Dilemas das redes na era da desordem informacional: Cyber-Narcisos, hordas em bolhas e o império da Big Tech.

O dilema das redes': sair da internet não vai salvar a internet

“Isso é tão Black Mirror!” é uma frase viral na conjuntura do novo normal. Em O Dilema das Redesdocudrama da Netflix dirigido por Jeff Orlowski, o ser humano contemporâneo que vive nas grandes cidades na era da hiperconexão é descrito como um junkie digital. Algumas horas distante do celular e o sujeito começa a entrar em estado de abstinência histérica como um cocainômano sem acesso ao pó.

Se a conexão à internet cai, em menos de 2 horas os sujeitos estão dominados por um vazio existencial tão profundo que nenhum poeta do ennui como Baudelaire ousou imaginar. A tese principal do filme é que o vício às bugigangas tecnológicas hoje onipresentes não é acidental: a adicção foi projetada e seu feitiço está funcionando.

“Os inúmeros efeitos nefastos das redes sociais não são novidade. Quem não brigou com um pré-adolescente hipnotizado pelo YouTube que deixou toda a lição de casa por fazer? Ou explicou pela enésima vez que não, não estão enterrando caixões cheios de pedra porque a Covid-19 é uma farsa? Ou, ainda, rompeu relações com um amigo de infância que se tornou um extremista político? (…) ‘Mídia social é uma droga. Nós temos uma necessidade biológica básica de nos conectar a outras pessoas. Isso afeta diretamente a liberação de dopamina como recompensa’, diz Anna Lembke, diretora na escola de medicina na Universidade Stanford.” (Patrícia Campos Melo na Folha de S. Paulo)

Com entrevistas coletadas junto a grandes figurões da Big Tech, funcionários de alto escalão das gigantes do Vale do Silício, o filme põe em questão o mundo dominado por Facebook, Google, Uber e outras empresas que hoje fazem explodir com zeros à direita as contas bancárias de seus fundadores e CEOs. Estamos fissurados nos gadgets fabricados pelas megacorporações transnacionais que hoje devoram tão vorazmente o nosso tempo. Não é incomum que alguém confesse, hoje em dia, que passa 6 horas (ou mais) dentro de um aplicativo como o Instagram ou o Whatsapp. 

Longe de ser uma distração inócua, este mergulho intensivo em uma comunicação mediada pela Internet e pela informática vem produzindo mutações sócio-políticas radicais que também incidem sobre as subjetividades. Através de nossa ação compulsiva nas mídias sociais, fornecemos meios sem precedentes históricos para o advento de um capitalismo de vigilância cuja prefiguração visionária devemos ao gênio literário de Zamiátin, Huxley e Orwell. Não foi necessário impor à comunidade que todos vivessem em casas de vidro (como em Nós de Zamiátin) ou que tivessem todos na sala-de-estar a teletela através do qual nos espia o Partido Único chefiado pelo Grande Irmão (como em 1984). 

Agora somos os voluntários servidores daqueles que nos vigiam, mensuram e monitoram. Nossas pegadas digitais são mais memoráveis que as pegadas que deixamos na areia ao andar em uma praia: computadores guardam os dados de nossa navegação de um modo que nos provoca a dizer que o “surfista” da internet tem seus movimentos muito mais gravados do que um surfistas das marés concretas (este que, se não estiver sendo filmado nem fotografado, terá suas proezas no surfe totalmente esquecidas e submersas no esquecimento). 

O Dilema das Redes revela para um amplo público os mecanismos utilizados pela Big Tech para colher a Big Data – para manter extensos logs sobre os internautas que somos surfando na infoesfera digitalizada. Este imenso e caudaloso oceano de dados tornou-se uma das mercadorias mais valiosas do capitalismo contemporâneo – também conhecido como cassino capitalism, pois muitas de suas lógicas internas e estruturais são fruto de um design que não difere muito das slot machines de Las Vegas.

O mais interessante em O Dilema nas Redes está no mergulho que intenta nas tendências psíquicas que estão sendo exploradas neste novo mundo hi-tech. Tudo indica que os bilionários do ramo, como Zuckerberg e Bezos, desejam que o Facebook e a Amazon se tornem serviços indispensáveis, que seja virtualmente inimaginável um mundo sem eles. Para isto, investem pesado na construção de um mundo onde o Narciso digitalizado é rei: individualista ao extremo, louco por curtidas em suas selfies, o Narciso on-line hoje encontra vários lagos nos quais pode se afogar por excesso de narcose consigo e com as migalhas da fama nas bolhas. 

