JB News – todas as edições

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Buscadores da Verdade…sois mesmo? (Parte III)

4 – Primeiras Considerações

O leitor atento já percebeu que o caminho no sentido à verdade não só é sinuoso como possui armadilhas que podem levar ao retrocesso.

Primeiramente eu quero reforçar a atenção sobre um ponto a partir da sequência da apresentação das ferramentas: a dialética; o silogismo; as quaestio disputata; indução vs dedução; e, método científico. Para discorrer sobre silogismo foi necessário recorrer à dedução (tema só apresentado posteriormente), mas para definir dedução foi necessário recorrer à noção de silogismo … há, pois, uma aparente circularidade. Ademais, as hipóteses, mais exploradas no MC, são partes integrantes do silogismo … Trago essas questões para chamar a atenção que, tal como um maestro, o buscador deve combinar os diferentes instrumentos necessários à harmonia sinfônica que encanta – a verdade.

Algumas das chamadas “ferramentas”, a exemplo das Questões Disputadas (QD), em razão da sua estrutura são, efetivamente e antes de tudo, organizadoras do pensamento, facilitam e promovem o entendimento da realidade; constituem uma efetiva plataforma para voos mais altos. A citação de Haskins, a seguir, oportuniza chamar a atenção para o fato de que as Questões Disputas eram exercitadas no contexto do desenvolvimento das Artes Liberais que, lembre-se, eram obrigatórias e antecediam os estudos mais especializados e avançados. Infelizmente, o que hoje se observa na Maçonaria é que as Artes Liberais não merecem mais do que uma tênue menção, não mais do que, en passant, e distribuídas por entre os Graus simbólicos, tendo-se perdido, completamente, o seu potencial formador, organizador e transformador:

[…] igualmente notável é a grande importância dada à lógica ou a dialética. Os primeiros estatutos das universidades, ou seja, aqueles de Paris em 1215, exigem que se estudem todos os escritos de Aristóteles que versem sobre lógica, um material que durante toda a Idade Média permaneceu como espinha dorsal do curso de artes […] a lógica não era assunto de estudo que tinha importância apenas por si mesmo, mas também permeava todas as outras disciplinas como um método, ao mesmo tempo em que dava à mente medieval um tom e um caráter peculiares. Silogismos, disputas, a disposição ordenada de argumentos a favor e ou contra teses específicas, eis o hábito intelectual da época […] (HASKINS, 2015, p. 48-9).

E não custa lembrar que as observações de Haskins dizem respeito ao ensino do que hoje corresponde ao II Grau, portanto, o nível médio.

Ademais é preciso estar atento, pois se de um lado a dialética tende a vir carregada de juízo de valor, o que não raro embota a apreciação crítica e objetiva, de outro chama a atenção para o fato de que a verdade, de algum modo parece convergir à unidade (senão não seria “a” verdade), a uma síntese que se não for desvelada (pela filosofia natural) deve ser construída (pela filosofia moral) ainda que a partir de contrários aparentes.

Por oportuno, cabe observar que desde a Antiguidade os homens têm estabelecido paralelos entre as verdades apreendidas no mundo natural e as verdades criadas (algumas também na forma de leis) para regular a vida em sociedade. Trata-se de uma indução forçada, pois as primeiras estão sob o domínio e são desveladas pela filosofia natural, enquanto as últimas, produtos da engenharia política e social, estão sob o domínio da filosofia moral. Nay (2007) deixa muito claro a conexão entre os dois domínios:

A nova legislação pretende claramente pôr fim aos conflitos pela realização de um equilíbrio entre as classes e a sociedade ateniense […] transpondo assim, no espaço da cidade, a concepção do universo simétrico difundido no mesmo momento pelos filósofos de Mileto (p. 27).

Adiante, referindo-se a Cícero, esclarece que:

Suas duas obras políticas maiores, De Republica e De Legibus, são fortemente influenciadas pelo pensamento “naturalista” dos estóicos […] Cícero recorda a importância da “lei natural” em política, a necessidade de recorrer à razão e ao conhecimento como instrumentos de governo […] (p. 64).

Finalmente, em apreciação histórica, Yates (1990, p. 490-1) sintetiza:

O séc. XVII é o período criativo da ciência moderna […] a filosofia mecanicista da natureza introduziu a hipótese, e o desenvolvimento da matemática proporcionou um instrumento próprio à primeira vitória decisiva do homem contra a natureza. Pois “todo o magnífico movimento da ciência moderna é essencialmente consistente, e seus posteriores ramos biológico e sociológico adquiriram da mecânica, já vitoriosa, os seus postulados básicos”.

Cumpre esclarecer que essas iniciativas são subprodutos e consequências lógicas da crença (que à época era a melhor resposta, a ciência de então, para as questões em aberto) da existência de dois mundos de algum modo interligados: o micro e o macrocosmo – enquanto primeiro referia aos fenômenos naturais, o segundo possuía elementos sobrenaturais -, e este, de algum modo (a ser descoberto), afetava aquele. Nem sempre devidos, como Marco Aurélio (o imperador filósofo) alertara já na Antiguidade, esses paralelos resistiram até o Renascimento, quando então, pouco a pouco foram ruindo (ROSSI, 1992). Todavia, a emergência da moderna física clássica – a mecânica newtoniana, que deu origem à “filosofia mecanicista” referida por Yates -, deflagrou uma nova onda de paralelos entre a ordem natural e a ordem social. E mais recentemente (início do séc. XX), tanto a Mecânica Quântica quanto a Teoria da Relatividade têm sido instrumentalizadas para fundamentar (ao atribuir status de verdade científica), indevidamente, generalizações que se estendem às construções sociais – aos comportamentos e valores. Baseado na Teoria da Relatividade, por exemplo, tenta-se mesmo fazer crer que “tudo é relativo”! Sobre o tema vale a pena ler “Pura Picaretagem: como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a ciência para te enganar. Saiba como não cair em armadilhas!”, de Bezerra e Orsi (2013).

Parece-me já claro que, se de um lado há ferramentas que auxiliam o buscador da verdade, estas mesmas ferramentas, por desconhecimento ou má fé, podem ser utilizadas para encaminhar no sentido contrário, afastando-nos da verdade, o que ficará ainda mais claro a partir da próxima seção.

5 – Falácias e sofismas

Sobre o tema não me deterei em demasia porque já está desenvolvido em Pinheiro (2021) e com vários exemplos aplicados à Ordem. Ademais, ao leitor interessado em leitura enriquecedora eu sugiro O Sofista (PLATÃO, 2013), e ao mais pragmático, o Guia das Falácias, de Stephen Downes. Entretanto, cumpre ora observar que o tema merece atenção e é relevante porque se coloca como um obstáculo, um dos principais, àquele que busca a verdade, sobretudo nos assuntos do cotidiano, mais próximos aos objetivos da Ordem. Enquanto a falácia é um erro de raciocínio por desconhecimento, o sofisma é grávido de dolo induzido pelo retor. E como a falácia dialoga com as ferramentas apresentadas? Japiassu e Marcondes (op. cit.) esclarecem:

Falácia (do lat. fallax: enganoso). Argumento envolvendo uma forma não-válida de raciocínio, no qual a conclusão é deduzida das premissas de acordo com as regras do silogismo. Argumento errôneo, que possui a aparência de válido, podendo levar à sua aceitação. (p. 94)

Sofisma (lat. e gr. sophisma). Raciocínio que possui aparentemente a forma de um silogismo, sem que o seja, sendo usado assim de modo a produzir a ilusão de validade, e tendo como conclusão um paradoxo ou um impasse. Ex.: este cão é meu, este cão é pai; logo este cão é meu pai (p. 227).

Conforme visto, é próprio da dialética a oposição dos contrários, o que, quando em jogo interesses estabelecidos, favorece ou mesmo estimula o comportamento oportunista, como bem explorado por Schopenhauer (1997) que identificou 38 estratagemas da dialética erística. Assim, a indução, o silogismo e a falácia, de mãos dadas, podem ser instrumentos úteis à conveniência dos interesses encobertos pela dialética erística, em especial nos temas que envolvem crenças, ideologias e, sobretudo, poder – política. Como subproduto desses embates as verdades são ressignificadas, não no sentido já esclarecido – pelo método racional, lógico, submetido à reiteradas provas transparentes e auxiliadas por ferramentas -, mas literalmente por imposição, seja doutrinária, psicológica e até mesmo física mediante coação, como bem explorado nas sátiras distópicas de Orwell (2005, 2007) e Huxley (2014). E é bom frisar, como alerta, que essas distorções são próprias do comportamento humano, daí antigas (insuperáveis?), como revela Jaulent (2006, p. 9) na apresentação ao Livro das Bestas, de Raimundo Lúlio (Llull em catalão), escrito no séc. XIII:

Servindo-se precisamente do simbolismo das bestas, Lúlio faz desfilar perante o leitor a intriga, a ideologia, o adultério, a mentira, enfim, todas as mazelas que amargam a sociedade dos homens quando estes, incoerentes com a sua condição racional, deixam-se subjugar pela sensibilidade cega.

O texto de Llull, que traz a natureza humana ao centro dos debates, convida à abordagem do tema – buscador da verdade – a partir de outra perspectiva que é muito própria à Maçonaria – a simbólica.

6 – Os níveis de análise

Ser livre e de bons costumes são exigências básicas para o ingresso na Maçonaria. A essas uma terceira condição completa os requisitos fundamentais à Iniciação: a crença no Grande Arquiteto do Universo [GADU] – o décimo nono landmark de A. Mackey -, mas que também pode ser depreendida do Artigo Primeiro das Constituições de Anderson – concernente a Deus e Religião -, de onde se extrai que “um maçom […] nunca será um ateu estúpido, nem um libertino irreligioso […]” (ANDERSON, 2012, p. 149).

Muita tinta e páginas já foram consumidas em análises críticas sobre o tema, mas quero aqui chamar a atenção para um desdobramento lógico da crença no GADU porque pertinente ao tema ora desenvolvido, uma cosmovisão particular, admitida por muitos, mas não por todos, qual seja: a existência de um plano transcendente à razão objetiva que, em princípio, é (seria) inatingível pelas ferramentas apresentadas. Isso implica na concepção do homem noético, também denominado de noopsônico (PONTES, 2012) que, em síntese, é constituído por matéria (físico), intelecto e espírito. Alguns, a exemplo de Smith (2002), identificam quatro dimensões: corpo, psique, alma e espírito; enquanto que Descartes se restringiu à dualidade corpo vs alma.

Até então o construto “verdade” vinha sendo abordado sobretudo no âmbito da dimensão física (ainda que invisível, por vezes não mais do que uma elaboração teórica, porém com resultados práticos), em que pese as noções de intelecto, psique e alma já há tempos serem objetos de estudo dos buscadores da verdade auxiliados pelas ferramentas apresentadas. Entretanto, a noção de “espírito” demanda uma abordagem diferenciada, em parte complementar, bem como ferramentas de outra natureza capazes de alcançar, então, a “verdade revelada”. Enquanto as ferramentas já vistas são instrumentos para a aproximação da verdade dita objetiva (racional) que constitui o corpus do conhecimento exotérico, a nova dimensão (esotérica) requer ferramentas capazes de proporcionar um novo tipo de experiências, de natureza mística que, por sua vez, levam à descoberta da revelação – a verdade esotérica.

E como é possível chegar à verdade revelada que, segundo estudos, requer estados diferenciados de consciência capazes de proporcionar o necessário senso de autotranscedência? A literatura sugere ferramentas que já têm sido objetos de estudo pela ciência (HAMER, 2005), a exemplo da ioga, da meditação, da gnose, da oração e da vida ascética, mas também o recurso às substâncias químicas.

Assim, tal como o Homem, a verdade também pode ser figurada em outro plano que, à primeira leitura, guarda semelhanças com o Mundo das Ideias já referido. E mais uma vez, por ser um tema demasiado amplo, não será possível, por ora, tecer considerações mais aprofundadas sobre a experiência mística, o conhecimento esotérico e a revelação; não obstante cabe ressaltar que esse domínio também vem sendo explorado a partir das ferramentas exotéricas (auxiliadas por novas tecnologias) e já constitui um campo próprio e crescente de conhecimento (PINHEIRO, 2021a).

E é fácil perceber a conexão metodológica entre os dois domínios: a experiência mística é uma vivência pessoal, portanto única e exclusiva; assim, o buscador reúne inúmeros casos, cataloga-os, classifica-os, procura regularidades, padrões, etc., tal como já esclarecido. Na sequência também se vale da indução para inferir, de hipóteses para deduzir resultados esperados, promove experiências cujos registros sistemáticos são submetidos à análise e testes estatísticos que corroborarão ou refutarão as hipóteses, etc. Enfim, reproduz, a partir dos insights pontuais e preliminares reportados pelos místicos (verdade que à primeira vista possui caráter essencialmente subjetivo) os mesmos procedimentos aplicados na busca da verdade objetiva. Note-se, também aqui, senão um esforço no sentido à unificação dos domínios de conhecimento, a tentativa de maior aproximação das duas vertentes: a da verdade adquirida e a da revelada. E, a rigor, a verdade revelada necessita ser desvelada, o que corresponde a ser descoberta; afinal, o que fazem os hermenêuticos, a exemplo dos cabalistas?

E sendo a crença no GADU uma conditio sine qua non, na Maçonaria só é possível admitir duas posturas: a deísta ou a teísta. Em linha de simplificação, tanto porque se trata de matéria amadurecida em vários textos, mas também para não me alongar e fugir em demasia do escopo, grosso modo, a Maçonaria deísta (a exemplo da praticada pelo Rito Moderno) segue a postura de R. Descartes, qual seja: Deus criou o mundo e o deixou por conta própria, análoga à célebre resposta de Laplace à Napoleão quando este o perguntou sobre como Deus se encaixava no seu esquema [de leis que regem o mundo]: “Senhor, não precisei dessa hipótese”. Já a postura teísta, assumida pelo Rito Escocês Retificado, admite a intervenção divina no cotidiano, o que explica a prática, por exemplo e entre outras, das orações de intercessão. Não é possível deixar de constatar que as diferenças são de tal ordem, assim como os desdobramentos lógicos e práticos, que chega mesmo a ser difícil reconhecer a ambos, entre outros Ritos, como espécies do mesmo gênero – a Maçonaria -; algo só tornado possível mediante a aplicação filtros seletivos (redutores) aos mínimos elementos constituintes.

A dificuldade para apreender a última dimensão (a espiritual) não é a única, mas está na raiz dos motivos para uma característica central à Maçonaria: o largo emprego do simbolismo. Considerando que essa matéria foi desenvolvida com maior profundidade em Pinheiro (2020), deste trago apenas alguns excertos à guisa de ilustração e em síntese: • A reunião das três chaves auxiliares à análise simbólica em um quadro (que se revela sinóptico) proporciona não apenas novos e importantes ensinamentos, como revela um efetivo padrão; e para deixar à evidência, ao lado das designações, em esforço de síntese, foram destacadas algumas expressões-chaves:

  • Em primeiro lugar, se vários autores apontam que existem níveis (graus) de percepção e entendimento da realidade apresentada, parece ser boa lição nunca se satisfazer com a primeira impressão pois “o que é ou pode ser” quiçá esteja encoberto por véus de ignorância superpostos. Do primeiro ao último nível há claramente um escalar de complexidade e abstração. Se o primeiro nível está relacionado à base (matéria, concretude), o último sugere o topo (o espírito, a abstração). É possível, também, tecer conjecturas acerca dos progressivos graus de certeza insertos em cada modalidade interpretativa e submetê-los à testagem.
  • Grosso modo, enquanto as primeiras interpretações têm como fonte e repercutem nos limites do universo primário de significados de cada indivíduo, o aprofundamento (mas que também corresponde à elevação) ao nível tropológico demanda considerações a partir de um novo marco: o dos relacionamentos, assim, o conjunto de valores pessoais deve ser sopesado aos códigos sociais, isto é, se cada iniciativa vai ao encontro ou de encontro às expectativas, ao que é aceito, valorizado ou, ao contrário. Finalmente, o nível anagógico volta a ter de caráter absolutamente pessoal, pois a descoberta (o desvelar do véu da ignorância) de regra se dá a partir do acúmulo de conhecimentos assim como da experiência, algo que ninguém pode adquirir ou fazer por outro. Analogamente o mesmo se verifica com a elevação e com a revelação, eis que ambas exigem pré-qualificações. Todavia, tanto a descoberta quanto a elevação e a revelação são experiências transformadoras, isto é, depois de tê-las vivenciado não é possível retornar ao estágio anterior; assim, e desde então, o agente passa a ser movido por outro código de valores, novas visões de mundo e padrões de relacionamento. E fecha-se, assim, o ciclo: o indivíduo, inicialmente a partir de um dado nível de conhecimento (inferior) relaciona-se com o coletivo, ascende a novos estágios (superiores) de conhecimento que possibilitam que estabeleça relacionamentos influenciando o seu habitat a partir de novas métricas e padrões, e assim sucessivamente até o último estágio idealizado: a revelação.

Por fim, cumpre chamar a atenção para uma situação sui generis mas que se apresenta aos buscadores da verdade, notadamente aos maçons:

  • conforme visto, é prática antiga e nem sempre apropriada, a transposição por analogia de entendimentos extraídos do mundo natural para o mundo social que, juntos, grosso modo, constituem o que ora se denomina de microcosmo – o mundo exotérico;
  • ademais, explicar determinados fenômenos verificados no microcosmo como decorrentes da vontade (leis, ainda que desconhecidas) proveniente do macrocosmo também faz parte das tradições. Vale lembrar que a magia, que nada tem a ver com a acepção contemporânea do termo, já foi a melhor explicação científica para os fenômenos observados, a exemplo da influência dos astros sobre o clima, a agricultura, a saúde e o comportamento dos seres vivos, etc.;

a) – conectar esses dois mundos (o micro, exotérico, científico; e, o macro, esotérico, gnóstico) chega a ser sedutor como chama a atenção Yates (op. cit., p. 496): “Pois não é toda ciência uma gnose, uma visão íntima da natureza do Tudo, que ocorre por meio de sucessivas revelações?”;

b) – nem mesmo R. Descartes, esclarece a autora, em momentos de dúvidas e angústias intelectuais escapou à tentação do pitagorismo hermético;

  • aos poucos, a magia e a ciência tomaram caminhos diversos a partir da melhor delimitação dos seus domínios. Todavia, a ausência de respostas definitivas pela ciência a incontáveis fenômenos e o surgimento de inusitadas questões, mantêm viva e mesmo estimulam a forte presença da magia, a identificação de paralelos, bem como a percepção (para alguns uma certeza) da existência de vínculo entre os dois mundos, como visto, entre outros, em Capra (1993); assim,
  • deve ser redobrada a cautela na busca pela verdade na esfera social, no mundo das relações cotidianas, pois ela sofre as influências de duas fontes que embora diversas somam as suas contribuições para desviar o foco e levar a enganos. E efetivamente parece ser o que mais ocorre.

7 – Considerações Finais

Conforme visto, ser um buscador da verdade corresponde a dedicar-se a empreendimento que comporta diferentes níveis de complexidade, seja pela variedade de instrumentos que requerem algum grau de domínio, quanto pela natureza fugidia do próprio objeto da busca. Contudo, não há qualquer dificuldade que com estudo, treino, orientação e passo a passo, não possa ser superada para alcançar os níveis mais elevados de conhecimento – aproximações da verdade.

E para aqueles que antecipam desânimo frente às dificuldades e também pelo reconhecimento apriorístico de que a verdade absoluta é uma miragem, cabe lembrar que o que efetivamente importa não é a linha de chegada, mas antes o caminho, os ganhos contabilizados ao longo da trajetória. É por sucessivas tentativas e erros que nos aproximamos da verdade. É o exercício continuado para atingir a verdade que proporciona o aperfeiçoamento físico, cognitivo, moral e espiritual.

Em tempos de disseminação viral de fake news, da primazia das pós-verdades na abordagem das questões do cotidiano, e intransigência no trato das mais diversas matérias (comportamentos, valores, opções políticas, crenças, etc.), o que leva à maior dificuldade no reconhecimento da integralidade do outro, s.m.j., talvez mais até do que no passado, revela-se indispensável exercitar a condição de ser um efetivo buscador da verdade.

A Maçonaria, instituição que não sem motivos regimentalmente afasta das Lojas o debate político-partidário e religioso, parece revelar-se como o ambiente apropriado para a realização de tais exercícios. Como? Muito simples! Para começar, dado qualquer tema, ao invés de iniciar com a enumeração de um rol de opiniões sem fundamento e descompromissadas com qualquer noção que possa ser considerada “verdade”, habituar-se a refletir antes de falar, bem como justificar as declarações emitidas. Em dúvida, ou se não tem o que dizer, o silêncio também é sinal de sabedoria; busque esclarecimentos, senão em Loja aberta, quando fechada, retornando ao tema no momento oportuno para refinar e compartilhar o novo grau de conhecimento, a nova aproximação da verdade.

Todas as ferramentas disponibilizadas estão ao alcance de qualquer um e de todos, claro que em diferentes de graus de complexidade ajustados às idiossincrasias e contingências particulares. Entretanto, o que eu observo, amplamente disseminado na Ordem, são lições, ou melhor, tentativas de se aproximar ou mesmo ensinar “a verdade”, como se fosse possível, essencialmente a partir de aforismos, notadamente de ordem moral… de fato uma prática (à época uma ferramenta) muito em voga na Grécia… anterior a Tales, o mais notável dentre os pré-Socráticos.

Xico Trolha (2019, p. 9) destacou que “O Maçom, por si só, é um pesquisador nato, é um crítico abalizado que não costuma aceitar qualquer verdade como “verdade” (DESTAQUE NO ORIGINAL)”, ao que ora eu acrescento: não se chega à “verdade”, ou minimamente próximo a ela apenas com meros aforismos que não resistem minimamente ao pensamento crítico porque não passam de falácias encobertas pelo argumento da autoridade conferida aos chamados gurus.

Isto é, sem reflexão, estudo, orientação e troca de ideias que permitam ir à essência subjacente às matérias trazidas à lide, são reduzidas, para não dizer inexistentes, as possibilidades de os Iniciados virem a ser efetivos buscadores da verdade.

E pode não demorar muito para que alguns percebam Lojas que mais se assemelham aos clubes sociais-recreativos do que às Escolas Iniciáticas, a exemplo das de Pitágoras, Platão e Aristóteles (sempre reverenciados na Maçonaria, mas raramente lidos), nas quais alcançar a verdade era o objetivo de e com todos.

Nesse quadro, aqueles que se tornam cientes do que já foi, deveria, e que hoje a Maçonaria se autoafirma ser, tendem à desmotivação, seguida da baixa frequência que culmina com a evasão devido a percepção da falta de sentido, pois, afinal, no que então o maçom se distinguiria dos não Iniciados? Por que então pagar (por vezes elevadas) taxas para Iniciação, Elevação, Exaltação, mensalidades, trajes próprios, deslocamento, etc.?

Autor: Ivan A. Pinheiro

* Ivan é membro da Loja Mário Juarez de Oliveira nº. 4547, jurisdicionadas ao Grande Oriente do Brasil – Rio Grande do Sul.

Fonte: Revista Ad Lucem | São Luís, V. I, n. 2, p. 14-28, maio/ago, 2021.

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Referências

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Buscadores da Verdade…sois mesmo? (Parte II)

3 – Ser um buscador

Assim, grosso modo, buscar a verdade pela via da ciência corresponde a eleger a primazia da dúvida (por vezes apresentada como curiosidade, ceticismo), seguida da observação (coleta de dados) sistemática da realidade (mais precisamente o fenômeno objeto de estudo), da catalogação (organização) dos registros, da realização de análises longitudinais, comparações (identificando as semelhanças, os contrastes), cruzamento entre as variáveis para verificar a existência de relações (associações positivas, exclusões mútuas), etc., tudo, é claro, planejado detalhadamente. Em síntese muito resumida, submeter um determinado fenômeno a esses procedimentos, para melhor conhecê-lo, descrevê-lo e explicá-lo corresponde a tratá-lo cientificamente, e como resultado tem-se um conhecimento admitido como verdadeiro, ainda que temporário, isto é, até que novas investigações autorizem a revisão do entendimento estabelecido.

Entre tantas, merecem destaque: a dialética (tese, antítese e síntese); o silogismo (premissa maior, premissa menor e conclusão); quaestio disputata; indução vs dedução; o método científico; e, como tópicos complementares: os níveis de análise e a cautela frente às falácias e sofismas.

