O vício

Não convém embandeirar demasiadamente porque, aprendi em criança, “cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém…” e na verdade os portugueses “desconfinaram”, mas o Coronavírus não. Ou pelo menos eu estou convencido que “ele” continua por aí. É, de resto, a opinião expressa pelos técnicos de saúde que nestes tempos de pandemia pululam as televisões, rádios, jornais, …

Alguma coisa pode ser aproveitada nestes tempos de ócio pandémico e não havendo nada para fazer ocupei alguns momentos a refletir sobre a vida maçônica.

Isto de refletir é, obviamente, uma boa ocupação quando não há mais nada para fazer.

Estamos claramente em tempo de “vacas magras” (alguma vez não estivemos?).

Empresas (de todas as dimensões) a ressentirem-se da paragem da economia mundial, muitas a fecharem portas e a desaparecerem do mercado, desemprego a aumentar inevitavelmente, famílias inteiras em gravíssimas dificuldades e a esperança em melhores dias, sendo a última coisa a morrer (como de costume), mantém-se muito tênue.

Direi que é maior a desconfiança e o medo do que a esperança em recuperação rápida.

Esta reflexão trouxe-me para os meses do calendário que, para muitos, ficam cada vez “mais compridos” enquanto os vencimentos ficam cada vez mais curtos, obrigando a prodígios de imaginação para a manutenção do dia a dia das famílias. As dificuldades com as obrigações pecuniárias mensais foram em muitos casos disfarçadas, durante estes quase 2 anos de “fechamento”, por efeito das moratórias que a banca promoveu com o apoio estatal. Só que este sistema acabou ou está em vias de acabar com o regresso das prestações a terem de ser cumpridas sob pena de sofrerem as penas previstas nos contratos acordados na época em que ninguém podia prever a pandemia, nem as dificuldades que arrastou. 

Estas dificuldades são evidentemente generalizadas tocando também, e em muitos casos fortemente, alguns Irmãos.

Sabe-se que a admissão na nossa obediência implica uma “contratualização” com o cumprimento de um conjunto de regras comportamentais, morais e éticas, às quais se juntam outras de caráter pecuniário.

Nada a obstar em termos regulamentares. O candidato, enquanto candidato, fica a conhecer as regras que irão balizar a sua existência maçônica se admitido e quando admitido. Mas a vida dá muitas voltas, como bem se constata, e nenhum de nós está livre de ser apanhado por uma qualquer dessas voltas que lhe altere a situação financeira deixando-o em dificuldades no cumprimento dos seus deveres materiais. Todos nós sabemos que as propaladas vantagens de toda a ordem que a Maçonaria proporciona aos seus membros são uma ficção e os Maçons estão tão sujeitos às condições do mercado de trabalho como qualquer outro cidadão. E se, entre os Maçons, há quem viva com o conforto suficiente para não sentir, ou sentir muito pouco, estas dificuldades, também há os que as sentem com todo o peso do sofrimento arrastado pelo desemprego e/ou pela redução dos seus ganhos mensais.

Há, pois, Irmãos em dificuldade e a há que ter em atenção o que se passa com os mais vulneráveis. É um trabalho que compete às Lojas e em particular ao Irmão Hospitaleiro, inteirar-se do que acontece com cada membro da loja, sentir os sinais de dificuldade e movimentar os meios práticos para amenizar essas situações.

“Quem não tem dinheiro não tem vícios” é provérbio antigo e até sou capaz de aceitar esta “boca” com alguma razoabilidade.

Vício (do termo latino “vitium”, que significa “falha” ou “defeito”) é um hábito repetitivo que degenera ou causa algum prejuízo ao viciado e aos que com ele convivem.

Fui buscar esta definição à Wikipédia. Não é grande “coisa”, mas serve para o efeito que pretendo neste momento.

No mundo da Maçonaria os integrantes são escolhidos e reconhecidos como Maçons por quem já é Maçom. Digamos que a integração na Maçonaria, sendo um ato voluntário individual não o é só.

É também, e muito, a vontade de quem já ganhou o reconhecimento de Maçom e reconhece agora, também, naquele outro, as qualidades humanas necessárias para integrar o conjunto dos seus Irmãos.

A responsabilidade do cumprimento dos deveres maçônicos não é exclusivamente individual, é também responsabilidade de quem convidou, desafiou, reconheceu o “outro” para integração na Ordem Maçônica.

E esta responsabilidade deve ser verdadeiramente assumida por toda a Loja, em Irmandade (é esse um dos seus deveres) e em particular pelo seu Padrinho. Por isso, e para isso há “Padrinhos”, na Maçonaria tal como na vida civil corrente, no registo do nome do recém-nascido, no casamento, no batizado… Sempre alguém que se corresponsabiliza pelo bom resultado do ato que é celebrado.

Ora bem, misturar a integração Maçônica com os “vícios” é, pelo menos, leviano!

Tenho para mim que seria muito bom que as causas, os princípios da Maçonaria, se tornassem verdadeiros vícios para todos, mesmo para os não Maçons, daqueles vícios que se agarram à pele, que se integram no sangue correndo pelas veias enchendo o coração e o cérebro. É minha convicção que a Humanidade teria muito a ganhar.

Mas “quem não tem dinheiro não tem vícios” aplicado à Maçonaria, não!

A Maçonaria não é um vício, tal como não é, não pode ser, um degrau de promoção individual, seja ela social ou financeira. Ou ambas…

Autor: JP Setúbal

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Chama sagrada no REAA?

Em lugar algum é mencionada essa tal de “chama sagrada” no Ritual do REAA⸫do GOB. Aliás, em se tratando do REAA⸫, em nenhum ritual autêntico essa “chama” será encontrada.

Não confundir com o que prescreve o manual de Procedimentos Ritualísticos do GOB-PR 2016 quando menciona, caso as luzes do candelabro ainda não forem elétricas, a existência de uma vela auxiliar acesa apenas e tão somente para ajudar o Mestre de Cerimônias no acendimento das respectivas Luzes que vão sobre o Altar ocupado pelo Venerável Mestre e nas mesas ocupadas pelos Vigilantes.

Ora isso não é e nunca foi “chama sagrada”, pois se assim fosse então o que aconteceria nas Lojas que adotam essas Luzes alimentadas por lâmpadas elétricas conforme também prevê o ritual? Acaso existiria um “interruptor sagrado” para essa oportunidade? 

Essa estória de chama sagrada não existe no Rito em questão, embora ainda alguns insistam nesse anacronismo, inclusive desrespeitando o que prescreve o ritual em vigência.

Na realidade essa vela acesa foi colocada no Rito Escocês apenas no intuito de facilitar os trabalhos para as Lojas que ainda não adotaram lâmpadas elétricas adequadas ao candelabro. Nesse caso a intenção foi a de dar celeridade à prática ritualística, mas desafortunadamente alguns viram nela uma espécie de “luz emanada do divino”, provavelmente por “achar” bonito as práticas litúrgicas de outro Rito onde originariamente existe um cerimonial específico de acendimento das velas.

Lojas onde porventura as Luzes já sejam lâmpadas elétricas, obviamente essa vela auxiliar nem existe.

Vamos às questões: 

Como ela não existe, não há o porquê de existir um lugar para algo inexistente. 

Alguns teimam que é sobre o Altar dos Perfumes, cujo qual é outro elemento que só serviu para ocasião em que o Templo foi consagrado quando recebeu a dignidade para os trabalhos maçônicos. 

Infelizmente, o Altar dos Perfumes permaneceu e acabou dando vazão às invenções como se ele servisse para se colocar a chama sagrada ou ainda receber incensos (tudo coisas nulas no simbolismo do REAA⸫).

Se fosse o caso do Rito Adonhiramita onde existe a cerimônia de acendimento das Luzes, até teríamos uma interpretação, mas como ela não existe no escocesismo simbólico, não há nenhum comentário e nem uma avaliação que meça a sua importância para os trabalhos. 

Como ela não existe no Rito em questão, a resposta fica prejudicada. 

A título de esclarecimento, note que no manual de Procedimentos Ritualísticos do GOB-PR, quando existe menção a respeito da “vela auxiliar”, assim que ela tiver cumprido o seu objetivo, o Mestre de Cerimônias, sem nenhuma cerimônia, simplesmente a apaga porque ela não é luz litúrgica. 

Do mesmo modo, pela sua inexistência, não há resposta para tal. 

Entretanto é oportuno mencionar que o Altar não é “do” Venerável Mestre, porém é por ele ocupado – esse Altar é parte do mobiliário da Loja. 

Do mesmo modo que não existe essa “chama sagrada”, também não existe no REAA⸫ cerimonial de acendimento de velas, senão um ordenamento prático para a abertura e encerramento dos trabalhos. 

A propósito, no verdadeiro escocesismo essas Luzes deveriam ser acesas pelo Arquiteto antes do início dos trabalhos e por ele apagadas depois da retirada dos Irmãos do recinto. 

As luzes litúrgicas representam as Luzes da Loja, ou as Luzes Menores. Esotericamente, sem nenhuma crendice, elas concebem de acordo com o número delas acesas a evolução do Obreiro.

Assim, não há cerimonial, apenas elas são acesas conforme o Grau. 

O que prova que não existe cerimônia de acendimento é que quando elas forem lâmpadas elétricas, cada titular acende e apaga a sua.

Ratifico, cerimônia de acendimento de Luzes é própria de outro Rito, nunca do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Eram essas as considerações devidas, lembrando que a pura Maçonaria desconhece arguições que envolvem crendices que possam transformar o ambiente maçônico em um palco de proselitismo religioso. Que cada um busque na sua religião a sua necessidade de fé. Destaco que existem inúmeros ritos maçônicos e suas liturgias específicas que se adequam à diversidade do pensamento. Antes dos enxertos ritualísticos, que cada qual ocupe seu lugar conforme o que melhor lhe aprouver.

Autor: Pedro Juk

Fonte: Blog do Pedro Juk

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Ensaio- Origem dos cargos em Loja

Muito dessa história não possui registro, pelo menos até a presente data.

Em linhas gerais, a maioria dos cargos em Loja foram criados conforme a vertente maçônica e de acordo com a necessidade litúrgica do rito (sua cultura, costumes, estrutura doutrinária, etc.).

Para o desenvolvimento das considerações que se seguem será utilizado como parâmetro a Maçonaria Primitiva (de Ofício) do século XVII na Escócia e o seu alcance sobre a Maçonaria Inglesa no século XVIII, seguida da Maçonaria Francesa.

No princípio a Maçonaria de Ofício em território escocês possuía somente duas classes de trabalhadores, a dos Aprendizes Admitidos (registrados por aproximadamente sete anos) e a dos Companheiros do Ofício. Dentre esses últimos eram escolhidos os Mestres da Loja e o Mestre da Corporação – uma corporação poderia possuir mais do que uma Loja.

No tocante ao título de Mestre, nessa época ele ainda não era considerado um grau especulativo, tal como é conhecido atualmente. No período do ofício (Maçonaria Operativa), o Mestre era apenas o cargo de dirigente, administrador ou mesmo o proprietário da guilda.

É na Escócia desse período que aparecem os Wardens, personagens identificados como guardiões, zeladores ou diretores, podendo ser algumas vezes até o dirigente maior de uma corporação de construtores.

Somente por volta de 1730 é que o Warden ficaria genericamente conhecido como Vigilante, no caso, os dois Vigilantes inseridos como auxiliares do Venerável Mestre. Vale mencionar que Vigilante, ou Warden, é um cargo e não um grau iniciático.

Ainda no que se refere à Maçonaria primitiva, havia também o Deacon (Diácono), mas não aquele relacionado aos antigos oficiais de chão a exemplo dos mencionados por Harry Carr em seu Masons At Work, porém o Diácono que era às vezes até mesmo o próprio dirigente da guilda – na Escócia operativa o termo Diácono possuía o sentido de “enviado”.

Cabe aqui outra observação. O Diácono relativo à Maçonaria primitiva escocesa também não possui nenhuma relação com os Diáconos irlandeses da Grande Loja dos Antigos que, mais tarde, no século XVIII, seriam extensivamente adotados como guias na ritualística dos ritos e rituais da Moderna Maçonaria.

Assim, para o nosso comentário é possível se dizer que tanto o Warden como o Deacon eram cargos já existentes na Maçonaria primitiva na Escócia.

Também não há como negar que esse primitivo sistema de cargos do século XVII iria mais tarde influenciar a Maçonaria Inglesa, nomeadamente nas guildas londrinas como a da Companhia dos Maçons de Londres.

Cabe registrar que, já nessa época primitiva, também se faziam presentes nas Lojas um secretário-tesoureiro, ou mesmo um secretário e um tesoureiro que atuavam como importantes funcionários na vida administrativa da Loja. Os ocupantes desses cargos eram homens que não exerciam o ofício de pedreiro, isto é, não eram profissionais da cantaria e nem assentadores e ajustadores.

No século XVIII, com o aparecimento da Primeira Grande Loja londrina no ano de 1717, era inaugurado o sistema obediencial, marco da Moderna Maçonaria. Mais precisamente na sua primeira Constituição, datada de 1723, e conhecida como a Constituição de Anderson, dela o seu Título IV, aparecem nominados, Mestres, Vigilantes, Companheiros e Aprendizes. Contudo, vale repetir que o Mestre ali mencionado ainda não era o grau especulativo de Mestre Maçom, mas o do cargo de Mestre da Loja, ou Worschipful Master (Venerável Mestre). Registre-se que o grau de Mestre Maçom somente seria citado oficialmente na segunda Constituição que fora publicada no ano 1738.

É nesse período o aparecimento de dois Vigilantes (Wardens) distribuídos na Loja, agora sendo o 1º Vigilante, ou o Senior Warden e o 2º Vigilante, ou Junior Warden.

Com isso, de certo modo, era constituída uma ordem hierárquica entre o grau de Aprendiz e o de Companheiro, sendo que esse último ainda era qualificação indispensável para se assumir o cargo de Vigilante e posteriormente o de Mestre da Loja. Aprendizes e Companheiros como graus, Vigilantes e Mestre da Loja como cargos.

Vale mencionar que o termo Vigilante como sinônimo de Warden acabaria consagrado na Moderna Maçonaria.

Ainda em relação aos cargos, há que se separar aqueles relacionados às Lojas e aqueles relativos à Grande Loja. Essa última trazia no artigo 17 do seu Regulamento Geral os cargos de um Grão-Mestre, um Grão-Mestre Adjunto, dois Grandes Vigilantes, um Tesoureiro e um Secretário.

Assim, é preciso separar os cargos de uma Loja e os cargos inerentes às autoridades que administram a Grande Loja.

No que diz respeito aos estudos e pesquisas sobre o tema, cabe lembrar que nos primeiros anos de existência da primeira Grande Loja londrina, de 1717 a 1723, não existem registros de documentação. Suas atas somente passam a ser registradas de 1723 em diante, ano da promulgação da primeira Constituição de Anderson.

