A Prancha do Aprendiz

A Pedra Bruta, o Maço e o Cinzel. :: Loja "Alferes Tiradentes"

Para o Aprendiz que se entrosou no grupo e que vem fazendo o seu trabalho, com assiduidade e diligência, chega sempre um momento em que um Mestre – por regra o Vigilante de sua coluna, mas pode ser qualquer Mestre -, no meio de uma descontraída conversa, a propósito ou aparentemente a despropósito, lança, como quem não quer a coisa, a pergunta: 

– Então, já escolheste o tema da tua Prancha?

Este é o primeiro sinal que é dado ao Aprendiz que os Mestres da Loja entendem que o seu trabalho está a ser frutífero e que se aproxima a hora de novo avanço. O tempo da integração e da adaptação decorreu e está próximo de terminar, o tempo de progredir está-se a aproximar. Não quer isto dizer que a progressão, o avanço esteja já aí ao virar da esquina. Não é incomum que, entre o momento em que o Aprendiz é incentivado a começar a elaboração da sua prancha e aquele em que deixará de ser Aprendiz, medeiem uns bons seis meses, ou mesmo mais. É que, entre o primeiro incentivo ao Aprendiz à elaboração por este de uma prancha e a conclusão por este da dita, vai seguramente decorrer algum tempo. E depois há que agendar a sua apresentação em Loja. E, decorrida esta, haverá que aguardar pela ocasião propícia para a Passagem do Aprendiz à fase seguinte do seu percurso maçônico. E já neste espaço deixei consignado (por várias vezes) que pressa e maçonaria não ligam bem…

A elaboração pelo Aprendiz de uma Prancha é essencial para possibilitar o seu avanço de grau. A Prancha do Aprendiz é como que o relatório do seu trabalho, o registo da sua mudança, a exposição da sua evolução, patenteados perante a Loja. Não é um exame – o Aprendiz não tem que provar a sua proficiência em Simbolismo, Aperfeiçoamento e Artes e Ofícios Correlativos… Aliás, tudo o que o Aprendiz tem de provar, tem de o fazer a si próprio, apenas e tão só, e a mais ninguém. Se ele quiser lograr alguém, só ele será enganado, mais ninguém…

A Prancha do Aprendiz é, antes do mais e para além de tudo o mais, apenas mais um trabalho que este deverá executar. Com a diferença que este se destina, não apenas ao interior de si próprio, mas também a ser apresentado, escrutinado, apreciado em Loja.

O essencial interesse da Prancha de Aprendiz é a sua feitura. Mais uma vez, o que interessa é o percurso, não a meta. Também aqui o essencial é o trabalho que o Aprendiz realiza e não propriamente o seu resultado final. Há Pranchas de Aprendiz belas e vulgares. Enciclopédicas e triviais. Extensas e breves. Profundas e superficiais. Enfeitadas e toscas. Literatas e simples. Imaginativas e insossas. Há de tudo. Não importa. O que importa é o investimento pessoal que o Aprendiz fez na sua elaboração e, com ele, o que aprendeu, o que sistematizou, a aresta que limou.

Apresentada que esteja a prancha, ela deve sempre ser objeto de apreciação e comentário dos Mestres presentes. Normalmente, todos os Mestres, ou quase, se pronunciam. E todos os que o fazem, qualquer que seja o nível da prancha, do mais esplendoroso e credor de admiração, ao mais simples, nos seus comentários lobrigam algo de positivo, algo de bom, e algo de negativo, algo susceptível de melhoria. Pode o trabalho ser objeto dos mais entusiásticos encômios – mas não deixará de ver apontado um, insignificante que seja, aspecto em que se declara que podia ser ainda melhor. Pode o trabalho sofrer as mais ferozes críticas – mas não deixará de se realçar, por minúsculo que seja, o aspecto merecedor de uma referência elogiosa. Porque todo o trabalho dedicadamente feito merece encómios e nenhum trabalho humano é perfeito. Porque foi feito e apresentado por um dos nossos. E os nossos têm de nós sempre o elogio misturado com a censura, para que nunca sucumbam à tentação de subir às alturas que causaram a queda de Ícaro; e os nossos merecem de nós sempre a crítica lúcida, verdadeira e leal, mas sempre temperada com o incentivo do nosso reconhecimento do que de bom é feito e da sua capacidade de fazer melhor.

