O maçom e o conflito

O conflito faz parte das nossas vidas. Quer queiramos, quer não. Existem interesses divergentes, quantas vezes inconciliáveis. Quando tal sucede, várias formas de lidar com o assunto existem: a força, a imposição de poder, a desistência, a conciliação, a cooperação, a hierarquização, etc.

Os maçons também vivem e estão sujeitos a conflitos. Tanto como qualquer outra pessoa vivendo em sociedade.

Mas os maçons aprendem a lidar melhor com o conflito. Desde logo, porque aprendem, interiorizam e procuram praticar a Tolerância. Esta postura não elimina, obviamente, os conflitos, nem leva quem a pratica a deles fugir, ou a ceder para os evitar. Pelo contrário, ensina e possibilita a melhor gerir o conflito. E melhor gerir um conflito não é procurar ganhar a todo o custo. Melhor gerir um conflito consiste em detectar e obter a melhor solução possível para ele. Por vezes, “vencer” o conflito pode parecer a melhor solução no curto prazo, mas revelar-se desastrosa depois.

O maçom aprende a gerir o conflito, desde logo treinando-se a fazer algo que, sendo básico, é muitas vezes esquecido: ouvir! Ouvir o outro, as suas razões, pretensões. Ouvir o outro não é apenas deixá-lo falar. É prestar efetivamente atenção ao que diz e como o diz. Para procurar determinar porque o diz e para que o diz. E assim lobrigar exatamente em que medida existe realmente conflito de interesses entre si e o outro – ou se existe apenas uma aparência de conflito de interesses, por deficiente entendimento, de uma ou das duas partes, de propósitos, intenções, objetivos.

Ouvir o outro é o primeiro exercício prático da Tolerância, da verdadeira Tolerância. Porque esta não é o ato de, condescendentemente, admitir que o outro tenha uma posição diferente da nossa e permitirmos-lhe, “generosamente”, que a tenha. A verdadeira Tolerância não é um ponto de chegada – é uma base de partida. A verdadeira Tolerância resulta do pressuposto filosófico de que ninguém está imune ao erro. Nem nós – por maioria de razão. Portanto, tolerar a opinião do outro, a exposição do seu interesse, porventura conflituais com a nossa opinião e o nosso interesse, não é um ato de generosidade, de condescendente superioridade. É a consequência da nossa consciência da Igualdade, fundamental entre nós e o outro. Que implica o inevitável corolário de que, sendo diferentes as opiniões, se alguém está errado, tanto pode ser o outro como podemos ser nós. A Tolerância não é um ponto de chegada – é uma base de partida. Não é demais repeti-lo.

Porque a consciência disto possibilita a primeira ferramenta para a gestão do conflito: a disponibilidade para cooperar com o outro, para determinar (1) se existe verdadeiramente divergência entre ambos; (2) existindo, qual é ela, precisamente; (3) em que medida é essa divergência, superável, total ou parcialmente; (4) ocorrendo superação parcial da divergência, se o conflito se mantém e, mantendo-se, se conserva a mesma gravidade; (5) finalmente, em que medida é possível harmonizar os interesses conflituantes: cada um abdicando de parte do seu interesse inicial? Garantindo ambos os interesses, seja em tempos diferentes, seja em planos diversos?

Treinando-se na prática da Tolerância, o maçom aprende a lidar melhor com o conflito, porque é capaz de, em primeiro lugar, determinar se existe mesmo conflito, em segundo lugar predispõe-se para cooperar na superação do conflito e finalmente adquire a consciência de que existem várias, e por vezes insuspeitas, formas de superar, controlar, diminuir, resolver, conflitos – quantas vezes logrando-se garantir o essencial dos interesses inicialmente em confronto.

E tudo, afinal, começa por saber ouvir e por saber tolerar (o que implica entender) a posição do outro.

Por isso o primeiro exercício que é exigido ao maçom é a prática do silêncio. Para que aprenda a ouvir, para que se aperceba do que realmente é dito, para que reflita sobre a melhor forma de resolver os problemas que ouça expostos.

Através do silêncio, aprende o maçom a sair de si e a atender ao Outro. Através da Tolerância da posição do Outro, aprende o maçom a descobrir a forma de harmonizá-la com a sua. Através da busca da Harmonia, aprende o maçom a gerir os conflitos. Através da gestão dos conflitos, torna-se o maçom melhor, mais eficiente, mais bem sucedido.

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

A casa está queimando…

Eu simplesmente não consigo entender o incêndio criminoso de três templos maçônicos na área de Vancouver. Servimos nossas comunidades e nosso país por séculos por meio de caridade, auto sacrifício e boas ações. W Bro. Syd Schatzker[1]

Por mais triste que seja este momento, talvez possamos usá-lo para repensar nossas estratégias de comunicação, nossos esforços de construção de imagem e – mais importante – nossas práticas de educação e mentoria.

Deixe-me ser franco:

Para servir a sua comunidade, você não precisa ser um maçom. Basta ir e ser voluntário em qualquer organização de serviço comunitário.

Para servir nosso país você não precisa ser maçom. Basta ir e se inscrever no exército (ou pior cenário: entrar na política pública com honestidade).

O auto sacrifício não é um conceito ensinado em nossa educação maçônica. [Embora eu tenha lido nos últimos dias uma “constituição” de uma defunta obediência maçônica do século 18, onde eles costumavam colocar o candidato em um julgamento para testar sua vontade de auto sacrifício.]

Fazendo boas ações …? Qualquer religião é mais óbvia e significativa sobre tais ações – e mesmo se fizermos “boas ações” – não é a ideia (apontando para o auto sacrifício) que não se espera receber carinho por fazer boas ações? Se fizermos boas ações para obter “boa reputação” como recompensa… estava vindo do coração ou apenas uma simples troca comercial?

Agora, talvez, seja hora de parar e pensar sobre nós mesmos, nosso lugar no mundo, o significado da Maçonaria e a imagem que criamos de nós mesmos. E as perguntas que fiz acima.

Há – fora da nossa fraternidade – autores de ficção e lunáticos, em igual quantidade, que escrevem sobre os maçons, suas origens, seus rituais, seus objetivos e suas atividades presumidamente “secretas”. O público em geral, e muitas vezes também os maçons, não conseguem discernir a diferença entre o real e o imaginário. O motivo: falta de educação e orientação.

Durante séculos, seguindo a postura da Maçonaria Inglesa, todas as Grandes Lojas permaneceram silenciosas e indiferentes a tais exercícios mentais exibidos por obras literárias ou malucos adeptos de teorias de conspiração. Enquanto a única mídia a atingir as massas foi a impressa, que não era acessível para tais “escritores”, talvez essa atitude oficial tenha se justificado. No entanto, o século XXI trouxe grandes mudanças também neste campo: a internet, a Web 2.0 (introduzindo a interatividade), as mídias sociais, os e-books etc. De repente, os grafomaníacos obcecados ganharam um meio de fácil acesso, uma plataforma mundial para espalhar suas fantasias… e as Grandes Lojas estavam, e ainda estão, à margem, como se isso não as afetasse. Talvez devêssemos questionar a validade dessa posição. A torre de marfim pode não funcionar desta vez. Para uma analogia, olhe para a economia: a disrupção tornou-se a norma. As velhas maneiras de fazer as coisas são obsoletas e não são eficazes.

A internet e a mídia cheia de conspiração não é apenas mais uma “exposé” como as iniciadas na década de 1730… não é apenas mais uma farsa impressa como a de Taxil… misteriosa Maçonaria. É um ataque com esforços concentrados (embora não cometamos o mesmo erro: não é uma conspiração mundial dirigida por um cérebro central!). Mesmo que não tenha origem em só lugar – está convergindo em uma única direção: contra nossa Sublime Ordem.

Devido aos nossos mais de 300 anos de silêncio e ao sigilo real e percebido, perdemos há muito tempo a chance de controlar nossa própria imagem pública. Quando mais de uma geração de maçons cresceu (e envelheceu) sem ser capaz de comunicar de forma coerente, nem mesmo para suas próprias famílias, o que é a Maçonaria e por que ela é importante na vida de um homem… perdemos o barco. Se nós, como maçons, não fomos capazes de comunicar às nossas amadas famílias o que é a Maçonaria – como esperamos convencer as massas paranoicas sobre as qualidades de nossa fraternidade?

(Antes que você se oponha nervosamente a essa ideia: pense em todos aqueles jovens anunciando publicamente que seu pai ou avô era maçom, mas eles nunca disseram uma palavra à geração mais jovem… eles podem dizer por que nunca foram orientados e educados adequadamente sobre a Arte Real!)

Fazer doações para instituições de caridade e/ou distribuir pacotes de alimentos para os necessitados – não é Maçonaria. É, sem dúvida, uma intenção nobre e uma ideia nobre ajudar os menos afortunados e contribuir para causas nobres. Mas quando a Maçonaria, para o iniciado, termina aí, ou, eventualmente, adicionando algumas cervejas com os “camaradas” … aí a Maçonaria acaba também.

Mentes brilhantes, como Thomas W. Jackson, o conhecido estudioso e maçom de longa data que viajou extensivamente ao redor do mundo, escreveu que distinguia cinco estilos de maçonaria: filosófico, social, sociológico, político e caritativo. Definitivamente, os exemplos destacados do Charitable Style são a América do Norte, tanto o Canadá quanto os EUA. O que significa que perdemos todo o resto … Como o Ir. Jackson colocou: nós “nos afastamos mais de suas raízes do que qualquer Maçonaria no mundo”.

Poderíamos citar muitos de seus artigos, e de muitos outros estudiosos maçônicos. Também poderíamos dar uma dica do nosso próprio programa de Grão-Mestre: Ritual, Educação, Mentoring. Sem isso, que tipo de “maçonaria” você tem? Vindo de um lugar onde a Maçonaria manteve vivo seu “estilo” filosófico e raízes, onde a elite intelectual costumava ser e ainda é atraída pelos ideais da Maçonaria, fiquei amargamente chocado quando um jovem maçom canadense não muito brilhante se opôs veementemente ao uso da palavra “elite” em conexão com a Arte. Ele pensou que era algum tipo de palavrão… e quando as pessoas podem associar com a palavra apenas os infames 1% mais ricos do país e nada mais, é um triste retrato de como fomos negligentes em nossa obrigação de orientar e educar nossos membros. Enquanto não mudarmos isso, não conseguiremos atrair a “elite”, nenhum tipo de elite.

Muitos maçons respeitam o autor John J. Robinson (pelo motivo errado, devo acrescentar, porque ele não é um historiador qualificado do Ofício). No entanto, todos podemos concordar com esta afirmação dele: “O problema com a Maçonaria é que ela não pratica mais a Maçonaria”.

Como isso está relacionado aos incêndios criminosos de BC?, você pode perguntar. Reflita sobre isso: quem é responsável pela discrepância entre nossa autoimagem e a imagem que existe na sociedade em geral?

Autor: Istvan Horvath
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: The Other Mason

*Horvath é Mestre Maçom, Maçom do Arco Real, membro da Philaletes Society, do Quatuor Coronati Correspondence Circle e da Scottish Rite Research Society. 

