A casa está queimando…

Eu simplesmente não consigo entender o incêndio criminoso de três templos maçônicos na área de Vancouver. Servimos nossas comunidades e nosso país por séculos por meio de caridade, auto sacrifício e boas ações. W Bro. Syd Schatzker[1]

Por mais triste que seja este momento, talvez possamos usá-lo para repensar nossas estratégias de comunicação, nossos esforços de construção de imagem e – mais importante – nossas práticas de educação e mentoria.

Deixe-me ser franco:

Para servir a sua comunidade, você não precisa ser um maçom. Basta ir e ser voluntário em qualquer organização de serviço comunitário.

Para servir nosso país você não precisa ser maçom. Basta ir e se inscrever no exército (ou pior cenário: entrar na política pública com honestidade).

O auto sacrifício não é um conceito ensinado em nossa educação maçônica. [Embora eu tenha lido nos últimos dias uma “constituição” de uma defunta obediência maçônica do século 18, onde eles costumavam colocar o candidato em um julgamento para testar sua vontade de auto sacrifício.]

Fazendo boas ações …? Qualquer religião é mais óbvia e significativa sobre tais ações – e mesmo se fizermos “boas ações” – não é a ideia (apontando para o auto sacrifício) que não se espera receber carinho por fazer boas ações? Se fizermos boas ações para obter “boa reputação” como recompensa… estava vindo do coração ou apenas uma simples troca comercial?

Agora, talvez, seja hora de parar e pensar sobre nós mesmos, nosso lugar no mundo, o significado da Maçonaria e a imagem que criamos de nós mesmos. E as perguntas que fiz acima.

Há – fora da nossa fraternidade – autores de ficção e lunáticos, em igual quantidade, que escrevem sobre os maçons, suas origens, seus rituais, seus objetivos e suas atividades presumidamente “secretas”. O público em geral, e muitas vezes também os maçons, não conseguem discernir a diferença entre o real e o imaginário. O motivo: falta de educação e orientação.

Durante séculos, seguindo a postura da Maçonaria Inglesa, todas as Grandes Lojas permaneceram silenciosas e indiferentes a tais exercícios mentais exibidos por obras literárias ou malucos adeptos de teorias de conspiração. Enquanto a única mídia a atingir as massas foi a impressa, que não era acessível para tais “escritores”, talvez essa atitude oficial tenha se justificado. No entanto, o século XXI trouxe grandes mudanças também neste campo: a internet, a Web 2.0 (introduzindo a interatividade), as mídias sociais, os e-books etc. De repente, os grafomaníacos obcecados ganharam um meio de fácil acesso, uma plataforma mundial para espalhar suas fantasias… e as Grandes Lojas estavam, e ainda estão, à margem, como se isso não as afetasse. Talvez devêssemos questionar a validade dessa posição. A torre de marfim pode não funcionar desta vez. Para uma analogia, olhe para a economia: a disrupção tornou-se a norma. As velhas maneiras de fazer as coisas são obsoletas e não são eficazes.

A internet e a mídia cheia de conspiração não é apenas mais uma “exposé” como as iniciadas na década de 1730… não é apenas mais uma farsa impressa como a de Taxil… misteriosa Maçonaria. É um ataque com esforços concentrados (embora não cometamos o mesmo erro: não é uma conspiração mundial dirigida por um cérebro central!). Mesmo que não tenha origem em só lugar – está convergindo em uma única direção: contra nossa Sublime Ordem.

Devido aos nossos mais de 300 anos de silêncio e ao sigilo real e percebido, perdemos há muito tempo a chance de controlar nossa própria imagem pública. Quando mais de uma geração de maçons cresceu (e envelheceu) sem ser capaz de comunicar de forma coerente, nem mesmo para suas próprias famílias, o que é a Maçonaria e por que ela é importante na vida de um homem… perdemos o barco. Se nós, como maçons, não fomos capazes de comunicar às nossas amadas famílias o que é a Maçonaria – como esperamos convencer as massas paranoicas sobre as qualidades de nossa fraternidade?

(Antes que você se oponha nervosamente a essa ideia: pense em todos aqueles jovens anunciando publicamente que seu pai ou avô era maçom, mas eles nunca disseram uma palavra à geração mais jovem… eles podem dizer por que nunca foram orientados e educados adequadamente sobre a Arte Real!)

Fazer doações para instituições de caridade e/ou distribuir pacotes de alimentos para os necessitados – não é Maçonaria. É, sem dúvida, uma intenção nobre e uma ideia nobre ajudar os menos afortunados e contribuir para causas nobres. Mas quando a Maçonaria, para o iniciado, termina aí, ou, eventualmente, adicionando algumas cervejas com os “camaradas” … aí a Maçonaria acaba também.

Mentes brilhantes, como Thomas W. Jackson, o conhecido estudioso e maçom de longa data que viajou extensivamente ao redor do mundo, escreveu que distinguia cinco estilos de maçonaria: filosófico, social, sociológico, político e caritativo. Definitivamente, os exemplos destacados do Charitable Style são a América do Norte, tanto o Canadá quanto os EUA. O que significa que perdemos todo o resto … Como o Ir. Jackson colocou: nós “nos afastamos mais de suas raízes do que qualquer Maçonaria no mundo”.

Poderíamos citar muitos de seus artigos, e de muitos outros estudiosos maçônicos. Também poderíamos dar uma dica do nosso próprio programa de Grão-Mestre: Ritual, Educação, Mentoring. Sem isso, que tipo de “maçonaria” você tem? Vindo de um lugar onde a Maçonaria manteve vivo seu “estilo” filosófico e raízes, onde a elite intelectual costumava ser e ainda é atraída pelos ideais da Maçonaria, fiquei amargamente chocado quando um jovem maçom canadense não muito brilhante se opôs veementemente ao uso da palavra “elite” em conexão com a Arte. Ele pensou que era algum tipo de palavrão… e quando as pessoas podem associar com a palavra apenas os infames 1% mais ricos do país e nada mais, é um triste retrato de como fomos negligentes em nossa obrigação de orientar e educar nossos membros. Enquanto não mudarmos isso, não conseguiremos atrair a “elite”, nenhum tipo de elite.

Muitos maçons respeitam o autor John J. Robinson (pelo motivo errado, devo acrescentar, porque ele não é um historiador qualificado do Ofício). No entanto, todos podemos concordar com esta afirmação dele: “O problema com a Maçonaria é que ela não pratica mais a Maçonaria”.

Como isso está relacionado aos incêndios criminosos de BC?, você pode perguntar. Reflita sobre isso: quem é responsável pela discrepância entre nossa autoimagem e a imagem que existe na sociedade em geral?

Autor: Istvan Horvath
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: The Other Mason

*Horvath é Mestre Maçom, Maçom do Arco Real, membro da Philaletes Society, do Quatuor Coronati Correspondence Circle e da Scottish Rite Research Society. 

Nota

[1] – O autor dessa citação se referiu ao caso de incêndio criminoso de 30 de março de 2021 em Vancouver, BC. Veja reportagens da mídia: https://www.cbc.ca/news/canada/british-columbia/north-vancouver-fires-1.5969506https://globalnews.ca/news/7731273/arson-charges-masonic-hall-vancouver/ 

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Veneráveis vitalícios e donos de loja – Maçonaria Francesa do século XVIII

Essa não é uma história que se possa contar em poucas linhas, pois ela é construída sobre fatos e acontecimentos pertinentes ao desenvolvimento da Maçonaria Francesa nos séculos XVIII e XIX.

Em resumo, os episódios se alinharam pelo aparecimento de dois ramos de Maçonaria em solo francês: um “stuartista” (escocesismo), livre, que não se sujeitava a nenhuma Obediência e a outra dependente da Primeira Grande Loja que fora fundada no ano de 1727 em Londres.

Essa última vertente francesa absorvia o sistema dos Modernos ingleses que havia se expandido pelo continente europeu na época. Segundo alguns autores, na França, a Maçonaria foi introduzida em Paris por volta de 1725 em uma Loja instalada por iniciativa de Charles Radclyffe, o Conde de Derwentwater e teria sido frequentada principalmente por maçons de origem irlandesa e jacobitas (católicos) exilados.

Desse modo, no curso da história as Lojas francesas ficariam então divididas em dois grupos – as Lojas derivadas do “stuartismo” e as derivadas da Grande Loja inglesa de 1717. Essas últimas que eram em menor número.

Embora sem existir ainda uma Obediência genuinamente francesa, em 1728 o Duque de Wharton, Ex-Grão-Mestre da Primeira Grande Loja londrina (1722 e 1723), foi reconhecido como o 1º Grão-Mestre dos maçons franceses, sendo sucedido por outros dois Grão-Mestres que eram também ingleses – James H. MacLean e Charles Radclyffe.

Em 1735, pelo grande número de Lojas stuartistas (tronco do escocesismo) então surgidas, pleiteou-se a necessidade de se designar um Grão-Mestre para uma Obediência genuinamente francesa, com isso as poucas Lojas de Paris ligadas à 1ª Grande Loja em Londres acabariam fundando uma Loja Provincial Na França, mesmo que a contragosto dos ingleses.

Assim, a 24 de junho de 1738 era instalado Louis de Pardaillan de Gondrin, o Duque d’Antin como “Grão-Mestre Geral e Perpétuo dos Maçons do Reino da França”. A bem da verdade, esse acontecimento estancava a subserviência da Maçonaria francesa à Primeira Grande Loja londrina.

Mais tarde, no curso dos acontecimentos e com o falecimento do Duque d’Antin em 1743, assume o grão-mestrado francês o personagem Louis de Bourbon Condé, o Conde de Clermont.

Esse grão-mestrado, contudo, trouxe consequências graves para a Maçonaria francesa, sobretudo pelo seu desinteresse pelas práticas maçônicas, o que fez com que fossem nomeados prepostos para dirigir a Grande Loja, cujos quais exercendo todo o seu poder, acabariam por fraccionar a recém criada Obediência francesa, principalmente pelas oposições que entre si eles mesmo provocavam.

Nesse contexto, pode-se citar como exemplo, o extraordinário tumulto ocorrido na festa dedicada a São João Evangelista em 27 de dezembro de 1766, quando maçons excluídos por motivos de rixas internas invadiram o local onde se realizavam os trabalhos. Houve necessidade de intervenção policial para que a ordem pudesse ser restabelecida.

O resultado desse tumulto foi a proibição das atividades maçônicas que durariam até 1771 (cinco anos de paralização).

Em 1771, com o falecimento do Conde de Clermont, muitos maçons que haviam sido excluídos conseguem o aval do Duque de Luxemburgo para conduzir Louis Philippe Joseph d’Orléans, o Duque de Chartres, primo do rei, para ser o Grão-Mestre da França, contudo esse Grão-Mestre deixa toda a administração da Grande Loja francesa para o Duque de Luxemburgo. A bem da verdade, era essa a intenção, pois visava-se aproveitar o prestígio do Duque de Chartres, que era primo do Rei, para ajudar a reerguer a então combalida Maçonaria francesa – proliferação e descontrole de Altos Graus e a fundação de centenas de Lojas com veneráveis vitalícios que ficariam conhecidos como “donos de loja”.

Ainda em 1771, um grupo de maçons, então reintegrados e consorciados com o Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente que havia sido criado em 1758 por Pirlet, formam uma comissão com a finalidade de organizar uma reforma administrativa na Maçonaria francesa, elaborando assim novos estatutos para fazer uma reorganização na desordem que prevalecia no ambiente dos Altos Graus, dentre outros.

Destaca-se nessa reforma administrativa a introdução de eleições periódicas para Venerável Mestre, o que desagradou de imediato os tais “veneráveis vitalícios”, também conhecidos como donos de Lojas, comuns nas lojas parisienses como já comentado.

Esses veneráveis vitalícios nada mais eram, de fato, do que donos das suas Lojas já que, na conturbada organização da Maçonaria francesa, muitos criavam suas próprias Lojas e assumiam seus mandatos pela vida toda, isso quando não criavam ainda Altos Graus para se promover perante a aristocracia francesa.

Esses Veneráveis com mandatos para a vida inteira acabariam resistindo contra essa reforma e por isso se ligaram a outra Grande Loja que ficaria conhecida como a Grande Loja de Clermont ou o Capítulo de Clermont. Esse Capítulo, que fora criado em 1754 pelo Cavaleiro de Bonneville, objetivava sacramentar definitivamente uma classe especial de maçons com os seus Altos Graus, dando-lhes, principalmente, uma conotação aristocrática. Teve vida efêmera e acabou se extinguiu-se em 1789.

Por conta das reformas, no final do ano de 1771, uma assembleia especialmente convocada para esse fim, declarava extinta a Grande Loja da França e, em 1772 era criada uma nova Obediência denominada Grande Loja Nacional da França. Ainda nesse mesmo ano, a 22 de outubro, a Grande Loja Nacional da França se reunia em assembleia geral e adota para si no nome de Grande Oriente da França.

Nesse sentido, a grande inovação promovida, agora pelo Grande Oriente da França, foi a chamada “democracia maçônica” que é baseada num poder central assessorado por um grupo de deputados de todas as Lojas. Enfim, esse tem sido, desde então, uma característica dos Grandes Orientes.

Vale mencionar que, já ano de 1758, era criado por Pirlet o Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente. Desse Conselho se originaria em solo francês o Rito de Perfeição, ou Heredom, com 25 graus. A bem da verdade uma concepção formada para organizar o caos que vivia o sistema de Altos Graus na França.

É bom que se diga que boa parte desses Altos Graus foram criados aleatoriamente por “donos de lojas” e serviam mais para explorar as vaidades e satisfazer egos do que trazer crescimento iniciático.

Assim, em 1778, o Grande Oriente da França nomeia uma comissão de maçons esclarecidos para realizar um profundo estudo do sistema de graus vigente, visando com isso eliminar doutrinas estranhas ao pensamento maçônico, principalmente.

Na realidade, o que se buscava era um Rito com menor número possível de graus em contraposição ao emaranhado de graus existentes no contexto francês de Maçonaria.

Depois de três anos, essa comissão concluiu que o melhor para o Rito era trabalhar apenas no franco-maçônico básico – Aprendiz, Companheiro e Mestre (o termo simbolismo ainda não era conhecido). Mas, infelizmente, para não fugir à regra latina, o Grande Oriente “achou” que isso poderia gerar descontentamentos e até mesmo cisão, tendo em vista o grande número de maçons existentes já condecorados com os Altos Graus. Com isso, mesmo antes de um parecer oficial, a comissão achou por bem renunciar.

