O Desenho e o Canteiro no Renascimento Medieval (séculos XII e XIII): Indicativos da formação dos arquitetos mestres construtores – Capítulo III

The Portfolio of Villard de Honnecourt « Facsimile edition

3. Villard de Honnecourt : os Cadernos da Geometria Prática

Da Antiguidade, na bacia do Mediterrâneo e na Idade Média no Ocidente europeu, herdamos dois monumentais trabalhos de caráter enciclopédico onde se uniam os conhecimentos da construção de estruturas, de máquinas e da natureza: o tratado de Vitrúvio (escrito aproximadamente em 27 AC) e o manuscrito de Villard de Honnecourt da Picardia (região do nordeste da França) escrito 1250 anos mais tarde.

O paralelo entre as obras de Villard de Honnecourt e a do arquiteto romano autor do De Architectura serve para destacar o grau de importância que também é atribuída à primeira, pela possibilidade de permitir acesso ao volume, tipo e qualidade do conhecimento geométrico entre os arquitetos mestres construtores no século XIII.

Este acesso não é muito amigável, pois enquanto o conteúdo da obra de Vitrúvio é relativamente mais fácil de compreender, porque é explicitado no texto, o manuscrito de Villard é de muito mais difícil compreensão, pois consiste de desenhos que permanecem obscuros para os não iniciados na tradição oral do século XIII.

No estudo de seus desenhos, defrontamo-nos com a Geometria Prática – a Geometria Fabrorum – que tinha de resolver problemas diários nos canteiros de obra e que revela uma fonte já pressentida: excertos de Os Elementos de Euclides.

Entender os cadernos de viagem de Villard de Honnecourt é realmente uma tarefa árdua que requer conhecimentos transdisciplinares. Entre questões de linguagem (dialeto da Picardia no século XIII) e vocabulário técnico, a análise dos desenhos de Villard também requer conhecimentos avançados em mecânica civil e militar, em arquitetura (materiais e técnicas), em gromática, a disciplina de medição da terra com a groma, assim como a medição de sólidos e objetos à distância e em estereotomia, a ciência do cálculo, desenho e corte de sólidos complexos, de pedra ou madeira para construção, conhecida na França como a art du trait ou a arte do traçado. (ZENNER,op.cit,2002).

Na bibliografia existente sobre os cadernos (segundo Carl F. Barnes Jr. a primeira menção é de 1666), aparecem ocasionalmente questões práticas de geometria da construção e bem raramente outras sobre as bases matemáticas da geometria vista como ciência.

O texto do geômetra Pappus (c.290 – c.350), também de Alexandria citado por Zenner (op. cit.,2003) e transcrito adiante, há muito havia advertido que era impossível adquirir competências em ambos os domínios e que se alguém precisasse trabalhar com geometria, o melhor caminho era através da experiência do que da teoria.

Diz Pappus:

“A Escola Mecânica de Heron dizia que a mecânica podia ser dividida entre Teoria e Parte Manual; a parte Teórica composta pela geometria, aritmética, astronomia e física, a Manual, por trabalho em metais, arquitetura, carpintaria e alguma coisa envolvendo habilidades com as mãos. O homem que tenha sido treinado desde sua juventude nas ciências anteriormente citadas, bem como praticado nas mesmas artes também citadas e que tenha uma mente versátil, poderia ser melhor arquiteto e inventor de aparelhos mecânicos. Mas como é impossível para a mesma pessoa familiarizar-se com os estudos matemáticos e ao mesmo tempo aprender sobre as artes mencionadas, instrui-se a pessoa a empreender tarefas práticas mecânicas, para usar os recursos dados a si pela atual experiência de sua arte especial.”

Neste contexto, Villard de Honnecourt foi sem dúvidas, um trabalhador geômetra (de acordo com o termo francês opératif) mais do que teórico.

Nas traduções latinas, os Livros de 1 a 4 de Os Elementos de Euclides, sobreviveram intactos, aparecendo no século VI, principalmente nos trabalhos de Boécio e Cassiodoro. Ao final do século VIII, estes textos são combinados com trabalhos dos agrimensores romanos – os gromáticos. Este interesse renovado pela geometria parece ter sido teórico e prático e o centro desta produção geométrico-gromático, localizou-se na Abadia de Corbie (cerca de 15 km a leste de Amiens).

