A “Vigilância da Pátria” – A ação da maçonaria brasileira durante a década proibida (1822-1831) – Parte I

Resumo

A maçonaria brasileira, presente no país de forma mais ou menos frequente ao longo das primeiras décadas do século XIX, passou por muitas fases de clandestinidade, passando por um hiato de publicidade durante o ano de 1822, até sua proibição por lei em 1823.

A presente dissertação apresenta o estudo sobre a década de 1820, período de clandestinidade da ordem e fundação da loja maçônica mais excepcional do país, a Vigilância da Pátria, que funcionou como uma loja clandestina que articulava em seu interior outras lojas, em um funcionamento muito particular dentro das múltiplas tradições maçônicas aprendidas por estes homens durante seu processo formativo.

Esta loja, a que pertenceram muitos dos principais atores políticos do primeiro reinado, nos fornece uma possibilidade de compreensão das articulações políticas e sociais do período, assim como um lócus privilegiado de circulação para a construção de sociabilidades e relações pessoais próprias do século XIX, até sua saída da clandestinidade em 1830, quando fundou as bases da maçonaria nas décadas subsequentes.

Introdução

A Maçonaria neste país só podia ter existência desafrontada quando a Liberdade e a Independência lhe dessem força e proteção. Esta época chegou, e então ela soube prestar importantes serviços à Pátria que feliz e gloriosamente se emancipava. Mas ou alheadas pelo júbilo de haver concorrido em grande parte a essa obra ou inexperiente a respeito de uma política refalsada que não havia dúvida, para não reconhecer o benefício, destruir o benfeitor, não viu a cilada que lhe armava a ingratidão e teve que chorar sobre a mais injusta e bárbara perseguição, maquinada por aqueles mesmos que por decência e juramento deveriam proteger os maçons1.

O relato feito pelo senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro no Manifesto do Grande Oriente Nacional Brasileiro aos maçons do mundo Atlântico, publicado em 1835, resgata a memória maçônica sobre a problemática década de 1820 para os membros da irmandade.

Depois de um breve período de liberdade das atividades maçônicas entre os anos de 1821 e 1822, da participação de seus membros nos processos que culminaram na independência do Brasil e na cena política imediatamente posterior, a maçonaria teve suas atividades proibidas por aqueles que chegaram a constituir os quadros da principal liderança da irmandade, como José Bonifácio de Andrada e Silva e o próprio imperador dom Pedro I, ambos eleitos Grão-Mestres da maçonaria brasileira em 18222.

A maçonaria talvez seja a mais notória das sociedades iniciáticas do mundo ocidental contemporâneo. Alvo das mais variadas especulações por seu caráter constitutivo central, o segredo iniciático, a irmandade é sempre relacionada a diversos acontecimentos e situações mais ou menos permeados por teorias da conspiração3. Entretanto, se o senso comum explora a temática com maior ou menor propriedade, a historiografia trata a fraternidade, sobretudo a brasileira, como um tema de menor ou pouca importância para o debate da construção de redes de sociabilidade e

de articulações das elites brasileiras. Este quadro tem se alterado pouco a pouco no espaço das últimas duas décadas, com o surgimento de novos estudos a partir dos trabalhos de Alexandre Mansur Barata4, Eliane Colussi5, Marco Morel6 e Célia Marino Azevedo7 que deram novo fôlego a esta temática, embora muitas pesquisas ainda se detenha em momentos específicos de atuação dos irmãos. Compreender a atuação da maçonaria passa antes de tudo pelo entendimento do que é a irmandade, mas principalmente daquilo que ela não é. Ao buscarmos uma definição sobre a maçonaria, a melhor formulação é dada por Manuel Sanchez, historiador espanhol, para o qual a maçonaria

[…] não é um partido, nem uma seita nem, por isso, uma religião. Poderíamos defini-la, em termos gerais, como uma fraternidade liberal, iniciática e especulativa que surge na Europa (Inglaterra e França) nos princípios do século XVIII e se estende, com grande rapidez, para o resto do continente e pela América8.

Esta definição, por mais genérica que possa parecer, nos oferece um primeiro prisma sobre o que a maçonaria se dispõe a ser, ou seja, um local de construção de sociabilidades garantidas pela iniciação e o segredo ritualístico, elementos herdados de sua formação original, as guildas medievais dos construtores, conhecidos pelo termo original de Freemasons ou Pedreiros Livres, e que passou por profundas transformações ao longo do século XVIII, quando sua atuação “operativa” transmutou-se em “especulativa”, originando a irmandade tal qual como a conhecemos hoje9.

A existência da maçonaria na América portuguesa e depois no Reino do Brasil passou, nas primeiras décadas do século XIX, por períodos de maior ou menor liberdade, segundo a permissão ou auxílio dos governantes das regiões onde os irmãos se concentravam e após um breve período em que de fato a irmandade se articulou em torno de um núcleo central, as atividades dos irmãos foram novamente relegadas à clandestinidade.

Entretanto, o banimento da irmandade por força da lei de proibição das chamadas Sociedades Secretas não resultou na suspensão completa das atividades maçônicas, antes os irmãos desenvolveram novas maneiras de manter suas lojas de forma que fosse possível continuar com as suas práticas sem que estas oferecessem riscos de processos e de prisão a seus membros.

A fórmula encontrada, decorrente de uma longa tradição maçônica de períodos de maior risco ou em situações de grande circulação terrestre e marítima dos irmãos, foi a de criação de uma loja que não necessitasse de um salão cerimonial ou de regras engessadas de filiação. A estas lojas se dava o nome de errantes ou volantes. A grande loja errante do Brasil entre os anos de 1825 e 1830 foi intitulada “Vigilância da Pátria”.

A “Vigilância da Pátria”, fundada em 1825 no Rio de Janeiro, congregou grande parte dos membros da irmandade na corte, além de construir espaços de articulação e de defesa dos irmãos ao longo do território nacional, contando para isso com membros cuja circulação por diversas áreas não levantasse suspeitas ao governo imperial.

Ao longo dos anos, a “Vigilância” não apenas expandiu seus quadros, congregando os irmãos iniciados antes da lei de proibição das Sociedades Secretas, assim como contou com novos iniciados, construindo redes de circulação de homens, ideias e textos, não apenas entre seus quadros nacionais, mas também entre os irmãos no exterior, por exílio ou à serviço da nação.

As origens da maçonaria na Europa

A maçonaria passou por uma mudança essencial em suas formulações entre o final do século XVII e o início do século XVIII. Esta passagem, feita entre a Escócia e a Inglaterra, teve seu auge com a formação da Grande Loja Unida de Londres, cuja fundação remete às festas de São João Batista em 1717, a partir da reunião dos quadros de filiados das primeiras lojas da capital inglesa, The Goose and Gridiron (O Ganso e a Grelha), The Crown (A Coroa), The Apple Tree (A Macieira) e The Rummer and Grapes (O Copázio e as Uvas)10. Ainda que a memória maçônica aponte a fundação da Grande Loja de Londres a partir destas primeiras lojas, é difícil afirmar a data precisa de tal criação. As novas pesquisas sobre o tema consideram que o processo de fundação da Grande Loja tenha se dado entre 1717 e 1723, baseando-se na memória de um dos principais atores do período, James Anderson, o formulador dos primeiros documentos sobre a ordem11.

A partir da fundação da Grande Loja de Londres, tiveram início as primeiras elaborações formais sobre a irmandade, estabelecendo suas principais características, sintetizadas em dois documentos: as Constituições de Anderson e as chamadas Landmarks. Tais documentos foram as bases para toda a formalização de uma unidade de funcionamento da maçonaria, pensada por estes “legisladores” como uma fraternidade universal que reuniria em uma grande instituição homens de todos os lugares, norteados por uma noção de pertencimento a esta grande fraternidade12.

Embora se pretendesse universal, a maçonaria adquiriu características e peculiaridades próprias de cada lugar onde se estabeleceu. Estas modificações, iniciadas desde o princípio da dispersão da irmandade para além das ilhas britânicas, remetem não apenas às funções ritualísticas da ordem, mas às próprias formas de iniciação e pertencimento, com maior ou menor abertura em relação aos critérios exigidos dos iniciados, ao próprio funcionamento das lojas e à organização de instituições centralizadas regionalmente e/ou nacionalmente.

São modificações essenciais ao funcionamento da irmandade, das quais a maçonaria brasileira é tributária, aquelas originadas na França e na América, com especial destaque às formulações das antigas 13 Colônias Britânicas, formadoras dos Estados Unidos. A tradição da maçonaria francesa, com a simplificação dos ritos e graus, permitiu, por um lado, um maior controle dos iniciados e, por outro, a abertura para manifestações políticas de seus membros no espaço interno da irmandade, assim como a participação dos irmãos na vida pública. Sua organização pressupunha uma unidade central que englobasse todo o território, com um quadro de lideranças pertencentes a diversas lojas e não a uma especificamente13.

Da mesma forma que a tradição francesa, a tradição da América do Norte, sobretudo aquela pertencente às 13 colônias que viriam a formar originalmente os Estados Unidos, simplificaram graus e ritos, embora em menor número do que fizeram os franceses, abrindo seus salões às discussões políticas entre seus membros, criando redes de sociabilidades por todo o território, além do estabelecimento de padrões de organização por divisões regionais, em princípio respeitando as fronteiras das colônias, posteriormente de seus estados, sem que houvesse uma entidade centralizadora nacional14.

Estas divisões internas à irmandade se referem particularmente às várias formulações que a ritualística recebeu em cada um dos lugares em que a irmandade se fixou. As fórmulas dos rituais mais antigos vieram do Reino Unido. Neste, o rito maçom recebeu sua primeira formulação vinda da antiga maçonaria operativa, em que os três primeiros graus remetiam às antigas práticas profissionais das guildas: os graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre. Depois vinham os graus simbólicos; isto é, a maçonaria especulativa elaborou outros graus que não apenas explicitassem a vivência dos membros na irmandade, mas também indicassem o tempo de permanência do irmão na ordem e estabelecesse alguma conduta na hierarquia, uma vez que as chefias de lojas (venerável) ou da obediência pressupunha a iniciação acima do quarto grau, que entronizava o irmão nos chamados graus filosóficos15.

O Reino Unido forneceu o primeiro modelo ritual dos graus do mundo contemporâneo, formado por 33 graus, intitulado Rito Escocês Antigo e Aceito, uma vez que sua formulação inicial proveio das lojas escocesas. Com a dispersão da irmandade pelo continente, novas formas de rito ganharam forma, simplificando o modelo anglo-saxão, ao mesmo tempo em que garantiam um controle maior dos iniciados na irmandade16.

Ponto central da irmandade na Europa continental, a França estabeleceu o grande rito desta nova fase. Mantendo os três graus simbólicos originais, o rito francês diminuiu o número de graus simbólicos, mantendo apenas quatro deles, dando origem ao chamado Rito Francês ou Moderno, com 7 graus. Ao mesmo tempo, a tradição francesa criou uma outra formulação de rito com 12 graus17, com a particularidade da adoção de nomes simbólicos como forma de proteção dos irmãos em momentos de maior perseguição, ampliando as implicações do segredo ritualístico. Ao mesmo tempo, ambos os rituais de origem francesa permitiram a seus membros a publicização de seus posicionamentos.

A última grande vertente de formulação ritualística é originária da América, nas antigas 13 Colônias Britânicas que, após sua independência, deram origem aos Estados Unidos. A presença da maçonaria nos territórios coloniais é contemporânea ao processo de dispersão da irmandade na Europa continental, mas sua ritualística ganhou contornos próprios que abriram um longo conflito com a irmandade de vertente europeia. A primeira grande diferenciação criada pelos colonos ingleses foi a de um quarto grau simbólico, o Mestre da Marca. Ademais, o rito americano também restringiu o número de graus filosóficos para nove18.

Os novos ritos colocaram em xeque a autoridade da Grande Loja de Londres como centro dispersor da irmandade, levando esta a não reconhecer os novos ritos como legítimos, o que implicava também no não reconhecimento oficial das lojas que os praticassem. Este conflito só pode ser resolvido em 1813 com a União de Antigos e Modernos. A partir dessa união, houve, por um lado, o reconhecimento de diversos ritos originados após a dispersão, como o Francês, mas, por outro, criou-se uma nova forma de organização ao rito Americano, conhecido como Rito de York, criando-se um novo Rito de York, conhecido como York de emulação19. A partir da União, a Grande Loja da Inglaterra passou a ser formado por lojas organizadas por Antigos20 e Modernos21, doravante reconhecidos todos como legítimos.

Embora organizados de formas diferentes conforme a localidade e tradição, todas essas maçonarias compartilham dos mesmos elementos centrais, as Constituições de Anderson, as Landmarks e o segredo ritualístico de pertencimento à irmandade22.

Sendo no segredo, para além de outros elementos distintivos da irmandade, que reside sua particularidade como elemento construtor de sociabilidades políticas. Para Reinhardt Koselleck, aqueles que se reuniam nas lojas, formavam uma nova camada social que não tinha espaço político. Ao se congregarem em uma instituição cujas tarefas eram “sociais”, a maçonaria permitia a “formação típica de um poder indireto, no Estado absolutista, exercido pela nova burguesia. Funcionavam cobertas por um véu que elas próprias haviam tecido: o segredo”.23

Para Koselleck, o segredo, mantinha uma função social, que protegia a instituição e seus membros. A suposta separação da moral e da política era mantida pelo segredo, que garantia o traço político mais importante, a liberdade em relação ao Estado.

Aparentemente sem afetar o Estado, os burgueses criam nas lojas, nesse foro interior secreto dentro do Estado, um lugar em que já se realiza – sob proteção do segredo – a liberdade civil. A liberdade em segredo torna-se o segredo da liberdade.24

Este foro de convivência e sociabilidade privilegiado, aliado a um senso de pertencimento, proteção e auxílio mútuo, onde a prática da liberdade civil, mas sobretudo, da articulação de interesses políticos entre seus membros, fez com que a fraternidade se espalhasse por toda a Europa. Destacando-se seu papel central entre os membros das elites atlânticas, onde a fraternidade, apesar de muitas vezes clandestina, apresentava-se como local de reunião e articulação política por excelência, sobretudo nos diversos processos de lutas anticoloniais e de independências americanas.

Porém, apenas o segredo não explica as fidelidades maçônicas. Para isto, é importante entender o processo de iniciação dos membros na ordem e sua fidelidade de pertença, não apenas à sua loja de origem, mas ao corpo maçônico como um todo, garantindo assim uma rede de sociabilidade e proteção onde quer que este maçom se encontrasse25.

Para Maurice Agulhon, a maçonaria não apenas seria um local de sociabilidade e de circulação das Luzes, mas também um espaço fundamental para a criação e manutenção da ideia de esfera pública. As lojas maçônicas constituiriam um local favorável para o exercício de novas formas de sociabilidade; protegidos pelo segredo os irmãos poderiam debater ideias nascidas da Ilustração, além de vivenciarem o processo de eleição de seus líderes, em todos os cargos26.

As lojas maçônicas se constituíram, tanto na Europa quanto na América, como espaços de circulação de ideias e instância de aprendizado das práticas modernas, como a escolha de associados e o livre debate entre seus pares. Sendo assim, a fraternidade pode ser vista como portadora de práticas inovadoras de cultura política e seus membros como construtores e sujeitos do espaço público moderno, contribuindo para a inauguração de uma nova forma de comportamento político27.

Entretanto, todos esses elementos também são responsáveis pelo risco em se pensar a maçonaria como a responsável por todos os fatos, numa espécie de grande teoria da conspiração, uma vez que o próprio elemento do segredo – ao menos em algumas localidades – isolou a fraternidade, além de permitir a associação entre segredo e conspiração28.

Embora a historiografia tradicional do princípio do século XX tenha dado destaque à atuação da maçonaria e seus membros, a produção acadêmica sobre o tema foi relativamente escassa até o início da década de 1970, quando dois trabalhos pioneiros abriram novas frentes de investigação.

Margareth C. Jacob inaugurou uma nova frente de estudos no mundo anglo-saxão com seu livro The Radical Enlightenment: Pantheist, Freemasons and Republicans29, em que aborda a relação entre a cultura secular e as sociedades secretas como a maçonaria para a hegemonia do capitalismo na mentalidade do século XVIII. Iris Zavala por sua vez, em seu trabalho Masones, comuneros y carbonários30 estudou as chamadas sociedades secretas na construção de uma nova realidade política nos domínios espanhóis do final do século XVIII ao reinado de Fernando VII.

A partir destes trabalhos, uma nova abordagem sobre a atuação da maçonaria, sobretudo em seu aspecto político e social, influenciou a produção acadêmica mundial, com duas principais temáticas: a organização e o funcionamento da fraternidade nas diversas localidades onde se instalou e o seu papel como núcleo articulador de grupos políticos atuantes em processos históricos fundamentais entre o setecentos e o oitocentos.

Ao dividirmos os estudos sobre maçonaria em duas grandes frentes, há um destaque para a produção anglo-saxã e francesa no que se refere à primeira temática, das origens e do funcionamento da fraternidade. Este destaque se dá sobretudo por serem estes os locais onde a maçonaria passou de seu estado operativo para o seu formato especulativo31.

É nesta “mudança de natureza”, operada entre a Escócia e depois Londres que a fraternidade recebeu seus dois principais elementos reguladores, os Landmarks e as Constituições. Estes dois documentos, elaborados pela maçonaria inglesa e alterados ao longo do tempo, estabeleceram as formas de funcionamento da fraternidade, direitos e deveres de seus membros, além de elementos de reconhecimento e distinção entre eles fora dos espaços das lojas32.

