Equinócio da Primavera

Primavera - Guia Estudo

Solstícios e Equinócios marcam o início das estações do ano e estão relacionados à incidência dos raios solares e à inclinação da Terra. A estação da primavera é marcada por uma maior incidência de floração com o desabrochar das flores. Também na primavera os animais que hibernaram no inverno saem de suas tocas e as abelhas, bem como as borboletas, ficam mais ativas.

A vida também é marcada em ciclos. O rei Salomão chegou a relacionar a juventude com a primavera da vida e podemos pensar que o processo de envelhecimento nos leva a passar pelo verão com a maturidade, pelo outono com relativa baixa no vigor físico e pelo inverno com o embranquecimento dos cabelos, com a perda de apetite e, por fim, com o romper do fio de prata. Mas assim como as estações se repetem ano após ano, vários ciclos são abertos e fechados no curso da vida.

Segundo Freud, somos seres marcados pela repetição e a organização da vida em ritos, rotas e rotinas é um bom exemplo disso. Infelizmente, a maior parte das pessoas demora muito tempo para aprender que não há coincidências na vida, nem mesmo nas circunstâncias do nascimento ou da morte. A grande questão é se teremos um papel ativo ou passivo nos diversos ciclos da vida.

No dicionário os termos expectativa e perspectiva são sinônimos, mas do ponto de vista da vida psíquica são posições subjetivas antagônicas. A expectativa equivale a uma posição subjetiva passiva, uma posição na qual o expectador da vida torce ou reza para que a vida melhore, mas ele ficará passivamente esperando e deixando a vida o levar. A perspectiva equivale a uma posição subjetiva ativa na qual o sujeito muda o seu ponto de vista, muda o seu jeito de olhar e assim passa a ver algo que antes não se via na outra posição.

Muitos vivem de expectativas e não percebem que a grande virada na vida é assumir o risco de uma nova perspectiva.

Não é porque se encara algumas situações na vida como tragédias que elas sejam, de fato. Quando se escolhe encarar as tragédias como oportunidades de crescimento descobre-se que elas são também desafios necessários para que haja mudança e novos ciclos na vida

Seja lá quantas primaveras já se tenha vivido, ao se olhar para trás, não para os dias belos, claros e coloridos de primaveras e verões, mas para aqueles dias mais difíceis, cinzas, em vários ciclos de outono e inverno que se experimentam na vida, é possível perceber que são justamente estes dias mais difíceis que fazem tornar-se a pessoa que se é hoje.

Os ciclos vêm e vão, portanto, nenhuma doçura será eterna e nenhum amargor será perene. Os dias coloridos da primavera fazem valer os dias cinzas do inverno. Quando a
abelha produz o mel vale o tempo que ela não voou. É preciso aprender a receber, aceitar e viver com intensidade os variados ciclos. A primavera traz a oportunidade do descobrir e do gostar, o verão abre as portas do aventurar, no outono vem a possibilidade de melhor se conhecer e o inverno é a época de se proteger. Todo dia, seja de qual ciclo for, é dia de viver para ser tudo o que puder ser, seja lá o que for.

A vida não nos apresenta garantias, mas riscos. É como o desbastar de uma Pedra Bruta: Você pode se lascar ou sair polido. Como então podemos melhorar a perspectiva sobre a vida?

Voltando a Freud, o desejo fundamental das pessoas é sentir-se amado. Tudo o que se deseja ou teme é porque anseia-se por amor, tem-se a expectativa de ter mais tempo para sentir-se amado e teme-se a morte e o fim do sentir-se amado. Podemos, então, medir a vida observando o amor, o tempo e a morte.

Quer se sentir amado? Mude de atitude, comece a viver! O amor está em tudo e dentro de todos.

O amor está na luz e na escuridão, na bonança e na tempestade, no sorriso e na dor.

Quer goste ou não disso, não tente viver sem amor. Não se pode escolher a quem se ama e nem quem fará sentir-se amado, mas não se deve abrir mão do desejo de amar-se a si mesmo. Excelente obra almeja quem ama o seu próximo, nem por isso deve deixar de amar a si mesmo. O desejo de sentir-se amado pode começar a ser realizado tornando-se amado.

Segundo Einstein, o criador da teoria da relatividade, o tempo é uma ilusão, embora teimosamente persistente. O tempo não vai do meio dia à meia noite, nem de janeiro a dezembro. Essas são percepções limitadas e por isso muitos reclamam que não têm tempo suficiente, que a vida é curta, que os cabelos estão ficando brancos ou caindo. O tempo é abundante, é um presente! O tempo transforma o cinza das dores do inverno em cores na primavera, mas ele também transforma as cores em cinzas. Talvez o tempo seja outro nome para o que chamamos de vida…

Por fim, a morte. Ela causa dor, inspira medo, enfim, é implacável, mas também é simbólica e representa o fim de ciclos que podem ser trágicos ou transformadores, a depender da perspectiva. A morte da larva também é a transformação da borboleta. As pessoas são como larvas em casulos de borboletas. O casulo é o que se vê no espelho e quando este casulo sofre algum dano físico ou psíquico, pode-se ver uma tragédia, mas poder-se-á também ver a libertação da borboleta.

As pessoas que vivem vida plena, que experimentam o amor e aproveitam o tempo, jamais terão medo da morte. A morte pode ser a maior realização que nos aguarda, destarte, se deseja viver bem a vida, pense na morte. Não se preocupe com a morte, mas com as escolhas que faz na vida. Se cuidar hoje do abrir e fechar ciclos na vida, então ter-se-á uma experiência incrivelmente feliz no momento da morte. Parafraseando Freud, pouco valerá saber se não experimentar o que se sabe.

Eis que chega mais um Equinócio da Primavera. Finda-se um ciclo de inverno em que muitos perderam, vários choraram e alguns se perderam. Com a primavera boas novas andam pelos campos e pelas ruas. O que vai brotar, crescer e colorir a vida é o que se semeia também nos dias cinzas, nos dias difíceis. Quem tem o ideal de tornar feliz a humanidade deve aproveitar os ventos da tempestade para semear amor e usar o tempo para inventar algo que venha trazer a luz da primavera.

Faço votos de que neste ciclo da primavera você possa trazer à memória aquilo que dá esperança, não se esquecendo das folhas tristes do outono e das noites frias do inverno, para apreciar o perfume das flores e fazer brotar as lições sobre a vida que já se sabe de cor, mas que resta aprender!!!

Autor: Júlio César Mendes Pereira

*Júlio César é Mestre Maçom da ARLS Águia das Alterosas, Nº 197 – GLMMG, oriente de Belo Horizonte.

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O amor filosófico e o puro prazer

Filosofia - E.E. "João XXIII": O amor filosófico e o puro prazer

Segundo Platão, o amor é a busca da beleza, da elevação em todos os níveis, o que não exclui a dimensão do corpo. No entanto, será que essa concepção ainda faz sentido em tempos de exagerado culto à coisificação do prazer?

Parece estranho e contraditório falar do amor filosófico em uma época desapaixonada, como esta em que vivemos. Na verdade, esta nossa época carece tanto de sentimento quanto de razão, pois ela pretende ser apenas a encarnação de um tempo hedonista, extravagante, dominado pelos sentidos.

Conforme Platão (427 a.C. – 347 a.C.), o amor é a busca da beleza. Embora tenha início da realidade física, deve alcançar a sua forma universal, não permanecendo prisioneiro da matéria. É lugar comum confundir o amor platônico com o amor não correspondido ou desprovido de interesse sexual. Na realidade, o filósofo não exclui o amor carnal, porém o vê como um primeiro degrau que pode levar a outros mais elevados.