Refletindo melhor sobre a situação, o Grande Oriente acabou acatando o parecer da comissão e expediu uma circular em 03 de agosto de 1777 na qual declarava que só reconheceria os 3 primeiros graus.

Foi o que bastou para que aflorassem enormes ressentimentos no seio da Maçonaria Francesa, pois a contaminação pelo amor a esses graus de paramentos vistosos estava por demais radicado. Para muitos maçons do Grande Oriente, sobretudo aqueles que tinham perdido o cargo de venerável vitalício, a redução de graus os levaria ainda mais a um caráter de inferioridade.

Assim, mais uma vez, diante dos descontentamentos aflorados, é que em 1782 o Grande Oriente instituiu uma Câmara dos Graus, sob a liderança de Alexandre Roëttiers de Montaleau, para formatar o Rito dando-lhe Altos Graus, porém apenas os essenciais. Com isso, em 1784 sete Lojas Capitulares Rosa-Cruz constituem o Grande Capítulo Geral da França para trabalhar nessa nova formatação capitular. Em 1786, um projeto de um Rito com apenas 7 Graus seria aprovado pela assembleia e posto em prática.

A título de ilustração, é somente em 1801, época pós Revolução Francesa, com a publicação do Le Régulateur du Maçon, é que o Rito Francês passa a ter os seus rituais e fica conhecido com sistema dos 7 graus do Grande Oriente da França.

Em 1804, a vertente maçônica francesa do escocesismo passa a ter em Paris o 2º Supremo Conselho do REAA, cujo Rito, herdado do Rito de Perfeição, ou de Héredon, com seus 25 Graus que passa para 33 Graus nos EE. UU. da América do Norte, passa a ser chamado de Escocês, Antigo e Aceito.

Aí começa um segundo capítulo da Maçonaria Francesa com uma Loja Mãe Escocesa, Lojas Capitulares em 1816 e o ingresso do 1º ritual para o simbolismo do REAA no Grande Oriente da França.

Desse modo, o simbolismo do REAA constrói a sua história na Europa a partir do seu primeiro ritual para o franco-maçônico básico datado de 1804 e já deturpado em 1821 por imposição do Grande Oriente da França ao adaptá-lo para Loja Capitular, mas essa é outra história.

Ainda sobre o Rito Moderno, o mesmo passaria ainda por revisões no curso da sua história, principalmente entre os séculos XIX e XX a exemplo da de Murat, em 1858; Amiable, em 1887; Blatin, em 1907; Gérard em 1922; Groussier, em 1946.

Foi então do ambiente conturbado da Maçonaria francesa do século XVIII, principalmente antes da Revolução Francesa, que os Veneráveis vitalícios – que criavam suas próprias Lojas – se desenvolveram e desapareceram após a reforma e a criação do Grande Oriente da França, oportunidade na qual Veneráveis Mestres passavam a ser eleitos pelos membros das Lojas.

Graças a esses acontecimentos, onde a depuração fez com que muitos maçons perdessem seu irregular status simbolizado por aventais vistosos e títulos hauridos de graus aristocráticos e cavalheirescos é que surgiu, em 1777, a Palavra Semestral como penhor de regularidade na Maçonaria francesa.

A história, mesmo que contada de modo superficial, carece muitas vezes de abordagem em tópicos que construíram as causas dessa mesma história. Assim, peço perdão pela prolixidade, mas foi o modo mais abreviado que pude encontrar para dissertar um pouco sobre a existência no passado dos então chamados “donos de loja” e os seus “mandatos vitalícios”. Na academia da história, muitas vezes os fatos somente se explicam quando lhes revelamos a sua causa.

Autor: Pedro Juk

Fonte: Blog do Pedro Juk

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Uma pedagogia através de símbolos e imagens simbólicas

A Maçonaria oferece uma maneira única de divulgar suas ideias entre os iniciados nessa organização. Esta epistemologia vem de várias fontes, mas em todas elas o símbolo, ainda mais a imagem simbólica, desempenha um papel central. Uma recente novidade editorial, Masonic Symbolism, de JJ García Arranz, estudou-o. Nas páginas seguintes, tentar-se-á delimitar um pouco em que consiste este método de comunicação de ideias, sobretudo na sua dimensão visual. Além disso, este número será aprofundado com base na já mencionada novidade editorial apresentada por García Arranz, bem como na resenha que publicou em REHMLAC +. 

No número 1 do volume 10 da REHMLAC+ (maio-novembro de 2018) foi publicada uma resenha sobre uma novidade editorial, Masonic Symbolism, escrita por José Julio García Arranz e publicada na Editorial Sans Soleil . A revisão foi realizada por Antonio Morales Benítez, pesquisador da Universidade de Cádiz.

Tanto o título do livro de García Arranz quanto a resenha de Morales Benítez enfatizam o valor dado à questão do simbólico. Assim, este artigo visa aprofundar esse aspecto, tomando como diretriz o estudo publicado por Sans Soleil, já que –como indica Morales Benítez em sua obra– o livro de García Arranz ocupa uma lacuna no mercado hispânico que era importante preencher[1]. Dada a importância dada à análise de García Arranz, toma-se o Simbolismo Maçônico como fonte principal, a ser complementada – sim – com outras referências bibliográficas.

No final de 2017, foi publicado pela editora Sans Soleil o referido livro sobre a dimensão simbólica da Maçonaria. García Arranz considera o simbólico como o eixo fundamental da epistemologia proposta pela fraternidade. De fato, o fato desta obra ter sido publicada em Sans Soleil é muito consistente, pois o simbólico e suas aplicações estéticas constituem um de seus principais eixos de divulgação. Aliás, a referida editora especializou-se na edição de alguns dos livros mais representativos das mais renomadas tendências da história da arte. Assim, em seu catálogo pode-se encontrar desde clássicos da iconologia (Panofsky, Gombrich) até grandes teóricos dos estudos visuais (Mitchell, Moxey) e estudos culturais (Haraway), além de alguns dos novos autores mais interessantes da disciplina na esfera hispânica, especialmente na academia espanhola. Entre eles, o professor García Arranz, com o referido estudo sobre a sociedade secreta.

As credenciais do professor José Julio García Arranz são importantes para entender sua perspectiva. É professor catedrático de História da Arte na Universidade da Extremadura, especializado em emblemática. Isso dá à sua pesquisa um viés claro para o aspecto visual da sociedade secreta. Consequentemente, e entre outras virtudes, o Simbolismo Maçônico compila um enorme número de imagens geradas pela sociedade secreta em sua história centenária.

Como Morales Benítez já relata em sua resenha, García Arranz foi o fundador da Sociedade Espanhola de Emblemática[2], fator a ser levado em conta pelo peso que esse modelo de transmissão logoicônica tem na história da fraternidade[3]. Aprofundando-se no exposto, além da emblemática, o professor também investigou o material visual relacionado ao imaginário hermético, alquímico, esotérico ou afins.

Quanto à abordagem do estudo de García Arranz, não será aquele que pretende fazer proselitismo para a causa maçônica. Nem a denegrir, transformando-a numa hidra que está na raiz de todas as revoluções (negativas) do mundo[4]. Apenas pesquisa acadêmica rigorosa é procurada. O livro está dividido em sete ensaios de extensão variável, aos quais se acrescenta a introdução, a conclusão e dois apêndices.

Entre as várias metodologias, o autor da obra resenhada optou por realizar um estudo de maçonologia —em homenagem à iconologia panofskyana. Portanto, aproveita as ferramentas das ciências humanas, evitando leituras partidárias, baseadas em fantasias, e realizadas por membros da fraternidade ou por detratores convictos, sem o domínio adequado das metodologias das disciplinas humanas[5]. Ou mesmo sem a necessária distância do objeto de análise, mediada por seu fervor. Devido a isso, esse tipo de pesquisadores maçônicos traçam conexões sem suporte empírico[6]. Pode-se dizer que, com tal decisão, García Arranz opta por uma leitura ética em termos de antropologia, externa ao grupo estudado.

Entre os ensaios, ele combina alguns de narração histórica com outros que funcionam como um dicionário de símbolos em uso, junto com alguns mais de tipo especulativo que – por exemplo – observam a evolução de certas ideias dentro do corpus teórico e visual maçônico.

As quatro primeiras seções — introdução e três capítulos próprios — do Simbolismo Maçônico são apresentadas como definições do assunto em questão, que vão desde uma apresentação geral até delimitações conceituais, uma indagação sobre o que é especificamente para a fraternidade ou os tipos de símbolos que podem existir, dependendo das origens, dada a natureza eclética das fontes maçônicas. Todos ensaísticos, os quatro textos constituem uma base incontornável sobre a qual se apoiará o restante, são reflexões sobre o papel do simbolismo e seu peso na história da fraternidade. Isso configurará o que Martín López chamou de “estética maçônica”, que – em sua opinião – é um rótulo melhor do que “estilo maçônico”[7].

Uma das características mais marcantes do aspecto epistemológico em que a fraternidade divulga suas ideias gira em torno de um ecletismo de fontes, o equivalente estético de seu sincretismo religioso – que bebe tanto do hermetismo quanto da alquimia, do Egito faraônico e do cristianismo. Segundo García Arranz, os símbolos de tantas religiões são retrabalhados em códigos maçônicos[8]. Na arte contemporânea dir-se-ia que a sociedade secreta se apropria de cada um deles.

Símbolo como fonte de conhecimento espiritual, mas também de ensino moral, cada um dos Ritos – mesmo cada uma das Lojas – decide qual das muitas tendências maçônicas prefere priorizar, uma escolha que terá consequências sobre como a faceta metafórica mais tarde será trabalhada. Portanto, para García Arranz, o simbolismo torna-se a espinha dorsal das lojas e da Maçonaria, pois cada obediência e cada rito têm uma abordagem parcialmente diferente em relação aos outros — o ritual apresenta mudanças, os templos são decorados com pequenas variações —, embora sempre compartilhando um fundo simbólico comum[9].

Mas antes de prosseguir, e dada a centralidade que a Maçonaria lhe confere, convém definir – na medida do possível – a que ideia de símbolo a sociedade secreta se refere. A irmandade passou a utilizá-los – segundo uma longa corrente de interpretação compartilhada, ao menos parcialmente, por simbolistas, românticos, herméticos ou neoplatônicos, que pensavam na imagem simbólica como algo que remetesse ao sagrado, metafísico ou mítico – como uma imagem que alude ao verdadeiro no sentido espiritual e que, mesmo em suas leituras mais espiritualistas — hinduísmo, religião egípcia durante os faraós ou certas correntes esotéricas — a imagem pode vir a ser a mesma[10].

Uma ideia expressa no catálogo que acompanhou uma das exposições mais interessantes de 2017, As Above, So Below: Portals, Visions, Spirits & Mystics, exibida no IMMA em Dublin, aprofunda esta ideia:

“Em tempos passados, a arte feita por humanos não representava apenas alguma coisa, ela era aquela coisa;  a divindade, espírito, humano ou animal continha a essência ou, se preferir, a alma daquela coisa.” [11]

Uma tendência já encontrada no hermetismo, um dos grandes horizontes culturais que influenciaram a fraternidade. Ficino, pensador vinculado às raízes renascentistas da referida corrente, havia teorizado sobre a capacidade do símbolo de tornar visível o invisível, orientar para a ideia e, simultaneamente, ao pensar sobre ela, reformar a mente. Devido a essas virtudes, gozaria de um alto poder heurístico[12].

No código maçônico, e como fundamento epistemológico, o símbolo maçônico alude à coisa sem perder seu caráter polissêmico: o mesmo objeto – compasso, esquadro ou qualquer outro – significa coisas complementares, mas não necessariamente iguais em diferentes graus. O compasso no grau de Aprendiz não será equivalente à mesma realidade que no de Mestre. Cada vez ele irá incorporar novas facetas. Isso pode chegar a vincular vários objetos de maneira diferente para cada série. Aí o símbolo possui uma multivalência polissêmica, cujos significados são potencialmente infinitos[13].

Por isso, a faceta lógica ou racional não se concentra exclusivamente nele, mas o que é representado se dirige à totalidade do psiquismo, tanto ao irracional quanto ao suprarracional. Ou seja, em todos os níveis que não são conscientes ou racionais, com uma natureza inevitavelmente misteriosa, ambígua, inefável ou ilimitada[14]. Assim, torna-se também uma ferramenta inestimável para compartilhar informações sobre o metafísico ou o sagrado[15].

Porém, isso não descreve completamente o uso do simbólico na fraternidade. Como muitas vezes aponta García Arranz, há dois polos hermenêuticos que vão da já mencionada forte leitura esotérica – sem lastro na documentação histórica – a uma leitura puramente racionalista que escapa à dimensão anterior. García Arranz trata desses dois polos em vários pontos do texto, com formas muito diferentes de compreender o corpus teórico e simbólico do grupo[16].

Geralmente, a leitura esotérica prefere refletir sobre uma dimensão mítica ou espiritual, uma interpretação ocultista que seguiria a tradição hermética, segundo a qual as verdades últimas do mundo inteligível são incorporadas em símbolos[17]. Por outro lado, as lojas que optam por filtrar os símbolos por um código moral mais didático preferem uma Maçonaria laica e racionalista, com prioridade para o político ou o sociológico, muitas vezes de forma progressista.

Essa dupla abordagem maçônica, com a sensibilidade mais metafísica por um lado e a histórico-sociológica por outro, lembra a dualidade com que Ernst Gombrich descreveu a hermenêutica do simbólico. Segundo o grande historiador da arte, em um estudo clássico, podem-se distinguir duas formas de abordar a interpretação dos símbolos. De um lado, a mentalidade que chamou de “intelectual aristotélica”, um método de definição visual baseado em associações de conceitos e imagens, algo que pode ser delimitado, estudado e estabelecido. No outro, o que chamou de “misticismo neoplatônico”, cuja origem é mais religiosa e em que, no que diz respeito à comunicação, o símbolo se torna expressão de algo inefável e que nunca pode ser completamente definido[18]. Assim, ao longo de sua história, a Maçonaria vem manifestando ambas as tendências em suas operações. É claro que, embora o autor destas linhas concorde com a apreciação de García Arranz, segundo a qual a Maçonaria utiliza ambas, dá a impressão –porém– que o uso original de seu método partiria do chamado neoplatônico místico, corrigido durante sua já longa história para a outra opção, mais racionalista.

