A Lenda do Ofício – análise crítica: conclusão

Feita a viagem pelos caminhos da Lenda do Ofício, com paragens nos vários apeadeiros que o fluir do tempo foi proporcionando, é tempo de fazer o balanço do que se aprendeu com a jornada, recolhendo esses ensinamentos para uso no prosseguimento da exploração da vereda de nossa vida.

Já em vários dos específicos comentários aos diversos trechos da Lenda chamei a atenção para uma das suas caraterísticas: o aparecimento frequente de anacronismos históricos, no entanto explicáveis por refletirem concretizações de arquétipos, personificações de fatos praticados por anônimos, reflexos de evoluções coletivas.

Os anacronismos detectados constituem, evidentemente, entorses (ou quiçá mesmo valentes caneladas…) em relação à verdade histórica. É por isso que se trata da Lenda do Ofício, não da História do dito. Mas, se essas entorses existem e são visíveis, pudemos verificar que normalmente corresponderam, porém, a artifícios de narrativa condizentes com o plano de fundo da evolução histórica. Cobriu-se, várias vezes, a nudez forte da Verdade Histórica com o manto diáfano da Fantasia, embelezando, compondo, agrinaldando, imaginando o que mais seco, duro, quiçá desinteressante, ou até não perfeitamente conhecido, realmente terá ocorrido.

Enfim, a Lenda não é, seguramente História, mas reflete-a. A modos que um Romance Histórico. Todos, ao lê-lo, sabemos que não constitui a exata Verdade Histórica, mas com ela se aparenta, dela flui e com ela se relaciona. E, afinal, há horas para tudo: horas para ler e estudar a História pura e dura e horas para ler e apreciar Lendas, Narrativas e Romances, que bem sabemos não corresponderem inteiramente à verdade factual, mas que apreciamos pela acrescida graça e pelo estímulo da nossa fantasia e imaginação. Não sabemos exatamente como as coisas se passavam no lugar X, no tempo Y, com a pessoa Z, mas porventura terá sido assim, nas circunstâncias assado, com a atuação frito e os resultados cozido. Não sabemos se é exatamente correto, mas, pelo menos é mais nutritivo para a nossa Imaginação…

Outra caraterística a realçar na Lenda é a progressiva concretização e focalização que dela decorre. Adverti que, para os maçons operativos medievais, era comum utilizar-se Maçonaria como sinônimo de Geometria, pura ou aplicada em Arquitetura, por si ou concretizada em Construção.

Mas se verificarmos bem, não só o termo Maçonaria é, na Lenda, sucessivamente utilizado com esses significados, como evolui na sua utilização ao longo dela, das épocas mais distantes para as mais recentes e à medida que a narrativa se aproxima do lugar da sua criação, a Inglaterra.

É assim que, no início da narrativa, dedicado aos tempos antediluvianos, Maçonaria é sinônimo de Geometria, e assim continua até à narrativa de Euclides. Quando se chega à narrativa da edificação do Templo de Salomão, o termo Maçonaria começa a ser utilizado com o significado de Arquitetura e construção. E, com a entrada da narrativa pela Europa, cada vez mais o termo se refere a Construção, pura e dura e já nem sequer tanto a Arquitetura. Quando a narrativa desagua na Inglaterra, é já, claramente, este o uso do termo, detendo-se então a Lenda na descrição da criação da organização das regras da arte de construir, da organização do agrupamento profissional dos construtores “oficiais”, regras e deveres que deviam cumprir.

Lenda evoluiu da Antiguidade mais longínqua para os tempos mais recentes, com um similar movimento de evolução da utilização do termo Maçonaria do geral para o particular do ofício da construção propriamente dito.

Finalmente, ressalta de toda a narrativa o Orgulho que constituía para os construtores em pedra o estarem integrados num grupo profissional organizado, com regras, com princípios, com conhecimentos recebidos e acrescentados e aperfeiçoados desde tempos imemoriais.

Lenda do Ofício foi a narrativa de exaltação de uma associação de profissionais e da sua atividade. Com a evolução da Maçonaria Operativa para a Maçonaria Especulativa, deixando as Lojas de serem locais de trabalho, ou de regulação do trabalho ou das respetivas regras, e passando a ser locais de convívio fraterno e de trabalho, já não de construção de coisas, mas de construção e aperfeiçoamento dos autores das coisas, de Homens, esse legítimo Orgulho dos maçons operativos não é esquecido.

E a Lenda do Ofício continua a ser lembrada pelos Maçons modernos, especulativos, como narrativa respeitante a um ofício que foi, mas sobretudo como símbolo da evolução humana. Na Lenda fala-se de conhecimentos para construir palácios e templos, castelos e cidades, muralhas e torres. E com ela aprendemos que também similar evolução existiu, ao longo dos tempos, na ética dos Homens, que idênticos princípios de cooperação e organização podem inspirar o trabalho de aperfeiçoamento de cada Homem, que também a construção do Templo dentro de cada um de nós se faz, embora sem pedras nem ferramentas para as aparelhar e pousar, com regras, com o cumprimento dos deveres que aprendemos e apreendemos serem imanentes aos homens justos e leais e de bons costumes.

Ofício será porventura já de outra natureza; mas a Lenda, essa, permanece e continua a ser motivo de Orgulho para todos nós, maçons, como lembrança do que a Humanidade foi e do que cresceu, e do que evoluiu e esperança do que, melhorando cada um de nós a si próprio, a Humanidade melhorará e evoluirá.

A Cadeia de União entre os maçons é constituída pelos elos existentes em todo o globo, mas vem sendo forjada e aperfeiçoada desde tempos imemoriais – desde os tempos em que analfabetos trabalhadores construíam, por suas mãos, incríveis edifícios, que hoje nos espantam como puderam ser construídos sem os meios técnicos hoje conhecidos.

Nós, os maçons, orgulhamo-nos de descender desses construtores de antanho. De todos, desde os mais sabedores aos mais rudes e incultos.

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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A Lenda do Ofício – análise crítica: Athelstan

Chegamos finalmente ao epílogo da Lenda do Ofício. Esta última parte tem um fundo histórico há muito conhecido. Registos históricos comprovam que, no tempo do rei saxão Athelstan, foram reguladas por lei as frith-gildan (free guilds em inglês moderno), ou corporações livres de artífices de diversas profissões, entre eles os construtores. Mas, sendo uma construção lendária, a base histórica entrelaça-se com alguma imprecisão, embelezamento, modificação, gerada pela transmissão oral ao longo dos tempos.

Mas, antes do mais, relembremos o último trecho da Lenda do Ofício, que alguns estudiosos maçônicos autonomizam sob a designação de Lenda de York:

Pouco tempo depois da morte de Santo Albano, houve diversas guerras no reino da Inglaterra entre diversas nações, pelo que a boa regra da Maçonaria foi destruída até ao tempo dos dias do Rei Athelstone, que foi um valoroso Rei da Inglaterra e trouxe a esta terra descanso e paz; e construiu muitas grandes obras de Abadias e Torres e muitos outros tipos de edifícios; e gostava muito dos Maçons. E ele tinha um filho chamado Edwin, que gostava dos Maçons muito mais do que o seu pai. E era um grande praticante da Geometria; e dedicou-se muito a falar e a confraternizar com Maçons e a aprender a sua ciência; e depois, pelo amor que dedicava aos Maçons e à ciência, ele foi feito Maçon e obteve do rei seu pai uma carta-patente para realizar todos os anos uma assembleia, onde lhes conviesse, no reino da Inglaterra; e para corrigirem os erros uns dos outros e os atropelos que fossem feitos dentro da ciência. E realizou ele próprio uma Assembleia em York, e a estes fez maçons e deu-lhes Deveres e ensinou-lhes as regras e ordenou que esta norma seria seguida para todo o sempre, e guardou então a carta-patente para a conservar e deu ordem para que fosse renovada de rei para rei.

E quando a Assembleia estava reunida, anunciou que todos os Maçons, velhos e novos, que tivessem alguma notícia ou conhecimento dos Deveres ou das regras que foram feitos antes nesta terra, ou em qualquer outra, deveriam deles dar conhecimento. E quando assim se fez, foram encontrados alguns em francês e alguns em grego e alguns em inglês e alguns em outras línguas; e o seu propósito foi de reunir todos num único. E fez um livro deles e de como a ciência foi fundada. E ele próprio proclamou e determinou que deveria ser lido ou contado sempre que um Maçom fosse feito, para lhe dar a conhecer os seus Deveres. E desde esse dia até agora as regras dos Maçons mantiveram-se dessa forma, tanto quanto os homens as podem executar. E a partir daí diversas Assembleias tiveram lugar e ordenaram certos Deveres, segundo o melhor juízo dos Mestres e Obreiros.

Que, após o século III, época em que viveu Santo Albano, a Inglaterra foi palco de um largo e persistente período de instabilidade, guerras, invasões, sortidas e ataques, nada propício à arquitetura, atividade mais próspera em tempo de paz do que de guerra, é uma verdade histórica conhecida. Daí que, com acerto, a Lenda refira que a boa regra da maçonaria foi destruída até ao tempo do rei Athelstone.

Athelstone é uma das formas do nome do rei saxão Athelstan, o Glorioso, rei da Inglaterra entre 924 e 939. É considerado o primeiro rei inglês de fato. Estendeu os seus domínios a York e Nortúmbria, a Gales e à Cornualha. Teve várias vitórias militares, inclusivamente sobre os vikings. Não obstante, foi considerado também um hábil diplomata, preferindo, sempre que possível, as alianças à guerra, sobretudo forjadas através de casamentos de várias das suas meias-irmãs. Não se casou e não teve filhos, mas criou como seu filho Haakon, mais tarde rei da Noruega.

Foi um patrono da Arquitetura e da construção, que procurou desenvolver. Foi também um legislador. Legalizou e regulou as corporações profissionais, incluindo a dos construtores.

A referência a Athelstan na Lenda é, portanto, manifestamente tributária da verdade histórica.

Não existem registos históricos da Assembleia de York, mas a sua realização, naquele local e naquele tempo, é plausível, atenta a regulação das corporações profissionais a que este rei procedeu e o fato de efetivamente York ter sido incorporada nos seus domínios. A assembleia de York e a sua importância no estabelecimento das regras de regulação do ofício de construtor é uma forte tradição da Maçonaria Operativa, que tem certamente raiz em evento ou conjunto de eventos efetivamente ocorridos. A ocorrência de assembleia ou assembleias em York parece merecer foros de confiança. Já a época em que tal ocorreu pode ter sido a de Athelstan ou num tempo anterior.

O que nos leva à parte reconhecidamente inexata deste trecho da Lenda: o alegado filho de Athelstan, o Príncipe Edwin.

Já acima foi referido que Athelstan não teve filhos. Mackey sustenta que o Edwin referido na Lenda terá sido o rei desse nome da Nortúmbria, que teve um reinado de dezesseis anos e morreu em 632 – portanto, anterior, em cerca de 300 anos, a Athelstan. Foi o primeiro rei cristão da Nortúmbria e considerado um patrono da arte da construção.

Mackey explica este desacerto histórico com a existência de duas variantes da Lenda, geograficamente implantadas.

Os maçons operativos do sul de Inglaterra criaram a Lenda atribuindo a Athelstan o mérito do estabelecimento da regulação da construção e, portanto, atribuíram-lhe o restabelecimento da maçonaria na Inglaterra.

A Nortúmbria fica no norte de Inglaterra. Os maçons operativos do Norte da Inglaterra teriam criado a sua própria versão da Lenda, atribuindo esse restabelecimento a Edwin da Nortúmbria – até com a “vantagem” de trezentos anos de avanço…

As duas tradições orais terão coexistido até que as voltas e reviravoltas da transmissão oral terão propiciado a fusão das duas versões, mantendo o Edwin do Norte (e atribuindo-lhe o mérito da Assembleia de York, retirado a Athelstan), mas “fazendo” de Edwin filho (historicamente inexistente) de Athelstan…

Enfim, a Realidade embelezada pela Lenda…

Continua…

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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A Lenda do Ofício – análise crítica: Santo Albano

No texto anterior, analisou-se a chegada da Maçonaria=Geometria=Arquitetura da construção em pedra à Europa segundo a Lenda do Ofício.

A partir do texto que hoje se destaca, a Lenda centra-se em Inglaterra, país onde foi criada.

A Inglaterra em todo este tempo manteve-se alheia, quanto a qualquer assunto de Maçonaria, até ao tempo de Santo Albano. E nos dias deste o rei da Inglaterra, que era pagão, edificou as muralhas da cidade que agora se chama Saint Alban. E Santo Albano era um valoroso cavaleiro e nobre da corte do Rei e tinha a direção dos assuntos do reino e da edificação das muralhas da cidade; e gostava dos Maçons e acarinhava-os muito. E fixou o seu salário bem, de acordo com os padrões do reino; pois deu-lhes dois xelins e seis dinheiros por semana e três dinheiros para as suas refeições. E antes desse tempo, por toda esta terra, um Maçom recebia apenas um dinheiro por dia e a sua refeição, até que Santo Albano emendou isso e deu-lhes uma carta-patente do Rei e do seu Conselho para reunirem em conselho geral e deu-lhe o nome de Assembleia; e, a partir daí, ele próprio ajudou a fazer Maçons e deu-lhes Deveres, tal como ouvirão mais tarde.

À primeira vista, depara-se-nos mais um dos frequentes anacronismos da Lenda, na medida em que, após falar de Carlos Martel, que viveu entre 688 e 741, refere Santo Albano, que viveu no século III. Mas aqui o anacronismo pode ser apenas aparente, por duas razões. A primeira, por esse anacronismo ter existido, sim, mas em relação a Carlos Martel, declarado, na Lenda contemporâneo de um dos que participaram na edificação do Templo de Salomão, Maymus Grecus, portanto “puxado” para uma época muito anterior à da sua real existência; a segunda, porque a Lenda, nesta passagem, não afirma que a Maçonaria foi introduzida em território inglês via França e, portanto, não declara a sequencialidade das duas passagens – pode muito bem interpretar-se que a Lenda relatou a introdução da Arte Real na França como episódio demonstrativo de que a sua aparição na Inglaterra não se tratou de um fato isolado, mas, de alguma forma, apenas como episódio marginal, sendo entendível e admissível a sua colocação entre o fim da Antiguidade e o ponto de interesse fulcral da Lenda, a Maçonaria na Inglaterra. Aliás, como referirei um pouco mais adiante, a passagem da Lenda ora em análise deve levar-nos a considerar um outro tipo de influência para a introdução da Arte de Construir na Inglaterra. Portanto, na dúvida, use-se aqui o princípio basilar do Direito Penal e… “absolva-se” a Lenda da suspeita do “crime” de anacronismo, nesta passagem.

Santo Albano foi o primeiro mártir cristão britânico. Segundo Mackey, nasceu, assim reza a tradição, no século III em Hertfordshire, Inglaterra, perto da cidade de Verulanium. Então, o território inglês fora conquistado pelas legiões de Roma e estava integrado no Império Romano. Albano foi para Roma, onde serviu sete anos como soldado sob o comando do Imperador Diocleciano. Regressou a Verulanium pouco antes de ter sido desencadeada uma perseguição de cristãos. Ter-se-á apresentado às autoridades como cristão e foi preso, torturado e morto. Quatro séculos depois do seu martírio, foi erigido um mosteiro em Holmeshurst, a colina onde foi enterrado e, pouco tempo depois, na vizinhança deste mosteiro nasceu e cresceu a cidade de St. Albans, substituindo a antiga Verulanium romana.

Lenda embeleza a vida e importância do primeiro mártir e santo britânico, de óbvia importância numa sociedade medieval em que ainda predominava o catolicismo (Henrique VIII só mais tarde viveria e iniciaria o cisma que originou a Igreja da Inglaterra). Declara-o nobre cavaleiro da corte do rei pagão da Inglaterra (seria Carausius, que se revoltou contra o Imperador Maximiliano e usurpou a soberania de Inglaterra) e teria sido sob sua direção que foram edificadas as muralhas de Verulanium, futura St. Albans – pelos vistos, havendo boas razões para tal edificação, em função da revolta de Carausius e da expectável reação imperial…

A introdução da Arte de Construir na Inglaterra é assim relacionada com a construção de equipamento militar de defesa. Os maçons – os construtores – foram, diz a Lenda, protegidos por Santo Albano e viram aumentado o seu salário, aumentada a sua importância social e estabelecida a forma de autorregulação da sua profissão.

Esta passagem da Lenda, a exemplo de outras passagens e de outros personagens e épocas e lugares, personifica em Santo Albano uma realidade histórica verificada: que a Arquitetura foi introduzida na Inglaterra pelos artífices romanos que, como era usual então, seguiam as suas legiões nos territórios por estas conquistados e ocupados. Esses artífices não só construíam nos territórios ocupados campos fortificados e fortificações como, uma vez restabelecida a paz – a Pax Romana – se dedicavam a edificar templos e edifícios privados. Ruínas e inscrições latinas ainda hoje encontradas por toda a Inglaterra testemunham esse labor dos artífices romanos e sustentam a ideia de que a Arquitetura, sinônimo na Lenda de Maçonaria, foi introduzida na Inglaterra no período da colonização romana.

Continua…

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Em busca da Apple Tree: uma revisão dos primeiros anos da maçonaria inglesa (Parte III)

John Montagu, 2.º Duque de Montagu

Um acontecimento que constituiu uma tragédia para o estudo da história da Maçonaria foi a “noite da indignação”, que aconteceu na Loja Antiguidade em novembro de 1778, quando os simpatizantes de William Preston, em sua disputa com o Grande Loja, roubaram arquivos e móveis[80]. Na época deste incidente, a loja tinha em sua posse as atas completas entre 1721 e 1778, bem como três volumes com os arquivos dos tesoureiros e dos secretários. Os dois volumes, que continham as atas de 1721 a 1733 foram perdidos e outros volumes tiveram suas páginas rasgadas. A perda desses registros é desastrosa. No entanto, foi preservado um rascunho, marcado com “E”, contendo alguns das primeiras atas. Felizmente, este volume ainda está em sua encadernação original, e tem anexado a ele o cartão de Charles Stokes, “Livreiro em Red-Lyon, perto de Bride-Lane, na Fleet Street”. O cartão está datado de 1716, provavelmente a data em que foi gravado. Stokes era conhecido por comercializar o “famoso tabaco oftálmico, que é fumado suavemente e é agradável de cheirar”, que foi amplamente divulgado a partir de 1720, e a as folhas de tabaco são vistas no cartão[81]. Stokes, “uma pessoa engenhosa que colecionava medalhas, pinturas e outras curiosidades”, faleceu em 10 de junho de 1741[82]. A participação de Stokes na Loja Antiguidade está registrada no Volume “E” e, em 1719, ele foi tutor de geometria, álgebra e assuntos relacionados junto com Jonathan Sisson[83].

Graças à sobrevivência do livro e do cartão de Stokes, sabemos que o livro “E” em arquivo no Loja Antiguidade é anterior às ações de Preston e seus seguidores e que, provavelmente, foi encadernado em princípios década de 1720. Boa parte do livro não foi usada até anos depois de seu aquisição, uma vez que também contém atas de 1759 a 1767 entre as páginas 9v e 85, além da contabilidade da loja da página 148v ao final do volume. Ele também contém várias notas de, por exemplo, a entrega de uma placa para imprimir ingressos, em julho de 1751, ou na página 7v o reembolso das verbas pagas durante uma cerimônia trimestral em abril de 1756. Na página 124v há uma lista negócios inacabados de grandes oficiais, o que é muito interessante porque omite a inclusão de Anderson como o Primeiro Vigilante em 1723. No entanto, esta lista é muito tardia, pois está escrita pela mesma pessoa que escreveu a ata entre 11 de junho e 26 de agosto de 1766. O volume não escapou ileso da “noite da indignação”, uma vez que entre as páginas 125 a 133 existem alguns trechos, escritos em caligrafia do final do século XVIII, que supõe-se sejam do livro de atas de 1721 a 1733 que está perdido. Como o observa Wonnacott[84], eles foram escritos por uma mão que não pode ser anterior a 1765 e muitos traços têm uma semelhança marcante com as notas de rodapé do obras de William Preston, sugerindo que se trata de registros que foram elaborados e corrigidos sob sua direção.

