de Janeiro, o que pode explicar a ausência de seu nome entre os restritos de filiação263.

Entre os funcionários públicos, aquele que recebe maior destaque nas atas é Epifânio José Maria Pedroso, 2º vigilante do círculo principal e exercendo a mesma função no “círculo jovem” da loja. Epifânio era oficial da Secretaria dos Negócios do Império, cargo que herdou do pai. Letrado, tradutor, é dele a maior parte das indicações de leitura aos membros da loja, muitas das quais foram traduzidas por ele e disponibilizadas aos membros por empréstimo, sempre a serem retiradas nas tipografias do jornal Astrea ou do jornal Aurora Fluminense, cujos editores pertenciam à Vigilância264.

Outros membros que eram funcionários públicos carecem dos problemas de anonimato nas atas, sendo estes grupos composto majoritariamente por estes anônimos ou não identificados em sua totalidade. Eles eram responsáveis pela manutenção dos trabalhos da loja durante o período de recesso parlamentar, quando os políticos retornavam às suas províncias. A manutenção das práticas de ocultar os nomes completos destes quadros gera uma dupla dinâmica dentro da loja, em que ao mesmo tempo em que apontam para os riscos das atividades da Vigilância no Rio de Janeiro, representam as dinâmicas plurais da loja, assim como a importância de tais “ilustres anônimos” na manutenção dos trabalhos da loja no Rio de Janeiro durante o período de recesso parlamentar, assim como dos trabalhos dos círculos locais durante o período legislativo.

A mais notória das categorias de membros da Vigilância da Pátria é sem dúvidas a dos deputados e demais políticos eleitos em diversos momentos da década de 1820. Ainda que nem todos os deputados de oposição ao governo pedrino tenham se filiado à loja ao longo dos anos, chama atenção o número de deputados filiados. Tal presença não é uma exclusividade da Vigilância, como visto no capítulo anterior, mas uma constante na história da própria maçonaria, lugar privilegiado de articulação e circulação de pessoas e ideias. Além disso, a Vigilância representava um local privilegiado ao escapar de qualquer influência ou controle dos grupos mais próximos ao governo.

Entre os fundadores da Vigilância encontramos ex-deputados da Assembleia Constituinte (e mesmo das Cortes de Lisboa), além de deputados eleitos em suas províncias para a Legislatura que se iniciava em 1826. Destes deputados, Nicolau Vergueiro, venerável da loja, é aquele que passou por todas estas representações, sendo indicado na lista tríplice ao Senado por São Paulo, mas não sendo escolhido.

Constam como membros da Vigilância da Pátria entre os anos de 1825 e 1826, entre instaladores da loja ou filiados a ela, os deputados da primeira legislatura João Candido de Deus e Silva (Pará); João Braulio Muniz (Maranhão); Pedro de Araújo Lima, Antonio Francisco de Paula e Hollanda Cavalcanti e Albuquerque, Domingos Malaquias de Aguiar Pires Ferreira, Manoel Caetano de Almeida e Albuquerque, Caetano Maria Lopes Gama, Francisco de Paula Cavalcanti e Albuquerque (Pernambuco); José Lino Coutinho, José Cardoso Pereira de Mello, Francisco Agostinho Gomes, João Ricardo da Costa Dormund (Bahia); Manoel José de Souza França, José da Cruz Ferreira, Luiz Pereira da Nobrega de Souza Coutinho (Rio de Janeiro); Candido José de Araújo Vianna, José Carlos Pereira de Almeida Torres, Manoel Rodrigues da Costa, Joaquim José Lopes Mendes Ribeiro, José de Rezende Costa, José Bento Leite Ferreira de Mello, José Custódio Dias, Custódio José Dias (Minas Gerais); Raymundo José da Cunha Mattos (Goiás); Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, José Ricardo da Costa Aguiar, José Arouche de Toledo Rendou, Francisco de Paula Souza e Mello, Diogo Antonio Feijó (São Paulo); José Joaquim Machado de Oliveira, Feliciano Nunes Pires, Francisco Xavier Ferreira (Rio Grande do Sul); Don Lucas José Obes e Don Francisco Llambi (Cisplatina).

Este primeiro grupo de deputados filiados à Vigilância, todos eles iniciados anteriormente em algum local não especificado, não formavam um bloco monolítico na Câmara, ainda que possam ser majoritariamente compreendidos como membros da oposição antipedrista, assim como não apresentaram projetos de forma sempre conjunta. Ainda que as atas não registrem discussões políticas no interior da loja, uma vez que esta não é uma prática das atas de sessão na maçonaria, não é de todo impossível acreditar que estas discussões acontecessem entre os irmãos, em espaços anteriores ou posteriores à sessão, não apenas pela composição dos membros da loja, mas sobretudo por ser a fraternidade um espaço importante de construção de sociabilidades entre homens muitas vezes de espaços e atuações distintas. Da mesma forma que em outras lojas maçônicas em décadas anteriores, a Vigilância congregou experiências políticas importantes, ainda que a política formal não fosse o fim da loja ou mesmo de seus fundadores.

Dado tal caráter de congregação de múltiplos projetos, assim como de experiências políticas, não é estranho observar a ampliação significativa de membros da loja eleitos em anos posteriores, sobretudo nas eleições de 1828, para os mais diversos cargos políticos. Esta ampliação de membros da Vigilância eleitos é observada em diversas localidades, seja nos conselhos de província, câmaras municipais ou mesmo para juízes de paz, sendo significativa a eleição para a segunda legislatura da Câmara dos Deputados, onde a presença de maçons, sobretudo anti-pedristas é ampliada. Se em 1826 os membros da Vigilância eram 34 deputados, portanto, mais de um terço dos representantes eleitos para a legislatura, na 2ª legislatura o número de maçons eleitos cresce significativamente, chegando a 54 deputados, sendo estes mais da metade da Câmara.

Para além dos deputados de 1826, reeleitos, foram eleitos para a segunda legislatura da Câmara Antonio Pedro da Costa Ferreira (Maranhão); José Martiniano de Alencar (Ceará); Ernesto Ferreira França, Luiz Francisco de Paula Cavalcanti de Albuquerque, Francisco de Paula de Almeida e Albuquerque, Francisco de Carvalho Paes de Andrade (Pernambuco); Antonio Ferreira França, Manoel Alves Branco, Miguel Calmon du Pin e Almeida, José Carlos Pereira de Almeida Torres, Antonio Pereira Rebouças, José da Costa Carvalho, Joaquim Francisco Alves Branco Muniz Barreto (Bahia); Antonio José do Amaral, José Joaquim Vieira Souto (Rio de Janeiro); Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho, José Cesário de Miranda Ribeiro, Antonio Pinto Chichorro da Gama, Honório Hermeto Carneiro Leão, Evaristo Ferreira da Veiga, João Antonio de Lemos (Minas Gerais); Rafael Tobias de Aguiar, Antonio Paes de Barros (São Paulo). Além deles, outros maçons tomariam posse como suplentes ao longo da legislatura, como Manoel de Carvalho Paes de Andrade (Pernambuco) e José Feliciano Pinto Coelho da Cunha (Minas Gerias).

O grande número de deputados, mas sobretudo a distribuição destes pelas províncias acompanha a própria expansão dos círculos da Vigilância da Pátria, alargando significativamente o número de maçons vinculados à loja, o que acabou por resultar também na presença de seus membros no legislativo. Se os deputados de 1826 eram filiados à loja, entre os deputados eleitos em 1828 constam filiados, em sua maioria, mas também alguns dos primeiros iniciados na loja, como Ernesto Ferreira França e Honório Hermeto Carneiro Leão, membros dos corpos mais jovens da Vigilância265.

O último grupo de destaque entre os membros da Vigilância da Pátria era composto pelos editores dos principais jornais do Brasil no período. Este é talvez o grupo mais peculiar entre os membros da loja, uma vez que estes editores podem ser majoritariamente encontrados como sendo membros de outros grupos já elencados, exercendo outras ocupações profissionais.

Os dois principais jornais da cidade do Rio de Janeiro, possuíam como editores membros de destaque da loja. A Ástrea, editado por Antonio José do Amaral e José Joaquim Vieira Souto, e A Aurora Fluminense, de Evaristo da Veiga, figuram não apenas como os principais jornais de oposição na corte, mas também como referencial para outros jornais nas províncias.

Além da linha editorial, a tipografia da Ástrea era também um ponto de encontro importante para os membros da Vigilância, utilizado pelo andador Vieira Souto, além de local de empréstimo dos livros fornecidos por Epifânio Pedroso. A redação da Ástrea funcionava para os membros da loja como local de encontro político e vinculação de ideias no jornal266. A Aurora Fluminense, por sua vez, funcionou como ponto de encontro sobretudo do círculo mais jovem da Vigilância, do qual Evaristo era membro267.

Entre os membros da Vigilância havia, ademais, editores de muitos dos jornais de oposição em outras províncias, sobretudo São Paulo e Minas, onde editores como José da Costa Carvalho, João Bráulio Muniz (O Pharol Paulistano), Antonio Joaquim Pereira de Magalhães (Astro de Minas), além de outros membros da loja atuando como contribuidores desses jornais de oposição, fornecendo artigos ou publicações para jornais e panfletos. Os jornais provinciais, de menor duração ou alcance que aqueles do Rio de Janeiro, muitas vezes replicavam partes de artigos do Ástrea ou do Aurora, numa rede de circulação de ideias.

Os membros da Vigilância compunham, portanto, uma espécie de padrão típico das filiações de maçons brasileiros de períodos anteriores, ainda que o ineditismo da Vigilância em concentrar a maior parte dos maçons identificados no Brasil do período e sua prerrogativa em filiar à loja apenas maçons não vinculados à antiga potência fluminense, assim como podemos encontrar uma espécie de padrão político entre seus membros, os quais partilham de um incômodo com o governo pedrino ou uma atuação de clara oposição ao mesmo.

No discurso inaugural da loja proferido por Vergueiro, este reforçava uma espécie de missão para a loja como “vigilantes da pátria, para construir a nação”268. Conforme as atas da loja, esta não se constituiu como um espaço de formulações políticas em específico, mas representava um espaço de circulação de pessoas e ideias, o que não significa que estivessem ausentes articulações políticas para eleições ou atuações na Câmara e na imprensa. A própria composição da loja permitia essas articulações, visto que não apenas a constituía um espaço comum, esta não seria uma experiência inédita, como visto no capítulo anterior sobre a atuação das primeiras lojas brasileiras.

Em suma, a Vigilância era um espaço de construção de sociabilidades e experiências comuns a um grupo que partilhava de ideias comuns, ampliadas pelas particularidades da própria vinculação maçônica e de suas redes de amizade e relações sociais, ao mesmo tempo em que se valiam da própria rede de apoio e proteção fornecidas pela irmandade. Estas redes de apoio, que foram fundamentais para a existência da loja ao longo dos anos, se tornaram ainda mais importantes a partir de 1828, quando a mudança da situação política permitiu também a lenta estabilização da Vigilância e o princípio do processo de saída da clandestinidade.

O início das transformações cotidianas

O ano de 1828 marcou, antes de tudo, o início de grandes transformações dentro da Vigilância da Pátria. A loja, que durante os anos anteriores seguiu rigorosas regras para o funcionamento de suas sessões, experimentou durante este ano duas realidades quase distintas se compararmos o início e o fim desse mesmo ano. Nos primeiros meses, os membros da Vigilância, sobretudo aqueles pertencentes ao círculo principal, passaram pela fase de maior pressão por parte da Intendência Geral de Polícia, o que obrigou o círculo a levar suas reuniões majoritariamente para cidades diferentes, como visto anteriormente neste capítulo, o que contribuiu para um espalhamento de reuniões pela província do Rio de Janeiro.

Ao mesmo tempo em que as pressões da Intendência se fizeram maiores entre os membros da loja, outro grave problema acompanhou o primeiro semestre daquele ano, a “grave enfermidade” que acometeu Nicolau Vergueiro entre os meses de maio e julho, quando as notícias veiculadas pelo Ástrea e pelo Aurora afirmaram que o deputado esteve em estado grave, ainda que nenhum dos jornais, e nem mesmo as atas da Vigilância, jamais tenham detalhado a doença que o acometeu269.

A combinação destes dois fatores afetaram profundamente o cotidiano da loja, pois não apenas mudanças de locais, dias e horários de reunião se fizeram mais presentes, como a ameaça da morte do venerável da loja significaram uma mudança nas posturas das principais lideranças, como também resultaram numa maior liberdade de atuação dos círculos, uma vez que o crescente de dificuldades de organização das sessões acabaram por permitir maior autonomia aos segundos vigilantes dos círculos, a quem competiam as responsabilidades sobre alterações das sessões270.

Esta crescente autonomia dos segundos vigilantes propondo mudanças em datas e horários de reuniões sem mais necessitar da autorização prévia do venerável ou do primeiro vigilante, não apenas indica uma crescente transformação na organização da Vigilância da Pátria, mas também um certo grau de instabilidade da formatação tradicional existente até então na loja, cujo centro era a figura de Nicolau Vergueiro. O afastamento do venerável desde o final do ano de 1827 e sua ausência em grande parte das reuniões do ano de 1828 acabaram por reformular esse centro da própria loja, sobretudo na cidade do Rio de Janeiro, onde a maior parte dos membros da Vigilância acabavam por passar.

Dado o afastamento de Vergueiro do cotidiano da loja, ainda que ele tenha se mantido informado sobre os assuntos da fraternidade, outras lideranças acabaram por assumir a centralidade da loja, o que não apenas significou uma maior pluralidade de centros, visto que o primeiro vigilante foi favorável a maior autonomia das decisões por parte dos círculos, mesmo que esta autonomia não fosse sinônimo de liberdade plena dos círculos em vista das ações da polícia.

A partir de 1828, os círculos passaram a seguir um rodízio mais livre de irmãos por grupo. Se nos anos anteriores a presença de membros de outros círculos só era permitida em casos excepcionais, em 1828 membros de outros círculos foram permitidos a frequentar um círculo distinto do seu grupo de origem, seja por convite ou trocando de círculo. Esta permissão, concedida a partir de julho de 1828 acabou por proporcionar um rearranjo dos grupos de reunião, resultando no agrupamento de membros por círculo mais próximos em termos de profissão ou posicionamento político.

Assim, a partir deste ano os quatro círculos da cidade do Rio de Janeiro acabaram por assumir um perfil mais específico. O primeiro círculo, o chamado principal, era comandado por Joaquim de Lima e Silva, concentrou em seus rodízios os membros fundadores e deputados, seguindo o rodízio em três grupos como no esquema original. A este círculo, o maior de todos, passaram a serem admitidos como visitantes não apenas maçons de passagem pela cidade e membros de círculos provinciais, como também membros de outros círculos da cidade e que exercessem algum papel de liderança dentro deste.

O segundo círculo, comandado por Antonio José do Amaral, acabou por concentrar os militares (de qualquer patente) filiados à loja, sobretudo aqueles ligados à Academia Militar, onde muitas vezes o círculo se reuniu. Ainda que anteriormente já contasse com uma presença significativa de militares e profissionais liberais, o círculo de José do Amaral a partir desse momento acabou por se constituir majoritariamente de militares e professores da própria academia, sendo o círculo mais “fechado” dentre todos.

O terceiro círculo, chefiado por Manoel de Souza França acabou por se tornar uma fusão do antigo círculo chefiado pelo deputado e pelo capitão Custódio José Dias. A este círculo, além de deputados, pertenciam principalmente os comerciantes, funcionários públicos e demais professionais liberais, sendo este, junto ao círculo principal, o círculo mais plural em termos de origens profissionais da Vigilância.

O último círculo da cidade permaneceu sendo chefiado por Epifânio Pedroso e acabou não apenas por concentrar os membros mais jovens da loja, como também acabou por se tornar uma espécie de concentração dos ditos mais “radicais” em termos políticos, o que sempre despertou mais atenção do círculo principal. O grupo de Epifânio, além de colecionar reprimendas sobre a conduta de seus membros nas atas, era também o círculo mais visitado pelos demais, visto que suas reuniões eram “por vezes muito mais interessantes e seu grupo deveras dinâmico em suas condutas, ainda que profundamente ciosos de suas obrigações maçônicas” 271.

Esta conformação dos círculos, de maneira muito mais estável em termos de funcionamento, só se torna de fato possível a partir do final de agosto de 1828, quando não apenas as diligências da Intendência parecem ter diminuído272, o que permite um respiro maior às atividades dos irmãos, como também o círculo principal entende que a experiência de estabilidades dos círculos da cidade acabaram por conformar formulações e dinâmicas próprias a cada um deles, fornecendo não apenas maior adesão entre os irmãos de cada um dos círculos, como também acabaram por fornecer identidade a cada um deles, os aproximando em termos de cotidiano às práticas tradicionais de uma loja maçônica própria.

Em conjunto às transformações internas da loja, as mudanças no ambiente político do país também ecoaram nos interiores dos círculos, sobretudo pelas eleições gerais daquele ano. As eleições de 1828 podem ser facilmente identificadas como o maior processo eleitoral brasileiro do século XIX, dado o número de pessoas eleitas para os mais diferentes cargos pelo país, uma vez que não apenas elegeram-se os deputados para a segunda legislatura a ser iniciada em 1830, mas também para algumas cadeiras no Senado, além de câmaras municipais, juízes de paz e conselhos provinciais.

O primeiro impactado por estas eleições é o próprio Nicolau Vergueiro, eleito senador pela província de Minas Gerais. Vergueiro, que já havia constado na primeira lista para o Senado em 1825 pela província de São Paulo, acabou sendo escolhido em lista tríplice em maio de 1828, tomando posse em junho do mesmo ano, sendo o primeiro dos opositores de Pedro I a tomar acento na câmara alta, o que foi celebrado pelos membros da Vigilância como força de Vergueiro e da própria oposição.

A segunda eleição a impactar diretamente nos cotidianos da Vigilância envolveu as escolhas para juízes de paz, sobretudo nas freguesias da cidade do Rio de Janeiro, em especial a do Santíssimo Sacramento. Uma vez que o major da guarda desta freguesia era o andador da corte, José Joaquim Vieira Souto, a eleição de um juiz de paz ligado à loja era essencial para a proteção dos irmãos. A eleição de Saturnino de Souza e Oliveira, tenente coronel do mesmo batalhão para o cargo é fundamental para os anos subsequentes da loja, pois ao contar com a proteção do juiz de paz da freguesia e do chefe da guarda, os círculos da Vigilância na cidade do Rio de Janeiro passam, a partir de 1828, a fixar seus locais de reunião na mencionada freguesia, o que viria a acelerar o processo de estabilização das atividades maçônicas na corte.

Se as eleições de juízes de paz e do Senado tiveram impacto direto na vida da loja, as demais eleições do mesmo ano foram responsáveis por aumentar a presença de membros da Vigilância nas muitas instâncias políticas pelo país, sobretudo na ampliação do número de deputados eleitos ligados à fraternidade. Como visto anteriormente, o número de deputados filiados à Vigilância da Pátria para a segunda legislatura, eleita em 1828 e iniciada em 1830, era significativamente superior ao número de deputados da legislatura de 1826.