Normalmente, as três últimas intervenções são, respectivamente, do 2.º Vigilante, do 1.º Vigilante e do Venerável Mestre – que sintetiza tudo o que foi dito, anunciando que oportunamente se procederá ao aumento de salário (isto é, à passagem de grau) do autor da prancha.

Assim se declara o reconhecimento da Loja da evolução que o Aprendiz teve desde que foi iniciado.

Autor: Rui Bandeira

Fonte: A Partir Pedra

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Reflexos da ética maçônica

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O Rito Escocês Antigo e Aceito tem rica filosofia da qual o Maçom dispõe para a sua autoconstrução. Este cabedal filosófico reflete-se na sociedade na forma de mudanças que promovem libertação do sistema humano que subjuga o pensamento das pessoas. E todas as mudanças sociais e políticas ocorrem antes na mente e depois se materializam na forma de ações e produtos em constante evolução e graus de complexidade. A transformação é obtida aos saltos pelos que trabalham os neurônios constantemente. Abruptamente, despertam, fixam-se e mudam conceitos, verdades. Ao longo da história humana os saltos intuitivos sempre foram influenciados por fatores ambientais, genéticos e culturais. O software da mente gravado no hardware do cérebro humano só progride em resultado da troca de informações entre indivíduos em debates, conversas ou leituras. O método maçônico visa estes saltos intuitivos dos seus adeptos para encontrar a solução de problemas que se refletem na sobrevivência pacífica da espécie humana.

O homem sempre usou dos pensamentos dos seus semelhantes para desenvolver máquinas, escrita, arte, ciência e toda a cultura existente. O Maçom usa os seus companheiros para deles extrair e desenvolver pensamentos que mudem a sua forma de pensar e agir no campo moral. Da camaradagem desenvolvida nas reuniões brota a força que muda intelecto, emoção e espiritualidade. É a energia condicionadora que o grupo social exerce sobre o indivíduo. E isto é realidade desde a época das cavernas, onde um ser humano influiu na educação do outro, até acumular no presente toda a vasta cultura política, metafísica, social e tecnológica. O Maçom é multiplicador da filosofia político-social da Maçonaria. Do conjunto de atividades do filosofar maçônico ele desenvolve posturas que constituem o código de ética que dirige os seus passos e que se reflete no meio social. E como ética e moral se confundem, pois é tênue a sua diferença e profundo o seu alcance, convém esclarecer o que é a ética maçonicamente orientada.

Na conceituação da Ética é possível identificar dois grandes campos de concepções fundamentais: na primeira concepção, “o bem seria para onde se dirigiria o homem”, e na segunda concepção, “o bem seria uma realidade, embora não inscrita na natureza, humana e alcançável” (Abbagnano, 1998, página 380 e 381).

A Ética, um ramo da Filosofia que busca os princípios ou fundamentos da natureza das ações humanas, pode também referir-se a princípios que fundamentam o pensar humano, sem formular ações ou regras de conduta, precisas e fechadas. Ética, também chamada de Filosofia da Moral, é caracterizada por ser um pensar reflexivo dos princípios ou fundamentos que determinam os valores e as normas que governam a conduta humana. Nesta perspectiva, a Ética, enquanto Filosofia da Moral, mantém ampliadas ligações de natureza prática com outras áreas do conhecimento humano, dentre as quais, a biologia, a antropologia, a economia, a sociologia, a teologia, a história e a política. São áreas do conhecimento caracterizadas por serem disciplinas regidas pela lógica cartesiana da sistematização, com ordenamento racional e perda do caráter sagrado, portanto, ciências descritivas ou experimentais.

A Ética, enquanto Filosofia da Moral, ao contrário, busca a determinação dos fundamentos ou princípios que justificam a natureza de teorias normativas e estando determinados os fundamentos ou princípios, aplica-os, se necessário, e quando for o caso, aos dilemas morais.