Mas, no início do livro “E”, existem dois documentos que podem ser datados sem dúvida a partir do início dos anos 1720. Após a reprodução de um retrato do Duque de Montagu por John Faber, há uma ata na página 2 que descreve a nomeação do duque em junho de 1721; então, das páginas 4-5, há uma lista de membros da loja, datada de 18 de setembro de 1721. O início desta lista é redigida pela mesma pessoa que redigiu a ata da reunião de Montagu. Adições subsequentes à lista, que deixam um registro de alguns figuras ilustres da loja, como o primeiro conde de Waldegrave e Sir Charles Hotham, representante de de Beverly no Parlamento[85], são primeiro da mão original e depois de uma variedade de mãos que parecem ser, como no caso do artista Benjamin Cole, assinaturas dos próprios membros. As últimas entradas na lista referem-se às iniciações de 15 de março de 1725, o que significa que a lista não pode ser posterior a 1726. A maioria dos membros nomeados na primeira seção aparecem na lista de membros da Loja na taverna Goose and Gridiron. Outros nomes na lista de 1725 aparecem como membros da Loja na taverna Queen’s Arms, que é para onde se mudou a Loja da Goose and Gridiron[86]. Isso nos leva a pensar que a relação entre as duas lojas é mais complexa do que se acreditava anteriormente, provavelmente devido ao papel do Duque de Wharton como Grão-Mestre da Loja Queen’s Arms. No entanto, a lista da loja mostra os membros no início da década de 1720, e foi copiado no livro “E” nessa época. O nome do mestre William Esquire parece, à primeira vista, um erro de redação, porém, possivelmente, se trata de um William Esquire que batizou sua filha Ann em St. Botolph Aldgate em 1710[87]. Nesse caso, ele é o primeiro mestre da Loja da Antiguidade.

Visto que a lista de membros da Loja Antiguidade contida no livro “E” data do início dos anos 1720, pode-se presumir que o relato da nomeação do duque de Montagu, escrito pela mesma pessoa, foi elaborado não muito depois de 1721 e portanto, pode ser considerada uma fonte contemporânea. Esta ata amplia consideravelmente a lista de nobres e senhores ilustres que compareceram ao evento. Concorda com a menção de Stukeley sobre a presença de Lord Herbert e Sir Andrew Fountaine, bem como Lord Hinchingbrooke[88], que mais tarde visitaria Stukeley na Loja Fountain. Também nos diz que Lord Hillsborough, um amigo próximo do Duque de Wharton[89], esteve presente. A ata não diz explicitamente que Lord Stanhope esteve presente, mas a entrada “P. Stanhope” pode se referir a ele. O William Stanhope, que aparece, é possivelmente o irmão mais novo de Lord Stanhope. No texto um bom número de baronetes e cavaleiros também são mencionados, como Sir William Leman, terceiro Baronete, Sir George Oxenden, quinto Baronete, parlamentar do Partido whig por Sandwich[90]; Sir Robert Rich, quarto baronete, que na época era parlamentar por Dunwich e apoiador de Walpole[91], Sackville Tufton, mais tarde sétimo Conde de Thanet e Coronel John Cope, parlamentar por Queenborough e também apoiador de Walpole[92]. A ata também menciona Christopher Wren Jr., que mais tarde se tornaria mestre da loja Antiguidade, bem como membros das lojas Goose and Gridiron e Queen’s Arms, incluindo Richard Boult, Charles Hedges e William Western, membro da Royal Society.

O documento da Loja Antiguidade mostra-nos que, entre os presentes na iniciação de Montagu estavam representantes da mais alta classe da sociedade. O mais surpreendente é a notícia de que o duque de Wharton também compareceu. Isso não era inerentemente improvável, mas, uma reportagem na imprensa, publicada em 5 de agosto de 1721, afirmava que Wharton começou na Maçonaria na Loja na taverna Queen’s Arms apenas no final de julho do mesmo ano[93]. Isso nos leva a questionar a sequência exata dos eventos sobre a iniciação de Wharton, embora não desacredite o relato da Loja Antiguidade[94]. A reunião é descrita como “uma assembleia geral de um grande número de maçons”, a ata declara que o duque de Montagu foi eleito Grão-Mestre, e jurou sobre a bíblia, “observar e manter inviolável no futuro, todas as franquias e liberdades dos maçons da Inglaterra e todos arquivos da antiguidade sob a custódia da antiga loja de São Paulo em Londres”.

Embora esse ata fosse claramente destinada a reforçar as reivindicações da loja, estas estavam baseadas na posse dos arquivos das Old Charges. Neste contexto, quando Payne apresentou um documento muitos mais velho realmente complicou a coisa toda. Isso adicionou importância à segunda parte do juramento de Montagu: “Firmemente observar e nunca permitir qualquer interferência nos Landmarks das antigas lojas da Inglaterra, o que da mesma forma será feito por seus sucessores, que estarão obrigados por juramento a fazer o mesmo”.

Em reciprocidade, as antigas lojas concordaram em renunciar aos seus privilégios em favor deste novo órgão, que era a Grande Loja:

Neste dia, os maçons de Londres, em seu próprio nome e em nome do restante de seus irmãos da Inglaterra, concedem seus reservados e distintos direitos e poderes de reunir-se em capítulos, etc., presentes nas antigas lojas de Londres, em favor do que hoje foi publicamente reconhecido e notificado aos irmãos reunidos na Grande Loja.
Os senhores das antigas lojas aceitaram e confiaram em nome de suas lojas e tudo foi juramentado de forma pertinente

Assim, a descrição contemporânea mais completa e detalhada mostra-nos que a nomeação do Duque de Montagu e o ato de transferência dos privilégios das antigas lojas de Londres para o Grão-Mestre e a nova Grande Loja foi realizada, não na Loja da taverna Goose and Gridiron em 1717, mas na reunião no Stationers ‘Hall em 1721.

Este relato é convincente não apenas porque é mais contemporâneo do que o de Anderson, mas também porque está de acordo com o histórico de Stukeley e as evidências encontradas nos jornais. Aparentemente, foi George Payne, com a ajuda de Desaguliers e talvez do próprio Stukeley, que concebeu um esquema para levar a Maçonaria a um novo nível social e cultural nos meses anteriores, além conseguir levar para suas fileiras personagens ilustres como o duque de Montagu e talvez também o duque de Wharton. Payne foi, sem dúvida, quem orquestrou toda a operação, preparou o regulamento da nova organização e talvez tenha sido nomeado Grão-Mestre durante esse processo. Mas o significado das atas da Loja Antiguidade é muito claro: a Grande Loja não foi fundada na taverna Goose and Gridiron em 24 de junho de 1717, mas sim quatro anos depois, quando as lojas de Londres fizeram a transferência formal de seus privilégios para o nova organização, em 24 de junho de 1721 no Stationers ‘Hall. Portanto, a contagem de Anderson do que aconteceu entre 1717 e 1721 deveria ser desconsiderada.

Continua…

Autores: Andrew Prescot e Susan Mitchell Sommers
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: REHMLAC

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Notas

[80] – W. H. Rylands y C. Firebrace, Records of the Lodge Original, No. 1, now the Lodge of Antiquity, No. 2 (Londres: Harrison, 1911-26), vol. I, 1-14; Colin Dyer, William Preston and his Work (Shepperton: Lewis Masonic, 1987), 67

[81] -Por ejemplo, en el Applebee’s Weekly Journal del 6 de agosto de 1720. Véase Francis Doherty, A Study in Eighteenth-Century Advertising Methods: The Anodyne Necklace (Lampeter: Edwin Mellen Press, 1992), 349-50.

[82] – London Daily Post and General Advertiser, 11 de junio de 1741

[83] – Evening Post, 9-11 de julio de 1719. Jonathan Sisson fue un fabricante de instrumentos para astronomía, navegación e ingeniería, inventó el teodolito moderno (N. Del T.).

[84] – W. Wonnacott, ‘The Lodge at the Goose and Gridiron’, AQC 25 (1912), 168.

[85] – Sobre Waldegrave, véase Berman, Foundations, 148-150; sobre Hotham, véase E. Cruickshanks e I. McGrath, “Hotham, Sir Charles, 4th Bt”, en The History of Parliament: the House of Commons 1690-1715, eds. Eveline Cruickshanks, Stuart Handley y D. W. Hayton (Londres: History of Parliament Trust, 2002 [citado el 2 de agosto de 2016]): disponible en http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1690- 1715/member/hotham-sir-charles-1663-1723

[86] –La logia en Queen’s Arms fue famosa posteriormente por el patronazgo del Dr. Johnson, de Boswell y de Garrick. En la década de 1720 también se le conocía como King’s Arms, pero por cuestiones de consistencia aquí usaremos el nombre más usual y conocido de Queen’s Arms.

[87] – “England Births and Christenings, 1538-1975”. Genealogical Society of Utah, Salt Lake City, FHL microfilm 370933.

[88] – Sobre Hinchingbroke, véase E. Cruickshanks y S. Handley, “Montagu, Edward Richard, Visct. Hinchingbrooke”, en The History of Parliament [citado el 5 de mayo de 2017]: disponible en http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1690-1715/member/montagu-edward-richard-1692-1722; Berman, Foundations, 135.

[89] – Berman, Foundations, 143.

[90] – R. Sedgwick, “Oxenden, Sir George, 5th Bt”, en The History of Parliament [citado el 5 de mayo de 2017]: disponible en http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1715-1754/member/oxenden-sirgeorge-1694-1775

[91] – S. Matthews, “Rich, Sir Robert, 4th Bt”, en The History of Parliament [citado el 5 de mayo de 2017]: disponible en http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1715-1754/member/rich-sir-robert-1685-1768; Sommers, “Dunwich: the Acquisition and Maintenance of a Borough”, en Proceedings of the Suffolk Institute of Archaeology and History 38 (1995): 317-318; Berman, Foundations, 127-128.

[92] – A. Newman, “Cope, John”, en The History of Parliament [citado el 5 de mayo de 2017]: disponible en
http://www.historyofparliamentonline.org/volume/1715-1754/member/cope-john-1690-1760

[93] – Robbins, “Earliest Years”, 68.

[94] – Wonnacott, “Goose and Gridiron”, 171. Es probable que no haya habido rituales durante la cena del 24 de junio de 1721, por lo que tal vez ni Wharton ni nadie más haya sido iniciado en esa fecha

Em busca da Apple Tree: uma revisão dos primeiros anos da maçonaria inglesa (Parte II)

18th century history: What was life like in the 18th century? - Who Do You  Think You Are Magazine

Existem muitas contradições no relato feito por Anderson dos primeiros anos da Grande Loja. Por exemplo, ele afirma que o primeiro ato de Sayer como Grão-Mestre deveria reavivar as comunicações trimestrais, mas relata apenas os banquetes anuais que aconteciam na Goose e Gridiron. A primeira comunicação trimestral a que se refere Anderson foi realizada em 25 de março de 1721[50]. Conforme Begemann apontou, era muito difícil para uma reunião trimestral ser realizada em 25 de março, Dia da Anunciação no calendário cristão, quando as pessoas estavam ocupadas com pagamento de aluguéis e renovação de contratos[51], visto que, de acordo com os registros, é evidente que a Grande Loja evitou se reunir naquele dia[52]. Aparentemente, Anderson inventou esta comunicação trimestral para dar a certeza de que o duque de Montagu havia sido nomeado Grão-Mestre em todos os sentidos. Existe um problema semelhante com a comunicação trimestral de março de 1722, durante a qual, supostamente, um comitê da Grande Loja aprovou o texto das Constituições a serem publicadas em 1723. Há outros pontos onde Anderson claramente inventou detalhes para complementar sua narrativa. Seu relatório do aumento no número de lojas entre 1721 e 1722 (12 lojas em junho de 1721, 16 de setembro do mesmo ano e 20 de dezembro de 1721 e 24 de março de 1722) é suspeitamente regular em sua progressão aritmética, e não corresponde ao que sabemos de outras fontes[53].

O epítome das dificuldades narrativas de Anderson é a Apple Tree Tavern, que é o exemplo mais notório de seu problema com datas. A Apple Tree existia em 1738, e os arquivos de licença nos mostram que o dono desta taverna era James Douglas, que a comprou em 1729[54]. No entanto, apesar de se conhecer centenas de nomes de tabernas na Londres de 1716 (muitas delas com variantes do nome “Apple Tree”), não há referência à Apple Tree da Charles Street. Aparentemente, este nome foi dado por Douglas quando ele tomou posse da propriedade em 1729. Como W. J. Williams aponta, os livros de registro mostram que a Apple Tree ficava no lado leste da Charles Street, na esquina da York Street. Este local atualmente corresponde ao número 28 da Wellington Street, esquina com a Tavistock Street, e é ocupado por um restaurante da rede “Bella Italia”. Os proprietários anteriores deste estabelecimento foram Robert McClure – de 1713 a 1719 – e Thomas Taylor – entre 1719 e 1729[56]. As licenças, tanto de McClure quanto de Taylor, eram para trabalhar como estalajadeiros, mas não há evidências de que usaram o nome “Apple Tree“. Nossa discussão durante a última cátedra de Edward A. Sankey, na Universidade de Brock, era que em 1716 este lugar não era uma taberna, mas uma mercearia chamada The Golden Anchor, de propriedade de Simon Mayow[57]. Mas uma revisão posterior dos arquivos mostrou que a The Golden Anchor não estava no lugar que mais tarde foi ocupado pela Apple Tree, mas sim no lado sul da York Street. No entanto, a busca pela Apple Tree ilustra como a narrativa de Anderson é confusa devido a suas invenções e suas atualizações de nomes de pessoas e lugares, no que meias-verdades são intercaladas com fatos inventados de propósito. Apesar de que alguns nomes de taberna passaram de uma geração de proprietários para outra –você ainda pode tomar uma bebida hoje no The Coach and Horses, cujo nome data de 1736–, o nome Apple Tree parece ter sido exclusivo de James Douglas, uma vez que desapareceu após sua morte em 1753[58].

Anderson distorceu e inventou sua narrativa porque a Grande Loja pediu a ele. Na edição de 1723 das Constituições, Anderson tenta mostrar que a origem da Maçonaria pode ser rastreada desde o início dos tempos, mas é muito vaga em sua história sobre a sucessão de Grão-Mestres desde a Antiguidade. Em 31 de março 1735, a Grande Loja aprovou uma moção expressando “o desejo de que o Dr. James Anderson imprima os nomes (em seu novo livro de Constituições) de todos os Grão-Mestres que se possa encontrar desde o início dos tempos, bem como um lista com os nomes de todos os Grão-Mestres substitutos, dos Grandes Vigilantes e dos irmãos que serviram à ordem como Expertos”. Anderson recebeu essas instruções para que, no futuro, todos os oficiais da loja fossem selecionados a partir dessas listas. Esta medida foi pensada para marcar o exclusividade social do grupo e para evitar que qualquer funcionário se torne necessitado a ponto de solicitar assistência de caridade da loja, como aconteceu com Sayer e Joshua Timson, o sapateiro e ferreiro falido que era Vigilante ao mesmo tempo que Anderson[60]. Da mesma forma, a Grande Loja estava, sem dúvida, ciente dos planos que se elaboravam para se estabelecer uma Grande Loja na Escócia e, portanto, devia se apressar para estabelecer sua primazia.

Outra consideração que levou Anderson a enfatizar as continuidades na história da Grande Loja, foi a maneira pela qual esta organização se inclinou para a oposição “patriótica” ao governo de Walpole, oposição esta que se dava em torno do figura de Frederick Louis, o Príncipe de Gales[61]. Esta tendência foi impulsionada por Desaguliers, a quem o príncipe concedeu um espaço no Palácio de Kew para configurar seu equipamento de laboratório[62]. A dedicação e apresentação da edição de 1738 das Constituições ao Príncipe de Gales, foram sinais inequívocos de apoio em uma época em que o herdeiro do trono havia caído nas graças de seu pai e era visto pela oposição como a última esperança para restaurar a ordem que havia sido perdida devido à corrupção de Walpole[63]. Influenciado pelo livro Remarks on the History of England, escrito por Henry St John Bolingbroke em 1730, a oposição “patriótica” destacava a importância “do sentido de continuidade e orgulho que representam ser britânico”, bem como a consciência das tradicionais liberdade e independência britânicas[64]. A história da Maçonaria escrita por Anderson tinha como objetivo mostrar que a organização estava profundamente enraizada na tradição inglesa, porém revitalizada pela casa de Hannover.

Se não fosse pelo testemunho tardio e suspeito de Anderson e a lista de oficiais nos livros de atas, poderia se pensar que a Grande Loja foi fundada em 1721. Não existem referências contemporâneas à Grande Loja entre 1717 e 1721: nem um única nota publicada na imprensa, nem um único panfleto antimaçônico, nem uma menção em nenhum jornal privado, nem uma única peça satírica[65]. Parece que, na Inglaterra, a Maçonaria entrou abruptamente em cena em 1721. Duas outras fontes nos oferecem uma explicação bem simples: a Grande Loja foi fundada na verdade em 1721. Essas fontes são os escritos do médico, antiquário e filósofo natural William Stukeley e um livro nos arquivos da Lodge of Antiquity. Ambos são contemporâneos e mais confiáveis ​​do que as fontes consultadas na pesquisa de Anderson. A história de que Sayer, Lamball e outros tinham sido oficiais da loja antes de 1721 foi inventado por eles mesmos, com o intuito de obter dinheiro do fundo de caridade da Grande Loja. Se ela concordou com o pedido dos três, foi para reforçar seus direitos sobre as outras lojas e para demonstrar sua própria antiguidade.

Stukeley foi um dos fundadores da Sociedade de Antiquários e é lembrado por suas investigações arqueológicas em Avebury e em Stonehenge. Registrou em seu diário que, em 6 de janeiro de 1721, se iniciou “Maçom na taverna Salutation, da Tavistock Street, junto com o Sr. Collins e o Capitão Rowe, que fez a famosa máquina de mergulho”[66]. A Salutation era uma taberna bem conhecida na Bairro de Covent Garden, virando a esquina da Apple Tree, que se estabeleceu em 1709 e sobreviveu até 1881[67].

Não sabemos quem era o Sr. Collins, mas Jacob Rowe era um capitão do mar e empresário de Devon, que patenteou uma máquina de mergulho[68]. Porém, o mais surpreendente na história da iniciação de Stukeley, ele deixou registrado em seu diário[69]: “Fui a primeira pessoa que se iniciou na Maçonaria em Londres desde muitos anos. Tivemos muita dificuldade em encontrar membros suficientes para realizar a cerimônia. Imediatamente depois disso, houve um grande impulso e todos estavam loucos para serem membros”[70]. Por volta de 1750, enquanto preparava um resumo de sua vida, Stukeley novamente enfatizou a falta de Maçons em Londres em 1721: “Sua curiosidade o levou a ser iniciado nos mistérios dos maçons, imaginando que seriam uma continuação dos mistérios dos antigos, mas era difícil encontrá-los em número suficiente em Londres. Depois disso, eles se tornaram uma moda pública, que não só se espalhou pela Inglaterra e Irlanda, mas também por toda a Europa”[71].

É impossível amarrar o relato de Stukeley, sobre a falta de maçons para realizar sua iniciação, com a narrativa de Anderson, que afirma que o número de lojas cresceu rapidamente[72]. A Salutation Tavern, onde Stukeley foi iniciado, estava a alguns passos do ponto na Charles Street onde a Apple Tree mais tarde seria alojada. É surpreendente a dificuldade para encontrar maçons se é que, de fato, uma Loja se reuniu lá. Para Stukeley, o verdadeiro gatilho para o crescimento da Maçonaria foi a nomeação do Duque de Montagu como Grão-Mestre em Stationer’s Hall, em junho de 1721. Ao contrário de Anderson, Stukeley compareceu a este evento e o descreveu assim:

Os maçons jantaram no Stationer’s Hall, estavam presente o duque de Montagu, Lord Herbert, Lord Stanhope, Sir Andrew Fountaine e outros. O dr. Desaguliers fez um discurso. O Grão-Mestre Sr. Payne mostrou um antigo manuscrito das Constituições, que ele obteve no oeste da Inglaterra e que tem 500 anos. Ele leu para nós um novo grupo de artigos que deveriam ser observados. O duque de Montagu foi eleito Grão-Mestre para o ano seguinte, e o Dr. Beal como substituto.[73]

Embora o relato de Stukeley seja muito mais sucinto do que a elaborada história de Anderson, nos fornece detalhes importantes. Em primeiro lugar, ele nos revela que, além da presença de Lord Stanhope – o futuro quarto conde de Chesterfield – também havia Lord Herbert – 9º Conde de Pembroke – que era arquiteto e mecenas, grande promotor do Palladianismo, e o intelectual Sir Andrew Fountaine, responsável pelas coleções de Lord Herbert e outro eminente promotor do Arquitetura Palladiana[74]. Em segundo lugar, Stukeley relata que George Payne apresentou um manuscrito com as “Old Charges“. Nós sabemos que era o manuscrito Cooke[75] graças ao desenho de Stukeley e porque o dito manuscrito estava sob a tutela da Grande Loja em seus primeiros anos, durante os quais William Reid fez duas transcrições do documento[76]. A descoberta do manuscrito Cooke, que talvez fosse considerado um compêndio de “mistérios dos antigos”, fez com que Anderson ficasse encarregado de resgatar as tradições e salvá-las dos “graves erros encontrados na história e na cronologia” ocorridos devido à “ignorância de escribas nas idades escuras e iletradas, antes do renascimento da geometria e da arquitetura antiga”[77].