Nota

[1] – O autor dessa citação se referiu ao caso de incêndio criminoso de 30 de março de 2021 em Vancouver, BC. Veja reportagens da mídia: https://www.cbc.ca/news/canada/british-columbia/north-vancouver-fires-1.5969506https://globalnews.ca/news/7731273/arson-charges-masonic-hall-vancouver/ 

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Os que ficam pelo caminho

“Nem todos os Aprendizes chegam a Companheiros. Nem todos os Companheiros ascendem a Mestres. E seguramente que nem todos os Mestres virão a exercer o ofício de Venerável Mestre. É assim a realidade!” 

Assim escreveu o Rui Bandeira num texto publicado em 2008, ainda não tinha eu recebido o meu avental branco. Na altura, quando o li, achei estranho o tom, a naturalidade, e o que tomei por critérios de seleção apertadíssimos. Recordo-me de ter pensado algo como 

“Estes tipos não brincam em serviço… Devem ser bestialmente exigentes, e só escolhem os melhores para progredir… Isto devem ser chumbos de três em pipa…”

Estava tão enganado!

Com o tempo vim a perceber que dificilmente a Loja “chumbava” fosse quem fosse, a não ser nas circunstâncias mais excepcionais, mas que, não obstante, o Rui tinha razão: havia muitos que ficavam pelo caminho.

Mas, se a Loja não chumbava ou impedia a progressão, quem o fazia então? Ora… o próprio, quem mais?! 

Comecei a perceber que por detrás de cada nome que era chamado no início da sessão pelo Secretário e a que se seguia um silêncio em vez de ser anunciada a presença se encontrava um Irmão que não viera. E que os nomes que eu ouvia repetidamente e a que não associava uma cara eram de Irmãos que, de todo, não apareciam.

Uns – já Mestres – haviam-se desencantado, suponho, com a rotina da vida da Loja e tinham, agora, outros entreténs – razão por que não punham os pés numa Sessão fazia tempo. Outros tinham, simplesmente, prioridades – frequentemente profissionais ou familiares – que se impunham sobre a presença em Loja, ou não tinham de todo disponibilidade para integrar a Linha de Sucessão assumindo um Ofício. Uns e outros lá iam aparecendo, uns mais e outros menos frequentemente, mas alguns desapareciam completamente de circulação.

A outros – ainda Companheiros – sucedia perderem o estímulo, ou não aguentarem tanto tempo sem poder falar e sem ser exaltados a Mestre. Ao fim de um tempo, também alguns destes começavam a faltar, a envolver-se pouco, e a certa altura eram, também eles, um desses nomes que se ouve e se associa a uma cara, mas que se tem uma certa nostalgia de não ver há meses…

Por fim, alguns Aprendizes eram iniciados, achavam graça à coisa, mas não tinham vida nem disponibilidade para pertencer a uma Loja que se reúne duas vezes por mês em dias e horas certos. Outros, quiçá mal conduzidos ou defeituosamente escrutinados, acabavam por se aperceber que a Maçonaria não lhes fazia vibrar corda nenhuma, e desapareciam.

Alguns interiorizavam que não queriam mais pertencer à Maçonaria, e pediam para sair. Outros, divididos entre o querer e o não poder, não assumiam a impossibilidade de permanecer, e iam ficando sem ficar. A certa altura, já nem as quotas pagavam, nem asseguravam os “mínimos olímpicos” da assiduidade – nós nem somos esquisitos: uma presença por ano basta-nos – e tinha que se lhes chamar a atenção para que cumprissem com os seus deveres.

E de fato confirmei ser precisamente assim, como o Rui tinha dito: há os que ficam pelo caminho, e os que vão progredindo de degrau em degrau, uns mais depressa e outros mais lentamente. Por vezes, alguns metem-se por becos sem saída e, ou adormecem, ou corrigem o percurso. Mas se é sempre triste vermos um irmão sentar-se na beira do caminho, descalçar as botas e adormecer encostado a uma árvore – pois sabemos que a maioria ficará ali para sempre – já nos enche de orgulho ver um irmão subir mais um degrau, assumir mais uma responsabilidade, receber mais um reconhecimento.

Os caminhos são muitos, e o destino é cada um que o escolhe. Não é, portanto, a Loja que é exigente e o “chumba” – pois para isso teria que ser a Loja a determinar os objetivos, e estes pertencem a cada um. É antes o Maçom que é muito ocupado, desiludido, ou simplesmente complacente, e se retira pelo seu pé. E assim deve ser. É que a Maçonaria não é para todos: é só para aqueles que de fato queiram – e façam por isso.

Autor: Paulo M.

Fonte: Blog A Partir Pedra

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

O venezuelano Francisco de Miranda, maçom iniciado após a morte?

Muita tinta foi gasta tentando abrir pontes entre a Maçonaria e o precursor da independência venezuelana, Francisco de Miranda. Essas linhas começam na França com o encontro de dois grandes homens: Miranda e Bonaparte. Ambos têm algo em comum além de seu grande gênio militar: geralmente são classificados dentro das fileiras maçônicas sem que haja evidências suficientes para apoiá-lo. Neste artigo procuramos dar uma olhada nas ligações de Dom Francisco de Miranda com membros desta irmandade, sem que por isso ele deva ser incluído na lista da famosa irmandade.

Encontro de celebridades. Por meio de introdução

Em nossa opinião, um dos trabalhos mais exaustivos já realizados sobre o general Francisco de Miranda pertence a Caracciolo Parra Pérez. Chegou às nossas mãos uma edição feita pela Fundação Bancaribe em 1989 de tão louvável obra intitulada Miranda et la Révolution française. Terminado como estava, o autor o envia e o dedica ao general Juan Vicente Gómez de Berna em 1924.

Achamos interessante abrir este trabalho sobre um tema polêmico como a suposta filiação maçônica do General Miranda, com um fato curioso que extraímos do referido livro: O encontro do eminente herói e precursor da independência hispano-americana com o não menos notável figura política e militar francesa, representada por Napoleão Bonaparte. O capítulo IX é dedicado aos encontros entre figuras políticas e militares. A primeira delas ocorreu em 1795, isso segundo o depoimento que o próprio Miranda prestou ao general Serviez em Caracas em 1812, no bairro Chaussée d’Antin, no IX Distrito de Paris, na casa da cortesã Julie Talma. Julie Carreau é a primeira esposa do trágico François Joseph Talma que atua na Comédia Francesa sob a proteção do pintor Jacques Louis David, líder revolucionário e fundador do “Estilo Império” sob Napoleão. Sua casa era ponto de encontro de pessoas ligadas a determinados meios de comunicação, mas a anfitriã foi amplamente criticada pela imprensa monarquista e marata. Miranda tem então 45 anos e é Comandante-em-Chefe do Exército Francês. Napoleão tem 26 anos e sua fama ainda está por vir. Tendo descoberto que Miranda era um general americano, Napoleão fez inúmeras perguntas, às quais Miranda respondeu “com a devida educação”.

Mas Napoleão teria que dar outra versão dos acontecimentos ocorridos na casa da Sra. Laure Permon, Duquesa de Abrantes:

J’ai dîné, hier, chez un homme qui est singuilier; je le crois espion de la court d’Espagne et de l’Angleterre tout à la fois. Il loge à un troisième étage et il est meublé comme un satrape; il chore misère au milieu de cela et puis donne des dîners faits par Méot et servis dans de la vaissele plate  ; c’est une bizarro escolheu que je veux éclaircir. [1]

Depois disso, Napoleão acrescenta uma comparação interessante, embora inadequada, sobre o general venezuelano: “J’ai là avec des hommes de la plus grande import; il e um por um, entre autres que je veux revoir: c’est un Don Quichotte, avec cette différence que celui-ci n’est pas fou[2]. E quando a Sra. Permon perguntou o nome, Napoleão respondeu imediatamente que era o general Miranda, “um homem com fogo na alma”. Logo em seguida, Bonaparte saiu e Salicetti tomou a palavra e disse que Napoleão tinha mesmo razão e que o homem a quem se referia acreditava ser mexicano, sem ter certeza. Ele o qualifica de “malandro” e acrescenta que ele é o mais sutil de toda a Espanha. 

Independentemente de qual das duas versões esteja correta, os dois generais se encontrariam novamente na casa da Sra. Permon, provavelmente convidado pelo Sr. Emilhaud que afirmava conhecer Miranda. Aparentemente a Sra. Permon, ao saber de Miranda, manifestou grande desejo de conhecê-lo, e o Sr. Emilhaud disse que o apresentaria a ele, acrescentando que o general sonhava em dar liberdade ao mundo inteiro. Dois dias depois eles se conheceram e a Sra. Permon diria mais tarde que Miranda tinha um toque mais de originalidade do que de beleza.

Na casa da dita senhora, Miranda ouviu Napoleão falar de seu ódio à Inglaterra. Combinaram um jantar na Residência Mirabeau, na rue Mont Blanc, onde Miranda morava. Não está claro, no entanto, que o general Miranda tivesse uma ou duas residências. A verdade é que Bonaparte está deslumbrado com o luxo com que Miranda vive. Segundo Bonaparte , o apartamento de Miranda é um sonho, localizado atrás dos jardins das Tulherias. “Il possède la plus exquise petite bibliothèque et un appartement installé avec un goût que je n’ai jamais vu de meilleur: on pourrait se croire à Athènes, à la maison de Périclès”[3], diz Bonaparte.

Após esses encontros em 1795, os dois homens provavelmente nunca mais se cruzaram.

Tabela 1

Resultados para a entrada “Napoleon Bonaparte Freemason” vs. pesquisa semelhante sobre Francisco de Miranda.

LinguagemMaçom Napoleão BonaparteFrancisco
de Miranda Maçom
Espanhol372.000395.000
Inglês90.400164.000
Francês22.4005.870

Algumas linhas sobre Bonaparte e Maçonaria

Vale a pena perguntar neste ponto qual é o sentido dessa possível referência desnecessária a Napoleão Bonaparte. Bem vamos ver:

Como mostra a tabela 1, quando investigamos a Internet, o motor de busca Google propõe 372.000 resultados em espanhol para a entrada “Napoleón Bonaparte masón” que contrasta com 90.400 em inglês ou 22.400 em francês. Da mesma forma, os resultados de uma pesquisa semelhante sobre Francisco de Miranda são os seguintes: 395.000 em espanhol, 164.000 em inglês e 5.870 em francês. Parece que os mais discretos nesse sentido são os franceses e os mais transbordantes no improvável, os falantes de espanhol, numa questão que não admite dúvidas pelo menos até o sol de hoje. Nem Napoleão Bonaparte nem Francisco de Miranda, salvo prova em contrário, eram maçons. A única forma de demonstrar tangivelmente a pertença à Maçonaria é a apresentação do diploma do Maçom ou documentos comprovativos de iniciação ou frequência em lojas, que no caso de Napoleão e Miranda são inexistentes. Tampouco vemos o interesse que as lojas envolvidas na iniciação dessas figuras conhecidas teriam em manter em segredo seus membros.