As várias faces de Eros revelam-se nos discursos que ilustram O Banquete, obra-prima da literatura ocidental. O livro narra um encontro na casa do poeta Agáton[1], do qual tomam parte Sócrates, Fedro, Alcebíades e outras figuras atenienses. O encontro tem como objetivo comemorar a premiação de uma peça teatral do anfitrião, e os presentes escolheram Eros como tema inspirador dos discursos da noite.

No prólogo do livro, utilizando-se de um artifício literário, o narrador esclarece que não tomou parte, propriamente, daqueles acontecimentos, mas ouviu detalhes da sua história em colóquio com outro personagem. Após os convivas concordarem que deviam beber com moderação, pois haviam se excedido na noite anterior, dá-se então início aos discursos sobre o amor.

No relato de Pausânias aparecem duas formas de amor, geradas por Afrodite, deusa grega da fecundidade e da beleza. Afrodite tem dupla face, ou, de acordo com os estudiosos da mitologia, são duas Afrodites: a Celestial, filha de Urano; e a Popular, filha de Zeus e Dione.

Aristófanes[2], personagem conhecido entre os atenienses pela sua dramaturgia, defende que o amor é a busca da outra metade que se perdeu por castigo dos deuses. Havia no mundo três tipos de seres humanos: um formado só de duplos elementos masculinos, outro só de duplos femininos e por último um misto de elementos masculino e feminino. Esta era uma figura andrógina. Os seres duplos transgrediram a ordenação dos deuses e foram divididos ao meio. Por isso, o amor é a busca da outra metade que se perdera, o que revela a incompletude humana.

Como acontece em outras narrativas platônicas, Sócrates surge como o personagem que realiza a síntese das ideias e sentimentos do autor. N’O banquete ele inspira-se em Diotima de Mantineia[3], sacerdotisa do amor, para ilustrar o seu discurso. Não se sabe ao certo se ela é uma criação de Platão ou personagem da mitologia, mas deste entrelaçamento surgem as mais belas páginas da literatura grega.

Eros é aí descrito como um daimon, intermediário entre os homens e as coisas divinas.

“Ao gênio cabe interpretar e transmitir aos deuses o que vem dos homens, e aos homens o que vem dos deuses; de uns, as súplicas e os sacrifícios, e dos outros as ordens e as recompensas pelos sacrifícios; e como está no meio de ambos, ele os completa, de modo que o todo fica ligado todo ele a si mesmo. (…) E esses gênios, é certo, são muitos e diversos, e um deles é justamente o Amor.”

Rumo ao amor essencial

Na escalada rumo ao amor essencial, outros estágios se fazem necessários. Do amor às formas físicas belas à própria beleza, independente da forma. Há ainda o amor ao conhecimento e às boas práticas, o que pode ser interpretado como uma adesão aos princípios éticos. A sacerdotisa Diotima associa o amor à imortalidade e afirma, no diálogo com Sócrates, que o amor é o “desejo de procriação no belo”.

Apesar da visão fulgurante contida nessa narrativa, o idealismo platônico deprecia o corpo e o mundo real. Ele concebe os seres humanos como se estes fossem anjos caídos em um mundo degradado.

A dívida da Filosofia para com Sócrates/ Platão é enorme. Para Sócrates, especialmente, o diálogo levava ao conhecimento da verdade. Ele contava com um método próprio para analisar os variados assuntos que lhe eram apresentados: a dialética (arte do diálogo), que se juntava a outro artifício intelectual criado por ele, a maiêutica (parto das ideias).

A razão socrática, contudo, é acusada de servir à repressão dos instintos. Nietzsche postulou a questão de uma racionalidade repressiva ao observar que esta está a serviço da ordem e da moral, que representa uma coerção ao indivíduo autônomo. A moral, de acordo com as suas palavras, transforma-se em “instrumento do instinto de rebanho.” Como se pode ver, a razão tornou-se má conselheira, e um veículo da repressão aos instintos mais verdadeiros.

De outra forma, Freud concluiu que o embate do indivíduo com a sociedade é irreconciliável. A isso ele chamou de “mal estar da civilização.” A razão que foi construída a partir dos gregos quer guiar o mundo conflagrado onde habitamos. Este mundo não tem governo. Mas não existe outro onde possamos viver, a não ser o mundo da desrazão. Pode-se argumentar que a razão, seja ela grega ou moderna, é sempre repressora: é da sua natureza, se assim se pode dizer.

O amor e o prazer em nosso tempo

O amor da nossa época pretende ser puro prazer; deve encerrar-se aí onde teve início, no próprio corpo. Ele torna-se dejeto logo após o gozo. Mas, de toda forma, isso não deve ser considerado apenas negativamente, levando-se em conta que se trata de um tempo em que o amor às pessoas foi substituído pelo amor às coisas.

Seria uma tarefa inglória comparar a antiguidade clássica com a modernidade[4]. A própria modernidade já se diferencia de si mesma em diversos aspectos. Apesar disso, a filosofia e o amor platônicos transcendem as barreiras do tempo. Não faltam contestadores da sua filosofia, contudo, todos estão de acordo com uma verdade inequívoca: Platão foi um pensador de gênio.

No Fedro ele mostra que o exagerado apetite dos prazeres corporais e das coisas materiais não levam a bom termo. E, como acontece em outras ocasiões, ele cria ou serve-se da narrativa de um mito para ilustrar o seu pensamento.

No mito da “parelha alada”, o cavalo de mau gênio representa a concupiscência – o vício, a cobiça e as práticas sexuais exacerbadas. Na sua corrida indômita, ele desvia-se do caminho reto, levando junto o cocheiro e o outro cavalo. Nessa alegoria, o cocheiro representa o intelecto, que oscila entre os impulsos antagônicos dos dois cavalos: um obediente, que simboliza a coragem; o outro, rebelde, que guia-se pela extravagância dos sentidos.

Na concepção dos gregos antigos, o amor não devia tornar-se prisioneiro do corpo, mas elevar-se gradativamente, até o cimo, onde havia as essências absolutas: a verdade, o belo, o bem.

Essa passagem do corpo ao espírito é a expressão da dialética ascendente de Platão. Na parte inferior havia o mundo das sombras, produtor de ilusões, e os objetos sensíveis. No outro extremo, o mundo inteligível. Todo processo de conhecimento dá-se em uma ascensão do mundo obscuro, das sombras, ao luminoso mundo das ideias.

O corpo paira sobre a moral do seu tempo. Inventa uma nova erótica, elege os seus novos parceiros: as academias que redefinem as suas formas, os sex shops que coisificam o seu prazer, a moda que veste, o marketing que o alimenta com produtos miraculosos

Tudo o que a nossa época deseja é poder celebrar as conquistas pontificadas pela ciência, pelas tecnologias, pelo conhecimento emancipador da modernidade. Evidentemente, as ditas conquistas se fazem acompanhar de uma libertação espiritual e moral sem precedentes. O indivíduo contemporâneo não quer saber de enigmas, ele aspira a uma vida material que preencha todos os mistérios, todas as faltas. E a libertação moral a que chegou serve bem ao seu plano de realização dos desejos, tomando como centro de tudo o próprio corpo. É aí que se dá a encenação do seu teatro.

Até já se imaginou que as coisas se resolvessem em um cenário político, mas as utopias se dissiparam. A política teve a sua fase erótica, motivadora dos desejos revolucionários. A sedução política do corpo deu lugar a uma celebração do puro prazer sem reivindicações. Tudo já se encontra aí, em abundância. Contudo, é o corpo que dita as regras do jogo. Ele diz se está ou não satisfeito. E a presunção de que seria massacrado pela exploração capitalista, felizmente, não chegou a termo, pois, como o próprio capitalismo, ele também sofreu as suas metamorfoses.