É ainda no século XVIII que a maçonaria ganha uma primeira diferenciação. Por um lado, haviam as lojas de tradição anglo-saxônica, não permitindo posicionamentos políticos no interior das lojas e vetos ao posicionamento externo da irmandade, bem como a exigência de profissão de crenças cristãs aos seus iniciados; e, por outro, as lojas afiliadas à tradição francesa, em que não só se permitiam o posicionamento político dos irmãos dentro da ordem e declarações políticas vinculadas à própria instituição, além da permissão da profissão de qualquer fé por parte de seus iniciados ou apenas a crença em um ser superior, mesmo sem uma prática religiosa definida33.

Para além dos campos de investigação sobre as origens da maçonaria, a historiografia europeia, destacando-se as produções do Reino Unido e da França, buscou compreender sua origem e a sistematização de seus elementos formativos, com vistas a desmistificar a irmandade e romper com as lendas e interpretações equivocadas sobre ela34. Mapeando os processos de consolidação e expansão da maçonaria, não apenas na Europa, mas também para os domínios americanos, observando a formação de redes de sociabilidade entre estes vários espaços, a construção de mentalidades e de novos comportamentos políticos35, além da atuação dos membros da fraternidade nas esferas públicas, atuando na elaboração de novos comportamentos políticos e o seu envolvimento em processos históricos singulares, como as Revoluções Atlânticas36.

Os irmãos na América

Uma segunda frente dos trabalhos sobre a maçonaria se concentra na expansão e posterior atuação da fraternidade na América, com destaque para os trabalhos sobre os Estados Unidos e o crescimento de pesquisas sobre o Caribe (Cuba, Porto Rico e um insipiente grupo sobre o Haiti), além dos trabalhos sobre a América espanhola, especialmente a produção mexicana, e um novo fôlego para as pesquisas sobre o Brasil.

No que se refere aos importantes trabalhos sobre a maçonaria nos Estados Unidos, não apenas pelo destaque que a ordem teve no país, como também por ser o primeiro território americano onde a fraternidade se instalou. Além disso, a maçonaria estadunidense, ainda no século XVIII, implicou em uma terceira divisão no corpo maçônico, mesclando elementos ingleses e franceses, constituindo comportamentos próprios da fraternidade naquele território37.

Esta particularidade da conformação da fraternidade no país não apenas se refere a práticas rituais e a atuação pública de seus membros, mas também a uma subdivisão particular desta, nascida ainda no século XVIII nas lojas do estado de Massachusetts e depois expandida para os outros estados da federação, as chamadas lojas negras, nascidas dentro das potências tradicionais, mas que no século XIX constituíram potências próprias, os chamados Prince Halls38.

Os trabalhos nos Estados Unidos se concentram principalmente na atuação da fraternidade a partir dos processos da Revolução Americana, buscando compreender a constituição de redes de sociabilidades entre as elites, assim como suas articulações para além das divisões entre norte e sul. Trabalho fundamental sobre a atuação da maçonaria nos Estados Unidos é o livro de Steven C. Bullock, Revolutionary Brotherhoood: Freemasonry and the transformation of the American Social Order (1730-1840)39, em que o autor mapeia a atuação dos maçons americanos desde sua implementação no território e engajamento no processo de emancipação, como a atuação na construção do novo Estado nacional até o aparente enfraquecimento da fraternidade na década de 1840, em razão do surgimento do movimento e posterior partido Antimaçônico.

O trabalho de Bullock renovou as pesquisas na área, se expandindo para além do processo de independência, passando pela construção do novo país e seu processo de expansão40, destacando o período da Guerra Civil, principalmente no Sul41. Uma última frente de novos trabalhos busca interligar diferentes regiões, examinando, por exemplo, as influências da maçonaria estadunidense sobre outros locais da América, com destaque para a Grande Loja da Luisiana e Grande Loja de Nova York. Ambas as obediências atuaram no sentido de expansão da ordem e de seu reconhecimento em outros locais do continente, como as primeiras lojas do Caribe e, especialmente para o Brasil, da loja 06 de Março de 1817 em Pernambuco, que articulou parte das elites pernambucanas na Confederação do Equador42. É nesta intersecção entre a maçonaria de Nova York, Luisiana e demais locais da América que localizamos uma outra frente de trabalhos, as pesquisas sobre a maçonaria caribenha, como a produção de Cuba e Porto Rico. Estas não apenas se cruzam com a historiografia estadunidense, como se interligam principalmente com os trabalhos da Espanha sobre o tema.

Os trabalhos sobre a maçonaria no Caribe destacam a atuação da fraternidade sistematicamente a partir da década de 1850, com o engajamento da elite criolla entre as lojas ligadas ao Grande Oriente da Espanha e a Grande Loja de Nova York. Jossianna Arroyo em seu Writing Secrecy in Caribbean Freemasonry43, examina as filiações, redes de apoio e fidelidade no Caribe, se preocupando sobretudo com as elites cubanas e porto-riquenhas, e com os processos inaugurados no Caribe pela própria Revolução Haitiana, para qual Arroyo aponta uma nova historiografia sobre o tema. Para além desse trabalho, os historiadores caribenhos têm dado destaque para a atuação da maçonaria cubana no século XIX, sobretudo no que se refere a suas alianças políticas com a Inglaterra, Estados Unidos e Espanha, tecendo assim não apenas relações políticas de sociabilidade, mas também circulações imperiais no Atlântico44.

As mesmas ligações tecidas pelas maçonarias caribenhas foram formadas pelas demais maçonarias da América Espanhola, embora muito mais fiéis à maçonaria francesa e belga. Se a historiografia caribenha analisa a atuação da maçonaria nas manutenções e questionamentos dos poderios imperiais, a produção latino-americana continental concentrou seus estudos nas discussões sobre os processos de emancipação e consolidação dos novos estados nacionais45.

Uma irmandade entre Portugal e Brasil

Os poucos estudos sobre essa temática não se devem ao desinteresse dos historiadores sobre o tema, mas a uma dupla problemática que se apresenta sobre os estudos da maçonaria nas Américas. A irmandade em Portugal e Espanha passou por um longo processo de perseguição, muito mais severo que na Inglaterra e na França, fosse pela longa atuação da Inquisição ou das autoridades governamentais. Aliado a este quadro, a maçonaria latino-americana passou as primeiras três primeiras décadas do século XIX quase toda na clandestinidade, proibida por antigas leis coloniais ainda em vigor e pela proibição dos chefes nacionais, apesar de sua participação nos processos de emancipação.

Não bastassem tais perseguições, os pesquisadores, por muito tempo, tiveram que lidar com a restrição de acesso à documentação, permitida somente aos iniciados. Por isto, a produção sobre a história da maçonaria, principalmente na América Latina, esteve vinculada aos escritores memorialistas pertencentes a própria fraternidade. Apesar desta produção apresentar algumas interessantes perspectivas de análise, falta a ela maior isenção sobre os temas analisados, por diversas vezes colocando a maçonaria como a grande protagonista dos principais acontecimentos.

Em se tratando do Brasil, por muito tempo os trabalhos sobre a maçonaria ficaram restritos às publicações de caráter memorialista da própria fraternidade46. Os ensaios produzidos pela historiadora Célia Marinho47 sobre as sociedades secretas no Brasil do início do século XIX, podem ser considerados uma exceção na produção sobre a fraternidade.

Influenciando a virada historiográfica brasileira no final da década de 1990, com os trabalhos de Alexandre Mansur Barata sobre a maçonaria brasileira nas últimas décadas do século XIX48 até o período da independência49, apresentando uma análise sistemática sobre a atuação da ordem no Brasil no período em questão.

Contemporâneo aos trabalhos de Barata, estão os estudos de Eliane Lucia Colussi, Plantando as ramas de Acácia: a maçonaria gaúcha na segunda metade do século XIX50, em que analisa a expansão da maçonaria no Rio Grande do Sul e suas articulações com a irmandade no país, além das interligações entre a maçonaria gaúcha e as maçonarias dos países vizinhos, como Argentina e Uruguai.

Após estes trabalhos, observamos um crescimento nas pesquisas sobre a maçonaria no Brasil em dissertações e teses pelas diferentes regiões do país. Entretanto, boa parte destes trabalhos se referem a atuação maçônica no período da Independência e a partir da segunda metade do século XIX, sobretudo relacionados ao momento da Questão Religiosa, quando os maçons estiveram no cerne da discussão sobre as relações entre religião e Estado51.

Toda esta produção historiográfica sobre o tema pode ser analisada em termos de seus respectivos Estados nacionais, mas também podem ser analisadas a partir das relações tecidas entre os diversos Orientes, em negociações de reconhecimento, auxílio e proteção mútua.

A maçonaria, apesar de não ser centralizada em um único grande poder, possui uma articulação que lhe caracteriza não como uma instituição internacional e sim transnacional. Uma vez que suas redes de filiação e apoio ultrapassam as fronteiras nacionais, interligando Grandes Lojas e Orientes por meio de tratados de mútuo auxílio e proteção, além de redes de reconhecimento que inserem ou não determinado corpo maçônico nesta rede internacional.

As articulações entre as maçonarias pelo mundo, ainda no século XVIII, garantiu não apenas sua difusão pelo mundo Atlântico, mas, sobretudo, a proteção de seus membros frente a perseguições e abrigo em outras localidades. É a partir destas articulações que os estudos sobre a maçonaria analisam as relações entre as elites, tecendo redes de circularidade de ideias e de pessoas que envolvem espaços geográficos diversos. Para a maçonaria brasileira, esta circulação é perceptível não apenas pelo seu processo de regulamentação no século XIX, mas pelo processo iniciático de seus membros52.

Embora a historiografia do início do século XX tenha identificado o local de iniciação dos primeiros maçons brasileiros em Coimbra, em uma loja ligada à Universidade, estudos mais recentes apontam que iniciações também ocorreram em Montpelier, na França. A historiografia portuguesa aponta que o grande ponto de sustentação da maçonaria no país não se localizava no território continental, mas sim na Ilha da Madeira, mais distante do controle régio sobre as atividades da fraternidade53.

Esta iniciação dos maçons luso-brasileiros fora do território português já é um primeiro indicador da circulação destes homens, uma vez que iniciados na França, estes se tornariam mais próximos às ideias da Ilustração do que quando iniciados nas lojas de Coimbra. Muitos dos maçons portugueses também aproveitaram a mobilidade dos estudantes para levar a Portugal ideias e livros de ilustrados, que tinham restrição de entrada54.

Exemplo desta integração entre as maçonarias europeias pode ser exemplificada no processo de regularização da maçonaria portuguesa, quando esta busca o reconhecimento pelo Grande Oriente da Bélgica, mas principalmente pela Grande Loja de Londres. Interessante notar que o maçom enviado a Londres tenha sido Hipólito da Costa, que antes de ir a Londres foi enviado pelo governo português para a Filadélfia, onde possivelmente tenha recebido o grau de mestre55.

A maçonaria luso-brasileira, embora formada a princípio pelos membros desta elite ilustrada formada na Europa, no século XVIII, quando de seu retorno para a América começou não apenas a implantar as primeiras lojas como também a iniciar seus primeiros membros no território. Embora a primeira loja possa ter sido fundada sob a tutela do Grande Oriente da França, as lojas brasileiras desde o início do século XIX funcionaram em aparente autonomia com relação às potências estrangeiras, com tentativas de implementação de um Oriente próprio que se consolida apenas em 182256.

Essa aparente autonomia perante outras potências não significa um isolamento da maçonaria brasileira em relação às outras. A própria regularização do Oriente brasileiro passou pelo reconhecimento da França, Inglaterra e dos Estados Unidos57, garantindo aos maçons brasileiros o auxílio de irmãos de várias partes.

Além de reconhecer o Grande Oriente em 1822, uma potência estadunidense não identificada teria sido responsável por manter em funcionamento a loja Seis de Março de 1817, no Recife. Esta loja foi fundada em 1821 e articulou as elites pernambucanas e das províncias vizinhas em torno da Confederação do Equador58.

A maçonaria brasileira em seus períodos de clandestinidade contou diversas vezes com o auxílio dos corpos maçônicos de outras localidades, assim como após a reinstalação regular da fraternidade no país, em 1831, garantiu o reconhecimento não apenas das potências que já haviam reconhecido sua existência em 1822, mas também patentes de outras localidades como Bélgica e Peru.

Assim, ao analisarmos a construção e o funcionamento da maçonaria em determinado país, é necessário um olhar mais amplo a fim de atentar para as redes de circulação as quais ela se integrava, possibilitando a elaboração de um panorama composto pelo conjunto das maçonarias no mundo Atlântico.

Portanto, a maçonaria longe de ser uma fraternidade fechada em si, ao integrar seus quadros transnacionais construiu imensas redes de sociabilidade, não apenas entre determinadas elites nacionais (ou proto-nacionais), como também uma circularidade cultural e geográfica entre seus quadros.

Ao analisarmos a maçonaria de determinado local podemos compreender as ligações entre as elites, como também as relações entre estas e as elites de outras nações, auxiliando muitas vezes na percepção das relações culturais e políticas que não se explicam por si só, apontando para relações de cunho mais amplo, em processo de troca e de circulação não lineares.

Para entendermos o que de fato era a maçonaria no Brasil e sua ação ao longo das décadas de 1820 e 1830 precisamos recuar no tempo e analisar as formações originais da irmandade. Para isso, estabelecemos como baliza inicial desta pesquisa o ano de 1801, com a fundação da primeira loja maçônica oficial no Brasil, passando pelas tentativas de fundação de uma obediência nacional, o ano de 1822 (de maior publicidade da irmandade), o período proibido que lhe seguiu e, finalmente, o reestabelecimento público da ordem.

O objetivo principal deste trabalho é o de identificar os membros da loja Vigilância da Pátria após a sua fundação e ao longo de seus anos de existência, os locais por onde esta loja passou em sua errância, e em que medida ela se constituiu como um local de circulação e organização de ideias e de projetos, atuando na construção de resistências ao governo de dom Pedro I e seu grupo mais próximo, sobretudo após o acirramento das disputas dos grupos políticos nacionais e a ascensão de novas lojas.

Para tal, foram utilizadas como fontes para esta pesquisa os documentos publicados pelos próprios maçons nas primeiras décadas do século XIX no Brasil, numa espécie de elaboração da história da fraternidade durante o período; e como fonte principal o único livro de atas da loja Vigilância da Pátria, encontrado nos arquivos da maçonaria brasileira, na Biblioteca Histórica do Palácio Maçônico da rua do Lavradio, no Rio de Janeiro. Tal livro de atas contempla as sessões entre 24 de junho de 1825 e 30 de outubro de 182859.

O livro de atas, tradição da maçonaria em qualquer parte do mundo desde seus primórdios, apresenta um breve resumo de cada sessão de uma loja, contendo aspectos mais gerais, como dia, horário e local, além dos membros presentes em cada uma das sessões, e apresenta um resumo dos acontecimentos naquela sessão. Em sessões ordinárias, as informações registradas costumam ser mais esparsas, apresentando apenas um resumo geral do dia. Em sessões festivas ou de maior cerimônia, como por exemplo uma sessão que em que ocorra uma iniciação ou solenidade de grau maçônico, as informações registradas na ata costumam ser mais completas, por vezes relatando até mesmo partes de discursos proferidos na solenidade.

As atas da Vigilância da Pátria, entretanto, possuem algumas particularidades em relação aos livros de atas de outras lojas, até mesmo entre as suas contemporâneas. Dada a excepcionalidade da Vigilância, grande parte das atas, mesmo as das sessões solenes, apresentam invariavelmente, com algumas raras exceções no primeiro ano da loja, apenas as versões simplificadas das sessões. Assim, são raros os discursos completos, assim como em grande parte das sessões os membros presentes dificilmente são inteiramente identificados. Além disso, há uma variação da quantidade de informações de uma sessão ou outra, visto que o secretário da loja não esteva presente em grande parte delas. Tais questões serão abordadas no capítulo 2, em que tratamos da Vigilância da Pátria e das particularidades de seu funcionamento.

Para além das atas da Vigilância, buscando preencher muitas das lacunas, além de tentar compreender os acontecimentos da loja entre a sua última sessão de 1828 e a fundação da potência maçônica dela originada, o Grande Oriente Nacional Brasileiro, utilizamos os relatos de outros maçons contemporâneos, além da produção bibliográfica maçônica.

Esta produção bibliográfica, entretanto, não foi produzida por historiadores profissionais, mas por maçons de diversos períodos e perfis de formação. Por esta razão, estes trabalhos majoritariamente não indicam as fontes de origens de suas afirmações, bem como quais foram os documentos utilizados. Dado o grau de imprecisão da origem dessas informações, quando utilizadas serão indicadas como “memória maçônica”, para distinguir tais trabalhos da pesquisa acadêmica sobre o tema.

A baliza final deste trabalho de pesquisa será o ano de 1831, marcado pela abdicação do imperador em favor de seu filho, inaugurando um novo quadro de disputas políticas no Brasil, e também pela fundação oficial das duas potências maçônicas brasileiras, que congregaram os irmãos segundo identidades de filiação e de outras disputas internas a irmandade, para além das disputas nacionais.

A partir disto, no primeiro capítulo recuperamos a história da maçonaria na América portuguesa e depois no Brasil das primeiras décadas do século XIX, a partir da fundação da primeira loja regular no território, a União do Rio de Janeiro, em 1801, passando por todas as tentativas de organização até a fundação do primeiro Oriente nacional de fato em 1822, marcado por sua atuação nas articulações do processo de independência e pelos conflitos dos diversos grupos políticos do período, que culminou no processo de perseguição de seus membros e a efetiva proibição da fraternidade.