3.1 – A dialética

Japiassu e Marcondes (1990, p. 71-2) descrevem o verbete “dialética” em perspectiva histórica, no que resultam 4 (quatro) acepções: a de Platão; a de Aristóteles; a de Hegel; e, a de Marx. Por ora excluo as de Aristóteles e Marx porque as demais estão mais próximas ao tema específico desta empresa:

1. Em Platão, a dialética é o processo pelo qual a alma se eleva, por degraus, das aparências sensíveis às realidades inteligíveis ou ideias. Ele emprega o verbo dialeghestai em seu sentido etimológico de “dialogar”, isto é, de fazer passar o logos na troca entre dois interlocutores. A dialética é um instrumento de busca da verdade, uma pedagogia científica do diálogo graças ao qual o aprendiz de filósofo, tendo conseguido dominar suas pulsões corporais e vencer a crença nos dados do mundo sensível, utiliza sistematicamente o discurso para chegar à percepção das essências, isto é, a ordem da verdade.

O texto remete ao que já havia sido comentado sobre a Teoria das Ideias, de Platão (séc. V a.C.), bem como chama a atenção para aspectos importantes: a) a verdade está associada à essência e a esta se chega ao longo de um processo, degrau por degrau; b) os sentidos e as pulsões, como Descartes já apontara, podem iludir a percepção da realidade; por fim, c) à verdade se chega pelo diálogo, mais pelo contraste de ideias do que pela reafirmação. Mas mesmo na ausência de um interlocutor, as mentes mais brilhantes, a exemplo da de A. Einstein, desenvolvem autonomamente experimentos mentais sem prejuízo à crítica.

2. Em Hegel, a dialética é o movimento racional que nos permite ultrapassar uma contradição […] é um movimento conjunto do pensamento e do real […] movimento racional superior em favor do qual esses termos na aparência separados (o ser e o nada) passam espontaneamente uns nos outros, em virtude mesmo daquilo que eles são, encontrando-se eliminada a hipótese de sua separação.

O estudo da dialética pode ser tão complexo e profundo quanto se queira, não sendo esta, aqui, a intenção. Da dialética hegeliana se diz que é a unidade dos contrários, pois é do diálogo (embate) entre os opostos (a tese ou situação inicial vs antítese ou oposição à tese) que se deve chegar à síntese (nova situação ou realidade resultante dos elementos presentes na tese e na antítese) que, por sua vez, no momento subsequente se constitui em nova tese que necessariamente faz surgir a sua antítese e, assim, em espiral sucessiva e indefinida. Reforça-se, aqui, a ideia de que a verdade tem caráter dinâmico, histórico, o que não pode passar desapercebido aos agentes sob pena da exacerbação permanente do estado de conflito.

3.2 – O silogismo

É o método dedutivo que permite extrair uma conclusão a partir de duas premissas – uma chamada maior e, a outra, menor -, por implicação lógica. Aristóteles, a quem é atribuída a primazia da sua formulação, esclarece que: “o silogismo é um argumento em que, estabelecidas certas coisas, resulta necessariamente delas, por serem o que são, outra coisa distinta do anteriormente estabelecido” (ARISTÓTELES apud JAPIASSU e MARCONDES, op. cit., p. 224). Em outras palavras, o silogismo é o raciocínio no qual, de determinadas coisas afirmadas, segue-se inevitavelmente outra afirmativa em caráter conclusivo. Um exemplo, certamente bastante conhecido, permite melhor identificar os elementos do silogismo:

  • Premissa maior: todos os homens são mortais;
  • Premissa menor: Sócrates é homem;
  • Conclusão: logo, Sócrates é mortal.

“Todo o mecanismo silogístico repousa no papel desempenhado pelo chamado termo médio (homem), que fornece a razão do que é afirmado na conclusão: porque é homem, Sócrates é mortal” (NOVA CULTURAL, 2000, p. 18). Todavia, é preciso cautela (razão pela qual se afirmou que as ferramentas devem ser utilizadas de modo combinado), pois também é possível construir silogismos a partir de premissas falsas, como é o caso do silogismo anterior e agora ligeiramente modificado:

  • Premissa maior: todos os homens são imortais;
  • Premissa menor: Sócrates é homem;
  • Conclusão: Sócrates é imortal.

3.3 – As quaestio disputata

Da lavra de Nougué (2017, p. 235) se extrai que a quaestio disputata:

[…] se divide em artigos, que por sua vez se dividem em etapas ou partes fixas. Em primeiro lugar, formula-se a pergunta ou questão de que se tratará. Em segundo lugar, apresentam-se o mais perfeitamente possível as objeções à doutrina sustentada no artigo […]. Em terceiro lugar dão-se os “mas contrariamente”, que argumentam contra essas objeções, e que podem coincidir ou não com a doutrina do artigo. Em quarto lugar, vem o corpus, no qual a doutrina do artigo ou se demonstra ou, excepcionalmente, se mostra apenas como a mais provável. Em quinto lugar solucionam-se as objeções à doutrina do artigo. E, em sexto lugar, se e quando necessário, solucionam-se as argumentações postas contrariamente às objeções.

A complexidade e a dificuldades são apenas aparentes. Em síntese, o procedimento enumera as etapas para solução da disputa em torno de uma questão que encerra polêmicas, admite pontos vista controversos, razão pela qual demanda análise crítica a partir de todas as perspectivas. Além disso, chama a atenção para o fato de que as respostas não devem ser buscadas de modo isolado, mas no âmbito de uma tradição, de uma doutrina mais alargada e que orienta o entendimento.

As quaestio disputata foram largamente empregadas durante a escolástica medieval, tendo sido, infelizmente, abandonada em que pese a sua contribuição ao desenvolvimento da cognição lógica. Sobre os usos e os costumes no ambiente universitário medieval Haskins (2015) revela que:

As preleções formais, por mais importantes que tenham sido numa época em que não havia laboratórios e em que os livros eram escassos, não eram de maneira alguma os únicos meios de instrução. Um exame cuidadoso do ensino universitário também precisaria levar em conta as preleções menos formais […] as revisões e repetições […] e as disputas que preparavam o estudante para a aprovação final, aquele momento em que teria de defender publicamente a sua tese de graduação (p. 62-3); Cantai ao senhor um cântico novo […] pois o vosso filho teve uma disputa gloriosa, na qual esteve presente um grande número de professores e estudantes. Ele respondeu todas as perguntas sem cometer um erro, e ninguém foi capaz de resistir aos seus argumentos […] Inception designa a cerimônia em que o estudante era aceito com um mestre nas universidades medievais […] Primeiro o candidato participava de uma disputa formal chamada vésperas, que seguia um formato um tanto complexo (p. 67).

Penso que essas brevíssimas citações deixam à evidência a mudança que, desde então, se operou; se para o bem ou para o mal é questão envolta por controvérsias (que exigem uma disputa!) pois os indícios são inconclusos – a contabilidade registra ganhos, mas também perdas.

O maior expoente no método das Questões Disputadas foi, sem dúvida, Sto. Tomás de Aquino (1225-1274), cuja monumental Suma Teológica foi totalmente escrita neste estilo. Ciente de que a matéria é desconhecida da maioria dos leitores, para maior clareza a seguir eu transcrevo, ainda que em redundância à citação de Nougué, a Apresentação (PETRÔNIO, 2015, p. 7) de “O Bem – questões disputadas sobre a verdade”, de Tomás de Aquino:

Neste método, Tomás inicia com uma pergunta [questão] e a desenvolve em artigos. Cada questão disputada pode conter diversos artigos. Cada artigo considera uma parte da questão mediante uma pergunta, estando composto por argumentos pró e contra e uma conclusão, na qual aparece a resposta do autor à pergunta elaborada na forma de artigo, que, por sua vez, compõe a questão. Em cada artigo Tomás procede da seguinte maneira: ante a pergunta proposta num artigo da questão, ele a afirma ou nega, expondo em contrário diversos argumentos. Em seguida, toma um ou mais argumentos fortes, que são contrários àqueles diversos raciocínios que se seguiram à pergunta inicial. Então, logo após esses argumentos, ele inicia uma resposta, em conformidade com o que pretende demonstrar, escrevendo no corpo do artigo uma conclusão, que é simultaneamente resposta à pergunta feita inicialmente, e termina esclarecendo as dificuldades ou contradições dos primeiros argumentos expostos.

Com efeito, na sequência o tema (“O Bem – questões disputadas sobre a verdade”) é desenvolvido em 6 (seis) artigos e cada um observa a seguinte estrutura tomando por base o Artigo I: 1) primeiro, pergunta-se se o bem acrescenta algo ao ente; depois, 2) seguem os argumentos a favor (e parece que sim); 3) os em contrário; 4) as respostas aos argumentos em contrário; e, finalmente, 5) as conclusões.

Ao leitor menos versado sugere-se que, no primeiro momento, não se atenha aos detalhes, mas antes perceba a essência da estrutura das Questões Disputadas: não é possível chegar à verdade acerca de qualquer matéria sem antes esclarecer e eliminar todas as objeções que contra ela se levantam.

Por fim, o leitor escolarizado já terá percebido que as Questões Disputadas estavam na antessala do Método Científico, senão introduzido, consolidado na Modernidade. Atualmente poderiam ser equiparadas à Revisão da Literatura exigida na maioria dos trabalhos universitários, em vários empreendimentos profissionais (a exemplo de grandes projetos), bem como em algumas atividades profissionais, como a persecução criminal e a prestação jurisdicional.

3.4 – Indução vs Dedução

Indutivo, na expressão popular mais difundida, é o raciocínio que conduz de enunciados (resultados, observações, etc.) particulares para enunciados gerais, como são as teorias. Já o raciocínio dedutivo transita no caminho inverso: parte dos pressupostos de uma teoria (ou hipótese) geral e infere sobre possíveis resultados particulares que devem ser submetidos à confirmação (ou não) em experimentos. Assim, como se diz, o primeiro “conduz do particular para o geral” enquanto que o segundo no sentido inverso, “do geral para o particular”.

Em termos mais formais:

É comum dizer “indutiva” uma inferência, caso ela conduza de enunciados singulares (por vezes também denominados também enunciados “particulares”), tais como descrições dos resultados de observações ou experimentos, para enunciados universais, tais como hipóteses ou teorias (POPPER, 1989, p. 27).

Já há tempos que o raciocínio indutivo não é mais aceito como método para chegar à verdade. D. Hume (1711-1776), após ter-se debruçado sobre o tema, declarou o que ficou conhecido como o Problema de Hume:

[…] nada há em qualquer objeto, considerado em si mesmo, que nos possa oferecer uma razão para tirar uma conclusão além dele […] mesmo após a observação da frequente ou constante conjunção de objetos, não temos razão para extrair qualquer inferência concernente a qualquer objeto além daqueles com os quais temos tido experiência. Não há, pois, segundo Hume, justificativa lógica para a indução (FREIRE-MAIA, 1995, p. 50).

E por que, então, continuamos tentados a, de casos particulares, a generalizar? “A resposta é simples: porque mesmo sem justificativa lógica, em geral dá certo (isto é, há uma justificativa pragmática)” (id., ibid., p. 50). Ao esclarecimento do autor eu acrescentaria outro que o acompanha muito próximo: a falta de conhecimento, seja do autor ou por parte de um do interlocutor, o que estimula as partes a generalizar à sua conveniência, e nem sempre por motivos confessáveis.

O hábito da indução é um dos mais generalizados nos debates sobre os mais variados assuntos do cotidiano, e também causador de desavenças e mesmo injustiças. Todavia, o exemplo já mencionado do Cisne Negro é a evidência de que se trata de procedimento sujeito a erro. A esse, outros tantos extraídos do diário de bordo de C. Darwin, confirmam o acerto de Hume.

Já a dedução é:

o raciocínio […] Em outras palavras, operação lógica consistindo em concluir de uma ou várias proposições, postas como verdadeiras, ou uma ou várias proposições que se seguem necessariamente. O modelo da dedução é o silogismo ou o raciocínio matemático (JAPIASSU e MARCONDES, 1990, p. 65).

Por oportuno, o silogismo já apresentado como exemplo, agora submetido às exigências da dedução, ganha nova proposição:

  • Premissa maior: se é verdade que os homens são mortais;
  • Premissa menor: e se é verdade que Sócrates é um homem;
  • Conclusão: deduz-se que Sócrates é mortal.

Como se percebe, a diferença entre o antecedente e este último é a condição de “ser verdade”, daí porque, para muitos, à frente Popper (op. cit.), só a dedução (e não a indução) merece o reconhecimento como procedimento científico que autoriza o estabelecimento de verdades – no caso acima, de duas verdades só pode (será?) decorrer outra verdade! -, ainda que temporárias, até que deem lugar a outras. Todavia, não se deve minimizar e tampouco desprezar o papel do raciocínio indutivo no empreendimento científico, pois ele se revela assaz importante em determinadas fases e modelagens da investigação ordenada à verdade.

3.5 – O método científico (MC)

Apesar de o MC já ter sido introduzido antes mesmo desta seção, a ele retorno porque se trata da “joia da coroa”, um conjunto de procedimentos que inclui objetivos, estratégias, táticas e ferramentas em desenvolvimento desde a Antiguidade. Aristóteles (384-322 a.C.) e até mesmo seus antecessores (Tales de Mileto, Anaximandro, Empédocles e outros), praticavam (em parte, é claro) o que ainda hoje constitui o MC: a observação sistemática da natureza ou da experimentação empírica. Todavia, o MC ganhou alavancagem a partir da Modernidade, quando entraram em cena N. Copérnico, F. Bacon, R. Descartes, G. Galilei e tantos outros.

Como já mencionado, a curiosidade humana é atávica, o desejo de saber e compreender o mundo que o cerca estão no seu no DNA e têm sido efetivos drivers ao longo da evolução da humanidade. Destarte, descobrir e explicar o que nos cerca, inclusive a razão da própria existência, não sem o intuito de prever e controlar os fenômenos, têm sido a atitude e o comportamento dominantes desde os nossos antepassados. Daí que o MC tem início com a observação dos fenômenos, a começar pelos naturais – movimento dos astros, clima, agricultura, comportamento dos animais, etc. Os deuses constituíram as primeiras explicações para o que à época era inexplicável à luz do conhecimento e da tecnologia disponíveis; é assim que Hesíodo, em Teogonia, apresenta a sua cosmogonia, bem como a índole e o comportamento dos Homens, ora irados, ora amorosos, sob a influência dos deuses.

É atribuída a Tales, nascido em Mileto (antiga colônia grega na Ásia Menor, área hoje correspondente à Turquia) a primazia de ter observado “e provado” que nem tudo, como se pensava, era dependente do humor dos deuses. E desde então, o ritmo das descobertas tem sido crescente e a trajetória parece ser interminável, bem como, contrário ao senso, não foi interrompida no medievo, reduzido o ritmo, sim.

A observação livre e sistemática dava (e dá) origem a um conjunto de registros que ao primeiro olhar podem parecer caóticos; todavia, quando classificados, ordenados e estratificados revelam o que o caos escondia: a informação que agrega e modifica o estado prévio do conhecimento.

(Detalhe importante: o que separa o dado (ou registro) da informação é o conhecimento anterior do buscador, pois para o leigo “tudo” é informação na sua acepção mais vulgar. Ex.: se ao leigo for dito que foi encontrada e atestada a autenticidade de uma Constituição Gótica datada do séc. IX, isto significará nada mais que uma mera anotação sem relevância, um registro que em nada alterará o seu status de conhecimento (mas reconhecerá como uma “informação”); já para um Iniciado e estudioso, isto corresponderá efetivamente a uma informação, algo que modifica por acréscimo o seu conhecimento, pois até o momento o documento mais antigo – a Carta de Bolonha – data do séc. XIII).

O passo subsequente corresponde à coleta de dados experimentais, o que não só agrega um novo nível de informações ao conhecimento como, em geral, abre novas perspectivas de investigação. E experimento, ressalto, não necessariamente guarda relação com laboratórios, tecnologias sofisticadas, especialistas, etc. Ao fazer uma pequena alteração em uma receita de culinária e comparar os resultados com a anterior está se procedendo a um experimento. Habitualmente não nos damos conta, mas o experimento e a indução estão mais presentes no cotidiano (familiar, profissional) do que reconhecemos à primeira vista.

O acúmulo organizado de registros permite a consecução de outro objetivo do empreendimento científico: a identificação de regularidades, padrões de comportamento que, reiterados, sugerem a existência de princípios e leis que regulam os processos em estudo. Já a partir do cruzamento de registros é possível identificar a existência ou não de algum tipo de relacionamento, a exemplo de causa-efeito, mútua exclusão ou associação em variados graus, o que pode ter grande aplicação com vistas à previsão e ao controle (direto e indireto) em variados domínios do conhecimento. Tomese, por exemplo, o caso da febre… equiparada à ponta de iceberg.

O ceticismo, conforme já mencionado, é característico do buscador da verdade, daí que, independentemente da sua certeza pessoal acerca do acervo de conhecimentos que detém, este deve ser permanentemente submetido a testes (empíricos, teóricos, estatísticos, etc.), idealmente por terceiros e mesmo desconhecidos (pela isenção) que intentem falsificá-lo ou identificar as suas fraquezas. Assim, a resistência a sucessivos testes implica na maior crença quanto a veracidade do fenômeno (teoria, hipótese, modelo) objeto de análise; já a identificação dos pontos fracos poderá levar ao abandono, ajustes temporários (ad hoc) ou ao aperfeiçoamento do enfoque sob tensão. E é esse ciclo, que no atual estado da arte é considerado como interminável, que permite progredir, etapa por etapa no sentido à verdade absoluta, isto é, pela aproximação mediante sucessivas verdades parciais ou temporárias.

O que atualmente se verifica no domínio da física contemporânea, a mãe de todas ciências, é ilustrativo do que ocorre em várias campos do conhecimento: considerando que há duas grandes teorias (por vezes referidas como modelos) que explicam a natureza, uma ao nível do microcosmo (atômico e subatômico), a outra ao nível macro, quais sejam: a Mecânica Quântica e a Teoria da Relatividade, o principal empreendimento científico da atualidade é a busca da chamada Teoria de Tudo (WEINBERG, 1996; MLODINOW, 2005; HAWKING e MLODINOW, 2011), tema também celebrizado no livro, já adaptado ao cinema, sobre a vida e obra de Stephen Hawking. Laszlo (2008), após constatar a perplexidade dos pesquisadores frente a várias ocorrências inusitadas (e mesmo exóticas) nos mais diversos campos do conhecimento, também reclama a emergência de um novo paradigma.

Concluindo, desde que o Homem se tornou um observador crítico da realidade, ele busca descrever, explicar e controlar o mundo que o cerca, o que não pode ser realizado sem método e instrumentos adequados. E ainda, em que pese a denominação “método científico”, é um equívoco pensá-lo com uma ferramenta exclusiva para o uso dos acadêmicos ou dos cientistas stricto sensu pois, tal como esclarecido para as quaestio disputata, hoje o MC só é uma ferramenta nos termos apresentados porque anteriormente revelou ser uma atitude frente ao desconhecido e mesmo às dúvidas do cotidiano, daí a relevância da sua larga aplicação na Maçonaria:

Procurar conciliar os estudos maçônicos com o método acadêmico, tem sido a nossa maior preocupação nestes dois anos de publicações. Preocupa-nos os “achismos”, assim como a falta de hermenêutica com relação aos textos que procuram historiar a Maçonaria. No lugar da interpretação, temos adornos sem maiores significados (COSTA, 1998, p. 85).

Continua.

Autor: Ivan A. Pinheiro

* Ivan é membro da Loja Mário Juarez de Oliveira nº. 4547, jurisdicionadas ao Grande Oriente do Brasil – Rio Grande do Sul.

Fonte: Revista Ad Lucem | São Luís, V. I, n. 2, p. 14-28, maio/ago, 2021.

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Buscadores da Verdade…sois mesmo? (Parte I)

Os maçons se reconhecem como buscadores da verdade; serão mesmo? Essa é a questão motivadora deste ensaio analítico-crítico alicerçado na literatura e que tem por objetivos: refletir sobre o tema, sobre os desdobramentos práticos à luz das reflexões apresentadas, bem como suscitar no leitor novas reflexões: a sua Loja está contribuindo em ordem à sua preparação para ser um buscador da verdade a ponto de diferenciá-lo dos não iniciados? É pressuposto que os buscadores necessitam, antes de tudo, conhecer o objeto da sua procura, razão qual, após problematizar o construto fundamental (verdade) são apresentadas e brevemente discutidas algumas “ferramentas”: a dialética, o silogismo, as quaestio disputata, indução vs dedução; e, o método científico. Entretanto, as próprias ferramentas, por desconhecimento ou má fé podem conduzir a destinos equivocados, o que levou à discussão sobre as falácias, sofismas e o estabelecimento de paralelos e analogias imediatas, e daí inapropriadas, entre o mundo natural e o mundo social. Não obstante, dado que a Maçonaria admite a existência de um plano metafísico-transcendente, se faz necessário ainda ampliar a noção do construto verdade, bem como oferecer ferramentas adicionais (meditação, ascese, oração, análise e interpretação simbólica) que possibilitem, senão atingi-la, dela considerar que se está próximo. A nova visão, conforme apresentado, também não é livre de armadilhas. Finalmente, apesar das diferenças entre as duas visões acerca da verdade, e mesmo a existência de armadilhas escamoteadas por entre as ferramentas, sugere-se que elas, as visões, não só apresentam semelhanças como estão mais próximas do que à primeira vista é dado perceber, ou melhor: só é (será) percebido por aqueles que se dedicarem a buscar a verdade.

1 – Introdução

Do maçom diz-se que é “um buscador da verdade”, expressão que no Rito Escocês Retificado, inclusive, integra a ritualística da Recepção (que corresponde à Iniciação) ao Primeiro Grau; já alguns autores preferem a expressão “investigador da verdade” que, em linguagem simbólica, pode também corresponder a “buscar a luz”. Lato sensu, de algum modo todos somos “buscadores da verdade” desde que adquirimos o senso da consciência, o que se dá ainda na primeira infância. O que, então, distingue os homens conforme o seu amadurecimento e dentre estes um conjunto particular, o dos maçons, que justifique o epíteto? Refletir sobre o tema, bem como sobre algumas questões decorrentes são objetivos deste texto.

Em se tratando de um ensaio analítico-crítico, o ponto de partida não poderia deixar de ser as considerações acerca duas expressões-título: “buscador”; e, “verdade”. Ambas são construtos polissêmicos, portanto, cada uma merecedora de um ensaio exclusivo, o que não é o caso, daí que o se segue é um recorte sumário para instigar novos estudos. O texto, então, explora cada expressão com o intuito de demonstrar a sua complexidade, o que, de imediato e per se já revela a dificuldade (quiçá impossibilidade) de chegar, por exemplo, ao que se pretende ser a verdade. De outro lado, a condição de ser um buscador sugere a utilização de instrumentos viabilizadores do empreendimento, razão pela qual o texto logo após a breve digressão sobre “verdade” apresenta algumas dentre as principais ferramentas utilizadas por aqueles que se dispõem a ser buscadores. Entretanto, como alertou o poeta, “Tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do aminho tinha uma pedra”, daí porque prossegue, a título de alerta, com a apresentação de alguns dos principais obstáculos levantados aos buscadores da verdade.

E considerando que a Maçonaria é gênero que abriga muitas espécies (tradições e Ritos), é preciso alargar ainda mais a noção de verdade para poder abraçar todas as espécies, o que, antecipo, gera nova ordem de dificuldades, pois há verdades que são propedêuticas, princípios orientadores, como é o caso das cosmovisões individuais, em ordem às demais verdades, neste prisma, vistas como consequentes lógicos, sequer necessitariam ser buscadas porque auto evidentes. Aos poucos, então, torna-se conveniente distinguir “a verdade” (por vezes adjetivada como absoluta) de “uma verdade”, esta então em caráter temporário ou mesmo precário. A solução à nova ordem chega a surpreender, pois se de um lado requer novas ferramentas, de outro revela que as primeiras têm sido utilizadas conjuntamente com estas últimas para, então, chegar a um novo significado do que seja a “verdade”.

Finalmente, como objetivo complementar, deixo à reflexão do leitor: se ser um buscador da verdade é empreendimento reservado ao Iniciado, é de se esperar que na sua Loja o tema seja ampla e exaustivamente debatido, com método, rigor e orientação, sobretudo das Luzes. E se tal não se verifica, com o tempo sendo despendido em questões sociais-recreativas, longas preleções históricas em meio a lendas que não disfarçam o intuito de tecer loas à Ordem, ou ainda em debates sobre as minúcias dos detalhes, parafraseando W. Shakespeare, em Hamlet, é possível que “haja algo de podre no reino da Dinamarca”.