Somente em 1738, ano da publicação da segunda Constituição é que seriam reconstruídas por James Anderson as atas dos primeiros anos de existência da Grande Loja. Compete lembrar que essa é uma reconstrução de atas, portanto não são registros originais, podendo sobre eles existir a possibilidade de contradição. Conforme menciona Anderson nos seus registros reconstruídos, havia na Grande Loja em 1717 um Grão-Mestre, cujo cargo era ocupado pelo Irmão Anthony Sayer, esse investido pelos mais antigos Mestres de Loja então presentes. É mencionada também a existência de dois Grandes Vigilantes.

Com base nesses registros é bastante provável que a utilização de um Venerável e de dois Vigilantes conduzindo uma Loja seja costume haurido das quatro Lojas fundadoras da Primeira Grande Loja. Desta maneira, a constituição administrativa da Loja formada por um Venerável e dois Vigilantes acabou se conservando em toda a Moderna Maçonaria.

Mas, pergunta-se: e o Mestre Maçom como grau iniciático? Quando ele apareceu?

A bem da verdade, a semente desse grau germinou em Londres no ano de 1725 dentro de um clube profano denominado Philo Musicae et Architecturae Societas Apollini.

Clube composto apenas por maçons da Grande Loja, artistas, matemáticos, cientistas, todos membros da Royal Society. Foi nele que o Duque de Richmond, Venerável Mestre da Loja da Taverna Queen’s Head, na intenção de criar um título diferenciado para o dirigente da Societas Apollini, esta seria composta só por maçons, acabou plantando a semente do que em breve iria se tornar um grau exclusivamente maçônico – o de Mestre Maçom.

Os primeiros maçons a assumirem o cargo de dirigente da Societas Apollini foram Charles Cotton e Papilon Bull. Dado a isso é que ambos são considerados como os dois primeiros Mestres Maçons especulativos da história.

Com o sucesso da criação de Richmonda sua ideia logo acabaria na Primeira Grande Loja – destaque-se que o Duque de Richmond era possuidor de grande prestígio, sobretudo por já por ter sido Grão-Mestre. Assim, logo a Grande Loja aperfeiçoou e adotou o novo sistema como o 3º Grau do Franco-Maçônico básico universal – Grau de Mestre Maçom.

É bem verdade que não há registros se os dois primeiros maçons foram feitos Mestres na Loja ou no Clube, mas o que se sabe é que pelo alto conceito que gozava o Duque de Richmond, na cerimônia estiveram presentes os dois Grandes Vigilantes da Grande Loja. Se houve ou não irregularidade não se sabe, mas o fato é que essa performance logo seria adotada pela Primeira Grande Loja.

Conjugado ao então novo grau, o de Mestre Maçom, aparece a lenda hirâmica, provavelmente adaptada de uma antiga lenda noaquita (relativa a Noé) que aparece no Manuscrito Graham datado de 1726, comum ao antigo e genuíno grau de Companheiro que seria desdobrado para dar origem ao terceiro grau. A partir daí os C∴ PP∴ PP∴ do Companheirismo passam a pertencer ao grau de Mestre Maçom, agora denominados como os C∴ PP∴ PP∴ do Mestrado.

Consolidado o grau de Mestre Maçom, consagra-se então o currículo iniciático de Aprendiz, Companheiro e Mestre nas Lojas pertencentes à Primeira Grande Loja. Os Vigilantes são agora escolhidos dentre os Mestres Maçons e aquele que desejar se tornar um Venerável Mestre (Mestre da Loja) é preciso antes ter sido um Vigilante.

Vale lembrar que na Moderna Maçonaria o termo “Mestre” designa o grau iniciático que encerra a plenitude maçônica, assim como assinala também o maior cargo administrativo da Loja – o Mestre da Loja ou o Venerável Mestre (Worshipful Master).

Em relação aos Diáconos, oriundos dos “antigos oficiais de chão” da Maçonaria de Ofício, na Moderna Maçonaria inglesa não existe, a respeito deles, nenhuma citação antes de 1740, época em que os irlandeses começam a se manifestar e influenciar a liturgia maçônica da época.

Na famosa revelação (exposure) de autoria de Samuel Prichard, datada de 1730, intitulada Masonry Dissected, por exemplo, é possível se conferir que os Diáconos não tinham ainda ofício de receber e conduzir candidatos como aconteceria mais tarde no Craft (Maçonaria Inglesa). Como nos tempos primitivos, o ofício de receber e instruir candidatos era de obrigação do 2º Vigilante.

Embora com funções diferenciadas dos da vertente moderna inglesa, no século XVIII o cargo de Diácono logo não tardaria a aparecer também na vertente francesa de Maçonaria. Cite-se como exemplo nesse caso o REAA, onde nele os dois Diáconos (1º e 2º) atuam apenas como os antigos oficiais de chão para relembrar a velha função dos mensageiros que operavam nos primitivos canteiros de ofício da Idade Média.

Isso explica no REAA o porquê da liturgia da transmissão da Palavra Sagrada entre as Luzes da Loja e os Diáconos durante a abertura e encerramento dos trabalhos. Note que, ao contrário do Craft, no escocesismo os Diáconos não atuam como guias e receptores.

Diferente do Warden, ancestral cargo das lojas primitivas escocesas que facilmente seria implantado na Inglaterra como Vigilante, o cargo de Diácono, provavelmente por ser estranho às organizações de ofício inglesas, acabou levando mais tempo para ser recebido e fixado no Craft. Na verdade, deve-se aos irlandeses da Grande Loja dos Antigos (1751) a propagação e a fixação do cargo de Diácono na Moderna Maçonaria inglesa.

Em relação ao cargo do Tyler (Telhador ou Cobridor Externo), foi James Anderson na Constituição de 1723 quem mencionou um cargo cujo ofício era o de proteger e guardar a porta da Grande Loja.

Ainda não há como se afirmar da existência do Tyler, ou Cobridor Externo nas Lojas, embora seja provável ter existido alguém encarregado pela segurança do recinto para preservar o sigilo dos trabalhos contra os cowans.

Ainda relacionado à proteção da porta, porém agora pelo seu interior, existe o cargo de Cobridor Interno (Inner Guard). A seu respeito, acredita-se que, tal como outros cargos, também o de Cobridor Interno tenha sido adotado por primeiro pela Primeira Grande Loja para só depois se fixar nas Lojas da sua jurisdição.

Em relação ao cargo de Tyler e a Maçonaria Francesa, somente a partir dos meados do século XVIII é que o ofício de “Tuileur”, que em tradução livre significa Cobridor, seria adotado.

Dentre outros, não há como negar o empenho da primeira Grande Loja londrina em estruturar os cargos das suas Lojas. Conforme mencionam alguns autores, desde 1727 ela adotou para o Venerável Mestre e os Vigilantes das suas Lojas joias distintivas para os cargos, os quais iam pendentes de fitas brancas. Poucos anos depois, em março de 1731, os aventais decorados e debruados ficavam reservados ao Venerável Mestre e aos Vigilantes. Tempos a seguir, o branco dos colares e da seda que ia debruada nos aventais dos Grandes Oficiais passaria a ser de matiz azul.

Sem embargo do que até aqui fora mencionado, constata-se que a estrutura da Maçonaria Inglesa, nos primórdios da sua primeira Grande Loja, se derivou das estruturas da Maçonaria Escocesa do século XVII.

É inegável que durante transição de toda essa estrutura tenha havido uma série de mudanças, das quais pelo menos duas merecem destaque, mormente por atuarem de modo abrangente no sistema especulativo da Moderna Maçonaria.

Nesse sentido, cabe então destacar:

  • A presidência da Loja passou a não mais ser creditada apenas a um “Warden” (guardião, vigia, diretor, administrador [manager], principal), mas a um “Master of Lodge” (Mestre da Loja);
  • O Mestre da Loja passou a ser auxiliado por dois Vigilantes – “três governam a Loja”.

Ressalte-se que essa nova estrutura, composta por um Venerável Mestre e dois Vigilantes, vai se disseminar a tal ponto de ser a única conhecida a partir de 1740.

Um novo acontecimento, contudo, acabaria desenhando novos rumos no andamento dessa história na Inglaterra. Em 1751, um outro sistema estrutural, com costumes e tradições próprias e importado por maçons irlandeses iria aparecer. É quando surge então uma nova Grande Loja em oposição à primeira que fora fundada em 1717.

Essa Grande Loja, a de 1751, trazia na sua formação maçons que se autodenominavam “Antigos” porque alegavam possuir uma tradição mais velha do que os da Grande Loja de 1717. Dado a isso eles atribuíam pejorativamente aos membros da primeira Grande Loja o adjetivo de “Modernos”.

A bem da verdade, nessa disputa por antiguidade entre as duas Grandes Lojas rivais existe um paradoxo, pois atribui-se o título de antiga àquela que nasceu depois, e de moderna àquela que nasceu antes.

Há uma explicação para essa contradição. Em linhas gerais esta disputa por antiguidade se dá pela defesa do sistema trazido pela Grande Loja de 1751, e não propriamente pela data de fundação. Nesse contexto então alguns fatores acabariam arrefecendo as escaramuças entre os Modernos e os Antigos ingleses.

Numa abordagem superficial sobre o fato poder-se-ia então citar dois fatores principais nessa altercação:

O primeiro é o que se deu pelas alterações produzidas pelos “Modernos” na forma de trabalho. Dentre outros, os “Modernos” simplificaram a liturgia maçônica, inverteram a tradicional posição das Colunas B e J para J e B, omitiram orações, promoveram a descristianização dos catecismos, etc.

O segundo pode-se dizer que foi pela aristocratização, até certo ponto imposta à Moderna Maçonaria inglesa, principalmente pela sua estreita relação com a Royal Society e, por extensão, com a coroa britânica.

Também em relação ao primeiro fator, muitas adulterações se devem às obras espúrias que, mediante boa recompensa financeira, revelavam nos jornais londrinos da época as formas de trabalho e outras particularidades da ritualística maçônica. Devido a isso os Modernos acabaram promovendo substanciais mudanças na liturgia com o intuito de confundir os bisbilhoteiros que constantemente espiavam para revelar “segredos” nos semanários londrinos – destaque-se, por exemplo, a exposure de 1730 escrita por Samuel Prichard e publicada na Inglaterra sob o título de Masonry Dissected. Essa obra trazia revelações atinentes aos trabalhos maçônicos.

Ainda referente ao primeiro fator, nota-se que a primeira Constituição, a de 1723, trazia um teísmo abrandado, isto é, com feições deístas ajustadas às conveniências daquela época – isso apesar de James Anderson ter sido um pastor protestante.

Com isso muitas orações que ocorriam durante os trabalhos maçônicos acabaram sendo omitidas, o que resultou numa espécie de descristianização dos catecismos maçônicos, inclusive com a supressão de muitas festas patronais.

Pertinente ainda ao segundo fator, notadamente a primeira Grande Loja já se preparava para num breve futuro atuar ligada à coroa inglesa. A sua estreita relação com os membros da Royal Society dá uma ideia essa intenção.

Paga a pena mencionar que essa logística de conjuntura estrutural não agradava a totalidade dos maçons, sobretudo os irlandeses que, de berço mais humilde, não se sentiam à vontade com a aristocratização da Grande Loja.

É certo que esses dois fatores contribuíram substancialmente para o aparecimento em 1751 de outra Grande Loja então fundada pelo irlandês Lawrence Dermott. Os membros dessa Grande Loja se autodenominavam de “Antigos” por alegarem ser os guardiões dos “velhos costumes”.

Com severas críticas àqueles que alteraram a forma tradicional de trabalho, os autodenominados “Antigos”, de modo pejorativo, então taxavam os integrantes da primeira Grande Loja de “Modernos”.

O aparecimento dessa Grande Loja rival na Inglaterra logo daria início a uma longa rivalidade entre os “Modernos” e os “Antigos”, rivalidade essa que duraria até novembro de 1813 quando as duas Grandes Lojas adversárias, através do Ato de União, iriam se unir e criar a Grande Loja Unida da Inglaterra.

Registre-se que a aproximação, reconciliação e união das duas Grandes Lojas inglesas é uma história a parte que merece ser cuidadosamente perscrutada.

Estabelecida a Grande Loja dos “Antigos”, em 1772, procurando demonstrar a sua rivalidade para com a primeira Grande Loja, ela elaborou uma lista de pontos que estavam em desacordo com os “Modernos”, dos quais alguns, como se verá a seguir, mostram-se relevantes na evolução dos cargos em Loja desde os tempos de rivalidade até o Ato de União de novembro de 1813.

Venerável Mestre

Em relação a esse cargo, os irlandeses da Grande Loja dos Antigos desaprovavam com veemência o fato de que os “Modernos” ignoravam a prática de instalação do Venerável na cadeira da Loja, principalmente porque os Antigos tinham nessa cerimônia um meio de acesso ao Arco Real, uma espécie de extensão do mestrado considerada como tradição para os irlandeses. Sobre isso, alguns autores até mesmo afirmam que os “Antigos” o consideravam como um grau relacionado à cúpula da Maçonaria.

Considerações à parte, e segundo respeitáveis tratadistas, o Arco Real foi inserido nas práticas dos “Antigos” por Lawrence Dermott com o fito de chamar atenção e cooptar obreiros para a sua Grande Loja que rivalizava com a dos Modernos.

Sob esse artifício, Dermott adaptou uma lenda que, em linhas gerais, trazia na sua narrativa o conto sobre uma abóbada que fora encontrada intacta sob as ruínas do Templo de Jerusalém, etc., etc. Isso sem dúvida causou uma ótima impressão nos maçons da época que acorreram para ingressar e engrossar as fileiras da Grande Loja dos Antigos.

Em um aparte sobre esse fato, note-se que a curiosidade e procura de novidades não é apenas um atributo dos latinos.

Sobre a instalação do Venerável Mestre na cadeira da Loja, até 1760 não é encontrado nenhum vestígio dessa cerimônia secreta em solo inglês, contudo não há dúvida que ela, estruturada como extensão de grau, já era admitida entre os autodenominados “Antigos”. Assim, pelo interesse que ela despertava na comunidade maçônica, ela não tardaria a se impor também entre os “Modernos”. Infelizmente ainda existem maçons na atualidade que “acham” que o Mestre Instalado é um grau maçônico – confundem, grau com cargo e título distintivo.

Diáconos 

Outro ponto conflitante entre as duas Grandes Lojas era o de que os “Modernos” ignoravam a existência dos Diáconos.

Ressalte-se que os cargos de 1º e 2º Diáconos não são os do Diácono que aparecia em certas ocasiões nas corporações de pedreiros escocesas do século XVII. Como aqui já abordado, em algumas corporações de construtores da Idade Média o Diácono era o líder do canteiro e não um mensageiro ou mesmo um guia.