Além disso, os deputados de 1826 ainda que filiados à loja entre junho de 1825 e abril de 1826, foram eleitos em sua ampla maioria antes da fundação da loja, o que implica em uma identificação maçônica posterior ao processo eleitoral. Diferente desta primeira legislatura, os deputados eleitos em 1828 já eram membros da loja, filiados ou mesmo iniciados nesta, o que torna a identificação de um elemento a mais no processo de eleição destes parlamentares. As atas da loja não informam sobre alguma atuação direta dos membros da loja para as eleições, ainda que na ata de 14 de agosto de 1828 Nicolau Vergueiro tenha saudado os deputados eleitos presentes na sessão da loja e estendendo seus cumprimentos aos demais, exortando os respectivos deputados a continuarem o trabalho dos irmãos da primeira legislatura e se prepararem para “a missão que se impõem aos trabalhos do parlamento para o fortalecimento do país”.

Portanto, ainda que os membros da Vigilância não tenham elaborado uma “campanha” para as eleições, há uma presença significativa nas listas de eleitos para os muitos cargos políticos, numa confluência entre perfis de eleitos e membros da loja, uma vez que tais perfis possam ser entendidos como uma formação comum de uma elite política no país.

O fim do ano de 1828, ou ao menos em outubro do mesmo ano, data em que se encerra o livro de atas da Vigilância, podemos observar o início de uma mudança de cenário político no país e no próprio comportamento da loja273.

Além das eleições do ano de 1828, também é significativo uma mudança do cenário político do país com o encerramento da Guerra da Cisplatina, representando um golpe para o governo pedrino. A perda da província e o reconhecimento do Uruguai como país independente, além da morte da imperatriz Leopoldina, contribuíram para o agravamento da crise política, que passou a ser questionado de forma mais dura pelos opositores, sobretudo pelo grupo ligado ao senador Vergueiro, que embora transferido de casa legislativa, permaneceu como um articulador político entre os opositores.

Por fim, o ano de 1828 é o início do processo de estabilização e publicização das atividades maçônicas na cidade do Rio de Janeiro. Se no princípio do ano foi importante para a estabilização do perfil dos círculos da Vigilância, que passaram a se organizar de forma mais semelhante às lojas tradicionais da maçonaria, a eleição do meio do ano, sobretudo a dos juízes de paz, contribuíram para que os círculos deixassem paulatinamente um modelo de loja volante, sem localidade fixa, e adotassem um modelo mais estável de locais de reunião, graças ao funcionamento de uma rede de proteção destes círculos na Freguesia do Santíssimo Sacramento274.

Esta freguesia, a mais populosa da cidade, como vimos elegeu um juiz de paz militar ligado à Vigilância, que numa combinação de fatores com o comando da guarda da freguesia por um outro membro da loja, acabou por criar um ambiente favorável para as atividades dos irmãos, uma vez que as denúncias sobre as ações maçônicas seriam ignoradas pelo juiz ou ações mais efetivas de repressão para flagrantes ou fechamentos de reuniões275.

Assim, esse ano pode ser compreendido como um ponto de virada dos trabalhos da Vigilância da Pátria. Entre sua fundação em junho de 1825 até a metade de 1828, a Vigilância seguiu uma organização restritiva em suas reuniões, elaborando, com base nas tradições maçônicas de várias localidades, uma formatação muito particular para o funcionamento das reuniões da loja, ampliando significativamente seus quadros ao longo deste período. A partir da metade de 1828, com as mudanças na situação política nacional e no próprio entendimento da loja sobre sua organização, a Vigilância da Pátria passou por mudanças paulatinas, até que a situação política de 1829 acabou por dar uma nova forma aos trabalhos maçônicos, iniciando uma nova fase para a fraternidade, originando as bases da organização da maçonaria brasileira das décadas posteriores.

Continua…

Autora: Pilar Ferrer Gomez

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Mestre em História – 2022.

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Notas

253 Sobre as vinculações dos maçons em suas lojas de iniciação ou filiação ver JONES, op. cit., pp. 262- 265.

254 Não há indicação do secretário sobre esta omissão é proposital ou não, mas não há nenhuma indicação dos locais originais de iniciação de qualquer um dos filiados da Vigilância ao longo dos anos da loja.

255 Os locais de formação profissionais de todos os membros da Vigilância da Pátria identificados nas atas estão indicados no Anexo II desta dissertação, onde estão as biografias destes membros da loja e as informações da vida destes homens e suas atividades dentro da loja, assim como informações posteriores conhecidas dentro da maçonaria brasileira.

256 BARATA, op. cit., p. 159.

257 Entre os militares recém-formados na Academia iniciados na Vigilância da Pátria, merecem destaque os irmãos Cristiano e Teófilo Ottoni, que alcançaram destaque em seu círculo.

258 LAVG, Sessão de 17 de fevereiro de 1827 (17/12/5826).

259 LAGV, Sessão de 12 de abril de 1826 (12/2/5826).

260 O livro de atas da Vigilância ficou durante todo seu período de clandestinidade em posse de seu único secretário, João Machado Nunes, oficial da contadoria da Intendência geral de Polícia. Essa informação consta na sessão de 23 de agosto de 1828, quando o secretário foi elogiado pelo resguardo das atas da loja. LAVG, Sessão de 23 de agosto de 1828 (23/6/5828).

261 José Rodrigues Torres provavelmente foi iniciado durante seus estudos em Portugal, onde se formou em matemática. Após sua filiação, Rodrigues Torres retornou por mais um período para Portugal, retornando por fim ao Brasil em 1827, quando novamente voltou a frequentar a loja.

262 A presença de Domingos Muniz Barreto em sessão do círculo de Salvador levantou questionamentos, já que ao menos no Rio de Janeiro maçons notórios como ele não poderiam frequentar os círculos. Sua presença em Salvador foi discutida e o círculo advertido sobre a não presença de outros maçons notórios na cidade, pois isso poderia facilitar a identificação de seus membros. LAVG, Sessão de 25 de outubro de 1827 (25/8/5827).

263 MELO, op. cit., p. 17.

264 Em várias sessões ao longo dos anos há registros de indicações de leituras disponibilizadas por Epifânio, com destaque para obras de filosofia como Hobbes, Voltaire, Smith, Rousseau e outros. Ver Livro de Atas da loja Vigilância da Pátria.

265 As datas de iniciação dos deputados e seus “padrinhos” na apresentação das candidaturas constam nas biografias dos mesmos no Anexo II.

266 A Tipografia da Ástrea era ponto de encontro fácil de Vieira Souto para a transmissão de informações como andador, assim como o quartel da cavalaria da freguesia do Santíssimo Sacramento, onde Vieira Souto atuava como capitão e depois major. LAVG, Sessões de 23 de maio de 1826 e 12 de setembro de 1827 (23/3/5826 e 12/7/5827)

267 Evaristo frequentava o círculo jovem, atuando algumas vezes como secretário do círculo. LAVG, Sessão de 14 de abril de 1827 (14/2/5827).

268 Sessão inaugural da Loja Vigilância da Pátria. LAVG, Sessão de 24 de junho de 1825 (24/4/5825).

269 Entre março e junho de 1828, tanto a Ástrea quanto a Aurora repassaram informações sobre o estado de saúde de Nicolau Vergueiro, ainda que nenhum deles informe qual a doença de Vergueiro, chegando a noticiar que no dia 18 de maio daquele ano Vergueiro chegou a ser desenganado pelos médicos, mas se recuperando ao longo do tempo.

270 Na sessão de 12 de agosto de 1828, o secretário informa que dadas as dificuldades encontradas para a manutenção das atividades dos círculos, as regras para transferência de sessão pelos vigilantes dos círculos haviam sido relaxadas desde abril do mesmo ano, o que acabou facilitando a organização dos mesmos, por isso a regra seria mantida dali em diante. LAVG, Sessão de 12 de agosto de 1828 (12/6/5828).

271 LAVG, Sessão de 06 de maio de 1828 (06/3/5828).

272 LAVG, Sessão de 30 de outubro de 1828 (30/8/5828).

273 A última sessão registrada no livro de atas da Vigilância da Pátria tem data de 30 de outubro de 1828, sendo esta uma sessão do círculo principal, como todos os fundadores presentes na sessão. As demais sessões provavelmente estão registradas em outro volume, não localizado nos arquivos até a elaboração deste trabalho. LAVG, Sessão de 30 de outubro de 1828 (20/8/5828).

274 LAVG, Sessão de 17 de setembro de 1828 (17/7/5828)

275 CHAN, Isa. op. cit., p. 75.

A Maçonaria é um caminho Espiritual? (Parte II)

A Maçonaria tem sido chamada de muitas coisas em sua vida: um grupo fraterno, uma organização esotérica, um culto, uma organização de caridade e uma religião, clube social, entre outras coisas. O que quer que as massas chamem de maçons ou os maçons se chamem, sua missão tem sido a mesma desde o início: criar um mundo melhor começando com a melhoria da humanidade no nível individual.

“Lembre-se sempre de que toda a Maçonaria é trabalho”, diz Albert Pike, um proeminente maçom do século 19. O “trabalho” maçônico, na minha opinião, é o trabalho ritualístico interno e oblíquo pelo qual os maçons são feitos e educados para o trabalho exotérico, que consiste em atividades para o bem-estar da humanidade de acordo com os princípios maçônicos. É neste misterioso e oculto trabalho ritualístico onde grande parte da especulação sobre o que a Maçonaria faz e não faz começa. De fato, às vezes os próprios maçons podem ter dificuldade em entender o que são as coisas “secretas” da Maçonaria.

Em pelo menos uma Ordem Maçônica, e provavelmente muitas outras, afirma-se especificamente que os maçons têm uma carta especial para inserir conhecimento esotérico nos membros maçônicos. Por esotérico, vamos usar a forma básica da palavra, que significa “conhecimento destinado apenas a alguns”. A Maçonaria, sendo uma organização selecionada, é “esotérica” dessa maneira. Ou seja, de um modo geral, a porcentagem da população humana geral que pertence à Maçonaria é extremamente baixa. O esotérico, em sua forma descomplicada, não conota nada espiritual, religioso ou oculto. Embora alguns aspectos dessas formas de estudo possam ser “esotéricos”, a palavra “esotérico” não significa espiritual, religioso ou oculto.

Seja como for, muitas pessoas acham que a Maçonaria se presta à “espiritualidade”. “Espiritual” significa, muito simplesmente, “pertencente ao espírito”. Isso levanta a questão, então: o que é espírito?

Para ser simples e claro, para isso usarei a definição wikipedia.org, que é:

“A palavra espírito apresenta diferentes significados e conotações diferentes, a maioria deles relativos à energia vital que se manifesta no corpo físico. A palavra espírito é muitas vezes usada metafisicamente para se referir à consciência e a personalidade. As noções de espírito e alma de uma pessoa muitas vezes também se sobrepõem, como tanto contraste com o corpo e ambos são entendidos como sobreviver à morte do corpo na religião e pensamentos espiritualistas.”

Sim, absolutamente; no entanto, quando se fala em relação a discussões filosóficas, a primeira definição é aquela a que a maioria das pessoas parece se referir. É aquela que para os propósitos desta exposição que aceitaremos e usaremos:

energia vital que se manifesta no corpo físico.

O que é espírito? Por que as pessoas, culturas e religiões o veem de forma diferente? O espírito da humanidade é divino? Por que isso é tão importante? E quanto ao espírito dos animais, árvores e rochas? De onde emana esse espírito? Qual é o seu local de nascimento? A fonte da ideia de “espírito” de muitas pessoas parece ser o que muitos chamariam de Deus, ou deuses e deusas, e as qualidades ou virtudes que lhes atribuímos de acordo. Se formos animados por esse “espírito”, e atribuímos isso a “Deus” e dizemos que essa parte do nosso ser tem “atributos piedosos” ou é “divina”. ?

No entanto, como é definido acima, o termo “espírito” não é demarcado por algum tipo de fonte divina ou piedosa. É simplesmente uma animação ou “princípio vital em humanos”. É quando atribuímos a existência desse espírito a uma entidade externa específica – seja Deus, Alá, o Tao, Jeová ou Zeus – que nos deparamos com o conflito humano. Se alguém está certo e verdadeiro, todos os outros devem estar errados e falsos. Guerras foram e continuam a ser travadas sobre questões como a origem do “espírito”. No entanto, os seres humanos lutam por “espíritos”, ou eles lutam por “almas”?

É aqui que o sujeito do espírito se torna confuso e talvez complicado; é quando a palavra “alma” é trocada por “espírito”. Guerras têm sido travadas por “almas”, não por “espíritos”. Quando discutimos a alma, sinto que devemos continuar a ser muito claros sobre os termos que estamos usando, e que o significado da palavra deve ser o mais neutro possível.

“Alma” para um católico é muito diferente de uma “alma” para um wiccano, neoplatônico ou ateu. Recorrendo ao Wikipedia para um terreno comum, e olhando para isso a partir de um sentido literário e linguístico puramente etimológico, tanto “alma” quanto “espírito” se originam de um significado central de “respiração, vida”.

A principal diferença entre os dois parece ser que um é imortal (alma) e um é pura animação e vida (espírito) com um evento específico de início e fim. A ideia, a partir dessas definições, é que a alma dura para sempre, enquanto o espírito vem à existência no nascimento e expira com a morte de seu hospedeiro humano. No significado básico da palavra “alma”, há também a inferência de qualidades “vivificantes”. Dado que ambos se preocupam com a essência da vida e parecem habitar o mesmo espaço físico, é fácil ver que estes poderiam ser confundidos e confusos na discussão, debate e teologia. Ouço muitos maçons se referirem ao Espírito e à Alma de forma intercambiável, mas não estou claro se eles significam ou não a mesma coisa ou algo diferente. Eu acredito que a Maçonaria nos ajuda a fornecer um caminho para uma resposta.

Normalmente não dizemos que realizamos uma “prática da alma”; o que nos preocupa aqui é a ideia de uma prática espiritual, como a maioria dos ocidentais usa o termo. Como verbo, praticar é fazer algo de novo e de novo até que sejamos melhores nisso.

Curiosamente, a palavra “prática” não é um substantivo, é em todos os casos um verbo. É um princípio ativo; como observamos acima, o mesmo acontece com a Maçonaria. Uma prática espiritual, usando os termos que descrevemos aqui, realmente indicaria “trabalhar

regularmente ou constantemente para melhorar o princípio vital da vida consciente”. O termo “prática espiritual” é algo que poderíamos dizer que desenvolve, por esforços repetidos, esse princípio vital que anima os seres humanos, “animando o corpo ou mediando entre corpo e alma”.

Como a alma é o “sopro” vital dos seres humanos, é preciso perguntar de onde ela vem, a fim de entender se ela pode ser desenvolvida. No entanto, se esse princípio é apenas isso, um princípio, ele pode ser “treinado”? Já não é perfeito como é? Houve muitos filósofos, Aristóteles, Platão, Plotino e Sócrates que debateram essa mesma questão, a natureza imortal e, portanto, incorruptível da “alma”. Pode algo que é, em sua essência, incorruptível e puro, ser “treinado”?

Novamente, se examinarmos a palavra alma, como um princípio vital e imortal que emana de uma fonte divina, então deve-se assumir que é algo que é puro e intocado como é. Se o Divino é infalível, a alma não é então também infalível? No entanto, se o espírito, sendo esse canal ou mediador do corpo e da alma, é verdadeiramente um sopro que pode expirar na morte, então talvez seja essa parte para a qual estamos buscando refinamento. Seria a lavagem do filme de emoções e desejos que escureceram o canal que seria a província de uma prática espiritual. Isso é muito claramente delineado em algumas viagens alegóricas dos Ritos Ingleses, particularmente os graus mais elevados. Na verdade, vemos isso em todas as jornadas alegóricas, e estágios, que o maçom leva ao longo de toda a sua carreira maçônica.

Talvez, o que chamamos de prática espiritual seja algo que não seja para melhorar ou melhorar o próprio espírito, mas para encontrar uma maneira de lembrar nosso mundo corporal do que o espírito e a alma, se alguém acredita nisso, realmente é. Talvez não seja para desenvolver o espírito ou mesmo um relacionamento com o espírito, mas para estar consciente e consciente dele, para estar ciente do que nubla, esconde, obstrui ou prejudica esse caminho claro de informação entre corpo e alma.

Se o nosso eu Divino, como a alma, deve falar no mundo material, o espírito deve ser claro para permitir que isso aconteça. Talvez esta seja a razão pela qual a Maçonaria não se preocupa com uma única religião, mas com a Religião como um todo, se alguém deve saber que existe uma alma, então deve haver uma razão para sua existência. Talvez esta seja também a razão pela qual é preciso ter uma crença em uma divindade para até mesmo ser um maçom. Por que você iria querer melhorar o canal entre corpo e alma se você não acreditava que uma dessas peças não existia?

Desenvolver o espírito significa primeiro remover as coisas que prejudicam o canal e apoiar o que ajuda o espírito em seus deveres. Essa prática não se preocupa com a razão da existência da alma, apenas que ela seria capaz de se comunicar claramente com os outros membros do mundo humano.

É aqui que a Maçonaria se interessa, especificamente. À medida que progredimos através dos graus, diferentes histórias e símbolos falam conosco, com base em nossa experiência, pode-se encontrar ressonância mais em um do que no outro. Eles trazem ideias e descobertas que melhoram o canal entre corpo e alma, ao trazer à tona gatilhos que ilustram nossos próprios bloqueios, podemos identificar as razões e limpar o caminho.

Ser autoconsciente é o primeiro passo. À medida que nos elevamos nos graus maçônicos, a percepção e a compreensão do que barra nossos caminhos se tornam mais sutis e refinadas, e a prática de limpar o caminho se torna mais sedimentada. A Maçonaria ensina seus adeptos, com muitas mensagens e profundidades variadas, como limpar e manter claro o canal, ensina-nos a agir segundo a “Grande Lei” que permeia a ideia de existência humana.

Uma razão pela qual a Maçonaria se baseia em si mesma, é que você deve ser capaz de remover as obstruções comuns e mais grosseiras na comunicação antes de poder trabalhar nas sutilezas. No entanto, se escorregamos, precisamos começar de novo. Prática. Daí a razão pela qual os maçons se consideram “estar sempre no primeiro grau”.

Além disso, a Maçonaria parece preocupar-se com todos os aspectos do ser humano, refinando e aprimorando à medida que avançamos mais profundamente em seus ensinamentos. Ou seja, preocupa-se com o nosso bem-estar e ações mentais, físicas e emocionais. É preciso aprender os fundamentos do mundo físico, através de rituais e memorização, antes de navegar para o mundo emocional: subjugar paixões, por exemplo. Então, somente compreendendo e dominando esses mundos ele pode esperar alcançar qualquer senso de estabilidade e crescimento nos reinos do mental.

A maioria, senão todos nós, lutamos em qualquer um desses níveis e temos que nos recuperar de um revés, trabalhando em sua natureza áspera de novo e de novo. Isso não é prática?

Talvez, então, todo esse trabalho que fazemos em todos esses graus seja o aspecto da Maçonaria que procura refinar o espírito. Se alguém vê os graus como uma espiral de vida, então pode ver a prática embutida em cada um deles, culminando em um nascimento / morte. A Maçonaria não só nos ensina como melhorar o espírito, mas também nos diz o porquê.

A Maçonaria não atribui uma fonte religiosa ou teológica específica à alma, ao corpo ou ao espírito, ela credencia a manifestação suprema e soberana com as lições dos graus – uma fonte divina. Ela nos ajuda a entender como deixar a mensagem única de nossas centelhas Divinas individuais ser ouvida e nos permite, através das lentes da Maçonaria, entender por que ela existe em primeiro lugar.

Há muitas maneiras de entender a alma, as religiões fornecem múltiplas razões para sua existência e propósito de ser. Embora algumas religiões também nos ensinem através de seu ritual como acessar a alma, elas podem ou não permitir a rica diversidade da cultura humana e os múltiplos modos de compreensão.