O corpo paira sobre a moral do seu tempo. Inventa uma nova erótica, elege os seus novos parceiros: as academias que redefinem as suas formas, os sex shops que coisificam o seu prazer, a moda que veste, o marketing que o alimenta com produtos miraculosos. Não se pode negar a sedução do vestir, mas ele quer desnudar-se.

E tudo então retorna ao templo sagrado do corpo que ama, antes de mais nada, a si mesmo. Venceu o cavalo de mau gênio. É ele que dirige a parelha alada, obcecado pelo prazer, o sexo, o consumo e a matéria.

Na alegoria platônica que ilustra os dias atuais, o cocheiro (intelecto) perdeu o controle do seu carro. O corpo flana em uma fauna de prazeres, enquanto a razão desce as escarpas.

Autor: Márcio Salgado

Fonte: Revista Filosofia

* Marcio Salgado é escritor, pesquisador, doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ).

Notas

[1]Poeta ateniense, Agáton (447 a.C.- 401 a.C.) aparece em obras de Aristóteles (Anteu), Aristófanes (As Convocadas) e Platão (O Banquete).

[2] – Embora tenhamos poucas informações sobre a vida do dramaturgo Aristófanes (448/447 a.C. – 385-380 a.C.), sabe-se que ele foi um grande mestre da comédia antiga, autor de diversas peças com sátiras políticas e sociais, sendo uma de suas mais conhecidas Assembleia de Mulheres.

[3] – Escreve Zygmunt Bauman no livro Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos (Zahar, 2004, pg. 21): “No Banquete de Platão, a profetisa Diotima de Mantineia ressaltou para Sócrates, com a sincera aprovação deste, que ‘o amor não se dirige ao belo, como você pensa: dirige-se à geração e ao nascimento do belo’. (…) Em outras palavras, não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra seu significado, mas no estímulo a participar da gênese dessas coisas. O amor é, enfim, à transcendência”.

[4] – O sociólogo britânico Anthony Giddens escreveu uma obra interessante para se pensar o amor, a sexualidade e a intimidade no mundo moderno: A Transformação da Intimidade: Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades Modernas (Unesp, 2000)

Referências Bibliográficas

Platão. O Banquete. In: Platão/Diálogos. Tradução e notas: José Cavalcante de Souza. 5ª Edição. São Paulo: Nova Cultural, 1991, p. 32-101 (Os pensadores).
_______. Fedro. Tradução: Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2007.

Freud e a Maçonaria

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O autor visa dar uma ideia sobre Freud na Maçonaria judaica: a B´nai B´rith. Diferenças e semelhanças entre a Maçonaria judaica e a Maçonaria tradicional. Sua iniciação, seus trabalhos apresentados em Loja. Uma breve visão sobre a b´nai b´rith no mundo e no Brasil e seu papel para a comunidade judaica. Cita os diversos trabalhos de Freud apresentados previamente em Loja e um texto sobre o que pensa da Maçonaria judaica. Encerra com uma visão de Einstein sobre a psicanálise.

Breve Introdução

Muito se discutiu se Freud teria ou não participado da Maçonaria. Este artigo visa elucidar tal questão.

Antes de entrar propriamente no assunto gostaria de falar sobre a B´nai B´rit que é a Maçonaria da comunidade judaica.

B’nai B’rith (ברית בני)

A Ordem Independente de B’nai B’rith (Os Filhos da Aliança em idioma hebraico ou Söhne des Bundes em ídiche) é a mais antiga organização judaica em todo o mundo (KARESH & HURVITZ, 2006). Funciona sob uma estrutura semelhante à da maçonaria. Visa basicamente a incrementar a segurança e a continuidade do povo judeu e do Estado de Israel, combatendo o antissemitismo e o fanatismo, promovendo a união dos Ashkenazes e dos Sefaraditas. Sua missão é a de unir as pessoas da fé judaica e aumentar a identidade judaica através do fortalecimento da vida familiar judaica e promover uma base de serviços para o benefício dos cidadãos judeus e facilitar a advocacia e ação em favor dos judeus através do mundo.

O símbolo fundador da BB é um Ménorah, ou seja, um candelabro de sete velas que representa o Templo e a Verdade. Desabrocha como uma flor. É um símbolo, ao mesmo tempo, judeu e maçônico.

Sua estruturação se compõe de lojas (tipo maçônicas convencionais) e unidades de apoio para atingir seus objetivos nesse alvorecer do século XXI. Conta atualmente com 200.000 membros em mais de 50 países e com um orçamento anual em torno de US$ 14.000.000. Sua sede localiza-se em Washington e na Europa, em Bruxelas. Convém salientar que os EUA concorre com 95% dos filiados mundiais. Mantém uma filiação com o Congresso Judaico Mundial (CJM).

A B´nai B´rith foi criada em 1843 por Henry Jones e outros 11 imigrantes alemães que se reuniam no Sinsheimer´s Café em Nova Iorque para lutar contra o que Isaac Rosenbourg, um dos fundadores, chamou de “a deplorável condição dos judeus neste país, nosso novo país adotivo”.

A primeira ação concreta da nova organização foi a criação de um seguro para ajudar nas despesas de funerais de seus membros viúvos com US$ 30. Cada criança receberia ainda um estipêndio e para os meninos seria ensinado uma atividade comercial.

Foi assim que sobre esta base humanitária e de serviços que se erigiu o sistema de lojas fraternais e capítulos nos EUA e posteriormente em todo o mundo habitado por judeus.

O crescimento da organização na comunidade judaica apresentou os seguintes itens, incluindo ajuda em respostas a desastres:

  • Em 1851, um Covenant Hall foi erigido em Nova Iorque como o primeiro centro da comunidade judaica;
  • Um ano depois foi estabelecido a Maimonides Library, a primeira biblioteca pública judaica nos EUA;
  • Imediatamente após a Guerra Civil – quando judeus de ambos os lados do conflito ficaram sem teto – criou-se o mais moderno orfanato do seu tempo: o Cleveland Jewish Orphan Home;
  • Em 1868, quando uma inundação devastou Baltimore, a BB respondeu com uma campanha amenizar o desastre. Este ato precedeu em 13 anos a fundação da Cruz Vermelha Norte-americana;
  • Neste mesmo ano a BB patrocinou o primeiro projeto filantrópico fora dos EUA, enviando US$ 4.522 para ajudar as vítimas de epidemia de cólera na Palestina.

A partir de 1920 a BB se tornou uma dos mais poderosos lobbies da comunidade judaica nos EUA, influenciando a política, tanto interna quanto internacional.

A expansão internacional da BB deu-se em 1875, estabelecendo-se uma loja em Toronto, no Canadá, e logo em seguida uma outra em Montreal, como também a de Berlim, que Freud irá frequentar como veremos mais adiante, em 1882. A proliferação de novas lojas seria crescente: Cairo (1887), Jerusalém (1888), treze anos antes de Theodor Herzl reunir o Primeiro Congresso Sionista em Basileia na Suíça.5 A Loja de Jerusalém tornou-se a primeira a funcionar em hebraico, visto que todas as outras falavam ídiche (WILHELM, 2011).

Em 1886 foi lançada a Revista da BB (B’nai B’rith Magazine), a mais antiga publicação contínua periódica nos EUA.

Com a imigração em massa de judeus da Europa Oriental para os EUA em 1881 (DINER, 2004) a BB patrocinou a americanização das classes, escolas de comércio e programas de assistência social. Em 1897 a BB formou um capítulo para mulheres em São Francisco. Tornou-se posteriormente o BB Women, que em 1988 se transformou numa organização independente: a Internacional da Mulher Judaica – Jewish Women International (WILHELM, 2011).

