Maçonaria: uma grande universidade

20 de agosto, Dia do Maçom - Homens Livres e de Bons Costumes.

A Maçonaria é uma Universidade na qual se estuda várias ciências, dentre as quais destacamos: Filosofia; Psicologia; Sociologia; Moral; Estética; História; Lógica; e, Metafísica.

Maçonaria e Filosofia

Na Maçonaria estuda-se Filosofia porque, etimologicamente, esta palavra (de origem grega) significa “amigo da sabedoria”. Bem, sabemos que da mesma forma, a Maçonaria é “amiga da Sabedoria” e ensina e incentiva aos Maçons a também serem “amantes da Sabedoria”.

Filosofia é, hoje, considerada a síntese geral de todos os conhecimentos humanos; a visão uniforme e conjunta de todas as ciências. É a própria sabedoria, porque sua finalidade é tal qual a da sabedoria, melhorar os homens e torná-los virtuosos pela prática do bem, consubstanciado nos seus deveres para com Deus, para com o próximo e para consigo mesmo.

Como sabemos, esses deveres, quando fielmente executados, se transformam em virtudes. A exaltação dessas virtudes e o incentivo à sua prática são preconizados na Maçonaria, em geral, e nos 33 graus do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), em particular.

Dessa forma, na Maçonaria estuda-se Filosofia porque nossa Sublime Ordem com ela se identifica pela finalidade, que é melhorar os homens, conduzindo-os ao cumprimento dos seus deveres, acima mencionados. Também porque, tal qual a Filosofia, a Maçonaria respeita as convicções alheias e só quer o bem da Humanidade.

Maçonaria e Psicologia

Na Maçonaria estuda-se Psicologia porque esta ciência é seu método indutivo de transmitir ensinamentos, tal qual o é o da Filosofia. Por este método, parte-se dos efeitos e das consequências, para chegar-se às causas e aos princípios; parte-se do particular, para chegar-se ao geral; parte-se do relativo e contingente, para atingir-se o absoluto e o necessário, que são, em última instância, também os objetivos da Ordem.

Também porque Psicologia é a ciência da alma; a ciência do espírito; a ciência daquilo que nos faz sentir, pensar, querer e agir, que são também os objetivos da Maçonaria.

O sistema maçônico de ensino, velado por alegorias e ilustrado por símbolos, segue o sistema de ensino da Psicologia, apelando para os fatos da consciência mais rudimentares na natureza humana: o sistema nervoso; as sensações; a associação de ideias; a atenção; a percepção; e, as imagens efetivas e representativas de seus símbolos.

Finalmente, na Maçonaria estuda-se Psicologia porque o iniciado, desde o trabalho de Aprendiz, tem por missão “conhecer-se a si mesmo”, a base da Filosofia de Sócrates; o microcosmo da sua personalidade; a imperfeição e a grandeza do seu mundo interior; e, a excelsitude do seu destino natural.

Maçonaria e Sociologia

Na Maçonaria estuda-se Sociologia, porque esta ciência tem por fim explicar a causa dos fenômenos sociais e formular as leis gerais que regem o funcionamento e a evolução das sociedades humanas, temas sempre presentes e estudados nos Rituais dos 33 graus do REAA.

Também porque o fundamento da moral maçônica é a solidariedade humana, aspecto eminentemente social da Ordem.

Ao Maçom cabe o papel de “construtor social e edificador do templo social da humanidade”, combatendo a tirania, os preconceitos e os erros, e glorificando o Direito, a Justiça e a Verdade.

Para a Maçonaria,

homens melhores formarão uma sociedade humana melhor e, consequentemente, a humanidade melhor.

Finalmente, na Maçonaria estuda-se Sociologia porque o dever do Maçom é o bem social e a educação maçônica visa o aperfeiçoamento da humanidade, pregando a Liberdade de Consciência, a Igualdade de direitos e a Fraternidade social, respeitando as crenças políticas e religiosas de cada um. Por isso, a sabedoria da Maçonaria consiste na justeza com que o Maçom se coloca na sociedade.

Maçonaria e Moral

Na Maçonaria estuda-se a Moral (Ética) porque esta ciência traça as normas que orientam o homem para a prática do bem. Também porque, tal qual a Moral, a Maçonaria condena os vícios e exalta as virtudes.

Finalmente, porque a Moral é a marca característica da Maçonaria, eis que todos os seus ensinamentos e todos os seus símbolos e alegorias têm por finalidade mostrar a realidade do dever, que é a prática do bem e das virtudes. Não é por acaso que uma das instruções do Ritual de Aprendiz Maçom do REAA diz que: “na Maçonaria encontra-se a moral mais pura”, que, fora dela, só é encontrada em Cristo Jesus, pela doutrina que nos legou.

Maçonaria e Estética

Na Maçonaria estuda-se Estética porque esta ciência conduz a sensibilidade humana para o Belo, que é a Filosofia da Arte. A Estética, como ciência, estuda o Belo-Artístico, seja por meio das artes fonéticas (música, poesia, eloquência), seja por meio das artes plásticas (arquitetura, escultura, pintura).

Também porque, no interior se seus templos, a Maçonaria faz reviver a construção do Templo de Salomão, o que demonstra a preocupação estética da educação maçônica, porque a arquitetura é uma arte plástica em que se realizam as leis do belo e do útil.

Como vimos, o Maçom tem por dever ser o artista construtor de seu próprio Templo Espiritual, seja como operário, desbastando a pedra bruta do seu caráter, personalidade e inteligência, seja como artista, arquitetando a construção do edifício do seu auto aperfeiçoamento, com sabedoria, força e beleza.

Finalmente, na Maçonaria estuda-se Estética porque todo o trabalho maçônico é uma obra de arte, onde os iniciados são obreiros e o lugar de trabalho é uma oficina, onde constrói seu templo vivo, com harmonia e beleza.

Maçonaria e História

Na Maçonaria estuda-se História porque esta ciência tem por objetivos investigar, pesquisar, analisar criticamente, e narrar metodicamente os fatos notáveis ocorridos na vida dos povos, em particular, e na vida da humanidade, em geral, objetivos também presentes na Ordem.

Também porque a Maçonaria, seja institucionalmente, seja por iniciativa isolada de Maçons, sempre esteve presente e atuante nesses fatos notáveis referidos.

Finalmente, porque a Maçonaria é também a História. Não se pode estudar sobre a Maçonaria sem estudar a História geral (universal) e a História do país onde se encontra.

Maçonaria e Lógica

Na Maçonaria estuda-se Lógica porque esta ciência, tal qual a Sublime Ordem, tem por objetivo principal dirigir a inteligência ou o espírito humano para a Verdade. Lógica é a ciência das leis do raciocínio ou do pensamento e a arte de aplicá-las à aquisição e à demonstração da Verdade.

Também porque esta ciência (Lógica) é seu método pedagógico de ensino usado há milhares de anos pelas antigas escolas filosóficas, o método esotérico. Por este, os ensinamentos são ministrados exclusivamente aos iniciados, cujo grau de desenvolvimento moral e espiritual os capacita ao ingresso na Ordem.

Finalmente, porque a Lógica, como ciência, repousa a sua ação na Verdade; conduz o espírito, movido pela força da razão, ao cultivo das ideias superiores; e, leva a inteligência à compreensão de sublimes analogias, exatamente o que faz a Maçonaria.

Maçonaria e Metafísica

Na Maçonaria estuda-se Metafísica porque esta ciência trata dos magnos problemas da razão humana, o “por quê” supremo das coisas, temas também abordados na Ordem, especialmente nos graus dos “Altos Corpos” do REAA.

Esta palavra (do grego metà tà physiká) significa etimologicamente “depois dos tratados da física”,  escritos por Aristóteles. Segundo Aristóteles, Metafísica é o estudo do ser enquanto ser e especulação em torno dos primeiros princípios e das causas primeiras do ser.

Segundo o Aurélio, é a parte da filosofia (que com ela muitas vezes se confunde), que consiste num corpo de conhecimentos racionais que procura determinar as regras fundamentais do pensamento, e que nos dá a chave do conhecimento do real, tal como este verdadeiramente é.

Segundo Sebastião Dodel dos Santos, é o estudo do ser em relação aos primeiros princípios e causas; parte da filosofia que, segundo Aristóteles, penetra pela teosofia na busca de uma explicação racional sobre a existência de Deus, como o primeiro motor imóvel que deu partida ao que realmente existe.

Segundo Rizzardo da Camino, o termo é usado para designar as “essências de todas as coisas”. Diz-se hoje, em linguagem maçônica, em substituição desse vocábulo, uma “situação esotérica”.

Concluímos sobre as definições e conceitos, dizendo que Metafísica é a reflexão sobre os problemas gerais relativos aos sumos princípios de interpretação do mundo e à intuição universal da realidade, em que ele se fundamenta.

A Metafísica divide-se em quatro áreas:

  • Ontologia, que estuda o ser considerado em si mesmo;
  • Cosmologia, que estuda a origem e a natureza das coisas sensíveis;
  • Psicologia racional, que estuda a origem e natureza da alma humana; e,
  • Teodiceia, que estuda a existência e os atributos de Deus, o Criador de todas as coisas.

Finalmente, na Maçonaria estuda-se Metafísica por dois motivos outros:

  • Porque, desde a Iniciação, ela impõe à todo candidato, duas condições essenciais e imprescindíveis, de ordem Metafísica: a crença em Deus e na imortalidade da Alma; e,
  • Porque, desde o grau de Companheiro, o iniciado aprende a apelar para as energias superiores que dirigem o mundo; a passar do plano físico para o plano espiritual; a melhor compreender a simbologia mística dos números, iniciada no grau de Aprendiz; a meditar sobre o enigma da vida; a ser amigo da sabedoria; a acreditar na imortalidade da alma.

Tudo isso indica a base profundamente espiritualista da Instituição Maçônica.

Autor: Denizart Silveira de Oliveira Filho

Fonte: Recanto das Letras

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Escrever é a arte de cortar palavras

 

Adriana Mulero (@MuleroAdriana) | Twitter

Escrever é a arte de cortar palavras.

De que mestre das letras teria partido essa preciosa lição?

Escrever é cortar palavras. Passei alguns anos certo de que o autor dessa preciosa máxima era Carlos Drummond de Andrade. Até que um dia perguntei ao poeta. Ele conhecia, mas negou que fosse dele. Confesso que fiquei desapontado. A sentença tinha a cara do mestre Drummond, cuja prosa é um exemplo de concisão.

Otto Lara Resende desconfiava que pudesse ser de um escritor mexicano a ideia da dica preciosa. Eu, por mim, seria capaz de atribuí-la a John Ruskin, notável escritor e crítico inglês do século passado. Se não o disse, com todas as letras, certamente foi Ruskin quem melhor ilustrou o adágio, num conto antológico. É o caso de um feirante de peixes num porto britânico.

O homem chega à feira e lá encontra seu compadre, arrumando os peixes num imenso tabuleiro de madeira. Cumprimentam- se. O feirante está contente com o sucesso do seu modesto comércio. Entrou no negócio há poucos meses e já pôde até comprar um quadro-negro pra badalar seu produto.

Atrás do balcão, num quadro-negro, está a mensagem, escrita a giz, em letras caprichadas: HOJE VENDO PEIXE FRESCO. Pergunta, então, ao amigo e compadre:

Você acrescentaria mais alguma coisa?

O compadre releu o anúncio. Discreto, elogiou a caligrafia. Como o outro insistisse, resolveu questionar. Perguntou ao feirante:

Você já notou que todo o dia é sempre hoje? – E acrescentou: – Acho dispensável. Esta palavra está sobrando…

O feirante aceitou a ponderação: apagou o advérbio. O anúncio ficou mais enxuto. VENDO PEIXE FRESCO.

– Se o amigo me permite – tornou o visitante -, gostaria de saber se aqui nessa feira existe alguém dando peixe de graça. Que eu saiba, estamos numa feira. E feira é sinônimo de venda. Acho desnecessário o verbo. Se a banca fosse minha, sinceramente, eu apagaria o verbo.

O anúncio encurtou mais ainda: PEIXE FRESCO.