A exploração das tendências psíquicas humanas basilares – o desejo de ser ouvido, de ser foco de atenção, de ter sua autoestima recebendo um boost a partir de reações alheias etc. – vem gerando um ambiente de alta toxicidade narcísica. Estamos vendo uma nova geração que, desde a puberdade, coloca sua autoestima na dependência direta dos likes e curtidas que recebe em seus posts. Uma diminuição nos likes, ou o fracasso em ser famoso nas redes, pode aumentar as tendências à automutilação ou ao suicídio em sujeitos que não concebem alicerce para a autoestima que não seja perpassado por um reconhecimento por seus pares na rede. 

Hoje somos todos ratos de laboratório de um megaprojeto destinado a nos transformar em consumidores hiperconectados que enxergam os apetrechos tecnológicos e as novas tecnologias comunicacionais como o suprassumo do imprescindível. Não se trata aqui de fazer uma pregação saudosista em prol dos encantos da presencialidade – ainda que vivamos em tempos que, devido ao confinamento imposto pela pandemia de Covid-19, sentimos saudade de um mundo onde os abraços eram possíveis e onde beijar na balada ou transar com um semidesconhecido era menos perigoso do que hoje. 

As relações presenciais e as relações remotas (mediadas pela tecnologia comunicacional que nos permite intercâmbios audiovisuais à distância) estão em rápida mutação, mas o hardware do ser humano, inclusive seu sistema operacional psíquico, ainda está baseado num tosquérrimos gregarismo – como dizia Nietzsche, ainda vivemos sob a hegemonia do “animal de rebanho” e é difícil encontrar alguém que tenha aprendido a se utilizar de sua solidão e do seu silêncio como oportunidades de criatividade e de reflexão aprofundada sobre si, sobre os outros, sobre o cosmos. Estar sozinho, incomunicável, desconectado, aparece a muitos hoje como uma descrição do inferno. Donde este gregarismo tagarela, estes sujeitos ansiosos por estar postando sempre, curtindo e compartilhando sempre, sem nunca pisar no freio…

O lançamento deste filme serve como ocasião oportuna para que muitos de nós também realizem um processo de autocrítica e de autotransformação – não necessariamente para deletar todas as redes sociais e fugir para um eremitério na montanha (como algum entusiasta demasiado radical de Jaron Lanier poderia fazer), mas para repensar a quantidade de tempo que estamos gastando diante de telas, somente rolando feeds e sendo conduzidos por um labirinto informacional por um piloto chamado Inteligência Artificial guiada por algoritmos. 

O Dilema das Redes inclui várias cenas dramáticas que revelam as entranhas de uma família hi-tech nesta nova era: sem os celulares na mesa de jantar, a família parece que não tem papo. A mãe, querendo agir contra o vício dos filhos, tranca os celulares num pote de cookies que possui um cadeado com timer. A adolescente da família, não suportando mais que 5 minutos de abstinência, quebra o pote para reaver sua droga de predileção… 

Neste laboratório, os ratinhos estão rodando como Sísifos monitorados em rodas que os forçam a gastar energia sem sair do lugar na busca incessante por uma popularidade que se mostrará tão fugaz quanto fake… Você pode até ter conquistado 50.000 curtidas com sua foto de biquíni e sorriso falso, bebendo vodka Absolut em Maresias, mas amanhã poderá estar em estado de depressão profunda caso sua nova foto não conquiste nem 50% das curtidas que obteve a anterior… 

Esta galera que morre ao tentar tirar foto na beira do penhasco com um pau-de-selfie é só o polo extremo de um fenômeno muito disseminado. Há mais modos de despencar no abismo do que sonha nossa vã filosofia.

Estamos adentrando um mundo onde começa a parecer inimaginável uma festa em que ninguém esteja olhando para a tela de seu celular ou um festival em que não haja centenas de telinhas produzindo fotos e selfies a serem postadas imediatamente para plateias de extrema fragmentação. É um mundo onde, no playground, as crianças que se balançam ou escorregam são vigiadas (mal e porcamente) por pais e cuidadores que olham mais para seus celulares do que para os pequenos (estes, só merecem algumas olhadelas de esguelha…). 