Eu acredito, em sua maneira dogmática e rudimentar, que eles procuram remover os obstáculos morais que impedem o espírito (conduto) de alcançar seu objetivo, que é o livre fluxo da essência Divina da alma para a expressão dentro deste reino físico, emocional e mental chamado Terra. Onde eles podem ficar aquém é a falta de mensagens culturais que procuram abraçar a todos, com mensagens diferentes adaptadas às diferentes histórias humanas que chegam à sua porta.

A Maçonaria parece fornecer suporte não apenas para uma diversidade de “origens da alma”, mas também encontra esse caminho do meio, o terreno neutro, a fim de desenvolver esse caminho que se conecta entre o mundo em que vivemos e o mundo em que o Divino reside. As repetidas jornadas do sistema de graduação procuram nos ensinar, de várias maneiras, quais podem ser os blocos e como removê-los, em linguagem direta, não conflituosa e não segregada.

A Maçonaria nos permite, como indivíduos, encontrar nosso próprio caminho para a Voz de qualquer Divindade que nos fale, e nos encoraja a expressá-la como quem realmente somos, sem pretensão, ilusões ou corrupção. A Obra da Maçonaria é a Obra em nosso eu, repetidas provações e aprovações, desenvolvendo, limpando, e reconhecendo o caminho que conecta a Alma Divina à nossa hoste humana. Desta forma, para mim, nada mais poderia ser mais espiritual.

Autor: Geovanne Pereira

*Geovanne é professor de Filosofia, Psicanalista, Psiconauta, Yogue, Facilitador de estados holotrópicos de consciência no Instituto de Desenvolvimento Humano Céu na Terra e Mestre Maçom da ARLS Jacques DeMolay, n°22 – GLMMG. @ceunaterra.autoconhecimento.

Nota do Blog

Clique AQUI para ler a primeira parte do artigo.

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A Maçonaria é um caminho Espiritual? (Parte I)

“O que é uma alma? O que é o Espírito? O que é Energia?” Começamos a nos envolver em conversas sobre termos metafísicos como alma, energia e espírito sem estar cientes de que não estamos falando a mesma língua. As palavras podem ser as mesmas, mas os significados mudam, devido ao sistema de crenças de quem lê. Podemos debater essas questões a noite toda, durante todo o mês e pelo resto de nossas vidas e nunca chegar a um entendimento. As pessoas realmente sabem o que querem dizer quando falam sobre energia, alma ou espírito? Embora estas sejam discussões comuns entre os maçons iniciados e espiritualistas, elas às vezes são os assuntos mais difíceis sobre os quais permanecemos imparciais e justos.

Os seres humanos parecem ter investido muito na ideia de suas almas, e nas almas de outras pessoas também.

Muitas pessoas se juntam a grupos maçônicos para que possam “ter uma experiência energética” ou “tocar algo místico”. Alguns falam sobre experimentar algo que toca sua alma ou fornece um significado espiritual para suas vidas. Alguns maçons mencionam como eles “amaram a energia da Loja” ou como é nosso trabalho “elevar a vibração do nosso mundo material”. Muitas pessoas começam sua carreira maçônica procurando algo místico, algo secreto. Como a Maçonaria lida com as questões da vida e da morte, o neófito pode estar procurando a Maçonaria para desvendar todos esses segredos especiais e ter as respostas. Eles usam termos como alma, espírito e energia sem defini-los para si mesmos e em suas comunicações com os outros.

Parece que, muitas vezes, as conversas são sobre o que as pessoas querem acreditar, em vez de conclusões fundamentadas. Discussão e debate são a maneira como nós educamos e crescemos. A transformação requer pensamento.

Para aqueles que deixam de lado desejos e vontades preconcebidos, a Maçonaria é transformadora de muitas maneiras. Ele discute essas questões de vida e morte. Deixa o aspirante refletir sobre símbolos e significado e, sim, talvez chegar a insights pessoais sobre alma, espírito e energia. A Maçonaria nos oferece a oportunidade de nos convertermos de uma natureza limitada humana polarizada, para uma natureza espiritual ilimitada e equilibrada. Precisamos aprender a lidar com todos os aspectos do nosso temperamento, a fim de entender    todas   as características desta vida, material, emocional, mental e espiritual. É este último reino espiritual, que tropeça muitos.

A maioria dos maçons aceita a presença de um poder maior, algo indefinido que nos conecta a um único propósito. A maioria concordaria com a ideia da natureza multifacetada da existência humana, lutando com o equilíbrio do cérebro, mente, corpo e essa ideia de “conexão”. Muitos experimentaram coisas que não conseguem explicar, os empurrões da intuição e os repentinos lampejos de insight que parecem “profundos”. Todas essas são experiências válidas. É levá-los da experiência para uma comunicação significativa que os seres humanos lutam. Jogamos fora uma palavra como “alma” ou “espírito” ou “energia” e assumimos que as pessoas com quem nos comunicamos entendem o que elas significam. Os maçons são filósofos, e qualquer bom filósofo não suportará uma discussão com termos aleatórios e indefinidos. Quando perguntado sobre almas, há alusões vagas a algo energético, místico, único e conectado a alguma forma de deus / deusa / força / Tao. Uma alma é o que nos torna indivíduos. Uma alma é algo que faz parte da Divindade. A alma é o nosso eu energético. “Quando nossos olhos se encontraram, nossas almas se tocaram.”

O que isso realmente significa? Para cada indivíduo que fala sobre esses assuntos, há uma resposta diferente, conversar com as pessoas sobre almas e espíritos e tal pode ser bastante polêmico. Algumas pessoas ficam totalmente perdidas com estes termos abstratos e metafísicos.

Podemos definir algum deles? Talvez. E talvez possamos começar com a energia.

A menos que você descarte de todo o coração a ciência, não pode haver dúvida por um segundo de que somos seres energéticos. Os neurônios usam impulsos elétricos e neurotransmissores (componentes químicos) para permitir que nossos corpos funcionem em sua totalidade: pensar, sentir, curar, sentir, respirar, tudo. Sem energia, nossos corações não bombeariam, deixaremos de ser capazes de pensar e processar informações, e morreríamos. As mitocôndrias, em uma estranha relação simbiótica conosco, nos permitem viver, ajudando-nos a processar o mundo material ao nosso redor em energia. Cada célula tem mitocôndrias e cada célula é capaz de produzir energia de algum tipo. Vida é energia.

Ok, nós estabelecemos que somos seres energéticos, e pela natureza do mundo material, os seres energéticos estão em toda parte. Nós nos comunicamos com nossos sentidos e recebemos comunicação com nossos sentidos. Abraham Hicks disse: “Falamos com palavras, mas nos comunicamos com energia”. Cyndi Dale, autora de “Enciclopédia de Anatomia do Corpo Sutil”, afirma que “energia é informação que vibra”. Esta última definição é um pouco mais confiável, ao que parece, do que a primeira. Podemos testá-la. Podemos testá-la novamente. Podemos brincar com ela e trabalhar para definir exemplos. No entanto, é também aqui que fica complicado, certo? Vamos pegar um pequeno parágrafo da Wikipédia:

“Em física, a energia é a propriedade que deve ser transferida para um objeto, a fim de realizar o trabalho ou aquecer o objeto. Ela pode ser convertida na forma, mas não criada ou destruída.”

Então, vamos a uma pergunta simples: de onde veio a energia que nos compõe? Em uma conversa recente, eu coloquei essa questão a um colega maçom. Ele respondeu: “das estrelas”. Eu disse ok, me leve de B para A. Ele disse: “As estrelas criaram os elementos que aprisionaram a energia que nos permeia”. Respondi que concordava, mas então, o que compõe as estrelas? Ele disse que deve ser “o Big Bang”. Os seres humanos são a energia presa do material criado durante o Big Bang. Para ele, todos nós derivamos do único momento que criou o tempo, a matéria e a energia. Físico ou filosófico, o tema da energia é para onde convergem. Podemos concluir disso que os elementos que compõem o mundo material são energia aprisionada. Este espírito de “energia” aprisionado? Essa é a nossa alma?

Se estamos presos à energia das estrelas, como é tudo ao nosso redor, então temos muito mais em comum com outras matérias do que pensamos que temos. Se todos nós somos feitos da mesma matéria, devemos ser capazes de reconhecer uns aos outros por meio da transferência de energia. Ou, assim se poderia pensar. O que é interessante notar é que muitos psicólogos e filósofos consideravam o amor como uma transferência de energia. Freud se debruçou sobre os aspectos físicos do amor, enquanto Platão fala sobre o amor espiritual ou altruísta, mas um no mesmo, o que chamamos de amor é, para eles, uma transferência de energia. Quando amamos algo, colocamos energia nele, e ele em nós. Talvez esta seja a ideia de espírito. Espírito, disse Platão, dessa forma nos comunicamos emocionalmente com outros seres humanos. Também podemos dizer que o amor é energia.

Então, se o amor, a vida e os elementos são todos energia, podemos tirar alguma conclusão sobre a alma?

Muitos filósofos tentaram explicar a “alma”. Apenas um exemplo, Plotino, o primeiro neoplatônico, fez o seu melhor para nos ajudar a entender que a alma não precisa necessariamente de um corpo, no entanto, sem um corpo, ele não pode existir nos “reinos inteligíveis e se expressar nos reinos visíveis”. Este conceito nos diz como ele pensava que a alma se expressava, mas não o que ela é. Em um sentido muito básico, os neoplatônicos chamavam a alma de “consciência” ou “psique”. Ainda assim, não está claro, mesmo em termos modernos, o que é a consciência. Se pensávamos que definir “alma” na religião é difícil, tente a inclinação filosófica …Verdadeiramente angustiado.

Parece que Plotino e Platão já estão de acordo que existe uma alma, mesmo que não possam concordar com sua definição. Talvez seja algo que todos nós temos que debater até que possamos aprender com certeza. Talvez nunca aprendamos com certeza, pelo menos não nesta dimensão.

Uma conclusão sólida é que o significado de uma alma não parece ser o significado de uma alma para todos, e o espírito também não é algo com o qual possamos concordar. Senão a incalculável quantidade de religiões do mundo concordaria nisso. A frase “nossas almas falam umas com as outras” não significa muito se você não puder realmente explicar a outra pessoa o que isso significa. “Nós nos comunicamos ‘energeticamente’ é realmente inútil, a menos que você possa realmente entender claramente o que você pretende. Nem importa se você pode explicar isso para outra pessoa, será que nos entendemos mesmo? Um maçom sábio disse uma vez que se você pode explicar algo para uma criança de cinco anos, e a criança de cinco anos entende, então você realmente entende o conceito disso. Termos simples, claramente definidos. Definitivamente, precisamos de mais crianças de cinco anos ao nosso redor para nos manter honestos e claros.

Maçom, cientista, filósofo ou físico: independentemente do que você acredita sobre alma, espírito, energia ou qualquer outra coisa metafísica, as definições são importantes e a compreensão pessoal ainda mais. A exploração do significado da vida é, quer concordemos em termos ou não, algo que todos compartilhamos.

Continua…

Autor: Geovanne Pereira

*Geovanne é professor de Filosofia, Psicanalista, Psiconauta, Yogue, Facilitador de estados holotrópicos de consciência no Instituto de Desenvolvimento Humano Céu na Terra e Mestre Maçom da ARLS Jacques DeMolay, n°22 – GLMMG. @ceunaterra.autoconhecimento

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Farinha do mesmo saco

Em tempos idos, depois da colheita e da debulha, tomavam os agricultores o seu grão que levavam ao moleiro para que o transformasse em farinha. Diversas variedades de grão davam origem a diversos tipos de farinha, que não se queriam misturados; afinal, farinha de trigo e farinha de centeio resultam em tipos de pão muito diferentes… Por isso, cada um dos vários tipos de farinha era cuidadosamente ensacado separadamente dos restantes. Ficava, assim, a farinha mais fina separada da mais grosseira, e a mais branca separada da mais escura.

O povo, pródigo em aforismos, terá visto nas várias qualidade de farinha uma metáfora para as qualidades humanas. Do latim nos chega, assim, a expressão ejusdem farinae (“da mesma farinha”), dizendo-se de vários indivíduos serem, como diríamos hoje, “farinha do mesmo saco”, quando apresentassem qualidades ou defeitos comuns. No fundo, a expressão dá a entender que os bons se juntam aos bons, enquanto os maus andam na companhia dos maus.

Não é segredo nenhum que os maçons procuram acolher no seu seio pessoas com determinadas qualidades. Sendo a maçonaria um instrumento cuja finalidade é o aperfeiçoamento do homem e do Homem não é de estranhar que seja essencial que o indivíduo que pretende ser maçom tenha esse desejo de se tornar numa pessoa melhor. Pretendendo-se, por outro lado, cultivar um ambiente de fraternidade obriga, igualmente, ao desenvolvimento de um proporcional sentido de tolerância. Por fim, e acima de tudo, nada disto pode ser conseguido por quem não seja uma pessoa de bem; a vileza de propósitos é absolutamente incompatível com os princípios da maçonaria.

Serão, então, os maçons uma massa homogénea – de espíritos elevados, dirão uns, ou de energúmenos, dirão outros? De modo algum. Antes do mais, porque não é isso o que se pretende; o respeito pela diversidade, mais do que acarinhado, é um dos pilares da maçonaria: a famosa “tolerância maçônica”. Por outro lado, porque os maçons nem sempre são tão eficazes quanto seria desejável no crivo pelo qual fazem passar os candidatos. Acabam, assim, por ser admitidos indivíduos que não deveriam sê-lo.

A maior parte destas admissões “por engano” acaba por se resolver num prazo curto. Não é inaudito alguém ser iniciado, aparecer a algumas sessões, e depois deixar de aparecer. Outros ficam mais tempo; no entanto, ao fim de um par de anos, chegados ao grau de Mestre, desaparecem como os primeiros. Uns e outros acarretam um desperdício de tempo e de esforço, quer dos próprios quer da Loja. No entanto, é sempre feito um esforço suplementar no sentido de se endereçar o que tenha corrido menos bem, e no sentido de se ajudar o irmão em causa a reconquistar o ânimo, a vontade, ou tão somente a disponibilidade.

Por fim, há os que vão ficando, pelo menos em corpo – mas não em espírito, em vontade ou em união com os demais. Bebem da fonte da maçonaria apenas o que lhes interessa, mas esquivam-se da reciprocidade que deles se espera – não reciprocidade material, mas de tempo, esforço e serviço. Mas como a maçonaria preza muito a liberdade de cada um, e a ninguém exige aquilo que não queira – ou não possa – dar, estes são, muitas vezes, metidos no mesmo saco dos “pouco disponíveis” ou, enfim, dos “pouco dotados”.

É inconcebível esperar que, entre milhares de pessoas, não haja um punhado de indivíduos dissimulados, de má índole, ou com uma agenda própria. E porque basta uma pequena contaminação para condenar todo um saco, se a maçonaria fosse um saco de farinha as autoridades sanitárias não nos poupavam: ia tudo pelo ralo.

Por mais que o queiramos – e que o ideal seja esse – a maçonaria real, feita de maçons de carne e osso, não é um impoluto saco de farinha fina e branca, imaculada como a neve. É, antes, uma irregular farinha de mistura de cereais diferentes, com pedaços de farelo e grão mal moído, a que não falta uma ou outra caganita de rato. Bem amassada com água e com o sal que tempera os nossos dias, submetida ao calor de um forno que a liberta dos efeitos nefastos das impurezas, obtém-se um pão saboroso e único – saboroso porque provém de todos, e único porque provém de cada um – para mais enriquecido com uma dose q.b. de elementos patogénicos para treinar o nosso sistema imunitário.

Há indivíduos na maçonaria que fazem coisas que não deveriam? Sem dúvida. E que, porventura, não deveriam ter sido recebidos maçons? Também. E que até já foram expulsos da maçonaria por causa do que fizeram? Incontestável. O que não é verdade é que sejam esses quem define o que é a maçonaria, ou o que esta deve ou não deve ser. Não basta, como fazem alguns, apontar-se um mau maçom – ou uma dúzia deles! – para descredibilizar, de imediato, toda a instituição.

Todo o pressuposto está errado. As pessoas não são farinha, as companhias não nos definem, e o mal não se propaga assim. Ou, como jocosamente disse Millôr Fernandes, “Diz-me com quem andas e dir-te-ei (que língua a nossa!) quem és. Pois é: Judas andava com Cristo. E Cristo andava com Judas.”

Autor: Paulo M.

Fonte: Blog A Partir Pedra

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As luvas e as cunhadas

Não é incomum um irmão perguntar sobre o uso das luvas por parte das cunhadas, visto que se propaga, em muitas lojas, a ideia de que essas luvas devem ser usadas como sinal de socorro em caso de necessidade, com alguns entendidos chegando até mesmo a indicar como deve ser feito um suposto sinal, seguido da troca de uma suposta senha entre a cunhada e o irmão maçom que vai ajudá-la. Consultado, sempre informo que tal procedimento não está previsto em nenhum ritual, não passando de uma invencionice que, infelizmente, tem persistido e passado como verdade para os novos iniciados.

Com o objetivo de trazer mais esclarecimentos sobre esse assunto, reproduzo abaixo texto do nosso irmão Pedro Juk, em que ele responde a um irmão que o questiona se esse tal uso das luvas é uma prática prevista nos rituais maçônicos, um mito, ou um invencionismo.

Vamos então à resposta que ele nos oferece.

Isso é o cúmulo da bobagem. Na realidade nada disso é verdade. É pura invenção de autoria de irresponsáveis que não compreendem nada das mensagens simbólicas na Maçonaria.

A entrega das luvas femininas ao neófito durante a cerimônia de Iniciação é costume da galante Maçonaria francesa – isso não é unânime na Maçonaria.

Nos ritos que utilizam essa prática, a sua entrega tem apenas o desiderato de destacar a liberdade no trato com aspectos da Ordem.

Nenhum ritual sério prevê a entrega de pares de luvas para que eles sejam obrigatoriamente destinados às Cunhadas, mas prevê sim que essas luvas sejam oferecidas àquela que mais tiver estima e afeto do Iniciado.

Evidentemente que essa liberdade de escolha é apenas do novo Aprendiz. É ele, ninguém mais, que destinará o par de luvas femininas. Por exemplo, conforme o seu desejo e quando ele quiser, as luvas podem ser oferecidas à sua filha, esposa, mãe, madrinha, ou qualquer outra pessoa do gênero feminino que para ele seja merecedora.

Nada dessa liberdade pode ser confundida com libertinagem. Não há como se confundir o ato como um incentivo para presentear pessoas advindas de relacionamentos extraconjugais (concubinas) e outros congêneres. Obviamente que não se faz crer que uma Loja seja capaz de iniciar alguém apreciador dos maus costumes – afinal, é para isso que existem as sindicâncias.

Assim, o par de luvas femininas é entregue conforme a consciência e desejo íntimo do Irmão, portando esse ato não deve ser conduzido conforme desejo alheio – da Loja, por exemplo. Isso é erro crasso.

Não existe, portanto, é irregular, o costume de se fazer como muitas Lojas fazem por aí, reunindo as cunhadas na Loja depois da Iniciação para que o novo Irmão entregue as luvas femininas para a sua esposa. Quem decide isso é ele, ratifico não a Loja.

Igualmente, em cima dessas barbaridades inventivas é que alguém imaginou um irregular gesto ou sinal de pedido de socorro com as luvas para as nossas cunhadas.

Não existe besteira maior! Coisa de quem não tem mesmo o que fazer!

Sugiro que, em vez disso, procurassem esses inventores estudarem em fontes limpas os propósitos da verdadeira Maçonaria.

