Em busca da Apple Tree: uma revisão dos primeiros anos da maçonaria inglesa (Parte IV)

Rodama: a blog of 18th century & Revolutionary French trivia: The Dancer  and the Freemason......1737

As atas da Loja da Antiguidade indicam por que a Grande Loja insistiu em deixar claro que ele não estava em dívida com as outras Lojas de Londres como também em promover uma versão alternativa de suas origens. Mas, e o que Sayer, Lamball e outros disseram em relação à sua posse como Grandes Oficiais em 1717? De onde surgiram essas histórias? Sayer e os outros podem ter relatado esta história com a esperança de obter assistência de caridade da Grande Loja. Enquanto faziam circular suas histórias no início da década de 1730, forneceram um material valioso a William Reid e James Anderson, que foram instruídos a mostrar que a Grande Loja era herdeira das antigas tradições. Para entender melhor essa dinâmica, precisamos voltar para a loja que, supostamente, se reunia na taverna Apple Tree da Charles Street.

Em 1723, disse-se que a loja que se reunia na Apple Tree tinha sua base na taverna Queen’s Head, em Knave’s Acre. Este lugar também era conhecido como Little Pulteney Street e atualmente corresponde à parte oriental da Brewer Street, no bairro do Soho. Strype descreveu Knave’s Acre como “estreita e habitada principalmente por comerciantes de coisas velhas e garrafas de vidro”[95]. A rua tinha uma péssima reputação, havia reclamações constantes de desordem nas casas à noite “Onde se refugiam e se divertem suspeitos de serem ladrões, batedores de carteira e outras pessoas dissolutas e más, onde se afirma que há homicídios, etc.”[96]. Os tabloides divulgavam um “remédio para malária”, um pó que garantia curar a febre, e os clientes em potencial foram instruídos a “subir as escadas Joyner’s, na porta ao lado de Queen’s Head, na Little Pulteney Street, Knave’s Acre”[97]. Recentemente, reformas foram realizadas em algumas propriedades ao redor de Knave’s Acre[98], então não está claro há quanto tempo a Queen’s Head tinha se estabelecido lá. Embora a loja em Queen’s Head seja classificado em segundo lugar na primeira lista de lojas e membros, foi montada sob uma carta constitutiva concedida pela Grande Loja datada de 23 de fevereiro de 1723. Por que essa carta constitutiva foi concedida é um mistério. Anderson contou, em 1738, que alguns membros da Apple Tree tinham se mudado para Queen’s Head devido a uma disputa[99], porém, dada a incerteza em relação à loja da taverna Apple Tree, esta explicação é um pouco obscura. Não se pode mais ter dúvidas de que esta loja se reunia em um outro lugar e não na Queen’s Head.

Presume-se que esta loja era formada principalmente por maçons operativos e artesãos, contudo, não era bem assim. Seu Mestre em 1723 foi Abraham Rayner, um advogado[100], e outro membro da loja, Moses Jevans, era um destilador[101]. No entanto, esta loja não era particularmente rica nem respeitável. Abraham Rayner esteve preso em Newgate durante três anos por dívidas e foi acusado de tentar enganar outro preso[102]. As poucas informações sobre Sayer, que dizia ter sido Grão-Mestre, indicam que ele era um homem que vivia em circunstâncias terríveis. Morava no bairro pobre de St. Giles in the Fields, e dependia da caridade de seus companheiros maçons para não morrer de frio no inverno[103]. Sua primeira esposa, Elizabeth, foi violentamente atacada por um grupo de mulheres irlandesas em 1736 e morreu no ano seguinte[104]. Em 1739, Sayer casou-se novamente com Eliza May, uma viúva, em uma cerimônia simples e discreta sob as regras da The Fleet[105]. Apesar de tudo, uma esplêndida coorte de seus irmãos maçons compareceu em seu funeral, realizado em St. Paul de Covent Garden em 1742.

Conforme a Grande Loja cresceu, a gestão de seus fundos de caridade tornou-se um assunto de suma importância. Desaguliers advertiu, em 1729, que a Grande Loja “não deve admitir pessoas que ingressam na sociedade apenas como um meio de sustento”[107]. Esse assunto se tornou um tema recorrente. Na comunicação trimestral em 1735, a mesmo em que Anderson foi contratado para compilar uma lista de Grão-Mestres para suas novas Constituições, foi aprovada uma resolução que previa que, para evitar que as pessoas ingressassem na Maçonaria para se beneficiar do fundos de caridade, todos os pedidos de ajuda deviam incluir evidências de que o o candidato havia desfrutado de “circunstâncias boas ou pelo menos toleráveis” enquanto tinha sido maçom[108].

Se por um lado a loja Queen’s Head contribuía regularmente para o fundo de caridade da Grande Loja, por outro era dela também que vinha a maioria dos pedidos de ajuda. O caso de Henry Pritchard, um carpinteiro Drury Lane que foi membro do Queen’s Head e outras lojas de Londres é ilustrativo. Em maio de 1723, ele foi julgado por ter agredido um homem chamado Abraham Barret, cujo crânio foi fraturado, por ele ter insultado a Maçonaria de forma escandalosa, usando um bom número de palavrões. O júri considerou Pritchard culpado, mas como a agressão foi provocada, aplicou apenas uma multa de 20 xelins[109].

A Grande Loja não estava disposta a deixar um de seus membros que tinha saído em defesa da Maçonaria, desamparado, e realizou uma arrecadação para ajudá-lo que somou mais de 28 libras[110]. Apesar da ajuda tão generosa, cinco anos depois Pritchard se encontrou novamente em perigo e recebeu ajuda da loja Queen’s Head[111]. Em 1730, Pritchard voltou a solicitar assistência da Grande Loja, argumentando que ele era maçom desde 1700. Seu pedido foi indeferido, pois lhe foi oferecida uma vaga no asilo e ele rejeitou[112]. No ano seguinte, Pritchard solicitou novamente a ajuda da Grande Loja, argumentando sobre sua pobreza, cegueira e idade, afirmando que ele foi maçom por mais de 40 anos – desta vez ele disse que tinha começado em 1690. Seu pedido foi aprovado, sendo acordado que Desaguliers lhe daria cinco libras dos fundos de caridade e que ele mesmo cuidaria para que Pritchard os usasse com sabedoria.

Este caso demonstra como os fundos de caridade da Grande Loja eram muito atraentes para os membros que estavam envolvidos no trabalho físico e artesanal, e que a gestão discricionária do fundo levou os candidatos a enfatizar a sua filiação e antiguidade na Maçonaria. Outro membro da loja Queen’s Head que tentou lucrar com a caridade maçônica foi o próprio Sayer. Como vimos anteriormente, seu nome não aparecia na lista de Grão-Mestres nas Constituições de 1723. Em 1724 ele foi um dos primeiros a solicitar a ajuda da Grande Loja – embora naquela ocasião não tenha mencionado sua posição – e seu caso foi o estopim para o estabelecimento de um fundo de caridade[114]. Em abril de 1730, Sayer novamente solicitou a ajuda da loja, descrevendo seus infortúnios e extrema pobreza e, desta vez, utilizando o argumento de que havia sido Grão-Mestre de uma loja. As opiniões dentro da Grande Loja estavam divididas sobre como ajudar Sayer. Alguns estavam dispostos a oferecer-lhe £20, enquanto outros achavam esta quantia muito generosa e deveria ser oferecida apenas 10 libras. No final, decidiram-se por um meio termo e ele recebeu 15 libras, mas com o esclarecimento de que tal ajuda seria dada a ele “porque ele foi um Grão-Mestre”. Com isso queríamos deixar bem claro que só alguém com tamanha importância na organização poderia esperar ajuda dessa magnitude. Alguns meses depois, Sayer foi acusado pelo Mestre e pelos Vigilantes da loja Queen’s Head de realizar iniciações irregulares, afirmando que Sayer havia encontrado outra maneira de obter benefícios financeiros utilizando-se de sua antiga posição maçônica[115].

Sayer explorou seu status de ex-Grão-Mestre para seu próprio benefício, mas a loja da taverna Queen’s Head também tinha motivos para apoiar os argumentos de seu membros, como Sayer e Pritchard, de terem sido maçons desde antes da fundação da Grande Loja. Em 1729, a Grande Loja reorganizou a numeração de suas lojas filiados, ordenando-as de acordo com a data de sua constituição. Uma vez que a carta constitutiva da loja Queen’s Head era de 1723, ela recebeu então número 11. A loja apresentou uma reclamação, solicitando ser colocada mais acima na lista das lojas, que foi rejeitado categoricamente pelo Grão-Mestre Adjunto, Alexander Choke, visto que a Grande Loja tinha dúvidas sobre as afirmações da Queen’s Head e seus membros[116]. Pouco tempo depois, o comitê de caridade da Grande Loja foi reformado para incluir nele os Grão-Mestres das lojas mais antigas. A perda da antiguidade da Queen’s Head afetava sua participação no comitê de caridade, por isso seu grande interesse em reverter a decisão da Grande Loja.

Sayer, Lamball e companhia inventaram histórias sobre suas posições dentro maçonaria para conquistar prestígio social e para aumentar suas chances de receber assistência financeira da Grande Loja. Além disso, a loja que frequentaram tentou provar sua antiguidade por razões semelhantes. Anderson, por sua vez, recebeu o instrução para demonstrar a antiguidade da Grande Loja em face da crescente competição das novas Grandes Lojas de Dublin e Edimburgo e para auxiliar no planejamento político da organização londrina. O autor das Constituições fez uso das histórias de Sayer, Lamball e outros porque eram muito úteis para esse propósito. É necessária uma pesquisa mais aprofundada sobre o contexto e a fundação da Grande Loja, sendo impossível no presente trabalho cobrir o assunto em sua totalidade. Nossa intenção é enfatizar que a Grande Loja não foi fundada na taverna Goose and Gridiron após uma série de negociações na Apple Tree, em 1717. Nossa melhor interpretação, dadas as evidências reunidas, é que a Grande Loja foi fundada com a nomeação do Duque de Montagu como Grão-Mestre, em 1721. Isso coloca a visita de Desaguliers a Edimburgo em agosto de 1721, em um contexto completamente diferente. Mas isso é uma outra história.

Considerações Finais

Foi-nos sugerido que deveríamos encerrar esta investigação instando a Grande Loja a adiar suas celebrações do tricentenário até 2021. Mas isso não é nossa intenção. Preferimos que o referido aniversário seja o evento que desencadeie uma maior pesquisa sobre a história inicial da Grande Loja. Com sua narrativa da Apple Tree e da Goose and Gridiron, Anderson criou um mito excepcionalmente duradouro, que muitas outras organizações fraternas adotaram. Por exemplo, de acordo com membros do Druid Circle of the Universal Bond[117], John Toland fez um proclamação em Primrose Hill para chamar todos os druidas para se encontrarem na taverna Apple Tree de Covent Garden. Assim, de acordo com a tradição, em setembro de 1717 foi fundada esta ordem druídica – da qual o mencionado William Stukeley foi governante – no mesmo local onde a Grande Loja foi supostamente fundada[118]. Esses mitos fundadores são muito importantes para todas as organizações fraternas, e Anderson sabia disso. Como ele mesmo disse no prefácio de suas Royal Genealogies, é importante que “cada nação tenha sua própria fábula”.

Autores: Andrew Prescot e Susan Mitchell Sommers
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: REHMLAC

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Notas

[95] – Stow y Strype, Survey, vol. II, 84.

[96] – London Evening Post, 20-22 de julio de 1732.

[97] – Weekly Journal or British Gazeteer, 22 de febrero de 1729.

[98] – “Brewer Street and Great Pulteney Street Area”, en Survey of London: Volumes 31 and 32, St James Westminster, Part 2, ed. Sheppard (Londres: London County Council, 1963), 116-137; una mujer anciana fue encontrada muerta en el ático de una casa nueva, construida en Knave’s Acre, en 1722: Daily Journal, 10 de enero de 1722.

[99] – Book of Constitutions, (1738) 185.

[100] – Old Bailey Proceedings: Accounts of Criminal Trials, 10 de octubre de 1733, Harvard University Library, ref: t17331010-4.

[101] – Según su testameto, fechado el 15 de abril de 1735.

[102] – Old Bailey Proceedings Online, 7 de septiembre de 1722, ref. f17331010-1.

[103] – A. Calvert, “Antony Sayer”, AQC 14 (1901): 183.

[104] – Sesiones de la corte de justicia, 17 de enero de 1736; Registro de entierros, St. Margaret, Westminster, 12 de agosto de 1737.

[105] – King’s Arms Register. Fleet Market, 10 de junio de 1739, Londres, Inglaterra, Registro de matrimonios y bautismos clandestinos, 1667-1754. Estos matrimonios, considerados irregulares bajo la ley de matrimonios de 1753, se realizaban dentro o en las inmediaciones de la prisión The Fleet, de la que nos hemos ocupado anteriormente. (N. Del T.)

[106] – London Evening Post, 16-19 de enero de 1742.

[107] – QCA 10, 105.

[108] – QCA 10, 251.

[109] – Daily Post, 18 de mayo de 1723.

[110] – QCA 10, 54-55.

[111] – QCA 10, 115.

[112] – QCA 10, 134.

[113] – QCA 10, 208-209.

[114] – QCA 10, 59.

[115] – QCA 10, 131, 137-138.

[116] – QCA 10, 106.

[117] – Un breve, pero interesante relato que intenta hermanar los orígenes del Druid Circle con los de la Gran Logia, se encuentra en Society X, “1717: Druidry and the founding of modern Freemasonry” (12 de febrero de 2013 [25 de septiembre de 2017]): disponible en https://5ocietyx.wordpress.com/tag/druidcircle-of-the-universal-bond/ (N. del T.).

[118] – Ronald Hutton, Blood and Mistletoe: The History of the Druids in Britain (New Haven y Londres: Yale University Press, 2009), 125-129.

Em busca da Apple Tree: uma revisão dos primeiros anos da maçonaria inglesa (Parte III)

John Montagu, 2.º Duque de Montagu

Um acontecimento que constituiu uma tragédia para o estudo da história da Maçonaria foi a “noite da indignação”, que aconteceu na Loja Antiguidade em novembro de 1778, quando os simpatizantes de William Preston, em sua disputa com o Grande Loja, roubaram arquivos e móveis[80]. Na época deste incidente, a loja tinha em sua posse as atas completas entre 1721 e 1778, bem como três volumes com os arquivos dos tesoureiros e dos secretários. Os dois volumes, que continham as atas de 1721 a 1733 foram perdidos e outros volumes tiveram suas páginas rasgadas. A perda desses registros é desastrosa. No entanto, foi preservado um rascunho, marcado com “E”, contendo alguns das primeiras atas. Felizmente, este volume ainda está em sua encadernação original, e tem anexado a ele o cartão de Charles Stokes, “Livreiro em Red-Lyon, perto de Bride-Lane, na Fleet Street”. O cartão está datado de 1716, provavelmente a data em que foi gravado. Stokes era conhecido por comercializar o “famoso tabaco oftálmico, que é fumado suavemente e é agradável de cheirar”, que foi amplamente divulgado a partir de 1720, e a as folhas de tabaco são vistas no cartão[81]. Stokes, “uma pessoa engenhosa que colecionava medalhas, pinturas e outras curiosidades”, faleceu em 10 de junho de 1741[82]. A participação de Stokes na Loja Antiguidade está registrada no Volume “E” e, em 1719, ele foi tutor de geometria, álgebra e assuntos relacionados junto com Jonathan Sisson[83].

Graças à sobrevivência do livro e do cartão de Stokes, sabemos que o livro “E” em arquivo no Loja Antiguidade é anterior às ações de Preston e seus seguidores e que, provavelmente, foi encadernado em princípios década de 1720. Boa parte do livro não foi usada até anos depois de seu aquisição, uma vez que também contém atas de 1759 a 1767 entre as páginas 9v e 85, além da contabilidade da loja da página 148v ao final do volume. Ele também contém várias notas de, por exemplo, a entrega de uma placa para imprimir ingressos, em julho de 1751, ou na página 7v o reembolso das verbas pagas durante uma cerimônia trimestral em abril de 1756. Na página 124v há uma lista negócios inacabados de grandes oficiais, o que é muito interessante porque omite a inclusão de Anderson como o Primeiro Vigilante em 1723. No entanto, esta lista é muito tardia, pois está escrita pela mesma pessoa que escreveu a ata entre 11 de junho e 26 de agosto de 1766. O volume não escapou ileso da “noite da indignação”, uma vez que entre as páginas 125 a 133 existem alguns trechos, escritos em caligrafia do final do século XVIII, que supõe-se sejam do livro de atas de 1721 a 1733 que está perdido. Como o observa Wonnacott[84], eles foram escritos por uma mão que não pode ser anterior a 1765 e muitos traços têm uma semelhança marcante com as notas de rodapé do obras de William Preston, sugerindo que se trata de registros que foram elaborados e corrigidos sob sua direção.

Mas, no início do livro “E”, existem dois documentos que podem ser datados sem dúvida a partir do início dos anos 1720. Após a reprodução de um retrato do Duque de Montagu por John Faber, há uma ata na página 2 que descreve a nomeação do duque em junho de 1721; então, das páginas 4-5, há uma lista de membros da loja, datada de 18 de setembro de 1721. O início desta lista é redigida pela mesma pessoa que redigiu a ata da reunião de Montagu. Adições subsequentes à lista, que deixam um registro de alguns figuras ilustres da loja, como o primeiro conde de Waldegrave e Sir Charles Hotham, representante de de Beverly no Parlamento[85], são primeiro da mão original e depois de uma variedade de mãos que parecem ser, como no caso do artista Benjamin Cole, assinaturas dos próprios membros. As últimas entradas na lista referem-se às iniciações de 15 de março de 1725, o que significa que a lista não pode ser posterior a 1726. A maioria dos membros nomeados na primeira seção aparecem na lista de membros da Loja na taverna Goose and Gridiron. Outros nomes na lista de 1725 aparecem como membros da Loja na taverna Queen’s Arms, que é para onde se mudou a Loja da Goose and Gridiron[86]. Isso nos leva a pensar que a relação entre as duas lojas é mais complexa do que se acreditava anteriormente, provavelmente devido ao papel do Duque de Wharton como Grão-Mestre da Loja Queen’s Arms. No entanto, a lista da loja mostra os membros no início da década de 1720, e foi copiado no livro “E” nessa época. O nome do mestre William Esquire parece, à primeira vista, um erro de redação, porém, possivelmente, se trata de um William Esquire que batizou sua filha Ann em St. Botolph Aldgate em 1710[87]. Nesse caso, ele é o primeiro mestre da Loja da Antiguidade.