Stukeley afirma que George Payne era o Grão-Mestre quando o duque de Montagu foi eleito, mas é surpreendente que nem mesmo um homem de ciência, tão bem socialmente conectado, nem mesmo a loja da Salutation Tavern não soubessem nada sobre Payne seis meses antes. Payne fora nomeado Grão-Mestre já em 1721? De igual forma, as reportagens dos jornais nos dizem que entre duzentos e trezentos maçons participaram do banquete no Stationers’ Hall, o que é uma mudança radical em relação a janeiro do mesmo ano. Aparentemente, durante a primeira metade de 1721, a Maçonaria realmente tomou um “grande impulso” e Stukeley teve a ver com isso. Em dezembro de 1721, Stukeley estava envolvido na fundação de uma loja na Fountain Tavern em The Strand, da qual foram membros Dr. Beal, Grão-Mestre substituto da Grande Loja, e o próprio Stukeley foi eleitoGrão-Mestre[78]. Ele nos diz que, em 1722, esta loja recebeu inúmeras pessoas famosas, como o Duque de Queensberry, o Duque de Wharton, Lord Hinchingbrooke, Lord Dumbarton e Lord Dalkeith[79]. O prestígio social deste Loja também foi registrado nas reportagens sobre a Maçonaria na imprensa da época.

A impressão que Stukeley nos passa da repentina aparição em cena da Grande Loja, em 1721, é corroborada por outra fonte que, apesar de não ser muito conhecida, fornece um relato crucial para a história da criação da Grande Loja. Se trata de uma cópia contemporânea de uma ata descrevendo a reunião, em 24 de junho de 1721, que se encontra nos arquivos da Antiquity Lodge nº 2, a mesma loja que se reunia na cervejaria Goose and Gridiron. Estes arquivos não foram suficientemente estudados, e aproveitamos a oportunidade para agradecer ao Venerável Mestre, Secretário e membros da Antiquity Lodge nº 2 que têm nos permitido, com todas as facilidades possíveis, examinar este manuscrito e tirar fotos dele.

Continua…

Autores: Andrew Prescot e Susan Mitchell Sommers
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: REHMLAC

*Clique AQUI para ler a primeira parte do artigo.

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Notas

[51] – El día de la anunciación, “Lady Day” en inglés, fue hasta 1752 (cuando el gobierno británico adoptó el calendario gregoriano) el primer día del año. Los contratos de arrendamiento de la época tenían vigencia de un año, e iban del “Lady Day” de un año al del siguiente (N. del T.)

[52] – Begemann, Early History, 609.

[53] – Begemann, Early History, 610.

[54] – La primera referencia de la Apple Tree en los registros de licencias de Westminster data de 1729, cuando le fue otorgada a James Douglas: London Metropolitan Archives, WR/LV/1/19. En otra publicación se hace la primera mención de Douglas como licenciatario de la taberna Apple Tree en 1736, véase Westminster City Archives Research Group, One on Every Corner: the History of Some Westminster Pubs (Londres: Westminster City Archives, 2002), 64. Este fue el año en que Douglas tomó posesión de su propiedad según consta en los Westminster City Archives, St. Paul Covent Garden Rate Books.

[55] – W. J. Williams, “A Masonic Pilgrimage through London”, AQC 42 (1930): 105-106.

[56] – Al parecer, James Douglas era yerno de Taylor. Thomas Taylor bautizó a su hija Mary en St. Paul Covent Garden en 1708. James Douglas se casó con Mary Taylor (aunque no sabemos si en realidad era la hija de Thomas) en 1728, justo cuando Thomas Taylor cedió la propiedad del local en Charles Street. Douglas bautizó cuatro hijos en St. Paul Covent Garden entre 1729 y 1733. Thomas Taylor reaparece en los registros como licenciatario de una propiedad en la cercana Brydges Street, también en Covent Garden, en 1729: London Metropolitan Archives, WR/LV/1/19.

[57] – The Golden Anchor se menciona en espacios publicitarios en el Daily Courant, del 16 de enero de 1718, en el Original Weekly Journal, del 1 de marzo de 1718, y nuevamente en el Daily Courant, del 22 de noviembre de 1722.

[58] – La última referencia de la Apple Tree que quedó registrada fue en 1751: London Metropolitan Archives, WR/LV/1/24. A partir de este punto, el nombre de Douglas se reemplazó por el de John Lemman. Un James Douglas fue enterrado en St. James Piccadilly en 1753: “England, Middlesex, Westminster, Parish Registers, 1538-1912”. City of Westminster Archives Centre, Londres, FHL microfilm 1042313.

[59] – QCA 10, 251.

[60] – St. Clement Danes, Pauper Settlements, Vagrancy and Bastardy Examinations, 13 de noviembre de 1742, ref. WCCDEP358180037-38; QCA 10, 123, 130, 134.

[61] -Berman, Foundations, 174-175.

[62] -Carpenter, Desaguliers, 45-46.

[63] – La presentación del libro ante el príncipe se consignó en los anuncios publicitarios de la obra, por ejemplo, en el London Daily Post and General Advertiser del 3 de noviembre de 1739 y en el Country Journal or The Craftsman del 24 de noviembre de 1739.

[64] – Andrew Pink, “Robin Hood and her Merry Women: Modern Masons in an Early Eighteenth-century London Pleasure Garden”, Journal of Research into Freemasonry and Fraternalism 4 (2013): 203-206; Christine Garrard, The Patriot Opposition to Walpole: Politics, Poetry, and National Myth (Oxford: Clarendon Press, 1994).

[65] – Dada la falta de evidencia sobre la existencia de la Gran Logia en 1721, es importante ser cuidadosos en la datación de los documentos. Por ejemplo, el reporte de una reunión masónica en Pontefract, publicado en el Leeds Mercury y citado por Berman en su obra Foundations, está basada en la calendarización “Old Style” (véase la nota 59), por lo tanto, la fecha correcta debería ser el 16 de enero de G. D. Lumb, “Extracts from the Leeds Mercury 1721-1729”, Thoresby Society 22 (1915), 187-188. De igual forma, el English Short Title Catalogue data la obra teatral satírica Love’s Last Shift or Mason Disappointed como de 1720, pero en realidad fue anunciada en el Stamford Mercury del 6 de junio de 1723 como una obra nueva.

[66] – Bodleian Library, MS Eng. misc. c.533: f. 34v; W. C. Lukis, ed., The Family Memoirs of the Rev. William Stukeley, M. D. (Surtees Society, 1880), vol. I, 62; David Boyd Haycock, William Stukeley: Science, Religion and Archaeology in Eighteenth-Century England (Woodbridge: Boydell Press, 2002), Una inspección del manuscrito revela que fue redactado por Stukeley en la fecha de los eventos.

[67] – “Southampton Street and Tavistock Street Area: Tavistock Street”, en Survey of London: Volume 36, Covent Garden, 218-222. La taberna Salutation se convirtió en uno de los refugios favoritos del príncipe regente. W. Earle, Sheridan and his Times (Londres: J. F. Hope, 1859), vol. 1, 299-311. Esta taberna no tenía relación alguna con la masonería, a excepción de lo que relata Stukeley sobre su iniciación, y no debe confundirse con la cafetería que estaba sobre la misma calle y que era propiedad del masón Richard Leveridge, error cometido por J. Timbs en su libro Clubs and Club Life in London (Londres: John Graham Hotten, 1872), 434-435, y repetido por E. Beresford Chancellor en The Annals of Covent Garden and its Neighbourhood (Londres: Hutchinson, 1930) 154.

[68] – Peter Earle, Treasure Hunt: Shipwreck, Diving and the Quest for Treasure in an Age of Heroes (Londres: Methuen, 2007).

[69] – Este es un concepto muy de habla inglesa, que no tiene una traducción directa al español. Se trataba de un cuaderno en el que las personas copiaban fragmentos de obras que hallaban interesantes, apuntaban datos diversos o ideas que venían a su mente o que escuchaban de alguien más. No era precisamente un diario. Podría pensarse más en un “cajón de sastre” o en “cuadernos de todo”, como llamó a los suyos la escritora Carmen Martín (N. del T.).

[70] – Bodleian Library, MS Eng. misc. e.260: f. 88; Family Memoirs, vol. I, 122; Haycock, 175.

[71] – Family Memoirs, vol. I, 51.

[72] – Book of Constitutions, 1738, 111.

[73] – Bodleian Library, MS Eng. misc. c.533, f. 35; Family Memoirs, vol. I, p. 64; D. Knoop, G. P. Jones y D. Hamer, The Two Earliest Masonic Manuscripts (Manchester: Manchester University Press, 1938), 55. Otra referencia que hace Stukeley a la cena del 24 de junio de 1721, que había pasado desapercibida previamente, se encuentra en la Bodleian Library, MS Eng misc e. 121: f. 30: “[1721] Junio 24. Cena con el D. Montagu y etcétera en la fiesta de los Masones en Stationers Hall”.

[74] – Véase T. P. Connor, “Herbert, Henry, ninth earl of Pembroke and sixth earl of Montgomery (c.1689–1750)” y Andrew W. Moore, “Fountaine, Sir Andrew (1676–1753)”, en Oxford Dictionary, nos. índ. 101013033 y 101009994 Berman, Foundations, 105,125,135,179.

[75] – Manuscrito fechado hacia el 1450 que mezcla un elogio de la geometría con fragmentos del antiguo testamento para hacer un relato de los orígenes de la masonería operativa. Una transcripción en inglés moderno se puede consultar en http://freemasonry.bcy.ca/texts/cooke.html (N. del T.).

[76] – Knoop, Jones y Hamer, Masonic Manuscripts, 55-57; G. P. Speth, “The Stukeley-Payne-Cooke MS”, AQC 4 (1891), 69-70; Family Memoirs, vol. I, no. 18, 64. El dibujo de Stukeley se supone que está junto con sus demás papeles en la Bodleian Library, pero hasta ahora no ha sido localizado.

[77] – Book of Constitutions, 1723, 73.

[78] – Bodleian Library, MS Eng. misc. c.533, f. 36; Family Memoirs, I, 66.

[79] – Bodleian Library, MS Eng. misc. c.533, f. 36v.

Investigando a visita de Desaguliers a Loja Mary’s Chapel Nº1

Mary's Chapel - a loja maçónica mais antiga do mundo - Freemason.pt

Considerado o Pai da Maçonaria Especulativa Moderna, um dos fundadores e terceiro Grão-Mestre da Grande Loja de Londres, John Theophilus Desaguliers, fez uma viagem a Edimburgo em 1721, onde foi recebido como irmão em uma loja Escocesa. Desde então, rios de tinta foram utilizados para tentar explicar as razões para tal visita.

1 – Desaguliers foi um cientista e engenheiro. Ele foi contratado para inspecionar e melhorar o sistema de abastecimento de água de Edimburgo. A viagem foi apenas para isso?

2 – Ele foi recebido na Loja Mary´s Chapel e aceito como um irmão Maçom. Então, a Maçonaria Inglesa e a Escocesa compartilhavam as formas de reconhecimento?

3 – Ele participou da incorporação de funcionários do governo da cidade que o havia contratado. Foi por causa de sua influência?

4 – O terceiro grau, de mestre maçom, ainda não existia ou era uma criação recente. Ele viajou para a Escócia afim de promovê-lo?

Todas estas questões ainda não foram esclarecidas, mas vamos analisar as informações que temos conhecimento.

A situação na Escócia no início do século 18

Antes de falarmos sobre o dia 24 de agosto de 1721, vamos entender como estava a Escócia naquele momento.

Habitada por cerca de um milhão de habitantes contra 5 milhões da Inglaterra, seu rendimento nacional era da ordem de 1/38 da Inglaterra, com uma população predominantemente rural. Edimburgo, a maior cidade da Escócia tinha cerca de 30 mil habitantes, que era o nível de muitas cidades do interior da Inglaterra. Glasgow, a segunda maior cidade do país, não tinha mais do que 15 mil habitantes e Aberdeen, Dundee, Perth e St. Andrews eram apenas aldeias de 4 a 5 mil habitantes.

A situação econômica da Escócia era catastrófica. Os anos de 1692 a 1699, chamados de “os sete anos malditos do Rei Guillermo”, foram dramáticos:

Os invernos rigorosos se sucediam com muita chuva e dando lugar a fome.

“…Pode se ver homens e mulheres caírem de fome ao longo de estradas e caminhos, crianças que morrem por esgotamento do leite de suas mães. A morte está presente, principalmente entre os pobres (…)”

A higiene era deplorável. Somente uma rua de Edimburgo era pavimentada e epidemias não paravam de castigar a população.

Consequência imediata desta fome foi a imigração para os Estados Unidos, a maior influência sobre a demografia. Estima-se em 100 mil o número total de escoceses expatriados no curso do século 17.

As importações oriundas da Inglaterra eram quase inexistentes. E os escoceses não tinham acesso aos mercados administrados por colônias inglesas. Esse bloqueio, se não o isolamento, os incentivou a embarcar na aventura da colonização.

William Patterson, nascido em 1658, era rico. Ele fez uma fortuna na América e na Índia. Voltou para a Escócia e anunciou um projeto de colonização no Istmo de Darien, o que corresponde hoje ao Panamá.

A ideia do projeto era fazer comércio terrestre entre mercados marítimos do Atlântico e do Pacífico. Ele criou em Edimburgo a “Company of Scotland Trading to Africa and the Indies” (Companhia de Comércio Escocês para a África e as Índias) e vendo isso como uma tentativa de competir com a Companhia das Índias Orientais (East India Company), os escoceses o financiaram, afim de forçar os holandeses a se retirarem.

Patterson criou tanto entusiasmo, que milhares de escoceses participaram para financiar o projeto, somando um total de 400.000 libras, que era estimativamente, a metade do capital nacional da Escócia. Então, em 12 de julho de 1698, cerca de 1.200 voluntários deixaram o porto.

Em 02 de novembro de 1698, desembarcaram em um lugar que eles batizaram como Nova Caledônia. Mas eles não encontraram nada mais do que uma terra inóspita, formada principalmente de pântanos e terra estéril. Ao mesmo tempo, um segundo contingente de cerca de 1.300 colonos partia da Escócia. Sob pressão dos espanhóis, os colonos decidiram deixar o Istmo de Darien. Dos 16 navios que partiram, só restava 1. Mais de 2000 escoceses morreram na aventura e muitos mais foram arruinados.

Assim, nesta situação econômica, demográfica e social, catastrófica, o Parlamento ratificou em 16 de janeiro de 1701, o Ato de União com a Inglaterra por 110 votos a 69.

Este ato estava longe de contar com a unanimidade. Robert Burns disse sobre os deputados escoceses:

“Eles são comprados e vendidos em ouro Inglês”.

A população começou a promover tumultos e protestos, por uma maioria que estava contra a união, “contra a natureza”, depois de tantos anos.

E nesse clima tenso (como sempre), novamente entre a Inglaterra e a Escócia, é que a viagem de John Theophilus Desaguliers acontece.

Não sabemos quase nada da Grande Loja de Londres em 1721, e se deve principalmente à queima dos arquivos em 1722. De 1717 a 1722, portanto, não existem arquivos ou certezas.

Sabe-se que deste tempo, James Anderson reescreveu, a partir de sua memória, as atas dos primeiros cinco anos da Grande Loja de Londres. Mas podemos atribuir crédito?

James Anderson diz, por exemplo, que na formação de 1717, Anthony Sayer foi eleito, afim de esperar por um nobre para ocupar este cargo.

Foi real o que ele disse e decidiu ou apenas um elogio para o Duque de Montagu, eleito em 1721 ou para o Duque de Wharton em 1722?

Em 1722, John Theophilus Desaguliers deixou seu cargo de Grão-Mestre. E foi Grão-Mestre Adjunto em 1723. Qual foi o seu papel, a sua ação dentro da Grande Loja?

Sabemos que ele encomendou a James Anderson, cuja principal ocupação era criar genealogias, escrever a história do ofício.

Sabemos também que muitas personalidades, notáveis do mundo científico e da aristocracia, entraram na Maçonaria neste período.

Devemos lembrar que das quatro lojas que compuseram a Grande Loja de Londres, presume-se que três foram criadas para a ocasião. Em 1722 já haviam 24 lojas, demonstrando o crescimento significativo da Grande Loja em suas origens.

É atribuído a John Theophilus Desaguliers um papel muito importante no recrutamento desta época e, em especial, o Duque de Montagu. É verdade que Desaguliers tinha muitas relações com pessoas importantes.

É evidente que, quando não estava ocupando um posto importante na Grande Loja, Desaguliers continuava bem ativo.

A situação da loja Mary’s Chapel

A situação da loja Mary’s Chapel era muito diferente. Em primeiro lugar ela enfrentava uma nova “concorrência”.

Vamos ler o que Stevenson disse:

“… justamente no final do século 17, havia na área urbana uma única loja sob o controle da cidade de Edimburgo, embora os maçons de Canongate pertencessem a outra loja, a de Aitchison Haven.” (Canongate é um distrito de Edimburgo)

Na segunda década do século 18, haviam cerca de quatro lojas na área, duas das três novas, tinham sido fundadas para desafiar a Mary´s Chapel.

Em 1667, os maçons de Canongate, onde a jurisdição da Mary´s Chapel não era aplicável, fundaram a sua própria loja, e em 1688 os maçons de Leith os imitaram. Em 1708, houve um grave conflito dentro da Loja Mary´s Chapel, que levou inúmeros companheiros a saírem da loja e fundarem sua própria organização, que se tornou uma loja separada.

Longe de ser a “Primeira loja” da Escócia, no sentido de exercer alguma autoridade sobre outras lojas no país, como William Schaw tinha planejado um século antes, a Loja de Edimburgo não poderia impor sua vontade ou suas próprias portas!

O outro ponto importante da situação da Loja Mary´s Chapel, é o momento da visita de John Theophilus Desaguliers, sobre o recrutamento dos não operativos.

Entre 1630 e 1674, ele tinha começado lentamente um trabalho com os não operativos que eram iniciados.

E assim, por vinte e cinco anos, cerca de 1700, mas especialmente em 1706, aparecem entre os outros como admitidos, Samuel Mc Clellan (Lorde Maior de Edimburgo) e reitor da Guilda. Em 1710 se vê uma grande admissão de não-operativos, cirurgiões, arquitetos, reitores de guildas, e etc. Dois carpinteiros também foram admitidos em 1711. Entre 1700 e 1710 a Loja Mary´s Chapel claramente transformou a “Aceitação”, fato que antes não havia nenhum interesse.

A estadia em Edimburgo

Nós não conseguimos encontrar qualquer vestígio da partida de Desaguliers de Londres para Edimburgo. No entanto, as “Atas do Conselho da Cidade” de Edimburgo dizem que Desaguliers foi recebido como um burguês da cidade, “Irmão de Guilda” na forma mais ampla e livre, pelo reitor da Guilda de Edimburgo, em 18 de janeiro 1721.

Isto levanta a seguinte questão: John Theophilus Desaguliers voltou a Londres para assistir à instalação do Duque de Montagu em 24 de junho 1721 e voltou para Edimburgo depois?

O que é certo, é que ele foi chamado pela cidade para resolver um problema de canalização de água do aqueduto de Comiston. Um aqueduto com o comprimento de três milhas, que alimentava o reservatório de água por gravidade natural, ligado a cinco fontes situadas na cidade.