De qualquer forma, a imagem simbólica apresenta sua informação superando a literalidade das coisas, sendo ela mesma (o compasso) e, ao mesmo tempo, sugerindo outras realidades, em um mostrar e esconder simultaneamente – um espetáculo de ocultação que, por outro lado, é a quintessência da arte. A atividade cognitiva gerada pelas imagens simbólicas ativa a imaginação — que é seu domínio —, provocando também a geração de sentimentos, o que explica em grande parte, pelo menos, sua eficácia como método pedagógico.

O quinto e muito curto capítulo do livro de García Arranz ainda mantém o tom ensaístico. Nele, o autor se pergunta justamente sobre a função dos símbolos, desdobrados em identificação mútua entre maçons, a difusão moral —com suas lendas e afins—, ou uma propedêutica filosófico-moral, considerando através de seu estudo como deve se comportar um verdadeiro maçom. Mas, além disso, observam-se também outras funções de natureza mais metafísica, como a possível união com uma realidade transcendente, graças a esses símbolos arquetípicos, transformados na encarnação do transcendental. Graças a eles, o maçom pode libertar-se do condicionamento[19].

As duas seções seguintes são as centrais dentro do Simbolismo Maçônico. Para começar, elas expandem o formato do ensaio para propor uma exibição como verbetes do dicionário. E fazem isso para duas áreas maçônicas fundamentais. Na primeira, os mitos da fraternidade e os objetos para explicar suas ideias. No segundo, os espaços do templo. Embora o tema varie, a estrutura de ambos os capítulos é compartilhada. E em termos de extensão, essas seções ultrapassam a metade do estudo.

O primeiro de ambos – o sexto capítulo – descreve um a um, alguns dos símbolos e mitos mais comuns das Lojas. Esta é a seção mais variada e complexa, baseada na constituição dos mitos da fraternidade. Ao contrário dos capítulos anteriores, do tipo ensaio, focados no desenvolvimento de um tema unitário, nesta passagem todos esses conceitos – e mais alguns – são explicados como verbete de dicionário. Combina alguns dos elementos cruciais do léxico da corrente iniciática ligada ao trabalho de construção – como o compasso, o cinzel e os demais exemplos – com reflexões sobre a geometria sagrada de inspiração pitagórica, como o Delta do Oriente, a Estrela Flamejante, o hexagrama, o ponto e a circunferência ou outras figuras semelhantes.

O longo capítulo também explica algumas das histórias fundadoras extraídas do legado bíblico. Ele esclarece muitas delas, oriundas de fontes do Antigo Testamento, lidas como germe de ensinamentos morais ou por suas analogias com a instrução da irmandade, como a de Hiram Abif, arquiteto do templo de Salomão — tema básico da bagagem de uma fraternidade com uma figura chamada Grande Arquiteto do Universo[20] —, tudo relacionado ao referido templo, as colunas Jakim e Boaz, a construção da Torre de Babel, a construção da arca de Noé ou escada de Jacó, entre outros episódios, personagens e objetos relevantes da Bíblia.

Nessa mesma epígrafe, o autor faz um exercício semelhante com influência esotérica, pegando uma série de temas e desenvolvendo-os. Entre eles, o templário e o espírito cavalheiresco que derivou de seu exemplo, o rosacrucianismo, a alquimia, os cultos de mistério ou a arte da memória. García Arranz sai da exaustividade do dicionário de termos para voltar ao ensaio reflexivo. Com ele, levanta-se o que há de factual nessa suposta herança ou – pelo menos – transferência do oculto.

Na minha opinião, García Arranz minimiza um pouco seu peso. A Maçonaria tornou-se um dos redutos tradicionais da corrente esotérica ocidental. Sua influência é percebida tanto no tipo de epistemologia — a necessidade de ritual, o uso de símbolos e, portanto, a tentativa de evitar o literal, o uso neoplatônico de exemplos morais para aprender o comportamento…— como no conteúdo mitológico — o próprio uso dos mitos e do pensamento mítico, a Rosacruz, o Templário, até mesmo partes dos rituais—. Sem esquecer, muitos dos elementos simbólicos em que ressoa o hermetismo-esoterismo, a tríade enxofre-mercúrio-sal, o pavimento em mosaico… relacionado com a sociedade secreta 

Além disso, se traçarmos as origens de alguns símbolos, e como exemplo, a alquimia serviu de referência na exibição visual dentro das lojas. Por exemplo, nas imagens da loja e no material visual encontrado nos livros de gravuras da ciência de Hermes (alquimia). Mas, na minha opinião, a influência nesse sentido é menor. Embora seja verdade que os emblemas alquímicos possam inspirar nos casos em que se representa uma combinação heterogênea de elementos de múltiplos significados — como acontece nos painéis dos graus de Aprendiz e Companheiro —, a influência é muito menor no que diz respeito às gravuras com cenas –muitas vezes mitológicas– e que devem ser decodificadas, comparando-as com os processos observados no ritual. Contudo, este tema é complexo e merece pesquisas futuras focadas nele.

Se voltarmos ao estudo de García Arranz, o capítulo termina no mesmo tom especulativo, pensando na lenda e na realidade do papel maçônico na Revolução Francesa. Apesar da heterogeneidade da Maçonaria, composta por atitudes muito diversas – até opostas –, os teóricos da conspiração acusaram a fraternidade de ter desencadeado o movimento revolucionário e o consequente terror, o que teria significado uma vingança templária contra seus inimigos monárquicos. Mas nem as Lojas reagiram unanimemente a esses acontecimentos — muito pelo contrário —, nem o lema revolucionário, com as três virtudes (Liberdade, Igualdade, Fraternidade) tão cruciais dentro do ritual da ordem, foi um empréstimo maçônico, sendo que o que aconteceu foi justamente o contrário do ronda o senso comum.[21]

O sétimo capítulo, “Os lugares da imagem-símbolo”, continua com o formato do dicionário. Mas, neste caso, para descrever os elementos simbólicos do templo, o pavimento em mosaico, os locais de assento do Aprendiz, Companheiro e Mestre, os painéis da Loja…, assim como as luzes em várias variantes e significados. Sendo a Maçonaria uma corrente iniciática especialmente interessada no simbolismo da luz, pode-se deduzir o valor dado a esta parte do léxico da fraternidade.

No último capítulo, García Arranz retoma o tom ensaístico para refletir sobre uma de suas áreas de especialização: a forma artística dos emblemas, tão relevante sobretudo nos séculos XVI e XVII. Para forjar sua forma logoicônica, ou seja, a combinação de informações textuais com outros gráficos, uma mistura emblemática para a qual era importante a teoria dos hieróglifos que existia naqueles séculos, assim como as fantasias que gerava[22]. Muitos dos motivos dos livros de emblemas serviram de inspiração para a rica herança simbólica da sociedade secreta.

Sobre a capacidade de revelação da imagem no sentido hermético, convertida no que pensavam ser um hieróglifo no século XV ou XVI, o professor Díaz-Urmeneta aponta um argumento que pode ser estendido à fraternidade e seu uso do simbólico:

Esta é a afirmação da magia renascentista. Partindo do pensamento árabe, de algumas de suas recepções pela escola e de escritos herméticos, o Renascimento busca uma imagem efetiva que tenha a força que o tempo atribuiu aos hieróglifos dos antigos egípcios. Tal imagem não procura significar ou comunicar, mas tornar presente. Traga aqui a força oculta na natureza. Ao despertar assim a virtude de qualquer ser, encerrado em seu nome ou em sua figura, os homens poderiam intervir no curso dos eventos naturais. O hieróglifo era a linguagem das coisas que, roubadas da natureza, continham a eficácia manifesta ou oculta das próprias coisas. [23]

No uso de imagens com valências hieroglíficas, a Maçonaria está ligada a um clássico da utopia do século XVII, Cidade do Sol , escrito por Campanella, autor muito próximo do pensamento hermético. Neste romance utópico, o antigo anseio renascentista pela linguagem através de imagens, hieróglifos e significado pedagógico é fabulado. O personagem Sin, que na cidade ideal se encarrega da ciência, mandou pintar murais e cortinas da cidade com desenhos de estrelas, matemática, minerais, metais, bebidas, animais, ervas, árvores ou países do mundo, com os quais ilustram visualmente os cidadãos.

O conjunto relatado no romance utópico segue o ideal hermético da instrução por imagens hieroglíficas, tendo os afrescos como lição, numa combinação de imagem e palavras, já que os professores os utilizam para instruir. Além disso, as várias representações se entrelaçam como em uma tapeçaria, para mostrar como funciona a teoria das correspondências, tendência também próxima da Maçonaria. A finalidade pedagógica dos murais da Cidade do Sol é aplicada a partir dos três anos de idade. Esse fator torna-se o enredo da história utópica justamente no momento em que franciscanos e jesuítas catequizaram com imagens, quando se buscaram significados esotéricos para hieróglifos ou quando imagens e versos foram combinados em emblemas[24].

García Arranz aplica a união logoicônica à leitura das pinturas da loja, nas quais se fundem graficamente os principais elementos simbólicos maçônicos. Mas, na minha opinião, essas pinturas de loja carecem do componente textual, essencial para que uma forma visual seja emblemática. Em vez disso, encontra-se neles a densidade simbólica e alegórica da parte visual dos emblemas.

De qualquer forma, eles também se aproximariam de exemplos um pouco mais avançados de livros de emblemas alquímicos, nos quais a informação textual desaparece quase completamente, com o exemplo por excelência do Mutus liber, intitulado como o Livro Mudo, que tentou alcançar a tradução hermética ideal de ideias a imagens para pensar através delas. E, assim, contornar as limitações do logos e sua linguagem verbal[25].

Que sim, como já se antecipou um pouco acima, é claro que, entre os membros das sucessivas gerações de maçons, podem ser contados vários que tinham consciência dessa bagagem cultural e que seu próprio discurso – bem como a ideologia de a fraternidade – foi influenciado por ele.

Essa influência é perceptível de forma mais clara naqueles emblemas que contêm elementos simbólicos compartilhados pela Maçonaria, como o compasso, o esquadro e outros. Mas, na visualidade maçônica, em suas imagens, quase sempre falta o aspecto textual, essencial para que a forma do emblema aconteça. Provavelmente, isso se deve ao fato de a instrução maçônica ser constituída por imagens, mas também por recitações dos rituais, aspecto que deve ser sempre levado em consideração ao se analisar a epistemologia da fraternidade[26].

Sobre os rituais, os tratados do antropólogo Víctor Turner podem lançar luz sobre essa parte da Maçonaria. Turner praticamente se especializou no pensamento simbólico e no performativo como derivado do ritual. Ele também estudou cuidadosamente os fundamentos do ritual, bem como sua evolução na forma de teatro em sociedades cada vez mais complexas. O antropólogo afirmou que tinha vínculos com o teatro, era como uma performance, a consumação de um ato que tem um componente religioso constitutivo[27]. Ambos os tipos de ações estão ligados às crises daqueles que as vivenciam, o que implica uma mudança de status social para eles[28]. Mas isso não afeta apenas eles. Os rituais coletivos nas sociedades pré-industriais atraem toda a comunidade, dizem respeito ao grupo que compartilha a cultura. Toda narração desse tipo resulta em um drama social para aquele todo, uma experiência liminar, uma transição de um estado para outro ou uma experiência limiar, que significa limen em latim, na terminologia de Turner[29].

A conclusão do livro de García Arranz constitui outro capítulo de ensaio. Investiga a preferência maçônica por não estabelecer uma leitura oficial e ortodoxa de sua simbologia, mas também ficar sempre dentro dos canais estabelecidos pela tradição de sua história, por onde fluem os diversos afluentes que dão conteúdo à Maçonaria, como o Templário, o Rosacruz, a emblemática alquímica… É através da constante meditação sobre os símbolos, uma reflexão que se reflete nos trabalhos apresentados em loja, na medida que se forma o maçom. Assim, os símbolos tornam-se substrato pedagógico para o ensino, no duplo aspecto comentado que se encontra dentro da Maçonaria: aquele que os interpreta de forma mais esotérica e aquele que o faz uma forma mais próxima de um ensino moral explicável em termos racionais.

O livro termina com dois anexos. Um dedicado a animais e plantas usados ​​para fins metafóricos. E, o outro, às cores. Amostras fiéis dos dois estilos que caracterizam o texto: o primeiro esmiúça, como um dicionário, o uso do pelicano, do galo ou da rosa em rituais, enquanto o segundo opta pela outra estratégia, já levantada anteriormente. Ou seja, o estilo ensaístico para pensar como as cores são usadas em vários rituais.

Em suma, a abordagem de García Arranz em seu livro, o fato de combinar ensaios com verbetes de dicionários, permite que seu trabalho seja usado tanto como ferramenta de trabalho para buscar breves análises de elementos simbólicos, quanto para refletir mais detalhadamente sobre questões centrais para a epistemologia da Maçonaria. E o valor da pesquisa se dá pelo papel central que esse aspecto mantém dentro da fraternidade, bem como pela escassez de estudos sobre ele no âmbito hispânico, para o qual – nas palavras de seu revisor Morales Benítez – o simbolismo maçônico começa a preencher uma lacuna nesse campo linguístico[30].

Um objeto que se tentou manter neste artigo, que tomou a obra de García Arranz e a resenha em REHMLAC + como percussores, graças ao qual refletir sobre a dimensão simbólica e sua tradução em imagens dentro da Maçonaria, com suas peculiaridades. epistemológica e pedagógica, uma vez que existem poucas outras organizações no presente cujo sistema de transmissão de conhecimento é baseado em símbolos em tal medida. Essa especificidade maçônica tornou necessário um estudo como o de García Arranz.

Autores: Ventosa Roger Ferrer
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: REHMLAC 

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Notas

[1] Antonio Morales Benítez, “Revisão do Simbolismo Maçônico. História, fontes e iconografia de José Julio GarcíaArranz”, REHMLAC+ 10, no. 1 (2018): 394,          https://doi.org/10.15517/rehmlac.v10i1.331

[2] Morales Benítez, “Reseña de Symbolismo masónico”, 392. Foi também secretário dessa sociedade.