A bem da verdade, na Inglaterra os 1º e 2º Diáconos não são mencionados na primeira constituição dos “Modernos” (1723). Como guias e mensageiros eles devem o seu aparecimento na Inglaterra à Maçonaria Irlandesa que, desde 1733, já trazia esses cargos nas suas Lojas. Fala-se na presença dos Diáconos numa procissão maçônica trazendo às mãos uma vara, ou bastão. Em 1753, entre os “Antigos”, eles aparecem como oficiais inferiores da Loja, hierarquicamente logo abaixo dos Vigilantes.

Embora no princípio desconhecidos dos “Modernos”, pouco a pouco, os Diáconos irão se estabelecer nas suas Lojas, de tal modo que mesmo antes da união das duas Grandes Lojas rivais eles já são encontrados nas Lojas por volta de 1810, trazendo cada qual um bastão negro com uma joia prateada no topo. Certamente As Três Batidas Distintas na Porta da Antiga Maçonaria, revelação atribuída aos “Antigos” que apareceu por volta de 1760, também colaborou para a fixação dos Diáconos entre as Lojas dos “Modernos”.

Cobridor Externo

Dentre os primeiros cargos que constituíram as Lojas maçônicas especulativas do século XVIII, encontra-se o cargo do Tyler, ou o Telhador, que ficaria também conhecido por Guarda Externo.

Na Moderna Maçonaria, nascida em 24 junho de 1717 com a fundação da Premier Grand Lodge, o cargo de Telhador (Guarda Externo) nela aparece inicialmente como uma dignidade que posteriormente adaptou-se para ser um guarda nas Lojas, não obstante ele ainda possuísse outras obrigações de ofício, como as de ser o responsável pelo envio pessoal de convocações aos Irmãos e ainda traçar o Quadro da Loja quando da preparação do recinto para os trabalhos maçônicos.

Paulatinamente o cargo de Tyler (Telhador ou Cobridor Externo) foi se fixando nas Lojas inglesas. Em 1813, após a união entre duas Grandes Lojas rivais que resultou no aparecimento da Grande Loja Unida da Inglaterra, aparece, ao lado do Tyler, mais um Cobridor, porém este agora pelo lado interior do recinto e que ficou conhecido como Guarda Interno ou o Inner Guard (guarda do interior).

Desse modo, após a União de 1813 é inegável que boa parcela dos principais cargos da Loja foi emprestada dos “Antigos” e logo adaptada nos trabalhos do Craft. Essa principal estrutura então se fundamenta sobre os cargos de Venerável Mestre ou Mestre da Loja, Vigilantes ou Wardens, Tesoureiro, Secretário, Diáconos (ancestrais mensageiros oficiais de chão) e Cobridores.

Não menos importantes, outros cargos também aparecem nas cerimônias que são demonstradas após 1813, especialmente a partir de 1823 pela Emulation Lodge of Improvement. Incluem-se nos trabalhos do Craft os cargos de Diretor de Cerimônias, Capelão, Esmoler, Diretor de Caridades, Organista e alguns assistentes de cargos quando necessários.

Moderna Maçonaria Francesa

No que diz respeito aos cargos em Loja na vertente francesa da Maçonaria, compete de antemão esclarecer que a sua Maçonaria Especulativa, ou dos Aceitos, floresceu em meados do século XVIII.

Sua estrutura de cargos foi em grande parte baseada na Maçonaria inglesa, sobretudo os cargos de Venerável Mestre, Vigilantes, Cobridores, Tesoureiro, Secretário e Diáconos, não obstante possa existir de acordo com o rito substanciais diferenças na execução dos seus trabalhos ritualísticos. Nesse sentido, poder-se-ia citar, por exemplo, o REAA (rito de origem francesa) onde os Diáconos, diferente do costume inglês, atuam exclusivamente como mensageiros e não portam bastão ou varas (canas).

Visando facilitar a compreensão desse tema, vale a pena expor um breve relato sobre a história da Maçonaria Francesa em meados do século XVIII.

Nessa época havia em solo francês dois ramos de maçonaria, a saber: um “stuartista”, alusivo ao escocesismo (movimento político que nascera no norte da França para a retomada do trono inglês), livre e que não se sujeitava a nenhuma obediência, e o outro, dependente da Primeira Grande Loja inglesa conhecida como os “Modernos” de 1717.

Ressalte-se que à época a França desconhecia por completo a prática dos autodenominados “Antigos” ingleses de 1751. Desse modo, se consolidava em solo francês a divisão entre as Lojas derivadas do “stuartismo” (com maior número) e as submissas aos ingleses da Premier Grand Lodge, essa com número substancialmente inferior.

Com o avanço das Lojas “stuartistas” que aumentavam progressivamente em número – provavelmente frenesi causado pelos altos graus – pleiteou-se em 1735 da necessidade de se eleger um Grão-Mestre para toda a Maçonaria Francesa.

Assim, em 24 de junho de 1738, dia de São João Batista, numa assembleia geral é conferido ao Duque D’Antain o título de “Grão-Mestre Geral e Perpétuo dos Maçons do Reino da França”.

Com isso era então plantado o germe de uma Grande Loja em solo francês que seria denominada Grande Loja da França. Destaque-se que essa Grande Loja somente viria aparecer oficialmente vinte e sete anos depois, em 1765.

Comentários a parte, esse acontecimento libertava definitivamente a Maçonaria Francesa dos grilhões da Maçonaria Inglesa, o que obviamente descontentou sobremaneira o egocentrismo inglês que, já naquela época, se autointitulava o “Vaticano da Maçonaria” – vide o registro desse descontentamento inglês em anotação da segunda Constituição de Anderson, a de 1738.

Com a morte do Duque D’Antain em 1743, assume o Grão-Mestrado na França o Conde de Clermont – Louis de Bourbon Condé.

A gestão do sucessor D’Antain caracterizou-se pelo desinteresse pela Ordem, razão pela qual Clermont acabou nomeando prepostos para o seu lugar. Com cada preposto exercendo a totalidade do seu poder, sobretudo pelas oposições que entre si provocavam, o resultado foi o do fraccionamento da Grande Loja.

Desafortunadamente, essa atitude trouxe graves consequências para a Maçonaria Francesa, a tal ponto de ter vários dos seus maçons expulsos e ainda ter as suas reuniões proibidas pela autoridade real até 1771.

Com a morte do Conde de Clermont em 1771, e com o aval do Duque de Luxemburgo, assume o Grão-Mestrado francês o Duque de Chartres, que era primo do Rei da França.

Chartres, tal como Clermont, também não se interessava muito pelas coisas da Ordem, contudo, ao contrário de nomear prepostos, deixou a administração da Grande Loja para Duque de Luxemburgo. Na verdade, a intenção era a de reintegrar muitos dos maçons expulsos pela crise anteriormente deflagrada, bem como aproveitar o prestígio do Duque de Chartres, por ser primo do rei, para reerguer a então combalida Maçonaria Francesa.

Dessa forma, em agosto de 1771, inicia-se uma reforma administrativa na Maçonaria Francesa. Para tal é criada uma comissão composta por maçons reintegrados às fileiras da Ordem e por membros do Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente (escocesismo). O objetivo dessa comissão era promover uma extensa reforma administrativa elaborando estatutos e reorganizando os altos graus que surgiam de maneira descontrolada em solo francês. Desse modo, em 24 de dezembro daquele ano, em assembleia administrativa era declarada extinta a Grande Loja da França.

No ano seguinte, em 1772, essa mesma comissão criava uma Obediência que seria nominada por Grande Loja Nacional da França. Contudo, em 22 de outubro daquele mesmo ano, a Grande Loja se reúne em assembleia geral e adota o nome de Grande Oriente da França.

Objeto dessa reforma, o Grande Oriente da França traz consigo uma grande inovação administrativa introduzindo na França a chamada “democracia maçônica”, baseada num Poder Central assessorado por um grupo de deputados de todas as suas Lojas. A partir daí essa tem sido uma característica de todos os Grandes Orientes espalhados pelos países.

E assim segue a história da Maçonaria Francesa onde o Grande Oriente da França, no trajeto da sua existência, passará ainda por muitos acontecimentos relevantes, a exemplo da Revolução Francesa no ano de 1789 onde atuaram maçons nos dois lados da contenda. Também não há como esquecer o ano de 1877 quando o Grande Oriente se coloca em contraposição ao teísmo em respeito à liberdade de consciência dos homens.

Assim, conclui-se esse breve relato histórico pertinente à Maçonaria Francesa no século XVIII e início do XIX.

Ritos Franceses

É nesse contexto histórico da Maçonaria Francesa que, no século XVIII e início do XIX, aparecem e se consolidam os seus principais ritos.

Dos seus primórdios pode-se citar: o Rito Francês, ou Moderno – criado em 1761, constituído em dezembro de 1772 e proclamado pelo Grande Oriente da França em 09 de março de 1773; o Rito Adonhiramita – surgido com a publicação na França, em 1744 da primeira edição, e logo a seguir a segunda edição em 1747 do Catecismo dos Franco-Maçons, ou O Segredo dos Franco-Maçons; o REAA, cujo primeiro ritual simbólico somente apareceria em 1804 e posteriormente publicado em 1821 no Guia dos Maçons Escoceses.

Cada rito que se consolidava na França trazia, além das características maçônicas universais, também as suas próprias particularidades litúrgicas, ritualísticas e de distribuição de cargos. Em síntese, cada qual trazendo o seu próprio ritual e o seu particular modus operandi de trabalho.

Embora a existência dessas diferenças, todos os ritos sempre trabalham em prol de um mesmo objetivo – o do aprimoramento humano.

Cabe salientar que não só entre as duas principais vertentes maçônicas, mas também entre ritos da mesma origem, alguns cargos podem existir, enquanto em outros não.

No que diz respeito aos cargos universais, isto é, os comuns em qualquer vertente, trabalho ou rito, encontramos o de Venerável Mestre (ou Mestre da Loja), Vigilantes (ou Wardens), Diáconos (em alguns casos), Cobridores, Secretário e Tesoureiro.

Além desses cargos, tidos como universais, os ritos de origem francesa também trazem os de Orador (fiscal da lei), Mestre de Cerimônias (exerce atividade diferente da do Diretor de Cerimônias inglês), Expertos, Chanceler, Hospitaleiro e, dependendo do rito, ainda outros como o de Mestre de Harmonia, Porta-Espada, Bibliotecário, Mestre de Banquetes, Arquiteto, etc. Reitera-se que na Maçonaria Francesa os cargos de Loja só se constituíram nos séculos XVIII e XIX com a profusão dos ritos e o aperfeiçoamento dos seus rituais.

Ainda uma das características dos ritos de origem francesa é a de classificar os seus cargos principais como Luzes da Loja (em número de três), Dignidades da Loja (em número de cinco) e os Oficiais – esses últimos em quantidade conforme o rito.

Nessa classificação, o Venerável Mestre e os dois Vigilantes são as três Luzes da Loja. Estas então somadas ao Orador e ao Secretário perfazem as cinco Dignidades. Além das Luzes e Dignidades são necessários pelo menos mais dois Mestres Maçons ocupando cargos para abrir a Loja (três governam a Loja, cinco a compõem e sete a completam). A Moderna Maçonaria exige o mínimo de sete Mestres Maçons para se abrir uma Loja, destacando que dentre eles o Cobridor Interno sempre se faça presente.

Já a vertente inglesa trata o Mestre da Loja (Venerável) e os Wardens (Vigilantes) como Principais Oficiais (3). Ainda o Cobridor Interno e os Diáconos como Oficiais Ajudantes (3), mais o Tyler (Cobridor Externo). Outros cargos se distribuem conforme o working (Secretário, Tesoureiro, Capelão, Esmoler, Mestre de Caridade, Diretor de Cerimônias, Organista). A estrutura de cargos de Loja da Moderna Maçonaria Inglesa se consolidaria após o Ato de União de 1813.

É também um dos apanágios da vertente inglesa possuir uma cerimônia de Instalação para conduzir o Mestre da Loja ao trono. Quando o Mestre da Loja deixa o cargo por ter cumprido o mandato ele é o Imediate Past Master, depois disso é o Past Master.

Indevidamente esse costume – original da Maçonaria Inglesa – acabou parando nos ritos da vertente francesa de algumas Obediências espalhadas pelo mundo. Originalmente, na França não existe cerimônia de Instalação e nem a figura do Mestre Instalado. O Venerável ao deixar o cargo é o ex-Venerável mais recente e, posteriormente, o ex-Venerável.

É bem verdade que nos meados do século XX uma Obediência francesa (lá existem três), provavelmente para agradar e receber o reconhecimento inglês, adotou inapropriadamente a Instalação até em ritos que não a possuem. Como consequência, esse enxerto acabou se espalhado por outras Obediências ao redor do Terra. É o caso do Brasil, por exemplo, onde o REAA, que é um rito de origem francesa, recebeu uma indevida cerimônia de Instalação. Mesmo enxertada essa prática acabou se tornando consuetudinária, sendo comum no Brasil se tratar os ex-Veneráveis como Mestres Instalados.

Por fim, eram esses os comentários a respeito do ancestral aparecimento dos cargos em loja na Moderna Maçonaria. Procurou-se tomar por base a Maçonaria primitiva da Escócia do século XVII, bem como na sequência a Moderna Maçonaria inglesa e francesa.

Em que pese os primeiros registros ritualísticos para dois graus se encontrarem datados de 1696 no Manuscrito dos Registros da Casa de Edimburgo (Edimburg Register Hause), na Escócia, não há dúvida que os ritos maçônicos se construíram proficuamente nos séculos XVIII e XIX para chegarem até os nossos dias com as suas riquíssimas formas de trabalho exaradas pelos rituais autênticos.

Autor: Pedro Juk

Fonte: Blog do Pedro Juk

Nota do autor

Para estudos, sugiro o roteiro bibliográfico seguinte:

DACHEZ, Roger e BAUDIGNON, Thierry. Cargos em Loja da Maçonaria e Dignidades Maçônicas na Grã-Bretanha do Século XVII até os nossos dias. Tradução – José Filardo. Publicado no Blog o Ponto e o Círculo. 2021. (Clique AQUI para ler).

CARR, Harry. Seiscentos Anos de Rituais. Conferência. Tradução Paulo Daniel Monteiro. (Clique AQUI para ler).

CARR, Harry. O Ofício do Maçom, Editora Madras, São Paulo.

CASTELLANI, José. A Maçonaria Moderna. A Gazeta Maçônica. SP. 1987

JONES, Bernard E. Freemason’ Guide and Compendium. George G. Harrap & Ltd. London. 1950.

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A Cadeira de Salomão

Denomina-se de Cadeira de Salomão a cadeira onde toma assento o Venerável Mestre da Loja quando a dirige em sessão ritual.

Em si, não tem nada de especial. É uma peça de mobiliário como outra qualquer. É como qualquer outra cadeira. Porventura (mas não necessariamente) um pouco mais elaborada, com apoio de braços, com maior riqueza na decoração, com mais cuidado nos acabamentos. Ou não…

Como quase tudo em maçonaria, a Cadeira de Salomão tem um valor essencialmente simbólico. Integra, conjuntamente, com o malhete de Venerável e a Espada Flamejante (esta apenas nos ritos que a usam), o conjunto de artefatos que simbolizam o Poder numa Loja maçônica. Ninguém, senão o Venerável Mestre, usa o malhete respetivo. Ninguém, senão ele, utiliza a Espada Flamejante. Só ele se senta na Cadeira de Salomão.