Algumas áreas do conhecimento que eram objeto de estudo da filosofia, em especial da Ética, após a revolução industrial e a consequente profissionalização e especialização do conhecimento, estabeleceram-se como disciplinas independentes e científicas. Assim, pôde a Ética ser definida como a área da Filosofia que estuda as normas morais nas sociedades humanas e que pretende explicar e justificar os costumes de uma determinada sociedade, bem como, solucionar dilemas a ela inseridos.

A Moral é um conjunto de normas e regras estabelecidas por cada sociedade e aplicadas ao quotidiano de cada pessoa. A Moral ocorre em dois planos: o normativo e o factual. De um lado, nela encontramos normas e regras que tendem a regulamentar a conduta dos homens e, de outro lado, um conjunto de atos humanos regulamentados por eles; cumprindo assim a sua exigência de realização (Vásquez, 1998, página 51-64). A Moral, com as suas normas e regras, que orientam e julgam as ações do indivíduo sobre o que é certo e errado, bom e mau, moral e imoral. Um pensar sobre a conduta.

A Ética investiga justamente o significado e propósito desses adjetivos, tanto em relação à conduta humana, como no seu sentido fundamental e supremo. Um pensar a partir de princípios ou fundamentos. Um infindável pensar, refletir e construir.

Noutra perspectiva, existe a Moral como primazia exclusiva, defendida por um sistema filosófico, o Moralismo, que fundamentou ideologias de intolerância, de preconceito e de puritanismo. Para alguns, a palavra Moral foi desqualificada por esta associação a Moralismo e, deste modo, justificaram a preferência em associar à palavra Ética as regras e os valores por eles consagrados. No campo das ideologias, não se pode deixar de apontar a diferença que se estabeleceu entre a lógica dos que associaram a palavra Ética às regras e valores por eles consagrados e a lógica dos moralistas, onde a Moral aparece como primazia exclusiva. Passou a referir-se a julgamentos éticos, ou princípios éticos, quando seria mais pertinente falar de juízos morais ou princípios morais.

Assim, existem pessoas que possuem um valor e por um processo psicológico que legitimam as normas ou regras decorrentes e pautam a sua conduta por elas, sem controle externo, só porque estão emocionalmente convictas de que esta regra representa um bem moral. Outras pessoas por costume e por hábito validam certas condutas.

Há aquelas que consideram determinadas condutas como boas, e assim, devem ser praticadas. Aqui o juízo de valor como matriz para a legitimação das normas. São exemplos de conduta Moral, de Moralidades. Existem pessoas em que os processos inconscientes seriam os determinantes da conduta moral, que são oriundos da sua individualidade pessoal e social, responsável pela forma habitual e constante de agir do caráter e da personalidade. Este é um exemplo de Ética, enquanto Filosofia da Moral.

A partir do final do século XIX, da era dos sofistas e início do século XX, observa-se na Ética ocidental três perguntas constantes:

  • Seriam os juízos éticos reflexos dos desejos dos que os criam ou verdades inseridas neste mundo?;
  • Seria a ação boa, fruto da racionalidade construída, introjetada ou inculcada ou simplesmente ação vinculada ao interesse próprio?; e ainda,
  • Qual seria a natureza do certo, do errado e do bem?

Desde o início do século XX estes temas desenvolveram-se nas mais variadas formas, com ênfase na aplicação da Ética para problemas práticos e descritos como Ética normativa, Ética aplicada e Meta-ética. Esta última como estudo que, diferente de se prender à análise de teorias éticas ou julgamentos morais, dedica-se à busca da natureza dos juízos morais, se objetivos ou subjetivos.

Por óbvio, pode-se estar a inserir aqui a Ética Maçônica como estudo contemporâneo e ajustado ao paradigma deste milênio, quando ela busca ajudar os irmãos a legitimar intimamente valores, pela introjecção de princípios ou fundamentos que os farão conduzir-se, coerentemente, por normas e regras consagradas como boas e virtuosas. Abordam-se os princípios ou fundamentos filosóficos que pretendem ser valores intimamente legitimados pelos maçons e passem a ser sistema de regras e normas que os norteiem e os qualifiquem nas relações entre irmãos e sociedade.

Considera-se que o Maçom se aperfeiçoa gradativamente, lentamente acordando dentro de si mesmo, pela auto-educação, autoconhecimento e relações fraternas. Esta ética maçonicamente orientada, onde algumas etapas o levam a evoluir como pessoa humana pertencente a um único corpo vivo e interdependente ao qual se denomina humanidade.