Outro elemento bastante preocupante desta equação é a extensão do domínio que estamos concedendo à Inteligência Artificial (A.I. em inglês). Toneladas de megacomputadores interconectados hoje são responsáveis por processar cataratas de informação gravada a partir de nosso surfe cibernético, produzindo algoritmos de personalização. 

De fato, há um fator positivo aí: nosso uso da Internet cada vez mais se parece com uma interação com uma A.I. que nos conhece; de tanto me ver dar play em vídeos do The Clash, dos Dead Kennedys e do Rancid, o YouTube começou a “aprender” sobre o meu gosto musical a ponto de me enviar para vídeos de bandas que possam me interessar – o que, vez ou outra, permite descobertas interessantes, como fiz ao ser lançado a canções do The Ruts (que eu antes desconhecia). Adorei descobrir a música “Babylon’s Burning” e o álbum The Crack, e a isto agradeci ao Sr. Algoritmo, mas há algo de mais sombrio acontecendo na Babilônia Que Queima enquanto a A.I. trabalha em prol dos bolsos de bilionários do Vale do Silício…

Há um lado mais sombrio do império do algoritmo – ele não é apenas aquela amigão feito de A.I. que dá uns toques de outras músicas ou vídeos que podem nos interessar, dando estas sugestões baseado em nossas escolhas pregressas na rede. 

O A.I. nos mecanismos de busca hoje faz com que os resultados conseguidos por usuários diferentes do Google sejam radicalmente discrepantes. Um Sicrano que digite “aquecimento global”, sendo um ativista contra os combustíveis fósseis e um pesquisador de temas ecológicos, receberá resultados bem diferentes de um outro Fulano que consome vorazmente conteúdo negacionista (afirmações sobre a inexistência do Efeito Estufa) e que provavelmente será guiado pelo Google para alguma página cheia de teorias conspiratórias que afirma ser o superaquecimento planetário uma fake news esquerdista destinada a alavancar a China rumo à hegemonia sobre os escombros do império anglo-saxão…

Outro grave elemento deste labirinto atual são as fake news. Já existe muitos indícios de que a mentira se propaga mais que a verdade na internet. Conteúdos falsos, que apelam para os afetos mais irracionais dos usuários, que usam o sensacionalismo barato para engajar, conquistam um grau de viralização que não chega nem aos pés, por exemplo, de uma grande reportagem feita com esmero por um time de competentes jornalistas investigativos. 

[..]

Bombardeado por rumores, fofocas, gossip, amplificados pelas bolhas internéticas, hoje vivemos em plena desordem informacional. Verdades científicas sobre a crise ecológica planetária tem baixíssimos índices de engajamento, enquanto discursos de ódio e intolerância conquistam muito suce$$o.

O triste nisso tudo é a formação de uma nova “manada dos normais”, imbecilizados por tanta manipulação, crédulos em pseudomitos, que desprezam os labores de filósofos e cientistas com um argumento tão horroroso quanto este: “foda-se o que diz a Ciência ou a Filosofia, recebi do meu tio no Zap um meme que prova…”

Outro elemento crucial no debate sobre fake news e falsificação da História são as famosas “Bolhas”, criadas por algoritmos e filtros invisíveis, que nos prendem nas ilhas muradas de nossas próprias seitas (sem que, muitas vezes, tenhamos plena consciência disso). Eli Pariser ensina:

“Com o Google personalizado para todos, a consulta ‘CÉLULAS TRONCO’ pode trazer resultados totalmente opostos para cientistas que apoiam pesquisas com células-tronco e ativistas que se opõem a elas. ‘PROVAS DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS’ podem trazer resultados diferentes para um ativista ambiental e um executivo de petroleira.

Segundo pesquisas, a grande maioria das pessoas acredita que os mecanismos de busca são imparciais. Mas isso pode ser apenas porque eles estão cada vez mais inclinados a mostrar nossa própria visão. O monitor do computador é, cada vez mais, uma espécie de espelho unidirecional, refletindo seus próprios interesses,  enquanto os algoritmos observam no que você clica.

Se os algoritmos vão ser os curadores do mundo, se decidirão o que vamos ver e o que não vamos, então precisamos nos certificar de que eles não sejam determinados apenas pela relevância, mas que também nos mostrem coisas desconfortáveis, desafiadoras ou importantes, outros pontos de vista.” ELI PARISER – “O Filtro Invisível” (Zahar). Citado por KAKUTANI, “A Morte da Verdade”, Intrínseca, p. 144-145.

