A Independência do Brasil e a Maçonaria – Parte I

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Os registros históricos revelam que as primeiras Lojas Maçônicas em nosso país foram oficialmente estabelecidas no início do século XIX. Anteriormente, consta da literatura maçônica o Areópago de Itambé, datado de 1796, uma sociedade filosófica de caráter liberal, referenciada como o embrião da maçonaria brasileira, mas incluída na categoria de sociedade secreta, além de vários clubes, academias e associações, cuja filosofia seguia o pensamento maçônico.

Outra sobre a qual recai controvérsia sob o aspecto da regularidade é a “Cavaleiros da Luz”, fundada na Bahia em 17 de julho de 1797, a bordo da fragata francesa La Preneuse, mas que seguramente teria o caráter de uma sociedade secreta com fins políticos. Tudo isso porque uma loja, para ser considerada regular, deve possuir uma carta constitutiva emitida por uma Obediência ou Potência também regular.

A Loja “União”, fundada por maçons portugueses, constituída em 1800, e considerada irregular inicialmente, foi refundada com o nome de “Reunião” no Rio de Janeiro, em 1801, filiada a uma Obediência francesa. Na sequência, constam as Lojas “Virtude e Razão” (Bahia, 1802); “Constância” e “Filantropia” (RJ, 1804), “Virtude e Razão
Restaurada” (Bahia, 1807); “Regeneração” (Engenho Paulista – PE, 1809); “Pernambuco do Ocidente” e “Pernambuco do Oriente” (1812); Distintiva (São Gonçalo da Praia Grande – Niterói-RJ, 1812); Guatimosim (Recife-PE, 1812); “União” (Bahia, 1813).

O realce na cronologia das lojas sempre ficou com a “Comércio e Artes na Idade do Ouro”, fundada em 15 de novembro de 1815, no Rio de Janeiro, inativa, pelo menos aparentemente, após o Alvará Real de 30 de março de 1818, que proibiu o funcionamento das ainda incipientes lojas do território nacional, na época em que o Brasil era Reino Unido ao de Portugal e Algarve (Castellani, 1993). A Loja foi reinstalada
em 24 de junho de 1821 e serviu de base para a fundação do Grande Oriente Brasileiro, em 17 de junho de 1822, entrando para a história como o pivô da Independência.

Os acontecimentos que resultaram na independência do Brasil têm como largada o ano de 1808, com a chegada de D. João ao Rio de Janeiro no dia 7 de março, depois de uma estada na Bahia, onde aportou em 22 de janeiro, sob a proteção naval da marinha inglesa, trazendo a Corte para o Brasil, em fuga da invasão e dominação de Portugal pelas tropas francesas de Napoleão Bonaparte, comandadas pelo General Junot, com o assentimento da Espanha. Tal acontecimento deu ao país nova organização administrativa nos moldes de um Estado independente e ensejando, segundo alguns historiadores, a “inversão metropolitana”, onde uma colônia passava a sediar uma corte europeia pela primeira vez na história. Naquele momento, Inglaterra e França disputavam a liderança no continente europeu. D. João não obedecera às determinações de Napoleão de fechar os portos portugueses aos navios ingleses. Ao partir, D. João deixara Portugal aos cuidados do Conselho de Regência de 1807.

A bordo dos navios que trouxeram a Corte, com a estimativa entre quatro e sete mil pessoas, excluindo tripulantes, constaram

joias da família real, arquivos importantes do governo português, homens essenciais de um Estado soberano – como as altas hierarquias civil, militar e eclesiástica -, a alta sociedade, membros de profissões liberais e do mundo dos negócios, toda a máquina do Estado estava sendo transplantada para continuar sua rotina no Brasil” (Cáceres, 1995).

Com isso, foram reconstituídos em solo brasileiro todos os órgãos do Estado português: os ministérios do Reino, da Marinha e Ultramar, da Guerra e Estrangeiros e o Real Erário, que em 1821 mudou o nome para Ministério da Fazenda. Outros órgãos da administração e da justiça foram recriados. Cada departamento, cada repartição importante foi restabelecida com as mesmas funções, o mesmo nome, os mesmos poderes e os mesmos métodos que o seu protótipo em Portugal.

Registre-se que a burocracia generalizada e ineficiente, o apadrinhamento e o nepotismo eram os mesmos existentes no modelo português, fato este que explica boa parte de nossa herança cultural. Muitos historiadores consideram D. João como o verdadeiro mentor do moderno Estado brasileiro. Caio Prado Júnior, na obra “Evolução política do Brasil (1ª ed.: 1933)”, consignou que, se não fora os aspectos externos e formais, a transferência da corte poderia ser caracterizada como o marco da independência do Brasil.

A chegada da Corte promoveu mudanças que redundaram em progresso, através de inúmeras medidas adotadas, como a carta-régia de 28 de janeiro de 1808, que permitiu a abertura dos portos brasileiros às nações amigas, considerado como um referencial de transição do Brasil, de colônia a Estado soberano; o alvará de 1º de abril, revogando o de 1785, que proibia a instalação de manufaturas; a criação do Banco do Brasil, em 12 de outubro de 1808, e, finalmente, a importantíssima lei de 16 de dezembro de 1815, que elevou o país à categoria de reino: Reino Unido a Portugal e Algarves, legitimando a permanência da Corte no Brasil e favorecendo a ruptura colonial sem graves convulsões sociais, sem fragmentação territorial e com unidade politica. Conforme alguns historiadores, com esse ato D. João tornou o Brasil independente dentro da Monarquia Portuguesa.

As transformações materiais foram acompanhadas de mudanças no panorama cultural, como a criação do Museu Nacional e da Biblioteca Real – futura Biblioteca Nacional, da Academia Militar, da Academia da Marinha e de escolas voltadas para melhorar a qualidade da mão de obra, como a Escola de Comércio e Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios. O ensino público melhorou com a criação de escolas de Medicina na Bahia e no Rio de Janeiro. Repercutiu positivamente a vinda de missões artísticas e científicas estrangeiras. A Academia de Belas-Artes foi criada em 1816. Cidades cresciam e foram tomadas medidas visando à melhoria das condições higiênicas e sanitárias, em especial nas cidades portuárias. Entre 1810 e 1820, o Rio de Janeiro já contava com mais de 100 mil habitantes, sendo muitas vezes identificada como uma “nova Lisboa” pelos enciumados moradores de outras partes do Brasil.