E esta humanidade é o que o Maçom desenvolve em si na sua caminhada, na sua busca por religação ao divino e para cumprir a especificação de projeto do Grande Arquiteto do Universo. A ética maçônica tem reflexos imediatos na vida do cidadão formado nas colunas da Maçonaria. O Maçom que muda a si mesmo influencia o Universo inteiro e não apenas a circunvizinhança. Isto é perceptível na sua vida quando ao mudar paradigmas se torna dono do seu próprio futuro.

Autores: Charles Evaldo Boller e Carlos Alberto Peixoto Baptista

Fonte: Freemason

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O humano do futuro dá medo

Imagem relacionadaExiste um desenho icônico de como a espécie humana evoluiu do símio curvado ao erguido e orgulhoso Homo sapiens, com os progressivos estágios representados por indivíduos caminhando em fila indiana. Algumas versões incluem, no fim do caminho, um novo homem tecnológico curvado, dessa vez, sobre seu computador.

A evolução biológica para os seres humanos parece ter chegado à irrelevância. Ocorre por seleção natural, embora sempre façamos com que o meio se adapte a nós (a água sai da torneira, o alimento está na geladeira e a calefação combate o frio, quando se dispõe de todos esses recursos, claro), e se dá em períodos geológicos de milhões de anos, motivo pelo qual seria difícil acompanhá-la em nossa curta existência.

Mas a evolução continuará por outros roteiros: incorporaremos a tecnologia a nossos corpos e mentes. Além disso, experimentando um salto: as mudanças podem acontecer em alguns anos ou décadas. Iremos além do ciborgue, até o pós-humano, um ser que ainda nem imaginamos. Será parecido a um robô ou a um incompreensível perfil de Facebook? Será máquina ou consciência pura? Estamos perante o salto da humanidade à pós-humanidade. Como período de transição, virá o transhumanismo.

A utopia transhumanista

“Os transhumanistas acham que devemos usar a tecnologia para superar nossas limitações biológicas”, diz o filósofo David Pearce. “Usada sabiamente, a tecnologia pode propiciar um futuro de superinteligência, superlongevidade e superfelicidade. No entanto, são muitos os empecilhos”. Junto com Nick Bostrom, Pearce foi o co-fundador da Associação Transhumanista Mundial (agora Humanity Plus ou H+) e hoje é o diretor da BLTC Research, uma organização que tem como finalidade promover o que denomina “engenharia celestial”. Ou seja, “a abolição dos substratos biológicos do sofrimento e a criação de estados gloriosos de prazer sublime”. Como base de tudo, está a implosão tecnológica.

Singularidade Tecnológica é o termo que define a confluência de ramos como a nanotecnologia, a biotecnologia, a engenharia genética, a inteligência artificial, a clonagem terapêutica, a farmacologia e a ciência espacial, que, em breve, segundo futuristas como o engenheiro do Google Ray Kurzweil, mudará o mundo que conhecemos.

O ritmo do avanço tecnológico é exponencial e, graças a isso, de acordo com Kurzweil, o ser humano se livrará das cadeias biológicas. Pearce dá exemplos dos últimos passos rumo à pós-humanidade: o software que supera os humanos em atividades como jogar xadrez (o supercomputador Deep Blue, em 1997, venceu Gary Kasparov) ou dar um diagnóstico médico (como a inteligência artificial de Watson da IBM, que processa a informação de forma mais semelhante a um humano do que a uma máquina, aprende, responde perguntas e cria hipóteses).

A duração da vida pode ser estendida em animais induzindo mutações, e, em biotecnologia, a revolução da edição dos próprios genes anuncia uma era na qual a rápida modificação do seu próprio genoma pode ser a norma. Partindo para exemplos mais próximos, no filme Ela (2013), de Spike Jonze, o protagonista se apaixona por um sistema operacional que tem uma voz doce, parecido ao atual assistente pessoal Siri instalado em iPhones e iPads. Além disso, já estão disponíveis no mercado os óculos do Google (Google Glasses) e outros acessórios que, colocados em nosso próprio corpo, nos fazem ver o mundo de outra maneira.

