A Maçonaria, o Eu e a ideia de Morte

“Não se pode julgar da beleza da vida senão pela da morte (…)
Não se pode julgar da beleza da morte senão pela da vida.”
Isidore Ducasse – Conde de Lautrémonte, Poesias II

Segundo Deepak Chopra, o mundo é a vibração do infinito e é assim que ele existe na nossa imaginação. A filosofia vedanta afirma:

“Quando o infinito não vibra, os mundos parecem afundar-se”.

Tudo o que conseguimos pensar – uma cadeira, uma cor, uma montanha, um pensamento, um arco-íris – é apenas uma vibração diferente da nossa essência. Algo está a vibrar e a criar tudo e essa vibração está a acontecer na presença da alma. A alma vibra e cria os pensamentos. A alma vibra e cria o corpo. A alma vibra e cria todo o Universo. Todos, ao longo da Antiguidade, dos alquimistas egípcios aos filósofos gregos, afirmaram que a criação é vibração. Criar é trazer para o Ser ou para a existência. E, para criar algo de novo, é preciso morrer para o que já existe. Algo tem que morrer para que algo novo possa emergir. Assim, cada morte é um salto quântico de criatividade. Através da morte recriamo-nos a todos os níveis: ao nível do intelecto, do corpo e da personalidade. A cada morte armazenamos a sabedoria das nossas experiências desde o início dos tempos e efetuamos saltos quânticos de criatividade para que possamos olhar de novo para nós como se fosse a primeira vez. Ciclos de nascimento, transformação e morte mantêm-se frescos para que possamos imaginar novos reinos para a nossa existência.

Na Biologia há um termo denominado apoptose, que traduz a morte celular programada. Na ausência de apoptose, as células esquecem-se de morrer e esta condição é denominada por cancro. As células cancerígenas perderam a memória da morte e, na sua busca da imortalidade, matam o corpo hospedeiro do qual dependem para sobreviver. Assim, a morte é o bilhete para a vida e a morte está a ocorrer neste preciso momento no nosso corpo-mente. Nesse sentido, há algo que em nós sobreviva na morte? Antes do mais, a alma. E a personalidade, sobrevive? A personalidade não sobrevive sequer enquanto estamos vivos, porque o indivíduo que tomamos pelo “Eu” é diferente a cada momento, de hora para hora, de semana para semana, de ano para ano. Se a personalidade sobrevivesse de qual delas estaríamos a falar? A da nossa criancice, a da adolescência, ou a dos vários estágios de adultez?

A larva que morre para se tornar uma crisálida opera, efetivamente, uma transformação. Não uma morte efetiva. Também a morte, em si, é um processo de transformação, um movimento para outro lugar ou tempo, uma alteração na qualidade da nossa consciência. O mundo que experienciamos, com terra e céu, plantas e pessoas, Sol e Lua, é uma expressão particular da consciência a uma dada frequência. Estes estados de consciência são experiências vibratórias da consciência infinita, em que o Cosmos se movimenta e afirma a sua existência. É mais que certo que infinitas frequências de consciência existem e dá-se a presença simultânea de muitos planos de existência, de inúmeros universos paralelos.

Tudo na vida se revela passageiro e mutável, porque essa é a natureza do nosso mundo. Há quem procure, por natureza, resistir à mudança. Contrariar a própria natureza do universo em que vivemos parece ser um exercício de pura impossibilidade ou juízo de loucura. Contudo, quando se utiliza a autorreferência, esta mudança não se revela “adversa” (por contrária aos nossos desejos) mas positiva. No entanto, temos que ir além de uma mente positiva ou negativa para alcançarmos uma mente silenciosa, que se abstenha de julgamentos, análises ou interpretações. Por outras palavras, a paz com o “momento” só se consegue pela experiência da testemunha silenciosa, pela consecução do silêncio interior. Na pureza do silêncio, sentimo-nos ligados à nossa origem e a tudo o resto. As tendências que emergem desta ligação são evolucionárias e espontâneas. O reconhecimento do nosso universo dual, onde toda a experiência é feita por contrastes (luz-sombra, nascimento-morte, frio-calor, etc.), permite compreender que é possível “viver (e morrer) além do bem do e do mal”, como diria Nietzsche, no campo da pura potencialidade.

Quando um profano entra na Maçonaria, ou numa qualquer outra Ordem iniciática, ele dá, ainda que muitas vezes não tenha disso consciência, os seus primeiros passos naquilo que se considera uma via espiritual. Compreender essa via é lembrarmo-nos, a cada momento, que o nosso mundo é apenas uma parte visível, perceptível dos nossos sentidos, de um universo muito mais vasto, de um mundo espiritual de onde emana a realidade objetiva. Para o conjunto das religiões do mundo a realidade dissimula a realidade objetiva dum outro universo, o Reino de Deus ou dos Deuses, povoado de espíritos. “O visível é o reflexo do invisível”, diz o Zohar. É, assim, muito difícil ao homem comum, graduado na materialidade, perceber, e ainda menos compreender, esse outro mundo, muito mais real que o nosso, sem o qual o nosso simplesmente não existiria. Todavia, o Homem participa na realidade desses dois mundos, porque possui uma dupla natureza. Uma terrestre, material, temporal, mortal, e a outra celeste, espiritual, intemporal e imortal. Com a “Queda”, o Homem esqueceu a sua natureza divina e chegou ao ponto de crer que só a sua natureza terrestre existe. A via espiritual não mais é que o conjunto de meios que permite ao Homem operar o reconhecimento da sua natureza primeira.

A Iniciação, cerimônia eminentemente simbólica, visa provocar no candidato uma ruptura da representação condicionada e egóica do mundo para lhe abrir um acesso ao Real, ao espaço de liberdade da sua natureza plena. A natureza deste trabalho, uma profunda metanoia reflexiva – até porque o iniciado é confrontado com os caracteres da vida e da morte -, é levar ao questionamento mais profundo do “Quem sou eu?”. Serei este corpo? Serei o meu espírito ou a minha alma? Ou, ainda, serei a minha personalidade? A natureza humana é complexa e é evidente que o Homem não é o que ele pensa. Interpretamos vários papéis no teatro da vida e rapidamente nos identificamos com eles, que constituem, no seu conjunto, aquilo que classificamos como “pessoa”, a personalidade ou o nosso eu. Esta “mentalização” do mundo e de nós próprios tem pesadas consequências, sendo responsável, desde logo, pela criação da noção de tempo, tão fundamental na nossa época. É curioso notar que a noção de tempo evoluiu com a própria evolução da história e a natureza sociológica do homem e nunca, como hoje, essa noção foi tão premente e acelerada. Contudo, outra das fabricações da mente foi a elaboração do eu, que, de fato, não passa de uma ficção, de um fantasma. A ideia que temos de nós próprios é uma construção mental, uma inacreditável mistura de instintos, de condicionantes da nossa educação, das nossas experiências, da influência da sociedade, de sentimentos, de emoções, de pulsões mais ou menos controladas e de recordações acumuladas, às quais damos sentido através de uma narrativa. No quadro dessa artificialidade, o Eu pode tornar-se cambiante, turvo e dividido.

Como atrás referido, o que somos hoje é diferente do que fomos há 30 anos, 20 ou 10 anos atrás. Temos, todavia, a sensação de sermos sempre os mesmos. Essa sensação é sólida? Uma observação atenta permite compreender que não temos apenas um eu variável, mas antes uma multitude de “eus”, que muitas vezes, se opõem, se contrariam ou negoceiam mutuamente. Muito do nosso tempo é usado a gerir as nossas contradições e as nossas incoerências para as tornar suportáveis. Isto não seria dramático se, de maneira inconsciente, mas muito vibrante, não sentíssemos que o nosso “eu” é frágil, fragmentado, dividido, instável, e se não sentíssemos então a necessidade imperiosa de o afirmarmos, a fim de mantermos, a todo o custo, o que pensamos ser o “eu”. É esta identificação com o “eu” e a necessidade de manter essa falsa identidade que causam as manifestações mágicas do ego que afetam a vida de todos os seres humanos em graus diversos. Note-se que o medo de ver esse “eu” desaparecer torna a perspectiva da morte particularmente angustiante.

Em todos os Mistérios se congregou a ideia de uma alma espiritual no homem e uma vida para além da morte. Nesse conceito a alma seria preexistente, habitando num espaço astral, num mundo superior dos deuses e dos espíritos. Por ser uma visão tão subjetiva, a imortalidade da alma não se ajusta à visão prática da ciência e da sua evolução, ainda que a física quântica, no último quartel do século XX e entrada no século XXI tenha vindo a redefinir a questão. Ainda assim, milhões de pessoas testemunham o privilégio de terem vislumbrado uma realidade que abrange espaço e tempo como uma vasta bolha multidimensional. Algumas dessas pessoas parecem ter contactado este reino atemporal através de experiências próximas da morte. Outros, como Einstein, experimentaram episódios de completa libertação das fronteiras do espaço-tempo, através dum processo de ampla lucidez:

“Em tais momentos imagina-se que se está de pé em qualquer ponto desde pequeno planeta apreciando, deslumbrado, a fria e, mesmo assim, profundamente comovente beleza do eterno, do imperscrutável. Vida e morte fluem numa coisa só e não há evolução nem eternidade, apenas Ser.”

O medo da morte marca muito mais as nossas vidas do que as nossas mentes conscientes estão dispostas a admitir. Conforme escreveu David Viscott:

“Quando se diz que se tem medo da morte, na verdade está-se a dizer que se tem medo de não ter vivido a sua verdadeira vida. Este medo cobre o mundo de silencioso sofrimento.”

Na realidade, a morte não é força toda-poderosa que o nosso medo diz que é. Na natureza, a morte faz parte do ciclo maior do nascimento e da renovação. O ciclo interminável da renovação da vida não se situa além da morte – ela incorpora a morte, usando-a para um objetivo maior. Presumir que a morte existe é, de igual modo, uma meia verdade, pois há muitos níveis do nosso corpo que nem tomam conhecimento de algo designado como extinção. Os nossos átomos têm bilhões de anos de idade e ainda restam neles outros bilhões de anos de vida. Sabiamente, dizia Shakespeare:

“Nós somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos”.

Sim, como “afirmara” já o grande poeta inglês do século XVI, os átomos não passam de energia transformada, e se somos compostos por estes ingredientes imortais, porque não nos vemos à mesma Luz?

Também a morte – esta simbólica -, opera no processo iniciático maçônico uma tradição primordial. Quer no processo iniciático quer no processo de exaltação, a morte, nas suas várias interpretações alegóricas, é tida como um fator impressivo de aprendizagem. Como afirmou Fernando Schwarz:

“A morte é um valor essencial, e os valores morte e iniciação são interativos”.

A morte física acaba por ser assimilada a um rito de passagem a uma condição superior. Não podemos transformar o neófito num homem superior sem “matar” o homem inferior que nele existe. Esta, mais que a morte física, representa a morte do Ego. Não se trata de uma morte efetiva, mas sim de um processo de apaziguamento do nosso homem-animal, do aniquilamento possível dos nossos mecanismos egoístas. A morte é assim encarada como um processo de renascimento, de evolução do homem dentro do homem. A morte não é um fim, é sim um recomeço. A maçonaria transmite esse conhecimento imemorial que, para se renascer, física e simbolicamente, é preciso “morrer” primeiro. Esta, na sua conceção deísta-teísta, concebe a imortalidade da alma humana e crê – como via espiritual – na regeneração (em vida) do Homem. A vincada alegoria da morte no simbolismo maçônico é uma mensagem vivente de fé na imortalidade do Ser. Não de uma fé cega e dogmática, mas de uma fé prenhe de saber espiritual e racional. O mundo é vibração. O pensamento é energia. Tudo vibra na compleição da existência e a morte – estado vibratório pretensamente nulo-, só pode ser concebida como estado transitivo, porque tudo no universo “vive”. Mesmo a morte, por artificio poético, estético ou literário, só pode ser concebida como a antecâmara de mais vida, de mais sonho e de maior imaginação. O que existirá para além da morte? O que é a morte? Qual o sentido da morte? Há um eu na compleição da morte? Relatos de quase morte evidenciam esse plano ascensional como centro observatório. Será a morte a matéria inefável reveladora da consciência, dessa individualidade única forjada no momento da Iniciação final?

Autor: [Giordano Bruno], M∴M∴

Fonte: Academia.edu

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Maçonaria e Filosofia – O ensaio de um adeus

“Homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses.” Sócrates 

A Maçonaria, tal como um austero templo românico, originalmente era harmoniosa. Um lugar de arte e espiritualidade, um legado de saber pouco dado a decorações supérfluas e fácil de definir no seu propósito. Contudo, os sucessivos restauros e acréscimos tornaram-na num edifício híbrido, desfigurado interiormente e adulterado no seu traçado original. Já houve uma Idade do Ouro maçônica, mas o tempo fez suceder as idades rapidamente e hoje é difícil encontrar a Luz que vinha do Oriente. 

A Maçonaria revestiu-se de muitas Maçonarias diferentes ao longo dos séculos, fazendo, nesse percurso, papel de heroína e vilã. Fundou nações, reclamou liberdades e direitos cívicos, mas procurou, de igual modo, liquidar a religião em nome do progresso. Defendeu os fracos e os aflitos, é certo, mas ajudou a manter no poder os já poderosos. A história da Maçonaria é uma história de contradições aparentemente irresolúveis, sujeita às paixões e temperamento dos próprios homens. 

Na concepção daqueles que originalmente redigiram os rituais e catecismos só havia uma Maçonaria. Tudo o que se desviava da ética, espiritual, estrutural e filosoficamente dos seus princípios fundamentais era uma fantasia criada por ignorantes da Arte Real. Efetivamente ao Maçom exigia-se que soubesse responder de maneira invariável a um conjunto de questões que descreviam a sua iniciação e definiam a Ordem. Dentro destes limites fazia-se Maçonaria. Fora deles estava o mundo profano. Hoje a Maçonaria é “plural”, feita de visões múltiplas e inconstantes nos seus princípios, estrutura e filosofia, e as perguntas e respostas de outrora já não são conhecidas da maioria dos Irmãos. As fronteiras entre o que é a Maçonaria e o mundo profano foram-se diluindo. 

Sob o mesmo nome “Maçonaria” subsistem um sem número de organizações de tendências diversas e não importa estar aqui a dissecar as inúmeras variantes conhecidas e os seus ritos mas, se nos reportarmos aos documentos antigos, verificamos claramente que existem limites simbólicos tradicionais na sua raison d’être. A Maçonaria de hoje, ao não aceitar limites, em tudo incluir, cai presa dessa enorme gula e, embora seja dita Universal, aceita negar esse mesmo Universo de onde provém. Assim sendo, o que é afinal a Maçonaria? 

Tal como todos os grandes conceitos como a Justiça e a Liberdade, a Maçonaria é uma afirmação em abstrato e outra bem diferente no plano concreto das realizações. Ali revela-se como uma sociedade iniciática, fraternal e simbólica, capaz de melhorar homens e de lhes dar uma visão de transcendência que os coloca numa posição justa e perfeita para intuírem a Verdade Universal, a essência das coisas, a Luz que sai por si mesma das trevas. Aqui está sujeita à imperfeição dos seus membros, ás suas paixões e ao seu entendimento limitado sobre o seu propósito e natureza. Cada um vive-a à sua maneira e move os limites filosóficos do que ela é realmente para os adaptar à sua estreita inaptidão humana, à dimensão do seu mundo. Os homens que não a entendem não querem crescer para abarcar a sua transcendência. Adaptam-na. Amputam-na. Reduzem-na para que caiba no bolso e se possa arrumar numa estante ou num vão de escada.  

Hoje, depois de três séculos de transformações na Maçonaria especulativa, é difícil encontrar uma definição aceitável para o que ela é. Um dos refúgios gerados pelo pensamento moderno é abordar a questão maçônica pelo lado utilitário. Não se trata apenas de saber o que é a Maçonaria, mas sim e também para que serve. É aqui, ao tentar-se ser objetivo que se perde a objetividade de entender que a Maçonaria é uma Escola Iniciática e nada mais. Sempre que procure ser outra coisa qualquer, perde simplesmente o rumo por perder a sua essência. Aliás, para a maior parte dos Maçons o conceito de Iniciação escapa totalmente à sua compreensão. A Maçonaria hoje perdeu o seu papel na sociedade porque a sociedade atual criou outras formas de fazer um seu equivalente. Por outro lado, a Maçonaria esqueceu-se do que é (uma via iniciática) e procura viver o que não é. Antes do mais, a Maçonaria não é uma sociedade filantrópica, caritativa e beneficente. Para fazer filantropia não são necessários templos, rituais, passagens de grau, nomes simbólicos, medalhas ou aventais.

Noutra perspectiva, a Maçonaria não é uma escola de doutrinamento moral e espiritual do indivíduo, porquanto a mesma não comporta uma doutrina. A Maçonaria também não é um fórum de livres-pensadores porque, para além de extravasar o quadro racional, há componentes dogmáticos de “livre pensamento” que excluem, por exemplo, o pensamento místico nas suas lojas. E será a Maçonaria um lobby? Há uma percepção pública, de índole negativa, em que a Maçonaria é tida como uma agência de interesses, um grupo de negociatas ou um areópago de decisões políticas. São conhecidas as tristes histórias de grupos de homens que se serviram do nome da Maçonaria para agirem em nome de interesses específicos e individuais pouco salutares. Os títulos de jornais chamaram-lhes Maçons, mas podiam dizer com a mesma legitimidade que eram advogados, arquitetos, membros do clube do livro ou adeptos de um determinado clube de futebol. 