De grande relevância para a história cultural e ideológica do período foi a criação da Imprensa Régia, que quebrou a secular proibição da atividade impressora no Brasil. O primeiro jornal foi a “Gazeta do Rio de Janeiro” (1808-1822). Na Bahia, em 1811, apareceu o jornal “A Idade de Ouro do Brasil” (1811-1823). O destaque foi o “Correio Brasiliense (1808-1822)”, editado em Londres, com frequência quase mensal, pelo maçom Hipólito da Costa, brasileiro, conhecido como o “Patriarca da Imprensa Brasileira” e mentor da geração da independência. O “Correio Brasiliense” ou “Armazém Literário” era de oposição e não tinha o apoio oficial, mantendo-se dos recursos provenientes de suas vendas, e considerado, à época, o mais completo veículo de informação e análise da situação política e social de Portugal e do Brasil.

Segundo a historiadora Emilia Viotti da Costa (citada por Koshiba, 1963), “a entrada de estrangeiros em número crescente a partir de 1808, a intensificação dos contatos com a Europa facilitaram a divulgação de ideias liberais e nacionalistas, então cultivadas nas sociedades secretas que aqui também se multiplicavam”. Tudo isso propiciou à formação de uma consciência emancipacionista no Brasil.

A presença da Corte portuguesa no Brasil acabou com a importância política da região Nordeste. Por isso, um sentimento antilusitano tomou conta da Bahia e de Pernambuco, e teve papel importante no movimento revolucionário que marcou o período, a Revolução Pernambucana de 1817, de tendência fortemente nacionalista, no sentido de implantar a república em Pernambuco. Os portos nordestinos recebiam navios e comerciantes norte-americanos, a procura de mercados, que traziam artigos de jornais, livros e exemplares da Constituição norte-americana e faziam reuniões e conferências com pessoas importantes da sociedade de Pernambuco. Com as discussões sobre a Declaração de Independência e a Constituição dos Estados Unidos, muitos acreditavam que as ideias republicanas e liberais trariam o progresso e o desenvolvimento para o Nordeste.

A maçonaria e outras sociedades secretas, estimuladas pelos comerciantes e viajantes estrangeiros, se encarregaram de difundir os novos princípios liberais. O maçom Domingos José Martins, que era favorável à libertação dos escravos e a incorporação dos mesmos como soldados na luta contra os portugueses, liderou o movimento. Com a derrota do despreparado exército revolucionário, os principais chefes foram levados para Salvador, onde responderam a processo sumário (devassa), sendo todos executados, incluindo Domingos José Martins, num total de 43, entre civis e militares, bem como três eclesiásticos, dentre os quais o famoso padre Roma (José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima), também maçom (Castelani, 1989). A Revolução Pernambucana é considerada a precursora da independência política do país, juntamente com a Inconfidência Mineira, tendo ambas o protagonismo de vários maçons que fomentaram o caminho da emancipação total.

Segundo Castellani (2007), toma-se o Alvará de 30 de março de 1818 como uma consequência direta da fracassada Revolução Pernambucana, ensejando medidas contra a atuação da maçonaria, ao proibir o funcionamento das sociedades secretas, abrangendo as ainda incipientes lojas do território nacional, motivado pela agitação do meio maçônico empenhado em obter a independência do Brasil, através de movimentos regionais nacionalistas, de caráter geralmente republicano. O Alvará mostrava o empenho de D. João em fazer uso da força contra qualquer nova tentativa de rebelião, com a participação das hostes maçônicas. Não obstante o recesso oficial, a maçonaria continuou a trabalhar secretamente.

Desde 1809, Portugal estava libertado, pelos ingleses, do domínio francês. O general William Baresford, da Inglaterra, com o título de “Lorde Protetor”, era o virtual ditador, com o consentimento de D. João, enquanto este e sua Corte permaneciam no Brasil, com prejuízos para a burguesia comercial portuguesa, para a qual interessava a volta da família real para Lisboa e o restabelecimento do exclusivismo comercial da metrópole sobre a colônia.

Naquele momento,

Embora consideradas criminosas e proibidas em Portugal, as sociedades secretas e a Maçonaria se desenvolviam e difundiam ideias liberais nas grandes cidades. Combatiam o absolutismo, a sociedade tradicional, as superstições e a intolerância religiosa. A Maçonaria não era antibritânica, porque contava com muitos membros ingleses. Mas as outras sociedades secretas, como o Sinédrio, que pretendiam libertar Portugal da dependência inglesa, eram claramente antibritânica.”(Cáceres, 1995).

Como resultado da vitória da Revolução Liberal do Porto conduzida pelos militares, culminando com a expulsão dos ingleses, em 1820, e a consequente formação das “Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa”, como o primeiro Parlamento convocado em Portugal, à revelia de D. João, a permanência da Família Real no Brasil tornou-se motivo de enorme insatisfação, pois a colônia, então equiparada à metrópole, estava a um passo de sua emancipação, e isso feria o orgulho português.

A Revolução do Porto pôs fim ao período de relativa estabilidade política que o Brasil havia conhecido desde a chegada da família real, gerando tumultos, passeatas, pronunciamentos militares e rebeliões em várias partes do país, forçando D. João, a partir de então, com o título de rei e o nome de D. João VI, a jurar a nova Constituição que estava sendo elaborada em Portugal, deixando de ser um monarca absolutista e tornando-se rei constitucional. A pressão das Tropas portuguesas sediadas no Rio de Janeiro foi decisiva para a decisão de D. João. Sua volta passou a ser exigida, apesar da vontade em permanecer no Brasil.

Embora criando uma monarquia constitucional e derrubando o absolutismo, as Cortes em Portugal sempre declararam lealdade ao rei D. João. Entretanto, crescia ainda a preocupação de seus membros com as perdas das riquezas provenientes do Brasil. Vale ressaltar que a Inglaterra dominava o comércio exterior brasileiro.

Assim, atendendo à exigência das Cortes e com o receio de perder o trono, em função do decreto-régio de 7 de março de 1821, e pressentindo a possibilidade de o Brasil tornar-se independente, D. João nomeou como regente do Reino do Brasil seu filho e herdeiro, D. Pedro, aos 22 anos de idade. Ao partir, em 26 de abril de 1821, D. João recomendou a seu filho: “Pedro, se o Brasil se separar, antes seja para ti, que me hás de respeitar, do que para alguns desses aventureiros”. A esquadra, composta por duas fragatas e nove embarcações de transportes, levou 40 mil pessoas. D. Carlota Joaquina exultante, partiu maldizendo o Brasil. D. Pedro acompanhou o pai até a saída da barra. (Del Priore, 2012).