[3] Logoicônico como a união de uma informação textual com outra visual que caracteriza e singulariza a forma emblemática. Mais sobre isso em Fernando R. de la Flor, Emblemas. Leituras da imagem simbólica (Madri: editorial da Alianza,1995), 22. O professor Rodríguez de la Flor é outro dos grandes especialistas da esfera hispânica em relação aos emblemas.

[4] Um exemplo desta última tendência difamatória seria encontrado em Los masones de César Vidal.

[5] Abordagem valorizada como “sucesso” na resenha de Morales Benítez, 393, boa avaliação que compartilho.

[6] José Julio García Arranz, Simbolismo Maçônico. História, fontes e iconografia (Vitoria-Gasteiz: SansSoleil, 2017), 24. Como exemplo dessa tendência, podemos citar uma obra editada por Arturo de Hoyos e S. Brent Morris, Freemasonry in Context. História, Ritual, Controvérsia, escrito por e para Maçons, ou Maçonaria: A Tradição Esotérica , de Fabio Venzi, que também acrescenta uma guenoniana. Do lado oposto, o já citado César Vidal. O problema reside, então, no fato de sua abordagem não pertencer ao campo acadêmico mais ou menos objetivo, interessado na própria coisa como objeto de análise.

[7] David Martín López, “Arte e Maçonaria: considerações metodológicas para seu estudo”, REHMLAC+1, no. 2 (dezembro de 2009 a abril de 2010): 19-20,https://revistas.ucr.ac.cr/index.php/rehmlac/article/view/6615/6304

[8] García Arranz, “Simbolismo maçônico”,19.

[9] García Arranz, “Simbolismo maçônico”, 20-21.

[10] Fernando R. de la Flor, Emblemas. Leituras da imagem simbólica(Madri: Editorial Alliance, 1995), 188. Roger Ferrer Ventosa, “O ovo e o zero: do nada ao infinito”, Revista Sans Soleil- Estudios de la imagen 8 (2016): 89. A imagem que ocupa o lugar do que é representado: E H Gombrich, Imagens simbólicas. Estudos sobre a arte do Renascimento, 2(Madrid: Debate, 2001),124-125 e 177.

[11] Mark Pilkington, “The Active Surface: Art as Magical Technology”, em As Above, So Below: Portals, Visions, Spirits & Mystics, eds. Rachel Thomas e Sam Thorne (Dublin: Museu Irlandês de Arte Moderna, 2017): 43-44, 43.

[12] Juan Bosco Díaz-Urmeneta Muñoz, A terceira dimensão do espelho: um ensaio olhar renascentista (Sevilha: Universidade de Sevilha, 2004), 243.

[13] R. de la Flor, “Emblemas. Leituras da imagem simbólica”, 166.

[14] Mircea Eliade, Mefistófeles y el andrógino (Barcelona: Labor, 1984), 273. Também Ferrer Ventosa, “O ovo e o zero: do nada ao infinito”, Revista Sans Soleil– Estudios de la imagen8 (2016) : 96 .

[15] Ferrer Ventosa, “Imagens como uma encarnação do sagrado” , em Interpreting Sacred Stories(Wallingford: Cabi, no prelo).

[16] Por exemplo, García Arranz, “Simbolismo maçônico”, 63-70.

[17] Eugenio Garin, A Revolução Cultural Renascimento (Barcelona: Crítica, 1981), 149.

[18] Gombrich, Symbolic Images,13 e 179.

[19] García Arranz, “Simbolismo maçônico”, 101-106.

[20] García Arranz especula que a ideia platônica do demiurgo, artesão divino, poderia ser encontrada no ponto de partida do Grande Arquiteto do Universo (García Arranz, “Simbolismo maçônico”, 167).

[21] García Arranz, “Simbolismo maçônico”, 243-246.

[22] Para aprofundar esta questão, Ferrer Ventosa. “Pensando em Imagens Hieroglíficas: Da Tradição Hermética no Renascimento à Vanguarda à Arte Contemporânea”, Art, Individual and Society 30, no. 2 (2018): 311-328.

[23] Juan Bosco Díaz-Urmeneta Muñoz, A terceira dimensão do espelho: um ensaio olhar renascentista (Sevilha: Universidade de Sevilha, 2004), 46.

[24] Tommaso Campanella, A Cidade do Sol (Madri: Tecnos, 2007).

[25] Ferrer Ventosa, “Pensando em imagens hieroglíficas”, 311-328, 321-323.

[26] Junto com isso, a Maçonaria foi inspirada no memento mori, bem como em outros emblemas cristãos da arte alegórica moralista: (García Arranz, “Simbolismo maçônico”,300 e ss.).

[27] Victor Turner, Do Ritual ao Teatro. The Human Seriousness of Play (Nova York: PAJ Publications, 1982), 79-80.

[28] Turner, “Do Ritual ao Teatro”, 24.

[29] Turner, “Do Ritual ao Teatro”,24 e 41.

[30] Morales Benítez, “Review of Masonic Symbolism”, 392-294, 394. 

Bibliografia

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Díaz-Urmeneta Muñoz, Juan Bosco. La tercera dimensión del espejo: ensayo sobre la mirada renacentista. Sevilla: Universidad de Sevilla, 2004.

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Morales Benítez, Antonio. “Reseña de Simbolismo masónico. Historia, fuentes e
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Venzi, Fabio. Freemasonry: The Esoteric Tradition. Addlestone: Lewis Masonic, 2016.

Vidal, César. Los masones. Barcelona: Planeta, 2005.

Características do templo na sua decoração e as Colunas Zodiacais

M33 - Primeira Sessão no Novo Templo da Loja Progresso da Humanidade nº  3166 - GOB/RS Porto Alegre/RS

No tocante aos rituais anglo-saxônicos e a decoração da Sala da Loja (é assim que é chamado o espaço de trabalho na corrente inglesa), não se trata de uma decoração desnuda propriamente dita, mas diferente, talvez mais simples, das de ritos de outras vertentes maçônicas – tanto sob o aspecto decorativo, quanto no aspecto topográfico, cujo qual não adota separação e elevação do quadrante oriental da Loja.

Compreenda-se que o conjunto simbólico primordial do grau está o Quadro da Loja, conhecido na vertente inglesa como a Tábua de Delinear (Tracing Board).

Ainda sobre a vertente anglo-saxônica e a decoração do espaço de trabalho, não existe uma regra apropriada para ela, senão a de que o espaço comporte os trabalhos maçônicos de acordo com o costume, portanto, é comum se observar na vertente anglo-saxônica uma variedade decorativa, variedade essa que é tomada ipisis litteris como decoração ou arranjo, onde muitos desses elementos nem mesmo fazem parte do relicário simbólico do working – são portanto meramente elementos decorativos que nem constam nos catecismos e regulamentos maçônicos.

Essa característica é bastante comum na vertente anglo-saxônica de Maçonaria, não existindo, contudo, uma decoração elaborada para a abóbada como acontece no REAA, por exemplo. Também não há cor determinada para a pintura das paredes, etc.

De comum mesmo é a posição dos principais Oficiais e as Luzes Menores conforme o working, assim como alguns elementos que são de uso universal da Maçonaria, independente do rito ou trabalho, como é o caso do Livro da Lei, do Compasso e do Esquadro (Luzes Maiores).

Já a vertente latina de Maçonaria possui outra característica, provavelmente pela sua constituição histórica construída a partir do Grande Oriente da França no século XVIII com o Rito dos 7 Graus, além do sistema conhecido como escocesismo caracterizado pelos altos graus.

A característica da vertente latina e a decoração dos seus Templos (assim conhecidos na Maçonaria Francesa), a despeitos dos elementos universais utilizados, foi construída conforme os ideais dos seus ritos, principalmente no caso do Rito Francês, ou Moderno (à época conhecido por Rito dos 7 graus), assim como os Ritos Adonhiramita e Escocês Antigo e Aceito originário da corrente escocesista em França a partir de 1649.

Conforme a história de cada um desses ritos é que foram construídas as respectivas decorações dos seus templos, em particular o REAA que veio ter o seu primeiro ritual para o simbolismo em 1804 na França, mas que já em 1820/21 esse ritual sofreria modificações devidas à constituição das Lojas Capitulares.

Nesse sentido a vertente latina de Maçonaria, criou atributos próprios, como o da topografia da Loja trazendo o Oriente elevado e dividido para assim acomodar o santuário Rosa-Cruz.

Essa forma capitular do Grande Oriente dirigir todos os graus até o Capítulo, logo veio, como já mencionado, alterar inclusive o ritual original do REAA que não possuía essa distinção e com isso sofreu alteração quando o Grande Oriente o adotou fazendo para tal adaptação para o sistema capitular.

Assim, o REAA passava a seguir a mesma topografia (oriente elevado e dividido) do Rito Francês (7 Graus) e do Adonhiramita, originalmente com 12 Graus. Note que o ápice da escalada iniciática desses ritos era sempre o Grau Rosa-Cruz e todos eles eram dirigidos pelo Grande Oriente da França. Seguindo esse mesmo parâmetro o REAA teria no Grande Oriente as suas Lojas Capitulares cujo ápice era o 18º Rosa-Cruz e o dirigente da Loja era o Athersata que era também o Venerável Mestre, enquanto que os demais graus, acima do 18º, ficavam como o II Supremo Conselho, o da França.

Nesse contexto, os Ritos Francês e Adonhiramita adotavam a cor azul para as paredes dos seus templos, enquanto que o REAA por influência da Loja Mãe Escocesa (extinta em 1816) adotava a cor encarnada associada ao escocesismo, por extensão aos “Stuarts” e ao catolicismo (vermelho – a cor do cardeal). A cor encarnada do Rito seria oficializada no Conselho de Lausanne, realizado na Suíça em 1875.

No que concerne à Maçonaria Brasileira, não se trata bem de ser uma corrente maçônica, mas a de ser uma Maçonaria filha espiritual da França, pois os primeiros ritos praticados no Grande Oriente Brasílico (depois do Brasil) foram os ritos Moderno e Adonhiramita, em seguida oficialmente, a partir de 1832, o REAA. Obviamente que as características de cada um desses ritos seriam aqui também implantadas, contudo, o que também houve de fato, foi uma mistura de procedimentos de uns em outros ritos – coisas da Maçonaria latina e particularmente a brasileira.

Sob essa óptica, a Maçonaria Brasileira teve uma formação básica latina, embora não se possa negar que de há muito tempo também já se praticava por aqui a Maçonaria anglo-saxônica e anglo-americana.

O que de fato não se pode negar na história da Maçonaria Brasileira foi a infeliz mistura de práticas ritualísticas decorrente da profusão de rituais no contexto social da época na Maçonaria Tupiniquim (é preciso conhecer essa história).

Acrescente-se a isso ainda a existência, no decorrer do tempo, de três Obediências regulares brasileiras, tendo cada qual o seu elenco de rituais que, a priori, acabaram ganhando suas próprias características, sobretudo pelas práticas muitas vezes enxertadas de uns em outros ritos.

Especificamente sobre as Colunas Zodiacais na decoração dos Templos do REAA, essa construção alegórica associada a um rito solar teve sua origem nas Lojas Mães Escocesas, depois Loja Geral Escocesa. Não as colunas propriamente ditas, mas as doze constelações zodiacais como marcos do movimento imaginário do Sol na sua eclíptica.

Na sua decoração inicial iam apenas as constelações do Zodíaco, fixadas ou desenhadas na base da abóbada, posteriormente seria adotado o uso de colunas encravadas nas paredes Norte e Sul para indicar o caminho iniciático do maçom. Nesse sentido, vale a pena mencionar que no princípio essas colunas nem mesmo existiam, só se tornando definitivas com a evolução dos rituais a partir do final do século XIX e começo do século XX.

O que se pode dizer a respeito é que as Colunas Zodiacais são elementos alegóricos originais do REAA, sobretudo porque explicam uma doutrina iniciática que tem por desiderato comparar a evolução (transformação) do elemento homem com a transformação da Natureza operada pela revolução anual e aparente do Sol formando os ciclos da Natureza (estações do ano).

Desse modo, outros ritos que porventura as adotem, o fazem por pura enxertia, pois esses elementos emblemáticos não se coadunam com o arcabouço doutrinário de outros ritos latinos e muito menos ainda com os trabalhos anglo-saxônicos.

Vale mais uma vez mencionar que essa alegoria natural é originária da Loja Mãe Escocesa, loja criada em outubro de 1804 para elaboração do primeiro ritual simbólico do REAA na França. Assim, essa Loja Mãe, que seria extinta em 1816 por motivos capitulares, originalmente deu ao REAA a abóbada estrelada e decorada com astros e constelações, das quais, inclusive, as zodiacais figuradas na sua base, além da cor encarnada do Templo; a posição original das Colunas Solsticiais B e J, norte e sul respectivamente; e a aclamação Huzzé como saudação ao Sol.

Enfatizo que tudo isso é contribuição da Loja Mãe Escocesa que, diga-se de passagem, nada tem a ver com outros ritos que não o do escocesismo.

Assim, rituais que porventura mencionem Colunas Zodiacais, fora do REAA, fatalmente estão bastante equivocados, não passando de elementos de enxertos que nada contribuem para a compreensão da essência iniciática de cada rito ou trabalho. Originalmente, o Rito Francês, ou Moderno, o Adonhiramita e o próprio Rito Brasileiro, não trazem na sua estrutura simbólica as Colunas Zodiacais – essa é a verdade.

Eram esses os meus breves comentários a respeito, destacando que esse é um assunto complexo e precisa ser entendido na sua essência, caso contrário certamente as conclusões podem deixar muito a desejar.

Autor: Pedro Juk

Fonte: Blog do Pedro Juk

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Uma loja maçônica não é uma tertúlia (Parte II)

De tertulias y tertulios, 1 | Letras Libres

Dois grandes fatores de distinção entre uma tertúlia e uma loja maçônica são o objetivo e forma da intervenção de cada um. Numa tertúlia as intervenções sucedem-se, e cada um vai tomando a palavra repetidamente tantas vezes quantas queira (ou lho permitam…), sucessivamente acrescentando ao que disse antes, refutando os argumentos deste ou daquele, e fortalecendo – ou alterando – a sua posição de cada vez que se dirige aos demais. Cada um vai tentando fazer prevalecer a sua posição através de argumentos e contra-argumentos ao que foi dito antes, esperando-se que, a partir de um certo ponto, se tenha atingido um equilíbrio em que já tudo foi dito e cada um (re)construiu já a sua posição face ao assunto em debate.