O segundo capítulo busca analisar os caminhos percorridos pela irmandade após o fechamento do Grande Oriente de 1822 e a proibição da ordem, passando pelas tentativas de rearticulações dos irmãos em torno das lojas pernambucanas, afetadas pela Confederação do Equador, levando a uma nova composição de quadros em torno da loja Vigilância da Pátria. A partir da atividade desta loja analisar as ações, mais ou menos orquestradas, dos maçons brasileiros do período e compreender em que medida os espaços internos da maçonaria brasileira foram utilizados na integração e articulação de políticos anti-pedristas, seus discursos, ações e projetos para a resistência ao governo, não apenas no exercício do poder Legislativo, mas também nos espaços da imprensa e outros.

Por fim, o último capítulo reflete sobre a situação maçônica no Brasil após 1829, quando não apenas observamos um crescente das disputas políticas entre os grupos governistas e de oposição, alimentados pelas eleições da segunda legislatura nacional, vencida por ampla maioria pela oposição, como um novo florescimento público da maçonaria brasileira, com a abertura de novas lojas, sobretudo após a aprovação do Código Criminal em 1830, que descriminalizava reuniões como as da fraternidade. Finalmente, após a abdicação de dom Pedro I, uma nova conformação política se deu no país e a maçonaria passou por algumas disputas, explicitadas pela abertura de duas obediências nacionais, que dividiram a irmandade até o fim do século.

Continua…

Autora: Pilar Ferrer Gomez

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Mestre em História – 2022.

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Notas

1 MANIFESTO que a todos os Sapientíssimos Grandes Orientes, Augustas Lojas e Responsáveis Maçons dirige O Grande Oriente Brasileiro situado ao Valle do Passeio. Rio de Janeiro, Typographia Nacional, 1835, pág. 4.

2 Sobre o Grande Oriente Brasílico, ver BARATA, Alexandre Mansur. Maçonaria, sociabilidade Ilustrada e Independência (Brasil, 1790-1822). Campinas, Tese de Doutorado, UNICAMP, 2002, Capítulo 4.

3 JACOBS, Margareth C. The origins of Freemasonry: Facts and Fictios. University of Pennyslvania Press, 2005.

4 BARATA, op. cit.; BARATA, Alexandre Mansur. Luzes e sombras: a ação da maçonaria brasileira (1870- 1910). São Paulo: Editora da Unicamp, 1999.

5 COLUSSI, Eliane Lucia. Plantando Ramas de Acácia. A maçonaria gaúcha na segunda metade do século

XIX. Porto Alegre, Tese de Doutorado, PUC-RS, 1998.

6 MOREL, Marco.” Sociabilidades entre Luzes e Sombras: Apontamentos para o Estudo Histórico das Maçonarias da Primeira Metade do Século XIX”. Estudos Históricos, n.28, Rio de Janeiro, 2001/2.; MOREL, Marco & SOUZA, Françoise de Oliveira. O Poder da Maçonaria: a história de uma sociedade secreta no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

7 AZEVEDO, Célia Maria Marinho. “Maçonaria: História e Historiografia”. Revista USP nº 32. 1996- 97.; AZEVEDO, Célia Maria Marinho. Maçonaria, Anti-racismo e Cidadania. Uma história de Luzes e debates transnacionais. São Paulo: Annablume, 2010.

8 DE PAZ SÁNCHEZ, Manuel. Masones em el Alántico. Ediciones Idea, Las Palmas de Gran Canaria, 2010, p. 7.

9 FERRER BENIMELI, José Antônio. Masonería, Iglesia y Ilustracíos:um conflito ideológico-político- religioso. Madri: Fundacíon Universitaria Española, 1977.

10 STEVENSON, David. The origins of Freemasonry: Scotland’s century (1590-1710). Cambridge: Cambridge University Press, 1998.

11 PRESCOTT, Andrew & SOMMERS, Susan Mitchell. Em busca del Apple Tree: uma revisón de los primeros años de la masoneria inglesa, in Revista de Estudios Históricos de la Masoneria Latinoamericana y Caribeña, n.9, janeiro 2018, p. 19-46.

12 Ver JACOBS, op. cit.

13 LOISELLE, Kenneth. Brotherly Love: Freemasonry and Male Friendship in Enlightenment France. Ithaca: Cornell University Press, 2014.

14 BULLOCK, Steven C. Revolutionary Brotherhood: Freemasonary and the transformation of the America Social Order,1730-1840. Chapel Hill (NC), University of North Carolina Press, 1996.

15 JONES, Bernard E., The Freemason’s Guide and Compendium (versão digital), Jersey (Channel Islands), The Lintel Trust, 1999 (publicado pela primeira vez em 1950), pp. 123- 141.

16 JONES, op. cit., pp. 117-122.

17 O rito de 12 graus é conhecido como Rito Adonhiramita, numa alusão a Adoniram, construtor do templo de Salomão na mitologia maçônica.

18 JONES, op. cit., pp. 193-212.

19 O York de emulação manteve o número de graus, passando o quarto grau (o Mestre da Marca) para o primeiro grau filosófico, mantendo assim as formulações originais da Landmark de Mackey.

20 As lojas dos “Antigos” eram chefiadas pelo Duque de Sussex.

21 As lojas dos “Modernos” eram chefiadas pelo Duque de Kent. JONES, op. cit., pp. 217- 229.

22 Ver JACOBS, op. cit.

23 KOSELLECK, Reihart. Crítica e Crise: uma contribuição à patogênese do mundo burguês. Trad. Luciana Villas-Boas Castelo-Branco. Rio de Janeiro: EDUERJ/Contraponto, 1999, p.63.

24 Ibidem, ibdem, p. 68.

25 AGULHON, Maurice. Pénitents et francs-maçons de l’ancienne Provence: essai sur la sociabilité mériodionale. 3 ed. Paris: Fayand, 1984.

26 AGULHON, Maurice. As sociedades de pensamento. In: VOVELLE, Michel (org.). França revolucionária (1789-1799). São Paulo: Brasiliense, 1989.

27AGULHON, op. cit., p. 58.

28 GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias políticas. Trad. Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

29 JACOBS, Margareth C. The Radical Enlightenment: Pantheists, Freemasons and Republicans. Londres: George Allen & Unwin, 1981.

30 ZAVALA, Iris. Masones, comuneros y carbonarios. Espanha: Siglo XXI,1971.

31 Sobre as mudanças de natureza e organização da maçonaria no século XVIII cf. FERRER BENIMELI, José Antonio. La masonería actual. Sandanyola (Barcelona): Editora AHR, 1977.

32 COLUSSI, op. cit., p. 26.

33 Como consequência desta liberdade religiosa, as lojas de tradição francesa fazem seus juramentos sobre o livro Constitucional do país em que se encontra. COLUSSI, op. cit., p. 29.

34 Sobre os trabalhos sobre a sistematização da maçonaria, cf. JACOBS, Margareth C. The origins of Freemasonry: Facts and Fictios. University of Pennyslvania Press, 2005; FERRER BENIMELI, José Antonio. La masonería actual. Sandanyola (Barcelona): Editora AHR, 1977; STEVENSON, David. The origins of Freemasonry: Scotland’s century (1590-1710). Cambridge: Cambridge University Press, 1998.

35 Sobre a expansão da maçonaria cf. JACOB, Margaret C., Living the Enlightenment: Freemasonry and Politics in Eighteenth Century Europe, Oxford University Press, New York, 1991; BEAUREPAIRE, Pierre-Yves, La République Universelle des Francs-maçons. De Newton à Metternich, Rennes, Ouest- France, De Mémoire d´Homme, 1999; MARQUES, A. H. de Oliveira. História da Maçonaria em Portugal. Lisboa: Presença, 1990-1997. 3 vols.; FERRER BENIMELI, J. A. (coord.), La Masoneria en la España del Siglo XIX, 2t., Junta de Castilla y Leon – Consejeria de Educación y Cultura, Leon, 1987.

36 Sobre a participação maçônica na Revolução Francesa cf. LOISELLE, Kenneth. Brotherly Love: Freemasonry and Male Friendship in Enlightenment France. Ithaca: Cornell Uneversity Press, 2014; HACKETT, David G. That religion in which all men agree: Freemasonryin american culture. Los Angeles: University of California Press, 2014.

37 Sobre as particularidades de rito para os Estados Unidos cf. JACOBS, Margareth C. The Origins of Freemasonry: Facts and Fictions. Pennsylvania: University of Pennsylvania P, 2005; LESTER, Ralph P. Look to the East! A Ritual of the First Three Degrees of Free masonry. Whitefish, MT: Kessinger Publishing, 2004.

38 O Prince Hall nasceu em 1783 como uma loja africana em Boston, ligada a Grande Loja de Massachusetts e se torna uma potência própria em1815. Sobre o Prince Hall cf. ABRON, James PM (PHA). “History of Prince Hall Masonry” The Most Worshipful Prince Hall Grand Lodge State of New York. http://www.jabron.net/yhist.htm; BROOKS, Joanna. “Prince Hall, Freemasonry, Genealogy” African American Review 34.2 (2000): 197–216; WALKER, Corey D. B. A Noble Fight: African American Freemasonry and the Struggle for Democracy in America. Chicago: University of Illinois P, 2008; WALLACE, Maurice O. “Are We Men? Prince Hall, Martin Delaney and the Masculine Ideal in Black Freemasonry 1775–1865” American Literary History 9.3 (1997): 396–424.

39 BULLOCK, Steven C. Revolutionary Brotherhood: Freemasonary and the transformation of the America Social Orde,1730-1840. Chapel Hill, University of North Carolina Press, 1996.

40 Sobre a participação da maçonaria para além da independência nos Estados Unidos cf. DUMENIL, Lynn. Freemasonry and American Culture, 1880–1930, Princeton, NJ: Princeton University Press, 1984; LIPSON, Dorothy A. Freemasonry in Federalist Connecticut. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1977.

41 Sobre a Guerra Civil e a maçonaria nos Estados Unidos cf. CARNES, Mark C. Secret Ritual and Manhood in Victorian America. New Haven, CT: Yale University Press, 1989; HALLERAN, Michael A. The Better Angels of Our Nature: Freemasonry in the American Civil War. Tuscaloosa: The University Of Alabama Press, 2010.

42 Sobre a loja pernambucana de filiação à potência americana cf. MELLO, Evaldo Cabral de. A outra Independência. O federalismo pernambucano de 1817 a 1824. São Paulo: Editora 34, 2004.

43 ARROYO, Jossianna. Writing Secrecy in Caribbean Freemasonry. Nova York: Palgrave Macmillan, 2013.

44 Sobre a produção caribenha cf. AYALA, José A. La masonería de obediencia española en Puerto Rico en el siglo XIX. Murcia: Universidad de Murcia, 1991; ESTRADE, Paul. “Betances, mas nón inconforme” La masonería española en la época de Sagasta Vol. 1. Universidad de Alicante: 2007. 559–570.

45 Sobre a América Espanhola cf. BASTIAN, Jean P. Protestantes, liberales y francmasones. Sociedades de ideas y modernidad en América Latina, s. XIX. México: Fondo de Cultura Económica, 1993; FERRER BENIMELLI, José A. La masonería española. Entre Europa y América. Tomos I-II. VI Symposium Internacional de Historia de la masonería española. Zaragoza. (1–3 de julio, 1993) Aragón: Dpto. de Educación y Cultura, 1995.

46 Sobre os principais trabalhos dos memorialistas maçons no Brasil cf. MELO, Mário, A maçonaria no Brasil. In: Livro maçônico do centenário. Rio de Janeiro: Grande Oriente do Brasil, 1922; BUCHAUL, Ricardo B., Gênese da Maçonaria no Brasil, São José dos Campos, Clube dos Autores, 2011; CASTELLANI, José e CARVALHO, William Almeida. História do Grande Oriente do Brasil. A maçonaria na História do Brasil. Brasília: Grande Oriente do Brasil, 1993.

47 AZEVEDO, op. cit.

48 BARATA, op. cit.

49 BARATA, op. cit.

50 COLUSSI, op. cit.

51 Sobre os trabalhos acerca da maçonaria brasileira cf. BARRETO, Célia de Barros. “Ação das sociedades secretas”, in: HOLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo, Ed. Difel, 1985, t. II, vol.I.; CARNEIRO. Luaê Carregari. Uma América em São Paulo: a maçonaria e o partido republicano paulista (1868-1889). São Paulo, Dissertação de mestrado, FFLCH-USP, 2011; COSTA, Frederico Guilherme. A Maçonaria e a Emancipação do Escravo. Ed. Trolha, Londrina, 1999; GONÇALVES, Ricardo Mário, A influência da Maçonaria nas Independências LatinoAmericanas, in COGGIOLA, Osvaldo (org), A Revolução Francesa e seu Impacto na América Latina, ed. Nova Stella-ed. USP, São Paulo, 1990; MOREL, op. cit.; NEVES, Berenice Abreu de Castro, Intrépidos Romeiros do Progresso: Maçons Cearenses no Império. Fortaleza, Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Ceará, 1998; SOUZA, Patrícia Inês Garcia, Buscadores do Sagrado: As Transformações da Maçonaria em Belém do Pará. Campinas, Tese de Doutorado, UNICAMP, 2006. TELLES, Marcus Vinicius, A Influência da Maçonaria na Independência do Prata (as Relações da Maçonaria Platina com a Brasileira). Rio de Janeiro, Dissertação de Mestrado, Universidade Federal Fluminense, 1977.

52 COLUSSI, op. cit., p. 35.

53 Ibidem, ibidem, p. 28.

54 MARQUES, op. cit., p. 154.

55 Sobre Hipólito da Costa e a maçonaria ver SANTOS, Bruna Melo dos. Correio Brasiliense: um olhar sobre a sociabilidade maçônica (1808-1822). Rio de Janeiro, Dissertação de Mestrado. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2012.

56 BARATA, op. cit., Cap. II.

57 Embora o autor do Annaes Maçônicos indique o reconhecimento do Grande Oriente por uma potência dos Estados Unidos, não há identificação sobre qual potência teria emitido tal reconhecimento.

58 Esta loja aparentemente também manteve a integração do corpo maçônico brasileiro após o fechamento do Grande Oriente e posterior proibição da fraternidade em 1823. MELLO, op. cit., p. 89.

59 Durante a elaboração desta dissertação de mestrado, foi encontrado apenas o Livro de Atas da loja Vigilância da Pátria com as sessões entre 24 de junho de 1825 e 30 de outubro de 1828. Não há ainda informações sobre se o livro de atas das sessões posteriores sobreviveu ao tempo, ou se chegou a ser preservado.

A Maçonaria é um caminho Espiritual? (Parte I)

“O que é uma alma? O que é o Espírito? O que é Energia?” Começamos a nos envolver em conversas sobre termos metafísicos como alma, energia e espírito sem estar cientes de que não estamos falando a mesma língua. As palavras podem ser as mesmas, mas os significados mudam, devido ao sistema de crenças de quem lê. Podemos debater essas questões a noite toda, durante todo o mês e pelo resto de nossas vidas e nunca chegar a um entendimento. As pessoas realmente sabem o que querem dizer quando falam sobre energia, alma ou espírito? Embora estas sejam discussões comuns entre os maçons iniciados e espiritualistas, elas às vezes são os assuntos mais difíceis sobre os quais permanecemos imparciais e justos.

Os seres humanos parecem ter investido muito na ideia de suas almas, e nas almas de outras pessoas também.

Muitas pessoas se juntam a grupos maçônicos para que possam “ter uma experiência energética” ou “tocar algo místico”. Alguns falam sobre experimentar algo que toca sua alma ou fornece um significado espiritual para suas vidas. Alguns maçons mencionam como eles “amaram a energia da Loja” ou como é nosso trabalho “elevar a vibração do nosso mundo material”. Muitas pessoas começam sua carreira maçônica procurando algo místico, algo secreto. Como a Maçonaria lida com as questões da vida e da morte, o neófito pode estar procurando a Maçonaria para desvendar todos esses segredos especiais e ter as respostas. Eles usam termos como alma, espírito e energia sem defini-los para si mesmos e em suas comunicações com os outros.

Parece que, muitas vezes, as conversas são sobre o que as pessoas querem acreditar, em vez de conclusões fundamentadas. Discussão e debate são a maneira como nós educamos e crescemos. A transformação requer pensamento.

Para aqueles que deixam de lado desejos e vontades preconcebidos, a Maçonaria é transformadora de muitas maneiras. Ele discute essas questões de vida e morte. Deixa o aspirante refletir sobre símbolos e significado e, sim, talvez chegar a insights pessoais sobre alma, espírito e energia. A Maçonaria nos oferece a oportunidade de nos convertermos de uma natureza limitada humana polarizada, para uma natureza espiritual ilimitada e equilibrada. Precisamos aprender a lidar com todos os aspectos do nosso temperamento, a fim de entender    todas   as características desta vida, material, emocional, mental e espiritual. É este último reino espiritual, que tropeça muitos.

A maioria dos maçons aceita a presença de um poder maior, algo indefinido que nos conecta a um único propósito. A maioria concordaria com a ideia da natureza multifacetada da existência humana, lutando com o equilíbrio do cérebro, mente, corpo e essa ideia de “conexão”. Muitos experimentaram coisas que não conseguem explicar, os empurrões da intuição e os repentinos lampejos de insight que parecem “profundos”. Todas essas são experiências válidas. É levá-los da experiência para uma comunicação significativa que os seres humanos lutam. Jogamos fora uma palavra como “alma” ou “espírito” ou “energia” e assumimos que as pessoas com quem nos comunicamos entendem o que elas significam. Os maçons são filósofos, e qualquer bom filósofo não suportará uma discussão com termos aleatórios e indefinidos. Quando perguntado sobre almas, há alusões vagas a algo energético, místico, único e conectado a alguma forma de deus / deusa / força / Tao. Uma alma é o que nos torna indivíduos. Uma alma é algo que faz parte da Divindade. A alma é o nosso eu energético. “Quando nossos olhos se encontraram, nossas almas se tocaram.”