Visto que a lista de membros da Loja Antiguidade contida no livro “E” data do início dos anos 1720, pode-se presumir que o relato da nomeação do duque de Montagu, escrito pela mesma pessoa, foi elaborado não muito depois de 1721 e portanto, pode ser considerada uma fonte contemporânea. Esta ata amplia consideravelmente a lista de nobres e senhores ilustres que compareceram ao evento. Concorda com a menção de Stukeley sobre a presença de Lord Herbert e Sir Andrew Fountaine, bem como Lord Hinchingbrooke[88], que mais tarde visitaria Stukeley na Loja Fountain. Também nos diz que Lord Hillsborough, um amigo próximo do Duque de Wharton[89], esteve presente. A ata não diz explicitamente que Lord Stanhope esteve presente, mas a entrada “P. Stanhope” pode se referir a ele. O William Stanhope, que aparece, é possivelmente o irmão mais novo de Lord Stanhope. No texto um bom número de baronetes e cavaleiros também são mencionados, como Sir William Leman, terceiro Baronete, Sir George Oxenden, quinto Baronete, parlamentar do Partido whig por Sandwich[90]; Sir Robert Rich, quarto baronete, que na época era parlamentar por Dunwich e apoiador de Walpole[91], Sackville Tufton, mais tarde sétimo Conde de Thanet e Coronel John Cope, parlamentar por Queenborough e também apoiador de Walpole[92]. A ata também menciona Christopher Wren Jr., que mais tarde se tornaria mestre da loja Antiguidade, bem como membros das lojas Goose and Gridiron e Queen’s Arms, incluindo Richard Boult, Charles Hedges e William Western, membro da Royal Society.

O documento da Loja Antiguidade mostra-nos que, entre os presentes na iniciação de Montagu estavam representantes da mais alta classe da sociedade. O mais surpreendente é a notícia de que o duque de Wharton também compareceu. Isso não era inerentemente improvável, mas, uma reportagem na imprensa, publicada em 5 de agosto de 1721, afirmava que Wharton começou na Maçonaria na Loja na taverna Queen’s Arms apenas no final de julho do mesmo ano[93]. Isso nos leva a questionar a sequência exata dos eventos sobre a iniciação de Wharton, embora não desacredite o relato da Loja Antiguidade[94]. A reunião é descrita como “uma assembleia geral de um grande número de maçons”, a ata declara que o duque de Montagu foi eleito Grão-Mestre, e jurou sobre a bíblia, “observar e manter inviolável no futuro, todas as franquias e liberdades dos maçons da Inglaterra e todos arquivos da antiguidade sob a custódia da antiga loja de São Paulo em Londres”.

Embora esse ata fosse claramente destinada a reforçar as reivindicações da loja, estas estavam baseadas na posse dos arquivos das Old Charges. Neste contexto, quando Payne apresentou um documento muitos mais velho realmente complicou a coisa toda. Isso adicionou importância à segunda parte do juramento de Montagu: “Firmemente observar e nunca permitir qualquer interferência nos Landmarks das antigas lojas da Inglaterra, o que da mesma forma será feito por seus sucessores, que estarão obrigados por juramento a fazer o mesmo”.

Em reciprocidade, as antigas lojas concordaram em renunciar aos seus privilégios em favor deste novo órgão, que era a Grande Loja:

Neste dia, os maçons de Londres, em seu próprio nome e em nome do restante de seus irmãos da Inglaterra, concedem seus reservados e distintos direitos e poderes de reunir-se em capítulos, etc., presentes nas antigas lojas de Londres, em favor do que hoje foi publicamente reconhecido e notificado aos irmãos reunidos na Grande Loja.
Os senhores das antigas lojas aceitaram e confiaram em nome de suas lojas e tudo foi juramentado de forma pertinente

Assim, a descrição contemporânea mais completa e detalhada mostra-nos que a nomeação do Duque de Montagu e o ato de transferência dos privilégios das antigas lojas de Londres para o Grão-Mestre e a nova Grande Loja foi realizada, não na Loja da taverna Goose and Gridiron em 1717, mas na reunião no Stationers ‘Hall em 1721.

Este relato é convincente não apenas porque é mais contemporâneo do que o de Anderson, mas também porque está de acordo com o histórico de Stukeley e as evidências encontradas nos jornais. Aparentemente, foi George Payne, com a ajuda de Desaguliers e talvez do próprio Stukeley, que concebeu um esquema para levar a Maçonaria a um novo nível social e cultural nos meses anteriores, além conseguir levar para suas fileiras personagens ilustres como o duque de Montagu e talvez também o duque de Wharton. Payne foi, sem dúvida, quem orquestrou toda a operação, preparou o regulamento da nova organização e talvez tenha sido nomeado Grão-Mestre durante esse processo. Mas o significado das atas da Loja Antiguidade é muito claro: a Grande Loja não foi fundada na taverna Goose and Gridiron em 24 de junho de 1717, mas sim quatro anos depois, quando as lojas de Londres fizeram a transferência formal de seus privilégios para o nova organização, em 24 de junho de 1721 no Stationers ‘Hall. Portanto, a contagem de Anderson do que aconteceu entre 1717 e 1721 deveria ser desconsiderada.

Continua…

Autores: Andrew Prescot e Susan Mitchell Sommers
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: REHMLAC

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Notas

[80] – W. H. Rylands y C. Firebrace, Records of the Lodge Original, No. 1, now the Lodge of Antiquity, No. 2 (Londres: Harrison, 1911-26), vol. I, 1-14; Colin Dyer, William Preston and his Work (Shepperton: Lewis Masonic, 1987), 67

[81] -Por ejemplo, en el Applebee’s Weekly Journal del 6 de agosto de 1720. Véase Francis Doherty, A Study in Eighteenth-Century Advertising Methods: The Anodyne Necklace (Lampeter: Edwin Mellen Press, 1992), 349-50.

[82] – London Daily Post and General Advertiser, 11 de junio de 1741

[83] – Evening Post, 9-11 de julio de 1719. Jonathan Sisson fue un fabricante de instrumentos para astronomía, navegación e ingeniería, inventó el teodolito moderno (N. Del T.).

[84] – W. Wonnacott, ‘The Lodge at the Goose and Gridiron’, AQC 25 (1912), 168.

[85] – Sobre Waldegrave, véase Berman, Foundations, 148-150; sobre Hotham, véase E. Cruickshanks e I. McGrath, “Hotham, Sir Charles, 4th Bt”, en The History of Parliament: the House of Commons 1690-1715, eds. Eveline Cruickshanks, Stuart Handley y D. W. Hayton (Londres: History of Parliament Trust, 2002 [citado el 2 de agosto de 2016]): disponible en http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1690- 1715/member/hotham-sir-charles-1663-1723

[86] –La logia en Queen’s Arms fue famosa posteriormente por el patronazgo del Dr. Johnson, de Boswell y de Garrick. En la década de 1720 también se le conocía como King’s Arms, pero por cuestiones de consistencia aquí usaremos el nombre más usual y conocido de Queen’s Arms.

[87] – “England Births and Christenings, 1538-1975”. Genealogical Society of Utah, Salt Lake City, FHL microfilm 370933.

[88] – Sobre Hinchingbroke, véase E. Cruickshanks y S. Handley, “Montagu, Edward Richard, Visct. Hinchingbrooke”, en The History of Parliament [citado el 5 de mayo de 2017]: disponible en http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1690-1715/member/montagu-edward-richard-1692-1722; Berman, Foundations, 135.

[89] – Berman, Foundations, 143.

[90] – R. Sedgwick, “Oxenden, Sir George, 5th Bt”, en The History of Parliament [citado el 5 de mayo de 2017]: disponible en http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1715-1754/member/oxenden-sirgeorge-1694-1775

[91] – S. Matthews, “Rich, Sir Robert, 4th Bt”, en The History of Parliament [citado el 5 de mayo de 2017]: disponible en http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1715-1754/member/rich-sir-robert-1685-1768; Sommers, “Dunwich: the Acquisition and Maintenance of a Borough”, en Proceedings of the Suffolk Institute of Archaeology and History 38 (1995): 317-318; Berman, Foundations, 127-128.

[92] – A. Newman, “Cope, John”, en The History of Parliament [citado el 5 de mayo de 2017]: disponible en
http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1715-1754/member/cope-john-1690-1760

[93] – Robbins, “Earliest Years”, 68.

[94] – Wonnacott, “Goose and Gridiron”, 171. Es probable que no haya habido rituales durante la cena del 24 de junio de 1721, por lo que tal vez ni Wharton ni nadie más haya sido iniciado en esa fecha

Em busca da Apple Tree: uma revisão dos primeiros anos da maçonaria inglesa (Parte II)

18th century history: What was life like in the 18th century? - Who Do You  Think You Are Magazine

Existem muitas contradições no relato feito por Anderson dos primeiros anos da Grande Loja. Por exemplo, ele afirma que o primeiro ato de Sayer como Grão-Mestre deveria reavivar as comunicações trimestrais, mas relata apenas os banquetes anuais que aconteciam na Goose e Gridiron. A primeira comunicação trimestral a que se refere Anderson foi realizada em 25 de março de 1721[50]. Conforme Begemann apontou, era muito difícil para uma reunião trimestral ser realizada em 25 de março, Dia da Anunciação no calendário cristão, quando as pessoas estavam ocupadas com pagamento de aluguéis e renovação de contratos[51], visto que, de acordo com os registros, é evidente que a Grande Loja evitou se reunir naquele dia[52]. Aparentemente, Anderson inventou esta comunicação trimestral para dar a certeza de que o duque de Montagu havia sido nomeado Grão-Mestre em todos os sentidos. Existe um problema semelhante com a comunicação trimestral de março de 1722, durante a qual, supostamente, um comitê da Grande Loja aprovou o texto das Constituições a serem publicadas em 1723. Há outros pontos onde Anderson claramente inventou detalhes para complementar sua narrativa. Seu relatório do aumento no número de lojas entre 1721 e 1722 (12 lojas em junho de 1721, 16 de setembro do mesmo ano e 20 de dezembro de 1721 e 24 de março de 1722) é suspeitamente regular em sua progressão aritmética, e não corresponde ao que sabemos de outras fontes[53].

O epítome das dificuldades narrativas de Anderson é a Apple Tree Tavern, que é o exemplo mais notório de seu problema com datas. A Apple Tree existia em 1738, e os arquivos de licença nos mostram que o dono desta taverna era James Douglas, que a comprou em 1729[54]. No entanto, apesar de se conhecer centenas de nomes de tabernas na Londres de 1716 (muitas delas com variantes do nome “Apple Tree”), não há referência à Apple Tree da Charles Street. Aparentemente, este nome foi dado por Douglas quando ele tomou posse da propriedade em 1729. Como W. J. Williams aponta, os livros de registro mostram que a Apple Tree ficava no lado leste da Charles Street, na esquina da York Street. Este local atualmente corresponde ao número 28 da Wellington Street, esquina com a Tavistock Street, e é ocupado por um restaurante da rede “Bella Italia”. Os proprietários anteriores deste estabelecimento foram Robert McClure – de 1713 a 1719 – e Thomas Taylor – entre 1719 e 1729[56]. As licenças, tanto de McClure quanto de Taylor, eram para trabalhar como estalajadeiros, mas não há evidências de que usaram o nome “Apple Tree“. Nossa discussão durante a última cátedra de Edward A. Sankey, na Universidade de Brock, era que em 1716 este lugar não era uma taberna, mas uma mercearia chamada The Golden Anchor, de propriedade de Simon Mayow[57]. Mas uma revisão posterior dos arquivos mostrou que a The Golden Anchor não estava no lugar que mais tarde foi ocupado pela Apple Tree, mas sim no lado sul da York Street. No entanto, a busca pela Apple Tree ilustra como a narrativa de Anderson é confusa devido a suas invenções e suas atualizações de nomes de pessoas e lugares, no que meias-verdades são intercaladas com fatos inventados de propósito. Apesar de que alguns nomes de taberna passaram de uma geração de proprietários para outra –você ainda pode tomar uma bebida hoje no The Coach and Horses, cujo nome data de 1736–, o nome Apple Tree parece ter sido exclusivo de James Douglas, uma vez que desapareceu após sua morte em 1753[58].

Anderson distorceu e inventou sua narrativa porque a Grande Loja pediu a ele. Na edição de 1723 das Constituições, Anderson tenta mostrar que a origem da Maçonaria pode ser rastreada desde o início dos tempos, mas é muito vaga em sua história sobre a sucessão de Grão-Mestres desde a Antiguidade. Em 31 de março 1735, a Grande Loja aprovou uma moção expressando “o desejo de que o Dr. James Anderson imprima os nomes (em seu novo livro de Constituições) de todos os Grão-Mestres que se possa encontrar desde o início dos tempos, bem como um lista com os nomes de todos os Grão-Mestres substitutos, dos Grandes Vigilantes e dos irmãos que serviram à ordem como Expertos”. Anderson recebeu essas instruções para que, no futuro, todos os oficiais da loja fossem selecionados a partir dessas listas. Esta medida foi pensada para marcar o exclusividade social do grupo e para evitar que qualquer funcionário se torne necessitado a ponto de solicitar assistência de caridade da loja, como aconteceu com Sayer e Joshua Timson, o sapateiro e ferreiro falido que era Vigilante ao mesmo tempo que Anderson[60]. Da mesma forma, a Grande Loja estava, sem dúvida, ciente dos planos que se elaboravam para se estabelecer uma Grande Loja na Escócia e, portanto, devia se apressar para estabelecer sua primazia.

Outra consideração que levou Anderson a enfatizar as continuidades na história da Grande Loja, foi a maneira pela qual esta organização se inclinou para a oposição “patriótica” ao governo de Walpole, oposição esta que se dava em torno do figura de Frederick Louis, o Príncipe de Gales[61]. Esta tendência foi impulsionada por Desaguliers, a quem o príncipe concedeu um espaço no Palácio de Kew para configurar seu equipamento de laboratório[62]. A dedicação e apresentação da edição de 1738 das Constituições ao Príncipe de Gales, foram sinais inequívocos de apoio em uma época em que o herdeiro do trono havia caído nas graças de seu pai e era visto pela oposição como a última esperança para restaurar a ordem que havia sido perdida devido à corrupção de Walpole[63]. Influenciado pelo livro Remarks on the History of England, escrito por Henry St John Bolingbroke em 1730, a oposição “patriótica” destacava a importância “do sentido de continuidade e orgulho que representam ser britânico”, bem como a consciência das tradicionais liberdade e independência britânicas[64]. A história da Maçonaria escrita por Anderson tinha como objetivo mostrar que a organização estava profundamente enraizada na tradição inglesa, porém revitalizada pela casa de Hannover.

Se não fosse pelo testemunho tardio e suspeito de Anderson e a lista de oficiais nos livros de atas, poderia se pensar que a Grande Loja foi fundada em 1721. Não existem referências contemporâneas à Grande Loja entre 1717 e 1721: nem um única nota publicada na imprensa, nem um único panfleto antimaçônico, nem uma menção em nenhum jornal privado, nem uma única peça satírica[65]. Parece que, na Inglaterra, a Maçonaria entrou abruptamente em cena em 1721. Duas outras fontes nos oferecem uma explicação bem simples: a Grande Loja foi fundada na verdade em 1721. Essas fontes são os escritos do médico, antiquário e filósofo natural William Stukeley e um livro nos arquivos da Lodge of Antiquity. Ambos são contemporâneos e mais confiáveis ​​do que as fontes consultadas na pesquisa de Anderson. A história de que Sayer, Lamball e outros tinham sido oficiais da loja antes de 1721 foi inventado por eles mesmos, com o intuito de obter dinheiro do fundo de caridade da Grande Loja. Se ela concordou com o pedido dos três, foi para reforçar seus direitos sobre as outras lojas e para demonstrar sua própria antiguidade.

Stukeley foi um dos fundadores da Sociedade de Antiquários e é lembrado por suas investigações arqueológicas em Avebury e em Stonehenge. Registrou em seu diário que, em 6 de janeiro de 1721, se iniciou “Maçom na taverna Salutation, da Tavistock Street, junto com o Sr. Collins e o Capitão Rowe, que fez a famosa máquina de mergulho”[66]. A Salutation era uma taberna bem conhecida na Bairro de Covent Garden, virando a esquina da Apple Tree, que se estabeleceu em 1709 e sobreviveu até 1881[67].

Não sabemos quem era o Sr. Collins, mas Jacob Rowe era um capitão do mar e empresário de Devon, que patenteou uma máquina de mergulho[68]. Porém, o mais surpreendente na história da iniciação de Stukeley, ele deixou registrado em seu diário[69]: “Fui a primeira pessoa que se iniciou na Maçonaria em Londres desde muitos anos. Tivemos muita dificuldade em encontrar membros suficientes para realizar a cerimônia. Imediatamente depois disso, houve um grande impulso e todos estavam loucos para serem membros”[70]. Por volta de 1750, enquanto preparava um resumo de sua vida, Stukeley novamente enfatizou a falta de Maçons em Londres em 1721: “Sua curiosidade o levou a ser iniciado nos mistérios dos maçons, imaginando que seriam uma continuação dos mistérios dos antigos, mas era difícil encontrá-los em número suficiente em Londres. Depois disso, eles se tornaram uma moda pública, que não só se espalhou pela Inglaterra e Irlanda, mas também por toda a Europa”[71].