Para responder ao Progrom Kishinev, o Presidente Theodore Roosevelt (maçom) reuniu-se com o comitê executivo da BB em Washington. O então presidente da BB – Simon Wolf – apresentou uma moção para ser enviada ao governo russo protestando pela leniência do mesmo em não combater o massacre. Roosevelt prontamente concordou em apoiar a moção e as lojas BB começaram a colher assinaturas de apoio.

Nos anos 20 a BB lançou a Anti-Defamation League (ADL) também um dos maiores lobbies judaicos nos EUA.

Ainda em 1920 os membros europeus tiveram um grande crescimento – 17.500 – quase a metade dos EUA e na década seguinte assistiu-se à formação da loja de Xangai, fato que representou a sua entrada no Extremo Oriente. Esta expansão internacional coincidiu com o surgimento do nazismo. No começo da era nazista, havia seis distritos da BB na Europa. Com a guerra os nazistas tomaram todas as propriedades no continente europeu, dissolvendo a BB e somente em 1960 ressuscitou em Viena com a Loja Zwi-PeretzChage (FOURTON, 2012).

No pós-guerra, a BB foi refundada na Europa em 1948. Membros das lojas de Basileia e Zurique e representantes das lojas na França e na Holanda, sobreviventes do Holocausto, compareceram a esta reunião inaugural. Em 2000, o distrito da nova BB europeia fundiu-se com o distrito do Reino Unido, formando assim a consolidada BB Europa com ativo envolvimento em todas as instituições da União Europeia. Em 2005 a BB Europa já possuía lojas em mais de 20 países, incluindo os países orientais da ex-Europa comunista.

Ainda em 1947 a BB participou ativamente da reconstrução do pós-guerra europeu e ajudou a formação do Estado de Israel na Palestina. Esteve presente também na fundação das Nações Unidas em São Francisco, com um papel ativo na ONU desde então. À partir de 1947, a organização conseguiu o status de ONG junto às Nações Unidas. Além da ONU, a BB participa ativamente, no combate ao antissemitismo, nos EUA, do Departamento de Estado e do Congresso, e na Europa, da OCDE. Na Íbero-américa, foi o primeiro grupo judeu a obter o status de sociedade civil na Organização dos Estados Americanos (OEA). Seu papel cresceu muito por causa do fluxo de judeus refugiados durante o nazismo na Europa.

A BB chegou ao Brasil no ano de 1931, mas foi banida durante a vigência da ditadura do Estado Novo (1937-1945). Voltou às atividades com a redemocratização e se tornou um distrito independente em 1969. Desde então tem contribuído com a criação e o aperfeiçoamento de leis nacionais contra o racismo. Desta filosofia decorre a série de programas de relações sociais entre judeus e não judeus, o incentivo permanente à fraternidade, ao diálogo inter-religioso, a educação democrática e ao trabalho social, viabilizando parcerias com outros setores da sociedade. A B’nai B’rith mantem lojas nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul.

Freud na B´nai B´rith

As informações a seguir foram retiradas do livro de Jean Fourton (2012), de Carl E. Schorske (1989) e de Jacob Katz (1970).

Convém antes salientar que Freud não participou da Maçonaria convencional e sim da B’nai B´rith, a Maçonaria que aceita somente judeus, conforme descrito no item acima. Katz ao falar sobre a fundação da primeira loja BB na Alemanha afirma que “os fundadores eram todos maçons, presumivelmente pertencentes ao Royal York, que tinham renunciado das lojas cuja manifestação de antissemitismo eles consideravam intoleráveis (KATZ, 1970, p. 164). Convém salientar que no século XIX, na Europa, várias lojas maçônicas convencionais proibiam a entrada de judeus. Nesse ponto discriminatório existe uma leve semelhança com as lojas Prince Hall (CARVALHO, 1999).

Alguns pontos relevantes na vida de Freud no eixo temporal para melhor contextualizá-lo em relação à sua Loja e seu laborioso trabalho na mesma (FOURTON, 2012):

  • 1856: nascimento de Sigismund Schlomo Freud em Freiburg, hoje Pribor, na Morávia;
  • 1860: a família de Freud se instala em Viena;
  • 1874: entra na Faculdade de Medicina;
  • 1881: formatura;
  • 1885: estágio com Charcot em Paris para estudar a histeria;
  • 1886: monta consultório em Viena e se casa com Martha Bernays;
  • 1892: publicação sobre a hipnose que ele pratica durante 5 anos e adota o método da livre associação de ideias;
  • 1895 publica com Breuer “Os Estudos sobre a Histeria” e nascimento do quarto filha: Ana Freud;
  • 1897: no dia 29 de setembro é iniciado na Loja Viena da B’nai B’rith. Sua loja se reunia duas terças-feiras por mês. Apresenta em Loja sua prancha sobre “O Sonho e sua Interpretação”;
  • 1900: publicação da Interpretação dos Sonhos. Em março, intervém na sua Loja (ata desaparecida). Em 27 de abril, trata em Loja do texto de Zola: Fecundidade;
  • 1901: publicação da Psicopatologia da Vida Cotidiana e O Sonho e sua Interpretação. Intervem na sua Loja com o tema: Finalidades e Meios da Ordem da B’nai B’rith;
  • 1902: apresenta três pranchas na Loja: Psicologia da Administração da Justiça, O Problema Hamlet e a Situação da Mulher no Quadro de nossa Vida em Loja;
  • 1903: prancha: Acaso e Superstição;
  • 1904: prancha sobre Hamurabi;
  • 1907: novamente prancha sobre A Psicologia a Serviço da Justiça e Acaso e Superstição;
  • 1911: prancha sobre o Caso Hamlet e O que é a Psicanálise;
  • 1912: prancha sobre Totem e Tabu;
  • 1913: publicação de Totem e Tabu e ruptura com Jung;
  • 1915: pranchas: Por que a Guerra?, Art e Fantasia e Nós e a Morte;
  • 1916: prancha: A Revolta dos Anjos, a partir da obra de Anatole France;
  • 1917: prancha: Arte e Fantasia na obra de Anatole France e Emile Zola. Segundo seu colega de Escola e secretário da Loja – W. Knöpmacher, Freud por razões de saúde e dificuldade de alocução, não tomará mais a palavra em Loja a partir deste ano. Continuará, contudo, a escrever, pesquisar, consultar e publicar;
  • 1926: sua Loja e outras da região reúnem mais de 500 pessoas para celebrar seu aniversário de 70 anos. Não compareceu por motivo de doença;
  • 1931: celebração de 75º. Aniversário em Loja;
  • 1933: seus livros são queimados em praça pública pelos nazistas;
  • 1936: celebração em Loja de seu 80º. Aniversário. Em 22 de abril a Loja Harmonia comemora seu aniversário por ser também um de seus fundadores. No dia 16 de maio o Grão-Mestre Braun da BB apresenta uma prancha em Loja sobre Freud;
  • 1937: em setembro, sua Loja comemora o 40º. aniversário de sua iniciação;
  • 1938: Anschluss em abril e sua fuga urgente de Viena em junho para se instalar em Londres;
  • 1939: publicação de Moisés e o Monoteísmo. Em 23 de setembro, sua morte; seu Ir. Stefan Zweig da BB faz o elogia fúnebre.