– Me diga uma coisa: Por que apregoar que o peixe é fresco? O que traz o freguês a uma feira, no cais do porto, é a certeza de que todo peixe, aqui, é fresco. Não há no mundo uma feira livre que venda peixe congelado…

E lá se foi também o adjetivo. Ficou o anúncio, reduzido a uma singela palavra: PEIXE.

Mas, por pouco tempo. O compadre pondera que não deixa de ser menosprezo à inteligência da clientela anunciar, em letras garrafais, que o produto aí exposto é peixe. Afinal, está na cara. Até mesmo um cego percebe, pelo cheiro, que o assunto, aqui, é pescado…

O substantivo foi apagado. O anúncio sumiu. O quadro-negro também. O feirante vendeu tudo. Não sobrou nem a sardinha do gato. E ainda aprendeu uma preciosa lição: escrever é cortar palavras.

Autor: Armando Nogueira

Nota do Blog

O texto foi sugestão do irmão Edvaldo Cardoso.

A Filosofia, para poucos?

A filosofia da Maçonaria é, provavelmente, o menos compreendido de todos os assuntos relativos ao nosso ofício. É relativamente fácil para os Maçons individuais obter um conhecimento razoável de seu simbolismo. No entanto, muitos irmãos, mais cedo ou mais tarde encontrarão a filosofia em sua busca do conhecimento no âmbito da Maçonaria, e ao fazê-lo sentirão que, enquanto alguns de seus pares podem entendê-la, para eles, ela é incompreensível.

Há, talvez, duas razões principais para isso. Primeiro, a visão quase universal que os grandes filósofos do passado eram gigantes intelectuais cujo pensamento estava em um avião acima da compreensão do homem médio. Segundo, quase todos, em algum momento ou outro, para sua própria edificação teve um breve encontro com as obras de Platão, Sócrates ou as de outros filósofos grandes, e, sem ninguém para guiá-lo, desistiu da leitura após alguns capítulos.

Como resultado, ele chega a pensar a filosofia como algo apenas para os poucos sortudos que podem compreendê-la.

Não há mistério na filosofia. Pelo contrário, é uma regra e guia para o desenvolvimento de uma atitude em relação a vida, uma atitude bonita ou não, dependendo do indivíduo. Podemos facilmente remover a sensação de que a filosofia maçônica é incompreensível ao defini-la; o dicionário indica que a filosofia é “o amor ou a busca da sabedoria” dividida em três ramos:

  • natural;
  • moral; e
  • filosofia metafísica.

Podemos descartar duas dessas categorias. Estamos principalmente interessados em filosofia moral, uma vez que a Maçonaria é uma ciência moral. Assim, para aplicar a definição acima para a Maçonaria, devemos buscar sabedoria na filosofia moral.

Sabedoria é o uso do conhecimento ou julgamento. Inteligência determina ou limita a extensão de um processo de pensamento. Poderíamos até mesmo dizer que a inteligência governa a nossa capacidade de reter o conhecimento. Conhecimento, em si, é fácil de alcançar. É um dos itens mais baratos que podemos adquirir e podemos adquiri-lo dentro das limitações de nossa inteligência. Sabedoria, por outro lado, é dado por Deus.

Para entender melhor a área em que devemos dirigir nossos esforços nesta busca. a sabedoria moral, vamos examinar a história do Jardim do Éden.

Segundo a história, a serpente levou o fruto proibido da árvore da Sabedoria e o deu a Eva, que por sua vez o deu a Adão e ambos comeram do mesmo. Quando Deus soube disso, Ele expulsou-­os do Jardim, porque, depois de ter comido do fruto proibido, eles haviam se tornado, em parte, como Deus. Para citar o Capítulo 4, versículo 22 do Gênesis,

E o Senhor Deus disse: ‘Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal.

Assim, ao homem foi dado o poder de escolha. É neste campo de escolha que temos de trabalhar para atingir a filosofia moral.

Antes de desenvolver este assunto mais profundamente, devemos considerar muito brevemente alguns escritores de renome na filosofia maçônica. Quatro dos mais importantes são William Preston, Karl Krause, George Oliver e Albert Pike.

William Preston nasceu em Edimburgo, na Escócia, em 7 de agosto de 1742. Ele estava relacionado com a indústria de impressão, tornou um maçom e foi Mestre de sua Loja aos 25 anos. A ele é creditado a construção das palestras de Grau na forma que temos hoje, principalmente a palestra de Companheiro. Vivendo em um período de intelectualidade, era natural para ele pensar que o conhecimento era a chave para a filosofia da Maçonaria.

Karl Krause nasceu perto de Leipzig, na Alemanha, em 1781. Ele foi o fundador de uma escola de direito e professor de direito por anos. Ele também escreveu extensivamente sobre filosofia do direito. Krause abordou a filosofia maçônica através da moral e argumentou que a manutenção de uma ordem social significa responsabilidade para o homem.

George Oliver nasceu na Inglaterra, em 5 de novembro de 1782. também foi professor e era um mestre em gramática na King Edward’s School. Ele baseou sua filosofia maçônica na tradição, alegando que a Maçonaria pura foi ensinado por Seth aos seus descendentes antes da grande enchente, e que a Maçonaria é, portanto, uma ciência tradicional da moralidade.

Albert Pike nasceu em Boston, em 29 de dezembro de 1809. Ele nos deu uma abordagem (para além do real ou material) metafísica para a filosofia maçônica.

Além desses quatro, tem havido muitos outros que têm escrito longamente sobre a filosofia maçônica. Cada um com seu próprio ponto de vista a respeito do assunto e na revisão do que eles escreveram, é necessário ter em mente o tempo e as circunstâncias em que viviam, e quais eram ou são as influências sobre seu raciocínio.

Nós estabelecemos anteriormente que “Sabedoria Moral”, é o objetivo da nossa busca. Em que área vamos buscar? Uma vez que a Maçonaria é uma ciência moral, há apenas um lugar para procurar. Esse local está entre o rico simbolismo e alegorias em que é velado – o ritual.

Símbolos são simplesmente objetos materiais usados para expressar um pensamento, ideia ou preceito. Alegorias são usadas, em muito, da mesma maneira que os símbolos: elas são “símbolos de imagem” ou “figuras de linguagem”. Alegorias podem envolver uma pessoa, coisa ou um acontecimento ou uma combinação dos três. A partir dessas figuras de linguagem que se deve derivar para nós um significado moral. Cada membro do Ofício desenvolve dentro de si mesmo lições de moral compatíveis com os modos de comportamento condizente a um homem bom e verdadeiro. Assim, ele atinge a sabedoria na moralidade.

Filosofia moral não é uma coisa do passado. Para o estudante moderno é tanto uma coisa do presente e do futuro. O homem é sempre influenciado e até mesmo controlado pelos padrões morais do seu tempo. Da mesma forma, qualquer filosofia que ele pode desenvolver dentro de si mesmo, para o governo de sua conduta, deve necessariamente ser influenciada pelos costumes e os padrões de sua época.

Tendo definido a filosofia maçônica, de uma maneira peculiarmente sua, vamos ver como pode ser aplicada.

Devemos considerar o pré-­requisito absolutamente indispensável para se tornar um maçom – a crença na divindade. Que papel desempenha a Divindade em nossa filosofia?

Uma vez que Deus deu ao homem o poder de escolha, o homem precisa de uma força que o auxilie a controlar essa escolha. Deus é essa força. Alguns dos termos que são comumente aplicadas a Divindade:

Deus é amor”, “Deus é a fonte de todo bem”, “Deus é a fonte de onde todo o fluxo de bênçãos”, “Deus é o Criador”, “Deus é tudo verdade“, ”Deus é onipotente“.

Acreditar na Divindade é aceitar tudo isso sem dúvida. Segue-­se, então, que o homem está submetido a Ele, simplesmente porque o homem acredita – porque ele foi criado à Sua imagem. Uma vez que um maçom deve acreditar na Divindade, em teoria, pelo menos, ele pode ter apenas pensamentos bons. de onde vêm as boas ações, Assim governado, ele pode ser apenas um homem justo e correto. Isso aponta para a perfeição. Mas o homem ter uma escolha não é garantia de ser sempre perfeito, porque às vezes ele vai errar na escolha.

A Maçonaria reconhece isso e demonstra tal reconhecimento pelo simbolismo do ponto dentro de um círculo. A Maçonaria percebe que o homem precisa de alguma latitude em seus pensamentos, palavras e ações. Ela também reconhece que o homem precisa buscar um ponto de equilíbrio, uma vez que as emoções do homem se estendem “da profundidade até o cume“.

Em algum lugar entre esses extremos é o ponto de equilíbrio perfeito, onde o homem pode encontrar a felicidade e realização completas. Entretanto, inevitavelmente, há situações em que as circunstâncias exigem que o seu ponto seja deslocado para cima ou para baixo. Este é governado pelos pensamentos do homem, como também influenciado pelo conjunto existente de circunstâncias. Se o pensamento é controlado, assim são também as emoções, criando o local de repouso do ponto de equilíbrio. A Maçonaria busca estabelecer esse controle pelos ensinamentos do ponto dentro de um círculo. O círculo estabelece a linha de limite além da qual ele não deve ir. O Homem estabelece as dimensões do círculo pelo efeito limitante das Sagradas Escrituras e pelos exemplos dos dois grandes santos. Assim, embora o indivíduo seja rude e grosseiro, ou aprendido e polido, os ensinamentos deste simbolismo maçônico especial assinalam claramente o limite que determina o justo e reto.

Vamos agora considerar a alegoria do terceiro grau e ver como ela pode ser aplicada em nossa busca por sabedoria na moralidade.

O que é a aplicação moral do quadro de palavras que constitui a lenda de Hiram Abiff?

Aqui estava um homem, talentoso, dando todo o seu imenso conhecimento para a tarefa de projetar a maior parte do Templo com seus adornos bonitos e supervisionar a sua edificação. Quão orgulhoso ele deve ter ficado ao ter uma parte tão importante na construção do maior edifício do seu tempo! Maior, não porque ele era tão grande, mas porque era para ser a morada do Deus Altíssimo. Mas o ciúme e a inveja eram abundantes, assim como eles são hoje. É fácil ver como muitos dos operários, sobrecarregados com a superstição, pensaram que ele tinha algum segredo místico que lhe permitiu realizar essa grande tarefa tão soberbamente. E se eles poderiam obter esse segredo, eles também poderiam ser de igual importância. Portanto, eles conspiraram para forçá-lo a revelar este segredo.

Hoje, constantemente também somos vitimas da ignorância, e é tão mortal como era no tempo de Hiram Abiff. Para aquele que consegue alguma medida de sucesso é quase certo o despertar da inveja e críticas de seus semelhantes. E suas ações provam o axioma de que a língua é mais poderosa que a espada. Eles criticam, ridicularizam, estão crucificando e às vezes eles conseguem destruir o bom nome de sua vítima. No entanto, ao longo de tudo isso como objeto de seu veneno, a pessoa deve manter a sua fidelidade para com seus semelhantes e aos seus ideais como fez nosso irmão antigo.

Poderíamos continuar a ilustração da nossa responsabilidade para com nossos irmãos e nossos semelhantes, a necessidade para o controle de nossos pensamentos e nossos desejos e paixões e sobre a filosofia da nossa Fraternidade. No entanto, cada maçom pode e deve analisar por si mesmo cada símbolo, cada alegoria, de modo a aumentar a sua sabedoria e seu conhecimento da filosofia maçônica. Assim, ele formará sua filosofia pessoal, encontrará a Sabedoria Moral e terá sua vida mais rica e mais plena.

Espera-se que este breve tratado sobre a filosofia da Maçonaria inspire todos os membros da nossa Sublime Ordem a pesquisar o significado do que se julgava perdido para ele, e também que, como um Mestre Maçom, possa desfrutar feliz, o reflexo de seus atos na sequência de sua vida.

Traduzido do francês por Ivair Ximenes Lopes

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Os detratores da Maçonaria

À época do recebimento do convite de um dileto amigo para avaliar a possibilidade de entrar para a Ordem Maçônica, creio ter experimentado o mesmo comportamento de inúmeros candidatos que se socorrem, num primeiro momento, da fonte secundária de pesquisas representada pela rede eletrônica mundial de informações à procura de subsídios para fundamentar a decisão que se esboçava ainda com certo grau de insegurança.