Evolução apenas para os ricos?

O urbanista e advogado Albert Cortina e o biólogo Miquel Ángel Serra acreditam que chegou a hora de iniciar um debate aberto e multidisciplinar sobre o futuro da humanidade. Por isso, escreveram o livro ¿Humanos o posthumanos? Singularidad tecnológica y mejoramiento humano, no qual 213 vozes de diferentes disciplinas opinam sobre o que o ser humano deveria ou não se transformar. “Existem posturas bioconservacionistas que opinam que a vida deve permanecer inalterada. No outro extremo, estão os tecno-otimistas, a favor de qualquer avanço tecnológico para melhorar a humanidade”, explicam Serra e Cortina.

A verdade é que o movimento transhumanista gera críticas morais e religiosas (sobretudo a respeito da manipulação genética) e socioeconômicas. “Uma consequência negativa é a possibilidades de que só as elites possam ter acesso às melhorias tecnológicas e de que se crie uma humanidade que evolua a duas velocidades”, afirmam os autores do livro.

Um cenário semelhante ao mostrado no filme Elysium (2013), dirigido por Neill Blomkamp, onde os ricos aproveitam a tecnologia para abandonar a Terra e viver confortavelmente, deixando os demais para trás. No entanto, para os mais otimistas, como Kurzweil, há uma prova de que essa desigualdade não é inevitável: a internet e a telefonia celular, que chegaram a todo o planeta, inclusive aos países menos desenvolvidos.

O panorama parece de ficção científica: “Temos a evolução das máquinas, que podem conseguir chegar à inteligência artificial e, como um filho adolescente, querer emancipar-se de seus criadores, os humanos”, afirma Cortina.

“Houve muitíssimos avanços, mas isso não é nada comparado ao que vamos ver daqui em diante. Nos próximos 20 anos, vivenciaremos mais mudanças do que nos últimos dois milênios”, explica o cientista José Luis Cordeiro, co-fundador da Associação Transhumanista Venezuelana e professor da Singularity University do Vale do Silício, criada por instituições como o Google e a Nasa para “educar e inspirar” um quadro de líderes que possam compreender e guiar a Singularidade Tecnológica.

Cordeiro acredita que a inteligência artificial alcançará a humana em menos de duas décadas e que os cérebros artificiais vão complementar os humanos, não substituí-los. Em três ou quatro décadas, poderemos prevenir todas as doenças. A humanidade está a ponto de dar o salto à pós-humanidade; a tecnologia, segundo Cordeiro, substituirá a biologia: “Os pós-humanos não dependerão apenas de sistemas baseados na química do carbono, mas em componentes como o silício e outras plataformas mais convenientes para diferentes entornos, como as viagens espaciais”.

Assim é o futuro transhumanista

Que aspecto teriam os pós-humanos do futuro? Os transhumanistas defendem a liberdade morfológica, esclarece Pearce:

“Cada um tem o direito de ter o gênero, o corpo e a imagem que desejar. Algumas escolhas corporais extraordinárias podem ser previstas, tanto na realidade virtual como no mundo de carne e osso… Mas, suspeito que muitos devem optar por desenhos corporais que expressem os cânones de beleza ideal adaptativa de nossos ancestrais da savana africana”.

Seremos ciborgues? “O futuro é mais complexo do que isso”, diz Cordeiro. “Veremos uma explosão de novas formas de vida inteligentes”. Surgem termos como os bio-orgues (organismos modificados por meio de proteínas), os geborgues (modificados geneticamente), e os silorgues (organismos com base de silício). Uma nova fauna… Já estamos presenciando a existência de transhumanos.

Neil Harbisson vê em preto e branco, mas tem um terceiro olho que, mediante vibrações, permite que ele perceba as cores. O atleta sul-africano Oscar Pistorius teve as pernas amputadas quando era criança mas, graças a suas próteses biônicas de fibra de carbono, participou dos Jogos Paralímpicos de Londres.

Outro exemplo é Tim Cannon, um biohacker que fundou a companhia Grindhouse Wetware em Pittsburgh, dedicada a melhorar o ser humano através da tecnologia. Cannon implantou nele mesmo chips e aparelhos eletrônicos, em cirurgias caseiras, para melhorar suas habilidades: “Agora, graças à medicina moderna e à ciência, somos, pela primeira vez, capazes de tomar o controle da Evolução”.