Como não há documentação gráfica das ideias em projeto e construção durante o período românico, os historiadores confiaram em comparações entre os dois únicos documentos remanescentes de projeto arquitetônico: o plano de Saint-Gall (c.817 – 819) e os cadernos de Villard de Honnecourt (c. 1220 – 1235).

Como Corbie, a Abadia de Saint-Gall dedicava um profundo respeito ao aprendizado e ao conhecimento antigo. Além disso, o plano de Saint-Gall é contemporâneo ao reaparecimento dos textos geométricos-gromáticos de Corbie. A área compreendendo o nordeste da França, noroeste da Suíça e partes da Bélgica e Alemanha é considerada a principal zona influenciada por estes estudos da Abadia de Corbie. É também a maior concentração econômica, financeira e intelectual do norte da Europa no século XIII.

Fernand Braudel (op.cit.,1986) colocou a seguinte questão: “a geografia inventou Villard?” De fato, sua cidade natal localizava-se num cruzamento de caminhos comerciais, de saber e conhecimento que acompanhava muito de perto as mudanças econômicas daquela região europeia.

Esta região contava com a maior concentração de centros monásticos tradicionais, literários, Escolas Episcopais Urbanas, Escolas Urbanas e a nascente universidade de Paris.

3.1 – A estrutura e o conteúdo dos Cadernos

Os cadernos de Villard de Honnecourt, um documento do século XIII, infelizmente incompleto, está atualmente depositado na Biblioteca Nacional de Paris, com o número de tombo Ms Fr 19093.

Seu pequeno formato (160 mm x 240 mm) denota que sua natureza é mais de um caderno de anotações do que de um “tratado”, onde a sequência de pergaminhos recolheu as observações de um artista itinerante e curioso.

Os cadernos contêm croquis rápidos e outros mais elaborados, ideias, invenções e receitas para uso do próprio autor, mas que também foram dedicados aos seus sucessores no metier, como nos demonstra o texto de abertura da obra:

“Villard de Honnecourt vos saúda e pede a todos os que usarem os esquemas encontrados neste livro rezem por sua alma e lembrem-se dele. Neste livro você encontrará conselhos sobre alvenaria e carpintaria. Você também encontrará importante ajuda para desenhar figuras de acordo com as lições ensinadas pela arte da geometria.” ( Folha F1 v).

Villard emprega em seu manuscrito, uma tendência que se afirmava rapidamente em sua época: o uso da língua nacional (vulgar) nos documentos públicos, na literatura e nos escritos científicos, abandonando assim o latim de norma culta, que era o usual para estes casos. Foi precisamente na Champagne e na Picardia que apareceram as primeiras manifestações deste novo proceder.

Seu trabalho demonstra ainda um conhecimento de documentos herdados da Antiguidade, cuja fonte deve ter sido a Abadia de Corbie, testemunhando erudição segura e uma inspiração em monumentos que lhe eram contemporâneos.

Os cadernos de Villard de Honnecourt contêm numa parte, numerosos desenhos de figuras, homens, animais, motivos decorativos imaginados ou reproduzidos e noutra, projetos e levantamentos de máquinas e engenhos de canteiro de obras ou guerra, automação primitiva e acessórios móveis, figuras de geometria elementar e por fim plantas, elevações, cortes de edifícios e esquemas de construção ou detalhes técnicos.

Certos desenhos e textos são contribuições tardias de outros autores, como o Mestre II (c. 1250 – 1260), assim como alguns comentários são devidos aos sucessores – a Folha F1 r indica a posse do manuscrito por um herdeiro (BOWIE,op.cit.,1959) – responsáveis também por transcrições equivocadas dos comentários originais.

Os desenhos técnicos dos cadernos de Villard estão em duas grandes categorias: uma refere-se a procedimentos práticos do canteiro, dos processos de traçado ou corte de pedras e que parecem ser da experiência própria do autor e a outra aos mecanismos, que são desenhados ao natural ou de memória.

Dentre todos os desenhos dos cadernos, encontram-se alguns que os especialistas denominam de recursos mneumônicos ou de visualização e recordação de propriedades geométricas conhecidas pelo Ofício a que pertence o trabalhador e que devem permanecer ocultas ou como segredo profissional por imposição da Corporação.