É impossível amarrar o relato de Stukeley, sobre a falta de maçons para realizar sua iniciação, com a narrativa de Anderson, que afirma que o número de lojas cresceu rapidamente[72]. A Salutation Tavern, onde Stukeley foi iniciado, estava a alguns passos do ponto na Charles Street onde a Apple Tree mais tarde seria alojada. É surpreendente a dificuldade para encontrar maçons se é que, de fato, uma Loja se reuniu lá. Para Stukeley, o verdadeiro gatilho para o crescimento da Maçonaria foi a nomeação do Duque de Montagu como Grão-Mestre em Stationer’s Hall, em junho de 1721. Ao contrário de Anderson, Stukeley compareceu a este evento e o descreveu assim:

Os maçons jantaram no Stationer’s Hall, estavam presente o duque de Montagu, Lord Herbert, Lord Stanhope, Sir Andrew Fountaine e outros. O dr. Desaguliers fez um discurso. O Grão-Mestre Sr. Payne mostrou um antigo manuscrito das Constituições, que ele obteve no oeste da Inglaterra e que tem 500 anos. Ele leu para nós um novo grupo de artigos que deveriam ser observados. O duque de Montagu foi eleito Grão-Mestre para o ano seguinte, e o Dr. Beal como substituto.[73]

Embora o relato de Stukeley seja muito mais sucinto do que a elaborada história de Anderson, nos fornece detalhes importantes. Em primeiro lugar, ele nos revela que, além da presença de Lord Stanhope – o futuro quarto conde de Chesterfield – também havia Lord Herbert – 9º Conde de Pembroke – que era arquiteto e mecenas, grande promotor do Palladianismo, e o intelectual Sir Andrew Fountaine, responsável pelas coleções de Lord Herbert e outro eminente promotor do Arquitetura Palladiana[74]. Em segundo lugar, Stukeley relata que George Payne apresentou um manuscrito com as “Old Charges“. Nós sabemos que era o manuscrito Cooke[75] graças ao desenho de Stukeley e porque o dito manuscrito estava sob a tutela da Grande Loja em seus primeiros anos, durante os quais William Reid fez duas transcrições do documento[76]. A descoberta do manuscrito Cooke, que talvez fosse considerado um compêndio de “mistérios dos antigos”, fez com que Anderson ficasse encarregado de resgatar as tradições e salvá-las dos “graves erros encontrados na história e na cronologia” ocorridos devido à “ignorância de escribas nas idades escuras e iletradas, antes do renascimento da geometria e da arquitetura antiga”[77].

Stukeley afirma que George Payne era o Grão-Mestre quando o duque de Montagu foi eleito, mas é surpreendente que nem mesmo um homem de ciência, tão bem socialmente conectado, nem mesmo a loja da Salutation Tavern não soubessem nada sobre Payne seis meses antes. Payne fora nomeado Grão-Mestre já em 1721? De igual forma, as reportagens dos jornais nos dizem que entre duzentos e trezentos maçons participaram do banquete no Stationers’ Hall, o que é uma mudança radical em relação a janeiro do mesmo ano. Aparentemente, durante a primeira metade de 1721, a Maçonaria realmente tomou um “grande impulso” e Stukeley teve a ver com isso. Em dezembro de 1721, Stukeley estava envolvido na fundação de uma loja na Fountain Tavern em The Strand, da qual foram membros Dr. Beal, Grão-Mestre substituto da Grande Loja, e o próprio Stukeley foi eleitoGrão-Mestre[78]. Ele nos diz que, em 1722, esta loja recebeu inúmeras pessoas famosas, como o Duque de Queensberry, o Duque de Wharton, Lord Hinchingbrooke, Lord Dumbarton e Lord Dalkeith[79]. O prestígio social deste Loja também foi registrado nas reportagens sobre a Maçonaria na imprensa da época.

A impressão que Stukeley nos passa da repentina aparição em cena da Grande Loja, em 1721, é corroborada por outra fonte que, apesar de não ser muito conhecida, fornece um relato crucial para a história da criação da Grande Loja. Se trata de uma cópia contemporânea de uma ata descrevendo a reunião, em 24 de junho de 1721, que se encontra nos arquivos da Antiquity Lodge nº 2, a mesma loja que se reunia na cervejaria Goose and Gridiron. Estes arquivos não foram suficientemente estudados, e aproveitamos a oportunidade para agradecer ao Venerável Mestre, Secretário e membros da Antiquity Lodge nº 2 que têm nos permitido, com todas as facilidades possíveis, examinar este manuscrito e tirar fotos dele.

Continua…

Autores: Andrew Prescot e Susan Mitchell Sommers
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: REHMLAC

*Clique AQUI para ler a primeira parte do artigo.

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Notas

[51] – El día de la anunciación, “Lady Day” en inglés, fue hasta 1752 (cuando el gobierno británico adoptó el calendario gregoriano) el primer día del año. Los contratos de arrendamiento de la época tenían vigencia de un año, e iban del “Lady Day” de un año al del siguiente (N. del T.)

[52] – Begemann, Early History, 609.

[53] – Begemann, Early History, 610.

[54] – La primera referencia de la Apple Tree en los registros de licencias de Westminster data de 1729, cuando le fue otorgada a James Douglas: London Metropolitan Archives, WR/LV/1/19. En otra publicación se hace la primera mención de Douglas como licenciatario de la taberna Apple Tree en 1736, véase Westminster City Archives Research Group, One on Every Corner: the History of Some Westminster Pubs (Londres: Westminster City Archives, 2002), 64. Este fue el año en que Douglas tomó posesión de su propiedad según consta en los Westminster City Archives, St. Paul Covent Garden Rate Books.

[55] – W. J. Williams, “A Masonic Pilgrimage through London”, AQC 42 (1930): 105-106.

[56] – Al parecer, James Douglas era yerno de Taylor. Thomas Taylor bautizó a su hija Mary en St. Paul Covent Garden en 1708. James Douglas se casó con Mary Taylor (aunque no sabemos si en realidad era la hija de Thomas) en 1728, justo cuando Thomas Taylor cedió la propiedad del local en Charles Street. Douglas bautizó cuatro hijos en St. Paul Covent Garden entre 1729 y 1733. Thomas Taylor reaparece en los registros como licenciatario de una propiedad en la cercana Brydges Street, también en Covent Garden, en 1729: London Metropolitan Archives, WR/LV/1/19.

[57] – The Golden Anchor se menciona en espacios publicitarios en el Daily Courant, del 16 de enero de 1718, en el Original Weekly Journal, del 1 de marzo de 1718, y nuevamente en el Daily Courant, del 22 de noviembre de 1722.

[58] – La última referencia de la Apple Tree que quedó registrada fue en 1751: London Metropolitan Archives, WR/LV/1/24. A partir de este punto, el nombre de Douglas se reemplazó por el de John Lemman. Un James Douglas fue enterrado en St. James Piccadilly en 1753: “England, Middlesex, Westminster, Parish Registers, 1538-1912”. City of Westminster Archives Centre, Londres, FHL microfilm 1042313.

[59] – QCA 10, 251.

[60] – St. Clement Danes, Pauper Settlements, Vagrancy and Bastardy Examinations, 13 de noviembre de 1742, ref. WCCDEP358180037-38; QCA 10, 123, 130, 134.

[61] -Berman, Foundations, 174-175.

[62] -Carpenter, Desaguliers, 45-46.

[63] – La presentación del libro ante el príncipe se consignó en los anuncios publicitarios de la obra, por ejemplo, en el London Daily Post and General Advertiser del 3 de noviembre de 1739 y en el Country Journal or The Craftsman del 24 de noviembre de 1739.

[64] – Andrew Pink, “Robin Hood and her Merry Women: Modern Masons in an Early Eighteenth-century London Pleasure Garden”, Journal of Research into Freemasonry and Fraternalism 4 (2013): 203-206; Christine Garrard, The Patriot Opposition to Walpole: Politics, Poetry, and National Myth (Oxford: Clarendon Press, 1994).

[65] – Dada la falta de evidencia sobre la existencia de la Gran Logia en 1721, es importante ser cuidadosos en la datación de los documentos. Por ejemplo, el reporte de una reunión masónica en Pontefract, publicado en el Leeds Mercury y citado por Berman en su obra Foundations, está basada en la calendarización “Old Style” (véase la nota 59), por lo tanto, la fecha correcta debería ser el 16 de enero de G. D. Lumb, “Extracts from the Leeds Mercury 1721-1729”, Thoresby Society 22 (1915), 187-188. De igual forma, el English Short Title Catalogue data la obra teatral satírica Love’s Last Shift or Mason Disappointed como de 1720, pero en realidad fue anunciada en el Stamford Mercury del 6 de junio de 1723 como una obra nueva.

[66] – Bodleian Library, MS Eng. misc. c.533: f. 34v; W. C. Lukis, ed., The Family Memoirs of the Rev. William Stukeley, M. D. (Surtees Society, 1880), vol. I, 62; David Boyd Haycock, William Stukeley: Science, Religion and Archaeology in Eighteenth-Century England (Woodbridge: Boydell Press, 2002), Una inspección del manuscrito revela que fue redactado por Stukeley en la fecha de los eventos.

[67] – “Southampton Street and Tavistock Street Area: Tavistock Street”, en Survey of London: Volume 36, Covent Garden, 218-222. La taberna Salutation se convirtió en uno de los refugios favoritos del príncipe regente. W. Earle, Sheridan and his Times (Londres: J. F. Hope, 1859), vol. 1, 299-311. Esta taberna no tenía relación alguna con la masonería, a excepción de lo que relata Stukeley sobre su iniciación, y no debe confundirse con la cafetería que estaba sobre la misma calle y que era propiedad del masón Richard Leveridge, error cometido por J. Timbs en su libro Clubs and Club Life in London (Londres: John Graham Hotten, 1872), 434-435, y repetido por E. Beresford Chancellor en The Annals of Covent Garden and its Neighbourhood (Londres: Hutchinson, 1930) 154.

[68] – Peter Earle, Treasure Hunt: Shipwreck, Diving and the Quest for Treasure in an Age of Heroes (Londres: Methuen, 2007).

[69] – Este es un concepto muy de habla inglesa, que no tiene una traducción directa al español. Se trataba de un cuaderno en el que las personas copiaban fragmentos de obras que hallaban interesantes, apuntaban datos diversos o ideas que venían a su mente o que escuchaban de alguien más. No era precisamente un diario. Podría pensarse más en un “cajón de sastre” o en “cuadernos de todo”, como llamó a los suyos la escritora Carmen Martín (N. del T.).

[70] – Bodleian Library, MS Eng. misc. e.260: f. 88; Family Memoirs, vol. I, 122; Haycock, 175.

[71] – Family Memoirs, vol. I, 51.

[72] – Book of Constitutions, 1738, 111.

[73] – Bodleian Library, MS Eng. misc. c.533, f. 35; Family Memoirs, vol. I, p. 64; D. Knoop, G. P. Jones y D. Hamer, The Two Earliest Masonic Manuscripts (Manchester: Manchester University Press, 1938), 55. Otra referencia que hace Stukeley a la cena del 24 de junio de 1721, que había pasado desapercibida previamente, se encuentra en la Bodleian Library, MS Eng misc e. 121: f. 30: “[1721] Junio 24. Cena con el D. Montagu y etcétera en la fiesta de los Masones en Stationers Hall”.

[74] – Véase T. P. Connor, “Herbert, Henry, ninth earl of Pembroke and sixth earl of Montgomery (c.1689–1750)” y Andrew W. Moore, “Fountaine, Sir Andrew (1676–1753)”, en Oxford Dictionary, nos. índ. 101013033 y 101009994 Berman, Foundations, 105,125,135,179.

[75] – Manuscrito fechado hacia el 1450 que mezcla un elogio de la geometría con fragmentos del antiguo testamento para hacer un relato de los orígenes de la masonería operativa. Una transcripción en inglés moderno se puede consultar en http://freemasonry.bcy.ca/texts/cooke.html (N. del T.).

[76] – Knoop, Jones y Hamer, Masonic Manuscripts, 55-57; G. P. Speth, “The Stukeley-Payne-Cooke MS”, AQC 4 (1891), 69-70; Family Memoirs, vol. I, no. 18, 64. El dibujo de Stukeley se supone que está junto con sus demás papeles en la Bodleian Library, pero hasta ahora no ha sido localizado.

[77] – Book of Constitutions, 1723, 73.

[78] – Bodleian Library, MS Eng. misc. c.533, f. 36; Family Memoirs, I, 66.

[79] – Bodleian Library, MS Eng. misc. c.533, f. 36v.

O ritual maçônico é uma inovação

CriminalCyprus

Quando o Venerável Mestre é perguntado, em sua instalação, se ele concorda que um homem ou qualquer corpo de homens, não podem fazer mudanças no corpo da Maçonaria, é importante compreender que isto se refere a preservação da estrutura organizacional da Ordem maçônica e não a seus rituais cerimoniais. Mais de um Grão-Mestre tentou aplicar esta advertência para o ritual maçônico em si. No entanto, uma breve análise do desenvolvimento dos rituais e suas muitas formas através do panorama das jurisdições maçônicas, vai mostrar rapidamente que esta pergunta veio das Old Charges e não tem nada a ver com os aspectos ritualísticos da nossa fraternidade. Nossos fundadores nunca tiveram a intenção de que os rituais cerimoniais permanecessem estáticos. A proibição de renovação não se aplica ao ritual maçônico, enquanto que esta é a única base sobre a qual toda a Luz da Maçonaria é transmitida e revelada.

Ainda que a Grande Loja Unida da Inglaterra insista que “a antiga e pura Maçonaria consiste em apenas três graus, incluindo o Santo Real Arco” o que é historicamente impreciso, as Grandes Lojas sempre tiveram o direito de decidir por si mesmos, como os seus rituais serão.

O único “antigo e puro” ritual maçônico no mundo é o ritual que existia em 1717, quando a primeira Grande Loja foi formada. Nós sabemos como foi aquele ritual porque ele foi amplamente publicado nos três primeiros manuscritos maçônicos, na forma de catecismos ainda existentes, em relação ao período de 1696-1715, os quais vieram da Escócia. O que é surpreendente sobre estas revelações é que elas encontraram o caminho para serem usados e adotados pelas lojas inglesas. Mais importante é que encontramos neles a maior parte do alicerce sobre o qual todos os rituais maçônicos foram erguidos mais tarde – a posição dos pés, a menção do “aprendiz” e “companheiro”, os cinco pontos do companheirismo, a menção do compasso, esquadro e Bíblia no mesmo contexto, o átrio do Templo do Rei Salomão, o sinal penal, existem muitas coisas para reconhecermos ali. É mais do que coincidência encontramos essas características em comum em todos estes catecismos antigos.

Um outro ponto é extraordinário em todos estes trabalhos: Graus não são mencionados. Quando a primeira Grande Loja no mundo foi criada, havia apenas a cerimônia de fazer um Maçom “Aceito” e a “Função do Mestre”. Na verdade, não temos nenhuma evidência de um sistema de três graus, ou de um terceiro grau, antes da famosa exposição de Samuel Pritchard intitulada de “A Maçonaria Dissecada”, publicado em 1730.

Isso faz com que o grau de Mestre Maçom na Maçonaria seja uma inovação!

Historiadores importantes concordam que o terceiro grau foi introduzido na Maçonaria em torno de 1725. Tornou-se popular ao longo das próximas duas décadas, principalmente porque os maçons adotaram a exposição de Pritchard como uma ajuda ao trabalho de memória. Sua obra não autorizada, se tornou o primeiro monitor maçônico e seria por décadas, o livro de rituais não oficial dos maçons. É também a primeira menção que temos da lenda de Hiram.

Ninguém sabe de onde essa história veio, mas supõe-se que Desaguiliers pode ter sido o autor, sendo Grão Mestre em 1719 e Vice-Grão Mestre em 1722 e 1726. Este foi o período em que o terceiro grau foi introduzido nas cerimônias da primeira Grande Loja. A lógica sugere que Desaguliers e seus irmãos maçons da Royal Society, poderiam ter sido os responsáveis. Certamente, nada poderia ter sido introduzida sem a sua aprovação. Na verdade, o Craft mudou drasticamente, enquanto Desaguliers estava em cena. A Grande Loja passou de um banquete anual para um órgão administrativo, com atas e orientação política para lojas, incluindo a estrutura de seus graus.

Se Desaguiliers e seus amigos de fato foram os autores do terceiro grau, voltaram a Maçonaria para um novo caminho. Em 1730, a cerimônia que conhecemos como Real Arco foi desenvolvida, a que reviveu uma história do grego antigo que data do ano 400. Em 1735, o Rito de Perfeição, consistindo de 14 graus, foi introduzido, estabelecendo uma cronologia bíblica para a estrutura do ritual maçônico. Tanto o Real Arco quanto o Rito de Perfeição, inovadores como eram, foram declarados pelos membros como “restabelecimento” da maçonaria antiga, porque eles automaticamente transmitiam uma face artificial da idade do grau ou da ordem. Depois de alguns anos, até os historiadores da Grande Loja estavam escrevendo que estes graus adicionados eram restaurações de um sistema mais antigo. Tornou-se moda acreditar que não havia nada mais inovador do que eles!

Claro que todos os novos graus/ordens foram adotados em uma única premissa – a que havia sido perdido no terceiro grau, tinha que ser encontrado. Por esta razão, todos eles apresentam uma semelhança surpreendente na estrutura e todos mostram que os sinais são provenientes da mesma fonte, com a mesma regularidade em sua forma. Mesmo com graus adicionais desenvolvidos, eles mantiveram uma estrutura “tradicional”.

Esta semelhança na estrutura é mais uma prova de que os nossos graus maçônicos, foram na verdade, criados em uma onda de moda. Todos eles insinuam que há grandes segredos para serem encontrados pelo maçom dedicado. E, de fato, existem.

Ao mesmo tempo que os graus e ordens foram crescendo aos trancos e barrancos, tanto no Rito de York quanto no Rito Escocês, ritualistas maçônicos nas lojas do Craft, continuaram a adicionar a linguagem dos três primeiros graus, acrescentando solidez à sua forma. Durante a segunda metade do século 18, um crescimento intelectual extraordinário foi adicionado ao velho conceito de “pura e antiga”, nos simples catecismos de 1717. Na verdade, o desenvolvimento e expansão do ritual, continuou a estar na moda como um dos meios de educar o Craft até a década de 1820.

Realmente foi criada uma escola de educação que prosperou por quase um século até as Grandes Lojas, principalmente as dos Estados Unidos, que determinaram que deveria haver apenas um ritual, aquele adotado por eles e todo o resto não importava. As Grandes Lojas dos EUA estabeleceram mais uma inovação na Maçonaria, que o ritual fosse imutável. Eles decidiram por si mesmos que a Maçonaria pura e antiga era a sua Maçonaria somente. O ritual maçônico se tornou uma coisa fixa e estagnada.

Esta inovação do século 19 pode ter marcado o início do declínio na Maçonaria. Foi durante essa época que as Grandes Lojas decidiram coletivamente, que não havia nada mais a ser aprendido no ritual maçônico. Nossas palavras foram congeladas no tempo.