Dessa forma, o príncipe regente vê-se envolvido pela elite pensante e econômica local, dentre os quais um forte grupo político composto por vários maçons. Já naquela oportunidade, o Banco do Brasil se viu desfalcado de mais de cinquenta milhões de cruzados em barras e moedas de ouro que haviam sido levadas por D. João dentro de suas malas, inaugurando procedimento que se “repete” ainda nos dias atuais. Para contornar a situação, D. Pedro ordenou a emissão de mais papel-moeda, o que causou a desvalorização da moeda e a elevação dos preços, inoculando o veneno da inflação. Qualquer comparação com a história recente não é mera coincidência.

Ainda em abril de 1821, um decreto das Cortes anulou o ato que havia nomeado D. Pedro regente. Decidiram, ainda, que o Brasil não apenas deixaria de ser um reino unido a Portugal como também o vice-reinado, com sede no Rio de Janeiro, não seria restabelecido. Em substituição a um governo central, o Brasil seria divido em províncias autônomas, cujos governadores (militares) seriam nomeados pelas próprias Cortes. Foi determinada a eliminação de todos os tribunais de justiça, das agências e das repartições públicas estabelecidas depois de 1807. Ademais, estavam sumariamente demitidos todos os juízes, advogados, escreventes e burocratas que ocupavam esses postos (Bueno, 1997).

Com a chegada ao Rio de Janeiro dos Decretos 124 e 125, de 29 de setembro de 1821, onde as Cortes ordenavam a abolição da regência e o imediato retorno de D. Pedro a Portugal, sujeitando a obediência das províncias a Lisboa e não mais ao Rio de Janeiro, e esvaziando, por completo, a autoridade do governo, D. Pedro aparentemente resignado começou a…

Continua…

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Ex-Venerável Mestre da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Nota do Blog

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Os lamentáveis acontecimentos que cercaram o fechamento do GOB em 1822

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A interrupção dos trabalhos maçônicos e as disputas em torno da “memória” da Independência

Nem os esforços empreendidos pelos maçons no sentido de participar dos festejos da aclamação de D. Pedro no dia 12 de outubro foram suficientes para impedir que D. Pedro, em 21 de outubro, determinasse a Ledo a interrupção das atividades maçônicas e que em 02 de novembro de 1822 José Bonifácio, na condição de Ministro do Reino, determinasse a abertura de uma devassa que culminaria na prisão e na fuga de vários maçons. Segundo Joaquim Manuel de Menezes, em reunião do Grande Oriente do Brasil, ficou resolvido que no dia 12 de outubro, data do aniversário de D. Pedro e de sua aclamação, os maçons

se espalhariam pelos lugares de maior concorrência, principalmente pelo campo de Santana, aonde deveria ter lugar a aclamação, procurando conservar a necessária tranquilidade e o decoro conveniente a tão importante ato; que, devendo o imperador seguir a pé debaixo do pálio do palacete para a capela imperial, os nossos I:. que fossem oficiais da 1 e 2 linha, se apresentassem fardados, e os paisanos decentemente vestidos e com armas ocultas, rodeando quanto fosse possível a pessoa do nosso Gr:. M:. e imperador, atentos a voar em seu socorro: resguardando-o com seus corpos, se algum traidor ousasse tocá-lo.

Nessa mesma reunião (04/10/1822), o maçom José Clemente Pereira apresentou à assembleia maçônica os vivas que deveriam proferir, na qualidade de presidente do Senado da Câmara, no dia da aclamação: “À Religião! Ao Senhor D. Pedro I, imperador constitucional do Brasil! À sua augusta esposa! A Independência do Brasil!”. Como consta da ata da reunião daquele dia, D. Pedro interrompeu José Clemente Pereira e propôs um outro viva: À assembleia constituinte e legislativa do Brasil.

Teriam ainda os maçons, segundo Joaquim Manuel de Menezes, no dia da aclamação de D. Pedro I, como Imperador Constitucional do Brasil, através de uma “subscrição entre os nossos I:., que poderiam igualmente promovê-la entre os seus amigos profanos”, assumido a despesa para a construção dos cinco arcos triunfais colocados pelas ruas por onde deveria passar o cortejo: o primeiro, a entrada da rua dos Ciganos; o segundo, junto ao teatro na Praça da Constituição; o terceiro, no largo de São Francisco de Paula; o quarto, no fim da rua do Ouvidor; o quinto, no fim da rua Direita defronte à Igreja do Carmo.

Apesar de uma aparente normalidade, no dia 21 de outubro de 1822, D. Pedro I, já aclamado e coroado Imperador do Brasil e Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, enviou uma carta a Joaquim Gonçalves Ledo, que ocupava o cargo de Io. Grande Vigilante do Grande Oriente do Brasil, determinando a suspensão dos trabalhos maçônicos. Tomou essa iniciativa de suspender os trabalhos das lojas maçônicas “primo como imperador segundo como G:. M:.”. Nessa correspondência, D. Pedro afiançava a Ledo que a suspensão seria breve:

hoje mesmo deve ter execução e espero que dure pouco tempo a suspensão, porque em breve conseguiremos o fim que deve resultar das averiguações”.

Quatro dias depois, em 25 de outubro de 1822, Pedro Guatimozim, era assim que o Imperador assinava suas correspondências maçônicas, determinou o fim da suspensão dos trabalhos maçônicos em função do término das averiguações:

vos faço saber que segunda-feira que vem, os nossos trabalhos devem recobrar o seu antigo vigor, começando a abertura pela G:. L:. em Assembleia Geral.”

Mas os maçons não puderam comemorar por muito tempo. Em 02 de novembro de 1822, José Bonifácio determinou uma devassa contra os maçons, acusados de conspirar “contra o governo estabelecido, espalhando contra ele as mais atrozes calúnias, fomentando enfim a anarquia, e a guerra civil”. A abertura dessa devassa deu-se num momento bastante peculiar.

No dia 27 de outubro, dois dias depois da autorização dada pelo Imperador para o recomeço das atividades maçônicas, José Bonifácio e seu irmão Martim Francisco colocaram seus cargos de ministros à disposição de D. Pedro. Tão cedo a notícia foi conhecida, iniciou-se uma movimentação no sentido de fazer com que o Imperador reintegrasse os Andradas ao governo, o que acabou por acontecer. Reintegrado ao governo, fortalecido pelas manifestações favoráveis que tomaram o Rio de Janeiro, José Bonifácio desencadeou violenta repressão aos maçons identificados com a liderança de Joaquim Gonçalves Ledo, o que ficou conhecido como Bonifácia.