Pelo seu valor histórico gostaria de reproduzir a seguir, em tradução livre, uma carta de Freud sobre a Maçonaria BB, ainda que um pouco longa, demonstra o contexto da época (Ibidem):

Venerável Mestre Presidente, Veneráveis Mestres, caros Irmãos,

Estou profundamente agradecido pela homenagem que vocês me prestam hoje! Vocês sabem por que não posso responder de viva voz. Vocês a ouvirão de um de meus alunos e amigo, vocês falam de meus trabalhos científicos, mas possuir um julgamento sobre tal assunto é algo difícil e não deveria ser possível provavelmente dentro de certo tempo falar sobre isso com alguma propriedade. Permitam-me acrescentar algumas palavras ao discurso do orador que é também meu amigo e meu médico vigilante. Gostaria de dizer algumas palavras como me tornei membro da BB e o que busco entre vocês.

Sei que nos anos que se seguiram a 1895, duas fortes impressões concorreram para produzir em mim os mesmos efeitos. Adquiri, de uma parte, as primeiras impressões sobre as profundezas da vida pulsional do homem, compreendi bem as coisas que poderiam desiludir, e mesmo assustar e, de outra parte, a comunicação de minhas descobertas desagradáveis, que resultaram na perda, nesta época, de minhas relações pessoais; sentia-me uma espécie de fora-da-lei, rejeitado por todos. Este isolamento fez nascer em mim o desejo ardente de descobrir um círculo de homens escolhidos, de espírito elevado e que fariam bem em me acolher com amizade, a despeito de minha temeridade. Avisaram-me que sua associação seria o lugar onde poderia encontrar tais homens.

O fato de vocês serem judeus muito me agrada visto que eu mesmo o sou, e negá-lo me parece não somente indigno, mas ainda francamente tolo. O que me liga ao Judaísmo não é a fé – devo confessar – nem mesmo o orgulho nacional visto que sempre tenho sido um incréu, pois fui criado sem religião, mas não sem o respeito daquilo que apelidamos de exigências “éticas” da civilização humana. Cada vez que eu experimento sentimentos de exaltação nacional, sou solicitado a repelir como sendo funestos e injustos, advertido e assustado pelo exemplo dos povos entre os quais nós vivemos, nós judeus. Mas permanece tantas coisas capazes de tornar irresistível a atração do judaísmo e dos judeus, muitas das obscuras forças emocionais – ainda mais potentes quanto menos se podem exprimi-las por palavras – ainda que a clara consciência de uma identidade interior, o mistério de uma mesma construção psíquica. A isto se liga ainda um outro fato: entendo que se deve somente à minha natureza de judeu as duas qualidades que me foram indispensáveis na minha difícil existência. Pelo fato de ser judeu fui liberado dos preconceitos que limitam aos outros o emprego de sua inteligência; como judeu, estou pronto a passar à oposição e a renunciar a me juntar à “compacta maioria”.

É assim que eu me tornei um de vocês, pois comungo os interesses humanitários e nacionais, ligando-me a alguns de vocês e persuadido por alguns amigos (Dr. Hitschmann e Dr. Rie) a entrar na nossa Associação. Nunca me foi insinuado que deveria convencê-los de minhas novas teses, mas numa época onde ninguém na Europa me queria escutar e quando não tinha um único aluno em Viena, vocês me proporcionaram uma atenção benevolente. Vocês foram meu primeiro auditório.

Durante ao redor de dois terços do longo período que transcorreu depois de minha entrada, mantive-me escrupulosamente ao lado de vocês, encontrando nos meus contatos convosco, conforto e estímulo. Vocês foram hoje muito amáveis por não me reprovar por ter me afastado durante o último terço deste período. Neste momento fui submergido pelo trabalho e as questões que me foram exigidas reclamavam um lugar de destaque e não me permitiram assistir às nossas reuniões; neste período também meu corpo exigia cuidados especiais como também foram os anos de minha doença que ainda me impede de me encontrar com vocês.

Seria eu neste sentido um verdadeiro Irmão? Duvido um pouco, apesar de haver muitas condições especiais no meu caso. Posso certificar contudo que durante os anos que convivemos, vocês jogaram um papel crucial na minha vida e muito fizeram por mim. Por todos estes anos e ainda pela hora presente, rogo que aceitem, meus agradecimentos mais calorosos.

Com meus melhores pensamentos, minha fraternal amizade e em plena comunhão com vocês.

Seu Sigmund Freud

Conclusão 

Antes de terminar este brevíssimo artigo gostaria de salientar a relação Einstein-Freud. Albert Einstein declarou, após alguma prevenção, que a psicanálise é a mais importante descoberta ao serviço do humano. Segundo os arquivos da obediência, ambos eram maçons membros da BB.

Autor: William Almeida de Carvalho

William Almeida de Carvalho é sociólogo, historiador, jornalista e empresário. Doutor em Ciência Política pela Panthé-on-Sorbonne, é membro do Instituto Histórico e Geográfico do DF, foi Secretário de Estado do Distrito Federal e subchefe do Gabinete Civil da Presidência da República.

Fonte: Revista Ciência & Maçonaria

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Referências Bibliográficas

CARVALHO, William. Maçonaria Negra. Londrina: Ed. A Trolha, 1999. WILHELM, Cornelia. The Independent Orders of B’nai B’rith and True Sisters: Pioneers of a New Jewish Identity 1843-1914. Detroit: Wayne State University Press, 2011. DINER, Hasia R. The Jews of the United States: 1654 to 2000. Oakland, CA: University of California Press, 2004. FOURTON, Jean. FREUD: Franc-maçon. Saint-Paul, França: Lucien Souny, 2012. KARESH, Sara E.; HURVITZ, Mitchell M. Encyclopedia of Judaism. New York: Infobase Publishing, 2006. Katz, Jacob. Jews and Freemasons in Europe, 1723- 1939. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 1970. SCHORSKE, Carl. Viena – Fin-de-Siècle – Política e Cultura. São Paulo: Ed. da Unicamp/Cia. Das Letras, 1989.

Os efeitos psicológicos da prática do ritual maçônico

Introdução

A definição mais comum de Maçonaria é a de que Maçonaria é “um belo sistema de moralidade velado em alegoria e ilustrado por símbolos” (ZELDIS, 2011). Isso já diz muito sobre a instituição e seu modo de ensino e aprendizagem, que ocorre por meio de rituais repletos de alegorias e expressões simbólicas. No entanto, entre o desdobramento do ritual e o comportamento moral de seus praticantes há um mecanismo psicológico que não pode ser ignorado e cuja compreensão pode colaborar um melhor entendimento da razão da Maçonaria atrair ao longo dos séculos o interesse de tantos distintos homens e a ira de tão perigosos inimigos, como os nazistas, papas e o Comintern – Comitê Comunista Internacional (ROBERTS, 1969).

Este estudo tem por objetivo analisar as influências psicológicas que a prática ritualística maçônica, suas falas, movimentos, símbolos, dramas e alegorias, pode ter sobre seus praticantes.

Muitos talvez possam julgar os rituais maçônicos como ingênuos, ultrapassados, estranhos ou até mesmo supersticiosos. Serão apresentados neste estudo indícios de que tanto os rituais como a mitologia possuem as mesmas fontes de origem — o inconsciente (CAMPBELL, 2007; JUNG, 2005).

Há, sem dúvida, inúmeras diferenças entre as religiões e mitologias da humanidade, e todas essas, de uma forma ou de outra, podem ser encontradas em alguma medida, representadas nas alegorias maçônicas (MAXENCE, 2010).

Foi em 1900 que Sigmund Freud apresentou ao mundo sua teoria do Inconsciente, na obra “A interpretação dos sonhos” (FREUD, 1972). O conceito de Inconsciente já existia de alguma forma desde a Grécia Antiga, contudo foi somente com Carl Gustav Jung que tal teoria encontrou sua plenitude, alcançando um sentido mais amplo, quando o mesmo diferenciou a atuação do inconsciente de uma camada mais profunda, que chamou de Inconsciente Coletivo, que são formas ou imagens de natureza coletiva que se manifestam praticamente em todo o mundo como constituintes dos mitos e, ao mesmo tempo, como produtos individuais de origem inconsciente, que influenciam toda nossa psique (JUNG, 2011c).