Quanto à lisura, honestidade e reputação irrepreensível do portador do convite não me restavam dúvidas. Ademais, a sua condição de Maçom já era do meu conhecimento e suas atitudes já me haviam evidenciado a nobreza do caráter constatado em nossas atividades comuns à frente de um importante Clube de Serviço do qual participamos.

A confirmar as minhas percepções, reforçava ainda este diagnóstico as atitudes de vários outros associados desse mesmo Clube, que também eram Maçons, e vez por outra os surpreendia fazendo um ou outro comentário a respeito de algum assunto “estratégico”, que logo desconversavam ao amparo da metáfora de que havia “goteira” no recinto.

Portanto, a dúvida que me assaltava decorria mais de algum preconceito recôndito, fruto de desinformação ou mesmo de ausência de provocação para instruir-me a respeito do assunto, à míngua de um convite mais retumbante, como o ocorrido em uma segunda e terceira investida desse amigo de sempre.

Pressenti, naquela oportunidade, que a situação exigia uma posição mais assertiva de minha parte e acelerei minhas “pesquisas” sobre a temática, recorrendo a algumas obras de referência. De tudo li um pouco. Contra e a favor. Das mais sublimes loas às mais exaltadas detrações.

Refleti sobre as várias correntes e concluí que era uma busca insólita o conhecimento cabal do mister. Não seria possível entender toda a ritualística, simbolismo e riqueza de conteúdo sem mergulhar no clima e na vivência das dinâmicas que evoluem das sutilezas da literatura e dos estudos filosóficos envolvidos.

Por outro lado, não me pairavam incertezas quanto ao mérito e qualidades exponenciais daqueles companheiros de trabalho voluntários, sempre unidos e vibrantes, quando enalteciam os valores e propósitos da Ordem, no sentido de tornar melhores as pessoas. Concluí, assim, que era uma honra ser o destinatário de tal convite e, apoiado pela esposa, dei o sinal para que os proclamas corressem.

Decisão tomada. Documentação organizada. Diligência realizada. Data agendada. Preparativos tomados. Iniciação concluída. Missão assumida.

Na senda dos estudos e trabalhos encetados veio aquela conclusão que já é comum a quase todos que se aventuram nessa experiência transformadora: por que não comecei um pouco antes? Mas a sabedoria dos Irmãos sempre serve de consolo: “tudo tem a sua hora, o seu momento. Siga o seu caminho, procure a Verdade”!

A partir de então, passamos a nos ver no plural e os estudos sempre despertam novos temas e pesquisas, a princípio orientados pelos Irmãos mais experientes, mas em dado momento nos coloca na vanguarda dos próprios interesses dado o universo que se abre de novas perspectivas, vez que cada Maçom escolhe e desenvolve o seu caminho evolutivo, de forma individual, sem nenhuma interferência da Ordem, não se evidenciando uma busca dirigida da Verdade, por ferir princípio da liberdade de pensamento e do livre arbítrio. O Maçom, como livre pensador, tem compromisso com a livre investigação da Verdade e, nesse contexto, reflete sobre assuntos de vital importância para a compreensão da história.

Quando se abraça uma causa ou ideia parece-nos que se canalizam energias ou despertamos a sensibilidade para vislumbrar as minudências de um determinado ângulo de observação sobre um tema ou objeto de reflexão até então desprezado ou mesmo desconhecido, mas não inédito. E provocações, questionamentos e inquietações em todos os sentidos se apresentam.

Frente a essa escolha, deparei-me com algumas posturas mais combativas de pessoas amigas e mesmo familiares que passaram a questionar-me os motivos de minha adesão à Ordem e que tipo de vantagem tal situação me proporcionaria, considerando-se que não há unanimidade de opiniões favoráveis e sobram comentários às vezes depreciativos ou mesmo curiosidades sobre mistérios acalentados ou cobertos por compromisso de sigilo. Vicejam, ainda, questionamentos ridículos, eivados de má-fé, muitos ao nível de sabotagem, porém, sempre lastreados na ignorância e na incapacidade de entender com clareza conceitos como liberdade de pensamento, busca de conhecimento e livre-arbítrio.

Nesta toada, vale abrir espaço para reportamo-nos aos recorrentes comentários sobre antigos conflitos com a Igreja, à época impeditiva da aproximação das duas instituições, e que somente os mais desinformados não realizaram que tais questiúnculas já foram superadas. As fronteiras estão bem mais claras e as informações bastante democratizadas: a Maçonaria trabalha pelo aperfeiçoamento do homem, com foco na moral e na ética social, e a religião prega a salvação do espírito. A Maçonaria está aberta a qualquer religião, mas exige de seus seguidores a crença em Deus e a condição de justos e de bons costumes. Ademais, os tempos são outros, tanto no aspecto social quanto no legal, não havendo guarida para infantilidades e outro disparates.

No mesmo embalo, sobressai a particularidade de a Maçonaria se constituir em um grupo fechado e eminentemente masculino. O argumento não subsiste ao efeito comparativo de uma empresa, que tem faculdade de selecionar e recrutar seus servidores, e não apenas receber aqueles que se apresentam voluntariamente exigindo uma colocação. Neste caso, é preciso haver um convite e avaliação dos demais membros de uma Loja, que funciona como uma empresa, com todas as obrigações legais decorrentes. No que se refere à característica masculina, trata-se de uma condicionante histórica e se funda nos princípios do Rito Escocês Antigo e Aceito. Existem diversos outros Ritos, que amparam Lojas Femininas e Mistas, mas que não são amplamente divulgadas, pelo número ainda reduzido e também pela forma discreta de abordagem. E os Ritos são apenas caminhos. A derradeira comparação com o futebol é clássica, pois existem times masculinos e femininos, nos quais a atuação daqueles ainda é mais destacada.

Nessa hora, é decisivo ancorarmo-nos no histórico de vida e da coragem moral sustentada pelos valores e exemplos de realizações que nos precedem e que despertam o respeito e consideração de interlocutores mais afoitos. Nada como honra ilibada, probidade inconteste e o reconhecimento para fazer valer um bom argumento sobre uma boa causa. Aliás, é bom ressaltar que esses se constituem nos condicionantes para o recebimento do convite supramencionado, pois a força da Maçonaria reside na seleção rigorosa de seus integrantes.

Os ensinamentos maçônicos norteiam os estudos e os argumentos necessários a um sólido processo de convencimento, pois proporciona o aprimoramento da tolerância, a compreensão do verdadeiro amor ao próximo e à Pátria, despertando o interesse e exaltando a necessidade de trabalho pela felicidade do gênero humano e à consagração da solidariedade como a primeira das virtudes. O que para uma pessoa não iniciada na Ordem possa ser uma qualidade rara, no Maçom é o cumprimento elementar de um dever.

Nessa seara não se pode olvidar todo o contraditório que acompanha a saga da Maçonaria desde sua organização como entidade operativa nos primórdios da Idade Média e reformulação como especulativa nos anos vinte do Século XVIII. Também não se pode desmerecer a contribuição de destacados Maçons aos grandes e decisivos movimentos da história, combatendo a ignorância, o despotismo, na luta incessante pela liberdade, igualdade e fraternidade, indispensáveis à felicidade e à emancipação progressiva e pacífica da humanidade.

Eventuais argumentos que possam desviar para a existência de segredos ou teorias conspiratórias se revelam mais de cunho preventivo ou de base para reforço de preconceitos, em face de divagações deletérias não combatidas pelos Maçons menos preparados ou mesmo para servir de vantagem comparativa para obreiros ainda imaturos em relação àqueles não iniciados, que somente contribui para reforço argumentativo dos detratores da Ordem.

Esses tão propalados mistérios são fruto de imaginação e se evidenciam com maior ardor por se tratar de dificuldade de se expressar, com palavras, sentimentos inefáveis que emanam das fases de aprimoramento do culto à virtude e combate aos vícios inerentes ao ser humano, que é o escopo a ser perseguido diuturnamente.

Nesse particular, se vislumbra extremamente doloroso falar sobre os próprios defeitos ou fazer o “mea-culpa”, em especial quando se é exigido um comportamento exemplar e este se constitui no esteio do Movimento. Tal dificuldade é enfrentada por diversas instituições, que muita vezes procura acobertar as mazelas de seus representantes mais vistosos, por dificuldade de encontrar os argumentos cabíveis ou mesmo pela proteção decorrente do “espírito de corpo”.

Mas, como se diz no popular “colocar o dedo na ferida” ou apertar “onde dói o calo” é condição sine qua non para reverter esses antagonismos. Reconhecer que aqueles vícios tão combatidos, como a vaidade, o orgulho arrogante, a prepotência, a soberba, a negligência, dentre outros menores, são comuns entre vários apologistas e seguidores da Ordem, é o passo inicial para seguimento dos princípios de uma severa moral. Cavar masmorras bem profundas para enterrá-los definitivamente exige o exercício daquela dose de sacrifício necessária ao cumprimento dos deveres que elevam o homem aos próprios olhos e o torna digno de sua missão sobre a Terra.

E é sempre pelo ideal, e só por ele, que os Maçons se sacrificam sob pena de se tornarem traidores dos compromissos assumidos de devotamento e de obediência aos princípios de uma severa moral. Para isso se apoiam no lema:

A sabedoria não está em castigar os erros, mas em procurar-lhes as causas e afastá-las.

É forçoso reconhecer que em várias situações “o inimigo mora ao lado” e não precisamos procurar ao longe para identificar as causas de muitos dos problemas enfrentados no cotidiano das Lojas. Como ocorre em várias empresas, a falha, na maioria das vezes, se situa no recrutamento e seleção dos candidatos. Daí a importância da observação e cautela nas diligências encetadas para aquilatar o grau de qualificação e valores demonstrados pelos possíveis interessados. Qualquer procedimento mais sumário de escolha, com vistas a manter ou repor os quadros de uma Loja, pode redundar em danos irreversíveis, decorrentes do comprometimento dos valores tão caros à Ordem, facultando a entrada de pessoas despreparadas ou em busca de vantagens pessoais.

Tal cenário tende a se consumar em face de comprometimento da continuidade das Lojas, pela falta de reposição planejada dos obreiros, da canibalização entre as Lojas, de ausência de medidas de retenção daqueles que se iniciam ou no descuido com o clima de permanente busca do crescimento, redundando na perda de interesse ou mesmo de deturpação dos mesmos, ou da famigerada acomodação à ritualística, pela falta de aprofundamento nos estudos assinalados.

O sucesso e o fortalecimento das colunas de sustentação de uma Loja demandam de seus dirigentes ações no sentido de identificar, preparar e manter reserva de obreiros prontos a assumir os cargos em qualquer situação imprevista. Para tal fim, torna-se de bom alvitre aproveitar as eventuais ausências dos oficiais para fazer rodízio de treinamento dentre aqueles são ocupantes de cargos, mesmo que visitantes, uma vez que a condição de Maçom vinculado a uma Loja é apenas para fins de organização burocrática, considerando-se que a condição de pertencer à Ordem é pré-requisito para atuar em qualquer célula, quando regularmente atuante.

Não é de todo descabido afirmar que a falta de quadros para suprir cargos, notadamente em sessões de iniciação, elevação e exaltação pode ser considerado um ponto fraco a ser combatido com urgência, vislumbrando-se horizontes de comprometimento de continuidade dos trabalhos e possibilidade e tombamento das colunas de sustentação da Loja.

Obreiros motivados, que têm oportunidade de contribuir na ritualística em Loja, que se esmeram em apresentar trabalhos no “Quarto-de-Hora de Estudos” são o sustentáculo da Ordem, pois são estes que, na maioria das vezes, apresentam candidatos movidos pelos mesmos sentimentos de crescimento e diferenciação na vida pessoal demonstrado pelos Maçons ativos e cidadãos exemplares no seu convívio social e profissional. Importa destacar que, à medida que o obreiro se aperfeiçoa, ganham seus familiares, colegas de trabalho e amigos.

Despiciendo citar-se teóricos da administração moderna para concluir-se que dos Veneráveis Mestres se demanda a mesma habilidade necessária a um coach (treinador) do mundo esportivo, no sentido de incentivar e ajudar os obreiros a desenvolver atitudes e habilidades de gestão para aumentar a eficiência e efetividade dos trabalhos sob sua tutela.