Sua mais notável contribuição é mostrar-nos o quanto da geometria Euclidiana era conhecida e dominada praticamente, posto que seu ensino teórico ocorria unicamente nas Escolas Episcopais e Universidades, através dos textos de Boécio (c. 480 – 525) para a pequena parcela letrada da população que estudava o Quadrivium.

O manuscrito apresenta-se atualmente na forma de cadernos recobertos por uma capa marrom em couro, contendo uma série de folhas de pergaminho, de espessuras variáveis, com desenhos nas duas faces e que apresentam interferências pela transparência do próprio suporte. Supõe-se que oito folhas foram perdidas, pois uma anotação do século XV feita em sua última folha indicava que o original tinha quarenta e uma folhas (frente e verso).

A obra foi encadernada e costurada, porque Villard queria que seus desenhos e notas constituíssem um volume de fácil manuseio, o que só enfatiza sua destinação prática.

As folhas que subsistiram foram numeradas de 1 a 33 e estão reunidas em “cadernos” costurados. A denominação dessas trinta e três folhas de pergaminho de pele do porco aparece com um numeral seguido das letras r ou v.

Segundo o Dicionário Websters New Universal – Unabridged Dictionary, a letra r indica o lado direito de um livro ou manuscrito aberto – é a página da direita (recto folio) e a letra v indica o lado esquerdo de um livro ou manuscrito aberto – é a página da esquerda (verso folio).

A ordem em que os originais se encontram atualmente pode não ser necessariamente a original, pois se sabe que algumas folhas desapareceram. Além disso, como o manuscrito pertenceu a vários proprietários, estes podem ter mudado sua primeira organização.

Continua…

Autor: Francisco Borges Filho

Tese apresentada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Doutor. Área de concentração: Estruturas Ambientais Urbanas.

Fonte: Digital Library USP – Theses and Dissertations

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Conhece-te a ti mesmo

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“Homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses.”

O conhecido aforismo Grego, inscrito na entrada do Oráculo de Delphos no Templo de Apolo, o deus da luz e do sol, da verdade e da profecia, e arduamente defendido por Sócrates (479-399 a.C), é uma referência quando o assunto é a busca do autoconhecimento e de todos os seus desdobramentos, rumo a uma nova consciência, com a descoberta do verdadeiro “eu”.

Essa necessidade de conhecimento interior visa a compreender as situações que nos cercam e as atitudes que devem ser ou não tomadas para uma vida mais equilibrada e feliz. E essa tarefa é umas das mais desafiadoras. Segundo escreveu Benjamin Franklin, em 1750, na autobiografia “Almanaque do pobre Richard”, “há três coisas extremamente duras: o aço, o diamante e conhecer a si mesmo”.

O convite a esse autoconhecimento é feito ao Iniciado da “Arte Real” no sentido de refletir sobre as paixões mundanas, os vícios e virtudes, e pensar a respeito das necessidades de ajustes pessoais para uma conduta ideal de busca permanente de sabedoria e da Verdade, colocando em relevo a presença do Ser, prevalecendo o Espírito (consciência) sobre a Matéria, liberado do seu aprisionamento na forma (ego). O enfoque dos estudos tem caráter puramente filosófico, sem nenhuma interferência da Ordem, por ferir princípio da liberdade de pensamento e do livre arbítrio.

O processo se inicia amparado em exaustivas leituras e com trabalho de introspecção sobre a maneira de pensar, na percepção de seus valores e do caminho ora trilhado, com foco na investigação, no discernimento, no conhecimento e na maneira de se expressar e aonde se quer chegar. Essa reflexão leva ao autoconhecimento, à essência do Ser efetivamente presente, sua forma de vida, suas verdades, as fraquezas que precisam ser corrigidas e os pontos fortes a serem explorados, que ensejam no simbolismo de uma nova vida mais integrada com a sua real essência.