Tenho algumas críticas ao filme, no entanto, que não quero silenciar: em nenhum momento os seres humanos são descritos por O Dilema das Redes como algo diferente de ratinhos manipuláveis pela Big Tech, de modo que o filme passa em silêncio sobre todos os fenômenos de transformação social e ativismo político radical que se utilizam das ferramentas atuais como meios para outros fins que não são o consumismo ou o exibicionismo narcísico.

Vários sociólogos e midialogistas eminentes, a exemplo de Manuel Castells, investigam hoje as redes de indignação e esperança sem as quais não são compreensíveis plenamente fenômenos como a Primavera Árabe, o Junho de 2013 no Brasil ou o Occupy Wall Street nos EUA.

crítica do Cinegnose frisa que o filme “não consegue enxergar o principal dilema que tem a ver com própria natureza do Capitalismo: bens de interesse público (comunicação, conhecimento, informação) apropriados como produtos de interesse privado – o lucro”. De fato, O Dilema das Redes não diz nada sobre o escândalo da Cambridge Analytica, não fala das ações de Bannon em prol da eleição de Trump e Bolsonaro, não ousa falar mais sobre a manipulação eleitoral através de disparos em massa pagos com caixa 2.

[…]

Outra crítica relevante foi veiculada por Mariana Serafini em Carta Maior, em que a autora mergulha em outro tema recalcado e omitido por O Dilema das Redes meio à polêmica perseguição judicial contra Julian Assange do Wikileaks: 

“O lema dos cypherpunks é bastante razoável: “privacidade para o cidadão, transparência para os poderosos”. Porém, mexer com esse sistema é colocar o dedo direto na ferida de um dos negócios mais lucrativos do mundo contemporâneo e, ao mesmo tempo, mais nocivos para o futuro da humanidade.

É por isso que um dos expoentes, Julian Assange, está preso e com a cabeça a prêmio. Se for condenado, pode ser extraditado para os Estados Unidos e morto. E tudo que ele defendeu foi uma solução para o que Orlowski apresenta como um dilema irresolúvel.”

Há também um certo grau de autonomia nas atitudes dos internautas que o filme recalca e não menciona. Não somos todos manipuláveis e condicionados, desprovidos de qualquer senso crítico e de capacidade contra culturais e contra hegemônicas, como às vezes fica parecendo que o filme quer fazer crer que seríamos. Há a possibilidade de um coletivo, de tendências anarquistas ou ecosocialistas, realizar, com o auxílio das redes, campanha de conscientização e de ação direta com o objetivo de instigar a adesão a um boicote generalizado contra grandes indústrias de combustíveis fósseis ou da pecuária industrial.

Há a possibilidade dos movimentos de ativismo anti-opressão, vinculados ao feminismo, ao antirracismo, às pautas LGBTQ+, utilizarem deste potencial comunicacional inédito para gerar redes de solidariedade, de escuta, de auxílio mútuo, de denúncia de abusos perpetrados pelo aparato policial-carcerário do Estado etc.

Para terminar, gostaria de gritar a todos que a Netflix, que produziu este documentário tão problematizante, não teve a coragem de problematizar a si mesma. O serviço de stream nada diz sobre seu próprio papel no mundo de hoje e suas próprias intenções. No fundo, o filme termina sem jamais incentivar os usuários-cidadãos a conceberem a Internet como um espaço que é co-criado por nós.

Uma das mais interessantes maneiras de encarar a WWW é como um mega-organismo coletivo que aceita as colaborações e as novas inclusões de seus usuários. O grande barato de ter blog – uma prática que tenho há mais de 20 anos – é sentir que você pode enriquecer a blogosfera com um hipertexto que não existia nela antes. Você pode acrescer a rede com um conteúdo inédito, com uma singularidade que antes estava excluída do acesso comum. 

Temos que parar de choramingar sobre sermos vítimas da Internet como ela é, numa espécie de mimimi de manipulados que não ousam assumir sua própria autonomia, para assumir plenamente nossa posição enquanto cidadãos-em-conexão que tem responsabilidades e deveres perante um produto co-criado por nós.

Criar conteúdo relevante, disseminar bons debates, amplificar o jornalismo investigativo competente, trocar dicas de boa arte, ampliar os horizontes éticos e estéticos uns dos outros através de nossas publicações, é um modo de não ser o rato de laboratório das megacorporações e de ir maturando um plano coletivo que se torna urgente: expropriar os expropriadores e colocar esta tecnologia a serviço da radicalização da participação social democrática.