O que isso realmente significa? Para cada indivíduo que fala sobre esses assuntos, há uma resposta diferente, conversar com as pessoas sobre almas e espíritos e tal pode ser bastante polêmico. Algumas pessoas ficam totalmente perdidas com estes termos abstratos e metafísicos.

Podemos definir algum deles? Talvez. E talvez possamos começar com a energia.

A menos que você descarte de todo o coração a ciência, não pode haver dúvida por um segundo de que somos seres energéticos. Os neurônios usam impulsos elétricos e neurotransmissores (componentes químicos) para permitir que nossos corpos funcionem em sua totalidade: pensar, sentir, curar, sentir, respirar, tudo. Sem energia, nossos corações não bombeariam, deixaremos de ser capazes de pensar e processar informações, e morreríamos. As mitocôndrias, em uma estranha relação simbiótica conosco, nos permitem viver, ajudando-nos a processar o mundo material ao nosso redor em energia. Cada célula tem mitocôndrias e cada célula é capaz de produzir energia de algum tipo. Vida é energia.

Ok, nós estabelecemos que somos seres energéticos, e pela natureza do mundo material, os seres energéticos estão em toda parte. Nós nos comunicamos com nossos sentidos e recebemos comunicação com nossos sentidos. Abraham Hicks disse: “Falamos com palavras, mas nos comunicamos com energia”. Cyndi Dale, autora de “Enciclopédia de Anatomia do Corpo Sutil”, afirma que “energia é informação que vibra”. Esta última definição é um pouco mais confiável, ao que parece, do que a primeira. Podemos testá-la. Podemos testá-la novamente. Podemos brincar com ela e trabalhar para definir exemplos. No entanto, é também aqui que fica complicado, certo? Vamos pegar um pequeno parágrafo da Wikipédia:

“Em física, a energia é a propriedade que deve ser transferida para um objeto, a fim de realizar o trabalho ou aquecer o objeto. Ela pode ser convertida na forma, mas não criada ou destruída.”

Então, vamos a uma pergunta simples: de onde veio a energia que nos compõe? Em uma conversa recente, eu coloquei essa questão a um colega maçom. Ele respondeu: “das estrelas”. Eu disse ok, me leve de B para A. Ele disse: “As estrelas criaram os elementos que aprisionaram a energia que nos permeia”. Respondi que concordava, mas então, o que compõe as estrelas? Ele disse que deve ser “o Big Bang”. Os seres humanos são a energia presa do material criado durante o Big Bang. Para ele, todos nós derivamos do único momento que criou o tempo, a matéria e a energia. Físico ou filosófico, o tema da energia é para onde convergem. Podemos concluir disso que os elementos que compõem o mundo material são energia aprisionada. Este espírito de “energia” aprisionado? Essa é a nossa alma?

Se estamos presos à energia das estrelas, como é tudo ao nosso redor, então temos muito mais em comum com outras matérias do que pensamos que temos. Se todos nós somos feitos da mesma matéria, devemos ser capazes de reconhecer uns aos outros por meio da transferência de energia. Ou, assim se poderia pensar. O que é interessante notar é que muitos psicólogos e filósofos consideravam o amor como uma transferência de energia. Freud se debruçou sobre os aspectos físicos do amor, enquanto Platão fala sobre o amor espiritual ou altruísta, mas um no mesmo, o que chamamos de amor é, para eles, uma transferência de energia. Quando amamos algo, colocamos energia nele, e ele em nós. Talvez esta seja a ideia de espírito. Espírito, disse Platão, dessa forma nos comunicamos emocionalmente com outros seres humanos. Também podemos dizer que o amor é energia.

Então, se o amor, a vida e os elementos são todos energia, podemos tirar alguma conclusão sobre a alma?

Muitos filósofos tentaram explicar a “alma”. Apenas um exemplo, Plotino, o primeiro neoplatônico, fez o seu melhor para nos ajudar a entender que a alma não precisa necessariamente de um corpo, no entanto, sem um corpo, ele não pode existir nos “reinos inteligíveis e se expressar nos reinos visíveis”. Este conceito nos diz como ele pensava que a alma se expressava, mas não o que ela é. Em um sentido muito básico, os neoplatônicos chamavam a alma de “consciência” ou “psique”. Ainda assim, não está claro, mesmo em termos modernos, o que é a consciência. Se pensávamos que definir “alma” na religião é difícil, tente a inclinação filosófica …Verdadeiramente angustiado.

Parece que Plotino e Platão já estão de acordo que existe uma alma, mesmo que não possam concordar com sua definição. Talvez seja algo que todos nós temos que debater até que possamos aprender com certeza. Talvez nunca aprendamos com certeza, pelo menos não nesta dimensão.

Uma conclusão sólida é que o significado de uma alma não parece ser o significado de uma alma para todos, e o espírito também não é algo com o qual possamos concordar. Senão a incalculável quantidade de religiões do mundo concordaria nisso. A frase “nossas almas falam umas com as outras” não significa muito se você não puder realmente explicar a outra pessoa o que isso significa. “Nós nos comunicamos ‘energeticamente’ é realmente inútil, a menos que você possa realmente entender claramente o que você pretende. Nem importa se você pode explicar isso para outra pessoa, será que nos entendemos mesmo? Um maçom sábio disse uma vez que se você pode explicar algo para uma criança de cinco anos, e a criança de cinco anos entende, então você realmente entende o conceito disso. Termos simples, claramente definidos. Definitivamente, precisamos de mais crianças de cinco anos ao nosso redor para nos manter honestos e claros.

Maçom, cientista, filósofo ou físico: independentemente do que você acredita sobre alma, espírito, energia ou qualquer outra coisa metafísica, as definições são importantes e a compreensão pessoal ainda mais. A exploração do significado da vida é, quer concordemos em termos ou não, algo que todos compartilhamos.

Continua…

Autor: Geovanne Pereira

*Geovanne é professor de Filosofia, Psicanalista, Psiconauta, Yogue, Facilitador de estados holotrópicos de consciência no Instituto de Desenvolvimento Humano Céu na Terra e Mestre Maçom da ARLS Jacques DeMolay, n°22 – GLMMG. @ceunaterra.autoconhecimento

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JB News – todas as edições

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O JB News foi durante muitos anos produzido e editado por nosso saudoso irmão Jerônimo Borges, que muito contribuiu para a disseminação da cultura em nosso meio.

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A sociedade da desinformação

Desinformação enquanto um fenômeno social criou uma nova desordem global, onde as novas condições de produção, circulação e consumo de informação fizeram das notícias falsas um importante instrumento geoestratégico que, associado às técnicas híbridas, coloca as ações das mídias comunicacionais em sintonia na geração de notícias falsas. Analisamos a maneira como os meios de comunicação disseminam informações tomando como base cinco filtros indicados por Chomsky e Herman (2003): Filtro 1: Importância, propriedade e orientação dos benefícios dos meios de comunicação; Filtro 2: A publicidade como principal fonte de renda; Filtro 3: O fornecimento de notícias para a mídia; Filtro 4: As medidas corretivas como método para disciplinar a mídia; Filtro 5: Anticomunismo como mecanismo de controle. A análise realizada demonstra que, além de notícias falsas, as notícias reais são manipuladas e orientadas para polarizar ideologicamente, requerendo uma adaptação da sociedade na construção de marcos regulatórios, ao passo que as empresas (desenvolvedoras das redes sociais, por exemplo) e seus logaritmos não conseguem contrariar as redes globais da desinformação que atravessam países, continentes e línguas.

1 – Introdução

Passamos a vida acumulando conhecimento e experiências para construir uma identidade pessoal e uma visão de mundo individual, através da qual observamos e entendemos novas informações e conhecimentos. A construção dessas lentes é contínua e subconsciente para a maioria de nós na maioria das vezes. Frequentemente, quando recebemos novas informações cognitivas que “parecem certas” para as lentes que construímos, continuamos sem fazer muitos ajustes. Podemos chegar a um momento em que algo nos abala o suficiente para exigir que mudemos o foco completamente ou encontremos um novo par de lentes. Não importa como eventos ou mensagens individuais possam moldar nossa compreensão interna e percepção externa, é provável que nos beneficiemos mais ao ver o máximo da imagem a partir do maior número possível de pontos. Ou seja, nossa compreensão e precisão da visão são mais garantidas ao entender o contexto e ver o suficiente para fazer nossas próprias escolhas de onde e como “escolher” a informação que faça sentido a nossa realidade.

Desse modo, se o papel da visão de mundo na construção de uma sociedade viável depende das informações que recebemos, cabe questionarmos:

o que acontece quando as informações que estamos recebendo são falsas e manipuladas; além disso, não se encontram prontamente visíveis?

Desinformação, mentiras, trotes, propaganda enganosa e “notícias falsas” foram atualizadas sob o nome de “fake news”. Portanto, não se trata de um fenômeno novo. Embora o uso do termo notícias falsas seja relativamente recente – popularizado durante e pela campanha nos EUA entre Hillary Clinton e Donald Trump – o fenômeno da desinformação é muito mais antigo do que a história recente sugere.

Já no século VI a.C., o general e estrategista chinês Sun Tzu explicou no célebre livro Arte da Guerra a importância do engano na condução de um conflito. Ele insistiu, em particular, na necessidade de encontrar um compromisso entre verdade e falsidade, a fim de tornar as notícias falsas tão credíveis e eficazes quanto possível. Para isso, era necessário calibrar adequadamente seu objetivo e, em particular, as pessoas alvo, jogando uma combinação entre dados reais e o propósito do interlocutor (CLAVELL, 2003).

Esse método também foi utilizado no século I para justificar as perseguições romanas contra os cristãos. O casamento entre “irmãos e irmãs” significava comer “o corpo de Cristo”. Os que praticavam tal delito eram acusados de incesto e canibalismo. As autoridades romanas manipulavam as emoções das multidões para despertar um sentimento de indignação e rejeição que legitima a condenação política, ela mesma baseada na reprovação moral.

Desde a década de 1880 e durante os sessenta anos em que o antissemitismo contemporâneo esteve incansavelmente ancorado na Europa, as notícias falsas dirigidas aos judeus aumentaram e cresceram, desde o Protocolo dos Sábios de Sião, um plano falso para conquistar o mundo pelos judeus e pelos maçons, até os debates sobre a entrada no território canadense de dezenas de milhares de refugiados judeus europeus em 1943-44 (SORJ, 2007).

Na Idade Média e nos tempos modernos, os mesmos mecanismos estão em funcionamento nas sociedades em que o boato circula rapidamente e onde os poderes não hesitam em instrumentalizar os ruídos múltiplos e infundados em um espaço público em que eles moldam. Nos últimos anos, essa luta contra a desinformação – ou “fake news” – se tornou um dos fundamentos do debate político contemporâneo. Serve de apoio aos políticos que desejam defender sua ação pública ou a serem isentos de qualquer comportamento prejudicial à sua carreira, ou mesmo aos Estados que procuram desestabilizar um adversário (BRAND ÃO, 2013).

O fenômeno da informação falsa passou a ser multiplicado por um novo modelo que se baseia em uma tríade: criar um boato, fortalecê-lo por meio da mentira e disseminar em fontes de informação de acesso público. Esses recursos permitem e diversificam a disseminação de informações falsas. Os mecanismos utilizados nessa tríade visam essencialmente capturar a atenção dos usuários da Internet que gerem impacto e convençam o usuário a compartilhar e ampliar sua aceitação. O objetivo é simples: manipular a realidade dos fatos. Esse mecanismo envolve, por exemplo, desacreditar uma figura pública, desestabilizá-la ou minar sua reputação. Uma vez que o boato é compartilhado pelo maior número de pessoas, ela se torna crível. O mesmo “esquema” funciona para alterar a realidade sobre qualquer conceito ou realidade diferente da crença do disseminador de uma notícia falsa. Nos tempos contemporâneos, a mudança qualitativa e quantitativa na disseminação de informações é uma virada na maneira como recebemos conteúdos de toda natureza, ampliando o alcance e o poder da informação, centralizado em grandes centros da mídia.

Este artigo analisa uma teoria sobre a manipulação criada pelas empresas de mídia de massa, responsáveis por grande parte de “conteúdo” atual de informações e entretenimento. Descreveremos esse processo de enquadramento, à luz das tendências atuais dos meios de comunicação, incluindo teorias adicionais sobre as influências e forças motrizes por trás da produção/distribuição de informações para o grande público. Finalmente, discutiremos algumas maneiras e sugestões para preservar o equilíbrio, aumentando a conscientização sobre o “enquadramento” e visões alternativas (aquelas fora dos principais meios de comunicação de massa/multimídia que temos acesso).

2 – Como a informação é selecionada?

Todos os dias, centenas de notícias chegam às redações dos grandes jornais e conglomerados de mídia. Como os redatores decidem o que vão nos informar sobre cada região do mundo? Por que as notícias contraditórias às vezes aparecem e, em outras, todas se repetem de forma sincronizada?

A seleção e construção das notícias, do ponto de vista discursivo-argumentativo, nos sinaliza a inexistência de que não há neutralidade ou imparcialidade informativa. A própria defesa deste tipo de argumento do ponto de vista editorial, trata-se, acima de tudo, de uma posição ideológica em relação aos discursos que os jornais constroem.

Quando um jornal escolhe uma capa com a denúncia de um ato de corrupção ou a metodologia educacional do Ministério da Educação, por mais aparentemente que sua apresentação seja objetiva, ele está assumindo uma certa posição, atrelada às posições ideológicas defendidas pelo jornal. Portanto, nossa primeira missão deve ser descobrir o mecanismo de seleção de notícias.

Uma análise a esse respeito vem do linguista americano Noam Chomsky e do economista e analista de mídia Edward S. Herman, no livro A Manipulação do Público (2003). Em suas análises, nos apresentam o que chamam “Filtros”, isto é, os vereditos pelos quais dinheiro e poder filtram as notícias até que estejam prontas para publicação, marginalizam discrepâncias e permitem que o governo e interesses privados dominantes encontrem uma mensagem adequada ao público. São estruturas de poder e ideologia que muitas vezes são ignoradas pelos profissionais da informação. Isso ocorre porque o modelo atual é absolutamente internalizado. Vejamos um exemplo: Em abril de 2008, a compra de DVD, televisão ou celular foi autorizada em Cuba [1]. Todos os jornalistas e também os cidadãos interpretaram como um avanço das liberdades dos cubanos; noticiaram sobre liberdade não no sentido econômico, mas no sentido político. Esqueceram que esse critério de liberdade ignora um detalhe: a disponibilidade de dinheiro para acessar os produtos que carregam as notícias. Em nosso modelo, chamamos tudo o que podemos fazer de liberdade, se tivermos dinheiro para isso; portanto, não se trata de liberdade. Os cubanos que não tinham dinheiro não puderam comprar esses produtos.

Com este exemplo não pretendemos colocar em pauta a medida do governo cubano, queremos apenas destacar o viés ideológico imperceptível que a mídia e os cidadãos aplicam na interpretação da realidade. Quando se diz que um sinal da repressão cubana é que os pescadores de lagosta são proibidos de ficar com eles, consumi-los ou comercializá-los, esquecemos que nem os garçons dos restaurantes de frutos do mar em Porto Alegre têm dinheiro para ir a esse restaurante para jantar com seus amigos. Nem mesmo o pedreiro que constrói moradias de luxo na praia pode passar um único dia de verão em uma delas, ou seja, existe no fundamento das construções discursivas, sua historicidade, ideologia, lutas de classes sociais, atuação do poder econômico, político e social.

Mas voltemos aos filtros, aos mecanismos pelos quais é determinado o que é notícia e o que não é, no que devemos estar interessados, no que falaremos na cafeteria quando tomarmos café da manhã com nossos colegas de trabalho, o que os especialistas chamam de agenda setting [2]. Não é tanto que eles definem nossa ideologia, ao ponto de selecionar quais são os tópicos que devem nos interessar, que é mais do que impor uma ideologia, porque significa substituir a realidade, ainda mais em um mundo em que as relações sociais diminuíram muito em detrimento do nosso papel como consumidores de mídia.