Agora eu quero saber se é hora de criarmos mais uma inovação na Maçonaria, o de educar os maçons de que o uso ritual deve ser um processo dinâmico, assim como a aprendizagem é dinâmica. Claro, nós não precisamos adotar mais palavras. Mas leve em consideração como instrutivo seria se a diversidade de rituais fosse introduzida como uma ferramenta adicional para instrução, se rituais alternativos já adotados em outras jurisdições em todo o mundo, poderiam ser utilizados por vontade da loja e sancionada pela Grande Loja. Imagine como emocionante e revigorante seria se tivéssemos dez ou doze diferentes rituais disponíveis para nós em cada grande jurisdição!

Talvez seja hora de fazer a Maçonaria da moda outra vez, tanto através da variedade de sua forma de ritual e no desenvolvimento de sua forma intelectual, onde palestras, ensaios e diálogos são compartilhados regularmente em loja, todos focados em iluminar a mente. Talvez os jornais mais instrutivos e informativos, poderiam se tornar uma parte dos monitores impressos da Maçonaria, não deve ser memorizado, mas para ser sancionado e publicado para o benefício daqueles que querem ter acesso a mais conhecimento nas formas de maçonaria. Aqueles que sabem que mais luz na Maçonaria não é a propriedade da Grande Loja, mas sim, do indivíduo e seus irmãos em sua busca coletiva de uma vida, a busca por aquilo que foi perdido nas palavras e seus significados.

Em práticas como essas, nós não devemos, mais uma vez exercitar a “pura e antiga” Maçonaria? Poderia ser apenas mais uma inovação digna de nosso antigo Craft.

Autor: Robert G. Davis
Traduzido por: Luciano R. Rodrigues

Fonte: O Prumo de Hiram

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Investigando a visita de Desaguliers a Loja Mary’s Chapel Nº1

Mary's Chapel - a loja maçónica mais antiga do mundo - Freemason.pt

Considerado o Pai da Maçonaria Especulativa Moderna, um dos fundadores e terceiro Grão-Mestre da Grande Loja de Londres, John Theophilus Desaguliers, fez uma viagem a Edimburgo em 1721, onde foi recebido como irmão em uma loja Escocesa. Desde então, rios de tinta foram utilizados para tentar explicar as razões para tal visita.

1 – Desaguliers foi um cientista e engenheiro. Ele foi contratado para inspecionar e melhorar o sistema de abastecimento de água de Edimburgo. A viagem foi apenas para isso?

2 – Ele foi recebido na Loja Mary´s Chapel e aceito como um irmão Maçom. Então, a Maçonaria Inglesa e a Escocesa compartilhavam as formas de reconhecimento?

3 – Ele participou da incorporação de funcionários do governo da cidade que o havia contratado. Foi por causa de sua influência?

4 – O terceiro grau, de mestre maçom, ainda não existia ou era uma criação recente. Ele viajou para a Escócia afim de promovê-lo?

Todas estas questões ainda não foram esclarecidas, mas vamos analisar as informações que temos conhecimento.

A situação na Escócia no início do século 18

Antes de falarmos sobre o dia 24 de agosto de 1721, vamos entender como estava a Escócia naquele momento.

Habitada por cerca de um milhão de habitantes contra 5 milhões da Inglaterra, seu rendimento nacional era da ordem de 1/38 da Inglaterra, com uma população predominantemente rural. Edimburgo, a maior cidade da Escócia tinha cerca de 30 mil habitantes, que era o nível de muitas cidades do interior da Inglaterra. Glasgow, a segunda maior cidade do país, não tinha mais do que 15 mil habitantes e Aberdeen, Dundee, Perth e St. Andrews eram apenas aldeias de 4 a 5 mil habitantes.

A situação econômica da Escócia era catastrófica. Os anos de 1692 a 1699, chamados de “os sete anos malditos do Rei Guillermo”, foram dramáticos:

Os invernos rigorosos se sucediam com muita chuva e dando lugar a fome.

“…Pode se ver homens e mulheres caírem de fome ao longo de estradas e caminhos, crianças que morrem por esgotamento do leite de suas mães. A morte está presente, principalmente entre os pobres (…)”

A higiene era deplorável. Somente uma rua de Edimburgo era pavimentada e epidemias não paravam de castigar a população.

Consequência imediata desta fome foi a imigração para os Estados Unidos, a maior influência sobre a demografia. Estima-se em 100 mil o número total de escoceses expatriados no curso do século 17.

As importações oriundas da Inglaterra eram quase inexistentes. E os escoceses não tinham acesso aos mercados administrados por colônias inglesas. Esse bloqueio, se não o isolamento, os incentivou a embarcar na aventura da colonização.

William Patterson, nascido em 1658, era rico. Ele fez uma fortuna na América e na Índia. Voltou para a Escócia e anunciou um projeto de colonização no Istmo de Darien, o que corresponde hoje ao Panamá.

A ideia do projeto era fazer comércio terrestre entre mercados marítimos do Atlântico e do Pacífico. Ele criou em Edimburgo a “Company of Scotland Trading to Africa and the Indies” (Companhia de Comércio Escocês para a África e as Índias) e vendo isso como uma tentativa de competir com a Companhia das Índias Orientais (East India Company), os escoceses o financiaram, afim de forçar os holandeses a se retirarem.

Patterson criou tanto entusiasmo, que milhares de escoceses participaram para financiar o projeto, somando um total de 400.000 libras, que era estimativamente, a metade do capital nacional da Escócia. Então, em 12 de julho de 1698, cerca de 1.200 voluntários deixaram o porto.

Em 02 de novembro de 1698, desembarcaram em um lugar que eles batizaram como Nova Caledônia. Mas eles não encontraram nada mais do que uma terra inóspita, formada principalmente de pântanos e terra estéril. Ao mesmo tempo, um segundo contingente de cerca de 1.300 colonos partia da Escócia. Sob pressão dos espanhóis, os colonos decidiram deixar o Istmo de Darien. Dos 16 navios que partiram, só restava 1. Mais de 2000 escoceses morreram na aventura e muitos mais foram arruinados.

Assim, nesta situação econômica, demográfica e social, catastrófica, o Parlamento ratificou em 16 de janeiro de 1701, o Ato de União com a Inglaterra por 110 votos a 69.

Este ato estava longe de contar com a unanimidade. Robert Burns disse sobre os deputados escoceses:

“Eles são comprados e vendidos em ouro Inglês”.

A população começou a promover tumultos e protestos, por uma maioria que estava contra a união, “contra a natureza”, depois de tantos anos.

E nesse clima tenso (como sempre), novamente entre a Inglaterra e a Escócia, é que a viagem de John Theophilus Desaguliers acontece.

Não sabemos quase nada da Grande Loja de Londres em 1721, e se deve principalmente à queima dos arquivos em 1722. De 1717 a 1722, portanto, não existem arquivos ou certezas.

Sabe-se que deste tempo, James Anderson reescreveu, a partir de sua memória, as atas dos primeiros cinco anos da Grande Loja de Londres. Mas podemos atribuir crédito?

James Anderson diz, por exemplo, que na formação de 1717, Anthony Sayer foi eleito, afim de esperar por um nobre para ocupar este cargo.

Foi real o que ele disse e decidiu ou apenas um elogio para o Duque de Montagu, eleito em 1721 ou para o Duque de Wharton em 1722?

Em 1722, John Theophilus Desaguliers deixou seu cargo de Grão-Mestre. E foi Grão-Mestre Adjunto em 1723. Qual foi o seu papel, a sua ação dentro da Grande Loja?

Sabemos que ele encomendou a James Anderson, cuja principal ocupação era criar genealogias, escrever a história do ofício.

Sabemos também que muitas personalidades, notáveis do mundo científico e da aristocracia, entraram na Maçonaria neste período.

Devemos lembrar que das quatro lojas que compuseram a Grande Loja de Londres, presume-se que três foram criadas para a ocasião. Em 1722 já haviam 24 lojas, demonstrando o crescimento significativo da Grande Loja em suas origens.

É atribuído a John Theophilus Desaguliers um papel muito importante no recrutamento desta época e, em especial, o Duque de Montagu. É verdade que Desaguliers tinha muitas relações com pessoas importantes.

É evidente que, quando não estava ocupando um posto importante na Grande Loja, Desaguliers continuava bem ativo.

A situação da loja Mary’s Chapel

A situação da loja Mary’s Chapel era muito diferente. Em primeiro lugar ela enfrentava uma nova “concorrência”.

Vamos ler o que Stevenson disse:

“… justamente no final do século 17, havia na área urbana uma única loja sob o controle da cidade de Edimburgo, embora os maçons de Canongate pertencessem a outra loja, a de Aitchison Haven.” (Canongate é um distrito de Edimburgo)

Na segunda década do século 18, haviam cerca de quatro lojas na área, duas das três novas, tinham sido fundadas para desafiar a Mary´s Chapel.

Em 1667, os maçons de Canongate, onde a jurisdição da Mary´s Chapel não era aplicável, fundaram a sua própria loja, e em 1688 os maçons de Leith os imitaram. Em 1708, houve um grave conflito dentro da Loja Mary´s Chapel, que levou inúmeros companheiros a saírem da loja e fundarem sua própria organização, que se tornou uma loja separada.

Longe de ser a “Primeira loja” da Escócia, no sentido de exercer alguma autoridade sobre outras lojas no país, como William Schaw tinha planejado um século antes, a Loja de Edimburgo não poderia impor sua vontade ou suas próprias portas!

O outro ponto importante da situação da Loja Mary´s Chapel, é o momento da visita de John Theophilus Desaguliers, sobre o recrutamento dos não operativos.

Entre 1630 e 1674, ele tinha começado lentamente um trabalho com os não operativos que eram iniciados.

E assim, por vinte e cinco anos, cerca de 1700, mas especialmente em 1706, aparecem entre os outros como admitidos, Samuel Mc Clellan (Lorde Maior de Edimburgo) e reitor da Guilda. Em 1710 se vê uma grande admissão de não-operativos, cirurgiões, arquitetos, reitores de guildas, e etc. Dois carpinteiros também foram admitidos em 1711. Entre 1700 e 1710 a Loja Mary´s Chapel claramente transformou a “Aceitação”, fato que antes não havia nenhum interesse.

A estadia em Edimburgo

Nós não conseguimos encontrar qualquer vestígio da partida de Desaguliers de Londres para Edimburgo. No entanto, as “Atas do Conselho da Cidade” de Edimburgo dizem que Desaguliers foi recebido como um burguês da cidade, “Irmão de Guilda” na forma mais ampla e livre, pelo reitor da Guilda de Edimburgo, em 18 de janeiro 1721.

Isto levanta a seguinte questão: John Theophilus Desaguliers voltou a Londres para assistir à instalação do Duque de Montagu em 24 de junho 1721 e voltou para Edimburgo depois?

O que é certo, é que ele foi chamado pela cidade para resolver um problema de canalização de água do aqueduto de Comiston. Um aqueduto com o comprimento de três milhas, que alimentava o reservatório de água por gravidade natural, ligado a cinco fontes situadas na cidade.

Como o fluxo de água parou, Desaguliers se viu com verdadeiro problema: as bolsas de ar que bloqueavam a circulação da água. A história oficial diz que Desaguliers resolveu o problema colocando uma válvula que permitia a evacuação do ar de forma manual e em 1726 criou um tipo de êmbolo que funcionava automaticamente.

24 de agosto de 1721

O que Desaguliers fez durante esse mês em Edimburgo, ninguém sabe. Só que em 24 de agosto de 1721, está escrito na ata da Mary´s Chapel:

“James Wattson, Diácono dos maçons de Edimburgo, presidiu. O dito Dr. John Theophilus Desaguliers, Companheiro da Royal Society e Capelão ordinário da Sua Graça, James Duque de Chandois, o último Mestre Geral das Lojas Maçônicas na Inglaterra, estando na cidade e desejoso de realizar uma reunião com o Diácono, o Vigilante e os Mestres Maçons de Edimburgo, o que lhe foi autorizado e ele se encontrando devidamente qualificado em todos os pontos da Maçonaria, foi recebido como um Irmão da Sociedade”.

Muitas observações vêm à mente com a leitura desta ata. 

O primeiro ponto diz respeito ao título que é dado a John Theophilus Desaguliers. Um Companheiro da Royal Society em primeiro lugar, por isso, o mais prestigioso.

Em seguida, o título que garante sua renda constante: Capelão para o Duque de Chandois. E no final o título de “Último Mestre Geral da Lojas Maçônicas da Inglaterra” (Grão-Mestre dos Maçons) até junho de 1721.

Mas o secretário de Mary´s Chapel não o chamou de Grão-Mestre, mas de Mestre Geral da Lojas Maçônicas da Inglaterra, o que não é o mesmo.

Alguns viram nisso uma vontade escocesa de não vai reconhecer a Grande Loja de Londres e, portanto, como um sinal de desconfiança, pelo menos.

Mas olhando bem, o título dado a John Theophilus Desaguliers foi ainda de mais prestígio, pois conferiu-lhe autoridade sobre todas as lojas maçônicas da Inglaterra.

Podemos propor as seguintes perguntas:

  • De onde veio tal título?
  • É uma certa desconfiança em relação à Grande Loja de Londres?
  • É, pelo contrário, um reconhecimento lisonjeiro por parte dos membros da Mary´s Chapel?
  • Será o título que Desaguliers dava a si mesmo?
  • Ou poderia ser que ele apresentou a Grande Loja de Londres como a organização que reagrupou e tomou autoridade sobre todas as lojas maçônicas inglesas?

O segundo ponto diz respeito a frase “desejoso de realizar uma reunião”.

A frase é clara: Desaguliers pediu para se encontrar com membros da Mary´s Chapel e é de se notar que não estava pedindo para ser admitido na loja. Ele só queria uma reunião. Vamos voltar mais tarde a este assunto.

O terceiro ponto diz respeito à passagem: “ele se encontrando devidamente qualificado em todos os pontos da Maçonaria”. Sabemos que essa expressão é tipicamente escocesa, mas não sabemos a que isso se refere. Em outras palavras, quais são os pontos da Maçonaria? É a Palavra do Maçom? É o conhecimento da abertura e fechamento da loja? É o conhecimento dos rituais de cerimônias de iniciação e passagem para o grau de “Companheiro”?

A expressão contém seus mistérios. De todo modo, ela está presente na ata da Mary´s Chapel.

De fato, a única razão plausível para Desaguliers ter respondido corretamente o telhamento dos membros da Mary´s Chapel, é que os rituais praticados em Edimburgo e em Londres, eram muito semelhantes. Qualquer outra explicação não refletirá a realidade do que aconteceu.

Mesmo atualmente, nossas atas contém expressões tradicionais que não correspondem em absoluto com o que é a realidade.

Um exame mais detalhado da ata da Mary´s Chapel, demonstraria se a expressão era utilizada toda vez que um visitante era telhado.

Quarto e último ponto: “foi recebido como um Irmão da Sociedade”. Essa passagem levou a numerosas interpretações devido à ambiguidade do texto. De fato, como no francês, o verbo “receber” poderia ser usado tanto para indicar a recepção em uma reunião, assim como ser recebido como membro da loja também.

Lembre-se que Desaguliers tinha pedido uma reunião, mas não ser recebido em loja.

A ata da loja relacionada com as suas reuniões oficiais, diz que Desaguliers foi recebido como um irmão.

Stevenson e Murray Lyon consideravam que Desaguliers se tornou um membro da Loja Mary´s Chapel. Pode até ser, mas nenhuma expressão indica este fato. Contudo pode-se pensar que ao ser telhado, ele foi considerado um maçom, e, consequentemente, um irmão, mas não um membro da loja.

Há um elemento que parece dar razão a Stevenson e Murray Lyon. De fato, podemos constatar nas atas posteriores da Mary´s Chapel que os visitantes são chamados assim, mas não os irmãos da loja. Além disso, o telhamento não é mencionado, e parece que, por ocasião da visita do Desaguliers, o que foi feito foi algo extraordinário em todos os sentidos do termo.

O 25 e 28 de agosto de 1721

Continuando a leitura das atas da Mary´s Chapel, com os acontecimentos após o dia 24 de agosto de 1721:

“… no dia 25 deste mês, Diáconos, Vigilante, Mestres e muitos outros membros da Sociedade, reuniram-se com o dito Dr. Desaguliers que estava na Mary´s Chapel, onde um pedido foi apresentado por John Campbell, Lorde Maior de Edimburgo; George Preston e Hugo Hathom, oficiais de justiça; James Nemo, tesoureiro; William Livingston, Reitor Secretário de Negócios; e George Irving, Secretário do Reitor do Tribunal da Guilda; e desejando forte e humildemente serem admitidos para a referida Sociedade; e sendo considerado por eles, nesse sentido, responderam favoravelmente ao seu desejo e essas pessoas honrosas foram admitidas e recebidos Aprendizes Ingressados e Companheiro do Ofício”.

Na ata seguinte, de 28 de agosto 1721, apenas três dias depois:

“Ainda assim, no dia 28 do mesmo mês e por uma reivindicação feita por Sir Duncan Campbell de Loghnell, Barão; Monsieur Robert Wightman, atual Reitor da Guilda de Edimburgo; Monsieur Gorge Drummond, último Tesoureiro da mesma; Archibald Mac Aulay, último Conselheiro municipal e Patrick Lindsay, comerciante; desejando o mesmo favor, que lhes foi aceito e foram recebidos como membros da Sociedade, como as outras pessoas mencionadas. No mesmo dia, James Key e Thomas Aikman, servidores de James Wattson, Diácono dos maçons, foram admitidos e recebidos Aprendizes Ingressados, pagando a James Mack os direitos comuns”.

Vamos analisar este texto. Primeiro de tudo, a presença de John Theophilus Desaguliers não é expressamente atestada assim como em 25 agosto de 1721, durante sua primeira visita.

Embora em 28 de agosto se estipule o que aconteceu assim como em 24 de agosto, isso não inclui a presença de Desaguliers.

A questão de saber o porque ele estava presente no dia 24 de agosto e não no dia 28, me parece conveniente, estudar que eram as pessoas iniciadas naqueles dias.