Em seguida à abertura da devassa, várias denúncias chegaram ao conhecimento do ministro. Em 17 de novembro, por exemplo, José Bonifácio ordenou que o Intendente Geral da Polícia se certificasse de que numa casa térrea na Rua da Cadeia, pertencente ao Tenente-coronel Monte, se ajuntassem frequentemente “vários indivíduos suspeitos de Carbonarismo e que, segundo a informação de uma mulher da vizinhança estivera Joaquim Gonçalves Ledo abrigado nessa casa no dia 30 de outubro último”. É interessante notar que a acusação contra Joaquim Gonçalves Ledo não era de pertencer à maçonaria, mas sim da suspeita de ser “carbonário”.

Joaquim Gonçalves Ledo inicialmente procurou refúgio na fazenda de Belarmino Ricardo Siqueira, em São Gonçalo, e com o auxílio do cônsul da Suécia conseguiu embarcar num navio daquela nacionalidade que se dirigia para o porto de Buenos Aires (Argentina). José Clemente Pereira foi preso alguns dias depois de ordenada a devassa. Recolhido à fortaleza de Santa Cruz, foi em 20 de dezembro de 1822 deportado para Havre (França). Januário da Cunha Barbosa, que tinha ido a Minas Gerais como havia determinado o Grande Oriente do Brasil propagar a proposta de aclamação de D. Pedro como Imperador Constitucional, foi preso quando retornou ao Rio de Janeiro em 07 de dezembro de 1822. Como José Clemente Pereira, em 20 de dezembro de 1822, foi deportado para Havre (França), seguindo posteriormente para Londres.

Em 19 de novembro de 1822, o Senado da Câmara da Cidade e Corte do Rio de Janeiro, em reunião extraordinária, deliberou por “geral aclamação” que esta Câmara deveria requerer ao Imperador D. Pedro I a remoção do Procurador Geral Joaquim Gonçalves Ledo. Na reunião antecedente de 09 de novembro de 1822, a que convocou essa reunião extraordinária, o Juiz Presidente do Senado da Câmara da Cidade e Corte do Rio de Janeiro justificou a necessidade dessa medida em função de que Gonçalves Ledo havia “perdido o conceito público, qualidade indispensável ao lugar que ocupa”. Sua opinião era motivada pelos acontecimentos do dia 30 de outubro, quando se reuniu no Paço do Conselho “uma muito considerável parte do Povo” que pedia a restituição dos Andradas ao ministério e a demissão de Gonçalves Ledo do cargo de Procurador Geral da Província do Rio de Janeiro.

… foi por todos bem claramente ouvido clamar o mesmo Povo em altas, e unânimes vozes, que o motivo desta deposição, que se devia com razão reputar fatal à segurança de todo Império, era uma cabala de que estava à testa o Procurador Geral desta Província Joaquim Gonçalves Ledo, cuja deposição o mesmo Povo julgava indispensável…

Embora o processo contra os maçons tenha se encerrado em 1823, isso não significa dizer que as perseguições tenham diminuído. Em 1827, sentindo-se cansado dessas perseguições impostas pelos seus inimigos, Joaquim Gonçalves Ledo deixou a Corte para viver em sua propriedade no norte fluminense. Não sem antes enviar uma carta ao Imperador com o objetivo de se despedir, mas também para expor o quanto estava sendo duro tomar essa iniciativa. Depois de explicitar toda sua fidelidade a D. Pedro, “Pai comum de todos os Brasileiros”, e de apontar as suas ações no sentido de defender a chamada “causa do Brasil”, Ledo se colocava como um verdadeiro defensor do sistema constitucional de governo:

Restituído à Pátria, quase ao tempo em que V.M.I. Dava ao Brasil a Constituição, que adoramos, Eu tive a Honra de dizer a que tal era o meu júbilo por esta Dádiva Sublime, que não vacilava em caracterizar o dia do seu juramento o primeiro dia nos Fastos gloriosos de e do Brasil. (…) E porque, Senhor, hei de eu merecer o rigor inaudito com que sou tratado? Porque hei de ser apontado até no meio daqueles, de quem não gosto, nem sou gostado? Porque me hão de sempre vir procurar, e sempre as mesmas, as setas da intriga, e da calúnia? Se não basta para me por em sossego a lembrança de serviços, que fiz, sirvam ao menos os princípios da Justiça e da Equidade. Tenho visto a tantos um dia perseguidos, mas depois descansados, e só eu lidarei eternamente no remoinho da desgraça? Só eu não hei de experimentar de V.M.I. ao menos aquela Complacência, que experimentam os menos conspícuos de Seus súditos! O Réu de maiores delitos paga as suas culpas, e enfim descansa, e só eu sem que culpas me formem hei de incessantemente ser aguilhoado! Senhor! sou súdito fiel, não tenho aspirações: meu único desejo é a tranquilidade do meu espírito, quase no último quartel da minha vida. Amo o Sistema Constitucional Monárquico, e nenhum outro, nem desejo, nem sustentarei: mas posso asseverar a V.M.I. que o Homem, que ama uma Constituição não promove, nem entra em revoluções: o governo pode ser qual for, ele gemerá, mas conformar-se-á.

Apesar da proibição do funcionamento das lojas maçônicas, muitos maçons continuaram a se reunir às ocultas. No Rio de Janeiro, encontrava-se em funcionamento, em 1825, a loja maçônica Vigilância da Pátria, que tinha Nicolau dos Campos Vergueiro como um de seus membros. Na Bahia, como constatou Celso J. Ávila Júnior, o inglês Jonathas Abbott, que em 1828 foi nomeado professor da Faculdade de Medicina da Bahia, teria sido iniciado na maçonaria em 20 de julho de 1824, conforme consta de seu diário particular.

Mas o período pós-independência e pós-fechamento do Grande Oriente do Brasil apontava para um outro desafio para os maçons. Em meio ao crescimento de uma “propaganda” antimaçônica cada vez mais organizada e, ao mesmo tempo, num momento em que se construía uma “memória” da Independência que deveria ser celebrada e ritualizada, colocava-se para os maçons a defesa de sua Ordem e de sua atuação. Nessa “luta de representações”, destaca-se, na defesa dos maçons e da maçonaria, a atuação de Domingos Alves Branco Moniz Barreto e do seu jornal Despertador Constitucional.