Sendo a Maçonaria uma via iniciática esta implica uma transformação interior do indivíduo. A Iniciação obriga o homem a trabalhar as suas imperfeições e ambições, confrontando-o com elas. Assim, para ensinar a sabedoria e a virtude, a Maçonaria usa o véu dos símbolos. Os símbolos são, por sua vez, as regras da linguagem metafísica, do código linguístico partilhado por todos os seus estudantes. Há, assim, uma necessidade imperiosa de estudo no campo da Maçonaria. Nenhum homem se transforma se não se conhecer a si mesmo, como profetizou um dia o Oráculo de Delfos. E para se conhecer é preciso estudar! O estudo de si mesmo chama-se reflexão, o estudo do meio que nos envolve, sob o ponto de vista as grandes questões existenciais, chama-se Filosofia.

A Maçonaria aguçou em mim o profundo respeito pela Verdade. Só a Verdade é congruente. Como refere o Novo Testamento sobre o tema da Verdade: 

“Quem pratica a VERDADE, aproxima-se da Luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus.” (JOÃO 3:21)

“CONHECEREIS a verdade e a verdade vos LIBERTARÁ”. (JOÃO 8:32)

Como costumo referir algumas vezes em jeito de brincadeira, antes de ser Maçom já o era. Cruzei-me com a via maçônica, como antes escrevi outros textos, por “fatalismo” inevitável do destino. Digamos que era um acontecimento da minha vida destinado a sê-lo. Nesse propósito, a Maçonaria, para além de toda a áurea de mistério que desde sempre a envolveu na minha percepção, tinha a acompanhá-la um modelo (perfeito) de comportamento humano. E a Verdade, nesse quadrante, era para mim a sua pedra de toque. A verdadeira humildade do homem está em ser-se verdadeiro. Consigo e com os outros. Só na verdade se constroem os grandes desígnios humanos. Com o cinismo e com a hipocrisia por colunas nenhum edifício se portará à continuidade duradoura. Assim, no meu modesto entendimento, a Verdade é contígua à perfectibilidade. Individual e societária. Como determina o preceito bíblico, a Verdade aproxima-nos da Luz, de Deus, e, nenhuma instituição, pessoal ou societária, se deve desviar do seu Oriente. Como Maçom é-me imperativo dizer a Verdade, mesmo que incômoda, no seio da loja a que pertenço. O direito à crítica, desde que justa e necessária, deve prevalecer sobre as conveniências relacionais. Expresso o meu direito à crítica, nesta prancha, por entender que o caminho maçônico trilhado pela nossa Ordem não o é. Pelo menos não o é como eu o entendo. Não que tenha a fórmula e o conhecimento exatos do que é a Maçonaria justa e perfeita, mas tenho, pelo menos, a formulação e equação do seu estudo e trabalho. Tenho o direito à crítica, construtiva, por entender merecer o direito de opinar sobre o que me parece incorreto e enviesado no caminho trilhado. 

Ter Irmãos em loja que sentem que fazer Maçonaria é “fazer acontecer” em contraposição a um pretenso intelectualismo de “clube do livro”, denegando a essência filosófica da obra maçônica, não é, no meu entendimento, conhecer da verdadeira via iniciática. A Maçonaria não são as obras paramaçônicas nem os encontros de lazer (e de trabalho) entre Irmãos fora das portas do Templo. Poderão dela fazer parte como complemento, natural e afetivo, de uma relação de fraternidade. Não são a prioridade! E não o são para os Maçons que têm da Maçonaria porventura uma visão, se quiserem, mais “filosófica”! Há espaço para todos na Maçonaria, mas dentro da Maçonaria, não no reduto das nossas prioridades de estômago! Muita celeuma se levantou, durante estes tempos de pandemia, sobre a impossibilidade de se realizarem sessões maçônicas com mais de dez maçons em templo. Correto. Era de lei, da sua interpretação, e uma questão de premente salvaguarda da saúde pública. No entanto, na primeira oportunidade de se organizarem os conhecidos almoços de clube não se hesitou, por um segundo, em se equacionar sobre a moralidade/legalidade de tais atos. Se para as realizações de sessões em loja se levantaram as “armas e os barões assinalados” porque se renderam tão facilmente às seduções das ninfas de Pantagruel? 

Alguns Irmãos tomaram esta minha posição, já feita no fórum do WhatsApp, como se de um ataque pessoal se tratasse. Nada mais errado! Nada tenho contra as realizações da “maçonaria à mesa”, como as classifiquei de forma amistosa, porque sei que muita obra se produziu às mesas do restaurante do … FC, mas a pergunta subsiste: é preciso ser-se sócio do clube para nos inteirarmos das obras maçônicas da Ordem? E quem não participa dos prazeres da cabidela? 

Insisto, a Maçonaria tem o seu campo específico e os assuntos paramaçônicos devem ficar circunscritos ao espaço de quem deles quer participar. Não devem, em circunstância alguma, sobrepor-se aos vetores estritamente maçônicos. Todos os projetos culturais discutidos para a Ordem não saíram do seu juízo de intenções, da sua fátua vontade em fazê-los, do seu jogo de vaidades pueris. É isso que lamento. À mais ténue tentativa de realização dos nossos prazeres de mesa dispomo-nos prontamente aos “trabalhos maçônicos”, mas para apresentar Filosofia Maçônica, seja num simples trabalho escrito ou numa palestra pública, isso é trabalho para as calendas gregas (sempre a Grécia, maldita Filosofia!) …

Além de que não é unânime que esse seja esse o vetor e razão substancial da existência da Ordem, da obra maçônica em si. Como ficamos, afinal? Há uma essência filosófica na aspiração maçônica ou a prioridade são as realizações paramaçônicas, obras de realização física, de importância primordial na sociedade (e ainda mais nos tempos que vivemos), mas necessariamente coincidentes com as realizações de outras instituições profanas?

Este é o meu terceiro ensaio de saída. Aquilo que me motivou a voltar, das outras duas vezes em que saí, era muito mais forte que as razões para o abandono. Neste momento, quando se percebe que o livre pensamento, pedra basilar na construção do edifico maçônico, ofusca a fundação das relações pessoais, é sentido que é hora para o abandono definitivo. Não que deixe alguma vez a condição de Maçom; isso vou sê-lo eternamente. Aliás, antes de o ser já o era. Nada me demove nas minhas convicções de espírito, na minha fundação da Verdade, no meu propósito de homem e Maçom. Ser-se Maçom é ser-se livre, frontal e arrojado nas suas ideais, expressando-se as na sua clareza de espírito e no desassombro das suas convicções. A Maçonaria é uma escola de Mistérios, que leva o Homem a combater os seus vícios e exaltar as suas virtudes. A livre expressão da palavra, palavra essa pela qual tantos homens (e tantos Maçons) deram a vida para a deterem e usarem expressamente, é o cinzel do Maçom, o seu controle da vontade e a expressão visível da sua futura obra. Nenhum Maçom é Maçom sem obra feita, sem um caminho trilhado no qual outros Irmãos se revejam e nele se reconheçam como tal. Aspirar a ser-se Maçom sem um compromisso de Vontade, sem a sua expressão da Verdade e sem o seu manifesto de Virtude, é o mesmo que tentar fazer Filosofia numa gaiola de vaidades. 

Encerro este meu percurso nesta Ordem com um manifesto trinitário. Elaborei antes dois trabalhos onde concatenei a Maçonaria com a Psicologia (o Ego) e com a Literatura (a Poesia), encerro hoje com a Filosofia (como manifesto de um adeus). Para mim não existe Maçonaria sem Filosofia, porque a Maçonaria é razão e sentimento. É mente e coração. Pensar sem filosofar é esquadrinhar o vazio sem o propósito do Conhecimento. Saber sair quando as circunstâncias o impõem não é um ato de amuo, de vindicta momentânea, de afirmação dum ego pretensamente ofendido, é sim uma afirmação filosófica, um ato de amor maçônico. A Maçonaria que alguns dos meus Irmãos pretendem praticar nesta Ordem não é a minha Maçonaria, não é a Maçonaria que eu concebo por via iniciática. Por saber que posso ser eu a estar errado deixo-vos em liberdade decisória, mas também em incerteza filosófica. Do caos surgirá a ordem, hoje e sempre. 

Até sempre!

Autor: [Giordano Bruno], M∴M∴

Fonte: Academia.edu

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Por que te tornaste maçom?

A esta pergunta, o novo Aprendiz responde: “Porque eu estava na escuridão e desejava a luz”.

Duas outras perguntas derivam dessa primeira. Como se pode esperar desejar algo que não conhecemos? Se admitirmos que esta Luz estava em nós, embora a ignoremos, como a Maçonaria poderá nos fazer descobri-la?

A luz!  Termo mágico … base de nossa criação, da Gênesis, fonte de vida, ela é o ponto principal de onde tudo emana. Em todos os tempos, o homem se pergunta sobre essa luz que brilha nas trevas, que inflama as mitologias, os contos, os sonhos. É a jornada secreta do homem em busca de seu futuro espiritual.  Ele transfigura o Ser e multiplica sua imaginação criadora através do tempo e do espaço.

Uma noite, Hermes teve a visão de uma forma de luz que lhe revelava o Conhecimento. Ele a questionou, dizendo: “Quem é Você? ─ Você mesmo”, respondeu ela. Tendo citado esta visão de Hermes, Henry Corbin acrescenta: “O que é o buscador? O que é buscado? A essa pergunta, Najmoddin Kobrâ, apelidado de “o criador de santos”, um mestre sufi persa, nascido em 1145, responde: “O procurado é a Luz divina, o buscador é uma parcela dessa Luz”[1].

Assim se apresenta a maravilhosa história de amor entre a Luz divina e a luz que emana dela. Esta última geralmente ignora sua origem, e é por isso que ela procura fora do que tem dentro de si. Por muito tempo, o homem, portador da luz, tende a se perder tomando as reflexões cintilantes por realidades. Percebendo seu erro, ele entende que seus sentidos externos são incapazes de ver a Luz, de tocá-la e de perceber seu apelo. Esses cinco sentidos são o sinal por excelência da manifestação grosseira e sensível que domina o estado de Aprendiz. Esses cinco sentidos permanecem inexoravelmente exotéricos, porque para encontrar a Verdade, não há necessidade de a buscar … De fato, o buscador da Verdade deve, antes de tudo, ser um buscador de erros, e uma vez que ele tenha encontrado os erros e os derrubados, a Verdade aparecerá nua, pura e simples como sempre foi e nunca deixou de ser.

Aqueles que não são feitos para a finalidade, geralmente não sendo feitos para o caminho, pararão na superfície do erro sem jamais alcançar o núcleo da Verdade e, portanto, a disciplina do arcano que convém a todo ensinamento esotérico não fará seu trabalho. Aqueles que, ao contrário, não se apegam à superfície dos cinco sentidos, compreenderão a correspondência que era feita na Antiguidade entre os sentidos físicos e os sentidos ou faculdades da alma, ou seja, entre os órgãos da percepção sensível e da percepção sutil. Porque, se é possível ao nosso corpo físico perceber o mundo através dos cinco sentidos, a alma pode ver, ouvir, provar, cheirar e tocar graças às suas faculdades sutis. E o processo de unificação do múltiplo, que preside toda iniciação, não terá qualquer problema para permitir que a alma concentre seus cinco sentidos sutis no que é chamado de “quintessência” [2]. Seus sentidos externos, portanto, sendo para isso incapazes. Pouco a pouco, seus sentidos internos nascem, mas eles ainda são frágeis, incapazes de contemplar a plenitude da Luz.

Angustiado, e às vezes vítima de uma vertigem abismal, o homem se olha imaginando quem ele é. Pelo conhecimento de si mesmo, ele percebe sua obscuridade, sua escuridão, suas trevas. Não se trata de negá-los, mas de assumir sua transmutação. Somente quando o buscador tiver sido capaz de mergulhar em sua dimensão de profundidade, em seu fundo sem fundo, é que ele poderá descobrir dentro de si a Luz viva.

É exatamente essa abordagem que é empreendida por nossa busca de desejar a Luz que nos fez procurar ser Maçom. Ela vai encontrar quem a procura e em quem ela habita. Ela gostaria de clarear tudo, sabendo que seu brilho poderia se tornar mortal para um olhar turbado. Então, por compaixão, ela se filtra. De tempos em tempos, para sinalizar sua presença, ela deixa aparecer um brilho comparável em sua brevidade a um piscar de olhos, o mesmo que percebemos inconsciente e furtivamente na Câmara de Reflexão. Esse brilho suave pode ser suficiente para capturar e seduzir aqueles que partiram em sua busca.

No processo empreendido pelo homem portador da Luz, as etapas e as peregrinações são numerosas e longas. Às vezes, o buscador anda em círculos, se cansa, se desespera com os obstáculos e tenta contorná-los. Ele se deixa distrair e corre o risco de esquecer o objetivo de sua viagem. A distância que o separa da Luz lhe parece insuperável e, por compensação, ele se apaixona pelas luzes fracas que o aprisionam. Sua ignorância é pesada e obscurece sua cegueira.  Assim que ele entende que deve purificar seu coração para receber a plenitude da Luz, ele gradualmente se liberta das trevas. Os antigos alquimistas sabiam que, sob sua aparência obscura, o chumbo contém “a flor dourada”. O importante é derretê-lo para que o ouro possa saltar. Assim, o coração do homem, duro e frio como um pedaço de gelo, derrete-se lentamente e dele flui água viva brilhante, toda iluminada por sua própria luz interior: a imagem do Princípio.

Durante sua transformação, o homem não se preocupa. Os textos das Sagradas Escrituras o tranquilizam: “Eu te livrarei de teu chumbo” (Isaías I, 25); “O chumbo é consumido pelo fogo” (Jeremias. VI, 29); “Vossos pecados se tornarão brancos como a neve” (Isaías I, 18). O homem se entristece apenas pela lentidão de seus passos. Ele gostaria de saltar diante da Luz, mas se sente como acorrentado por si mesmo. A Iniciação opera, o homem a recebe com alegria e lhe responde dirigindo seu olhar para a fonte da Luz. Mais ainda, seu olhar como se pregado se torna imóvel. Essa imobilidade é ao mesmo tempo movimento e repouso, confiança dinâmica e abandono.

De repente, eis o homem portador da Luz imerso em sua profundeza suprema. Ele entende que a Luz sempre esteve presente e que ele não sabia. Ela esperava pacientemente ser vista e aceita. Ela se escondia para incentivar a busca. Descoberta, ei-la aqui revelada. Ela ilumina o Homem que respondendo ao seu desejo de Luz, abandona suas próprias trevas.

Uma transformação total ocorre então no homem. Seu coração se torna uma chama comparável àquela que queimava, sem o consumir, a sarça ardente. Para ele, não há mais solidão e isolamento, ele não somente se une à Luz, mas também se une a todos os homens nos quais a Luz está viva através do amor fraternal. Ele participa da existência de criaturas das quais ele percebe o segredo luminoso.  Tudo é, para ele, um espelho refletindo a Luz do Princípio, assim ele amará as pedras, as plantas e os animais. Deslumbrado, o homem de Luz liga incessantemente o visível ao invisível. Agora, eles são um só para ele! Não estando mais estimulado pelos eventos externos e jogado de um lado para outro por eles, ele se liberta das formas e imagens pertencentes ao mundo da manifestação.

O espírito, isto é, o fio da alma ou o nous, tendo recuperado a Luz do Princípio, torna-se criador e, portanto, portador de germes de Vida. A renovação pela Iniciação ocorre no segredo da metanoia, que inicia a transformação gradual das trevas em Luz e de morte em vida. A passagem do obscuro para o luminoso significa a mutação ontológica que vai do múltiplo à Unidade. Assim, a nostalgia da Luz, experimentada naturalmente pelo homem, expressa uma tendência à Unidade, fonte de estabilidade, e o filho da Luz, o puer aeternus, apresenta-se como uma eclosão da Unidade.

Quando o embrião de Luz toma forma nele, o homem descobre seu tesouro de Luz, um pouco como um sol, e ele agora entende a correspondência entre esse sol exterior ou melhor, o Delta Luminoso, e seu sol interior ou a Estrela Flamejante. Um e outro iluminam sem privilegiar. O espaço que eles iluminam nunca é possessivo, daí a dimensão cósmica do homem que se tornou luminoso. Assim, a Luz é a herança do homem que ainda vive no tempo, enquanto se encontra fora do tempo, da maneira que se pode viver no mundo sem ser do mundo.

Todas as tradições, sejam do Oriente ou do Ocidente, fazem alusão, em diferentes linguagens, à busca recíproca da Luz divina e da luz humana. As religiões permanecem focadas na plenitude da luz, na medida em que tentam manter seu momento inicial, mas isso sempre é sobrecarregado por desvios inevitáveis.  Agora, apenas o homem que atingiu a plenitude da era espiritual se torna capaz de estimar os diferentes caminhos, porque se trancar em uma fortaleza fechada só convém aos fracos e pusilânimes. Esta é a razão pela qual, quem estava nas trevas e desejava a Luz, tornou-se maçom. De fato, a verdadeira iniciação, conforme praticada durante o Ritual do REAA, permite satisfazer esse desejo.