A Cadeira de Salomão destina-se, pois, tal como os outros dois artefatos referidos, a ser exclusivamente utilizada pelo detentor do Poder na Loja. Assim sendo, importante e significativo é o nome que lhe é atribuído. Não se lhe chama a Cadeira de César ou o Trono de Alexandre. Sendo um atributo do Poder, não se distingue pelo Poder. Antes se lhe atribui o nome do personagem que personifica a Sabedoria, a Prudência, a Justa Sageza. Ao fazê-lo, está-se a indiciar que, em Maçonaria, o Poder, sempre transitório, afinal ilusório, sobretudo mais responsabilidade que imperiosidade, só faz sentido, só é aceito, e portanto só é efetivo e eficaz se exercido com a Sabedoria e a Prudência que se atribui ao rei bíblico.

Quem se senta naquela cadeira dispõe, no momento, do poder de dirigir, de decidir, de escolher o que e como se fará na Loja. Mas, em maçonaria, se é regra de ouro que não se contraria a decisão do Venerável Mestre, porque tal compromisso se assumiu repetidamente, também é regra de platina que, sendo-se livre, não se é nunca obrigado a fazer aquilo com que se não concorda. O Poder do Venerável Mestre é indisputado. Mas, para ser seguido, tem de merecer a concordância daqueles a quem é dirigido. E esta só se obtém se as decisões tomadas forem justas, forem ponderadas, forem prudentes. O Poder em maçonaria vale o valor intrínseco de cada decisão. Nem mais, nem menos.

A Cadeira de Salomão é pois o lugar destinado ao exercício do Poder em Loja, com Sabedoria e Prudência. Sempre com a noção de que não é dono de qualquer Poder, que só se detém (e transitoriamente) o Poder que os nossos Irmãos em nós delegaram, confiando em que bem o exerceríamos.

Não está escrito em nenhum lado, não há nenhuma razão aparente para que assim tenha de ser. Mas quase todos os que se sentaram na Cadeira de Salomão sentem que esta os transformou. Para melhor. Não porque esta Cadeira tenha algo de especial ou qualquer mágico poder. Porque a responsabilidade do ofício, o receber-se a confiança dos nossos Irmãos para os dirigirmos, para tomar as decisões que considerarmos melhores, pela melhor forma possível, por vezes após pronúncia dos Mestres da Loja em reunião formal, outras após ter ouvido conselho de uns quantos, outras ainda em solitária assunção do ônus, transforma quem assumiu essa responsabilidade. A confiança que no Venerável Mestre é depositada pelos demais é por este paga com o máximo de responsabilidade. Muito depressa se aprende que o Poder nada vale comparado com o Dever que o acompanha. Que aquele só tem sentido e só é útil e é meritório se for tributário deste.

A primeira vez que um Venerável Mestre se senta na Cadeira de Salomão não lhe permite distinguir se é confortável ou não. Não é apta a que sinta que se encontra num plano superior ou central ou especial em relação aos demais. A primeira vez que um Venerável Mestre se senta na Cadeira de Salomão vê todos os rostos virados para ele. Aguardando a sua palavra. Correspondendo a ela, se ela for adequada. Calmamente aguardando por correção, se e quando a palavra escolhida não for adequada. A primeira vez que um Venerável Mestre se senta na Cadeira de Salomão fá-lo instantaneamente compreender que está ali sentado… sem rede!

E depois faz o seu trabalho. E normalmente faz o seu trabalho como deve ser feito, como viu outros antes dele fazê-lo e como muitos outros depois dele o farão. E então compreende que não precisa de rede para nada. Que o interesse é precisamente não ter rede…

Quem se senta na Cadeira de Salomão aprende a fazer a tarefa mais complicada que existe: dirigir iguais!

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Pérolas em lojas maçônicas

“A única coisa a fazer com os bons conselhos é passá-los a outros; pois nunca têm utilidade para nós próprios” (Oscar Wilde).

As pérolas têm origem biológica e são produzidas por alguns moluscos, as ostras e mexilhões, em reação a corpos estranhos que invadem os seus organismos, como vermes ou grãos de areia, provocando um tipo de irritação e, ao defender-se do intruso, segregam uma substância branca, brilhante e rica em calcário, o nácar ou madrepérola, que ataca esse agente, cristalizando-se rapidamente, dando origem a um material geralmente esférico.

Apreciadas desde a Antiguidade, com referências que datam de cerca de 2000 anos a.C., simbolizam a pureza e a beleza. Há registros de que durante a Idade Média, nos séculos XIII e XIV, o uso de pérolas era restrito, em muitos países europeus, à aristocracia por força de lei, como símbolo de poder e de riqueza, sendo usadas como adorno nas mais valiosas joias da época.

Variadas são as interpretações simbólicas sobre o processo de formação das pérolas, notadamente quando vistas como o resultado de um processo de cura decorrente de um sofrimento doloroso. Ensina Rubem Alves que “ostra feliz não faz pérola”. Segundo esse autor, “isso é verdade para as ostras e é verdade para o ser humano”.

A presente reflexão derivou-se do conselho de um provecto irmão que se diz calejado e não se surpreende mais com o inusitado. Segundo ele, conforme a situação da Loja, é melhor não argumentar quando a gestão do momento não se abre nem sequer se mobiliza para o incremento dos conhecimentos ou incentivo aos debates e integração, limitando-se a inibir manifestações nesse sentido e a focar apenas na ritualística, às vezes alterando-a a seu bel-prazer, muitas vezes sôfrega e claudicante.

“É como lançar pérolas aos porcos”, afirma ele, “não devemos gastar nosso tempo em produzir trabalhos que causarão mais desconforto do que satisfação, pois não estão ainda prontos para ouvir e debater”, e arremata: “pode ser que na próxima administração tenhamos espaço para contribuições”.

Em Mateus 7,6 Jesus alerta:

“Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem.”

Na alegoria bíblica, porcos e cães eram associados à impureza e ao perigo. No contexto bíblico, a referência envolvia pessoas resistentes ao evangelho que lhes era pregado. Assim, jogar uma pérola ao porco poderia ofendê-lo como se tivesse sido atingido por uma pedra. O gesto de dar pérolas aos porcos pode significar gastar o que temos de precioso com quem não aprecia ou recusa nossa ajuda.

Conforme ensinam nossas instruções, em Loja devemos ser sempre participativos, focados e dedicados aos estudos e aos projetos e atividades sociais aprovados pelos obreiros. Porém, em determinados momentos nossos esforços podem causar mais incômodo do que benefícios, quando a direção da Loja não se orienta pelo trabalho em equipe, não entrega valor aos membros da Loja, interdita ideias e as decisões ficam sempre restritas ao gestor principal, que exclui os demais por deficiências nas habilidades de condução dos trabalhos.

Alguns dirigentes, por insegurança, partem da premissa de que os irmãos mais experientes representam ameaça à sua gestão e tremem diante de seus prestígios e reconhecimentos no meio maçônico, chegando, em determinadas situações, a simular uma pretensa superioridade intelectual e sugerir que os mesmos se recolham, “cada um, às suas próprias insignificâncias ou que forneçam orientações prudentes, da qual se acham donos, para que não sejam criticados”, conforme mensagem direcionada a velhos mestres de uma determinada Oficina longínqua. É cediço que, quando a Coluna da Sabedoria abdica de suas atribuições, abre-se espaço para a intolerância e rupturas.

Gestores com esse perfil procuram apenas e tão-somente desfrutar do prestígio do cargo e a exercer naturalmente o autoritarismo, fomentando a desconfiança, a desagregação, em especial o conflito entre gerações, por acreditarem que os mais velhos, alguns referenciados por eles como “decorebas” de rituais e de poemas, são vazios de conhecimento e sabedoria e não têm mais como contribuir e os mais jovens nada com eles a aprender e muito a ensinar-lhes. E pasmem, a depender do perfil de um candidato em especial, atrevem-se a insinuar que a Loja não tem Mestres com estofo suficiente para orientar aquele “tal” de currículo supremo e lustroso que, já deveria, de plano, ser Iniciado, Elevado, Exaltado e quem sabe, conduzido ao Veneralato!

Em muitas situações, esses gestores demonstram favoritismos, impõem suas decisões sem discussão em Loja e promovem o cancelamento dos que porventura representem alguma ameaça. Nesse sentido, merece destaque um depoimento colhido em uma reunião de estudos por videoconferência onde a venerabilidade teria se regozijado, em evento social, de que teria tido sucesso em silenciar algumas estrelas da Loja por ele consideradas decadentes. E é essa postura desafiadora que os acalentam. Normalmente, não zelam pela harmonia, pelo diálogo e pela construção, e sentem certa atração pelo caos, olvidando que o bom legado de cada gestão é que dá sustentação para a caminhada dos obreiros e o fortalecimento da Oficina.

Nesse cenário burlesco, não faltam os que sempre aplaudem e compõem um grupo exclusivo de aduladores, incentivadores desse tipo de comportamento, que outro irmão irreverente e certeiro nas curtas mensagens classifica de “babaovistas” (derivado do pejorativo baba-ovo), atributo dos bajuladores contumazes. Isso para não falar daqueles que, por conveniência ou pusilanimidade mesmo, mantêm-se “em cima do muro” ou só querem receber paparicos. Esses, respaldando-nos na lição de Rubem Alves, não sofrem e não produzem pérolas.

Para ilustrar, citamos o exemplo de uma manifestação em um grupo de conversas de uma hipotética Loja de Oriente distante, quando o Venerável, resistente aos avanços tecnológicos, pouco afeito à liturgia do cargo e usuário do malhete como porrete, afirmou que não haveria reunião por videoconferência durante sua gestão: “Perfeeeiiito! Concordo plenamente com o nosso poderosíssimo e amantíssimo Venerável”, postou em áudio um irmão chegado a superlativos. Outro apoiador sentenciou: “comentários a respeito de instruções maçônicas somente em sessão ritualística, fora disso é uma excrescência”. Seguiu-se silêncio obsequioso, observando-se a conveniente prudência, segundo a fonte.

Prossegue o desabafo. Um “iluminado conselheiro para as Lojas dos outros”, teria ainda perguntado: “mas os demais não fazem nada, acatam simplesmente?” Redarguiu o irmão: “quem tenta argumentar leva pancada de bate-pronto e é tachado de pavão e convidado a recolher as plumas, com o lembrete de que a porta da rua é serventia da casa, além de outros devaneios, recados tortos e ironias, estas notadamente dirigidas aos associados de Lions, Shriners ou aos que chegaram ao topo da pirâmide. Então é melhor ser paciente e exercitar a tolerância, pois essa gestão passará logo e, pelo visto, deixará um histórico de desacertos, mágoas e baixas no quadro de obreiros!”. Nesse contexto, nunca se mostrou tão consistente a frase indevidamente atribuída a Abraham Lincoln: “Quer conhecer o caráter de uma pessoa? Dê-lhe poder!”. Mutatis mutandis, in casu, um malhete.

Mas, questiona-se: é isso mesmo? Dúvida de um jovem e perplexo Aprendiz:

“Existe um balcão de reclamações na Maçonaria? De preferência anônimo, para evitarem-se eventuais constrangimentos e não atrasar ainda mais a minha Elevação? [no caso foi utilizada a linguagem dos videogames: ‘passagem de fase’].”

Sabe-se que nos bastidores dessa improvável Loja o assunto continuaria rendendo, ao amparo do “truquezinho do entre colunas”. Dizem que chegou a ser cogitada uma DR até o fim da gestão, da qual não se tem notícias.

Se o irmão teve perseverança para ler até aqui e não se lembrou de nenhuma situação semelhante (Glória a Deus!), que fique bem claro que esta prancha não tem endereço específico e nem pretende dar conselhos ou dizer o que os componentes dessa ou de outras Lojas devam fazer em tais situações, caso venham a ocorrer, o que não acreditamos. As Lojas são autônomas quanto à gestão. Por outro lado, cautelarmente, qualquer eventual semelhança com a realidade, como sempre, terá sido mera coincidência mesmo. A proposta é apenas a de suscitar reflexões. Quem sabe dar origem a uma nova e valiosa pérola.

Enfim, na condição de maçons, o exemplo que precisamos ter sempre em nossos corações são as palavras de Tertuliano (c.160 – c.220) a respeito dos primeiros Cristãos, onde o afeto fraterno chamava a atenção dos pagãos, que assim a eles se referiam: “vejam como eles se amam entre eles” (Vide, inquint, ut invicem se diligant).  

“Uma palavra escrita é semelhante a uma pérola.” (Goethe)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da Loja Maçônica Águia das Alterosas Nº 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte; Membro Academia Mineira Maçônica de Letras e da Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras; Membro da Loja Maçônica de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda; Membro Correspondente Fundador da ARLS Virtual Luz e Conhecimento Nº 103 – GLEPA, Oriente de Belém; Membro Correspondente da ARLS Virtual Lux in Tenebris Nº 47 – GLOMARON, Oriente de Porto Velho; colaborador do Blog “O Ponto Dentro do Círculo”.

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A casa está queimando…

Eu simplesmente não consigo entender o incêndio criminoso de três templos maçônicos na área de Vancouver. Servimos nossas comunidades e nosso país por séculos por meio de caridade, auto sacrifício e boas ações. W Bro. Syd Schatzker[1]

Por mais triste que seja este momento, talvez possamos usá-lo para repensar nossas estratégias de comunicação, nossos esforços de construção de imagem e – mais importante – nossas práticas de educação e mentoria.

Deixe-me ser franco:

Para servir a sua comunidade, você não precisa ser um maçom. Basta ir e ser voluntário em qualquer organização de serviço comunitário.

Para servir nosso país você não precisa ser maçom. Basta ir e se inscrever no exército (ou pior cenário: entrar na política pública com honestidade).

O auto sacrifício não é um conceito ensinado em nossa educação maçônica. [Embora eu tenha lido nos últimos dias uma “constituição” de uma defunta obediência maçônica do século 18, onde eles costumavam colocar o candidato em um julgamento para testar sua vontade de auto sacrifício.]

Fazendo boas ações …? Qualquer religião é mais óbvia e significativa sobre tais ações – e mesmo se fizermos “boas ações” – não é a ideia (apontando para o auto sacrifício) que não se espera receber carinho por fazer boas ações? Se fizermos boas ações para obter “boa reputação” como recompensa… estava vindo do coração ou apenas uma simples troca comercial?

Agora, talvez, seja hora de parar e pensar sobre nós mesmos, nosso lugar no mundo, o significado da Maçonaria e a imagem que criamos de nós mesmos. E as perguntas que fiz acima.