Em 1825, uma grande polêmica entre os defensores da maçonaria e os antimaçônicos mobilizou os meios letrados do Rio de Janeiro. Polêmica que teve início quando no Diário Fluminense foi publicado um artigo que acusava a maçonaria de ser uma sociedade secreta que conspirava contra o trono. Como já ressaltamos, não se tratava de algo novo. De qualquer forma, o maçom baiano Domingos Alves Branco Moniz Barreto saiu em defesa da atuação dos maçons do “oriente brasílico”.

Essa não foi a primeira vez que Moniz Barreto defendia publicamente os maçons e a Maçonaria. Em 1823, havia publicado um manifesto, no qual ao se defender da acusação do crime de sedição, de “inconfidência” na devassa ordenada por Jose Bonifácio em 02 de novembro de 1822, acabou por denunciar a forma arbitraria como foi conduzida aquela devassa e defender a atuação dos maçons na Independência, sobretudo a sua aliança com o Príncipe Regente D. Pedro.

Nesse manifesto, Moniz Barreto argumentou que embora não pudesse negar o seu pertencimento a Maçonaria causava-lhe estranheza sua perseguição tendo em vista que o funcionamento de lojas maçônicas na Corte do Rio de Janeiro era público, tolerado e aprovado. E acrescentava que:

… menos se ignorava que a mesma Corporação se achavam ligados, como Sócios, todos os Ministros, e Conselheiros de Estado de Sua Majestade Imperial, a exceção de um, e que era Presidida, e encaminhada pelas luzes, Patriotismo, e Probidade do seu Presidente o Exc. Sr. Jose Bonifácio de Andrada e Silva, na Presença de Quem se tratavam todos os objetos tendentes a prosperidade do Brasil, sua Independência, e Aclamação do Augusto Imperador: o que tudo se conseguiu pelos assíduos trabalhos da referida Corporação, constantemente dirigidos pelo Ilustre Grão Mestre, e com avultada despesa do Cofre Geral, não só para o lustre do Glorioso Dia doze de Outubro, em que entraram cinco arcos triunfais, mas com os Emissários que se mandaram para todas as Províncias, tanto Marítimas, como Centrais, para que nesse mesmo Dia fosse nelas Aclamado o Senhor D. Pedro I, Imperador do Brasil;…”

A estratégia de argumentação utilizada por Domingos Alves Branco Moniz Barreto era bastante clara. A sua condição de maçom não o colocava em desalinho com a “causa do Brasil, do Imperador e de seu Ministério”, até porque foi a Maçonaria uma das fiadoras da independência do Brasil em relação a Portugal e da luta pela unidade nacional.

Em 1825, Moniz Barreto voltou a defender a Maçonaria ao publicar no Despertador Constitucional Extraordinário Numero 3 um artigo intitulado Reflexões sobre a Maçonaria em geral, em particular do Oriente Brasílico. Como o próprio título indicava, essa defesa da Maçonaria estava dividida em duas grandes partes: uma em que tratou de esboçar um quadro geral sobre a Maçonaria no mundo e outra onde procurou analisar de forma mais detida a atuação da Maçonaria no Brasil. Seu objetivo mais uma vez era convencer os leitores de que a Maçonaria não era fermentadora de conspirações contra o governo, ressaltando o papel que ela desempenhou na defesa da Independência e do Imperador.

O Instituto da Maçonaria Brasílica, que foi restaurada pela nova elevação do seu Oriente, não foi uma Obra, que procedesse da obscuridade, e menos de espessos véus misteriosos, e impenetráveis, mas sim fundado nos mesmos virtuosos princípios, que já ficam manifestados, e que formava uma liga de Cidadãos leais, defensores da boa Ordem, da Religião, do Imperante, e das Leis. O fanatismo político não se encontrava nas suas deliberações. Homens zelosos do bem geral, e da honra do Brasil, uniram provisoriamente a Sociedade Maçônica operações Filantrópicas, e discutiam com sabedoria, e prudência as ideias, que Lhes ocorriam acerca dos meios mais próprios para se conseguirem os uteis fins da prosperidade deste Novo Mundo; e o Plano sobre a sua emancipação foi tão bem concebido, concertado, e judicioso, que o resultado correspondeu ao ardor, e atividade dos seus assíduos trabalhos; e disto não podemos alegar melhor prova que o testemunho do mesmo Ministério do Governo, e de pessoas dignas de fé, sem que houvesse vestígio de conspiração, tendo somente em vista o Direito de Sucessão na justa, e bem merecida Aclamação de Imperador do Brasil na Pessoa do Senhor D. Pedro I, que anteriormente já tinha sido proclamado Seu Defensor Perpétuo.”

O artigo de Moniz Barreto em defesa da Maçonaria provocou de imediato forte reação. No mesmo ano de 1825, foram publicados dois folhetos atribuídos a Luís Gonçalves dos Santos, o Padre Perereca, que objetivavam responde-lo. São eles: O vovô maçom, ou o golpe de vista sobre o Despertador Constitucional Extraordinário do 1°. de Fevereiro de 1825, publicado no Rio de Janeiro pela Imprensa Nacional; Antidoto Salutífero contra O Despertador Constitucional Extranumerário No. 3, publicado no Rio de Janeiro em 1825. Ambos foram posteriormente publicados em Lisboa pela Imprensa Regia em 1827.

Como era próprio do periodismo da época, como bem ressalta Isabel Lustosa, os dois folhetos são marcados por um estilo contundente, sem fazer concessões, chegando mesmo em alguns momentos a violência e aos ataques pessoais. A expressão “Vovô maçom”, por exemplo, contida no título de um dos folhetos era uma caçoada quanto a idade avançada de Domingos Alves Branco Moniz Barreto, que em 1825 contava com 77 anos de idade. Ao longo das suas páginas, os maçons são tratados dos mais diferentes qualificativos: “ímpios”, “hipócritas”, “arquitetos de republicas”, “bicho peçonhento”, “demagogos”, “praga”, dentre outros. Mas, no fim o que essa violência das críticas dirigida aos maçons objetivava – a começar pela ironia contida nos próprios títulos dos folhetos – era deixar claro aos Leitores de que se tratava de uma luta. E, portanto, que seus autores estavam em campos opostos. Luta que, se acontecia no campo das ideias, tinha também reflexo no campo das práticas políticas.

Sobre a origem do Maçonismo não concordam os mesmos Maçons; os filhos da Luz não sabem quando veio ao mundo a sua mamãe: em todos os tempos e idades houve Seitas de desorganizadores, e de ímpios; estava porem reservado para os nossos dias, para os séculos das luzes, o aparecimento da mais detestável, e terrível de todas, e que reúne em si tudo quanto ha de abominável, e desastroso, pois que, ensinando que os homens todos são iguais, e livres, chama os Povos para os horrores da anarquia, da rebelião, e da impiedade; e debaixo dos seus auspícios, impulso, e influencia se tem cometido por toda a parte as maiores atrocidades contra o Altar, e os Tronos.