Nota-se que em 24 de agosto de 1721 foram iniciados o Lorde Maior (prefeito), o Tesoureiro da cidade, 2 Oficiais de justiça, um representante dos comerciantes, todos da cidade. Em suma, os empregadores de John Theophilus Desaguliers em Edimburgo, que haviam lhe encomendado o trabalho e pago por eles.

Então, é bastante natural que Desaguliers estivesse presente nas suas iniciações. Em vez disso, no dia 28 agosto de 1721, eram essencialmente pessoas da Guilda, que foram recebidos. Não se pode dizer que a ausência de John Theophilus Desaguliers tivera sentido em 28 de agosto, no entanto em 24 de agosto, sim, tinha sentido.

Só mais uma observação: dois servidores foram iniciados em 28 de agosto de 1721, o que poderíamos supor que havia um desejo de expansão social dos membros da loja.

No entanto, estes dois servidores não serviam ninguém menos que o Diácono dos maçons, que poderia ser um membro da Loja. Deste modo, uma revisão cuidadosa das atas da Mary´s Chapel, poderia nos dizer algo.

Podemos notar que foram iniciados, mas não se tornaram Companheiros do Ofício e ainda foram os únicos que pagaram por seus direitos. Esse ponto parece revelar um detalhe da sociedade da época.

Pode ser que as personalidades recebidas na Mary´s Chapel, o haviam sido por agradecimento (por exemplo, por ter contratado John Theophilus Desaguliers) ou porque era uma honra para a Loja, ter celebridades. Também pode-se dizer que a cortesia mais elementar, exigia que nunca falassem sobre questões monetárias com pessoas de posição, mas você poderia fazer quando se tratava de servidores.

Seguindo Murray Lyon, vamos conhecer quem foram os 13 personagens iniciados em 25 e 28 de agosto de 1721:

John Campbell, iniciado em 25 de agosto de 1721, foi o Lorde Mayor (Prefeito) de Edimburgo entre 1715 e 1720 e novamente entre 1723 e 1724. Campbell era conhecido por sua ação dentro da cidade, pois permaneceu leal ao governo durante a rebelião de 1715.

Archibald Mac Aulay, iniciado em 28 de agosto de 1721, também foi Lorde Mayor (Prefeito) de Edimburgo entre 1727 e 1749. Mais tarde, ele se tornou Lorde Conservador dos privilégios escoceses em Cámpvere. Lorde Conservador tem a função de gerenciar uma área pública do País, proteger os direitos dos plebeus e conservar a beleza natural da sua área.

Campvere, que antes chamava Veere, é uma cidade dos Países Baixos. Pelo casamento do Lorde de Veere com a filha de James I da Escócia, em 1444, a cidade recebeu como um privilégio, ser a única cidade onde poderiam ser recolhidos produtos escoceses para ser vendidos a outras regiões. Escoceses que viviam em Veere foram sujeitos apenas à lei do “Conservador da nação escocesa”. Tal privilégio foi removido em 1847.

Patrick Lindsay, iniciado em 28 de agosto de 1721, era um comerciante muito conhecido, foi eleito quatro vezes como Prefeito de Edimburgo e representou a cidade no parlamento, entre 1734 a 1741. Foi também governador de Isle of Man, uma ilha localizada entre a Irlanda e a Grã-Bretanha.

Sir Duncan Campbell, iniciado em 28 de agosto de 1721, foi o descendente direto do terceiro Conde de Argyll, mas, sobretudo, um amigo pessoal e conselheiro da rainha Anne. No funeral de seu pai, em 10 de janeiro de 1714, foi uma ocasião de uma manifestação importante, a favor dos Stuarts exilados. Diz-se que este enterro foi realizado na presença de 2.500 homens armados. Sir Duncan Campbell tornou-se capitão de um dos seis regimentos independentes, formados pelo governo em 1729. Esses regimentos foram apelidados de “Os sentinelas negros”. O primeiro coronel dos “Sentinelas Negros” foi John, Conde de Crawford e membro da Loja Mary´s Chapel.

Portanto temos, um nobre, amigo pessoal e conselheiro da rainha Anne, três prefeitos da cidade de Edimburgo, três oficiais de justiça, o tesoureiro da cidade, o Reitor da guilda, o secretário do ex-Reitor e do Reitor do Tribunal da Guilda, o responsável pelos negócios. E todos se tornaram membros da loja Mary´s Chapel em quatro dias.

Difícil fazer melhor, não? E tudo isso durante a visita de John Theophilus Desaguliers; a coincidência é pelo menos motivo de estudo.

Resumo

Tendo visto o contexto geral e estudado da forma mais objetiva possível ata da Loja Mary´s Chapel para os dias 24,25 e 28 de agosto de 1721, é hora de tentar sintetizar o que sabemos ou podemos supor, de tais fatos, e as consequências da visita de Desaguliers a esta Loja Escocesa.

Com os elementos reunidos, que estão em nossa posse, a maioria das suposições são plausíveis e, em todo caso, não se contradizem com os textos da época.

Por exemplo, não sabemos o real propósito da viagem de Desaguliers para Edimburgo. Se era puramente profissional ou puramente maçônico. Se foi para lucro ou prazer. Não sabemos mais nada de sua presença em Edimburgo. De acordo com AQC (Ars Quatuor Coronatorum), ele estava lá, em janeiro de 1721, para uma reunião com o prefeito de Edimburgo. É razoável pensar que era por razões profissionais, para o problema hidráulico, mas parece que durante o verão, ele fez várias visitas a Edimburgo.

Mas será que ele não estava presente na instalação do Duque de Montagu, na Grande Loja de Londres, em 24 de junho?

Será que viajou de volta, mesmo sabendo que levaria quatro ou cinco dias para ir de Londres a Edimburgo?

Que contatos ele fez em Edimburgo, antes de 24 de agosto de 1721?

É difícil imaginar que Desaguliers apareceu na porta da Mary´s Chapel, anunciando que 11 membros eminentes da cidade queriam ser iniciados na Maçonaria. É mais provável que os contatos haviam ocorrido muito antes disso.

É certo que Desaguliers conheceu seus empregadores antes de agosto de 1721. É também provável que ele também manteve contatos anteriores com membros da guilda ou da Loja.

O fato é que Desaguliers pediu uma reunião oficial com membros da Mary´s Chapel. Na verdade, é nesse momento que Desaguliers pediu a James Anderson para reescrever a história do Craft, que os maçons da época não sabiam quase nada, de modo que qualquer informação sobre as origens escocesas era importante. Será que a escolha de Anderson foi porque seu pai tinha sido um membro da Loja Aberdeen, na Escócia?

Alguns historiadores argumentam que John Theophilus Desaguliers veio com rituais puramente ingleses para que as lojas escocesas os adotassem, em um tipo de demonstração, que teria ocorrido em 02 de agosto de 1721.

Esta tese não é de forma unânime e mostra aqui que durante os primeiros três anos, a Maçonaria Escocesa pode ter influenciado a Inglesa, pelo menos no início. O mais provável é que John Theophilus Desaguliers não viajou com o propósito de iniciar personalidades importantes.

Desaguliers tinha conhecimento dos membros importantes do Conselho, os contatos com as cortes aristocráticas poderiam ser de interesse da Loja Mary´s Chapel. Foi sem interesse que Desaguliers apresentou estes candidatos a Loja? Ou era, uma troca de favores?

Outra hipótese da coincidência: Desaguliers iria visitar os membros da Mary´s Chapel e relatou que seus empregadores queriam ser iniciados.

Eles querem se juntar a nós? …. Então temos que verificar se Sois Maçom… (O que foi verificado, de acordo com a ata).

Conclusão

Muitas das perguntas realizadas durante a confecção deste texto, não foram elucidadas. Nós propomos desde a introdução, tentar responder à questão da visita de Desaguliers a Edimburgo: Viajou para contribuir com algo ou para levar algo a esta loja?

Na primeira parte da questão, parece muito provável que Desaguliers beneficiou a Loja Mary´s Chapel com suas relações, ajudando o ingresso de personalidades, coisa que durante anos a loja tentou fazer.

Quanto à possibilidade de que Desaguliers pudesse ter introduzido o terceiro grau na Escócia durante a sua visita, não parece ter lógica, pois a história nos diz que esse grau não foi praticado na Mary´s Chapel, antes de 1738, ou seja, 17 anos após a visita de Desaguliers e dois anos após a criação da Grande Loja da Escócia.

Como naquele tempo, Desaguliers estava escrevendo a história da Maçonaria, e para dar crédito a Grande Loja de Londres, qualquer informação que pudesse enriquecê-lo, certamente interessaria Desaguliers. Por exemplo, a semelhança entre os rituais escoceses e ingleses da época.

O assunto é complexo e exige não apenas conhecimento histórico e maçônico. Acredito que um estudo mais apurado sobre as condições da criação da Grande Loja da Escócia em 1736, nos trará luz sobre as ações de John Theophilus Desaguliers.

Autor: Luciano R. Rodrigues

Fonte: O Prumo de Hiram

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Referências

R. Dachez – Renaissance Traditionnelle, n°83, 1990.

W. Ferguson – Scotland, 1689 to the present.

M. Duchein – Histoire de l’Ecosse.

D. Stevenson – Les premiers Francs-Maçons.

City Council Minutes (Transactions of Quator Coronati Lodge, vol 111 & 112).

A.W. Skempton – A biographical dictionary of civil engineers in Great Britain and Ireland.

David Murray Lyon – History of the Lodge of Edinburgh, Mary’s Chapel n°1.

The Builder Magazine, vol 14, 1928.

Texto de François Delaporte – Loge d’études et de recherches William Preston – 2008

John Theophilus Desaguliers, o pai da Maçonaria Especulativa

Traveling Templar: John Theophilus Desaguliers: Father of Modern  Speculative Freemasonry

Introdução

“Na atualidade, o nome Desaguliers é familiar apenas para poucos maçons. Mas eles deveriam saber que a ele, talvez mais do que qualquer outro homem, devemos a existência atual da Maçonaria como uma instituição viva, …. E a quem, talvez, mais do que qualquer outra pessoa, a atual Grande Loja da Inglaterra deve a sua existência. (Albert G. Mackey).

“Ele pegou uma antiga ordem que estava morrendo e deu uma filosofia que lhe era muito própria e peculiar. Ele acrescentou um toque de ciência, um conceito prático do Grande Arquiteto e Organizador do Mundo. Ele soprou uma oração e nasceu a maçonaria especulativa” (George E. Maine – Grande Orador da Grande Loja de Washington em 1939).

No ano de 2000, em um artigo sobre “as dez teorias propostas sobre a origem da maçonaria”, da Ars Quatuor Coronatorum, encontramos a citação abaixo, sobre “A teoria das origens rosacruzes” de A. Cosby F. Jackson:

Jackson propôs que duas fraternidades, a Maçonaria especulativa e o Rosacrucianismo, foram lançadas com poucos anos de diferença por homens de qualidades intelectuais semelhantes. Ambos teriam começado no século XVII com propósitos parecidos, o auto aperfeiçoamento e o misticismo religioso. O Rosacrucianismo espalhou-se rapidamente com ideias da alquimia, enquanto a Maçonaria tinha um atrativo diferente, e consequentemente se desenvolveu mais lentamente.

Havia apenas dois vínculos plausíveis:

  1. A importância da piedade cristã e auto aperfeiçoamento.
  2. Os membros das duas convicções poderiam estar envolvidos com a recém-fundada Royal Society, que fora estabelecida por senhores cultos.

A pesquisa

Neste texto vamos examinar a criação da Maçonaria que conhecemos, especialmente o seu principal fundador, Rev. Dr. John Theophilus Desaguliers.

Ao fazê-lo, chegamos à conclusão de que, em vez de reviver fielmente os segredos e mistérios de pedreiros medievais e operativos, Desaguliers e seus associados criaram uma nova instituição (com alguns elementos antigos, reais ou imaginários, contudo, eles eram bem diferentes dos empregados pelos operativos).

Nesta nova instituição, eles conseguiram inserir em quatro ou mais lojas de Londres, e estes perpetuaram, alguns usos e costumes remanescentes dos maçons (pedreiros) artesãos.

A Grande Loja de Londres foi criada em 1717. No primeiro ano, o Grão-Mestre foi Anthony Sayer, que não fez nada para o desenvolvimento da ordem. No ano seguinte, o segundo Grão-Mestre, George Payne, provou ser um administrador competente, mas não excepcional. Até que em 1719, momento que a Grande Loja enfraquecia, foi reavivada pela liderança de John Theophilus Desaguliers depois de ser eleito como o terceiro Grão-Mestre.

Sua visão extraordinária transformou o que tinha sido até então, pouco mais do que uma combinação de clubes de bebedores, com uma instituição nobre e da moda, eminentemente preparada para o aparecimento do Século das Luzes, ou mais conhecido como o Iluminismo.

Todos os Grãos Mestre subsequentes foram patronos “só de nome”, de nascimento aristocrata ou real, cuja rotina de trabalho era depositada no Deputy (ou Adjunto), posição ocupada por Desaguliers por três vezes.

Desaguliers é considerado unanimemente como o criador da primeira Grande Loja.

No livro The Royal Masonic Cyclopaedia de 1987, o autor Kenneth Mackenzie nos diz:

“Por seu ardor despertou as energias dos maçons de seu tempo, e depois da conferência preliminar com o velho Christopher Wren (talvez apócrifa), reuniu quatro lojas em Londres em 1717, quando a Grande Loja foi formada. Sob Dr. Desaguliers, o Ofício cresceu rapidamente em força, número, respeitabilidade e influência, muitos nobres participaram das cerimônias e posteriormente como oficiais”.

Outro ponto sobre o qual o Dr. Desaguliers tinha muito interesse foi a coleta de documentos antigos relativos ao Ofício (Craft) e a isso se deve a preservação das “Obrigações dos maçons” e a preparação do Regulamento Geral.

Em suas Constituições de 1723, James Anderson dá o crédito a seu mentor, de ter auxiliado no trabalho, provavelmente exagerando o papel de Desaguliers para dar brilho ao que era essencialmente o trabalho do próprio Anderson, e assim conseguiu a aprovação da Constituição pela Grande Loja.

Referindo-se novamente ao livro de Kenneth Mackenzie:

“Depois de se retirar do cargo em 1720, ele (Desaguliers) foi nominado por três vezes como Grão-Mestre Adjunto (Deputy ou Vice Grão-Mestre): em 1723, pelo Duque de Wharton; em junho do mesmo ano, pelo Conde de Dalkeith; em 1725, por Lord Paisley; e durante este período de serviço ele fez muitas coisas para o benefício do Ofício, entre outros, iniciando o esquema de caridade que foi posteriormente desenvolvido no que é hoje conhecido na Grande Loja da Inglaterra como o Fundo de Benevolência.

Durante este período, ele visitou lojas operativas em Edimburgo. (Este ponto é tão interessante que será explorado em outro post)

Em seguida, ele viajou para a Holanda e foi mestre de uma loja especialmente reunida para iniciar o Duque de Lorena, mais tarde Grão Duque da Toscana e imperador da Alemanha. Ele também iniciou o príncipe de Gales em Kew em uma loja formada especialmente para este propósito.

Através da força de sua própria personalidade, ele atraiu a sua nova instituição, homens importantes na Inglaterra, a realeza, os nobres, a elite, a as grandes mentes.

Devido a pureza de seus princípios e a importância desses primeiros líderes reunidos por Desaguliers, a Maçonaria desde estes dias, é uma coisa viva, pulsando com o melhor que há em cada homem. Alguns escritores afirmam que Desaguliers “foi quem escreveu a maioria de seus rituais”.

Dr. Oliver em “Os Princípios Peculiares do Ofício”, diz:

“Seu desempenho (Desaguliers) poderia ter contribuído para o benefício de toda a comunidade, se tivesse sido encaminhado em uma certa direção desde a saída de Sir Christopher Wren”.

Podemos supor que Desaguliers tentou redirecioná-los para algo totalmente novo (a influência de Wren é duvidosa e provavelmente foi invocada para legitimar as inovações de Desaguliers).

Em “The Ritual of the Operative Freemasons” (Carr), ficamos surpresos pela falta de semelhança entre o sistema de guildas de Londres, de sete graus, e os atuais três graus da Maçonaria simbólica.

A palavra de cada um dos primeiros graus é totalmente diferente (não apenas transposta como aconteceu depois) do que é utilizado na moderna maçonaria especulativa e os pilares que são tão proeminentes em graus especulativos tinha um significado muito diferente entre os operativos.

Além disso, como afirma Bernard E. Jones em “Freemasons Guide and Compendium”, observamos que entre os maçons especulativos não há registros de um terceiro grau ou a lenda de Hiram até cerca de 1726, quando aparece, e não se assemelha a nada praticado entre os pedreiros operativos.

O que Desaguliers teria em mente ao criar a Maçonaria que nos é familiar?

A pergunta nos leva a tentar entender como era este irmão.

Desaguliers era um cientista de renome, amigo íntimo de Sir Isaac Newton (Presidente da Royal Society de 1703 até sua morte em 1727) e Desaguliers era um Companheiro desta sociedade.

Tal influência se reflete nos rituais da Maçonaria, com a ênfase nos “Mistérios ocultos da natureza e ciência”, as “Sete Artes Liberais e Ciências” e seu discurso por um “avanço diário no conhecimento maçônico” e como os escritores Hamill e Gilbert nos diz em “The First Grand Lodge”:

“Parece haver pouca dúvida de que a quantidade de Companheiros da Royal Society, que se tornaram maçons, foi devido à influência do exemplo de Desaguliers e certamente não foi por acaso que, pelo menos, 12 dos Grãos Mestres foram Companheiros da Royal Society ao longo dos 20 anos após Desaguliers.”

Na verdade, a ideia de que a Maçonaria especulativa foi o produto da Royal Society é uma das teorias mais plausíveis sobre as origens da maçonaria, que citada por Mackey em “The History of Freemasonry”. No entanto, apesar da prevalência da moda do Rosacrucianismo no início do século XVIII, quando a alquimia era considerada uma ciência e da influência que o Rosacrucianismo pode ter exercido tanto na Royal Society quanto na Maçonaria, a última conexão e direta entre os dois parece estar ausente por um motivo a se observar: enquanto que os aspectos práticos do Ofício dos operativos podem ter dado origem a algum interesse entre os membros da Royal Society, há muito pouco sobre a maçonaria especulativa que explique o motivo deles, como entusiastas da ciência, gostariam de ter sido envolvidos em sua criação.