Numa loja maçônica, porém, as coisas não poderiam ser mais diferentes. Começa por que, no que respeita cada assunto, cada um pode fazer apenas uma única intervenção – e só muito excepcionalmente poderá fazer uma segunda, sempre muito curta, e apenas se absolutamente impreterível, como por exemplo para clarificar algo que não tenha sido dito da forma mais inteligível. Esta imposição obriga a que se tenha um cuidado multiplicado com aquilo que se diz, de forma a dizê-lo bem à primeira.

Há uma ordem estrita a ser seguida. Primeiro começa-se pelas colunas (do Sul e do Norte), para que os mestres maçons que aí se sentam possam, querendo, pedir a palavra. Depois de não haver mais pedidos de intervenção, os dois Vigilantes podem pedir a palavra para si mesmos, primeiro o 2º Vigilante e depois o 1º Vigilante. É então dada a indicação de que não há mais intervenções nas colunas, e esta passa ao Oriente, onde residem o Venerável Mestre, o Secretário, o Orador, o ex-Venerável e eventuais visitas a quem tenha sido dada essa distinção. A palavra é dada, no Oriente, a quem quiser dela fazer uso, e o Venerável Mestre é o último a intervir. Caso esteja em causa uma decisão, esta poderá ser tomada pelo Venerável Mestre de imediato, ou este poderá consultar a Loja através de uma votação. De qualquer modo, a intervenção do Venerável Mestre deve ser sempre no sentido de procurar encontrar uma conclusão que seja harmoniosa para a loja, e com que a maioria se identifique.

Para além da forma, já exposta, há o objetivo. Idealmente, cada intervenção destinar-se-ia a que cada um, na medida em que considerasse ser isso útil, apresentasse a sua posição ou opinião a respeito do assunto em causa, e sem que o seu conteúdo fosse condicionado por ser a primeira ou a última intervenção a ser efetuada. O que se diz não deve ser dirigido a ninguém em particular, mas a toda a Loja, e não deveria sequer referir-se alguma intervenção anterior, mas apenas fazer-se referência ao tema que esteja em discussão. Não deve haver interpelações, refutações ou contraditório, uma vez que isso colocaria em desvantagem aquele que já fez a sua intervenção e não pode agora responder. Pretende-se, assim, que cada um possa dar a conhecer a sua posição, sem que tente impô-la aos demais, e sem que explicitamente contrarie alguma posição já exposta, e por outro lado que cada um tenha a oportunidade de ser confrontado com opiniões alheias – porventura distintas das suas – num tom e numa postura que não ameacem a posição com que cada um se identifica.

A Maçonaria cria, deste modo, um contexto que induz cada um a confrontar-se com opiniões e posições distintas da sua, num ambiente de boa fé, entre iguais, sem que ninguém possa impor a ninguém nenhuma obrigação, mas em que cada um possa, querendo, tomar para si as palavras do outro, seja como as recebeu seja na forma que as queira incorporar naquilo que constitui a sua identidade.

Por fim, é costume – se bem que não creia haver nenhuma regra escrita a esse respeito – serem públicos os louvores e privados os reparos. Quando um bom trabalho é apresentado, é frequente que, nas palavras proferidas por cada um, sejam manifestadas palavras públicas de louvor e de encorajamento. Quando, porém, foi dito algo passível de ser interpretado como menos bom ou menos correto, a correção fraterna – que raramente falha – surge quase sempre em voz baixa diretamente ao ouvido do “prevaricador”. A franqueza e honradez manifestadas, de mão dada com a genuína preocupação que os maçons têm uns com os outros, levam a que seja frequente surgirem amizades muito fortes entre irmãos da mesma loja – e mesmo entre irmãos de lojas diferentes. A este respeito não me sai da cabeça uma frase que li há tempos numa entrevista em que alguém dizia: “A maçonaria é a única organização em que se faz amigos de infância aos 40 anos”. Não sei se é a única, mas que se faz, faz.

Autor: Paulo M.

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Uma loja maçônica não é uma tertúlia (Parte I)

A última tertúlia - Homem de Palavra

“Tenho um grupo, que com as vicissitudes da vida se foi afastando, mas que durante uns bons 15 anos formou uma tertúlia que se encontrava quase todos os dias. Tivemos incontáveis debates e polêmicas. Aprendemos todos muito uns com os outros. Hoje, ainda continuamos todos amigos. Não há necessidade de proibições no que toca a troca de ideias.” (Diogo, num comentário recente)

Este comentário explica, quase por si mesmo, porque é que uma Loja Maçônica não é – nem pode ser – uma tertúlia. Ora comecemos, como quem analisa, escrutina e disseca um texto numa aula de Português.

Ter um grupo “… que com as vicissitudes da vida se foi afastando…” é uma das coisas que se pretende evitar numa Loja. Pertencer a uma Loja é como que um casamento. Não é forçosamente para toda a vida, pode-se ter “outras” ao mesmo tempo (se bem que seja difícil de gerir) mas, mesmo quando isso acontece há sempre uma que é a “principal”; pode-se cortar os laços com essa, e ou arranjar outra “principal” ou mesmo passar a não ter nenhuma, mas ambas são situações dolorosas. Uma Loja é como que uma família. Uns nascem, outros morrem, mas a família é a mesma – se não se extinguir; numa Loja, são iniciados uns, adormecem ou partem para o Oriente Eterno outros, mas a Loja permanece – se não abater colunas. Há lojas várias vezes centenárias, e esse vínculo a algo que existia antes de nós e continuará a existir depois é uma das coisas boas que a Maçonaria nos proporciona; ao mesmo tempo que nos reduz à nossa pequenez de meros “passadores de testemunho” dá-nos a satisfação de saber que pertencemos a essa cadeia de continuidade.

Pertencer a um grupo “…que se encontrava quase todos os dias” deve ser algo de muito exigente, e pouco consentâneo, suponho, com os deveres conjugais, laborais e parentais. Claro que isso é questão que só se põe a quem esteja sujeito a esses deveres… Por outro lado, encontros diários não serão, como dizia Shakespeare, “too much of a good thing”? Não terão esgotado em 15 anos conversa que dava para uma vida inteira? Em contraste, a maçonaria alerta os seus membros de que os seus principais deveres são para com a família, para com o Criador (qualquer que seja a conceção que dele se faça), e para com o país; a maçonaria vem depois.

Dizer-se, ao fim de 15 anos, que “ainda continuamos todos amigos” implica ter-se começado por aí: pela amizade enquanto vínculo genitor. Ora, quando se ingressa uma loja é-se integrado num grupo de desconhecidos; as amizades que surjam são paralelas ao grupo, não são condição prévia do mesmo. Os nossos amigos são pessoas que nós conhecemos e cujo contato decidimos manter e aprofundar, e com quem nos identificamos mais; numa loja, pelo contrário, não se escolhe nada; um pouco como a família  do cônjuge, fica-se com o que nos calha na rifa. A um amigo perdoa-se mais, aceita-se mais e tolera-se mais do que a um desconhecido; por isso, as regras e os pressupostos de uma loja e de um grupo de amigos não podem deixar de ser diferentes, pois que numa loja a diversidade é maior do que num grupo de amigos.

Tertúlias como aquela de que o Diogo fala são próprias da adolescência e da juventude. Nos debates, frequentemente acesos, cada um tenta marcar a sua posição, convencer os demais, ensinar e impor o seu ponto de vista. Contudo, é normal que os seus membros, uma vez “crescidos”, tendo adquirido a sua própria individualidade e identidade fora do grupo, se afastem progressivamente; é normal que haja menos disponibilidade para um contato tão íntimo e envolvente, para uma exposição tão prolongada, para um desnudar-se tão profundo – até porque as ideias se vão cimentando e há cada vez menos temas novos a debater sem que o resultado do debate esteja determinado a priori. Assim, a maturidade acaba por estabelecer o limite. Em loja, pelo contrário, o objetivo não é “converter” ninguém a um determinado ponto de vista, mas permitir que cada um encontre o seu.

Autor: Paulo M.

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Quando surgiram os pilares, colunas e candelabros, na Maçonaria?

Introdução

Com a diversidade de ritos praticados no Brasil e a falta de informação sobre alguns elementos que compõem o interior das nossas Lojas Maçônicas, aliado a definições equivocadas dos criadores de simbolismo sem fontes concretas para apoiar os seus argumentos, muitas dúvidas surgem sobre a origem e localização dos pilares, dos globos que encimam estes, assim como os candelabros e etc.

Sendo assim, fomos buscar a origem destes elementos, chegando nas nossas pesquisas até Harry Carr, um dos pesquisadores que muito contribuiu para as publicações da famosa loja de estudos ARS Quatuor Coronatorum. Com base nas suas pesquisas, segue abaixo o que a história nos conta, de acordo com a documentação ainda preservada.

Pilares

Uma das explicações sobre os pilares: “…os dois grandes pilares foram colocados na entrada, no lado sul. . . eles eram ocos, para melhor servir como arquivos para a Maçonaria, pois ali foram depositados os rolos constitucionais… Esses pilares foram adornados com dois capitéis… [e] … com duas esferas onde foram delineados, mapas dos globos celestiais e terrestres, indicando a Maçonaria universal”.

Os primeiros dois pilares na Maçonaria

A aparição dos dois primeiros pilares na literatura maçônica, é descrita na história lendária que faz parte do Manuscrito Cooke (1410) e muitas versões posteriores de manuscritos chamados de Old Charges. A história diz que os pilares foram feitos pelos quatro filhos de Lamech, de modo que resistissem a temida destruição do mundo por fogo ou inundação. Um dos pilares era feito de mármore, o outro de “latrus” (uma espécie de tijolo de argila seca), porque o mármore não seria destruído pelo fogo e o de “tijolo” não seria destruído pela água. Eles foram criados como um meio de preservar “as ciências conhecidas”, que teriam sido esculpidas ou gravadas nos dois pilares.

Esta lenda remonta aos primeiros escritos apócrifos e, ao longo dos séculos, surgiu uma série de variações nas quais a história dos pilares indestrutíveis permaneceu bastante constante, embora a sua construção tenha sido atribuída a diferentes heróis. Assim, Josefo atribuiu-os a Seth, enquanto outra versão apócrifa diz que eles foram construídos por Enoque. Por algum motivo, não explicado com facilidade, as primeiras constituições maçônicas favorecem os filhos de Lamech como os protagonistas desta antiga lenda, que foi incorporada nos textos para mostrar como todas as ciências conhecidas foram preservadas para a humanidade por esta prática inicial do trabalho de pedreiros.

Observamos que nos primeiros manuscritos maçônicos, os pilares não aparecem como tendo conexão com o Templo de Salomão, ligação esta que surge algum tempo depois. Nos séculos XIV e XV, os dois pilares de Salomão não tinham nenhum significado especial para o artesão pedreiro (maçom).

Pilares de Salomão na Maçonaria

A primeira aparição dos pilares de Salomão no ritual maçônico está no Manuscrito Edinburgh Register House, de 1696, num catecismo associado à “Palavra do Maçom”.

A primeira referência conhecida da “Palavra do Maçom” aparece em 1637, num registro feito pelo Conde de Rothes (Escócia), e embora nenhum tipo de cerimônia seja descrito nesse registro, é razoável supor que a “Palavra do Maçom” já era uma prática conhecida naquela data. O Edinburgh Register House é o documento sobrevivente mais antigo que descreve o procedimento real das cerimônias. O texto está em duas partes. Uma seção, intitulada “A forma de dar a palavra do maçom”, que descreve o procedimento para a admissão de um aprendiz ingressado, incluindo cerimônias para assustar o candidato, um juramento, uma forma de “saudação” e certos modos físicos de reconhecimento. Há também um procedimento separado e similar para o “mestre maçom ou companheiro do ofício” (apenas dois graus eram conhecidos naquele momento). A segunda parte deste texto é um catecismo de dezessete perguntas e respostas, quinze para Aprendiz e mais duas para o Mestre ou Companheiro. É provável que estas questões, juntamente com o juramento, representem todo o “trabalho falado” das cerimônias naquela época.

As perguntas são de dois tipos:

  1. Perguntas de teste para fins de reconhecimento.
  2. Perguntas informativas para fins de instrução e explicação.

Entre estes, encontramos pequenas dicas do início do simbolismo maçônico. Uma questão do catecismo de 1696, e em seis dos textos que surgiram logo depois, é a seguinte:

  • Onde surgiu a primeira loja?
  • No pórtico do Templo de Salomão.

O livro de I Reis 7:21, informa-nos que o pórtico do Templo de Salomão tinha duas colunas, a da direita com o nome de Jaquim e a da esquerda com o nome de Boaz. Neste capítulo (I Reis 21), inclusive, temos informações muito importantes sobre como estavam dispostos diversos elementos que compunham o Templo de Salomão.

O Manuscrito Edinburgh Register House é um texto completo, ou seja, nenhuma parte foi perdida ou retirada por mais de 320 anos, desde que foi escrito em 1696. De fato, existem vários textos relacionados nos vinte anos posteriores, o que demonstra amplamente a sua integridade. Vale ressaltar que, em todo esse grupo de textos, os dois pilares anteriores, construídos pelos filhos de Lamech, simplesmente desapareceram. Apenas num documento eles são mencionados.

No Manuscrito Dumfries Nº 4, de 1710, que é um documento escocês composto por 15 folhas de pergaminho costuradas, onde diversas partes ficaram ilegíveis ou apagadas, na sua primeira parte tem a referência aos quatro filhos de Lamech e seus dois pilares e, no catecismo, os pilares são novamente mencionados:

  • Onde a nobre arte ou ciência foi encontrada quando se perdeu?
  • Foi encontrada em dois pilares de pedra, um que não afundaria, o outro que não queimaria.

Isto é seguido por uma longa passagem de interpretação religiosa, dizendo que Salomão nomeou os seus próprios dois pilares em referência a “duas igrejas de judeus e pagãos”.

O curioso é que se cita os dois conjuntos de pilares no mesmo manuscrito, os pilares de Lamech e os pilares de Salomão. Isto sugere que quando as cerimônias foram moldadas para conter as colunas B e J de Salomão, o par “indestrutível” anterior foi abandonado.