Antes de nos dedicarmos às nossas considerações a respeito de Dom Francisco de Miranda, vamos dar uma rápida olhada nas ligações de Napoleão com a Maçonaria, começando pelas chamadas lojas regimentais. Uma forma eficaz de se comunicar com os notáveis ​​dos países conquistados é usada por Napoleão I, que usa as lojas regimentais através das quais os maçons entram em contato com as figuras mais importantes das áreas ocupadas e transmitem ao mesmo tempo a cultura e o pensamento francês. Apesar das opiniões generalizadas, até o momento não há provas de que o imperador pertencia à ordem maçônica. Deve-se reconhecer, no entanto, que a família Bonaparte tinha fortes laços com a Maçonaria. Seu pai Charles Marie pertencia à loja de Ajaccio. Numerosos filhos deste último, irmãos de Napoleão, foram iniciados: José, iniciado em 1783 na loja de Marselha “La Parfaite Sincerité”, antes de se tornar, em 1804, o Grão-Mestre do Grande Oriente da França. Luís Bonaparte, futuro rei dos Países Baixos, pai de Napoleão III, é nomeado Grande Orador do Grande Oriente da França. Jérôme, o futuro rei da Vestfália, é iniciado na loja “La Paix” em Toulon em 1801, tornando-se depois Grão-Mestre do Grande Oriente da Vestfália. Seu filho, Jérôme Napoleón, pertence em 1848 à loja parisiense “Les amis de la Patrie”. Pierre Napoleon, filho de Lucien, sobrinho de Napoleão, foi em 1848 Oficial Honorário da Loja Parisiense Saint-Lucien. Josephine pertence a um pavilhão de adoção parisiense. Em 1805, 3.032 oficiais, 1458 suboficiais e 437 soldados do exército napoleônico pertenciam às filas da franco-maçonaria[4]. Entre os 25 marechais do Império, 17 são maçons; Todos os generais que participaram da Batalha de Waterloo eram maçons: Wellington, Ney, Grouchy, Cambronne, Wellesley e Blücher[5]. O cunhado de Napoleão, o marechal Joachim Murat, casado com sua irmã Caroline e sucessor de Joseph Bonaparte como rei de Nápoles, e seu enteado, Eugène de Beauharnais, filho de Josephine de um casamento anterior, também eram maçons[6].

Mas até agora, como já delimitamos, não foi comprovada nenhuma filiação direta entre o imperador e a irmandade maçônica, embora seja comum ouvir expressões como “irmão Bonaparte” com adjetivos que também exaltam, nos círculos maçônicos, como “o mais ilustre”, “o venerável”, etc. As mesmas fórmulas se repetem para Dom Francisco de Miranda na boca dos historiadores nacionais e estrangeiros. Na história costuma ser bastante confortável repetir o que os outros dizem, com todo o respeito por quem tenta ir às fontes para expor a verdade.

Miranda e os maçons

Em 1771, o jovem Miranda tornou-se um viajante inveterado e alimentou suas ideias de liberdade com leituras de filósofos pertencentes a algumas das fileiras maçônicas. A partir daqui, suas experiências serão relacionadas, sem qualquer comprovação, à Maçonaria. Ao chegar a Espanha, em 1772, adquiriu a patente de capitão do batalhão do Regimento de Infantaria da Princesa. Os defensores da tese maçônica de Miranda dizem que no ano seguinte ele se torna representante de “sua loja” no exterior. Até hoje não foram apresentados o diploma do maçom nem os documentos que o ligam à Maçonaria, mas há quem, além de adiantar hipóteses sobre sua iniciação, se lance em elucubrações sem qualquer fundamento. Os enciclopedistas Denis Diderot e D’Alembert são responsabilizados pelas possíveis relações para o ilustre americano ser iniciado. Testes? Não há. Onde foi iniciado? Também não é conhecido. Se conhecido, seria um grande orgulho para os membros de qualquer loja francesa, americana, espanhola, venezuelana ou inglesa revelar que esse grande homem foi iniciado dentro deles. Alguns acreditam que foi o marechal Lafayette quem capturou as grandes virtudes de Miranda que o tornaram um candidato ideal para as fileiras maçônicas e que ele o teria patrocinado em uma loja da Filadélfia. Nesse sentido, muitos repetem até em atos oficiais frases comprometedoras desse tenor:

“Aparentemente, Miranda recebeu a luz na loja da Filadélfia em 1783, patrocinada pelo general francês Marco José Lafayette (sic.), Grão-Mestre. Obtém a condição de aprendiz em Londres e de grande mestre na França” (no discurso proferido na cerimônia especial de nascimento de Dom Francisco de Miranda em 28 de março de 2016, dia da maçonaria na Venezuela).[7]

Deve-se entender que a loja da Filadélfia não deu uma razão para a filiação, bem como os respectivos anônimos da Inglaterra e da França. Mas aqui há até abordagens conflitantes, para usar as palavras de Wilfredo Padrón Iglesias, já que não há consenso sobre o local e a data da iniciação[8]. Para uns, o ato teve lugar em Madrid, outros pensam que teve lugar em Gibraltar e, por fim, há quem acredite que o evento tenha ocorrido nos Estados Unidos da América, na Filadélfia, como já foi dito. Em suma, se houve alguma iniciação maçônica por Miranda, esta ocorreu na Venezuela sob as circunstâncias mais inusitadas e em um momento que parece bastante improvável. Mas deixemos por enquanto esta questão em suspenso, que trataremos mais adiante.

Esse panorama, repleto de imprecisões, obviamente não pode ser sustentado sem suporte documental, mas os defensores da tese buscam evidências em outras vertentes. Por exemplo, eles relacionam permanentemente o legado do Precursor à filosofia maçônica, especialmente o direito à autonomia dos povos, a separação do poder da Igreja e do Estado e a liberdade de consciência religiosa. A Maçonaria Mundial afirma sua ideia permanente de liberdade de consciência, de se livrar de jugos opressores, ideia que Dom Francisco de Miranda sempre abrigou. O personagem de Miranda, um amante da liberdade, longe de todo dogma e fanatismo, é facilmente associado ao do espírito maçom.

Navegando em fantasias, há até quem aponte que depois de sua iniciação…

nenhum movimento que o Ilustre e Poderoso Irmão Francisco de Miranda tenha feito pelo mundo, sempre o fez com o prévio consentimento das lojas maçônicas a que pertencia, prestando contas de todo o seu trabalho realizado em suas constantes viagens e visitas; tanto na Europa como na América e no Caribe.[9]

Historiadores como Cesáreo González Navedo lhe dão o título de “Grão-Mestre” e o colocam à frente dos ramos do “Grande Oriente”. Da mesma forma, ele o responsabiliza por ter constituído o Grande Oriente da Maçonaria Americana e por ter fundado uma grande Loja Lautaro em Cádiz, uma loja que segundo o historiador se estenderia por toda a América Latina[10]. Como veremos mais adiante, tudo se perde na suposição e se confunde na especulação. Nesse sentido, é bastante comum ler que O’Higgins contou a Miranda a lenda de “Lautaro”, o cacique indígena dos araucanos que conseguiu reconquistar seu território e dar liberdade ao seu povo. Miranda é felizmente responsabilizado, muitas vezes, como o fundador da Loja Lautaro, em Londres, em 1797, em homenagem ao herói chileno que deu a vida para libertar seu povo, uma Loja que ficaria conhecida como o Grande Encontro Americano ou Loja de os Cavaleiros Racionais e que teria filiais em Cádiz e em algumas cidades americanas[11]. Don Mariano Picón Salas, antes de falar deste encontro, mostra a carreira multifacetada do Precursor que abre o campo entre os notáveis ​​de seu tempo, infelizmente sem especificar dados:

Com a mesma vitalidade faustiana, ele entra no tribunal e tece suas inesgotáveis ​​aventuras aristocráticas ou participa de uma discussão de “espíritos fortes” que analisam a superstição e o fundo comum de impostura que o voltairismo do século XVIII atribuiu a todas as religiões.[12]

Em seguida, também ecoando o encontro de Miranda com O’Higgins, acrescenta, sem muito apoio, que o Precursor “inicia um jovem americano como O’Higgins nas sombras de uma loja maçônica ou visita um bordel italiano e o descreve em seu Diário com os traços mais plebeus e materialistas”[13]. Um pouco mais adiante, Picón Salas fala-nos do suposto gosto de Miranda pelas sociedades iniciáticas:

Junte-se à contradição típica do seu século o materialismo mais implacável com aquele gosto pelo mistério, pelo “lado escuro da natureza humana” que animava as sociedades secretas, os cultos de iniciação, mesmerismo e frenologia.[14]

Depois de analisar cuidadosamente a biografia escrita por Don Mariano Picón Salas e outros textos e artigos referentes a Miranda, extraímos os nomes de cerca de 150 pessoas que, de alguma forma, tiveram alguma relação, direta ou indiretamente, com o Precursor da Independência Hispano-Americana para para poder estabelecer, com maior precisão, as extensas relações públicas do herói da independência com personagens de conhecida importância histórica ou determinantes em seu tempo. Filtramos aqueles cuja filiação à Maçonaria foi comprovada. Em outros casos, se não temos certeza, apontamos o que a tradição diz sobre sua proximidade com a Maçonaria sem pretender ser exaustivo a esse respeito. Não devemos necessariamente prestar atenção ao ditado que diz “diga-me com quem você anda e eu direi quem você é”. Nem todos os amigos de Miranda eram maçons, mas devemos admitir que alguns nomes entre seus “contatos” aparecem nas listas dos filhos da viúva. Aqui estão eles em detalhes:

Durante sua estada nas Antilhas (1780-1783), em sua visita à Jamaica, Miranda trouxe uma carta de recomendação de Juan Manuel Cajigal ao Almirante Sir Peter Parker, que na época servia como Grão-Mestre Provincial da Grande Loja da Jamaica.[15]

Nos Estados Unidos, a lista é, sem dúvida, encabeçada por George Washington, que Miranda conheceu durante sua estada na Filadélfia. Washington voltava da guerra e os encontros entre os dois eram frequentes a partir de dezembro de 1784. Como se sabe, Washington, um dos mais famosos maçons, havia sido iniciado em 1752 na loja de Fredericksburg e em 1788 foi nomeado Venerável Mestre da Loja Alexandria. Bem conhecida é a colocação da pedra fundamental do Capitólio dos Estados Unidos por Washington, vestindo roupas maçônicas. Henry Knox, Secretário de Guerra durante o governo de Washington (1789-1798), é um grande amigo de Miranda e maçom. Ambos mantiveram uma correspondência fluida. Knox descreve Miranda como “Senhor espanhol de caráter e grande informação… com inteligência e talento… entusiasta da causa da liberdade… possuidor de um amplo conhecimento dos homens e das coisas”[16]. Na Filadélfia, Miranda vai ao encontro de Thomas Jefferson, então deputado federal e que, segundo depoimento do Dr. Guillotin, teria participado das reuniões da Loja As Nove Musas de Paris e que teriam marchado em uma procissão maçônica junto com os membros da loja Los Hijos de la viuda No. 60 e Charlottesville Lodge No. 90 em 1817. O estudo das 25.000 cartas do ex-presidente americano não mostra, no entanto, qualquer referência à Maçonaria, mesmo que uma loja na Virgínia apareça com seu nome em 1801, Jefferson Lodge No. 65 e que após sua morte as Grandes Lojas da Carolina do Sul e Louisiana tenham realizado funerais e procissões em sua homenagem. James Monroe (1758-1831), que mais tarde se tornou o quinto presidente dos Estados Unidos e que demonstrou grande interesse pelos projetos de Miranda, havia sido iniciado em 1775 na Williamsburg Lodge No. 6, na Virgínia, aos 17 anos. Monroe foi o embaixador dos Estados Unidos em Paris nos dias de glória de Miranda na França. Um bom amigo de Miranda foi também o maçom Alexander Hamilton (1755-1804), economista, estadista, advogado, conselheiro de Washington e secretário do Tesouro sob este último. Definido seu projeto de invasão e mais uma vez nos Estados Unidos, Miranda contatou John Jacob Astor (1763-1848) com vistas a adquirir armas para a expedição. Astor fizera fortuna no comércio de peles e negócios imobiliários, bem como, mais tarde, no comércio de ópio com a Ásia. O comerciante era um Maçom e Mestre da Loja Holandesa nº 8, em Nova York em 1788, mais tarde Grande Tesoureiro da Grande Loja de Nova Iorque.