Durante a Sessão, o Templo Maçônico, ao mesmo tempo que a Loja, é primeiro sacralizado e transformado em um espaço ritual. Para se tornar seu Centro físico e simbólico, o Painel da Loja deve ser ativado por meio de um Ritual que lhe comunique uma alma e o carregue, de acordo com a mesma lógica que a da abertura dos painéis do retábulo durante um ofício religioso. A partir daí, a imagem é efetivada por meio de uma cosmogonia, uma verdadeira recriação do mundo, mobilizando gestos, silêncio, palavras e … a Luz. Durante sua Iniciação, o Maçom se torna filho da Luz, porque a Luz cria o Maçom como ela criou o Universo. Princípio ativo da Criação, energia infundida no Caos pelo Espírito, a Luz sacraliza o espaço do Painel, portanto, o espaço e o tempo do Templo e da Sessão. Assim, ela própria sacralizada pelo Ritual de Abertura da Loja, emoldurada de Luz e espiritualizada pelas estrelas nos três Pilares cuja iluminação corresponde a um novo Fiat Lux, o Painel espiritualiza, por sua vez, o espaço do Templo, razão pela qual o traçado do Painel não exige nenhum comentário!

A divisa de nosso Rito não é “Ordo ab Chao”? Ela se refere-se à iniciação, à “iluminação”, uma vez que é a vibração original do Fiat Lux que determina o início do processo cosmogônico pelo qual o “caos” será ordenado a se tornará o “cosmos”. As trevas sempre representam, no simbolismo tradicional, o estado de potencialidades não desenvolvidas que constituem o “caos” [3]. A luz está, portanto, bem “depois das trevas”, e isso não apenas do ponto de vista “macrocósmico”, mas também do ponto de vista “microcósmico”, que é o da iniciação, pois, nesse sentido, as trevas representam o mundo profano, de onde vem o recipiendário, ou o estado profano em que ele se encontra primeiro, até o momento exato em que será iniciado “recebendo a Luz”. Pela iniciação, o ser passa, portanto, “das trevas à luz”, como o mundo, em sua origem, passou pelo ato do Verbo criador e ordenador. Assim, a iniciação é verdadeiramente, de acordo com uma característica muito geral dos ritos tradicionais, uma imagem do “que foi feito no começo”.

Nesse sentido, se olharmos em Gênesis I, 1-4, lemos:

“No começo, Elohim criou os céus e a terra. E a terra estava sem forma e vazia, e as trevas sobre um abismo. E o sopro de Elohim pairava sobre a face das águas. Elohim diz: que haja luz! e a luz se fez. Elohim viu a luz: que boa! e Elohim separou a luz das trevas. “

A primeira palavra criadora é “que haja luz”. A vontade original do Criador se relaciona à Luz. A cada criação, “Elohim via que aquilo era bom”, com a diferença de que no primeiro dia é a própria luz que é contemplada e declarada boa. A maravilha divina expressa na exclamação “Elohim viu a luz: que boa!” sublinha a ausência de uma função atribuída à luz. Ela nada produz. Elohim a contempla e a declara boa.  De onde vem ela? Nós o ignoramos. Sabemos apenas que é considerada boa pelo Criador. Podemos considerar, por esse fato, a primeira palavra divina como uma fórmula perfeita de criação. Palavra e criação estão intimamente ligadas nesta primeira fórmula criadora. A proximidade entre a palavra e a existência da luz é tão completa que esta é considerada boa. Do 2º ao 6º dia, “Elohim viu que era bom”, mas o ser criado não é explicitamente nomeado como o sujeito desse julgamento.  No final de 6º dia, “Elohim viu tudo o que havia feito e eis que era muito bom” [4]. Mas no primeiro dia “Elohim viu a luz: que boa!” No Sepher Ha”meq Dabar, comentário sobre Gênesis I, 4, nos é dito: “Em toda criatura, podemos encontrar um elemento, por menor que seja, que não é bom.  Da luz, no entanto, que é absolutamente boa, se diz em nosso texto “que boa”. Não está escrito: “que ela é boa”, porque a expressão “que boa” conota uma qualidade superior àquela expressa no julgamento: “que ela é boa”. Então esse é o ternário do começo: o Criador, o mundo sombrio e caótico e a Luz.

Por outro lado, o cosmos, enquanto “ordem” ou conjunto ordenado de possibilidades, não é apenas extraído do “caos” enquanto estado “não ordenado”, mas ele também é produzido propriamente a partir deste (ab Chao), onde essas mesmas possibilidades estão contidas no estado potencial e “indistinto” e que é assim o ponto de partida “substancial” para a manifestação deste mundo, como o Fiat Lux o é, por sua vez, o ponto de partida “essencial”. De maneira semelhante, o estado de ser anterior à Iniciação constitui a substância “indistinta ou pedra bruta” de tudo o que poderá se tornar efetivamente depois. Mas a Iniciação não pode ter o efeito de introduzir nele possibilidades que não estariam lá em primeiro lugar (e, além disso, essa é a razão de ser das qualificações exigidas como pré-requisito). Mas, essas possibilidades, quando existem, ainda são encontradas apenas no estado “caótico e tenebroso” ou thohû vabohû do Gênesis, e é preciso “iluminação”, ou seja, Iniciação efetiva, para que eles possam começar a se ordenar e, da mesma forma, passar de potência ao ato. De fato, deve ser claramente entendido que essa passagem não ocorre instantaneamente, mas continua durante todo o trabalho iniciático. É o trabalho interior que vem após a iniciação virtual que diz respeito propriamente à iniciação efetiva, que está, em suma, em todos os seus graus, o desenvolvimento “em ato” das possibilidades às quais a iniciação virtual dá acesso. Essa iniciação virtual é, portanto, a iniciação entendida no sentido mais estrito da palavra, ou seja, como uma “entrada” ou um “começo”.

A iniciação é essencialmente uma transmissão de uma influência espiritual, porque é ela que constitui essencialmente a iniciação no sentido estrito.

É precisamente “porque eu estava nas trevas e desejava a Luz”, que me tornei maçom.

Autor: Joseph Blanc Neveu 
Traduzido por: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

Notas

[1] – Henry Corbin, Da Filosofia Profética no Islã Shiita, em Eranos Jahrbuch, 1962, Zurique, 1963, pp.50-51.

[2] – Jean-Michel Pla

[3] – René Guénon, Le Règne de la Quantité et les Signes des Temps, ch. III.

[4] – Gênesis I, 31.

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O sentido da vida

Todo o ser humano, mais tarde ou mais cedo, mais ou menos frequentemente, se interroga sobre o sentido da vida. As religiões resultam, em última análise, dessa primordial interrogação, procurando cada uma delas dar resposta à mesma. 

Confrontado com a crença religiosa que a sua cultura lhe disponibiliza, o indivíduo tem, basicamente, uma de três reações. Ou aceita essa doutrina, ou a rejeita ou aceita elementos, ainda que modificando-os, dessa tradição, mas busca ir mais além e mais fundo.

Se o indivíduo aceita a doutrina da crença religiosa que a sua cultura lhe disponibiliza, o seu problema está resolvido: o sentido da sua vida contém-se nos princípios dessa doutrina, cumpre, ou procura cumprir, os preceitos dessa religião e busca a Salvação ou a Evolução que a doutrina da sua religião preconiza. Sabe qual é o seu lugar e a sua função no mundo e na vida. Não precisa de se questionar mais.

Se o indivíduo rejeita a crença religiosa que a sua cultura lhe disponibiliza, das duas, uma: ou fá-lo porque se identifica com outra doutrina religiosa, a que se converte, ou, pura e simplesmente não crê. Na primeira hipótese, o seu problema de responder à interrogação primordial sobre o sentido da vida fica resolvido, em termos semelhantes à situação anterior. 

Se a rejeição da crença religiosa ocorre porque, pura e simplesmente, não crê, o seu problema fica também resolvido, mas com outra resposta: não existe qualquer sentido na vida, a vida, como o Universo, resulta de uma combinação de fatores físicos e químicos, tudo se resume ao mundo material, onde se nasce, vive-se o melhor que se pode e um belo dia morre-se e nada de nada resta, para além do que se enterra ou é cremado, para dar lugar a outros que, sucessivamente, nascerão, viverão e morrerão, sem que deles nada reste também, para além do que se enterra ou é cremado, até que um dia uma qualquer combinação de fatores físicos e químicos a tudo ponha fim – do começo ao final nada faz sentido, tudo sucede, sucedeu e sucederá por acaso, por mecânica combinação de uma miríade de fatores físicos e químicos.

Se o indivíduo, confrontado com a crença religiosa da sua cultura, aceita, ainda que modificando-os, elementos dessa tradição, mas busca ir mais além e mais fundo, esse é o que mais longa e persistentemente se debate com a interrogação sobre o sentido da vida. A resposta institucional não o satisfaz, a opção no ateísmo materialista também não. Esse rejeita que tudo sucedeu por acaso, por mera consequência de fatores físicos e químicos e que a vida não tenha sentido. Esse considera que existe, sim, um sentido na vida, ainda que ele o desconheça, mas entende que existe um Propósito, um Objetivo, na existência do Universo e, principalmente, da Vida. O que materialmente vê e sente é apenas uma parte do quadro da Vida. Acredita que outros planos de existência ocorrem, que a passagem por este plano material tem um propósito, simplesmente não se satisfaz plenamente com as respostas dadas pela religião da sua cultura – nem com as respostas dadas pelas demais religiões.

Esse, ou se conforma com o desconhecimento e vive segundo os preceitos da sociedade em que se insere, ainda que porventura os não aceitando plenamente, ou busca, por si, com a sua Razão, resposta ou caminhos para resposta suscetível de o satisfazer. É crente, mas não se identifica com nenhuma religião em concreto. É crente porque a sua Razão o conduz a que o seja, mas, por isso mesmo, procura as respostas por si mesmo. É o que se denomina de deísta.

Há ainda os que – talvez a maioria – vão evoluindo ao longo da sua vida, em resultado do seu crescimento, das suas experiências, dos seus encontros e desencontros com pessoas, ideias e ideais. O mesmo indivíduo pode, ao longo da sua vida, passar por mais do que um – no limite, até por todos – dos estádios acima referidos.

Cada um é como cada qual. A pergunta – qual o sentido da vida? – é a mesma, impõe-se a todos, mas cada um dá-lhe a resposta que entende ou que pode dar e, se muda os termos dessa resposta, uma ou várias vezes, é porque a sua natureza o impele a assim fazer.

Muitos, a maioria, interrogam-se sobre o sentido da vida na solidão do diálogo consigo próprio ou podem apenas obter as respostas institucionalizadas da sua tradição religiosa. Outros confrontam a sua interrogação com as similares interrogações de outrem, e daí resultam apostasias, conversões, mas também lutas, por vezes ferozes, ou indiferenças perante as diferenças.

Há uns quantos, porém, que têm a possibilidade de colocar essa interrogação em conjunto com outros, sem confrontos, com aceitação das respostas de cada um, com partilha de pontos de vista e de experiências, pondo todos em comum o que cada um tem, de forma a que cada um retire do todo posto em comum o que necessite para ir mais além e mais fundo, na sua busca pessoal de resposta à interrogação primordial que o venha a satisfazer.

Esses são os maçons!

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Para que nos reunimos aqui?

Logo no início dos trabalhos de Aprendiz Maçom, o Venerável Mestre, ao indagar o 1º Vigilante sobre os motivos da realização da reunião, tem como resposta:

“Para combater a tirania, a ignorância, os preconceitos e os erros, e glorificar o Direito, a Justiça e a Verdade, para promover o bem-estar da Pátria e da Humanidade, levantando Templos á virtude e cavando masmorras ao vício.”

Apesar do assunto ser bem trabalhado na sessão de Iniciação, a intensidade da cerimônia talvez não atraia a atenção necessária. Lado outro, talvez tal resposta seja uma das mais importantes para a vida do maçom. Muitas vezes, afetado pelos problemas do dia a dia, o maçom pode se indagar: por que continuo maçom? Para que serve mesmo a reunião? 

A resposta está no próprio ritual e é repetida, reiteradamente, toda reunião.

Necessário nos aprofundarmos sempre no ensinamento ali contido:

“(…) combater a tirania, a ignorância, os preconceitos e os erros (…)”

Vejam meus irmãos que a ideia aqui é mostrar ao maçom que ele deve sempre preservar o livre pensamento da pessoa humana, preservando-o das adversidades do mundo profano. Se volvermos nossos olhos à época de fundação das primeiras lojas maçônicas e da edição de nossos landmarks, constataremos que toda a doutrina maçônica se baseia no ideal iluminista, que tinha como pensadores pessoas como Descartes, Adam Smith, Diderot e Montesquieu, entre outros. O movimento iluminista que serve como pano de fundo para a maioria das revoluções do século XVIII, como a Revolução Francesa, a Revolução Americana e até mesmo a nossa Inconfidência Mineira (uma tentativa frustrada de revolução).

Tal doutrina tem como elemento principal o direito de o cidadão viver e agir de maneira digna, reduzindo, sensivelmente, o poder do Estado sobre o indivíduo. A partir daí, valorizam o pensamento racional (e daí o direito de questionar até mesmo o Estado), os direitos naturais (que nascem com ele) e a crítica a governos autoritários, com ampla liberdade política, econômica e religiosa.

A ideia do maçom de se combater os tiranos é exatamente de evitar render louvores a posições autoritárias, com supressão pelo Estado de direitos individuais do cidadão. O ritual vai além e exige do maçom que ele não se renda aos preconceitos e à ignorância, ou seja, que lute contra o posicionamento típico daqueles que levam o pensamento dogmático (muitas vezes nutridos por uma religiosidade sem questionamento), literalmente.

Não cabe ao maçom apenas cumprir sem questionar! O maçom é um pensador na essência e, como tal, tem a obrigação de questionar.

Propagar ignorância (ausência de estudo sobre um determinado termo) ou preconceito (opinião desprovida de um mínimo de pensamento crítico), é vedado ao maçom. Necessário um especial cuidado!

Mas daí poderíamos pensar: Ora, então cabe ao maçom desrespeitar deliberadamente as autoridades? Não é esse o ideal maçônico…

O ritual diz:

“(…) glorificar o Direito, a Justiça e a Verdade, para promover o bem-estar da Pátria e da Humanidade, levantando Templos á virtude e cavando masmorras ao vício(…)”

A primeira parte de tal frase chama a atenção por usar os termos Direito, Justiça e Verdade em letra maiúscula. O uso do termo “Direito” com letra maiúscula é a consagração da “ciência do Direito”. Se partirmos do princípio de que o REAA é originalmente em inglês, a palavra original seria o termo “law” e não “right”. Por força do nosso idioma, o termo Direito (como ciência) e direito (certo, correto) são palavras homônimas, mas não são sinônimas. O uso da palavra varia conforme o significado.

Quando o ritual opta pelo Direito como ciência, diz que cabe ao maçom respeitar a ciência do Direito, aí incluindo, especialmente, nossa Constituição Federal (norma máxima e base do Estado Democrático de Direito). O respeito à Constituição pressupõe o respeito às autoridades constituídas.

Ou seja, cabe ao maçom questionar racionalmente, mas jamais propor o desrespeito às leis; jamais propagando a desobediência civil.

E o ritual continua pregando o respeito da Justiça e da Verdade. Aqui, uma vez mais, o termo Justiça não advém da noção de “justo ou injusto”, noção totalmente individual. O que é justo para mim pode não ser para o meu irmão e vice-versa.

A noção de Justiça que o ritual traz, interpreto como sendo a autoridade judiciária; ou seja, respeito àquele a quem a nossa Constituição dota o poder de “dizer o Direito”, o que a doutrina jurídica chama de jurisdição. Assim, nossos juízes são as pessoas a quem a Constituição deu o poder para definir o que é justo ou injusto, dentro dos limites da própria Constituição.

A noção de Verdade talvez seja um dos principais deveres do maçom, especialmente em época em que o ser humano tem acesso infinito à informação (de todos os tipos), com o uso do sistema mundial de computadores. Nosso ritual exige que apenas propaguemos a verdade. Devemos ter noção de saber muito bem diferenciar a opinião (livre convicção do indivíduo) do que é fato (verdade indiscutível).

Em época das malfadadas “Fake News”, o maçom deve ser um catalisador de informações, tendo o dever de apenas passar à frente aquilo que seja fato e de desmentir o que seja falso! É nosso dever saber e propagar o que é verídico! Apenas com a estrita observância de nossos ensinamentos é que sairemos de casa com a justa consciência do objetivo de nossas reuniões, lembrando que, se nos desvirtuarmos de nosso objetivo, nos desvirtuaremos como maçons.

Autor: Fernando Ramos Bernardes Dias

*Fernando é ex-Venerável Mestre da ARLS Renovação e Progresso, nº 250, do oriente de Patrocínio, jurisdicionada à GLMMG.

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Tolerância e seus limites

Em Maçonaria, o conceito de Tolerância não inclui qualquer noção de superioridade do tolerante perante o tolerado. Isto é, não se tolera a opinião ou a crença do outro porque somos boas pessoas e achamos que devemos fazê-lo, apesar de entendermos que nós é que estamos certos e o outro é que está errado fazendo-lhe o favor de aceitar que ele tenha opinião errada.

O conceito maçônico de Tolerância existe como corolário do princípio da Igualdade, basilar entre os maçons. Deve-se tolerar e tolera-se a opinião diferente ou divergente do outro, porque, como iguais que somos, cada um tem o direito a ter a sua opinião, como muito bem entenda tê-la. E tolera-se e deve tolerar-se a opinião diferente e divergente do outro em relação à nossa, porque não devemos ter a sobranceria de achar que nós é que somos os iluminados, tocadas pela graça divina de estarmos sempre certos.