Voltando ao Desaguliers, encontramos um outro aspecto deste maçom, que nos leva a considerar uma nova teoria: Ele foi um huguenote, que é o nome dado aos protestantes franceses durante as guerras religiosas na França.

Quando Desaguliers tinha dois anos de idade, seu pai que era Reverendo, foi para a Inglaterra dentro de um tonel de vinho para escapar da perseguição na França. Todos os clérigos protestantes foram forçados a deixar a França, enquanto que outros protestantes foram obrigados a ficar (muitos escaparam). Na Inglaterra, Desaguliers também se tornou um clérigo protestante (embora um ministro anglicano).

Um grande número de huguenotes eram artesãos e por causa do preconceito religioso eram bem-vindos na maioria dos países onde eles se refugiaram. Um outro número de huguenotes foram entusiastas cientistas.

Na Academia Real de Ciências da França pode ser lido (Instituto e Museu de História da Ciência):

“A Academia declinou após a revogação do Édito de Nantes (1685), quando muitos cientistas huguenotes deixaram a França”.

Não é de se estranhar, então, que a Royal Society de Londres floresceu atraindo membros huguenotes, como Desaguliers, conforme afirma Neville Barker Cryer, em “Huguenot Freemasons”, de 1995.

Eu sugiro que está aqui, entre os huguenotes e ilustres protestantes, o grão da verdade na teoria das origens da Royal Society e onde a Maçonaria especulativa pode ser encontrada.

Margaret Kilner, no livro “The Huguenot Heritage”, falando da capela Huguenot de Leicester Square, nos diz:

“Junto a capela se encontra a residência de Sir Isaac Newton (1642-1727) mais conhecido como o maior cientista do seu tempo….. Parece que sua proximidade com a capela, lhe permitiu oferecer o andar térreo de sua residência como um lugar de culto para os refugiados franceses. Muitos Huguenotes rezavam ali”.

Em uma publicação intitulada “Huguenot freemasons”, apresentado a “Huguenot Lodge” de Londres, o Rev. Neville Barrer Cryer disse:

“…. Nada menos do que um quarto de todos os nomes registrados dos Stewards da Grande Loja são reconhecidos em sua origem Huguenot mas e aqueles cujos nomes foram prontamente anglicanizados?

Os huguenotes seguem as doutrinas de João Calvino. Os Calvinistas que falavam Inglês, tal como os huguenotes e valões, emigraram para a Inglaterra, os covenanters escoceses, os puritanos ingleses, etc., entusiasticamente aderiram à Bíblia de Genebra, mesmo depois que foi imposto o uso da versão autorizada do rei James.

Valões foram um povo de origem germânica e céltica que habitavam a região da Valônia, na atual Bélgica. Covenanters eram membros de um movimento religioso nascido dentro do presbiterianismo na história da Escócia. Puritanos eram membros de grupos calvinistas rígidos de costumes.

Em outra publicação, Cryer prova que o Volume da Lei Sagrada em uso na primeira Grande Loja foi uma Bíblia de Genebra.

Aliás, a ligação entre os huguenotes e covenanters foi particularmente forte devido à “Auld Alliance” (Antiga Aliança) entre os franceses e escoceses, contra o inimigo comum, o Inglês.

Na sequência da Reforma e, especialmente, no contexto da perseguição dos huguenotes (por exemplo, o massacre do Dia de São Bartolomeu), esse aspecto da vida de Desaguliers pode ter sido influenciado pela insistência sobre a tolerância, especialmente em matéria de religião, como apresentado na Primeira Grande Loja.

Nesta conjuntura, eu acho que temos que manter em mente que os temas comuns entre os protestantes, incluíam traduções da Bíblia e restauração dos mistérios da igreja primitiva (por exemplo, o gnosticismo) acusando Roma de os ter desprezado. As traduções da Bíblia agora estão disponíveis, mas e sobre os mistérios?

Igrejas protestantes e seus cerimoniais ainda são mais inflexíveis do que os dos católicos. Para os mistérios, eu sugiro que você estude o rosacrucianismo como um braço mais ou menos separado da Reforma.

Agora vamos voltar ao protegido de Desaguliers, o Rev. Dr. James Anderson (1648-1746), o criador das Constituições da Maçonaria. Sua fama tem se mostrado muito duradoura entre os maçons e podemos surpreender ao dizer que ele não era um clérigo ortodoxo, mas um membro da Igreja Reformada Escocesa, presbiteriana, que tinha suas raízes calvinistas e nos covenanters.

Além disso, apesar de ser um pastor presbiteriano, ele assumiu a concessão de uma capela em Swallow Street, Piccadilly, pertencente a uma congregação de protestantes franceses, onde o pai de Desaguliers tinha sido pastor e alguns pesquisadores acreditam que suas constituições são o produto do saber, seguindo o exemplo de seu amigo e mentor, Desaguliers, para criar a Maçonaria especulativa moderna.

Também a essa luz, pode ser refletida a irritação dos maçons britânicos, devido a proliferação de graus na França, em comparação ao seu, “básico, puro e inalterável” Ofício, atravessando o canal.

Conclusão

Podemos observar que a maçonaria especulativa, apesar de ter origem na Inglaterra, teve uma influência francesa desde a concepção e talvez os franceses simplesmente conheceram a instituição pela retidão que tinha, e posteriormente introduziram suas ideias desenvolvidas em alegorias e símbolos.

Autor: Luciano R. Rodrigues

Fonte: O Prumo de Hiram

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Bibliografia

The Ritual of the Operative Freemasons – Thomas Carr

The Geneva Bible and its Contribution to the Development of English Ritual – Neville Barker Cryer

The First Grand Lodge – Robert Gilbert e Jonh Hamill – acesso em março 2017 http://www.mastermason.com/3rdnorthern/MasonicHistoryfiles/firstgl.htm

Huguenot Freemasons – Neville Barker Cryer

The Huguenot Heritage – Margaret Kilner – acesso em março de 2017 – http://ensignmessage.com/articles/the-huguenot-heritage/

The Royal Masonic Cyclopaedia – Kenneth Mackenzie

Encyclopedia of Freemasonry and its Kindred Sciences Comprising the Whole Range of Arts, Sciences and Literature as Connected with the Institution – Albert Gallatin Mackey

The History of Freemasonry – Albert Gallatin Mackey

Desaguliers and the March of Militant Masonry – George Maine – acesso em março de 2017 – https://archive.org/stream/Desaguliers_And_The_March_Of_Militant_Masonry_-_G._E._Maine/Desaguliers_And_The_March_Of_Militant_Masonry_-_G._E._Maine_djvu.txt

The Royal Society Tercentenary – Alexander Piatigorsky

Maçonaria moderna: o legado escocês – Parte II

The Freemasons Hall, home of The United Grand Lodge of England: Uncovering  a few hidden treasures | Masonic lodge, Masonic, Freemason

Segundo Stevenson (2009), referindo-se à maçonaria na Escócia, “já em meados do século XVII, podem ser detectados nas Lojas ideais semelhantes, em muitos aspectos, aos da maçonaria moderna, além de um significativo número de homens que não eram pedreiros sendo admitidos nelas”. Estendendo-se até século XVIII, afirma que “uma das funções básicas de muitas Lojas era regulamentar a vida profissional dos pedreiros livres”.

Vale destacar que, já em 1600, registrou-se o ingresso de Sir John Boswell, iniciado na Loja Capela de Santa Maria em Edimburgo na Escócia, considerado um dos primeiros maçons “não operativos” ou “aceitos” conhecidos. Registre-se que, até o Tratado da União de 1707, que criou o Reino da Grã-Bretanha, a Escócia era um país considerado inimigo da Inglaterra. Outro renomado iniciado foi Elias Ashmole (1617-1692), antiquário, político, oficial de armas, estudante de astrologia e alquimia britânico, recebido em uma confraria dos obreiros maçons em 1646, em Warrington (condado de Lancashire/Inglaterra), pertencente ao grupo de cientistas e livres pensadores que mais tarde fizeram parte da Sociedade Real de Londres (Royal Society), que nenhuma relação tinha com a Maçonaria.

Destaca Benimeli (2007), jesuíta e historiador não maçônico, que na Escócia, “em 1670, na Loja de Aberdeen, três quartos de seus 40 afiliados eram advogados, médicos e comerciantes. Exatamente nessa Loja já existia a distinção entre os construtores de edifícios e aqueles que se de dedicavam às especulações sobre geometria”.

O período de transição entre a Maçonaria Operativa e Especulativa teve mais consistência entre 1660 e 1716, segundo o historiador alemão Findel (citado por Benimeli, 2007), época de distúrbios civis. Transcorridos 117 anos desde a afluência dos “aceitos”, não mais atuava a força operativa que dera origem àquelas organizações, passando os associados à condição de especulativos, com os encargos das atividades operativas deixadas aos cuidados dos sindicatos e partidos políticos.

Por sua vez, Stevenson (2009), argumenta que evidências do século XVII relacionadas ao desenvolvimento da Maçonaria são abundantes na Escócia e quase inexistentes na Inglaterra. Afirma que em Lojas na Inglaterra, desde a década de 1640, é registrada a iniciação de cavalheiros, mas o processo é mais obscuro.

“O elo com os pedreiros e suas organizações era fraco, e os segredos possuídos pelos maçons ingleses e suas organizações em Lojas parece ter vindo da Escócia, sugerindo que, enquanto lá a maçonaria surgira das verdadeiras práticas de pedreiros trabalhadores, na Inglaterra ela fora, pelo menos em parte, importada da Escócia, em Lojas sendo criadas por cavalheiros e para os cavalheiros.” (grifo nosso).

Pesquisas indicam que nos registros ingleses no ano de 1600, o sistema de guildas já estava enfraquecido, não podendo ser comprovada a existência de Lojas Operativas. É nesse contexto que reside o busílis, dando respaldo para os críticos de uma transição não documentada, evidenciando-se o surgimento de lojas maçônicas na Inglaterra com caráter puramente especulativo, que Stevenson (2009) denomina de “artificiais”. Remanesce, portanto, a dúvida quanto à condição dos não operativos, se seriam ou não efetivamente especulativos ou, ainda, se poderiam ser equiparados à condição de membros honorários, como se conhece atualmente.

Provisoriamente, o que se sabe, é que tudo isso desaguou em 1717, no dia 24 de junho, quando três lojas londrinas e uma loja de Westminster, cujos membros eram então exclusivamente especulativos, numa tacada de mestre, formaram a Grande Loja de Londres e Westminster, marco histórico que introduziu o sistema Obediencial, incorporando cerimônias e regras tradicionais das antigas Lojas de obreiros-aceitos, tipo copia e cola avant la lettre do modelo escocês, com a eleição de um Grão-Mestre (Anthony Sayer) e outros oficiais.

Com isso, personalidades como James Anderson e J. T. Désaguliers, seguidores de Lutero, passaram elaborar a maior parte do material então adotado. Anderson (1679-1739), escocês de Aberdeen, ordenado ministro presbiteriano da Igreja da Escócia em 1707, e profundo conhecedor da evolução das Lojas em seu país de origem, é considerado o autor do documento de fundação da moderna Maçonaria Especulativa, publicado em 1723, no qual faz referência à célebre reunião da noite de São João do ano 1717 como data de fundação da primeira Grande Loja (vide Nota 1).

Na elaboração de sua Constituição, onde produziu uma apologia sobre os antecedentes históricos da “entidade então restaurada”, Anderson buscou subsídios nos antigos manuscritos, estatutos e regulamentos da Maçonaria Operativa da Escócia, Inglaterra e Itália. Conforme afirma Anatalino (2007), Anderson estipulou que nenhum irmão poderia ser supervisor (entenda-se Vigilante), sem antes ter passado pelo grau de Companheiro; nem Mestre (entenda-se Venerável) antes de ter exercido as funções de supervisor (Vigilante).

A admissão de novos membros ficou então condicionada ao atendimento do pré-requisito de crença em um Ser Supremo, admitindo-se homens de todas as religiões e tendo como tema central o comportamento moral, o auto aperfeiçoamento constante e a dedicação à caridade. A Maçonaria foi acusada de descristianização em 1723, com a permissão de entrada de adeptos de outros credos que não o catolicismo.

Essa “transição” da Maçonaria dos Aceitos, desde 1600 na Escócia, para a condição de Especulativa por excelência ou Maçonaria Moderna, como se afirma desde então, exigiu adaptação dos títulos maçônicos para fins de adequação a uma estrutura que funcionaria nos moldes de uma escola, com a escolha de alguns Mestres entre os Companheiros para administrar e conduzir os trabalhos. Não há indícios de que, na época, os ingleses pensassem numa confederação que se estendesse além de Londres e de Westminster. Pouco a pouco, outras Lojas Maçônicas, a maioria em torno de Londres, uniram-se à nova Grande Loja.

Segundo Stevenson (2009), a partir do século XVIII, os ingleses começaram a inovar e adaptar o movimento e assumindo a liderança no desenvolvimento da Maçonaria originária na Escócia, afirma, com alguns dos valores associados ao Iluminismo sendo incorporados. “À medida que a Idade da Razão alvorecia, a maçonaria – nascida da Renascença – era adaptada para acomodar-se ao novo clima”. Segundo o irmão Alex Davidson, “a maçonaria ‘especulativa’ pode ter-se desenvolvido a partir da influência de William Schaw na Escócia e posteriormente disseminada para Inglaterra, mas a essência da maçonaria iluminista é caracteristicamente inglesa, e o que foi reexportado para a Escócia no início do século XVIII era algo novo. A ênfase em constituições, leis e governança originou-se em Londres”.

Stevenson (2009) ressalta ainda que, “começando na Grã-Bretanha, a maçonaria se espalhou pela Europa em meados do século XVIII, de uma maneira assombrosa”. Contrapondo-se à corrente inglesa, comenta que a criação da Grande Loja de Londres em 1717 “é quase irrelevante no longo processo de avanço do movimento, pois embora a Grande Loja Inglesa tenha tido um importante papel na organização da maçonaria, quando fundada ela apenas reuniu quatro Lojas de Londres”. Porém, aduz que “o fato de a Inglaterra ter dado o primeiro passo em direção à organização nacional e de tal gesto ser imitado subsequentemente na Irlanda (c.1725) e na Escócia (1736), levou muitos historiadores maçônicos ingleses a concluir levianamente que a maçonaria se originou na Inglaterra, que depois teria passado para o resto do mundo”.

As lojas maçônicas passaram a ser consideradas como centro de influência inglesa e, portanto, contrárias aos interesses das famílias dinásticas europeias, de orientação católica. Provocaram incômodo nos poderes dominantes de cada país, despertando o receio de conspirações para derrubada e tomada do poder pelo grande afluxo de nobres e aristocratas aos seus quadros. Não podemos olvidar que, desde o rompimento com a Igreja Católica e a criação da Igreja Anglicana, em 1534, a Inglaterra ignorava a autoridade do Sumo Pontífice. O rei Henrique VIII se autoproclamara único protetor e chefe supremo da Igreja e do clero da Inglaterra e confiscou, à época, todos os bens da Igreja Católica e aboliu o celibato dos padres.

A primeira objeção formal ao conceito de Grande Loja veio em 1725 pela Loja Maçônica de York, localizada na cidade inglesa de mesmo nome, frente à assumida superioridade e antiguidade dos londrinos. No ano de 1737, teve início uma explosão da Maçonaria na França, dando “início à proliferação de novas ordens maçônicas e à criação de novas lendas e fantasias que confundem qualquer tentativa séria de compreender a maçonaria moderna, mesmo nos Estados Unidos”, conforme registra o historiador não maçônico John Robinson (2014).

Na antiga Maçonaria Operativa não existia o grau de Mestre, apenas os de Companheiro (Fellow) e Aprendizes. O titulo de Mestre era dado apenas ao presidente da Loja, eleito entre os Companheiros ou adquirido por herança. O Grau de Mestre Maçom somente seria implantado a partir de 1738, apesar de criado em 1725, quando a Maçonaria passou a ser iniciática. Até 1725 não havia “Iniciação” e sim uma “Recepção” de um novo membro ou sócio, que consistia de um compromisso prestado sobre o Livro de Registro da Confraria e, tempos mais tarde, sobre o Evangelho de São João (Carvalho, 1997). Outras fontes registram a criação deste grau em 1723 e efetiva implantação em 1738.

A confusão com caráter religioso deu-se com o formato das cerimônias no recinto das Lojas, que levaram a Maçonaria britânica das tabernas para salas e edifícios construídos especialmente para isso, introduzindo-se música de órgão e a composição de hinos a ser cantados pelos irmãos. Funerais maçônicos, preparados com os emblemas da Ordem, ocorriam em Igrejas Protestantes, onde, após o ministro terminar seu serviço, os maçons tomavam a vez com os próprios ritos, dando a entender ao público de que a Maçonaria era uma Ordem “religiosa” à parte.

Um famoso personagem, iniciado em 1730, motivo de controvérsias e considerado responsável pelo prestígio da Maçonaria, foi o também escocês Michel Andrew Ramsay (1686-1743), “profundo conhecedor da história antiga e moderna, doutor pela Universidade de Oxford e membro da Sociedade Real de Londres, como muito outros maçons proeminentes da época” (Figueiredo, 2016). A ele é atribuído um polêmico discurso, “não pronunciado”, segundo consta, publicado em 1738, que ligaria a Maçonaria aos nobres das Cruzadas, argumento considerado uma invencionice, sem comprovação histórica, mas que promoveu uma efervescência à época, inclusive influenciando na elaboração e desenvolvimento dos altos graus maçônicos entre 1740 e 1780. Nesse discurso é dado um ar de aristocracia à Maçonaria. Os detratores do Cavaleiro Ramsay argumentam que ele não aceitava a verdadeira origem humilde dos maçons construtores e analfabetos, tendo então inventado essa narrativa.

A Maçonaria despertou mais inimizades do que qualquer outra organização secular na história mundial. Difamadores ganharam força ao longo do tempo em face da tradição da Maçonaria em não responder aos ataques, beneficiando-se do conceito de “confissão de silêncio”, mesmo atualmente com a sociedade dominada pela mídia. Por isso, “os Maçons podem estar destinados a permanecer controversos, embora a legião de críticos sejam facilmente desafiadas pelas legiões de notáveis que escolheram ser membros dela” (Robinson, 2014).