Essa de deixar a luva cair e alguém perguntar “sois uma flor?” é mesmo d’escrachar, digna de uma comédia do tipo “pastelão”. Tal o tamanho dessa barafunda, ela que não merece nem comentário.

O que aqui comentei foi com base naquilo que é real e verdadeiro na Maçonaria, por conseguinte longe dos delírios inventivos.

Se algum ritual previr esse anacronismo, tenha certeza de que ele merece urgente reavaliação. Que me perdoem os defensores desses absurdos.

A propósito, em relação às luvas na Maçonaria, além do seu caráter histórico como vestimenta de proteção nos tempos operativos, na Moderna Maçonaria elas trazem a mensagem pela sua alvura de se manter as mãos constantemente afastadas das águas lodosas do vício.

Agora… Sinais com elas… É mesmo coisa rocambolesca.

Fonte: Blog do Pedro Juk

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Buscadores da Verdade…sois mesmo? (Parte III)

4 – Primeiras Considerações

O leitor atento já percebeu que o caminho no sentido à verdade não só é sinuoso como possui armadilhas que podem levar ao retrocesso.

Primeiramente eu quero reforçar a atenção sobre um ponto a partir da sequência da apresentação das ferramentas: a dialética; o silogismo; as quaestio disputata; indução vs dedução; e, método científico. Para discorrer sobre silogismo foi necessário recorrer à dedução (tema só apresentado posteriormente), mas para definir dedução foi necessário recorrer à noção de silogismo … há, pois, uma aparente circularidade. Ademais, as hipóteses, mais exploradas no MC, são partes integrantes do silogismo … Trago essas questões para chamar a atenção que, tal como um maestro, o buscador deve combinar os diferentes instrumentos necessários à harmonia sinfônica que encanta – a verdade.

Algumas das chamadas “ferramentas”, a exemplo das Questões Disputadas (QD), em razão da sua estrutura são, efetivamente e antes de tudo, organizadoras do pensamento, facilitam e promovem o entendimento da realidade; constituem uma efetiva plataforma para voos mais altos. A citação de Haskins, a seguir, oportuniza chamar a atenção para o fato de que as Questões Disputas eram exercitadas no contexto do desenvolvimento das Artes Liberais que, lembre-se, eram obrigatórias e antecediam os estudos mais especializados e avançados. Infelizmente, o que hoje se observa na Maçonaria é que as Artes Liberais não merecem mais do que uma tênue menção, não mais do que, en passant, e distribuídas por entre os Graus simbólicos, tendo-se perdido, completamente, o seu potencial formador, organizador e transformador:

[…] igualmente notável é a grande importância dada à lógica ou a dialética. Os primeiros estatutos das universidades, ou seja, aqueles de Paris em 1215, exigem que se estudem todos os escritos de Aristóteles que versem sobre lógica, um material que durante toda a Idade Média permaneceu como espinha dorsal do curso de artes […] a lógica não era assunto de estudo que tinha importância apenas por si mesmo, mas também permeava todas as outras disciplinas como um método, ao mesmo tempo em que dava à mente medieval um tom e um caráter peculiares. Silogismos, disputas, a disposição ordenada de argumentos a favor e ou contra teses específicas, eis o hábito intelectual da época […] (HASKINS, 2015, p. 48-9).

E não custa lembrar que as observações de Haskins dizem respeito ao ensino do que hoje corresponde ao II Grau, portanto, o nível médio.

Ademais é preciso estar atento, pois se de um lado a dialética tende a vir carregada de juízo de valor, o que não raro embota a apreciação crítica e objetiva, de outro chama a atenção para o fato de que a verdade, de algum modo parece convergir à unidade (senão não seria “a” verdade), a uma síntese que se não for desvelada (pela filosofia natural) deve ser construída (pela filosofia moral) ainda que a partir de contrários aparentes.

Por oportuno, cabe observar que desde a Antiguidade os homens têm estabelecido paralelos entre as verdades apreendidas no mundo natural e as verdades criadas (algumas também na forma de leis) para regular a vida em sociedade. Trata-se de uma indução forçada, pois as primeiras estão sob o domínio e são desveladas pela filosofia natural, enquanto as últimas, produtos da engenharia política e social, estão sob o domínio da filosofia moral. Nay (2007) deixa muito claro a conexão entre os dois domínios:

A nova legislação pretende claramente pôr fim aos conflitos pela realização de um equilíbrio entre as classes e a sociedade ateniense […] transpondo assim, no espaço da cidade, a concepção do universo simétrico difundido no mesmo momento pelos filósofos de Mileto (p. 27).

Adiante, referindo-se a Cícero, esclarece que:

Suas duas obras políticas maiores, De Republica e De Legibus, são fortemente influenciadas pelo pensamento “naturalista” dos estóicos […] Cícero recorda a importância da “lei natural” em política, a necessidade de recorrer à razão e ao conhecimento como instrumentos de governo […] (p. 64).

Finalmente, em apreciação histórica, Yates (1990, p. 490-1) sintetiza:

O séc. XVII é o período criativo da ciência moderna […] a filosofia mecanicista da natureza introduziu a hipótese, e o desenvolvimento da matemática proporcionou um instrumento próprio à primeira vitória decisiva do homem contra a natureza. Pois “todo o magnífico movimento da ciência moderna é essencialmente consistente, e seus posteriores ramos biológico e sociológico adquiriram da mecânica, já vitoriosa, os seus postulados básicos”.

Cumpre esclarecer que essas iniciativas são subprodutos e consequências lógicas da crença (que à época era a melhor resposta, a ciência de então, para as questões em aberto) da existência de dois mundos de algum modo interligados: o micro e o macrocosmo – enquanto primeiro referia aos fenômenos naturais, o segundo possuía elementos sobrenaturais -, e este, de algum modo (a ser descoberto), afetava aquele. Nem sempre devidos, como Marco Aurélio (o imperador filósofo) alertara já na Antiguidade, esses paralelos resistiram até o Renascimento, quando então, pouco a pouco foram ruindo (ROSSI, 1992). Todavia, a emergência da moderna física clássica – a mecânica newtoniana, que deu origem à “filosofia mecanicista” referida por Yates -, deflagrou uma nova onda de paralelos entre a ordem natural e a ordem social. E mais recentemente (início do séc. XX), tanto a Mecânica Quântica quanto a Teoria da Relatividade têm sido instrumentalizadas para fundamentar (ao atribuir status de verdade científica), indevidamente, generalizações que se estendem às construções sociais – aos comportamentos e valores. Baseado na Teoria da Relatividade, por exemplo, tenta-se mesmo fazer crer que “tudo é relativo”! Sobre o tema vale a pena ler “Pura Picaretagem: como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a ciência para te enganar. Saiba como não cair em armadilhas!”, de Bezerra e Orsi (2013).

Parece-me já claro que, se de um lado há ferramentas que auxiliam o buscador da verdade, estas mesmas ferramentas, por desconhecimento ou má fé, podem ser utilizadas para encaminhar no sentido contrário, afastando-nos da verdade, o que ficará ainda mais claro a partir da próxima seção.

5 – Falácias e sofismas

Sobre o tema não me deterei em demasia porque já está desenvolvido em Pinheiro (2021) e com vários exemplos aplicados à Ordem. Ademais, ao leitor interessado em leitura enriquecedora eu sugiro O Sofista (PLATÃO, 2013), e ao mais pragmático, o Guia das Falácias, de Stephen Downes. Entretanto, cumpre ora observar que o tema merece atenção e é relevante porque se coloca como um obstáculo, um dos principais, àquele que busca a verdade, sobretudo nos assuntos do cotidiano, mais próximos aos objetivos da Ordem. Enquanto a falácia é um erro de raciocínio por desconhecimento, o sofisma é grávido de dolo induzido pelo retor. E como a falácia dialoga com as ferramentas apresentadas? Japiassu e Marcondes (op. cit.) esclarecem:

Falácia (do lat. fallax: enganoso). Argumento envolvendo uma forma não-válida de raciocínio, no qual a conclusão é deduzida das premissas de acordo com as regras do silogismo. Argumento errôneo, que possui a aparência de válido, podendo levar à sua aceitação. (p. 94)

Sofisma (lat. e gr. sophisma). Raciocínio que possui aparentemente a forma de um silogismo, sem que o seja, sendo usado assim de modo a produzir a ilusão de validade, e tendo como conclusão um paradoxo ou um impasse. Ex.: este cão é meu, este cão é pai; logo este cão é meu pai (p. 227).

Conforme visto, é próprio da dialética a oposição dos contrários, o que, quando em jogo interesses estabelecidos, favorece ou mesmo estimula o comportamento oportunista, como bem explorado por Schopenhauer (1997) que identificou 38 estratagemas da dialética erística. Assim, a indução, o silogismo e a falácia, de mãos dadas, podem ser instrumentos úteis à conveniência dos interesses encobertos pela dialética erística, em especial nos temas que envolvem crenças, ideologias e, sobretudo, poder – política. Como subproduto desses embates as verdades são ressignificadas, não no sentido já esclarecido – pelo método racional, lógico, submetido à reiteradas provas transparentes e auxiliadas por ferramentas -, mas literalmente por imposição, seja doutrinária, psicológica e até mesmo física mediante coação, como bem explorado nas sátiras distópicas de Orwell (2005, 2007) e Huxley (2014). E é bom frisar, como alerta, que essas distorções são próprias do comportamento humano, daí antigas (insuperáveis?), como revela Jaulent (2006, p. 9) na apresentação ao Livro das Bestas, de Raimundo Lúlio (Llull em catalão), escrito no séc. XIII:

Servindo-se precisamente do simbolismo das bestas, Lúlio faz desfilar perante o leitor a intriga, a ideologia, o adultério, a mentira, enfim, todas as mazelas que amargam a sociedade dos homens quando estes, incoerentes com a sua condição racional, deixam-se subjugar pela sensibilidade cega.

O texto de Llull, que traz a natureza humana ao centro dos debates, convida à abordagem do tema – buscador da verdade – a partir de outra perspectiva que é muito própria à Maçonaria – a simbólica.

6 – Os níveis de análise

Ser livre e de bons costumes são exigências básicas para o ingresso na Maçonaria. A essas uma terceira condição completa os requisitos fundamentais à Iniciação: a crença no Grande Arquiteto do Universo [GADU] – o décimo nono landmark de A. Mackey -, mas que também pode ser depreendida do Artigo Primeiro das Constituições de Anderson – concernente a Deus e Religião -, de onde se extrai que “um maçom […] nunca será um ateu estúpido, nem um libertino irreligioso […]” (ANDERSON, 2012, p. 149).

Muita tinta e páginas já foram consumidas em análises críticas sobre o tema, mas quero aqui chamar a atenção para um desdobramento lógico da crença no GADU porque pertinente ao tema ora desenvolvido, uma cosmovisão particular, admitida por muitos, mas não por todos, qual seja: a existência de um plano transcendente à razão objetiva que, em princípio, é (seria) inatingível pelas ferramentas apresentadas. Isso implica na concepção do homem noético, também denominado de noopsônico (PONTES, 2012) que, em síntese, é constituído por matéria (físico), intelecto e espírito. Alguns, a exemplo de Smith (2002), identificam quatro dimensões: corpo, psique, alma e espírito; enquanto que Descartes se restringiu à dualidade corpo vs alma.

Até então o construto “verdade” vinha sendo abordado sobretudo no âmbito da dimensão física (ainda que invisível, por vezes não mais do que uma elaboração teórica, porém com resultados práticos), em que pese as noções de intelecto, psique e alma já há tempos serem objetos de estudo dos buscadores da verdade auxiliados pelas ferramentas apresentadas. Entretanto, a noção de “espírito” demanda uma abordagem diferenciada, em parte complementar, bem como ferramentas de outra natureza capazes de alcançar, então, a “verdade revelada”. Enquanto as ferramentas já vistas são instrumentos para a aproximação da verdade dita objetiva (racional) que constitui o corpus do conhecimento exotérico, a nova dimensão (esotérica) requer ferramentas capazes de proporcionar um novo tipo de experiências, de natureza mística que, por sua vez, levam à descoberta da revelação – a verdade esotérica.

E como é possível chegar à verdade revelada que, segundo estudos, requer estados diferenciados de consciência capazes de proporcionar o necessário senso de autotranscedência? A literatura sugere ferramentas que já têm sido objetos de estudo pela ciência (HAMER, 2005), a exemplo da ioga, da meditação, da gnose, da oração e da vida ascética, mas também o recurso às substâncias químicas.

Assim, tal como o Homem, a verdade também pode ser figurada em outro plano que, à primeira leitura, guarda semelhanças com o Mundo das Ideias já referido. E mais uma vez, por ser um tema demasiado amplo, não será possível, por ora, tecer considerações mais aprofundadas sobre a experiência mística, o conhecimento esotérico e a revelação; não obstante cabe ressaltar que esse domínio também vem sendo explorado a partir das ferramentas exotéricas (auxiliadas por novas tecnologias) e já constitui um campo próprio e crescente de conhecimento (PINHEIRO, 2021a).

E é fácil perceber a conexão metodológica entre os dois domínios: a experiência mística é uma vivência pessoal, portanto única e exclusiva; assim, o buscador reúne inúmeros casos, cataloga-os, classifica-os, procura regularidades, padrões, etc., tal como já esclarecido. Na sequência também se vale da indução para inferir, de hipóteses para deduzir resultados esperados, promove experiências cujos registros sistemáticos são submetidos à análise e testes estatísticos que corroborarão ou refutarão as hipóteses, etc. Enfim, reproduz, a partir dos insights pontuais e preliminares reportados pelos místicos (verdade que à primeira vista possui caráter essencialmente subjetivo) os mesmos procedimentos aplicados na busca da verdade objetiva. Note-se, também aqui, senão um esforço no sentido à unificação dos domínios de conhecimento, a tentativa de maior aproximação das duas vertentes: a da verdade adquirida e a da revelada. E, a rigor, a verdade revelada necessita ser desvelada, o que corresponde a ser descoberta; afinal, o que fazem os hermenêuticos, a exemplo dos cabalistas?

E sendo a crença no GADU uma conditio sine qua non, na Maçonaria só é possível admitir duas posturas: a deísta ou a teísta. Em linha de simplificação, tanto porque se trata de matéria amadurecida em vários textos, mas também para não me alongar e fugir em demasia do escopo, grosso modo, a Maçonaria deísta (a exemplo da praticada pelo Rito Moderno) segue a postura de R. Descartes, qual seja: Deus criou o mundo e o deixou por conta própria, análoga à célebre resposta de Laplace à Napoleão quando este o perguntou sobre como Deus se encaixava no seu esquema [de leis que regem o mundo]: “Senhor, não precisei dessa hipótese”. Já a postura teísta, assumida pelo Rito Escocês Retificado, admite a intervenção divina no cotidiano, o que explica a prática, por exemplo e entre outras, das orações de intercessão. Não é possível deixar de constatar que as diferenças são de tal ordem, assim como os desdobramentos lógicos e práticos, que chega mesmo a ser difícil reconhecer a ambos, entre outros Ritos, como espécies do mesmo gênero – a Maçonaria -; algo só tornado possível mediante a aplicação filtros seletivos (redutores) aos mínimos elementos constituintes.

A dificuldade para apreender a última dimensão (a espiritual) não é a única, mas está na raiz dos motivos para uma característica central à Maçonaria: o largo emprego do simbolismo. Considerando que essa matéria foi desenvolvida com maior profundidade em Pinheiro (2020), deste trago apenas alguns excertos à guisa de ilustração e em síntese: • A reunião das três chaves auxiliares à análise simbólica em um quadro (que se revela sinóptico) proporciona não apenas novos e importantes ensinamentos, como revela um efetivo padrão; e para deixar à evidência, ao lado das designações, em esforço de síntese, foram destacadas algumas expressões-chaves:

  • Em primeiro lugar, se vários autores apontam que existem níveis (graus) de percepção e entendimento da realidade apresentada, parece ser boa lição nunca se satisfazer com a primeira impressão pois “o que é ou pode ser” quiçá esteja encoberto por véus de ignorância superpostos. Do primeiro ao último nível há claramente um escalar de complexidade e abstração. Se o primeiro nível está relacionado à base (matéria, concretude), o último sugere o topo (o espírito, a abstração). É possível, também, tecer conjecturas acerca dos progressivos graus de certeza insertos em cada modalidade interpretativa e submetê-los à testagem.
  • Grosso modo, enquanto as primeiras interpretações têm como fonte e repercutem nos limites do universo primário de significados de cada indivíduo, o aprofundamento (mas que também corresponde à elevação) ao nível tropológico demanda considerações a partir de um novo marco: o dos relacionamentos, assim, o conjunto de valores pessoais deve ser sopesado aos códigos sociais, isto é, se cada iniciativa vai ao encontro ou de encontro às expectativas, ao que é aceito, valorizado ou, ao contrário. Finalmente, o nível anagógico volta a ter de caráter absolutamente pessoal, pois a descoberta (o desvelar do véu da ignorância) de regra se dá a partir do acúmulo de conhecimentos assim como da experiência, algo que ninguém pode adquirir ou fazer por outro. Analogamente o mesmo se verifica com a elevação e com a revelação, eis que ambas exigem pré-qualificações. Todavia, tanto a descoberta quanto a elevação e a revelação são experiências transformadoras, isto é, depois de tê-las vivenciado não é possível retornar ao estágio anterior; assim, e desde então, o agente passa a ser movido por outro código de valores, novas visões de mundo e padrões de relacionamento. E fecha-se, assim, o ciclo: o indivíduo, inicialmente a partir de um dado nível de conhecimento (inferior) relaciona-se com o coletivo, ascende a novos estágios (superiores) de conhecimento que possibilitam que estabeleça relacionamentos influenciando o seu habitat a partir de novas métricas e padrões, e assim sucessivamente até o último estágio idealizado: a revelação.

Por fim, cumpre chamar a atenção para uma situação sui generis mas que se apresenta aos buscadores da verdade, notadamente aos maçons:

  • conforme visto, é prática antiga e nem sempre apropriada, a transposição por analogia de entendimentos extraídos do mundo natural para o mundo social que, juntos, grosso modo, constituem o que ora se denomina de microcosmo – o mundo exotérico;
  • ademais, explicar determinados fenômenos verificados no microcosmo como decorrentes da vontade (leis, ainda que desconhecidas) proveniente do macrocosmo também faz parte das tradições. Vale lembrar que a magia, que nada tem a ver com a acepção contemporânea do termo, já foi a melhor explicação científica para os fenômenos observados, a exemplo da influência dos astros sobre o clima, a agricultura, a saúde e o comportamento dos seres vivos, etc.;

a) – conectar esses dois mundos (o micro, exotérico, científico; e, o macro, esotérico, gnóstico) chega a ser sedutor como chama a atenção Yates (op. cit., p. 496): “Pois não é toda ciência uma gnose, uma visão íntima da natureza do Tudo, que ocorre por meio de sucessivas revelações?”;

b) – nem mesmo R. Descartes, esclarece a autora, em momentos de dúvidas e angústias intelectuais escapou à tentação do pitagorismo hermético;

  • aos poucos, a magia e a ciência tomaram caminhos diversos a partir da melhor delimitação dos seus domínios. Todavia, a ausência de respostas definitivas pela ciência a incontáveis fenômenos e o surgimento de inusitadas questões, mantêm viva e mesmo estimulam a forte presença da magia, a identificação de paralelos, bem como a percepção (para alguns uma certeza) da existência de vínculo entre os dois mundos, como visto, entre outros, em Capra (1993); assim,
  • deve ser redobrada a cautela na busca pela verdade na esfera social, no mundo das relações cotidianas, pois ela sofre as influências de duas fontes que embora diversas somam as suas contribuições para desviar o foco e levar a enganos. E efetivamente parece ser o que mais ocorre.