Ao contrário da escola freudiana, que afirma que os mitos estão profundamente enraizados dentro de um complexo do inconsciente, para Jung, a origem atemporal dos mitos reside dentro de uma estrutura formal do inconsciente coletivo. Torna-se assim uma diferença considerável para Freud, que nunca reconheceu a autonomia congênita da mente e do inconsciente, enquanto que, para Jung havia uma dimensão coletiva inata e com autonomia energética.

As ideias apresentadas por Jung foram o embasamento científico que o estudioso das Religiões e Mitologias Comparadas, Joseph Campbell, adotou para sustentar as similaridades existentes entre todas as religiões e mitologias da história. Tal conceito chamado anteriormente de “Monomito”[1] por Jaymes Joyce, foi esmiuçado por Campbell, que mostrou todo o roteiro da manifestação arquetípica do herói, que se encontrava representado em todo o mundo como um arquétipo do Inconsciente Coletivo (JUNG, 2010; JUNG, 2011a).

Assim, será com base nas obras de Campbell e Jung o desenvolvimento deste artigo, que visa comparar e reapresentar o simbolismo maçônico sob a ótica científica da Psicologia Junguiana e da Ciência das Religiões.

Análise Comparativa da Psicologia Junguiana com o Simbolismo Maçônico

O que é um Símbolo?[2]

Os símbolos são, em síntese, metáforas e compêndios de um conhecimento sensivelmente elevado (CAMPBELL, 2007), mas que em outras palavras, são manifestações exteriores dos arquétipos. Os arquétipos só podem se expressar através dos símbolos em razão de se encontrarem profundamente escondidos no inconsciente coletivo, sem que o indivíduo os conheça ou possa vir a conhecer (JUNG, 2011b). Dessa forma, em nosso nível comum de consciência, para compreendermos um elevado sentimento contido no Inconsciente Coletivo, necessitamos dos símbolos, gestos existentes desde o início da humanidade (CAMPBELL, 2008; JUNG, 2011a).

Essas afirmações precedentes necessitam de um exemplo hipotético: O amor da mãe para com seu filho jamais seria compreendido por palavras ou descrições objetivas, como números ou letras. Em vez disso, podemos, ao invés de escrever sobre tal amor, apenas apresentar o conhecido símbolo do coração. Deste modo, mesmo que parcialmente, a noção que teremos a respeito do amor de uma mãe para com seu filho, será muito mais próxima do que as expressadas por meras palavras (JUNG, 2011d).

As mitologias e sentimentos são comumente manifestados por meio de símbolos e gestos. Do mesmo modo, a Maçonaria atua através da ritualística das suas iniciações e instruções. Os símbolos e gestos atuam como um catalizador de sentimentos de seus praticantes através do mito trabalhado pelo grupo-cultura (CAMPBELL, 2008). O avanço moral que a Maçonaria proporciona a seus adeptos é, além de consciente, educativo e ético, também um reforço psicológico.

A diferença crucial entre símbolo e arquétipo é que o primeiro pode ser visto e em alguns casos também tocado e sentido, ao passo que o segundo pode ser apenas sentido, e mesmo assim, somente por intermédio do primeiro. Portanto, para que haja símbolos, deve antes haver arquétipos, pois aqueles são a manifestação destes em menor escala (JUNG, 2011d; JUNG, 2012). Contrariamente a esta teoria junguiana agora apresentada, observamos na psicanálise de Freud outra visão dos arquétipos, que se encontra centrada nos três arquétipos relativos ao chamado “Complexo de Édipo”, que, por suas características peculiares, possui proximidades com a antropologia e com a linguística, ao passo que a visão apresentada neste artigo, Junguiana, possui proximidades com os conceitos do Inconsciente Coletivo sustentados pelo sociólogo francês Émile Durkheim, um dos pais da Sociologia Moderna, onde em sua obra o define como o conjunto de crenças e sentimentos autônomos de uma sociedade (DURKHEIM, 2004). Suas teorias também influenciaram Freud, mas com devido efeito, acham-se proficuamente delineadas nas obras de Jung.

O Templo Maçônico do Rito Escocês e a Psique Humana

Os maçons são unanimes em dizer que o Templo Maçônico[3] é simbólico, e como já vimos, o símbolo é muito mais do que mera ornamentação artística para representar algo (JUNG, 2012). Importante registrar que o templo maçônico não é uma réplica do Templo de Salomão, se não apenas simbolicamente inspirado no Templo de Salomão, mas contendo muitas outras influências, de acordo com o Rito adotado (ISMAIL, 2012). No caso do presente estudo, refere-se a um templo do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Portanto, toda a ornamentação e divisão do templo não é fruto do acaso, a começar pela Sala dos Passos Perdidos, mais adiante o Átrio, a Câmara ou Caverna de Reflexões, e finalmente o Templo em si. Todos estes compartimentos são estágios há muito tempo utilizados para separar o sagrado do profano (VAN GUENNEP, 2011).

Nesse contexto, o ritual tem por objetivo a realização da passagem de um estado de consciência para outro, estados esses chamados maçonicamente de profano e sagrado, e em última análise, o templo com suas divisões simboliza o estado de consciência em que nos encontramos. Desta forma, o templo em si representa um estado intransponível de pureza e santidade para seus membros. As funções-cargos expressas no ritual e as disposições do templo são personificações simbólicas das leis psicológicas que atuam na psique (CAMPBELL, 2007; MAXENCE, 2010), conforme será demonstrado neste estudo.

Rituais ou simples gestos simbólicos identificam nossa consciência com o campo essencial de ação. O soldado que retorna da guerra, ao passar pelo Arco do Triunfo, um rito de passagem, acaba deixando a guerra para trás. Da mesma forma, ao passarmos pela sala dos passos perdidos e posteriormente pelo átrio, sabemos que estamos em um local consagrado para a prática do bem, o Templo Maçônico. Assim, as salas que antecedem o templo, cumprem a função psicológica de devidamente introduzir o adepto em um local que, por meio de seus símbolos, colabora para o ingresso a um estado da consciência necessário para que o ritual cumpra seu dever cognitivo de forma efetiva (JUNG, 1978; VAN GUENNEP, 2011).

De acordo com a psicologia analítica de Carl G. Jung, a psique divide-se em três níveis: A consciência, o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo (HALL & NORDBY, 2010). Conforme se segue abaixo, tais divisões se conciliam em significados e funções com os cômodos de uma Loja Maçônica do Rito Escocês Antigo e Aceito, ou seja, sala dos passos perdidos, átrio e templo, sendo que na parte interior, teremos o ocidente e o oriente.

Nível 1 – Consciência: Sala dos Passos Perdidos

A consciência é a única parte da psique a qual conhecemos direta e objetivamente (HALL & NORDBY, 2010), e nela tudo ocorre geralmente de forma racional e lógica. Da mesma forma, isso também ocorre antes de adentrarmos ao templo, pois é na sala dos passos perdidos que tudo ainda ocorre de forma desprovida de questões oníricas, sem sinais ou gestos simbólicos.

O significado psicológico de persona, para Jung, é aquela parte da personalidade desenvolvida e usada em nossas interações mundanas, ou profanas, no vocabulário maçônico. É nossa face externa consciente, nossa máscara social, como veículo não de nossa real vontade, mas da nossa necessária aceitação (JUNG, 1978; HALL & NORDBY, 2010). Assim que, nas iniciações maçônicas, o gesto dos candidatos serem despidos de todos os metais, e iniciarem todos exatamente da mesma forma, significa que, naquele momento, o indivíduo despe-se de suas personas. Esse desprendimento se faz necessário visto que, conforme Jung, no nível do inconsciente pessoal – que citaremos logo adiante – não há persona, a qual se manifesta apenas no nível consciente.