Quando o nosso igual tem uma opinião diferente ou divergente da nossa, quatro hipóteses podem existir: ou o outro está errado e nós certos, ou somos nós que estamos errados e é o outro quem está certo, ou afinal estamos ambos errados e é outra qualquer posição que está certa, ou até podemos ambos estar certos, só que em planos, tempos ou condições diferentes.

A Tolerância não é um favor, uma concessão ou uma generosidade. A Tolerância é a simples consequência de se reconhecer que a perfeição humana não existe e, portanto, de admitir como um fato da vida que todos e cada um de nós temos os nossos defeitos, as nossas imperfeições, os nossos acertos e os nossos erros e é, por conseguinte, até mais do que imperativo ético, um ato de inteligência tolerar o outro com os seus defeitos, imperfeições e erros pois, só assim, podemos esperar que os nossos sejam, por sua vez, tolerados.

Situações que por vezes são apresentadas como de Tolerância nada têm a ver com a mesma: a “tolerância” do branco em relação ao negro (ou vice-versa) não é mais do que racismo comprometido; a do homem para com a mulher (ou vice-versa), não passa de machismo (ou feminismo) mentecapto; a do cristão para com o judeu ou o muçulmano, ou do judeu para com o muçulmano ou o cristão ou a do muçulmano para com o cristão ou o judeu, mais não significam do que a tentativa de ocultar sectarismo religioso; a do rico em relação ao pobre apenas disfarça o sentimento de culpa pela sorte do conforto material ou desejo de continuar a explorar o deserdado. Porque o branco e o negro são ambos humanos e ambos têm carne e ossos e sangue vermelho e coração e cérebro. Porque homem e mulher se complementam e são mutuamente indispensáveis. Porque cristãos, judeus e muçulmanos creem no mesmo Deus. Porque o rico e o pobre só se enobrecem pelo trabalho.

Quando se fala de Tolerância, é frequente vir à baila a questão dos seus limites. Existe alguma tendência para se considerar existir algo de contraditório entre a Tolerância e a consideração de existência de limites à mesma. A meu ver, esta é uma falsa questão, que um pouco de reflexão facilmente resolve. 

Antes do mais, é preciso entender que o conceito de Tolerância se aplica a crenças, a ideias, ao pensamento e respetiva liberdade, às pessoas e sua forma, estilo e condições de vida, mas nada tem a ver com o juízo sobre atos. Cada um de nós deve tolerar, aceitar e respeitar, independentemente da sua diferença em relação a si e ao seu entendimento, a crença alheia, as ideias e o pensamento de outrem, pois a liberdade de crença e de pensamento são expressões fundamentais da dignidade humana. Cada um de nós deve tolerar, aceitar e respeitar o outro, quaisquer que sejam as diferenças que vejamos nele em relação a nós, porque o outro é essencialmente igual a mim, não ferindo essa essencial igualdade as particulares diferenças entre nós existentes. Mas não é do domínio da Tolerância o juízo sobre os atos. O juízo sobre atos efetua-se em função da moral e das regras sociais e legais vigentes.

Explicitando um pouco mais: tenho o dever de aceitar alguém que pense de forma diferente da minha, que tenha uma crença religiosa diferente da minha, uma orientação sexual diferente da minha, um estilo de vida diferente do meu. Mas já não tenho idêntico dever em relação a atos concretos desse outro que se revelem violadores da lei, da moral ou da própria noção de Tolerância. Designadamente, não tenho que tolerar manifestações de intolerância em relação a mim, às minhas crenças e convicções, tal como não só não tenho que tolerar, como não devo fazê-lo, atos criminosos, cruéis, degradantes ou simplesmente violadores das consensuais regras de comportamento social.

Temos o dever de tolerar, de aceitar, a diferença – no estilo, nas ideias, nas crenças, no aspecto ou nas condições individuais. Por outro lado, temos o direito e o dever de ajuizar, de exercer o nosso sentido crítico, relativamente a ações concretas.

Ninguém vive isolado da Sociedade e todos têm de cumprir as regras sociais que viabilizam a sã convivência de todos com todos. Consequentemente, é uma simples questão de bom senso que devemos aceitar, valorizar, integrar as diferenças. Quem é diferente, tem direito a sê-lo. Quem pensa diferente, tem o direito de assim fazer. Mas, por outro lado, o direito à diferença não legitima a atuação desconforme com as regras sociais, legais, morais, em vigor na Sociedade em causa. Ninguém pode pretender só gozar das vantagens sem suportar os inconvenientes. Quem vive em Sociedade tem o direito de exigir que ela e os demais aceitem as suas diferentes ideias, conceções, condição. Mas tem o correlativo dever de respeitar as normas sociais, legais e morais vigentes. Se o não quiser fazer, deve afastar-se para onde vigorem normas que esteja disposto a seguir.

As Sociedades evoluem e é bom que assim seja. Também por isso é inestimável e rica a diferença. Também por isso devemos aceitá-la e aceitar que quem defende ideias ou conceções ou condições diversas da norma procure convencer os demais da bondade das suas escolhas. Isso é Liberdade, isso é Democracia. Nem uma, nem outra subsistem sem a indispensável Tolerância da Diversidade. Mas, precisamente por isso – afinal porque quem quer e merece ser respeitado tem o dever de respeitar – o direito de defesa das ideias e convicções, o direito a tentar convencer os demais, o direito a pregar a evolução pretendida, não se confunde com qualquer pretensão de agir como se pretende, se em contrário da lei, do consenso social, da postura moral da Sociedade em que se está inserido.

Resumindo: a Tolerância obriga a respeitar a Diversidade e a diferença; impõe a aceitação da divulgação, da busca de convencimento, mesmo da propaganda das ideias ou conceções diversas. Mas não que se aceitem condutas prevaricadoras do que está legal e socialmente vigente – enquanto o estiver. Por isso entendo que os domínios da Tolerância e do Juízo sobre os atos concretos são diferentes. As ideias, as conceções, as condições confrontam-se, debatem-se, mutuamente se influenciam, enfim interagem no domínio da Liberdade e, assim, da mútua Tolerância. Os atos, esses, necessariamente que têm de respeitar o estabelecido enquanto estabelecido estiver. Se assim não for, o que é aplicável à violação do consenso social não é a Tolerância – é a Justiça, seja sobre a forma de Justiça formal, seja enquanto censura social seja no domínio do juízo individual.

Portanto, onde tem lugar a Tolerância, ela não tem limites. Onde há limites, sejam legais, sejam de normas sociais ou morais, não se está no domínio da Tolerância, mas no domínio do tão justo quanto possível juízo concreto sobre atos concretos.

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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A caminhada do maçom

Sei que minha caminhada tem um destino e um sentido, por isto devo medir meus passos, devo prestar atenção no que faço e no que fazem os que por mim também passam ou pelos quais passo eu… 

Que eu não me iluda com o ânimo e o vigor dos primeiros trechos, porque chegará o dia em que os pés não terão tanta força e se ferirão no caminho, cansando-se mais cedo… Todavia, quando o cansaço houver chegado, que eu não desespere e acredite que ainda terei forças para continuar, principalmente, quando houver quem me auxilie… 

É oportuno que em meus sorrisos eu me lembre de que existem os que choram e, assim, que meu sorriso não ofenda os que sofrem. Por outro lado, quando chegar a minha vez de chorar, que eu não me deixe dominar pela desesperança, mas que eu entenda o sentido do sofrimento que me nivela, que me iguala, que torna todos os homens iguais… 

Bota nos pés e chapéu na cabeça e, assim não temer o vento e o frio, a chuva e o tempo, que não me considere melhor do que aqueles que ficarão para trás, porque pode vir o dia em que nada mais terei para a jornada e aqueles que ultrapassei na caminhada me alcançarão e poderão, como eu fiz, nada de fato fazerem por mim, que ficarei no caminho sem concluí-lo… 

Quando o dia brilhar que eu tenha vontade de ver a noite em que a caminhada será mais fácil e amena, porém quando for noite e a escuridão tornar mais difícil à chegada, que eu saiba esperar o dia como a aurora o espera, que eu saiba esperar o calor como Bênção… 

Que eu perceba que sozinho a caminhada pode ser mais rápida, mas que é mais vazia… 

Quando eu tiver sede que encontre a fonte no caminho e quando me perder que eu ache a indicação, o sentido… 

Que eu não siga os que se desviam. Mas, principalmente, que ninguém se desvie seguindo os meus passos… 

Que a pressa em chegar não me afaste da alegria de ver as flores à beira do caminho, que eu não perturbe a caminhada de ninguém, e que perceba, que se seguir faz bem, às vezes é preciso ter-se a bravura de voltar atrás e recomeçar e tomar outra direção… 

Que eu não caminhe sem rumo, que eu não me perca nas encruzilhadas, tampouco não tema os que assaltam e os que embuçam, mas que eu vá aonde devo ir. E, se eu cair no meio do caminho, que fique a lembrança de minha queda para impedir que outros caiam no mesmo abismo… 

Que eu chegue sim, mas ainda mais importante é que eu faça chegar quem me perguntar, me pedir conselho e, acima de tudo, que continuem a me seguir, apoiando em mim, porque Maçom, meus irmãos como tal me reconhecem.

Autor: Geraldo M. de Castro

Fonte: JB News – Informativo nº 183 – 26/02/2011

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O homem que plantava árvores

Para que o caráter de um ser humano revele qualidades verdadeiramente excepcionais, devemos ter a sorte de observar a sua ação por um longo período. Se esta ação é desprovida de todo o egoísmo, se a ideia que a dirige é de generosidade inqualificável, se é absolutamente certo que não buscou recompensa em nenhum lugar, e se além disso deixou marcas visíveis no mundo, então estamos inquestionavelmente a lidar com um personagem inesquecível.

Há cerca de quarenta anos, fiz uma longa caminhada, por colinas absolutamente desconhecidas dos turistas, naquela região muito antiga onde os Alpes penetram na Provença.

Esta região é limitada a sudeste e sul pelo curso médio do Durance, entre Sisteron e Mirabeau; a norte pelo curso superior do Drôme, desde a sua nascente até ao Die; a oeste pelas planícies de Comtat Venaissin e os arredores de Mont Ventoux. Inclui toda a parte norte do Departamento de Basses-Alpes, o sul de Drôme e um pequeno enclave de Vaucluse.

Na época em que fiz a minha longa caminhada por essa região deserta, ela era composta por terras áridas e monótonas, a cerca de 1200 a 1300 metros acima do nível do mar. Nada lá crescia, exceto lavanda selvagem.

Eu estava a atravessar este país na sua parte mais larga e, depois de caminhar por três dias, encontrei-me na mais completa desolação. Estava acampado ao lado das ruínas de uma aldeia abandonada. Tinha usado a minha última água no dia anterior e precisava encontrar mais. Embora estivessem em ruínas, estas casas todas amontoadas e parecendo um velho ninho de vespas fizeram-me pensar que, em algum momento, devia ter havido ali uma fonte ou um poço. Havia de fato uma fonte, mas estava seca. As cinco ou seis casas sem teto, devastadas pelo sol e pelo vento, e a capelinha com o campanário caído, estavam ordenadas como as casas e capelas das aldeias vivas, mas toda a vida tinha desaparecido.

Era um belo dia de junho com muito sol, mas naquelas terras sem abrigo, lá no alto, o vento assobiava com uma brutalidade insuportável. O seu rosnar nas carcaças das casas era como o de uma fera perturbada durante a sua refeição.

Eu tive que mudar o meu acampamento. Depois de cinco horas de caminhada, ainda não tinha encontrado água, e nada me dava esperança de encontrar. Em todos os lugares havia a mesma secura, as mesmas plantas duras e lenhosas. Pensei ter visto ao longe uma pequena silhueta negra. À sorte, fui em direção a ela. Era um pastor. Cerca de trinta cordeiros descansavam perto dele no chão escaldante.

Deu-me um gole da sua cabaça e um pouco depois levou-me até à sua cabana de pastor, localizada numa ondulação do planalto. Ele tirou a sua água – excelente – de um buraco natural, muito profundo, sobre o qual tinha instalado um molinete rudimentar.

Este homem falava pouco. Isto é comum entre os que moram sozinhos, mas ele parecia seguro de si e confiante nessa segurança, que parecia notável nesta terra despojada de tudo. Ele não morava numa cabana, mas numa verdadeira casa de pedra, de cuja aparência era claro que, com o seu próprio trabalho, tinha restaurado as ruínas que encontrara à sua chegada. O seu telhado era sólido e estanque. O vento batia nas telhas com o som do mar rebentando na praia.

A sua casa estava em ordem, os seus pratos lavados, o seu chão varrido, a sua espingarda lubrificada; a sua sopa fervia no fogo. Percebi então que ele também estava recém-barbeado, que todos os seus botões estavam solidamente costurados e que as suas roupas eram remendadas com tanto cuidado que tornavam os remendos invisíveis.

Ele dividiu a sua sopa comigo e, quando depois lhe ofereci a minha bolsa de tabaco, ele disse-me que não fumava. O seu cachorro, tão silencioso quanto ele, era amigável sem ser bajulador.

Ficou imediatamente combinado que eu passaria a noite ali, pois a aldeia mais próxima ainda estava a mais de um dia e meio de distância. Além disso, compreendi perfeitamente o caráter das raras aldeias daquela região. Há quatro ou cinco delas dispersas umas das outras nos flancos das colinas, em bosques de carvalhos brancos nas extremidades das estradas transitáveis ​​por carruagens. São habitadas por lenhadores que fazem carvão. São lugares onde a vida é pobre. As famílias, apertadas e unidas por um clima extremamente severo, tanto no verão como no inverno, lutam cada vez mais egoisticamente umas contra as outras. A disputa irracional cresce além de todos os limites, alimentada por uma luta contínua para escapar daquele lugar. Os homens levam o carvão para as cidades nos seus caminhões e depois voltam. As qualidades mais sólidas quebram-se sob este perpétuo chuveiro escocês. As mulheres despertam amargura. Há competição em tudo, desde a venda de carvão até aos bancos da igreja. As virtudes lutam entre si, os vícios lutam entre si, e há um incessante combate geral entre os vícios e as virtudes. Além de tudo isto, o vento, igualmente incessante, irrita os nervos. Há epidemias de suicídios e inúmeros casos de insanidade, quase sempre homicidas.

O pastor, que não fumava, pegou num saco e derramou uma pilha de bolotas sobre a mesa. Começou a examiná-las uma após outra com muita atenção, separando as boas das más. Fumei o meu cachimbo. Ofereci-me para a ajudar, mas ele disse-me que era um assunto seu. De fato, vendo o cuidado que ele dedicou a este trabalho, não insisti. Esta foi toda a nossa conversa. Quando ele tinha na pilha boa um bom número de bolotas, contou-as em grupos de dez. Ao fazer isto, eliminou mais algumas bolotas, descartando as menores e as que apresentavam até mesmo a menor rachadura, pois examinou-as muito de perto. Quando tinha diante de si cem bolotas perfeitas, parou e fomos para a cama.

A companhia deste homem trouxe-me uma sensação de paz. Perguntei-lhe na manhã seguinte se poderia ficar e descansar o dia inteiro com ele. Ele achou isso perfeitamente natural. Ou mais exatamente, ele me deu a impressão de que nada poderia perturbá-lo. Este descanso não era absolutamente necessário para mim, mas fiquei intrigado e queria saber mais sobre este homem. Soltou o seu rebanho e levou-o para o pasto. Antes de partir, embebeu num balde de água o saquinho com as bolotas que escolhera e contara com tanto cuidado.

Notei que ele carregava como uma espécie de bengala, uma haste de ferro da espessura do seu polegar e cerca de um metro e meio de comprimento. Saí como quem passeia, seguindo um caminho paralelo ao dele. O seu pasto de ovelhas ficava no fundo de um pequeno vale. Ele deixou o seu rebanho aos cuidados do seu cachorro e subiu em direção ao local onde eu estava. Tive medo de que ele me viesse censurar pela minha indiscrição, mas nem um pouco: era a sua própria rota e convidou-me para o acompanhar, se eu não tivesse nada melhor para fazer. Continuou por mais duzentos metros colina acima.

Tendo chegado ao lugar para onde estava indo, começou a bater com a sua barra de ferro no chão. Isto fez um buraco no qual ele colocou uma bolota, após o que ele cobriu o buraco novamente. Ele estava a plantar carvalhos. Perguntei-lhe se a terra lhe pertencia. Ele respondeu que não. Sabia ele de quem era aquela terra? Não sabia. Supunha que era terra comunal, ou talvez pertencesse a alguém que não se importava com ela. Ele próprio não se importava em saber quem eram os donos. Desta forma ele plantou as suas cem bolotas com muito cuidado.

Após o almoço, começou mais uma vez a colher as suas bolotas. Devo ter insistido bastante nas minhas perguntas, porque ele respondeu. Já fazia três anos que vinha plantando árvores dessa maneira solitária. Ele tinha plantado cem mil. Destes cem mil, ficaram vinte mil. Contava perder metade para os roedores e para tudo o mais imprevisível nos desígnios da Providência. Isto deixava dez mil carvalhos que cresceriam neste lugar onde antes não havia nada.

Foi neste momento que me comecei a perguntar sobre a sua idade. Ele tinha claramente mais de cinquenta. Cinquenta e cinco, disse-me ele. O seu nome era Elzéard Bouffier. Tinha uma fazenda nas planícies, onde viveu a maior parte da sua vida. Ele tinha perdido a seu único filho, e depois a sua esposa. Tinha-se retirado para esta solidão, onde tinha prazer em viver lentamente, com o seu rebanho de ovelhas e o seu cachorro. Ele tinha concluído que o país estava a morrer por falta de árvores. Acrescentou que, não tendo nada mais importante para fazer, resolveu remediar a situação.