Como o fluxo de água parou, Desaguliers se viu com verdadeiro problema: as bolsas de ar que bloqueavam a circulação da água. A história oficial diz que Desaguliers resolveu o problema colocando uma válvula que permitia a evacuação do ar de forma manual e em 1726 criou um tipo de êmbolo que funcionava automaticamente.

24 de agosto de 1721

O que Desaguliers fez durante esse mês em Edimburgo, ninguém sabe. Só que em 24 de agosto de 1721, está escrito na ata da Mary´s Chapel:

“James Wattson, Diácono dos maçons de Edimburgo, presidiu. O dito Dr. John Theophilus Desaguliers, Companheiro da Royal Society e Capelão ordinário da Sua Graça, James Duque de Chandois, o último Mestre Geral das Lojas Maçônicas na Inglaterra, estando na cidade e desejoso de realizar uma reunião com o Diácono, o Vigilante e os Mestres Maçons de Edimburgo, o que lhe foi autorizado e ele se encontrando devidamente qualificado em todos os pontos da Maçonaria, foi recebido como um Irmão da Sociedade”.

Muitas observações vêm à mente com a leitura desta ata. 

O primeiro ponto diz respeito ao título que é dado a John Theophilus Desaguliers. Um Companheiro da Royal Society em primeiro lugar, por isso, o mais prestigioso.

Em seguida, o título que garante sua renda constante: Capelão para o Duque de Chandois. E no final o título de “Último Mestre Geral da Lojas Maçônicas da Inglaterra” (Grão-Mestre dos Maçons) até junho de 1721.

Mas o secretário de Mary´s Chapel não o chamou de Grão-Mestre, mas de Mestre Geral da Lojas Maçônicas da Inglaterra, o que não é o mesmo.

Alguns viram nisso uma vontade escocesa de não vai reconhecer a Grande Loja de Londres e, portanto, como um sinal de desconfiança, pelo menos.

Mas olhando bem, o título dado a John Theophilus Desaguliers foi ainda de mais prestígio, pois conferiu-lhe autoridade sobre todas as lojas maçônicas da Inglaterra.

Podemos propor as seguintes perguntas:

  • De onde veio tal título?
  • É uma certa desconfiança em relação à Grande Loja de Londres?
  • É, pelo contrário, um reconhecimento lisonjeiro por parte dos membros da Mary´s Chapel?
  • Será o título que Desaguliers dava a si mesmo?
  • Ou poderia ser que ele apresentou a Grande Loja de Londres como a organização que reagrupou e tomou autoridade sobre todas as lojas maçônicas inglesas?

O segundo ponto diz respeito a frase “desejoso de realizar uma reunião”.

A frase é clara: Desaguliers pediu para se encontrar com membros da Mary´s Chapel e é de se notar que não estava pedindo para ser admitido na loja. Ele só queria uma reunião. Vamos voltar mais tarde a este assunto.

O terceiro ponto diz respeito à passagem: “ele se encontrando devidamente qualificado em todos os pontos da Maçonaria”. Sabemos que essa expressão é tipicamente escocesa, mas não sabemos a que isso se refere. Em outras palavras, quais são os pontos da Maçonaria? É a Palavra do Maçom? É o conhecimento da abertura e fechamento da loja? É o conhecimento dos rituais de cerimônias de iniciação e passagem para o grau de “Companheiro”?

A expressão contém seus mistérios. De todo modo, ela está presente na ata da Mary´s Chapel.

De fato, a única razão plausível para Desaguliers ter respondido corretamente o telhamento dos membros da Mary´s Chapel, é que os rituais praticados em Edimburgo e em Londres, eram muito semelhantes. Qualquer outra explicação não refletirá a realidade do que aconteceu.

Mesmo atualmente, nossas atas contém expressões tradicionais que não correspondem em absoluto com o que é a realidade.

Um exame mais detalhado da ata da Mary´s Chapel, demonstraria se a expressão era utilizada toda vez que um visitante era telhado.

Quarto e último ponto: “foi recebido como um Irmão da Sociedade”. Essa passagem levou a numerosas interpretações devido à ambiguidade do texto. De fato, como no francês, o verbo “receber” poderia ser usado tanto para indicar a recepção em uma reunião, assim como ser recebido como membro da loja também.

Lembre-se que Desaguliers tinha pedido uma reunião, mas não ser recebido em loja.

A ata da loja relacionada com as suas reuniões oficiais, diz que Desaguliers foi recebido como um irmão.

Stevenson e Murray Lyon consideravam que Desaguliers se tornou um membro da Loja Mary´s Chapel. Pode até ser, mas nenhuma expressão indica este fato. Contudo pode-se pensar que ao ser telhado, ele foi considerado um maçom, e, consequentemente, um irmão, mas não um membro da loja.

Há um elemento que parece dar razão a Stevenson e Murray Lyon. De fato, podemos constatar nas atas posteriores da Mary´s Chapel que os visitantes são chamados assim, mas não os irmãos da loja. Além disso, o telhamento não é mencionado, e parece que, por ocasião da visita do Desaguliers, o que foi feito foi algo extraordinário em todos os sentidos do termo.

O 25 e 28 de agosto de 1721

Continuando a leitura das atas da Mary´s Chapel, com os acontecimentos após o dia 24 de agosto de 1721:

“… no dia 25 deste mês, Diáconos, Vigilante, Mestres e muitos outros membros da Sociedade, reuniram-se com o dito Dr. Desaguliers que estava na Mary´s Chapel, onde um pedido foi apresentado por John Campbell, Lorde Maior de Edimburgo; George Preston e Hugo Hathom, oficiais de justiça; James Nemo, tesoureiro; William Livingston, Reitor Secretário de Negócios; e George Irving, Secretário do Reitor do Tribunal da Guilda; e desejando forte e humildemente serem admitidos para a referida Sociedade; e sendo considerado por eles, nesse sentido, responderam favoravelmente ao seu desejo e essas pessoas honrosas foram admitidas e recebidos Aprendizes Ingressados e Companheiro do Ofício”.

Na ata seguinte, de 28 de agosto 1721, apenas três dias depois:

“Ainda assim, no dia 28 do mesmo mês e por uma reivindicação feita por Sir Duncan Campbell de Loghnell, Barão; Monsieur Robert Wightman, atual Reitor da Guilda de Edimburgo; Monsieur Gorge Drummond, último Tesoureiro da mesma; Archibald Mac Aulay, último Conselheiro municipal e Patrick Lindsay, comerciante; desejando o mesmo favor, que lhes foi aceito e foram recebidos como membros da Sociedade, como as outras pessoas mencionadas. No mesmo dia, James Key e Thomas Aikman, servidores de James Wattson, Diácono dos maçons, foram admitidos e recebidos Aprendizes Ingressados, pagando a James Mack os direitos comuns”.

Vamos analisar este texto. Primeiro de tudo, a presença de John Theophilus Desaguliers não é expressamente atestada assim como em 25 agosto de 1721, durante sua primeira visita.

Embora em 28 de agosto se estipule o que aconteceu assim como em 24 de agosto, isso não inclui a presença de Desaguliers.

A questão de saber o porque ele estava presente no dia 24 de agosto e não no dia 28, me parece conveniente, estudar que eram as pessoas iniciadas naqueles dias.

Nota-se que em 24 de agosto de 1721 foram iniciados o Lorde Maior (prefeito), o Tesoureiro da cidade, 2 Oficiais de justiça, um representante dos comerciantes, todos da cidade. Em suma, os empregadores de John Theophilus Desaguliers em Edimburgo, que haviam lhe encomendado o trabalho e pago por eles.

Então, é bastante natural que Desaguliers estivesse presente nas suas iniciações. Em vez disso, no dia 28 agosto de 1721, eram essencialmente pessoas da Guilda, que foram recebidos. Não se pode dizer que a ausência de John Theophilus Desaguliers tivera sentido em 28 de agosto, no entanto em 24 de agosto, sim, tinha sentido.

Só mais uma observação: dois servidores foram iniciados em 28 de agosto de 1721, o que poderíamos supor que havia um desejo de expansão social dos membros da loja.

No entanto, estes dois servidores não serviam ninguém menos que o Diácono dos maçons, que poderia ser um membro da Loja. Deste modo, uma revisão cuidadosa das atas da Mary´s Chapel, poderia nos dizer algo.

Podemos notar que foram iniciados, mas não se tornaram Companheiros do Ofício e ainda foram os únicos que pagaram por seus direitos. Esse ponto parece revelar um detalhe da sociedade da época.

Pode ser que as personalidades recebidas na Mary´s Chapel, o haviam sido por agradecimento (por exemplo, por ter contratado John Theophilus Desaguliers) ou porque era uma honra para a Loja, ter celebridades. Também pode-se dizer que a cortesia mais elementar, exigia que nunca falassem sobre questões monetárias com pessoas de posição, mas você poderia fazer quando se tratava de servidores.

Seguindo Murray Lyon, vamos conhecer quem foram os 13 personagens iniciados em 25 e 28 de agosto de 1721:

John Campbell, iniciado em 25 de agosto de 1721, foi o Lorde Mayor (Prefeito) de Edimburgo entre 1715 e 1720 e novamente entre 1723 e 1724. Campbell era conhecido por sua ação dentro da cidade, pois permaneceu leal ao governo durante a rebelião de 1715.

Archibald Mac Aulay, iniciado em 28 de agosto de 1721, também foi Lorde Mayor (Prefeito) de Edimburgo entre 1727 e 1749. Mais tarde, ele se tornou Lorde Conservador dos privilégios escoceses em Cámpvere. Lorde Conservador tem a função de gerenciar uma área pública do País, proteger os direitos dos plebeus e conservar a beleza natural da sua área.

Campvere, que antes chamava Veere, é uma cidade dos Países Baixos. Pelo casamento do Lorde de Veere com a filha de James I da Escócia, em 1444, a cidade recebeu como um privilégio, ser a única cidade onde poderiam ser recolhidos produtos escoceses para ser vendidos a outras regiões. Escoceses que viviam em Veere foram sujeitos apenas à lei do “Conservador da nação escocesa”. Tal privilégio foi removido em 1847.

Patrick Lindsay, iniciado em 28 de agosto de 1721, era um comerciante muito conhecido, foi eleito quatro vezes como Prefeito de Edimburgo e representou a cidade no parlamento, entre 1734 a 1741. Foi também governador de Isle of Man, uma ilha localizada entre a Irlanda e a Grã-Bretanha.

Sir Duncan Campbell, iniciado em 28 de agosto de 1721, foi o descendente direto do terceiro Conde de Argyll, mas, sobretudo, um amigo pessoal e conselheiro da rainha Anne. No funeral de seu pai, em 10 de janeiro de 1714, foi uma ocasião de uma manifestação importante, a favor dos Stuarts exilados. Diz-se que este enterro foi realizado na presença de 2.500 homens armados. Sir Duncan Campbell tornou-se capitão de um dos seis regimentos independentes, formados pelo governo em 1729. Esses regimentos foram apelidados de “Os sentinelas negros”. O primeiro coronel dos “Sentinelas Negros” foi John, Conde de Crawford e membro da Loja Mary´s Chapel.

Portanto temos, um nobre, amigo pessoal e conselheiro da rainha Anne, três prefeitos da cidade de Edimburgo, três oficiais de justiça, o tesoureiro da cidade, o Reitor da guilda, o secretário do ex-Reitor e do Reitor do Tribunal da Guilda, o responsável pelos negócios. E todos se tornaram membros da loja Mary´s Chapel em quatro dias.

Difícil fazer melhor, não? E tudo isso durante a visita de John Theophilus Desaguliers; a coincidência é pelo menos motivo de estudo.

Resumo

Tendo visto o contexto geral e estudado da forma mais objetiva possível ata da Loja Mary´s Chapel para os dias 24,25 e 28 de agosto de 1721, é hora de tentar sintetizar o que sabemos ou podemos supor, de tais fatos, e as consequências da visita de Desaguliers a esta Loja Escocesa.

Com os elementos reunidos, que estão em nossa posse, a maioria das suposições são plausíveis e, em todo caso, não se contradizem com os textos da época.

Por exemplo, não sabemos o real propósito da viagem de Desaguliers para Edimburgo. Se era puramente profissional ou puramente maçônico. Se foi para lucro ou prazer. Não sabemos mais nada de sua presença em Edimburgo. De acordo com AQC (Ars Quatuor Coronatorum), ele estava lá, em janeiro de 1721, para uma reunião com o prefeito de Edimburgo. É razoável pensar que era por razões profissionais, para o problema hidráulico, mas parece que durante o verão, ele fez várias visitas a Edimburgo.

Mas será que ele não estava presente na instalação do Duque de Montagu, na Grande Loja de Londres, em 24 de junho?

Será que viajou de volta, mesmo sabendo que levaria quatro ou cinco dias para ir de Londres a Edimburgo?

Que contatos ele fez em Edimburgo, antes de 24 de agosto de 1721?

É difícil imaginar que Desaguliers apareceu na porta da Mary´s Chapel, anunciando que 11 membros eminentes da cidade queriam ser iniciados na Maçonaria. É mais provável que os contatos haviam ocorrido muito antes disso.

É certo que Desaguliers conheceu seus empregadores antes de agosto de 1721. É também provável que ele também manteve contatos anteriores com membros da guilda ou da Loja.

O fato é que Desaguliers pediu uma reunião oficial com membros da Mary´s Chapel. Na verdade, é nesse momento que Desaguliers pediu a James Anderson para reescrever a história do Craft, que os maçons da época não sabiam quase nada, de modo que qualquer informação sobre as origens escocesas era importante. Será que a escolha de Anderson foi porque seu pai tinha sido um membro da Loja Aberdeen, na Escócia?

Alguns historiadores argumentam que John Theophilus Desaguliers veio com rituais puramente ingleses para que as lojas escocesas os adotassem, em um tipo de demonstração, que teria ocorrido em 02 de agosto de 1721.

Esta tese não é de forma unânime e mostra aqui que durante os primeiros três anos, a Maçonaria Escocesa pode ter influenciado a Inglesa, pelo menos no início. O mais provável é que John Theophilus Desaguliers não viajou com o propósito de iniciar personalidades importantes.

Desaguliers tinha conhecimento dos membros importantes do Conselho, os contatos com as cortes aristocráticas poderiam ser de interesse da Loja Mary´s Chapel. Foi sem interesse que Desaguliers apresentou estes candidatos a Loja? Ou era, uma troca de favores?

Outra hipótese da coincidência: Desaguliers iria visitar os membros da Mary´s Chapel e relatou que seus empregadores queriam ser iniciados.

Eles querem se juntar a nós? …. Então temos que verificar se Sois Maçom… (O que foi verificado, de acordo com a ata).

Conclusão

Muitas das perguntas realizadas durante a confecção deste texto, não foram elucidadas. Nós propomos desde a introdução, tentar responder à questão da visita de Desaguliers a Edimburgo: Viajou para contribuir com algo ou para levar algo a esta loja?

Na primeira parte da questão, parece muito provável que Desaguliers beneficiou a Loja Mary´s Chapel com suas relações, ajudando o ingresso de personalidades, coisa que durante anos a loja tentou fazer.

Quanto à possibilidade de que Desaguliers pudesse ter introduzido o terceiro grau na Escócia durante a sua visita, não parece ter lógica, pois a história nos diz que esse grau não foi praticado na Mary´s Chapel, antes de 1738, ou seja, 17 anos após a visita de Desaguliers e dois anos após a criação da Grande Loja da Escócia.

Como naquele tempo, Desaguliers estava escrevendo a história da Maçonaria, e para dar crédito a Grande Loja de Londres, qualquer informação que pudesse enriquecê-lo, certamente interessaria Desaguliers. Por exemplo, a semelhança entre os rituais escoceses e ingleses da época.

O assunto é complexo e exige não apenas conhecimento histórico e maçônico. Acredito que um estudo mais apurado sobre as condições da criação da Grande Loja da Escócia em 1736, nos trará luz sobre as ações de John Theophilus Desaguliers.

Autor: Luciano R. Rodrigues

Fonte: O Prumo de Hiram

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Referências

R. Dachez – Renaissance Traditionnelle, n°83, 1990.

W. Ferguson – Scotland, 1689 to the present.

M. Duchein – Histoire de l’Ecosse.

D. Stevenson – Les premiers Francs-Maçons.

City Council Minutes (Transactions of Quator Coronati Lodge, vol 111 & 112).

A.W. Skempton – A biographical dictionary of civil engineers in Great Britain and Ireland.

David Murray Lyon – History of the Lodge of Edinburgh, Mary’s Chapel n°1.

The Builder Magazine, vol 14, 1928.

Texto de François Delaporte – Loge d’études et de recherches William Preston – 2008

John Theophilus Desaguliers, o pai da Maçonaria Especulativa

Traveling Templar: John Theophilus Desaguliers: Father of Modern  Speculative Freemasonry

Introdução

“Na atualidade, o nome Desaguliers é familiar apenas para poucos maçons. Mas eles deveriam saber que a ele, talvez mais do que qualquer outro homem, devemos a existência atual da Maçonaria como uma instituição viva, …. E a quem, talvez, mais do que qualquer outra pessoa, a atual Grande Loja da Inglaterra deve a sua existência. (Albert G. Mackey).

“Ele pegou uma antiga ordem que estava morrendo e deu uma filosofia que lhe era muito própria e peculiar. Ele acrescentou um toque de ciência, um conceito prático do Grande Arquiteto e Organizador do Mundo. Ele soprou uma oração e nasceu a maçonaria especulativa” (George E. Maine – Grande Orador da Grande Loja de Washington em 1939).

No ano de 2000, em um artigo sobre “as dez teorias propostas sobre a origem da maçonaria”, da Ars Quatuor Coronatorum, encontramos a citação abaixo, sobre “A teoria das origens rosacruzes” de A. Cosby F. Jackson:

Jackson propôs que duas fraternidades, a Maçonaria especulativa e o Rosacrucianismo, foram lançadas com poucos anos de diferença por homens de qualidades intelectuais semelhantes. Ambos teriam começado no século XVII com propósitos parecidos, o auto aperfeiçoamento e o misticismo religioso. O Rosacrucianismo espalhou-se rapidamente com ideias da alquimia, enquanto a Maçonaria tinha um atrativo diferente, e consequentemente se desenvolveu mais lentamente.

Havia apenas dois vínculos plausíveis:

  1. A importância da piedade cristã e auto aperfeiçoamento.
  2. Os membros das duas convicções poderiam estar envolvidos com a recém-fundada Royal Society, que fora estabelecida por senhores cultos.

A pesquisa

Neste texto vamos examinar a criação da Maçonaria que conhecemos, especialmente o seu principal fundador, Rev. Dr. John Theophilus Desaguliers.

Ao fazê-lo, chegamos à conclusão de que, em vez de reviver fielmente os segredos e mistérios de pedreiros medievais e operativos, Desaguliers e seus associados criaram uma nova instituição (com alguns elementos antigos, reais ou imaginários, contudo, eles eram bem diferentes dos empregados pelos operativos).

Nesta nova instituição, eles conseguiram inserir em quatro ou mais lojas de Londres, e estes perpetuaram, alguns usos e costumes remanescentes dos maçons (pedreiros) artesãos.

A Grande Loja de Londres foi criada em 1717. No primeiro ano, o Grão-Mestre foi Anthony Sayer, que não fez nada para o desenvolvimento da ordem. No ano seguinte, o segundo Grão-Mestre, George Payne, provou ser um administrador competente, mas não excepcional. Até que em 1719, momento que a Grande Loja enfraquecia, foi reavivada pela liderança de John Theophilus Desaguliers depois de ser eleito como o terceiro Grão-Mestre.

Sua visão extraordinária transformou o que tinha sido até então, pouco mais do que uma combinação de clubes de bebedores, com uma instituição nobre e da moda, eminentemente preparada para o aparecimento do Século das Luzes, ou mais conhecido como o Iluminismo.

Todos os Grãos Mestre subsequentes foram patronos “só de nome”, de nascimento aristocrata ou real, cuja rotina de trabalho era depositada no Deputy (ou Adjunto), posição ocupada por Desaguliers por três vezes.

Desaguliers é considerado unanimemente como o criador da primeira Grande Loja.

No livro The Royal Masonic Cyclopaedia de 1987, o autor Kenneth Mackenzie nos diz:

“Por seu ardor despertou as energias dos maçons de seu tempo, e depois da conferência preliminar com o velho Christopher Wren (talvez apócrifa), reuniu quatro lojas em Londres em 1717, quando a Grande Loja foi formada. Sob Dr. Desaguliers, o Ofício cresceu rapidamente em força, número, respeitabilidade e influência, muitos nobres participaram das cerimônias e posteriormente como oficiais”.

Outro ponto sobre o qual o Dr. Desaguliers tinha muito interesse foi a coleta de documentos antigos relativos ao Ofício (Craft) e a isso se deve a preservação das “Obrigações dos maçons” e a preparação do Regulamento Geral.

Em suas Constituições de 1723, James Anderson dá o crédito a seu mentor, de ter auxiliado no trabalho, provavelmente exagerando o papel de Desaguliers para dar brilho ao que era essencialmente o trabalho do próprio Anderson, e assim conseguiu a aprovação da Constituição pela Grande Loja.

Referindo-se novamente ao livro de Kenneth Mackenzie:

“Depois de se retirar do cargo em 1720, ele (Desaguliers) foi nominado por três vezes como Grão-Mestre Adjunto (Deputy ou Vice Grão-Mestre): em 1723, pelo Duque de Wharton; em junho do mesmo ano, pelo Conde de Dalkeith; em 1725, por Lord Paisley; e durante este período de serviço ele fez muitas coisas para o benefício do Ofício, entre outros, iniciando o esquema de caridade que foi posteriormente desenvolvido no que é hoje conhecido na Grande Loja da Inglaterra como o Fundo de Benevolência.

Durante este período, ele visitou lojas operativas em Edimburgo. (Este ponto é tão interessante que será explorado em outro post)

Em seguida, ele viajou para a Holanda e foi mestre de uma loja especialmente reunida para iniciar o Duque de Lorena, mais tarde Grão Duque da Toscana e imperador da Alemanha. Ele também iniciou o príncipe de Gales em Kew em uma loja formada especialmente para este propósito.

Através da força de sua própria personalidade, ele atraiu a sua nova instituição, homens importantes na Inglaterra, a realeza, os nobres, a elite, a as grandes mentes.

Devido a pureza de seus princípios e a importância desses primeiros líderes reunidos por Desaguliers, a Maçonaria desde estes dias, é uma coisa viva, pulsando com o melhor que há em cada homem. Alguns escritores afirmam que Desaguliers “foi quem escreveu a maioria de seus rituais”.

Dr. Oliver em “Os Princípios Peculiares do Ofício”, diz:

“Seu desempenho (Desaguliers) poderia ter contribuído para o benefício de toda a comunidade, se tivesse sido encaminhado em uma certa direção desde a saída de Sir Christopher Wren”.

Podemos supor que Desaguliers tentou redirecioná-los para algo totalmente novo (a influência de Wren é duvidosa e provavelmente foi invocada para legitimar as inovações de Desaguliers).

Em “The Ritual of the Operative Freemasons” (Carr), ficamos surpresos pela falta de semelhança entre o sistema de guildas de Londres, de sete graus, e os atuais três graus da Maçonaria simbólica.

A palavra de cada um dos primeiros graus é totalmente diferente (não apenas transposta como aconteceu depois) do que é utilizado na moderna maçonaria especulativa e os pilares que são tão proeminentes em graus especulativos tinha um significado muito diferente entre os operativos.

Além disso, como afirma Bernard E. Jones em “Freemasons Guide and Compendium”, observamos que entre os maçons especulativos não há registros de um terceiro grau ou a lenda de Hiram até cerca de 1726, quando aparece, e não se assemelha a nada praticado entre os pedreiros operativos.

O que Desaguliers teria em mente ao criar a Maçonaria que nos é familiar?

A pergunta nos leva a tentar entender como era este irmão.

Desaguliers era um cientista de renome, amigo íntimo de Sir Isaac Newton (Presidente da Royal Society de 1703 até sua morte em 1727) e Desaguliers era um Companheiro desta sociedade.

Tal influência se reflete nos rituais da Maçonaria, com a ênfase nos “Mistérios ocultos da natureza e ciência”, as “Sete Artes Liberais e Ciências” e seu discurso por um “avanço diário no conhecimento maçônico” e como os escritores Hamill e Gilbert nos diz em “The First Grand Lodge”:

“Parece haver pouca dúvida de que a quantidade de Companheiros da Royal Society, que se tornaram maçons, foi devido à influência do exemplo de Desaguliers e certamente não foi por acaso que, pelo menos, 12 dos Grãos Mestres foram Companheiros da Royal Society ao longo dos 20 anos após Desaguliers.”

Na verdade, a ideia de que a Maçonaria especulativa foi o produto da Royal Society é uma das teorias mais plausíveis sobre as origens da maçonaria, que citada por Mackey em “The History of Freemasonry”. No entanto, apesar da prevalência da moda do Rosacrucianismo no início do século XVIII, quando a alquimia era considerada uma ciência e da influência que o Rosacrucianismo pode ter exercido tanto na Royal Society quanto na Maçonaria, a última conexão e direta entre os dois parece estar ausente por um motivo a se observar: enquanto que os aspectos práticos do Ofício dos operativos podem ter dado origem a algum interesse entre os membros da Royal Society, há muito pouco sobre a maçonaria especulativa que explique o motivo deles, como entusiastas da ciência, gostariam de ter sido envolvidos em sua criação.

Voltando ao Desaguliers, encontramos um outro aspecto deste maçom, que nos leva a considerar uma nova teoria: Ele foi um huguenote, que é o nome dado aos protestantes franceses durante as guerras religiosas na França.

Quando Desaguliers tinha dois anos de idade, seu pai que era Reverendo, foi para a Inglaterra dentro de um tonel de vinho para escapar da perseguição na França. Todos os clérigos protestantes foram forçados a deixar a França, enquanto que outros protestantes foram obrigados a ficar (muitos escaparam). Na Inglaterra, Desaguliers também se tornou um clérigo protestante (embora um ministro anglicano).

Um grande número de huguenotes eram artesãos e por causa do preconceito religioso eram bem-vindos na maioria dos países onde eles se refugiaram. Um outro número de huguenotes foram entusiastas cientistas.

Na Academia Real de Ciências da França pode ser lido (Instituto e Museu de História da Ciência):

“A Academia declinou após a revogação do Édito de Nantes (1685), quando muitos cientistas huguenotes deixaram a França”.

Não é de se estranhar, então, que a Royal Society de Londres floresceu atraindo membros huguenotes, como Desaguliers, conforme afirma Neville Barker Cryer, em “Huguenot Freemasons”, de 1995.

Eu sugiro que está aqui, entre os huguenotes e ilustres protestantes, o grão da verdade na teoria das origens da Royal Society e onde a Maçonaria especulativa pode ser encontrada.

Margaret Kilner, no livro “The Huguenot Heritage”, falando da capela Huguenot de Leicester Square, nos diz:

“Junto a capela se encontra a residência de Sir Isaac Newton (1642-1727) mais conhecido como o maior cientista do seu tempo….. Parece que sua proximidade com a capela, lhe permitiu oferecer o andar térreo de sua residência como um lugar de culto para os refugiados franceses. Muitos Huguenotes rezavam ali”.

Em uma publicação intitulada “Huguenot freemasons”, apresentado a “Huguenot Lodge” de Londres, o Rev. Neville Barrer Cryer disse:

“…. Nada menos do que um quarto de todos os nomes registrados dos Stewards da Grande Loja são reconhecidos em sua origem Huguenot mas e aqueles cujos nomes foram prontamente anglicanizados?

Os huguenotes seguem as doutrinas de João Calvino. Os Calvinistas que falavam Inglês, tal como os huguenotes e valões, emigraram para a Inglaterra, os covenanters escoceses, os puritanos ingleses, etc., entusiasticamente aderiram à Bíblia de Genebra, mesmo depois que foi imposto o uso da versão autorizada do rei James.

Valões foram um povo de origem germânica e céltica que habitavam a região da Valônia, na atual Bélgica. Covenanters eram membros de um movimento religioso nascido dentro do presbiterianismo na história da Escócia. Puritanos eram membros de grupos calvinistas rígidos de costumes.

Em outra publicação, Cryer prova que o Volume da Lei Sagrada em uso na primeira Grande Loja foi uma Bíblia de Genebra.

Aliás, a ligação entre os huguenotes e covenanters foi particularmente forte devido à “Auld Alliance” (Antiga Aliança) entre os franceses e escoceses, contra o inimigo comum, o Inglês.

Na sequência da Reforma e, especialmente, no contexto da perseguição dos huguenotes (por exemplo, o massacre do Dia de São Bartolomeu), esse aspecto da vida de Desaguliers pode ter sido influenciado pela insistência sobre a tolerância, especialmente em matéria de religião, como apresentado na Primeira Grande Loja.

Nesta conjuntura, eu acho que temos que manter em mente que os temas comuns entre os protestantes, incluíam traduções da Bíblia e restauração dos mistérios da igreja primitiva (por exemplo, o gnosticismo) acusando Roma de os ter desprezado. As traduções da Bíblia agora estão disponíveis, mas e sobre os mistérios?

Igrejas protestantes e seus cerimoniais ainda são mais inflexíveis do que os dos católicos. Para os mistérios, eu sugiro que você estude o rosacrucianismo como um braço mais ou menos separado da Reforma.

Agora vamos voltar ao protegido de Desaguliers, o Rev. Dr. James Anderson (1648-1746), o criador das Constituições da Maçonaria. Sua fama tem se mostrado muito duradoura entre os maçons e podemos surpreender ao dizer que ele não era um clérigo ortodoxo, mas um membro da Igreja Reformada Escocesa, presbiteriana, que tinha suas raízes calvinistas e nos covenanters.

Além disso, apesar de ser um pastor presbiteriano, ele assumiu a concessão de uma capela em Swallow Street, Piccadilly, pertencente a uma congregação de protestantes franceses, onde o pai de Desaguliers tinha sido pastor e alguns pesquisadores acreditam que suas constituições são o produto do saber, seguindo o exemplo de seu amigo e mentor, Desaguliers, para criar a Maçonaria especulativa moderna.

Também a essa luz, pode ser refletida a irritação dos maçons britânicos, devido a proliferação de graus na França, em comparação ao seu, “básico, puro e inalterável” Ofício, atravessando o canal.

Conclusão

Podemos observar que a maçonaria especulativa, apesar de ter origem na Inglaterra, teve uma influência francesa desde a concepção e talvez os franceses simplesmente conheceram a instituição pela retidão que tinha, e posteriormente introduziram suas ideias desenvolvidas em alegorias e símbolos.

Autor: Luciano R. Rodrigues

Fonte: O Prumo de Hiram

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Bibliografia

The Ritual of the Operative Freemasons – Thomas Carr

The Geneva Bible and its Contribution to the Development of English Ritual – Neville Barker Cryer

The First Grand Lodge – Robert Gilbert e Jonh Hamill – acesso em março 2017 http://www.mastermason.com/3rdnorthern/MasonicHistoryfiles/firstgl.htm

Huguenot Freemasons – Neville Barker Cryer

The Huguenot Heritage – Margaret Kilner – acesso em março de 2017 – http://ensignmessage.com/articles/the-huguenot-heritage/

The Royal Masonic Cyclopaedia – Kenneth Mackenzie

Encyclopedia of Freemasonry and its Kindred Sciences Comprising the Whole Range of Arts, Sciences and Literature as Connected with the Institution – Albert Gallatin Mackey

The History of Freemasonry – Albert Gallatin Mackey

Desaguliers and the March of Militant Masonry – George Maine – acesso em março de 2017 – https://archive.org/stream/Desaguliers_And_The_March_Of_Militant_Masonry_-_G._E._Maine/Desaguliers_And_The_March_Of_Militant_Masonry_-_G._E._Maine_djvu.txt

The Royal Society Tercentenary – Alexander Piatigorsky

Os ideais que fizeram a Maçonaria possível

De que servem os nossos ideais se não nos permitirem dar uso a eles? -  Marta - O meu canto

A proposta desse trabalho é discutir a origem da fraternidade em geral e da Maçonaria em particular, em termos intelectuais atuais que fizeram com que a Fraternidade Maçônica fosse concebida como uma instituição.

Os pressupostos desse trabalho são dois:

  • Que foi alcançada uma síntese intelectual e institucional por volta do início cultural do século 18, por exemplo 1717-1738, que, em essência, “criou” a Maçonaria como nós a conhecemos em tempos subsequentes;
  • Que, como a Maçonaria é um protótipo de uma subsequente Fraternidade, e que a maior parte das ordens de Fraternidade tem se utilizado tanto de rituais quanto do modelo estrutural da Maçonaria, então se entende que as precondições intelectuais da Ordem permitiram que estudantes entendessem com mais clareza o fenômeno único da fraternidade na cultura ocidental.

A Maçonaria, como a conhecemos hoje, existe em vários lugares e tem por volta de 300 anos. Entretanto, em nenhum lugar o impacto na cultura foi tão profundo quanto nos Estados Unidos da América. Depois da revolução de 1776 a fraternidade proveu diversos símbolos, mitos, e ética pública ou virtude, que, na mesma medida, a Igreja promoveu na Monarquia estabelecida na Inglaterra. Isso fez dos Estados Unidos um laboratório único para entender o papel da Maçonaria como um fenômeno civil ou cultural.

Assim, definir a exata natureza, na medida do possível, do que era único sobre a Maçonaria antiga nos Estados Unidos, nos ajuda a investigar as condições prévias para a síntese ou criação da própria Maçonaria.

Além disso, compreender a experiência Americana como única, nos auxilia a entender que correntes filosóficas específicas no século XVII e anteriores tornaram possível o desenvolvimento da Ordem.

Se este trabalho for bem sucedido em esclarecer essas últimas correntes, mesmo em um grau pequeno e sugestivo, seu propósito terá sido cumprido.

A Maçonaria dos Estados Unidos: “O que o Ofício Conquistou”

Além do papel heroico dos principais Maçons na Revolução Americana, o fundo de ideias, símbolos e mitos associados à Maçonaria foram fundamentais para o nascimento de uma nova nação.

O historiador de religiões Joseph Campbel [1] resume essa conquista de duas maneiras:

  • Que os símbolos do Ofício se tornaram o simbolismo da nação; e
  • Que os ideais da fraternidade que estão dentro da Ordem foram projetados além dos meros ensinamentos particulares, inseridos na mentalidade popular dos próprios revolucionários.

Este último ponto é particularmente importante porque implica que os Pais Fundadores foram capazes de articular uma visão que alcançou simultaneamente dois objetivos opostos: o bem do todo ou da comunidade; e os direitos do indivíduo dentro desse todo.

Assim, dois objetivos potencialmente contraditórios, os direitos do Estado versus os direitos da pessoa, foram reconciliados e preservados em uma tensão criativa.

Simbolicamente, a filosofia da Maçonaria ainda oferecia um caminho alternativo entre os da Igreja, de um lado, e da Monarquia de outro, ambos os sistemas eram predominantes de autoridade no meio europeu do século XVIII.

Esse ponto se torna mais evidente quando lembramos que o período revolucionário e depois federalista geraram uma escola arquitetônica única que refletia não apenas os ideais igualitários e do iluminismo dos Pais Fundadores, mas também que emprestavam uma aura estética de respeito crível a edifícios como a Casa Branca e o Federal Hall, em Nova York, que vieram incorporar a imagem pública da nova nação.

A criação de uma Nação não é tarefa fácil. Como os Estados Unidos foram a primeira nação moderna construída não sobre o poder militar arbitrário, a ambição da dinastia ou menos o interesse próprio, a principal tarefa dos Pais Fundadores após a Revolução era articular uma filosofia ou ideologia unificadora que fizesse sentido para as classes educadas da época. Isso significava que as promessas políticas da Declaração de Independência (1776) e da Constituição (1787), ou seja, direitos individuais, tinham de ser reconciliadas por uma filosofia pública que explicava, ou pelo menos tornava compreensível, a realidade de que todos não eram economicamente iguais[2].

Em outras palavras, eles tiveram que encontrar uma filosofia que falava da dignidade do trabalho, a democracia essencial da representação hierárquica, em si um conceito potencialmente contraditório, e tudo dentro de uma visão de harmonia que evitava conflitos sectários. A resposta foi, claro, a Maçonaria.

Em específico, a Maçonaria Americana primitiva realizou três funções particulares que iluminam suas origens anteriores na história intelectual europeia:

  • Alcançou uma espécie de trégua com a religião sectária, notadamente o puritanismo e o congregacionalismo na Nova Inglaterra, que permitia às pessoas não concordar com a teologia que conduziu com sucesso uma guerra contra um terceiro “mal maior”, a tirania britânica. Como a maioria dos Pais Fundadores estava de alguma forma associada à Igreja da Inglaterra, essa conquista é ainda mais significativa[3] [4];
  • Isso ocasionou e justificou uma elite política, que nasceu comprometida com a disseminação do conhecimento, e com a efetiva responsabilidade de intermediação do poder em um espírito progressista[5];
  • Quando a era Antimaçônica forçou uma reestruturação da imagem pública na Maçonaria e uma diminuição de sua composição elitista, por volta de 1826, ela “se recuperou” para assumir ainda um outro papel cultural como símbolo aceitável da classe média de cooperação no comércio e nos assuntos cívicos. Durante o período da relativa ausência dos Estados Unidos nos assuntos europeus, 1776-1914, a Maçonaria continuou a ser a filosofia essencial do pluralismo harmonioso para toda a nação[6].

Em outro contexto[7], tenho sugerido que a Maçonaria pode ser melhor compreendida através de referências a tratados simbólicos dentro dos seguintes textos: bíblicos, medievais, herméticos (ou ocultistas) e deístas ou elementos iluministas.

Essa maneira de abordar o estudo das origens Maçônicas é útil porque permite que o estudante pense na síntese dos Ideais Maçônicos no início do século XVIII em termos de correntes de pensamento predominantes em um contexto mais amplo entre Ingleses e Europeus. Por exemplo, pode-se traçar uma linha medieval, cavalheiresca, incluindo os graus da Ordem Real da Escócia de 1745 a era Jacobita com o interesse de revitalização da Cavalaria, e a organização Templária Moderna na era Romancista Inglesa, entre 1798 [9] e 1850 (início do Realismo Francês), quando foi instituído o Grande Acampamento dos Cavaleiros Templários nos Estados Unidos, em 1817, e as “Ordens Religiosas e Militares Unidas do Templo e São João de Jerusalém”, que foi reorganizada pelo Duque de Sussex (1812-1843).

Com exceção do motivo bíblico, que provavelmente foi absorvido pela Maçonaria no século XVII com a saga da construção do Templo do Rei Salomão[10], os motivos medievais, herméticos e iluministas podem, de fato, serem traçados em ordem cronológica mostrando onde cada corrente prosperou. Além disso, podemos traçar os principais emblemas Maçônicos para cada uma dessas eras, como a seguir:

  • Ferramentas de trabalho Operativas, Manuscrito Gótico, 1390;
  • O uso da arquitetura como uma referência pra a ética e moralidade, para o “reativamento ocultista” dos séculos XVI e XVII e para a literatura moralizadora puritana[11];
  • O Olho Que Tudo Vê, como o símbolo do deísmo inglês e americano, na iconografia da época[12].

Pode-se entender os Pais Fundadores, na verdade, como aqueles que sintetizaram a Maçonaria em um sistema moral coerente e uma instituição simultaneamente, se e somente se, entendermos que o uso de emblemas específicos reflete uma conexão mítica e viva entre a sociedade, incluindo o governo e a percepção da estrutura do universo.

Assim, para entender a origem da Maçonaria e sua marca na psique da nova nação americana, por exemplo, é importante entender que os emblemas não eram como os vemos hoje – dispositivos intelectuais para nos ajudar a lembrar de certos preceitos ou ensinamentos, mas eram na realidade pontes entre a experiência humana e a natureza percebida do universo criado.

Outra maneira de enfatizar esse ponto é sugerir que o homem do século XX passou a entender como uma diferença entre o significado exato e literal de uma palavra ou imagem, e seu significado simbólico, ou significado alegórico, não existia da mesma maneira para uma pessoa do século XVII ou XVIII. O que queremos dizer hoje em dia como “simbólico” significava algo “literal”.