Nessas condições, com a devida vênia, podemos deduzir que os detratores não estão todos lá fora, podendo estar sorrateiramente ancorados entre as colunas de uma Loja, disputando cargos e criando “panelinhas”, conspirando contra aqueles atuantes e bem intencionados. Isso, sem aprofundarmos na desmoralização causada por aqueles que não se portam como exemplos de cidadania, chefes de família, ou mesmo que destacam por um ou outro vício repreensível, que mancha a honra própria e respinga nos outros Irmãos. Nesse ponto a Maçonaria sabe cortar na carne. Mas é tema para outro trabalho.

Finalmente, é pacífico o entendimento de que temos parcela de culpa fundada em posturas de acomodação ou desinteresse de muitos dirigentes que não pensam a longo prazo e se mostram omissos à frente dos ideais e desafios lançados pelos nossos geniais antecessores, que se sacrificaram por visões e forjaram as bases desse magnífico movimento de construção permanente do Templo Moral das Virtudes representado pela Maçonaria Especulativa.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras e, para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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São João, nosso Patrono

Imagem relacionadaDecapitação de São João Batista – Caravaggio (1607-08)
Resultado de imagem para san juan apóstol y evangelistaSão João, o Evangelista – Valentin de Boulogne (1622-23)

Quando os trabalhos são declarados abertos, há referência a São João, dito nosso patrono. Porém, qual o São João? São muitos, na Igreja Cristã, os santos com o nome de São João “disso e daquilo, etc.” Os regulamentos maçônicos recomendam se festejar a dois: a São João, “o Batista”, e a São João, “o Evangelista”.

O Batista

São João Batista, também dito “o Precursor”, era filho de Isabel, prima da Virgem Maria e, por conseguinte, também parente de Jesus. Ele ganhou o epíteto de “batista” porque, no rio Jordão, “batizava” as pessoas, derramando -lhes água sobre as cabeças, assim limpando-os espiritualmente (batismo significa banho ). Era também conhecido por viver no deserto, alimentando-se de mel e gafanhotos, vestindo apenas com uma pele de carneiro, andando assim meio nu, meio vestido. Seguramente, pertencia, entre os judeus, ao grupo dos essênios, que vivia em Quram, perto do mar Morto. Local onde, em 1947, foram encontrados alguns documentos de sua época. Tinha vários seguidores, mas se dizia Precursor de Alguém Maior que ele, e de quem não era digno sequer de Lhe desatar as sandálias. Vituperava a Herodes Antipas ¾o rei imposto pelos romanos aos judeus ¾ , porque Antipas mandara matar a seu meio-irmão para ficar com a sua esposa. Antipas mandou decapitar a João Batista, atendendo o pedido de Salomé, sua enteada, filha de seu meio-irmão, acima referido.

O dia 24 de junho foi estipulado pela Igreja Católica como o de sua comemoração.

O Evangelista

O outro São João, o Evangelista, era apóstolo de Jesus. Chamam-no de Evangelista porque, além de pregar os ensinamentos do Mestre, foi o autor do 4º Evangelho, de três epístolas e do famoso Apocalipse. Essa palavra quer dizer “revelação”. Nele, João relata as revelações que teria tido sobre o fim dos tempos e dos caminhos para a salvação. Por falar nos fins dos tempos, catástrofes, guerras, pestes, castigos, a palavra “apocalipse” ganhou a conotação de “algo ruim, apavorante, cataclismático, terrificante”. A linguagem é extremamente simbólica, de difícil compreensão.

Seu dia é comemorado em 27 de dezembro.

Maçonaria Operativa

Na verdade, porém, como vem registrado no item XXII, dos Regulamentos Gerais das Constituições de Anderson, de 1723, e com elas publicados, o dia que os maçons operativos do passado tinham escolhido para a reunião anual era o de São João Batista, em 24 de junho, ou, opcionalmente, no dia de São João Evangelista, em 27 de dezembro. Mas, com ênfase ao primeiro. Aliás, notar que a fundação da Grande Loja de Londres, em 1717, ocorreu precisamente nesse dia, 24 de junho. Veja-se como vem redigido esse cânone dos Regulamentos Gerais, aprovados, pela segunda vez, no dia de São João, 24 de junho de 1721, por ocasião da eleição do Príncipe João, duque de Montagu, para Grão-Mestre:

“XXII. Os Irmãos de todas as Lojas de Londres e Westminster e das imediações se reunirão em uma COMUNICAÇÃO ANUAL e Festa, em algum Lugar apropriado, no Dia de São João Batista, ou então no Dia de São João Evangelista, como a Grande Loja pensa fixar por um novo Regulamento, pois essa reunião ocorreu nos Anos passados no Dia de São João Batista: Provido(…)”

Razões Esotéricas

Só por uma segunda opção a reunião e festa ocorreria,portanto, no dia 27 de dezembro, na festa do outro São João. Mas, por quê? O porque dessa alternativa tem uma explicação esotérica, que remonta às prováveis origens da Maçonaria, aos Collegia Fabrorum dos romanos. A esses colégios de artesãos, de diferentes ofícios, pertenciam também os da construção. Eles acompanhavam as tropas romanas, para o trabalho de reconstrução e instalação da administração imperial, nas terras conquistadas e colonizadas. E com eles ia a sua religião ou religiões, para ser mais exato, ainda que entre os romanos a predominante fosse a da adoração à Mitra, que era representado por uma figura humana. No lugar da cabeça, um Sol.

Havia muitos outros deuses, notadamente, o de Janus, uma figura de duas cabeças coladas e opostas, cada uma olhando em sentido contrário a da outra, e que simbolizavam: uma, o solstício da entrada do verão (21 de junho, hemisfério norte); a outra, o solstício da entrada do inverno (21 de dezembro, hemisfério norte). Esses solstícios estão sempre presentes nas festas pagãs, vinculadas à Natureza. É aí que encontramos uma provável explicação histórica para os festejos juninos e os natalinos, a que a nova religião romano-cristã, não podendo desenraizar dos costumes populares, o mínimo que conseguiu foi a substituição. Todavia, no seio da maçonaria operativa, mesmo sob tal disfarce, ambas as datas sobreviveram, em face do conteúdo esotérico de seus significados. Não esquecer que os colégios, principalmente, os dos construtores, seriam depositários dos conhecimentos e mistérios de antiquíssimas sociedades iniciáticas, todas praticantes de ritos solares.

Autor: Bruno Calil Fonseca

Fonte: Usina das Letras

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Cagliostro e a Flauta Mágica – A história de duas Iniciações

1791 – Estreia da Ópera “Flauta Mágica “ de W. Mozart | Cais da ...

Há maçons que “enchem a boca” para dizer que Mozart era membro da Ordem, mas será que sabem que a obra maçônica magna do compositor trata da iniciação de uma personagem do sexo masculino e outra do sexo feminino?

Seria apenas o casamento do rei e da rainha dentro de cada um de nós, ou, além disso, uma defesa dos ritos mistos? Para mim, este fato nada tira do brilho dessa ópera; pelo contrário, acrescenta-lhe. Vamos conferir um pouco dessa história no texto a seguir.

A ópera, gênero mais familiar para nós em sua roupagem italiana (Verdi, Puccini), tem uma tradição que remonta a um pouto cantes do ano de 1600. No final do século XVIII, vários tipos de ópera eram populares e geralmente se dividiam em dois grupos: as “sérias” e as “cômicas”.

A ópera cômica, que era popular na França e na Itália do século XVIII, também se expandiu para os países germânicos na forma de Singspiel, uma ópera popular que envolvia tanto o canto quanto o diálogo falado. Um dos mais famosos compositores de Singspiel foi Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), cuja produção incluía várias óperas deste gênero, sendo que a mais bem conhecida é A Flauta Mágica. Mozart queria escrever uma ópera mágica alemã, e A Flauta Mágica atingiu este objetivo. Ela foi concluída no último ano de sua vida, 1791, quando ele tinha 35 anos de idade.

Maçonaria

Um aspecto da vida de Mozart que é essencial para se compreender sua ópera é sua afiliação à Maçonaria. Mozart tinha conhecimento das ordens maçônicas desde muito cedo na vida. Contudo, apenas em 1784 é que ele foi iniciado, na Loja Zur Wohltatigkeit (“Caridade”), em Viena. Apesar de ter sido criado como católico, Mozart parecia ser capaz de resolver quaisquer diferenças de pensamento e compôs música litúrgica devocional paralelamente a várias peças maçônicas que foram apresentadas em diversas Lojas durante sua vida. Foi finalmente iniciado ao Terceiro Grau maçônico, o de Mestre, um ponto comum de conquista na época.

Mozart estava mais inclinado aos elementos místicos da Maçonaria do que ao seu racionalismo ético. Infelizmente, é difícil acompanhar a visão de Mozart através de documentos, pois sua viúva e seu segundo marido censuraram a correspondência de Mozart, removendo todos os traços de sua afiliação maçônica. Mas existem evidências de que a música de Mozart procurava refletir o espírito místico, e particularmente as palavras de algumas de suas músicas maçônicas são profundamente tocantes, refletindo os aspectos mais profundos da Maçonaria.

Muito tem sido escrito sobre o caráter da Maçonaria, mas uma influência sentida no século XVIII tem base neste assunto. Durante aquele período houve um surgimento de interesse em ritos iniciáticos do Egito antigo e a introdução do simbolismo egípcio em alguns rituais maçônicos. A Loja de Mozart pratica a “Estrita Observância”, um rito estabelecido em 1754 que dava grande atenção às influências dos Cavaleiros Templários. Foi descrita como uma mistura de “Simbolismo Maçônico, práticas alquímicas e tradições Rosacruzes”[1].

Entra Cagliostro

Por que essa influências do Egito antigo surgiu nessa época específica? Um estudo cuidadoso das fontes esotéricas revela algumas ligações interessantes. Vamos tentar traçar uma linha que leva a vários acontecimentos ligados ao surgimento de A Flauta Mágica a uma figura proeminente (e infelizmente com alguma notoriedade): o místico conhecido como Conde Cagliostro. Sua vida é cercada de mistério e ele foi muito difamado devido a suas práticas ocultas.

Muita controvérsia cerca a verdadeira identidade de Cagliostro, mas o que se sabe é que ele era contemporâneo de Mozart, provavelmente um discípulo do alquimista Althotas e dizia-se que tinha sido iniciado por Saint-Germain, que, por sua vez, era um místico Rosacruz de grande sutileza espiritual e clareza intelectual[2]. Esta tradição é importante porque ilustra a influência da Ordem Rosacruz, que passou então por Cagliostro e teve algum peso em A Flauta Mágica.

Cagliostro criou um “Rito Maçônico Egípcio” que usava um simbolismo iniciático do Egito antigo, assim como formas maçônicas existentes. Sua grande popularidade como curador e conselheiro não poderia deixar de produzir algum efeito em outros rituais maçônicos da época. Existe uma tradição esotérica que diz que Mozart e Cagliostro tinham conhecimento um do outro. Um irmão maçom, que também era músico, relatou amplamente, nas lojas, sobre uma cura que ele teve através de Cagliostro, um acontecimento que muito provavelmente chegaria aos ouvidos de Mozart. Mais tarde, relatou-se que Cagliostro tinha aceitado uma casa em Wahring, um bairro de prestígio de Viena[3]. Esses contatos podem muito bem ter estimulado a curiosidade de Mozart a ponto de ele querer conhecer Cagliostro ou, pelo menos, admirá-lo à distância[4]. Esta ligação não é feita claramente em nenhuma das fontes exotéricas que se referem à Flauta Mágica, mas em uma lenda esotérica, de onde surge a possibilidade de eles terem se conhecido.

A composição da ópera

Com esse contexto em mente, vamos voltar para a ópera em si. Como é que esses fatos e tradições se relacionam com sua composição? Mozart queria escrever uma ópera maçônica e cumprir a meta de compor uma ópera mágica alemã ao mesmo tempo. Embora houvesse muitas óperas baseadas em contos de fadas em destaque na ópera, apresentando uma variedade de instrumentos “mágicos”, parece que Mozart usou esse formato apenas como veículo para difundir um simbolismo mais profundo.