2 – Sobre a Verdade

Como observa Freire-Maia (1995, p. 119): “Verdade é uma palavra que tem pelo menos três “dimensões”: a) passado: fidelidade ao que aconteceu […]; b) presente: exatamente o que se procurava […]; e c): futuro: digno de confiança […]”. Em outros termos, verdadeira é toda percepção pelos sentidos adequada à noção de realidade.

A ideia é muito clara, difícil de ser contestada, mas só se revela funcional se houver uma prévia noção de realidade, o que se dá com o tempo a partir e desde a infância. Assim, acostumado ao som e ao ritmo cardíaco desde o útero, entre tantas, de imediato o bebê se acalma ao acalento da sua verdadeira mãe. Essa primeira aproximação do que seja a verdade, em que pese a sua imediata aceitação, traz incontáveis dificuldades, uma delas diz respeito à amplitude da abrangência, pois abraça tanto os tangíveis quanto os intangíveis (princípios, valores, etc.), os fruíveis, os fungíveis… enfim, uma enorme e diferenciada gama de sujeitos e objetos referentes que pela acumulação na memória virão a constituir, na mente de cada um, o que é (ou não) realidade e, por contraste, verdadeiro (ou não) – por isso a referência anterior a “uma noção de realidade” ao invés de “a realidade”. Tempo e exposição à experiência são, pois, condições sine qua non à previa construção da realidade que, por contraste, atestará (ou não) o que é (ou não) verdadeiro.

A próxima dificuldade se já não está inserta deriva da anterior, eis que o primeiro nível de aprendizagem é essencialmente empírico e individual, o que traz nova ordem de obstáculos; assim, quem só teve a oportunidade de ver cisnes brancos terá dificuldade em reconhecer como verdadeira a afirmativa (e mesmo em condição de testemunho in situ) de que existem cisnes negros (TALEB, 2008); no máximo serão admitidas não mais do que semelhanças entre estes e aqueles. E assim, quantas verdades existem, mas que estão fora do nosso domínio devido à falta de experiência? Se não uma viagem, a leitura de um bom texto pode ser suficiente para revelar que realidades ordinárias para alguns se afiguram como inusitadas ou mesmo inverossímeis para outros. Ademais, qualquer limitação nos órgãos dos sentidos implicará em diferenças na percepção e, por conseguinte, na constituição da realidade-referência; o corolário é imediato: se não existem duas pessoas iguais … a rigor não é possível que dialoguem sobre a mesma realidade, se tanto, reconhecerão verossimilhança. E se a adequação à realidade é pressuposto para o reconhecimento de algo como verdadeiro…

Além da apreensão pelos sentidos, a realidade, é claro, pode vir a ser constituída (e sempre nas mentes individuais) a partir da aprendizagem teórica-abstrata a exemplo da formulada pelo sistema educacional também logo nos primeiros anos. E nesse caso é difícil contestar que pessoas com diferentes níveis de educação formal constituirão … diferentes realidades. Por analogia, recorro a um dos exemplos mais conhecidos, o Mito da Caverna (PLATÃO, 2000): o novo conhecimento amplia, ressignifica e mesmo altera a concepção do mundo, do até então admitido como real. É um caminho sem volta. O leitor interessado em saber como o cérebro cria a realidade e entender como funciona a mente, poderá ler, entre tantos, Damásio (2011), Nicolelis (2011) e também Macknik e Martinez-Conde (2011).

Passado o tempo, mas paralelamente, outras lentes, a exemplo das crenças, culturas e ideologias (sistemas de valores) serão utilizadas para modular a realidade em permanente construção, tendo, pois, uma dimensão histórica: varia no tempo e no espaço. E mesmo entre os cientistas, ou sobretudo entre estes, as perspectivas acerca da realidade são distintas porque provenientes de (pontos de partida) teorias (visões de mundo) divergentes. Hawking e Mlodinow (2011) referem que algumas teorias mais parecem ficção científica… mas não são, ao contrário, são bem fundamentadas (para quem entende, é claro), mas escapam ao senso comum. É notória a resistência e os embates de A. Einstein com os seus colegas teóricos precursores da mecânica quântica. No mundo da ciência há ainda outra concepção de realidade, de natureza probabilística, mas sobre esta não cabe, aqui, tecer maiores considerações, seja porque mais específica, mas sobretudo porque, de regra, distante do cotidiano. Mas simplesmente saber dessa existência (o que não nos exige conhecimentos aprofundados e específicos) já nos situa a partir de outra perspectiva valorativa frente à realidade e, por conseguinte, à verdade.

Penso que essas menções são suficientes para deixar claro que a tarefa dos que se propõem a conceituar a realidade – em definitivo – se equipara à de Sísifo, e se a adequação à realidade (pretérita ou presente) é critério para o reconhecimento da verdade, definir esta última acaba por ser tarefa, senão impossível, tão difícil quanto a do personagem mitológico.

Contudo, a vida em sociedade requer o estabelecimento de um acordo básico sobre o que é real (verdadeiro), e que, por extensão de entendimento (do concreto ao abstrato) será utilizado como baliza referencial para o reconhecimento da verdade, inclusive para a formação de juízos a exemplo de certo vs errado, bem vs mal, belo vs feio, igual vs diferente, vício vs virtude, etc. – base dos códigos morais (do que é permitido, valorizado, estimulado, etc.) que orientam e normatizam os relacionamentos, inclusive com os animais.

À guisa de ilustração, mesmo no domínio da Justiça, um dos temas mais salientes no seio da Ordem, orientado pela norma positiva firmada pelas maiorias nos Estados Democráticos e de Direito, não raro há dificuldades para se chegar à verdade dos fatos capaz de promover a justiça. Aliás, a própria noção de ato delituoso (e mesmo crime) varia no tempo e no espaço: tanto o que não era considerado pode vir a ser (ou até mesmo já é); quanto o que hoje não é, no futuro poderá vir a ser – ato delituoso ou crime. Ademais, no limite, a diferença entre o herói e o criminoso pode ser sútil, assim como as apreciações dos atos cometidos podem ser matizadas em razão do agente, se público ou privado, e frente às circunstâncias. No domínio da Justiça a verdade não só depende de provas, elementos factuais da realidade (o que à primeira vista é incontestável) como da observação da ritualística (o devido processo legal); todavia, não raro essas exigências abrem oportunidades para o projeto do crime perfeito – sem punição, seja pela ausência de provas ou pelo gerenciamento até a prescrição. Como se percebe, o tema é amplo e aberto a controvérsias; demanda permanente estudo e reflexão.

Até o momento, para registrar a complexidade que envolve a noção de “verdade”, adotou-se a atitude conhecida como realista, que admite a apreensão da realidade em si mesma; contudo, a matéria admite abordagem diversa: a do idealismo, que tem em Platão, se não a primeira, uma das mais conhecidas referências históricas. É provável que as dificuldades apontadas, entre outras no domínio do realismo, estejam por detrás da enorme acolhida à Teoria das Ideias (PLATÃO, 2000, 2011, 2013) que, impregnada nos corações e mentes, encontra-se miscigenada com inúmeras crenças que igualmente se propõem a encontrar a verdade em estado puro. E se essa não pode ser encontrada ao nível do microcosmo, o do nosso cotidiano, talvez possa no macrocosmo, bem como existir entre ambos uma via de comunicação.

Nesse caso, a realidade objetiva é tão somente uma sombra, imperfeita, apreendida e filtrada pelos sentidos, de uma realidade idealizada, perfeita. Trata-se de uma engenhosa construção conciliatória ajustada à natureza humana ávida por conhecimento, explicações. Assim, ao fim e ao cabo, a busca pela verdade é deslocada para um plano ainda mais elevado que muitos textos, a priori, referem como incognoscível, daí, inatingível, mas que no plano do microcosmo pode ser representada, em grande síntese, pelas chamadas 3 (três) questões fundamentais: de onde viemos, para onde vamos e qual a razão (o sentido) da existência? E é no curso da investigação ordenada a essas questões que as demais verdades com implicações mais pragmáticas serão descobertas. Por oportuno, é digno de nota que, nessa linha, para muitos as questões que no âmbito da Justiça não foram devidamente solucionadas no microcosmo ficam, então, adiadas para solução no plano do macrocosmo, tido como superior, o que faz deste comportamento uma atitude perante a vida.

E antes concluir esta breve introdução ao tema da verdade, importa salientar que, em que pesem as dificuldades apontadas, somente superadas por convenções sociais, nunca em termos absolutos, esta condição de impossibilidade tem sido extremamente útil e funcional à humanidade, pois a curiosidade, a dúvida, a eterna e inquietante busca para compreender a realidade estão na base dos empreendimentos que direta ou indiretamente, como que em reação em cadeia, proporcionaram a humanidade o atual estágio de desenvolvimento. Nesse contexto, os tipos ideais weberianos constituem um bom exemplo contemporâneo da importância do alvo móvel e inatingível: o fato de serem abstrações, nunca encontrados na sua plenitude, não implica redução da sua importância enquanto quadro de referência que motiva e cria sinergias nos agentes. Ainda que por tentativa e erro, o objetivo passa a ser, então, chegar o mais próximo possível (no caso, da verdade) mesmo que a priori se saiba que o alvo jamais será atingido.

3 – Ser um buscador

À primeira vista, a impossibilidade de chegar à verdade absoluta, corolário da exposição antecedente, implicaria no reconhecimento de que ser um “buscador da verdade” é contrário ao senso. Todavia, se assim fosse, sendo essa uma verdade antiga, há muito a humanidade teria de deixado de procurar… o que, por sua vez, claramente não é verdade. Após tanto buscar, a experiência, já constituída em sabedoria, revelou que independentemente da existência da verdade absoluta – o alvo -, dela é possível se acercar por aproximações sucessivas, algo como a verdade mais próxima ou temporariamente válida, atingível ou aceitável à luz das contingências. E como é possível saber, com maior certeza, que dela se está mais próximo? Pelos resultados alcançados no dia a dia, como, por exemplo: maior previsibilidade dos fenômenos naturais, controle de doenças e pestes, produção de alimentos, maior longevidade com qualidade de vida, menor número de conflitos internos e entre os grupamentos sociais, em meio a tantas outras evidências ora representadas pelos avanços científicos e tecnológicos (o hardware) só tornados possíveis pelo nível de cooperação das sociedades (o software), o desenvolvimento do que Von Hippel (2019) denomina de homo socialis.

E como é possível abeirar-se à verdade? Pelo uso do método, pois este é a alma da ciência (ROSSI, 1992).

A palavra método vem do grego, methodos, composta de meta: através de, por meio, e de hodos: via, caminho. Servir-se de um método é, antes de tudo, tentar ordenar o trajeto através do qual se possa alcançar os objetivos projetados.

A clareza, pelo menos desde o Renascimento, de que a verdade, hoje tão cara aos maçons não estava por completo revelada nos textos sagrados, foi determinante para o desenvolvimento da investigação metódica da natureza. As recomendações de R. Descartes (1596-1650) até hoje são válidas:

Em lugar, portanto, desse grande número de preceitos de que se compõe a lógica, julguei que me seriam suficientes os quatro seguintes, desde que tomasse a firme e inalterável resolução de não deixar uma só vez de observá-los. O primeiro era o de nunca aceitar alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal, ou seja, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção e de nada mais incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e distintamente a meu espírito, que não tivesse motivo algum de duvidar dele. O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu analisasse em tantas parcelas quantas fossem possíveis e necessárias, a fim de melhor resolvê-las. O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para elevar-me, pouco a pouco, como que por degraus, até o conhecimento dos mais compostos e presumindo até mesmo uma ordem entre aqueles que não se precedem naturalmente uns aos outros. E o último, o de elaborar em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir (DESCARTES, s.d., p. 26-7).

Quanto às vantagens e o alcance do método:

[…] efetivamente ouso dizer que a exata observação desses poucos preceitos […] tendo começado pelas mais simples e mais gerais e constituindo cada verdade que encontrava uma regra que me servia depois para encontrar outras, não somente consegui resolver muitas que antes considerava muito difíceis, como me pareceu também, perto do fim, que podia determinar, até mesmo aquelas que ignorava, por quais meios e até onde seria possível resolvê-las (op. cit., p. 28).

Assim, grosso modo, buscar a verdade pela via da ciência corresponde a eleger a primazia da dúvida (por vezes apresentada como curiosidade, ceticismo), seguida da observação (coleta de dados) sistemática da realidade (mais precisamente o fenômeno objeto de estudo), da catalogação (organização) dos registros, da realização de análises longitudinais, comparações (identificando as semelhanças, os contrastes), cruzamento entre as variáveis para verificar a existência de relações (associações positivas, exclusões mútuas), etc., tudo, é claro, planejado detalhadamente. Em síntese muito resumida, submeter um determinado fenômeno a esses procedimentos, para melhor conhecê-lo, descrevê-lo e explicá-lo corresponde a tratá-lo cientificamente, e como resultado tem-se um conhecimento admitido como verdadeiro, ainda que temporário, isto é, até que novas investigações autorizem a revisão do entendimento estabelecido. A ciência não é, pois, um caminho que leva a lugares definitivos. Para dar conta desse conjunto de iniciativas, várias técnicas foram desenvolvidas, algumas mais bem sucedidas e aprimoradas hoje correspondem a efetivas ferramentas disponíveis a quem quer que se proponha uma aproximação com a verdade em qualquer domínio do conhecimento, das ciências naturais às sociais. Na sequência, a apresentação sumária, pois a rigor cada tópico exige um texto específico, de algumas dessas ferramentas; umas mais outras menos apropriadas a este ou aquele caso (quanto a natureza da dúvida, das situações-problema, objetivos, etc.) e que, na maioria das vezes têm o efeito potencializado quando utilizadas conjuntamente, o que sugere o estabelecimento de uma estratégia a ser desenvolvida ao longo do processo de busca.

Entre tantas, merecem destaque: a dialética (tese, antítese e síntese); o silogismo (premissa maior, premissa menor e conclusão); quaestio disputata; indução vs dedução; o método científico; e, como tópicos complementares: os níveis de análise e a cautela frente às falácias e sofismas.

Continua…

Autor: Ivan A. Pinheiro

* Ivan é membro da Loja Mário Juarez de Oliveira nº. 4547, jurisdicionadas ao Grande Oriente do Brasil – Rio Grande do Sul.

Fonte: Revista Ad Lucem | São Luís, V. I, n. 2, p. 14-28, maio/ago, 2021.

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Da natureza e das funções do símbolo

Quando em maçonaria falamos de “rito”, podemos estar a referir-nos a duas realidades. Por um lado, ao Rito, maiusculizado, que identifica a tradição maçónica, ou, por outro, à dimensão vivencial, canónica, do que antropologicamente se define por rito. A minha breve comunicação centra-se nessa segunda dimensão em que é a natureza dos gestos, das palavras e dos locais que me interessa, não necessariamente as especificidades de uma tradição no que ela tem de diferenciador para com outras.

Na abordagem da ritualidade, perfilho a visão de que muito provavelmente a Humanidade começou por se exprimir religiosamente através da prática ritual, só depois veio a crença (Han, 2020). Ao tentar-se explicar primeiro a crença do que o rito, como fez Durkheim, por exemplo, está-se a encurtar a distância que separa a “atividade simbólica” da “atividade lógica” do homem (Durkheim, 2020). Ora, uma, a simbólica, alimenta a outra, a lógica; ou melhor, a lógica, qualquer que ela seja, parte de um quadro simbólico que define a forma de ler a realidade.

O poder do ritual está na força existente no seu conteúdo e na eficácia da sua comunicação (PINTO, 2020). A informação acerca do que compõe o ritual e, a interiorização dessa informação, é o motor de transmissão e de envolvimento do grupo nos símbolos do ritual.

E o fundamental, no que a uma prática ritual respeita, encontra-se, na minha leitura, na participação. Isto é, os ritos não são feitos para que a eles se assista, mas para que neles se tome parte (ELIADE, 1952). Quer dizer, só se compreende um determinado ritual participando nele; a simples observação de gestos e movimentos rituais numa lógica científica não permite aceder, de facto, à essência do ritual e da religião: trata-se de duas lógicas diferentes, mesmo que em igual suporte (a linguagem).

Quando um ritual é realizado e dirigido a uma assembleia, as mensagens rituais só poderão ser assimiladas pelo grupo se houver uma certa “doutrinação” sobre a matéria que está codificada, uma identificação automatizada, ou seja, a capacidade do ritual para atingir o seu objetivo junto daqueles a quem se dirige, a força de mobilização que é ou não capaz de transmitir, está essencialmente na competência da transmissão dessa mensagem e na preparação dos receptores para a entender.

Neste ponto, a nossa posição incide no valor intrínseco do texto do ritual, em si. Os textos consignados pelo tempo e pela cultura são património quase genético de todos os participantes no rito que neles se estrutura. Participar nesse texto, no texto declamado, ao vivenciar o ritual, na sua declamação e na sua audição, é recriar ciclicamente esse mesmo texto e os seus significados e sentidos.

Nesse momento, mais que perante um texto, com conteúdo, estamos perante forma, estamos perante uma linguagem que vale enquanto tal, pela sua natureza, pela comunicação e cognição que automaticamente se estabelece entre a comunidade que em torno desse texto se reúne. Talvez possamos falar de identidade narrativa, mais que de qualquer outra identidade individual, ou mesmo coletiva (RICOEUR, 1990). Tal como não se é maçom sozinho, mas se é reconhecido pelos Irmãos, também apenas se é maçom no quadro da participação em Loja, no Rito, em ritual.

No quadro do valor dos textos na sua relação com os gestos, recordo os distantes poemas homéricos, de mais de 2.500 anos de sentidos e de leituras. Num dos episódios mais marcantes dos poemas de Homero, um aedo é chamado a declamar, tal como sucederia em algumas noites num palácio, não maçónico, em que se reuniriam em torno do lume, os grandes, os nobres, os guerreiros e os aventureiros, aqueles que tinham novas para transmitir. O aedo, qual metáfora do poder do seu olhar, é cego neste episódio da Ilha dos Feaces da Odisseia. Mas fala, declama “novas”. É escutado.

E as “novas” poderiam ser plenamente novas ou não; aliás, a noção de Conhecimento seria, obviamente, muito diferente da nossa. Os mitos nasciam desse afastamento a um tempo concreto mediante a assunção de uma dimensão primordial, organizadora de uma ordem, de um sistema. Ouvir um aedo a declamar a sua poesia era, quer escutar novidades, num tempo em que o Saber era lento na transmissão, quer voltar a entrar dentro de conhecimentos ancestrais, já sabidos, em nada novos, mas constantemente rememorados e revalidados. Declamar a poesia era ritualizar o momento.

A poesia era verdadeiramente uma linguagem de códigos, de descoberta. Se a prosa descrevia o linear, os tratados, as contas, os registos; a poesia, com o seu ritmo, com a rima e a entoação que lhe era necessária, era o campo do que não podia ser apenas ouvido, mas tinha de ser sentido. A poesia era hermenêutica em potência, era abertura à interpretação, era convite a elaborar e a descobrir.

Não será obviamente por acaso que muitos Textos Sagrados se encontram nessa forma ritmada que faz entrar o leitor e o ouvinte numa dimensão fora da linguagem normal, num quadro de ritmicidade, numa valoração de ritual, de contacto com uma Verdade fora da compreensão imediata, uma Verdade que não advém de conhecimento por metodologia cartesiana.

A cegueira, que tradicionalmente se aplica à definição da justiça, retomando a imagem egípcia do equilíbrio da balança, não é mais que a necessidade de o conhecimento se criar sem os constrangimentos do que nos pode tolher o pensamento através dos sentidos. Ser cego não é não ver. Ser cego é ser capaz de olhar para dentro, procurando uma solidez que, sendo ilusória também ela, nos referência a ideias superiores ao tempo, em vez de ter como referência única o exterior, inevitavelmente volátil, móvel e em contínua mutação.

O Saber a que me refiro, enquadrado na realidade ritual, é em tudo próximo ao da poética: procura o que constantemente nos foge. Isto é, a capacidade de olhar para além do imediato. E o imediato é-nos dado por regras, por definições de interpretação fácil, por normas escritas numa linguagem depurada de interpretações, como se fossem elas que nos fizessem chegar a universais amplos e inquestionáveis de ética.

Se a prosa de um relatório se quer clara para que todos os leitores a absorvam exatamente da mesma forma, a poesia quer que o leitor seja o seu continuador, lendo o que a sua estética pedir e desejar, levando cada um a um novo poema que é completado no momento exato da fruição. Nada se repete, nenhum leitor é igual, nenhuma norma se sobrepõe à individualidade.

A forma como uma cor, uma forma, um gesto ou uma palavra toca em cada um de nós é exato instrumento de significação, de criação de sentidos, de intensidades e, por isso, modificador, criador, operativo.

Se a presença numa reunião com alta carga simbólica e ritual se justificasse pela alegria do reencontro de um grupo de amigos, então não seriam necessários paramentos, nem rituais de aberturas, nem de uma decoração do espaço muito própria (Han, 2020).

Participa-se num ritual porque, todos juntos, se repetem um grupo de gestos, participa-se num grupo de declamações, define-se uma noção de sacralidade centrada em princípios organizadores do mundo e da vida, uma verdadeira cosmovisão, sem que seja preciso ser religiosa, e, por isso, na assembleia é-se reconhecido pelos iguais como: Iguais (ELIADE, 1999).

Quando, por exemplo, na Maçonaria se espera que as Luzes do Templo iluminem no “mundo profano”, está-se a dar asas à mística operatividade do Rito que se espelha na vida social, familiar, profissional, mediante a hermenêutica que cada um faz dos símbolos e dos ritos, da leitura que cada um realiza dos textos, das palavras e até dos silêncios.

Obviamente, seguimos para aquilo que, ao ser reforçado nos textos constitutivos da Maçonaria é definidor do que é fundamental. Ao afirmar no artigo 2º das Constituições do Grande Oriente Lusitano, que “A forma da Maçonaria é ritualística”, está-se a fugir, em pleno quadro cultural positivista, a qualquer leitura que diga ser a maçonaria algo comparável a uma Religião, mas afirma-se a dimensão do ritual como definidora.

Chegamos o que eu julgo ser, de facto, o centro da definição da própria noção de si, fundamental na noção de sacralidade, por oposição à ideia de “profano”, na Maçonaria. E o essencial encontra-se, de facto, na dita ritualística.

Poderíamos dizer que o ritual dá a sacralidade através da definição de um tempo. O tempo do ritual tem gestos e palavras muito específicas que nos remetem para códigos e para a vivência de símbolos.

No limite, até poderíamos dizer que num ritual se define um espaço sagrado na forma se gere esse espaço, com que movimentos, com regras e com ritmos, qual declamação regida por uma métrica poética (PINTO, 2020). Mas não creio que seja essa a forma mais interessante de nos aproximarmos da ideia de sacralidade.

À semântica única que une quem participa num ritual, permitindo participar no rito, acresce a hermenêutica diversa que diferencia cada um como indivíduos. E esta dinâmica, esta tensão, é, ao mesmo tempo, coesão e diversidade. A Fraternidade é como que recriada em todo o momento em que se vivencia o ritual lado a lado, seja na Loja Maçónica, seja na oração em congregação numa Mesquita, nessa natureza em que o comum nos permite participar, entendendo, e o que nos é único nos dá a capacidade de liberdade, de entendimento irrepetível. No limite, o rito, na sua repetição, é uma máquina de fazer Igualdade que dilui as diferenças do tempo e do espaço fora do ritual, do profano.

Hermeneuticamente ficamos muitíssimo mais próximos, não apenas ao fazer gestos iguais, que nos ligam, mas ao definir entendimentos que o ritual consigna e tornam cada um mais forte. E é-se mais forte -no ritual fica-se mais forte-, porque em liberdade nos unimos e nos individualizamos dentro de uma noção de sacralidade. E esta máquina de fazer Fraternidade que é o ritual, é reforçada porque ele se alimenta semanticamente do símbolo, não apenas dogmatizado numa definição que todos assimilemos como única, mas numa liberdade de cada um ler esse momento com o seu entendimento, na sua racionalidade.

De fato, um ritual, ao definir uma leitura, pode dizer-nos, se a interpretação for pobre, que essa é a leitura correta; mas diz-nos, também, pela afirmação de um caminho, os sentidos que são todos os outros – no limite, uma regra é uma bengala para se perceber como a não seguir.

E, neste momento, caímos no que me parece ser o fundamental da relação entre a sacralidade possibilitada pelo ritual: a noção de Sabedoria. Os símbolos são, acima de tudo, vividos, seja na tal formulação padronizada, seja na Liberdade interpretativa de cada um (BATESON, 2008).