Durante sua primeira estada em Londres, Miranda decide fazer uma viagem pela Europa com seu amigo, o coronel americano William Smith, secretário do ministro em Londres e futuro presidente dos Estados Unidos, John Adams. Sinais maçônicos de certo peso são dados por William Smith na obra de Ovidio Aguilar Meza intitulada Em busca da verdade: Miranda era um maçom? Smith e Miranda acompanham um ao outro a Viena, onde Miranda se encontrará com um notável maçom, o compositor Franz Joseph Hyden. Em Christiania, Noruega, Miranda é convidada por Bernard Anker para visitar a “casa dos maçons”. Anker era um maçom que havia inaugurado a loja San Olai em cujo prédio morava no térreo e a referida loja funcionou no primeiro andar até 1811[17]. Fato curioso é que durante sua visita à casa do Sr. Khan em Cristiania, Miranda anota o número de bens da ordem maçônica, informação de certa forma sigilosa. Em Gotemburgo visita o “salão dos maçons” e em Estocolmo um orfanato mantido pelos filhos da viúva. Em setembro de 1788, ele se encontra em Zurique com Johann Kaspar Lavater, distinto filósofo e teólogo protestante, maçom da Ordem da Estrita Observância.

Também em Londres, Miranda era parente de outro famoso norte-americano: Rufus King, embaixador dos Estados Unidos no Reino Unido, um maçom convicto que compartilhava das ideias libertárias de Miranda e do jesuíta peruano Juan Pablo Vizcardo y Guzmán. Mas Londres também abrirá as portas para Miranda a diversas personalidades como o historiador britânico Edward Emily Gibbon (1737-1794), historiador de enorme importância e autor da História do Declínio e Queda do Império Romano (1776-1788). Gibbon, que sucede Oliver Goldsmith na Royal Academy como professor de história antiga, é iniciado como maçom em 1774 na Primeira Grande Loja da Inglaterra , Friendship Lodge No. 3. Também entre seus amigos britânicos está o dramaturgo e diretor de teatro Richard Brinsley Sheridan (1751-1816), maçom de acordo com a Grande Loja da Escócia. À lista acrescentamos Jeremy Bentham (1748-1832), filósofo, economista, pensador e escritor inglês. Bentham é um verdadeiro revolucionário para sua época. Por volta de 1785 ele escreve o primeiro argumento para a reforma da lei homossexual na Inglaterra. Luta pela liberdade individual e econômica, separação entre Igreja e Estado, igualdade de gênero, direito ao divórcio. Ele também defendia a abolição da escravatura, a pena de morte e o castigo físico. Bentham era um maçom com marcada influência dos jesuítas. Joseph Priestly (1723-1804), cientista, teólogo, filósofo e teórico político com mais de 150 obras publicadas, amigo de Benjamin Franklin e membro da Royal Society, sociedade intimamente ligada à Maçonaria pelo fato de ambas proclamarem ideais filosóficos e filantrópicos. Priestly aparece citado como maçom na la obra Keats, Hermetismo e Sociedades Secretas de Jennifer Wunder. Tanto Benjamin Franklin quanto Joseph Priestly são membros da chamada Sociedade Lunar. Miranda também conhece Arthur Wellesley (1759-1852), duque de Wellington, soldado, político e estadista britânico, general durante as guerras napoleônicas, duas vezes primeiro-ministro do Reino Unido, que estuda a possibilidade de formar e preparar um exército para a invasão da América. O Duque de Wellington, embora um membro da Loja do Grande Firmamento em Londres, havia sido iniciado na Loja Irlandesa No. 494 Trimem Meath, em 7 de dezembro de 1790. Em Londres Miranda forja amizade com o escritor, teólogo e escritor espanhol José María Blanco White (1775-1841), que, embora maçom, acabou desencantado com a irmandade.

Na França, conheceu também o padre Guillaume-Thomas Raynal (1713-1796), autor de The Philosophical and Political History of European Settlements and Trade in the Two Indies (1770). Raynal é acima de tudo um enciclopedista cujo trabalho é proibido na França. Sua possível adesão à Maçonaria, ainda não comprovada, pode ser sugerida pelos laços de amizade e parentesco com vários membros da loja St. Geniez d’Olt. Acredita-se também que as altas recomendações com que chega a Paris permitirão que Raynal seja iniciado na loja Les neuf soeurs, loja que daria grande apoio à revolução americana. Em Paris, Raynal faz amizade com maçons de alto calibre como Lafayette, para quem ele será um verdadeiro mentor. Miranda também conhece Jacques Pierre Brissot ou Brissot de Warville (1754-1793), escritor e líder político francês, líder girondino durante a Revolução Francesa. Brissot e Miranda se conheceram em 1792 e o soldado venezuelano contaria com o inestimável apoio de Brissot à causa patriótica. Brissot dirá da revolução libertária:

“le destin de cette révolution dépend d’un homme, vous le connaissez, vous l’estimez, vous l’aimez: c’est Miranda.” [18]

É ele quem o propõe como governador de Santo Domingo. Brissot é o fundador de uma sociedade chamada “Sociedade dos amigos dos negros” que teve uma importante influência na política colonial francesa. As memórias de Brissot não deixam dúvidas de que ele pertencia à maçonaria, principalmente a uma loja alemã, mas rituais e sigilo eram coisas que não combinavam muito com o personagem de Brissot, então o escritor rapidamente se separou das fileiras maçônicas. Em suma, essa ligação inicial abriu-lhe um campo no Círculo Social de Nicolas de Bonneville, um círculo político bastante dinâmico nos primeiros anos da Revolução, cuja origem maçônica é inegável. Outro membro da “Sociedade dos Amigos dos Negros” e que milita nas fileiras maçônicas é o prefeito de Paris Jerôme Pétion (1756-1794), que Miranda conhece em 1792. Durante os dias difíceis de Miranda em Paris, o jurista, político e maçom francês Jean Denis Lanjuinais (1753-1827) defenderá o general. Emmanuel Joseph Sieyès (1748-1836) se tornaria um eclesiástico, político, ensaísta e acadêmico francês, um dos mais importantes teóricos constitucionalistas da Revolução Francesa. Sieyès, segundo Picón Salas, escreve um projeto constitucional com Miranda. Se associa à Maçonaria, especialmente às lojas Les Amis devenus Frères no leste de Fréjus antes da Revolução e depois, em Paris, à Loja das Nove Irmãs., também conhecida como Loja dos Filósofos e Loja Rue du Coq Héron. Um americano bastante influente em Miranda é o poeta Joel Barlow (1754-1812), que conheceu em Paris e de quem tirou a ideia do nome para o continente emancipado que o militar venezuelano sonha, Colombeia. Barlow era um membro do St. John Lodge No. 4 , a leste de Hartford em Connecticut.

Antes de falar dos hispano-americanos com quem Miranda conviveu, convém mencionar a suposta visita que José del Pozo y Sucre e Manuel de Salas fizeram a Miranda. Há muitas inconsistências em tal afirmação. A primeira é que tal visita ocorre em Londres, em dezembro de 1797, mas o fato é que Miranda ainda vive em Paris nessa época. Diz-se que assinaram um documento no qual se estabeleceram as bases políticas de um projeto de independência. Tem sido amplamente divulgado que del Pozo e Salas eram jesuítas e maçons, uma afirmação posta em questão em um trabalho recente de Manuel Hernández González intitulado “Francisco de Miranda e os jesuítas expulsos[19]. O trabalho demonstra a impossibilidade de tal encontro. Por um lado, Manuel de Salas em 1797 estava em seu Chile natal e talvez nunca tenha conhecido Miranda. Por outro lado, José del Pozo não era jesuíta nem peruano, mas amigo de infância de Miranda, segundo a referida obra. O livro Oh Admirable Freemasons (2007) de Claudio A. Torres Chávez cita José del Pozo y Sucre como maçom e parte da premissa altamente improvável de que Miranda é o iniciador da maçonaria peruana.

Outro amigo de infância de Miranda foi Manuel Gual. Todos conhecem sua luta incansável pela liberdade e sua tentativa contra o poder espanhol. Manuel Gual era um aficionado da filosofia e da política e tinha algum interesse pelas sociedades secretas que lhe permitiam conhecer as ideias revolucionárias francesas. Junto com José María España e outros, teve encontros com maçons espanhóis na prisão, encontros que lhe permitiram uma iniciação maçônica. Em 12 de julho de 1799, ele escreveu uma carta a Miranda, que escreveu extensas recomendações ao governo inglês para apoiar a causa de Gual, mas Gual, como sabemos, seria assassinado um ano depois. As implicações maçônicas de Bernardo O’Higgins são amplamente conhecidas, mas infelizmente as referências à origem da Maçonaria desde a independência centram-se no papel que Francisco de Miranda teria desempenhado na fundação das Lojas Lautaro. Segundo Picón Salas, o jovem O’Higgins pediu a Miranda que lhe ensinasse matemática durante sua estada em Londres. É preciso destacar, porém, que o próprio O’Higgins não menciona esse episódio. É claro que essas conversas determinariam em grande parte o pensamento do futuro libertador chileno. Da mesma forma, Miranda mantém correspondência com o maçom Saturnino Rodríguez Peña, importante político cujas ações contribuíram para a independência das Províncias Unidas do Rio da Prata. Também em Londres, no final de 1799, recebeu o naturalista e economista de Nova Granada Pedro Fermín de Vargas y Sarmiento (1762-1813?), que depois de uma longa estadia na Europa retorna ao Caribe com a ajuda de maçons antes de acompanhar Miranda na tentativa de independência de Ocumare. Fermín de Vargas havia encontrado asilo na Jamaica, uma ilha onde se reuniam refugiados políticos perseguidos pelas autoridades reais espanholas. Fermín de Vargas era amigo de outro maçom fugitivo, Antonio Nariño, com quem fundou a loja “El arcano sublime de la philantropía”, disfarçada de círculo literário. Devemos lembrar que Antonio Nariño e Miranda se conheceram na França em 1796, talvez por mediação do próprio Fermín de Vargas. Já em Londres, em 11 de setembro de 1810, recebe, no número 27 da Grafton Street, a comissão formada por Simón Bolívar, Luis López Méndez e Andrés Bello. Bolívar era um maçom ativo, começou há alguns anos na Loja Saint Alexander da Escócia (11 de novembro de 1805), a leste de Paris. Há quem afirme que tanto Bello quanto López Méndez foram maçons iniciados, do que não há certeza. Nem todas as relações de Miranda com os maçons eram cordiais. Temos como exemplo o impulsivo padre das planícies Ramón Ignacio Méndez (1761-1839), representante no Congresso Constituinte de 1811 que, após uma polêmica e por não concordar com os “métodos” de Miranda, deu um tapa no general durante a sessão de 3 de julho.