Não precisamos ser os títeres controlados por Master of Puppets que desejam roubar nossa carteira e devorar nosso tempo. Podemos reclamar a Internet de volta, take the power back, o que exigirá um aprendizado com a ética hacker, com experimentos de software livre, com a expressividade de bloggers e de videomakers e de poetas e de músicos que constroem uma rede dentro da rede, uma rede onde a autenticidade de expressão soma-se ao desejo de comunicação numa grande caixa de ressonância daquilo que merece ecoar.

Autor: Eduardo Carli de Moraes

Fonte: A Casa de Vidro

image.png

Estimado leitor, contribuindo a partir de R$ 2,00 você ajuda a manter no ar esse que é um dos blogs maçônicos mais conceituados no Brasil e nossos podcasts O Ponto Dentro do Círculo e O Peregrino. Clique no link abaixo e apoie nosso projeto! Contamos com você!

https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Teorias da Conspiração: da Revolução Francesa às fake News do Whatsapp

Política mundial Revolução mundialO texto no topo da imagem diz: “Política mundial Revolução mundial”. O texto na parte inferior diz: “A Maçonaria é uma organização internacional pertencente aos judeus com o objetivo político de estabelecer o domínio judeu através da revolução mundial”. O mapa, decorado com símbolos maçônicos (templo, quadrado e avental), mostra onde ocorreram revoluções na Europa desde a Revolução Francesa em 1789 até a Revolução Alemã em 1919. Fonte: Wikipédia.

Elas existem há muito tempo e desafiam a ciência e a lógica. Mas hoje, as Teorias da Conspiração ganham nova velocidade de propagação graças às novas tecnologias e o reforço das fake News.

Atualmente, as pessoas são constantemente bombardeadas por teorias conspiratórias absurdas sobre diferentes eventos diretamente de seus smartphones e computadores pessoais.

Especialistas de diversas áreas do conhecimento explicam que a Terra é esférica, ou melhor, elipsoide; que a humanidade realmente chegou à Lua e que as vacinas são estatisticamente seguras; que as pirâmides foram construídas pelos seres humanos, que o covid-19 [1] é uma doença potencialmente letal etc. Contudo, para muitos, nada disso parece ser suficiente. Os mitos persistem independentes da ciência e da lógica.  

Na verdade, aqueles que creem em “teorias alternativas” e conspiratórias têm justamente aí uma confirmação de suas verdades, e não uma refutação. O fato de cientistas, de professores universitários, em suma, dos especialistas contestarem essas crenças é para o teórico da conspiração apenas a confirmação de que realmente há uma conspiração oculta e maligna para esconder a verdade e que eles, os especialistas, fazem parte dela. Como dizia a famosa e longeva série de TV Arquivo X, “Eu quero acreditar”.

Esse artigo pretende discutir o que são “teorias conspiratórias” e a relação que existe hoje entre essas teorias e as chamadas fake News. Conforme veremos, o encontro das duas está por trás da disseminação do discurso de ódio  (hate speechI) no espaço público e promovem a deterioração da política e da democracia.

O que são “teorias conspiratórias” ?

As teorias da conspiração são objeto de investigação de um vasto campo de estudos e pesquisas nos Estados Unidos e na França, países onde já se produziram centenas de artigos e livros em diferentes áreas do conhecimento, particularmente na História e Filosofia.

Para o pesquisador estadunidense Michael Barkun, as teorias conspiratórias seriam explicações sobre eventos ou processos baseadas na “crença de que uma organização formada por indivíduos ou grupos esteve ou está agindo secretamente para alcançar fins malignos”. 

Já para o historiador francês Pierre-André Taguieff, essas teorias conspiratórias seriam baseadas na “visão de mundo dominada pela crença de que todos os eventos no mundo humano são desejados, realizados como projetos e que, como tais, revelam intenções ocultas – ocultas, porque malignas”. Ainda segundo Taguieff as teorias da conspiração seriam baseadas em quatro princípios: nada acontece acidentalmente; nada é o que parece ser; tudo é ligado, mas de forma oculta; e, tudo que acontece é o resultado de intenções ou vontades ocultas.