Há – fora da nossa fraternidade – autores de ficção e lunáticos, em igual quantidade, que escrevem sobre os maçons, suas origens, seus rituais, seus objetivos e suas atividades presumidamente “secretas”. O público em geral, e muitas vezes também os maçons, não conseguem discernir a diferença entre o real e o imaginário. O motivo: falta de educação e orientação.

Durante séculos, seguindo a postura da Maçonaria Inglesa, todas as Grandes Lojas permaneceram silenciosas e indiferentes a tais exercícios mentais exibidos por obras literárias ou malucos adeptos de teorias de conspiração. Enquanto a única mídia a atingir as massas foi a impressa, que não era acessível para tais “escritores”, talvez essa atitude oficial tenha se justificado. No entanto, o século XXI trouxe grandes mudanças também neste campo: a internet, a Web 2.0 (introduzindo a interatividade), as mídias sociais, os e-books etc. De repente, os grafomaníacos obcecados ganharam um meio de fácil acesso, uma plataforma mundial para espalhar suas fantasias… e as Grandes Lojas estavam, e ainda estão, à margem, como se isso não as afetasse. Talvez devêssemos questionar a validade dessa posição. A torre de marfim pode não funcionar desta vez. Para uma analogia, olhe para a economia: a disrupção tornou-se a norma. As velhas maneiras de fazer as coisas são obsoletas e não são eficazes.

A internet e a mídia cheia de conspiração não é apenas mais uma “exposé” como as iniciadas na década de 1730… não é apenas mais uma farsa impressa como a de Taxil… misteriosa Maçonaria. É um ataque com esforços concentrados (embora não cometamos o mesmo erro: não é uma conspiração mundial dirigida por um cérebro central!). Mesmo que não tenha origem em só lugar – está convergindo em uma única direção: contra nossa Sublime Ordem.

Devido aos nossos mais de 300 anos de silêncio e ao sigilo real e percebido, perdemos há muito tempo a chance de controlar nossa própria imagem pública. Quando mais de uma geração de maçons cresceu (e envelheceu) sem ser capaz de comunicar de forma coerente, nem mesmo para suas próprias famílias, o que é a Maçonaria e por que ela é importante na vida de um homem… perdemos o barco. Se nós, como maçons, não fomos capazes de comunicar às nossas amadas famílias o que é a Maçonaria – como esperamos convencer as massas paranoicas sobre as qualidades de nossa fraternidade?

(Antes que você se oponha nervosamente a essa ideia: pense em todos aqueles jovens anunciando publicamente que seu pai ou avô era maçom, mas eles nunca disseram uma palavra à geração mais jovem… eles podem dizer por que nunca foram orientados e educados adequadamente sobre a Arte Real!)

Fazer doações para instituições de caridade e/ou distribuir pacotes de alimentos para os necessitados – não é Maçonaria. É, sem dúvida, uma intenção nobre e uma ideia nobre ajudar os menos afortunados e contribuir para causas nobres. Mas quando a Maçonaria, para o iniciado, termina aí, ou, eventualmente, adicionando algumas cervejas com os “camaradas” … aí a Maçonaria acaba também.

Mentes brilhantes, como Thomas W. Jackson, o conhecido estudioso e maçom de longa data que viajou extensivamente ao redor do mundo, escreveu que distinguia cinco estilos de maçonaria: filosófico, social, sociológico, político e caritativo. Definitivamente, os exemplos destacados do Charitable Style são a América do Norte, tanto o Canadá quanto os EUA. O que significa que perdemos todo o resto … Como o Ir. Jackson colocou: nós “nos afastamos mais de suas raízes do que qualquer Maçonaria no mundo”.

Poderíamos citar muitos de seus artigos, e de muitos outros estudiosos maçônicos. Também poderíamos dar uma dica do nosso próprio programa de Grão-Mestre: Ritual, Educação, Mentoring. Sem isso, que tipo de “maçonaria” você tem? Vindo de um lugar onde a Maçonaria manteve vivo seu “estilo” filosófico e raízes, onde a elite intelectual costumava ser e ainda é atraída pelos ideais da Maçonaria, fiquei amargamente chocado quando um jovem maçom canadense não muito brilhante se opôs veementemente ao uso da palavra “elite” em conexão com a Arte. Ele pensou que era algum tipo de palavrão… e quando as pessoas podem associar com a palavra apenas os infames 1% mais ricos do país e nada mais, é um triste retrato de como fomos negligentes em nossa obrigação de orientar e educar nossos membros. Enquanto não mudarmos isso, não conseguiremos atrair a “elite”, nenhum tipo de elite.

Muitos maçons respeitam o autor John J. Robinson (pelo motivo errado, devo acrescentar, porque ele não é um historiador qualificado do Ofício). No entanto, todos podemos concordar com esta afirmação dele: “O problema com a Maçonaria é que ela não pratica mais a Maçonaria”.

Como isso está relacionado aos incêndios criminosos de BC?, você pode perguntar. Reflita sobre isso: quem é responsável pela discrepância entre nossa autoimagem e a imagem que existe na sociedade em geral?

Autor: Istvan Horvath
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: The Other Mason

*Horvath é Mestre Maçom, Maçom do Arco Real, membro da Philaletes Society, do Quatuor Coronati Correspondence Circle e da Scottish Rite Research Society. 

Nota

[1] – O autor dessa citação se referiu ao caso de incêndio criminoso de 30 de março de 2021 em Vancouver, BC. Veja reportagens da mídia: https://www.cbc.ca/news/canada/british-columbia/north-vancouver-fires-1.5969506https://globalnews.ca/news/7731273/arson-charges-masonic-hall-vancouver/ 

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Veneráveis vitalícios e donos de loja – Maçonaria Francesa do século XVIII

Essa não é uma história que se possa contar em poucas linhas, pois ela é construída sobre fatos e acontecimentos pertinentes ao desenvolvimento da Maçonaria Francesa nos séculos XVIII e XIX.

Em resumo, os episódios se alinharam pelo aparecimento de dois ramos de Maçonaria em solo francês: um “stuartista” (escocesismo), livre, que não se sujeitava a nenhuma Obediência e a outra dependente da Primeira Grande Loja que fora fundada no ano de 1727 em Londres.

Essa última vertente francesa absorvia o sistema dos Modernos ingleses que havia se expandido pelo continente europeu na época. Segundo alguns autores, na França, a Maçonaria foi introduzida em Paris por volta de 1725 em uma Loja instalada por iniciativa de Charles Radclyffe, o Conde de Derwentwater e teria sido frequentada principalmente por maçons de origem irlandesa e jacobitas (católicos) exilados.

Desse modo, no curso da história as Lojas francesas ficariam então divididas em dois grupos – as Lojas derivadas do “stuartismo” e as derivadas da Grande Loja inglesa de 1717. Essas últimas que eram em menor número.

Embora sem existir ainda uma Obediência genuinamente francesa, em 1728 o Duque de Wharton, Ex-Grão-Mestre da Primeira Grande Loja londrina (1722 e 1723), foi reconhecido como o 1º Grão-Mestre dos maçons franceses, sendo sucedido por outros dois Grão-Mestres que eram também ingleses – James H. MacLean e Charles Radclyffe.

Em 1735, pelo grande número de Lojas stuartistas (tronco do escocesismo) então surgidas, pleiteou-se a necessidade de se designar um Grão-Mestre para uma Obediência genuinamente francesa, com isso as poucas Lojas de Paris ligadas à 1ª Grande Loja em Londres acabariam fundando uma Loja Provincial Na França, mesmo que a contragosto dos ingleses.

Assim, a 24 de junho de 1738 era instalado Louis de Pardaillan de Gondrin, o Duque d’Antin como “Grão-Mestre Geral e Perpétuo dos Maçons do Reino da França”. A bem da verdade, esse acontecimento estancava a subserviência da Maçonaria francesa à Primeira Grande Loja londrina.

Mais tarde, no curso dos acontecimentos e com o falecimento do Duque d’Antin em 1743, assume o grão-mestrado francês o personagem Louis de Bourbon Condé, o Conde de Clermont.

Esse grão-mestrado, contudo, trouxe consequências graves para a Maçonaria francesa, sobretudo pelo seu desinteresse pelas práticas maçônicas, o que fez com que fossem nomeados prepostos para dirigir a Grande Loja, cujos quais exercendo todo o seu poder, acabariam por fraccionar a recém criada Obediência francesa, principalmente pelas oposições que entre si eles mesmo provocavam.

Nesse contexto, pode-se citar como exemplo, o extraordinário tumulto ocorrido na festa dedicada a São João Evangelista em 27 de dezembro de 1766, quando maçons excluídos por motivos de rixas internas invadiram o local onde se realizavam os trabalhos. Houve necessidade de intervenção policial para que a ordem pudesse ser restabelecida.

O resultado desse tumulto foi a proibição das atividades maçônicas que durariam até 1771 (cinco anos de paralização).

Em 1771, com o falecimento do Conde de Clermont, muitos maçons que haviam sido excluídos conseguem o aval do Duque de Luxemburgo para conduzir Louis Philippe Joseph d’Orléans, o Duque de Chartres, primo do rei, para ser o Grão-Mestre da França, contudo esse Grão-Mestre deixa toda a administração da Grande Loja francesa para o Duque de Luxemburgo. A bem da verdade, era essa a intenção, pois visava-se aproveitar o prestígio do Duque de Chartres, que era primo do Rei, para ajudar a reerguer a então combalida Maçonaria francesa – proliferação e descontrole de Altos Graus e a fundação de centenas de Lojas com veneráveis vitalícios que ficariam conhecidos como “donos de loja”.

Ainda em 1771, um grupo de maçons, então reintegrados e consorciados com o Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente que havia sido criado em 1758 por Pirlet, formam uma comissão com a finalidade de organizar uma reforma administrativa na Maçonaria francesa, elaborando assim novos estatutos para fazer uma reorganização na desordem que prevalecia no ambiente dos Altos Graus, dentre outros.

Destaca-se nessa reforma administrativa a introdução de eleições periódicas para Venerável Mestre, o que desagradou de imediato os tais “veneráveis vitalícios”, também conhecidos como donos de Lojas, comuns nas lojas parisienses como já comentado.

Esses veneráveis vitalícios nada mais eram, de fato, do que donos das suas Lojas já que, na conturbada organização da Maçonaria francesa, muitos criavam suas próprias Lojas e assumiam seus mandatos pela vida toda, isso quando não criavam ainda Altos Graus para se promover perante a aristocracia francesa.

Esses Veneráveis com mandatos para a vida inteira acabariam resistindo contra essa reforma e por isso se ligaram a outra Grande Loja que ficaria conhecida como a Grande Loja de Clermont ou o Capítulo de Clermont. Esse Capítulo, que fora criado em 1754 pelo Cavaleiro de Bonneville, objetivava sacramentar definitivamente uma classe especial de maçons com os seus Altos Graus, dando-lhes, principalmente, uma conotação aristocrática. Teve vida efêmera e acabou se extinguiu-se em 1789.

Por conta das reformas, no final do ano de 1771, uma assembleia especialmente convocada para esse fim, declarava extinta a Grande Loja da França e, em 1772 era criada uma nova Obediência denominada Grande Loja Nacional da França. Ainda nesse mesmo ano, a 22 de outubro, a Grande Loja Nacional da França se reunia em assembleia geral e adota para si no nome de Grande Oriente da França.

Nesse sentido, a grande inovação promovida, agora pelo Grande Oriente da França, foi a chamada “democracia maçônica” que é baseada num poder central assessorado por um grupo de deputados de todas as Lojas. Enfim, esse tem sido, desde então, uma característica dos Grandes Orientes.

Vale mencionar que, já ano de 1758, era criado por Pirlet o Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente. Desse Conselho se originaria em solo francês o Rito de Perfeição, ou Heredom, com 25 graus. A bem da verdade uma concepção formada para organizar o caos que vivia o sistema de Altos Graus na França.

É bom que se diga que boa parte desses Altos Graus foram criados aleatoriamente por “donos de lojas” e serviam mais para explorar as vaidades e satisfazer egos do que trazer crescimento iniciático.

Assim, em 1778, o Grande Oriente da França nomeia uma comissão de maçons esclarecidos para realizar um profundo estudo do sistema de graus vigente, visando com isso eliminar doutrinas estranhas ao pensamento maçônico, principalmente.

Na realidade, o que se buscava era um Rito com menor número possível de graus em contraposição ao emaranhado de graus existentes no contexto francês de Maçonaria.

Depois de três anos, essa comissão concluiu que o melhor para o Rito era trabalhar apenas no franco-maçônico básico – Aprendiz, Companheiro e Mestre (o termo simbolismo ainda não era conhecido). Mas, infelizmente, para não fugir à regra latina, o Grande Oriente “achou” que isso poderia gerar descontentamentos e até mesmo cisão, tendo em vista o grande número de maçons existentes já condecorados com os Altos Graus. Com isso, mesmo antes de um parecer oficial, a comissão achou por bem renunciar.

Refletindo melhor sobre a situação, o Grande Oriente acabou acatando o parecer da comissão e expediu uma circular em 03 de agosto de 1777 na qual declarava que só reconheceria os 3 primeiros graus.

Foi o que bastou para que aflorassem enormes ressentimentos no seio da Maçonaria Francesa, pois a contaminação pelo amor a esses graus de paramentos vistosos estava por demais radicado. Para muitos maçons do Grande Oriente, sobretudo aqueles que tinham perdido o cargo de venerável vitalício, a redução de graus os levaria ainda mais a um caráter de inferioridade.

Assim, mais uma vez, diante dos descontentamentos aflorados, é que em 1782 o Grande Oriente instituiu uma Câmara dos Graus, sob a liderança de Alexandre Roëttiers de Montaleau, para formatar o Rito dando-lhe Altos Graus, porém apenas os essenciais. Com isso, em 1784 sete Lojas Capitulares Rosa-Cruz constituem o Grande Capítulo Geral da França para trabalhar nessa nova formatação capitular. Em 1786, um projeto de um Rito com apenas 7 Graus seria aprovado pela assembleia e posto em prática.

A título de ilustração, é somente em 1801, época pós Revolução Francesa, com a publicação do Le Régulateur du Maçon, é que o Rito Francês passa a ter os seus rituais e fica conhecido com sistema dos 7 graus do Grande Oriente da França.

Em 1804, a vertente maçônica francesa do escocesismo passa a ter em Paris o 2º Supremo Conselho do REAA, cujo Rito, herdado do Rito de Perfeição, ou de Héredon, com seus 25 Graus que passa para 33 Graus nos EE. UU. da América do Norte, passa a ser chamado de Escocês, Antigo e Aceito.

Aí começa um segundo capítulo da Maçonaria Francesa com uma Loja Mãe Escocesa, Lojas Capitulares em 1816 e o ingresso do 1º ritual para o simbolismo do REAA no Grande Oriente da França.

Desse modo, o simbolismo do REAA constrói a sua história na Europa a partir do seu primeiro ritual para o franco-maçônico básico datado de 1804 e já deturpado em 1821 por imposição do Grande Oriente da França ao adaptá-lo para Loja Capitular, mas essa é outra história.