7 – Considerações Finais

Conforme visto, ser um buscador da verdade corresponde a dedicar-se a empreendimento que comporta diferentes níveis de complexidade, seja pela variedade de instrumentos que requerem algum grau de domínio, quanto pela natureza fugidia do próprio objeto da busca. Contudo, não há qualquer dificuldade que com estudo, treino, orientação e passo a passo, não possa ser superada para alcançar os níveis mais elevados de conhecimento – aproximações da verdade.

E para aqueles que antecipam desânimo frente às dificuldades e também pelo reconhecimento apriorístico de que a verdade absoluta é uma miragem, cabe lembrar que o que efetivamente importa não é a linha de chegada, mas antes o caminho, os ganhos contabilizados ao longo da trajetória. É por sucessivas tentativas e erros que nos aproximamos da verdade. É o exercício continuado para atingir a verdade que proporciona o aperfeiçoamento físico, cognitivo, moral e espiritual.

Em tempos de disseminação viral de fake news, da primazia das pós-verdades na abordagem das questões do cotidiano, e intransigência no trato das mais diversas matérias (comportamentos, valores, opções políticas, crenças, etc.), o que leva à maior dificuldade no reconhecimento da integralidade do outro, s.m.j., talvez mais até do que no passado, revela-se indispensável exercitar a condição de ser um efetivo buscador da verdade.

A Maçonaria, instituição que não sem motivos regimentalmente afasta das Lojas o debate político-partidário e religioso, parece revelar-se como o ambiente apropriado para a realização de tais exercícios. Como? Muito simples! Para começar, dado qualquer tema, ao invés de iniciar com a enumeração de um rol de opiniões sem fundamento e descompromissadas com qualquer noção que possa ser considerada “verdade”, habituar-se a refletir antes de falar, bem como justificar as declarações emitidas. Em dúvida, ou se não tem o que dizer, o silêncio também é sinal de sabedoria; busque esclarecimentos, senão em Loja aberta, quando fechada, retornando ao tema no momento oportuno para refinar e compartilhar o novo grau de conhecimento, a nova aproximação da verdade.

Todas as ferramentas disponibilizadas estão ao alcance de qualquer um e de todos, claro que em diferentes de graus de complexidade ajustados às idiossincrasias e contingências particulares. Entretanto, o que eu observo, amplamente disseminado na Ordem, são lições, ou melhor, tentativas de se aproximar ou mesmo ensinar “a verdade”, como se fosse possível, essencialmente a partir de aforismos, notadamente de ordem moral… de fato uma prática (à época uma ferramenta) muito em voga na Grécia… anterior a Tales, o mais notável dentre os pré-Socráticos.

Xico Trolha (2019, p. 9) destacou que “O Maçom, por si só, é um pesquisador nato, é um crítico abalizado que não costuma aceitar qualquer verdade como “verdade” (DESTAQUE NO ORIGINAL)”, ao que ora eu acrescento: não se chega à “verdade”, ou minimamente próximo a ela apenas com meros aforismos que não resistem minimamente ao pensamento crítico porque não passam de falácias encobertas pelo argumento da autoridade conferida aos chamados gurus.

Isto é, sem reflexão, estudo, orientação e troca de ideias que permitam ir à essência subjacente às matérias trazidas à lide, são reduzidas, para não dizer inexistentes, as possibilidades de os Iniciados virem a ser efetivos buscadores da verdade.

E pode não demorar muito para que alguns percebam Lojas que mais se assemelham aos clubes sociais-recreativos do que às Escolas Iniciáticas, a exemplo das de Pitágoras, Platão e Aristóteles (sempre reverenciados na Maçonaria, mas raramente lidos), nas quais alcançar a verdade era o objetivo de e com todos.

Nesse quadro, aqueles que se tornam cientes do que já foi, deveria, e que hoje a Maçonaria se autoafirma ser, tendem à desmotivação, seguida da baixa frequência que culmina com a evasão devido a percepção da falta de sentido, pois, afinal, no que então o maçom se distinguiria dos não Iniciados? Por que então pagar (por vezes elevadas) taxas para Iniciação, Elevação, Exaltação, mensalidades, trajes próprios, deslocamento, etc.?

Autor: Ivan A. Pinheiro

* Ivan é membro da Loja Mário Juarez de Oliveira nº. 4547, jurisdicionadas ao Grande Oriente do Brasil – Rio Grande do Sul.

Fonte: Revista Ad Lucem | São Luís, V. I, n. 2, p. 14-28, maio/ago, 2021.

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Referências

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Buscadores da Verdade…sois mesmo? (Parte II)

3 – Ser um buscador

Assim, grosso modo, buscar a verdade pela via da ciência corresponde a eleger a primazia da dúvida (por vezes apresentada como curiosidade, ceticismo), seguida da observação (coleta de dados) sistemática da realidade (mais precisamente o fenômeno objeto de estudo), da catalogação (organização) dos registros, da realização de análises longitudinais, comparações (identificando as semelhanças, os contrastes), cruzamento entre as variáveis para verificar a existência de relações (associações positivas, exclusões mútuas), etc., tudo, é claro, planejado detalhadamente. Em síntese muito resumida, submeter um determinado fenômeno a esses procedimentos, para melhor conhecê-lo, descrevê-lo e explicá-lo corresponde a tratá-lo cientificamente, e como resultado tem-se um conhecimento admitido como verdadeiro, ainda que temporário, isto é, até que novas investigações autorizem a revisão do entendimento estabelecido.

Entre tantas, merecem destaque: a dialética (tese, antítese e síntese); o silogismo (premissa maior, premissa menor e conclusão); quaestio disputata; indução vs dedução; o método científico; e, como tópicos complementares: os níveis de análise e a cautela frente às falácias e sofismas.

3.1 – A dialética

Japiassu e Marcondes (1990, p. 71-2) descrevem o verbete “dialética” em perspectiva histórica, no que resultam 4 (quatro) acepções: a de Platão; a de Aristóteles; a de Hegel; e, a de Marx. Por ora excluo as de Aristóteles e Marx porque as demais estão mais próximas ao tema específico desta empresa:

1. Em Platão, a dialética é o processo pelo qual a alma se eleva, por degraus, das aparências sensíveis às realidades inteligíveis ou ideias. Ele emprega o verbo dialeghestai em seu sentido etimológico de “dialogar”, isto é, de fazer passar o logos na troca entre dois interlocutores. A dialética é um instrumento de busca da verdade, uma pedagogia científica do diálogo graças ao qual o aprendiz de filósofo, tendo conseguido dominar suas pulsões corporais e vencer a crença nos dados do mundo sensível, utiliza sistematicamente o discurso para chegar à percepção das essências, isto é, a ordem da verdade.

O texto remete ao que já havia sido comentado sobre a Teoria das Ideias, de Platão (séc. V a.C.), bem como chama a atenção para aspectos importantes: a) a verdade está associada à essência e a esta se chega ao longo de um processo, degrau por degrau; b) os sentidos e as pulsões, como Descartes já apontara, podem iludir a percepção da realidade; por fim, c) à verdade se chega pelo diálogo, mais pelo contraste de ideias do que pela reafirmação. Mas mesmo na ausência de um interlocutor, as mentes mais brilhantes, a exemplo da de A. Einstein, desenvolvem autonomamente experimentos mentais sem prejuízo à crítica.

2. Em Hegel, a dialética é o movimento racional que nos permite ultrapassar uma contradição […] é um movimento conjunto do pensamento e do real […] movimento racional superior em favor do qual esses termos na aparência separados (o ser e o nada) passam espontaneamente uns nos outros, em virtude mesmo daquilo que eles são, encontrando-se eliminada a hipótese de sua separação.

O estudo da dialética pode ser tão complexo e profundo quanto se queira, não sendo esta, aqui, a intenção. Da dialética hegeliana se diz que é a unidade dos contrários, pois é do diálogo (embate) entre os opostos (a tese ou situação inicial vs antítese ou oposição à tese) que se deve chegar à síntese (nova situação ou realidade resultante dos elementos presentes na tese e na antítese) que, por sua vez, no momento subsequente se constitui em nova tese que necessariamente faz surgir a sua antítese e, assim, em espiral sucessiva e indefinida. Reforça-se, aqui, a ideia de que a verdade tem caráter dinâmico, histórico, o que não pode passar desapercebido aos agentes sob pena da exacerbação permanente do estado de conflito.

3.2 – O silogismo

É o método dedutivo que permite extrair uma conclusão a partir de duas premissas – uma chamada maior e, a outra, menor -, por implicação lógica. Aristóteles, a quem é atribuída a primazia da sua formulação, esclarece que: “o silogismo é um argumento em que, estabelecidas certas coisas, resulta necessariamente delas, por serem o que são, outra coisa distinta do anteriormente estabelecido” (ARISTÓTELES apud JAPIASSU e MARCONDES, op. cit., p. 224). Em outras palavras, o silogismo é o raciocínio no qual, de determinadas coisas afirmadas, segue-se inevitavelmente outra afirmativa em caráter conclusivo. Um exemplo, certamente bastante conhecido, permite melhor identificar os elementos do silogismo:

  • Premissa maior: todos os homens são mortais;
  • Premissa menor: Sócrates é homem;
  • Conclusão: logo, Sócrates é mortal.

“Todo o mecanismo silogístico repousa no papel desempenhado pelo chamado termo médio (homem), que fornece a razão do que é afirmado na conclusão: porque é homem, Sócrates é mortal” (NOVA CULTURAL, 2000, p. 18). Todavia, é preciso cautela (razão pela qual se afirmou que as ferramentas devem ser utilizadas de modo combinado), pois também é possível construir silogismos a partir de premissas falsas, como é o caso do silogismo anterior e agora ligeiramente modificado:

  • Premissa maior: todos os homens são imortais;
  • Premissa menor: Sócrates é homem;
  • Conclusão: Sócrates é imortal.

3.3 – As quaestio disputata

Da lavra de Nougué (2017, p. 235) se extrai que a quaestio disputata:

[…] se divide em artigos, que por sua vez se dividem em etapas ou partes fixas. Em primeiro lugar, formula-se a pergunta ou questão de que se tratará. Em segundo lugar, apresentam-se o mais perfeitamente possível as objeções à doutrina sustentada no artigo […]. Em terceiro lugar dão-se os “mas contrariamente”, que argumentam contra essas objeções, e que podem coincidir ou não com a doutrina do artigo. Em quarto lugar, vem o corpus, no qual a doutrina do artigo ou se demonstra ou, excepcionalmente, se mostra apenas como a mais provável. Em quinto lugar solucionam-se as objeções à doutrina do artigo. E, em sexto lugar, se e quando necessário, solucionam-se as argumentações postas contrariamente às objeções.

A complexidade e a dificuldades são apenas aparentes. Em síntese, o procedimento enumera as etapas para solução da disputa em torno de uma questão que encerra polêmicas, admite pontos vista controversos, razão pela qual demanda análise crítica a partir de todas as perspectivas. Além disso, chama a atenção para o fato de que as respostas não devem ser buscadas de modo isolado, mas no âmbito de uma tradição, de uma doutrina mais alargada e que orienta o entendimento.

As quaestio disputata foram largamente empregadas durante a escolástica medieval, tendo sido, infelizmente, abandonada em que pese a sua contribuição ao desenvolvimento da cognição lógica. Sobre os usos e os costumes no ambiente universitário medieval Haskins (2015) revela que:

As preleções formais, por mais importantes que tenham sido numa época em que não havia laboratórios e em que os livros eram escassos, não eram de maneira alguma os únicos meios de instrução. Um exame cuidadoso do ensino universitário também precisaria levar em conta as preleções menos formais […] as revisões e repetições […] e as disputas que preparavam o estudante para a aprovação final, aquele momento em que teria de defender publicamente a sua tese de graduação (p. 62-3); Cantai ao senhor um cântico novo […] pois o vosso filho teve uma disputa gloriosa, na qual esteve presente um grande número de professores e estudantes. Ele respondeu todas as perguntas sem cometer um erro, e ninguém foi capaz de resistir aos seus argumentos […] Inception designa a cerimônia em que o estudante era aceito com um mestre nas universidades medievais […] Primeiro o candidato participava de uma disputa formal chamada vésperas, que seguia um formato um tanto complexo (p. 67).

Penso que essas brevíssimas citações deixam à evidência a mudança que, desde então, se operou; se para o bem ou para o mal é questão envolta por controvérsias (que exigem uma disputa!) pois os indícios são inconclusos – a contabilidade registra ganhos, mas também perdas.

O maior expoente no método das Questões Disputadas foi, sem dúvida, Sto. Tomás de Aquino (1225-1274), cuja monumental Suma Teológica foi totalmente escrita neste estilo. Ciente de que a matéria é desconhecida da maioria dos leitores, para maior clareza a seguir eu transcrevo, ainda que em redundância à citação de Nougué, a Apresentação (PETRÔNIO, 2015, p. 7) de “O Bem – questões disputadas sobre a verdade”, de Tomás de Aquino:

Neste método, Tomás inicia com uma pergunta [questão] e a desenvolve em artigos. Cada questão disputada pode conter diversos artigos. Cada artigo considera uma parte da questão mediante uma pergunta, estando composto por argumentos pró e contra e uma conclusão, na qual aparece a resposta do autor à pergunta elaborada na forma de artigo, que, por sua vez, compõe a questão. Em cada artigo Tomás procede da seguinte maneira: ante a pergunta proposta num artigo da questão, ele a afirma ou nega, expondo em contrário diversos argumentos. Em seguida, toma um ou mais argumentos fortes, que são contrários àqueles diversos raciocínios que se seguiram à pergunta inicial. Então, logo após esses argumentos, ele inicia uma resposta, em conformidade com o que pretende demonstrar, escrevendo no corpo do artigo uma conclusão, que é simultaneamente resposta à pergunta feita inicialmente, e termina esclarecendo as dificuldades ou contradições dos primeiros argumentos expostos.

Com efeito, na sequência o tema (“O Bem – questões disputadas sobre a verdade”) é desenvolvido em 6 (seis) artigos e cada um observa a seguinte estrutura tomando por base o Artigo I: 1) primeiro, pergunta-se se o bem acrescenta algo ao ente; depois, 2) seguem os argumentos a favor (e parece que sim); 3) os em contrário; 4) as respostas aos argumentos em contrário; e, finalmente, 5) as conclusões.

Ao leitor menos versado sugere-se que, no primeiro momento, não se atenha aos detalhes, mas antes perceba a essência da estrutura das Questões Disputadas: não é possível chegar à verdade acerca de qualquer matéria sem antes esclarecer e eliminar todas as objeções que contra ela se levantam.

Por fim, o leitor escolarizado já terá percebido que as Questões Disputadas estavam na antessala do Método Científico, senão introduzido, consolidado na Modernidade. Atualmente poderiam ser equiparadas à Revisão da Literatura exigida na maioria dos trabalhos universitários, em vários empreendimentos profissionais (a exemplo de grandes projetos), bem como em algumas atividades profissionais, como a persecução criminal e a prestação jurisdicional.

3.4 – Indução vs Dedução

Indutivo, na expressão popular mais difundida, é o raciocínio que conduz de enunciados (resultados, observações, etc.) particulares para enunciados gerais, como são as teorias. Já o raciocínio dedutivo transita no caminho inverso: parte dos pressupostos de uma teoria (ou hipótese) geral e infere sobre possíveis resultados particulares que devem ser submetidos à confirmação (ou não) em experimentos. Assim, como se diz, o primeiro “conduz do particular para o geral” enquanto que o segundo no sentido inverso, “do geral para o particular”.

Em termos mais formais:

É comum dizer “indutiva” uma inferência, caso ela conduza de enunciados singulares (por vezes também denominados também enunciados “particulares”), tais como descrições dos resultados de observações ou experimentos, para enunciados universais, tais como hipóteses ou teorias (POPPER, 1989, p. 27).

Já há tempos que o raciocínio indutivo não é mais aceito como método para chegar à verdade. D. Hume (1711-1776), após ter-se debruçado sobre o tema, declarou o que ficou conhecido como o Problema de Hume:

[…] nada há em qualquer objeto, considerado em si mesmo, que nos possa oferecer uma razão para tirar uma conclusão além dele […] mesmo após a observação da frequente ou constante conjunção de objetos, não temos razão para extrair qualquer inferência concernente a qualquer objeto além daqueles com os quais temos tido experiência. Não há, pois, segundo Hume, justificativa lógica para a indução (FREIRE-MAIA, 1995, p. 50).

E por que, então, continuamos tentados a, de casos particulares, a generalizar? “A resposta é simples: porque mesmo sem justificativa lógica, em geral dá certo (isto é, há uma justificativa pragmática)” (id., ibid., p. 50). Ao esclarecimento do autor eu acrescentaria outro que o acompanha muito próximo: a falta de conhecimento, seja do autor ou por parte de um do interlocutor, o que estimula as partes a generalizar à sua conveniência, e nem sempre por motivos confessáveis.

O hábito da indução é um dos mais generalizados nos debates sobre os mais variados assuntos do cotidiano, e também causador de desavenças e mesmo injustiças. Todavia, o exemplo já mencionado do Cisne Negro é a evidência de que se trata de procedimento sujeito a erro. A esse, outros tantos extraídos do diário de bordo de C. Darwin, confirmam o acerto de Hume.

Já a dedução é:

o raciocínio […] Em outras palavras, operação lógica consistindo em concluir de uma ou várias proposições, postas como verdadeiras, ou uma ou várias proposições que se seguem necessariamente. O modelo da dedução é o silogismo ou o raciocínio matemático (JAPIASSU e MARCONDES, 1990, p. 65).

Por oportuno, o silogismo já apresentado como exemplo, agora submetido às exigências da dedução, ganha nova proposição:

  • Premissa maior: se é verdade que os homens são mortais;
  • Premissa menor: e se é verdade que Sócrates é um homem;
  • Conclusão: deduz-se que Sócrates é mortal.

Como se percebe, a diferença entre o antecedente e este último é a condição de “ser verdade”, daí porque, para muitos, à frente Popper (op. cit.), só a dedução (e não a indução) merece o reconhecimento como procedimento científico que autoriza o estabelecimento de verdades – no caso acima, de duas verdades só pode (será?) decorrer outra verdade! -, ainda que temporárias, até que deem lugar a outras. Todavia, não se deve minimizar e tampouco desprezar o papel do raciocínio indutivo no empreendimento científico, pois ele se revela assaz importante em determinadas fases e modelagens da investigação ordenada à verdade.

3.5 – O método científico (MC)

Apesar de o MC já ter sido introduzido antes mesmo desta seção, a ele retorno porque se trata da “joia da coroa”, um conjunto de procedimentos que inclui objetivos, estratégias, táticas e ferramentas em desenvolvimento desde a Antiguidade. Aristóteles (384-322 a.C.) e até mesmo seus antecessores (Tales de Mileto, Anaximandro, Empédocles e outros), praticavam (em parte, é claro) o que ainda hoje constitui o MC: a observação sistemática da natureza ou da experimentação empírica. Todavia, o MC ganhou alavancagem a partir da Modernidade, quando entraram em cena N. Copérnico, F. Bacon, R. Descartes, G. Galilei e tantos outros.