Olho da Providência - símbolo dos Illuminati“O “Olho da Providência”, ou “o olho que tudo vê de Deus”. O símbolo, presente na nota de 1 dólar, foi considerado por alguns como evidência de uma conspiração envolvendo os fundadores dos Estados Unidos e os Illuminati”. Fonte: Wikipedia.

Mark Fenster, por sua vez, afirma que a teoria da conspiração é uma teoria sobre o poder que realiza um “reconhecimento errôneo” (misrecognition) das relações de poder. Por exemplo, ao invés de reconhecer o papel econômico, ideológico e político das classes sociais em luta durante a Revolução Francesa, especialmente a ação revolucionária da burguesia, a teoria da conspiração de Barruel e de Robinson acusa o grupo Illuminati de, através da Maçonaria, agirem de forma consciente e planejada através de uma conspiração maligna para destruir a religião católica e a monarquia francesa. O complexo processo político e social da Revolução Francesa é reduzida, assim, a ação de um poder irrefreável e consciente, quase sobrehumano.

Resumindo, poderíamos dizer que a teoria da conspiração (conspiracy theory) é uma explicação sobre eventos sociais, especialmente políticos, baseada na crença de que por trás de todos os atos humanos há a ação dissimulada e maligna de indivíduos e grupos que lutam para dominar o mundo. Essas teorias baseiam-se na crença religiosa de que a realidade é dominada por uma luta eterna entre o bem e o mal. Apesar de frequentemente ser formatada em uma narrativa aparentemente racional e até científica, esse tipo de “teoria” não está sustentada em pesquisa baseada na coleta e análise crítica de todas as informações e explicações disponíveis, na formulação de hipóteses e, finalmente, na proposição de uma teoria. Ao contrário, ela usa e abusa de diferentes “falácias lógicas”, isto é, argumentos falsos, mas com a aparência de verdadeiros.

Essas falsas teorias ocultam os grupos e classes que realmente dominam as relações sociais na sociedade e, ainda criam discurso de ódio [2] contra determinados grupos (judeus, comunistas, “esquerdopatas”, petralhas etc.) transformando-os em bodes expiatórios, acusando-os de serem aqueles que efetivamente dominam o mundo ou conspiram para conquistá-lo.

Quando surgiram as “teorias da conspiração” ?

Elas surgem com a própria modernidade capitalista. Durante a Revolução Francesa são publicados dois livros, do padre francês Augustin Barruel (1741-1820) e do cientista escocês John Robison (1739-1805), que têm em comum a “teoria da conspiração” de que a revolução burguesa que assentou as bases ideológicas, políticas e sociais da sociedade burguesa francesa e europeia da modernidade, na verdade seria uma ação orquestrada secreta e ardilosamente pela Maçonaria para destruir a monarquia e a Igreja católica francesa e europeia.

Afirmam ainda que por trás do “complô maçônico” estaria uma sociedade ainda mais secreta, os Illuminati, que estaria no núcleo mais oculto da conspiração. Essas duas obras receberam diversas edições e traduções para diferentes línguas ainda na primeira metade do século XIX e deixaram marcas na cultura política antirrevolucionária ocidental. Ao longo do século XIX, surgem outras teorias conspiratórias que terão papel importante no período.

No século XX, as teorias conspiratórias foram uma importante ferramenta ideológica de luta contra os setores progressistas da sociedade, vistos como ameaças à própria civilização. A Revolução Russa de 1917, por sua vez, suscitou um processo de criação de novas teorias conspiratórias pela síntese e atualização das “teorias” do passado com um livro recém lançado que acusava os judeus de organizarem uma conspiração para dominar o mundo, o Protocolo dos Sábios de Sião. Por exemplo, a “conspiração maçônica-judaico-bolchevique” disseminada nos anos 1920 e 1930 por intelectuais conservadores e reacionários como Nesta Webster (1876-1960) e Léon de Poncins (1897-1975), e que foi amplamente divulgada pela propaganda nazista ao longo dos anos 30 e durante a Segunda Guerra Mundial.

Segundo Jeffrey Herf , “quando, no meio da Segunda Guerra, Hitler e seus aliados fizeram o salto da perseguição ao extermínio de massa, deram como justificativa a retaliação à conspiração judaica, a qual responsabilizavam por começar e intensificar uma guerra de extermínio contra a Alemanha”. No pós-guerra, essa teoria da conspiração foi reelaborada para a contenção política e ideológica da União Soviética e dos partidos comunistas, no que viria a ser conhecido como anticomunismo.