Não se pode afirmar que essa caminhada rumo ao autoconhecimento seja amena e rápida. Muitos enfrentam uma viagem cercada de obstáculos e armadilhas e tempo de chegada imprevisível, que não se limitam ao cumprimento dos três estágios dos graus do simbolismo maçônico. Afinal, transitar pelos caminhos da mente e do espírito exige, em muitos casos, aconselhamento ou ajuda profissional especializada, sob pena de não se atingir os fins desejados.

A filosofia Socrática exerce grande influência nesta fase inicial com o convite ao autoconhecimento e ao aprendizado do pensar. Porém, antes é necessário aprender a ouvir e ouvir com atenção, com o objetivo de encontrar o sentido exato das palavras, tanto de quem fala como daquelas que são produzidas pela nossa mente. Aqui reside uma primeira dúvida: como funciona essa mente? Por onde começar?

Nesse sentido, o conhecimento de si é fruto de um disciplinado trabalho de introspecção, observação crítica e interpretação, que demanda controle emocional, tempo e desprendimento. A literatura sobre o assunto é ao mesmo tempo vasta e conflitante e é objeto de fartos estudos e proposições, ocupando grande parte de vários ramos da ciência. Entretanto, o termo “mente” tem um conceito genérico no sentido de envolver as funções do cérebro ligadas ao comportamento e à cognição.

Trilhar o caminho rumo ao autoconhecimento ou ao processo de despertar para a consciência autêntica, encontrar a verdadeira natureza por trás do nome e da forma, que alguns denominam iluminação, implica percorrer e deslindar as turbulentas trilhas da mente. Sabe-se aonde se quer chegar, porém o como fazê-lo demanda um plano de ação que é específico para cada indivíduo, não podendo ser feito por outrem. Abraham Lincoln dizia que a bússola nos diz onde está o norte, mas não nos mostra os pântanos ou as montanhas do caminho.

Segundo ensina Eckhart Tolle em seu livro “O Poder do Agora: um guia para iluminação espiritual”, a mente é um local de barulho intenso a que chamamos pensar. Afirma que, para atingirmos a iluminação é preciso antes libertarmo-nos de nossa mente (ego), pois esta encobre a verdadeira natureza do nosso Ser. Em outra obra “Um Novo Mundo: o despertar de uma nova consciência”, onde mostra os aspectos principais do ego e como eles se manifestam no plano individual e coletivo, alerta: “a menos que conheça o mecanismo básico por trás do funcionamento do ego, você não o detectará, e ele irá enganá-lo, impedindo que o reconheça todas as vezes que tentar…o ato de reconhecimento é em si uma das maneiras pelas quais acontece o despertar….o surgimento da consciência é o despertar…a luz da consciência é tudo o que é necessário. Você é essa luz”.

A conexão interior com o Ser se realiza pelos estados de amor, alegria e paz, que somente se manifestam à medida que nos livramos do domínio da mente. Por se tratarem de estados profundos do Ser e surgirem por trás da mente, não possuem opositores. Estes sentimentos não podem ser confundidos com emoções, pois estas pertencem a uma parte da mente dualística, como uma resposta do corpo à provocação de um pensamento, que é em si energia, podendo se constituir num permanente círculo vicioso, que pode interferir no equilíbrio e funcionamento harmonioso do corpo. Vale ressaltar que a emoção não é ruim em si, apenas aquela associada a um acontecimento triste, que provoca infelicidade.

O autor avisa que a mente não consegue funcionar e permanecer no controle sem que esteja associada ao tempo, tanto passado quanto futuro, e vê o “agora” como uma ameaça, por isso procura sempre dele negar e escapar. Ressalta, “em outras palavras, jamais permanecemos aqui porque estamos sempre ocupados tentando chegar a algum lugar… e a vida é sempre Agora”. Caso paire alguma dúvida sobre esse exato momento, “sempre que nos tornamos conscientes da respiração, estamos absolutamente no presente”.

Barreiras mentais e psicológicas que impedem uma visão mais ampla da realidade se fortalecem em experiências de sofrimentos passados os quais, através de diálogos interiores intensos, dominam a mente, escravizam o pensamento, afetam as emoções e agridem o corpo físico, transformando-se num fardo, permanecendo sempre presentes e identificando-se com ele. Por sua vez, quando a mente está no futuro, é criado um espaço de angústia, pois não podemos lidar com algo que é apenas uma projeção mental.