Há vários níveis de percepção do significado da ópera. O público desinformado vê e ouve uma ópera-resgate Singspiel alemã, cheia de incidentes cômicos, músicas e efeitos dramáticos maravilhosos. O público pouco informado, conhecendo a finalidade óbvia da ópera, tem consciência de algum simbolismo iniciático incluído – como o das provas pelo fogo e pela água. Mas é apenas quando atinge o nível interno de interpretação que você percebe o grande número de atos e objetos simbólicos em cada cena. O filósofo e dramaturgo alemão Goethe, que era maçom e místico, declarou sobre A Flauta Mágica:

É suficiente que a multidão tenha prazer em ver o espetáculo; mas, ao mesmo tempo, seu significado elevado não vai escapar aos iniciados.”[5]

O próprio livreto (texto) da ópera foi escrito por Emanuel Schikaneder e possivelmente por algum outro colaborador desconhecido. A história em si se baseia em várias fontes do período: um romance esotérico, Sethos, por Jean Terrason; tramas de óperas egípcias mais antigas, por exemplo Thamos, Rei do Egito (para a qual Mozart escreveu a música incidental); e contos de fada alemães, estes já muitas vezes contendo simbolismo iniciático. Isso tudo defende e ilustra o combate das forças das trevas contra a Luz e a final aniquilação das forças do mal, com o grand finale no Templo do Sol.

O simbolismo de Cagliostro – como indicado em seu rito egípcio[6] – incluía uma oposição e união final do Sol com a Luz… a meta da iniciação. O Sol é o elemento positivo e a Lua é o elemento negativo. Isso se reflete na união do céu com a terra, do masculino com o feminino, do dia com a noite e outras polaridades. Outros símbolos encontrados no rito de Cagliostro eram a serpente, que aparecia no alto de seu brasão; a acácia um tipo de árvore significando a Matéria Prima; o pentagrama; e o gabinete ou Câmara de Reflexão, uma gruta ou caixa onde o candidato era deixado antes do ritual. Muitas vezes uma pirâmide era um dos símbolos nessa câmara. Columbas também eram usadas nas cerimônias de Cagliostro.

A ópera simboliza um conflito entre dois mundos. Não se trata apenas de um conflito entre o bem e o mal, mas envolve muitas referências sutis a outras polaridades. Cada um dos personagens de uma ópera tem um significado que se liga diretamente ao resultado final. Sugere-se que a história da ópera seja lida de fontes disponíveis para que o que se segue fique mais claro.

Os personagens principais

Os nomes de Tamino e Pamina, personagens principais, significam “consagrado a Min ou Deus”, em egípcio. Eles são os dois candidatos para a iniciação, que finalmente passam pelos testes do fogo e da água. A Rainha da Noite representa o lado negativo ou mau. Ela procura destruir o sacerdote da Luz e vê em Tamino um agente que pode realizar isso. Sempre aparece à noite e acompanhado da escuridão e do trovão. Monostatos, o Mouro, representa a pura existência física. Seu nome em grego significa “o isolado”. Ele sequestra Pamina antes de seu resgate e iniciação.

Sarastro é representado como um mago mau no início da ópera. Talvez este personagem seja a evidência mais forte de uma ligação com Cagliostro. Primeiro, a má reputação de Cagliostro foi atribuída por suas assim chamadas práticas “mágicas” e muitos acharam que ele era perigoso. Embora o nome Sarastro provavelmente tenha sido tirado de Zoroastro, parece bastante com Cagliostro para sugerir que o modelo tenha sido ele. Muitos acham que Sarastro representava um maçom famoso chamado Ignaz Von Born, mas Born não era nem mágico nem um alto sacerdote. Cagliostro se dizia o Alto Sacerdote de Ísis, e toda a cena iniciática da Flauta Mágica nomeia Ísis e Osíris como os deuses a quem os inciados devem apelar. Finalmente, Sarastro demonstra ser o Sacerdote do Sol e não o mal, como se acreditava, o que novamente aponta para a verdade referente à pessoa de Cagliostro. A esposa de Cagliostro, ou a “Grande Senhora”, também era conhecida como “Rainha de Sheba”. Na ópera, Sarastro e a Rainha de Noite pareciam ter sido casados em algum momento.

Papageno (da palavra alemã Papagei, “papagaio”) se assemelha ao Louco das cartas do Tarô. Ele acrescenta relevos cômicos à ópera. Sendo uma criatura de penas, também representa o elemento “ar”. Significa a humanidade “comum”, indigna da iniciação. Ele tenta, mas não consegue passar por ela. Quer, acima de tudo, ser um bom marido e uma pessoa “normal”.

Elementos simbólicos

É impossível, dentro dos limites deste artigo, detalhar todo o simbolismo da ópera e mostrar como ele está relacionado tanto com a história quanto a possíveis influências rosa-cruzes que possam por intermédio de Cagliostro a Mozart através da Maçonaria, quer direta ou indiretamente. Alguns dos símbolos mais importantes ainda estão disponíveis, e estudos adicionais da ópera por interessados vão revelar a riqueza das influências esotéricas, assim como uma referência constante aos quatro elementos ou princípios: água, fogo, terra e ar.

A serpente, encontrada no alto do brasão de Cagliostro, assim como no bastão do caduceu de Hermes Mercúrio, tem uma história de simbolismo iniciático e era usada nos ritos egípcios e nas histórias bíblicas. No início da ópera, uma enorme serpente é morta sendo dividida em três partes enquanto Tamino está desfalecido. Esse desfalecimento – e outras perdas de sentidos que acontecem no decorrer da ópera a candidatos à iniciação – basicamente simboliza a morte do velho e o renascimento para uma nova vida como resultado da iniciação.

A flauta mágica, simbolizando o elemento “ar”, é usada apenas para superar obstáculos, não para destruí-los. Sua história, recontada mais tarde na ópera, diz que ela foi esculpida em madeira pelo pai de Pamina numa noite de tempestade (água e escuridão) repleta de sons de trovoes (terra) e de relâmpagos (fogos). Assim, a própria flauta sintetiza todo o simbolismo iniciático.

Antes da iniciação em si, os candidatos são libertados da flauta e dos sinos mágicos por um momento, como acontece no ritual maçônico quando o candidato é “despido de seus metais”[7], significando coisas profanas que não devem ser trazidas para o templo. Tamino e Papageno são então leva-os para uma caverna subterrânea, que corresponde à “Câmara de Reflexões”, para meditar sobre a iniciação que aconteceria. Eles são obrigados a fazer silêncio e Tamino deve rejeitar Pamina quando ela aparece, não falando com ela. No ritual de Cagliostro, o silêncio é a primeira instrução na Câmara de Reflexões, e a virtude do celibato é louvada.

A rosa, além de ter significados rosa-cruzes e outros significados antigos, é o símbolo da iniciação maçônica. No rito egípcio, um lema recorrente é: “Eu acredito na Rosa”. Pamina está deitada, adormecida num jardim de rosas; este é seu “adormecimento” antes da iniciação, que ela interpreta no elemento “terra”. Também fica sugerido que os três espíritos que levam Tamino para o templo devem ser carregados numa cesta decorada com rosas.

União dos opostos

As provas do fogo e da água são graficamente ilustradas na ópera. Tamino e Pamina de fato caminham por uma gruta e superam os elementos. Depois, eles se apresentam no Templo do Sol em vestes sacerdotais. Aqui, a mulher é igual ao homem: o sol (o reino de Sarastro) e a lua (o reino da Rainha) estão unidos espiritualmente. O rito de Cagliostro era o único ritual maçônico que admitia igualmente homens e mulheres. Essa união, através da iniciação do masculino com o feminino, estava na base da filosofia dos ritos egípcios. Apenas através do casamento do sol com a lua é que a verdadeira iniciação poderia ser atingida. As vestes sacerdotais usadas por ambos provavelmente devem sua aparência ao ritual de Cagliostro[8].

Mozart, além de supervisionar o libreto, proporcionou a música e o gênio inspirador, que realmente traduz o simbolismo visual em som. Também usou numerologia musical (através das relações de tonalidade e de padrões rítmicos, por exemplo, na representação do número 3 e ilustrou as três batidas na porta da Loja pelos acordes rítmicos que surgem em pontos chaves na ópera.

O uso desses símbolos, quando vistos dentro da história da ópera, tem uma semelhança com os rituais de iniciação influenciados pelo rito de Cagliostro e a criação dessas referências esotéricas torna A Flauta Mágica, um trabalho que trata do lado interno da humanidade, como os símbolos alquímicos e alegóricos dos primeiros rosa-cruzes. A influência do rito egípcio, descendente de Cagliostro e Saint-Germain, sem dúvida liga a ópera de Mozart aos mistérios antigos, pois nos fala de uma nova vida.

Autora: Melanie Braun, SRC*

* SRC – Soror Rosacruz, membro feminino da Antiga e Mística Ordem da Rosacruz.

Fonte: Revista O Rosacruz. Verão 2011, n. 275. Curitiba: AMORC, 2011. p. 32-38

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Notas

[1] – Jacques Chailley. The Magic Flute Unveiled (1971), trad. por H. Weinstock (Inner Traditions, 1992) p. 63.

[2] – Manly P. Hall (ed.) The Most Holy Trinosophia of Saint-Germain (Philosophical Research Society), Introdução.

[3] – Paul Nettl. Mozart and Masonry. Nova York, Da Capo, 1970, p. 42.

[4] – Outras referências à tradição de que Mozart e Cagliostro se conheciam são encontradas em The Soul of Lilith, um romance de Marie Corelli, e em um artigo que surgiu alguns anos atrás em El Rosacruz, revista rosacruz espanhola por H. Rios, intitulado Cagliostro, o Vento do Sul.

[5] – Citado em Chailly, op. cit. p. 7.

[6] – Vide Conde de Cagliostro, Secret Ritual of Egyptian Rite Freemansonry (reimpressão, Kessinger Publishing, 1992); também a série da AMORC de monografias suplementares sobre Cagliostro. Para maiores informações de base: artigo de Ralph M. Lewis intitulado Cagliostro, Man of Mystery, publicado no Rosicrucian Digest LXII, n. 3 (março de 1984), pp. 24-…

[7] – Ritual de Cagliostro mencionado acima, p. 166 Chailley, op. cit., p. 77.

[8] – Chailley. op. cit., p. 77.

Nossas antigas leis e costumes

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Por que devemos pautar nossos atos pelo comportamento digno? Por que não somos estranhos uns aos outros? Por que o maçom deve cultivar um perfeito controle de si próprio? Por que só devemos admitir em nossas lojas homens honrados, de ilibada reputação moral e atitudes discretas? Por que somos uma fraternidade iniciática?

As respostas estão nas profundas raízes da Arte Real, isto é, nos antigos deveres do ofício (The Old Charges of Craft Freemasonry)[1] e na compilação deles da qual resultaram a Constituição de Anderson e, mais tarde, noutras compilações denominadas landmarks. (Neste texto uso landmark com L maiúsculo ou minúsculo conforme me refira ao termo geral ou à lista adotada pela Potência Maçônica. Da mesma forma, uso Constitution em inglês para diferenciar da Constituição adotada pela Potência Maçônica.)

Todos os maçons conhecem bem os preâmbulos dos atos e decretos de suas Potências ou Obediências que começam com a proclamação: “O Grão-Mestre, no uso das atribuições que lhe conferem os Landmarks da Ordem, a Constituição de Anderson… etc.”. Mas poucos têm a oportunidade de conhecer aprofundadamente os landmarks; e são pouquíssimos os que se interessam pelo texto completo das chamadas Constituições de Anderson (Constitution).

Comecemos pelo aparentemente mais simples – os landmarks.

Uma vez que a palavra é inglesa, o que se entende por landmark? Para simplificar, tomemos landmark no sentido de LIMITE – ponto de referência, marco divisório ou fronteira. Há quem prefira esquartejar a palavra: land (terra) + mark (marco) – antigamente, aquela cerca de arame que separava as hortaliças de Joe Smith das galinhas do seu vizinho John Dolittle – um marco divisório, uma fronteira, um limite: “daqui pra lá é seu, daqui pra cá é meu”.