Outra figura decisiva nos tempos da emancipação venezuelana foi o prelado e maçom chileno José Cortés de Madariaga (1766-1826). Algumas versões indicam que ele teria sido iniciado na Espanha e que na França teria alcançado o grau de Companheiro. Foi em Londres onde os dois homens se cruzaram pela primeira vez para simpatizar uma vez, especialmente por seus pensamentos em comum. “Eu gloriei-me em ser americano quando tratei este homem”[20], exclamou Madariaga doze anos depois, quando soube em San Carlos da nomeação de generalíssimo que o governo de 19 de abril de 1810 havia feito Miranda. A principal sede de Madariaga na Europa era a cidade de Cádiz, onde morava na casa do banqueiro literário La Cruz em cuja propriedade também residia o padre e maçom paraguaio Juan Pablo Fretes. Após os acontecimentos de 19 de abril de 1810, Madariaga foi a Bogotá como enviado da Junta Suprema perante o Governo de Nova Granada para formar uma liga em defensa da campanha de Miranda, porém será perseguido e capturado por Monteverde, e lodo enviado para a Espanha. Outro maçom de renome e amigo próximo de Miranda é Carlos Soublette (1789-1879), militar e futuro presidente do Estado da Venezuela. Carlos Soublette seria aluno do também maçom Antonio José de Sucre. Como engenheiro militar, em maio de 1810, juntou-se às tropas de Francisco de Miranda, onde foi rapidamente promovido a tenente-coronel e ajudante de campo do próprio general como primeiro ajudante de campo. Entre 1850 e 1855, Soublette seria Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho Confederado do Grau 33. Em 31 de julho de 1812, Miranda é feito prisioneiro em La Guaira. Da prisão participam Bolívar, Chatillón e Mariano Montilla (1782-1851), que se tornou maçom alguns anos depois na primeira loja fundada em Angostura pelo capitão inglês James Ambrose, no mesmo local onde será instalado o Congresso convocado pelo Libertador. Esta loja será chamada de “Concordia”. Da mesma forma, Montilla seria o venerável mestre da loja “La Beneficencia” de Cartagena, à qual se juntou em 1822. 

O precursor da independência americana era realmente um maçom?

O mito do maçom Miranda cai especialmente com a descoberta feita pelo historiador norte-americano William Spence Robertson, que encontra na Inglaterra os arquivos de Miranda, perdidos há mais de 100 anos, após a prisão do general. Antoine Leleux, seu secretário, os colocou a bordo de um navio inglês. Os documentos permaneceram em Curaçao por dois anos antes de serem enviados para a Inglaterra, onde permaneceram sob a proteção do Ministro da Guerra Lord Barthurst e sua família até 1926. Foi então que o diplomata Caracciolo Parra Pérez fez os arranjos para a compra e transferência para a Venezuela. O governo nacional ordenaria sua publicação. Isso significa que antes dessa data as lacunas nas aventuras do Precursor eram enormes, pelo menos no que diz respeito à sua vida íntima, o que vem corroborar a hipótese de um Miranda não maçom, já que nenhuma referência de peso foi encontrada em seus escritos apesar do que alguns historiadores afirmavam desde o início do século XX[21]. As obras do historiador venezuelano Eloy Reverón revelam muitas pistas que ajudam a esclarecer essa polêmica questão.

Reverón faz um comentário interessante em seu blog sobre a Maçonaria Mirandina:

O historiador maçom, Seal Coon, membro da Loja de Pesquisa histórica Ars Quatour Coronati em Londres, que escreveu um trabalho sobre Bolívar Maçom, onde reproduz uma cópia autenticada do registro de sua recepção ao grau de Companheiro, publicou outro escrito detalhado sobre Miranda onde admite não ter encontrado nenhuma razão para pensar que Miranda teria pertencido à Maçonaria, e que isso não desmerece qualquer mérito como figura histórica, não sem fazer um comentário humorístico sobre a ingenuidade dos escritores de língua espanhola que concorreram em exaltando seus heróis nacionais. [22]

Embora não tenha sido encontrado nenhum vestígio maçônico do generalíssimo, Reverón não descarta que Miranda possa ter pertencido a alguma fraternidade militar, frequente na época napoleônica. Reverón termina seu artigo com uma nota irônica na qual aponta que se Miranda era maçom, sem dúvida é “porque quase todos os irmãos o reconhecem como tal, embora ele tenha estado tanto tempo no Oriente Eterno e nunca tenha visitado uma loja ou frequentou alguma”. [23]

De onde vem o mito? A ideia difundida de que a figura proeminente de Dom Francisco de Miranda pertenceu à Maçonaria deve sua razão muito seguramente à origem de uma sociedade política secreta cuja organização estava ligada às chamadas lojas Lautaro e à Grande Reunião Americana, uma loja de organização ideológica fundada por Miranda em 1798. Isso concorda com o que foi expresso pelo historiador espanhol José Antonio Ferrer Benimeli, que insiste na confusão que se criou entre os termos sociedade secreta e sociedade patriótica ou no erro de simplesmente fundi-los como sociedades maçônicas. Por sua vez, Miranda não faz nenhuma referência em seu diário sobre as referidas lojas Lautaro. Se fossem lojas regulares da Maçonaria, como afirma Barboza de la Torre, um pedido para sua criação teria sido feito, por exemplo, perante a Grande Loja Unida da Inglaterra[24]. No entanto, não há registro disso. Embora seja verdade que o ajudante-de-campo Antoine Leleux foi confiado por Miranda para organizar a Sociedade Patriótica, Reverón aponta que “até agora temos notícias da maçonaria como motivação e inspiração de Francisco de Miranda para ordenar discretamente suas redes de conspiração”[25]. O destacado maçonólogo deixa claro que a filiação seria forçada e continua afirmando: “[…] daí a a encontrar provas do ingresso ou participação de Francisco de Miranda na Maçonaria, não tem se quer sintonia com a criação do Rito Escocês (1802-1808) com os escassos 8 ou 14 anos de vida que Miranda teria então”[26]. Para Eloy Reverón, a ideia compulsiva de fazer de Miranda um maçom nasceu no século XX porque o assunto, mesmo o de heróis verdadeiramente maçônicos, não foi abordado durante o século XIX. Aparentemente, havia um desejo de destacar os valores maçônicos através do ato libertário latino-americano para assim tornar-se a Maçonaria “como a pedra angular do republicanismo latino-americano”, segundo as palavras de Wilfredo Padrón Iglesias, tese sustentada com segurança por Pilar González Bernaldo e Felipe del Solar, este último maçom chileno que muito gentilmente nos forneceu informações interessantes para este artigo.

Por que devemos quebrar a cabeça por um Miranda iniciado na Maçonaria se isso não aumenta ou diminui os méritos dos militares venezuelanos? As realizações pessoais de um herói não podem ser transformadas em bandeira pela força. Pelo mesmo apego à verdade que a Maçonaria promove, deve-se reconhecer, enquanto não houver provas confiáveis, que Francisco de Miranda não foi maçom e isso estaria mais de acordo com os postulados da irmandade. Uma conclusão interessante alcançada por Reverón é que os maçons venezuelanos deram mais peso ao suposto status maçônico de Miranda do que a seus méritos pessoais, mas deixaram de lado seus grandes dons de estrategista militar que lhe renderam um lugar preponderante como herói da guerra pela independência dos Estados Unidos, na Revolução Francesa ou no ato emancipatório hispano-americano.

Um dos artigos mais sérios que aborda a questão da suposta filiação de Miranda à Maçonaria foi escrito por Wilfredo Padrón Iglesias da Universidade de Pinar del Río e intitula-se “A Maçonaria, um ponto negro na trajetória de Francisco de Miranda”, publicado pela Revista de Estudos Latino-Americanos da UNAM. O cerne do artigo afirma que a historiografia carece de elementos que possam estabelecer um vínculo entre Miranda e a Maçonaria. Padrón Iglesias revisa as fontes de autores que, por um lado, foram a favor da tese de um Miranda maçom, incluindo, entre outros, os nomes de Mariano Picón Salas, Josefina Rodríguez de Alonso e Mario Briceño Perozo. Por outro lado, cita Manuel Gálvez e Caracciolo Parra Pérez, que negam qualquer relação com a referida sociedade secreta. De fato, Parra Pérez mantém sua posição afirmando: “Para falar a verdade, não há documentos confiáveis ​​que comprovem que Miranda era maçom […]. De minha parte, nunca encontrei nenhum artigo relacionado ao assunto”[27]. O artigo acrescenta que os temas abordados nos jornais mirandinos são muito variados, dos mais sofisticados aos mais pueris, mas que em nenhum caso se refere a reuniões ou ajuntamentos maçônicos, exceto visitas a “casas dos maçons” em Cristiania (Oslo, Noruega), Gotemburgo (Suécia) e Antuérpia (Bélgica). Durante sua estada na Jamaica, no final de 1781, Miranda havia comprado dois livros: Constituições da Maçonaria e Ilustrações da Maçonaria, aponta com precisão Padrón Iglesias como as únicas referências à Maçonaria que aparecem nos diários do herói da Independência. Claro, isso não é evidência suficiente para ligá-lo diretamente aos irmãos dos três pontos. Um fato curioso acrescentado pelo investigador cubano refere-se ao fato de Miranda não ter sido acusado pela Igreja Católica de pertencer à Maçonaria. O Santo Ofício iniciou um processo contra ele na segunda década de 1770 “quando o Tribunal de Sevilha e o Conselho da Inquisição o acusaram de: ‘[ …] crimes de propostas, retenção de livros proibidos e pinturas obscenas”[28]. Padrón Iglesias conclui seu artigo dizendo prudentemente que as evidências descobertas não devem ser assumidas como definidoras, e sugere aprofundar o assunto nas diferentes áreas que compõem a vida intelectual. Para Ovidio Aguilar Meza, são grandes as chances de Miranda ter se iniciado como maçom são, ao contrário, altas e ele acredita que, se aconteceu, foi na Jamaica, abrindo assim uma nova veia nesse leque que tenta discernir a possível proximidade de Miranda com a fraternidade maçônica.

O título de nosso trabalho apenas aponta para o que acreditamos ser verdade até que se prove o contrário, e nisso concordamos com a opinião de Eloy Reverón, que estudou a fundo o assunto. De fato, em seu minucioso trabalho sobre a Loja Esperanza de Caracas, o pesquisador revisou suas atas, atos e correspondências e só obteve o nome de Francisco de Miranda em 1950, ano em que José Tomás Uzcátegui, por decreto do Grão-Mestre de a Grande Loja da Venezuela, pediu para buscar os documentos que ligavam Miranda à Maçonaria, e fez de Francisco de Miranda um maçom de fato, 134 anos após sua morte. Até agora nada, ou quase nada foi encontrado. O mesmo decreto declarou 28 de março, data de nascimento de Miranda, como Dia Nacional da Maçonaria.