Nos anos 1990, com o fim do “socialismo real” surgiu nos Estados Unidos a virulenta e agressiva “teoria da conspiração” do “marxismo cultural” que acusava os marxistas da Escola de Frankfurt de desenvolverem ideias de defesa dos direitos humanos dos negros, das mulheres, dos homossexuais etc. Essa teoria da conspiração requentava o anticomunismo da Guerra Fria e a conspiração judaico-bolchevique do entreguerras, acusando os marxistas alemães da “Escola de Frankfurt” migrados da Alemanha fugidos do nazismo, de quererem destruir os valores da sociedade estadunidense, isto é, o patriarcado, a religião, a ordem política etc. O fato de vários desses marxistas serem de origem judaica corroborava, para alguns de seus defensores, essa teoria da conspiração.

No Brasil, essa teoria conspiratória tem no ideólogo Olavo de Carvalho um de seus principais divulgadores. O movimento “Escola sem Partido” (ESP) que se dedica a atacar a obra de Paulo Freire, os professores e a Universidade pública tem sua base ideológica na teoria da conspiração do “marxismo cultural”.  Até agora, o ESP não teve sucesso em mudar a legislação, mas contaminou o ambiente educacional brasileiro, não apenas no Ensino Básico, mas também na Universidade[3]. Isso contribui para que nos últimos anos os professores tenham se tornado alvo de discurso de ódio que chega às vezes a agressões verbais e físicas.

Teorias da Conspiração e Fake News

As notícias falsas veiculadas na Internet frequentemente ajudam a divulgar ampla e maciçamente teorias conspiratórias. A conexão entre as duas é tão forte que, não raro, muitas teorias da conspiração assumiram hoje uma forma noticiosa, ou seja, são socialmente disseminadas como notícias e recebidas como explicações legítimas sobre eventos políticos.

As teorias conspiratórias são parte importante do conteúdo divulgado pelas fake news que, assim, popularizam essas teorias. Além disso, a importância crescente das fake news no debate público ajuda a criar um ambiente propício à disseminação e à aceitação das teorias conspiratórias como uma explicação legítima dos eventos políticos e sociais. Não são poucas, hoje, por exemplo, notícias falsas que afirmam ter os chineses criado o novo coronavírus em laboratório.

A Exposição antibolchevique denunciando uma conspiração judaico-maçônico-comunista internacional na França ocupada pela Alemanha nazista (1942).A Exposição antibolchevique denunciando uma conspiração judaico-maçônico-comunista internacional na França ocupada pela Alemanha nazista (1942). Fonte: Bundesarchiv Bild 183-2004-0211-500, Frankreich, Antisemitismus.

Uma das estratégias dos disseminadores deste tipo de conteúdo é enviar uma grande enxurrada de fake news e teorias conspiratórias simultaneamente em diferentes mídias e canais a fim de entulhar o debate público realizado na Internet com mentiras e ataques verbais, não deixando espaço para o surgimento de um debate baseado em troca e confrontação de informações e ideias – essa tática é chamada de firehosing.

Desafios para o século XXI

No século XXI, o aprofundamento da crise da democracia representativa liberal e dos partidos políticos de esquerda tradicionais, a popularização da Internet, o surgimento e o crescimento das redes sociais, a precarização do trabalho e das condições de vida da classe trabalhadora, a falta de expectativas de superação das crises políticas, econômicas e sociais do capitalismo, a sofisticação dos órgãos de repressão policial e política e das ferramentas de monitoramento e controle oferecidos pela Internet e pelas ferramentas digitais, especialmente a partir de 2008, criaram um ambiente de deterioração do espaço público, da política e da democracia.

Nessas condições, as teorias conspiratórias tornaram-se um elemento ideológico ainda mais importante, cada vez mais sustentado pelas fake news e pelo discurso de ódio espalhado pelos diferentes grupos políticos das direitas. Infelizmente, as teorias conspiratórias tornaram-se parte integrante do senso comum.

Nos últimos anos,  as direitas no Brasil, especialmente a extrema-direita de perfil ideológico fascista e próximo a alt-right internacional, tomaram de assalto o debate político nacional e importantes cargos no Executivo e Legislativo; em grande parte com o uso sistemático de ferramentas de disseminação massiva de notícias falsas, discurso de ódio (hate speech), ideias autoritárias e teorias da conspiração, e assim trabalham diuturnamente para criar as condições para a instauração de seu projeto autoritário.