Como já mencionado, a curiosidade humana é atávica, o desejo de saber e compreender o mundo que o cerca estão no seu no DNA e têm sido efetivos drivers ao longo da evolução da humanidade. Destarte, descobrir e explicar o que nos cerca, inclusive a razão da própria existência, não sem o intuito de prever e controlar os fenômenos, têm sido a atitude e o comportamento dominantes desde os nossos antepassados. Daí que o MC tem início com a observação dos fenômenos, a começar pelos naturais – movimento dos astros, clima, agricultura, comportamento dos animais, etc. Os deuses constituíram as primeiras explicações para o que à época era inexplicável à luz do conhecimento e da tecnologia disponíveis; é assim que Hesíodo, em Teogonia, apresenta a sua cosmogonia, bem como a índole e o comportamento dos Homens, ora irados, ora amorosos, sob a influência dos deuses.

É atribuída a Tales, nascido em Mileto (antiga colônia grega na Ásia Menor, área hoje correspondente à Turquia) a primazia de ter observado “e provado” que nem tudo, como se pensava, era dependente do humor dos deuses. E desde então, o ritmo das descobertas tem sido crescente e a trajetória parece ser interminável, bem como, contrário ao senso, não foi interrompida no medievo, reduzido o ritmo, sim.

A observação livre e sistemática dava (e dá) origem a um conjunto de registros que ao primeiro olhar podem parecer caóticos; todavia, quando classificados, ordenados e estratificados revelam o que o caos escondia: a informação que agrega e modifica o estado prévio do conhecimento.

(Detalhe importante: o que separa o dado (ou registro) da informação é o conhecimento anterior do buscador, pois para o leigo “tudo” é informação na sua acepção mais vulgar. Ex.: se ao leigo for dito que foi encontrada e atestada a autenticidade de uma Constituição Gótica datada do séc. IX, isto significará nada mais que uma mera anotação sem relevância, um registro que em nada alterará o seu status de conhecimento (mas reconhecerá como uma “informação”); já para um Iniciado e estudioso, isto corresponderá efetivamente a uma informação, algo que modifica por acréscimo o seu conhecimento, pois até o momento o documento mais antigo – a Carta de Bolonha – data do séc. XIII).

O passo subsequente corresponde à coleta de dados experimentais, o que não só agrega um novo nível de informações ao conhecimento como, em geral, abre novas perspectivas de investigação. E experimento, ressalto, não necessariamente guarda relação com laboratórios, tecnologias sofisticadas, especialistas, etc. Ao fazer uma pequena alteração em uma receita de culinária e comparar os resultados com a anterior está se procedendo a um experimento. Habitualmente não nos damos conta, mas o experimento e a indução estão mais presentes no cotidiano (familiar, profissional) do que reconhecemos à primeira vista.

O acúmulo organizado de registros permite a consecução de outro objetivo do empreendimento científico: a identificação de regularidades, padrões de comportamento que, reiterados, sugerem a existência de princípios e leis que regulam os processos em estudo. Já a partir do cruzamento de registros é possível identificar a existência ou não de algum tipo de relacionamento, a exemplo de causa-efeito, mútua exclusão ou associação em variados graus, o que pode ter grande aplicação com vistas à previsão e ao controle (direto e indireto) em variados domínios do conhecimento. Tomese, por exemplo, o caso da febre… equiparada à ponta de iceberg.

O ceticismo, conforme já mencionado, é característico do buscador da verdade, daí que, independentemente da sua certeza pessoal acerca do acervo de conhecimentos que detém, este deve ser permanentemente submetido a testes (empíricos, teóricos, estatísticos, etc.), idealmente por terceiros e mesmo desconhecidos (pela isenção) que intentem falsificá-lo ou identificar as suas fraquezas. Assim, a resistência a sucessivos testes implica na maior crença quanto a veracidade do fenômeno (teoria, hipótese, modelo) objeto de análise; já a identificação dos pontos fracos poderá levar ao abandono, ajustes temporários (ad hoc) ou ao aperfeiçoamento do enfoque sob tensão. E é esse ciclo, que no atual estado da arte é considerado como interminável, que permite progredir, etapa por etapa no sentido à verdade absoluta, isto é, pela aproximação mediante sucessivas verdades parciais ou temporárias.

O que atualmente se verifica no domínio da física contemporânea, a mãe de todas ciências, é ilustrativo do que ocorre em várias campos do conhecimento: considerando que há duas grandes teorias (por vezes referidas como modelos) que explicam a natureza, uma ao nível do microcosmo (atômico e subatômico), a outra ao nível macro, quais sejam: a Mecânica Quântica e a Teoria da Relatividade, o principal empreendimento científico da atualidade é a busca da chamada Teoria de Tudo (WEINBERG, 1996; MLODINOW, 2005; HAWKING e MLODINOW, 2011), tema também celebrizado no livro, já adaptado ao cinema, sobre a vida e obra de Stephen Hawking. Laszlo (2008), após constatar a perplexidade dos pesquisadores frente a várias ocorrências inusitadas (e mesmo exóticas) nos mais diversos campos do conhecimento, também reclama a emergência de um novo paradigma.

Concluindo, desde que o Homem se tornou um observador crítico da realidade, ele busca descrever, explicar e controlar o mundo que o cerca, o que não pode ser realizado sem método e instrumentos adequados. E ainda, em que pese a denominação “método científico”, é um equívoco pensá-lo com uma ferramenta exclusiva para o uso dos acadêmicos ou dos cientistas stricto sensu pois, tal como esclarecido para as quaestio disputata, hoje o MC só é uma ferramenta nos termos apresentados porque anteriormente revelou ser uma atitude frente ao desconhecido e mesmo às dúvidas do cotidiano, daí a relevância da sua larga aplicação na Maçonaria:

Procurar conciliar os estudos maçônicos com o método acadêmico, tem sido a nossa maior preocupação nestes dois anos de publicações. Preocupa-nos os “achismos”, assim como a falta de hermenêutica com relação aos textos que procuram historiar a Maçonaria. No lugar da interpretação, temos adornos sem maiores significados (COSTA, 1998, p. 85).

Continua.

Autor: Ivan A. Pinheiro

* Ivan é membro da Loja Mário Juarez de Oliveira nº. 4547, jurisdicionadas ao Grande Oriente do Brasil – Rio Grande do Sul.

Fonte: Revista Ad Lucem | São Luís, V. I, n. 2, p. 14-28, maio/ago, 2021.

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A sociedade da desinformação

Desinformação enquanto um fenômeno social criou uma nova desordem global, onde as novas condições de produção, circulação e consumo de informação fizeram das notícias falsas um importante instrumento geoestratégico que, associado às técnicas híbridas, coloca as ações das mídias comunicacionais em sintonia na geração de notícias falsas. Analisamos a maneira como os meios de comunicação disseminam informações tomando como base cinco filtros indicados por Chomsky e Herman (2003): Filtro 1: Importância, propriedade e orientação dos benefícios dos meios de comunicação; Filtro 2: A publicidade como principal fonte de renda; Filtro 3: O fornecimento de notícias para a mídia; Filtro 4: As medidas corretivas como método para disciplinar a mídia; Filtro 5: Anticomunismo como mecanismo de controle. A análise realizada demonstra que, além de notícias falsas, as notícias reais são manipuladas e orientadas para polarizar ideologicamente, requerendo uma adaptação da sociedade na construção de marcos regulatórios, ao passo que as empresas (desenvolvedoras das redes sociais, por exemplo) e seus logaritmos não conseguem contrariar as redes globais da desinformação que atravessam países, continentes e línguas.

1 – Introdução

Passamos a vida acumulando conhecimento e experiências para construir uma identidade pessoal e uma visão de mundo individual, através da qual observamos e entendemos novas informações e conhecimentos. A construção dessas lentes é contínua e subconsciente para a maioria de nós na maioria das vezes. Frequentemente, quando recebemos novas informações cognitivas que “parecem certas” para as lentes que construímos, continuamos sem fazer muitos ajustes. Podemos chegar a um momento em que algo nos abala o suficiente para exigir que mudemos o foco completamente ou encontremos um novo par de lentes. Não importa como eventos ou mensagens individuais possam moldar nossa compreensão interna e percepção externa, é provável que nos beneficiemos mais ao ver o máximo da imagem a partir do maior número possível de pontos. Ou seja, nossa compreensão e precisão da visão são mais garantidas ao entender o contexto e ver o suficiente para fazer nossas próprias escolhas de onde e como “escolher” a informação que faça sentido a nossa realidade.

Desse modo, se o papel da visão de mundo na construção de uma sociedade viável depende das informações que recebemos, cabe questionarmos:

o que acontece quando as informações que estamos recebendo são falsas e manipuladas; além disso, não se encontram prontamente visíveis?

Desinformação, mentiras, trotes, propaganda enganosa e “notícias falsas” foram atualizadas sob o nome de “fake news”. Portanto, não se trata de um fenômeno novo. Embora o uso do termo notícias falsas seja relativamente recente – popularizado durante e pela campanha nos EUA entre Hillary Clinton e Donald Trump – o fenômeno da desinformação é muito mais antigo do que a história recente sugere.

Já no século VI a.C., o general e estrategista chinês Sun Tzu explicou no célebre livro Arte da Guerra a importância do engano na condução de um conflito. Ele insistiu, em particular, na necessidade de encontrar um compromisso entre verdade e falsidade, a fim de tornar as notícias falsas tão credíveis e eficazes quanto possível. Para isso, era necessário calibrar adequadamente seu objetivo e, em particular, as pessoas alvo, jogando uma combinação entre dados reais e o propósito do interlocutor (CLAVELL, 2003).

Esse método também foi utilizado no século I para justificar as perseguições romanas contra os cristãos. O casamento entre “irmãos e irmãs” significava comer “o corpo de Cristo”. Os que praticavam tal delito eram acusados de incesto e canibalismo. As autoridades romanas manipulavam as emoções das multidões para despertar um sentimento de indignação e rejeição que legitima a condenação política, ela mesma baseada na reprovação moral.

Desde a década de 1880 e durante os sessenta anos em que o antissemitismo contemporâneo esteve incansavelmente ancorado na Europa, as notícias falsas dirigidas aos judeus aumentaram e cresceram, desde o Protocolo dos Sábios de Sião, um plano falso para conquistar o mundo pelos judeus e pelos maçons, até os debates sobre a entrada no território canadense de dezenas de milhares de refugiados judeus europeus em 1943-44 (SORJ, 2007).

Na Idade Média e nos tempos modernos, os mesmos mecanismos estão em funcionamento nas sociedades em que o boato circula rapidamente e onde os poderes não hesitam em instrumentalizar os ruídos múltiplos e infundados em um espaço público em que eles moldam. Nos últimos anos, essa luta contra a desinformação – ou “fake news” – se tornou um dos fundamentos do debate político contemporâneo. Serve de apoio aos políticos que desejam defender sua ação pública ou a serem isentos de qualquer comportamento prejudicial à sua carreira, ou mesmo aos Estados que procuram desestabilizar um adversário (BRAND ÃO, 2013).

O fenômeno da informação falsa passou a ser multiplicado por um novo modelo que se baseia em uma tríade: criar um boato, fortalecê-lo por meio da mentira e disseminar em fontes de informação de acesso público. Esses recursos permitem e diversificam a disseminação de informações falsas. Os mecanismos utilizados nessa tríade visam essencialmente capturar a atenção dos usuários da Internet que gerem impacto e convençam o usuário a compartilhar e ampliar sua aceitação. O objetivo é simples: manipular a realidade dos fatos. Esse mecanismo envolve, por exemplo, desacreditar uma figura pública, desestabilizá-la ou minar sua reputação. Uma vez que o boato é compartilhado pelo maior número de pessoas, ela se torna crível. O mesmo “esquema” funciona para alterar a realidade sobre qualquer conceito ou realidade diferente da crença do disseminador de uma notícia falsa. Nos tempos contemporâneos, a mudança qualitativa e quantitativa na disseminação de informações é uma virada na maneira como recebemos conteúdos de toda natureza, ampliando o alcance e o poder da informação, centralizado em grandes centros da mídia.

Este artigo analisa uma teoria sobre a manipulação criada pelas empresas de mídia de massa, responsáveis por grande parte de “conteúdo” atual de informações e entretenimento. Descreveremos esse processo de enquadramento, à luz das tendências atuais dos meios de comunicação, incluindo teorias adicionais sobre as influências e forças motrizes por trás da produção/distribuição de informações para o grande público. Finalmente, discutiremos algumas maneiras e sugestões para preservar o equilíbrio, aumentando a conscientização sobre o “enquadramento” e visões alternativas (aquelas fora dos principais meios de comunicação de massa/multimídia que temos acesso).

2 – Como a informação é selecionada?

Todos os dias, centenas de notícias chegam às redações dos grandes jornais e conglomerados de mídia. Como os redatores decidem o que vão nos informar sobre cada região do mundo? Por que as notícias contraditórias às vezes aparecem e, em outras, todas se repetem de forma sincronizada?

A seleção e construção das notícias, do ponto de vista discursivo-argumentativo, nos sinaliza a inexistência de que não há neutralidade ou imparcialidade informativa. A própria defesa deste tipo de argumento do ponto de vista editorial, trata-se, acima de tudo, de uma posição ideológica em relação aos discursos que os jornais constroem.

Quando um jornal escolhe uma capa com a denúncia de um ato de corrupção ou a metodologia educacional do Ministério da Educação, por mais aparentemente que sua apresentação seja objetiva, ele está assumindo uma certa posição, atrelada às posições ideológicas defendidas pelo jornal. Portanto, nossa primeira missão deve ser descobrir o mecanismo de seleção de notícias.

Uma análise a esse respeito vem do linguista americano Noam Chomsky e do economista e analista de mídia Edward S. Herman, no livro A Manipulação do Público (2003). Em suas análises, nos apresentam o que chamam “Filtros”, isto é, os vereditos pelos quais dinheiro e poder filtram as notícias até que estejam prontas para publicação, marginalizam discrepâncias e permitem que o governo e interesses privados dominantes encontrem uma mensagem adequada ao público. São estruturas de poder e ideologia que muitas vezes são ignoradas pelos profissionais da informação. Isso ocorre porque o modelo atual é absolutamente internalizado. Vejamos um exemplo: Em abril de 2008, a compra de DVD, televisão ou celular foi autorizada em Cuba [1]. Todos os jornalistas e também os cidadãos interpretaram como um avanço das liberdades dos cubanos; noticiaram sobre liberdade não no sentido econômico, mas no sentido político. Esqueceram que esse critério de liberdade ignora um detalhe: a disponibilidade de dinheiro para acessar os produtos que carregam as notícias. Em nosso modelo, chamamos tudo o que podemos fazer de liberdade, se tivermos dinheiro para isso; portanto, não se trata de liberdade. Os cubanos que não tinham dinheiro não puderam comprar esses produtos.

Com este exemplo não pretendemos colocar em pauta a medida do governo cubano, queremos apenas destacar o viés ideológico imperceptível que a mídia e os cidadãos aplicam na interpretação da realidade. Quando se diz que um sinal da repressão cubana é que os pescadores de lagosta são proibidos de ficar com eles, consumi-los ou comercializá-los, esquecemos que nem os garçons dos restaurantes de frutos do mar em Porto Alegre têm dinheiro para ir a esse restaurante para jantar com seus amigos. Nem mesmo o pedreiro que constrói moradias de luxo na praia pode passar um único dia de verão em uma delas, ou seja, existe no fundamento das construções discursivas, sua historicidade, ideologia, lutas de classes sociais, atuação do poder econômico, político e social.

Mas voltemos aos filtros, aos mecanismos pelos quais é determinado o que é notícia e o que não é, no que devemos estar interessados, no que falaremos na cafeteria quando tomarmos café da manhã com nossos colegas de trabalho, o que os especialistas chamam de agenda setting [2]. Não é tanto que eles definem nossa ideologia, ao ponto de selecionar quais são os tópicos que devem nos interessar, que é mais do que impor uma ideologia, porque significa substituir a realidade, ainda mais em um mundo em que as relações sociais diminuíram muito em detrimento do nosso papel como consumidores de mídia.

Segundo o modelo de Chomsky e Herman, a mídia opera através de 5 filtros. São eles:

Filtro 1: Importância, propriedade e orientação dos benefícios dos meios de comunicação

No século XIX, a imprensa operária no Reino Unido tinha um papel fundamental junto aos trabalhadores, nos seus problemas culturais e no potencial para favorecer a organização e a conscientização (MACIEL, 2016). Por mais que isso incomodasse o governo, não podiam tentar sufocá-lo porque arriscavam revoltas populares. Foi no final do século XIX e dos princípios do século XX que chegou a industrialização da imprensa, de modo que os investimentos necessários para iniciar um jornal passaram de 1.000 libras em 1837 para 50.000 em 1867. The Sunday Press, que apareceu em 1918, precisava de dois milhões de libras. Para que o desenvolvimento industrial alcançasse o que nenhum governo havia conseguido: extinguir todos os projetos informativos que não tinham um grande investimento (LAIGNER, FORTES, 2009). Os mais humildes perderam o direito de coadministrar um meio de comunicação em consequência das grandes fortunas que passaram a dominar o mercado editorial. Este é um fenômeno ocasionado pela globalização. Basta observar o panorama atual para perceber que, por trás da mídia, existem poderosos grupos empresariais que disseminam informações internacionais por meio da mídia local, que se limita a replicar o conteúdo de grandes agências. Atualmente, 80% das notícias que circulam pelo mundo vêm de quatro agências internacionais de informação: Associated Press, United Press International, Reuters e Agence France Press. Essas agências são as que definem a agenda e fornecem a maioria das notícias internacionais (COSTA, 2018). No caso brasileiro os jornais de grande circulação são controlados por cinco famílias, que buscam atender a interesses próprios e dos grupos políticos que representam. Gostaríamos de recordar um episódio relatado por Fernando Morais (1996) em sua biografia do jornalista Assis Chateaubriand: Rubem Braga contrariado pela censura promovida por Chateaubriand em uma crônica que seria publicada nos Diários Associados, protestou ao dono do jornal, esse teria respondido da seguinte forma “Se você quiser ter liberdade plena, Rubem, compre um jornal para escrever tudo que desejar”. Acreditamos que essa anedota retrate a realidade dos conglomerados de mídia, ou seja, opinião no jornal só existe no espectro da atuação do próprio conglomerado.

Até recentemente, a principal ameaça à pluralidade informativa era a concentração da mídia em algumas empresas de comunicação. Essas empresas conseguiram tornar seu trabalho mais rentável oferecendo o mesmo produto informativo para alimentar o jornal, o rádio e a televisão de um mesmo grupo de mídia. Como os proprietários de mídia deixaram de ser grupos puros de comunicação, agora são simplesmente grupos econômicos colossais que não precisam ter a comunicação como atividade principal. A acusação progressiva de que eles transformaram informações em negócios também foi abandonada. Eliminada nos países desenvolvidos grande parte dos mecanismos de dominação pela violência, agora o valor da conformação da opinião pública é tão alto que vale a pena dedicar dinheiro a fundos perdidos. Portanto, muitos meios de comunicação tornaram-se meros departamentos de imagem dos setores de negócios. Assim, temos em nossa imprensa, acionistas de rádio e televisão que são bancos, companhias financeiras, seguradoras, empresas de telecomunicações ou mesmo armas. Banqueiros e executivos de negócios que não têm relação com informações fazem parte dos conselhos de administração dessas empresas de comunicação.

A engenharia financeira é tal que nem conseguimos saber se eles têm lucros. Se desejam melhorar a demonstração de resultados do jornal, basta injetar publicidade do acionista (Vale, Petrobrás, etc.).