Universo consciente, futuro real?

Para Raymond Kurzweil, chefe de engenharia do Google, o universo passa por diferentes fases. Primeiro veio, a época da física e da química, com a informação contida em estruturas atômicas. Depois, aparece o DNA que engloba a informação crescente. Em seguida, surgem os cérebros, que criam a tecnologia: essa é a época na qual vivemos e que, segundo Kurzweil, chegou ao fim. A partir de agora, a tecnologia, com inteligência própria, dominará os métodos de troca de informação das épocas anteriores, integrando-as e incluindo a inteligência humana. Finalmente, todo o universo estará cheio de tratamento de informações e conhecimento. O universo desperta e emerge uma inteligência que emprega todo o seu conteúdo nela mesma.

Autor: Sergio C. Fanjul

Fonte: El País

A Importância do Tempo de Estudos para o Maçom Especulativo

O objetivo deste trabalho é tentar revelar a importância do Tempo de Estudo em Loja, o qual pode servir como fonte de reflexão e de exercício das virtudes valorizadas pela sublime ordem. Ainda, procura causar, neste restrito tema, alguma inquietação que provoque nos leitores (ou ouvintes) o gosto pela especulação. Primeiramente, vamos retomar às origens da maçonaria especulativa e o que vem a ser esse termo.

A Maçonaria Especulativa, também chamada Maçonaria dos Aceitos, iniciou-­se por volta do ano de 1717 da era vulgar e perdura até os dias atuais. Os maçons que nos antecederam eram predominantemente operativos e dedicados à arte de construir, embora não negligenciassem os conceitos de fraternidade e guarda dos segredos da Arte Real (Audi, Vide, Tace). Os maçons aceitos levam esse nome porque foram aceitos entre os maçons operativos, mesmo sem possuir a mesma profissão dos maçons ditos antigos, utiliza do simbolismo das ferramentas operativas como forma de desbastar a pedra bruta, que eternamente seremos, seja do ponto de vista moral, espiritual ou intelectual.

O outro termo utilizado para designar os maçons modernos merece uma definição vinda do dicionário, ou seja, o que é especulativo, que vem de especular:

  • Especulativa: faculdade de especular.
  • Faculdade: poder de efetuar uma ação física ou mental; capacidade.
  • Especular: estudar com atenção e minúcia sob o ponto de vista teórico. Meditar, raciocinar.

Ser maçom especulativo significa ser observador, perceber os princípios morais subjacentes aos símbolos e aplicá-­los no desbaste da pedra bruta e na construção de relacionamentos humanos confiáveis, sinceros e leais. Isso é feito através do estudo e da observação, tentando apreender a melhor forma de construir uma harmoniosa e perfeita fraternidade. O que os maçons especulativos ultrapassam os limites de suas Lojas. O maior trabalho de um maçom moderno é aplicar de maneira prática e correta a sabedoria moral que, se espera, venha adquirindo durante sua vida maçônica.

O maçom vai à Loja para especular, estudar e aprender e volta ao mundo para trabalhar e aplicar o que aprendeu. O maçom especulativo não é mais um construtor material como o eram os mestres maçons operativos. Ele será, antes de tudo, um homem moralmente sadio em busca da luz da verdade, dedicado à construção do edifício moral próprio.

Símbolo maior disso é o Painel de Aprendiz, o qual devemos ter marcado a ferro e fogo em nossa mente. Na mais bela representação, segundo minha visão, vê-se o Aprendiz, meio homem e meio pedra bruta, se lapidando com o uso do maço e do cinzel. Enquanto o Aprendiz segura o cinzel, instrumento de precisão que desbasta a pedra bate-lhe com o maço, que é o símbolo da força que sozinho não desbasta, apenas destrói. Nessa alegoria vemos a construção de si mesmo, lapidando-se em busca da utópica perfeição, cabível apenas ao G.’.A.’.D.’.U.’., mas a qual deve ser perseguida dos pontos de vista já citados (moral, espiritual ou intelectual).