Ainda sobre o Rito Moderno, o mesmo passaria ainda por revisões no curso da sua história, principalmente entre os séculos XIX e XX a exemplo da de Murat, em 1858; Amiable, em 1887; Blatin, em 1907; Gérard em 1922; Groussier, em 1946.

Foi então do ambiente conturbado da Maçonaria francesa do século XVIII, principalmente antes da Revolução Francesa, que os Veneráveis vitalícios – que criavam suas próprias Lojas – se desenvolveram e desapareceram após a reforma e a criação do Grande Oriente da França, oportunidade na qual Veneráveis Mestres passavam a ser eleitos pelos membros das Lojas.

Graças a esses acontecimentos, onde a depuração fez com que muitos maçons perdessem seu irregular status simbolizado por aventais vistosos e títulos hauridos de graus aristocráticos e cavalheirescos é que surgiu, em 1777, a Palavra Semestral como penhor de regularidade na Maçonaria francesa.

A história, mesmo que contada de modo superficial, carece muitas vezes de abordagem em tópicos que construíram as causas dessa mesma história. Assim, peço perdão pela prolixidade, mas foi o modo mais abreviado que pude encontrar para dissertar um pouco sobre a existência no passado dos então chamados “donos de loja” e os seus “mandatos vitalícios”. Na academia da história, muitas vezes os fatos somente se explicam quando lhes revelamos a sua causa.

Autor: Pedro Juk

Fonte: Blog do Pedro Juk

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Uma pedagogia através de símbolos e imagens simbólicas

A Maçonaria oferece uma maneira única de divulgar suas ideias entre os iniciados nessa organização. Esta epistemologia vem de várias fontes, mas em todas elas o símbolo, ainda mais a imagem simbólica, desempenha um papel central. Uma recente novidade editorial, Masonic Symbolism, de JJ García Arranz, estudou-o. Nas páginas seguintes, tentar-se-á delimitar um pouco em que consiste este método de comunicação de ideias, sobretudo na sua dimensão visual. Além disso, este número será aprofundado com base na já mencionada novidade editorial apresentada por García Arranz, bem como na resenha que publicou em REHMLAC +. 

No número 1 do volume 10 da REHMLAC+ (maio-novembro de 2018) foi publicada uma resenha sobre uma novidade editorial, Masonic Symbolism, escrita por José Julio García Arranz e publicada na Editorial Sans Soleil . A revisão foi realizada por Antonio Morales Benítez, pesquisador da Universidade de Cádiz.

Tanto o título do livro de García Arranz quanto a resenha de Morales Benítez enfatizam o valor dado à questão do simbólico. Assim, este artigo visa aprofundar esse aspecto, tomando como diretriz o estudo publicado por Sans Soleil, já que –como indica Morales Benítez em sua obra– o livro de García Arranz ocupa uma lacuna no mercado hispânico que era importante preencher[1]. Dada a importância dada à análise de García Arranz, toma-se o Simbolismo Maçônico como fonte principal, a ser complementada – sim – com outras referências bibliográficas.

No final de 2017, foi publicado pela editora Sans Soleil o referido livro sobre a dimensão simbólica da Maçonaria. García Arranz considera o simbólico como o eixo fundamental da epistemologia proposta pela fraternidade. De fato, o fato desta obra ter sido publicada em Sans Soleil é muito consistente, pois o simbólico e suas aplicações estéticas constituem um de seus principais eixos de divulgação. Aliás, a referida editora especializou-se na edição de alguns dos livros mais representativos das mais renomadas tendências da história da arte. Assim, em seu catálogo pode-se encontrar desde clássicos da iconologia (Panofsky, Gombrich) até grandes teóricos dos estudos visuais (Mitchell, Moxey) e estudos culturais (Haraway), além de alguns dos novos autores mais interessantes da disciplina na esfera hispânica, especialmente na academia espanhola. Entre eles, o professor García Arranz, com o referido estudo sobre a sociedade secreta.

As credenciais do professor José Julio García Arranz são importantes para entender sua perspectiva. É professor catedrático de História da Arte na Universidade da Extremadura, especializado em emblemática. Isso dá à sua pesquisa um viés claro para o aspecto visual da sociedade secreta. Consequentemente, e entre outras virtudes, o Simbolismo Maçônico compila um enorme número de imagens geradas pela sociedade secreta em sua história centenária.

Como Morales Benítez já relata em sua resenha, García Arranz foi o fundador da Sociedade Espanhola de Emblemática[2], fator a ser levado em conta pelo peso que esse modelo de transmissão logoicônica tem na história da fraternidade[3]. Aprofundando-se no exposto, além da emblemática, o professor também investigou o material visual relacionado ao imaginário hermético, alquímico, esotérico ou afins.

Quanto à abordagem do estudo de García Arranz, não será aquele que pretende fazer proselitismo para a causa maçônica. Nem a denegrir, transformando-a numa hidra que está na raiz de todas as revoluções (negativas) do mundo[4]. Apenas pesquisa acadêmica rigorosa é procurada. O livro está dividido em sete ensaios de extensão variável, aos quais se acrescenta a introdução, a conclusão e dois apêndices.

Entre as várias metodologias, o autor da obra resenhada optou por realizar um estudo de maçonologia —em homenagem à iconologia panofskyana. Portanto, aproveita as ferramentas das ciências humanas, evitando leituras partidárias, baseadas em fantasias, e realizadas por membros da fraternidade ou por detratores convictos, sem o domínio adequado das metodologias das disciplinas humanas[5]. Ou mesmo sem a necessária distância do objeto de análise, mediada por seu fervor. Devido a isso, esse tipo de pesquisadores maçônicos traçam conexões sem suporte empírico[6]. Pode-se dizer que, com tal decisão, García Arranz opta por uma leitura ética em termos de antropologia, externa ao grupo estudado.

Entre os ensaios, ele combina alguns de narração histórica com outros que funcionam como um dicionário de símbolos em uso, junto com alguns mais de tipo especulativo que – por exemplo – observam a evolução de certas ideias dentro do corpus teórico e visual maçônico.

As quatro primeiras seções — introdução e três capítulos próprios — do Simbolismo Maçônico são apresentadas como definições do assunto em questão, que vão desde uma apresentação geral até delimitações conceituais, uma indagação sobre o que é especificamente para a fraternidade ou os tipos de símbolos que podem existir, dependendo das origens, dada a natureza eclética das fontes maçônicas. Todos ensaísticos, os quatro textos constituem uma base incontornável sobre a qual se apoiará o restante, são reflexões sobre o papel do simbolismo e seu peso na história da fraternidade. Isso configurará o que Martín López chamou de “estética maçônica”, que – em sua opinião – é um rótulo melhor do que “estilo maçônico”[7].

Uma das características mais marcantes do aspecto epistemológico em que a fraternidade divulga suas ideias gira em torno de um ecletismo de fontes, o equivalente estético de seu sincretismo religioso – que bebe tanto do hermetismo quanto da alquimia, do Egito faraônico e do cristianismo. Segundo García Arranz, os símbolos de tantas religiões são retrabalhados em códigos maçônicos[8]. Na arte contemporânea dir-se-ia que a sociedade secreta se apropria de cada um deles.

Símbolo como fonte de conhecimento espiritual, mas também de ensino moral, cada um dos Ritos – mesmo cada uma das Lojas – decide qual das muitas tendências maçônicas prefere priorizar, uma escolha que terá consequências sobre como a faceta metafórica mais tarde será trabalhada. Portanto, para García Arranz, o simbolismo torna-se a espinha dorsal das lojas e da Maçonaria, pois cada obediência e cada rito têm uma abordagem parcialmente diferente em relação aos outros — o ritual apresenta mudanças, os templos são decorados com pequenas variações —, embora sempre compartilhando um fundo simbólico comum[9].

Mas antes de prosseguir, e dada a centralidade que a Maçonaria lhe confere, convém definir – na medida do possível – a que ideia de símbolo a sociedade secreta se refere. A irmandade passou a utilizá-los – segundo uma longa corrente de interpretação compartilhada, ao menos parcialmente, por simbolistas, românticos, herméticos ou neoplatônicos, que pensavam na imagem simbólica como algo que remetesse ao sagrado, metafísico ou mítico – como uma imagem que alude ao verdadeiro no sentido espiritual e que, mesmo em suas leituras mais espiritualistas — hinduísmo, religião egípcia durante os faraós ou certas correntes esotéricas — a imagem pode vir a ser a mesma[10].

Uma ideia expressa no catálogo que acompanhou uma das exposições mais interessantes de 2017, As Above, So Below: Portals, Visions, Spirits & Mystics, exibida no IMMA em Dublin, aprofunda esta ideia:

“Em tempos passados, a arte feita por humanos não representava apenas alguma coisa, ela era aquela coisa;  a divindade, espírito, humano ou animal continha a essência ou, se preferir, a alma daquela coisa.” [11]

Uma tendência já encontrada no hermetismo, um dos grandes horizontes culturais que influenciaram a fraternidade. Ficino, pensador vinculado às raízes renascentistas da referida corrente, havia teorizado sobre a capacidade do símbolo de tornar visível o invisível, orientar para a ideia e, simultaneamente, ao pensar sobre ela, reformar a mente. Devido a essas virtudes, gozaria de um alto poder heurístico[12].

No código maçônico, e como fundamento epistemológico, o símbolo maçônico alude à coisa sem perder seu caráter polissêmico: o mesmo objeto – compasso, esquadro ou qualquer outro – significa coisas complementares, mas não necessariamente iguais em diferentes graus. O compasso no grau de Aprendiz não será equivalente à mesma realidade que no de Mestre. Cada vez ele irá incorporar novas facetas. Isso pode chegar a vincular vários objetos de maneira diferente para cada série. Aí o símbolo possui uma multivalência polissêmica, cujos significados são potencialmente infinitos[13].

Por isso, a faceta lógica ou racional não se concentra exclusivamente nele, mas o que é representado se dirige à totalidade do psiquismo, tanto ao irracional quanto ao suprarracional. Ou seja, em todos os níveis que não são conscientes ou racionais, com uma natureza inevitavelmente misteriosa, ambígua, inefável ou ilimitada[14]. Assim, torna-se também uma ferramenta inestimável para compartilhar informações sobre o metafísico ou o sagrado[15].

Porém, isso não descreve completamente o uso do simbólico na fraternidade. Como muitas vezes aponta García Arranz, há dois polos hermenêuticos que vão da já mencionada forte leitura esotérica – sem lastro na documentação histórica – a uma leitura puramente racionalista que escapa à dimensão anterior. García Arranz trata desses dois polos em vários pontos do texto, com formas muito diferentes de compreender o corpus teórico e simbólico do grupo[16].

Geralmente, a leitura esotérica prefere refletir sobre uma dimensão mítica ou espiritual, uma interpretação ocultista que seguiria a tradição hermética, segundo a qual as verdades últimas do mundo inteligível são incorporadas em símbolos[17]. Por outro lado, as lojas que optam por filtrar os símbolos por um código moral mais didático preferem uma Maçonaria laica e racionalista, com prioridade para o político ou o sociológico, muitas vezes de forma progressista.

Essa dupla abordagem maçônica, com a sensibilidade mais metafísica por um lado e a histórico-sociológica por outro, lembra a dualidade com que Ernst Gombrich descreveu a hermenêutica do simbólico. Segundo o grande historiador da arte, em um estudo clássico, podem-se distinguir duas formas de abordar a interpretação dos símbolos. De um lado, a mentalidade que chamou de “intelectual aristotélica”, um método de definição visual baseado em associações de conceitos e imagens, algo que pode ser delimitado, estudado e estabelecido. No outro, o que chamou de “misticismo neoplatônico”, cuja origem é mais religiosa e em que, no que diz respeito à comunicação, o símbolo se torna expressão de algo inefável e que nunca pode ser completamente definido[18]. Assim, ao longo de sua história, a Maçonaria vem manifestando ambas as tendências em suas operações. É claro que, embora o autor destas linhas concorde com a apreciação de García Arranz, segundo a qual a Maçonaria utiliza ambas, dá a impressão –porém– que o uso original de seu método partiria do chamado neoplatônico místico, corrigido durante sua já longa história para a outra opção, mais racionalista.

De qualquer forma, a imagem simbólica apresenta sua informação superando a literalidade das coisas, sendo ela mesma (o compasso) e, ao mesmo tempo, sugerindo outras realidades, em um mostrar e esconder simultaneamente – um espetáculo de ocultação que, por outro lado, é a quintessência da arte. A atividade cognitiva gerada pelas imagens simbólicas ativa a imaginação — que é seu domínio —, provocando também a geração de sentimentos, o que explica em grande parte, pelo menos, sua eficácia como método pedagógico.

O quinto e muito curto capítulo do livro de García Arranz ainda mantém o tom ensaístico. Nele, o autor se pergunta justamente sobre a função dos símbolos, desdobrados em identificação mútua entre maçons, a difusão moral —com suas lendas e afins—, ou uma propedêutica filosófico-moral, considerando através de seu estudo como deve se comportar um verdadeiro maçom. Mas, além disso, observam-se também outras funções de natureza mais metafísica, como a possível união com uma realidade transcendente, graças a esses símbolos arquetípicos, transformados na encarnação do transcendental. Graças a eles, o maçom pode libertar-se do condicionamento[19].

As duas seções seguintes são as centrais dentro do Simbolismo Maçônico. Para começar, elas expandem o formato do ensaio para propor uma exibição como verbetes do dicionário. E fazem isso para duas áreas maçônicas fundamentais. Na primeira, os mitos da fraternidade e os objetos para explicar suas ideias. No segundo, os espaços do templo. Embora o tema varie, a estrutura de ambos os capítulos é compartilhada. E em termos de extensão, essas seções ultrapassam a metade do estudo.

O primeiro de ambos – o sexto capítulo – descreve um a um, alguns dos símbolos e mitos mais comuns das Lojas. Esta é a seção mais variada e complexa, baseada na constituição dos mitos da fraternidade. Ao contrário dos capítulos anteriores, do tipo ensaio, focados no desenvolvimento de um tema unitário, nesta passagem todos esses conceitos – e mais alguns – são explicados como verbete de dicionário. Combina alguns dos elementos cruciais do léxico da corrente iniciática ligada ao trabalho de construção – como o compasso, o cinzel e os demais exemplos – com reflexões sobre a geometria sagrada de inspiração pitagórica, como o Delta do Oriente, a Estrela Flamejante, o hexagrama, o ponto e a circunferência ou outras figuras semelhantes.

O longo capítulo também explica algumas das histórias fundadoras extraídas do legado bíblico. Ele esclarece muitas delas, oriundas de fontes do Antigo Testamento, lidas como germe de ensinamentos morais ou por suas analogias com a instrução da irmandade, como a de Hiram Abif, arquiteto do templo de Salomão — tema básico da bagagem de uma fraternidade com uma figura chamada Grande Arquiteto do Universo[20] —, tudo relacionado ao referido templo, as colunas Jakim e Boaz, a construção da Torre de Babel, a construção da arca de Noé ou escada de Jacó, entre outros episódios, personagens e objetos relevantes da Bíblia.