Filtro 2: A publicidade como principal fonte de renda

Obviamente, no caso da imprensa britânica no século XIX o preço de venda do jornal deveria cobrir todos os custos de produção. Dessa maneira, a renda dependia apenas do número de cidadãos que a compravam. O acréscimo da publicidade passou a servir como renda extra para a mídia que atendia as preferências do público. Os jornais que a obtiveram poderiam até reduzir seu preço de venda. Por outro lado, aqueles que não atraíam anúncios tiveram preços mais caros, reduziram suas vendas, sofreram perdas ou menos benefícios para reinvestir e melhorar suas possibilidades de vendas (cor, formato atraente etc.). Como diz Chomsky e Herman (2003), com publicidade, o mercado livre não oferece um sistema neutro no qual o comprador finalmente decide. As escolhas dos anunciantes são aquelas que influenciam a prosperidade e a sobrevivência da mídia. Basta verificar como os pedidos de boicote não são direcionados ao público, mas aos anunciantes. Atualmente, o que pagamos por um jornal é equivalente a 50% de seu custo e os anunciantes pagam o restante. O jornal que não tem a aprovação dos anunciantes deve custar o dobro, mesmo supondo que o mesmo número de pessoas o compre; se o comprarem menos o que seria lógico se custar o dobro o preço por exemplar aumenta muito mais. Esta tese sobre o fator de distorção da publicidade é neutralizada quando se tenta argumentar que os anunciantes não condicionam o conteúdo e que, se a mídia tiver um grande público, os anunciantes ficarão sem considerar que tipo de informação é oferecida. Vejamos a falácia dessa teoria: para iniciantes, nem todos os cidadãos são iguais para a publicidade: aquele com maior poder de consumo é mais valioso do que aquele sem ele. Um jornal lido por mil executivos não é o mesmo que por mil desabrigados. Enquanto um jornal de finanças apresenta um anúncio promocional para atrair anunciantes, lembrando que é o mais lido por executivos e empresários; não é esperado que um jornal sindicalista consiga captar muitos anunciantes, embora seja o mais lido pelos metalúrgicos que cobram melhores condições de trabalho e salário. É por isso que a Petrobrás é anunciada na imprensa e as Casas Bahia distribui folhetos nas caixas de correio. Para a revista mensal da associação de advogados não faltará anunciantes, mas a revista voltada para refugiados venezuelanos custará muito mais para obter publicidade e certamente as taxas serão mais baixas. O atual sistema de publicidade, em termos de democracia eleitoral, seria como viver com um sistema de votação ponderada.

A publicidade também desencadeia uma diminuição no nível cultural do conteúdo e faz com que o público seja recrutado, até apelando para os elementos mais miseráveis da natureza humana. Se olharmos atentamente, verificaremos se o que a mídia vende não é um bom conteúdo informativo, mas sim o público: eles nos vendem para agências de publicidade. Uma rede de televisão oferece anúncios de 30 segundos mais caros que o outro, porque o primeiro coloca como principal valor o fato de ter três milhões de telespectadores assistindo e o segundo anúncio uma audiência muito inferior. Acreditamos que a mídia nos oferece conteúdo, mas em realidade o que está oferecendo são espectadores para as empresas de publicidade. É por isso que uma revista semanal oferece produtos cosméticos com valor maior do que a revista, pois, dessa forma, atinge números de alta circulação para oferecer aos anunciantes. Coloque aqui a sua publicidade: tenho meio milhão de leitores para divulgar um folheto na revista.

Mas a afirmação de que os anunciantes não têm ideologia é falsa. Em 2019 a operadora de cartões Mastercard decidiu suspender suas campanhas publicitárias que circulariam durante a Copa América com Neymar devido à acusação de estupro contra o jogador. Em certas ocasiões, o orçamento do anunciante serve não apenas para anunciar, mas também para garantir que eles não apareçam notícias negativas da sua empresa. É fácil entender: os anúncios não podem coexistir com a imagem de mal comportamentos, ao menos em tese, de modo que o patrocinador não seja visto como apoiador de mal comportamentos.

No Brasil, as televisões a cabo funcionam vendendo espaços de programação e cada produtor deve encontrar seus patrocinadores para financiar seu programa. Por isso, não encontramos empresa patrocinadora de um programa que denuncie as violações de multinacionais na África, a corrupção em Brasília ou que defenda a diminuição do consumo na busca de um modelo de desenvolvimento sustentável. Se existe um suplemento sobre carros na imprensa escrita, é porque houve uma publicidade potencial das empresas automobilísticas. Partindo da mesma lógica sobre a demanda de mercado, a seção de Obituários foi criada quando se viu que havia um mercado para a publicação de anúncios pagos.

Filtro 3: O fornecimento de notícias para a mídia

O mercado exige redução de custos, a mídia deve aproveitar ao máximo seus recursos, não pode ter jornalistas e câmeras em todos os lugares. A economia os obriga a se concentrar naqueles onde são produzidas notícias importantes, nas quais são realizadas coletivas de imprensa e existem pessoas influentes cujas decisões têm grande relevância.

Segundo dados do IBGE (2018), o percentual de domicílios que utilizavam a Internet subiu de 69,3% para 74,9%, de 2016 para 2017 e em 96,7% dos 70,4 milhões de domicílios do país havia aparelho de televisão, dos quais 79,8% tinham conversor para receber o sinal digital de televisão aberta. Portanto, fica para trás a máxima que é notícia aquilo que alguém não quer que seja conhecido, para ser apenas o que alguém quer que seja conhecido. No jornalismo, sabemos que não é oferecida a mesma garantia, nem se pode tratar da mesma maneira as fontes que estão “ansiosas” em contar à imprensa algo como aqueles que desejam ocultá-lo podem ser tratadas da mesma maneira. Nem a fonte que faz parte ou tem uma posição afetada pelas notícias de que quem não é parte interessada no relatório pode ter a mesma consideração. Dentre os noticiários televisivos das principais redes brasileiras, a maioria são preparados com o conteúdo fornecido por um informante cujos interesses estão diretamente relacionados ao que a notícia diz. E o modelo já está tão consolidado que até os políticos divulgam comentários para os jornalistas cumprirem as “regras do jogo”, isto é, apenas espalham o que os políticos pedem para espalhar. Por outro lado, de acordo com Souza (2018), a maioria das fontes são resultado de atos declarativos que consiste em fornecer uma versão que confirme um fato ou acontecimento. A televisão comenta de maneira empírica, não sobre o que acontece. Não há fatos. O barulho reina. Esse é o menu principal. Todos os dias, nas horas anteriores à transmissão das notícias das redes brasileiras, milhares de jornalistas estão dispostos a não perder suas posições. É o domínio informativo das fontes organizadas sobre o que Tarso Genro (2017) chamou de “jornalismo geneticamente modificado”.

Para a mídia, é muito caro ter um jornalista por semanas investigando um assunto em comparação com a facilidade de reescrever comunicados à imprensa, transcrever declarações públicas ou copiar notícias. A imprensa regional é o exemplo mais claro e qualquer jornalista local sabe qual é a sua rotina de trabalho: o editor-chefe ou o chefe de seção analisa os comunicados à imprensa ou as conferências de imprensa, escolhe as fontes que melhor se ajustam para sua linha editorial e envia os editores para fazer o tour com o gravador. Então retornam à redação e se dedicam a transcrever as notícias de cada uma das fontes. Para informações nacionais e internacionais, as notícias são analisadas, escolhidas e reproduzidas de acordo com o perfil do público antes de ser em publicadas. Da mesma forma, a vida política e social se encaixa perfeitamente com o seguinte modelo: os médicos emitem comunicados de imprensa, com relatórios médicos sobre o status das celebridades quando estão doentes, os políticos transferem suas posições para as salas de imprensa mais do que nas instituições e oferecem mais explicações e detalhes à mídia do que aos juízes. Assim, os jornais se tornam quadros de avisos, mas com conteúdo filtrado pelos gerentes.

Mas também existem diferentes tipos de ” notícias” quando se trata de vender. Para um veículo de notícias, sempre será mais credível e confortável reproduzir um lindo dossiê de impressão colorida com gráficos de barras e pizza de uma empresa importante (talvez anunciante ou acionista) que possa s er entregue ao público, que um comunicado de imprensa precariamente escrito por uma assembleia de trabalhadores onde eles denunciam o não pagamento de horas extras. Os vizinhos de um bairro que serão despejados de suas casas não terão uma boa agenda de mídia e emails para enviar uma nota indecorosa convocando-os para uma conferência de imprensa em uma sala acarpetada e iluminada onde instalar câmeras de televisão. Necessitarão enfrentar a polícia para que a mídia lembre deles.

Por outro lado, a mídia oficial sempre tem uma aura de veracidade e neutralidade que seduz os periódicos, o que para Pecheux e Fuchs (1975), vamos conhecer como a atuação da ideologia de forma que ocorra o apagamento de sua formulação (ideológica). Uma declaração de um guerrilheiro levanta mais questões sobre a autenticidade de seu conteúdo do que uma conferência de imprensa do Ministro da Defesa, porque existe em seu discurso uma autoria definida e institucionalizada. Embora, no final, não possamos deixar de verificar que as maiores inverdades sobre a realidade do desmatamento da Amazônia foram anunciadas pelo governo federal e acabariam por ser desmentidas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE, 2019). O capital financeiro e as influências ideológicas têm o potencial necessário para disseminar suas crenças e interesses comerciais, contratar jornalistas, preparar imagens de arquivo que fornecem às televisões e induzir jornalistas comprometidos em contar sua versão. Nossa polícia convida jornalistas para acompanhá-los em seu carro de patrulha, mas também são acusados de fazer apologia ao crime quando mostram a realidade da violência policial.

Filtro 4: As medidas corretivas como método para disciplinar a mídia

Lobbies, fundações e grupos de poder político ou empresarial tem capacidade organizacional, financeira e política suficiente para organizar campanhas de pressão contra a mídia ou jornalistas que deixam a linha dominante. É o que mostra a edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, publicado pela orga nização Repórteres sem Fronteiras (RSF, 2019). Ameaças, insultos e agressões fazem agora parte dos “riscos ocupacionais” da profissão em muito países, incluindo o Brasil, que caiu três posições no ranking e ocupa o 105º lugar, cada vez mais próximo da zona vermelha da classificação (que indica o nível de dificuldade para profissionais de imprensa).

Nos países onde há repressão contra a imprensa, existem fundações criadas com o único objetivo de se envolver em campanhas de pressão contra a mídia rebelde. Há empresas ligadas ao petróleo que atuam como um lobby contra informações sobre o aquecimento global, indústria fazendo lobby para aumentar os limites do glifosato, o veneno mais usado no Brasil, empresas de tabaco contra acusações de doenças ligadas ao consumo de cigarros ou produtos farmacêuticos que pressionam a mídia que divulga notícias sobre os efeitos colaterais dos medicamentos (BBC, 2019). ou ausência de valor terapêutico. Para a maioria da mídia, é mais lucrativo e menos problemático aceitar essas pressões do que enfrentar esses lobbies. O resultado é que as informações de organizações sociais humanas, grupos de trabalhadores precariamente organizados ou grupos de direitos humanos de baixo orçamento não atendem às demandas desses filtros e são excluídos dos meios de comunicação.

Filtro 5: Anticomunismo como mecanismo de controle

O filtro final é a ideologia do anticomunismo. O comunismo como o mal supremo sempre foi o espectro que assombra os proprietários, pois ameaça a própria raiz de sua posição de classe e status superior. Essa ideologia tem o potencial de mobilizar a sociedade contra um inimigo. Pode se valer de um conceito confuso para ser usado contra qualquer pessoa que defenda políticas que ameacem os interesses de propriedade ou apoiem a acomodação com os estados comunistas e o radicalismo. Portanto, ajuda a fragmentar os movimentos de esquerda e trabalhista e serve como um mecanismo de controle político. Se o triunfo do comunismo é o pior resultado imaginável, o apoio do fascismo no exterior é justificado como um mal menor. A oposição aos socialdemocratas que são muito brandos com os comunistas e “jogam em suas mãos” é racionalizada em termos semelhantes.

Os liberais em casa, frequentemente acusados de serem pró comunistas ou insuficientemente anticomunistas, são mantidos continuamente na defensiva em um ambiente cultural em que o anticomunismo é a religião dominante. Se eles permitem que o comunismo, ou algo que possa ser rotulado de comunismo, triunfe nas províncias enquanto estão no cargo, os custos políticos são pesados. A maioria deles internalizou completamente a religião de qualquer maneira, mas todos estão sob grande pressão para demonstrar suas credenciais anticomunistas. Isso faz com que eles se comportem muito como reacionários. Seu apoio ocasional aos socialdemocratas geralmente se deteriora, quando estes são insuficientemente duros com seus próprios radicais indígenas ou com grupos populares que estão se organizando entre setores geralmente marginalizados.

Deve-se notar que, quando é despertado o fervor anticomunista, a demanda por evidências sérias em apoio a reivindicações de abusos “comunistas” é suspensa, e os charlatães podem prosperar como fontes de evidência. Os desertores, informantes e vários outros oportunistas passam para o centro do palco como “especialistas”, e continuam lá mesmo após a exposição como mentirosos altamente não confiáveis, se não completamente.

3 – Discussão

Nos últimos anos, diante de vários conflitos impostos pela política e ideologias de toda natureza, além da concorrência por novas tecnologias, mercados, energia, recursos biológicos e praticamente toda a cadeia produtiva em massa, a ameaça da disseminação deliberada de informações falsas (desinformação) na Internet aumentou bastante. Sabe-se que, através da desinformação, pode-se enganar as pessoas e impor uma opinião pública inadequada. Também é possível, em certa medida, a manipulação da consciência e do comportamento de indivíduos e grupos de pessoas. Os invasores podem fortalecer ou enfraquecer a visão das pessoas sobre vários eventos, valores da vida, trabalho realizado, comportamento nas situações atuais, etc. O fato de a Internet ser um dos canais para a disseminação de informações falsas deve-se aos recursos da infraestrutura de informações, que incluem a simplicidade e o baixo custo de acesso, amplas possibilidades de manipulação de informações e sua percepção e um alto nível de anonimato referente ao compartilhamento de informações em rede.

É possível encontrar sites com informações objetivamente falsas com relativa facilidade. Notícias falsas sobre eventos supostamente ressonantes (ataques terroristas, morte de pessoas famosas, turbulência financeira) são disseminadas em grande número. Frequentemente são usadas técnicas de captação de atenção que distorcem as informações sobre os eventos que ocorreram.

Para proteger o público de informações falsas na Internet, é necessário um sistema eficaz para combatê-las. Em termos gerais, esse sistema é entendido como um conjunto de medidas interrelacionadas, organizacionais, técnicas, legais e outras que garantem: prevenção oportuna, detecção, bloqueio, exclusão de informações falsas na Internet, eliminação de consequências, responsabilidade dos atacantes por ações ilegais. Para garantir o funcionamento de tal sistema, é necessário suporte científico e metodológico adequado.

O problema da proteção contra informações falsas existe há muito tem po, mas com o advento e o desenvolvimento ativo da Internet, a situação mudou drasticamente. O volume de informações disseminadas e as possibilidades de seu uso com o objetivo de enganar pessoas aumentaram substancialmente. Como os eventos internacionais dos últimos anos demonstraram, impactos informativos em larga escala sobre as pessoas, para diversos fins terroristas, políticos, religiosos, econômicos e outros, são possíveis com o uso de robôs e inteligência artificial, via Internet. Ao mesmo tempo, as tarefas de detecção operacional, reconhecimento de impactos nas informações, identificação das fontes de geração e previsão de tais ameaças se tornaram mais complicadas. Os métodos de proteção tradicionais nessas condições não são eficazes o suficiente. Eles necessitam a participação ativa de uma pessoa na análise de informações sobre o tema de sua destrutividade e perigo para os usuários da Internet. Isso requer um gasto significativo de recursos humanos e materiais.

O mundo da mídia se retroalimenta constantemente. A obsessão pela competitividade é tal que, em muitas ocasiões, esquecem a realidade para se dedicar a tudo ao mesmo tempo, para competir pelas mesmas notícias. Isso é algo como a contra programação que as redes de televisão fazem em questões não relacionadas a notícias. Todo mundo quer explorar as mesmas supostas notícias convencidas de que quem não comparecer será retirado do pelotão. Portanto, mesmo que em um determinado momento vários eventos estejam acontecendo no mundo, toda a mídia será direcionada para um mesmo foco. Por isso, durante uma semana, as queimadas na Amazônia ocupam a primeira página dos jornais e abre o noticiário da televisão, e na semana seguinte desaparece do presente, como se a devastação na selva também tivesse desaparecido.

Um exemplo evidente no mundo inteiro é que um dos maiores conflitos silenciados pela mídia é o dos povos indígenas em qualquer parte do mundo (América Latina, Ásia ou África são exemplos claros). Os conflitos do chamado “Primeiro Mundo” também sofrem uma clara distorção, principalmente porque o que suscitam são mudanças estruturais que afetam os fundamentos do sistema. Através da mídia exploram plenamente todo o seu potencial para desacreditar ou esconder as demandas desses movimentos.

A necessidade de rentabilizar os recursos humanos causa a diminuição de correspondentes estáveis e com conhecimento no país; a mobilidade de enviados especiais é enorme para aumentar sua produtividade. Mesmo em alguns casos, os jornalistas não são deslocados para relatar notícias da região que podem estar a milhares de quilômetros de distância. Países invadidos sofrem diariamente a ferocidade e barbárie da obsessão moderna com o controle, enquanto a invasão e a guerra são consumidas como um espetáculo, como uma fusão de imagem e realidade, com uma hiper-realidade na qual a imagem não representa mais a realidade. Nela, a guerra é consumida como algo eletrônico, pré-programado, algo que é conduzido de acordo com os interesses de quem produz e consume a informação.

Na verdade, o problema é um pouco de distorção das regras com o mecanismo errado. Até agora, fazendo as pessoas ficarem confusas não há pontos estacionários que possam ser usados para determinar quais não devem ser. As palavras bom, moralidade, ética e justiça, todas são capturadas quando impedidas de acesso. Até a palavra logicamente é distorcida pouco a pouco, até ser deformada. Todos nós temos motivos para diferentes versões, juntamente com as questões da sociedade que devem ser vistas juntas.

Existem novas regras que dão origem à razão em uma lógica estranha: ela é reproduzida em muitos níveis até que as pessoas façam sozinhas. A aquisição das regras é repetidamente errada, até que as pessoas estejam confusas e confundidas por estarem “certas”. Toda vez que isso é feito, a estrutura está sendo distorcida. Finalmente, todos os lados podem pensar em suas próprias regras. Combinado com a divulgação de notícias na Internet com a intenção de ser consumida pela comunidade internacional, o processo de universalização das verd ades se torna mais rápido e consensual. Se estabelece conteúdos que foram rapidamente apresentados para serem auto interpretados. A “verdade” pode ser apresentada em partes para que alguns problemas sejam vistos tal como apresentados: separados. Depois, a mídia ou o indivíduo pode escolher uma das partes dessa verdade para se sustentar.

As eleições, que deveriam ser uma ferramenta para reiniciar o funcionamento dessa mecânica, não funcionam. Assim, as informações seguem sendo constantemente distorcidas. Com o a sociedade se move em uma velocidade menor do que o indivíduo, a maioria das pessoas buscam ser líderes de pensamentos e ideologias, porque se movem mais rápido que a velocidade da sociedade. Quando a sociedade não se move de acordo com o que acreditamos, nos perturbamos enquanto indivíduos, porque o que expressamos não transforma a realidade a nossa volta. Por isso buscamos as redes, um cluster para criar ondulações em harmonia com o que pensamos, sentimos e expressamos.