Logo após a sua primeira menção nos antigos textos rituais, estes dois pilares tornaram-se uma parte regular do “mobiliário” da loja, e é possível rastreá-los desde a sua primeira aparição até o lugar atual na loja, como segue:

  • A sua primeira aparição como parte de uma questão no catecismo, com muita evidência de que eles tinham algum significado esotérico. Os primeiros catecismos são particularmente interessantes a este respeito, porque indicam que ambos os nomes dos pilares de Salomão pertenciam à cerimônia de Admissão do Aprendiz.
  • Eles foram desenhados no chão da loja em giz e carvão, formando parte das primeiras versões dos nossos modernos “Painéis”. Em Dezembro de 1733, as atas da Old King’s Arms Lodge nº 28, registram o primeiro passo para a compra de um “Tecido de chão”. Os “Desenhos” no chão da loja, são registrados nas atas da Old Dundee Lodge nº18, a partir de 1748. A Herault Letter de 1737 descreve o “Desenho”, e as exposições francesas posteriores, a partir de 1744, contêm excelentes gravuras que mostram os dois pilares (marcados com J e B) nos desenhos de Aprendiz e Companheiro.
  • Entre 1760 e 1765, várias exposições inglesas indicam que os Vigilantes tinham, cada um, uma coluna representando um dos Pilares, como parte do seu equipamento pessoal na loja. O parágrafo a seguir é um exemplo: “Os Wardens (Vigilantes) têm cada um deles uma Coluna na sua mão, com cerca de vinte polegadas de comprimento, o que representa as duas Colunas do Pórtico do Templo de Salomão, Boaz e Jachin. O Sénior (1º Vigilante) é Boaz ou Força. O Junior (2º Vigilante) é Jachin ou Estabilidade”. (Três Batidas Distintas, 1760).
  • Finalmente, os dois pilares aparecem como móveis bonitos, talvez de quatro a oito pés de altura, permanecendo normalmente no extremo ocidente da sala da loja. As primeiras descrições do layout da loja nos anos 1700, mostram ambos os Vigilantes no ocidente, de frente para o Presidente da Loja. Os dois pilares foram geralmente colocados perto deles, formando uma espécie de portal, de modo que os candidatos passariam entre eles na sua admissão.

Interessante citar que as lojas que se reuniam em locais alugados, como quartos, hospedarias ou tabernas, não tem registro de tais colunas nos seus inventários, já as lojas mais ricas, com local próprio e os “Masonic Halls”, já constam as colunas como parte do mobiliário.

Então, nós rastreamos os dois pilares desde a sua primeira aparição, como parte de uma questão no ritual, através de vários estágios de desenvolvimento, até que eles se tornaram uma característica proeminente dos móveis da loja.

Mas as práticas modernas não são uniformes em relação aos pilares. Em Londres, por exemplo, há muito poucas lojas que possuem os pilares B e J como uma coluna no interior da loja, mas elas são sempre retratadas no painel do grau de Companheiro, além de aparecer em miniatura nos pedestais dos Vigilantes.

Capitéis, decorações e globos

As descrições bíblicas dos pilares de Salomão originam muitos problemas, especialmente no que se refere às suas dimensões e ornamentação. Para nós, os capitéis, decorações ou globos que os encimam, são de particular interesse, por causa do desenvolvimento dos rituais durante o século XVIII.

Neste problema em particular, uma grande parte depende da interpretação do texto original em hebraico. Os capitéis aparecem em 1 Reis, VII, 16: “…e ele fez dois capitéis…”. A palavra é Ko-thor-oth = capitéis ou coroas. Mais tarde, no versículo 41, sem mencionar outras obras, o texto fala de “…as duas colunas e os globos dos capitéis…”. O hebraico lê Gooloth Ha-ko-thor-oth, e a palavra Gooloth é um problema. Goolah (singular) significa uma bola ou globo; também, uma tigela ou vaso, e várias formas da mesma raiz são usadas de forma bastante livre para descrever algo redondo ou esférico.

Os nossos contatos com painéis modernos, acostumaram-nos com a ideia de que os dois pilares de Salomão foram encimados por capitéis, com um globo descansando em cada um, mas isso não está comprovado. Os primeiros tradutores e ilustradores da Bíblia não foram unânimes sobre este ponto, e os vários termos que eles usaram para descrever os capitéis e etc., mostram que eles não estavam absolutamente certos quanto à aparência dos pilares.

Para dar um exemplo, a Bíblia de Genebra, de 1560, uma Bíblia ilustrada muito bonita e popular, que forneceu a interpretação de alguns dos nomes próprios e parece ter sido muito usada pelos homens que moldaram o ritual maçônico, em Reis, VII, v.16, “…e ele fez dois capitéis…”, há uma nota de rodapé, “Ou pommels”, ou seja, de características globulares. Nesta fase, a Bíblia de Genebra indica claramente que os capitéis eram globos ou esferas, e não as cabeças em forma de coroa para os pilares, como entenderíamos ser. Entre as ilustrações deste capítulo da Bíblia de Genebra, existem várias gravuras interessantes do Templo e seus equipamentos, incluindo um esboço de um pilar, superado por um capitel raso, com um globo ornamental no topo. Uma nota marginal para esta ilustração diz “A altura do capitel ou bola redonda sobre o pilar de cinco côvados…” Então o capitel era uma bola redonda.

Em II Crônicas, IV, v.12, a mesma Bíblia dá uma nova interpretação “… dois pilares, e os globos, e os capitéis no topo dos dois pilares…”. Aqui é evidente que os “globos” e os “capitéis” eram duas características separadas.

Quer se incline para vasos ou globos, existe ainda outra interpretação que excluiria ambos. Os relatos em ambos os livros de Reis e Crônicas, referem-se à decoração da romã que foi anexada aos “globos” ou capitéis (I Reis, VII, v. 41, 42 e II Crônicas, IV, v. 12, 13) e, a partir dessas passagens, é uma inferência perfeitamente apropriada que os capitéis fossem “em forma de tigela”, e que não haviam vasos nem globos acima deles.

Embora os globos fossem finalmente adotados em móveis e decorações maçônicas como peças chave para os Pilares de Salomão, eles chegaram muito devagar, e durante uma grande parte do século XVIII não havia uniformidade de prática nesse ponto. O Trahi, uma das primeiras exposições francesas, contém várias gravuras que pode ser um “Painel” de uma Loja de Recepção; na verdade, eles são Painéis para o 1º e 2º graus combinados, e outro para o terceiro grau. O Painel do Aprendiz contém ilustrações dos dois pilares, marcados com as letras J e B, ambos os pilares na arquitetura Corinthia. Há também, entre uma enorme coleção de símbolos, um rascunho que é descrito no índice como uma “esfera armilar”, uma espécie de globo usado na astronomia para demonstrar os cursos das estrelas e dos planetas.

A Lodge of Probity nº 61, Halifax (fundada em 1738), estava em declínio sério em 1829, e um inventário das suas posses foi registrado naquele momento. Um item lê-se: “Caixa com Globos e Suportes”. A Phoenix Lodge nº94, Sunderland (fundada em 1755), tem um par de globos do século XVIII, cada um montado em três pernas, de pé à esquerda e à direita do pedestal do mestrado. All Souls ‘Lodge, no 170 (fundado em 1767), teve até 1888 um belo par de globos, cada um montado numa base de tripé, claramente do estilo do século XVIII, similarmente colocado à esquerda e à direita do Venerável Mestre. A Lodge of Peace and Unity nº314, Preston (fundada em 1797), num recente esboço da sua sala da loja, mostra um par de globos em suportes de três pernas, colocados no chão da loja, à esquerda e a direita, um pouco a frente do 1º Vigilante.

Entre a colecção única de equipamentos de lojas conhecida como “Bath Furniture”, há um par de globos, “celestiais e terrestres”, em suportes de quatro pernas e as atas que foram apresentados a Royal Cumberland Lodge em 1805. É interessante observar que o equipamento também inclui um belo par de pilares de latão, cada um com cerca de 5 pés e 9 cm de altura, como sempre no ocidente, e cada um deles encimado por uma grande tigela de latão. Estes datam do final do século XVIII.

Neste caso especialmente, como em todos os casos citados anteriormente, não há evidências de globos em cima dos pilares de B e J.

O frontispício das Constituições de Nooryouck de 1784 é um desenho simbólico em que a parte arquitetônica representa o interior do então Free Masons Hall. Ao pé da imagem, em primeiro plano, há uma mesa longa com várias ferramentas e símbolos maçônicos, com dois globos em suportes de tripé e a descrição da imagem refere-se a “…Globos e outros Móveis Maçônicos e Implementos da Loja”.

Tudo isto sugere que os globos começaram a desempenhar algum papel na loja ou no ritual, embora ainda não estivessem associados aos pilares. Mas, mesmo depois de os globos ou tigelas terem começado a aparecer nos pilares, ainda havia dúvidas consideráveis ​​sobre o que estava correto. Isto é particularmente notável nos primeiros painéis e em aventais decorados, alguns com “vasos” e outros “globos”.

Resumindo:

  • No período dos nossos primeiros documentos rituais, 1696 a 1730, não há evidências de que os globos formaram parte do catecismo ou do ritual, e é razoavelmente certo que eles eram desconhecidos como parte do mobiliário das lojas.
  • Por volta de 1745, é provável que a esfera ou o globo tenham sido introduzidos como um dos símbolos nos “desenhos de chão” ou nos Painéis. Não há evidências para mostrar que apareceu nos catecismos. Existem vários catecismos altamente detalhados pertencentes a esse período, 1744 e mais tarde, mas os globos não são mencionados em nenhum deles. A aparência da esfera na exposição de 1745 é a única evidência que sugere que ela tenha desempenhado algum papel nas explicações mais ou menos importantes do simbolismo, que provavelmente entrou em prática neste tempo ou pouco depois.
  • Nos anos 1760 e 1770, as Colunas de Salomão com globos, aparecem frequentemente em ilustrações de equipamentos de loja e em aventais, mas não há uniformidade de prática. Em algumas lojas (como vimos e veremos abaixo), os globos já eram uma parte reconhecida do mobiliário da loja; Em outro lugar, eles encimam os pilares, e provavelmente eram “explicados” nas “instruções da loja”. Em outros lugares, os globos eram praticamente desconhecidos.

Mapas: Maçonaria Universal

A tradição de que os globos dos Pilares de Salomão estavam cobertos de mapas celestiais e terrestres é certamente pós bíblica, e parece ser uma parte do enfeite do ritual no século XVIII. Podemos perguntar-nos como este interesse em mapas terrestres e celestiais surgiu e parece não haver resposta segura. Os catecismos iniciais, de 1700 a 1730, todos indicam um crescente interesse no assunto, como por exemplo:

  • Quão a altura da sua loja?
  • …chega ao céu …o céu material e o firmamento estrelado.
  • Quão profundo?
  • …ao centro da Terra.

Há também as questões mais relacionadas ao Sol, Lua e o Mestre Maçom, com variações e expansões subsequentes. Estas questões pode ser que sejam as primeiras indicações para o interesse posterior em mapas, e a esfera armilar de 1745, citada acima, leva o assunto a um novo estágio.

A convocação da Old Dundee Lodge, datada de 1717, mostrou três pilares, dois deles encimados por globos que retratam mapas do mundo e o firmamento. Um certificado emitido pela Lodge of Antiquity em 1777 exibia, um par semelhante de mapas. Uma edição de 1768 de Jachin and Boaz tem um frontispício gravado que mostra os móveis e os símbolos da loja, incluindo dois pilares superados por globos – um com marcas de mapa bastante vagas e o outro claramente marcado com estrelas. Os vários conjuntos de globos geográficos em pares descritos acima (não “globos-pilares”), indicam um profundo interesse maçônico nos globos celestial e terrestre durante o século XVIII.

Preston, nas suas “Ilustrações da Maçonaria”, edição de 1775, na seção que trata das Sete Artes e Ciências Liberais, falou um pouco sobre os globos e sobre a importância da astronomia e, claro, sobre as lições espirituais e morais a serem aprendidas deles.

Tudo isso parece sugerir que os mapas começaram a aparecer neste momento, nas partes verbais do ritual.

A introdução de mapas, “celestiais e terrestres”, levou a um desenvolvimento adicional que acabou por dar à Maçonaria, uma expressão que se tornou uma espécie de marca da Ordem em todos os lugares. A primeira sugestão desta expressão apareceu na “L’Ordre des francs-maçons Trahi”, em 1745, que acrescentou uma nova pergunta a essas passagens do catecismo:

  • E a sua profundidade?
  • Da Superfície da Terra ao Centro.
  • Por que você responde assim?
  • Para indicar que os Maçons estão espalhados por toda a Terra, e todos juntos formam, no entanto, apenas uma Loja.

Em 1760, o Três Batidas Distintas (o ritual dos Antigos) alterou a resposta final de forma muito eficaz:

  • Por que a sua Loja é dita da Superfície ao Centro da Terra?
  • Porque a Maçonaria é Universal.

Foi assim que adquirimos o slogan “Maçonaria Universal”.

Entretanto, o primeiro texto que indica claramente os mapas como parte do ritual é o Browne’s Master Key, datado de 1802, com referência à “…os globos celestes e terrestres”.

Os pilares como arquivos

Os relatos bíblicos do modelo dos pilares não fazem menção de serem vazados, embora isso possa ser deduzido do fato de que, se tivessem sido sólidos, a sua remoção de Zeradatha e a sua construção final em Jerusalém, teria sido uma façanha excepcional da engenharia. Em Jeremias 52 v.21, afirma-se que eles eram de forma oca, o metal tinha a espessura de “quatro dedos”, mas não há nenhuma sugestão de que isso foi feito para que os pilares possam servir como “arquivos”, ou recipientes de qualquer tipo, ou que Salomão os usou, armazenando os rolos constitucionais.

Sem dúvida, a definição dos pilares vazios, foram projetados para atender a um propósito peculiarmente maçónico.