Este é o caminho para entender como o ritual é um momento e corresponde a um espaço de Sabedoria. Com uma semântica própria, com simbólica própria e vivida de forma única por cada um, no ritual conjugam-se o que de mais fundamental tem a vivência: a complexidade da junção de duas naturezas aparentemente distintas: a solidez do que está definido e não pode ser alterado, e o fluido que é a vivência individual. Se um ritual são um grupo de normas e de definições, participar num rito é viver essas normas mediante a leitura pessoal. E somos livres na possibilidade hermenêutica que surge na repetição do ritual (HAN, 2020).

O Conhecimento de um ritual não se faz por se decorarem as frases, quais deixas de teatro, ou por se terem os paramentos corretos. Também o é, mas não apenas. Conhece-se um ritual, como a Antropologia já o afirmou há muitos anos, vivenciando-o, sendo participante, sendo, no fundo, oficiante – ao participar, nem que seja com um único gesto num ritual, é-se já oficiante.

Autor: Paulo Mendes Pinto

* Paulo é Doutor em Estudos Culturais. Diretor Geral Acadêmico do Grupo Lusófona/Brasil. Coordenador da área Ciência das Religiões da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa/Portugal. Áreas de atuação: esoterismo, judaísmo, maçonaria, espiritualidades.

Fonte: Revista Relicário • Uberlândia • v. 8 n. 16 • jul./dez. 2021.

Referências

BATESON, Gregory. Vers une ecologie de l ́esprit. Paris: Essais, 2008. DURKHEIM, Émile. As Formas Elementares da Vida Religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 2000. ELIADE, Mircea. Historia de las creeencias y de las ideas religiosas II. De gaumata Buda al triunfo del Cristianismo.Barcelona: Paidos, 1999. ELIADE, Mircea. Images et symboles. Essais sur le symbolisme magico-religieux. Paris: Gallimard, 1952. HAN, Byung-Chul. Do desaparecimento dos rituais. Lisboa: Relógio d ́Água, 2020. PINTO, Paulo Mendes. Trabalhar a Pedra. Textos Maçónicos e de inspiração Maçónica.Lisboa: Europress, 2020. RICOEUR, Paul. Soi-mêmme comme un autre.Paris: Seuil, 1990.

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Perspectivas junguianas acerca de vivências na ordem maçônica (Parte II)

4 – Psicologia junguiana e a vivência maçônica

A Obediência Maçônica apresenta vários aspectos que permitem uma comparação, não necessariamente equivalente ou superior, mas no sentido de poder se aproximar de alguns conceitos junguianos, apesar de suas diferenças. Em conformidade com Maxence (2010), a psicologia junguiana pode contribuir para os estudos maçônicos que buscam uma ampliação da consciência, e, também, para o aperfeiçoamento da instrução nas sessões (trabalhos) da Maçonaria que é constituída de ritos e símbolos. Importante frisar que a psicologia junguiana não tem propósito de educar ninguém e nem servir de base ou ferramenta para doutrinação.

4.1 – A busca de sentido

Na contemporaneidade, o sentido da vida está relegado a um segundo plano de importância. Como consequência, o vazio existencial e a falta de sentido fazem com que o indivíduo procure um propósito que lhe preencha, trazendo maior motivação para vir a ser.

Começamos, no entanto a sentir as consequências deste atrofiamento da personalidade humana. Por toda a parte se levanta o problema de uma cosmovisão, o problema do sentido da vida e do mundo. Em nossa época, numerosas tem sido as tentativas de anular o curso do tempo e de cultivar uma cosmovisão de estilo antigo, ou seja, a teosofia, ou, para empregarmos um termo mais palatável, a antroposofia. Nós temos necessidade de uma cosmovisão; em todo caso tem-na a geração mais nova. Mas se não queremos retrogradar, qualquer nova cosmovisão deve renunciar à superstição da sua validade objetiva, e admitir que é apenas uma imagem que pintamos para deleite de nossa mente, e não um nome mágico com o qual tornamos presentes as coisas objetivas. A nossa cosmovisão não é para o mundo, mas para nós próprios. Se não formarmos uma imagem global do mundo, também não podemos nos ver a nós próprios, que somos cópias fiéis deste mundo. Somente quando nos contemplamos no espelho da imagem que temos do mundo é que nos vemos de corpo inteiro. Só aparecemos na imagem que criamos […] (JUNG, 2013b, p. 337).

Segundo Adoum (2011), o indivíduo que procura a iniciação na Ordem Maçônica tem a esperança de encontrar uma opção para suprir sua falta de sentido na vida. Os candidatos que serão admitidos na Ordem Maçônica são, geralmente, carentes de respostas sobre a vida, sobre a morte, são sedentos de um caminho de crescimento em liberdade, precisam de uma direção, necessitam de alguém que já percorreu o caminho para lhe passar o conhecimento, são indivíduos que querem respostas para seus questionamentos, que buscam uma conscientização maior. Importante destacar que as ausências do fanatismo, do egoísmo e, também, da vaidade (conforme será descrito adiante no presente artigo ao tratar do cerimonial de mestre maçom) são fundamentais para atingir um crescimento na vivência maçônica.

Para a Maçonaria a conscientização da finitude da existência desperta a importância de se ter um sentido de existir da criatura humana. Nascer, viver, morrer e, quem sabe, renascer, são etapas sucessivas e obrigatórias de passagem de todos os seres, elas visam uma construção. O maçom é, simbolicamente, alguém que vai passar por essas experiências nas participações ativas. Nas instruções dos graus maçônicos ao longo da aprendizagem que ocorre na ritualística simbólica da Maçonaria, é importante destacar que a perfeição nunca será alcançada. É algo que se busca sempre (CAMINO, 2015).

Edinger (2020), considera que as várias influências materiais do mundo ocidental aprisionam o indivíduo e o condicionam a um padrão de comportamento totalmente dependente de um contexto externo. Essa falta de liberdade leva o indivíduo a procurar o significado da vida nos objetos que possuem valor, no aspecto do capital e do reconhecimento externo.

Sanford (1998), nos mostra que a liberdade é o verdadeiro tesouro psicológico a ser conquistado, uma vez que ser livre, é ter a condição de se adquirir conscientização e de vivenciar um desenvolvimento de propósito no caminho que percorremos em nossas vidas. Tal opção não está necessariamente vinculada a uma direção pré-determinada, não existe um padrão ou fórmula mágica pronta.

Adoum (2010a), assevera que o ato de fazer parte da Obediência Maçônica, através do ingresso em uma cerimônia de Iniciação, com toda a ritualística e simbolismo característicos, proporciona a possiblidade de viver um renascimento, tal aspecto será apresentado mais adiante no presente estudo.

4.2 – Os Rituais

Jung (2014) descreve que os ritos serviram e, ainda, estão presentes no processo de desenvolvimento da cultura do ser humano. Eles muitas vezes são experienciados na transformação do indivíduo. Os ritos também se modificam ao longo do tempo, muitas vezes é determinado pelo contexto cultural presente.

Jung (2013c) nos instrui que o ser humano, desde os tempos remotos sente a necessidade de realizar rituais como apoio para tentar compreender o que lhe é desconhecido. Num mundo primitivo, não se deixa de acreditar nos deuses, nos espíritos, no destino e nas características fantasiosas do local e do tempo, que são referenciados com frequência nesses rituais.

De acordo com Jung (2013f), não há nada de novo em falar que as imagens arquetípicas são projetadas. Isso verdadeiramente tem de se manifestar, pois caso não, elas dominariam a consciência. O desafio consiste apenas em achar uma maneira que seja um recipiente próprio, adequado. A iniciação dentro de uma religião através do batismo é uma possibilidade para tal. No curso da diferenciação da consciência, a iniciação tem evoluído em suas manifestações ao longo do passar do tempo e do contexto que fazem parte.

Campbell (2008) afirma que o ritual permite a materialização de uma ocorrência ou projeção de um drama, visível e ativo de um determinado mito. Ao fazer parte de uma encenação através de um rito, o indivíduo se vincula no mito e este adentra ao sujeito, como se fizesse parte dele – desde que, é claro, seja influenciado significativamente pela imagem.

Jung (2012a) assevera que o simbolismo de alguns ritos, quando devidamente compreendido, vai além do aspecto simples e antigo, em direção àquela motivação psíquica presente em nosso interior, ou seja, inata, produto e armazém de toda a vida ancestral. É necessário destacar como é importante os ritos para a o ser humano. Se os ritos não produzissem nenhum efeito, não só teriam desaparecido como nem teriam originado.

Destaca-se para a compreensão do entendimento do significado de símbolo, tendo como referencial Jung (2013e), que se algo é um símbolo ou não vai necessitar, primeiramente, da atitude da consciência de quem observa. De acordo com o que aponta Jacobi (2016), essa compreensão vai depender de saber se um indivíduo tem a possibilidade e a capacidade de enxergar determinado fato, por exemplo: uma árvore não só em sua aparência física, mas também como expressão ou como imagem sensível de algo desconhecido. Portanto, é possível que o mesmo fato ou objeto seja representado para um ser como sendo um símbolo e para outra apenas um signo.

Nas mitologias dos primitivos, por exemplo, se você estuda as línguas primitivas, as palavras têm vinte sentidos, elas não são, de modo algum, fixas em um sentido. As palavras […] nas grandes palavras primitivas há todo um cosmo que é designado por essa palavra. Ainda é desse modo na visão do inconsciente, por assim dizer. O inconsciente tem uma visão sintética das situações, pode-se dizer. A essência do símbolo ainda é assim, segundo Jung. O símbolo não tem um sentido. Não se pode dizer: a cor verde é a esperança. Cada símbolo tem um sentido absolutamente complexo que não
se pode esgotar; de acordo com Jung não podemos jamais esgotar […] (FRANZ, 2018, p.27).

Sobre os rituais maçônicos, verifica-se uma influência diferenciada, no sentido psicológico, em um ambiente devidamente preparado, conhecido entre os integrantes como templo, local que possui características de contexto próprias no que se refere a possibilitar um cenário que apoia a reprodução da ritualística de acordo com as cerimônias da Ordem Maçônica.

4.3 – As imagens nos cerimoniais dos graus

A imaginação é a chave para que se consiga alcançar uma transformação, de modo que seja possível nascer de novo, de um jeito diferente. Ela tem a capacidade de dar acesso a um local intermediário no qual é possível o contato com uma nova revelação simbólica que terá uma presença significativa na realidade (STEIN, 2021).

De acordo com o estudo de Jung (2013b), os conteúdos do inconsciente são o produto da dinâmica funcional psíquica de toda a nossa ancestralidade. Em sua totalidade, eles formam uma representação natural do contexto, ou seja, do mundo, uma condensação de milhões de anos de vivência do ser humano. Essas imagens são míticas, ou seja, simbólicas, porque manifestam a sintonia do indivíduo que experimenta com o objeto experimentado. Certamente, toda mitologia e descobrimento tem origem nesse contexto de experiência e todas as nossas suposições futuras, a respeito da vida no mundo, terão como fonte original esse depósito existencial. Seria um engano crer que as imagens fantasiosas do inconsciente podem ser manipuladas diretamente como uma categoria de revelação conquistada. São apenas o material em estado rústico que necessita ainda de ser transformado para a compreensão na linguagem do presente. Se a tradução for eficiente, o contexto em que vivemos, tal qual o concebemos, será acoplado de novo à experiência primordial da humanidade através do símbolo de uma cosmovisão. O homem antigo e universal oferecerá ajuda ao homem individual recém surgido, será um modo de ser que chegará perto daquela do primitivo que se une ao seu ancestral por meio de um ritual.

4.3.1 Cerimonial de iniciação ao grau de Aprendiz

Adoum (2010a), apresenta os aspectos que caracterizam a cerimônia do grau de Aprendiz que ocorre no momento de entrada do profano, como é conhecido o candidato à Aprendiz Maçom, na Ordem Maçônica. Acontecimento que permite ao indivíduo que aspira fazer parte dos quadros da Maçonaria passar pela experiência simbólica na transposição das provas do ritual de iniciação. Dentre elas está a realização de percursos dentro dos rituais conhecidos como viagens.

Elas são dramatizadas no templo maçônico, local este, que é devidamente preparado para a encenação ritualística, tais como: a presença das pinturas nas paredes do templo maçônico das seguintes representações: o sol, a lua e os 12 signos zodiacais. As figuras ficam dispostas nas paredes laterais, no teto é pintado a abóbada celeste com a representação do cosmos, reproduzindo a galáxia do sistema solar. Há o delta luminoso localizado na parte frontal do interior do templo, simbolizando Deus ou Grande Arquiteto do Universo. Existe no local um livro sagrado, a bíblia ou outro livro (ADOUM, 2010a).

[…]

Segundo Jung (2013g), os instintos atuam com maior liberdade quando não há qualquer consciência que os detenha, ou quando uma consciência já presente está adaptada a eles. Mas este último estado está em enfraquecimento, pois sempre encontramos sistemas psíquicos que se opõem à impulsividade pura.

[…]

A sombra representa um obstáculo de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo. Ninguém é competente para adquirir consciência desta verdade sem grande esforço. Mas nessa conquista de conhecimento sobre a existência da sombra, reconhece-se as características obscuras da personalidade, tais como existem na vida real. Este procedimento é o fundamento essencial para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, em geral, ele se enxerga à frente de uma grande barreira resistente. Enquanto, por um lado, o autoconhecimento é um expediente terapêutico, por outro implica, muitas vezes, um esforço significativo que pode se propagar por um tempo longo (JUNG, 2013a).

[…]

Camino (2015), aponta que, fazendo uma comparação metafórica maçônica com o ofício de polir uma pedra em estado rústico e imperfeito, é possível observar em uma pedra bruta a própria imperfeição. O Aprendiz a submete à esquadra, retirando as pontas ou arestas, mas por melhor que execute seu ofício, que atravessa o tempo, sempre ocorrerá a presença de uma falha ou uma deficiência, fazendo-se necessário empregar com vontade e determinação muito esforço para eliminar as imperfeições, muitas vezes com mais sabedoria e técnica do que de força desproporcional.

Segundo Jung (2013a), com entendimento e força de vontade, a sombra pode ser integrada de alguma maneira na psique do indivíduo, enquanto alguns traços, oferecem uma enorme dificuldade para isso, fugindo assim a qualquer influência. De modo geral, estas dificuldades estão conectadas às projeções que não podem ser identificadas como tais e cujo conhecimento requer um dispêndio de trabalho sobre si mesmo muito grande que vai além das forças habituais do indivíduo e que requer perseverança e tempo significativo de transformação.

4.3.2 Cerimonial do grau de Companheiro

De acordo com o autor Adoum (2010b), atesta que nesse ritual, o Companheiro Maçom deve realizar viagens que possibilitarão a conquista progressiva da liberdade. Destaca-se ainda que é fundamental a reflexão, nesse grau, da seguinte pergunta: quem somos?

[…]

A pedra cúbica não serve ainda para a construção social. O que é essencial é conseguir uma pedra em perfeito esquadro em suas seis faces. O lapidar, constante, é uma necessidade do ser, para isso ele utiliza as seis faculdades espirituais: a vontade, o livre-arbítrio, a harmonia, o equilíbrio, a força e a sabedoria. Essas são simbolizadas pelas […] ferramentas utilizadas pelo Companheiro em suas viagens: […] (ADOUM, 2010b).

[…]

Em resumo: é mais vantajoso, e psicologicamente mais “correto”, considerar certas forças naturais que se manifestam em nós, sob a forma de impulsos, como sendo a “vontade de Deus”. Com isso nos pomos em consonância com o habitus da vida psíquica ancestral, isto é, funcionamos tal qual tem funcionado o ser humano em todos os lugares e em todas as épocas. A existência desse habitus demonstra sua capacidade de sobreviver, pois, se não a tivesse, todos os que o seguiram teriam perecido por não haverem se adaptado. Se estivermos em consonância com ele, existirá para
nós uma possibilidade racional de sobreviver. Se uma concepção tradicional nos garante tal coisa é porque não só não há motivo algum para considerar tal concepção como errônea como também temos toda razão de considerá-la “verdadeira” ou “correta”, precisamente no sentido psicológico. Verdades psicológicas não são conhecimentos metafísicos. São, pelo contrário, modos (modi) habituais de pensar, de sentir e de agir que se revelam úteis
proveitosos à luz da experiência (JUNG, 2013a, p.40).

No cerimonial descrito, simbolicamente, o Companheiro adquire conhecimento sobre o seu mundo interno, um processo de aumento de consciência de si próprio. Na próxima dramatização esse conhecimento será utilizado para um possível alcance da completude na vivência maçônica, conforme será apresentado logo adiante.

Kast (2013), nos traz a informação que uma fração importante da experiência da obtenção de nossa identidade é a conquista de uma parte da autonomia, pois ela não é totalmente incorporada ao longo da existência, mas nos tornamos, a cada tempo, um pouco mais livres. Podemos afirmar que a independência substitui o lugar da subordinação nos tornando mais livres. Percebemos estar, cada vez mais, como nós mesmos em nossa identidade. Sendo assim, deixamos de ser apenas o resultado da situação moldada, por nós mesmos, pelo outro e pelo meio.

4.3.3 Cerimonial do grau de Mestre

Adoum (2011), nos esclarece que os ensinamentos desta dramatização, conhecida como exaltação, tem como centro a Lenda de Hiram. Ela transmite a mensagem que a edificação do templo significa que o progresso se faz pelo uso da dedicação no trabalho com objetividade. Tal esforço busca a conquista da verdade e a prática desinteressada do bem. O templo de Salomão é a representação da estrutura física do corpo humano. Jerusalém, considerada cidade paz, é a configuração do mundo interno (ADOUM, 2011).

[…]

A experiência proporcionada pelo contexto ritualístico cria um ambiente com forte poder de despertar os conteúdos do inconsciente e são materiais a serem ressignificados e revividos, daí a importância da mitologia e dos rituais.

As poderosas forças do inconsciente manifestam-se não apenas no material clínico, mas também no mitológico, no religioso, no artístico e em todas as outras atividades culturais através das quais o homem se expressa. Obviamente, se todos os homens receberam uma herança comum de padrões de comportamento emocional e intelectual (a que Jung chamava arquétipos), é natural que os seus produtos (fantasias simbólicas, pensamentos ou ações) apareçam em praticamente todos os campos da atividade humana (FRANZ, 2016, p.207).

Conforme Adoum (2011), ao atingir o terceiro grau, conhecido como o grau de Mestre, o maçom passa a ter uma conduta que é influenciada por um duplo sentido: individual e coletivo — inseparáveis — como tópicos que pertencem ao seu mundo interior e que encontra abrigo no contexto em que se vive, aquilo que é feito passa a ter uma influência na vida de toda a humanidade. É imprescindível ter conhecimento para poder passar esse saber e tornar-se capaz de contribuir para o contexto em que está inserido, de modo que possa auxiliar na evolução de todos.

Aquilo que mantém as coisas juntas, é adesivo, razão pela qual, na alquimia, cola, goma e resina, são sinônimos da substância transformadora: essa substância semelhante à força vital (vis animans) é comparada por outro comentador, com a cola do mundo (glutinum mundi), o espaço intermediário entre a mente e o corpo e sua união. (EDINGER, 2006, p.239).

Stein (2007) afirma que ao passar pela experiência da separação e aceitar a transformação, a alma liberta-se das amarras de uma identidade antiga, através de um processo de conscientização das limitações da vida. Essa forma de separação é uma amostra experiencial de morte e um passo para uma nova vida mais consciente.

Segundo Zimmer (1998), nascimento, morte e renascimento, em ciclo infinito, materializam o caráter estável do processo da vida. Exemplificam-no os ciclos do ano e do dia, a passagem das gerações e as metamorfoses do ser humano durante a etapa de uma existência. Este é o mais antigo romance da alma, implementado pelo aspecto mítico que é capaz de atingir nossa intuição com significado para os enigmas da existência.

4.4 – Individuação e vivência maçônica

Conforme Maxence (2010), a individuação é, em diversas ocasiões, confundida com a conquista de consciência do Eu. O Eu é então posto como sendo o Si-mesmo, ocasionando equívocos nos conceitos. Logo, a individuação não seria senão egocentrismo ou autoerotismo. O Si-mesmo é mais amplo do que um simples Eu. Assim, o Si-mesmo é um conceito, um arquétipo central que deve ser bem assimilado para melhor entender que é realmente uma individuação em processo. O Si-mesmo é uma figura da totalidade psíquica.

O conceito de individuação desempenha papel não pequeno em nossa psicologia. A individuação, em geral, é o processo de formação e particularização do ser individual e, em especial, é o desenvolvimento do indivíduo psicológico como ser distinto do conjunto, da psicologia coletiva. É, portanto, um processo de diferenciação que objetiva o desenvolvimento da personalidade individual. É uma necessidade natural; e uma coibição dela por meio de regulamentos, preponderante ou até exclusivamente de ordem coletiva, traria prejuízos para a atividade vital do indivíduo […] (JUNG, 2013e, p.467).

Nise da Silveira (1981), nos esclarece que a evolução das capacidades do ser humano pode ser proporcionada por forças de origem inatas, inconscientes. Além disso, é notório destacar que esse ser humano tem uma condição de adquirir consciência desse crescimento. Esclarecendo que indivíduo é possuidor de energia capaz de influenciar na aquisição desse desenvolvimento. Tal possibilidade é obtida, justamente, no embate do inconsciente com o consciente, na disputa ou na união entre ambos, permitindo que os inúmeros integrantes da personalidade se conscientizem e juntem-se em um todo, numa síntese, ou seja, na realização de um indivíduo específico e inteiro.

Individuação não quer dizer perfeição. Aquele que procura individuar-se não tem o menor desejo de se tornar perfeito e sim de evoluir para um indivíduo melhor, no sentido de completar-se, situações que são totalmente diferentes. Em busca desta completude, será necessário conhecer e entender as forças psíquicas opostas que agem dentro de si e no universo, tais como: bem ou mal e claro ou escuro. Outro equívoco, seria confundir individuação com individualismo. Observa-se que o processo de individuação leva em consideração os integrantes do inconsciente coletivo (SILVEIRA, 1981).

Boucher (2015), argumenta que a verdadeira iniciação maçônica é uma participação prática que pode produzir efeitos em si mesma, depois de serem vencidos e vividos os degraus de: Aprendiz, Companheiro e Mestre. O iniciado adquire a capacidade de estar acima dos rótulos e das amarras que o limitam no saber, sendo capaz de ultrapassar o racionalismo estéril para atingir a sabedoria. Da mesma forma que o movimento se faz pela ação, tal como o caminhar, a Maçonaria procura fazer uso do simbolismo na instrução de seus integrantes de forma disciplinada e organizada, amparada em seus regulamentos, estatutos, manuais e rituais. Tais dramatizações podem despertar a imaginação em seus membros através dos rituais que ocorrem nos templos devidamente preparados para as encenações. Tudo de acordo com os graus dos rituais e suas ritualísticas que são vividas na prática dos trabalhos.

A vivência de uma ocorrência na vida, de maneira muito significativa, pode oferecer elementos essenciais (a prima matéria alquímica) para as etapas que se
seguem rumo ao conhecimento e a totalidade na obra de individuação (STEIN, 2020). Essas experiências precisam, em diversas oportunidades, continuar sendo trabalhadas no processo terapêutico.

Stein (2021) pontua que comparando os diversos avanços na tomada de consciência do indivíduo e levando em consideração os diversos contextos que se desenvolveu essa conscientização, a individuação é um conceito que também está presente em outras culturas e em outras possibilidades de ocorrência.

A individuação não passa apenas pela consciência e, por conseguinte, não está associada a uma intencionalidade ou busca de uma divindade sagrada. Ela é a conscientização e a integração dos níveis somático, psicológico e espiritual do ser humano, nos aspectos individual e coletivo (STEIN, 2020).

“O alvo do processo de individuação é obter uma relação consciente com o Si-mesmo” (EDINGER, 2020, p. 294). Esse caminho de conquista é uma viagem ao
encontro do desconhecido em si mesmo.

Para Camino (2015), a experiência proporcionada pelo ensino maçônico tem como metas: dar condições à convivência harmônica que se situe longe da polarização radical, permitir a busca por uma conscientização ampla, alcançar um sentido para a vida a fim de possibilitar a felicidade individual e reverberar tais conquistas em benefício do contexto social.

Gennep (2012) enfatiza que ao considerarmos os grupos, ou os seus integrantes individuais, o fato de existir é constantemente marcado pela ação de decompor-se e compor-se novamente de maneira diferente, em novo estado e forma, morrer e renascer, transformar-se e transformar. É necessário trabalhar arduamente, parar, esperar, repousar, recomeçar a peleja em seguida, de uma maneira diferente, mais eficiente. A certeza de novos desafios a vencer, verão ou inverno, dia ou noite, nascimento, adolescência, idade madura, velhice, morte e limiar da outra vida – para os que alimentam essa esperança.