O crescimento psicológico ocorre, de acordo com Jung, quando alguém tenta trazer o conteúdo-conhecimento do inconsciente, para o nível consciente, e estabelecer uma relação entre a vida consciente e o nível arquetípico da existência humana (JUNG, 1978; JUNG, 2011b). O homem que assim o fizer, haverá de reconhecer as origens de seus problemas no próprio inconsciente, pois a pessoa que não torna consciente suas limitações e defeitos, acaba por projetar sobre os outros tais percepções negativas (HALL & NORDBY, 2010). Fazendo o devido paralelo, o crescimento na senda maçônica somente ocorre quando se aplica no chamado mundo profano o que se estuda e aprende no mundo maçônico, que é neste quadro comparativo o referido inconsciente pessoal, e assim tem-se a oportunidade de transformar o conhecimento em sabedoria.

Nível 2 – Pré-consciência: Átrio

Para Freud, a consciência humana se subdivide em três níveis, chamados de Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente. O estado intermediário entre a Consciência, abordada no Nível 1, e o Inconsciente, que será abordado no Nível 3, é o de Pré-consciência, o qual tem por característica uma experiência munida de relativo equilíbrio entre um material perceptível e um material latente (FREUD, 1972).

Dessa forma, tem-se o átrio do templo maçônico como representativo desse estado de pré-consciência, visto o átrio, apesar de muitas vezes interpretado como sendo uma extensão do templo, é fisicamente um cômodo intermediário entre a sala dos passos perdido e o templo maçônico. Nele ocorre o momento de transição entre os estados psicológicos, em que os maçons se concentram, geralmente com as luzes apagadas, para se desvencilharem dos problemas e pensamentos do chamado “mundo profano” e adentrarem ao interior do templo. Assim, o átrio se assemelha em correspondência com o pré- consciente na medida em que ambos não possuem uma natureza específica, mas sim transitória. Portanto, este estado intermediário tem por objetivo introduzir o personagem no recinto onírico e simbólico seguinte.

Nível 3 – O Inconsciente Pessoal: O Templo Maçônico

Todas as experiências que se têm, mesmo aquelas consideradas esquecidas, mas que todavia não deixaram de existir, são armazenadas no inconsciente pessoal. É nesse nível que ocorrem os sonhos quando se está dormindo, e como todos sabem, tais eventos sonhados são dotados de acontecimentos surreais e ilógicos perante a nossa realidade objetiva (JUNG, 2005).

Assim o Inconsciente Pessoal encontra correspondência com o templo maçônico, onde a ritualística e os símbolos alcançam a totalidade dos trabalhos, e estes retratam bem o estado fictício e mítico do drama maçônico, estado este que – paralelamente – também é encontrado nos sonhos, com seus símbolos abstratos, passagens ilógicas e surreais, onde tanto no estado onírico como na ritualística, pode-se viajar do Oriente ao Ocidente com alguns poucos passos, e do amanhecer ao pôr do sol, vai-se em alguns minutos, semelhante ao que ocorre nos sonhos, pois no nível do inconsciente pessoal não há uma limitação objetiva. Da mesma forma o simbolismo da ritualística não possui um senso lógico. Ambas linguagens (sonhos e ritualística) são figuradas.

Assim como o ritual maçônico não é literal e tem por objetivo transmitir instruções morais, os sonhos também não o são e, segundo Jung (2011d), o crescimento e amadurecimento moral são a real e efetiva finalidade dos sonhos. Destarte, em ambos os casos perde-se o efeito do lógico e racional, para com isso, trabalhar o simbólico e onírico. Sendo assim, interpretar o ritual maçônico de forma literal é um erro lastimável, ao passo que o sonho, inexoravelmente, também deve ser interpretado de forma não literal (JUNG, 2012).

Os conceitos de Anima e Animus foram talvez as duas mais importantes descobertas de Jung. Ambos são aspectos inconscientes de um indivíduo. O inconsciente do homem encontra ressonância com o arquétipo feminino, chamado de Anima, enquanto a mulher associa-se com o arquétipo masculino, chamado de Animus. Cabe notar que quando se fala de masculino e feminino, em se tratando de Animus e Anima, está se referindo às expressões e características, e não algo literal (JUNG, 2011b; JUNG, 2012), pois, como supramencionado, o inconsciente reside em um nível atemporal, inteiramente psicológico, portanto não material.

A Anima manifesta-se na psique de forma emocional, passiva e intuitiva, por outro lado, o Animus manifesta-se de forma racional, ativa e objetiva. Jung costuma relacionar Anima ao deus grego Eros, o deus do Amor, ao passo que Animusé relacionado com o termo Logos, que significa verbo, razão (JUNG, 1978). No templo maçônico tal equilíbrio dual é conhecido pelas duas colunas, Boaz e Jaquim. No Rito Escocês, os Aprendizes Maçons tomam assento do lado da coluna Boaz, e ali são instruídos sobre a educação moral, espiritualidade e ética maçônica, conceitos perfeitamente associados ao arquétipo de Anima. Já do lado da coluna Jaquim tomam assentos os Companheiros Maçons, que, ao contrário dos aprendizes, possuem suas instruções voltadas para as artes ou ciências liberais, bem como para algum conhecimento esotérico, que são características de Animus. Ao Oriente vê-se o Sol e a Lua, que são símbolos conhecidos do Animus e da Anima.

Desta forma, Boaz e Jaquim, representam Anima e Animus, e a consecução entre ambas colunas representa o Casamento Alquímico, a totalidade do ser, ou seja, o Equilíbrio Perfeito, o Mestre. Aquele que caminha com tal união, anda pelo caminho ou Câmara do Meio (CAMPBELL, 2008), no nosso caso, o Mestre Maçom.

Nível 3 – Inconsciente Coletivo: Sólio do Oriente

Teoria proposta pela Psicologia Analítica, o inconsciente coletivo difere do inconsciente pessoal, visto que não se trata de experiências individuais, mas, como o nome sugere, são experiências coletivas (JUNG, 1978). Trata-se de uma espécie de reservatório de imagens, essas chamadas de imagens arquetípicas. Tais imagens e concepções são herdadas pelo homem de forma inconsciente através do inconsciente pessoal. O inconsciente coletivo estimula no homem desde o nascimento um comportamento padrão pré- formado. Assim, recebemos a forma do mundo em uma imagem virtual e essa imagem transforma-se em realidade consciente quando, durante a vida, identificamos os símbolos a ela correspondentes (JUNG, 2011b).

Os conteúdos do inconsciente coletivo são denominados de arquétipos. Um arquétipo é compreendido como um modelo original que conforma outras coisas do mesmo tipo, semelhante a um protótipo (JUNG, 2011b). Tanto o inconsciente coletivo como o arquétipo se confundem com aquilo que chamamos de egrégora.

Jung acreditava que tanto a experiência quanto a prática religiosa eram fenômenos que tinham sua fonte no inconsciente coletivo (JUNG, 2011c). O céu, o inferno, o Jardim do Éden, o Olimpo, são interpretados pela psicologia junguiana e freudiana como símbolos do inconsciente (JUNG, 2011c; FREUD, 1972), e se enquadram ao simbolismo do dossel e do sólio no Oriente, localizado a sete degraus acima do nível onde se encontram os Aprendizes, Companheiros e Mestres, onde se encontra o chamado Trono de Salomão e que possui estampado o “olho que tudo vê” no Rito Escocês Antigo e Aceito.