Segundo o modelo de Chomsky e Herman, a mídia opera através de 5 filtros. São eles:

Filtro 1: Importância, propriedade e orientação dos benefícios dos meios de comunicação

No século XIX, a imprensa operária no Reino Unido tinha um papel fundamental junto aos trabalhadores, nos seus problemas culturais e no potencial para favorecer a organização e a conscientização (MACIEL, 2016). Por mais que isso incomodasse o governo, não podiam tentar sufocá-lo porque arriscavam revoltas populares. Foi no final do século XIX e dos princípios do século XX que chegou a industrialização da imprensa, de modo que os investimentos necessários para iniciar um jornal passaram de 1.000 libras em 1837 para 50.000 em 1867. The Sunday Press, que apareceu em 1918, precisava de dois milhões de libras. Para que o desenvolvimento industrial alcançasse o que nenhum governo havia conseguido: extinguir todos os projetos informativos que não tinham um grande investimento (LAIGNER, FORTES, 2009). Os mais humildes perderam o direito de coadministrar um meio de comunicação em consequência das grandes fortunas que passaram a dominar o mercado editorial. Este é um fenômeno ocasionado pela globalização. Basta observar o panorama atual para perceber que, por trás da mídia, existem poderosos grupos empresariais que disseminam informações internacionais por meio da mídia local, que se limita a replicar o conteúdo de grandes agências. Atualmente, 80% das notícias que circulam pelo mundo vêm de quatro agências internacionais de informação: Associated Press, United Press International, Reuters e Agence France Press. Essas agências são as que definem a agenda e fornecem a maioria das notícias internacionais (COSTA, 2018). No caso brasileiro os jornais de grande circulação são controlados por cinco famílias, que buscam atender a interesses próprios e dos grupos políticos que representam. Gostaríamos de recordar um episódio relatado por Fernando Morais (1996) em sua biografia do jornalista Assis Chateaubriand: Rubem Braga contrariado pela censura promovida por Chateaubriand em uma crônica que seria publicada nos Diários Associados, protestou ao dono do jornal, esse teria respondido da seguinte forma “Se você quiser ter liberdade plena, Rubem, compre um jornal para escrever tudo que desejar”. Acreditamos que essa anedota retrate a realidade dos conglomerados de mídia, ou seja, opinião no jornal só existe no espectro da atuação do próprio conglomerado.

Até recentemente, a principal ameaça à pluralidade informativa era a concentração da mídia em algumas empresas de comunicação. Essas empresas conseguiram tornar seu trabalho mais rentável oferecendo o mesmo produto informativo para alimentar o jornal, o rádio e a televisão de um mesmo grupo de mídia. Como os proprietários de mídia deixaram de ser grupos puros de comunicação, agora são simplesmente grupos econômicos colossais que não precisam ter a comunicação como atividade principal. A acusação progressiva de que eles transformaram informações em negócios também foi abandonada. Eliminada nos países desenvolvidos grande parte dos mecanismos de dominação pela violência, agora o valor da conformação da opinião pública é tão alto que vale a pena dedicar dinheiro a fundos perdidos. Portanto, muitos meios de comunicação tornaram-se meros departamentos de imagem dos setores de negócios. Assim, temos em nossa imprensa, acionistas de rádio e televisão que são bancos, companhias financeiras, seguradoras, empresas de telecomunicações ou mesmo armas. Banqueiros e executivos de negócios que não têm relação com informações fazem parte dos conselhos de administração dessas empresas de comunicação.

A engenharia financeira é tal que nem conseguimos saber se eles têm lucros. Se desejam melhorar a demonstração de resultados do jornal, basta injetar publicidade do acionista (Vale, Petrobrás, etc.).

Filtro 2: A publicidade como principal fonte de renda

Obviamente, no caso da imprensa britânica no século XIX o preço de venda do jornal deveria cobrir todos os custos de produção. Dessa maneira, a renda dependia apenas do número de cidadãos que a compravam. O acréscimo da publicidade passou a servir como renda extra para a mídia que atendia as preferências do público. Os jornais que a obtiveram poderiam até reduzir seu preço de venda. Por outro lado, aqueles que não atraíam anúncios tiveram preços mais caros, reduziram suas vendas, sofreram perdas ou menos benefícios para reinvestir e melhorar suas possibilidades de vendas (cor, formato atraente etc.). Como diz Chomsky e Herman (2003), com publicidade, o mercado livre não oferece um sistema neutro no qual o comprador finalmente decide. As escolhas dos anunciantes são aquelas que influenciam a prosperidade e a sobrevivência da mídia. Basta verificar como os pedidos de boicote não são direcionados ao público, mas aos anunciantes. Atualmente, o que pagamos por um jornal é equivalente a 50% de seu custo e os anunciantes pagam o restante. O jornal que não tem a aprovação dos anunciantes deve custar o dobro, mesmo supondo que o mesmo número de pessoas o compre; se o comprarem menos o que seria lógico se custar o dobro o preço por exemplar aumenta muito mais. Esta tese sobre o fator de distorção da publicidade é neutralizada quando se tenta argumentar que os anunciantes não condicionam o conteúdo e que, se a mídia tiver um grande público, os anunciantes ficarão sem considerar que tipo de informação é oferecida. Vejamos a falácia dessa teoria: para iniciantes, nem todos os cidadãos são iguais para a publicidade: aquele com maior poder de consumo é mais valioso do que aquele sem ele. Um jornal lido por mil executivos não é o mesmo que por mil desabrigados. Enquanto um jornal de finanças apresenta um anúncio promocional para atrair anunciantes, lembrando que é o mais lido por executivos e empresários; não é esperado que um jornal sindicalista consiga captar muitos anunciantes, embora seja o mais lido pelos metalúrgicos que cobram melhores condições de trabalho e salário. É por isso que a Petrobrás é anunciada na imprensa e as Casas Bahia distribui folhetos nas caixas de correio. Para a revista mensal da associação de advogados não faltará anunciantes, mas a revista voltada para refugiados venezuelanos custará muito mais para obter publicidade e certamente as taxas serão mais baixas. O atual sistema de publicidade, em termos de democracia eleitoral, seria como viver com um sistema de votação ponderada.

A publicidade também desencadeia uma diminuição no nível cultural do conteúdo e faz com que o público seja recrutado, até apelando para os elementos mais miseráveis da natureza humana. Se olharmos atentamente, verificaremos se o que a mídia vende não é um bom conteúdo informativo, mas sim o público: eles nos vendem para agências de publicidade. Uma rede de televisão oferece anúncios de 30 segundos mais caros que o outro, porque o primeiro coloca como principal valor o fato de ter três milhões de telespectadores assistindo e o segundo anúncio uma audiência muito inferior. Acreditamos que a mídia nos oferece conteúdo, mas em realidade o que está oferecendo são espectadores para as empresas de publicidade. É por isso que uma revista semanal oferece produtos cosméticos com valor maior do que a revista, pois, dessa forma, atinge números de alta circulação para oferecer aos anunciantes. Coloque aqui a sua publicidade: tenho meio milhão de leitores para divulgar um folheto na revista.

Mas a afirmação de que os anunciantes não têm ideologia é falsa. Em 2019 a operadora de cartões Mastercard decidiu suspender suas campanhas publicitárias que circulariam durante a Copa América com Neymar devido à acusação de estupro contra o jogador. Em certas ocasiões, o orçamento do anunciante serve não apenas para anunciar, mas também para garantir que eles não apareçam notícias negativas da sua empresa. É fácil entender: os anúncios não podem coexistir com a imagem de mal comportamentos, ao menos em tese, de modo que o patrocinador não seja visto como apoiador de mal comportamentos.

No Brasil, as televisões a cabo funcionam vendendo espaços de programação e cada produtor deve encontrar seus patrocinadores para financiar seu programa. Por isso, não encontramos empresa patrocinadora de um programa que denuncie as violações de multinacionais na África, a corrupção em Brasília ou que defenda a diminuição do consumo na busca de um modelo de desenvolvimento sustentável. Se existe um suplemento sobre carros na imprensa escrita, é porque houve uma publicidade potencial das empresas automobilísticas. Partindo da mesma lógica sobre a demanda de mercado, a seção de Obituários foi criada quando se viu que havia um mercado para a publicação de anúncios pagos.

Filtro 3: O fornecimento de notícias para a mídia

O mercado exige redução de custos, a mídia deve aproveitar ao máximo seus recursos, não pode ter jornalistas e câmeras em todos os lugares. A economia os obriga a se concentrar naqueles onde são produzidas notícias importantes, nas quais são realizadas coletivas de imprensa e existem pessoas influentes cujas decisões têm grande relevância.

Segundo dados do IBGE (2018), o percentual de domicílios que utilizavam a Internet subiu de 69,3% para 74,9%, de 2016 para 2017 e em 96,7% dos 70,4 milhões de domicílios do país havia aparelho de televisão, dos quais 79,8% tinham conversor para receber o sinal digital de televisão aberta. Portanto, fica para trás a máxima que é notícia aquilo que alguém não quer que seja conhecido, para ser apenas o que alguém quer que seja conhecido. No jornalismo, sabemos que não é oferecida a mesma garantia, nem se pode tratar da mesma maneira as fontes que estão “ansiosas” em contar à imprensa algo como aqueles que desejam ocultá-lo podem ser tratadas da mesma maneira. Nem a fonte que faz parte ou tem uma posição afetada pelas notícias de que quem não é parte interessada no relatório pode ter a mesma consideração. Dentre os noticiários televisivos das principais redes brasileiras, a maioria são preparados com o conteúdo fornecido por um informante cujos interesses estão diretamente relacionados ao que a notícia diz. E o modelo já está tão consolidado que até os políticos divulgam comentários para os jornalistas cumprirem as “regras do jogo”, isto é, apenas espalham o que os políticos pedem para espalhar. Por outro lado, de acordo com Souza (2018), a maioria das fontes são resultado de atos declarativos que consiste em fornecer uma versão que confirme um fato ou acontecimento. A televisão comenta de maneira empírica, não sobre o que acontece. Não há fatos. O barulho reina. Esse é o menu principal. Todos os dias, nas horas anteriores à transmissão das notícias das redes brasileiras, milhares de jornalistas estão dispostos a não perder suas posições. É o domínio informativo das fontes organizadas sobre o que Tarso Genro (2017) chamou de “jornalismo geneticamente modificado”.

Para a mídia, é muito caro ter um jornalista por semanas investigando um assunto em comparação com a facilidade de reescrever comunicados à imprensa, transcrever declarações públicas ou copiar notícias. A imprensa regional é o exemplo mais claro e qualquer jornalista local sabe qual é a sua rotina de trabalho: o editor-chefe ou o chefe de seção analisa os comunicados à imprensa ou as conferências de imprensa, escolhe as fontes que melhor se ajustam para sua linha editorial e envia os editores para fazer o tour com o gravador. Então retornam à redação e se dedicam a transcrever as notícias de cada uma das fontes. Para informações nacionais e internacionais, as notícias são analisadas, escolhidas e reproduzidas de acordo com o perfil do público antes de ser em publicadas. Da mesma forma, a vida política e social se encaixa perfeitamente com o seguinte modelo: os médicos emitem comunicados de imprensa, com relatórios médicos sobre o status das celebridades quando estão doentes, os políticos transferem suas posições para as salas de imprensa mais do que nas instituições e oferecem mais explicações e detalhes à mídia do que aos juízes. Assim, os jornais se tornam quadros de avisos, mas com conteúdo filtrado pelos gerentes.

Mas também existem diferentes tipos de ” notícias” quando se trata de vender. Para um veículo de notícias, sempre será mais credível e confortável reproduzir um lindo dossiê de impressão colorida com gráficos de barras e pizza de uma empresa importante (talvez anunciante ou acionista) que possa s er entregue ao público, que um comunicado de imprensa precariamente escrito por uma assembleia de trabalhadores onde eles denunciam o não pagamento de horas extras. Os vizinhos de um bairro que serão despejados de suas casas não terão uma boa agenda de mídia e emails para enviar uma nota indecorosa convocando-os para uma conferência de imprensa em uma sala acarpetada e iluminada onde instalar câmeras de televisão. Necessitarão enfrentar a polícia para que a mídia lembre deles.

Por outro lado, a mídia oficial sempre tem uma aura de veracidade e neutralidade que seduz os periódicos, o que para Pecheux e Fuchs (1975), vamos conhecer como a atuação da ideologia de forma que ocorra o apagamento de sua formulação (ideológica). Uma declaração de um guerrilheiro levanta mais questões sobre a autenticidade de seu conteúdo do que uma conferência de imprensa do Ministro da Defesa, porque existe em seu discurso uma autoria definida e institucionalizada. Embora, no final, não possamos deixar de verificar que as maiores inverdades sobre a realidade do desmatamento da Amazônia foram anunciadas pelo governo federal e acabariam por ser desmentidas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE, 2019). O capital financeiro e as influências ideológicas têm o potencial necessário para disseminar suas crenças e interesses comerciais, contratar jornalistas, preparar imagens de arquivo que fornecem às televisões e induzir jornalistas comprometidos em contar sua versão. Nossa polícia convida jornalistas para acompanhá-los em seu carro de patrulha, mas também são acusados de fazer apologia ao crime quando mostram a realidade da violência policial.

Filtro 4: As medidas corretivas como método para disciplinar a mídia

Lobbies, fundações e grupos de poder político ou empresarial tem capacidade organizacional, financeira e política suficiente para organizar campanhas de pressão contra a mídia ou jornalistas que deixam a linha dominante. É o que mostra a edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, publicado pela orga nização Repórteres sem Fronteiras (RSF, 2019). Ameaças, insultos e agressões fazem agora parte dos “riscos ocupacionais” da profissão em muito países, incluindo o Brasil, que caiu três posições no ranking e ocupa o 105º lugar, cada vez mais próximo da zona vermelha da classificação (que indica o nível de dificuldade para profissionais de imprensa).

Nos países onde há repressão contra a imprensa, existem fundações criadas com o único objetivo de se envolver em campanhas de pressão contra a mídia rebelde. Há empresas ligadas ao petróleo que atuam como um lobby contra informações sobre o aquecimento global, indústria fazendo lobby para aumentar os limites do glifosato, o veneno mais usado no Brasil, empresas de tabaco contra acusações de doenças ligadas ao consumo de cigarros ou produtos farmacêuticos que pressionam a mídia que divulga notícias sobre os efeitos colaterais dos medicamentos (BBC, 2019). ou ausência de valor terapêutico. Para a maioria da mídia, é mais lucrativo e menos problemático aceitar essas pressões do que enfrentar esses lobbies. O resultado é que as informações de organizações sociais humanas, grupos de trabalhadores precariamente organizados ou grupos de direitos humanos de baixo orçamento não atendem às demandas desses filtros e são excluídos dos meios de comunicação.

Filtro 5: Anticomunismo como mecanismo de controle

O filtro final é a ideologia do anticomunismo. O comunismo como o mal supremo sempre foi o espectro que assombra os proprietários, pois ameaça a própria raiz de sua posição de classe e status superior. Essa ideologia tem o potencial de mobilizar a sociedade contra um inimigo. Pode se valer de um conceito confuso para ser usado contra qualquer pessoa que defenda políticas que ameacem os interesses de propriedade ou apoiem a acomodação com os estados comunistas e o radicalismo. Portanto, ajuda a fragmentar os movimentos de esquerda e trabalhista e serve como um mecanismo de controle político. Se o triunfo do comunismo é o pior resultado imaginável, o apoio do fascismo no exterior é justificado como um mal menor. A oposição aos socialdemocratas que são muito brandos com os comunistas e “jogam em suas mãos” é racionalizada em termos semelhantes.

Os liberais em casa, frequentemente acusados de serem pró comunistas ou insuficientemente anticomunistas, são mantidos continuamente na defensiva em um ambiente cultural em que o anticomunismo é a religião dominante. Se eles permitem que o comunismo, ou algo que possa ser rotulado de comunismo, triunfe nas províncias enquanto estão no cargo, os custos políticos são pesados. A maioria deles internalizou completamente a religião de qualquer maneira, mas todos estão sob grande pressão para demonstrar suas credenciais anticomunistas. Isso faz com que eles se comportem muito como reacionários. Seu apoio ocasional aos socialdemocratas geralmente se deteriora, quando estes são insuficientemente duros com seus próprios radicais indígenas ou com grupos populares que estão se organizando entre setores geralmente marginalizados.

Deve-se notar que, quando é despertado o fervor anticomunista, a demanda por evidências sérias em apoio a reivindicações de abusos “comunistas” é suspensa, e os charlatães podem prosperar como fontes de evidência. Os desertores, informantes e vários outros oportunistas passam para o centro do palco como “especialistas”, e continuam lá mesmo após a exposição como mentirosos altamente não confiáveis, se não completamente.

3 – Discussão

Nos últimos anos, diante de vários conflitos impostos pela política e ideologias de toda natureza, além da concorrência por novas tecnologias, mercados, energia, recursos biológicos e praticamente toda a cadeia produtiva em massa, a ameaça da disseminação deliberada de informações falsas (desinformação) na Internet aumentou bastante. Sabe-se que, através da desinformação, pode-se enganar as pessoas e impor uma opinião pública inadequada. Também é possível, em certa medida, a manipulação da consciência e do comportamento de indivíduos e grupos de pessoas. Os invasores podem fortalecer ou enfraquecer a visão das pessoas sobre vários eventos, valores da vida, trabalho realizado, comportamento nas situações atuais, etc. O fato de a Internet ser um dos canais para a disseminação de informações falsas deve-se aos recursos da infraestrutura de informações, que incluem a simplicidade e o baixo custo de acesso, amplas possibilidades de manipulação de informações e sua percepção e um alto nível de anonimato referente ao compartilhamento de informações em rede.

É possível encontrar sites com informações objetivamente falsas com relativa facilidade. Notícias falsas sobre eventos supostamente ressonantes (ataques terroristas, morte de pessoas famosas, turbulência financeira) são disseminadas em grande número. Frequentemente são usadas técnicas de captação de atenção que distorcem as informações sobre os eventos que ocorreram.

Para proteger o público de informações falsas na Internet, é necessário um sistema eficaz para combatê-las. Em termos gerais, esse sistema é entendido como um conjunto de medidas interrelacionadas, organizacionais, técnicas, legais e outras que garantem: prevenção oportuna, detecção, bloqueio, exclusão de informações falsas na Internet, eliminação de consequências, responsabilidade dos atacantes por ações ilegais. Para garantir o funcionamento de tal sistema, é necessário suporte científico e metodológico adequado.