5 – Considerações finais

A psicologia arquetípica possui fundamentos que estão contidos na literatura de Jung e, também, em importantes estudiosos que seguem os postulados junguianos, como os que fazem parte das referências do presente estudo, dentre
outros. Eles podem nos ajudar a compreender a jornada do indivíduo rumo à realização pessoal e à aquisição de uma totalidade, sem estar ligada ao dogmatismo, estando fora da ortodoxia.

A psicologia profunda, como também é conhecida, possui base conceitual que pode apoiar no desenvolvimento mais amplo da compreensão dos significados simbólicos e ritualísticos da Ordem Maçônica. A busca pelo aprimoramento é uma necessidade na mesma, sendo fundamental evidenciar que o sentido de se chegar à perfeição é algo inalcançável para o ser humano, seja ele maçom, junguiano ou de outras escolas de pensamento.

A imaginação despertada nas participações ativas nos rituais da Maçonaria tem a possibilidade de fazer emergir os conteúdos inconscientes adormecidos e negados. Eles poderão ser compreendidos e vivenciados de uma maneira consciente e com novo significado. Tal aspecto pode dar acesso ao desenvolvimento da tolerância, atributo essencial, que é sempre considerada para os trabalhos de aprimoramento individual e coletivo na Ordem Maçônica. A conquista supracitada é obtida como algo que está em um patamar superior ao das forças contrárias que se polarizam e trazem atraso no alcance da completude ou totalidade.

Entre os principais aspectos, comuns em diversos simbolismos, estão as imagens arquetípicas, tais como: o sol, a lua, os pontos cardeais, o cosmos, a pedra bruta a ser trabalhada, o fogo, o ar, a terra, a água, o delta luminoso, a cripta (caverna) de reflexão, tão presentes nos cenários de dramatização ritualística na Maçonaria. A codificação de significados simbólicos na ritualística maçônica é um ponto de afastamento em relação aos ensinamentos junguianos, pois o símbolo é algo que possui uma significação viva e singular ao indivíduo.

A Ordem Maçônica pode aprender com os ensinamentos da psicologia profunda no que se refere a ampliação da consciência pelo conhecimento dos preceitos junguianos. A psicologia profunda tem sua independência e não é ferramenta de apoio a nenhuma forma codificada de ensinamento, mas isso não impede que o maçom considere seus fundamentos em sua própria conscientização. Esse apoio não é uma doutrina, nem é uma máxima, pois não existe, com certeza, um percurso único e uniforme para todos, não há conhecimento de uma fórmula pronta para encontrar a individuação, uma vez que ela pode ser encontrada em diferentes contextos que comungam perspectivas simbólicas e respeitam a singularidade de cada um.

Autores: Claudiney Rodrigues Calsavara e Paulo Ferreira Bonfatti

Fonte: Cadernos de Psicologia, Juiz de Fora, v. 3, n. 6, p. 542-567, jul./dez. 2021.

Nota do Blog

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Referências

ADOUM, Jorge. Grau do aprendiz e seus mistérios. São Paulo: Pensamento, 2010a. ADOUM, Jorge. Grau do companheiro e seus mistérios. São Paulo: Pensamento, 2010b. ADOUM, Jorge. Grau do mestre maçom e seus mistérios. São Paulo: Pensamento, 2011. BOUCHER, Jules. A Simbólica maçônica. 2. ed. São Paulo: Pensamento, 2015. CAMINO, Rizzardo da. Rito escocês antigo e aceito: 1º ao 33º. São Paulo: Madras, 2015. CAMPBELL, J. Mito e transformação. São Paulo: Ágora, 2008. EDINGER, F. Edward. Anatomia da psique: o simbolismo alquímico na psicoterapia. São Paulo: Cultrix, 2006. EDINGER, F. Edward. Ego e arquétipo. São Paulo: Cultrix, 2020. FRANZ, Marie-Louise von. A Busca de sentido. São Paulo: Paulus, 2018. FRANZ, Marie-Louise von. O processo de individuação. In: JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2016. GENNEP, Arnold Van. Os ritos de passagem (Coleção Antropologia). Petrópolis: Vozes, 2012. Edição do Kindle. JACOBI, Jolande. Complexo, arquétipo e símbolo. Petrópolis: Vozes, 2016. JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b. (Obra completa, v. 8/2). JUNG, Carl Gustav. A vida simbólica. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2013c. (Obra completa, v. 18/1). JUNG, Carl Gustav. Aion – Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a. (Obra completa, v. 9/2). JUNG, Carl Gustav. Freud e a psicanálise. 7.ed. Petrópolis; Vozes 2013d. (Obra completa, v. 4). JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. (Obra completa, v. 9/1). JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2012a. (Obra completa, v. 12). JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2012b. (Obra completa, v. 11/1). JUNG, Carl Gustav. Símbolos da transformação: análise do prelúdio de uma esquizofrenia. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2013g. (Obra completa, v. 5). JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2013e. (Obra completa, v. 6). JUNG, Carl Gustav. Um mito moderno sobre coisas vistas no céu. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2013f. (Obra completa, v. 10/4). KAST, Verena. A dinâmica dos símbolos: fundamentos da psicoterapia junguiana (Coleção Reflexões Junguianas). Trad. Milton Camargo Mota. Petrópolis, RJ: Vozes, Edição do Kindle. MAXENCE, Jean-Luc. Jung é a aurora da maçonaria. São Paulo: Madras, 2010. NEUMAN, Erich. Psicologia profunda e nova ética. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2021. SANFORD, John A. Mal, o lado sombrio da realidade. Trad. Sílvio José Pilon e João Silvério Trevisan. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 1988. (Coleção Amor e Psique). SANFORD, John A. O homem que lutou com Deus: luz a partir do antigo testamento sobre a psicologia da individuação. Trad. Gentil Avelino Titton. Petrópolis: Vozes, 2020. (Coleção Reflexões Junguianas) SILVEIRA, Nise da. Jung: vida e obra. 7. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981. (Coleção Vida e Obra) STEIN, Murray. Jung e o caminho da individuação: uma introdução concisa. São Paulo: Cultrix, 2020. STEIN, Murray. No meio da vida: uma perspectiva junguiana. São Paulo: Cultrix,
2007. STEIN, Murray. Sincronizando tempo e eternidade: Ensaios sobre psicologia junguiana. São Paulo: Cultrix, 2021. WARD, J.S.M. Quem foi Hiram Abiff? São Paulo: Madras, 2010. ZIMMER, Heinrich. A conquista psicológica do mal. Compilado por Joseph Campbell. Trad. Marina da Silva Telles Americano. São Paulo: Palas Athenna, 1998.

Perspectivas junguianas acerca de vivências na ordem maçônica (Parte I)

A psicologia junguiana, através do conceito de individuação, pode oferecer uma possibilidade de compreensão do entendimento dos símbolos, mitos e rituais, ajudando no aperfeiçoamento e na busca de sentido para a jornada daquele que inicia na Ordem Maçônica. Ao longo dos séculos, a Maçonaria vem realizando os seus trabalhos com base em aspectos históricos, progressistas, filosóficos, iniciáticos, mitológicos, ritualísticos e simbólicos. A procura de um propósito para a vida, a princípio, é o motivador para aqueles que desejam a iniciação na organização. A vivência dos estudos maçônicos tem como meta oferecer a oportunidade para que o maçom trabalhe nesse objetivo que pode ser reverberado para a sociedade. O processo de evolução dentro da Obediência Maçônica é uma possibilidade de conscientização. Algo parecido com um aprimoramento na direção de uma totalidade, uma vez que há um trabalho constante que visa o progresso do próprio indivíduo, sem deixar de dar o devido valor ao contexto que lhe é característico. Tem como parâmetro o esforço árduo e singular na meta de adquirir maior conhecimento da presença das forças opostas, tais como: sombra e luz, mal e bem e ativo e passivo. A individuação não passa apenas pela consciência e, por conseguinte, não está associada a uma intencionalidade ou busca de uma divindade sagrada. Assim há possibilidade, não garantia, de ocorrer nos trabalhos maçônicos uma ampliação da consciência. Para isso, foi utilizada a revisão narrativa de caráter exploratória, tendo como foco produções bibliográficas de autores junguianos e maçônicos.

1 – Introdução

O presente estudo traz aspectos da vivência maçônica experienciados pelos integrantes da Maçonaria, conhecidos como maçons, que seguem e estudam os ensinamentos que estão contidos nos regulamentos, rituais, cerimoniais, símbolos, alegorias e instruções normativas dessa organização.

É-se levado a considerar que essa experiência pode proporcionar uma modificação no sentido de ampliar a consciência de seus integrantes, não na meta de chegar à perfeição ou com a finalidade de obter uma fórmula mágica que garanta o sucesso. Mas algo que está em uma possível sintonia com o resultado proporcionado por um processo de individuação, conceito presente na psicologia junguiana que tem como meta levar a um processo de transformação psicológico na busca de uma totalidade psíquica.

Os principais conceitos da psicologia analítica junguiana e da Obediência Maçônica, relacionados ao processo de individuação e a vivência maçônica, servirão de referência para o presente artigo, o qual, em seus estudos, tomou como base uma revisão de narrativa de caráter exploratória.

A necessidade de se ter uma abordagem que procura entender o que traz sentido à vida, faz parte dos instintos inatos do ser humano e de seus impulsos profundos fundamentais. Jung (2013d) coloca que o ser humano apresenta, sem variações notáveis, pontos de entendimento filosóficos e religiosos sobre o sentido da existência e de sua própria experiência vivencial. Alguns se gabam de não se enquadrarem nisso. Porém são raros entre a maior parte dos seres humanos; carece-lhes uma função fundamental que já foi constatada como necessária à psique humana.

A crença maçônica no Grande Arquiteto do Universo deixa cada maçom livre para escolher como crer em sua manifestação na existência. Segundo Maxence (2010), esse termo seria a maneira que os maçons se referem a Deus. Seu significado não é imposto como um objeto de veneração ou de crença. Ele é algo significativo e representativo. Não sendo colocado como dogma redutor e é o representante de uma dimensão que perpassa o homem.

Buscar o sentido da vida permanece uma necessidade da humanidade como um todo, e, especificamente, do maçom na Ordem Maçônica. Considerar a compreensão da mitologia é uma possibilidade para encontrar esse propósito, tendo em vista que, juntamente com o simbolismo, ela está presente nos rituais e cerimoniais de iniciação da maçonaria auxiliando nessa procura (MAXENCE, 2010).

Jung (2012b) nos proporcionou estudos sobre o que é o inconsciente. A psique possui aspectos individuais e coletivos, não é apenas um produto da experiência pessoal, uma vez que envolve, ainda, uma dimensão muito maior que se manifesta em padrões e imagens universais, tais como os que se podem encontrar em mitologias e crenças diversas (EDINGER, 2020).

Importante destacar que essas imagens estão presentes nos cerimonias da Ordem Maçônica, estes serão descritos, em suas partes essenciais, ao longo do presente artigo. Na sequência, serão apresentados conceitos da psicologia profunda que permitirão uma melhor compreensão da perspectiva junguiana que está particularmente relacionada à vivência maçônica em seus aspectos fundamentais.

2 – Conceitos da psicologia junguiana

Segundo Sanford (2020), um termo de muita importância na psicologia profunda é o conceito de individuação e entender o seu significado é essencial para a compreensão da psicologia junguiana. A Individuação é a identificação dada ao processo de transformação psíquico que ocorre constantemente em nós e que tem como fim o desenvolvimento de uma personalidade completa. Esse processo não é aquilo que queremos fazer com consciência, mas uma necessidade imperativa que tem origem espontânea na nossa psique.

A individuação, seguindo o estudo de Stein (2020), tem como material a ser trabalhado as forças opostas, como por exemplos: bem e mal, luz e sombra, ativo e passivo, dentre outras. Para ser alcançada é fundamental a integração desses componentes divergentes pelo indivíduo em sua consciência.

Tendo como referencial Stein (2020), o processo de individuação não se limita a uma especificação simples da maneira como um indivíduo se desenvolve ao longo da infância e da juventude, vivenciando, então, essa forma de ser construída que se apresenta como adulto. O processo de individuação pode ser caracterizado quando o ego-consciência vai além de suas características e hábitos pessoais determinados. Ele ultrapassa as atitudes contextuais introjetadas e pode chegar a um maior autoconhecimento e totalidade.

Outro importante conceito da psicologia profunda, conforme Jacobi (2016), é o conceito de complexos que podem ser considerados como sendo energias psíquicas desconhecidas de forte carga afetiva que estão em raízes profundas da psique, sendo possíveis de conscientização. Tal conquista de consciência, pode ser alcançada através do método analítico da psicologia junguiana, por exemplo. (JACOBI, 2016).

Esclarece a autora supracitada, especificamente, que os arquétipos são fatores e temas que organizam elementos psíquicos, formando determinadas imagens que são percebidas pelas consequências que trazem no comportamento do ser humano ao longo de sua vida. O arquétipo é sempre atualizado de acordo com a vida interior e exterior do indivíduo.

Em sintonia com os esclarecimentos de Stein (2020), os arquétipos podem ser considerados como não necessariamente presentes no passado ou no tempo, são a-históricos e atemporais. Eles materializam estruturas genéricas e motivos de vida. A identificação com um arquétipo é algo totalmente inconsciente em seu processo. Somente para alguns é possível perceber claramente essa ocorrência.

As diversas ocorrências culturais estão em nosso mundo exercendo mudança de comportamento em diversos grupos sociais e transformando as suas visões de mundo. Da perspectiva da psicologia profunda, argumentamos que diversas manifestações do saber cultural são comportamentos com ligações aos arquétipos universais que continuam a exercer influência com o passar do tempo, tais como: persona, sombra, mãe e pai (STEIN, 2021).

Ainda em conformidade com Jacobi (2016), o arquétipo se manifesta no aqui e agora do espaço e do tempo. Caso pudermos percebê-lo na consciência de alguma maneira, então falaremos de símbolo. Isso quer dizer que cada símbolo é, também, ao mesmo tempo, uma expressão de um arquétipo, de maneira que seria um desenho básico arquetípico imaginado.

Edinger (2020) observa que o homem é carente de uma vida constituída de símbolos, assim como necessita de um contexto contendo os signos. Para melhor compreensão é importante deixar claro que o signo é uma unidade de significado que materializa algo de nosso entendimento, exemplificando: a língua é um sistema de signos, e não de símbolos. O signo veicula um significado abstrato e objetivo. Ele é morto. Já o símbolo, por sua vez, é vida. Ele é uma imagem ou representação que nos mostra o desconhecido, algo subjetivo, ele é dotado de um dinamismo que exerce sobre o indivíduo uma poderosa atração e um poderoso fascínio.

Um símbolo que impõe a sua natureza simbólica, ainda não é necessariamente vivo. Pode atuar, por exemplo, apenas sobre a compreensão histórica ou filosófica. Desperta interesse intelectual ou
estético. Um símbolo é vivo só quando é para o observador a expressão melhor e mais plena possível do pressentido e ainda não consciente. Nessas condições operacionaliza a participação do inconsciente. Como diz Fausto: Quão diferente é a atuação deste sinal em mim […] (JUNG, 2013e, p. 489).

Jung (2013d) instrui que o símbolo está presente ao longo dos anos em nossa civilização. Ele participa em diversos processos da evolução da humanidade. O desenvolvimento do indivíduo é muitas vezes alcançado pela vivência, singular, do significado simbólico.

De acordo com Edinger (2020), a psicologia junguiana nos traz o conhecimento de que a psique arquetípica conta com um princípio estruturador ou organizador de conteúdos arquetípicos: o Si- mesmo. O Si-mesmo pode ser identificado, na psicologia junguiana, como a divindade empírica interna e equivale à imago Dei, a imagem de Deus e não Deus. Observemos a explicação seguinte de Carl Gustav Jung:

A imagem divina decorrente de um ato de criação espontâneo é uma figura viva, uma entidade que existe de per si e por isto se torna autônoma com relação a seu aparente criador. Como prova disto lembramos que a relação entre o criador e sua obra é dialética e, de acordo com a experiência, não raro é a obra que fala a seu criador. Certa ou erradamente, o homem comum conclui daí que não foi ele quem a criou, mas que ela se moldou dentro dele – uma possibilidade que crítica alguma pode refutar, pois o vir a ser desta figura é um processo natural orientado para um determinado fim, no qual a causa antecipa a finalidade. Como se trata de um fenômeno natural, fica em aberto se uma imagem divina é criada ou se cria a si mesma. O homem comum não consegue negar esta independência e desenvolve na prática seu relacionamento dialético. Assim, em todas as situações difíceis ou perigosas apela para sua presença, com o intuito de deixar a seu cargo as dificuldades aparentemente insuportáveis e esperar a sua ajuda […] (JUNG, 2013g, p. 82-
83).

Edinger (2020) complementa nos trazendo a informação que o Si-mesmo é o ordenador e unificador da psique total, consciente e inconsciente, assim como o ego é o centro da personalidade consciente. O ego está ligado a identidade subjetiva, ao passo que o Si-mesmo à identidade objetiva.

Segundo Sanford (2020), por intermédio da relação entre o ego e o Si-mesmo é que começa o processo de conscientização. O ego é o componente de nós com o qual estamos estreitamente ligados e identificados. Devido a isso, é comum se entender que a personalidade não vai além da divisa do ego, ainda que, de fato, a parte significativa da psique esteja contida no inconsciente. O Si-mesmo é o nome que Jung deu à psique em sua totalidade na seguinte descrição: “A este cabe funcionalmente o significado de um Senhor do mundo interior, isto é, do inconsciente coletivo” (JUNG, 2013g, p. 433). Jung aqui se expressa metaforicamente, tanto que utiliza a palavra “significado” e o pronome indefinido “um”. Ele não diz que o Si-Mesmo “é” o Senhor do mundo interior.

O Si-mesmo pode ser visto como nossa personalidade plena. O Si-mesmo é composto tanto pelo consciente quanto pelo inconsciente numa totalidade paradoxal. Ele está presente dentro de nós a partir do início da vida como uma força com potencialidade (SANFORD, 2020).

Ainda conforme Sanford (2020), caso a individuação vir a ser, a experiência do Si-mesmo precisa realizar-se através da vida que participamos realmente. Para isso, é imprescindível o trabalho conjunto entre o ego e o Si-mesmo, porque o ego precisa tornar-se uma espécie de recipiente através do qual o Si-mesmo é realizado e manifesto.

Neumann (2021) coloca que o conceito junguiano de persona se refere a uma veste psíquica utilizada pelo indivíduo. Por detrás dessa, podem, muitas vezes, estar presentes as sombras, aquilo que está fora do que se considera certo, algo que está secreto ou é misterioso, dentre outras possibilidades.

O bem e o mal são forças psíquicas opostas que nos acompanham, tanto individualmente quanto no ambiente externo ou contextualmente. Assim sendo, a conscientização de suas presenças permite o desenvolvimento ao longo da vida de uma possível totalidade de consciência. A negação da existência do mal leva a sua manifestação sem controle, tais como podemos observar nas diversas guerras pelo mundo, nas inúmeras formas de agressões, no fanatismo religioso e instabilidades no meio que vivemos (NEUMANN, 2021).

Franz (2018) argumenta que a abordagem do sentido do mal em qualquer indivíduo é o problema da sombra; do mal que lhe é característico. Todos temos uma fuga no sentido a não atentar para a nossa sombra ou a utilizar uma suavização através do uso de eufemismos e justificá-la em determinados conjuntos de ideias. Sem o reconhecimento de nossas deficiências ou daquilo que nós negamos, não se pode desenvolver um processo de individuação com progresso rumo à totalidade.

3 – Conceitos da Maçonaria

A Maçonaria, contemporaneamente, não pode ser considerada tão secreta como outrora, pois é uma instituição civil que possui registro nos livros dos cartórios, tendo personalidade jurídica, estando assim, sob a obediência das Leis Constitucionais. No Brasil, a Ordem Maçônica tem progredido multiplicando suas representações locais, conhecidas entre os maçons como lojas maçônicas. Nelas são recepcionados novos adeptos que comporão seus quadros pessoais. Elas possuem seus templos e suas características próprias para a ritualística (CAMINO, 2015).

Conforme nos ensina Boucher (2015), a Obediência Maçônica preserva tradições presentes nos ensinamentos iniciáticos e na simbologia maçônica. O símbolo possui a capacidade de fazer adquirir certos detalhes que podem estar fora da ciência, mas que nem por isso é menos importante. O símbolo, na perspectiva maçônica, é uma possibilidade ou espécie de descobrimento e de esclarecimento (BOUCHER, 2015).

Camino (2015), aponta que a Ordem Maçônica se manifesta por intermédio de reuniões que buscam uma referência ao Ser Supremo, conhecido como Grande Arquiteto do Universo. Ela faz uso dos ritos e dos símbolos. Um exemplo do simbolismo no templo é a presença no interior do ambiente de um livro considerado sagrado. Ele simboliza a palavra divina, o verbo ou verdade suprema, escrita em nosso arquivo da memória, é a lei natural.

Para os países de predominância católica e protestante é representado pelo uso de uma Bíblia, mas em outros credos pode ser o Livro dos Mortos, o Vedas, o Torah ou o Alcorão. Evidencia-se na Ordem o culto ao amor fraterno, a liberdade e a igualdade que são reconhecidos como valores importantes (CAMINO, 2015).

Segundo Boucher (2015), a Maçonaria tem como grande meta abrir o caminho à conscientização do Aprendiz maçom que se inicia na Ordem. Para isso, faz uso da dramatização ritualística nos cerimoniais de iniciação dos diferentes graus e conta com instruções ministradas pelos Mestres maçons. Além disso, faz uso da simbologia maçônica que está contida nos diferentes ritos, manuais, na decoração e harmonia do interior dos espaços de reuniões. A maneira de agir do maçom depende muito da afinidade, da capacidade cognitiva de aprendizagem e principalmente da dedicação de seus integrantes.

A tolerância é um atributo importante no processo de conscientização dos maçons, a aceitação das diferentes visões de Deus presentes nos integrantes da Obediência Maçônica é respeitada. Para ser admitido na organização, há a necessidade de se crer em Deus, pois os ensinamentos são baseados na existência de um Ser Supremo (CAMINO, 2015).

A crença em uma Força Superior na Ordem Maçônica materializa um significado de algo muito maior e muito mais complexo, muito além da capacidade de compreensão da inteligência humana. Ele é conhecido na Ordem como “Grande Arquiteto do Universo”. Existe na vida maçônica a liberdade de crer, sem ortodoxia ou dogmatismo (CAMINO, 2015).

A estruturação ou organização da Ordem Maçônica se baseia em três graus de simbolismo maçônico, grau 1 ou de Aprendiz, grau 2 ou de Companheiro e grau 3 ou de Mestre (CAMINO, 2015).

Seguindo o estudo de Adoum (2010b), no grau de Aprendiz a meta é o estudo de onde se origina o ser. Já no grau de Companheiro, que é o segundo grau, o foco é buscar uma resposta à pergunta: Quem Somos? No grau de Mestre, fica evidente a efemeridade da vida com a percepção da morte a nos aguardar em um futuro inevitável.

Segundo Camino (2015), a aprendizagem do maçom na Ordem não é uma fórmula pronta, não é um gabarito para se chegar a um padrão de excelência e ausência de defeito, sendo destaque, entender que a singularidade de cada um é imprescindível para o aumento da conscientização do ser. Além disso, a compreensão dos postulados simbólicos da Maçonaria, a capacidade de transformar em prática para si mesmo e reverberar esse progresso para o contexto social são fundamentais.

Continua…

Autores: Claudiney Rodrigues Calsavara e Paulo Ferreira Bonfatti

Fonte: Cadernos de Psicologia, Juiz de Fora, v. 3, n. 6, p. 542-567, jul./dez. 2021.