O passado nos dá uma identidade e o futuro contém uma promessa de salvação e realização. Ambos são ilusões”.

O que aconteceu no passado é um traço do passado, de um “agora” anterior. O futuro é um “agora” imaginado, uma projeção da mente. Quando esse futuro acontece, acontece como sendo “agora”. Na visão de Tolle, “a essência dessas afirmações não pode ser compreendida pela mente”.

Tolle afirma que a dualidade existe ao nível da mente: passado e futuro, o bem e o mal, amor e ódio, igual e diferente, positivo e negativo. No sentido simbólico, Adão e Eva quando comeram do fruto do conhecimento do bem e do mal, ou seja, ao nível da mente (ego), tiveram que abandonar o Paraíso. No estágio que estavam anteriormente, do bem supremo, da unidade do Ser, da prevalência do Espírito sobre a Matéria, o mal era apenas uma perspectiva. Conclui-se que o ego é surdo à voz da consciência e quanto mais identificado com a mente mais ele rege nossas vidas. E quanto mais forte o ego mais distante da nossa verdadeira natureza, de sentirmo-nos à vontade, em paz ou completos.

Segundo Tolle,

o ego precisa de alimento e proteção o tempo todo. Tem necessidade de se identificar com coisas externas, como propriedade, status social, trabalho, educação, aparência física, habilidades especiais, relacionamentos, história pessoal e familiar, ideais políticos e crenças religiosas. Só que nada disso é você”.

Segundo o autor, as necessidades do ego são intermináveis e é difícil acreditar que a nossa identidade não está em nenhuma dessas coisas e a maioria descobre isso quando passa por situações-limite, traumáticas ou lá pelo fim da vida, quando pressentir a dissolução da forma e a chegada da morte, pois esta “significa um despojar-se de tudo que não é você”.

Para desativar essa armadilha da mente torna-se necessário desenvolver uma profunda consciência de que o momento presente é tudo que temos, restando ao passado e ao futuro servir como subsídio para lidarmos com os aspectos práticos da vida, passando esta a atuar em nosso favor. Este estar presente observando o que se passa dentro de nós, monitorando o estado mental e emocional, é uma poderosa ferramenta de autoconhecimento. As nossas reações a pessoas e circunstâncias desafiadoras permitem-nos aquilatar até que ponto de fato nos conhecemos.

O pulo do gato é reconhecer que a raiz da inconsciência vem de uma identificação com a mente, permitindo que ela seja como é, sem nos deixar enredar por ela e não nos confundirmos com quem realmente somos, ou seja ficarmos presentes ou “sempre alerta”, como dizem os escoteiros. Impende aceitar que o “agora” é a coisa mais importante que existe e o que realmente temos, deixando o tempo psicológico de lado e usando efetivamente o tempo do relógio, este sim, tomado como ponto de partida para uma mudança verdadeira e como referência de um objetivo estabelecido e o trabalho necessário para alcançá-lo.

Conscientes desse mecanismo de funcionamento da mente, no contexto do convite Socrático relativo à jornada interior rumo ao autoconhecimento, à essência e à verdadeira natureza do funcionamento do pensar, o sentido das palavras ganham diferentes contornos e não representam em si a Verdade, apenas apontam para ela. Por seu turno, outras atitudes e habilidades, em especial o “aprender a ouvir, a falar e o quando falar” despontam como novas prioridades, na busca permanente para uma vida equilibrada e, por consequência, mais autêntica e feliz, como o objetivo primordial citado no início desta Prancha.

Como dito acima, o tema relativo ao conhecimento interior é vasto e complexo, mas vale pensar a respeito, mas não com a nossa mente analítica e o falso ego e sim com a nossa consciência pura e desperta, a verdadeira Inteligência, quem realmente somos e o que deve efetivamente conduzir nossa vida.

No ensejo, merece destaque um conselho de Tolle:

Ao partir numa jornada, é claro que ajuda muito sabermos para onde vamos ou, ao menos, a direção geral que estamos tomando. Entretanto, não podemos esquecer de que a única coisa real sobre a nossa jornada é o passo que estamos dando neste exato momento. Isso é tudo que existe”.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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Iniciação na prática

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Os teóricos falam por si mesmos. Nenhuma ocorrência em suas vidas revela uma experiência que possa comprovar a pregação vociferante com que alardeiam sua inscrição nas supostas castas superiores da existência.