Levando como levava na época uma vida solitária, apesar da juventude, sabia tratar com delicadeza as almas das pessoas solitárias. Ainda assim, cometi um erro. Foi precisamente a minha juventude que me obrigou a imaginar o futuro nos meus próprios termos, incluindo uma certa procura da felicidade. Eu disse-lhe que em trinta anos estas dez mil árvores seriam magníficas. Ele respondeu muito simplesmente que, se Deus lhe desse a vida, em trinta anos ele teria plantado tantas outras árvores que estas dez mil seriam como uma gota de água no oceano.

Ele também tinha começado a estudar a propagação de faias e tinha perto da sua casa um viveiro cheio de mudas de nogueiras. As suas pequenas mudas, que ele tinha protegido das suas ovelhas por uma cerca de tela, estavam a crescer lindamente. Também estava a considerar bétulas para o fundo do vale onde, segundo me disse, a humidade estava adormecida a apenas alguns metros abaixo da superfície do solo.

Despedimo-nos no dia seguinte.

No ano seguinte veio a guerra de 14, na qual estive envolvido por cinco anos. Um soldado de infantaria mal conseguia pensar em árvores. Para dizer a verdade, a história toda não me impressionou muito. Achei que fosse um hobby, como uma coleção de selos, e esqueci-a.

Com a guerra para trás, encontrei-me com um pequeno bônus de desmobilização e um grande desejo de respirar um pouco de ar puro. Sem nenhuma noção preconcebida para além disto, voltei a percorrer as trilhas por aquela região deserta.

A terra não mudou. No entanto, além daquela aldeia morta, percebi ao longe uma espécie de neblina cinzenta que cobria as colinas como um tapete. Desde o dia anterior eu pensava no pastor que plantava árvores. Dez mil carvalhos, disse a mim mesmo, devem ocupar muito espaço.

Eu tinha visto muitas pessoas morrerem durante estes cinco anos para não poder imaginar facilmente a morte de Elzéard Bouffier, especialmente porque quando um homem tem vinte anos, pensa num homem de cinquenta como um velho para quem nada resta senão morrer. Ele não estava morto. Na verdade, continuava muito ágil. Tinha mudado de emprego. Agora só tinha quatro ovelhas, mas para compensar isso tinha cerca de cem colmeias. Tinha-se livrado das ovelhas porque elas ameaçavam a sua colheita de árvores. Disse-me (como de fato eu pude ver por mim próprio) que a guerra não o tinha perturbado em nada; continuara imperturbavelmente com o seu plantio.

Os carvalhos de 1910 tinham agora dez anos e eram mais altos do que eu e que ele. O espetáculo era impressionante. Fiquei literalmente sem palavras e, como ele próprio não falava, passamos o dia inteiro em silêncio, caminhando pela floresta. Estava dividida em três seções, onze quilômetros de comprimento total e, no seu ponto mais largo, três quilômetros de largura. Quando considerei que tudo isto tinha nascido das mãos e da alma deste único homem – sem ajuda técnica -, ocorreu-me que os homens podem ser tão eficazes quanto Deus noutros domínios que não a destruição.

Ele tinha seguido a sua ideia, e as faias que chegavam até aos meus ombros e se estendiam até onde a vista alcançava testemunhavam isso. Os carvalhos eram agora bons e espessos, e haviam passado da idade em que estavam à mercê de roedores; quanto aos desígnios da Providência, destruir a obra que tinha sido criada exigiria doravante um ciclone. Mostrou-me admiráveis plantações de bétulas que datavam de cinco anos atrás, ou seja, de 1915, quando eu lutava em Verdun. Tinha-as plantado no fundo do vale onde suspeitara, corretamente, que havia água perto da superfície. Elas eram tão ternas quanto meninas, e muito determinadas.

Esta criação tinha, aliás, o ar de funcionar através de uma reação em cadeia. Ele não se preocupou com isso; continuou obstinadamente com a sua simples tarefa. Voltando para a aldeia, vi água a correr em riachos que, na memória viva, sempre foram secos. Foi o avivamento mais impressionante que ele me mostrou. Estes riachos já tinham trazido água antes, em tempos antigos. Algumas das tristes aldeias de que falei no início do meu relato foram construídas sobre os sítios das antigas aldeias galo-romanas, das quais ainda restam vestígios; os arqueólogos que escavavam ali tinham encontrado anzóis em lugares onde em tempos mais recentes eram necessárias cisternas para ter um pouco de água.

O vento também estava a trabalhar, espalhando certas sementes. Quando a água reapareceu, também reapareceram os salgueiros, vimes, prados, jardins, flores e uma certa razão para viver.

Mas a transformação ocorrera tão lentamente que fora dada como certa, sem causar surpresa. Os caçadores que subiam as colinas em busca de lebres ou javalis tinham notado a extensão das pequenas árvores, mas atribuíam-no à maldade natural da terra. É por isso que ninguém tinha tocado na obra desse homem. Se suspeitassem dele, teriam tentado frustrá-lo. Mas ele nunca foi suspeito: quem entre os aldeões ou os administradores suspeitaria que alguém pudesse mostrar tamanha obstinação em realizar este magnífico ato de generosidade?

A partir de 1920 não deixei passar mais de um ano sem visitar Elzéard Bouffier. Nunca o vi vacilar ou duvidar, embora só Deus possa dizer quando a própria mão de Deus está numa coisa! Não disse nada das suas decepções, mas pode-se facilmente imaginar que, para tal feito, era necessário vencer a adversidade; que, para assegurar a vitória de tal paixão, era preciso lutar contra o desespero. No ano ele havia plantado dez mil áceres. Todos morreram. No ano seguinte, ele desistiu dos áceres e voltou para as faias, que se saíram ainda melhor do que os carvalhos.

Para se ter uma ideia real deste caráter excepcional, não se deve esquecer que ele trabalhou em total solidão; tão total que, no final da vida, perdeu o hábito de falar. Ou talvez ele simplesmente não visse a necessidade disso.

Em 1933 recebeu a visita de um guarda florestal atônito. Este funcionário ordenou-lhe que parasse de fazer fogueiras ao ar livre, por medo de pôr em perigo esta floresta natural. Era a primeira vez, disse-lhe aquele homem ingênuo, que se observava que uma floresta crescia sozinha. Na época deste incidente, estava a pensar plantar faias num local a doze quilômetros da sua casa. Para evitar as idas e vindas – porque na época tinha setenta e cinco anos – planeava construir uma cabana de pedra onde estava a plantar; fez isso no ano seguinte.

Em 1935, uma verdadeira delegação administrativa foi examinar esta “floresta natural”. Havia um importante personagem das Águas e Florestas, um deputado e alguns técnicos. Muitas palavras inúteis foram ditas. Decidiu-se fazer alguma coisa, mas felizmente nada foi feito, exceto uma coisa realmente útil: colocar a floresta sob a proteção do Estado e proibir qualquer pessoa de lá ir para fazer carvão. Era impossível não se encantar com a beleza destas jovens árvores em plena saúde. E a floresta exercia os seus poderes de sedução até no próprio deputado.

Eu tinha um amigo entre os chefes florestais que estavam com a delegação. Expliquei-lhe o mistério. Num dia da semana seguinte, saímos juntos para procurar Elzéard Bouffier. Encontramo-lo a trabalhar duro, a vinte quilômetros do local onde a inspeção tinha sido realizada.

Este chefe florestal não era meu amigo à toa. Ele entendia o valor das coisas. Ele sabia ficar calado. Eu ofereci alguns ovos que trouxera comigo como presente. Dividimos o lanche em três partes e passamos várias horas em contemplação muda da paisagem.

A encosta de onde viemos estava coberta de árvores de seis ou sete metros de altura. Lembrei-me da aparência do lugar em 1913: um deserto… O trabalho pacífico e constante, o ar vibrante da serra, a sua frugalidade e, sobretudo, a serenidade da sua alma deram ao velho uma espécie de boa saúde solene. Ele era um atleta de Deus. Perguntei a mim mesmo quantos hectares ele tinha ainda que cobrir com árvores.

Antes de partir, o meu amigo fez uma sugestão simples sobre certas espécies de árvores para as quais o terreno parecia ser particularmente adequado. Ele não foi insistente. “Pela razão muito boa”, disse-me depois, “de que este sujeito sabe muito mais sobre este tipo de coisa do que eu”. Depois de mais uma hora de caminhada, tendo este pensamento viajado com ele, acrescentou: “Ele sabe muito mais sobre este tipo de coisa do que ninguém – e encontrou uma maneira muito boa de ser feliz!”.

Foi graças aos esforços deste chefe florestal que a floresta foi protegida e, com ela, a felicidade deste homem. Ele designou três guardas florestais para a sua proteção e aterrorizou-os a tal ponto que eles permaneceram indiferentes a qualquer jarro de vinho que os lenhadores pudessem oferecer como suborno.

A floresta não correu nenhum risco grave, exceto durante a guerra de 1939. Naquela época, os automóveis eram movidos a álcool de madeira e nunca havia madeira suficiente. Começaram a cortar alguns dos talhões dos carvalhos de 1910, mas as árvores ficavam tão longe de qualquer estrada útil que o empreendimento acabou por ser ruim do ponto de vista financeiro, e logo foi abandonado. O pastor nunca soube nada sobre isso. Ele estava a trinta quilômetros de distância, continuando pacificamente a sua tarefa, tão despreocupado com a guerra de 39 quanto com a guerra de 14.

Vi Elzéard Bouffier pela última vez em junho de 1945. Tinha então oitenta e sete anos. Eu tinha mais uma vez iniciado a minha caminhada pelas regiões selvagens, apenas para descobrir que agora, apesar da confusão em que a guerra tinha deixado todo o país, havia um autocarro a circular entre o vale do Durance e a montanha. Atribuí a este meio de transporte relativamente rápido o fato de já não reconhecer os pontos de referência que conhecia das minhas visitas anteriores. Parecia também que a rota estava a levar-me por lugares inteiramente novos. Tive que perguntar o nome de uma aldeia para ter certeza de que estava de fato a passar por aquela mesma região, outrora tão arruinada e desolada. O autocarro deixou-me em Vergons. Em 1913, esta aldeia de dez ou doze casas tinha três habitantes. Eram selvagens, odiando-se uns aos outros e ganhando a vida com armadilhas. Física e moralmente, pareciam homens pré-históricos. As urtigas devoravam as casas abandonadas que os cercavam. A vida deles era sem esperança, era só esperar que a morte chegasse: uma situação que dificilmente predispõe à virtude.

Tudo isto tinha mudado, até o próprio ar. No lugar das rajadas secas e brutais que me saudaram há muito tempo, uma brisa suave sussurrou para mim, trazendo odores doces. Um som como o de água corrente veio das alturas acima: era o som do vento nas árvores. E o mais surpreendente de tudo, ouvi o som de água real correndo numa poça. Vi que tinham construído um chafariz, que estava cheio de água, e o que mais me tocou, ao lado dele tinham plantado uma tília que devia ter pelo menos quatro anos, já engrossada, símbolo incontestável de ressurreição.

Além disto, Vergons mostrou os sinais de trabalhos para os quais a esperança é um requisito: a esperança deve, portanto, ter retornado. Limparam as ruínas, derrubaram as paredes quebradas e reconstruíram cinco casas. A aldeia agora contava com vinte e oito habitantes, incluindo quatro famílias jovens. As novas casas, recém-rebocadas, eram cercadas por jardins que continham, misturados entre si, mas ainda cuidadosamente dispostos, vegetais e flores, repolhos e roseiras, alho-poró e bicas-de-leão, aipo e outras plantas. Agora era um lugar onde qualquer um ficaria feliz em viver.

De lá continuei a pé. A guerra da qual mal saímos não permitiu que a vida desaparecesse completamente, e agora Lázaro estava fora do seu túmulo. Nos flancos mais baixos da montanha, vi pequenos campos de cevada e centeio; no fundo dos vales estreitos, os prados começavam a ficar verdes.

Levou apenas os oito anos, que agora nos separam daquela época, para que todo o país ao redor floresça com esplendor e facilidade. No local das ruínas que eu tinha visto em 1913 existem agora quintas bem cuidadas, sinal de uma vida feliz e confortável. As velhas nascentes, alimentadas pela chuva e pela neve, agora retidas pelas florestas, voltaram a fluir. Os riachos foram canalizados. Ao lado de cada fazenda, no meio de bosques de áceres, os charcos das fontes são cercados por tapetes de hortelã fresca. Pouco a pouco, as aldeias foram reconstruídas. Yuppies vieram das planícies, onde a terra é cara, trazendo consigo juventude, movimento e espírito de aventura. Caminhando pelas estradas encontram-se homens e mulheres em plena saúde, e rapazes e raparigas que sabem rir, e que recuperaram o gosto pelas tradicionais festas rústicas. Contando tanto os antigos habitantes da área, agora irreconhecíveis de viver em abundância, quanto os recém-chegados, mais de dez mil pessoas devem a sua felicidade a Elzéard Bouffier.

Quando considero que um único homem, contando apenas com os seus simples recursos físicos e morais, foi capaz de transformar um deserto nesta terra de Canaã, estou convencido de que, apesar de tudo, a condição humana é verdadeiramente admirável. Mas quando levo em conta a constância, a grandeza de alma e a dedicação desinteressada que foi necessária para realizar esta transformação, fico cheio de um respeito imenso por esse camponês velho e inculto que soube realizar um trabalho digno de Deus.

Elzéard Bouffier morreu pacificamente em 1947 num lar em Banon.

Autor: Jean Giono
Traduzido por: António Jorge

Fonte: Freemason

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As três Grandes Luzes da Maçonaria, a Moral e a Ética

As três grandes luzes da Maçonaria são o Compasso, o Esquadro e o Livro da Lei Sagrada.

Talvez o mais conhecido dos símbolos da Maçonaria seja o que é constituído por um esquadro, com as pontas viradas para cima, e um compasso, com as pontas viradas para baixo.

Como normalmente sucede, várias são as interpretações possíveis para estes símbolos.

É corrente afirmar-se que o esquadro simboliza a retidão de caráter que deve ser apanágio do maçom. Retidão porque com os corpos do esquadro se podem traçar facilmente segmentos de reta e porque reto se denomina o ângulo de 90 º que facilmente se tira com tal ferramenta. Da retidão geométrica, assim facilmente obtida, se extrapola para a retidão moral, de caráter, a caraterística daqueles que não se “cosem por linhas tortas” e que, pelo contrário, pautam a sua vida e as suas ações pelas linhas direitas da Moral e da Ética. Esta caraterística deve ser apanágio do maçom, não especialmente por o ser, mas porque só deve ser admitido maçom quem seja homem livre e de bons costumes.

É também corrente referir-se que o compasso simboliza a vida correta, pautada pelos limites da Ética e da Moral. Ou ainda o equilíbrio. Ou a também a Justiça. Porque o compasso serve para traçar circunferência, delimitando um espaço interior de tudo o que fica do exterior dela, assim se transpõe para a noção de que a vida correta é a que se processa dentro do limite fixado pela Ética e pela Moral. Porque é imprescindível que o compasso seja manuseado com equilíbrio, a ponta de um braço bem fixada no ponto central da circunferência a traçar, mas permitindo o movimento giratório do outro braço do instrumento, o qual deve ser, porém, firmemente seguro para que não aumente ou diminua o seu ângulo em relação ao braço fixo, sob pena de transformar a pretendida circunferência numa curva de variada dimensão, torta ou oblonga, assim se transpõe para a noção de equilíbrio, equilíbrio entre apoio e movimento, entre fixação e flexibilidade, equilíbrio na adequada força a utilizar com o instrumento. Porque o círculo contido pela circunferência traçada pelo instrumento se separa de tudo o que é exterior a ela, assim se transpõe para a Justiça, que separa o certo do errado, o aceitável do censurável, enfim, o justo do injusto.

Também é muito comum a referência de que o esquadro simboliza a Matéria e o compasso o Espírito, aquele porque, traçando linhas direitas e mostrando ângulos retos, nos coloca perante o facilmente perceptível e entendível, o plano, o que, sendo direito, traçando a linha reta, dita o percurso mais curto entre dois pontos, é mais claro, mais evidente, mais apreensível pelos nossos sentidos – portanto o que existe materialmente. Por outro lado, o compasso traça as curvas, desde a simples circunferência ao inacabado (será?) arco de círculo, mas também compondo formas curvas complexas, como a oval ou a elipse. É, portanto, o instrumento da subtileza, da complexidade construída, do mistério em desvendamento. Daí a sua associação ao Espírito, algo que permanece para muitos ainda misterioso, inefável, obscuro, complexo, mas simultaneamente essencial, belo, etéreo. A matéria vê-se e associa-se assim à linha direita e ao ângulo reto do esquadro. O espírito sente-se, intui-se, descobre-se e associa-se, portanto, ao instrumento mais complexo, ao que gera e marca as curvas, tantas vezes obscuras e escondendo o que está para além delas – o compasso.