Não fugindo ao paradigma narrativo do complô, tal como vimos no capitulo 3, para o Padre Perereca, os maçons utilizando-se da malicia, de tramas ocultas, da esperteza, do mistério, de pretensas “operações filantrópicas” tinham por fim ultimo “a revolução geral do Globo, tal como tem havido desde 1789 até agora”.193

E não havia espaço para especificidades nacionais, ou seja, não adiantava Moniz Barreto defender que a maçonaria no Brasil era diferente da maçonaria no restante do mundo. E com ironia, retrucava: “Meu vovó Maçom, quem tanto prova nada prova: aqui trata-se de fatos, e não de hipóteses, e hipóteses. (…) quem viu um diabo, viu todos.” Na perspectiva do Padre Perereca, muito pelo contrário, a maçonaria no Brasil era essencialmente republicana e agia no sentido de derrubar o Imperador.

Tudo quanto V.S. acaba de asseverar em tom enigmático, e misterioso, nada mais encerra do que a Revolução do Brasil, premeditada há muitos anos, forjada nas trevas dos Autos secretos, ensaiada infelizmente em Pernambuco em 1817, comprimida, disfarçada, e adiada para melhor ocasião. (…) Ficando S. M. I. no Rio de Janeiro, bem contra a vontade dos Maçons, teve o Brasil um Defensor, que o livrou da recolonização, quebrando as cadeias, com que as Cortes de Lisboa o pretendiam maniatar ao carro da sua orgulhosa avareza, e impor-lhe de novo o pesado jugo da escravidão colonial. Ficando S.M.I. no Rio de Janeiro, bem apesar das Cortes de Lisboa, os Maoris quase todos perderam a esperança da quimérica República Federativa, envolvida, e bem embrulhada nas operações filantrópicas unidas provisoriamente a Sociedade Maçônica, etc. Eles bem desejavam ver o Príncipe Regente fora do Brasil; revoando-lhes em roda das suas iluminadas cabeças os nomes de Washington, de Adams, de Jefferson, de Monroe, esperava cada um ocupar a cadeira da Presidência da sonhada Republica; já se sabe, por filantropia, e por amor da prosperidade deste Novo Mundo!!!” (p. 85)

Como bom polemista e prolifero escritor, Domingos Alves Branco Moniz Barreto não fugiu ao debate e retrucou as críticas dos dois folhetos acima referidos de forma imediata e contundente. No mesmo ano de 1825, publicou Apologia da Religião no Espiritual e dos Impérios no Temporal, contra as erradas doutrinas do fanatismo, e Hipocrisia, expendidas no Folheto Vovô Maçom, e nas sete Cartas, que tem por Título, Antidoto Salutífero.

Como um típico representante do pensamento ilustrado, a resposta de Moniz Barreto aos folhetos publicados pelo padre Perereca possuía como pressuposto o confronto entre “luzes” e “trevas” Tratava-se, a partir de argumentos elaborados com base na razão, combater a ignorância, a superstição de folhetos que, nas suas palavras, aliavam “ignorância e patifaria”. Com um forte conteúdo anticlerical, Moniz Barreto identificou no autor dos folhetos um típico representante do pensamento conservador, católico. Daí que, no decorrer de toda a sua tréplica, ele apenas se dirigia ao seu debatedor pejorativamente como “fradeco ou padreco”. Acrescenta-se a isso outros qualificativos, tais como: “padreco teólogo rombudo”, “demagogo místico”, “ratazana”, “caluniador”, “teólogo fanático”.

Moniz Barreto, como o próprio título de sua tréplica indica, começa por fazer uma severa crítica aos membros do clero, imersos no fanatismo, nos privilégios, nos “vícios curiais” e, portanto, afastados da “boa e verdadeira moral, e ainda mesmo do espirito de Religião, que Jesus Cristo tanto recomendou aos Ministros de sua Igreja”. Tal critica fundamenta a defesa da necessidade da separação entre Igreja e Estado, ou seja, da não intervenção do poder espiritual sobre o poder temporal.A espada espiritual, Senhor P., ou F., quando se desembainha e para defender a vinha, e a herança do Senhor, e não para ofender as jurisdições temporais dos Monarcas.

Em seguida, Moniz Barreto reitera a defesa do papel desempenhado pelos maçons na Independência, a especificidade de sua atuação no Brasil, apontando as contradições do Padre Perereca:

“Depois de caluniar, e de mentir o P., ou F., como bem Lhe pareceu, nega também os fatos Filantrópicos, que com verdade expendemos tinha posto em pratica a Sociedade Maçônica Brasileira, para se conseguir a Independência deste Império. Se a revolução que para isso se fez fosse criminosa, e não merecesse a gratidão publica, então o P., ou o F., acusaria a Maçonaria, e até lhe imputaria o mau resultado dos seus trabalhos. Como porem a Grande Obra foi bem sucedida, e mereceu os aplausos públicos, não foi isso devido a Sociedade Maçônica, mas sim aos Brasileiros de todos as Províncias, que não eram Maçons.”

Apesar da contundência de Moniz Barreto, um novo folheto foi publicado em sua resposta no Rio de Janeiro em 1826. Também atribuído a Luís Gonçalves dos Santos, intitula-se: Exorcismos contra os incursos maçônicos, ou continuação das Cartas Do que vê, e não ouve em resposta a apologia da Religião, e do Império pelo Despertador Constitucional: dedicados aos amantes da Religião, e do Império para benefício da Mocidade Brasileira.

Como o próprio título do folheto denunciava, tratava-se de exorcizar, de extirpar o demônio que ameaçava a perdição da “mocidade brasileira”: “Oh! Ilustríssimo Senhor, nunca dos prelos desta Corte se tirou papel mais infame, nem mais caviloso, e detestável! Parece ter sido escrito pela unha do demo com tinta extraída do rabo!”. Tratando Moniz Barreto de “nosso Marat”, o autor do folheto Exorcismos contra os incursos maçônicos, utilizando-se de todas as imagens próprias do discurso conservador, contrarrevolucionário, terminou por associar os maçons e a maçonaria como expressões da maldade, da perversidade, da irreligião, da subversão, o que no piano político se desdobrava no sentido de associar os maçons a defesa dos governos republicanos.