Três luzes, três pilares, três candelabros

Dezessete documentos maçônicos sobreviveram, datados de 1696 a 1730, e fornecem a base para o nosso estudo da evolução do ritual. O primeiro deles é o Edinburgh Register House, datado de 1696, com uma descrição valiosa do sistema de dois graus daqueles dias. O último da série é o Maçonaria Dissecada, que contém o ritual mais antigo dos três graus, e a versão mais antiga da lenda de Hiram. Em todos estes textos iniciais, o ritual era principalmente na forma do catecismo, e nós fazemos uma ideia do seu desenvolvimento durante esses trinta e cinco anos quando comparamos esses dois documentos. O primeiro contém quinze perguntas e respostas para a Aprendiz, e duas para o “Mestre ou Companheiro”. O Maçonaria Dissecada tem 155 questões ao total, ou seja, noventa e dois para Aprendiz, trinta e três para Companheiro e trinta para o Mestre Maçom.

Três luzes

Doze dos rituais mais antigos contêm uma pergunta sobre as “luzes da loja”: “… Há luzes na sua loja, sim três…” [Edinburgh Register House, 1696]. As luzes logo adquirem um caráter simbólico, mas originalmente eram provavelmente velas ou janelas, com posições específicas atribuídas a eles, por exemplo, “NE, SO e passagem do oriente”, ou “SE, S e SO”, e etc., até chegar ao Maçonaria Dissecada em 1730, que diz que as luzes são três janelas no L (Leste), S (Sul) e O (Oeste) e o seu objetivo é “Para iluminar os Homens para, e no seu trabalho”. O Maçonaria Dissecada distingue entre luzes simbólicas e “luzes fixas”, explicando que estas são “grandes velas colocadas em altos castiçais”.

Simbolicamente, vários textos dizem que as luzes representam “o Mestre, o Vigilante e o Companheiro”. Quatro versões dizem “Pai, Filho e Espírito Santo”. Três outros dizem ser doze luzes: “Pai, Filho, Espírito Santo, Sol, Lua Mestre Maçom, Esquadro, Régua, Prumo, Linha, Maço e Cinzel”. Todos estes são do período 1724-26.

O Maçonaria Dissecada diz “Sol, Lua e o Mestre Maçom” e depois da pergunta “Por quê? ”, ele responde: “Sol para governar o Dia, Lua da Noite e Mestre Maçom a sua Loja”. Mestre maçom neste caso se refere ao presidente da loja ou o atual Venerável Mestre.

Então nós rastreamos as luzes da sua primeira aparição no nosso ritual até o ponto em que elas adquirem o seu simbolismo moderno.

Três pilares

Uma definição moderna: as nossas lojas são apoiadas por três grandes pilares. Eles são chamados de Sabedoria, Força e Beleza. Sabedoria para construir, Força para sustentar e Beleza para adornar, mas como não temos ordens nobres em arquitetura conhecidas pelos nomes de Sabedoria, Força e Beleza, nos encaminhamos para as três mais célebres, que são, a Jônica, Dórica e Coríntia.

Os problemas relacionados ao mobiliário da loja não terminam com os dois pilares de Salomão. Já em 1710, um conjunto inteiramente diferente de três pilares faz a sua aparição nos catecismos e exposições. Eles aparecem pela primeira vez no Manuscrito Dumfries nº4, datado de 1710:

  • Quantos pilares estão na sua loja?
  • Três.
  • Quais são esses?
  • O esquadro, o compasso e a Bíblia.

Estes três pilares não aparecem novamente nas onze versões dos catecismos entre 1710 e 1730, mas surge a questão, com uma nova resposta, no Maçonaria Dissecada:

  • O que apoia uma loja?
  • Três grandes pilares.
  • Como são chamados?
  • Sabedoria, força e beleza.
  • Por quê?
  • Sabedoria para construir, Força para sustentar e Beleza para adornar.

Perguntas quase idênticas apareceram no Manuscrito Wilkinson, de 1727 e em toda uma série de exposições inglesas e europeias ao longo do século XVIII, invariavelmente com a mesma resposta: “Três. Sabedoria para construir, Força para sustentar e Beleza para adornar”. Mas as descrições do mobiliário da loja no início dos anos 1700, não mencionam nenhum conjunto de três, e parece evidente que essas questões pertencem a um período bastante longo, antes que houvesse alguma ideia de transformá-las em móveis reais na sala da loja

Os primeiros inventários de loja são escassos demais para nos permitir tirar conclusões definitivas da ausência de referências a itens específicos de mobiliário ou equipamento da loja. Embora seja bastante certo, portanto, que as lojas operativas iniciais eram pouco decoradas, e fica evidente, nos registros sobreviventes do século XVIII, que na década de 1750, já havia uma série de lojas razoavelmente bem equipadas.

Um conjunto de três pilares foi mencionado nos registros da Nelson Lodge em 1757, e a Lodge of Relief, Bury, comprou um conjunto de três pilares, para o Mestre da Loja e seus Vigilantes, em 1761. Até hoje, a antiga Lodge of Edinburgh (Mary’s Chapel), Nº l, agora com quase 400 anos, usa um conjunto de três pilares, cada um com cerca de três metros de altura. O pilar do Mestre fica no Altar, quase no centro da Loja, os outros dois ficam no chão à direita do 1º e 2º Vigilantes, respectivamente. (Lá, os três principais oficiais não têm pedestais).

O Maçonaria Dissecada permaneceu a principal influência do ritual inglês até 1760, quando uma nova série de exposições inglesas começaram a aparecer, exibindo uma expansão substancial nas cerimônias e na sua interpretação especulativa. O Três Batidas Distintas apareceu em 1760, e J. & B. em 1762, alegando expor os rituais das Grandes Lojas rivais, dos “Antigos” e “Modernos”. Ambos agora incluíram várias perguntas e respostas novas sobre “Os três grandes pilares”, concordando que “eles representam… O Mestre no Oriente, o 1º Vigilantes no Ocidente e o 2º Vigilante no Sul”, cheio explicações dos seus deveres individuais nesses cargos.

Parece provável que estas questões tenham sido originalmente destinadas apenas a marcar as posições geográficas dos pilares, mas nesse período de desenvolvimento especulativo, as explicações foram quase inevitáveis.

Três candelabros

Além da nota de Prichard na década de 1730 em “grandes velas colocadas em castiçais altos”, a primeira evidência de uma combinação desses dois conjuntos de equipamentos está nos registros da Lodge of Felicity nº 58, fundada em 1737, quando o Loja pediu “Três castiçais a serem feitos de acordo com as seguintes ordens, 1 Dórica, 1 Jônica, 1 Coríntia e de mogno…”. No inventário da loja em 1812, eles se multiplicaram e foram listados como “Seis castiçais grandes. De mogno com suportes de latão, feitos pelas três ordens”. Em 1739, a Old Dundee Lodge fez um conjunto similar, que está em uso ainda hoje.

A conexão talvez não seja imediatamente óbvia, mas estes foram os estilos arquitetônicos associados aos atributos dos três pilares pertencentes ao Mestre e Vigilantes, “Sabedoria, Força e Beleza”. O simbolismo maçônico dos três pilares tinha sido explicado por Prichard em 1730, e é quase certo que estas duas lojas estavam colocando as suas palavras em forma prática quando tiveram os seus castiçais feitos nestes três estilos.

Estes dois exemplos iniciais podem servir de ponteiro para o que estava acontecendo, mas ainda não era uma prática geral, e as evidências iniciais do seu uso combinado são escassas. Mas podemos traçar os conjuntos de três pilares desde a sua primeira aparição no ritual como uma questão puramente simbólica, na qual eles apoiam a Loja, e são chamados de “Sabedoria, Força e Beleza”. Mais tarde, eles representam os três principais oficiais, no Oriente, Sul e Ocidente. A partir do momento em que foram explicados desta forma, de 1730 a 1760, é bastante seguro assumir que eles estavam começando a aparecer nos desenhos, tapetes de chão ou painéis. Sabemos, é claro, que eles apareceram regularmente nas versões posteriores, mas o padrão geral da sua evolução parece indicar que quase certamente foram incluídos em muitos dos primeiros desenhos que não sobreviveram.

Na década de 1750 e 1760, temos evidências definitivas, que conjuntos de três candelabros (ou pilares) já estavam em uso como mobiliário em várias lojas, e isso acrescenta um forte apoio à visão de que eles já tinham aparecido nos Painéis (Tracing Boards). Quando, no final do século XVIII, as salas das lojas e os Masonic Halls estavam sendo criados para uso frequente ou contínuo, os três candelabros tornaram-se uma parte regular dos móveis, ocasionalmente por vontade própria, mas com mais frequência como bases ornamentais para as três “luzes menores”, combinando assim as duas características separadas com a que é frequentemente vista hoje.

O desenvolvimento do simbolismo Maçônico

O crescimento do número de símbolos, como ilustrado nas exposições francesas da década de 1740, e nas versões inglesas da década de 1760, merece algum comentário. No Grand Lodge Museum, há uma coleção de modelos de metal pintado, pertencendo aparentemente a vários conjuntos diferentes. Existem pilares com globos, um conjunto de dois pequenos pilares sem globos e um conjunto separado de três pilares. Há também um conjunto de modelos de “Capitéis”, ou seja, apenas a parte superior dos pilares, claramente projetados para adicionar os globos.

Todos estes, com muitos outros símbolos, foram utilizados nos desenhos feitos no chão da loja. Era parte do dever do Mestre explicar os “desenhos” ao candidato, imediatamente após ter sido ingressado. Parece que não houve nenhum ritual definido para este propósito, e as explicações eram, sem dúvida, improvisadas.

A partir de 1742, há evidências substanciais de que o número de símbolos aumentou consideravelmente, e isso parece indicar uma expansão real nas “explicações”, todo um fluxo de exposições inglesas que começaram a aparecer a partir de 1762, possuem algum tipo de dissertação semelhante aos símbolos contidos nos painéis.

Muitos destes símbolos antigos, que aparecem frequentemente nos painéis dos graus do século XVIII e em gravuras contemporâneas, agora desapareceram do nosso funcionamento moderno, entre eles a Trolha, a Colmeia, a Ampulheta, etc.

Neste breve texto, confinei-me apenas a alguns itens simbolizados do nossa loja atual, cujas origens podem ser obscurecidas devido à padronização, mas existe todo um mundo interessante na simbologia remanescente da maçonaria.

Um ritual do REAA em utilização hoje no Brasil dá-nos a seguinte ideia: “Sustentam as nossas lojas três colunas denominadas Sabedoria, Força e Beleza. Sabedoria de Salomão para construir (Jônica), Força de Hiram Rei de Tiro para sustentar (Dórica) e Beleza de Hiram Abiff para adornar (Coríntia).

Logicamente, devido a diversidade de estrutura organizacional das potências brasileiras, teremos muitas variações do simbolismo destas três colunas, mas todas convergindo para o mesmo propósito.

Autor: Luciano Rodrigues

Fonte: O Prumo de Hiram

Referências

  • Manuscrito Cooke – 1410
  • Manuscrito Edinburgh Register House – 1696
  • Manuscrito Dumfries Nº 4 – 1710
  • Manuscrito Wilkinson – 1727
  • Maçonaria Dissecada – Samuel Prichard – 1730
  • Herault Letter – 1737
  • Le Catéchisme des Francs-maçons – 1742
  • L’Ordre des francs-maçons Trahi – 1745
  • Three Distinct Knocks – 1760
  • Jachin and Boaz – 1762
  • Ilustrações da Maçonaria – William Preston – 1775
  • Browne’s Master Key – 1802
  • The Two Earliest Masonic MSS – Knoop, Jones and Hamer – 1938
  • The Early Masonic Catechisms – Knoop, Jones and Hamer – 1943
  • Transactions of Quatuor Coronati Lodge Nº 2076, UGLE, Vol 64 – Harry Carr – 1962
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Porque se vai à Loja

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A pergunta sobre as razões por que os maçons vão à Loja, gastando tempo que, não fora essa utilização, dedicariam à sua família, ao lazer ou a outras atividades a que se dediquem, tem tantas respostas quantos os maçons. Em boa verdade, cada um tem as suas razões para ir à Loja.

Uns vão em busca do conhecimento, dos ensinamentos que a Maçonaria proporciona.

Outros buscam o convívio, rever os seus Irmãos, com eles estar e partilhar um ágape, em amena cavaqueira.

Outros ainda procuram na Loja a estrutura que corresponde aos seus anseios de serem úteis à Sociedade e aos seus semelhantes, utilizando a Loja como meio de enquadramento da sua vontade de devolver à Sociedade um pouco do que esta lhes proporciona.

Também há os que vão à Loja simplesmente cumprir o seu dever de maçons, assegurar o cumprimento das obrigações que assumiram, efetuar as tarefas cuja execução assumiram.

Há também aqueles que, na Loja, no seu espaço, nos seus símbolos, no seu ritual, encontram espaços e tempos de comunhão com o Divino, com o Transcendente.

E existem também aqueles que anseiam por uns momentos de simples e pacata Paz, que procuram a companhia de seus Irmãos e a sua estada no espaço do Templo com confiança, encontrando um oásis de segurança e comunhão, que os compensam das agruras, dos desafios, da tensão da sua vida do dia a dia.

E outros buscarão coisas e estados e espaços diferentes.

O que a Loja tem afinal, de extraordinário, é uma infinita capacidade de proporcionar a cada um o porto de abrigo, o espaço de segurança, o caminho de busca, o tempo de convívio, a estrutura de atividade ou contemplação ou investigação ou busca que cada um necessita.

O que, no fundo, a Loja é, é um espaço de suprema Liberdade e Tolerância, em que cada um pode realizar-se e deixar os outros realizar-se, cada um à sua maneira e segundo as suas características e necessidades. É um espaço de cooperação, em que cada um contribui para a realização e melhoria dos outros, beneficiando ele próprio do contributo dos demais. É um ponto de encontro, simultaneamente ponto de partida e encruzilhada de variegados interesses individuais, que constituem um rico interesse coletivo. É a bissectriz do individual e do coletivo, de tal forma equilibrada que permite que ambos cresçam e cooperem e mutuamente se alimentem. É, em suma, a Utopia possível, a concretização do inconcretizável, equilíbrio instavelmente estável de múltiplos interesses e egoísmos, numa matriz que a todos enquadra satisfatoriamente. É um delicado bordado de mil linhas e infinitas cores, executado por inúmeras mãos, extraordinariamente resultando numa harmoniosa composição. É tudo isto e ainda mais o que cada um quiser, desde que respeite os interesses e anseios dos demais e do conjunto por todos constituído.