Se o maçom moderno deve ir à Loja para especular, estudar e aprender creio que momento mais que oportuno seja o tempo de estudo, ou, ¼ de hora (15 minutos). Entretanto, uma reflexão sobre a nomenclatura é válida, pois o que temos é tempo de estudo e não tempo de leitura. Para entender melhor, vejamos as definições extraídas do dicionário:

  • Leitura: ação ou efeito de ler.
  • Estudo: trabalho ou aplicação da inteligência no sentido de aprender uma ciência ou arte. Aplicação, trabalho do espírito para empreender a apreciação ou análise de certa matéria ou assunto especial. Ciência ou saber adquiridos à custa desta aplicação. Investigação, pesquisa acerca de determinado assunto.

É notório que as possíveis definições de estudo coadunam justa e perfeitamente com o dever de um maçom especulativo, que é especular, estudar e aprender e voltar ao mundo para trabalhar e aplicar o que aprendeu. A especulação deve ocorrer logo após a apresentação do trabalho, momento esse muito rico no qual os irmãos podem contribuir para o enriquecimento do trabalho ou até mesmo propor questões para o irmão que trouxe o trabalho em Loja. Quando um irmão tece comentários a respeito do trabalho, é fato que enriquece o que foi exposto, mas também serve como forma de promover o exercício da oratória, que se bem feita, cria instantaneamente lideres, pelo simples fato de convencer mediante argumentos.

Fazendo um paralelo com o Quadro de Aprendiz, quando apenas lemos um trabalho e ninguém faz comentários, vamos embora crendo que a forma como estamos manuseando o maço e o cinzel é perfeita. Por outro lado, as criticas e comentários nos impõem uma reflexão a respeito do manuseio e nos ajudam a apurar a arte do uso dessas ferramentas. Assim nos retiramos para o mundo profano com uma visão diferente daquela inicial quando da chegada na Loja.

Outro ponto sobre especulação a respeito do trabalho, que, creio eu, deva ser feita de forma quase que exaustiva, está no fato que essa prática vai de encontro à vaidade e ao encontro da temperança. A verdade é que quando alguém apresenta um trabalho em público, o que se espera são os aplausos e as palavras de agradecimento pelo belo trabalho exposto. Ninguém espera o contrário. Aqui vale a pena citar uma frase do escritor americano Norman Vincent Peale (1898­-1993):

“O mal de quase todos nós é que preferimos sermos arruinados pelos elogios a sermos salvos pelas críticas.”

O ser humano é vaidoso por natureza e, em geral, quando faz algo pelos outros, o faz não pela ação em si, mas na esperança de receber em troca o reconhecimento pela ação feita. A vaidade, segundo o dicionário, é o “desejo imoderado e infundado de merecer a admiração dos outros. Presunção mal fundada de si, do próprio mérito”. Acrescento: vício vil!

Sendo assim, esse momento de embate no tempo de estudos também é importante para ajudar a conter a vaidade e exercitar uma das quatro principais virtudes de um maçom: a temperança, a qual, segundo o dicionário é o “poder ou virtude pela qual o homem pode refrear os apetites desordenados”. “Parcimônia. Modéstia. Humildade”. Empregamos a temperança no tempo de estudos quando da forma como nos dirigirmos aos irmãos a respeito do assunto sendo especulado, o qual por sua vez, mesmo que a vaidade o instigue, deva usar a temperança para aplacá-­la e tratar o irmão como irmão.

Resumindo, creio eu ser o tempo de estudos momento único no qual o conhecimento trazido pode ser especulado e salutarmente debatido entre os irmãos, como forma de lapidar a pedra bruta do ponto de vista intelectual (conhecimento e reflexão) e moral (combate ao vício e estímulo às virtudes). Assim, faremos valer a resposta à indagação: “O que fazem em vossa Loja?”…”Levantam-­se templos às virtudes e cavam-­se masmorras aos vícios”.

Termino este trabalho a respeito da importância do estudo e da especulação com uma frase do escritor francês Bernard le Bovier de Fontenelle (1657–1757):

“É verdade que não podemos encontrar a pedra filosofal, mas é bom que ela seja procurada. Procurando-­a, encontramos muitos segredos que não procurávamos.”

Autor: Ivair Ximenes

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