A Maçonaria, Sr. Despertador, não e concepção de um só, como qualquer das Seitas antigas conhecidas pelos nomes dos seus inventores, e um edifício, que muitos arquitetos da impiedade tem sucessivamente reforçado com o contingente da sua perversidade, nem ela aparece em toda a parte com a mesma mascara; e posto que o seu fim seja a total extinção do culto externo prestado a Deus, e uma universal Republica em todo o Mundo, contudo ela finge-se tolerante do culto, e da Religião dominante, enquanto não pode executar o piano da subversão de todo o Altar, e de todo o Trono. Além do segredo, comum a todas as Seitas, de trabalhar ao seu modo no desenvolvimento da grande obra de contradição, e de iniquidade, a Maçonaria sobressai a todas, somente pela razão de caminhar nas trevas de um segredo o mais profundo, e de servir- se de meios os mais atrozes; daqui um ódio implacável aos Reis, e aos Sacerdotes; daqui as maldições, os vitupérios, as calunias, as zombarias, a licença da mais desenfreada libertinagem, se encontram em todos os escritos dos Maçons desde a Enciclopédia até o mais pequeno Livrinho; em todos os Jornais, Panfletos, e Folhas volantes, se divisa a linguagem cínica, anárquica, e irreligiosa; porque estes homens demônios falam, e escrevem pela abundancia do seu coração.”

Essas imagens que associavam a maçonaria com a “subversão”, como “inimiga do Imperador e da monarquia”, não constituía em si uma novidade. Como vimos especialmente no capitulo 3, ela foi recorrente e sempre nos momentos de crise ela era recuperada. No Brasil, do início da década de 1820, essa “luta de representações” constituiu um dos elementos essenciais dos conflitos políticos que dividiam as principais lideranças Maçônicas. No período imediato a Independência, num momento em que era preciso legitimar e fortalecer a vitória de um projeto político de autonomia que se sustentava a partir da ideia da construção de um Império Brasileiro unitário e tendo o Rio de Janeiro como centro político, foi necessário neutralizar determinados setores da Maçonaria contrários a esse projeto vitorioso. Como vimos, para o “grupo de Ledo”, para os maçons do Grande Oriente do Brasil, a adesão ao Príncipe D. Pedro e ao projeto Independência com base numa monarquia constitucional, ao contrário do projeto vencedor, pressupunha a ampliação da arena política, através de um parlamento forte que de fato limitasse a autoridade do soberano.

Questão que não se resolveria em 1822.

Autor: Alexandre Mansur Barata

Tese de doutorado – In, Maçonaria, Sociedade Ilustrada e Independência (Brasil, 1790 – 1822)

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

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A Maçonaria e o Apostolado: Ledo x Bonifácio

O Malhete: JOSÉ BONIFÁCIO E GONÇALVES LEDO - MAÇONS ANTAGONISTAS

Em sessão realizada no dia seguinte ao de sua posse, em 05 de outubro de 1822, D. Pedro, o novo Grão-Mestre do Grande Oriente Brasílico, foi saudado pelo Brigadeiro Domingos Alves Branco Muniz Barreto, de modo inflamado, prevenindo-o “contra os coléricos, os furiosos” e “os embusteiros” que, “para seus sinistros fins particulares, buscam minar o edifício constitucional”.

Essa já era uma previsão do golpe que estava sendo preparado e iria ser desfechado por José Bonifácio e seus simpatizantes. Seria a sessão seguinte, de 11 de outubro de 1822, a 19ª e última do Grande Oriente Brasílico em sua primeira fase. E foi essa, também, a última sessão presidida por Dom Pedro, um dia antes de sua aclamação como Imperador, realizada em 12 de outubro de 1822.

Três dias depois da aclamação, em 15 de outubro de 1822, um grupo a serviço do Ministro rancoroso e vingativo, “colérico e furioso”, passou a espalhar o boato de que Ledo e seus simpatizantes pretendiam provocar uma completa reforma no Ministério, com o afastamento dos Andradas. Foi o suficiente para que fossem expedidas ordens ao Intendente de Polícia para exercer severa vigilância sobre os “perversos carbonários e anarquistas”. E, apenas 18 dias depois de ter sido empossado no cargo de Grão-Mestre, o então Imperador, envolvido pelas intrigas de José Bonifácio, dirigiu a Gonçalves Ledo o seguinte bilhete, em 21 de outubro de 1822:

“Meu Ledo, convindo fazer certas averiguações, tanto públicas como particulares na Maçonaria, mando, primo como Imperador, segundo como Grão-Mestre, que os trabalhos Maçônicos se suspendam até segunda ordem minha. É o que tenho a participar-vos. Agora, resta-me reiterar os meus protestos como Irmão.” Pedro Guatimosim G∴M∴.

P.S. – “Hoje mesmo deve ter execução e espero que dure, pouco tempo, a suspensão porque, em breve, conseguiremos o fim que deve resultar das averiguações” (Documento encontrado no arquivo do Castelo D’Eu).

Mas Gonçalves Ledo não cumpriu a ordem. Preferiu entender-se com o Imperador e Grão-Mestre, que reconheceu ter sido vítima dos ódios do seu próprio Ministro, aumentado pelos zelos de haver a Maçonaria conferido a ele, Chefe de Estado, o Grão-Malhete. Assim, resolveu o Imperador mudar de rumo, ordenando que o Grande Oriente prosseguisse nos seus trabalhos e cessassem as perseguições. E, no dia 25 de outubro de 1822 (quatro dias depois da interdição), mandou entregar a Gonçalves Ledo um bilhete, que, por ser um precioso documento para a História da Maçonaria Brasileira, transcrevemos abaixo:

“Meu Irmão: Tendo sido, outro dia, suspensos nossos augustos trabalhos pelos motivos que vos participei, e achando-se, hoje, concluídas as averiguações, vos faço saber que, segunda-feira que vem, os nossos trabalhos devem recobrar o seu antigo vigor, começando a abertura pela Grande Loja em Assembleia Geral. É o que por ora tenho a participar-vos para que, passando as ordens necessárias, assim o executeis. Queira o S∴A∴do U∴ dar-vos fortunas imensas, como vos deseja o vosso I∴P∴M∴R∴ (Irmão Pedro Maçom Rosacruz)”.

Desse modo, por ordem de Dom Pedro a atividade do GOB ficou suspensa, apenas, por sete dias.