Conclusões

Não sem razão Caracciolo Parra Pérez disse sobre Miranda:

Ele é o herói de nossa independência sobre quem mais mentiras foram escritas, mais lendas foram inventadas e mais fantasias foram criadas. [29] 

Vender a ideia de um Miranda maçom a todo custo é certamente um gesto louvável mas carente de rigor, querendo alimentar um mito enquanto esconde a verdade com fantasias ou especulações. Devemos entender que, depois de conhecer a carreira de Miranda e de ter dado uma guinada em sua imagem desde a publicação de seus diários e de sua correspondência, quiseram enaltecê-lo justamente quando ele passou de um traidor desprezado e esquecido a um herói de grande projeção internacional.

Apesar da tradição e do que se repete com frequência em todas as esferas intelectuais, devemos admitir que, enquanto não houver registros escritos que comprovem sua filiação, Dom Francisco de Miranda não pode ser classificado como membro das fileiras maçônicas. A importante lista de maçons com os quais mantinha uma relação próxima também não prova a sua pertença a esta irmandade, apenas permitiria supor que Miranda poderia ter recebido propostas para a integrar. Seus livros e extensa formação revelam, da mesma forma, que ele não desconhece os princípios dessa fraternidade.

Autores: José Gregório Parada Ramírez
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: REHMLAC

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Notas

[1] – Caracciolo Parra Pérez, Miranda et la Révolution française (Caracas: Ed. Banco del Caribe, 1989), 322. “Jantei ontem na casa de um homem singular: acho que é espião dos tribunais espanhóis e ingleses no mesmo tempo. Ele mora no terceiro andar de um apartamento mobiliado como um sátrapa. Ele diz que vive na miséria, mas oferece jantares preparados por Méot que são servidos em pratos simples. É algo estranho que quero esclarecer” [minha tradução].

[2] – Parra Pérez, Miranda et la Révolution française , 323. “Jantei com homens da maior importância. Entre eles há alguns que quero ver novamente. É um Dom Quixote, com a diferença de que este não é louco” [minha tradução].

[3] – Parra Pérez, Miranda et la Révolution française , 325. “Tem uma pequena mas requintada biblioteca em um apartamento com gostos que não vi melhor. Alguém acreditaria em Atenas, na casa de Péricles” [minha tradução].

[4] – Jean-Pierre Bayard,La spiritualité de la franc-maçonnerie (Saint-Jean de Braye  : Ed. Dangles, 1982), 107ss .

[5] – F. Daudin, L’ABCdaire de la Franc-maçonnerie (Paris: Flammarion, 2003), 54. De acordo com J. Ridley, vinte e dois dos trinta marechais eram maçons.

[6] – J. Ridley, The Freemasons, the Most Powerful Secret Society on Earth (Buenos Aires: Byblos, 2004), 227.

[7] – Consulte o site: http://jmc-177.org.ve/la-gloria-de-miranda/

[8] – Wilfredo Padron Iglesias.“Maçonaria, um ponto negro na trajetória de Francisco de Miranda”, Revista de Estudios Latinoamericanos 61, no. 2 (2015): 13- 30, http://www.revistadeestlat.unam.mx/index.php/latino/article/view/52805/48798

[9] – Citado em http://www.monografias.com/trabajos90/ilustre-poderoso-miranda-rodriguez/ilustre-poderoso-miranda-rodriguez2.shtml#ixzz4DZJNzJFM

[10] – Cesáreo González Navedo, “Fundação e independência da Maçonaria Americana”, Cadernos de Cultura Maçônica (1943): 5.

[11] – A esse respeito, ver José Antonio Ferrer Benimeli, “Aproximação à historiografia da Maçonaria Latino-Americana”, REHMLAC 4, no. 1 (maio-novembro de 2012): 9, https://revistas.ucr.ac.cr/index.php/rehmlac/article/view/12144/11419

[12] – Mariano Picón Salas, “Miranda”, Coleção Mérida Classics (Mérida: INMUCU, Prefeitura do Município Libertador, 2006), 12.

[13] Picón S., “Miranda”, 12.

[14] – Picón S., “Miranda”, 13.

[15] – Ovidio Aguilar Meza, “Em busca da verdade, Miranda era maçom?”, Biblioteca de Autores e Temas Mirandise (Los Teques: Fundación Fondo Editorial Simón Rodríguez, 2010), 56.

[16] – Luis Xavier Grisanti, “El Precursor Miranda y los Estados Unidos” , Analítica , 22 de março de 2006, http://www.analitica.com/opinion/opinion-nacional/el-precursor-miranda-y-los-estados – juntou/

[17] – Aguilar Meza, “Miranda era maçom?”, 63.

[18] – Parra Pérez, Miranda et la Révolution , 43. “O destino desta revolução depende de um homem, você o conhece, você o estima, você o ama: ele é Miranda” [minha tradução].

[19] – Manuel Hernández González, “Francisco de Miranda e os jesuítas expulsos”, Montalbán, Revista de Naturalezas y Educación 46 (2015). 311-321.

[20] – Weildler Guerra, “Remembering Cortés de Madariaga”, El Espectador , 4 de setembro de 2015, https://www.elespectador.com/opinion/recordando-cortes-de-madariaga-columna-583974

[21] – Mitre, Vicuña Mackenna, Becerra e Mancin.

[22] – Eloy Reveron,”Iniciação de Francisco de Miranda na Maçonaria”, 13 de março de 2009, http://granlogiavzla.blogspot.com/2009/03/iniciacion-de-francisco-de-miranda-en.html

[23] – Reverón, “Iniciação de Francisco de Miranda na Maçonaria”.

[24] – Pedro A. Barboza de La Torre, Bolívar e Maçonaria, Notas Históricas (Maracaibo: Grande Loja da República da Venezuela, 1976), 4.

[25] – Reverón, “La masonería, Miranda, fontes para seu estudo”, 21 de agosto de 2014, https://masoneriamirandina.blogspot.com/2014/

[26] – Reverón, “Maçonaria, Miranda, fontes para seu estudo”.

[27] – Parra-Pérez,  Páginas de história e controvérsia (Caracas: Lithography of Commerce, 1943), 321.

[28] – Padrón Iglesias, Maçonaria, um ponto sombrio , 29.

[29] – Parra-Pérez citado em https://venezuelaenascenso.blogspot.com/2007/09/el-libertador-de-libertadores.html

Bibliografia consultada

Aguilar Meza, Ovídio. Em busca da verdade Miranda era maçom? Los Teques: Biblioteca de autores e temas Mirandinos, Fundação Fundo Editorial Simón Rodríguez, 2010.

Barboza de la Torre, Pedro A. Bolívar e Maçonaria, Notas Históricas . Maracaibo: Grande Loja da República da Venezuela, 1976.

Bayard , Jean-Pierre. A espiritualidade da franco-maçonaria . Saint-Jean de Braye  : Ed. Dangles, 1982.

Daudin , Jean-Frédéric. L’ABCdaire de la Franc-Maçonnerie . Paris  : Flammarion, 2003.

Ferrer Benimeli, José Antonio. “Aproximação à historiografia da Maçonaria Latino-Americana”, REHMLAC 4, no. 1 (maio-novembro de 2012): 9, https://revistas.ucr.ac.cr/index.php/rehmlac/article/view/12144/11419 González Navedo, Cesáreo. Fundação e Independência da Maçonaria Americana . Havana: Cadernos de Cultura Maçônica, 1943.

Hernández González, Manuel. “Francisco de Miranda e os jesuítas expulsos”. Montalbán, Revista de Humanidades e Educação 46 (2015). 311-321.

MONET , Daniel. “Les origines intellectuelles de la Révolution française, 1715-1787”. Revue d’histoire de l’Église de France 21, no. 90 (1935): 86-92.

Padron Iglesias, Wilfredo. “A Maçonaria, um ponto obscuro na trajetória de Francisco de Miranda”. Revista de Estudos Latino-Americanos , n. 61.

Parra-Perez, Caracciolo. Páginas de história e controvérsia . Caracas: Litografia do Comércio, 1943.

Parra Perez, Caracciolo. Miranda e a Revolução Francesa . Caracas: Ed. Bank of the Caribbean, 1989.

Picon Salas, Mariano. Miranda . Mérida: Coleção Mérida Classics, INMUCU, Prefeitura Municipal de Libertador, 2006.

Ridley, Jasper. Os maçons, a sociedade secreta mais poderosa da Terra . Buenos Aires: Byblos, 2004.

Wunder, Jennifer Keats. Hermetismo e Sociedades Secretas . Ashgate, 2008.

A maçonaria, intelectuais e pensamento político nas décadas iniciais do século XX

Simbolo da Maçonaria Compasso e esquadro no Elo7 | Artes Marinhas (95C15E)
Este artigo é de autoria de Augusto César Acioly Paz Silva, publicado originalmente na REHMLAC.

O presente texto procura responder questões referentes ao processo de estruturação a maçonaria nas décadas iniciais do século XX, posicionando-se de maneira crítica à tese veiculada por Sergio Buarque de Holanda, o qual defendia que, com a instauração da República, a maçonaria teria saído de cena e dado lugar ao ideário positivista. O que foi possível observar ao diferente da perspectiva veiculada por Buarque de Holanda, esse ideário não se efetiva na prática, pois a atuação intelectual dos maçons demonstra a dinâmica e vivacidade que a instituição usufruía ao longo das décadas iniciais da república.

Introdução

A maçonaria, no Brasil, ainda se constitui numa instituição pouco estudada, tanto no campo da historiografia quanto da cultura política e da própria história do pensamento brasileiro nas décadas iniciais do século XX. Devido a estes aspectos, o nosso trabalho tem como preocupação central discutir esta invisibilidade, ao mesmo tempo em que procuramos destacar quais as concepções e campos de ação que tal instituição atuava, lançando luzes sobre os temas que norteavam a ação de parte da maçonaria, procurando enfocar Pernambuco, mas construindo relações com as discussões mais gerais que faziam parte da maçonaria brasileira. Aliar estas discussões ao que era pensado e divulgado nos seus órgãos de imprensa ou produção intelectual fornece uma possibilidade importante para que seja possível desconstruir as imprecisões que se colocam sobre esta instituição.

Conseguimos, através do seu campo de ideias e posições, dar um “rosto” aos maçons e à maçonaria, apresentando quais os ideários e culturas políticas que se encontravam veiculadas e eram por ela defendidas. Sendo assim, através deste texto procuraremos superar os estereótipos de estigmas, além de pensar a ação dos seus intelectuais na apresentação de alguns ideários que circulavam no ambiente maçônico e que se constituíam em vinculações que eram realizadas sobre a maçonaria, principalmente nas décadas inicias do século XX. Outra dimensão importante reside no fato de superar uma compreensão e representação historiográfica que tendem a reforçar uma visão desta sociedade como sendo “sem expressão política” nas décadas iniciais do século passado colaborando, assim, para moldar uma concepção da maçonaria enquanto uma instituição representada por ações episódicas ao longo da nossa História.