Com a expansão da Maçonaria a partir da fundação da Grande Loja da Inglaterra e Westminster e os novos pensamentos elaborados pela dupla Anderson & Désaguliers, passou-se a exigir que as demais Lojas europeias lhe rendessem obediência. Mas, isso causou repercussões no âmbito da Igreja Católica, então Senhora do Mundo, que entendeu não ter reconhecido tal direito às quatro Lojas de Londres, pois cabia a Roma a competência para delegar poderes e concedê-los absolutos dentro dos comportamentos humanísticos, coroando reis e dando forma jurídica às nações.

A Maçonaria passou, então, a ser vista pela Igreja Católica como uma “seita” vinculada à dissidente religião Anglicana. Por isso, nos séculos seguintes, “a maçonaria foi alvo de mais bulas e encíclicas papais odientas do que qualquer outra organização secular na história cristã” (Robinson, 2014). (Sugerimos a leitura do artigo “Maçonaria e Igreja Católica, reconciliação improvável” – Partes I, II, II e IV, em:  https://opontodentrocirculo.com/2018/10/08/maconaria-e-igreja-catolica-reconciliacao-improvavel/).

A Maçonaria inglesa passou ainda por ajustes, tendo em vista a formação de uma Potência rival em 1751, a Grande Loja da Inglaterra, que se apresentou como depositária das Antigas Instituições. Lawrence Dermott (1720-1791), irlandês, eleito segundo Grande Secretário em 1752, escreveu em 1756 o “Ahiman Rezon”, adotado como Constituição para suas Lojas jurisdicionadas. Dermott combatia a narrativa lendária da Maçonaria criada por James Anderson, a quem denominava de “Modernos”. Em 1813, as duas se uniram, formando a Grande Loja Unida da Inglaterra (GLUI).

O primeiro Templo Maçônico inglês fixo foi construído entre 1772 e 1776, o conhecido “Freemason Hall”. O Grande Oriente da França (GOF), nascido em 1728, como Primeira Grande Loja da França, tendo tomado a sua forma e atual nome em 1773, conseguiu, no ano de 1788, o seu primeiro Templo, proibindo a reunião em tabernas, a partir de então. Entretanto, por divergências de práticas, o GOF não tem tratado de reconhecimento junto à Maçonaria inglesa. Somente a Grande Loja Nacional Francesa (GLNF), fundada em 1913, a partir do GOF, tem reconhecimento junto à GLUI. Enfim, no que se refere aos Protocolos e práticas litúrgicas e ritualísticas adotadas pelas diversas Potências, são marcantes as influências anglo-saxônica (teísta) e francesa/latina (deísta), sobre a estrutura do simbolismo do REAA, em especial, considerando-se que cada país preserva sua autonomia para defini-los.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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Referências

ANATALINO, João. Conhecendo a Arte Real. São Paulo: Madras, 2007;

ASLAN, Nicola.  A Maçonaria Operativa Escocesa. Disponível em https://www.revistaartereal.com.br/wp-content/uploads/2014/02/A-MACONARIA-OPERATIVA-ESCOCESA-Nicola-Aslan.pdf

CARVALHO, Assis. A Descristianização da Maçonaria. Londrina: Ed. “A Trolha”, 1997;

DAVIDSON, Alex. O Conceito Maçônico de Liberdade – Maçonaria e o Iluminismo. Artigo em: https://bibliot3ca.com/o-conceito-maconico-de-liberdade-maconaria-e-o-iluminismo/

FERRER-BENIMELI, José Antônio. Arquivos secretos do vaticano e a franco-maçonaria. São Paulo: Madras, 2007;

FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio. Dicionário de Maçonaria: seus mistérios, ritos, filosofia, história. São Paulo: Pensamento, 2016;

MELLOR, Alec. Os Grandes Problemas da Atual Franco-Maçonaria – Os novos rumos da Franco-Maçonaria. São Paulo, Pensamento, 1976;

OLIVEIRA FILHO, Denizart Silveira. Da Iniciação Rumo à Elevação. Londrina: Editora Maçônica “A Trolha”, 2012;

___________________________. Da Elevação Rumo à Exaltação. Londrina: Editora Maçônica “A Trolha”, 2013;

ROBINSON, John J. Nascidos do Sangue. São Paulo: Madras, 2014;

STEVENSON, David. As Origens da Maçonaria: O Século da Escócia (1590 – 1710). São Paulo: Madras, 2009;

VICENTINO, Cláudio. História Geral. São Paulo: Editora Scipione, 1992;

XAVIER, Arnaldo. Saiba o que são Maçonarias. Belo Horizonte: Label Artes Gráficas, 2010;

Blog do Pedro Juk, em: http://pedro-juk.blogspot.com/

Blog “Freemason”, em: http://www.freemasons-freemasonry.com/regius.html

______________, em http://maconico.com.br/a-carta-de-bolonha-1248-o-mais-antigo-documento-maconico-freemason-pt/

Blog “No Esquadro”, em:  https://www.noesquadro.com.br

Blog “O Ponto Dentro do Círculo”, em: https://opontodentrocirculo.com/2019/10/08/a-maconaria-inventada/

_________________________, em: https://opontodentrocirculo.com/2018/06/03/o-manuscrito-cooke/ _________________________, em https://opontodentrocirculo.com/2021/02/06/consideracoes-sobre-o-poema-regius-do-seculo-xiv/

Episódio 37 – O primeiro iniciado do mundo

Os textos atribuídos a James Anderson foram compilados sob a supervisão de Desaguliers. Rir de Anderson é um apanágio daqueles que se julgam à altura de rir da simbologia, dos graus acadêmicos M.A. e D.D. que o Reverendo possuía, do prestígio da Royal Society e da fundação da moderna maçonaria. (music: Slow Burn by Kevin MacLeod; link: https://incompetech.filmmusic.io/song/4372-slow-burn; license: https://filmmusic.io/standard-license)
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As Constituições de Anderson de 1723 e de 1738

The importance of the Constitutions of Anderson | SUN YAT SEN LODGE N. 8

Há um texto em La Tulip [1] que, parcialmente, atinge o alvo quando diz que “a distinção entre operativos e especulativos nunca poderá ser absoluta por dois fatores: o primeiro, que as Antigas Obrigações contêm parte de natureza especulativa na forma de uma espécie de lenda alegórica do Ofício; o outro fator exposto é que as primeiras lojas da Grande Loja de Londres eram nessa época operativas, apesar da aceitação de numerosos cavalheiros, ou seja, aqueles que sabem como desempenhar bem o seu ofício, que estão em posição de ocupar um cargo de responsabilidade social; que têm um senso de honra, pelo qual é respeitado pelos demais. Aprendeu mais com as viagens que fez e com a experiência direta com as coisas do que com os livros. Que foi formado com um critério pessoal, com o qual é capaz de julgar as coisas. E quem tem conhecimento sólido e útil para a vida. além da virtude de saber como dominar seus sentimentos e subordiná-los à razão, antes de agir de acordo com eles.

Mas, em 1723, elas não eram numerosas o suficiente, a tal ponto que várias prescrições foram consagradas no mesmo ano, como o parágrafo V das Antigas Obrigações[2].

Nessas questões se misturam, por um lado, a petição de Payne como Grão-mestre para recolher todos os manuscritos sobre Maçons e a Maçonaria, a fim de conhecer em primeira mão os usos antigos, que certamente já deviam ser conhecidos se atentarmos para o pastor James Anderson, que afirma que, em 1716, havia seis lojas, e em 1718 já havia meia centena, o que resulta em que devia haver um grande número de maçons entre todos esses membros, o que indica, por sua vez, que a referida herança não era fácil de dissolver, pois era muito evidente e ativa entre as lojas fundadoras da Grande Loja em 1717, fossem elas operacionais ou quase especulativas.

Exceto que a estratégia de que falam Roger Dachez e Alain Bauer era justamente a de conseguir todas as cópias possíveis e depois livrar-se delas, [este é um argumento desenvolvido por um bom amigo Anselmo Vega em seu romance El Muro de Piedra [3], cuja tese se conecta muito bem a toda essa estratégia, porque mais tarde, na época do Grão Mestrado do duque de Montagu, ele declara “que havia encontrado todas as cópias [aquelas cópias das Antigas Obrigações que foram submetidas pelos membros da Grande Loja] para que fossem reformuladas em um método novo e melhor.”[4]

Nesse contexto, em que se indica ter uma série de lojas promovido a redação das Constituições de 1723, denominadas de Anderson, cujo texto não só não é assinado, mas só tem uma dedicatória ao Grão-Mestre, o duque de Montagu, escrito e assinado por Theophilus Desaguliers, Grão-Mestre Adjunto em exercício, terminando com a aprovação da obra pelo duque de Warthon, mas uma vez terminado o mandato de Montagu.

O fato de que as Constituições não tiveram o nihil obstat da Grande Loja, supunha-se que era devido a que estas eram entendidas como um trabalho coletivo e, apesar da supervisão de quatorze membros da Grande Loja, a situação de aprovação não fica clara. Segundo Anderson, foi aprovado com algumas emendas, mas pode-se duvidar sobre algumas dessas questões [5], dado que a Grande Loja teve dificuldade em aprovar o trabalho de Anderson, um fato que este estava interessado em esconder.

O texto das Constituições ainda estava na gráfica em janeiro de 1723, por isso era necessário emitir uma segunda aprovação muito mais curta e mais séria com os nomes do Grão-Mestre Wharton e de seus adjuntos, tais como Desaguliers, alegando que o livro havia sido produzido em forma impressa na comunicação trimestral em 17 de janeiro de 1723, sendo ordenada a publicação e recomendado para o uso das lojas.

Alguns dias depois, em 23 de janeiro de 1723, o seguinte anúncio apareceu no Daily Journal:

“Em benefício da antiga Sociedade dos Maçons Livres. Agora está pronto para publicação, um novo conjunto de constituições e ordens, muito diferente do Antigo, pelo qual a referida Sociedade está feliz e silenciosa, regulado por muitas eras passadas.

Serve o presente para informar a todos os amantes da pura Maçonaria, retiradas as Inovações e Interesses pessoais, que terá uma preparação rápida e entregue a eles, gratuitamente, as antigas constituições e ordens, tiradas das melhores cópias; onde tais erros na história e na cronologia, que, devido ao descuido de vários transcritores que se infiltraram entre eles, será completamente retificados

A extensão extravagante das referidas novas Constituições e Ordens, superior aos quatro sermões comuns, torna mais evidente que nele se calculam os gastos e danos da sociedade, simplesmente para servir ao interesse de um único membro, o autor, cuja segurança era tal que ele os imprimiu antes de oferecê-los à Censura Geral da Fraternidade. Por quais razões, esperamos que a Irmandade não se apresse agora para incentivar o referido Inovador. Para mostrar de forma honrosa e justa que trata com seus amados Irmãos Maçons, seu livro completo de dois e seis centavos será publicado rapidamente, em um papel tão bom quanto o dele, pelo preço de seis centavos; dos quais aviso oportuno será apresentado neste documento “.[6]

De qualquer forma, temos essa significante dedicatória inserida nas Constituições de 1723:

“À Sua GRAÇA O DUQUE DE MONTAGU SENHOR: Por Ordem de Sua Graça, o Duque de Wharton, atual justamente honorável Grão Mestre dos Maçons, e como seu Adjunto, dedicou humildemente a Vossa Graça este Livro das Constituições de nossa antiga Fraternidade, em testemunho de vosso honroso, prudente e vigilante desempenho do cargo de nosso GRÃO MESTRE durante o ano passado.

Não preciso dizer a Vossa Graça, do trabalho que nosso instruído AUTOR realizou para compilar e codificar este Livro dos antigos Arquivos e quão escrupulosamente ele comparou e expôs tudo sobre a História e a Cronologia, para que essas NOVAS CONSTITUIÇÕES sejam uma descrição justa e perfeita da Maçonaria, desde o começo do mundo até o GRÃO MESTRADO de Vossa Graça, preservando tudo o que é verdadeiramente autêntico nos antigos, porque o trabalho agradará a todo Irmão que saiba que Vossa Graça a leu e aprovou; e Imprima-se agora para uso pelas Lojas, depois de aprovado pela Grande Loja quando Vossa Graça era GRÃO MESTRE. Todos os irmãos se lembrarão da honra que lhes fez Vossa Graça. Toda a Fraternidade sempre se lembrará da honra que lhes destes, bem como do vosso zelo pela Paz, Harmonia e Fraternidade duradoura, que ninguém sente mais intensamente que Meu Senhor.

De Vossa Graça reconhecido, servo obediente e irmão fiel. J.T. DESAGULIERS Grão-Mestre Adjunto”.

Para piorar as coisas, esta primeira edição Andersoniana provocou uma cópia pirata que reproduzia o essencial do que Anderson havia exposto nessas Constituições, sendo posta à venda no A Pocket Companion, sob a responsabilidade de um certo William Smith.

Em fevereiro de 1735, Anderson interporá com duas reclamações à Grande Loja, uma porque a primeira edição das Constituições estava esgotada e se supunha que alguém deveria estar encarregado de reeditá-las, e a outra era motivada porque o tal William Smith havia plagiado material de seu livro para redigir seu libelo no Free Mason’s Pocket Companion, uma vez que, segundo Anderson, as Constituições eram sua propriedade exclusiva.

Mas a realidade é que, a julgar por essas divulgações, as Constituições de Anderson de 1723, tampouco parece que fossem propriedade da Grande Loja.

O texto que se pode ler na página de rosto da obra deixa claro que os editores e detentores dos direitos autorais eram John Senex e John Hooke.

Anderson, na época, trabalhava na tradução de Conversations in the Realms of the House of the Dead de David Fassmann e recebia seu pagamento de Hooke e Senex, sob a forma de pagamento por página (copy money), então presumivelmente, algo semelhante aconteceu com o volume das Constituições. Tanto é que, por mais que Anderson reivindicasse à Grande Loja, a edição de 1723 não era propriedade dele, nem parece ser propriedade da Grande Loja, mas dos editores.[7]

Por outro lado, é verdade que as Constituições de 1738 são assinadas por sua própria vontade e assinatura: James Anderson A.M. O autor deste livro. Mestre, de tal forma que assume inteiramente sua paternidade, embora mais tarde tenha tido bastante problemas com a distribuição da edição e sua posterior venda.

O que parece claro, realmente, quando se lê as Constituições, é que as Antigas Obrigações são sempre referenciadas em seus escritos, embora os fundadores da Grande Loja de Londres pareçam estar interessados em querer se afastar daqueles conhecimentos antigos clássicos que os precederam.

Os referidos textos, ainda na época, tinham certo prestígio e presença, mas, mesmo assim, ainda queriam deitar abaixo por meio dele, com referência ao modelo operativo, o que não deveria ser nada fácil, pois eram necessárias táticas, estratégias e muita paciência para desenvolver a força dos vestígios identitários do conjunto corporativo operativo, por mais em declínio que este parecesse estar.

Estamos falando de um ambiente profissional e social com implicações políticas e religiosas, bem estabelecido por décadas na sociedade inglesa, para poder apagar com um toque de pena a sua importância e transcendência.

Um ano antes do trabalho publicado por Anderson, editaram-se as Constituições de Roberts (1722) que se estabeleceram por meio da ação da Grande Loja de York que permaneceu independente, cobrindo várias lojas operativas que não assumiram os predicados da Grande Loja de Londres de 1717, atuando como contrapeso diante do modernismo e ecumenismo desenvolvidos pela Grande Loja Londrina de 1717.

Esse é um assunto que dificilmente é discutido na literatura especializada em Maçonaria. Refiro-me à semelhança entre as Constituições de Roberts e as de Anderson, e ainda assim as semelhanças são incríveis, tanto que alguém poderia ousar dizer que Anderson teria conhecido de antemão o libreto de Roberts e teria deliberadamente tomado partes do referido trabalho, especialmente no que se refere a alguns de seus capítulos, e que mais tarde foram curiosamente adicionados nas modificações de 1738.[8]

Roberts era o nome do impressor da obra intitulada: As Constituições Antigas pertencentes à Sociedade Antiga e Honorável de Maçons Livres e Aceitos.[9] 

Voltando à questão que nos preocupa, talvez esse método “novo e melhor” de que falava o Grão-Mestre Montagu, não era outra coisa senão as Constituições de 1723, ou seja, a primeira fundação de um projeto que queria se afastar, apesar do fato de que seu redator querer remontar as origens maçônicas até o Paraíso Terrestre, para assim se distanciar de uma proposta tradicional reunida em um estrato popular, como eram os primeiros componentes, membros do Ofício, que eram a maioria neste primeiro momento da criação da Grande Loja acima mencionada.

Nesse contexto, temos o pastor, um membro da comunidade presbiteriana e não-conformista, James Anderson, trabalhando para dar uma Constituição ao projeto inglês, um objetivo que ele muito habilmente realiza com uma prosa dura com a qual tenta comunicar que a ideia da fundação existia desde tempos imemoriais, dessa forma as Antigas Obrigações eram sutilmente modificadas pelas novas Constituições de 1723, ou seja, pelos novos Regulamentos Gerais de uma nova organização assentada sobre bases operativas, mas aspirando que o caráter especulativo seria seu maior expoente, embora por enquanto fosse cativa de sua origem e tivesse que operar com três planos inseparáveis no contexto em que se movia, com um desejo intenso, não muito extrovertido, de alcançar uma certa unidade nacional em bases que poderíamos chamar de liberais dentro de uma Grande Loja monárquica mas de caráter protestante e newtoniano.

Três planos que se sobrepõem paralelamente, por um lado, o plano político onde a dinastia Hanoveriana desempenhará um papel importante, em cujo contexto a figura de Desaguliers é importante, embora em um primeiro momento os jacobitas [10], em posição permanente de combate, farão parte das elites maçônicas, em cuja trama a jovem Grande Loja queria desempenhar o papel de árbitro da reconciliação, ou pelo menos essa era a intenção que aquelas elites começaram e desejavam alcançar através de uma caridade muito ativa, ao mesmo tempo em que afirmavam sua vocação para constituir um espaço de consenso [11].

Eles tinham a antiga esperança de conseguir unir a disjecta membra da diáspora protestante no meio de uma monarquia europeia e um poder parlamentar fundado nos conceitos liberais dos quais partiam após a Revolução Gloriosa de 1688, fundindo-se ao mesmo tempo na tolerância religiosa que Locke defendia e cujos postulados foram recolhidos em Uma Carta Relativa à Tolerância de 1689.