Vendo-se desprestigiado com o apoio dado pelo Imperador a Ledo, José Bonifácio pediu demissão do cargo de Ministro, no mesmo dia do bilhete de Dom Pedro a Gonçalves Ledo autorizando o reinício dos trabalhos do GOB, em 25 de outubro de 1822. Acompanhou-o, na demissão, o Irmão Martim Francisco.

Bonifácio, ressentido pela Exaltação de D. Pedro e por sua destituição sumária do Grão-Mestrado, em favor de D. Pedro, tudo obra do Ledo, ele, juntamente com seu irmão, Martim Francisco, e mais alguns maçons, saiu do GOB e fundou uma nova sociedade secreta, meio maçônica e meio carbonária chamada de O Apostolado.

José Bonifácio, que viajara por todos os países onde a “Carbonária” lançara os seus tentáculos, deixara-se empolgar pelo sistema de organização da poderosa sociedade, mas simplificara-o de acordo com as possibilidades do momento. Suprimiu, por exemplo, o “Triunvirato”, nas organizações europeias, o centro nervoso, donde provinham as ordens mais importantes.

As pequenas assembleias locais (Decúrias), embora pretendessem corresponder às “Lojas Maçônicas”, é melhor compreendê-las na categoria de “Choças”, já que os seus altos dignitários não eram eleitos, e, sim, designados dentre as “Colunas do Trono”, nome dado aos membros da original sociedade.

No dia 29 de outubro de 1822, apareceu uma proclamação elaborada pelos membros do Apostolado, exigindo a volta dos Andradas. O Imperador (sempre indeciso e volúvel), devidamente “trabalhado” pelo grupo de José Bonifácio, interessado em seu retorno, conseguiu recolocar os Andradas no poder, de acordo com o Decreto de 30 de outubro de 1822 (Nabuco – Legislação Brasileira – Tomo III, pág. 347).

O ciúme entre o Grande Oriente e o “Apostolado” entrou em sua fase mais crítica e delicada. Ambas as Sociedades procuravam monopolizar as simpatias de D. Pedro, sem que este resolvesse pronunciar-se por uma delas.

Fervilhavam as intrigas políticas e insinuavam-se conspirações ora de uma, ora de outra parte, o que devia causar em D. Pedro grande sensação de mal-estar. Se era a independência do país que todos almejavam e, sobre isso ele não tinha dúvida, por que, então, envolviam-se em lutas estéreis ao invés de o ajudarem a realizar a obra que tinham em mente?

Diziam os do Apostolado: “Nós queremos a independência sob a forma de Regime Monárquico, enquanto o Grande Oriente conspira para implantar a República”. Essa insinuação, que era quase uma denúncia, iria ser o calvário do GOB que, devido a essas intrigas, teve suspensos os seus trabalhos pelo seu próprio Grão-Mestre.

O primeiro passo de José Bonifácio foi ordenar a prisão de todos os que considerava seus inimigos – Ledo e os seus partidários (Portaria de 11 de novembro de 1822).

A esse respeito, o Irmão Kant (Cônego Januário da Cunha Barbosa) escreveu a Ledo no dia 30 de outubro de 1822:

“Ledo, escrevo, na contingência de ser preso pelos agentes dos Andradas. José Bonifácio nos intrigou com o Imperador, convencendo-o de que somos republicanos e queremos a sua morte e expulsão. Sei, pelo Clemente, que a ordem de prisão já está lavrada. Esse homem, que se tem revelado um tigre, “que não fez a independência, que a impediu até o último instante”, e que somente a aceitou quando a viu feita, agora, procura devorar aqueles que tudo fizeram pela Independência da Pátria, que a conseguiram com os maiores sacrifícios. O Drummond disse que o déspota faz questão de prender a você para enforcar. 

Lembre-se do que ele disse na Igreja de São Francisco. Não se exponha, não apareça na Corte, pois o grande ódio dele recai sobre você, que foi, como Dirigente da Maçonaria, o principal obreiro, o verdadeiro construtor de nossa Independência.”

Essa foi a primeira e a última vitória do “Apostolado”, porque, embora encerrados os trabalhos do GOB, muita coisa ainda seria capaz de influir no ânimo de D. Pedro.

Certo dia, chegou ao Palácio uma carta anônima, escrita em Alemão, trazendo a nota de urgente no envelope. D. Pedro pediu à Imperatriz que a traduzisse, o que mostrou uma grave denúncia! O Apostolado tramava contra a vida do seu Arconte Rei, o próprio Imperador. Nesse mesmo dia, D. Pedro mandou chamar o seu Ministro José Bonifácio ao Palácio, por volta das 18h. Sem nada mencionar a Bonifácio, D. Pedro ordenou-lhe que o esperasse, pois estava de saída, que não seria demorada.

Coberto por espesso capote, montou um cavalo sem ferraduras e dirigiu-se ao Quartel de Artilharia Montada de São Cristóvão, donde, juntamente com o seu Comandante Pardal, oficiais de confiança e cinquenta soldados, todos encapotados e bem armados, partiram para a Rua da Guarda Velha, no Centro na Cidade do Rio de Janeiro. O Imperador bateu à porta, com a senha da ordem. O porteiro, embora conhecendo D. Pedro, vacilou em abrir-lhe a porta, sendo, rapidamente, seguro, o mesmo acontecendo ao segundo porteiro.

Era costume, na chegada de um membro da Sociedade, como sinal de ordem, levantarem-se todos os presentes e puxarem do punhal. Ordenando que os que o acompanhavam permanecessem no vestíbulo, o Arconte Rei caminhou em direção ao trono, donde Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado presidia os trabalhos. De imediato, este lhe ofereceu a cadeira e se preparou para juntar e guardar os papéis referentes aos trabalhos da Sessão, que nada mais tratavam senão do plano de conjuração e das propostas dos membros da Sociedade a esse respeito, sendo impedido pelo próprio Imperador, que lhe tomou tais papéis. Em seguida, D. Pedro dirigiu-se aos presentes, dizendo: “Podem retirar-se, ficando cientes de que não haverá mais reuniões no “Apostolado” sem minha ordem”. E não se realizaram mais reuniões, nem tampouco prisões. Assim, acabou a “Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa-Cruz”, ou seja, o Apostolado. E, de novo, José Bonifácio foi demitido de seu cargo de Ministro.

Essa era a represália do Grande Oriente, que conseguiu, assim, acabar com o “Apostolado”.

Autor: Antônio Fadista

Fonte: Revista Arte Real

Nota do blog

Clique AQUI para ler “Os lamentáveis acontecimentos que cercaram o fechamento do GOB em 1822“, tese de Alexandre Mansur Barata.

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