Ao longo da sua História em terras brasileiras, momento que remonta às décadas iniciais do século XIX, é possível observar a participação de vários intelectuais que circulavam em espaços de discussão e estruturação de projetos em âmbito nacional como Saldanha Marinho (1816-1895); Rui Barbosa, que participou ativamente da loja América (1849-1923); Benjamim Constant (1836-1891) e Joaquim Nabuco (1849-1910).

Em muitos casos é possível observar que a atividade intelectual misturava-se com a participação de muito deles em causas políticas, como a defesa do fim da escravização dos africanos e seus descendentes, o combate às ideias que expressavam uma posição compreendida por setores da sociedade brasileira como vinculando-se dentro do campo da intolerância, principalmente, as relacionadas à defesa de liberdade religiosa e pensamento, conjunto de demandas intelectuais que mobilizou parte da maçonaria brasileira, aqueles setores que identificavam com posições de raiz ilustrada e liberal.[1]

Com relação a alguns destes personagens, é importante pontuar que, do ponto de vista da formação intelectual, ela foi forjada dentro do ideário intelectual sintonizado com o pensamento do liberalismo e, no caso de parcela deles, do positivismo. Existe uma tese clássica de Sérgio Buarque de Holanda que, ao tratar o maçonismo como um ideário intelectual, defendeu a perspectiva da sua substituição pelo positivismo. Tal perspectiva, apresentada pelo historiador paulista, reúne alguns problemas: o primeiro deles, a visão de que a maçonaria, ao longo do período republicano, havia desaparecido, uma vez que o ideário positivista havia tomado o seu lugar. Ao estabelecer tal associação é possível, ainda, deixar evidente a falta de conhecimento de Holanda sobre o que seria tal instituição.

Uma segunda dimensão, que merece ser ponderada, reside no fato de que ele trata a passagem da maçonaria ao positivismo como sendo, às vezes, sinônimos e ao mesmo tempo sem apresentar, pelo menos do ponto de visto daquilo que ele denomina de maçonismo, a complexidade do que tal perspectiva no campo das ideias e da mobilização intelectual significava, ou seja, parece que tais ideários seriam estanques.

Isto que Buarque de Holanda denomina, de maneira monolítica, como sendo maçonismo reunia, no seu corpo de ideias, matizes de pensamento que circulavam, como foi referenciado em alguns parágrafos anteriores, dentro de pressupostos como apresenta Alex Andrade, no campo da circulação de ideias vinculadas ao projeto iluminista, posicionando-se dentro da defesa do ideário liberal. Alguns, flertando com o republicanismo; outros, não; o que demonstra a complexidade do que significa ser maçom. Procurar explicar o campo intelectual maçônico, no interior desta transição entre o século XIX e o século XX, de maneira mais especifica, é o caso do nosso artigo.[2]

Na qualidade de sociedade de pensamento[3] é importante perceber que, mesmo que alguns intelectuais e perspectivas intelectuais circulem no interior da maçonaria, respeitando, como destacamos, a sua complexidade, é importante destacar que muitas bandeiras, que de forma geral localizavam-se dentro do que poderíamos denominar de ideário liberal, encontravam-se fomentadas no interior dos círculos maçônicos. Como prova de que o positivismo não afetou a maçonaria, enquanto instituição, pode ser constatado de forma prática na defesa de demandas que se constituíam em símbolos de defesa daquilo que poderia ser identificado como ideias maçônicas e privavam de defesa por parte dos intelectuais vinculados à maçonaria nas décadas iniciais da República, que se constituíam na promoção de uma mentalidade na qual a criação de escolas, bibliotecas e a defesa de princípios republicanos e da liberdade de culto e de pensamento, apresentavam-se na qualidade de temas que se encontravam nos artigos assinados por intelectuais que colaboravam na imprensa maçônica, e que nos ajuda a pensar quais as ideias e proposições defendidas por determinados círculos, por mais que seja intricado verificar os limites entre o pensamento institucional, a posição oficial da instituição e como tais ideias inspiravam as atitudes individuais maçônicas. Acreditamos que esta questão se constitui numa variável importante, mas que foge na sua completude aos objetivos deste texto.

Por isso, procuraremos nas páginas seguintes, partindo da intervenção pública de alguns intelectuais maçons, de maneira mais especifica entre aqueles que atuavam na revista Archivo Maçonico, publicação que circulou na primeira década do século XX, no estado de Pernambuco, analisar como alguns temas que inseriam-se no interior deste corpo de pensamento, que poderíamos delimitar como sendo defendidos pela maçonaria, eram tratados por personagens como Manoel Arão, Mario Melo, Caetano Andrade e Vicente Ferrer, que, além de maçons atuantes, ainda contribuíam, como no caso dos dois primeiros, na imprensa e participavam de outras instituições que mobilizavam o fazer intelectual: a Academia Pernambucana de Letras e o Instituto Histórico, Arqueológico e Geográfico de Pernambucano.

Os intelectuais e a circulação de ideias na imprensa maçônica pernambucana nas décadas iniciais do século XX (1906-1913)

O trabalho intelectual define-se a partir do processo de leitura, reflexão e divulgação das ideias. Existe toda uma historiografia que apresenta o potencial e a importância da atividade intelectual maçônica no sentido de publicizar os pontos de vista e as supostas matrizes sobre as quais tal conjunto de visões encontram-se assentadas. Desta forma o conceito de maçonaria, enquanto sociedade de pensamento, colabora para que a dimensão do trabalho identificado com o de matriz intelectual fique bem dimensionado.[4]

A atividade intelectual maçônica se apresenta, além da produção de livros que procuravam remontar às raízes históricas da maçonaria, passando por questões mais especificas e pertinentes, com as que se orientavam sob aspectos relacionados à dimensão ritualística. É importante observar o lugar que é veiculado, pelo menos do ponto do discurso, o que implica a necessidade de ler e debater para que seja possível avançar dentro da estrutura hierárquica maçônica.

Pensando de maneira mais pontual os processos de divulgação utilizados pelos intelectuais maçônicos que foram citados, é possível constatar que um dos espaços utilizados na promoção e apresentação de reflexões a respeito de questões, sejam elas vinculadas à realidade do país ou mesmo vinculadas aos costumes, terão lugar de destaque nas páginas da imprensa. No caso deste artigo da revista denominada Archivo Maçonico, por uma questão estilística, decidimos manter a grafia original.

A vida do Archivo Maçônico desenvolveu-se entre os anos de 1906 até 1913. Não possuímos dados mais concretos sobre o principal motivo da sua extinção. A coleção, que foi localizada nas dependências da Loja Maçônica Segredo e Amor da Ordem, chegava até o ano de 1912. Segundo informações de Luiz do Nascimento[5], contidas na sua História da Imprensa de Pernambuco, o fim das atividades do Archivo Maçônico aconteceu no seu número 86 do mês de outubro de 1913. Essas informações são fornecidas pelo autor, com base nos números encontrados por ele na Biblioteca Nacional e na Biblioteca Pública do estado de Sergipe.

Os motivos para a finalização das suas atividades não são ainda muito claros. Trabalhando no campo das hipóteses, através das leituras feitas de todo esse conjunto documental, é possível supor, através da análise de alguns dos seus números, que o encerramento de sua publicação ocorreu devido a problemas de ordem financeira, já que era comum, nos últimos números, avisos publicados pela gerência da revista no sentido de solicitar, aos assinantes, que entrassem em contato com a direção do Archivo para que as dívidas fossem saldadas, possibilitando, dessa forma, a continuidade da publicação sem maiores entraves.

Como destaca Lucca[6], a utilização das fontes jornalísticas e da imprensa como elementos importantes na prática da pesquisa histórica com a finalidade de ajudar na construção de um determinado olhar sobre o passado é, de certa forma, recente, como nos informa Tânia Regina Luca. Ela discute o processo de utilização da imprensa e dos jornais como objeto e fontes, e as formas como tais recursos passaram a figurar enquanto meio importante no desenvolvimento da pesquisa e do pensamento histórico.

De toda forma, é importante assinalar a função que uma publicação periódica representa no processo de construção e difusão das ideias, pelo motivo de que, a partir da modernidade, e pensando de maneira mais específica, os séculos XVIII-XIX, o periodismo institui-se na qualidade de espaço importante de sociabilização das ideias e consequentemente de campo de debate intelectual.[7]

A imprensa, e no caso que nos debruçaremos ao longo deste texto, a revista maçônica produzida com a presença de intelectuais que possuíam ação na imprensa “profana”[8], apresenta-se como um lugar interessante para que possamos perceber quais as estratégias intelectuais e concepções que eram forjadas nas páginas deste veículo que se constituía num importante meio de circulação intelectual.

Sob o título “Protestemos!” o autor do artigo retoma um fato acontecido na cidade de Caruaru que denota, de maneira evidente, as discussões travadas pela maçonaria e seus intelectuais sobre o respeito à liberdade religiosa. Segundo o artigo, veiculado na porta de uma igreja na cidade, bíblias, consideradas falsas, possivelmente, tratava-se de bíblias protestantes que foram queimadas, como destaca o artigo, sob as ordens do provincial carmelita.[9]

A indignação do autor residia no fato de que esta seria uma prática reiterada e que deveria ser combatida, pois afrontava diretamente a lei republicana expressada na constituição federal, localizada no parágrafo 3º artigo 72, no qual a defesa aos indivíduos em praticar qualquer culto religioso constituía-se numa cláusula pétrea, principalmente num estado que, desde 1889, considerava-se laico. Além de não respeitar a laicidade, sentimento que deveria ser cultivado na sociedade, este episódio incitava, na população, o desenvolvimento de sentimentos e comportamentos que, além de materializarem-se na falta de respeito às liberdades constituídas, consistia em crime passível de punição, uma vez que se encontrava tipificado no artigo 185 do código penal brasileiro.[10]

Outra dimensão usada pelo autor, no sentido de construir uma maior efetividade a respeito do seu discurso, foi o de que, ao estimular nos fiéis queima de livros e atos de irracionalidade e violência, os religiosos católicos estariam relembrando um momento triste da história ocidental, que seria os tempos da “sagrada inquisição”. De tal sorte, tal prática promovia consequências graves, uma vez que

Esse crime de queima de bíblias – pouco importa ao caso que ellas fossem mentirosas ou não às idéas religiosas do catolicismo -, esse fanatismo exagerado enervante que dominou em um dado momento meia dúzia de espíritos fracos, inclusive o do vice-prefeito do convento da penha, longe de fazer proselytos, conquistar partidários, “recolher ao aprisco as pobres ovelhinhas desgarradas”, na própria phrase deles, demonstrou bem claramente que atravéz dos tempos, ainda, hoje eles se sentem impressionados de uma certa saudade dos tempos da sagrada inquisição![11]

Ao considerar a atitude tomada pelos religiosos e o seu séquito de fiéis como um retrocesso, o articulista do Archivo Maçonico destacava o cuidado que era necessário estabelecer com relação ao respeito àqueles que praticavam religiões diferentes, o reforço de uma atitude de defesa da liberdade religiosa e do real estabelecimento de um estado laico e que se respeitasse aqueles que não fossem católicos, por mais que esta ainda fosse a religião praticada pela maioria da população brasileira. Outro aspecto, que merece ser destacado dentro da sua análise, é o da temeridade em incentivar a queima de livros, símbolo que depositava uma forte representação, com a dimensão do conhecimento e do trabalho intelectual. Desta forma, queimar livros significava destruir o conhecimento e, neste caso especifico de livros religiosos, um atentado a crenças que, na concepção de muitos intelectuais maçons, como o Manoel Arão e o Caetano Andrade, demostrava não apenas intolerância, mas obscurantismo.