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A paleta de cores dentro da Maçonaria

A Escola de pintura

Outro dia um amigo perguntou o que eu acho que é a vida.
Resposta difícil, não é?
Vou contar como respondi.
Imagine uma escola de pintura. Ao entrar, você recebe uma tela em branco e encontra vários alunos pintando. Muitos estão trabalhando há anos, e os quadros são de todos os tipos, desde obras maravilhosas,
até telas completamente destruídas. As tintas, os pinceis e os materiais de pintura estão espalhados pela
sala, alguns bem acessíveis, outros em locais difíceis. Apesar de ser uma escola não há professores. É
tudo por sua conta (Régua e Compasso que nos incumbe a realidade concreta as quais estamos
habituados).
O que você faria nessa situação? Pegaria qualquer pincel e simplesmente espalharia por sua tela?
Observaria os que estão trabalhando e tentaria imitar alguém talentoso? Juntaria a sua tela a de outras
pessoas e pintaria um grande painel em equipe? Tentaria criar uma obra original e aprender com seus
próprios erros? Utilizaria apenas os materiais mais acessíveis ou batalharia para conseguir também os mais
difíceis?
Volto a perguntar, o que você faria?
Na minha opinião, a vida é como essa escola de pintura. As pinceladas são as nossas ações.
Às vezes damos pinceladas de mestre. Usamos o tipo certo de pincel, a mistura correta das cores e
movimentos precisos. São as nossas boas ações. Aquelas que nos fazem dormir tranquilo e com sorrisos
nos lábios (Alavanca para uma vontade inflexível, quando inteligentemente aplicada).
Outras vezes, borramos todo o nosso quadro e pensamos: “Argh! Estraguei tudo. Não tem mais
jeito”. Desejamos até jogar a tela fora e parar tudo. Vamos dormir arrasados e querendo morrer.
É nessa hora que precisamos lembrar da escola de pintura. Não se desespere. Por mais borrado
que seu quadro esteja, você sempre pode pegar um pincel limpo, as tintas certas e pintar por cima.
Se você disse algo ruim para alguém, peça perdão (Maço e o Cinzel para corrigir nossos
defeitos). Se fez algo que não deveria, volte lá e conserte. Se deixou passar uma oportunidade de elogiar,
procure a pessoa ou pegue o telefone e faça o elogio.
Se teve vontade de acariciar alguém e não fez, faça-o na próxima vez que encontrá-lo (a) e diga-lhe
que apenas está acertando o seu quadro – tenho certeza de que você será compreendido.
A única coisa que você não deve fazer é deixar os borrões aparecendo (Esquadro que consiste,
para o ser humano, na justeza com que se coloca na sociedade). Não interessa quão antigo eles sejam.
Se estiverem lá, corrija-os. É corrigindo que aprendemos a não cometê-los e nos tornamos artistas cada
vez melhores.
Fazendo assim, não importa se teremos mais duzentos anos ou apenas mais um dia, para a nossa
pintura. Quando formos chamados para expô-la, ela estará perfeita. Talento tenho certeza, todos nós
temos.”


Roberto Lopes

1 – Introdução

O presente trabalho, através de literatura comparada, propõe uma tentativa de compreensão mais profunda em relação aos instrumentos dentro do grau de C∴ M∴, associando-os a paleta de cores emocionais e seus processos de amadurecimentos, vivenciadas dentro da Maçonaria.

Com o objetivo de elucidar de forma simples e clara a primeira parte apresentará um pouco dos significados do maço e do cinzel como um desses instrumentos simbólicos de C∴ M∴, entendendo um pouco seus significados e, quando possível, sua história.

No segundo momento, considerando a busca incessante dos irmãos em levantar templos as virtudes e masmorras ao vício, será abordado esse processo de desdobramento dos instrumentos fazendo uma menção as questões emocionais e a sua tentativa constante pela evolução espiritual. Processo que deve ser ininterrupto e crescente para que a maçonaria esteja mais presente dentro de si. Com esse foco faremos um cotejamento com as análises do psiquiatra Daniel Martins de Barros que faz uma analogia com as emoções primárias e seus desdobramentos secundários.

Por último discutiremos a ideia do essencialismo na maçonaria. Tema que aplicado dentro dos contextos expostos, junto ao significado filosófico dos instrumentos, podem trazer um crescimento e uma maturidade para a loja e os irmãos. O controle dos pensamentos, o imprevisto no cotidiano dos irmãos, tanto no mundo profano como em loja, atrelado as suas emoções primárias podem gerar um caos que não seria de todo o mal. As suas consequências podem gerar uma anti-fragilidade, que é um processo necessário para a evolução espiritual que tanto se fala e discuti de forma mais incisiva a partir desse grau.

2 – O maço e o cinzel

Dentro dos mistérios impenetráveis ao mundo profano, sendo somente conhecido por aquele que passam por uma ordália [1] iniciação e, posteriormente, em sua evolução, passam por um processo de detenção das doutrinas ocultas existentes através dos simbolismos [2].

O simbolismo que apresenta como características alguns significados tais como: pressentir, ligar, aproximar, confrontar, comparar. Assim, pode-se considerar os instrumentos da viagem de C∴ M∴ representações simbólicas no processo de sua evolução rumo a elevação.

No caso do Maço e do Cinzel, dois dos instrumentos mais antigos já encontrados [3], pois eram utilizados dentro da Maçonaria operativa, onde os trabalhadores cortavam, facejavam as pedras brutas fazendo dela pedras de canto, colunas, de centro e ornamentações que abrilhantavam as mais diversas obras, hoje representam na Maçonaria moderna os meios do Ir∴ desbastar a pedra bruta do seu caráter.

É do artesão que se originavam os desenhos das grandes obras e projetos arquitetônicos projetados naquela época. Assim se deriva essa representação na Maçonaria Moderna. O Maço e o Cinzel eram considerados verdadeiros instrumentos da arte real e por isso a sua rica simbologia.

Através de estudos filosóficos e a prática das virtudes é que o homem é capaz de alcançar a obra perfeita. A disposição do homem para o bem pode ser representada pelo maço aplicada corretamente sobre o cinzel que pode trazer a plenitude do ser e a beleza da obra. Essa metáfora foi usada brilhantemente pelo Padre Vieira em seus famosos sermões.

“Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta,
dura, informe e, depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o
cinzel na mão e começa a formar um homem; primeiro membro a
membro, e depois feição por feição, até à mais miúda: ondeia-lhe os
cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe
a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os
braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os
vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama e fica um homem
perfeito, talvez um santo, que se pode pôr no altar.”

O maço na maçonaria moderna é a mente do Ir∴, onde suas atitudes representadas pelo cinzel podem levá-lo ao aperfeiçoamento. Suas escolhas poderão guiá-lo as virtudes para se tornar um maçom “justo e perfeito. “Isso não está atrelado a frequência e força como é feito e sim às suas habilidades como e critérios para ter o melhor entendimento e compreensão no seu processo evolutivo, respeitando esses dois símbolos profissionais tão valiosos a Maçonaria.

3 – A paleta de cores dentro da Maçonaria

Sempre que me remeto a Maçonaria pondero os momentos mais complexos que vivenciei no meu processo de iniciação a elevação. Interessante que esse processo se repete da elevação rumo à exaltação. Apesar da minha pouca idade maçônica, percebo que essa mistura de sentimentos e percepções é comum aos novos irmãos e, não excludentes, aos demais dos mais diversos graus. O que muitas vezes nos trazem angústias, dúvidas, medos e até a sensação de desistência dentro da irmandade.

Pensando nesse tema, é factível se apoiar nas observações de BARROS, Daniel (P.18- 19), que demonstra que o ser humano vive sempre em uma ciranda emocional. O autor faz uma analogia desses aspectos ao círculo cromático onde temos as cores primárias (amarelos, vermelho e azul) que dão origem as cores secundárias (verde, roxo e laranja) que mais uma vez se desdobram as cores terciárias.

Nesse sentido ele demonstra que essas cores mudam suas paletas e tonalidades, como também suas definições conforme as intensidades das misturas e tons dispostos em suas bases. Temos as bases emocionais como Alegria, medo, tristeza, nojo, raiva como as emoções primárias que dependendo das experiências podemos desenvolver o que seriam os “sentimentos secundários” tais como contentamento, alegria, serenidade, timidez, ansiedade, culpa, luto, irritação, desprezo, ciúme, fúria, orgulho, êxtase, esperança etc.

Sendo assim, os sentimentos supostamente primários seriam norteadores das nossas emoções no dia a dia. Digo não só dentro da loja, mas principalmente no mundo profano, local das nossas maiores masmorras emocionais. Isso não é uma ideia recente, sendo pautado sempre por diversos pesquisadores como René Descartes que postulava no século XVII a existência de seis emoções básicas – amor, ódio, alegria, tristeza, desejo e admiração -, e dizia ser capaz de explicar todas as outras a partir dela.

Mesmo que alguns estudiosos concordem sobre sentimentos básicos que, mais do que perceptível, se desdobram de um autor para outro, percebemos ainda que há uma pequena variação de alguns sentimentos bases como ponto de partida para as demais reações. De qualquer forma ainda sim temos expressões universais comprovadas e testada como meio de start das emoções primitivas. Isso não se limita apenas pelos sentimentos e expressões básicas, mas deve ser levado em conta o desenvolvimento infantil.

Tendo em vista a complexidade das relações humanas proveniente das suas emoções existem várias teorias e experiências para tentar explicar e entender o assunto. Como dizia o Professor José Cippola Neto, que lecionava neurofisiologia para o segundo ano de faculdade de Medicina, se existem muitas teorias para explicar algo, é porque nenhuma delas acertou precisamente a ponto de conseguir convencer a todos. (O lado bom do lado ruim, BARROS, Daniel p.25).

Toda essa contextualização serve apenas para evidenciar que muitas vezes em loja percebemos uma relação complexa na tentativa de trazer uma harmonia entre os irmãos e melhor desenvolvimento dos trabalhos, o que muita vez não é alcançado. Além das bases emocionais existentes, que faz parte da experiencia de cada irmão, outro ponto pode comprometer essa interação e anseios pelo desenvolvimento coletivo ou individual. Os pontos de vistas únicos levam a visões parciais de todos limitando a compreensão total.

Conforme sabiamente exemplificado pelo BARROS, Daniel (p.25),

“é como a história dos cegos e do elefante, famosa em várias tradições
ocidentais. Os detalhes da parábola variam de uma tradição para
outra, mas em todas as versões um grupo de homens cegos encontram
um animal até então desconhecido para eles. Aproximam-se com
cautela para apalpá-lo, e começam a descrever o que percebem. O
homem que toca a orelha espanta-se com a sua maleabilidade e atribui
ao corpo todo do bicho, comparando-o a um leque. Mas o que examina
tromba imediatamente discorda, pois embora ela seja flexível,
assemelha-se mais a um tubo. Nessa hora, o que apalpa a pata entra
na conversa, pois até poderia aceitar a comparação com um tubo, mas
a rigidez e o diâmetro típicos de um tronco estão evidentes. O homem
que se aproximou por trás, tocando o rabo do elefante, não concorda com ninguém, descreve o animal como fino, delicado, com cerdas.
Finalmente aquele que subiu no lombo se desespera com as descrições
incompatíveis com a magnitude que testemunha ali em cima.”

Fica clara nessa parábola a vivência que se tem hoje nas atribuições maçônicas. O que não seria nem um pouco difícil de entender a situação do apego a pontos de vista únicos levando a uma visão parcial do todo e limitando a compreensão total.

Isso deveria ficar mais em evidência aos irmãos quando menor a idade experimentada. Porém, os pontos de vista dos mais experientes são pontuais e muitas vezes parciais dando ao iniciado uma percepção fragmentada dos processos. Não quero deixar aqui uma percepção de que não é necessário um processo de aprendizado, elevação e exaltação de cada irmão, mas trazê-lo a mesma perspectiva sem a mesma base muitas vezes podem desencadear sensações muitas vezes indefinidas e que contribuem para evasões maçônicas físicas e emocionais.

Essas situações de informações ainda em construção na pedra bruta e em elevação à cúbica nos trazem um iminente processo reativo na tentativa de compensar as frustações fazendo com que, muitas vezes, tomemos decisões erroneamente precipitadas.

Segundo o Psiquiatra Augusto Cury, esse problema é denominado Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA). Ainda dentro desse conceito, em seu livro “Ansiedade, como enfrentar o mal do século” isso é uma doença coletiva e está presente em toda a humanidade.

O sofrimento nesse sentido faz parte do crescimento. Ele nos fortalece e traz mais discernimento das coisas potencializando os nossos sensos críticos. Dessa maneira podemos somar as observações e ponderações dos irmãos em loja para a construção de algo maior e sólido. Entendo que só sofremos por aquilo que realmente é importante para nós.

Mas então qual a grande questão dentro da nossa paleta emocional?

Quais os seus propósitos e ganhos?

Na verdade, o grande objetivo desse debate é refletirmos em como fazer isso sem perder os irmãos iniciados. Falo pela minha própria experiência. Quando iniciei como aprendiz, fui inserido em loja sem o devido acompanhamento, o que faria minha jornada mais fácil. Sem fazer juízo de valores, cabendo esse papel não só ao padrinho e o irmão primeiro vigilante, mas todos os que ali se encontram com o mesmo propósito. Meu período de iniciação veio carregado de vária mudanças e interpelações do mundo profano.

Dentro dessas mudanças que cada um enfrenta em sua vida particular, juntamente com a busca pela evolução como ser humano, nos questionamos qual seria a nossa real busca e sentido na maçonaria, já que nada nos é revelado em meio ao convite para ingressar.

Compartilhando um pouco da minha experiência dentro desse processo de iniciação, o que me manteve dentro da irmandade foi exatamente esse acompanhamento e dedicação de um irmão que conseguiu avaliar as minhas paletas emocionais, exercer a empatia e trazer algumas verdades para o meu sofrimento e minhas angústias. Foi nesse momento que, mais do que entrar na maçonaria, procurei deixar a maçonaria entrar em mim. Sempre buscando equilibrar os verdadeiros princípios maçônicos de liberdade de pensamentos, igualdade sem distinção de raças, classes sociais e a fraternidade entre os homens.

Esse processo foi fundamental para a minha real inserção dentro da irmandade, trazendo uma nova iniciação ao iniciado. Uma nova perspectiva de objetivos e valores. Percebemos assim que esse processo de dores e angústias são importantes e necessários para ativar os sinais de que algo não está certo, algo não faz sentido, que as respostas ainda não vieram e que algo precisa ser feito a respeito. Contudo quando nos debatemos em loja e identificamos alguns irmãos, já não tão iniciados, em conflito, tentando impor, por mais que não aceitem ou vislumbrem dessa forma, sua maneira de pensar. Provavelmente suas dores não foram trabalhadas e aperfeiçoadas nos períodos introdutórios da maçonaria, tornando-se cláusulas pétreas em loja.

A ignorância nos proporciona menos questionamentos e mais aceitação, mas à medida que o aprendizado avança, que a lapidação da pedra cúbica evolui perecemos maior controle de nossas emoções, maior controle dos nossos pensamentos intuitivos e reativos e as nossas paletas de cores assumem tons pastéis.

4 – Essencialismo no processo evolutivo

Em convergência com o mundo profano, na Maçonaria há um dinamismo de pautas e responsabilidades que agregam à ordem. Temas que devem ser considerados e conduzidos. Entretanto, entendo que não se trata do essencialismo para os IIr∴ dentro de um processo de evolução espiritual no qual almejamos. Quando pautamos a necessidade de desbastar a nossa personalidade para o nosso crescimento espiritual, precisamos analisar todas as variáveis disponíveis. Deve se desprender o maior tempo possível nas escolhas do que temos disponível em nossa vivência para ser base para nosso aperfeiçoamento.

Deve ser levado em consideração o histórico do mundo profano nos aspectos de família, relações interpessoais e seus processos de anti-fragilidade dentro das experiências vividas. Nesse caso pode-se entender como anti-fragilidade a capacidade de se “beneficiar” com o caos, que as vezes é apresentado, e o fato de não se ter meios com o qual se possa mitigá-lo, fazendo com que nasça uma forma de aprender e se adaptar à nova realidade existente. Esse processo muitas vezes traz resultados melhores do que quando pensamos na “vacina DO CAOS”, a fim de tentar evitar colapsos emocionais. Saímos mais experientes, flexíveis e maduros. O que entra em questão é como vamos utilizar esse benefício dali em diante.

Dentro da Maçonaria as pautas que se tornam contribuintes para o desenvolvimento estão mais relacionadas aos estudos filosóficos, os aprendizados em loja e o compartilhamento das vivências dos IIr∴.

No segundo momento, após o desprendimento de um considerável tempo para análise nos pontos existentes no mundo profano e Maçonaria, deve ser feito um critério de seleção do que realmente é essencial para o seu desenvolvimento espiritual. Os demais assuntos e rotinas, não menos importantes, devem ser deixados para outras discussões, uma vez que se entende que já se dedicou um grande momento de reflexão nessa escolha.

Ao trazer essa elegibilidade dos caminhos do crescimento espiritual podemos fazer uma conexão com a paleta de cores das nossas emoções, interligadas ao Maço e o Cinzel tendo-os como principais instrumentos no processo de crescimento. Como já mencionado, cabe reforçar que as dores e angústias são importantes e necessárias para ativar os sinais de que algo não está certo ou ainda não está fazendo sentido. O medo, o receio e as insatisfações são dignos de considerações. Contudo, isso não pode ser um recurso que te paralise. Deve servir sempre como subsídios emocionais para que se possa direcionar a mente (Maço) para uma evolução espiritual com escolhas e atitudes (Cinzel) relevantes e que façam diferença no meio onde se encontra e, principalmente, dentro de si.

Essa reconstrução espiritual, considerando que já nasceu e está sendo conduzido um espírito existente no mundo profano, deve ser realizada de forma cuidadosa e lenta. Sem antecipar momentos e, dentro da loja, os graus, para que a irmandade se faça de forma sólida e com alicerces duradouros.

Nesse processo de aprendizagem e reformulações de caráter e experiência é que os IIr∴ devem se unir, mesmo que ainda míope à luz, do menor ao mais elevado grau, para que se entendam sem tirar conclusões precipitadas de suas convicções diante de um elefante. Devem focar no essencial que é o fato de maior espiritualidade, maiores percepções e aberturas as novas propostas que podem ser boas para todos.

5 – Considerações finais

O que torna o crescimento maçônico interessante é a divergência do ponto de vista de cada um. A discordância traz crescimentos e possiblidades de se entender o que realmente pode ser melhor a se seguir. Comigo não foi diferente desde a minha iniciação até aqui. Momentos de incompreensão, conturbações e medos que quase me paralisaram. Quase paralisei. Quase fiz parte da evasão maçônica. Foi nesse momento que me permiti viver a dor e o luto que sentia. Enfurecer-me com a destruição das minhas hipócritas convicções e pedir auxílio aos IIr∴ que se encontravam mais próximos de mim.

Com as oportunidades corretas e busca dos estudos que me completam com ser humano foi com que fui capaz de seguir em frente. Capaz de trazer para dentro de mim a maçonaria que tanto busco e me permito vivenciar. É nessa trajetória que entendo que não ter certas convicções são saudáveis para o crescimento, que os conflitos devem existir e que há uma irmandade maior do que preceitos e regras.

No entanto, quanto mais busco o meu desenvolvimento espiritual, percebo o quanto sou pequeno diante as obras do G∴A∴D∴U∴ e o que nada é por acaso. Que não existe um papel mais importante do que o outro, mas que cada um cumpre os seus desígnios de acordo com o momento ali disposto. É dessa forma que pretendo buscar entender mais para que possa ser alguém melhor e contribuir para o auxílio daqueles que estão em meu entorno. Principalmente estar pronto para qualquer atuação no mundo maçônico e profano. Peço sempre ao G∴A∴D∴U∴ que sempre interceda em meus caminhos para que eu jamais esqueça o Maço e o Cinzel do meu ser.

Autor: Marcelo Marcus Martins Costa*

*Marcelo é membro da ARLS Jacques DeMolay, nº 22, do oriente de Belo Horizonte e jurisdicionada à GLMMG.

Notas

[1] – Expressão procedente do germânico ordael (sentença), as ordálias foram práticas de julgamento utilizadas principalmente no período denominado “Alta Idade Média” (séculos V ao X). De cunho estritamente religioso, as ordálias, também conhecidas como “juízo de Deus”, consistiam em um ritual em que o réu se submetia a uma provação, onde por meio de participação de elementos da natureza, estimava-se que a intervenção divina iria provar ou não sua inocência.

[2] – O termo “simbolismo” é derivado da palavra “símbolo”, que por sua vez deriva de symbolum em latim, um símbolo de fé e symbolus, um sinal de reconhecimento, da língua grega clássica σύμβολον symbolon, um objeto cortado pela metade constituindo um sinal de reconhecimento.

[3] – Um dos registros arqueológicos operativos mais antigos é um conjunto de maço e cinzel, datado de cerca de 2 mil a.C. (4 mil anos atrás) e encontrado numa tumba egípcia em Tebas. As ferramentas foram utilizadas durante o reino do faraó Mentuhotep II e são parte do acervo do Metropolitan Museum, de Nova Iorque.

Referências

CURY, Augusto. Ansiedade, como enfrentar o mal do século. Pinheiro, São Paulo. Editora Saraiva. 1ª edição 2015, 4ª tiragem 2016. BARROS, Daniel Martins. O lado bom do lado ruim. SP, São Paulo. Editora Sextante. Ano 2020. LOPEZ, Roberto. O livro da bruxa. SP, São Paulo. Editora Ediouro Publicações S.A. Ano 2008. ISMAIL, Kennyo. Ordem sobre o caos. Brasília, DF, No esquadro, 2020. TALEB, Nassim Nicholas. Anti-frágil, Coisas que se beneficiam com o Caos; Capítulo Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 1ª edição. 2020. https://www.freemason.pt/o-maco-e-o-cinzel-simbolos-maconicos/ O maço e o cinzel – Símbolos Maçónicos. Acesso dia 03 de outubro de 2022 22:08 horas
https://www.recantodasletras.com.br/ensaios/3696864/O MAÇO E O CINZEL-SIMBOLOS MAÇÔNICOS SIMBOLOS MAÇÔNICOS. Acesso dia 09 de outubro de 2022 às 17:52 horas

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A sociedade da desinformação

Desinformação enquanto um fenômeno social criou uma nova desordem global, onde as novas condições de produção, circulação e consumo de informação fizeram das notícias falsas um importante instrumento geoestratégico que, associado às técnicas híbridas, coloca as ações das mídias comunicacionais em sintonia na geração de notícias falsas. Analisamos a maneira como os meios de comunicação disseminam informações tomando como base cinco filtros indicados por Chomsky e Herman (2003): Filtro 1: Importância, propriedade e orientação dos benefícios dos meios de comunicação; Filtro 2: A publicidade como principal fonte de renda; Filtro 3: O fornecimento de notícias para a mídia; Filtro 4: As medidas corretivas como método para disciplinar a mídia; Filtro 5: Anticomunismo como mecanismo de controle. A análise realizada demonstra que, além de notícias falsas, as notícias reais são manipuladas e orientadas para polarizar ideologicamente, requerendo uma adaptação da sociedade na construção de marcos regulatórios, ao passo que as empresas (desenvolvedoras das redes sociais, por exemplo) e seus logaritmos não conseguem contrariar as redes globais da desinformação que atravessam países, continentes e línguas.

1 – Introdução

Passamos a vida acumulando conhecimento e experiências para construir uma identidade pessoal e uma visão de mundo individual, através da qual observamos e entendemos novas informações e conhecimentos. A construção dessas lentes é contínua e subconsciente para a maioria de nós na maioria das vezes. Frequentemente, quando recebemos novas informações cognitivas que “parecem certas” para as lentes que construímos, continuamos sem fazer muitos ajustes. Podemos chegar a um momento em que algo nos abala o suficiente para exigir que mudemos o foco completamente ou encontremos um novo par de lentes. Não importa como eventos ou mensagens individuais possam moldar nossa compreensão interna e percepção externa, é provável que nos beneficiemos mais ao ver o máximo da imagem a partir do maior número possível de pontos. Ou seja, nossa compreensão e precisão da visão são mais garantidas ao entender o contexto e ver o suficiente para fazer nossas próprias escolhas de onde e como “escolher” a informação que faça sentido a nossa realidade.

Desse modo, se o papel da visão de mundo na construção de uma sociedade viável depende das informações que recebemos, cabe questionarmos:

o que acontece quando as informações que estamos recebendo são falsas e manipuladas; além disso, não se encontram prontamente visíveis?

Desinformação, mentiras, trotes, propaganda enganosa e “notícias falsas” foram atualizadas sob o nome de “fake news”. Portanto, não se trata de um fenômeno novo. Embora o uso do termo notícias falsas seja relativamente recente – popularizado durante e pela campanha nos EUA entre Hillary Clinton e Donald Trump – o fenômeno da desinformação é muito mais antigo do que a história recente sugere.

Já no século VI a.C., o general e estrategista chinês Sun Tzu explicou no célebre livro Arte da Guerra a importância do engano na condução de um conflito. Ele insistiu, em particular, na necessidade de encontrar um compromisso entre verdade e falsidade, a fim de tornar as notícias falsas tão credíveis e eficazes quanto possível. Para isso, era necessário calibrar adequadamente seu objetivo e, em particular, as pessoas alvo, jogando uma combinação entre dados reais e o propósito do interlocutor (CLAVELL, 2003).