Nessa mesma epígrafe, o autor faz um exercício semelhante com influência esotérica, pegando uma série de temas e desenvolvendo-os. Entre eles, o templário e o espírito cavalheiresco que derivou de seu exemplo, o rosacrucianismo, a alquimia, os cultos de mistério ou a arte da memória. García Arranz sai da exaustividade do dicionário de termos para voltar ao ensaio reflexivo. Com ele, levanta-se o que há de factual nessa suposta herança ou – pelo menos – transferência do oculto.

Na minha opinião, García Arranz minimiza um pouco seu peso. A Maçonaria tornou-se um dos redutos tradicionais da corrente esotérica ocidental. Sua influência é percebida tanto no tipo de epistemologia — a necessidade de ritual, o uso de símbolos e, portanto, a tentativa de evitar o literal, o uso neoplatônico de exemplos morais para aprender o comportamento…— como no conteúdo mitológico — o próprio uso dos mitos e do pensamento mítico, a Rosacruz, o Templário, até mesmo partes dos rituais—. Sem esquecer, muitos dos elementos simbólicos em que ressoa o hermetismo-esoterismo, a tríade enxofre-mercúrio-sal, o pavimento em mosaico… relacionado com a sociedade secreta 

Além disso, se traçarmos as origens de alguns símbolos, e como exemplo, a alquimia serviu de referência na exibição visual dentro das lojas. Por exemplo, nas imagens da loja e no material visual encontrado nos livros de gravuras da ciência de Hermes (alquimia). Mas, na minha opinião, a influência nesse sentido é menor. Embora seja verdade que os emblemas alquímicos possam inspirar nos casos em que se representa uma combinação heterogênea de elementos de múltiplos significados — como acontece nos painéis dos graus de Aprendiz e Companheiro —, a influência é muito menor no que diz respeito às gravuras com cenas –muitas vezes mitológicas– e que devem ser decodificadas, comparando-as com os processos observados no ritual. Contudo, este tema é complexo e merece pesquisas futuras focadas nele.

Se voltarmos ao estudo de García Arranz, o capítulo termina no mesmo tom especulativo, pensando na lenda e na realidade do papel maçônico na Revolução Francesa. Apesar da heterogeneidade da Maçonaria, composta por atitudes muito diversas – até opostas –, os teóricos da conspiração acusaram a fraternidade de ter desencadeado o movimento revolucionário e o consequente terror, o que teria significado uma vingança templária contra seus inimigos monárquicos. Mas nem as Lojas reagiram unanimemente a esses acontecimentos — muito pelo contrário —, nem o lema revolucionário, com as três virtudes (Liberdade, Igualdade, Fraternidade) tão cruciais dentro do ritual da ordem, foi um empréstimo maçônico, sendo que o que aconteceu foi justamente o contrário do ronda o senso comum.[21]

O sétimo capítulo, “Os lugares da imagem-símbolo”, continua com o formato do dicionário. Mas, neste caso, para descrever os elementos simbólicos do templo, o pavimento em mosaico, os locais de assento do Aprendiz, Companheiro e Mestre, os painéis da Loja…, assim como as luzes em várias variantes e significados. Sendo a Maçonaria uma corrente iniciática especialmente interessada no simbolismo da luz, pode-se deduzir o valor dado a esta parte do léxico da fraternidade.

No último capítulo, García Arranz retoma o tom ensaístico para refletir sobre uma de suas áreas de especialização: a forma artística dos emblemas, tão relevante sobretudo nos séculos XVI e XVII. Para forjar sua forma logoicônica, ou seja, a combinação de informações textuais com outros gráficos, uma mistura emblemática para a qual era importante a teoria dos hieróglifos que existia naqueles séculos, assim como as fantasias que gerava[22]. Muitos dos motivos dos livros de emblemas serviram de inspiração para a rica herança simbólica da sociedade secreta.

Sobre a capacidade de revelação da imagem no sentido hermético, convertida no que pensavam ser um hieróglifo no século XV ou XVI, o professor Díaz-Urmeneta aponta um argumento que pode ser estendido à fraternidade e seu uso do simbólico:

Esta é a afirmação da magia renascentista. Partindo do pensamento árabe, de algumas de suas recepções pela escola e de escritos herméticos, o Renascimento busca uma imagem efetiva que tenha a força que o tempo atribuiu aos hieróglifos dos antigos egípcios. Tal imagem não procura significar ou comunicar, mas tornar presente. Traga aqui a força oculta na natureza. Ao despertar assim a virtude de qualquer ser, encerrado em seu nome ou em sua figura, os homens poderiam intervir no curso dos eventos naturais. O hieróglifo era a linguagem das coisas que, roubadas da natureza, continham a eficácia manifesta ou oculta das próprias coisas. [23]

No uso de imagens com valências hieroglíficas, a Maçonaria está ligada a um clássico da utopia do século XVII, Cidade do Sol , escrito por Campanella, autor muito próximo do pensamento hermético. Neste romance utópico, o antigo anseio renascentista pela linguagem através de imagens, hieróglifos e significado pedagógico é fabulado. O personagem Sin, que na cidade ideal se encarrega da ciência, mandou pintar murais e cortinas da cidade com desenhos de estrelas, matemática, minerais, metais, bebidas, animais, ervas, árvores ou países do mundo, com os quais ilustram visualmente os cidadãos.

O conjunto relatado no romance utópico segue o ideal hermético da instrução por imagens hieroglíficas, tendo os afrescos como lição, numa combinação de imagem e palavras, já que os professores os utilizam para instruir. Além disso, as várias representações se entrelaçam como em uma tapeçaria, para mostrar como funciona a teoria das correspondências, tendência também próxima da Maçonaria. A finalidade pedagógica dos murais da Cidade do Sol é aplicada a partir dos três anos de idade. Esse fator torna-se o enredo da história utópica justamente no momento em que franciscanos e jesuítas catequizaram com imagens, quando se buscaram significados esotéricos para hieróglifos ou quando imagens e versos foram combinados em emblemas[24].

García Arranz aplica a união logoicônica à leitura das pinturas da loja, nas quais se fundem graficamente os principais elementos simbólicos maçônicos. Mas, na minha opinião, essas pinturas de loja carecem do componente textual, essencial para que uma forma visual seja emblemática. Em vez disso, encontra-se neles a densidade simbólica e alegórica da parte visual dos emblemas.

De qualquer forma, eles também se aproximariam de exemplos um pouco mais avançados de livros de emblemas alquímicos, nos quais a informação textual desaparece quase completamente, com o exemplo por excelência do Mutus liber, intitulado como o Livro Mudo, que tentou alcançar a tradução hermética ideal de ideias a imagens para pensar através delas. E, assim, contornar as limitações do logos e sua linguagem verbal[25].

Que sim, como já se antecipou um pouco acima, é claro que, entre os membros das sucessivas gerações de maçons, podem ser contados vários que tinham consciência dessa bagagem cultural e que seu próprio discurso – bem como a ideologia de a fraternidade – foi influenciado por ele.

Essa influência é perceptível de forma mais clara naqueles emblemas que contêm elementos simbólicos compartilhados pela Maçonaria, como o compasso, o esquadro e outros. Mas, na visualidade maçônica, em suas imagens, quase sempre falta o aspecto textual, essencial para que a forma do emblema aconteça. Provavelmente, isso se deve ao fato de a instrução maçônica ser constituída por imagens, mas também por recitações dos rituais, aspecto que deve ser sempre levado em consideração ao se analisar a epistemologia da fraternidade[26].

Sobre os rituais, os tratados do antropólogo Víctor Turner podem lançar luz sobre essa parte da Maçonaria. Turner praticamente se especializou no pensamento simbólico e no performativo como derivado do ritual. Ele também estudou cuidadosamente os fundamentos do ritual, bem como sua evolução na forma de teatro em sociedades cada vez mais complexas. O antropólogo afirmou que tinha vínculos com o teatro, era como uma performance, a consumação de um ato que tem um componente religioso constitutivo[27]. Ambos os tipos de ações estão ligados às crises daqueles que as vivenciam, o que implica uma mudança de status social para eles[28]. Mas isso não afeta apenas eles. Os rituais coletivos nas sociedades pré-industriais atraem toda a comunidade, dizem respeito ao grupo que compartilha a cultura. Toda narração desse tipo resulta em um drama social para aquele todo, uma experiência liminar, uma transição de um estado para outro ou uma experiência limiar, que significa limen em latim, na terminologia de Turner[29].

A conclusão do livro de García Arranz constitui outro capítulo de ensaio. Investiga a preferência maçônica por não estabelecer uma leitura oficial e ortodoxa de sua simbologia, mas também ficar sempre dentro dos canais estabelecidos pela tradição de sua história, por onde fluem os diversos afluentes que dão conteúdo à Maçonaria, como o Templário, o Rosacruz, a emblemática alquímica… É através da constante meditação sobre os símbolos, uma reflexão que se reflete nos trabalhos apresentados em loja, na medida que se forma o maçom. Assim, os símbolos tornam-se substrato pedagógico para o ensino, no duplo aspecto comentado que se encontra dentro da Maçonaria: aquele que os interpreta de forma mais esotérica e aquele que o faz uma forma mais próxima de um ensino moral explicável em termos racionais.

O livro termina com dois anexos. Um dedicado a animais e plantas usados ​​para fins metafóricos. E, o outro, às cores. Amostras fiéis dos dois estilos que caracterizam o texto: o primeiro esmiúça, como um dicionário, o uso do pelicano, do galo ou da rosa em rituais, enquanto o segundo opta pela outra estratégia, já levantada anteriormente. Ou seja, o estilo ensaístico para pensar como as cores são usadas em vários rituais.

Em suma, a abordagem de García Arranz em seu livro, o fato de combinar ensaios com verbetes de dicionários, permite que seu trabalho seja usado tanto como ferramenta de trabalho para buscar breves análises de elementos simbólicos, quanto para refletir mais detalhadamente sobre questões centrais para a epistemologia da Maçonaria. E o valor da pesquisa se dá pelo papel central que esse aspecto mantém dentro da fraternidade, bem como pela escassez de estudos sobre ele no âmbito hispânico, para o qual – nas palavras de seu revisor Morales Benítez – o simbolismo maçônico começa a preencher uma lacuna nesse campo linguístico[30].

Um objeto que se tentou manter neste artigo, que tomou a obra de García Arranz e a resenha em REHMLAC + como percussores, graças ao qual refletir sobre a dimensão simbólica e sua tradução em imagens dentro da Maçonaria, com suas peculiaridades. epistemológica e pedagógica, uma vez que existem poucas outras organizações no presente cujo sistema de transmissão de conhecimento é baseado em símbolos em tal medida. Essa especificidade maçônica tornou necessário um estudo como o de García Arranz.

Autores: Ventosa Roger Ferrer
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: REHMLAC 

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Notas

[1] Antonio Morales Benítez, “Revisão do Simbolismo Maçônico. História, fontes e iconografia de José Julio GarcíaArranz”, REHMLAC+ 10, no. 1 (2018): 394,          https://doi.org/10.15517/rehmlac.v10i1.331

[2] Morales Benítez, “Reseña de Symbolismo masónico”, 392. Foi também secretário dessa sociedade.

[3] Logoicônico como a união de uma informação textual com outra visual que caracteriza e singulariza a forma emblemática. Mais sobre isso em Fernando R. de la Flor, Emblemas. Leituras da imagem simbólica (Madri: editorial da Alianza,1995), 22. O professor Rodríguez de la Flor é outro dos grandes especialistas da esfera hispânica em relação aos emblemas.

[4] Um exemplo desta última tendência difamatória seria encontrado em Los masones de César Vidal.

[5] Abordagem valorizada como “sucesso” na resenha de Morales Benítez, 393, boa avaliação que compartilho.

[6] José Julio García Arranz, Simbolismo Maçônico. História, fontes e iconografia (Vitoria-Gasteiz: SansSoleil, 2017), 24. Como exemplo dessa tendência, podemos citar uma obra editada por Arturo de Hoyos e S. Brent Morris, Freemasonry in Context. História, Ritual, Controvérsia, escrito por e para Maçons, ou Maçonaria: A Tradição Esotérica , de Fabio Venzi, que também acrescenta uma guenoniana. Do lado oposto, o já citado César Vidal. O problema reside, então, no fato de sua abordagem não pertencer ao campo acadêmico mais ou menos objetivo, interessado na própria coisa como objeto de análise.

[7] David Martín López, “Arte e Maçonaria: considerações metodológicas para seu estudo”, REHMLAC+1, no. 2 (dezembro de 2009 a abril de 2010): 19-20,https://revistas.ucr.ac.cr/index.php/rehmlac/article/view/6615/6304

[8] García Arranz, “Simbolismo maçônico”,19.

[9] García Arranz, “Simbolismo maçônico”, 20-21.

[10] Fernando R. de la Flor, Emblemas. Leituras da imagem simbólica(Madri: Editorial Alliance, 1995), 188. Roger Ferrer Ventosa, “O ovo e o zero: do nada ao infinito”, Revista Sans Soleil- Estudios de la imagen 8 (2016): 89. A imagem que ocupa o lugar do que é representado: E H Gombrich, Imagens simbólicas. Estudos sobre a arte do Renascimento, 2(Madrid: Debate, 2001),124-125 e 177.

[11] Mark Pilkington, “The Active Surface: Art as Magical Technology”, em As Above, So Below: Portals, Visions, Spirits & Mystics, eds. Rachel Thomas e Sam Thorne (Dublin: Museu Irlandês de Arte Moderna, 2017): 43-44, 43.

[12] Juan Bosco Díaz-Urmeneta Muñoz, A terceira dimensão do espelho: um ensaio olhar renascentista (Sevilha: Universidade de Sevilha, 2004), 243.

[13] R. de la Flor, “Emblemas. Leituras da imagem simbólica”, 166.

[14] Mircea Eliade, Mefistófeles y el andrógino (Barcelona: Labor, 1984), 273. Também Ferrer Ventosa, “O ovo e o zero: do nada ao infinito”, Revista Sans Soleil– Estudios de la imagen8 (2016) : 96 .

[15] Ferrer Ventosa, “Imagens como uma encarnação do sagrado” , em Interpreting Sacred Stories(Wallingford: Cabi, no prelo).

[16] Por exemplo, García Arranz, “Simbolismo maçônico”, 63-70.

[17] Eugenio Garin, A Revolução Cultural Renascimento (Barcelona: Crítica, 1981), 149.

[18] Gombrich, Symbolic Images,13 e 179.

[19] García Arranz, “Simbolismo maçônico”, 101-106.

[20] García Arranz especula que a ideia platônica do demiurgo, artesão divino, poderia ser encontrada no ponto de partida do Grande Arquiteto do Universo (García Arranz, “Simbolismo maçônico”, 167).