A Bíblia, de onde o conceito foi tirado, refere-se à cláusula pétrea “nolumus leges mutari”, isto é, que essas leis não sejam transgredidas – implícita no livro dos Provérbios, 22:28 – “Ne transgrediaris terminos antiquos quos posuerunt patres tui”, traduzido na versão inglesa King James por “Remove not the ancient landmark, which thy fathers have set.” – não removas os marcos antigos que teus antepassados colocaram.

Resumindo: landmark envolve – social e politicamente falando – as questões do direito patriarcal (‘antiquos’ e ‘thy fathers’), de posse, domínio e poder.

Mas quem foram esses pais ou antepassados que andaram colocando limites e fixando fronteiras no território terrestre? Quais foram esses precursores chefes de família que restringiram quaisquer mudanças nas leis e assentaram regiões de interdição ao pensamento das gerações vindouras?

O livro “Illustrations of Masonry“, do maçom inglês William Preston (1772) registra a palavra “landmark” como sinônimo de usos e costumes estabelecidos na Arte Real. Penso que seja esta acepção mais correta, principalmente por ser a mais antiga (terminos antiquos) e considerando que o Direito inglês é eminentemente consuetudinário (de uso habitual, comum). Além disso, a Grande Loja Unida da Inglaterra nunca enumerou uma lista de landmarks porque considera fundamental o único landmark possível: a crença na existência de um Ser Supremo.

Ressalvo, entretanto, que a expressão “usos e costumes” deve ser entendida no contexto histórico da Maçonaria e não no sentido jurídico atual (fonte do direito) erigido através de condutas e atos praticados reiteradamente nas Lojas. Nesse sentido não existem usos e costumes na Maçonaria e muito menos nas questões ritualísticas.

O pesquisador inglês Harry Carr (1900-1983), Past Master da Quatuor Coronati Lodge nº 2076 de Londres, aponta dois pontos essenciais para as cláusulas pétreas: 1 – Um landmark deve ter existido desde os tempos imemoriais (terminos antiquos) e não fabricados a partir de certo ponto da história; 2 – Os landmarks são elementos de tal importância essenciais para nossa fraternidade que a Ordem já não seria Maçonaria se algum deles fosse alterado. Neste particular, Albert Gallatin Mackey[2] alertou:

Não admitamos mudanças de quaisquer espécies, pois desde que isso se deu, funestas consequências demonstraram o erro cometido.”

Apesar disso, e de acordo com os modernos pesquisadores do assunto, existem várias listas de landmarks que pode ser de apenas três para Alexander S. Bacon e Chetwode Crawley, ou nove para J. G. Findel. Para Roscoe Pound, a Grande Loja da Virgínia e o cubano Carlos F. Betancourt são sete; ou seis landmarks para a Grande Loja de Nova York, que toma por base os capítulos em que se dividem as Constituições de Anderson. Vinte para a Grande Loja Ocidental de Colômbia; dezenove para Luke A. Lockwood e a Grande Loja de Connecticut; dezessete para Robert Morris; quinze para John W. Simons e para a Grande Loja de Tennessee; doze para A. S. MacBride e dez para a Grande Loja de Nova Jersey. As listas maiores compreendem trinta e um landmarks para o Dr. George Oliver, cinquenta e quatro para H. G. Grant e para a Grande Loja de Kentucky; vinte e nove para Henrique Lecerff, vinte e seis para a Grande Loja de Minnesota e assim por diante.

A Grande Loja Maçônica de Minas Gerais adota a lista de Albert Gallatin Mackey que compilou vinte e cinco landmarks, a lista mais conhecida e utilizada no Brasil, que preconiza:

Não admitamos mudanças nos legítimos e inquestionáveis landmarks, pois desde que isso se deu, funestas consequências demonstraram o erro cometido.”

Mackey foi um médico norte-americano nascido em 1807. Publicou “The Principles of Masonic Law on the Constitutional Laws, Usages And Landmarks of Freemasonry” em 1856 onde propôs um meio termo entre a ritualística, a legislação e o cerimonial:

“Várias definições foram dadas para landmarks. Alguns supõem terem sido constituídos a partir de todas as regras e regulamentos que estavam em vigor antes da revitalização da Maçonaria em 1717, confirmados e aprovado pela Grande Loja da Inglaterra naquela época. Outros, mais rigorosos, limitam essa definição aos modos de reconhecimento em uso na fraternidade. Eu proponho um meio termo, e considero landmarks todos os usos e costumes do ofício ritualístico, legislativo, cerimonial, e mesmo à organização da sociedade maçônica conforme os usos dos tempos imemoriais. E considero a alteração ou a supressão de algo que possa afetar o caráter distintivo da instituição como fator de destruição da sua identidade.”

O meio termo acenado por Mackey foi, entretanto, o sinal verde para novas hermenêuticas entre as visões ortodoxa e heterodoxa da Maçonaria. Sem falar na nítida constatação de que alguma coisa fora mudada ou alterada nos antigos marcos colocados por nossos antepassados – antevisão reveladora de que outras modificações estariam a caminho no devido tempo.

Muitos autores questionam a lista de Mackey que descreve, com exagerada ênfase, os poderes e atribuições do Grão-Mestre. Um dos mais expressivos críticos foi Roscoe Pound (1870-1964), reitor da Harvard Law School que – talvez motivado pela teoria do “meio termo” – propôs uma lista mais curta, de sete landmarks… com a possibilidade de mais dois. Esses nove landmarks possíveis mantiveram, com algumas modificações, os de Mackey (III, X, XIV, XVIII, XIX, XX, XXI, XXIII e XXIV) eliminando os números I e II que a Maçonaria tradicional considera fundamentais: os processos de reconhecimento e a divisão do Simbolismo em três graus, além do polêmico e nevrálgico Landmark XXV – “nenhuma modificação pode ser introduzida…”

Por outro lado, por estranho que pareça, o próprio Mackey considerava os landmarks uma generalidade e que os regulamentos gerais e locais fossem os determinantes para as autoridades locais da Maçonaria. Afirmava também, no mesmo diapasão da Quatuor Coronati Lodge de Londres, que um dos requisitos dos landmarks é terem eles existido desde o tempo que a memória do homem possa alcançar – donde se deduz que os verdadeiros marcos são as leis morais ou o Direito Natural inscritos na mente e no coração dos homens. Por isso James Anderson escreveu na primeiríssima página da Constitutions:

“Adão, nosso primeiro pai, criado à imagem de Deus, o Grande Arquiteto do Universo, deve ter tido a Ciência Liberal, particularmente Geometria escrita em seu coração…” (Adam, our first parent, created after the Image of God, the Great Architect of the Universe, must have had the Liberal Science, particulary Geometry written on his Heart…)

Houve (e ainda há) os que debocharam dessa declaração interpretando, grosso modo, que o sábio James Anderson estava a dizer que o Venerável Deus iniciou o Aprendiz Adão na Maçonaria[3]. O ilustre Irmão José Castellani ironizou essa interpretação do mito no texto humorístico “Loja Paraíso nº0”, mas, da parte de lá do fino humor, Castellani sabia a qual escrita James Anderson estava se referindo. Para os que conhecem a Filosofia do Direito, aquela Ciência Liberal escrita no coração do homem nada mais é do que o Direito Natural comunicado à razão humana desde sua criação – simbolizada pela Geometria – um código ético completo coligido da estrutura da natureza – tese sustentada por Tomás de Aquino, Thomas Hobbes, John Locke, Jean-Jacques Rousseau e presente na Common Law.

Talvez isso responda à pergunta sobre quais foram aqueles pais que colocaram fronteiras nas divagações inúteis da vaidade humana.

As Constituições de Anderson (1723) são anteriores a quaisquer landmarks e, por isso, ouso dizer que elas são – ao lado do Jus Naturalis – os verdadeiros LANDMARKS. Os antigos deveres do ofício de maçom foram consolidados nessas Constitutions of the Free-Masonsdedicadas ao Grão-Mestre Philip Wharton Duque de Montagu e assinadas pelo francês Jean Théophile Désaguliers, Grão-Metre Adjunto e membro da Royal Society of London. O redator James Anderson[4], por sua vez, era um pastor presbiteriano nascido na Escócia.

As Constitutions dividem-se em quatro partes: I – a História, “para ser lida quando da admissão de um Novo Irmão (to be read at the admission of a New Brother). Essa primeira parte vai até a página 48; II – Os Deveres (extraídos dos antigos registros das Lojas Ultramarinas e daquelas da Inglaterra, Escócia e Irlanda), da página 49 até 57; III – Os Regulamentos Gerais (da página 58 até 74); IV – Partituras e Canções dos Mestres, dos Vigilantes, dos Companheiros e dos Aprendizes, completando a obra em 91 páginas.

Conclusões 

  • Nem tudo que é Constitutions, portanto, está nos Landmarks; mas tudo o que é landmark está nas Constitutions;
  • As Constitutions não deixam margens ao oportunismo iniciatório e respondem àquelas cinco perguntas que aparecem no início deste artigo;
  • O conhecimento do passado (a História) é a principal e insubstituível fonte do aprendizado e do conhecimento maçônicos;
  • “... pela sua Missão, um maçom torna-se obrigado a obedecer à Lei moral, e nunca será um estúpido ateu nem um Libertino” (Constituitions, página 50, concernente a Deus e à religião);
  • Não basta preencher um formulário dizendo “sim” às clássicas perguntas: “credes num Ente Supremo? credes na imortalidade da alma?” se a reposta afirmativa não vier da Consciência e com o aval do Conhecimento. Por isso pautamos nossos atos pela dignidade e só admitimos em nossas lojas homens honrados.

Autor: José Maurício Guimarães

José Maurício foi o primeiro Venerável Mestre da Loja de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda – GLMMG. Também é membro da Academia Mineira Maçônica de Letras.

Notas do Blog

[1] – Para saber mais sobre as Antigas Obrigações, clique AQUI ler artigo “As Old Charges”.

[2]Clique AQUI para ler o artigo “Quem foi Albert Mackey?”

[3] Para melhor entendimento sobre o que o autor diz, clique AQUI para ler o artigo “O Primeiro Iniciado do Mundo“.

[4] – Clique AQUI para ler o artigo Quem foi James Anderson?”

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Em busca de nova identidade maçônica

O termo “identidade” tem uma diversidade de conceitos e, segundo várias fontes, é entendido como um conjunto de caracteres próprios e exclusivos que permitem diferenciar pessoas, animais, plantas, objetos, produtos, a cultura de um povo, entidades, uma empresa etc.. No seu sentido mais popular representa um documento legal que acompanha um indivíduo e atesta que é o próprio. 
 
É muito comum termos acesso ao documento de identidade de uma pessoa e constatarmos que a foto é antiga e marcas do tempo distanciam as duas imagens, donde se conclui que nada é estático, que a mudança é uma consequência natural da vida.
 
Na Maçonaria, um conjunto de princípios, chamados os “Landmarks” da Ordem, por se tratarem das mais antigas leis que a regem, lhe conferem uma identidade imutável, sendo considerado os seus limites e que não poderiam sofrer modificações. Muitos dizem que sem eles a Maçonaria já não existiria ou teria tomados outros rumos. Porém, resguardando a sua essência, que a fez prosperar até os nossos dias, não se pode refutar que a Maçonaria recebe influências de época e passa por esse processo sutil de transformação.
 
Aqui não se pretende atacar a prática da tradição constante nos Rituais e no Simbolismo que se constituem na seiva que mantém a Ordem fortalecida desde o século XVIII e nem por isso sofre de obsolescência, face aos valores morais defendidos. É fato que novos ritos derivaram do original, mantidos os princípios, para atender a projetos de poder inevitáveis quando outros motivos se tornam imperiosos.
 
Desde sua estruturação em 1717, na forma como hoje a conhecemos, a Maçonaria sempre se posicionou politicamente identificando-se com causas nobres, lutas sociais e movimentos cívicos, revolucionários e libertários, que a fez prosperar até nossos dias, sempre combatendo a intolerância, os preconceitos, os privilégios e defendendo novas ideias. Por isso angariou também a antipatia de poderosos. 
 