Esse método também foi utilizado no século I para justificar as perseguições romanas contra os cristãos. O casamento entre “irmãos e irmãs” significava comer “o corpo de Cristo”. Os que praticavam tal delito eram acusados de incesto e canibalismo. As autoridades romanas manipulavam as emoções das multidões para despertar um sentimento de indignação e rejeição que legitima a condenação política, ela mesma baseada na reprovação moral.

Desde a década de 1880 e durante os sessenta anos em que o antissemitismo contemporâneo esteve incansavelmente ancorado na Europa, as notícias falsas dirigidas aos judeus aumentaram e cresceram, desde o Protocolo dos Sábios de Sião, um plano falso para conquistar o mundo pelos judeus e pelos maçons, até os debates sobre a entrada no território canadense de dezenas de milhares de refugiados judeus europeus em 1943-44 (SORJ, 2007).

Na Idade Média e nos tempos modernos, os mesmos mecanismos estão em funcionamento nas sociedades em que o boato circula rapidamente e onde os poderes não hesitam em instrumentalizar os ruídos múltiplos e infundados em um espaço público em que eles moldam. Nos últimos anos, essa luta contra a desinformação – ou “fake news” – se tornou um dos fundamentos do debate político contemporâneo. Serve de apoio aos políticos que desejam defender sua ação pública ou a serem isentos de qualquer comportamento prejudicial à sua carreira, ou mesmo aos Estados que procuram desestabilizar um adversário (BRAND ÃO, 2013).

O fenômeno da informação falsa passou a ser multiplicado por um novo modelo que se baseia em uma tríade: criar um boato, fortalecê-lo por meio da mentira e disseminar em fontes de informação de acesso público. Esses recursos permitem e diversificam a disseminação de informações falsas. Os mecanismos utilizados nessa tríade visam essencialmente capturar a atenção dos usuários da Internet que gerem impacto e convençam o usuário a compartilhar e ampliar sua aceitação. O objetivo é simples: manipular a realidade dos fatos. Esse mecanismo envolve, por exemplo, desacreditar uma figura pública, desestabilizá-la ou minar sua reputação. Uma vez que o boato é compartilhado pelo maior número de pessoas, ela se torna crível. O mesmo “esquema” funciona para alterar a realidade sobre qualquer conceito ou realidade diferente da crença do disseminador de uma notícia falsa. Nos tempos contemporâneos, a mudança qualitativa e quantitativa na disseminação de informações é uma virada na maneira como recebemos conteúdos de toda natureza, ampliando o alcance e o poder da informação, centralizado em grandes centros da mídia.

Este artigo analisa uma teoria sobre a manipulação criada pelas empresas de mídia de massa, responsáveis por grande parte de “conteúdo” atual de informações e entretenimento. Descreveremos esse processo de enquadramento, à luz das tendências atuais dos meios de comunicação, incluindo teorias adicionais sobre as influências e forças motrizes por trás da produção/distribuição de informações para o grande público. Finalmente, discutiremos algumas maneiras e sugestões para preservar o equilíbrio, aumentando a conscientização sobre o “enquadramento” e visões alternativas (aquelas fora dos principais meios de comunicação de massa/multimídia que temos acesso).

2 – Como a informação é selecionada?

Todos os dias, centenas de notícias chegam às redações dos grandes jornais e conglomerados de mídia. Como os redatores decidem o que vão nos informar sobre cada região do mundo? Por que as notícias contraditórias às vezes aparecem e, em outras, todas se repetem de forma sincronizada?

A seleção e construção das notícias, do ponto de vista discursivo-argumentativo, nos sinaliza a inexistência de que não há neutralidade ou imparcialidade informativa. A própria defesa deste tipo de argumento do ponto de vista editorial, trata-se, acima de tudo, de uma posição ideológica em relação aos discursos que os jornais constroem.

Quando um jornal escolhe uma capa com a denúncia de um ato de corrupção ou a metodologia educacional do Ministério da Educação, por mais aparentemente que sua apresentação seja objetiva, ele está assumindo uma certa posição, atrelada às posições ideológicas defendidas pelo jornal. Portanto, nossa primeira missão deve ser descobrir o mecanismo de seleção de notícias.

Uma análise a esse respeito vem do linguista americano Noam Chomsky e do economista e analista de mídia Edward S. Herman, no livro A Manipulação do Público (2003). Em suas análises, nos apresentam o que chamam “Filtros”, isto é, os vereditos pelos quais dinheiro e poder filtram as notícias até que estejam prontas para publicação, marginalizam discrepâncias e permitem que o governo e interesses privados dominantes encontrem uma mensagem adequada ao público. São estruturas de poder e ideologia que muitas vezes são ignoradas pelos profissionais da informação. Isso ocorre porque o modelo atual é absolutamente internalizado. Vejamos um exemplo: Em abril de 2008, a compra de DVD, televisão ou celular foi autorizada em Cuba [1]. Todos os jornalistas e também os cidadãos interpretaram como um avanço das liberdades dos cubanos; noticiaram sobre liberdade não no sentido econômico, mas no sentido político. Esqueceram que esse critério de liberdade ignora um detalhe: a disponibilidade de dinheiro para acessar os produtos que carregam as notícias. Em nosso modelo, chamamos tudo o que podemos fazer de liberdade, se tivermos dinheiro para isso; portanto, não se trata de liberdade. Os cubanos que não tinham dinheiro não puderam comprar esses produtos.

Com este exemplo não pretendemos colocar em pauta a medida do governo cubano, queremos apenas destacar o viés ideológico imperceptível que a mídia e os cidadãos aplicam na interpretação da realidade. Quando se diz que um sinal da repressão cubana é que os pescadores de lagosta são proibidos de ficar com eles, consumi-los ou comercializá-los, esquecemos que nem os garçons dos restaurantes de frutos do mar em Porto Alegre têm dinheiro para ir a esse restaurante para jantar com seus amigos. Nem mesmo o pedreiro que constrói moradias de luxo na praia pode passar um único dia de verão em uma delas, ou seja, existe no fundamento das construções discursivas, sua historicidade, ideologia, lutas de classes sociais, atuação do poder econômico, político e social.

Mas voltemos aos filtros, aos mecanismos pelos quais é determinado o que é notícia e o que não é, no que devemos estar interessados, no que falaremos na cafeteria quando tomarmos café da manhã com nossos colegas de trabalho, o que os especialistas chamam de agenda setting [2]. Não é tanto que eles definem nossa ideologia, ao ponto de selecionar quais são os tópicos que devem nos interessar, que é mais do que impor uma ideologia, porque significa substituir a realidade, ainda mais em um mundo em que as relações sociais diminuíram muito em detrimento do nosso papel como consumidores de mídia.

Segundo o modelo de Chomsky e Herman, a mídia opera através de 5 filtros. São eles:

Filtro 1: Importância, propriedade e orientação dos benefícios dos meios de comunicação

No século XIX, a imprensa operária no Reino Unido tinha um papel fundamental junto aos trabalhadores, nos seus problemas culturais e no potencial para favorecer a organização e a conscientização (MACIEL, 2016). Por mais que isso incomodasse o governo, não podiam tentar sufocá-lo porque arriscavam revoltas populares. Foi no final do século XIX e dos princípios do século XX que chegou a industrialização da imprensa, de modo que os investimentos necessários para iniciar um jornal passaram de 1.000 libras em 1837 para 50.000 em 1867. The Sunday Press, que apareceu em 1918, precisava de dois milhões de libras. Para que o desenvolvimento industrial alcançasse o que nenhum governo havia conseguido: extinguir todos os projetos informativos que não tinham um grande investimento (LAIGNER, FORTES, 2009). Os mais humildes perderam o direito de coadministrar um meio de comunicação em consequência das grandes fortunas que passaram a dominar o mercado editorial. Este é um fenômeno ocasionado pela globalização. Basta observar o panorama atual para perceber que, por trás da mídia, existem poderosos grupos empresariais que disseminam informações internacionais por meio da mídia local, que se limita a replicar o conteúdo de grandes agências. Atualmente, 80% das notícias que circulam pelo mundo vêm de quatro agências internacionais de informação: Associated Press, United Press International, Reuters e Agence France Press. Essas agências são as que definem a agenda e fornecem a maioria das notícias internacionais (COSTA, 2018). No caso brasileiro os jornais de grande circulação são controlados por cinco famílias, que buscam atender a interesses próprios e dos grupos políticos que representam. Gostaríamos de recordar um episódio relatado por Fernando Morais (1996) em sua biografia do jornalista Assis Chateaubriand: Rubem Braga contrariado pela censura promovida por Chateaubriand em uma crônica que seria publicada nos Diários Associados, protestou ao dono do jornal, esse teria respondido da seguinte forma “Se você quiser ter liberdade plena, Rubem, compre um jornal para escrever tudo que desejar”. Acreditamos que essa anedota retrate a realidade dos conglomerados de mídia, ou seja, opinião no jornal só existe no espectro da atuação do próprio conglomerado.

Até recentemente, a principal ameaça à pluralidade informativa era a concentração da mídia em algumas empresas de comunicação. Essas empresas conseguiram tornar seu trabalho mais rentável oferecendo o mesmo produto informativo para alimentar o jornal, o rádio e a televisão de um mesmo grupo de mídia. Como os proprietários de mídia deixaram de ser grupos puros de comunicação, agora são simplesmente grupos econômicos colossais que não precisam ter a comunicação como atividade principal. A acusação progressiva de que eles transformaram informações em negócios também foi abandonada. Eliminada nos países desenvolvidos grande parte dos mecanismos de dominação pela violência, agora o valor da conformação da opinião pública é tão alto que vale a pena dedicar dinheiro a fundos perdidos. Portanto, muitos meios de comunicação tornaram-se meros departamentos de imagem dos setores de negócios. Assim, temos em nossa imprensa, acionistas de rádio e televisão que são bancos, companhias financeiras, seguradoras, empresas de telecomunicações ou mesmo armas. Banqueiros e executivos de negócios que não têm relação com informações fazem parte dos conselhos de administração dessas empresas de comunicação.

A engenharia financeira é tal que nem conseguimos saber se eles têm lucros. Se desejam melhorar a demonstração de resultados do jornal, basta injetar publicidade do acionista (Vale, Petrobrás, etc.).

Filtro 2: A publicidade como principal fonte de renda

Obviamente, no caso da imprensa britânica no século XIX o preço de venda do jornal deveria cobrir todos os custos de produção. Dessa maneira, a renda dependia apenas do número de cidadãos que a compravam. O acréscimo da publicidade passou a servir como renda extra para a mídia que atendia as preferências do público. Os jornais que a obtiveram poderiam até reduzir seu preço de venda. Por outro lado, aqueles que não atraíam anúncios tiveram preços mais caros, reduziram suas vendas, sofreram perdas ou menos benefícios para reinvestir e melhorar suas possibilidades de vendas (cor, formato atraente etc.). Como diz Chomsky e Herman (2003), com publicidade, o mercado livre não oferece um sistema neutro no qual o comprador finalmente decide. As escolhas dos anunciantes são aquelas que influenciam a prosperidade e a sobrevivência da mídia. Basta verificar como os pedidos de boicote não são direcionados ao público, mas aos anunciantes. Atualmente, o que pagamos por um jornal é equivalente a 50% de seu custo e os anunciantes pagam o restante. O jornal que não tem a aprovação dos anunciantes deve custar o dobro, mesmo supondo que o mesmo número de pessoas o compre; se o comprarem menos o que seria lógico se custar o dobro o preço por exemplar aumenta muito mais. Esta tese sobre o fator de distorção da publicidade é neutralizada quando se tenta argumentar que os anunciantes não condicionam o conteúdo e que, se a mídia tiver um grande público, os anunciantes ficarão sem considerar que tipo de informação é oferecida. Vejamos a falácia dessa teoria: para iniciantes, nem todos os cidadãos são iguais para a publicidade: aquele com maior poder de consumo é mais valioso do que aquele sem ele. Um jornal lido por mil executivos não é o mesmo que por mil desabrigados. Enquanto um jornal de finanças apresenta um anúncio promocional para atrair anunciantes, lembrando que é o mais lido por executivos e empresários; não é esperado que um jornal sindicalista consiga captar muitos anunciantes, embora seja o mais lido pelos metalúrgicos que cobram melhores condições de trabalho e salário. É por isso que a Petrobrás é anunciada na imprensa e as Casas Bahia distribui folhetos nas caixas de correio. Para a revista mensal da associação de advogados não faltará anunciantes, mas a revista voltada para refugiados venezuelanos custará muito mais para obter publicidade e certamente as taxas serão mais baixas. O atual sistema de publicidade, em termos de democracia eleitoral, seria como viver com um sistema de votação ponderada.

A publicidade também desencadeia uma diminuição no nível cultural do conteúdo e faz com que o público seja recrutado, até apelando para os elementos mais miseráveis da natureza humana. Se olharmos atentamente, verificaremos se o que a mídia vende não é um bom conteúdo informativo, mas sim o público: eles nos vendem para agências de publicidade. Uma rede de televisão oferece anúncios de 30 segundos mais caros que o outro, porque o primeiro coloca como principal valor o fato de ter três milhões de telespectadores assistindo e o segundo anúncio uma audiência muito inferior. Acreditamos que a mídia nos oferece conteúdo, mas em realidade o que está oferecendo são espectadores para as empresas de publicidade. É por isso que uma revista semanal oferece produtos cosméticos com valor maior do que a revista, pois, dessa forma, atinge números de alta circulação para oferecer aos anunciantes. Coloque aqui a sua publicidade: tenho meio milhão de leitores para divulgar um folheto na revista.

Mas a afirmação de que os anunciantes não têm ideologia é falsa. Em 2019 a operadora de cartões Mastercard decidiu suspender suas campanhas publicitárias que circulariam durante a Copa América com Neymar devido à acusação de estupro contra o jogador. Em certas ocasiões, o orçamento do anunciante serve não apenas para anunciar, mas também para garantir que eles não apareçam notícias negativas da sua empresa. É fácil entender: os anúncios não podem coexistir com a imagem de mal comportamentos, ao menos em tese, de modo que o patrocinador não seja visto como apoiador de mal comportamentos.

No Brasil, as televisões a cabo funcionam vendendo espaços de programação e cada produtor deve encontrar seus patrocinadores para financiar seu programa. Por isso, não encontramos empresa patrocinadora de um programa que denuncie as violações de multinacionais na África, a corrupção em Brasília ou que defenda a diminuição do consumo na busca de um modelo de desenvolvimento sustentável. Se existe um suplemento sobre carros na imprensa escrita, é porque houve uma publicidade potencial das empresas automobilísticas. Partindo da mesma lógica sobre a demanda de mercado, a seção de Obituários foi criada quando se viu que havia um mercado para a publicação de anúncios pagos.

Filtro 3: O fornecimento de notícias para a mídia

O mercado exige redução de custos, a mídia deve aproveitar ao máximo seus recursos, não pode ter jornalistas e câmeras em todos os lugares. A economia os obriga a se concentrar naqueles onde são produzidas notícias importantes, nas quais são realizadas coletivas de imprensa e existem pessoas influentes cujas decisões têm grande relevância.

Segundo dados do IBGE (2018), o percentual de domicílios que utilizavam a Internet subiu de 69,3% para 74,9%, de 2016 para 2017 e em 96,7% dos 70,4 milhões de domicílios do país havia aparelho de televisão, dos quais 79,8% tinham conversor para receber o sinal digital de televisão aberta. Portanto, fica para trás a máxima que é notícia aquilo que alguém não quer que seja conhecido, para ser apenas o que alguém quer que seja conhecido. No jornalismo, sabemos que não é oferecida a mesma garantia, nem se pode tratar da mesma maneira as fontes que estão “ansiosas” em contar à imprensa algo como aqueles que desejam ocultá-lo podem ser tratadas da mesma maneira. Nem a fonte que faz parte ou tem uma posição afetada pelas notícias de que quem não é parte interessada no relatório pode ter a mesma consideração. Dentre os noticiários televisivos das principais redes brasileiras, a maioria são preparados com o conteúdo fornecido por um informante cujos interesses estão diretamente relacionados ao que a notícia diz. E o modelo já está tão consolidado que até os políticos divulgam comentários para os jornalistas cumprirem as “regras do jogo”, isto é, apenas espalham o que os políticos pedem para espalhar. Por outro lado, de acordo com Souza (2018), a maioria das fontes são resultado de atos declarativos que consiste em fornecer uma versão que confirme um fato ou acontecimento. A televisão comenta de maneira empírica, não sobre o que acontece. Não há fatos. O barulho reina. Esse é o menu principal. Todos os dias, nas horas anteriores à transmissão das notícias das redes brasileiras, milhares de jornalistas estão dispostos a não perder suas posições. É o domínio informativo das fontes organizadas sobre o que Tarso Genro (2017) chamou de “jornalismo geneticamente modificado”.

Para a mídia, é muito caro ter um jornalista por semanas investigando um assunto em comparação com a facilidade de reescrever comunicados à imprensa, transcrever declarações públicas ou copiar notícias. A imprensa regional é o exemplo mais claro e qualquer jornalista local sabe qual é a sua rotina de trabalho: o editor-chefe ou o chefe de seção analisa os comunicados à imprensa ou as conferências de imprensa, escolhe as fontes que melhor se ajustam para sua linha editorial e envia os editores para fazer o tour com o gravador. Então retornam à redação e se dedicam a transcrever as notícias de cada uma das fontes. Para informações nacionais e internacionais, as notícias são analisadas, escolhidas e reproduzidas de acordo com o perfil do público antes de ser em publicadas. Da mesma forma, a vida política e social se encaixa perfeitamente com o seguinte modelo: os médicos emitem comunicados de imprensa, com relatórios médicos sobre o status das celebridades quando estão doentes, os políticos transferem suas posições para as salas de imprensa mais do que nas instituições e oferecem mais explicações e detalhes à mídia do que aos juízes. Assim, os jornais se tornam quadros de avisos, mas com conteúdo filtrado pelos gerentes.

Mas também existem diferentes tipos de ” notícias” quando se trata de vender. Para um veículo de notícias, sempre será mais credível e confortável reproduzir um lindo dossiê de impressão colorida com gráficos de barras e pizza de uma empresa importante (talvez anunciante ou acionista) que possa s er entregue ao público, que um comunicado de imprensa precariamente escrito por uma assembleia de trabalhadores onde eles denunciam o não pagamento de horas extras. Os vizinhos de um bairro que serão despejados de suas casas não terão uma boa agenda de mídia e emails para enviar uma nota indecorosa convocando-os para uma conferência de imprensa em uma sala acarpetada e iluminada onde instalar câmeras de televisão. Necessitarão enfrentar a polícia para que a mídia lembre deles.

Por outro lado, a mídia oficial sempre tem uma aura de veracidade e neutralidade que seduz os periódicos, o que para Pecheux e Fuchs (1975), vamos conhecer como a atuação da ideologia de forma que ocorra o apagamento de sua formulação (ideológica). Uma declaração de um guerrilheiro levanta mais questões sobre a autenticidade de seu conteúdo do que uma conferência de imprensa do Ministro da Defesa, porque existe em seu discurso uma autoria definida e institucionalizada. Embora, no final, não possamos deixar de verificar que as maiores inverdades sobre a realidade do desmatamento da Amazônia foram anunciadas pelo governo federal e acabariam por ser desmentidas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE, 2019). O capital financeiro e as influências ideológicas têm o potencial necessário para disseminar suas crenças e interesses comerciais, contratar jornalistas, preparar imagens de arquivo que fornecem às televisões e induzir jornalistas comprometidos em contar sua versão. Nossa polícia convida jornalistas para acompanhá-los em seu carro de patrulha, mas também são acusados de fazer apologia ao crime quando mostram a realidade da violência policial.

Filtro 4: As medidas corretivas como método para disciplinar a mídia

Lobbies, fundações e grupos de poder político ou empresarial tem capacidade organizacional, financeira e política suficiente para organizar campanhas de pressão contra a mídia ou jornalistas que deixam a linha dominante. É o que mostra a edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, publicado pela orga nização Repórteres sem Fronteiras (RSF, 2019). Ameaças, insultos e agressões fazem agora parte dos “riscos ocupacionais” da profissão em muito países, incluindo o Brasil, que caiu três posições no ranking e ocupa o 105º lugar, cada vez mais próximo da zona vermelha da classificação (que indica o nível de dificuldade para profissionais de imprensa).

Nos países onde há repressão contra a imprensa, existem fundações criadas com o único objetivo de se envolver em campanhas de pressão contra a mídia rebelde. Há empresas ligadas ao petróleo que atuam como um lobby contra informações sobre o aquecimento global, indústria fazendo lobby para aumentar os limites do glifosato, o veneno mais usado no Brasil, empresas de tabaco contra acusações de doenças ligadas ao consumo de cigarros ou produtos farmacêuticos que pressionam a mídia que divulga notícias sobre os efeitos colaterais dos medicamentos (BBC, 2019). ou ausência de valor terapêutico. Para a maioria da mídia, é mais lucrativo e menos problemático aceitar essas pressões do que enfrentar esses lobbies. O resultado é que as informações de organizações sociais humanas, grupos de trabalhadores precariamente organizados ou grupos de direitos humanos de baixo orçamento não atendem às demandas desses filtros e são excluídos dos meios de comunicação.

Filtro 5: Anticomunismo como mecanismo de controle

O filtro final é a ideologia do anticomunismo. O comunismo como o mal supremo sempre foi o espectro que assombra os proprietários, pois ameaça a própria raiz de sua posição de classe e status superior. Essa ideologia tem o potencial de mobilizar a sociedade contra um inimigo. Pode se valer de um conceito confuso para ser usado contra qualquer pessoa que defenda políticas que ameacem os interesses de propriedade ou apoiem a acomodação com os estados comunistas e o radicalismo. Portanto, ajuda a fragmentar os movimentos de esquerda e trabalhista e serve como um mecanismo de controle político. Se o triunfo do comunismo é o pior resultado imaginável, o apoio do fascismo no exterior é justificado como um mal menor. A oposição aos socialdemocratas que são muito brandos com os comunistas e “jogam em suas mãos” é racionalizada em termos semelhantes.

Os liberais em casa, frequentemente acusados de serem pró comunistas ou insuficientemente anticomunistas, são mantidos continuamente na defensiva em um ambiente cultural em que o anticomunismo é a religião dominante. Se eles permitem que o comunismo, ou algo que possa ser rotulado de comunismo, triunfe nas províncias enquanto estão no cargo, os custos políticos são pesados. A maioria deles internalizou completamente a religião de qualquer maneira, mas todos estão sob grande pressão para demonstrar suas credenciais anticomunistas. Isso faz com que eles se comportem muito como reacionários. Seu apoio ocasional aos socialdemocratas geralmente se deteriora, quando estes são insuficientemente duros com seus próprios radicais indígenas ou com grupos populares que estão se organizando entre setores geralmente marginalizados.

Deve-se notar que, quando é despertado o fervor anticomunista, a demanda por evidências sérias em apoio a reivindicações de abusos “comunistas” é suspensa, e os charlatães podem prosperar como fontes de evidência. Os desertores, informantes e vários outros oportunistas passam para o centro do palco como “especialistas”, e continuam lá mesmo após a exposição como mentirosos altamente não confiáveis, se não completamente.

3 – Discussão

Nos últimos anos, diante de vários conflitos impostos pela política e ideologias de toda natureza, além da concorrência por novas tecnologias, mercados, energia, recursos biológicos e praticamente toda a cadeia produtiva em massa, a ameaça da disseminação deliberada de informações falsas (desinformação) na Internet aumentou bastante. Sabe-se que, através da desinformação, pode-se enganar as pessoas e impor uma opinião pública inadequada. Também é possível, em certa medida, a manipulação da consciência e do comportamento de indivíduos e grupos de pessoas. Os invasores podem fortalecer ou enfraquecer a visão das pessoas sobre vários eventos, valores da vida, trabalho realizado, comportamento nas situações atuais, etc. O fato de a Internet ser um dos canais para a disseminação de informações falsas deve-se aos recursos da infraestrutura de informações, que incluem a simplicidade e o baixo custo de acesso, amplas possibilidades de manipulação de informações e sua percepção e um alto nível de anonimato referente ao compartilhamento de informações em rede.

É possível encontrar sites com informações objetivamente falsas com relativa facilidade. Notícias falsas sobre eventos supostamente ressonantes (ataques terroristas, morte de pessoas famosas, turbulência financeira) são disseminadas em grande número. Frequentemente são usadas técnicas de captação de atenção que distorcem as informações sobre os eventos que ocorreram.