[21] García Arranz, “Simbolismo maçônico”, 243-246.

[22] Para aprofundar esta questão, Ferrer Ventosa. “Pensando em Imagens Hieroglíficas: Da Tradição Hermética no Renascimento à Vanguarda à Arte Contemporânea”, Art, Individual and Society 30, no. 2 (2018): 311-328.

[23] Juan Bosco Díaz-Urmeneta Muñoz, A terceira dimensão do espelho: um ensaio olhar renascentista (Sevilha: Universidade de Sevilha, 2004), 46.

[24] Tommaso Campanella, A Cidade do Sol (Madri: Tecnos, 2007).

[25] Ferrer Ventosa, “Pensando em imagens hieroglíficas”, 311-328, 321-323.

[26] Junto com isso, a Maçonaria foi inspirada no memento mori, bem como em outros emblemas cristãos da arte alegórica moralista: (García Arranz, “Simbolismo maçônico”,300 e ss.).

[27] Victor Turner, Do Ritual ao Teatro. The Human Seriousness of Play (Nova York: PAJ Publications, 1982), 79-80.

[28] Turner, “Do Ritual ao Teatro”, 24.

[29] Turner, “Do Ritual ao Teatro”,24 e 41.

[30] Morales Benítez, “Review of Masonic Symbolism”, 392-294, 394. 

Bibliografia

Campanella, Tommaso. La ciudad del sol. Madrid: Tecnos, 2007.

Díaz-Urmeneta Muñoz, Juan Bosco. La tercera dimensión del espejo: ensayo sobre la mirada renacentista. Sevilla: Universidad de Sevilla, 2004.

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Morales Benítez, Antonio. “Reseña de Simbolismo masónico. Historia, fuentes e
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Venzi, Fabio. Freemasonry: The Esoteric Tradition. Addlestone: Lewis Masonic, 2016.

Vidal, César. Los masones. Barcelona: Planeta, 2005.

Características do templo na sua decoração e as Colunas Zodiacais

M33 - Primeira Sessão no Novo Templo da Loja Progresso da Humanidade nº  3166 - GOB/RS Porto Alegre/RS

No tocante aos rituais anglo-saxônicos e a decoração da Sala da Loja (é assim que é chamado o espaço de trabalho na corrente inglesa), não se trata de uma decoração desnuda propriamente dita, mas diferente, talvez mais simples, das de ritos de outras vertentes maçônicas – tanto sob o aspecto decorativo, quanto no aspecto topográfico, cujo qual não adota separação e elevação do quadrante oriental da Loja.

Compreenda-se que o conjunto simbólico primordial do grau está o Quadro da Loja, conhecido na vertente inglesa como a Tábua de Delinear (Tracing Board).

Ainda sobre a vertente anglo-saxônica e a decoração do espaço de trabalho, não existe uma regra apropriada para ela, senão a de que o espaço comporte os trabalhos maçônicos de acordo com o costume, portanto, é comum se observar na vertente anglo-saxônica uma variedade decorativa, variedade essa que é tomada ipisis litteris como decoração ou arranjo, onde muitos desses elementos nem mesmo fazem parte do relicário simbólico do working – são portanto meramente elementos decorativos que nem constam nos catecismos e regulamentos maçônicos.

Essa característica é bastante comum na vertente anglo-saxônica de Maçonaria, não existindo, contudo, uma decoração elaborada para a abóbada como acontece no REAA, por exemplo. Também não há cor determinada para a pintura das paredes, etc.

De comum mesmo é a posição dos principais Oficiais e as Luzes Menores conforme o working, assim como alguns elementos que são de uso universal da Maçonaria, independente do rito ou trabalho, como é o caso do Livro da Lei, do Compasso e do Esquadro (Luzes Maiores).

Já a vertente latina de Maçonaria possui outra característica, provavelmente pela sua constituição histórica construída a partir do Grande Oriente da França no século XVIII com o Rito dos 7 Graus, além do sistema conhecido como escocesismo caracterizado pelos altos graus.

A característica da vertente latina e a decoração dos seus Templos (assim conhecidos na Maçonaria Francesa), a despeitos dos elementos universais utilizados, foi construída conforme os ideais dos seus ritos, principalmente no caso do Rito Francês, ou Moderno (à época conhecido por Rito dos 7 graus), assim como os Ritos Adonhiramita e Escocês Antigo e Aceito originário da corrente escocesista em França a partir de 1649.

Conforme a história de cada um desses ritos é que foram construídas as respectivas decorações dos seus templos, em particular o REAA que veio ter o seu primeiro ritual para o simbolismo em 1804 na França, mas que já em 1820/21 esse ritual sofreria modificações devidas à constituição das Lojas Capitulares.

Nesse sentido a vertente latina de Maçonaria, criou atributos próprios, como o da topografia da Loja trazendo o Oriente elevado e dividido para assim acomodar o santuário Rosa-Cruz.

Essa forma capitular do Grande Oriente dirigir todos os graus até o Capítulo, logo veio, como já mencionado, alterar inclusive o ritual original do REAA que não possuía essa distinção e com isso sofreu alteração quando o Grande Oriente o adotou fazendo para tal adaptação para o sistema capitular.

Assim, o REAA passava a seguir a mesma topografia (oriente elevado e dividido) do Rito Francês (7 Graus) e do Adonhiramita, originalmente com 12 Graus. Note que o ápice da escalada iniciática desses ritos era sempre o Grau Rosa-Cruz e todos eles eram dirigidos pelo Grande Oriente da França. Seguindo esse mesmo parâmetro o REAA teria no Grande Oriente as suas Lojas Capitulares cujo ápice era o 18º Rosa-Cruz e o dirigente da Loja era o Athersata que era também o Venerável Mestre, enquanto que os demais graus, acima do 18º, ficavam como o II Supremo Conselho, o da França.

Nesse contexto, os Ritos Francês e Adonhiramita adotavam a cor azul para as paredes dos seus templos, enquanto que o REAA por influência da Loja Mãe Escocesa (extinta em 1816) adotava a cor encarnada associada ao escocesismo, por extensão aos “Stuarts” e ao catolicismo (vermelho – a cor do cardeal). A cor encarnada do Rito seria oficializada no Conselho de Lausanne, realizado na Suíça em 1875.

No que concerne à Maçonaria Brasileira, não se trata bem de ser uma corrente maçônica, mas a de ser uma Maçonaria filha espiritual da França, pois os primeiros ritos praticados no Grande Oriente Brasílico (depois do Brasil) foram os ritos Moderno e Adonhiramita, em seguida oficialmente, a partir de 1832, o REAA. Obviamente que as características de cada um desses ritos seriam aqui também implantadas, contudo, o que também houve de fato, foi uma mistura de procedimentos de uns em outros ritos – coisas da Maçonaria latina e particularmente a brasileira.

Sob essa óptica, a Maçonaria Brasileira teve uma formação básica latina, embora não se possa negar que de há muito tempo também já se praticava por aqui a Maçonaria anglo-saxônica e anglo-americana.

O que de fato não se pode negar na história da Maçonaria Brasileira foi a infeliz mistura de práticas ritualísticas decorrente da profusão de rituais no contexto social da época na Maçonaria Tupiniquim (é preciso conhecer essa história).

Acrescente-se a isso ainda a existência, no decorrer do tempo, de três Obediências regulares brasileiras, tendo cada qual o seu elenco de rituais que, a priori, acabaram ganhando suas próprias características, sobretudo pelas práticas muitas vezes enxertadas de uns em outros ritos.

Especificamente sobre as Colunas Zodiacais na decoração dos Templos do REAA, essa construção alegórica associada a um rito solar teve sua origem nas Lojas Mães Escocesas, depois Loja Geral Escocesa. Não as colunas propriamente ditas, mas as doze constelações zodiacais como marcos do movimento imaginário do Sol na sua eclíptica.

Na sua decoração inicial iam apenas as constelações do Zodíaco, fixadas ou desenhadas na base da abóbada, posteriormente seria adotado o uso de colunas encravadas nas paredes Norte e Sul para indicar o caminho iniciático do maçom. Nesse sentido, vale a pena mencionar que no princípio essas colunas nem mesmo existiam, só se tornando definitivas com a evolução dos rituais a partir do final do século XIX e começo do século XX.

O que se pode dizer a respeito é que as Colunas Zodiacais são elementos alegóricos originais do REAA, sobretudo porque explicam uma doutrina iniciática que tem por desiderato comparar a evolução (transformação) do elemento homem com a transformação da Natureza operada pela revolução anual e aparente do Sol formando os ciclos da Natureza (estações do ano).

Desse modo, outros ritos que porventura as adotem, o fazem por pura enxertia, pois esses elementos emblemáticos não se coadunam com o arcabouço doutrinário de outros ritos latinos e muito menos ainda com os trabalhos anglo-saxônicos.

Vale mais uma vez mencionar que essa alegoria natural é originária da Loja Mãe Escocesa, loja criada em outubro de 1804 para elaboração do primeiro ritual simbólico do REAA na França. Assim, essa Loja Mãe, que seria extinta em 1816 por motivos capitulares, originalmente deu ao REAA a abóbada estrelada e decorada com astros e constelações, das quais, inclusive, as zodiacais figuradas na sua base, além da cor encarnada do Templo; a posição original das Colunas Solsticiais B e J, norte e sul respectivamente; e a aclamação Huzzé como saudação ao Sol.

Enfatizo que tudo isso é contribuição da Loja Mãe Escocesa que, diga-se de passagem, nada tem a ver com outros ritos que não o do escocesismo.

Assim, rituais que porventura mencionem Colunas Zodiacais, fora do REAA, fatalmente estão bastante equivocados, não passando de elementos de enxertos que nada contribuem para a compreensão da essência iniciática de cada rito ou trabalho. Originalmente, o Rito Francês, ou Moderno, o Adonhiramita e o próprio Rito Brasileiro, não trazem na sua estrutura simbólica as Colunas Zodiacais – essa é a verdade.

Eram esses os meus breves comentários a respeito, destacando que esse é um assunto complexo e precisa ser entendido na sua essência, caso contrário certamente as conclusões podem deixar muito a desejar.

Autor: Pedro Juk

Fonte: Blog do Pedro Juk

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Uma loja maçônica não é uma tertúlia (Parte II)

De tertulias y tertulios, 1 | Letras Libres

Dois grandes fatores de distinção entre uma tertúlia e uma loja maçônica são o objetivo e forma da intervenção de cada um. Numa tertúlia as intervenções sucedem-se, e cada um vai tomando a palavra repetidamente tantas vezes quantas queira (ou lho permitam…), sucessivamente acrescentando ao que disse antes, refutando os argumentos deste ou daquele, e fortalecendo – ou alterando – a sua posição de cada vez que se dirige aos demais. Cada um vai tentando fazer prevalecer a sua posição através de argumentos e contra-argumentos ao que foi dito antes, esperando-se que, a partir de um certo ponto, se tenha atingido um equilíbrio em que já tudo foi dito e cada um (re)construiu já a sua posição face ao assunto em debate.

Numa loja maçônica, porém, as coisas não poderiam ser mais diferentes. Começa por que, no que respeita cada assunto, cada um pode fazer apenas uma única intervenção – e só muito excepcionalmente poderá fazer uma segunda, sempre muito curta, e apenas se absolutamente impreterível, como por exemplo para clarificar algo que não tenha sido dito da forma mais inteligível. Esta imposição obriga a que se tenha um cuidado multiplicado com aquilo que se diz, de forma a dizê-lo bem à primeira.

Há uma ordem estrita a ser seguida. Primeiro começa-se pelas colunas (do Sul e do Norte), para que os mestres maçons que aí se sentam possam, querendo, pedir a palavra. Depois de não haver mais pedidos de intervenção, os dois Vigilantes podem pedir a palavra para si mesmos, primeiro o 2º Vigilante e depois o 1º Vigilante. É então dada a indicação de que não há mais intervenções nas colunas, e esta passa ao Oriente, onde residem o Venerável Mestre, o Secretário, o Orador, o ex-Venerável e eventuais visitas a quem tenha sido dada essa distinção. A palavra é dada, no Oriente, a quem quiser dela fazer uso, e o Venerável Mestre é o último a intervir. Caso esteja em causa uma decisão, esta poderá ser tomada pelo Venerável Mestre de imediato, ou este poderá consultar a Loja através de uma votação. De qualquer modo, a intervenção do Venerável Mestre deve ser sempre no sentido de procurar encontrar uma conclusão que seja harmoniosa para a loja, e com que a maioria se identifique.

Para além da forma, já exposta, há o objetivo. Idealmente, cada intervenção destinar-se-ia a que cada um, na medida em que considerasse ser isso útil, apresentasse a sua posição ou opinião a respeito do assunto em causa, e sem que o seu conteúdo fosse condicionado por ser a primeira ou a última intervenção a ser efetuada. O que se diz não deve ser dirigido a ninguém em particular, mas a toda a Loja, e não deveria sequer referir-se alguma intervenção anterior, mas apenas fazer-se referência ao tema que esteja em discussão. Não deve haver interpelações, refutações ou contraditório, uma vez que isso colocaria em desvantagem aquele que já fez a sua intervenção e não pode agora responder. Pretende-se, assim, que cada um possa dar a conhecer a sua posição, sem que tente impô-la aos demais, e sem que explicitamente contrarie alguma posição já exposta, e por outro lado que cada um tenha a oportunidade de ser confrontado com opiniões alheias – porventura distintas das suas – num tom e numa postura que não ameacem a posição com que cada um se identifica.

A Maçonaria cria, deste modo, um contexto que induz cada um a confrontar-se com opiniões e posições distintas da sua, num ambiente de boa fé, entre iguais, sem que ninguém possa impor a ninguém nenhuma obrigação, mas em que cada um possa, querendo, tomar para si as palavras do outro, seja como as recebeu seja na forma que as queira incorporar naquilo que constitui a sua identidade.

Por fim, é costume – se bem que não creia haver nenhuma regra escrita a esse respeito – serem públicos os louvores e privados os reparos. Quando um bom trabalho é apresentado, é frequente que, nas palavras proferidas por cada um, sejam manifestadas palavras públicas de louvor e de encorajamento. Quando, porém, foi dito algo passível de ser interpretado como menos bom ou menos correto, a correção fraterna – que raramente falha – surge quase sempre em voz baixa diretamente ao ouvido do “prevaricador”. A franqueza e honradez manifestadas, de mão dada com a genuína preocupação que os maçons têm uns com os outros, levam a que seja frequente surgirem amizades muito fortes entre irmãos da mesma loja – e mesmo entre irmãos de lojas diferentes. A este respeito não me sai da cabeça uma frase que li há tempos numa entrevista em que alguém dizia: “A maçonaria é a única organização em que se faz amigos de infância aos 40 anos”. Não sei se é a única, mas que se faz, faz.

Autor: Paulo M.

Fonte: Blog A Partir Pedra

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