O problema da proteção contra informações falsas existe há muito tem po, mas com o advento e o desenvolvimento ativo da Internet, a situação mudou drasticamente. O volume de informações disseminadas e as possibilidades de seu uso com o objetivo de enganar pessoas aumentaram substancialmente. Como os eventos internacionais dos últimos anos demonstraram, impactos informativos em larga escala sobre as pessoas, para diversos fins terroristas, políticos, religiosos, econômicos e outros, são possíveis com o uso de robôs e inteligência artificial, via Internet. Ao mesmo tempo, as tarefas de detecção operacional, reconhecimento de impactos nas informações, identificação das fontes de geração e previsão de tais ameaças se tornaram mais complicadas. Os métodos de proteção tradicionais nessas condições não são eficazes o suficiente. Eles necessitam a participação ativa de uma pessoa na análise de informações sobre o tema de sua destrutividade e perigo para os usuários da Internet. Isso requer um gasto significativo de recursos humanos e materiais.

O mundo da mídia se retroalimenta constantemente. A obsessão pela competitividade é tal que, em muitas ocasiões, esquecem a realidade para se dedicar a tudo ao mesmo tempo, para competir pelas mesmas notícias. Isso é algo como a contra programação que as redes de televisão fazem em questões não relacionadas a notícias. Todo mundo quer explorar as mesmas supostas notícias convencidas de que quem não comparecer será retirado do pelotão. Portanto, mesmo que em um determinado momento vários eventos estejam acontecendo no mundo, toda a mídia será direcionada para um mesmo foco. Por isso, durante uma semana, as queimadas na Amazônia ocupam a primeira página dos jornais e abre o noticiário da televisão, e na semana seguinte desaparece do presente, como se a devastação na selva também tivesse desaparecido.

Um exemplo evidente no mundo inteiro é que um dos maiores conflitos silenciados pela mídia é o dos povos indígenas em qualquer parte do mundo (América Latina, Ásia ou África são exemplos claros). Os conflitos do chamado “Primeiro Mundo” também sofrem uma clara distorção, principalmente porque o que suscitam são mudanças estruturais que afetam os fundamentos do sistema. Através da mídia exploram plenamente todo o seu potencial para desacreditar ou esconder as demandas desses movimentos.

A necessidade de rentabilizar os recursos humanos causa a diminuição de correspondentes estáveis e com conhecimento no país; a mobilidade de enviados especiais é enorme para aumentar sua produtividade. Mesmo em alguns casos, os jornalistas não são deslocados para relatar notícias da região que podem estar a milhares de quilômetros de distância. Países invadidos sofrem diariamente a ferocidade e barbárie da obsessão moderna com o controle, enquanto a invasão e a guerra são consumidas como um espetáculo, como uma fusão de imagem e realidade, com uma hiper-realidade na qual a imagem não representa mais a realidade. Nela, a guerra é consumida como algo eletrônico, pré-programado, algo que é conduzido de acordo com os interesses de quem produz e consume a informação.

Na verdade, o problema é um pouco de distorção das regras com o mecanismo errado. Até agora, fazendo as pessoas ficarem confusas não há pontos estacionários que possam ser usados para determinar quais não devem ser. As palavras bom, moralidade, ética e justiça, todas são capturadas quando impedidas de acesso. Até a palavra logicamente é distorcida pouco a pouco, até ser deformada. Todos nós temos motivos para diferentes versões, juntamente com as questões da sociedade que devem ser vistas juntas.

Existem novas regras que dão origem à razão em uma lógica estranha: ela é reproduzida em muitos níveis até que as pessoas façam sozinhas. A aquisição das regras é repetidamente errada, até que as pessoas estejam confusas e confundidas por estarem “certas”. Toda vez que isso é feito, a estrutura está sendo distorcida. Finalmente, todos os lados podem pensar em suas próprias regras. Combinado com a divulgação de notícias na Internet com a intenção de ser consumida pela comunidade internacional, o processo de universalização das verd ades se torna mais rápido e consensual. Se estabelece conteúdos que foram rapidamente apresentados para serem auto interpretados. A “verdade” pode ser apresentada em partes para que alguns problemas sejam vistos tal como apresentados: separados. Depois, a mídia ou o indivíduo pode escolher uma das partes dessa verdade para se sustentar.

As eleições, que deveriam ser uma ferramenta para reiniciar o funcionamento dessa mecânica, não funcionam. Assim, as informações seguem sendo constantemente distorcidas. Com o a sociedade se move em uma velocidade menor do que o indivíduo, a maioria das pessoas buscam ser líderes de pensamentos e ideologias, porque se movem mais rápido que a velocidade da sociedade. Quando a sociedade não se move de acordo com o que acreditamos, nos perturbamos enquanto indivíduos, porque o que expressamos não transforma a realidade a nossa volta. Por isso buscamos as redes, um cluster para criar ondulações em harmonia com o que pensamos, sentimos e expressamos.

O problema também não se limita apenas às informações com conteúdo errado, mas também ao seu legado. A qualidade das notícias, informações publicitárias e comentários da sociedade são dependentes. No passado, as principais notícias eram frequentemente encontradas no conteúdo publicado. A gora, quando são publicadas começam a se desenvolver com hiper conexões; uma extensão da verdade em si, onde as redes sociais desempenham o papel de veredito sobre certo e errado, verdade e mentira.

De fato, todos sabemos menos do que esperamos. Isso se aplica as ideias sobre a quantidade total de nosso conhecimento. A única coisa em que temos certeza é que depois de tantos esforços científicos as pessoas ainda pensam pouco, não gostam de pensar e não apreciam particularmente aqueles que pensam. É provável que uma das principais causas de poder generalizado das notícias falsas seja a inércia do nosso pensamento, pois dificilmente concordamos em acionar mecanismos de pensamento crítico. Muitas vezes seguimos a liderança de nossos desejos, acreditando no que é simples e compreensível. Não queremos criticar as informações que correspondem às nossas expectativas. No espaço midiático dos canais profissionais e das redes sociais as pessoas obtêm acesso ilimitado a série de conteúdos sobre tudo no mundo e absorvem informações em modo de compulsão alimentar. Notícias falsas nesta situação são graciosas somente para quem sente satisfação ou interesse em propagar informações falsas. Sociólogos, profissionais da saúde e até virologistas veem seu objeto de estudo sendo manipulado em notícias falsas.

Espalhar desinformação não é muito diferente da propagação de uma infecção viral: primeiro de pessoa para pessoa, depois de grupo para grupo e, finalmente, a população de um país ou continente inteiro para outro. Junto a distribuição de notícias falsas pela mídia, vem à tona um processo de compartilhamento pelos grandes grupos de pessoas. O papel das redes sociais na distribuição de mensagens falsas, incluindo Facebook, Twitter ou Instagram, são capazes de lançar um “modelo epidêmico”, enquanto que a mídia tradicional pode incorrer, por engano, ou para fortalecer uma mentira, ampliar a cobertura de notícias falsas.

A história recente tem registrado muitos exemplos do uso de notícias falsas para fins diversos, competindo com publicações verificadas pela mídia que valoriza sua reputação. O século XXI tornou-se a era digital da comunicação, onde não há autoridades. Em veículos de comunicação de grande audiência o conteúdo fornecido é capaz de competir com a própria audiência. O New York Times ou a Folha de São Paulo não competem mais pelas suas opiniões ou qualidade investigativa diante dos seus leitores. O principal prêmio são o número de visualizações. O que com base em Orlandi (2007), estamos falando da autoria e seus significados, ou seja, à medida que as redes sociais dão voz aos discursos desinstitucionalizados, o sentido da autoria, como atribuído a um ministro, um médico ou um professor subsistiu-se pela autoria construída em redes.

A desinformação é estruturada de tal maneira, que ela inspira confiança no consumidor e afeta a sua opinião, suas decisões ou comportamento geral, de acordo com os objetivos pretendidos pelos criadores de desinformação. É importante lembrar que a desinformação pode servir como um caso especial de propaganda. Em particular o serviço de inteligência militar que utiliza a desinformação faz parte de um jogo no qual estão envolvidos a mídia. É um espaço que utiliza uma arma psicológica tremendamente perigosa de manipulação, cujo efeito sobre a consciência de massa possa ser imprevisível em termos de influência e consequências extremamente negativas.

4 – Considerações Finais

A atual “época social online” em que vivemos faz com que o comportamento das pessoas mude na Internet. O uso da informação, antes restrito à televisão e aos jornais, atualmente podem ser acompanhadas e estudadas em sites ou postagens em Redes Sociais e postagens de conteúdo em uma variedade de plataformas, com conteúdos textuais, de áudio, visuais etc. Por um lado, a possibilidade de todos ser em produtores de informações é um avanço no contexto das liberdades individuais. Por outro, quando há mais maneiras de acessar informações sem orientação, o problema que emerge é a credibilidade dessas informações.

Quando existem fontes de notícias para acessarmos com mais facilidade, a conveniência de seguir os canais de comunicação que possuímos maior identificação com nossos interesses pessoais podem se tornar uma armadilha bem elaborada, conforme demonstrado nos 5 filtros de Chomsky e Herman (2003). Precisamos distinguir a confiabilidade das informações, sendo necessários usar algumas habilidades analíticas. Muitas pessoas não compreendem esses mecanismos de manipulação; se torna mais fácil acreditar nessas informações e compartilhá-las novamente, tornando um ciclo de compartilhamento e retroalimentação contínua de informações de baixa qualidade. O problema agravou-se porque as informações falsas passaram ser amplamente compartilhadas devido à falta de análise das fontes ou capacidade de discernimento das pessoas. Sendo neste contexto necessária a intervenção do estado afim de criminalizar a disseminação de notícias falsas. Em relação ao seu conteúdo textual, quanto imagético e sonoro, também recebem comentários que deturpam ou mentem, na sequência em que são publicadas. Para aumentar a visibilidade, muitas empresas de mídia vendem junto com os espaços nos seus canais de comunicação a sua credibilidade. O leitor olha o fornecedor, quem transmite, antes de chegar ao conteúdo.

As empresas de mídia sabem que seu abuso, quando descoberto, faz com que percam sua credibilidade e seja muito difícil de recuperá-la. Por isso, não apenas tentam nos dizer o que é importante e como aconteceu, mas também nos convencer de que está certa em sua seleção e não mente, por isso arrisca muito se a falsidade for descoberta.

O historiador e analista de mídia Michael Parenti (2001) acredita que a propaganda mais eficaz é baseada na realidade, em vez de centrar na falsidade. Tecendo a verdade em vez de violá-la. Usando ênfase e fontes auxiliares, os comunicadores podem criar a impressão desejada sem recorrer a pronunciamentos explícitos e sem se afastar demais da aparência da objetividade. O enquadramento é alcançado através da maneira como as notícias são “empacotadas”, a extensão da exposição, sua localização (primeira página ou dentro de alguma sessão secundária, artigo principal ou última página), o tom da apresentação (aberta ou depreciativa), manchetes e fotografias e, no caso dos meios audiovisuais, efeitos de imagem e som.

Os filtros apresentados por Chomsky e Herman (2003) evidenciam que a manipulação dos meios de comunicação nos conduz para uma conclusão tão óbvia quanto natural: vivemos em uma sociedade amorfa. Somos amorfos porque há uma enorme incompatibilidade entre o que achamos que sabemos sobre as coisas e o que realmente sabemos. Não há ousadia pior do que aquilo que emerge da ignorância.

Tudo é um sublime paradoxo. Temos as mais sofisticadas ferramentas, canais e acesso à informação na história da humanidade. No entanto, estamos mais vulneráveis do que nunca à negligência intelectual e à memória. Se o diagnóstico do que lemos, vemos do que buscamos– e principalmente for realizado sob a lente dos discursos midiáticos, reconheceremos filtros que antecedem a notícia, os fatos em si. A informação que queremos nem sempre combina com a informação que necessitamos. E quando combinadas, nem sempre está disponível.

O problema por trás de muitas das ondas de mentiras são as pessoas que não querem a verdade, mas concordam com ela. Elas são as terraplanistas das redes, provando que na sociedade da informação predomina a desinformação.

Autor: Fabiano Couto Corrêa da Silva

Fonte: LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 143-161, set. 2022/fev. 2023.

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Notas

[1] – VOSS, Michael. Cuba libera venda de computadores residenciais. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/reporterbbc/story/2008/05/080503_cubacomputadores_fp.shtml . Acesso em: 25 de agosto de 2022.

[2] – A hipótese do agenda setting é um tipo de efeito social da mídia que compreende a seleção, disposição e incidência de notícias sobre os temas de interesse público (BRUM, 2003).

Referências

BAUDRILLARD, Jean. Requiém por las Twin Towers. Madrid: Arena libros, 2003. BBC News. Glifosato: Por que a Anvisa propõe manter liberada a venda do agrotóxico mais usado no Brasil. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-47374656. Acesso em: 25 agosto 2022. BRANDÃO, Sílvia Sgroi. Perseguições e martírios na história eclesiástica: análise dos escritos de eusébio de cesareia. Revista História e Cultura, Franca-SP, v.2, n.3 (Especial), p.268-279, 2013. BRUM, Juliana de. A Hipótese do Agenda Setting: Estudos e Perspectivas. Razón y palabra. Out. N. 35. 2003. Disponível em: http://www.razonypalabra.org.mx/anteriores/n35/jbrum.html. Acesso em: 25 agosto 2022. CHOMSKY, Noam; HERMAN, Edward S. A manipulação do público. S.l.: Futura. 2003. CLAVELL, James; SUN-TZU. A arte da guerra. 31. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. COSTA, Siliana Dalla. A presença das agências internacionais hegemônicas no jornalismo online brasileiro. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. 41º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Joinville. 2018. GENRO, Tarso. Jornalismo geneticamente modificado: na semana que findou a imprensa tradicional lotou de notícias positivas seus surrados jornalões e noticiários. Brasil247. 2017. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/jornalismo-geneticamente-modificado. Acesso em: 25 agosto 2022. IBGE. Agência de notícias. PNAD Contínua TIC 2017: Internet chega a três em cada quatro domicílios do país. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-deimprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/23445-pnad-continua-tic-2017-internet-chega-atres-em-cada-quatro-domicilios-do-pais . Acesso em: 25 agosto 2022. INPE. MINISTÉRIO DA CIÊNCIA, TECNOLOGIA, INOVAÇÕES E COMUNICAÇÕES. A estimativa da taxa de desmatamento por corte raso para a Amazônia Legal em 2019 é de 9.762 km². Disponível em: http://www.inpe.br/noticias/noticia.php?Cod_Noticia=5294 Acesso em: 25 agosto 2022. LAIGNER, Rafael; FORTES, Rafael. Introdução à história da comunicação. Rio de Janeiro: E-papers, 2009. MACIEL, Laura Antunes. Imprensa, esfera pública e memória operária. Rev. hist. São Paulo, n. 175, p. 415-448, jul.dez., 2016. http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9141.rh.2016.109940 MORAIS, Fernando. Chatô: o rei do Brasil. A vida de Assis Chateaubriand. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. PARENTI, Michael. Monopoly Media Manipulation. Maio.2001. Disponível em: http://www.michaelparenti.org/MonopolyMedia.html . Acesso em: 25 agosto 2022. ORLANDI, E. P. Autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. 5ª Edição, Campinas, SP: Pontes Editores, 2007. PECHEUX, M & FUCHS, C. A propósito da Análise Automática do Discurso: atualização e perspectivas. Tradução de Péricles Cunha. In: GADET, F.; HAK, T. (Orgs.). Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. 3. ed. Campinas: Unicamp, 1997 [1975]. p. 163-252 REPÓRTERES SEM FRONTEIRAS. Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa 2019. Disponível em: https://rsf.org/pt-br/ranking-mundial-da-liberdade-de-imprensa-2019mec%C3%A2nica-do-medo. Acesso em: 25 agosto 2022. SANCHÉZ, Javier Mayoral. Radio y TV, ni siquiera una fuente por pieza: investigación sobre el uso de las fuentes en los informativos de televisión y radio. Cuadernos de periodistas. Mar. 2008. Disponível em: http://www.cuadernosdeperiodistas.com/pdf/Cuadernos_de_Periodistas_13.pdf . Acesso em: Acesso em: 25 agosto 2022. SORJ, Bila. Anti-semitismo na Europa hoje. Novos estudos CEBRAP [online]. 2007, n. 79, pp. 97-115. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0101-33002007000300005. Epub 01 Jul 2008. ISSN 1980-5403. https://doi.org/10.1590/S0101-33002007000300005. Acesso em: 25 agosto 2022. SOUZA, Elise. Fontes jornalísticas e pluralidade: o que dizem os Manuais de Redação? VII Encontro Regional Sul de História da Mídia – Alcar Sul, 2018.

O sonho da razão produz monstros… ou seria seu sono? (Breves notas sobre as distopias contemporâneas)

No posfácio à edição brasileira de 2017 do livro Nós, do russo Ievguêni Zamiátin (1884-1937), o professor Cássio de Oliveira dialoga com a frase que Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828) escreveu em uma das gravuras da série intitulada Caprichos (1799), um conjunto de figuras inventadas e gravadas em água-forte que pretendiam mostrar, em meio a extravagâncias e desacertos tão comuns em toda a sociedade civil, ridículos autorizados pelo costume, pela ignorância ou pelo interesse, e que permitiam ao artífice exercitar suas fantasias.

Para o posfaciador de Nós, um romance distópico escrito na Rússia entre 1920 e 1921 e que influenciou Orwell e Huxley, os monstros saídos da pena de Zamiátin implicaram a edificação de um Estado Único responsável pela organização algébrica da felicidade de todos Nós. Mas são monstros que também denunciam a inviabilidade do controle total, a resiliência dos desejos individuais e humanos que talvez também povoem os sonhos da razão.