Autor: Ricardo Figueiredo de Castro

Fonte: Café História

Ricardo é Professor Associado de História Contemporânea no Instituto de História (IH) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É filiado ao GT “Direitas, história e memória” e pesquisador do Laboratório de Estudos do Tempo Presente (TEMPO) do IH/UFRJ. Tem experiência na área de História Social e Política, com ênfase em Brasil República, atuando principalmente nos seguintes temas: História política brasileira do século XX, com ênfase nas esquerdas brasileiras (comunistas, socialistas, trotskistas, principalmente). Trabalha também com a história política e cultural das direitas, com ênfase no Negacionismo do Holocausto e no Conspiracionismo (Conspiracy Theory). É autor, no Café História, do artigo “Negacionismo do Holocausto”, publicado em 2014.

Notas

[1] – O ministro das Relações Exteriores Eduardo Araújo postou no blog “Meta Política 17 – contra o globalismo” um artigo intitulado “Chegou o Comunavírus” onde escreve: “O Coronavírus nos faz despertar novamente para o pesadelo comunista”. Acesso em 28/04/2020.

[2] – “(…) fala, escrita ou comportamento, que ataca ou usa linguagem pejorativa ou discriminatória com referência a uma pessoa ou grupo com base em quem eles são, ou seja, com base em sua religião, etnia, nacionalidade, raça, cor, descendência, gênero ou outro fator de identidade”. United Nations strategy and plan of action on hate speech. p. 6. Disponível aqui.

[3] – Os dois ministros da Educação do governo Bolsonaro até o momento em que esse texto foi escrito são crentes confessos da existência de uma conspiração marxista que controla a Universidade pública brasileira.

Screenshot_20200502-144642_2

Só foi possível fazermos essa postagem graças à colaboração de nossos leitores no APOIA.SE. Todo o conteúdo do blog é disponibilizado gratuitamente, e nosso objetivo é continuar oferecendo material de qualidade que possa contribuir com seus estudos. E você também pode nos auxiliar nessa empreitada! Apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos blogs maçônicos mais conceituados no BrasilPara fazer sua colaboração é só clicar no link abaixo:

https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Referências Bibliográficas

BARKUN, Michael. A culture of conspiracy: Apocalyptic Visions in Contemporary America. Berkeley: University of California Press, 2003.

BERLET, Chip. Toxic to democracy: conspiracy theories, demonization & scapegoating. Sommerville (MA): Political Research Associates, 2009. Disponível em: https://www.politicalresearch.org/sites/default/files/2018-10/Toxic-2D-all-rev-04.pdf  Acesso em 20/05/2020. p.3.

FENSTER, Mark. Conspiracy theories: secrecy and power in American culture. Minneapolis: University of Minesota, 1999.

HERF, Jeffrey. Inimigo judeu: propaganda nazista durante a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto. São Paulo: EDIPRO, 2014. p.331.

HOPE NOT HATE. The International Alternative Right: an explainer. Disponível em:  https://www.hopenothate.org.uk/wp-content/uploads/2019/07/Alt-Right-report-SHORT-2019-v1.pdf Acessado em: 20/04/2020.

JAMIN, Jérôme. “Anders Breivik et le « marxisme culturel » : Etats-Unis/Europe”. Amnis. Revue de civilisation contemporaine Europes/Amériques, no 12 (1o de julho de 2013). https://doi.org/10.4000/amnis.2004.

SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. Tudo sobre todos: redes digitais, privacidade e venda de dados pessoas. São Paulo: Edições SESC, 2017. [E-book]

SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. Democracia e os códigos invisíveis: como os algoritmos estão modulando comportamentos e escolhas políticas. São Paulo: Edições SESC, 2019. [E-book]

TAGUIEFF, Pierre-André. L´imaginaire du complot mondial: aspects d´un mythe moderne. Paris: Mille et Une Nuit, 2006. p.54.

Palestra “A Desinformação na Rede e a Era da Pós Verdade”

noticias-falsas-pos-verdade

Em evento promovido pela Loja de Pesquisas ‘Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda-GLMMG, foi proferida a palestra sobre um mal que atinge todos nós, sem distinção de classe social, religião ou grau de instrução: as fake news.

Veja a palestra através dos vídeos abaixo:

Primeira parte:

Segunda parte:

%d blogueiros gostam disto: