Plutarco e os “Mistérios de Ísis e Osíris”

Escrevi há muito tempo um resumo sobre os mistérios de Ísis e Osíris conforme a narração de Plutarco. Julgo conveniente começar com uma citação que extraí da parte 1 da obra De Iside et Osiride, de Plutarco:

Porquanto nada, para o homem, é mais grandioso receber nem, para Deus, é mais augusto agraciar que a verdade”.

Sabe-se que o culto de Ísis foi introduzido na Grécia antes de 330 a.C, o que é comprovado por inscrições em Peiraeus. Assim, é natural que, na própria cidade em que Plutarco (50–120 d.C.) nasceu houvesse cultos egípcios e inscrições referentes a Serápis, Ísis e Anúbis. O conjunto das obras morais de Plutarco, conhecido por Moralia, é imenso e, com certeza, a mais popular é a que ficou conhecida com a versão latina do título: De Iside et Osiride. Apesar da presença marcante da religiosidade egípcia na Grécia, Plutarco não era agudamente versado em cultura egípcia, mas certamente possuía um cabedal de conhecimentos razoavelmente elevado quanto a esse tema, provavelmente em decorrência das fontes a que teve acesso, principalmente Heródoto. Abstraindo-nos, contudo, de pequenos erros constantes na obra, ela é, mesmo assim, reconhecidamente majestosa. Fato interessante é que a obra De Iside et Osiride é dedicada a uma sacerdotisa de Delfos chamada Cléa, a quem Plutarco também dedica uma outra obra de sua Moralia, aquela que fala da bravura das mulheres. Só nos resta imaginar quão esplêndido há-de ter sido o caráter dessa sacerdotisa.

Exporei aqui o mais sucintamente possível o conteúdo da obra de Plutarco sobre os Mistérios de Ísis e Osíris. Os sinais “§” indicam a seção da obra a que se faz referência.

Mistérios de Ísis e Osíris

Ísis e a busca da Verdade (§§ 1–7)

A felicidade, que consiste no conhecimento da Verdade, é a mais augusta concessão divina. Plutarco o diz — e assim o reproduzimos na citação que introduz este ensaio -, logo no começo da obra, dirigindo-se a Cléa: “porquanto nada, para o homem, é mais grandioso receber nem, para Deus, é mais augusto agraciar que a verdade”. Se o homem é imortal, a imortalidade só se justifica pela possibilidade de se conhecer a Verdade. Assim, aspirar à Verdade é aspirar, ao mesmo tempo, à Divindade. Conhecer a Verdade é ser sábio: e Ísis é a deusa da Sabedoria. A sabedoria transcende a razão: ela requer o pensamento filosófico mais profundo. Com efeito, conforme afirma Plutarco, o verdadeiro isíaco recebe a tradição e submete-a à razão, aprofundando a Verdade pela filosofia.

Deus fez o Homem imortal com o objetivo de que conhecesse a Verdade e usufruísse da felicidade. Ísis é um símbolo dessa busca. Quando Plutarco diz que o iniciado nos Mistérios de Ísis deve submeter a tradição à razão e aprofundar a Verdade pela filosofia, quer dizer que os ensinamentos transmitidos aos iniciados isíacos devem ser objeto de reflexão racional, ou seja, de interpretação. O aprofundamento da Verdade sugere uma ampliação gradativa do conhecimento ou das possibilidades interpretativas. É uma afirmação, portanto, de que o conhecimento da Verdade, nos Mistérios de Ísis, também se dá através de graus nos quais o iniciado se aproxima cada vez mais da Verdade.

Os fundamentos dos mitos (§§ 8–11)

Os princípios que os egípcios introduziram em suas cerimônias não são fundamentados em superstições. Têm, ao contrário, fundamento em princípios morais, razões de utilidade, lembranças históricas ou explicações deduzidas dos fenômenos naturais. Tanto é assim que Plutarco adverte que, ao ouvirmos o que a mitologia egípcia relata, não devemos tomar tudo literalmente, mas interpretar.

Plutarco esclarece que, nos Mistérios de Ísis, os relatos mitológicos têm dois lados: o exotérico e o esotérico. O exotérico decorre do relato tal como é; o esotérico decorre do esforço interpretativo do iniciado.

Relato do mito de Ísis-Osíris-Tífon (§§ 12–19)

Aqui começa o relato do mito de Ísis, Osíris e Tífon, segundo a narrativa de Plutarco. Dado que devo ser sucinto, omitirei muitos detalhes, mas, espero, sem afetar a coesão lógica da história.

Réa, deusa do céu, teve uniões secretas com Cronos, deus da terra. O Sol — ou, ainda, Rá, o olho diurno do rosto celeste -, tendo descoberto, amaldiçoou Réa desejando que ela não pudesse dar à luz. Hermes, que dela era enamorado, jogou dados com a Lua, arrebatando-lhe a septuagésima segunda parte de seus dias de luz, formando, assim, cinco dias (com efeito, 360 ¸ 72 = 5, de modo que, adicionando-se esses 5 aos 360, temos os 365 dias do ano religioso). Nesses cinco dias adicionais, os egípcios celebravam o aniversário dos deuses. No primeiro dia nasceu Osíris; no segundo, Aruéris; no terceiro, Tífon; no quarto, Ísis e, no quinto, Néftis, que uns chamavam Teleuté e Afrodite ou ainda Vitória. Tífon, porém, nasceu de uma forma abrupta, fora de seu tempo e rasgando o flanco materno de um só golpe. Por essa razão, o terceiro dia dos dias adicionais era considerado nefasto. Ísis e Osíris, enamorados desde o ventre, uniram-se.

Osíris passou a reinar os egípcios, tirando-os das privações e da ignorância, percorrendo toda a terra para civilizá-la. Na sua ausência, Ísis mantinha estreita vigilância contra as investidas de Tífon, por natureza, malévolo. Regressando Osíris, Tífon planejou matá-lo. Inteirou-se das medidas do corpo de Osíris e construiu um ataúde com as mesmas medidas, decorando-o maravilhosamente e apresentando-o em um festim. Todos, no festim, ficaram arrebatados e Tífon prometeu presenteá-lo àquele que nele coubesse perfeitamente. Obviamente, apenas Osíris coube no esquife. No momento em Osíris lá estava, todos os convidados correram para fechar o ataúde, aprisionando-o lá dentro. Em seguida, o caixão foi jogado ao rio e deixado chegar até o mar pela boca Tanítica. Os Pãs e os Sátiros, que habitavam os arredores de Chemnis, uma cidade do Alto Egito, mais tarde chamada Panópolis, foram os primeiros a saber da tragédia, espalhando a notícia com espanto, a população ficando subitamente atemorizada pelos fatos. Desde então esse temor que tomou conta do povo passou a ser denominado pânico, em lembrança do dia de terrores alardeados pelos Pãs.

Quando Ísis soube, cortou uma mecha de seus cabelos, vestiu-se de luto e saiu vagando amargurada, perguntando a todos que encontrava sobre o paradeiro do esquife. Umas crianças que encontrou finalmente lhe indicaram o paradeiro. Ela também descobriu que Osíris uniu-se com sua irmã Néftis, pensando ser Ísis, e que dessa união nasceu uma criança chamada Anúbis. Encontrou a criança e alimentou-a, convertendo Anúbis em seu guardião e acompanhante.

Em seguida, avisaram-lhe que o esquife estacionara ao pé de uma tamareira, no território de Biblos. O rei de lá mandara cortar o tronco em que estava o esquife invisível e fazer com ele uma coluna para sustentar o teto de seu palácio. Ísis foi para lá, permanecendo silente, pranteando somente. As damas da rainha acolheram-na, pois Ísis se oferecera para entrançar-lhes os cabelos e impregná-las com o perfume que seu próprio corpo exalava. A rainha, encantada com a estrangeira, mandou chamá-la, fez dela sua amiga íntima e nomeou-a ama de leite de seu filho. Ísis, em vez de dar-lhe o seio, punha o dedo na boca da criança, queimando o que havia de mortal em seu corpo. Esse procedimento perdurou até que a rainha, tendo descoberto que Ísis queimava-lhe o filho, privando-o do privilégio da imortalidade, lançou agudos gritos. Foi só então que Ísis descobriu sua qualidade de deusa. Pediu, assim, a coluna, desprendeu-a, cobriu-a e ungiu-a, confiando-a aos cuidados do rei e da rainha. Ao encontrar o caixão, prostrou-se sobre ele, soluçando tão agudamente que o filho mais jovem do rei ficou como morto. Com a ajuda do filho maior do rei, ela o pôs em um navio e zarpou.

Conta Heródoto que, antes de sair em busca do féretro, Ísis confiou seu filho Hórus, que tivera com Osíris, a Outit, para protegê-lo das emboscadas de Tífon e guardá-lo até terminar sua busca. Esse detalhe não aparece na obra de Plutarco, mas esclarece o trecho seguinte da obra, §18, em que Plutarco diz que Ísis, antes de ir em busca de seu filho Hórus, depositou o féretro de Osíris em um lugar afastado. Tífon, porém, descobriu o esconderijo e cortou o corpo de Osíris em quatorze pedaços, lançando-os ao vento. Ísis partiu novamente, agora em um barco de papiro e em busca dos pedaços do corpo de Osíris. Encontrou-os todos, menos o falo, pois, quando Tífon o atirou ao rio, comeram-no o lepidoto, o capatão e o oxirrinco. São peixes e crustáceos da região. Para repor o membro, Ísis construiu uma imitação, daí a celebração do falo pelos egípcios.

Quando Osíris voltou dos infernos, treinou seu filho Hórus para o combate contra Tífon. O combate terminou com a vitória de Hórus. Tífon, amarrado, foi entregue a Ísis, mas esta o libertou. Hórus, indignado, arrancou-lhe da fronte o diadema real. Mas Hermes substituiu o diadema por uma peça com a forma de cabeça de vaca e pôs sobre a cabeça de Ísis.

Osíris, depois de morto, uniu-se novamente a Ísis e dessa união nasceu Harpocratas, prematuro e de pernas débeis. Para uns, Harpocratas é Hórus criança, o Sol nascente. Para outros, é o Sol no inverno.

As formas e o conteúdo dos mitos (§§ 20–31)

Plutarco rejeita a ideia de que os mitos relatem fatos tais como realmente ocorreram. O mito é a imagem de certa verdade que reflete um mesmo pensamento em diferentes ambientes, “como nos dão a entender esses ritos impregnados de luto e tristeza aparente, essas disposições arquitetônicas dos templos”. Plutarco ilustra essa generalidade com mitos do Egito e da Assíria.

Plutarco também rejeita a ideia de que os mitos apenas relembrem ações históricas de grandes homens ou deuses. Considera mais razoável (junto com Platão, Pitágoras, Xenócrates e Crisipo) a ideia de que os mitos relatem os reveses de “Gênios”. Gênios são homens dotados de uma natureza espiritual superior. Ele diz que “Ísis e Osíris, que foram bons Gênios, foram convertidos em deuses devido às suas virtudes, da mesma maneira como o foram Hércules e Dioniso”. Plutarco aborda aqui, por conseguinte, os fundamentos sócio-históricos dos mitos. Os mitos podem relatar os reveses de homens espiritualmente superiores que viveram entre nós e cujas vidas (ou o significado delas para os seus contemporâneos) foram retratadas, simbolicamente, nos mitos. Esses homens espiritualmente superiores (os gênios) foram elevados à categoria de deuses pelos próprios homens. Os ensinamentos desses gênios foram transmitidos a todos, como se verifica pela diversidade dos mitos em diferentes ambientes, em diferentes nações, mas refletem todos eles um mesmo pensamento. Essa unidade de pensamento se manifesta na natureza lúgubre dos mitos, ou seja, nos aspectos da morte, do sofrimento e do renascimento, e, também, na arquitetura dos templos.

Para ele, portanto, os diferentes mitos possuem um eixo comum.

A tríade Osíris-Ísis-Tífon (§§ 32–55)

Plutarco esboça interpretações mais filosóficas da tríade Osíris-Ísis-Tífon. Começa mencionando os que fazem a associação: Osíris = Nilo; Ísis = Terra; Tífon = mar. Segue apresentando outras interpretações baseadas nos fatos naturais (estações da seca, da chuva, fenômenos astronômicos, como eclipses etc.) até concluir que Tífon simboliza tudo que é nocivo na natureza (§45).

Com o intuito de interpretar a dualidade Osíris-Tífon, faz menção a uma doutrina muito antiga, a de que dois princípios opostos (regularidade e irregularidade) estão mesclados na Natureza. Faz, então, a associação (§52). Osíris é a Alma do mundo, inteligência e razão. De Osíris emana toda regularidade, tudo que é constante e saudável com relação às estações, temperatura, periodicidades etc. Tífon é tudo aquilo que, na alma do mundo, há de apaixonado, subversivo, irracional e impulsivo, tudo de perecível e nocivo no corpo do universo. Simboliza todas as desordens causadas pelas irregularidades e intempéries das estações, eclipses do Sol, ocultações da Lua. É a força opressora e constringente, é o transtorno, o salto para trás.

Após associar Osíris e Tífon ao princípio (hermético) da dualidade, interpreta Ísis como (§§53–55) sendo a Natureza considerada como mulher apta para receber toda geração.

Em suma, Osíris simboliza o princípio universal que torna o universo ordenado e regular. Ísis simboliza a Natureza, enquanto matéria-prima que potencialmente pode receber qualquer forma impressa pelo princípio ordenador. Tífon simboliza os desvios da regularidade, seja por deficiência, seja por excesso.

A tríade Osíris-Ísis-Hórus (§§ 56–66)

A natureza mais perfeita e divina compõe-se de três princípios: inteligência, matéria e mundo organizado (cosmo, o produto da união dos dois primeiros princípios), tríade essa simbolizada pelo triângulo retângulo de lados 3, 4 e 5, que Platão também ilustra na República:

Osíris concede os princípios. Ísis os recebe e distribui. Hórus é o mundo ordenado, resultado, ou melhor, síntese do princípio ativo de Osíris e do passivio de Ísis. Tífon é a perturbação pelo excesso ou pela deficiência.

Plutarco apenas reforça o que foi comentado quanto aos §§32–55, mas acrescenta a interpretação de Hórus, o filho de Osíris e Ísis. Hórus é o cosmo, o mundo ordenado e belo, fruto da inteligência organizadora que atua sobre a matéria-prima do universo.

Unicidade do conteúdo simbólico dos ritos (§§ 67–73)

Assim como o sol, a lua, o firmamento, a terra e o mar são conhecidos por todos os povos, ainda que por nomes diferentes, assim também essa razão única que regula o universo e as potências que a ajudam são objeto de homenagens e denominações que variam com a diversidade dos costumes. Esses diversos nomes e ritos servem de símbolos de uma verdade só: o princípio ternário do universo.

Plutarco afirma que a forma dos ritos varia, mas que seus significados simbólicos são universais e apontam todos para a mesma verdade. Dentro do contexto cultural em que se insere, o dos Mistérios de Ísis, Plutarco faz um belíssimo chamamento à tolerância religiosa e cultural e à visão de que todos os homens compartilham do mesmo desejo pela verdade.

Razões de utilidade (§§ 74–80)

Na parte final sua obra, Plutarco afirma que certos símbolos referem-se a fenômenos úteis ao Homem, isto é, que certos símbolos foram criados devido ao seu caráter educativo.

Conclusão

O que subjaz a obra de Plutarco não é propriamente o mito de Ísis e Osíris e suas diversas interpretações, mas um profundo sentimento de tolerância religiosa e cultural. Ao apresentar os diversos níveis interpretativos do mito, Plutarco deixa claro que, sob diversas formas, o mito é comum a todos os povos, pelo menos os principais povos conhecidos da época, embora a substância seja a mesma. E, principalmente, que em todos os casos, o que move a celebração do mito em cada povo é a busca da Verdade. Ele retoma, assim, a abertura da obra, quando diz que a busca da Verdade é o maior presente dos deuses aos homens e o melhor presente que os homens podem receber. Dessa forma, Plutarco defende a ideia de que todos os homens, não importando a cultura nem a religião, ainda que por caminhos aparentemente diferentes, são irmãos em busca de uma mesma Verdade Universal.

Autor: Rodrigo Peñaloza

Fonte: Medium

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O Julgamento de Osíris

O Julgamento de Osíris estava conectado com a ideia que os egípcios faziam da vida além túmulo. Essa vida transcorria-se numa região intermediária entre a terra e o céu, denominada Tuat.
 
O significado exato dessa palavra é desconhecido, mas geralmente ela é traduzida como “mundo do além”. Mais tarde, alguns estudiosos a associaram com a ideia de inferno, mas isso não é correto, já que o conceito de inferno integra sempre a ideia de um lugar onde as almas são castigadas sem esperança de remissão, o que não acontecia com a visão que os egípcios tinham da Tuat
 
E depois, o conceito de inferno apareceu bem mais tarde na história do pensamento religioso, a partir do desenvolvimento da cultura cristã. Na cultura egípcia essa noção era desconhecida. 
 
(….) 
 
Acreditava-se que todos os mortos eram levados para um salão, para ali serem julgados pelos deuses. “Os Senhores da Tuat”, era uma espécie de tribunal presidido pelo deus Osíris. Ali, um deus com cabeça de chacal, chamado Anúbis, pesava os corações dos defuntos numa balança, cujo contrapeso era uma pena de avestruz, símbolo da Maat. Se o peso encontrado fosse inferior ao peso da pena, o deus Thot, (ou Hermes segundo os gregos), anotava o nome do defunto entre aqueles que podiam subir na “Barca de Osíris”, também conhecida como a “barca de milhões de anos de Rá”, para atravessar a Tuat em direção ao território luminoso do Deus Rá (o Sol), onde seu espírito se uniria àquele deus, tornando-se também um astro
 
E o corpo do defunto, se todos seus atributos tivessem sido devidamente conservados, poderia continuar a viver eternamente nos Campos Elísios, na forma do seu ka. Eis aí o motivo do extraordinário desenvolvimento das técnicas de conservação de múmias entre os egípcios. Se o ib do morto,( coração, ou consciência), pesasse mais que a pena,(significando que o defunto não tinha praticado Maat em vida), ele era entregue á fera Ammit (ou Apépi ), que o devorava. 
 
(….) 
 
Essa representação é a base do ensinamento iniciático contido no mito de Osíris. O deus morto é como uma semente que se deposita no solo, e ali, na total ausência da luz, ela começa a regenerar-­se. Osíris é também como o Sol, que engolido pela serpente Apépi, atravessa as trevas da Tuat em busca da luz, semelhante à semente que, enterrada na escuridão da terra, rompe seu ventre e ressurge como planta nova para a luz do sol. 
 
Da mesma forma, o homem que morria podia ser regenerado na Tuat, se na sua vida terrena tivesse aprendido a praticar Maat. Daí o conteúdo iniciático dos Mistérios de Isis e Osíris. O iniciado aprendia, mediante a prática do ritual adequado, a regenerar-se em vida, renascendo simbolicamente no espírito.
 
Essa mesma ideia é desenvolvida na liturgia dos ritos maçônicos, por isso é que o conceito da Tuat tem muito interesse em qualquer estudo que se faça sobre a Maçonaria. 
 
É desse conceito que vem o simbolismo da morte iniciática e ressurreição do iniciado. Desde as mais remotas eras, os sacerdotes egípcios utilizavam a simbologia da morte e ressurreição do deus Osíris, como fórmulas para a transmissão de conhecimentos iniciáticos. Comparavam a vida do homem ao curso do Sol durante o dia e quando morria, ao tempo que corresponde à noite. Como o sol reaparecia todo dia, após vencer as trevas, também o homem poderia, repetindo certas fórmulas mágicas, renascer num novo corpo. 
 
Assim eles desenvolveram uma complexa escatologia, na qual as almas dos mortos que tivessem sido sepultados com todas as cerimônias prescritas pelos deuses, e conhecessem as palavras certas para pronunciar perante eles, poderiam acompanhar o Sol na sua barca, enquanto ele atravessava a parte da Tuat que eles deviam percorrer, enquanto estivessem mortos. 
 
(…) 
 
Todo o conteúdo mágico dos chamados Mistérios Egípcios visava a repetição simbólica desse processo de regeneração, pelo qual passava o deus em sua ressurreição, e que o iniciado devia repetir para poder ser, em vida, um adequado praticante de Maat, e após sua morte, ser julgado com benevolência pelos deuses. 
 
Dado o conteúdo profundamente esotérico dessa crença, não é de admirar que os organizadores do ritual da maçonaria (nos graus filosóficos) tenham se apropriado dela para passar aos iniciados a ideia de que o julgamento que realmente vale é o julgamento dos deuses. Não o julgamento faccioso dos inquisidores, nem o julgamento malicioso daqueles que nada sabem sobre o assunto que estão julgando. 
 
Resenha extraída do capítulo XXVIII do Livro ” O ILUMINISMO MAÇÔNICO”
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A lenda de Ísis e Osíris

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Era crença dos antigos egípcios, que a sua civilização lhes tinha sido transmitida diretamente pelo Deus Thoth, que viera a terra justamente para essa missão civilizadora. Ele lhes deu os rudimentos da civilização, ensinando-lhes a agricultura, a metalurgia e a organização social. Ele a ensinou a Osíris, o primeiro rei a governar em todas as terras do Egito, e este a propagou entre todos os povos do reino mantendo a harmonia e a paz no Egito até o dia em que foi assassinado por seu invejoso irmão Seth.

O Mito de Osíris e o drama da ressurreição desse deus, morto e esquartejado por Seth, seu invejoso irmão, é o conteúdo dos chamados Mistérios Egípcios, ou Mistérios de Ísis e Osíris. Na origem esses Mistérios eram tradições religiosas muito antigas, nas quais se celebrava o poder de regeneração concedida por esses deuses aos seus afiliados na terra. O conteúdo desses rituais nunca foi descrito na literatura egípcia e só se tornou conhecido no Ocidente através da narrativa feita por Plutarco, escritor grego do século V a.C., que escreveu um longo trabalho explicando o verdadeiro significado desse mito.

Em síntese, esse mito diz que Osíris era filho do deus Seb com a deusa Nut. Tornou-se rei do Egito, tendo ensinado para aquele povo todos os rudimentos da civilização. Teria sido também o introdutor do culto à deusa Maat, como forma de conservar o equilíbrio e a ordem no país dos egípcios, repetindo, dessa forma, o reino do céu na terra.

Tendo organizado o povo no vale do Nilo, partiu em peregrinação por toda a terra, para fazer o mesmo com outros povos. Na Babilônica ficou conhecido como Enlil, na Pérsia como Mitra, na Índia como Shiva, o civilizador. Enquanto peregrinava pelo mundo ensinando os povos os segredos da agricultura, da metalurgia, das artes e demais disciplinas que fazem uma civilização,  sua irmã e esposa Ísis ficou governando o Egito em seu lugar. Quando voltou, após implantar a civilização pelo resto do mundo, foi assassinado por seu irmão Seth, que escondeu seu corpo dentro de uma arca e o atirou ás águas do Rio Nilo.

Quando Ísis soube do ocorrido, partiu à procura do corpo encontrando-o, afinal, nas praias da cidade de Biblos, preso aos galhos de um tamarineiro. Todavia, o rei de Biblos, (esta não é a cidade fenícia onde foi inventado o termo Bíblia, mas um povoado egípcio que ficava numa das bocas do Nilo), havia cortado a referida árvore, para com ela sustentar o teto do seu palácio. Ísis, entretanto, conseguiu recuperar a arca com o corpo do marido e retornou ao Egito. Quando Seth soube que ela havia recuperado o corpo de Osíris, ele o roubou e cortou-o em quatorze partes, as quais enterrou em diversos lugares do país.

Ísis, ao tomar conhecimento da nova maldade de seu invejoso cunhado, saiu novamente à procura dos restos mortais do marido, e onde encontrava uma parte, sepultava-a com as devidas cerimônias, erguendo no lugar da tumba um templo em homenagem a Rá, o deus da luz. Tendo reunido todas as partes do corpo do rei assassinado, dando a cada uma delas sepultura de acordo com os rituais, foi possível a ela promover a sua regeneração. Osíris recomposto tornou-se um deus e foi feito governador da terra dos mortos, a Tuat.

Recomposto em espírito, Osíris instruiu Hórus, seu filho, a continuar a sua obra, combatendo Seth, o princípio do mal. Hórus,  à frente de um exército de “filhos da luz”, deu combate a Seth e o venceu. Osíris, morto para a vida, ressuscitou espiritualmente por força das cerimônias que Ísis prodigalizou aos seus restos mortais. Daí passou a simbolizar o dia que vence a noite, a luz que supera as trevas; Ísis é a terra, a mãe em cujo útero se processa a regeneração da semente morta.

Os sacerdotes egípcios usavam esse mito para cultuar o poder regenerador da terra. Pois assim como a semente lançada ao solo contém a vida que renascerá das trevas, também o homem que morresse e fosse sepultado de acordo com os ritos instituídos pelos deuses renasciam na terra, no corpo do seu sucessor, e nos Campos Elísios como ka (espírito) revigorado, capaz de viver eternamente. E o seu espírito, iluminado pela luz de Rá, incorporava-se ao Princípio Criador de todos os seres (Rá, o Sol radiante), tornando-se também um deus, cuja face brilhava para sempre, na forma de um astro no céu. Dai a ideia de que cada estrela no céu é representativa de uma alma que foi admitida no céu.

Os egípcios viam o corpo humano como um conjunto de potencialidades que não se esgotavam na vida terrestre, mas que se completava na existência do além-túmulo. Assim, aquele que obtivesse sucesso em viver de acordo com os princípios da Maat (A Justiça), adquiria os méritos para se tornar, ele também um Osíris, revivendo num mundo ideal. Eis porque o corpo humano não podia desaparecer com a morte, pois da sua conservação dependia a preservação de algumas das potencialidades que o defunto necessitaria para viver feliz na outra vida. Daí o desenvolvimento de técnicas de embalsamamento e conservação das múmias que até hoje desafiam a ciência moderna.

Nesses dias anteriores aos tempos históricos, os deuses eram tidos como Mestres da construção universal e os homens os seus aprendizes. O que os primeiros faziam no céu refletia sobre a terra, e o que os homens faziam na terra repercutia no céu. Por isso a responsabilidade recíproca na construção e no equilíbrio do edifício cósmico se dividia por igual entre homens e deuses.

Um dia esse equilíbrio foi rompido, por isso a desordem, a desarmonia, a injustiça, o mal, enfim, entraram no universo e nele se mantém. E nele se manterá até que nós restabeleçamos esse fluxo, tornando-nos justos e perfeitos novamente.

Autor: João Anatalino

Fonte: Recanto das Letras

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