Assim, para entender as correntes exatas na história intelectual da Europa – sem as quais não haveria a Maçonaria como a conhecemos – é importante também entender que cada corrente utilizou seus símbolos de maneiras únicas. O filósofo do século XVI que olha para instrumentos de trabalho medievais, por exemplo, os veria como instrumentos de uma mudança na consciência; O Templo de Salomão, por exemplo, seria um meio para experimentar o lugar do homem na ordem do universo; e o Olho que Tudo Vê seria uma afirmação de que a racionalidade iluminada poderia colocar alguém em contato com a mente de Deus.

Homens arquétipos: os intelectos criativos que conceberam os ideais pré-maçônicos

A Maçonaria é essencialmente o produto de certas elites históricas: pequenos grupos de homens influentes ou poderosos que não apenas foram capazes de conceber uma organização tal como a Arte se tornou, mas também imprimir sua cultura com o significado de suas ideias.

Isso é mais claramente visto na história americana, como observei acima, pelos fundadores e a geração de homens que os seguiram, como DeWitt Clinton (1769-1828) e Andrew Jackson (1767-1845), que eram os elos entre a Maçonaria de classe alta de Washington e Franklin, e a fraternidade mais de classe média do período pós-Morgan.

Assim, a Maçonaria sempre foi melhor quando conquistou o entusiasmo e a lealdade de pessoas influentes.

Na Inglaterra, duas elites intelectuais e/ou comerciais foram particularmente importantes para a fundação da Grande Loja: os membros da Royal Society, e os emigrantes da Reforma Protestante Francesa, ou fé Protestante, que se reuniram na Inglaterra após a revogação dos éditos de Nantes por Luis XIV em 1685.

Elias Ashmole, o primeiro registro de maçom especulativo na Inglaterra, era um membro da Royal Society. Jean Theophile des Aguliers, conhecido posteriormente como John Theophilus Desaguliers, era tanto membro da Royal Society (1714) e um refugiado da Reforma Francesa, bem como o terceiro Grão-Mestre da primeira Grande Loja[13].

A função do Ofício nesse período de 1685-1717-1723, de fato, pode ser vista como a de reunir intelectos progressistas que acreditavam ser parte de uma aristocracia de aprendizagem; ou no caso de Desaguliers e o Presbiteriano James Anderson (1678-1739), uma aristocracia espiritual associada aos princípios do Calvinismo, notavelmente sua doutrina dos eleitos. Até o cavaleiro Ramsay (1686-88-1743), apesar de católico romano, foi criado como calvinista.

É útil, portanto, examinar membros representativos da elite intelectual da Inglaterra no período anterior à criação da Grande Loja, e fazê-lo em termos de sua associação não apenas como os “corredores do poder”, políticos ou intelectuais, mas também porque eles e seus escritos incorporam os conceitos que devem ser encontrados no coração da Maçonaria Especulativa.

Essas figuras “arquetípicas” nos ajudarão a entender que o singular surgimento de ideias específicas, mitos, símbolos, entre outros, fizeram a Maçonaria ser possível, como a vemos hoje.

A herança medieval: Giordano Bruno

Além dos Manuscritos Góticos e da existência de Lojas Operativas, temos poucas evidências hoje de que a Maçonaria começou na idade Média.

Cyril Batham, ex-mestre e ex-secretário da primeira Loja de Pesquisa Maçônica, pregou suas “cores” eruditas ao mastro dizendo que não acreditava mais que a Maçonaria Especulativa tinha evoluído da Maçonaria Operativa[14]. Em vez disso, deveríamos olhar para a sobrevivência e a existência de células filosoficamente inclinadas dentro das fraternidades religiosas, que foram abandonadas quando foram desiludidas em 1547, no final do reinado de Henrique VIII.

Se nos voltarmos para a história geral das ideias na Inglaterra da Renascença, no entanto, encontramos uma fascinação generalizada, embora atenuada, com a visão medieval da vida muito depois do fim da chamada Idade Média. Esse motivo pode ser visto em um renascimento do interesse pelo Cavalheirismo Medieval, e os códigos de ética e moralidade associados a ele, muito depois de o cavaleiro a cavalo deixar de ser uma figura militar ou social viável, e muito depois de o feudalismo deixar de ser o principal fator decisivo na organização econômica europeia.

A dinâmica essencial era uma tensão entre uma apreciação intelectual por uma forma mais antiga de pensamento, o medieval, que não era escolástica ou dogmática, versus o humanismo italiano importado que nos é familiar na vida de homens como Thomas More (1478-1535), Thomas Cromwell (1485-1540) e Thomas Elyot (1490-1546), onde todos estudaram na Itália. Os humanistas consideravam todas as coisas medievais como corruptas, e deixavam as universidades, como a Oxford, porque os julgavam desprovidos de investigação intelectual honesta.

A “forma mais antiga” do pensamento medieval não era escolástica na fala, no entanto, é significante na origem dos ideais Maçônicos porque foi incorporada por meio de figuras como o Frei Roger Bacon (1214-1292); a chamada escola de astronomia de Merton College e o bispo Robert Grossteste, um dos pais da moderna ciência experimental (1175-1253), profundamente interessado pela mística e o significado dos números. As tendências filosóficas, ou correntes, mais associadas a esta forma podem ser consideradas como uma combinação do Platonismo, com sua ênfase na ideia duradoura, e o entendimento medieval de Pitágoras.

No final do século XVI, é possível identificar um movimento distinto dentro dos círculos intelectuais da Inglaterra da rainha Elizabeth, que pode ser caracterizado através dos seguintes elementos:

  • A orientação Medieval Mística, mencionada acima;
  • O humanismo Renascentista, que em si próprio foi profundamente impresso por uma visão mais fresca e mais parcial de Platão, chamada de “neoplatonismo”[15];
  • Uma forma de corte, trejeitos Cavalheirescos personalizado por Cavaleiros, mas em uma aplicação anacrônica da maneira como a Renascença encarava o cavalheirismo como a ideia da masculinidade renascentista[16].

Cada um desses elementos existia não apenas em um tipo de tensão criativa entre si, mas também, após o Ato de Supremacia de 1535, com formas cada vez mais extremas de sentimento religioso: a reação católica romana à Reforma inglesa durante o reinado de Henrique VIII, durante o reinado de Maria Tudor (1553-1558), e fortes expressões do Calvinismo que se torna dominante durante o reinado do Rei Menino, Eduardo VI (1547-1553), e no final do reinado da rainha Elizabeth (1603).

A linhagem medieval do misticismo sofria tanto na mão de humanistas seculares, que consideravam qualquer coisa medieval como corrupta e intelectualmente desonesta, como também dos recém-formados calvinistas puritanos, que consideravam qualquer coisa medieval sob a influência da idolatria católica romana.

O resultado foi que aqueles que afirmavam o valor da tradição anterior tentaram preservar uma visão mais ampla da sociedade, e da vida da mente, do que era aceitável para as autoridades eclesiásticas e políticas estabelecidas.

Essa situação promoveu, como um meteoro, a figura central de um antigo monge dominicano italiano, Giordano Bruno (1548-1600), cuja curta visita à Inglaterra em 1583-1584, criou um grande impacto sobre os Ingleses mais intelectualizados ou espiritualizados[17].

Em resumo, Bruno foi capaz de dissolver, ou fundir o interesse inglês existente na tradição mística medieval, com seu próprio fascínio no lendário filósofo egípcio Hermes Trismegisto, assumido na época como contemporâneo de Moisés, e um preditor da vinda de Cristo.

Bruno, que foi finalmente executado pela inquisição romana, é importante para a origem dos ideais Maçônicos porque ele ativamente defendeu a preservação da arquitetura medieval em um período em que os protestantes derrubavam abadias medievais, e porque ele era a primeira grande figura da Renascença a apelar a uma ética internacional ampla e tolerante de paz mundial e fraternidade universal[18a]. O fato de ele ter feito isso com referência autoconsciente à mitologia e filosofia egípcias o torna – no espírito da Flauta Mágica de Mozart, duzentos anos depois, a primeira figura pré-maçônica identificável[18b].

Há um sentido importante no qual a ética pré-Maçônica de Bruno foi reforçada pela presença duradoura da filosofia política medieval nos escritos de estudiosos da Renascença, como Richardo Hooker (1554-1600), o arquidefensor de uma ampla base nacional pela Igreja da Inglaterra contra uma influência crescente do Puritanismo[19]. Hooker, que rejeitava o uso político da Bíblia como muito subjetivo e sectário e defendia uma forma primitiva de monarquia constitucional, apresenta ideias políticas de tolerância e justiça que, balanceadas com a filosofia de Bruno, produziam uma forte reinterpretação de comunidade medieval apropriada a uma Inglaterra mais moderna[20]. Depois de Bruno e Hooker, o palco estava montado para o uso de elementos medievais tanto na moralidade quanto na estrutura política que encontramos na Maçonaria após a síntese de 1717.

A herança “ocultista”: John Dee

Nenhuma herança, ou grupo de ideias pré-Maçônicas é tão elusivo ou importante para a Maçonaria quanto o aspecto esotérico ou “ocultista” da Fraternidade. Como a Maçonaria é, por definição, secreta e, portanto, diferente de outras instituições inglesas criadas ao mesmo tempo, entre elas sociedades escolares, acadêmicas, religiosas, etc.; devemos estar abertos a investigações substantivas e acadêmica sobre o fluxo de ideias ocultas em torno de Londres antes da criação da Grande Loja.

Mas esse não é o caso. A proliferação de graus quase místicos e as vezes irregulares na Europa após 1717; a ambivalência da Maçonaria Inglesa sobre o Arco Real até a União de 1813; e a hostilidade geral dos pesquisadores Maçônicos em torno do tema se tornou a mais importante de todas as questões acadêmicas e a mais difícil de responder.

É útil entender a natureza exata da questão. Em resumo, o entendimento desse escritor da investigação seria algo como o seguinte:

Quais influências secretas, esotéricas, ou herméticas moldaram o ambiente a partir do qual a Maçonaria surgiu no século XVII?

Colocando desta forma, os estudiosos podem alcançar dois objetivos importantes:

  • Evitar uma associação que não seja crítica da Maçonaria antes da Grande Loja com sociedades secretas moralmente fundadas, ou sociedades com segredos; e
  • Explorar a razão ou o fundamento lógico para que o esotérico ou oculto fosse tão importante para os Maçons depois da Grande Loja, importante o suficiente para abraçar e embelezar, ou importante o suficiente para reduzir ou imprimir.

A questão se torna mais administrável se selecionarmos um dos símbolos maçônicos mais importantes: o Templo de Salomão em Jerusalém, como uma chave.

Considerando a maneira pela qual a tradição oculta/hermética utiliza o Templo, talvez possamos entender mais nitidamente qual era sua função.

Resumidamente, isso é antecipado pela primeira vez na na vida e na obra renascentista Elizabethan Magus de John Dee (1527-1608), astrólogo Real da rainha Elizabete I, e supostamente o homem mais instruído da Inglaterra na época[21].

Dee estava convencido que a arquitetura era a chave para uma compreensão abrangente do universo. O papel do arquiteto na sociedade era, de fato, o de atualização e símbolo do erudito universal e iluminado[22].

Em uma origem mais germânica da Maçonaria, John Dee estava convencido que a arquitetura era uma arte “imaterial”, cuja base estava na imaginação moral individual[23].

A arquitetura física real era um empreendimento mágico ou místico porque “as estrutura idealizadas eram modeladas através de pontes celestiais, harmônicas”[24].

Por volta de 1570, 147 anos antes da Primeira Grande Loja, Dee publicou seus ideais entre a classe emergente de artesãos ingleses, cujos descendentes, duas gerações depois, estavam entre os primeiros Maçons.

John Dee estava antecipando o propósito ou a função da arquitetura como um dispositivo de ensino moral, especialmente a literatura que Alex Horne apontou em relação ao papel do Templo do Rei Salomão como um dispositivo moralizante entre os puritanos[25].

Literatura semelhante foi encontrada mais tarde, no século 17, nos escritos alegóricos de John Milton (1608-1674) e John Bunyon (1628-1688).

Mas a contribuição de Dee como um arquétipo pré-Maçônico é única não apenas porque ele era um matemático e geógrafo, um intelecto importante de sua época, mas porque entendia que a função específica da arquitetura era um dispositivo de memória: um meio do homem recordar harmonias e proporções no universo relacionadas com a harmoniosa ordenação da sociedade humana e da alma individual.

Ele foi fundamental na reintrodução do pensamento do arquiteto romano Vitruvius (século I AEC e século I da EC), cuja obra De Architectura era muito utilizada por arquitetos Renascentistas.

O pleno uso da arquitetura como um dispositivo de memória moral[26], para recordar e aplicar as harmonias do céu às formas terrenas, não se desenvolve até a influência do Rosacrurcianismo sobre os intelectuais ingleses, notavelmente Robert Fludd (1574-1637), Thomas Vaughan e Elias Ashmole (1617-1692), mas com John Dee o palco estava montado para uma combinação do medievalismo moral de Bruno e a construção de símbolos do Rosacrucianismo para tornar a Maçonaria Especulativa mais concebível para aqueles que eventualmente se tornariam sintetizadores da Ordem.

O escopo do Rosacrucianismo está além desse artigo. No entanto, nenhuma corrente tão singular de ideias é mais significativa para a formação da Maçonaria do que essa cadeia única e sutil de conceitos nos círculos intelectuais europeus no início do século XVII.

É prematuro afirmar categoricamente que o Rosacrucianismo teve um impacto direto e visível sobre os graus da Arte (essa tese foi objeto de um artigo não muito bem recebido pela Loja Quatour Coronati nº 2076, por A.C.F. Jackson, em 28 de junho de 1984). No entanto, além dos graus da Rose Croix [27] que aparece depois de 1750, e do Grau do Royal Arch, que apareceu em algum momento na década de 1740 [28], é importante percebermos que, talvez, muitos de nós tenhamos feito a pergunta “errada” sobre a influência Rosacruciana no simbolismo Maçônico.

Essa questão não serve pra provar ou refutar uma influência mística, mágica ou mesmo esotericamente cristã sobre a Maçonaria mas, sim, examinar com que precisão imagens, como o Templo do Rei Salomão, foram utilizadas, o que pode fornecer uma pista do motivo do templo ser um símbolo tão central.

A resposta, suspeito eu, pode ser encontrada em um texto alemão de um estudioso obscuro conhecido como Simon Studion, chamado Naomdria publicado em 1604. O manuscrito é importante para a história pré-Maçônica porque sugere que o propósito real da utilização do Templo do Rei Salomão no ritual maçônico é a interpretação da história, de maneira simplista, para predizer ou profetizar sobre o futuro em termos da mentalidade pré-revolução Científica do século XVII, mas também em um sentido filosófico de dar sentido à história, da mesma forma que os grandes historiadores clássicos, como Políbio, Agostinho, Suetônio Tucídides, Tácito, entre outros, e mais tarde o próprio Edward Gibbon, procuravam dar sentido moral à narrativa histórica.

A Naometria sugere que toda a extensão da história pode ser interpretada a partir das medidas do Templo do Rei Salomão. Para nós, isso parece ridículo mas, para a mente mais misticamente orientada do final da Renascença, é plausível não apenas porque o Templo foi o caminho bíblico escolhido por Deus antes de Cristo, mas porque se tornou um símbolo para a peregrinação cristã na Idade Média. Tal esforço também é semelhante a outros do século XVII, como o Discurso sobre a História Universal, do bispo católico francês Benches Bossuet (1627-1704), cujo trabalho procura provar que o Reino da França é o herdeiro da garantia espiritual do Sacro Império Romano e, portanto, a incorporação das virtudes dos impérios clássicos anteriores, grego e romano.

Este método é ainda mais significativo para uma investigação sobre as origens pré-maçônicas da Grande Loja, porque escritores maçônicos posteriores, como George Oliver (1782-1867) na Inglaterra e Salem Town (1779-1864) nos Estados Unidos, utilizaram o simbolismo Maçônico, incluindo o Templo, como um meio de interpretar toda a história, desde a antiguidade pré-cristã até os dias atuais.

Rejeitamos tais escritores porque eles – é claro – não são historiadores críticos e empíricos – e, de fato, a grande realização de Robert Freke Gould e outros fundadores da Loja Quatuor Coronati Nº 2076 foi repudiar as reivindicações de tais homens que se apresentavam como verdadeiros historiadores.

Mas hoje, ler George Oliver[29], ou ainda Salem Town[30], não serve tanto quanto o puritano Alex Horne explicando a moral da construção do Templo[31], mas serve para ser transportado para o início do século XVII na Alemanha de Simon Studion: 219 anos antes de Oliver.

Aqui chegamos a uma questão notável na compreensão da síntese maçônica que originou a Grande Loja e pode ser expressa da seguinte maneira: uma vez que tanto Dee quanto as ideias Rosacrucianas [32] impactaram na vida de Elias Ashmole (iniciado em 1646) e Robert Moray, o primeiro registro de iniciação especulativa na Escócia (1641), ambos associados da Royal Society, assim como muitos fundadores da Grande Loja, porque a influência ocultista não foi mais evidente e perceptível nas primeiras Constituições (1723-1725)?

A resposta óbvia é que o papel de Anderson não era apenas o de um codificador, escritor de leis e historiador (pelos padrões da época), mas também um árbitro, comprometedor e filtro de conceituações, decidindo talvez junto a um comitê, o que seria incluído ou não.

Há pouca dúvida que homens inteligentes, do final do século XVII e início do XVIII, ficaram horrorizados com a violência vivida durante o século que eles acabaram de passar: o holocausto da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), a Guerra Civil Inglesa (1642-1660), a Revolução Inglesa (1688-1690) e a convulsão da Comunidade Puritana, não podiam deixar de repelir homens de sensibilidade, quando inúmeros homens e mulheres foram mortos em nome da religião.

É compreensível que qualquer coisa que alimentasse conflitos sectários, em especial questões místicas ou ocultas, foram omitidas das Constituições e, após a padronização, dos rituais.

Qualquer referência ao Templo do Rei Salomão, e sua construção, que não estivesse na versão autorizada da Bíblia (1611)[33], deveria ser ignorada pelo homens respeitáveis. Qualquer referência esotérica seria suspeita.

A questão do filtro de ideias ocultistas do ritual e da prática maçônica é também uma das crescentes sofisticações científicas dos estudos críticos no final dos anos 1600. Antiquários como John Aubrey (1626-1697) e Elias Ashmole, tidos como modelos de erudição, estavam dando lugar a pessoas como Christopher Wren (1632-1723), primeiro um astrônomo, depois arquiteto, e Isaac Newton (1642-1727), físico, mas também um estudante dos aspectos esotéricos da Sagrada Escritura. Esse dois últimos eram figuras transitórias do final do Renascimento e da era da Revolução Científica.

Um excelente laboratório para examinar esse processo de filtragem é o chamado Cambridge Platonists, um grupo de acadêmicos da Universidade de Cambridge de 1633-1688. Eles procuraram purificar o aplicar a filosofia do neoplatonismo, que era o denominador comum tanto para o humanismo renascentista secular, quanto para a linhagem medieval anterior associada a Giordano Bruno, para expandir o significado espiritual do cristianismo, e evitar o extremo do catolicismo dogmático, escolástico e puritanismo literalista. Nesse esforço, eles não eram diferentes dos antigos apologistas cristãos primitivos, como Orígenes e Clemente de Alexandria, que acharam muito no pensamento de Platão para enriquecer a teologia cristã para que os gregos e romanos não-cristãos pudessem entender, assim como acreditar na Fé Cristã.

Os platonistas de Cambridge também tentaram relacionar o cristianismo ao novo espírito de pensamento filosófico associado a René Descartes (1596-1650), que era um prenúncio do método científico moderno.

Eles são um precedente intelectual e acadêmico da Maçonaria porque apelam para a “Razão”, por meios neoplatônicos, e porque criaram um conceito de “Summum Bonum”, o bem maior, que antecipa o conceito da Maçonaria do Tetragramaton, o inefável Nome de Deus, para o qual a iniciação maçônica é dirigida.

Um desses eruditos, Benjamin Whichcote (1609-1683), defendia a tolerância dos judeus durante o Protetorado de Cromwell, e a ideia então revolucionária de que não era preciso ser cristão para ser uma pessoa de moral. Um segundo platonista de Cambridge, Henry Moore (1614-1687), defendia uma doutrina da verdade superior que era alcançável através de etapas ou graus; um terceiro Ralph Cudworth (1617-1688) considerou a ética e a moralidade como um reflexo da harmonia implícita no universo[34].