Cada um pode – deve! – especular livremente sobre o significado que ele próprio vê nestes símbolos. O esquadro, que traça linhas direitas, paralelas ou secantes, ângulos retos e perpendiculares, pode por este ser associado à franqueza de tudo o que é direito e previsível e por aquele à determinação, ao caminho de linhas direitas, claro, visível, sem desvios. O compasso, instrumento das curvas, pode por este ser associado à subtileza, ao tato, à diplomacia, que tantas vezes ligam, compõem e harmonizam pontos de vista à primeira vista inconciliáveis, nas suas linhas direitas que se afastam ou correm paralelas, oportunamente ligadas por inesperadas curvas, oportunos círculos de ligação, improváveis ovais de conciliação; enquanto aquele, é mais sensível à separação entre o círculo interior da circunferência traçada e tudo o que lhe está exterior, prefere atentar na noção de discernimento entre um e outro dos espaços.

E não há, por definição, entendimentos corretos! Cada um adota o entendimento que ele considera, naquele momento, o mais ajustado e, por definição, é esse o correto, naquele momento, para aquela pessoa. Tanto basta!

O conjunto do esquadro e do compasso simboliza a Maçonaria, ou seja, o equilíbrio e a harmonia entre a Matéria e o Espírito, entre o estudo da ciência e a atenção às vias espirituais, entre o evidente, o científico, o que está à vista, o que é reto e claro e o que está ainda oculto ou obscuro. O esquadro é sempre figurado com os braços apontando para cima e o compasso com as pontas para baixo. Ambas as figuras se opõem, se confrontam: mas ambas as figuras oferecem à outra a maior abertura dos seus componentes e o interior do seu espaço. A oposição e o confronto não são assim um campo de batalha, mas um espaço de cooperação, de harmonização, cada um disponibilizando o seu interior à influência do outro instrumento. Assim também cada maçom se abre à influência de seus Irmãos, enquanto ele próprio, em simultâneo, potencia, com as suas capacidades, os seus saberes, as suas descobertas, os seus ceticismos, as suas respostas, mas também as suas perguntas (quiçá mais importantes estas do que aquelas…) a modificação, a melhoria, de todos os demais.

Quanto ao Volume da Lei Sagrada, este pode ser qualquer dos Livros de qualquer das religiões que acreditem na existência de um Criador, qualquer que seja a conceção que Dele se tenha, mais ou menos interventor no Universo ou mero Princípio Criador catalisador e e definidor do Universo.

O Livro da Lei Sagrada contém em si as normas básicas da atuação e convivência humanas, referencial para a conduta do homem de bem. Em suma, simboliza o conjunto de regras que a Sociedade determina aceitáveis para que a sã convivência entre todos seja possível, ou seja, A Moral inerente à Sociedade e que todos os que a integram devem respeitar e seguir.

Nas sessões de Loja, o Compasso e o Esquadro são colocados SOBRE o Volume da Lei Sagrada. Não porque se entenda que são mais importantes aqueles do que este, mas, pelo contrário, porque o Volume da Lei Sagrada simboliza a base Moral sobre a qual assenta a Ética de cada um.

Esta, a Ética, defini-a já como o conjunto de princípios que norteiam a determinação e utilização dos meios à nossa disposição para atingirmos os fins que nos propomos.

 O Esquadro traça, sobre o pano de fundo da Moral, as linhas éticas que o Homem deve definir para a sua atuação. O Compasso define os limites que essas linhas devem respeitar.

O conjunto de ambos simboliza, assim, também a Ética que, tal como eles assentam no Volume da Lei Sagrada, assenta na Moral sobre que esta se constrói.

Porque a ética sem Moral pode usar esse nome, mas não é verdadeiramente ética – ou então teríamos que aceitar como tal a “honra dos ladrões”, a dita “ética dos criminosos”. A Ética tem que necessariamente ser individualmente construída respeitando e assentando na Moral da Sociedade em que nos inserimos, pois nenhum homem é uma ilha podendo arrogar-se o direito de definir o seu conjunto de princípios fora da Moral da Sociedade em que se insere.

As Três Grandes Luzes da Maçonaria são, assim, o conjunto de símbolos que deve guiar a atividade de aperfeiçoamento do maçom, homem livre de escolher e determinar os Princípios que o norteiam, mas sempre harmoniosamente integrado na Sociedade em que se insere.

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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O venezuelano Francisco de Miranda, maçom iniciado após a morte?

Muita tinta foi gasta tentando abrir pontes entre a Maçonaria e o precursor da independência venezuelana, Francisco de Miranda. Essas linhas começam na França com o encontro de dois grandes homens: Miranda e Bonaparte. Ambos têm algo em comum além de seu grande gênio militar: geralmente são classificados dentro das fileiras maçônicas sem que haja evidências suficientes para apoiá-lo. Neste artigo procuramos dar uma olhada nas ligações de Dom Francisco de Miranda com membros desta irmandade, sem que por isso ele deva ser incluído na lista da famosa irmandade.

Encontro de celebridades. Por meio de introdução

Em nossa opinião, um dos trabalhos mais exaustivos já realizados sobre o general Francisco de Miranda pertence a Caracciolo Parra Pérez. Chegou às nossas mãos uma edição feita pela Fundação Bancaribe em 1989 de tão louvável obra intitulada Miranda et la Révolution française. Terminado como estava, o autor o envia e o dedica ao general Juan Vicente Gómez de Berna em 1924.

Achamos interessante abrir este trabalho sobre um tema polêmico como a suposta filiação maçônica do General Miranda, com um fato curioso que extraímos do referido livro: O encontro do eminente herói e precursor da independência hispano-americana com o não menos notável figura política e militar francesa, representada por Napoleão Bonaparte. O capítulo IX é dedicado aos encontros entre figuras políticas e militares. A primeira delas ocorreu em 1795, isso segundo o depoimento que o próprio Miranda prestou ao general Serviez em Caracas em 1812, no bairro Chaussée d’Antin, no IX Distrito de Paris, na casa da cortesã Julie Talma. Julie Carreau é a primeira esposa do trágico François Joseph Talma que atua na Comédia Francesa sob a proteção do pintor Jacques Louis David, líder revolucionário e fundador do “Estilo Império” sob Napoleão. Sua casa era ponto de encontro de pessoas ligadas a determinados meios de comunicação, mas a anfitriã foi amplamente criticada pela imprensa monarquista e marata. Miranda tem então 45 anos e é Comandante-em-Chefe do Exército Francês. Napoleão tem 26 anos e sua fama ainda está por vir. Tendo descoberto que Miranda era um general americano, Napoleão fez inúmeras perguntas, às quais Miranda respondeu “com a devida educação”.

Mas Napoleão teria que dar outra versão dos acontecimentos ocorridos na casa da Sra. Laure Permon, Duquesa de Abrantes:

J’ai dîné, hier, chez un homme qui est singuilier; je le crois espion de la court d’Espagne et de l’Angleterre tout à la fois. Il loge à un troisième étage et il est meublé comme un satrape; il chore misère au milieu de cela et puis donne des dîners faits par Méot et servis dans de la vaissele plate  ; c’est une bizarro escolheu que je veux éclaircir. [1]

Depois disso, Napoleão acrescenta uma comparação interessante, embora inadequada, sobre o general venezuelano: “J’ai là avec des hommes de la plus grande import; il e um por um, entre autres que je veux revoir: c’est un Don Quichotte, avec cette différence que celui-ci n’est pas fou[2]. E quando a Sra. Permon perguntou o nome, Napoleão respondeu imediatamente que era o general Miranda, “um homem com fogo na alma”. Logo em seguida, Bonaparte saiu e Salicetti tomou a palavra e disse que Napoleão tinha mesmo razão e que o homem a quem se referia acreditava ser mexicano, sem ter certeza. Ele o qualifica de “malandro” e acrescenta que ele é o mais sutil de toda a Espanha. 

Independentemente de qual das duas versões esteja correta, os dois generais se encontrariam novamente na casa da Sra. Permon, provavelmente convidado pelo Sr. Emilhaud que afirmava conhecer Miranda. Aparentemente a Sra. Permon, ao saber de Miranda, manifestou grande desejo de conhecê-lo, e o Sr. Emilhaud disse que o apresentaria a ele, acrescentando que o general sonhava em dar liberdade ao mundo inteiro. Dois dias depois eles se conheceram e a Sra. Permon diria mais tarde que Miranda tinha um toque mais de originalidade do que de beleza.

Na casa da dita senhora, Miranda ouviu Napoleão falar de seu ódio à Inglaterra. Combinaram um jantar na Residência Mirabeau, na rue Mont Blanc, onde Miranda morava. Não está claro, no entanto, que o general Miranda tivesse uma ou duas residências. A verdade é que Bonaparte está deslumbrado com o luxo com que Miranda vive. Segundo Bonaparte , o apartamento de Miranda é um sonho, localizado atrás dos jardins das Tulherias. “Il possède la plus exquise petite bibliothèque et un appartement installé avec un goût que je n’ai jamais vu de meilleur: on pourrait se croire à Athènes, à la maison de Périclès”[3], diz Bonaparte.

Após esses encontros em 1795, os dois homens provavelmente nunca mais se cruzaram.

Tabela 1

Resultados para a entrada “Napoleon Bonaparte Freemason” vs. pesquisa semelhante sobre Francisco de Miranda.

LinguagemMaçom Napoleão BonaparteFrancisco
de Miranda Maçom
Espanhol372.000395.000
Inglês90.400164.000
Francês22.4005.870

Algumas linhas sobre Bonaparte e Maçonaria

Vale a pena perguntar neste ponto qual é o sentido dessa possível referência desnecessária a Napoleão Bonaparte. Bem vamos ver:

Como mostra a tabela 1, quando investigamos a Internet, o motor de busca Google propõe 372.000 resultados em espanhol para a entrada “Napoleón Bonaparte masón” que contrasta com 90.400 em inglês ou 22.400 em francês. Da mesma forma, os resultados de uma pesquisa semelhante sobre Francisco de Miranda são os seguintes: 395.000 em espanhol, 164.000 em inglês e 5.870 em francês. Parece que os mais discretos nesse sentido são os franceses e os mais transbordantes no improvável, os falantes de espanhol, numa questão que não admite dúvidas pelo menos até o sol de hoje. Nem Napoleão Bonaparte nem Francisco de Miranda, salvo prova em contrário, eram maçons. A única forma de demonstrar tangivelmente a pertença à Maçonaria é a apresentação do diploma do Maçom ou documentos comprovativos de iniciação ou frequência em lojas, que no caso de Napoleão e Miranda são inexistentes. Tampouco vemos o interesse que as lojas envolvidas na iniciação dessas figuras conhecidas teriam em manter em segredo seus membros.

Antes de nos dedicarmos às nossas considerações a respeito de Dom Francisco de Miranda, vamos dar uma rápida olhada nas ligações de Napoleão com a Maçonaria, começando pelas chamadas lojas regimentais. Uma forma eficaz de se comunicar com os notáveis ​​dos países conquistados é usada por Napoleão I, que usa as lojas regimentais através das quais os maçons entram em contato com as figuras mais importantes das áreas ocupadas e transmitem ao mesmo tempo a cultura e o pensamento francês. Apesar das opiniões generalizadas, até o momento não há provas de que o imperador pertencia à ordem maçônica. Deve-se reconhecer, no entanto, que a família Bonaparte tinha fortes laços com a Maçonaria. Seu pai Charles Marie pertencia à loja de Ajaccio. Numerosos filhos deste último, irmãos de Napoleão, foram iniciados: José, iniciado em 1783 na loja de Marselha “La Parfaite Sincerité”, antes de se tornar, em 1804, o Grão-Mestre do Grande Oriente da França. Luís Bonaparte, futuro rei dos Países Baixos, pai de Napoleão III, é nomeado Grande Orador do Grande Oriente da França. Jérôme, o futuro rei da Vestfália, é iniciado na loja “La Paix” em Toulon em 1801, tornando-se depois Grão-Mestre do Grande Oriente da Vestfália. Seu filho, Jérôme Napoleón, pertence em 1848 à loja parisiense “Les amis de la Patrie”. Pierre Napoleon, filho de Lucien, sobrinho de Napoleão, foi em 1848 Oficial Honorário da Loja Parisiense Saint-Lucien. Josephine pertence a um pavilhão de adoção parisiense. Em 1805, 3.032 oficiais, 1458 suboficiais e 437 soldados do exército napoleônico pertenciam às filas da franco-maçonaria[4]. Entre os 25 marechais do Império, 17 são maçons; Todos os generais que participaram da Batalha de Waterloo eram maçons: Wellington, Ney, Grouchy, Cambronne, Wellesley e Blücher[5]. O cunhado de Napoleão, o marechal Joachim Murat, casado com sua irmã Caroline e sucessor de Joseph Bonaparte como rei de Nápoles, e seu enteado, Eugène de Beauharnais, filho de Josephine de um casamento anterior, também eram maçons[6].

Mas até agora, como já delimitamos, não foi comprovada nenhuma filiação direta entre o imperador e a irmandade maçônica, embora seja comum ouvir expressões como “irmão Bonaparte” com adjetivos que também exaltam, nos círculos maçônicos, como “o mais ilustre”, “o venerável”, etc. As mesmas fórmulas se repetem para Dom Francisco de Miranda na boca dos historiadores nacionais e estrangeiros. Na história costuma ser bastante confortável repetir o que os outros dizem, com todo o respeito por quem tenta ir às fontes para expor a verdade.

Miranda e os maçons

Em 1771, o jovem Miranda tornou-se um viajante inveterado e alimentou suas ideias de liberdade com leituras de filósofos pertencentes a algumas das fileiras maçônicas. A partir daqui, suas experiências serão relacionadas, sem qualquer comprovação, à Maçonaria. Ao chegar a Espanha, em 1772, adquiriu a patente de capitão do batalhão do Regimento de Infantaria da Princesa. Os defensores da tese maçônica de Miranda dizem que no ano seguinte ele se torna representante de “sua loja” no exterior. Até hoje não foram apresentados o diploma do maçom nem os documentos que o ligam à Maçonaria, mas há quem, além de adiantar hipóteses sobre sua iniciação, se lance em elucubrações sem qualquer fundamento. Os enciclopedistas Denis Diderot e D’Alembert são responsabilizados pelas possíveis relações para o ilustre americano ser iniciado. Testes? Não há. Onde foi iniciado? Também não é conhecido. Se conhecido, seria um grande orgulho para os membros de qualquer loja francesa, americana, espanhola, venezuelana ou inglesa revelar que esse grande homem foi iniciado dentro deles. Alguns acreditam que foi o marechal Lafayette quem capturou as grandes virtudes de Miranda que o tornaram um candidato ideal para as fileiras maçônicas e que ele o teria patrocinado em uma loja da Filadélfia. Nesse sentido, muitos repetem até em atos oficiais frases comprometedoras desse tenor:

“Aparentemente, Miranda recebeu a luz na loja da Filadélfia em 1783, patrocinada pelo general francês Marco José Lafayette (sic.), Grão-Mestre. Obtém a condição de aprendiz em Londres e de grande mestre na França” (no discurso proferido na cerimônia especial de nascimento de Dom Francisco de Miranda em 28 de março de 2016, dia da maçonaria na Venezuela).[7]

Deve-se entender que a loja da Filadélfia não deu uma razão para a filiação, bem como os respectivos anônimos da Inglaterra e da França. Mas aqui há até abordagens conflitantes, para usar as palavras de Wilfredo Padrón Iglesias, já que não há consenso sobre o local e a data da iniciação[8]. Para uns, o ato teve lugar em Madrid, outros pensam que teve lugar em Gibraltar e, por fim, há quem acredite que o evento tenha ocorrido nos Estados Unidos da América, na Filadélfia, como já foi dito. Em suma, se houve alguma iniciação maçônica por Miranda, esta ocorreu na Venezuela sob as circunstâncias mais inusitadas e em um momento que parece bastante improvável. Mas deixemos por enquanto esta questão em suspenso, que trataremos mais adiante.

Esse panorama, repleto de imprecisões, obviamente não pode ser sustentado sem suporte documental, mas os defensores da tese buscam evidências em outras vertentes. Por exemplo, eles relacionam permanentemente o legado do Precursor à filosofia maçônica, especialmente o direito à autonomia dos povos, a separação do poder da Igreja e do Estado e a liberdade de consciência religiosa. A Maçonaria Mundial afirma sua ideia permanente de liberdade de consciência, de se livrar de jugos opressores, ideia que Dom Francisco de Miranda sempre abrigou. O personagem de Miranda, um amante da liberdade, longe de todo dogma e fanatismo, é facilmente associado ao do espírito maçom.