Esta singular plasticidade da Loja faz dela um duradouro cimento que une homens de diferentes temperamentos, de diversas gerações, de divergentes culturas, de separadas religiões, de conflituantes convicções, gerando laços de solidariedade e confiança que imutavelmente duram há centenas de anos.

É por isso que sempre se marca bem, sempre da mesma forma, sempre com o mesmo ritual, a abertura dos trabalhos, delimitando invisível mas sensivelmente o espaço e o tempo e a cumplicidade da Loja e dos seus elementos em relação a tudo e a todos que lhes é exterior. É por isso que, findos os trabalhos, de novo, sempre e da mesma forma, se executa um ritual de encerramento, que marca o fechar e preservar desse espaço e tempo e cumplicidade próprios e exclusivos, preparando cada um para voltar a atuar no mundo exterior, só que mais forte, mais sabedor, mais capaz de ver beleza onde o olhar comum nada de especial vê.

A Loja é um espaço onde cada um dá o que pode e vai buscar o que necessita.

É por isso que cada um sabe porque vai à Loja e, afinal, existem tantas razões para um maçom ir à Loja como maçons existem à face da Terra.

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Porquê “meu irmão”, e não “meu amigo”?

Os maçons tratam-se, entre si, por “irmão”, tratamento que é explicitamente indicado a cada novo maçom após a sua iniciação. Imediatamente após terminada a sessão de Iniciação é normal que todos os presentes cumprimentem o novo Aprendiz com efusivos abraços, rasgados sorrisos e, entre repetidos “meu irmão”, “meu querido irmão” e “bem vindo, meu irmão”, recebe-se, frequentemente, mais afeto do que aquele que se recebeu na semana anterior.

O que seria um primeiro momento de descontração torna-se, frequentemente, num verdadeiro “tratamento de choque”, num momento de alguma estranheza e, quiçá, algum desconforto para o novo Aprendiz. Afinal, não é comum receber-se uns calorosos e sinceros abraços de uns quantos desconhecidos, para mais quando estes nos tratam – e esperam que os tratemos – por irmão… e por tu! Sim, que outro tratamento não há entre maçons, pelo menos em privado – que as conveniências sociais podem ditar, em público, distinto tratamento.

O primeiro momento de estranheza depressa se esvai – e os encontros seguintes encarregam-se de tornar naturalíssimo tal tratamento, a ponto de se estranhar qualquer “escorregadela” que possa suceder, como tratar-se um Irmão na terceira pessoa… Aí, logo o Aprendiz é pronta e fraternalmente corrigido, e logo passa a achar naturalíssimo tratar por tu um médico octogenário, um político no ativo, ou um professor universitário. E de fato assim é: entre irmãos não há distinção de trato.

Não se pense, todavia, que todos se relacionam do mesmo modo. Afinal, não somos abelhas obreiras, e mesmo entre essas há as que alimentam a rainha ou as larvas, as que limpam a colmeia, e as que recolhem o néctar. Do mesmo modo, todos os maçons são diferentes, têm distintos interesses, e não há dois que vivam a maçonaria de forma igual. É natural que um se aproxime mais de outro, mas tenha com um terceiro um relacionamento menos intenso. Não é senão normal que, para determinados assuntos, recorra mais a um irmão, e para outros a outro – e podemos estar a falar de algo tão simples quanto pedir um esclarecimento sobre um ponto mais obscuro da simbologia, ou querer companhia ao almoço num dia em que se precise, apenas, de quem se sente ali à nossa frente, sem que se fale sequer da dor que nos moi a alma.

Mas não serão isto “amigos”? Porquê “irmãos”? Durante bastante tempo essa questão colocou-se-me sem que a soubesse responder. Sim, havia as razões históricas, das irmandades do passado, mas mesmo nessas teria que haver uma razão para tal tratamento. O que leva um punhado de homens a tratarem-se por “irmão” em vez de se assumirem como amigos? Como em tanta outra coisa, só o tempo me permitiu encontrar uma resposta que me satisfizesse. Não é, certamente, a única possível – mas é a que consegui encontrar. 

Quando nascemos, fazêmo-lo no seio de uma família que não temos a prerrogativa de escolher. Ninguém escolhe os seus pais ou irmãos de sangue; ficamos com aqueles que nos calham. O mais natural é que, em cada núcleo familiar, haja regras conducentes à sua própria preservação e à de todos os seus elementos, regras que passam, forçosamente, pela cooperação entre estes. É, igualmente, natural que esse fim utilitário, de pura sobrevivência, seja reforçado por laços afetivos que o suplantam a ponto de que o propósito inicial seja relegado para um plano inferior. É, assim, frequente que, especialmente depois de atingida a idade adulta, criemos laços de verdadeira e genuína amizade com os nossos irmãos de sangue, que complementa e de certo modo ultrapassa, em certa medida, os meros laços de parentesco.

Do mesmo modo, quando se é iniciado numa Loja – e a Iniciação é um “renascimento” simbólico – ganha-se de imediato uma série de Irmãos, como se se tivesse nascido numa família numerosa. Neste registo, os maçons têm, uns para com os outros, deveres de respeito, solidariedade e lealdade, que podem ser equiparados aos deveres que unem os membros de uma célula familiar. Porém, do mesmo modo que nem todos os irmãos de sangue são os melhores amigos, também na Maçonaria o mesmo sucede. Não é nenhum drama; o contrário é que seria de estranhar. Diria, mesmo, que é desejável e sadio que assim suceda, pois a amizade quer-se espontânea, livre e recíproca. E, tal como sucede entre alguns irmãos de sangue, respeitam-se e cumprem com os deveres que decorrem dos laços que os unem, mas não estabelecem outros laços para além destes. Pode acontecer – e acontece. Mas a verdade é que o mais frequente é que, especialmente dentro de cada Loja, cada maçom encontre, de entre os seus irmãos, grandes amigos – e como são sólidos os laços de amizade que se estabelecem entre irmãos maçons!

Autor: Paulo M.

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Como o sistema escolar falhou com a Maçonaria

Comenius school

O sistema educacional público, nas últimas décadas, tornou-se utilitarista, ou seja, mais orientado para a praticidade e menos para as humanidades gerais, porque essas eram e ainda são consideradas, pelos “filósofos” utilitaristas, como não essenciais para o progresso humano no século XX ou século 21.

Da mesma forma, tornou-se um sistema escolar muito secular. Não se engane: embora apoiemos totalmente um sistema secular, isso também teve um efeito colateral inesperado: muitas obras de arte e obras-primas literárias de repente se tornaram ininteligíveis para a maioria dos alunos porque eles não entendem mais referências bíblicas.

O mesmo vale para a língua: por sermos (principalmente) um país de língua inglesa devemos conhecer mais sobre sua história – e essa afirmação não contraria o caráter multicultural da sociedade como um todo, pois mesmo nas mais diversas sociedades, há sempre a necessidade de uma “língua franca”.

Curiosamente, essa frase, língua franca significava em latim a língua falada pelos francos, uma tribo germânica que, ironicamente, deu o nome à França… utilizar como denominador comum e como instrumento geral de comunicação entre várias entidades, um pidgin da época medieval.

Pansophia

Como um país de língua inglesa… seria de esperar que alguém considerasse necessário aprender a história da língua, incluindo suas formas clássicas – desde o renascimento inglês, ou seja, da era elisabetana, com a KJV (King James Version): provavelmente como a tradução inglesa mais conhecida, querida e reverenciada do Livro Sagrado do Cristianismo e do Judaísmo; e ao mesmo tempo com textos de Shakespeare e seus contemporâneos, e mais tarde algum estudo do estilo e do adorno das obras literárias e das frases durante a era vitoriana. Esse era um idioma eloquente bem conhecido e aceito pelos homens e mulheres educados do período e se reflete na maioria de nossos rituais.

Ao que parece, e posso estar errado, essas coisas, como história da(s) arte(s), história dos antigos (antigos) estilos gregos ou ordens de arquitetura, incluindo suas adições romanas; e a redescoberta desses elementos arquitetônicos básicos, como colunas, durante a época do Renascimento – são uma arte perdida entre as gerações mais jovens.

E ao mesmo tempo há uma falta, uma total falta de conhecimento da mitologia grega antiga ou da mitologia romana antiga, que é meio que espelhando a mitologia grega.

Nas universidades medievais onde se ensinava o que mencionamos muito superficialmente na instrução do 2º grau – as sete artes liberais e ciências –, era considerado o básico da educação e formação para os jovens que passavam pela educação formal…

Através do grego e do latim antigos, com as regras gramaticais muito rígidas, eles também adquiriram uma maneira muito disciplinada de pensar, usando estruturas lógicas, e ao mesmo tempo uma maneira muito rica de se expressar através da língua usando gramática adequada; e recitando-a em voz alta, como a retórica exige, eles aprenderam a arte de falar em público.

Quo Modo Deum
Quo Modo Deum
(xilogravura de um livro sobre alquimia mostrando um “Olho no Céu” precursor do Olho da Providência. Título traduz como ‘Este é o caminho de Deus’.)

Todas essas coisas desapareceram da nossa educação contemporânea – assim como no mundo inteiro!

De volta à Loja e à Maçonaria. Aqui está o que acontece quando um jovem, muito simpático, e até mesmo ‘educado’ e conhecedor, bate na porta da loja: se ele é considerado digno, ou seja, um bom ajuste e um bom homem, com potencial para crescer em um bom maçom, então nós o aceitamos, nós o iniciamos, ele passa pelo ritual de ser iniciado… e essa cerimônia rica, cerimônia linguisticamente muito rica, adornada em um estilo muito vitoriano, com uma linguagem às vezes complicada, bate na cabeça dele como um martelo. Ninguém consegue na primeira noite.

Com suas inúmeras referências a histórias bíblicas, com inúmeras referências ocultas ou abertas a antigas escolas filosóficas, de Platão e da escola platônica, incluindo neoplatônicos, estoicos, e depois ideias da era renascentista, como Pico Dela Mirandola e muitas outras… não é fácil de digerir.

Há também nessa “mistura” os efeitos dos influentes pensadores de 1600, quando os fundamentos do nosso sistema atual evoluíram: do método científico de Sir Francis Bacon à alquimia e matemática newtoniana, de antiquários como Ashmole ao pai da pedagogia (Comenius , um irmão da Morávia), desde os fundadores da Royal Society (de fato a academia de ciências da Inglaterra) até os primeiros representantes do Iluminismo…

Na literatura contemporânea, frases (topos como diriam os gregos) como o Templo do Conhecimento, o Templo da Enciclopédia, o Templo da Sabedoria (Templum Sophiae) junto com sonhos utópicos sobre a sociedade perfeita, que deveria ser uma Nova Jerusalém … eram sujeitos onipresentes.

Vale a pena notar que (de acordo com um equívoco comum) acreditava-se que a antiga Jerusalém e o Templo do Rei Salomão – sim, aquele templo! – nele estava o repositório de toda a sabedoria e conhecimento humano (lembre-se, o epíteto ornans de Salomão era sábio ) … estava no ar, por assim dizer, para recriar, para reconstruir aquele Templo da Sabedoria, aquele Templo o conhecimento humano que abrange tudo.

nova Jerusalém
Nova Jerusalém

E esses homens muito educados, muito instruídos… os antepassados ​​da Maçonaria (e estou falando principalmente da Maçonaria Inglesa porque os Escoceses e os Irlandeses trouxeram uma tradição diferente para a mistura e isso poderia ser assunto de outra apresentação) então, todos essas ideias na Maçonaria Inglesa, juntamente com a herança cristã (católica) prática, embora um pouco mística, transmitida pelas guildas de pedreiros e lojas operativas, criaram uma mistura fenomenal, uma novidade fenomenal, uma fermentação fenomenal de ideias, filosofias e visões de mundo. E dentro dos muros (intra muros) em vez de matar uns aos outros – como acontecia fora dos muros – por causa de diferentes abordagens à divindade, aos princípios do cristianismo (na verdade, naquela época era apenas sobre diferentes facções do cristianismo, ninguém pensava em religiões e crenças fora da Europa) eles criaram esse microcosmos quase irreal da loja. A questão é: ainda temos?

Assim, os mencionados jovens chegam à Loja e descobrem todas essas coisas fascinantes (como as três colunas, símbolos de sabedoria, força e beleza e pertencentes a diferentes ordens de arquitetura “nobres” antigas), mas não têm a imagem mental dos três estilos gregos diferentes; têm dificuldade em compreender as referências bíblicas; e não entendem referências mitológicas; e não entendem as ferramentas literárias aplicadas na compilação dos textos…

3 colunas gregas
As três colunas gregas clássicas – cronologicamente na ordem errada. O dórico no meio foi o mais antigo…

Quando descobrem no ritual e na Loja todos aqueles tópicos de que nunca ouviram falar, desenvolvem esse equívoco de que TUDO foi inventado pelos maçons (incluindo as artes e ordens antigas) e não são capazes de contar a história do mito, a realidade da lenda , genealogia da semelhança… E, finalmente, eles são vítimas de autonomeados especialistas sem escrúpulos que os alimentam com mitos e lendas (em tons caros) em vez de educação e conhecimento reais.

Nós falhamos com eles duas vezes. Em primeiro lugar porque o sistema escolar não os preparou para compreender todas as referências em nossos textos ritualísticos. Em segundo lugar, falhamos com eles na Loja ao não fornecer mentores. Nós nos importamos apenas com eles memorizando as passagens obrigatórias: “se prepararem”. Nunca se trata de compreensão. Há poucos que poderiam ensiná-los, orientá-los, explicá-los… e nem toda Loja tem o número suficiente desses maçons.

Sem mentores, você nunca formará um novo maçom bem informado. Eles vão envelhecer tão desinformados quanto aqueles que os iniciaram estiveram por eras. E é assim que você ouve aquelas vozes entre os maçons perguntando: “Por que não modernizamos?” “Por que não facilitamos?” “Deveríamos emburrecer o ritual, o texto”…

Este é realmente o caminho que queremos seguir? Ou estamos condenados a tomá-lo?

Espero que não.

Autores: Istvan Horvath
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: The Other Mason

*Horvath é Mestre Maçom, Maçom do Arco Real, membro da Philaletes Society, do Quatuor Coronati Correspondence Circle e da Scottish Rite Research Society. 

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