No entanto, apesar de sua considerável tolerância e esforços para reconciliar ética e religião com a ciência, eles foram o principal “filtro” através do qual as correntes intelectuais pré-maçônicas foram limpas de qualquer referência ao profundo simbolismo místico de Bruno ou John Dee.

Eles preservaram a estrutura básica da filosofia neoplatônica que a Maçonaria exibe em seu sistema de graus; o conceito de Luz, tolerância e razão, mas foram persuadidos a descartar qualquer traço de misticismo. Nisso eles eram irmãos de sangue sob a pele de James Anderson!

A herança deísta: John Toland

Além do medievalismo de Giordano Bruno e do ocultismo de John Dee, a origem das ideias maçônicas pode ser atribuída ao deísmo – a filosofia quintessencial da Maçonaria e de nossos próprios Pais Fundadores.

Nenhum elemento é tão claro e cristalino no ritual maçônico como este – visivelmente Deus como o Grande Arquiteto do Universo: um Deus que não interfere nos assuntos humanos, mas cuja própria natureza ordena a estrutura toda a criação.

O deísmo está implícito em muitas filosofias gregas e romanas, notadamente o estoicismo de Marco Aurélio, que pode ser traçado através de três acadêmicos modernos que novamente montaram o cenário para a mente que pode ser encontrada na visão Maçônica do Universo: Jean Bodin (1530-1596); Pierre Charron (1541-1603), ambos franceses, e o Lorde Inglês Edward Herbert de Cherbury (1583-1648).

O deísmo também lembra a filosofia do nominalismo, representada na Inglaterra de forma mais visível por Guilherme de Ockham (1300-1349) que defendia a separação da fé, como ligando apenas com os atributos teológicos de Deus, da Razão, a marca registrada da filosofia Maçônica quatro séculos depois.

É importante ressaltar que o deísmo implica um tipo de prática nos assuntos públicos e no governo, o que primeiro fica evidente no papel das novas classes urbanas educadas na Inglaterra urbanizada[35].

Considerando que o estado medieval só visava a preservação da ordem; o Estado dos Tudor na Renascença e o Estado durante a era deísta do século XVIII presumiam que as elites educadas e seus afluentes seriam, por excelência, cidadãos ativos e informados.

Como o deísmo era, na verdade, a “religião” dos Pais Fundadores[36], estamos acostumados a pensar nisso como pano de fundo tanto para a Revolução Americana de 1776 quanto para a francesa de 1789.

Mas em termos de pré-Maçonaria, o deísmo é importante para entender porque foi o “compromisso” entre o medievalismo de Bruno e o ocultismo de Dee, o que foi aceitável para Desaguliers, Anderson e incontáveis outros progenitores da Grande Loja.

Mencionei os fundamentos políticos que tornaram esse compromisso necessários. Mas havia outras bases para uma limpeza (ou redução) do simbolismo maçônico na época: tornou-se intelectualmente e academicamente indefensável manter os fundamentos pré-cristãos, egípcios, para o simbolismo de Bruno e Dee após o trabalho acadêmico do anglicano suíço Isaac Casaubon (1559-1614), que refutou a existência de Hermes Trismegisto.

A carreira de Casaubon assinala o ponto em que a alquimia, o cabalismo e o hermetismo deixam de atrair estudiosos sérios e estabelecidos, e também o começo de uma elite intelectual, à parte das universidade e das principais sociedades eruditas, que buscavam estudos esotéricos.

Ele e seu filho Meric (1599-1671) desmentiram implacavelmente qualquer ideia de que uma visão do mundo mística, pré-cristã, da fraternidade universal jamais existiu. Se nos lembrarmos que John Dee articulou tal visão, que por sinal justificava a colonização do Império da Rainha Elizabete nos termos do Neoplatonismo[37], podemos entender que a respeitável visão de Dee foi tratada como um sopro da morte. Depois de Casaubon, e certamente depois da morte do contemporâneo de seu filho, o francês Jean Mabilon (1632-1707), o erudito beneditino francês que mais do que qualquer outro é o fundador da erudição histórica moderna, nenhum dos principais intelectos do final do século XVII ou XVIII quiseram tocar na história “mítica” associada a Dee ou Bruno. Se a história fosse escrita para dar um ponto moral, o ponto moral era o da filosofia política atual, como o Declínio e a Queda de Gibbon, e não uma defesa quase mística da fraternidade mundial.

O caminho para tornar o deísmo a filosofia predominante na Maçonaria foi um fatídico, contendo de aspectos positivos e negativos.

Do lado positivo estava o fato de que o deísmo era o único sucessor prático e abrangente do ocultismo de Bruno e Dee, que também defendia uma fraternidade mundial de harmonia e paz, sem o risco de ofender cientistas ou teólogos, ou apenas homens de negócios seculares comuns.

O lado negativo é que grande parte da profundida e riqueza do simbolismo maçônico foi provavelmente perdida, pelo menos até o surgimento dos chamados Altos Graus após 1750.

Eu suspeito que algo que foi perdido foi a possibilidade da Maçonaria permanecer o que certamente era na criação da Grande Loja: uma reunião de classe mundial dos maiores intelectuais da época. Depois de 1750, poucas grandes figuras da civilização, com exceção dos fundadores e de W.A. Mozart, eram intelectuais maçônicos autoconscientes. Foi talvez o preço da respeitabilidade que a Maçonaria deísta não atraiu, por qualquer razão, os principais líderes do século XIX, e certamente não do século XX.

Desassociado dos centros de erudição e intelecto, o ocultismo tornou-se cada vez mais idiossincrático, sob a liderança de pessoas como Robert Fludd (1574-1637), que debateu com Casaubon, mas sem se dedicar ou refutar a seriedade de seus pontos[38].

E sem o que poderia ser chamado de centro espiritual, o deísmo, sob a liderança intelectual de homens como John Toland (1670-1722), tornou-se cada vez mais iconoclástico e anticlerical.

Enquanto Fludd estava tentando “restabelecer” a capacidade da arquitetura e da música para evocar a harmonia divina dentro do homem, Tolan, o deísta quintessencial, escreveu um livro, Christianity Not Mysterious (A Cristandade Sem Mistérios – 1696) no qual ele afirma que tudo o que precisamos conhecer de Deus pode ser discernido pela razão humana. O primo intelectual de Toland era Voltaire, e os outros filósofos franceses, que tinham a mesma tendência.

É aqui que nós fazemos o círculo completo. Suspeito que a genialidade dos Pais Fundadores era que eles perceberam que havia mais do que uma conexão passageira entre o deísmo racional do Iluminismo e a riqueza simbólica anterior mais profunda de Giordano Bruno e John Dee. Pelo menos, eles mantinham um senso aguçado e afiado do poder do mito e do simbolismo, sem sucumbir ao ocultismo ou à superstição. Eles sabiam que estavam criando uma “nova ordem das eras”, que sua arquitetura e suas palavras descreviam, mas estabeleceram uma conexão intelectual entre a apreciação de Dee do poder do símbolo com a realidade e a racionalidade prática de Toland, sem o excesso de qualquer um dos dois. Quando vemos o excesso da Revolução Francesa e a terra de ninguém habitada pelos ocultistas do século XIX, talvez possamos ser gratos por esse pequeno grupo de maçons e seus amigos por terem uma visão, e alcançado essa visão na Republica Americana, e dentro da Fraternidade Maçônica de seu tempo.

Talvez a nossa tarefa, como maçons no século XXI, seja recuperar, rearticular e realizar essa visão mais uma vez, com relevância direta para o cosmos.

Autor: William H. Stemper Jr.
Tradução: Rodrigo Menezes

Fonte: Ritos & Rituais

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Notas

[1] – Joseph Campbell, The Power of Myth, New York: Doubleday, 1988, pp. 24-29.

[2] – cf. ” Building A National Image”: Architectural Drawings for the American Democracy, 1789-1912, Exhibition organized by the National Building Museum, Washington, D.C. IBM Gallery of Science and Art, New York City, May 12-July 11, 1987. Tim Hackler, “His Elective Highness,” Amtrak Express, Feb. March, 1989, 35 passim. Fred Pierce Corson, Address on Freemasonry and the Constitution, Philadelphia:, The Grand Lodge of Pennsylvania, 1937, p. 7, ff. “…Freemasonry was…the only common bond of unity in the Colonies in 1987 . . . “, p . 11.
Barbara Franco, “Scipio Lodge Reflects Time Capsule of Early 19th Century.” The Northern Light, February, 1989, p. 5, “Scipio Lodge’s classical proportions and Masonic symbolism created an environment that evoked both the republics of antiquity and the Masonic virtues. . . ”

[3] – cf. Sidney E. Mead, The Lively Experiment, New York: Harper & Row, 1963, pp. 38-52. Also H. Richard Niebuhr, The Social Sources of Denominationalism, Cleveland and New York: World Publishing Company, pp. 208-209, ff. Note the impact of Church–State separation on the denominational identity of evolving immigrant churches.

[4] – Wilson Carey McWilliams, The Idea of Fraternity in America, Berkeley, CA: University of California Press, 1974, n.b., comparison of Enlightenment and Puritanism, p. 172 .

[5] – cf. Thomas Bender, New York Intellect, Baltimore: The John Hopkins University Press, 1987, pp. 60-68; E. Dolby Baltzell, Puritan Boston and Quaker Philadelphia, Boston: Beacon Press, 179-

[6] – cf. Lynn Dumenil, Freemasonry in American Culture lb’b’0-1930, Princeton University Press, 1984, pp. 7-8, passim. The Symbolic Strata: The Essential Emblems of Fraternity.

[7] – William H. StemperJr., “Freemasons,” The Encyclopedia of Religion, New York: Macmillan Publishing Company, Vol. V., pp. 416-419.

[8] – H.W. Coil, Masonic Encyclopedia, New York: Macoy Publishing and Masonic Supply Company, 1961, p. 163, date dea. 1740-1743.

[9] – William Wordsworth’s “Preface” to Lyrical Ballads.

[10] – Alex Horne, King Solomon’s Temple in the Masonic Tradition, N. Hollywood, CA: Wilshire Book Company, pp. 29-40. Helen Rosenau, “Vision of the Temple: The Image of the Temple of Jerusalem in Judaism and Christianity, ” London: Oresko Books Ltd. 1979, pp. 103, 133.

[11] – Alex Horne, Sources of Masonic Symbolism, Trenton, MO: The Missouri Lodge of Research, 1981, pp. 73 ff.

[12] – Campbell, p. 25 and earlier Horne, Sources…. p. 63.

[13] – cf. Richard H. Sands, “Physicists, The Royal Society and Freemasonry, ” The Philalethes, Vol. XXXIV, Number 6, pp. 11-16. Robin D. Gwynn, Huguenot Herita, ?c, London: Routledge, Chapman, and Hall, 1985, pp. 89-

[14] – Cyril N. Batham, “The Origin of Speculative Freemasonry: A New Hypothesis,” un-published paper, given to The Goose and Gridiron Society of the United States, October 1986. But also compare, Harry Carr, “The Transition From Operative to Speculative Masonry” T.L.R., September 15, 1979.

[15] – cf. Paul Oskar Kristeller, Renaissance Thought New York: Harper and Row, 1961, p. 21, n.b. Thomas More, passim.

[16a] – Arthur B. Ferguson, The Indian Summer of English Chivalry, Durham, N.C.: Duke University Press, 1960.

[16b] – Richard Barber, The Knight and Chivalry, New York: Harper and Row, 1974, pp. 311 ff.

[17] – Francis A. Yates, Giordano Bruno and the Hermetic Tradition, The University of Chicago Press and London: Routledge and Kegan Paul, 1964, pp. 275 ff.

[18] – Yates, supra, p. 415. Yates, supra, p. 274.

[19] – cf. Alexander Passerin D’Entreves, Thc Medieval Contribution to Political Thought: Thomas Aquinas, Marsilius of Padua, Richard Hooker, New York: the Humanities Press, 1959, pp. 103 ff.

[20] – Also cf. Eric Voegelin, The New Science of Politics, Chicago and London: The University of Chicago Press, 1952, pp. 135 ff.

[21] – The Standard Biography is Peter J. French, John Dee: The World of an Elizabethan Magus, London: Routledge and Kegan Paul, 1972. É importante notar o relacionamento entre a Mágica Renascença e a Religião Ortodoxa no século 17 que não é tão definida, o que sugere que a complexidade na separação do “oculto” do “racional” no início das Constituições Maçônicas, por exemplo Keith Thomas, Religion and the Decline of Magic, Harmondswoth, Middlesex, England: Penguin Books, 1984, pp. 318-323 ff. Also note references to King Solomon’s Temple, Hermes, Pythagoras d. at. in English translations of the German Mystic Jacob Boehme (1575-1624), cited in Rufus Jones, “Jacob Boehme’s Influence in Eng-land ” pp. 208-234, Spiritual Reformers in the 16th and 17th Centuries, London: Macmillan and Co., 1914.

[22] – French, p. 57.

[23] – French, p. 58.

[24] – French, p. 58-59.

[25] – Horne, Symbolism, supra.

[26] – cf. Frances A. Yates, The Art of Memory, The University of Chicago Press, 1966, pp. 303-305.

[27] – cf. A.C . F. Jackson, Rose Croix–A History of the Ancient and Accepted Rite for England and Wales London: Lewis Masonic, 1980, pp. 17 ff., and James Fairbairn Smith, The Rise of the Ecossais Degrees, Dayton, Ohio: The Otterbein Press, 1965, pp. 11 ff.

[28] – Terrence Haunch, Anson Jones Lecture Transactions Texas Lodge of Research, June 18,1983 March 11, 1984, Waco, Texas Vol. XIX. ~. 155.

[29] – Oliver’s laborious The Antiquities of Freemasonry comprising illustrations of the Fioc Crand Paiods o Masony, from the creation of the World to the Dedication of King Solomon’s Temple, 1823.

[30] – Town’s A Systa II of Speculation Masonry, Salem New York: Dodd and Stevenson, 1818, n.b. pp. 98-99.

[31] – Also cf . Rosenau, supra .

[32] – cf. Frances A. Yates, The Rosicrucian Enlightenment, Boulder, CO: Shambbala Publications Inc., 1972, pp. 206-220; Christopher McIntosh, The Rosicrucians, Denington Estate, Wellingborougb, North Hamptonshire, UK: Crucible, pp. 50, 60, 67 68, 81, 82 passim.

[33] – I Kings 5-9; II Chronicles 2-8; Ezekiel 40-47.

[34] – F.L. Cross, Oxford Dictionary of the Christian Church, entries pp. 925, 360-361 passim.

[35] – cf. Arthur B. Ferguson, The Artuulate Citizan and the English Ranaissance, Durham, N.C.: Duke University Press, 1965, pps. 402-409. Edwin S. Gaustad, Faith of Our Fathers: Religion and the New Nation, San Francisco: Harper and Row, 1987. Also cf. interest in American philosophy in Plato, with more practical Roman philosophers, p. 86.

[36] – cf. Henry Steele Commager, The Empire of Reason, Garden City, N.Y.: Anchor Doubleday 1978, pP 43 ff

[37] – cf. E . M . W . Tillyard, The Elizabethan World Picture in New York: Vintage Random House, n.d.,

[38] – cf. Utriusque cosmi, maioris scilied et minores metaphysical, physicae atique technica historiac, Vol. I Oppenheim, 1617, Vol. II 1619.

Maçonaria moderna: o legado escocês – Parte II

The Freemasons Hall, home of The United Grand Lodge of England: Uncovering  a few hidden treasures | Masonic lodge, Masonic, Freemason

Segundo Stevenson (2009), referindo-se à maçonaria na Escócia, “já em meados do século XVII, podem ser detectados nas Lojas ideais semelhantes, em muitos aspectos, aos da maçonaria moderna, além de um significativo número de homens que não eram pedreiros sendo admitidos nelas”. Estendendo-se até século XVIII, afirma que “uma das funções básicas de muitas Lojas era regulamentar a vida profissional dos pedreiros livres”.

Vale destacar que, já em 1600, registrou-se o ingresso de Sir John Boswell, iniciado na Loja Capela de Santa Maria em Edimburgo na Escócia, considerado um dos primeiros maçons “não operativos” ou “aceitos” conhecidos. Registre-se que, até o Tratado da União de 1707, que criou o Reino da Grã-Bretanha, a Escócia era um país considerado inimigo da Inglaterra. Outro renomado iniciado foi Elias Ashmole (1617-1692), antiquário, político, oficial de armas, estudante de astrologia e alquimia britânico, recebido em uma confraria dos obreiros maçons em 1646, em Warrington (condado de Lancashire/Inglaterra), pertencente ao grupo de cientistas e livres pensadores que mais tarde fizeram parte da Sociedade Real de Londres (Royal Society), que nenhuma relação tinha com a Maçonaria.

Destaca Benimeli (2007), jesuíta e historiador não maçônico, que na Escócia, “em 1670, na Loja de Aberdeen, três quartos de seus 40 afiliados eram advogados, médicos e comerciantes. Exatamente nessa Loja já existia a distinção entre os construtores de edifícios e aqueles que se de dedicavam às especulações sobre geometria”.

O período de transição entre a Maçonaria Operativa e Especulativa teve mais consistência entre 1660 e 1716, segundo o historiador alemão Findel (citado por Benimeli, 2007), época de distúrbios civis. Transcorridos 117 anos desde a afluência dos “aceitos”, não mais atuava a força operativa que dera origem àquelas organizações, passando os associados à condição de especulativos, com os encargos das atividades operativas deixadas aos cuidados dos sindicatos e partidos políticos.

Por sua vez, Stevenson (2009), argumenta que evidências do século XVII relacionadas ao desenvolvimento da Maçonaria são abundantes na Escócia e quase inexistentes na Inglaterra. Afirma que em Lojas na Inglaterra, desde a década de 1640, é registrada a iniciação de cavalheiros, mas o processo é mais obscuro.

“O elo com os pedreiros e suas organizações era fraco, e os segredos possuídos pelos maçons ingleses e suas organizações em Lojas parece ter vindo da Escócia, sugerindo que, enquanto lá a maçonaria surgira das verdadeiras práticas de pedreiros trabalhadores, na Inglaterra ela fora, pelo menos em parte, importada da Escócia, em Lojas sendo criadas por cavalheiros e para os cavalheiros.” (grifo nosso).

Pesquisas indicam que nos registros ingleses no ano de 1600, o sistema de guildas já estava enfraquecido, não podendo ser comprovada a existência de Lojas Operativas. É nesse contexto que reside o busílis, dando respaldo para os críticos de uma transição não documentada, evidenciando-se o surgimento de lojas maçônicas na Inglaterra com caráter puramente especulativo, que Stevenson (2009) denomina de “artificiais”. Remanesce, portanto, a dúvida quanto à condição dos não operativos, se seriam ou não efetivamente especulativos ou, ainda, se poderiam ser equiparados à condição de membros honorários, como se conhece atualmente.

Provisoriamente, o que se sabe, é que tudo isso desaguou em 1717, no dia 24 de junho, quando três lojas londrinas e uma loja de Westminster, cujos membros eram então exclusivamente especulativos, numa tacada de mestre, formaram a Grande Loja de Londres e Westminster, marco histórico que introduziu o sistema Obediencial, incorporando cerimônias e regras tradicionais das antigas Lojas de obreiros-aceitos, tipo copia e cola avant la lettre do modelo escocês, com a eleição de um Grão-Mestre (Anthony Sayer) e outros oficiais.

Com isso, personalidades como James Anderson e J. T. Désaguliers, seguidores de Lutero, passaram elaborar a maior parte do material então adotado. Anderson (1679-1739), escocês de Aberdeen, ordenado ministro presbiteriano da Igreja da Escócia em 1707, e profundo conhecedor da evolução das Lojas em seu país de origem, é considerado o autor do documento de fundação da moderna Maçonaria Especulativa, publicado em 1723, no qual faz referência à célebre reunião da noite de São João do ano 1717 como data de fundação da primeira Grande Loja (vide Nota 1).

Na elaboração de sua Constituição, onde produziu uma apologia sobre os antecedentes históricos da “entidade então restaurada”, Anderson buscou subsídios nos antigos manuscritos, estatutos e regulamentos da Maçonaria Operativa da Escócia, Inglaterra e Itália. Conforme afirma Anatalino (2007), Anderson estipulou que nenhum irmão poderia ser supervisor (entenda-se Vigilante), sem antes ter passado pelo grau de Companheiro; nem Mestre (entenda-se Venerável) antes de ter exercido as funções de supervisor (Vigilante).