Navegando em fantasias, há até quem aponte que depois de sua iniciação…

nenhum movimento que o Ilustre e Poderoso Irmão Francisco de Miranda tenha feito pelo mundo, sempre o fez com o prévio consentimento das lojas maçônicas a que pertencia, prestando contas de todo o seu trabalho realizado em suas constantes viagens e visitas; tanto na Europa como na América e no Caribe.[9]

Historiadores como Cesáreo González Navedo lhe dão o título de “Grão-Mestre” e o colocam à frente dos ramos do “Grande Oriente”. Da mesma forma, ele o responsabiliza por ter constituído o Grande Oriente da Maçonaria Americana e por ter fundado uma grande Loja Lautaro em Cádiz, uma loja que segundo o historiador se estenderia por toda a América Latina[10]. Como veremos mais adiante, tudo se perde na suposição e se confunde na especulação. Nesse sentido, é bastante comum ler que O’Higgins contou a Miranda a lenda de “Lautaro”, o cacique indígena dos araucanos que conseguiu reconquistar seu território e dar liberdade ao seu povo. Miranda é felizmente responsabilizado, muitas vezes, como o fundador da Loja Lautaro, em Londres, em 1797, em homenagem ao herói chileno que deu a vida para libertar seu povo, uma Loja que ficaria conhecida como o Grande Encontro Americano ou Loja de os Cavaleiros Racionais e que teria filiais em Cádiz e em algumas cidades americanas[11]. Don Mariano Picón Salas, antes de falar deste encontro, mostra a carreira multifacetada do Precursor que abre o campo entre os notáveis ​​de seu tempo, infelizmente sem especificar dados:

Com a mesma vitalidade faustiana, ele entra no tribunal e tece suas inesgotáveis ​​aventuras aristocráticas ou participa de uma discussão de “espíritos fortes” que analisam a superstição e o fundo comum de impostura que o voltairismo do século XVIII atribuiu a todas as religiões.[12]

Em seguida, também ecoando o encontro de Miranda com O’Higgins, acrescenta, sem muito apoio, que o Precursor “inicia um jovem americano como O’Higgins nas sombras de uma loja maçônica ou visita um bordel italiano e o descreve em seu Diário com os traços mais plebeus e materialistas”[13]. Um pouco mais adiante, Picón Salas fala-nos do suposto gosto de Miranda pelas sociedades iniciáticas:

Junte-se à contradição típica do seu século o materialismo mais implacável com aquele gosto pelo mistério, pelo “lado escuro da natureza humana” que animava as sociedades secretas, os cultos de iniciação, mesmerismo e frenologia.[14]

Depois de analisar cuidadosamente a biografia escrita por Don Mariano Picón Salas e outros textos e artigos referentes a Miranda, extraímos os nomes de cerca de 150 pessoas que, de alguma forma, tiveram alguma relação, direta ou indiretamente, com o Precursor da Independência Hispano-Americana para para poder estabelecer, com maior precisão, as extensas relações públicas do herói da independência com personagens de conhecida importância histórica ou determinantes em seu tempo. Filtramos aqueles cuja filiação à Maçonaria foi comprovada. Em outros casos, se não temos certeza, apontamos o que a tradição diz sobre sua proximidade com a Maçonaria sem pretender ser exaustivo a esse respeito. Não devemos necessariamente prestar atenção ao ditado que diz “diga-me com quem você anda e eu direi quem você é”. Nem todos os amigos de Miranda eram maçons, mas devemos admitir que alguns nomes entre seus “contatos” aparecem nas listas dos filhos da viúva. Aqui estão eles em detalhes:

Durante sua estada nas Antilhas (1780-1783), em sua visita à Jamaica, Miranda trouxe uma carta de recomendação de Juan Manuel Cajigal ao Almirante Sir Peter Parker, que na época servia como Grão-Mestre Provincial da Grande Loja da Jamaica.[15]

Nos Estados Unidos, a lista é, sem dúvida, encabeçada por George Washington, que Miranda conheceu durante sua estada na Filadélfia. Washington voltava da guerra e os encontros entre os dois eram frequentes a partir de dezembro de 1784. Como se sabe, Washington, um dos mais famosos maçons, havia sido iniciado em 1752 na loja de Fredericksburg e em 1788 foi nomeado Venerável Mestre da Loja Alexandria. Bem conhecida é a colocação da pedra fundamental do Capitólio dos Estados Unidos por Washington, vestindo roupas maçônicas. Henry Knox, Secretário de Guerra durante o governo de Washington (1789-1798), é um grande amigo de Miranda e maçom. Ambos mantiveram uma correspondência fluida. Knox descreve Miranda como “Senhor espanhol de caráter e grande informação… com inteligência e talento… entusiasta da causa da liberdade… possuidor de um amplo conhecimento dos homens e das coisas”[16]. Na Filadélfia, Miranda vai ao encontro de Thomas Jefferson, então deputado federal e que, segundo depoimento do Dr. Guillotin, teria participado das reuniões da Loja As Nove Musas de Paris e que teriam marchado em uma procissão maçônica junto com os membros da loja Los Hijos de la viuda No. 60 e Charlottesville Lodge No. 90 em 1817. O estudo das 25.000 cartas do ex-presidente americano não mostra, no entanto, qualquer referência à Maçonaria, mesmo que uma loja na Virgínia apareça com seu nome em 1801, Jefferson Lodge No. 65 e que após sua morte as Grandes Lojas da Carolina do Sul e Louisiana tenham realizado funerais e procissões em sua homenagem. James Monroe (1758-1831), que mais tarde se tornou o quinto presidente dos Estados Unidos e que demonstrou grande interesse pelos projetos de Miranda, havia sido iniciado em 1775 na Williamsburg Lodge No. 6, na Virgínia, aos 17 anos. Monroe foi o embaixador dos Estados Unidos em Paris nos dias de glória de Miranda na França. Um bom amigo de Miranda foi também o maçom Alexander Hamilton (1755-1804), economista, estadista, advogado, conselheiro de Washington e secretário do Tesouro sob este último. Definido seu projeto de invasão e mais uma vez nos Estados Unidos, Miranda contatou John Jacob Astor (1763-1848) com vistas a adquirir armas para a expedição. Astor fizera fortuna no comércio de peles e negócios imobiliários, bem como, mais tarde, no comércio de ópio com a Ásia. O comerciante era um Maçom e Mestre da Loja Holandesa nº 8, em Nova York em 1788, mais tarde Grande Tesoureiro da Grande Loja de Nova Iorque.

Durante sua primeira estada em Londres, Miranda decide fazer uma viagem pela Europa com seu amigo, o coronel americano William Smith, secretário do ministro em Londres e futuro presidente dos Estados Unidos, John Adams. Sinais maçônicos de certo peso são dados por William Smith na obra de Ovidio Aguilar Meza intitulada Em busca da verdade: Miranda era um maçom? Smith e Miranda acompanham um ao outro a Viena, onde Miranda se encontrará com um notável maçom, o compositor Franz Joseph Hyden. Em Christiania, Noruega, Miranda é convidada por Bernard Anker para visitar a “casa dos maçons”. Anker era um maçom que havia inaugurado a loja San Olai em cujo prédio morava no térreo e a referida loja funcionou no primeiro andar até 1811[17]. Fato curioso é que durante sua visita à casa do Sr. Khan em Cristiania, Miranda anota o número de bens da ordem maçônica, informação de certa forma sigilosa. Em Gotemburgo visita o “salão dos maçons” e em Estocolmo um orfanato mantido pelos filhos da viúva. Em setembro de 1788, ele se encontra em Zurique com Johann Kaspar Lavater, distinto filósofo e teólogo protestante, maçom da Ordem da Estrita Observância.

Também em Londres, Miranda era parente de outro famoso norte-americano: Rufus King, embaixador dos Estados Unidos no Reino Unido, um maçom convicto que compartilhava das ideias libertárias de Miranda e do jesuíta peruano Juan Pablo Vizcardo y Guzmán. Mas Londres também abrirá as portas para Miranda a diversas personalidades como o historiador britânico Edward Emily Gibbon (1737-1794), historiador de enorme importância e autor da História do Declínio e Queda do Império Romano (1776-1788). Gibbon, que sucede Oliver Goldsmith na Royal Academy como professor de história antiga, é iniciado como maçom em 1774 na Primeira Grande Loja da Inglaterra , Friendship Lodge No. 3. Também entre seus amigos britânicos está o dramaturgo e diretor de teatro Richard Brinsley Sheridan (1751-1816), maçom de acordo com a Grande Loja da Escócia. À lista acrescentamos Jeremy Bentham (1748-1832), filósofo, economista, pensador e escritor inglês. Bentham é um verdadeiro revolucionário para sua época. Por volta de 1785 ele escreve o primeiro argumento para a reforma da lei homossexual na Inglaterra. Luta pela liberdade individual e econômica, separação entre Igreja e Estado, igualdade de gênero, direito ao divórcio. Ele também defendia a abolição da escravatura, a pena de morte e o castigo físico. Bentham era um maçom com marcada influência dos jesuítas. Joseph Priestly (1723-1804), cientista, teólogo, filósofo e teórico político com mais de 150 obras publicadas, amigo de Benjamin Franklin e membro da Royal Society, sociedade intimamente ligada à Maçonaria pelo fato de ambas proclamarem ideais filosóficos e filantrópicos. Priestly aparece citado como maçom na la obra Keats, Hermetismo e Sociedades Secretas de Jennifer Wunder. Tanto Benjamin Franklin quanto Joseph Priestly são membros da chamada Sociedade Lunar. Miranda também conhece Arthur Wellesley (1759-1852), duque de Wellington, soldado, político e estadista britânico, general durante as guerras napoleônicas, duas vezes primeiro-ministro do Reino Unido, que estuda a possibilidade de formar e preparar um exército para a invasão da América. O Duque de Wellington, embora um membro da Loja do Grande Firmamento em Londres, havia sido iniciado na Loja Irlandesa No. 494 Trimem Meath, em 7 de dezembro de 1790. Em Londres Miranda forja amizade com o escritor, teólogo e escritor espanhol José María Blanco White (1775-1841), que, embora maçom, acabou desencantado com a irmandade.

Na França, conheceu também o padre Guillaume-Thomas Raynal (1713-1796), autor de The Philosophical and Political History of European Settlements and Trade in the Two Indies (1770). Raynal é acima de tudo um enciclopedista cujo trabalho é proibido na França. Sua possível adesão à Maçonaria, ainda não comprovada, pode ser sugerida pelos laços de amizade e parentesco com vários membros da loja St. Geniez d’Olt. Acredita-se também que as altas recomendações com que chega a Paris permitirão que Raynal seja iniciado na loja Les neuf soeurs, loja que daria grande apoio à revolução americana. Em Paris, Raynal faz amizade com maçons de alto calibre como Lafayette, para quem ele será um verdadeiro mentor. Miranda também conhece Jacques Pierre Brissot ou Brissot de Warville (1754-1793), escritor e líder político francês, líder girondino durante a Revolução Francesa. Brissot e Miranda se conheceram em 1792 e o soldado venezuelano contaria com o inestimável apoio de Brissot à causa patriótica. Brissot dirá da revolução libertária:

“le destin de cette révolution dépend d’un homme, vous le connaissez, vous l’estimez, vous l’aimez: c’est Miranda.” [18]

É ele quem o propõe como governador de Santo Domingo. Brissot é o fundador de uma sociedade chamada “Sociedade dos amigos dos negros” que teve uma importante influência na política colonial francesa. As memórias de Brissot não deixam dúvidas de que ele pertencia à maçonaria, principalmente a uma loja alemã, mas rituais e sigilo eram coisas que não combinavam muito com o personagem de Brissot, então o escritor rapidamente se separou das fileiras maçônicas. Em suma, essa ligação inicial abriu-lhe um campo no Círculo Social de Nicolas de Bonneville, um círculo político bastante dinâmico nos primeiros anos da Revolução, cuja origem maçônica é inegável. Outro membro da “Sociedade dos Amigos dos Negros” e que milita nas fileiras maçônicas é o prefeito de Paris Jerôme Pétion (1756-1794), que Miranda conhece em 1792. Durante os dias difíceis de Miranda em Paris, o jurista, político e maçom francês Jean Denis Lanjuinais (1753-1827) defenderá o general. Emmanuel Joseph Sieyès (1748-1836) se tornaria um eclesiástico, político, ensaísta e acadêmico francês, um dos mais importantes teóricos constitucionalistas da Revolução Francesa. Sieyès, segundo Picón Salas, escreve um projeto constitucional com Miranda. Se associa à Maçonaria, especialmente às lojas Les Amis devenus Frères no leste de Fréjus antes da Revolução e depois, em Paris, à Loja das Nove Irmãs., também conhecida como Loja dos Filósofos e Loja Rue du Coq Héron. Um americano bastante influente em Miranda é o poeta Joel Barlow (1754-1812), que conheceu em Paris e de quem tirou a ideia do nome para o continente emancipado que o militar venezuelano sonha, Colombeia. Barlow era um membro do St. John Lodge No. 4 , a leste de Hartford em Connecticut.

Antes de falar dos hispano-americanos com quem Miranda conviveu, convém mencionar a suposta visita que José del Pozo y Sucre e Manuel de Salas fizeram a Miranda. Há muitas inconsistências em tal afirmação. A primeira é que tal visita ocorre em Londres, em dezembro de 1797, mas o fato é que Miranda ainda vive em Paris nessa época. Diz-se que assinaram um documento no qual se estabeleceram as bases políticas de um projeto de independência. Tem sido amplamente divulgado que del Pozo e Salas eram jesuítas e maçons, uma afirmação posta em questão em um trabalho recente de Manuel Hernández González intitulado “Francisco de Miranda e os jesuítas expulsos[19]. O trabalho demonstra a impossibilidade de tal encontro. Por um lado, Manuel de Salas em 1797 estava em seu Chile natal e talvez nunca tenha conhecido Miranda. Por outro lado, José del Pozo não era jesuíta nem peruano, mas amigo de infância de Miranda, segundo a referida obra. O livro Oh Admirable Freemasons (2007) de Claudio A. Torres Chávez cita José del Pozo y Sucre como maçom e parte da premissa altamente improvável de que Miranda é o iniciador da maçonaria peruana.

Outro amigo de infância de Miranda foi Manuel Gual. Todos conhecem sua luta incansável pela liberdade e sua tentativa contra o poder espanhol. Manuel Gual era um aficionado da filosofia e da política e tinha algum interesse pelas sociedades secretas que lhe permitiam conhecer as ideias revolucionárias francesas. Junto com José María España e outros, teve encontros com maçons espanhóis na prisão, encontros que lhe permitiram uma iniciação maçônica. Em 12 de julho de 1799, ele escreveu uma carta a Miranda, que escreveu extensas recomendações ao governo inglês para apoiar a causa de Gual, mas Gual, como sabemos, seria assassinado um ano depois. As implicações maçônicas de Bernardo O’Higgins são amplamente conhecidas, mas infelizmente as referências à origem da Maçonaria desde a independência centram-se no papel que Francisco de Miranda teria desempenhado na fundação das Lojas Lautaro. Segundo Picón Salas, o jovem O’Higgins pediu a Miranda que lhe ensinasse matemática durante sua estada em Londres. É preciso destacar, porém, que o próprio O’Higgins não menciona esse episódio. É claro que essas conversas determinariam em grande parte o pensamento do futuro libertador chileno. Da mesma forma, Miranda mantém correspondência com o maçom Saturnino Rodríguez Peña, importante político cujas ações contribuíram para a independência das Províncias Unidas do Rio da Prata. Também em Londres, no final de 1799, recebeu o naturalista e economista de Nova Granada Pedro Fermín de Vargas y Sarmiento (1762-1813?), que depois de uma longa estadia na Europa retorna ao Caribe com a ajuda de maçons antes de acompanhar Miranda na tentativa de independência de Ocumare. Fermín de Vargas havia encontrado asilo na Jamaica, uma ilha onde se reuniam refugiados políticos perseguidos pelas autoridades reais espanholas. Fermín de Vargas era amigo de outro maçom fugitivo, Antonio Nariño, com quem fundou a loja “El arcano sublime de la philantropía”, disfarçada de círculo literário. Devemos lembrar que Antonio Nariño e Miranda se conheceram na França em 1796, talvez por mediação do próprio Fermín de Vargas. Já em Londres, em 11 de setembro de 1810, recebe, no número 27 da Grafton Street, a comissão formada por Simón Bolívar, Luis López Méndez e Andrés Bello. Bolívar era um maçom ativo, começou há alguns anos na Loja Saint Alexander da Escócia (11 de novembro de 1805), a leste de Paris. Há quem afirme que tanto Bello quanto López Méndez foram maçons iniciados, do que não há certeza. Nem todas as relações de Miranda com os maçons eram cordiais. Temos como exemplo o impulsivo padre das planícies Ramón Ignacio Méndez (1761-1839), representante no Congresso Constituinte de 1811 que, após uma polêmica e por não concordar com os “métodos” de Miranda, deu um tapa no general durante a sessão de 3 de julho.

Outra figura decisiva nos tempos da emancipação venezuelana foi o prelado e maçom chileno José Cortés de Madariaga (1766-1826). Algumas versões indicam que ele teria sido iniciado na Espanha e que na França teria alcançado o grau de Companheiro. Foi em Londres onde os dois homens se cruzaram pela primeira vez para simpatizar uma vez, especialmente por seus pensamentos em comum. “Eu gloriei-me em ser americano quando tratei este homem”[20], exclamou Madariaga doze anos depois, quando soube em San Carlos da nomeação de generalíssimo que o governo de 19 de abril de 1810 havia feito Miranda. A principal sede de Madariaga na Europa era a cidade de Cádiz, onde morava na casa do banqueiro literário La Cruz em cuja propriedade também residia o padre e maçom paraguaio Juan Pablo Fretes. Após os acontecimentos de 19 de abril de 1810, Madariaga foi a Bogotá como enviado da Junta Suprema perante o Governo de Nova Granada para formar uma liga em defensa da campanha de Miranda, porém será perseguido e capturado por Monteverde, e lodo enviado para a Espanha. Outro maçom de renome e amigo próximo de Miranda é Carlos Soublette (1789-1879), militar e futuro presidente do Estado da Venezuela. Carlos Soublette seria aluno do também maçom Antonio José de Sucre. Como engenheiro militar, em maio de 1810, juntou-se às tropas de Francisco de Miranda, onde foi rapidamente promovido a tenente-coronel e ajudante de campo do próprio general como primeiro ajudante de campo. Entre 1850 e 1855, Soublette seria Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho Confederado do Grau 33. Em 31 de julho de 1812, Miranda é feito prisioneiro em La Guaira. Da prisão participam Bolívar, Chatillón e Mariano Montilla (1782-1851), que se tornou maçom alguns anos depois na primeira loja fundada em Angostura pelo capitão inglês James Ambrose, no mesmo local onde será instalado o Congresso convocado pelo Libertador. Esta loja será chamada de “Concordia”. Da mesma forma, Montilla seria o venerável mestre da loja “La Beneficencia” de Cartagena, à qual se juntou em 1822. 