Imaginem um ser da magnitude de Buda recitando as sublimes sutras com o coração repleto de ilusões e desejos. Imaginem São Francisco de Assis vestindo sofisticados paramentos e pompas, bebendo e comendo como um desenfreado. A distância que existe entre a prática e a teoria é a mesma que separa o homem do animal. Com uma diferença em favor dos animais: eles não dissimulam, não premeditam, não alteram as leis nem dão tampinhas no ombro. Por isso eram chamados de irmãos por São Francisco: irmão lobo, irmão pombo, irmão gato, irmão peixe. Para o santo, tudo respira fraternidade: irmão Sol, irmã Lua…

Quando São Francisco dizia “Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa Paz” é porque ele punha em prática a Paz. Ninguém presenciou o Poverello de Assis incitando as pessoas à revolta. Nem fuxico, nem fofocas. Quando ele dizia “onde houver ódio, que eu leve o amor” é porque sua vida consistia em perdoar, fazia isso o tempo todo. Quando ofendido, ele levava o perdão, onde houvesse discórdia, levava a união. (Imagino que São Francisco não tivesse dedo, pois nunca se ouviu dizer que ele apontara o dedo para outra pessoa.) Mesmo imaginando um absurdo: que Francisco de Assis não fosse um Cristão – ele agiria exatamente dessa forma porque ESTA ERA A SUA NATUREZA ÍNTIMA, sua verdade e sua experiência de vida. Onde havia dúvida, ele levava a fé, onde percebesse o erro, a verdade – sem qualquer estardalhaço ou discurso tonitruante. Era prático e não teórico, era um discípulo dos ensinamentos de Jesus e também como um Buda: conhecia as raízes do sofrimento, sua natureza, sua origem, e o meio que conduz à beatitude. Desejoso de bem empregar sua vida, Francisco foi um homem feliz apesar de sempre pensar na morte e estar preparado para ela. Onde presenciou o desespero, levou a esperança, onde percebia a tristeza, levou alegria. Foi pela experiência pessoal, pela REFLEXÃO e pelo exemplo de vida que as palavras de Francisco de Assis escaparam da letra morta (teoria) e pulsam, ainda hoje, no âmago de cada homem e mulher. Levou a Luz onde havia trevas; ensinou a VIRTUDE pelo exemplo, combatendo os VÍCIOS através de uma vida comedida e pura.

Buda, Jesus e São Francisco optaram pela modéstia ao invés da humildade. A modéstia é melhor porque vem do coração. A humildade muitas vezes procede da razão como vestimenta ou capa de proteção. Já ouvi dizer que a maior das vaidades está sob essa capa de humildade e pode irromper, como uma fera, a qualquer instante e à menor provocação. Por outro lado, a modéstia é decência, compostura, moderação e sobriedade, especialmente no falar.

Quando a capa da humildade reveste os pusilânimes, eles “dão seu show particular e jogam para a platéia”. Pensam que não são observados e se esquecem de que apenas a curiosidade os conduziu aos portais sagrados da Iniciação e ao lugar que ocupam; que, no íntimo, têm receio de serem descobertos. Inconscientemente, ainda buscam mais auferir lucros materiais e distinções humanas do que servir aos semelhantes. Alerta! quanto mais dissimulados são, mais estão descobertos.

Os fatos estão bem aqui, debaixo dos nossos narizes.

Engana-se quem supõe permanecerem invisíveis suas intenções. Nada escapa à visão criteriosa dos que nos cercam. (Sou testemunha disso: não foram poucas as vezes que meus verdadeiros amigos e irmão me alertaram nesse particular.) Aprendi que a “massa” sorri e nos presta reverência em público. Curvar a coluna e aplaudir é fácil, mera questão de treino e o hábito de agachar-se. Presenciamos isso a todo instante. Mas, nos pequenos grupos e na solidão de nossas meditações sabemos separar o joio do trigo. Esta é a grande força invisível que, sem pressa, pela evolução e não pela revolução – está mudando o mundo.

Você acha difícil? Eu também acho.

Acha impossível? Então…

Autor: José Maurício Guimarães

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