Os caprichos de Goya

Não por acaso os Caprichos de Goya foram gravurados naquela encruzilhada que separou o mundo contemporâneo das reencenações de hierarquias e vivências que marcaram o Antigo Regime. Eram tempos iluministas, em que se ousava saber perscrutando regularidades nas vidas de povos distintos, mas também tempos de onde saíram os argumentos sobre a possibilidade de hierarquia entre povos mais dados ao progresso científico e outros que talvez precisassem de “algum empurrão” para produzir ciência, para ordenar racionalmente os elementos da natureza e os desejos da sociedade.

A gravura de Goya, “o sonho da razão produz monstros”, nos coloca diante de uma importante dimensão dos debates iluministas: o entendimento de que era possível “refazer” toda a sociedade, estabelecer um contrato social que a todos obrigasse na construção da felicidade fabulada.

Em nome desta felicidade, os monstros reificados em violência e guerras, eram preço menos importante a pagar. Explorando um pouco mais esta hipótese, deixo aqui uma sugestão do amigo Rafael Ruiz: “sueño”, palavra espanhola, pode ser também sono, sono e sonho em espanhol nem sempre se diferenciam. Se é assim, seria a razão adormecida, o seu silêncio, que produz os monstros, ou seriam as suas fabulações em sonhos de futuro?

Trata-se da expressão de uma dúvida cara aos iluminismos, e que o século XIX parece ter querido diluir à medida que se espalhavam as conquistas da ciência representadas pela medicina, pelo controle das águas dos rios, pelo incremento da produtividade industrial, pelas novas edificações e arruamentos que se beneficiavam de novas técnicas de construção, etc.

A possibilidade de controlar a natureza

Os anos de 1800 trariam os pragmatismos resultantes do enraizamento de um mundo que considerava possível controlar a natureza e organizar a sociedade a partir de dados empíricos oferecidos pelas pesquisas científicas, e aqui se destacaram as teorias de controle social.

Os contrapontos estavam por ali, rondando os medos causados pelo espetáculo da pobreza produzida na época: de Frankestein a Dr. Jekill e Drácula, passando pelos miseráveis (Victor Hugo) e pelos demônios (Dostoiévski), o cânone ocidental demonstrava alguma percepção de que as luzes também podiam escurecer o entendimento do mundo, ou revelar horrores não percebidos pelo enaltecimento das capacidades humanas. A dúvida, assim, que fora o fundamento dos iluminismos, mantinha-se por ali, rondando, mas parecia não ter lugar no mundo de certezas que a ciência positivista propunha.

A ausência do debate público

Para muitos autores, os projetos totalitários que marcaram o século XX ambicionaram refundar a humanidade, banindo suas partes irredentas, irracionais e atrasadas. Seriam manifestação da razão extremada ou da sua ausência no debate público, momento em que se exige de todos a servidão? Destaque-se aqui que as distopias contemporâneas, nomeadamente as do século XX, trouxeram um elemento novo: a projeção ou radicalização de uma dimensão que se apresenta ao autor do romance em seu tempo vivido e que ele pretende mostrar aos seus leitores. Desta forma, são romances que nos expõem monstros saídos do sono/sonho da razão, sem dúvida, mas o fazem considerando possibilidades que espreitam perigosamente a humanidade.

O olho do furacão

Nós foi escrito no olho do furacão: em meio às experiências do autor que viveu a revolução russa, a guerra civil e a NEP. O título encaminha a trajetória do leitor frente ao personagem principal, D-503, que se movimenta entre as imposições e regramentos coletivos, definidos pelo Estado Único, e as manifestações incontroláveis de sua consciência e de suas sensações.

O autor viveu a época da vanguarda construtivista russa, cujas utopias articulavam movimentos sociais e artísticos, trabalhadores, poetas, escritores, músicos, fotógrafos e pintores que idealizaram manifestações artísticas para libertar a humanidade da opressão em que vivia.

A arte seria, assim, diluída no processo mesmo de construção da vida, seria marcada pela temporalidade vivida que era revolucionária e exigia comprometimento, mas não supunha silêncio ou servidão.

O principal alerta

Os vanguardistas foram engolidos pelo realismo socialista, e esse talvez o principal alerta de Nós: qual o equilíbrio possível entre os desejos e projetos de futuro e as possibilidades de construção da realidade, como alinhavar propostas e possibilidades, sonhos e ordenamentos racionais? Muito difícil, após ler Nós, considerar os avanços do totalitarismo na Rússia soviética apenas com a ascensão de Stálin, especialmente se lembrarmos os alertas de Rosa Luxemburgo ainda entre 1918 e 1919. Desenhos de totalitarismo se difundiriam pelo século XX, e se espalhariam também nas democracias.

O Conto da Aia e as liberdades fundamentais

O Condo da Aia, de Margareth Atwood, talvez seja uma das melhores expressões desta possibilidade. O livro foi publicado em 1985, em meio aos retrocessos de ordem moral que a era Reagan produziu, e que serviram de cortina para exportar barbarismos contra outros povos em nome de uma liberdade que, mesmo assim, parecia escapar aos americanos.

Conto oferece, a partir da dimensão moralista do período, uma distopia na qual as mulheres são submetidas a controles e comportamentos que negam direitos civis e políticos quando estes, em tese, seriam o fundamento da democracia americana. Mesmo se observarmos que a escrita do livro coincide com os anos finais da guerra fria, não se pode afirmar que se trate apenas de uma crítica relacionada a um possível avanço do mundo comunista sobre o mundo livre.

O romance dialoga com as dúvidas acerca das possibilidades de uma institucionalidade política capaz de conviver com as liberdades fundamentais: essas sempre trazem pluralidade, sentimentos e opiniões partilhados para ajustes de pactos, definições sobre os direitos que historicamente, desde os iluminismos, veem sendo afirmados como da natureza humana. Mas esses são elementos da vida democrática que prescindem da homogeneidade fabulada pelos totalitarismos.

Expressões políticas

Tudo isso, leitor, porque totalitarismos não são apenas possibilidades políticas colocadas pela experiência soviética, nazista ou fascista para manutenção da ordem comunista ou capitalista, são expressões políticas resultantes dos desajustes e sofrimentos humanos vividos quando apartamos espaços de experiência e expectativas de futuro (Koselleck), racionalizações extremadas que buscam controlar sensações, projetos e possibilidades não inteiramente apreensíveis quando se considera a razão como único elemento ordenador da realidade, e quando se esquece o mais relevante da libertação que a razão pode oferecer: a possibilidade de duvidar a partir do conhecimento acumulado e partilhado republicanamente.

Autora: Ana Nemi

Fonte: Livro & Café

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Iniciação

Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.

O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.

A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.

Neófito, não há morte.

Autor: Fernando Pessoa

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O sentido da vida

Todo o ser humano, mais tarde ou mais cedo, mais ou menos frequentemente, se interroga sobre o sentido da vida. As religiões resultam, em última análise, dessa primordial interrogação, procurando cada uma delas dar resposta à mesma. 

Confrontado com a crença religiosa que a sua cultura lhe disponibiliza, o indivíduo tem, basicamente, uma de três reações. Ou aceita essa doutrina, ou a rejeita ou aceita elementos, ainda que modificando-os, dessa tradição, mas busca ir mais além e mais fundo.

Se o indivíduo aceita a doutrina da crença religiosa que a sua cultura lhe disponibiliza, o seu problema está resolvido: o sentido da sua vida contém-se nos princípios dessa doutrina, cumpre, ou procura cumprir, os preceitos dessa religião e busca a Salvação ou a Evolução que a doutrina da sua religião preconiza. Sabe qual é o seu lugar e a sua função no mundo e na vida. Não precisa de se questionar mais.

Se o indivíduo rejeita a crença religiosa que a sua cultura lhe disponibiliza, das duas, uma: ou fá-lo porque se identifica com outra doutrina religiosa, a que se converte, ou, pura e simplesmente não crê. Na primeira hipótese, o seu problema de responder à interrogação primordial sobre o sentido da vida fica resolvido, em termos semelhantes à situação anterior. 

Se a rejeição da crença religiosa ocorre porque, pura e simplesmente, não crê, o seu problema fica também resolvido, mas com outra resposta: não existe qualquer sentido na vida, a vida, como o Universo, resulta de uma combinação de fatores físicos e químicos, tudo se resume ao mundo material, onde se nasce, vive-se o melhor que se pode e um belo dia morre-se e nada de nada resta, para além do que se enterra ou é cremado, para dar lugar a outros que, sucessivamente, nascerão, viverão e morrerão, sem que deles nada reste também, para além do que se enterra ou é cremado, até que um dia uma qualquer combinação de fatores físicos e químicos a tudo ponha fim – do começo ao final nada faz sentido, tudo sucede, sucedeu e sucederá por acaso, por mecânica combinação de uma miríade de fatores físicos e químicos.

Se o indivíduo, confrontado com a crença religiosa da sua cultura, aceita, ainda que modificando-os, elementos dessa tradição, mas busca ir mais além e mais fundo, esse é o que mais longa e persistentemente se debate com a interrogação sobre o sentido da vida. A resposta institucional não o satisfaz, a opção no ateísmo materialista também não. Esse rejeita que tudo sucedeu por acaso, por mera consequência de fatores físicos e químicos e que a vida não tenha sentido. Esse considera que existe, sim, um sentido na vida, ainda que ele o desconheça, mas entende que existe um Propósito, um Objetivo, na existência do Universo e, principalmente, da Vida. O que materialmente vê e sente é apenas uma parte do quadro da Vida. Acredita que outros planos de existência ocorrem, que a passagem por este plano material tem um propósito, simplesmente não se satisfaz plenamente com as respostas dadas pela religião da sua cultura – nem com as respostas dadas pelas demais religiões.

Esse, ou se conforma com o desconhecimento e vive segundo os preceitos da sociedade em que se insere, ainda que porventura os não aceitando plenamente, ou busca, por si, com a sua Razão, resposta ou caminhos para resposta suscetível de o satisfazer. É crente, mas não se identifica com nenhuma religião em concreto. É crente porque a sua Razão o conduz a que o seja, mas, por isso mesmo, procura as respostas por si mesmo. É o que se denomina de deísta.

Há ainda os que – talvez a maioria – vão evoluindo ao longo da sua vida, em resultado do seu crescimento, das suas experiências, dos seus encontros e desencontros com pessoas, ideias e ideais. O mesmo indivíduo pode, ao longo da sua vida, passar por mais do que um – no limite, até por todos – dos estádios acima referidos.

Cada um é como cada qual. A pergunta – qual o sentido da vida? – é a mesma, impõe-se a todos, mas cada um dá-lhe a resposta que entende ou que pode dar e, se muda os termos dessa resposta, uma ou várias vezes, é porque a sua natureza o impele a assim fazer.

Muitos, a maioria, interrogam-se sobre o sentido da vida na solidão do diálogo consigo próprio ou podem apenas obter as respostas institucionalizadas da sua tradição religiosa. Outros confrontam a sua interrogação com as similares interrogações de outrem, e daí resultam apostasias, conversões, mas também lutas, por vezes ferozes, ou indiferenças perante as diferenças.

Há uns quantos, porém, que têm a possibilidade de colocar essa interrogação em conjunto com outros, sem confrontos, com aceitação das respostas de cada um, com partilha de pontos de vista e de experiências, pondo todos em comum o que cada um tem, de forma a que cada um retire do todo posto em comum o que necessite para ir mais além e mais fundo, na sua busca pessoal de resposta à interrogação primordial que o venha a satisfazer.

Esses são os maçons!

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Maçonaria e Judaísmo – de Noé ao Templo de Salomão

As relações entre o judaísmo e a maçonaria foram e ainda são algumas vezes caricaturadas pela tese da “conspiração judaico-maçônica”. No entanto, as ligações entre a primeira religião do livro e a Arte Real são muito reais, tanto simbólica quanto historicamente.  Mas a visão maçônica do judaísmo é essencialmente cristã, e o tratamento dos judeus na maçonaria nem sempre foi idílico.

“A Maçonaria é uma instituição judaica cuja história, graus, obrigações, palavras de ordem e filosofia são judaicas do começo ao fim”. 

Conforme escreve Jean-Philippe Schreiber, esta declaração do rabino liberal americano Isaac Wise feita em 1866 poderia muito bem ter sido usada pelos proponentes da tese da mítica “conspiração” judaico-maçônica. Teses retomadas até hoje nas chamadas redes sociais tanto pela extrema direita quanto por certos círculos de extrema esquerda antiliberais e antissionistas.

Portanto, como podemos nos surpreender com o clamor desencadeado no final de agosto de 2019 quando, na véspera do convento do Grande Oriente da França, soubemos que a loja parisiense Maximilien l’Incorruptible ia apresentar uma proposta de voto pedindo que a obediência cessasse todas as relações com o Conselho Representativo das Instituições Judaicas da França (CRIF)? Esta proposta de tipo inédito em uma obediência que sempre fez ponto de honra defender a ideia de que a razão e o diálogo têm precedência sobre o dogma, talvez tivesse sido adotada pelo convento se não tivesse sido rejeitada por vício de forma. Mas isso não importa. Para muitos irmãos judeus do GODF, muitas vezes distantes da religião, distantes ou próximos do Estado de Israel, este episódio, mesmo que se refira a apenas uma loja, foi tanto pior visto quanto o que ocorreu após as explosões antissemitas que pontuaram algumas manifestações dos coletes amarelos no final de 2018. É certo que o Grande Oriente, como a maioria das obediências, esteve presente durante a manifestação de 19 de fevereiro de 2019, organizada por iniciativa de cerca de vinte partidos e associações políticas para denunciar os múltiplos atos antissemitas que culminaram com a agressão verbal altamente divulgada de Alain Finkielkraut durante uma reunião de coletes amarelos em Paris.  Mas, embora em teoria, eles sejam obrigados a deixar seus “metais” na porta do templo, como podemos acreditar que os maçons não sejam, como o resto da sociedade francesa, tentados a encontrar explicações simplistas para tantos fenômenos complexos? E a suposta influência dos judeus, sempre ligada ao poder e ao dinheiro, figura com destaque no imaginário coletivo na hora de nomear aqueles que “manejam as cordas”.

Certa vez, disse o sociólogo e escritor Pierre Birnbaum: 

“O populismo do ambiente não é fundamentalmente antissemita. Mas ao apresentar o Estado como estando nas mãos de uma oligarquia, só podemos alimentar um lapso lógico de pensamento guiado por preconceitos sobre o poder e a riqueza dos judeus.  Às vezes isso traduzido em comentários e atos antissemitas.”

Explosões de antissemitismo

Se considerarmos objetivamente o comportamento dos maçons franceses diante das explosões de antissemitismo que abalaram a França durante o caso Dreyfus – veja o artigo de Denis Lefebvre – fica claro que as lojas não estão comprometidas com o caso Dreyfus apenas quando ele deu uma guinada política designando os anti-Dreyfusistas como o partido da Igreja, da reação e dos inimigos da República. Anteriormente, não só as lojas não tomavam partido, mas algumas tomavam muito cuidado para se defender de qualquer ligação com os judeus. Assim, em Angers em 1896, dez anos antes da reabilitação de Dreyfus, enquanto o muito católico e conservador Barão Leguay escrevia “Todos os membros do sindicato Dreyfus não são judeus ou maçons?”, a Loja Travaiel et Perfection do GODF responde por meio de um poster:

“Monsieur le Baron, lemos e relemos cuidadosamente vossa circular. Você se digna a escrever que um bando de judeus e maçons está tentando arrastar nosso exército pela lama negra.  […] Deixamos a você os judeus, entesouradores e farsantes, com os quais não nos importamos; mas no que diz respeito aos maçons, discordamos dessas calúnias. Os maçons são compatriotas e afirmam sê-lo tanto quanto você. […] Eles poderiam lhe responder que os barões são numerosos entre os judeus e muito raros entre os maçons.”

Será que os irmãos de Angers já se encontraram com os judeus em uma região onde eles eram virtualmente ausentes? Provavelmente não.  Mas, naquela época, longe de ser esse “Centro da União” que deveria reunir o que está disperso, eles estavam banhados no antissemitismo ambiental, a única ideologia que unia ricos e pobres, clérigos e comedores de padres, reacionários e socialistas, monarquistas e anarquistas, educados e ignorantes. Não teríamos volumes suficientes para contar as publicações, de qualquer cor política que fossem, que, no auge do caso Dreyfus, atacavam na mesma vingança odiosa maçons e judeus, mancomunados, em suas chamado ódio à França, aos protestantes, aos ingleses, aos alemães, inspirados pelo inferno, como se cantava nas procissões patrióticas. 

Muitos judeus nas lojas

No entanto, apesar de um clima no mínimo deletério, muitos judeus da época frequentavam as lojas na França, mas também na Bélgica, no Reino Unido e na Itália. Neste país, um deles, Ernesto Nathan, Grão-Mestre do Grande Oriente da Itália em 1899 e 1917, foi mesmo Prefeito de Roma em 1907 e reeleito em 1911.  Reconhecidamente judeu de pai e mãe, Nathan, no entanto, tem o perfil do maçom típico da época: agnóstico, anticlerical, liberal de esquerda e muito apegado à promoção da educação do povo.

Na França, foi quase exclusivamente dentro da burguesia, mesmo a alta burguesia judaica, conquistada pelas ideias liberais na política e na religião, que os maçons eram recrutados entre meados do século XIX e a Primeira Guerra Mundial.  Para muitos deles a Maçonaria permite aperfeiçoar uma integração já adquirida pela cidadania há um século, completando-a com uma integração social de ordem ideológica. 