Assim como o inconsciente coletivo dispõe da pré-formação psíquica da psique (JUNG, 1978), o direcionamento dos trabalhos vem do Oriente da Loja, além de que as informações originais da Loja, presentes na carta constitutiva, também se localizam na região do sólio.

Os efeitos e sinais da Ritualística Maçônica no Inconsciente 

Os rituais praticados e todas as suas repetições centram o indivíduo dentro dos propósitos do mito, pois o ritual é a simples representação dele. Ao participar de um ritual, vivencia-se sua mitologia. Assim, tais gestos e movimentos transcendem os adeptos (CAMPBELL, 2008), como, por exemplo, na execução do mito de Hiram Abiff, que ocorre no grau de Mestre Maçom. Tornar-se Mestre Maçom é o mesmo que Jung chamava de processo de individuação para realização do Si mesmo (MAXENCE, 2010).

Quanto à ritualística e seu potencial psicológico, Jung (2011b), discorre sobre a psicologia analítica e as formas de atuar no inconsciente pessoal do indivíduo:

Outra forma de transformação é alcançada através de um ritual usado para este fim. Em vez de se vivenciar a experiência de transformação mediante uma participação, o ritual é intencionalmente usado para produzir tal transformação. (…) Se recebe um novo nome e uma nova alma, ou ainda passa-se por uma morte figurada, transformando-se em um ser semidivino, com um novo caráter e um destino metafísico transformado. (Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, CARL GUSTAV JUNG, 2011, p. 231)

Desta forma, o indivíduo que vivencia o ritual, as iniciações, elevações e exaltações, acaba por se transformar, seja pelas convicções conscientes ou pela influência do inconsciente (JUNG, 1978).

Os maçons devem, portanto, realizar reflexões da simbologia maçônica. Ao executar um ritual de alto valor cultural, com gestos e passagens incomuns à sociedade, o qual, sob um olhar cético e profano, pode ser considerado como infantil e ingênuo, deve o maçom analisar tais movimentos a nível psicológico, onde reside sua maior força e resultado. Ademais, abordar o ritual maçônico ou qualquer outro ritual sem um entendimento psicológico e simbólico do seu significado, é como ver animais nas nuvens, ou seja, um exercício de vontade e imaginação sem maiores resultados.

Conhecendo a antropologia das sociedades primitivas, Jung comparou a vida com a trajetória do Sol em um dia. A primeira parte, do nascimento para a sociedade, é semelhante ao amanhecer do Sol. A segunda parte, da participação efetiva no mundo e na sociedade, é semelhante ao meio-dia. E, enquanto o desafio da primeira metade da vida é a própria vida, o desafio da segunda metade é a própria morte, representada pelo anoitecer (CAMPBELL, 2008; JUNG, 2005).

Para o primitivo não bastava ver o Sol nascer e declinar. Esta observação exterior correspondia a um acontecimento anímico, isto é, o Sol representava em sua trajetória o destino de um Deus. Todos os acontecimentos mitologizados da natureza, tais como o verão, inverno, amanhecer, meio-dia e pôr do sol, as fases da lua, as estações, não são alegorias destas experiências objetivas, mas sim, expressões simbólicas do drama interno e inconsciente da alma, que a consciência humana consegue apreender através da dramatização dos rituais maçônicos (JUNG, 2011b).

Outro detalhe ritualístico curioso relativo ao Sol é a circulação em sentido horário, também chamada de dextrocentrica. Uma prática tão antiga quanto a Maçonaria. Os gregos e romanos tinham o lado direito como favorável, visto que este, de forma geral, favorece mais seu dono do que o esquerdo. Relacionaram tal procedimento ao aparente movimento que o Sol faz diariamente em torno da Terra. Assim, essas civilizações, tendo sempre o aparente movimento do Sol como referência, adotavam a circulação em sentido horário, tendo altares, fogueiras, totens ou sacrifícios como eixo de seus templos (ISMAIL, 2012).

A função psicológica da ritualística maçônica é a de restaurar um equilíbrio psicológico por meio do sistema mitológico proposto pela instituição, de modo a produzir um material onírico no inconsciente de seus membros (JUNG, 2005). Desta forma, o conhecimento da Maçonaria retrata um estudo do inconsciente, tanto do inconsciente pessoal, através dos efeitos diretos da ritualística, como do inconsciente coletivo, através do estudo da Mitologia Maçônica.

Nos rituais tribais de iniciação os membros recebem uma marca, que nos tempos atuais figura como simbólica (VAN GUENNEP, 2011), e que distinguem o iniciado dos não iniciados. Na iniciação no Rito Escocês isso ocorre com uma chancela no peito esquerdo. Seja uma marcação física ou apenas simbólica, tais atos ritualísticos operam igualmente no inconsciente (JUNG, 2005).

A prática de diferentes termos linguísticos também é usada para separar o sagrado do profano nos grupos religiosos (VAN GUENNEP, 2011). Este exemplo é um dos diferenciais da ritualística maçônica, onde uma linguagem própria é comumente adotada. Inúmeros são os exemplos disso no Rito Escocês, como justo e perfeito, tronco, Huzzé, sólio, pálio, veneralato e muitos outros.

Conclusões

Em síntese, a mitologia pode ser entendida, sob a ótica da Psicologia Junguiana, como um sonho coletivo, sintomático dos impulsos arquetípicos existentes no interior das camadas profundas da psique humana (JUNG, 1978), ou, numa visão religiosa, como a revelação de Deus aos seus filhos. Tanto a mitologia como os seus símbolos são metáforas reveladoras do destino do homem e nas diversas culturas são retratadas de diferentes formas (CAMPBELL, 2007). Sendo assim, a vivência do drama de um mito nada mais é do que uma ferramenta de compreensão e promoção do crescimento psicológico do indivíduo, sendo esta a função principal do mito (CAMPBELL, 2008). Assim, a análise para toda questão mitológica, como também, este estudo da ritualística maçônica em questão, é, por derradeiro, o estudo da psique humana.

Em várias sociedades e cultos primitivos, a prática religiosa consistia em vivenciar a Mitologia de forma direta, pois o mito poderia influenciar o executor da prática religiosa de forma indireta no decorrer das cerimônias, por intermédio do inconsciente. Assim o crescimento e a finalidade da Mitologia aconteciam de forma particular em cada um, como uma semente que aos poucos iria germinando (JUNG, 2005). Entendimento similar ocorre na Maçonaria e é explicitado quando maçons dizem aos neófitos na Palavra a Bem da Ordem que “hoje você entrou para a Maçonaria, mas precisa deixar que a Maçonaria entre em você“. A tradição maçônica conserva esses costumes como forma de instrução aos seus membros, sendo atualmente uma das poucas instituições em que o homem pode ter contato com tais experiências (BLAVATSKY, 2009).

Autor: Rafhael Guimarães

Rafhael é Mestre Maçom, Membro da GLMEES e Maçom do Real Arco, filiado ao SGCMRAB.

Fonte: Revista Ciência & Maçonaria

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Notas

[01] – O termo “Monomito” é de autoria de James Joyce, da obra “Finnegans Wake”

[02] – O conceito adotado nesta obra de símbolo é o da Psicologia Junguiana, que difere do conceito semiótico de símbolo instituído por Ferdinand de Saussure, pai da linguística, bem como também difere parcialmente de certas análises Psicanalíticas de Freud.

[03]O termo “templo maçônico” é comumente usado nos ritos maçônicos de origem latina. Os de origem anglo-saxônica costumam chamar o local de reuniões de “Sala da Loja”.

Bibliografia

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