No contexto atual, apesar do conceito positivo junto àqueles que a conhecem, ainda é desconhecida por grande parte da população brasileira. No cenário político nacional não tem nenhuma representatividade e não exerce qualquer influência a exemplo da norte-americana ou da europeia, não obstante todo o capital intelectual e consciência de sua importância para as transformações necessárias à promoção da justiça social.
 
A prática de reverenciar as glórias do passado é por muitos vista como desgastada, sob o argumento de que o seu potencial hoje não é utilizado na sua plenitude, passando ao largo de temas palpitantes e gravosos da atualidade, apenas manifestando-se a sua inconformidade através de posicionamentos perante o povo e reafirmando compromissos históricos de recolocar a Ordem na linha de combate contra as mazelas que pipocam aqui e acolá, sem, contudo, comprometer-se efetivamente na busca de soluções. Comprometimento e envolvimento têm dimensões diferenciadas. Somente caprichar na retórica e bradar que alguém tem que tomar uma providência, de que do jeito que está não pode ficar, de que não dá mais para aguentar et cetera e tal, é muito confortável. O comodismo e o obsequioso silencio político da Maçonaria do Brasil precisam ser quebrados.   
 
Esse cenário nos remete a um acontecimento histórico ocorrido em 13 de maio de 1968, em Paris, onde cerca de um milhão e meio de pessoas participaram de uma marcha contra o governo de Charles De Gaulle. O movimento começou com uma revolta estudantil e foi ampliado com a incorporação de trabalhadores, sindicalistas professores e comerciários e, entre os meses de maio e junho, mais de nove milhões de pessoas declararam greve. Entretanto, De Gaulle venceu as eleições realizadas em junho daquele ano e o movimento se viu derrotado pela então denominada “maioria silenciosa”. Mas o movimento ganhou um simbolismo e transformou-se em um marco das mobilizações políticas e influenciou inúmeras revoltas mundo afora, provocando rupturas e revisão de valores da sociedade. 
 
Neste particular, seria injusto e deselegante deixar de destacar o papel da Grande Loja Maçônica de Minas Gerais, em face de sua permanente contribuição através de parcerias com os Governos do Estado e Municípios, que muita diferença tem feito em favor da Sociedade Mineira. Mas, recorrendo à abrasileirada metáfora de Aristóteles (384-322 a.C.), “uma andorinha não faz verão”. Como fica o Brasil? 
 
É recorrente o argumento de que a Maçonaria brasileira não age como instituição, mas através dos Maçons, o que não comprova a sua história de verdadeiro partido político no passado. Essa realidade e as várias Potências em que se dividiu a Ordem, com destaque para as cisões de 1927 e 1973, com reconhecida perda de sinergias, nos relembra a necessidade de reflexão sobre o conceito de família unida representada pelo “Feixe de Esopo”, do fabulista grego de mesmo nome (séc. VI a.C), que relembra o combalido conceito de que a união faz a força. 
 
Embora haja impedimentos regulamentares para discussão política partidária nas Lojas, dentre outros temas, nada obsta à promoção de debates públicos, fóruns de discussão, seminários, oferecimento de projetos e estudos, investimento em obreiros com potencial eleitoral e orientação do voto maçônico, que promovam o retorno da Maçonaria ao cenário político nacional, em especial na trincheira de combate às mazelas que desvirtuam os valores mais caros do nosso povo. 
 
Para esse fim, torna-se inadiável para a Ordem no Brasil reaprender a traduzir em linguagem política os descontentamentos e anseios latentes em nossa sociedade, mostrando alternativas, ocupando espaços que permitam aos obreiros a reivindicarem, de forma organizada, as mudanças que todos exigem “como nunca antes na história deste país”, pois a perda de contato com a realidade paralisa a consciência crítica. O dramaturgo e poeta Bertolt Brecht (1898-1956) certa vez escreveu em uma poesia: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala. Nem participa dos acontecimentos políticos...”. Aquele pensador ainda reforçou: “Que continuemos a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem”.  
 
Essa reflexão invariavelmente resvala na dúvida a respeito da identidade da Maçonaria. Teria ela se perdido nestes tempos de mudanças-minuto, ideias curtas e respostas rápidas? Atualmente, bastaria apenas parecer bonito e importante na foto? Restaria à Maçonaria no Brasil apenas um grande passado pela frente e permanecer contemplando-se no retrovisor da história? 
 
E assim retomamos os questionamentos primitivos onde precisemos saber primeiro o que somos, para onde iremos, o que nos motiva, que questões nos unem e nos moldam. Sem isso a imagem no documento de identidade ficará cada vez mais irreconhecível em confronto com a realidade de quem a exibe.
 
Não somos responsáveis apenas pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer.” (Molière, dramaturgo francês)  
 
 

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras e, para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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O filtro da Loja

“A quem muito se deu, dele muito se exigirá; e a quem muito se entregar, muito se lhe pedirá”

Um templo maçônico é construído, unindo-se tijolo a tijolo com a argamassa reparada pelo pedreiro, que assim levanta suas paredes e verifica a sua perfeição com o auxílio do Prumo e do Nível, tornando a aparência rude em lisa com a Trolha, utilizada para estender o reboco e cobrir todas as irregularidades, para anunciar que está tudo correto, proclamando: tudo está justo e perfeito, fazendo parecer o edifício como formado por um único bloco e por isso, a Trolha pode ser considerada como um emblema de tolerância e indulgência com que todo Maçom deve dissimular as faltas e defeitos de seus Irmãos.

É esse o segredo da vida dotada de força. Apenas com a inteligência não se pode ser um ser moral, nem fazer política. A razão não basta, as coisas decisivas passam-­se para além dela. Os homens que fizeram grandes coisas amaram sempre a música, a poesia, a forma, a disciplina, a religião e a nobreza. Iria mesmo ao ponto de afirmar que só as pessoas que assim procedem conhecem a felicidade! São esses os chamados imponderáveis que dão o cunho próprio ao senhor, ao homem; aquilo que ainda vibra na admiração do povo pelos atores é um resto incompreendido disso.

Porém é o Mestre quem diz que sua obra está perfeita. Dentro deste templo construímos uma Loja. Uma Loja é construída com a energia dos Irmãos, ela encerra todas as virtudes dos seus membros, mas também todos os seus vícios. Se permitirmos que as virtudes prevaleçam, ela se enche de brilho e reflete em seus criadores a aura de felicidade, de paz, de harmonia, de satisfação, de bem estar físico e espiritual.

Vício é o hábito mau, oposto à virtude, que é o hábito bom. Vício é tudo quanto se opõe à natureza humana e que é contrário à ordem da razão; um hábito profundamente arraigado, que determina no indivíduo um desejo quase doentio de alguma coisa, que é ou pode ser nocivo. É tudo o que é defeituoso, o que se desvia do bom caminho. Sendo coisas extremas, os vícios estão em oposição não só com a virtude, senão também entre si; as virtudes, pelo contrário, concordam sempre entre si.

Quando permitirmos que os vícios, os erros, o egoísmo, o individualismo, dominem, isso nos devolve a sensação de opressão, angústia, desânimo, desilusão.

Mas quem é o filtro que se coloca diante de nossos defeitos de modo a não permitir que eles se amplifiquem dentro do templo e transformem a Loja?

Quem é que amplia nossas qualidades, tornando os trabalhos justos e perfeitos?

Quem é que com suas críticas ajuda Loja a crescer?

Quem é que com seus elogios nos enche de orgulho, mas nos alerta que nas Lojas Maçônicas, os ótimos são apenas bons?

Quem é que diante de nossas divergências nos lembra que os motivos que nos unem são maiores do que aqueles que nos separam?

É o Venerável Mestre. Esse é Irmão que, no decorrer de sua administração, deve saber filtrar as queixas, saber amplificar as qualidades; que se cala como um sábio para evitar desavenças e que fala como profeta aos que sabem ouvi-­lo.

Juiz por Instalação… Salomão por mérito, manifestação de respeito, fidelidade, subordinação e digno de reverência. O peso que exerce o Venerável Mestre na administração da Loja, é decisivo. Ele é o que suas ações exemplificam.

Na Maçonaria, como em qualquer outra instituição humana, são comuns as homenagens a Maçons que se distinguem por seus méritos; essas homenagens, todavia, devem ser prestadas com parcimônia e recebidas com humildade; a parcimônia, para que elas não se transformem em moeda vil, em balcão de comendas; a humildade, para que o homenageado tenha em mente que o dever está acima das galas momentâneas.

O que se espera do dirigente

O Venerável Mestre não é apenas um condutor de reuniões (se bem que de cada reunião deva nascer o encaminhamento para a solução dos problemas propostos. Se uma reunião for estéril e o seu resultado ineficaz, estarão comprometidas e desacreditadas as reuniões seguintes). Sem sombra de dúvidas, podemos afirmar que o Veneralato é uma investidura que impõe ao Maçom importantes e sérias responsabilidades, cuja incumbência deve ser efetuada com galhardia, zelo e satisfação, ainda que sejam as tarefas difíceis e a jornada árdua. É, pois, um sacerdócio e uma magistratura à altura do Rei Salomão.

Lembremo-nos que todo o Maçom possui um compromisso com o futuro da Ordem e deve ter facilitado os meios de participar das atividades da Loja. Cada um a seu nível, dentro de suas condições e capacidade, mas é tarefa do Venerável orientar, coordenar e comandar (= mandar com), cabendo-lhe a execução e o esforço em procurar todos os recursos para:

  • Buscar a satisfação dos irmãos, de suas atividades ritualísticas, filosóficas e sociais; 
  • Manter e melhorar o desempenho da Oficina, funcionando de modo pleno, inteiramente voltada para cumprimento do programa estabelecido pela Constituição e Regulamento Geral;
  • Procurar sempre fazer mais e melhor, capacitando a Oficina para: 

– que haja vida, trabalho, ação e comunhão de idéias com seus Irmãos;

– manter os Irmãos unidos e integrados para que se completem e complementem as partes, ouvindo    todos e procurando concordância de ideias, de opiniões, num trabalho conjunto, harmonioso e  produtivo de todos os Irmãos.

  • Estimular a participação, o raciocínio e a reflexão de todos os Obreiros, inclusive dos Companheiros e Aprendizes, nas tarefas que executam. Dando-­lhes objetivos e solicitando-lhes o auxílio, ganhando com isso benefícios de toda ordem. Todos os Irmãos devem pensar, questionar, raciocinar e procurar os meios de otimização das atividades. É privilégio do Venerável elogiá-­los por isso, ou cobrar-lhes atuação e maior empenho.

Diversos são os caminhos para se fazer alguma coisa

Em que pareça o sistema gerencial da Loja Maçônica ser um conjunto de elementos, materiais ou ideais, nitidamente participativos, entre os quais se possa encontrar ou definir alguma relação, os Obreiros de uma maneira geral reagem à participação. Daí, os atributos e qualificações que o Venerável Mestre deve ser naturalmente dotado para vencer o primeiro obstáculo de sua administração, que é a incapacidade natural que o homem tem para conseguir e obter compreensão, cooperação e auxílio dos outros.

Sempre existirão diferentes formas de se compreender e solucionar um problema ou melhorar alguma coisa. É preciso buscar a solução que satisfaça aos objetivos fixados, às necessidades do momento e a opinião sensata dos Mestres e da maioria dos envolvidos. Cooperar, trabalhando para que todos sejam beneficiados; com o cuidado para não enveredar pelo caminho do individualismo – valorizando as qualidades peculiares – suas e também dos ouros, lembrando porém, que não é ele, por “estar” Venerável Mestre, o valor mais elevado, mas sim, que juntos os atributos e conhecimentos que habilitam alguém a desempenhar essa honrosa função, adquirem mais forças.

Ao Venerável Mestre cabe continuar servindo, direcionando a ação e fomentando a cooperação entre todos, porque seu papel é interpretar os fatos e tomar as decisões mais eficazes. Com seu exemplo, outros, em igualdade de condições farão o mesmo. Assim teremos melhores dirigentes, e conseqüentemente, uma Maçonaria mais em concordância com seus fundamentos originais.

Rogamos, humildemente, a bênção divina para que um dia, em isso acontecendo, daremos como alcançado, o nosso intento.

Permita Senhor do Universo, a realização dos sonhos que acalentamos!