O precursor da independência americana era realmente um maçom?

O mito do maçom Miranda cai especialmente com a descoberta feita pelo historiador norte-americano William Spence Robertson, que encontra na Inglaterra os arquivos de Miranda, perdidos há mais de 100 anos, após a prisão do general. Antoine Leleux, seu secretário, os colocou a bordo de um navio inglês. Os documentos permaneceram em Curaçao por dois anos antes de serem enviados para a Inglaterra, onde permaneceram sob a proteção do Ministro da Guerra Lord Barthurst e sua família até 1926. Foi então que o diplomata Caracciolo Parra Pérez fez os arranjos para a compra e transferência para a Venezuela. O governo nacional ordenaria sua publicação. Isso significa que antes dessa data as lacunas nas aventuras do Precursor eram enormes, pelo menos no que diz respeito à sua vida íntima, o que vem corroborar a hipótese de um Miranda não maçom, já que nenhuma referência de peso foi encontrada em seus escritos apesar do que alguns historiadores afirmavam desde o início do século XX[21]. As obras do historiador venezuelano Eloy Reverón revelam muitas pistas que ajudam a esclarecer essa polêmica questão.

Reverón faz um comentário interessante em seu blog sobre a Maçonaria Mirandina:

O historiador maçom, Seal Coon, membro da Loja de Pesquisa histórica Ars Quatour Coronati em Londres, que escreveu um trabalho sobre Bolívar Maçom, onde reproduz uma cópia autenticada do registro de sua recepção ao grau de Companheiro, publicou outro escrito detalhado sobre Miranda onde admite não ter encontrado nenhuma razão para pensar que Miranda teria pertencido à Maçonaria, e que isso não desmerece qualquer mérito como figura histórica, não sem fazer um comentário humorístico sobre a ingenuidade dos escritores de língua espanhola que concorreram em exaltando seus heróis nacionais. [22]

Embora não tenha sido encontrado nenhum vestígio maçônico do generalíssimo, Reverón não descarta que Miranda possa ter pertencido a alguma fraternidade militar, frequente na época napoleônica. Reverón termina seu artigo com uma nota irônica na qual aponta que se Miranda era maçom, sem dúvida é “porque quase todos os irmãos o reconhecem como tal, embora ele tenha estado tanto tempo no Oriente Eterno e nunca tenha visitado uma loja ou frequentou alguma”. [23]

De onde vem o mito? A ideia difundida de que a figura proeminente de Dom Francisco de Miranda pertenceu à Maçonaria deve sua razão muito seguramente à origem de uma sociedade política secreta cuja organização estava ligada às chamadas lojas Lautaro e à Grande Reunião Americana, uma loja de organização ideológica fundada por Miranda em 1798. Isso concorda com o que foi expresso pelo historiador espanhol José Antonio Ferrer Benimeli, que insiste na confusão que se criou entre os termos sociedade secreta e sociedade patriótica ou no erro de simplesmente fundi-los como sociedades maçônicas. Por sua vez, Miranda não faz nenhuma referência em seu diário sobre as referidas lojas Lautaro. Se fossem lojas regulares da Maçonaria, como afirma Barboza de la Torre, um pedido para sua criação teria sido feito, por exemplo, perante a Grande Loja Unida da Inglaterra[24]. No entanto, não há registro disso. Embora seja verdade que o ajudante-de-campo Antoine Leleux foi confiado por Miranda para organizar a Sociedade Patriótica, Reverón aponta que “até agora temos notícias da maçonaria como motivação e inspiração de Francisco de Miranda para ordenar discretamente suas redes de conspiração”[25]. O destacado maçonólogo deixa claro que a filiação seria forçada e continua afirmando: “[…] daí a a encontrar provas do ingresso ou participação de Francisco de Miranda na Maçonaria, não tem se quer sintonia com a criação do Rito Escocês (1802-1808) com os escassos 8 ou 14 anos de vida que Miranda teria então”[26]. Para Eloy Reverón, a ideia compulsiva de fazer de Miranda um maçom nasceu no século XX porque o assunto, mesmo o de heróis verdadeiramente maçônicos, não foi abordado durante o século XIX. Aparentemente, havia um desejo de destacar os valores maçônicos através do ato libertário latino-americano para assim tornar-se a Maçonaria “como a pedra angular do republicanismo latino-americano”, segundo as palavras de Wilfredo Padrón Iglesias, tese sustentada com segurança por Pilar González Bernaldo e Felipe del Solar, este último maçom chileno que muito gentilmente nos forneceu informações interessantes para este artigo.

Por que devemos quebrar a cabeça por um Miranda iniciado na Maçonaria se isso não aumenta ou diminui os méritos dos militares venezuelanos? As realizações pessoais de um herói não podem ser transformadas em bandeira pela força. Pelo mesmo apego à verdade que a Maçonaria promove, deve-se reconhecer, enquanto não houver provas confiáveis, que Francisco de Miranda não foi maçom e isso estaria mais de acordo com os postulados da irmandade. Uma conclusão interessante alcançada por Reverón é que os maçons venezuelanos deram mais peso ao suposto status maçônico de Miranda do que a seus méritos pessoais, mas deixaram de lado seus grandes dons de estrategista militar que lhe renderam um lugar preponderante como herói da guerra pela independência dos Estados Unidos, na Revolução Francesa ou no ato emancipatório hispano-americano.

Um dos artigos mais sérios que aborda a questão da suposta filiação de Miranda à Maçonaria foi escrito por Wilfredo Padrón Iglesias da Universidade de Pinar del Río e intitula-se “A Maçonaria, um ponto negro na trajetória de Francisco de Miranda”, publicado pela Revista de Estudos Latino-Americanos da UNAM. O cerne do artigo afirma que a historiografia carece de elementos que possam estabelecer um vínculo entre Miranda e a Maçonaria. Padrón Iglesias revisa as fontes de autores que, por um lado, foram a favor da tese de um Miranda maçom, incluindo, entre outros, os nomes de Mariano Picón Salas, Josefina Rodríguez de Alonso e Mario Briceño Perozo. Por outro lado, cita Manuel Gálvez e Caracciolo Parra Pérez, que negam qualquer relação com a referida sociedade secreta. De fato, Parra Pérez mantém sua posição afirmando: “Para falar a verdade, não há documentos confiáveis ​​que comprovem que Miranda era maçom […]. De minha parte, nunca encontrei nenhum artigo relacionado ao assunto”[27]. O artigo acrescenta que os temas abordados nos jornais mirandinos são muito variados, dos mais sofisticados aos mais pueris, mas que em nenhum caso se refere a reuniões ou ajuntamentos maçônicos, exceto visitas a “casas dos maçons” em Cristiania (Oslo, Noruega), Gotemburgo (Suécia) e Antuérpia (Bélgica). Durante sua estada na Jamaica, no final de 1781, Miranda havia comprado dois livros: Constituições da Maçonaria e Ilustrações da Maçonaria, aponta com precisão Padrón Iglesias como as únicas referências à Maçonaria que aparecem nos diários do herói da Independência. Claro, isso não é evidência suficiente para ligá-lo diretamente aos irmãos dos três pontos. Um fato curioso acrescentado pelo investigador cubano refere-se ao fato de Miranda não ter sido acusado pela Igreja Católica de pertencer à Maçonaria. O Santo Ofício iniciou um processo contra ele na segunda década de 1770 “quando o Tribunal de Sevilha e o Conselho da Inquisição o acusaram de: ‘[ …] crimes de propostas, retenção de livros proibidos e pinturas obscenas”[28]. Padrón Iglesias conclui seu artigo dizendo prudentemente que as evidências descobertas não devem ser assumidas como definidoras, e sugere aprofundar o assunto nas diferentes áreas que compõem a vida intelectual. Para Ovidio Aguilar Meza, são grandes as chances de Miranda ter se iniciado como maçom são, ao contrário, altas e ele acredita que, se aconteceu, foi na Jamaica, abrindo assim uma nova veia nesse leque que tenta discernir a possível proximidade de Miranda com a fraternidade maçônica.

O título de nosso trabalho apenas aponta para o que acreditamos ser verdade até que se prove o contrário, e nisso concordamos com a opinião de Eloy Reverón, que estudou a fundo o assunto. De fato, em seu minucioso trabalho sobre a Loja Esperanza de Caracas, o pesquisador revisou suas atas, atos e correspondências e só obteve o nome de Francisco de Miranda em 1950, ano em que José Tomás Uzcátegui, por decreto do Grão-Mestre de a Grande Loja da Venezuela, pediu para buscar os documentos que ligavam Miranda à Maçonaria, e fez de Francisco de Miranda um maçom de fato, 134 anos após sua morte. Até agora nada, ou quase nada foi encontrado. O mesmo decreto declarou 28 de março, data de nascimento de Miranda, como Dia Nacional da Maçonaria.

Conclusões

Não sem razão Caracciolo Parra Pérez disse sobre Miranda:

Ele é o herói de nossa independência sobre quem mais mentiras foram escritas, mais lendas foram inventadas e mais fantasias foram criadas. [29] 

Vender a ideia de um Miranda maçom a todo custo é certamente um gesto louvável mas carente de rigor, querendo alimentar um mito enquanto esconde a verdade com fantasias ou especulações. Devemos entender que, depois de conhecer a carreira de Miranda e de ter dado uma guinada em sua imagem desde a publicação de seus diários e de sua correspondência, quiseram enaltecê-lo justamente quando ele passou de um traidor desprezado e esquecido a um herói de grande projeção internacional.

Apesar da tradição e do que se repete com frequência em todas as esferas intelectuais, devemos admitir que, enquanto não houver registros escritos que comprovem sua filiação, Dom Francisco de Miranda não pode ser classificado como membro das fileiras maçônicas. A importante lista de maçons com os quais mantinha uma relação próxima também não prova a sua pertença a esta irmandade, apenas permitiria supor que Miranda poderia ter recebido propostas para a integrar. Seus livros e extensa formação revelam, da mesma forma, que ele não desconhece os princípios dessa fraternidade.

Autores: José Gregório Parada Ramírez
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: REHMLAC

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Notas

[1] – Caracciolo Parra Pérez, Miranda et la Révolution française (Caracas: Ed. Banco del Caribe, 1989), 322. “Jantei ontem na casa de um homem singular: acho que é espião dos tribunais espanhóis e ingleses no mesmo tempo. Ele mora no terceiro andar de um apartamento mobiliado como um sátrapa. Ele diz que vive na miséria, mas oferece jantares preparados por Méot que são servidos em pratos simples. É algo estranho que quero esclarecer” [minha tradução].

[2] – Parra Pérez, Miranda et la Révolution française , 323. “Jantei com homens da maior importância. Entre eles há alguns que quero ver novamente. É um Dom Quixote, com a diferença de que este não é louco” [minha tradução].

[3] – Parra Pérez, Miranda et la Révolution française , 325. “Tem uma pequena mas requintada biblioteca em um apartamento com gostos que não vi melhor. Alguém acreditaria em Atenas, na casa de Péricles” [minha tradução].

[4] – Jean-Pierre Bayard,La spiritualité de la franc-maçonnerie (Saint-Jean de Braye  : Ed. Dangles, 1982), 107ss .

[5] – F. Daudin, L’ABCdaire de la Franc-maçonnerie (Paris: Flammarion, 2003), 54. De acordo com J. Ridley, vinte e dois dos trinta marechais eram maçons.

[6] – J. Ridley, The Freemasons, the Most Powerful Secret Society on Earth (Buenos Aires: Byblos, 2004), 227.

[7] – Consulte o site: http://jmc-177.org.ve/la-gloria-de-miranda/

[8] – Wilfredo Padron Iglesias.“Maçonaria, um ponto negro na trajetória de Francisco de Miranda”, Revista de Estudios Latinoamericanos 61, no. 2 (2015): 13- 30, http://www.revistadeestlat.unam.mx/index.php/latino/article/view/52805/48798

[9] – Citado em http://www.monografias.com/trabajos90/ilustre-poderoso-miranda-rodriguez/ilustre-poderoso-miranda-rodriguez2.shtml#ixzz4DZJNzJFM

[10] – Cesáreo González Navedo, “Fundação e independência da Maçonaria Americana”, Cadernos de Cultura Maçônica (1943): 5.

[11] – A esse respeito, ver José Antonio Ferrer Benimeli, “Aproximação à historiografia da Maçonaria Latino-Americana”, REHMLAC 4, no. 1 (maio-novembro de 2012): 9, https://revistas.ucr.ac.cr/index.php/rehmlac/article/view/12144/11419

[12] – Mariano Picón Salas, “Miranda”, Coleção Mérida Classics (Mérida: INMUCU, Prefeitura do Município Libertador, 2006), 12.

[13] Picón S., “Miranda”, 12.

[14] – Picón S., “Miranda”, 13.

[15] – Ovidio Aguilar Meza, “Em busca da verdade, Miranda era maçom?”, Biblioteca de Autores e Temas Mirandise (Los Teques: Fundación Fondo Editorial Simón Rodríguez, 2010), 56.

[16] – Luis Xavier Grisanti, “El Precursor Miranda y los Estados Unidos” , Analítica , 22 de março de 2006, http://www.analitica.com/opinion/opinion-nacional/el-precursor-miranda-y-los-estados – juntou/

[17] – Aguilar Meza, “Miranda era maçom?”, 63.

[18] – Parra Pérez, Miranda et la Révolution , 43. “O destino desta revolução depende de um homem, você o conhece, você o estima, você o ama: ele é Miranda” [minha tradução].

[19] – Manuel Hernández González, “Francisco de Miranda e os jesuítas expulsos”, Montalbán, Revista de Naturalezas y Educación 46 (2015). 311-321.

[20] – Weildler Guerra, “Remembering Cortés de Madariaga”, El Espectador , 4 de setembro de 2015, https://www.elespectador.com/opinion/recordando-cortes-de-madariaga-columna-583974

[21] – Mitre, Vicuña Mackenna, Becerra e Mancin.

[22] – Eloy Reveron,”Iniciação de Francisco de Miranda na Maçonaria”, 13 de março de 2009, http://granlogiavzla.blogspot.com/2009/03/iniciacion-de-francisco-de-miranda-en.html

[23] – Reverón, “Iniciação de Francisco de Miranda na Maçonaria”.

[24] – Pedro A. Barboza de La Torre, Bolívar e Maçonaria, Notas Históricas (Maracaibo: Grande Loja da República da Venezuela, 1976), 4.

[25] – Reverón, “La masonería, Miranda, fontes para seu estudo”, 21 de agosto de 2014, https://masoneriamirandina.blogspot.com/2014/

[26] – Reverón, “Maçonaria, Miranda, fontes para seu estudo”.

[27] – Parra-Pérez,  Páginas de história e controvérsia (Caracas: Lithography of Commerce, 1943), 321.

[28] – Padrón Iglesias, Maçonaria, um ponto sombrio , 29.

[29] – Parra-Pérez citado em https://venezuelaenascenso.blogspot.com/2007/09/el-libertador-de-libertadores.html

Bibliografia consultada

Aguilar Meza, Ovídio. Em busca da verdade Miranda era maçom? Los Teques: Biblioteca de autores e temas Mirandinos, Fundação Fundo Editorial Simón Rodríguez, 2010.

Barboza de la Torre, Pedro A. Bolívar e Maçonaria, Notas Históricas . Maracaibo: Grande Loja da República da Venezuela, 1976.

Bayard , Jean-Pierre. A espiritualidade da franco-maçonaria . Saint-Jean de Braye  : Ed. Dangles, 1982.

Daudin , Jean-Frédéric. L’ABCdaire de la Franc-Maçonnerie . Paris  : Flammarion, 2003.

Ferrer Benimeli, José Antonio. “Aproximação à historiografia da Maçonaria Latino-Americana”, REHMLAC 4, no. 1 (maio-novembro de 2012): 9, https://revistas.ucr.ac.cr/index.php/rehmlac/article/view/12144/11419 González Navedo, Cesáreo. Fundação e Independência da Maçonaria Americana . Havana: Cadernos de Cultura Maçônica, 1943.

Hernández González, Manuel. “Francisco de Miranda e os jesuítas expulsos”. Montalbán, Revista de Humanidades e Educação 46 (2015). 311-321.

MONET , Daniel. “Les origines intellectuelles de la Révolution française, 1715-1787”. Revue d’histoire de l’Église de France 21, no. 90 (1935): 86-92.

Padron Iglesias, Wilfredo. “A Maçonaria, um ponto obscuro na trajetória de Francisco de Miranda”. Revista de Estudos Latino-Americanos , n. 61.

Parra-Perez, Caracciolo. Páginas de história e controvérsia . Caracas: Litografia do Comércio, 1943.

Parra Perez, Caracciolo. Miranda e a Revolução Francesa . Caracas: Ed. Bank of the Caribbean, 1989.

Picon Salas, Mariano. Miranda . Mérida: Coleção Mérida Classics, INMUCU, Prefeitura Municipal de Libertador, 2006.

Ridley, Jasper. Os maçons, a sociedade secreta mais poderosa da Terra . Buenos Aires: Byblos, 2004.

Wunder, Jennifer Keats. Hermetismo e Sociedades Secretas . Ashgate, 2008.

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