A admissão de novos membros ficou então condicionada ao atendimento do pré-requisito de crença em um Ser Supremo, admitindo-se homens de todas as religiões e tendo como tema central o comportamento moral, o auto aperfeiçoamento constante e a dedicação à caridade. A Maçonaria foi acusada de descristianização em 1723, com a permissão de entrada de adeptos de outros credos que não o catolicismo.

Essa “transição” da Maçonaria dos Aceitos, desde 1600 na Escócia, para a condição de Especulativa por excelência ou Maçonaria Moderna, como se afirma desde então, exigiu adaptação dos títulos maçônicos para fins de adequação a uma estrutura que funcionaria nos moldes de uma escola, com a escolha de alguns Mestres entre os Companheiros para administrar e conduzir os trabalhos. Não há indícios de que, na época, os ingleses pensassem numa confederação que se estendesse além de Londres e de Westminster. Pouco a pouco, outras Lojas Maçônicas, a maioria em torno de Londres, uniram-se à nova Grande Loja.

Segundo Stevenson (2009), a partir do século XVIII, os ingleses começaram a inovar e adaptar o movimento e assumindo a liderança no desenvolvimento da Maçonaria originária na Escócia, afirma, com alguns dos valores associados ao Iluminismo sendo incorporados. “À medida que a Idade da Razão alvorecia, a maçonaria – nascida da Renascença – era adaptada para acomodar-se ao novo clima”. Segundo o irmão Alex Davidson, “a maçonaria ‘especulativa’ pode ter-se desenvolvido a partir da influência de William Schaw na Escócia e posteriormente disseminada para Inglaterra, mas a essência da maçonaria iluminista é caracteristicamente inglesa, e o que foi reexportado para a Escócia no início do século XVIII era algo novo. A ênfase em constituições, leis e governança originou-se em Londres”.

Stevenson (2009) ressalta ainda que, “começando na Grã-Bretanha, a maçonaria se espalhou pela Europa em meados do século XVIII, de uma maneira assombrosa”. Contrapondo-se à corrente inglesa, comenta que a criação da Grande Loja de Londres em 1717 “é quase irrelevante no longo processo de avanço do movimento, pois embora a Grande Loja Inglesa tenha tido um importante papel na organização da maçonaria, quando fundada ela apenas reuniu quatro Lojas de Londres”. Porém, aduz que “o fato de a Inglaterra ter dado o primeiro passo em direção à organização nacional e de tal gesto ser imitado subsequentemente na Irlanda (c.1725) e na Escócia (1736), levou muitos historiadores maçônicos ingleses a concluir levianamente que a maçonaria se originou na Inglaterra, que depois teria passado para o resto do mundo”.

As lojas maçônicas passaram a ser consideradas como centro de influência inglesa e, portanto, contrárias aos interesses das famílias dinásticas europeias, de orientação católica. Provocaram incômodo nos poderes dominantes de cada país, despertando o receio de conspirações para derrubada e tomada do poder pelo grande afluxo de nobres e aristocratas aos seus quadros. Não podemos olvidar que, desde o rompimento com a Igreja Católica e a criação da Igreja Anglicana, em 1534, a Inglaterra ignorava a autoridade do Sumo Pontífice. O rei Henrique VIII se autoproclamara único protetor e chefe supremo da Igreja e do clero da Inglaterra e confiscou, à época, todos os bens da Igreja Católica e aboliu o celibato dos padres.

A primeira objeção formal ao conceito de Grande Loja veio em 1725 pela Loja Maçônica de York, localizada na cidade inglesa de mesmo nome, frente à assumida superioridade e antiguidade dos londrinos. No ano de 1737, teve início uma explosão da Maçonaria na França, dando “início à proliferação de novas ordens maçônicas e à criação de novas lendas e fantasias que confundem qualquer tentativa séria de compreender a maçonaria moderna, mesmo nos Estados Unidos”, conforme registra o historiador não maçônico John Robinson (2014).

Na antiga Maçonaria Operativa não existia o grau de Mestre, apenas os de Companheiro (Fellow) e Aprendizes. O titulo de Mestre era dado apenas ao presidente da Loja, eleito entre os Companheiros ou adquirido por herança. O Grau de Mestre Maçom somente seria implantado a partir de 1738, apesar de criado em 1725, quando a Maçonaria passou a ser iniciática. Até 1725 não havia “Iniciação” e sim uma “Recepção” de um novo membro ou sócio, que consistia de um compromisso prestado sobre o Livro de Registro da Confraria e, tempos mais tarde, sobre o Evangelho de São João (Carvalho, 1997). Outras fontes registram a criação deste grau em 1723 e efetiva implantação em 1738.

A confusão com caráter religioso deu-se com o formato das cerimônias no recinto das Lojas, que levaram a Maçonaria britânica das tabernas para salas e edifícios construídos especialmente para isso, introduzindo-se música de órgão e a composição de hinos a ser cantados pelos irmãos. Funerais maçônicos, preparados com os emblemas da Ordem, ocorriam em Igrejas Protestantes, onde, após o ministro terminar seu serviço, os maçons tomavam a vez com os próprios ritos, dando a entender ao público de que a Maçonaria era uma Ordem “religiosa” à parte.

Um famoso personagem, iniciado em 1730, motivo de controvérsias e considerado responsável pelo prestígio da Maçonaria, foi o também escocês Michel Andrew Ramsay (1686-1743), “profundo conhecedor da história antiga e moderna, doutor pela Universidade de Oxford e membro da Sociedade Real de Londres, como muito outros maçons proeminentes da época” (Figueiredo, 2016). A ele é atribuído um polêmico discurso, “não pronunciado”, segundo consta, publicado em 1738, que ligaria a Maçonaria aos nobres das Cruzadas, argumento considerado uma invencionice, sem comprovação histórica, mas que promoveu uma efervescência à época, inclusive influenciando na elaboração e desenvolvimento dos altos graus maçônicos entre 1740 e 1780. Nesse discurso é dado um ar de aristocracia à Maçonaria. Os detratores do Cavaleiro Ramsay argumentam que ele não aceitava a verdadeira origem humilde dos maçons construtores e analfabetos, tendo então inventado essa narrativa.

A Maçonaria despertou mais inimizades do que qualquer outra organização secular na história mundial. Difamadores ganharam força ao longo do tempo em face da tradição da Maçonaria em não responder aos ataques, beneficiando-se do conceito de “confissão de silêncio”, mesmo atualmente com a sociedade dominada pela mídia. Por isso, “os Maçons podem estar destinados a permanecer controversos, embora a legião de críticos sejam facilmente desafiadas pelas legiões de notáveis que escolheram ser membros dela” (Robinson, 2014).

Com a expansão da Maçonaria a partir da fundação da Grande Loja da Inglaterra e Westminster e os novos pensamentos elaborados pela dupla Anderson & Désaguliers, passou-se a exigir que as demais Lojas europeias lhe rendessem obediência. Mas, isso causou repercussões no âmbito da Igreja Católica, então Senhora do Mundo, que entendeu não ter reconhecido tal direito às quatro Lojas de Londres, pois cabia a Roma a competência para delegar poderes e concedê-los absolutos dentro dos comportamentos humanísticos, coroando reis e dando forma jurídica às nações.

A Maçonaria passou, então, a ser vista pela Igreja Católica como uma “seita” vinculada à dissidente religião Anglicana. Por isso, nos séculos seguintes, “a maçonaria foi alvo de mais bulas e encíclicas papais odientas do que qualquer outra organização secular na história cristã” (Robinson, 2014). (Sugerimos a leitura do artigo “Maçonaria e Igreja Católica, reconciliação improvável” – Partes I, II, II e IV, em:  https://opontodentrocirculo.com/2018/10/08/maconaria-e-igreja-catolica-reconciliacao-improvavel/).

A Maçonaria inglesa passou ainda por ajustes, tendo em vista a formação de uma Potência rival em 1751, a Grande Loja da Inglaterra, que se apresentou como depositária das Antigas Instituições. Lawrence Dermott (1720-1791), irlandês, eleito segundo Grande Secretário em 1752, escreveu em 1756 o “Ahiman Rezon”, adotado como Constituição para suas Lojas jurisdicionadas. Dermott combatia a narrativa lendária da Maçonaria criada por James Anderson, a quem denominava de “Modernos”. Em 1813, as duas se uniram, formando a Grande Loja Unida da Inglaterra (GLUI).

O primeiro Templo Maçônico inglês fixo foi construído entre 1772 e 1776, o conhecido “Freemason Hall”. O Grande Oriente da França (GOF), nascido em 1728, como Primeira Grande Loja da França, tendo tomado a sua forma e atual nome em 1773, conseguiu, no ano de 1788, o seu primeiro Templo, proibindo a reunião em tabernas, a partir de então. Entretanto, por divergências de práticas, o GOF não tem tratado de reconhecimento junto à Maçonaria inglesa. Somente a Grande Loja Nacional Francesa (GLNF), fundada em 1913, a partir do GOF, tem reconhecimento junto à GLUI. Enfim, no que se refere aos Protocolos e práticas litúrgicas e ritualísticas adotadas pelas diversas Potências, são marcantes as influências anglo-saxônica (teísta) e francesa/latina (deísta), sobre a estrutura do simbolismo do REAA, em especial, considerando-se que cada país preserva sua autonomia para defini-los.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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Referências

ANATALINO, João. Conhecendo a Arte Real. São Paulo: Madras, 2007;

ASLAN, Nicola.  A Maçonaria Operativa Escocesa. Disponível em https://www.revistaartereal.com.br/wp-content/uploads/2014/02/A-MACONARIA-OPERATIVA-ESCOCESA-Nicola-Aslan.pdf

CARVALHO, Assis. A Descristianização da Maçonaria. Londrina: Ed. “A Trolha”, 1997;

DAVIDSON, Alex. O Conceito Maçônico de Liberdade – Maçonaria e o Iluminismo. Artigo em: https://bibliot3ca.com/o-conceito-maconico-de-liberdade-maconaria-e-o-iluminismo/

FERRER-BENIMELI, José Antônio. Arquivos secretos do vaticano e a franco-maçonaria. São Paulo: Madras, 2007;

FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio. Dicionário de Maçonaria: seus mistérios, ritos, filosofia, história. São Paulo: Pensamento, 2016;

MELLOR, Alec. Os Grandes Problemas da Atual Franco-Maçonaria – Os novos rumos da Franco-Maçonaria. São Paulo, Pensamento, 1976;

OLIVEIRA FILHO, Denizart Silveira. Da Iniciação Rumo à Elevação. Londrina: Editora Maçônica “A Trolha”, 2012;

___________________________. Da Elevação Rumo à Exaltação. Londrina: Editora Maçônica “A Trolha”, 2013;

ROBINSON, John J. Nascidos do Sangue. São Paulo: Madras, 2014;

STEVENSON, David. As Origens da Maçonaria: O Século da Escócia (1590 – 1710). São Paulo: Madras, 2009;

VICENTINO, Cláudio. História Geral. São Paulo: Editora Scipione, 1992;

XAVIER, Arnaldo. Saiba o que são Maçonarias. Belo Horizonte: Label Artes Gráficas, 2010;

Blog do Pedro Juk, em: http://pedro-juk.blogspot.com/

Blog “Freemason”, em: http://www.freemasons-freemasonry.com/regius.html

______________, em http://maconico.com.br/a-carta-de-bolonha-1248-o-mais-antigo-documento-maconico-freemason-pt/

Blog “No Esquadro”, em:  https://www.noesquadro.com.br

Blog “O Ponto Dentro do Círculo”, em: https://opontodentrocirculo.com/2019/10/08/a-maconaria-inventada/

_________________________, em: https://opontodentrocirculo.com/2018/06/03/o-manuscrito-cooke/ _________________________, em https://opontodentrocirculo.com/2021/02/06/consideracoes-sobre-o-poema-regius-do-seculo-xiv/

O DNA da Maçonaria – Por que?

O cavaleiro Ramsay e a origem da Maçonaria - Freemason.pt

O que teria levado os ingleses a criar uma sociedade que se caracterizava por permitir a reunião, sigilo e vínculos de fidelidade garantidos por juramentos?

A maioria dos maçons gosta de acreditar em motivações de cunho moral, de pessoas interessadas em especular sobre os mistérios da vida e da morte e outras motivações tão nobres quanto falaciosas.

A razão pode ser algo bem mais grave, objetivo e, a meu ver, mais edificante do que sonha nossa vã filosofia.

Vejamos o que ocorria naquele momento histórico.

Os Jacobitas e a União

A União de 1707 entre a Escócia e a Inglaterra era altamente impopular junto à grande maioria da população, na Escócia. Diversos artigos do acordo da Lei da União eram economicamente favoráveis aos proprietários de terras na Escócia, mas não conseguiam oferecer quaisquer vantagens econômicas à maioria da população por mais de 30 anos. O descontentamento era geral e tumultos motivados por alimentos ocorreram nos burgos da costa leste à medida que os efeitos da fome eram agravados pelos impostos da união. Embora a situação induzisse a resistência à união econômica, ela não se traduzia em apoio universal à causa jacobita de manter os Stuarts no trono, em Londres. Muitos, na Escócia, agora associavam os Stuarts ao catolicismo e à supressão da Igreja protestante. A União estava decidia a pôr fim às esperanças dos Jacobitas de uma restauração Stuart, garantindo que a dinastia alemã de Hanover sucedesse a Rainha Anne após a sua morte. Mas, os Stuarts ainda comandavam grande parte da lealdade na Escócia, França e Inglaterra – a União Britânica inevitavelmente reacendeu a causa jacobita.

Em 1708, o pretendente jacobita ao trono, o suposto James VIII, e seus aliados franceses haviam tentado desembarcar na Escócia para incitar um levante, mas foram frustrados pelas condições climáticas adversas e vencidos pela Marinha Real. Seis anos mais tarde, uma moção na Câmara dos Lordes para desmantelar a União falhou por apenas quatro votos. Em seguida, no mesmo ano, a rainha Ana morreu e foi sucedida por Jorge I de Hanover. A questão controversa da sucessão se intensificou e no ano seguinte, muitos nobres e conservadores, descontentes com a sua parte dentro da união, levantaram-se em favor de uma monarquia Stuart.

O Levante Jacobita de 1715

O levante de 1715 foi liderado por John Erskine, Conde de Mar – um homem que tinha votado a favor da União inicialmente e que fora secretário de Estado até 1714. Ele tinha a maioria de seu apoio ao norte do rio Tay, no Planalto Nodeste e nas terras altas da Escócia – áreas onde os latifundiários não se beneficiavam muito com a União e onde o Episcopalianismo (que via os Stuarts como chefes de sua igreja) era dominante.

Mas, o conde de Mar, não se provou um grande líder militar. Ele travou uma batalha muito mal comandada em Sherriffmuir, onde os jacobitas superavam as forças Hanoverianas sob o Duque de Argyll em dois para um, mas falhou em conseguir uma vitória decisiva. Nem mesmo a chegada e coroação de James Stuart como o rei James VIII conseguiu reverter a sorte Jacobita. Eventualmente, o levante fracassou quando 6.000 soldados holandeses desembarcaram em apoio ao governo de Hanover, e as forças do rei James se dispersaram sob a pressão de má liderança e falta de ajuda externa.

Em consequência deste estado de coisas, o governo reagiu prontamente com a votação e decreto do Riot Act (Lei da Rebelião), em 1714, lei esta que entrou em vigor em 1715 que continha o seguinte:

Cap V

Considerando que nos últimos tempos muitos motins rebeldes e tumultos têm ocorrido em diversas partes do reino, para a perturbação da paz publica, e o perigo para a pessoa de Sua Majestade e do governo, o mesmo ainda continua sendo fomentado por pessoas descontentes com Sua Majestade, presumindo assim fazer, para que as punições previstas pela legislação atual não sendo adequada para tais crimes hediondos; Sua Majestade e seu governo tendo sido de forma mal intencionadamente interpretada por tais rebeldes com a intenção de aumentar as divisões, e alienar a afeição do povo de Sua Majestade, por conseguinte, para a prevenção e repressão de distúrbios e tumultos como estes, e para a mais célere e efetiva punição dos infratores nelas envolvidos, seja promulgada por sua mais excelente majestade o Rei, por e com o conselho e consentimento dos lordes espirituais e temporais e dos comuns, neste atual Parlamento reunido, e pela autoridade do mesmo;

Que se qualquer pessoa até o número de doze ou mais, sendo ilegal, rebelde e desordenadamente reunidos, em perturbação do sossego público, em qualquer momento após o último dia do mês de Julho no ano de nosso Senhor, 1715, e sendo requisitado ou ordenado por qualquer uma juiz ou juízes, ou pelo xerife do condado, ou o seu sub-xerife, ou pelo prefeito, oficial ou oficiais de justiça, ou outro chefe ou juiz de paz de qualquer capital ou cidade, onde tal assembleia se reúna, por decreto a ser feito em nome do rei, sob a forma doravante ordenada, a dispersar-se, e afastar-se em paz para suas habitações, ou aos seus negócios lícitos, devem, o tal número de doze ou mais (não obstante tal proclamação feita) de forma ilegal, desenfreada e desordenada permanecer ou continuar juntos pelo espaço de uma hora após o comando ou solicitação feita pela proclamação, então, tal permanência do número de doze ou mais ou feita tal proclamação, será julgado crime sem o benefício do clero, e os infratores serão condenados como criminosos, e sofrerão a morte como no caso de crime, sem o benefício do clero. (Grifos do Tradutor)

Teria sido uma mera coincidência que dois anos depois disso surgisse uma organização cuja principal característica é a reunião de pessoas?

Isso altera, e muito, a visão que se tem da maçonaria especulativa. Estamos acostumados a achar que a vida nesta época era um mar de rosas, mas a realidade era de uma ditadura sufocante e a Maçonaria surgiu pela primeira vez como um porto seguro para os lutadores da liberdade, que viria a se repetir nos Estados Unidos em 1776, na França em 1789 e no Brasil em 1822.

Ou os homens livres e de bons costumes de uma nascente burguesia desejosa de participar dos destinos da nação se sentiram oprimidos e buscaram uma saída que lhes garantisse a impunidade diante de tal lei draconiana? E levaram dois anos para “aparelhar” a maçonaria operativa?

A verdade é que o Establishment inglês, ou a Coroa, encarregou os pastores Desagulliers e Anderson de desativar a bomba relógio criada com o Riot Act. E eles se sairam muito bem, pelo menos no que diz respeito à Inglaterra.

Mas, eles não faziam ideia do monstro que haviam criado. Quando a nascente instituição foi transplantada para o Continente, ela assumiu o mesmo formato de controle social, sendo via de regra dirigida pelo monarca como Grão-Mestre e as lojas utilizadas para enquadrar a parcela pensante da população.  Foi assim na Alemanha e em outros centros monarquicos.

Uma parcela pensante da sociedade francesa aderiu à maçonaria, que se transformou em vibrantes centros de discussão. A maçonaria, mesmo não sendo a responsável direta pela queda da Bastilha, transformou-se em uma ameaça entre os aristocratas da época. Posteriormente à revolução francesa, a Maçonaria Francesa assumiu uma postura progressista, ligada diretamente à Carta de 1717, adotando o princípio da isenção religiosa que a caracteriza até os dias atuais.

Mas, na América ela teve enorme influência nos movimentos de libertação, desde os Estados Unidos em 1776, até o Brasil em 1822, passando pelas colônias espanholas onde maçons como San Martin e Bolivar tiveram uma atuação crucial.

Atualmente, a maçonaria só tem uma atuação progressista na França, por meio do Grande Oriente de França, defendendo causas e participando ativamente da vida social. Também em Portugal, o ramo originário do Grande Oriente de França tem uma atuação proativa e progressiva.

No restante do mundo, continua a ser um instrumento de controle social e tem uma imagem de instituição retrógrada e conservadora.

Nas grandes capitais, devido à composição heterogênea das lojas, a atuação da Ordem é bastante limitada, ao passo que no interior tem grande influência e participa da vida da sociedade, mesmo em suas versões retrogradas e religiosas do rito escocês, adoniramita  e brasileiro.

Autor: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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