Para proteger o público de informações falsas na Internet, é necessário um sistema eficaz para combatê-las. Em termos gerais, esse sistema é entendido como um conjunto de medidas interrelacionadas, organizacionais, técnicas, legais e outras que garantem: prevenção oportuna, detecção, bloqueio, exclusão de informações falsas na Internet, eliminação de consequências, responsabilidade dos atacantes por ações ilegais. Para garantir o funcionamento de tal sistema, é necessário suporte científico e metodológico adequado.

O problema da proteção contra informações falsas existe há muito tem po, mas com o advento e o desenvolvimento ativo da Internet, a situação mudou drasticamente. O volume de informações disseminadas e as possibilidades de seu uso com o objetivo de enganar pessoas aumentaram substancialmente. Como os eventos internacionais dos últimos anos demonstraram, impactos informativos em larga escala sobre as pessoas, para diversos fins terroristas, políticos, religiosos, econômicos e outros, são possíveis com o uso de robôs e inteligência artificial, via Internet. Ao mesmo tempo, as tarefas de detecção operacional, reconhecimento de impactos nas informações, identificação das fontes de geração e previsão de tais ameaças se tornaram mais complicadas. Os métodos de proteção tradicionais nessas condições não são eficazes o suficiente. Eles necessitam a participação ativa de uma pessoa na análise de informações sobre o tema de sua destrutividade e perigo para os usuários da Internet. Isso requer um gasto significativo de recursos humanos e materiais.

O mundo da mídia se retroalimenta constantemente. A obsessão pela competitividade é tal que, em muitas ocasiões, esquecem a realidade para se dedicar a tudo ao mesmo tempo, para competir pelas mesmas notícias. Isso é algo como a contra programação que as redes de televisão fazem em questões não relacionadas a notícias. Todo mundo quer explorar as mesmas supostas notícias convencidas de que quem não comparecer será retirado do pelotão. Portanto, mesmo que em um determinado momento vários eventos estejam acontecendo no mundo, toda a mídia será direcionada para um mesmo foco. Por isso, durante uma semana, as queimadas na Amazônia ocupam a primeira página dos jornais e abre o noticiário da televisão, e na semana seguinte desaparece do presente, como se a devastação na selva também tivesse desaparecido.

Um exemplo evidente no mundo inteiro é que um dos maiores conflitos silenciados pela mídia é o dos povos indígenas em qualquer parte do mundo (América Latina, Ásia ou África são exemplos claros). Os conflitos do chamado “Primeiro Mundo” também sofrem uma clara distorção, principalmente porque o que suscitam são mudanças estruturais que afetam os fundamentos do sistema. Através da mídia exploram plenamente todo o seu potencial para desacreditar ou esconder as demandas desses movimentos.

A necessidade de rentabilizar os recursos humanos causa a diminuição de correspondentes estáveis e com conhecimento no país; a mobilidade de enviados especiais é enorme para aumentar sua produtividade. Mesmo em alguns casos, os jornalistas não são deslocados para relatar notícias da região que podem estar a milhares de quilômetros de distância. Países invadidos sofrem diariamente a ferocidade e barbárie da obsessão moderna com o controle, enquanto a invasão e a guerra são consumidas como um espetáculo, como uma fusão de imagem e realidade, com uma hiper-realidade na qual a imagem não representa mais a realidade. Nela, a guerra é consumida como algo eletrônico, pré-programado, algo que é conduzido de acordo com os interesses de quem produz e consume a informação.

Na verdade, o problema é um pouco de distorção das regras com o mecanismo errado. Até agora, fazendo as pessoas ficarem confusas não há pontos estacionários que possam ser usados para determinar quais não devem ser. As palavras bom, moralidade, ética e justiça, todas são capturadas quando impedidas de acesso. Até a palavra logicamente é distorcida pouco a pouco, até ser deformada. Todos nós temos motivos para diferentes versões, juntamente com as questões da sociedade que devem ser vistas juntas.

Existem novas regras que dão origem à razão em uma lógica estranha: ela é reproduzida em muitos níveis até que as pessoas façam sozinhas. A aquisição das regras é repetidamente errada, até que as pessoas estejam confusas e confundidas por estarem “certas”. Toda vez que isso é feito, a estrutura está sendo distorcida. Finalmente, todos os lados podem pensar em suas próprias regras. Combinado com a divulgação de notícias na Internet com a intenção de ser consumida pela comunidade internacional, o processo de universalização das verd ades se torna mais rápido e consensual. Se estabelece conteúdos que foram rapidamente apresentados para serem auto interpretados. A “verdade” pode ser apresentada em partes para que alguns problemas sejam vistos tal como apresentados: separados. Depois, a mídia ou o indivíduo pode escolher uma das partes dessa verdade para se sustentar.

As eleições, que deveriam ser uma ferramenta para reiniciar o funcionamento dessa mecânica, não funcionam. Assim, as informações seguem sendo constantemente distorcidas. Com o a sociedade se move em uma velocidade menor do que o indivíduo, a maioria das pessoas buscam ser líderes de pensamentos e ideologias, porque se movem mais rápido que a velocidade da sociedade. Quando a sociedade não se move de acordo com o que acreditamos, nos perturbamos enquanto indivíduos, porque o que expressamos não transforma a realidade a nossa volta. Por isso buscamos as redes, um cluster para criar ondulações em harmonia com o que pensamos, sentimos e expressamos.

O problema também não se limita apenas às informações com conteúdo errado, mas também ao seu legado. A qualidade das notícias, informações publicitárias e comentários da sociedade são dependentes. No passado, as principais notícias eram frequentemente encontradas no conteúdo publicado. A gora, quando são publicadas começam a se desenvolver com hiper conexões; uma extensão da verdade em si, onde as redes sociais desempenham o papel de veredito sobre certo e errado, verdade e mentira.

De fato, todos sabemos menos do que esperamos. Isso se aplica as ideias sobre a quantidade total de nosso conhecimento. A única coisa em que temos certeza é que depois de tantos esforços científicos as pessoas ainda pensam pouco, não gostam de pensar e não apreciam particularmente aqueles que pensam. É provável que uma das principais causas de poder generalizado das notícias falsas seja a inércia do nosso pensamento, pois dificilmente concordamos em acionar mecanismos de pensamento crítico. Muitas vezes seguimos a liderança de nossos desejos, acreditando no que é simples e compreensível. Não queremos criticar as informações que correspondem às nossas expectativas. No espaço midiático dos canais profissionais e das redes sociais as pessoas obtêm acesso ilimitado a série de conteúdos sobre tudo no mundo e absorvem informações em modo de compulsão alimentar. Notícias falsas nesta situação são graciosas somente para quem sente satisfação ou interesse em propagar informações falsas. Sociólogos, profissionais da saúde e até virologistas veem seu objeto de estudo sendo manipulado em notícias falsas.

Espalhar desinformação não é muito diferente da propagação de uma infecção viral: primeiro de pessoa para pessoa, depois de grupo para grupo e, finalmente, a população de um país ou continente inteiro para outro. Junto a distribuição de notícias falsas pela mídia, vem à tona um processo de compartilhamento pelos grandes grupos de pessoas. O papel das redes sociais na distribuição de mensagens falsas, incluindo Facebook, Twitter ou Instagram, são capazes de lançar um “modelo epidêmico”, enquanto que a mídia tradicional pode incorrer, por engano, ou para fortalecer uma mentira, ampliar a cobertura de notícias falsas.

A história recente tem registrado muitos exemplos do uso de notícias falsas para fins diversos, competindo com publicações verificadas pela mídia que valoriza sua reputação. O século XXI tornou-se a era digital da comunicação, onde não há autoridades. Em veículos de comunicação de grande audiência o conteúdo fornecido é capaz de competir com a própria audiência. O New York Times ou a Folha de São Paulo não competem mais pelas suas opiniões ou qualidade investigativa diante dos seus leitores. O principal prêmio são o número de visualizações. O que com base em Orlandi (2007), estamos falando da autoria e seus significados, ou seja, à medida que as redes sociais dão voz aos discursos desinstitucionalizados, o sentido da autoria, como atribuído a um ministro, um médico ou um professor subsistiu-se pela autoria construída em redes.

A desinformação é estruturada de tal maneira, que ela inspira confiança no consumidor e afeta a sua opinião, suas decisões ou comportamento geral, de acordo com os objetivos pretendidos pelos criadores de desinformação. É importante lembrar que a desinformação pode servir como um caso especial de propaganda. Em particular o serviço de inteligência militar que utiliza a desinformação faz parte de um jogo no qual estão envolvidos a mídia. É um espaço que utiliza uma arma psicológica tremendamente perigosa de manipulação, cujo efeito sobre a consciência de massa possa ser imprevisível em termos de influência e consequências extremamente negativas.

4 – Considerações Finais

A atual “época social online” em que vivemos faz com que o comportamento das pessoas mude na Internet. O uso da informação, antes restrito à televisão e aos jornais, atualmente podem ser acompanhadas e estudadas em sites ou postagens em Redes Sociais e postagens de conteúdo em uma variedade de plataformas, com conteúdos textuais, de áudio, visuais etc. Por um lado, a possibilidade de todos ser em produtores de informações é um avanço no contexto das liberdades individuais. Por outro, quando há mais maneiras de acessar informações sem orientação, o problema que emerge é a credibilidade dessas informações.

Quando existem fontes de notícias para acessarmos com mais facilidade, a conveniência de seguir os canais de comunicação que possuímos maior identificação com nossos interesses pessoais podem se tornar uma armadilha bem elaborada, conforme demonstrado nos 5 filtros de Chomsky e Herman (2003). Precisamos distinguir a confiabilidade das informações, sendo necessários usar algumas habilidades analíticas. Muitas pessoas não compreendem esses mecanismos de manipulação; se torna mais fácil acreditar nessas informações e compartilhá-las novamente, tornando um ciclo de compartilhamento e retroalimentação contínua de informações de baixa qualidade. O problema agravou-se porque as informações falsas passaram ser amplamente compartilhadas devido à falta de análise das fontes ou capacidade de discernimento das pessoas. Sendo neste contexto necessária a intervenção do estado afim de criminalizar a disseminação de notícias falsas. Em relação ao seu conteúdo textual, quanto imagético e sonoro, também recebem comentários que deturpam ou mentem, na sequência em que são publicadas. Para aumentar a visibilidade, muitas empresas de mídia vendem junto com os espaços nos seus canais de comunicação a sua credibilidade. O leitor olha o fornecedor, quem transmite, antes de chegar ao conteúdo.

As empresas de mídia sabem que seu abuso, quando descoberto, faz com que percam sua credibilidade e seja muito difícil de recuperá-la. Por isso, não apenas tentam nos dizer o que é importante e como aconteceu, mas também nos convencer de que está certa em sua seleção e não mente, por isso arrisca muito se a falsidade for descoberta.

O historiador e analista de mídia Michael Parenti (2001) acredita que a propaganda mais eficaz é baseada na realidade, em vez de centrar na falsidade. Tecendo a verdade em vez de violá-la. Usando ênfase e fontes auxiliares, os comunicadores podem criar a impressão desejada sem recorrer a pronunciamentos explícitos e sem se afastar demais da aparência da objetividade. O enquadramento é alcançado através da maneira como as notícias são “empacotadas”, a extensão da exposição, sua localização (primeira página ou dentro de alguma sessão secundária, artigo principal ou última página), o tom da apresentação (aberta ou depreciativa), manchetes e fotografias e, no caso dos meios audiovisuais, efeitos de imagem e som.

Os filtros apresentados por Chomsky e Herman (2003) evidenciam que a manipulação dos meios de comunicação nos conduz para uma conclusão tão óbvia quanto natural: vivemos em uma sociedade amorfa. Somos amorfos porque há uma enorme incompatibilidade entre o que achamos que sabemos sobre as coisas e o que realmente sabemos. Não há ousadia pior do que aquilo que emerge da ignorância.

Tudo é um sublime paradoxo. Temos as mais sofisticadas ferramentas, canais e acesso à informação na história da humanidade. No entanto, estamos mais vulneráveis do que nunca à negligência intelectual e à memória. Se o diagnóstico do que lemos, vemos do que buscamos– e principalmente for realizado sob a lente dos discursos midiáticos, reconheceremos filtros que antecedem a notícia, os fatos em si. A informação que queremos nem sempre combina com a informação que necessitamos. E quando combinadas, nem sempre está disponível.

O problema por trás de muitas das ondas de mentiras são as pessoas que não querem a verdade, mas concordam com ela. Elas são as terraplanistas das redes, provando que na sociedade da informação predomina a desinformação.

Autor: Fabiano Couto Corrêa da Silva

Fonte: LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 143-161, set. 2022/fev. 2023.

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Notas

[1] – VOSS, Michael. Cuba libera venda de computadores residenciais. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/reporterbbc/story/2008/05/080503_cubacomputadores_fp.shtml . Acesso em: 25 de agosto de 2022.

[2] – A hipótese do agenda setting é um tipo de efeito social da mídia que compreende a seleção, disposição e incidência de notícias sobre os temas de interesse público (BRUM, 2003).

Referências

BAUDRILLARD, Jean. Requiém por las Twin Towers. Madrid: Arena libros, 2003. BBC News. Glifosato: Por que a Anvisa propõe manter liberada a venda do agrotóxico mais usado no Brasil. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-47374656. Acesso em: 25 agosto 2022. BRANDÃO, Sílvia Sgroi. Perseguições e martírios na história eclesiástica: análise dos escritos de eusébio de cesareia. Revista História e Cultura, Franca-SP, v.2, n.3 (Especial), p.268-279, 2013. BRUM, Juliana de. A Hipótese do Agenda Setting: Estudos e Perspectivas. Razón y palabra. Out. N. 35. 2003. Disponível em: http://www.razonypalabra.org.mx/anteriores/n35/jbrum.html. Acesso em: 25 agosto 2022. CHOMSKY, Noam; HERMAN, Edward S. A manipulação do público. S.l.: Futura. 2003. CLAVELL, James; SUN-TZU. A arte da guerra. 31. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. COSTA, Siliana Dalla. A presença das agências internacionais hegemônicas no jornalismo online brasileiro. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. 41º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Joinville. 2018. GENRO, Tarso. Jornalismo geneticamente modificado: na semana que findou a imprensa tradicional lotou de notícias positivas seus surrados jornalões e noticiários. Brasil247. 2017. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/jornalismo-geneticamente-modificado. Acesso em: 25 agosto 2022. IBGE. Agência de notícias. PNAD Contínua TIC 2017: Internet chega a três em cada quatro domicílios do país. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-deimprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/23445-pnad-continua-tic-2017-internet-chega-atres-em-cada-quatro-domicilios-do-pais . Acesso em: 25 agosto 2022. INPE. MINISTÉRIO DA CIÊNCIA, TECNOLOGIA, INOVAÇÕES E COMUNICAÇÕES. A estimativa da taxa de desmatamento por corte raso para a Amazônia Legal em 2019 é de 9.762 km². Disponível em: http://www.inpe.br/noticias/noticia.php?Cod_Noticia=5294 Acesso em: 25 agosto 2022. LAIGNER, Rafael; FORTES, Rafael. Introdução à história da comunicação. Rio de Janeiro: E-papers, 2009. MACIEL, Laura Antunes. Imprensa, esfera pública e memória operária. Rev. hist. São Paulo, n. 175, p. 415-448, jul.dez., 2016. http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9141.rh.2016.109940 MORAIS, Fernando. Chatô: o rei do Brasil. A vida de Assis Chateaubriand. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. PARENTI, Michael. Monopoly Media Manipulation. Maio.2001. Disponível em: http://www.michaelparenti.org/MonopolyMedia.html . Acesso em: 25 agosto 2022. ORLANDI, E. P. Autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. 5ª Edição, Campinas, SP: Pontes Editores, 2007. PECHEUX, M & FUCHS, C. A propósito da Análise Automática do Discurso: atualização e perspectivas. Tradução de Péricles Cunha. In: GADET, F.; HAK, T. (Orgs.). Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. 3. ed. Campinas: Unicamp, 1997 [1975]. p. 163-252 REPÓRTERES SEM FRONTEIRAS. Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa 2019. Disponível em: https://rsf.org/pt-br/ranking-mundial-da-liberdade-de-imprensa-2019mec%C3%A2nica-do-medo. Acesso em: 25 agosto 2022. SANCHÉZ, Javier Mayoral. Radio y TV, ni siquiera una fuente por pieza: investigación sobre el uso de las fuentes en los informativos de televisión y radio. Cuadernos de periodistas. Mar. 2008. Disponível em: http://www.cuadernosdeperiodistas.com/pdf/Cuadernos_de_Periodistas_13.pdf . Acesso em: Acesso em: 25 agosto 2022. SORJ, Bila. Anti-semitismo na Europa hoje. Novos estudos CEBRAP [online]. 2007, n. 79, pp. 97-115. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0101-33002007000300005. Epub 01 Jul 2008. ISSN 1980-5403. https://doi.org/10.1590/S0101-33002007000300005. Acesso em: 25 agosto 2022. SOUZA, Elise. Fontes jornalísticas e pluralidade: o que dizem os Manuais de Redação? VII Encontro Regional Sul de História da Mídia – Alcar Sul, 2018.

O sonho da razão produz monstros… ou seria seu sono? (Breves notas sobre as distopias contemporâneas)

No posfácio à edição brasileira de 2017 do livro Nós, do russo Ievguêni Zamiátin (1884-1937), o professor Cássio de Oliveira dialoga com a frase que Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828) escreveu em uma das gravuras da série intitulada Caprichos (1799), um conjunto de figuras inventadas e gravadas em água-forte que pretendiam mostrar, em meio a extravagâncias e desacertos tão comuns em toda a sociedade civil, ridículos autorizados pelo costume, pela ignorância ou pelo interesse, e que permitiam ao artífice exercitar suas fantasias.

Para o posfaciador de Nós, um romance distópico escrito na Rússia entre 1920 e 1921 e que influenciou Orwell e Huxley, os monstros saídos da pena de Zamiátin implicaram a edificação de um Estado Único responsável pela organização algébrica da felicidade de todos Nós. Mas são monstros que também denunciam a inviabilidade do controle total, a resiliência dos desejos individuais e humanos que talvez também povoem os sonhos da razão.

Os caprichos de Goya

Não por acaso os Caprichos de Goya foram gravurados naquela encruzilhada que separou o mundo contemporâneo das reencenações de hierarquias e vivências que marcaram o Antigo Regime. Eram tempos iluministas, em que se ousava saber perscrutando regularidades nas vidas de povos distintos, mas também tempos de onde saíram os argumentos sobre a possibilidade de hierarquia entre povos mais dados ao progresso científico e outros que talvez precisassem de “algum empurrão” para produzir ciência, para ordenar racionalmente os elementos da natureza e os desejos da sociedade.

A gravura de Goya, “o sonho da razão produz monstros”, nos coloca diante de uma importante dimensão dos debates iluministas: o entendimento de que era possível “refazer” toda a sociedade, estabelecer um contrato social que a todos obrigasse na construção da felicidade fabulada.

Em nome desta felicidade, os monstros reificados em violência e guerras, eram preço menos importante a pagar. Explorando um pouco mais esta hipótese, deixo aqui uma sugestão do amigo Rafael Ruiz: “sueño”, palavra espanhola, pode ser também sono, sono e sonho em espanhol nem sempre se diferenciam. Se é assim, seria a razão adormecida, o seu silêncio, que produz os monstros, ou seriam as suas fabulações em sonhos de futuro?

Trata-se da expressão de uma dúvida cara aos iluminismos, e que o século XIX parece ter querido diluir à medida que se espalhavam as conquistas da ciência representadas pela medicina, pelo controle das águas dos rios, pelo incremento da produtividade industrial, pelas novas edificações e arruamentos que se beneficiavam de novas técnicas de construção, etc.

A possibilidade de controlar a natureza

Os anos de 1800 trariam os pragmatismos resultantes do enraizamento de um mundo que considerava possível controlar a natureza e organizar a sociedade a partir de dados empíricos oferecidos pelas pesquisas científicas, e aqui se destacaram as teorias de controle social.

Os contrapontos estavam por ali, rondando os medos causados pelo espetáculo da pobreza produzida na época: de Frankestein a Dr. Jekill e Drácula, passando pelos miseráveis (Victor Hugo) e pelos demônios (Dostoiévski), o cânone ocidental demonstrava alguma percepção de que as luzes também podiam escurecer o entendimento do mundo, ou revelar horrores não percebidos pelo enaltecimento das capacidades humanas. A dúvida, assim, que fora o fundamento dos iluminismos, mantinha-se por ali, rondando, mas parecia não ter lugar no mundo de certezas que a ciência positivista propunha.

A ausência do debate público

Para muitos autores, os projetos totalitários que marcaram o século XX ambicionaram refundar a humanidade, banindo suas partes irredentas, irracionais e atrasadas. Seriam manifestação da razão extremada ou da sua ausência no debate público, momento em que se exige de todos a servidão? Destaque-se aqui que as distopias contemporâneas, nomeadamente as do século XX, trouxeram um elemento novo: a projeção ou radicalização de uma dimensão que se apresenta ao autor do romance em seu tempo vivido e que ele pretende mostrar aos seus leitores. Desta forma, são romances que nos expõem monstros saídos do sono/sonho da razão, sem dúvida, mas o fazem considerando possibilidades que espreitam perigosamente a humanidade.

O olho do furacão

Nós foi escrito no olho do furacão: em meio às experiências do autor que viveu a revolução russa, a guerra civil e a NEP. O título encaminha a trajetória do leitor frente ao personagem principal, D-503, que se movimenta entre as imposições e regramentos coletivos, definidos pelo Estado Único, e as manifestações incontroláveis de sua consciência e de suas sensações.

O autor viveu a época da vanguarda construtivista russa, cujas utopias articulavam movimentos sociais e artísticos, trabalhadores, poetas, escritores, músicos, fotógrafos e pintores que idealizaram manifestações artísticas para libertar a humanidade da opressão em que vivia.

A arte seria, assim, diluída no processo mesmo de construção da vida, seria marcada pela temporalidade vivida que era revolucionária e exigia comprometimento, mas não supunha silêncio ou servidão.

O principal alerta

Os vanguardistas foram engolidos pelo realismo socialista, e esse talvez o principal alerta de Nós: qual o equilíbrio possível entre os desejos e projetos de futuro e as possibilidades de construção da realidade, como alinhavar propostas e possibilidades, sonhos e ordenamentos racionais? Muito difícil, após ler Nós, considerar os avanços do totalitarismo na Rússia soviética apenas com a ascensão de Stálin, especialmente se lembrarmos os alertas de Rosa Luxemburgo ainda entre 1918 e 1919. Desenhos de totalitarismo se difundiriam pelo século XX, e se espalhariam também nas democracias.

O Conto da Aia e as liberdades fundamentais

O Condo da Aia, de Margareth Atwood, talvez seja uma das melhores expressões desta possibilidade. O livro foi publicado em 1985, em meio aos retrocessos de ordem moral que a era Reagan produziu, e que serviram de cortina para exportar barbarismos contra outros povos em nome de uma liberdade que, mesmo assim, parecia escapar aos americanos.

Conto oferece, a partir da dimensão moralista do período, uma distopia na qual as mulheres são submetidas a controles e comportamentos que negam direitos civis e políticos quando estes, em tese, seriam o fundamento da democracia americana. Mesmo se observarmos que a escrita do livro coincide com os anos finais da guerra fria, não se pode afirmar que se trate apenas de uma crítica relacionada a um possível avanço do mundo comunista sobre o mundo livre.

O romance dialoga com as dúvidas acerca das possibilidades de uma institucionalidade política capaz de conviver com as liberdades fundamentais: essas sempre trazem pluralidade, sentimentos e opiniões partilhados para ajustes de pactos, definições sobre os direitos que historicamente, desde os iluminismos, veem sendo afirmados como da natureza humana. Mas esses são elementos da vida democrática que prescindem da homogeneidade fabulada pelos totalitarismos.

Expressões políticas

Tudo isso, leitor, porque totalitarismos não são apenas possibilidades políticas colocadas pela experiência soviética, nazista ou fascista para manutenção da ordem comunista ou capitalista, são expressões políticas resultantes dos desajustes e sofrimentos humanos vividos quando apartamos espaços de experiência e expectativas de futuro (Koselleck), racionalizações extremadas que buscam controlar sensações, projetos e possibilidades não inteiramente apreensíveis quando se considera a razão como único elemento ordenador da realidade, e quando se esquece o mais relevante da libertação que a razão pode oferecer: a possibilidade de duvidar a partir do conhecimento acumulado e partilhado republicanamente.

Autora: Ana Nemi

Fonte: Livro & Café

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