Autor: Valdemar Sansão

Fonte: JB News

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A Tolerância

Tolerância | Oi Diário

Dentro daquilo que a Maçonaria preconiza como ideal, a mente do maçom equilibrado não tolera tudo. É incentivado a ser inimigo figadal dos que tolhem a liberdade das massas e tentam agrilhoar a ele ou seus irmãos. Recebe treinamento para repudiar emoções desenfreadas que induzem à tirania e conduzem ao despotismo. É intransigente com a intolerância desenfreada que conduz a perseguição ou a ignorância das massas conduzidas qual manada por homens inescrupulosos. Sua tolerância deve ser tal que não fique posando o como ingênuo que confunde tolerância com licenciosidade.

A Maçonaria promove a autoeducação àqueles que são iniciados em seus segredos. Tem por alvo construir um povo desenvolvido que não possa ser escravizado. Parte da premissa onde um povo ignorante não pode ser libertado. Daí provoca o maçom a obter o Conhecimento natural da Física para obter liberdade. Assim, ele desenvolve tolerância para com o pensamento do próximo, para que todos os envolvidos no método cresçam. O maçom é o estudioso prático, um intelectual que age. Está ciente que sem estudo o progresso é impossível, e sem discussão e exercício do pensar não existe evolução. Assim, o maçom torna-se livre pensador.

A história da Maçonaria tem em torno de dois séculos. Afirmar que seja mais velha é apenas vaidade de uns poucos que acreditam que, quanto mais no passado estiver a origem de uma organização, maior é sua credibilidade e grandeza. E neste espaço de tempo ela angariou miríades de inimigos implacáveis e vingativos, sempre movidos pela intolerância, ignorância e escravidão mental e espiritual. No Brasil, um grande exemplo de intolerância com a escravidão física, mental e espiritual proveio do maçom Deodoro da Fonseca. São de sua iniciativa: institucionalizar o casamento civil, tornar sem efeito jurídico o matrimônio religioso; instituir o registro civil; proibir o ensino de religião em escolas públicas; tirar os cemitérios do domínio das igrejas, secularizando-os; promulgar o Código Penal que extinguiu a pena de morte em tempo de paz no Brasil; e outros. Mesmo que tenha dirigido o país por curto tempo com ditadura, ele é exemplo de maçom que atuou em defesa das liberdades constitucionais e dos direitos inerentes ao povo. Usava da tolerância e da intolerância com equilíbrio.

É treinando os adeptos que a Maçonaria combate intolerância, tirania, fanatismo, brutalidade e ignorância. O fato de desenvolver a tolerância, não significa que ela seja subserviente e sucumba diante da posição de homens mal orientados, mas bem intencionados, pois se assim fosse, ela já teria caído no esquecimento há bastante tempo. No exercício da tolerância e em seu treinamento a Maçonaria define que tolerância, assim como praticado pelo irmão Deodoro da Fonseca, exige a definição de limites.

Quando o maçom filosofa, ele faz exercícios na arte de pensar. Especula e teoriza dentre as mais variadas linhas de pensamento, aí ele exercita a tolerância. Respeita e defende o que o outro maçom diz e pensa, a tal ponto que afirma ser capaz até de morrer para defender o pensamento de seu irmão. É como pretende da Física alcançar intuições que o levem a entender a sua herança cósmica, de onde seus elementos básicos foram retirados.

Ao maçom entende que o filosofar é pensar sem provas. Isto exige tolerância! Perseverar num erro é para ele uma falta que deve ser combatida. É a intolerância disparada pela ultrapassagem a limites estabelecidos: o limite do que é tolerável! Parte do princípio que ao intolerante imoral falta mesmo é inteligência! É desprovido de liberdade e não quer, por isso, dar liberdade aos outros. Para o maçom a liberdade de espírito vem da experiência e da razão exercida com tolerância limitada, pois só assim ela é efetiva. Entretanto, os pensamentos além da Física são desejados e podem ir ao infinito porque não há necessidade de provar o que se pensa, desde que apoiado na Lógica.

E como a necessidade de tolerância surge apenas em questões de opinião, então, em suas discussões e estudos, normalmente é de praxe ao maçom sábio fazer exercícios de dicotomia: apresenta as mais diversas linhas de pensamento para qualquer verdade que defenda, deixando para o ouvinte tirar suas próprias conclusões daquilo que postula em seu filosofar.

O maçom é condicionado na prática a combater a tolerância absoluta porque sabe que uma tolerância universal é moralmente condenável exatamente porque se esqueceria das vítimas em casos intoleráveis de violência e abuso dos tiranos. Isto é, existem situações em que a tolerância em excesso perpetuaria o martírio das vítimas. Dentro dos limites ditados pela moral, tolerar seria aceitar o que poderia ser condenado, seria deixar fazer o que se poderia impedir ou combater. Nesta linha podem-se tolerar os caprichos de uma criança ou as posições de um adversário, mas em nenhuma circunstancia o despotismo alienante de pessoa ou instituição.

Com humildade aceita que não há tolerância quando nada se tem a perder, haja vista que tolerar é responsabilizar-se: tolerância que responsabiliza o outro não é tolerância. Tolerar o sofrimento dos outros, a injustiça de que outros são vítimas, o horror que o poupa, já não é mais tolerância: é indiferença, egoísmo ou algo pior. Antes ódio, fúria, violência que passividade diante do horror, aceitação vergonhosa do pior! Pela imposição de limites o maçom se impõe em resultado de seu treinamento. Tolerância universal seria tolerância do atroz. Quando levada a extremos a tolerância acabaria por negar a si mesma.

A tolerância só vale dentro de certos limites, que são os da sua própria salvaguarda e da preservação de suas condições e possibilidades. Se o maçom enveredasse numa tolerância absoluta, mesmo para com os intolerantes, se não defendesse a sociedade tolerante contra seus assaltos, os tolerantes seriam aniquilados, e com eles acabaria também a própria tolerância. O treinamento maçônico revela que uma sociedade em que tolerância universal fosse possível, já não seria humana. As conclusões da Ordem Maçônica levam os adeptos a verificar que a tolerância é essencialmente limitada, pois uma tolerância infinita seria a fim da própria tolerância. Daí não se tolerar tudo, pois destinaria a tolerância à sua perda. Também não se deve renunciar a toda e qualquer tolerância para com aqueles que não a respeitam. Aquele que só é justo com os justos, generoso com os generosos, misericordioso com os misericordiosos, não é nem justo nem generoso nem misericordioso.  Tampouco é tolerante aquele que só o é com os tolerantes. A tolerância como virtude depende do ponto de vista daqueles que não a têm. O justo é guiado pelos princípios da Justiça e não pelo fato do injusto não poder se queixar.

Democracia não é fraqueza. Tolerância não é passividade. Moralmente condenável e politicamente condenada, a tolerância universal não seria nem virtuosa nem viável. A tolerância como força prática, como virtude, tem os seus fundamentos alicerçados no fato de que a fraqueza humana resulta de sua incapacidade de alcançar o absoluto.

A prática das oficinas maçônicas, naquelas onde permanentemente é exercitada a capacidade de pensar, discutir, debater, ouvir e calar revela que a evidência é qualidade relativa. Mesmo que algo pareça exato, verdade, correto, pode, no decurso de um debate mostrar que não é absoluto, daí nunca admitir-se que uma verdade seja absoluta e final. As discussões, longe de afastar um irmão do outro, aproxima-os quando praticam dentro dos limites impostos pela tolerância que todos os seres humanos, indistintamente, são constituídos de fraquezas e cometem erros. Com isto em vista, o maçom desperto e ativo perdoa as tolices que o outro diz e aguarda que aquele irmão de pensamento equivocado acorde de sua inconsciência, dando cumprimento para com a primeira lei da sua natureza, a falibilidade.

A grande salvaguarda do maçom quando se contrapõe aos tiranos é o conhecimento de que aquele, mesmo que possua em suas mãos o poder absoluto, não tem condições de impô-lo a ninguém, porque não poderia forçar um indivíduo a pensar diferente do que pensa, nem a crer verdadeiro o que lhe pareça falso. Esta a razão de a Maçonaria ter sido hostilizada e proibida desde quando foi criada na França e Holanda, países onde foi proscrita logo no início de sua expansão. É no pensamento que o maçom é livre de forma absoluta, pois não há liberdade nem sociedade próspera sem inteligência.

Tolerância é tema fundamental da Maçonaria, inclusive sua existência é devida a ela, pois nasceu em decorrência da intolerância entre facções políticas e religiosas. É tolerância calcada na definição de limites claros. Se alguma ação ultrapassa o limite definido pelas leis em vigor em sua linha de tempo, não tem comiseração, a lei deve ser aplicada com rigor ou toda a sociedade fenece.

Cada maçom é estimulado de forma diferente pelo ensinamento da Maçonaria. O lastro que carrega mostra que o principal aspecto da Ordem Maçônica é o desenvolvimento de princípios morais calcados na espiritualidade. Simbologia, ritualística e toda a filosofia envolvida, sempre em seu centro destaca a espiritualidade. O meio para desenvolver em espírito, apesar de ressaltado, não fica tão evidente. Apenas os mais sensíveis e aplicados a desenvolvem. Existem homens Maçons já bem antigos na ordem maçônica que sequer sabem de fato o que alguns símbolos representam. Um exemplo é o símbolo composto formado pelo esquadro, compasso e o livro da lei, onde o olho perspicaz visualiza um homem circunscrito por uma estrela de cinco pontas, significando a criatura religada ao Grande Arquiteto do Universo por laços de carne, pela espiritualidade encarnada. E disto se deduz a união com o Grande Arquiteto do Universo, sua religação com a divindade.

A tolerância é o que permite aos maçons viverem em harmonia. Onde esta não existir, certamente não há tolerância com limites. Em consequência não existe amor, a única solução de todos os problemas da Humanidade. E onde não existe amor também não se manifesta o Grande Arquiteto do Universo, aquele Deus pessoal ou aquilo que cada um venera a sua maneira, pois esta energia da Natureza, da Física a caminho da Metafísica, só se manifesta onde as pessoas se tratam como irmãos, demonstram e praticam o mais profundo amor entre si.

Autor: Charles Evaldo Boller

Fonte: Informativo Chico da Botica – Nª 64 – ano 8 (2012)

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Referências Bibliográficas

1. BAYARD, Jean-Pierre, A Espiritualidade na Maçonaria, Da Ordem Iniciática Tradicional às Obediências, tradução: Julia Vidili, ISBN 85-7374-790-0, primeira edição, Madras Editora Ltda., 368 páginas, São Paulo, 2004;
2. BENNETT, William John, O Livro das Virtudes, Antologia, título original: A Tresaury of Great Moral Stories, ISBN 85-209-0672-9, primeira edição, Editora Nova Fronteira S/A, 534 páginas, Rio de Janeiro, 1993;
3. CAPRA, Fritjof, A Teia da Vida, Uma Nova Compreensão Científica dos Sistemas Vivos, título original: The Web of Life, a New Scientific Understandding Ofliving Systems, tradução: Newton Roberval Eichemberg, ISBN 85-316-0556-3, primeira edição, Editora Pensamento Cultrix Ltda., 256 páginas, São Paulo, 1996;
4. COMTE-SPONVILLE, André, O Espírito do Ateísmo, título original: L’esprit de L’théisme, tradução: Eduardo Brandão, ISBN 978-85-60156-66-5, primeira edição, Livraria Martins Fontes Editora Ltda., 192 páginas, São Paulo, 2007;
5. COMTE-SPONVILLE, André, Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, tradução: Eduardo Brandão, ISBN 85-336-0444-0, primeira edição, Livraria Martins Fontes Editora Ltda., 392 páginas, São Paulo, 1995;
6. GREGÓRIO, Fernando César, Chaves da Espiritualidade Maçônica, ISBN 978-85-7252-236-6, primeira edição, Editora Maçônica a Trolha Ltda., 184 páginas, Londrina, 2007;
7. ROHDEN, Humberto, Educação do Homem Integral, primeira edição, Martin Claret, 140 páginas, São Paulo, 2007;
8. SOUTO, Élcio, O Iniciado, Drama Cósmico Maçônico, ISBN 85-7374-331-X, primeira edição, Madras Editora Ltda., 106 páginas, São Paulo, 2001.

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