Este poderia ser um bom exemplo da maneira de Desaguliers entender o projeto de fundação de uma nova estrutura maçônica, na qual as primeiras lojas tiveram um caráter inter-religioso, cujo objetivo foi reunido nas Constituições de 1723 no título II de Obrigações Da autoridade civil, superior e inferior:

“O maçom deve ser uma pessoa calma, submissa às leis do país onde está estabelecida e não deve participar ou se deixar arrastar pelos motins ou conspirações forjados contra a paz e contra a prosperidade do povo, ou mostrar-se rebelde à autoridade inferior, porque a guerra, a efusão de sangue e os distúrbios, sempre foram funestos para a Maçonaria.”

Estava-se falando da ameaça jacobita à sucessão de Hannover e da supremacia do parlamentarismo e da governança legislativa, vez que não estava no plano de apoio ao monarca, mas sim a um sistema constitucional do monarca, mas com o Parlamento e o poder judiciário e legislativo como intermediários; em suma, uma separação de poderes.

Embora o desenvolvimento do plano político tenha tido dificuldades devido às rivalidades entre hanoverianos e stuartistas, o conflito no contexto religioso não era menor, o que o colocava na própria raiz do contexto político após a decorrência de anos de guerras entre protestantes e Jacobitas [12], questão que ocupava um lugar importante nas preocupações do latitudinário Desaguliers enquanto redator da parte legislativa das Constituições de 1723 [13].

Ele encaixava essas preocupações no desenvolvimento de um importante Título das Constituições: Obrigações em relação a Deus e à Religião:

“Um Maçom está obrigado por sua condição (tenure) a obedecer a lei moral e se compreende bem a Arte, nunca será nem um Ateu estúpido, nem um Libertino irreligioso.”

“Embora em tempos antigos os Maçons fossem obrigados em cada país a adotar a religião daquele país ou aquela Nação, qualquer que fosse ela, hoje pensa-se ser mais acertado somente obrigá-los a adotar aquela Religião com a qual todos os homens concordam, guardando suas opiniões particulares para si próprio, isto é, serem Homens bons e leais, ou Homens de honra e probidade, qualquer que seja a denominação ou crença que os possam distinguir; por isso a Maçonaria se torna um centro da união e um meio de assegurar uma verdadeira Amizade entre Pessoas que de outra forma permaneceriam em perpétua distância.”

Essa questão, que no fundo nada mais é do que uma tensão entre o teísmo Noaquita e o deísmo como heresia cristã, faz com que, entre esses dois extremos, encontremos os relativistas cuja crença na ideia divina lhes parecerá útil, ou a dos racionalistas que colocavam a razão acima da fé, sem esquecer os agnósticos que deixam ao domínio íntimo a origem das coisas, ou os ateus incipientes que negam a existência de Deus, marcando, com suas atitudes, todo o desenvolvimento posterior da Maçonaria, tanto inglesa, quanto aquela outra, que não tardaria a atravessará o Canal da Mancha a caminho da França católica.

Por fim, seria necessário analisar o plano intelectual, embora se possa dizer que grande parte de seus membros participavam de tramas filosóficas transversais, não resta dúvida de que o aparato administrativo das lojas operativas federadas à Grande Loja, com inclusão cada vez maior de maçons especulativos tentará cooptar as elites culturais inglesas; daí que não demorará muito para que se vejam nos bancos maçônicos a presença de muitos membros ligados, por exemplo, à prestigiada Royal Society, até porque eles haviam sido, ou serão, muitos deles fellow (membro) daquela instituição.

Falou-se de um grande número de membros, e alguns deles muito famosos, com certeza sabemos que pertenciam à maçonaria: Martin Folkes (1719-1742) ateu e libertino da loja de Bedford HeadMaid´s Head; William Jones (1711-1740), da Loja Queen’s Head, William Stukeley (1718-1752) da Loja Fountain; John Machin (1730-1741) membro da loja Bedford Head; Thomas Pellet (1733-1740) da Loja Bedford; ou T. Desaguliers (1728-1735) pertencente à Loja Horn, University Bear-Harrow.

Dessa forma, é possível encontrar até oitenta membros “fellow” da Royal Society, que eram ou foram maçons entre 1725 e 1730, embora tal adesão perdesse força ao longo do tempo, sem esquecer os encontrões pessoais entre eles, o mais notável dos quais foi o que se deu entre Folkes e Stukeley, que disse do primeiro aquilo de “losing his teeth, he speaks so”.

A partir da década de 1740, essas presenças se tornaram cada vez mais raras, época em que havia duas grandes tendências políticas, os Whigs e os Torys, estes últimos alinhados com os jacobitas, somando aos partidários de James Stuart VII da Escócia, reinando sobre o trono da Inglaterra em 1685, quando James II da Inglaterra já convertido ao catolicismo.

Por sua vez, os Whigs da tendência protestante seguiam William de Orange, que subiria ao poder como William III, graças à revolução que James II desencadearia no exílio francês. Enquanto George I, Eleitor de Hanover, de tendência protestante, era apoiado por estes, tornando-se mais tarde rei da Inglaterra. Os maçons especulativos, fundadores da Grande Loja de Londres, apoiavam majoritariamente George I, visto que ele era Hanoveriano e Whig.

De toda forma, há que se enfatizar que os antecedentes maçônicos durante o século XVIII serão marcados pela marca cristã com a nova proposta da “religião natural newtoniana”, a cuja estrutura o corpus maçônico especulativo vai aderir e da qual vai se tornar uma bandeira da Grande Loja de Londres.

Dada a multiplicação de teólogos racionalistas nesse ambiente intelectual e maçônico, ocorrerá uma série de mutações que operarão no mesmo centro nevrálgico do Iluminismo, dando voltas no axioma de que o problema não era demonstrar a existência de Deus, mas sim que sua própria existência estava ameaçada.

Esse mesmo paradigma será desenvolvido dentro de uma maçonaria latitudinária que acusa essa herança newtoniana de um Deus filósofo, como um Grande Arquiteto do Universo que dota o mundo de leis racionais, mas que faz de sua distância uma incógnita, onde ele aparece como o autor do mundo, um mundo que os newtonianos designaram com o apelo ambíguo do sensoriun Dei, que se confunde com a natureza, em que ele é criticado por seu intervencionismo, mas, sem por isso, que os maçons reneguem a fé.

Uma herança contraditória no mundo dos maçons newtonianos de caráter hanoveriano e, é claro, dos maçons operativos jacobitas, que se explica com base nessa mistura de misticismo e racionalismo que caracteriza a maçonaria da época

“que se reforça de forma resistente diante dos racionalismos clássicos, tanto como cristãos em oposição à philosophia naturalis, que transplantada para a esfera francesa-cristã, retém seu duplo aspecto de philosophique et philantrophique, mas perde seu caráter igualitário, se não de palavra, pelo menos pelos atos”.[14]

Esse sentimento também se reflete nos campos filosóficos, especificamente em um artigo de Chesneau du Marsais, Le Philosophe (1743)[15] 

“A existência de Deus é a mais difundida e profundamente enraizada de todos os preconceitos; e em seu lugar, Le Philosophe coloca a sociedade civil: ‘esta é a única divindade que ele reconhecerá na Terra’. Presa pelos sistemas doutrinários das igrejas estabelecidas, a atenção ao governo se torna fútil, quando alguém é mantido em cativeiro sob o jugo da religião, torna-se incapaz das grandes visões que atraem para o governo e que são tão necessárias para situações públicas “.[16]

E Robert Kalbach exemplifica isso muito bem, quando explica que a irreligião na França se tornou uma paixão geral, ardente, intolerante e opressiva. Assim, os filósofos do Iluminismo atacavam a Igreja como um poder político, mas também apoiavam a tradição, reconhecendo a autoridade superior da razão individual baseada na hierarquia.

“A peculiaridade da Revolução Francesa é que ela desgosta aos homens, derrubando leis religiosas e civis ao mesmo tempo”.[17]

Mas a contradição é tão grande que, por exemplo, as propostas newtonianas de um cristianismo razoável como alternativa ao panteísmo dos livre pensadores, apesar da boa acolhida entre os membros da maçonaria e a posição vacilante dos teólogos anglicanos, tanto ortodoxos quanto latitudinários, terá uma forte rejeição por parte dos livre pensadores e místicos exaltados, embora Newton não poderá ser a referência para o futuro da Grande Loja por sua paixão ardente pela Bíblia; nesse sentido, temos a figura de Desaguliers, que aparecerá como o principal barqueiro entre ambas as margens do newtonismo, talvez na crença de que as Escrituras permitiam descobrir o esoterismo e retirar ensinamentos iniciáticos da mais alta importância.

Este é um assunto que parece não ter sido estudado em profundidade, ou seja, as relações entre a Maçonaria e a Royal Society, além de algumas abordagens como a de Richard Berman[18], que nos explica que parte dos numerosos abandono ocorridos por parte das elites cooptadas na época poderia ter vindo da forte crise que sofreu a Grande Loja e, principalmente, a partir da querela entre Antigos e Modernos que, lembro, estava em parte enraizado nas concepções deístas de uns e teístas de outros, o que abriu um cisma de entendimento sobre as realidades maçônicas no conceitual, mas também no administrativo, e que no fundo deve ser considerada uma rebelião, enquanto que a segunda Grande Loja era abertamente muito mais teísta cristã em todos os sentidos e com todas as consequências.

Autor: Victor Guerra

Tradução: José Filardo

Fonte: Revista BIBLIOT3CA

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Notas

[1] – Patrick Négrier La Tulip. Historie du rite du Mot de maçon 1637a 1739. Éditions Ivorie-Clair. 2005.

[2] – Op. Cit. La Tulip… Pág.71.

[3] – Vega Junquera, Anselmo. El Muro de Piedra. Editorial MASONICA.2013.

[4] – Op. Cit. Nouvelle historie… Págs.81-90.

[5] – Mereaux, Pierre. Les Constitutions d´Anderson. Vérité ou Imposture. Éditions du Rocher. 1995.Pág. 232-282.

[6] – Daily Journal. 25 de janeiro de 1723.

[7] – Prescott A. e Susan Mitchell Sommers. Searching for the Apple Tree: Revisiting the Earliest Years of Organized English Freemasonry, en Reflections on Three Hundred Years of Freemasonry, ed. John S. Wade (Surrey, UK: Lewis Masonic, 2017). Pág. 172-174. Tradução para o espanhol por Rogelio Aragón, publicada em 300 anos da Maçonaria: Maçonaria e Maçons 1717-2017. Volume V Cosmopolitismo. Editorial Palabra de Cio.México 2017; pode-se dar uma olhada no artigo de Pierre Nöel: Une forgerie autour de 1721? https://www.hiram.be/blog/2019/03/26/uneforgerie-autour-de-1721/?

[8] – Op. Cit. James Anderson… Pág. 197 Sgtes.

[9] – https://freemasonry.bcy.ca/history/old_charges/robertsconstitutions1722.pdf.

[10] – A Maçonaria Jacobita. https://masoneriaantigua.blogspot.com/2014/10/la-masoneriajacobita.html.

[11] – Beaurepaire, Yves-Pierre. O templo maçônico do século XVIII. Um espaço de paz religiosa e diálogo inter-religiosohttps://www.victorguerra.net/2018/04/el-templo-masonico-del-siglo-xviii.html

[12] – Berman, Richard. 1717 and All That. The Political and Religious Context. Prestonian Lecturer. Oxford Brookes University. 2016.

[13] – https://racodelallum.blogspot.com/2016/02/las-constituciones-de-anderson.html.

[14] – Porset, Charles. La religion des Philalèthes. Franc-maçonnerie et religion dans l´Europe des Lumières. Éditions Honore Champion. 2006. Pág. 89-100.

[15] – http://cerphi.ens-lyon.fr/spip.php?article73.

[16] – Jacob, Margaret. The Enlightenment as Lived. Late Eighteenth Century European Reformers. Revista REHMLAC. Ano 2011. Vol.3. Nº 1.

[17] – Kalbach, Robert. Montmorency-Luxembourg et son temps. Fondateur du Grand Orient de France. Éditions Dervy.2009. Pág. 258.

[18] – Berman, Richard. Schism: The Battle That Forged Freemasonry. Edit. Sussex Academic Press.2013.

O primeiro iniciado do mundo

As pessoas adstritas ao simbolismo ou pouco versadas na simbologia debocham e riem do Reverendo James Anderson (1680-1739) atribuindo a ele a frase:

“Adão foi o primeiro maçom, iniciado por Deus no paraíso.”

Se verificarmos o texto original de “The Constitution of The Fraternity of Accepted Free Masons” (Constituições de Anderson, 1723) veremos que Anderson escreveu o seguinte:

“Adão, nosso primeiro Antepassado (first Parent), criado a partir da Imagem de Deus, o Grande Arquiteto do Universo, deve ter tido as Ciências Liberais, especialmente a Geometria, escritas em seu Coração (written on his Heart) pois mesmo desde a Queda, encontramos os Princípios dela nos Corações de seus descendentes e que nos processo do tempo (in process of time), têm sido depuradas em um conveniente Método de Proposições, pela observação das Leis das Proporções…”

O estudo do simbolismo e a simbologia parecem ser a mesma coisa. Mas são diferentes, tanto pelo objetivo quanto pelo método. Os expertos (e espertos) em SIMBOLISMO restringem-se à expressão e à interpretação de símbolos.

Já a SIMBOLOGIA estuda esses mesmos símbolos pelo prisma aprofundado do humanismo.

James Anderson era  mestre em artes e doutor em teologia, quando redigiu a Constitution of Free Masons, Jean Théophile Desaguliers estava ao lado dele. Desaguliers era membro da Royal Society de Londres, assistente de Isaac Newton, professor de filosofia, inventor do planetário e terceiro Grão-Mestre da Grand Lodge of England, entre 1719 e 1720, e um dos pais da moderna maçonaria.

Os textos atribuídos a James Anderson foram compilados sob a supervisão de Desaguliers. Rir de Anderson é um apanágio daqueles que se julgam à altura de rir da simbologia, dos graus acadêmicos M.A. e D.D. que o Reverendo possuía, do prestígio da Royal Society e da fundação da moderna maçonaria.

Partamos do princípio de que as ordens iniciáticas têm por objetivo despertar o potencial interior do ser humano e auxiliá-lo na redescoberta de sua relação com o Cosmos. Consideremos que cada pessoa seja portadora dos arquétipos que promovem sua evolução – arquétipos e leis escritos em seu Coração.

Partamos do princípio de que as ordens iniciáticas têm por objetivo despertar o potencial interior do ser humano e auxiliá-lo na redescoberta de sua relação com o Cosmos. Consideremos que cada pessoa seja portadora dos arquétipos que promovem sua evolução – arquétipos e leis escritos em seu Coração.

  • um Mestre primordial (Deus ou Imagem [representação] de Deus);
  • uma transmissão de potencialidades básicas (iniciação);
  • um recipiendário (Adão ou, se preferirem, nosso primeiro pai – first parent);
  • uma escola (templum – paraíso) preparado para aquele remoto cerimonial.

Quem estuda SIMBOLOGIA reconhece na afirmação do Dr. James Anderson os quatro pontos necessários para a comunicação de um pensamento sob forma figurada – uma ciência livre (liberal science) em especial as justas e perfeitas proporções (Geometria) gravadas em seu íntimo (Coração).

O Adão a que Anderson se refere é o Adamah hebraico ou “criatura feita da mãe-Terra”. O Deus Iniciador é o (ainda) Desconhecido e Inefável. A comunicação alegórica (iniciação no paraíso) deve ser compreendida mediante vários aspectos:

  • No primeiro estágio da inteligência, o objeto comunicado passa pelas funções psíquicas da percepção e do julgamento: vejo isso; isso é bom ou é mal! – alegoria da árvore do conhecimento do bem e do mal;
  • No segundo estágio, mais evoluído, ocorre a decomposição do objeto através da razão – O que é isso? Como é isso?;
  • No terceiro, há uma transcendência, pela contemplação e pela iluminação, daquilo que foi comunicado – é o daqui para onde.

Se não conseguimos conceber o conhecimento primordial, a forma de transmissão havida a priori (tempo) e uma objetividade factual (espaço) é porque estamos formal e prematuramente iniciados. Se não temos a percepção, o julgamento e o raciocínio superior, não podemos contemplar em conformidade com os três estágios mencionados. O despertar daquele potencial interior torna-se impossível e o reencontro do homem com o transpessoal, uma utopia.

É verdade que convivemos com pessoas que, apesar de terem recebido a iniciação apenas formal, negam os princípios da transmissão primordial. Por causa disso o formalismo e o ritualismo tendem a suplantar o conteúdo filosófico nas Ordens e nas Lojas que as compõem.

Por outro lado, é justamente nessa relação entre o Mestre primordial (Deus) e o recipiendário inocente (Adão/Adam/Adamah) que reside a tradição judaica, os cânones da cabala e sua relação mais íntima com as iniciações (especialmente a maçônica).

Vou além: mesmos as religiões – monoteístas ou politeístas – partem de princípios idênticos ao Bereshit hebraico seguido do Adam Kadmon – homem arquetípico ou anthropos – elementos cuja verdadeira compreensão e realização determinam o nível de evolução alcançado pelo discípulo, pelo aprendiz e pelos que almejam a maestria. Religiosos ou não, mesmo os mais radicais, céticos e materialistas admitem um process of time – processo do tempo nas palavras de Anderson, que equivale aos enunciados da evolução.

Quando o Dr. James Anderson sugeriu que Adão fora o primeiro maçom, iniciado por Deus no paraíso, ele quis expressar a seguinte verdade: o homem traz dentro de si (written on his Heart) as ferramentas necessárias para construir uma relação harmoniosa com seus semelhantes (templo-outro), com o templo-planeta e o templo-universo.

Todo aquele que bate nos portais da Iniciação é um Adão (Adamah) que retoma um lugar entre nós, na oficina do cosmos, dispondo-se a utilizar os instrumentos de trabalho – “especialmente a Geometria”, diz Anderson referindo-se alegoricamente à Moral das justas e perfeitas proporções entre o homem e seu meio.

Autor: José Maurício Guimarães

José Maurício foi o primeiro Venerável Mestre da Loja de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda – GLMMG. Também é membro da Academia Mineira Maçônica de Letras.

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