De acordo com Jean-Philippe Schreiber:

“Neste contexto, a política social de reforma das comunidades judaicas, seu sistema educacional, seu sistema filantrópico baseado na patronagem, beneficência, bem-estar social, deve ser aproximada do modelo maçônico que também promove a filantropia, a ajuda mútua e a solidariedade. […] Há, portanto, correspondências marcantes entre o discurso maçônico e o discurso liberal judaico.  A ideologia da ‘regeneração’, se tem objetivos ideológicos e econômicos, encontra também uma preocupação da Maçonaria, a de criar ‘homens novos’ através da iniciação. Há mais do que um parentesco simbólico aqui.”

Essa integração dos judeus liberais pela Maçonaria no final do século XIX, encarnada na França pela figura de Adolphe Crémieux, não é apenas uma especificidade francesa. Uma dinâmica semelhante é encontrada, como vimos, na Itália, mas também muito particularmente na Bélgica, onde quase todas as elites da comunidade judaica de Antuérpia e especialmente de Bruxelas foram iniciadas. Entre eles, o Grande Rabino da Bélgica Elie-Alexandre Astruc que havia recebido a Luz em 21 de fevereiro de 1862 na loja do Grand Orient La Renaissance pelos emuladores de Hiram.  O que impedirá que a mesma oficina parisiense recebesse quatro anos depois um notório antijudeu na pessoa de Albert Regnard, colaborador de La Revue Socialiste de Benoît Malon, ele próprio um maçom ativo que se tornaria membro da comuna de Paris e marcará no final de sua vida uma certa inclinação pelas teses antissemitas de Édouard Drumont.

As referências à Bíblia

As lojas inglesas admitiram judeus muito cedo. As famosas Constituições, escritas pelo pastor anglicano Anderson e o huguenote francês Desaguliers, forçado ao exílio devido à sua religião, enfatizam as qualidades morais do maçom em vez de sua filiação religiosa, desde que ele seja “livre e de boa moral” e não seja nem libertino nem “ateu estúpido”.  Não há razão, portanto, para excluir católicos, judeus ou maometanos.  A primeira menção de um judeu se tornando maçom data de 1716. Já em 1723, nomes judeus aparecem nos arquivos da Grande Loja da Inglaterra e o próprio Pastor Anderson, na segunda edição de suas Constituições publicadas em 1738, cita vários Grandes Oficiais judeus da Grande Loja, na maioria sefarditas de origem portuguesa, alguns tendo transitado por Amsterdã. 

Segundo Jean-Jacques Zambrowski, que dedicou um interessante estudo ao papel dos irmãos judeus na criação do Rito Escocês Antigo e Aceito:

“Em uma época em que os judeus em todos os lugares eram privados dos direitos que gozavam outros cidadãos, não é surpreendente encontrá-los muito cedo nas lojas, o único lugar onde podiam falar de igual para igual com seus irmãos não-judeus.  Sem esquecer que as inúmeras referências à Bíblia os colocavam em terreno familiar.”

O fato é que se a Maçonaria é uma instituição profundamente enraizada no cristianismo – protestantismo igualitário e democrático para as lojas azuis, catolicismo hierárquico e elitista nos ritos dos altos graus – e o judaísmo, embora onipresente enquanto referência de fundo simbólico e lendário, está ausente como religião baseada na observância coletiva dos 613 mandamentos da Lei, por todo o povo judeu.

O mito da construção do Templo de Salomão em Jerusalém pelo arquiteto Hiram, embora ausente das origens da Maçonaria, muito rapidamente o estruturou, a ponto de se tornar sua substância.  Mas se é inspirado na Torá, esse mito não é, entretanto, uma história judaica. No estudo que dedicou à questão, Jean-Claude Sitbon escreve: 

“Se o Templo de Salomão constitui a pedra angular do simbolismo da Maçonaria moderna, é preciso lembrar que este templo nem sempre ocupou o lugar eminente que desfruta hoje na Ordem Maçônica.  Este lugar central foi anteriormente ocupado pela Torre de Babel. Assim, nos manuscritos mais antigos da Maçonaria operativa, foi o Rei Nimrod, reputado patrocinador da famosa torre, que era designado como o ‘primeiro excelente Grão-Mestre’; foi ele, e não Salomão, muito menos Hiram, quem transmitiu aos construtores os segredos da arte real e que deu aos pedreiros ‘sinais e palavras’ de tal maneira que eles pudessem ser distinguidos do resto da humanidade…”

Um Hiram bíblico diferente do Hiram maçônico

Nas Antigas Obrigações, esses deveres que descrevem as obrigações dos maçons operativos ingleses, aquele que é chamado de “príncipe dos arquitetos” aparece no final do século XVI sob vários nomes: Haram, Aynone, Aman, Aymon, Hymon, Anon ou Adon. Alguns desses nomes referem-se claramente à lenda medieval dos Quatro Filhos Aymon.  Esta canção de gesta narra a guerra travada pelos quatro filhos do duque Aymon contra Carlos Magno e seu clã. Ficamos sabendo que Regnault, um dos quatro filhos Aymon, indo a Colônia para participar da construção da catedral de Saint-Pierre, foi morto ali por trabalhadores invejosos. Os maçons partiram da canção de gesta para enriquecer o relato bíblico ou, inversamente, eles tomaram emprestado da lenda medieval para enriquecer o personagem bíblico de Hiram? A primeira hipótese parece a mais provável, pois o Hiram maçônico é diferente do Hiram bíblico. Além disso, a Bíblia atribui o nome de Hiram a dois personagens distintos:  Hiram 1º, rei de Tiro (I Reis 5 e II Crônicas 2) que confirma a Salomão o tratado assinado com seu pai, o rei Davi e que obtém a madeira necessária para a construção do templo; Hiram Abi (ou Abiff) (I Reis 7:13 e II Crônicas, 2).  Este, filho de uma viúva da tribo de Naftali, é o artesão de bronze que erige as colunas do templo (I Reis 7, 15-22). A Bíblia também menciona um terceiro personagem com um nome semelhante que aparece em certas versões da lenda maçônica. Chamado Adoniram, ele é o cobrador de impostos do reino de Israel (I Reis 4:6; 5:14; 12:18, II Samuel 20:24). Seja como for, em nenhum momento o relato bíblico fala de um arquiteto chamado Hiram e muito menos da lenda segundo a qual ele foi morto por seus malvados companheiros.

Devemos também lembrar escreve Jean-Claude Sitbon,

“[…] que antes de Hiram vir à tona, Noé foi por um tempo uma figura central nos antigos escritos maçônicos.  Este patriarca bíblico representava a arte de construir e foi listado nas Antigas Obrigações entre os ancestrais da Maçonaria.”

As referências bíblicas sobre as quais a Maçonaria baseia seu discurso são tanto menos suficientes para torná-la um logos judaico pois, em suas diferentes formas, por meio de seus diversos ritos e seus diversos graus iniciáticos, ela está plenamente inscrita na tradição cristã trinitária, com a essência do judaísmo. Esta tradição, encarnada pelo Alto Grau de Rosa-Cruz, será, no século XVIII, um obstáculo ao progresso dos judeus de Bayonne dentro da loja La Zélée. E sabemos que nos últimos tempos, o próprio caráter cristão do Rito Escocês Retificado pode ter colocado um problema, se não para a admissão de irmãos de religião judaica, pelo menos para a sua elevação ao grau de Rosa-Cruz.

“Devemos, portanto, nos perguntar não sobre as influências do judaísmo sobre maçonaria, mas o que ela buscou nele para torná-la o veículo mais ou menos fiel de tradições passadas como o hermetismo, a cabala, a alquimia e a corrente Rosa-Cruz.”

Durante uma conferência pública, realizada no grande templo da Grande Loja Nacional Francesa em 2 de abril de 2019, declarou o rabino chefe da França Haïm Korsia:

“Ame o que está se tornando, mas odeie o que é abençoado. Quando algo é abençoado, acabou, nada mais traz. A Torá está em movimento. Ela pode ser contextualizada e às vezes contestada. É a discussão que sempre a torna contemporânea.  Quanto ao Templo, implica sobretudo o serviço dos homens.  É uma organização de possibilidades humanas.”

Estas palavras ecoam os sentimentos e motivações que essencialmente movem os irmãos e irmãs de filiação judaica que são membros das diversas obediências. Como Emmanuel Serval, que ocupa cargos importantes na GLNF usando um kipá, inclusive durante os trabalhos de Loja:

“O judaísmo me preenche espiritual e intelectualmente, mas os princípios humanistas da Maçonaria também me preenchem porque eu pretendo construir uma sociedade aberta e universalista. Meu desejo é compartilhar os princípios do judaísmo e vivê-los espiritual e intelectualmente com meus irmãos não judeus. De minha parte, seria impensável viver a fraternidade apenas com judeus. Vivi minha infância em uma família de sobreviventes do Holocausto, onde o medo estava muito presente, assim como no meu ambiente comunitário. Mas a fraternidade que experimento na Maçonaria muitas vezes me tranquiliza sobre a humanidade”.

O complô judaico-maçônico, uma invenção católica, mas não só deles… 

A ideia de que a Maçonaria é uma invenção judaica para “mexer os pauzinhos” e governar o mundo é anterior ao Caso Dreyfus.  Só apareceu depois da publicação do Memorial para servir à história do Jacobinismo em que o abade Barruel acusou os maçons de serem os responsáveis pela queda da realeza e da “velha ordem”, mas ele não fala em judeus. Foi Roger Gougenot des Mousseaux, um católico fervoroso apaixonado pelo esoterismo, que em 1869 foi o primeiro a evocar a ideia de um conluio entre judeus e maçons em Le Juif, Judaisme et la judaïsation des peuples chrétiens.

Em 1882, o cônego Emmanuel Chabauty publicou Les Juifs, nos maîtres, onde se lê que

“Com seu ouro, sua habilidade, sua perseverança, os príncipes judeus conseguiram apoderar-se de todas as sociedades secretas.  Eles se tornaram seus diretores supremos e únicos.” 

O livro logo antecede a publicação em 1886 de “França Judaica” de Edouard Drumont em que o autor afirma que

“Os judeus retornam atrás da Maçonaria, em 1790, e se tornam os senhores absolutos de um país que eles afastaram pouco a pouco, com prodigiosa astúcia, de todas as tradições que fizeram a sua grandeza e a sua força. […]”

O imenso sucesso de França judaica, que terá 150 edições, deve-se ao fato de Drumont não atingir apenas o público católico.  Seu “gênio” consiste em unir sob a mesma bandeira católicos e socialistas em acordos para clamar com a mesma voz contra o judeu entesourador e o judeu deicída.  É por isso que não é de surpreender que as teses de Drumont tenham ecoado entre certos maçons como Benoit Malon, diretor de La Revue Socialiste, ou no século XX, com Jean-André Faucher, que foi membro eminente da Grande Loja da França enquanto membro da associação “Amigos de Edouard Drumont”.

Adolphe Crémieux (1796-1880) grande republicano, judeu e maçom  

Adolphe Crémieux nasceu em Nîmes em uma família de judeus Comtadinos, parte da qual tinha um ramo Ashkenazi.  Advogado em Nîmes, ele está próximo dos círculos protestantes e afirma-se desde muito cedo como um republicano convicto.  Ele foi iniciado em 1818, na loja de Bienfait anonyme em Nîmes e não há dúvida de que suas lutas tanto pela defesa da República quanto pelos direitos de seus correligionários estarão associadas a ele ao ideal maçônico. Nomeado Ministro da Justiça no governo provisório da Segunda República em 1848, declarou-se a favor da abolição da escravidão. Sob o Segundo Império, Crémieux sentou-se nos bancos da oposição republicana e se esforçou para defender os direitos dos judeus onde quer que fossem oprimidos. Isso o levará em 1860 a participar da criação da Alliance Israélite Universelle, uma instituição que busca emancipar, através da educação e da divulgação da cultura francesa, as comunidades judaicas da bacia do Mediterrâneo e dos Balcãs. Ele foi profundamente afetado pela conversão ao catolicismo de sua esposa e filhos.

O nome de Adolphe Crémieux continua associado aos decretos que, em outubro de 1870, automaticamente concediam aos judeus da Argélia a plena nacionalidade francesa, ao passo que esse direito só podia ser concedido aos muçulmanos pelos tribunais, sob a condição de o requererem individualmente.

No plano maçônico, Adolphe Crémieux assumiu a liderança do Supremo Conselho da França do Rito Escocês Antigo e Aceito como Supremo Grande Comandante em 1869.  Ele se opôs à remoção da invocação do Grande Arquiteto do Universo, mas pediu fraternidade maçônica independentemente da obediência.  

Um “irmão asiático” judeu na tormenta revolucionária

A Ordem dos Cavaleiros e Irmãos de S.  João Evangelista da Ásia na Europa, mais comumente conhecida como “Irmãos Asiáticos”, é uma ordem maçônica fundada em 1782 após o convento de Wilhelmsbad.

A ordem tinha 5 graus – dois graus probatórios e três graus de cavalaria, ambos alquímicos e cabalísticos – e fazia extensa referência à Cabala judaica.  Esta foi a primeira ordem a se abrir amplamente aos judeus, acolhendo-os nas chamadas lojas “Melkizedek”.

Vários de seus membros vinham do franquismo, um ramo herético do judaísmo que afirma ser o falso messias Sabatai Zvi, que viveu em Esmirna no século XVII e se espalhou pela Polônia sob a liderança de Jakob Frank.

Moses Dobruška, primo de Jakob Frank, era um judeu boêmio que se converteu ao catolicismo. Ele foi membro da Ordem dos Irmãos Asiáticos sob o nome de Franz Thomas von Schönfeld e teria contribuído para dar a este sistema o seu conteúdo cabalístico. Em 1792 foi para Paris onde ficou conhecido como Junius Frey e recebeu o título de cidadão francês. Liderando o caminho, adotando um modo de vida distante do rigor jacobino, era suspeito de espionagem e prevaricação, apesar da publicação de uma Filosofia Social dedicada ao povo francês retomando as ideias de Rousseau, Kant e Locke.

Ele conseguiu que sua irmã Léopoldine se casasse com o corrupto jacobino François Chabot para que este a dotasse secretamente com a fortuna que havia adquirido por meio de corrupção e prevaricação da Compagnie des Indes.

Junius Frey foi guilhotinado com seu irmão Emmanuel e os dantonistas em 5 de abril de 1794.

Uma forte presença judaica na criação do REAA

A constituição de um rito de 33 graus que se tornou o Rito Escocês Antigo e Aceito — REAA — foi feita nos Estados Unidos no final do século XVIII e início do século XIX. Ela deve muito a vários irmãos de fé judaica.

Em um artigo publicado no Point de vue Initiatique publicado em 2017, Jean-Jacques Zambrowski levanta a hipótese de que o francês Étienne Morin, na origem da criação do REAA, fosse talvez de origem judaica, ou em todo caso marrano do sudoeste.  Mas não há nada até agora para apoiar esta hipótese. O certo, porém, é que depois de muitas aventuras, encontramos vários judeus entre os primeiros maçons americanos a receber as patentes que Morin trouxe para a Jamaica na década de 1750. O primeiro foi o comerciante e banqueiro Moses Michael Hays, judeu de origem holandesa, presidente da Congregação Shearith Israel, futuro venerável mestre da Loja do Rei David de Nova York e futuro Grão-Mestre da Grande Loja Independente de Massachusetts.

Em 1781, Hays, por sua vez, nomeou outros oito Inspetores Gerais Adjuntos. Muitos são judeus, começando com Solomon Bush, nomeado Inspetor-geral Adjunto da Pensilvânia. É preciso também citar Samuel Myers, judeu de Nova Iorque, empresário na Virgínia e futuro marido de Judith Hays, filha de Moses Michael Hays, e Simon Nathan, judeu emigrante de Londres que desempenhou um papel muito importante na Congregação Mickve Israel na Filadélfia e na construção da primeira sinagoga naquela cidade.

Quatro outros desses oito Inspetores-gerais Adjuntos nomeados por Hays desempenhariam um papel notável na fundação do Rito em 33 graus. Eles são Isaac Da Costa Sr., da Carolina do Sul, Abraham Forst, da Virgínia, Joseph M. Myers, de Maryland e Barend M. Spitzer, da Geórgia.

Então, em 1802, em Charleston, foi sob a direção de Moses Slava Levy, judeu polonês nascido em Cracóvia, futuro presidente da Congregação Beth Elohim de Charleston, associado a James Moultrie, presbiteriano de origem escocesa, que foi anunciada a criação de um Supremo Conselho e do Rito em 33 graus de onde fluem todos os outros supremos conselhos do mundo.

Conforme escreveu Jean-Jacques Zambrowski:

“Havia, portanto, entre os precursores, seguidores do Rito do Real Segredo, seis importantes membros de fé judaica. Então, entre os onze membros do primeiro Supremo Conselho do mundo, três protestantes, três católicos e outros quatro judeus.  […] As referências ao Templo de Salomão, ou aos hebraísmos ou pseudo hebraísmos de nossos rituais não se devem a essa participação, pois os Companheiros operativos já o usavam […] Mais provavelmente, muitos judeus aderem ao ideal maçônico porque a Maçonaria é um lugar de troca, partilha, tolerância e respeito mútuo onde se encontram homens e, em certas denominações, mulheres, de diferentes origens, culturas e religiões, crentes ou não, praticantes ou não, respeitando a diferença e o direito de cada um viver de acordo com suas convicções.”

Autor: Jean Moise Braitberg
Traduzido por: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

Publicado originalmente em FM-Magazine nº 72 – Jan./Fev. 2020.

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