O problema também não se limita apenas às informações com conteúdo errado, mas também ao seu legado. A qualidade das notícias, informações publicitárias e comentários da sociedade são dependentes. No passado, as principais notícias eram frequentemente encontradas no conteúdo publicado. A gora, quando são publicadas começam a se desenvolver com hiper conexões; uma extensão da verdade em si, onde as redes sociais desempenham o papel de veredito sobre certo e errado, verdade e mentira.

De fato, todos sabemos menos do que esperamos. Isso se aplica as ideias sobre a quantidade total de nosso conhecimento. A única coisa em que temos certeza é que depois de tantos esforços científicos as pessoas ainda pensam pouco, não gostam de pensar e não apreciam particularmente aqueles que pensam. É provável que uma das principais causas de poder generalizado das notícias falsas seja a inércia do nosso pensamento, pois dificilmente concordamos em acionar mecanismos de pensamento crítico. Muitas vezes seguimos a liderança de nossos desejos, acreditando no que é simples e compreensível. Não queremos criticar as informações que correspondem às nossas expectativas. No espaço midiático dos canais profissionais e das redes sociais as pessoas obtêm acesso ilimitado a série de conteúdos sobre tudo no mundo e absorvem informações em modo de compulsão alimentar. Notícias falsas nesta situação são graciosas somente para quem sente satisfação ou interesse em propagar informações falsas. Sociólogos, profissionais da saúde e até virologistas veem seu objeto de estudo sendo manipulado em notícias falsas.

Espalhar desinformação não é muito diferente da propagação de uma infecção viral: primeiro de pessoa para pessoa, depois de grupo para grupo e, finalmente, a população de um país ou continente inteiro para outro. Junto a distribuição de notícias falsas pela mídia, vem à tona um processo de compartilhamento pelos grandes grupos de pessoas. O papel das redes sociais na distribuição de mensagens falsas, incluindo Facebook, Twitter ou Instagram, são capazes de lançar um “modelo epidêmico”, enquanto que a mídia tradicional pode incorrer, por engano, ou para fortalecer uma mentira, ampliar a cobertura de notícias falsas.

A história recente tem registrado muitos exemplos do uso de notícias falsas para fins diversos, competindo com publicações verificadas pela mídia que valoriza sua reputação. O século XXI tornou-se a era digital da comunicação, onde não há autoridades. Em veículos de comunicação de grande audiência o conteúdo fornecido é capaz de competir com a própria audiência. O New York Times ou a Folha de São Paulo não competem mais pelas suas opiniões ou qualidade investigativa diante dos seus leitores. O principal prêmio são o número de visualizações. O que com base em Orlandi (2007), estamos falando da autoria e seus significados, ou seja, à medida que as redes sociais dão voz aos discursos desinstitucionalizados, o sentido da autoria, como atribuído a um ministro, um médico ou um professor subsistiu-se pela autoria construída em redes.

A desinformação é estruturada de tal maneira, que ela inspira confiança no consumidor e afeta a sua opinião, suas decisões ou comportamento geral, de acordo com os objetivos pretendidos pelos criadores de desinformação. É importante lembrar que a desinformação pode servir como um caso especial de propaganda. Em particular o serviço de inteligência militar que utiliza a desinformação faz parte de um jogo no qual estão envolvidos a mídia. É um espaço que utiliza uma arma psicológica tremendamente perigosa de manipulação, cujo efeito sobre a consciência de massa possa ser imprevisível em termos de influência e consequências extremamente negativas.

4 – Considerações Finais

A atual “época social online” em que vivemos faz com que o comportamento das pessoas mude na Internet. O uso da informação, antes restrito à televisão e aos jornais, atualmente podem ser acompanhadas e estudadas em sites ou postagens em Redes Sociais e postagens de conteúdo em uma variedade de plataformas, com conteúdos textuais, de áudio, visuais etc. Por um lado, a possibilidade de todos ser em produtores de informações é um avanço no contexto das liberdades individuais. Por outro, quando há mais maneiras de acessar informações sem orientação, o problema que emerge é a credibilidade dessas informações.

Quando existem fontes de notícias para acessarmos com mais facilidade, a conveniência de seguir os canais de comunicação que possuímos maior identificação com nossos interesses pessoais podem se tornar uma armadilha bem elaborada, conforme demonstrado nos 5 filtros de Chomsky e Herman (2003). Precisamos distinguir a confiabilidade das informações, sendo necessários usar algumas habilidades analíticas. Muitas pessoas não compreendem esses mecanismos de manipulação; se torna mais fácil acreditar nessas informações e compartilhá-las novamente, tornando um ciclo de compartilhamento e retroalimentação contínua de informações de baixa qualidade. O problema agravou-se porque as informações falsas passaram ser amplamente compartilhadas devido à falta de análise das fontes ou capacidade de discernimento das pessoas. Sendo neste contexto necessária a intervenção do estado afim de criminalizar a disseminação de notícias falsas. Em relação ao seu conteúdo textual, quanto imagético e sonoro, também recebem comentários que deturpam ou mentem, na sequência em que são publicadas. Para aumentar a visibilidade, muitas empresas de mídia vendem junto com os espaços nos seus canais de comunicação a sua credibilidade. O leitor olha o fornecedor, quem transmite, antes de chegar ao conteúdo.

As empresas de mídia sabem que seu abuso, quando descoberto, faz com que percam sua credibilidade e seja muito difícil de recuperá-la. Por isso, não apenas tentam nos dizer o que é importante e como aconteceu, mas também nos convencer de que está certa em sua seleção e não mente, por isso arrisca muito se a falsidade for descoberta.

O historiador e analista de mídia Michael Parenti (2001) acredita que a propaganda mais eficaz é baseada na realidade, em vez de centrar na falsidade. Tecendo a verdade em vez de violá-la. Usando ênfase e fontes auxiliares, os comunicadores podem criar a impressão desejada sem recorrer a pronunciamentos explícitos e sem se afastar demais da aparência da objetividade. O enquadramento é alcançado através da maneira como as notícias são “empacotadas”, a extensão da exposição, sua localização (primeira página ou dentro de alguma sessão secundária, artigo principal ou última página), o tom da apresentação (aberta ou depreciativa), manchetes e fotografias e, no caso dos meios audiovisuais, efeitos de imagem e som.

Os filtros apresentados por Chomsky e Herman (2003) evidenciam que a manipulação dos meios de comunicação nos conduz para uma conclusão tão óbvia quanto natural: vivemos em uma sociedade amorfa. Somos amorfos porque há uma enorme incompatibilidade entre o que achamos que sabemos sobre as coisas e o que realmente sabemos. Não há ousadia pior do que aquilo que emerge da ignorância.

Tudo é um sublime paradoxo. Temos as mais sofisticadas ferramentas, canais e acesso à informação na história da humanidade. No entanto, estamos mais vulneráveis do que nunca à negligência intelectual e à memória. Se o diagnóstico do que lemos, vemos do que buscamos– e principalmente for realizado sob a lente dos discursos midiáticos, reconheceremos filtros que antecedem a notícia, os fatos em si. A informação que queremos nem sempre combina com a informação que necessitamos. E quando combinadas, nem sempre está disponível.

O problema por trás de muitas das ondas de mentiras são as pessoas que não querem a verdade, mas concordam com ela. Elas são as terraplanistas das redes, provando que na sociedade da informação predomina a desinformação.

Autor: Fabiano Couto Corrêa da Silva

Fonte: LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 143-161, set. 2022/fev. 2023.

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Notas

[1] – VOSS, Michael. Cuba libera venda de computadores residenciais. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/reporterbbc/story/2008/05/080503_cubacomputadores_fp.shtml . Acesso em: 25 de agosto de 2022.

[2] – A hipótese do agenda setting é um tipo de efeito social da mídia que compreende a seleção, disposição e incidência de notícias sobre os temas de interesse público (BRUM, 2003).

Referências

BAUDRILLARD, Jean. Requiém por las Twin Towers. Madrid: Arena libros, 2003. BBC News. Glifosato: Por que a Anvisa propõe manter liberada a venda do agrotóxico mais usado no Brasil. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-47374656. Acesso em: 25 agosto 2022. BRANDÃO, Sílvia Sgroi. Perseguições e martírios na história eclesiástica: análise dos escritos de eusébio de cesareia. Revista História e Cultura, Franca-SP, v.2, n.3 (Especial), p.268-279, 2013. BRUM, Juliana de. A Hipótese do Agenda Setting: Estudos e Perspectivas. Razón y palabra. Out. N. 35. 2003. Disponível em: http://www.razonypalabra.org.mx/anteriores/n35/jbrum.html. Acesso em: 25 agosto 2022. CHOMSKY, Noam; HERMAN, Edward S. A manipulação do público. S.l.: Futura. 2003. CLAVELL, James; SUN-TZU. A arte da guerra. 31. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. COSTA, Siliana Dalla. A presença das agências internacionais hegemônicas no jornalismo online brasileiro. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. 41º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Joinville. 2018. GENRO, Tarso. Jornalismo geneticamente modificado: na semana que findou a imprensa tradicional lotou de notícias positivas seus surrados jornalões e noticiários. Brasil247. 2017. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/jornalismo-geneticamente-modificado. Acesso em: 25 agosto 2022. IBGE. Agência de notícias. PNAD Contínua TIC 2017: Internet chega a três em cada quatro domicílios do país. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-deimprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/23445-pnad-continua-tic-2017-internet-chega-atres-em-cada-quatro-domicilios-do-pais . Acesso em: 25 agosto 2022. INPE. MINISTÉRIO DA CIÊNCIA, TECNOLOGIA, INOVAÇÕES E COMUNICAÇÕES. A estimativa da taxa de desmatamento por corte raso para a Amazônia Legal em 2019 é de 9.762 km². Disponível em: http://www.inpe.br/noticias/noticia.php?Cod_Noticia=5294 Acesso em: 25 agosto 2022. LAIGNER, Rafael; FORTES, Rafael. Introdução à história da comunicação. Rio de Janeiro: E-papers, 2009. MACIEL, Laura Antunes. Imprensa, esfera pública e memória operária. Rev. hist. São Paulo, n. 175, p. 415-448, jul.dez., 2016. http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9141.rh.2016.109940 MORAIS, Fernando. Chatô: o rei do Brasil. A vida de Assis Chateaubriand. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. PARENTI, Michael. Monopoly Media Manipulation. Maio.2001. Disponível em: http://www.michaelparenti.org/MonopolyMedia.html . Acesso em: 25 agosto 2022. ORLANDI, E. P. Autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. 5ª Edição, Campinas, SP: Pontes Editores, 2007. PECHEUX, M & FUCHS, C. A propósito da Análise Automática do Discurso: atualização e perspectivas. Tradução de Péricles Cunha. In: GADET, F.; HAK, T. (Orgs.). Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. 3. ed. Campinas: Unicamp, 1997 [1975]. p. 163-252 REPÓRTERES SEM FRONTEIRAS. Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa 2019. Disponível em: https://rsf.org/pt-br/ranking-mundial-da-liberdade-de-imprensa-2019mec%C3%A2nica-do-medo. Acesso em: 25 agosto 2022. SANCHÉZ, Javier Mayoral. Radio y TV, ni siquiera una fuente por pieza: investigación sobre el uso de las fuentes en los informativos de televisión y radio. Cuadernos de periodistas. Mar. 2008. Disponível em: http://www.cuadernosdeperiodistas.com/pdf/Cuadernos_de_Periodistas_13.pdf . Acesso em: Acesso em: 25 agosto 2022. SORJ, Bila. Anti-semitismo na Europa hoje. Novos estudos CEBRAP [online]. 2007, n. 79, pp. 97-115. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0101-33002007000300005. Epub 01 Jul 2008. ISSN 1980-5403. https://doi.org/10.1590/S0101-33002007000300005. Acesso em: 25 agosto 2022. SOUZA, Elise. Fontes jornalísticas e pluralidade: o que dizem os Manuais de Redação? VII Encontro Regional Sul de História da Mídia – Alcar Sul, 2018.

O sonho da razão produz monstros… ou seria seu sono? (Breves notas sobre as distopias contemporâneas)

No posfácio à edição brasileira de 2017 do livro Nós, do russo Ievguêni Zamiátin (1884-1937), o professor Cássio de Oliveira dialoga com a frase que Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828) escreveu em uma das gravuras da série intitulada Caprichos (1799), um conjunto de figuras inventadas e gravadas em água-forte que pretendiam mostrar, em meio a extravagâncias e desacertos tão comuns em toda a sociedade civil, ridículos autorizados pelo costume, pela ignorância ou pelo interesse, e que permitiam ao artífice exercitar suas fantasias.

Para o posfaciador de Nós, um romance distópico escrito na Rússia entre 1920 e 1921 e que influenciou Orwell e Huxley, os monstros saídos da pena de Zamiátin implicaram a edificação de um Estado Único responsável pela organização algébrica da felicidade de todos Nós. Mas são monstros que também denunciam a inviabilidade do controle total, a resiliência dos desejos individuais e humanos que talvez também povoem os sonhos da razão.

Os caprichos de Goya

Não por acaso os Caprichos de Goya foram gravurados naquela encruzilhada que separou o mundo contemporâneo das reencenações de hierarquias e vivências que marcaram o Antigo Regime. Eram tempos iluministas, em que se ousava saber perscrutando regularidades nas vidas de povos distintos, mas também tempos de onde saíram os argumentos sobre a possibilidade de hierarquia entre povos mais dados ao progresso científico e outros que talvez precisassem de “algum empurrão” para produzir ciência, para ordenar racionalmente os elementos da natureza e os desejos da sociedade.

A gravura de Goya, “o sonho da razão produz monstros”, nos coloca diante de uma importante dimensão dos debates iluministas: o entendimento de que era possível “refazer” toda a sociedade, estabelecer um contrato social que a todos obrigasse na construção da felicidade fabulada.

Em nome desta felicidade, os monstros reificados em violência e guerras, eram preço menos importante a pagar. Explorando um pouco mais esta hipótese, deixo aqui uma sugestão do amigo Rafael Ruiz: “sueño”, palavra espanhola, pode ser também sono, sono e sonho em espanhol nem sempre se diferenciam. Se é assim, seria a razão adormecida, o seu silêncio, que produz os monstros, ou seriam as suas fabulações em sonhos de futuro?

Trata-se da expressão de uma dúvida cara aos iluminismos, e que o século XIX parece ter querido diluir à medida que se espalhavam as conquistas da ciência representadas pela medicina, pelo controle das águas dos rios, pelo incremento da produtividade industrial, pelas novas edificações e arruamentos que se beneficiavam de novas técnicas de construção, etc.

A possibilidade de controlar a natureza

Os anos de 1800 trariam os pragmatismos resultantes do enraizamento de um mundo que considerava possível controlar a natureza e organizar a sociedade a partir de dados empíricos oferecidos pelas pesquisas científicas, e aqui se destacaram as teorias de controle social.

Os contrapontos estavam por ali, rondando os medos causados pelo espetáculo da pobreza produzida na época: de Frankestein a Dr. Jekill e Drácula, passando pelos miseráveis (Victor Hugo) e pelos demônios (Dostoiévski), o cânone ocidental demonstrava alguma percepção de que as luzes também podiam escurecer o entendimento do mundo, ou revelar horrores não percebidos pelo enaltecimento das capacidades humanas. A dúvida, assim, que fora o fundamento dos iluminismos, mantinha-se por ali, rondando, mas parecia não ter lugar no mundo de certezas que a ciência positivista propunha.

A ausência do debate público

Para muitos autores, os projetos totalitários que marcaram o século XX ambicionaram refundar a humanidade, banindo suas partes irredentas, irracionais e atrasadas. Seriam manifestação da razão extremada ou da sua ausência no debate público, momento em que se exige de todos a servidão? Destaque-se aqui que as distopias contemporâneas, nomeadamente as do século XX, trouxeram um elemento novo: a projeção ou radicalização de uma dimensão que se apresenta ao autor do romance em seu tempo vivido e que ele pretende mostrar aos seus leitores. Desta forma, são romances que nos expõem monstros saídos do sono/sonho da razão, sem dúvida, mas o fazem considerando possibilidades que espreitam perigosamente a humanidade.

O olho do furacão

Nós foi escrito no olho do furacão: em meio às experiências do autor que viveu a revolução russa, a guerra civil e a NEP. O título encaminha a trajetória do leitor frente ao personagem principal, D-503, que se movimenta entre as imposições e regramentos coletivos, definidos pelo Estado Único, e as manifestações incontroláveis de sua consciência e de suas sensações.

O autor viveu a época da vanguarda construtivista russa, cujas utopias articulavam movimentos sociais e artísticos, trabalhadores, poetas, escritores, músicos, fotógrafos e pintores que idealizaram manifestações artísticas para libertar a humanidade da opressão em que vivia.

A arte seria, assim, diluída no processo mesmo de construção da vida, seria marcada pela temporalidade vivida que era revolucionária e exigia comprometimento, mas não supunha silêncio ou servidão.

O principal alerta

Os vanguardistas foram engolidos pelo realismo socialista, e esse talvez o principal alerta de Nós: qual o equilíbrio possível entre os desejos e projetos de futuro e as possibilidades de construção da realidade, como alinhavar propostas e possibilidades, sonhos e ordenamentos racionais? Muito difícil, após ler Nós, considerar os avanços do totalitarismo na Rússia soviética apenas com a ascensão de Stálin, especialmente se lembrarmos os alertas de Rosa Luxemburgo ainda entre 1918 e 1919. Desenhos de totalitarismo se difundiriam pelo século XX, e se espalhariam também nas democracias.

O Conto da Aia e as liberdades fundamentais

O Condo da Aia, de Margareth Atwood, talvez seja uma das melhores expressões desta possibilidade. O livro foi publicado em 1985, em meio aos retrocessos de ordem moral que a era Reagan produziu, e que serviram de cortina para exportar barbarismos contra outros povos em nome de uma liberdade que, mesmo assim, parecia escapar aos americanos.

Conto oferece, a partir da dimensão moralista do período, uma distopia na qual as mulheres são submetidas a controles e comportamentos que negam direitos civis e políticos quando estes, em tese, seriam o fundamento da democracia americana. Mesmo se observarmos que a escrita do livro coincide com os anos finais da guerra fria, não se pode afirmar que se trate apenas de uma crítica relacionada a um possível avanço do mundo comunista sobre o mundo livre.

O romance dialoga com as dúvidas acerca das possibilidades de uma institucionalidade política capaz de conviver com as liberdades fundamentais: essas sempre trazem pluralidade, sentimentos e opiniões partilhados para ajustes de pactos, definições sobre os direitos que historicamente, desde os iluminismos, veem sendo afirmados como da natureza humana. Mas esses são elementos da vida democrática que prescindem da homogeneidade fabulada pelos totalitarismos.

Expressões políticas

Tudo isso, leitor, porque totalitarismos não são apenas possibilidades políticas colocadas pela experiência soviética, nazista ou fascista para manutenção da ordem comunista ou capitalista, são expressões políticas resultantes dos desajustes e sofrimentos humanos vividos quando apartamos espaços de experiência e expectativas de futuro (Koselleck), racionalizações extremadas que buscam controlar sensações, projetos e possibilidades não inteiramente apreensíveis quando se considera a razão como único elemento ordenador da realidade, e quando se esquece o mais relevante da libertação que a razão pode oferecer: a possibilidade de duvidar a partir do conhecimento acumulado e partilhado republicanamente.

Autora: Ana Nemi

Fonte: Livro & Café

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