Além do tema clássico, o da defesa ao estado laico e tolerância religiosa que mobilizava o trabalho intelectual maçônico, principalmente pelo fato de que vivíamos num estado laico e republicano, no qual o privilégio de determinado culto era proibido. É possível percebermos, ao longo da leitura das edições do Archivo Maçonico, a ocorrência de outros assuntos que estimulavam as avaliações intelectuais dos organizadores deste periódico. Dentre estes, a política, e uma avaliação a respeito de como tal dimensão desenvolvia-se nos anos iniciais do regime inaugurado em 1889, sempre aparecia como ponto de reflexão.

Através de uma série de quatro artigos, denominados Política e Maçonaria, Caetano de Andrade, assíduo colaborador do Archivo Maçonico, realizava uma série de reflexões a respeito do sistema político e qual o lugar da maçonaria no interior deste cenário ao longo desses quase 20 anos de implementação deste regime político.

É possível perceber, no autor e na sua pena, uma postura de questionamento a respeito da fórmula republicana adotada pelo Brasil. O seu argumento a respeito das limitações da nossa forma republicana residia no fato de que o nosso regime assumiu uma postura que não preservou os direitos democráticos, vivenciados de maneira muito limitada, o que, consequentemente, construiu uma lógica pouco republicana.

Ao constatar tal perspectiva, Andrade observava que o defeito não seria da República, enquanto sistema político, mas da maneira como a nossa república tinha sido conduzida e estruturada. Desta forma, o autor revisou – e defendia – como havia sido proposto em 1903, 14 anos após o início do sistema republicano no Brasil, um processo de revisão do sistema através de um manifesto proposto por lideranças republicanas locais que identificavam, àquela altura, um desvirtuamento dos significados encetados pela República no Brasil. Este espirito de revisão, de reordenamento do sistema deveria, como apontava Caetano de Andrade, ser posto de forma urgente, uma vez que tal processo só garantiria a sua efetividade através de um processo que revisasse a nossa constituição para que fosse possível, nas palavras de Andrade:

Proclamar princípios novos de democracia, mas venha hoje si a constituinte revisora pode nascer, incorruptível como um juiz, do choque das facções, dos mystificadores processos eleitoraes, do conclave dissoluto de chefes, da inercia, da incompetência dos que votam, dos que votariam por ella, analfabetos, inconscientes da própria responsabilidade, sem temor de que essa delegação sua fosse estabelecer um contracto mercantil, entre olygarchias, para exploração da indústria de reinar![12]

A defesa veemente de Caetano, ao longo dos quatro artigos publicados no Archivo, orientava-se por uma revisão imediata do nosso texto constitucional, e neste particular, no uso dos seus argumentos intelectuais, ele procurava destacar que tal programa podia e devia ser encampado e fomentado por uma instituição como a maçonaria, que defendia uma posição de estabelecimento de um sistema no qual a liberdade religiosa e a defesa de um estado laico, a escolha livre e democrática dos representantes e do incentivo à instrução e ao conhecimento entre todos os setores, orientava-se como uma base importante de ação.

Esta concepção de que a maçonaria possuía um papel social e político, que deveria ser materializado através de iniciativas institucionais, pode ser percebido na defesa intelectual em outros artigos veiculados pelo Archivo Maçonico, como os publicados por José Simões Coelho, que apresentava o papel social da maçonaria, defendendo que tal ação não poderia ser confundida como beneficência e filantropia. O argumento defendido pelo maçom português é o de que as ações que movimentavam a atuação social da maçonaria deveriam orientarem-se pelo auxílio mútuo e não pela beneficência/filantropia, ações que, segundo ele, eram apenas caritativas. Na sua argumentação, o auxilio mútuo é a solidariedade humanizada que está para além do socorro material e, neste aspecto, a maçonaria deve exercer a sua função de instituição inserida na sociedade, não estando alheia aos problemas sociais.[13]

Ao apresentar que a maçonaria é uma instituição que, mesmo possuindo suas características especificas, deve exercer uma função na sociedade, José Coelho advoga e posiciona-se dentro de compreensão de que a maçonaria possui e deve animar-se para defender posições na sociedade que, de alguma maneira, colaborem para que as questões sociais sejam preservadas pelos maçons, como possibilidade de contribuir com o desenvolvimento da sociedade.

Abordando, de maneira mais detalhada, as discussões promovidas pela maçonaria, no que diz respeito às questões vinculadas à política e à sociedade, é possível localizar um conjunto de textos que procuram evidenciar tal debate. Dentre eles, o artigo escrito pelo maçom pernambucano, Dr. Ferrer, que versa sobre a relação entre Democracia e República, partindo da observação de que, mesmo que o conceito de república apresente uma compreensão de que, dos sistemas políticos pensados, a república figuraria quase que automaticamente, enquanto um regime no qual a democracia e as liberdades surgiriam automaticamente como uma espécie de essência.

Porém, a avaliação empreendida pelo autor conduziu-se dentro da perspectiva de que “infelizmente, ocorre enorme distância entre o desejo e a realidade!”14 Ao procurar estabelecer uma leitura cética em relação à maneira com que a relação entre república e democracia apresenta-se ao redor dos sistemas que adotaram tal regime, dentre eles o Brasil, Ferrer, a partir de uma leitura e análise que procurou empreender uma visão geopolítica, realizando um recorte a respeito dessas relações no continente americano, constatou que, parte das concepções e representações como a ideia de que república e democracia seria sinônimo de eleições livres, maior distribuição de renda, progresso econômico e leis que protegessem a liberdade dos indivíduos, não se efetivou, na prática, em muitas das repúblicas americanas de norte a sul do continente.

Muitas vezes tal discurso, que se encontrava irradiado através da política externa americana materializada na doutrina Monroe, na verdade, a partir da avaliação do autor do artigo, podia ser percebida muito mais a nível do discurso do que na prática, seja através da maneira como o poder era executado nos EUA que, muitas vezes, ao invés de defender a liberdade do povo, governava para um número especifico de americanos, além de apresentar, através da referida doutrina, um mecanismo pelo qual, sob a desculpa da defesa dos interesses americanos, destitui governos e age de maneira imperialista em toda a América.

As avaliações produzidas por Ferrer, a partir do seu exercício intelectual que foi o de construir um longo e abrangente artigo com o qual dialogava sobre aspectos da geopolítica e da teoria política, procurando examinar a influência americana e o seu poder imperialista, além de reconstruir concepções idealizadas a partir do sistema político, apontando que tais perspectivas só poderiam ser reordenadas na medida em que a eleições fossem realmente livres e o progresso econômico estivesse relacionado com uma maior distribuição de renda e defesa das liberdades.

De alguma maneira, as críticas efetivadas pelo Ferrer inserem-se numa tradição de alguma forma inaugurada por Eduardo Prado no livro: A ilusão americana, no qual ele fazia uma dura crítica ao nascente imperialismo norte-americano. Uma diferença, que é importante ponderar, reside no fato de que, ao contrário do pensador paulista que era monarquista convicto, o Dr. Ferrer identificava-se com o ideário republicano, porém ambos podem ser inseridos dentro de uma concepção que se identifica, através da crítica ao imperialismo norte-americano, ao nacionalismo. É possível perceber isto, observando a forma como o maçom encerra o seu artigo, evidenciando que um dos nossos problemas seria o caráter vacilante e fraco, sem patriotismo. Ao evidenciar a falta de tais aspectos, a solução está posta nas entrelinhas, a de fortalecer o nacionalismo e combater a corrupção que grassava a nação brasileira, a impedindo de viver plenamente a conexão entre república e democracia.

Neste processo de comportar-se na qualidade de sociedade de pensamento, a partir da ação intelectual, mas também de uma atitude prática, a maçonaria, mesmo com a ascensão de outros personagens importantes no interior do debate público e político brasileiro, procurava apresentar-se como uma alternativa viável no processo de transformação para a nossa sociedade. Neste tocante, o artigo eleições e maçonaria, procurava capturar, no interior dos projetos possíveis de transformação política para o Brasil, a necessidade de eleger irmãos maçons, quando estes se apresentassem na qualidade de candidatos. Ao defender tal proposição, podemos perceber que a preocupação com a política, na prática, continuava a ser uma das legendas promovidas pela maçonaria. A justificativa para tal envolvimento, orientava-se dentro do princípio de que a própria maçonaria, enquanto instituição, constituía-se num espaço privilegiado de formação moral e de caráter identificados com os princípios liberais, que na avaliação do autor constituíam-se num remédio importante para combater os partidarismos estéreis e as paixões que não conseguem produzir uma nação que se desenvolva.[15]

Ao colocar-se na condição de alternativa para combater os desvirtuamentos que faziam com que o Brasil não trilhasse o caminho de desenvolvimento, a que ele estaria predestinado, os maçons, através dos seus intelectuais, procuravam na verdade propor uma outra história e possibilidade, colocando-se, desta forma, na qualidade de uma instituição que poderia ser compreendida como um agente histórico possível de transformar a realidade nacional. Tal discurso apresenta uma contraposição à tese defendia por Buarque de Holanda, ao sinalizar que, com a República, a maçonaria teria deixado de existir, no sentido de não propor uma avaliação ou projetos para a nação. O que percebemos nos artigos abordados pelos articulistas intelectuais é que o Brasil e sua realidade ainda se encontrava no seu horizonte institucional.

A política não se constituía um dos únicos meios, na avaliação dos intelectuais maçons que colaboravam para o progresso da jovem república sul-americana, e cujas ideias se encontravam expostas nas páginas do Archivo Maçonico. A preocupação com a educação num país que, nos anos iniciais do século XX, possuía ainda altas taxas de analfabetismo, além de uma frágil estrutura organizacional do ponto de vista das escolas. É importante pontuar que a educação era compreendida pelos intelectuais maçons como possibilidade real de transformação, uma vez que seria possível, através do conhecimento, construir uma sociedade menos desigual.

Ao apresentar uma importante visão a respeito da realidade educacional do Brasil das décadas iniciais do século XX, Alfredo Freire publica uma conferência que tinha proferido no teatro de Santa Isabel, na cidade do Recife, por conta da comemoração de aniversário da Revolução de 1817. Mesmo sem figurar como data magna no Estado e a sua bandeira ainda não havia sido oficialmente escolhida para representar o estado de Pernambuco, o movimento conhecido como revolução dos padres, congregava uma forte carga simbólica, por ter sido, na visão e versão histórica produzida pelo maçons e até mesmo reconhecido pela historiografia não maçônica, enquanto um movimento inspirado e que teve a participação de personagens maçônicos, que se utilizaram inclusive das redes de sociabilidades promovidas pelas lojas para amadurecer o movimento.

A escolha da data não era fortuita, uma vez que pensar a instrução primária e defender a necessidade da educação constituía-se, como já destacamos, numa bandeira importante para o ideário maçônico no contexto republicano, do ponto de vista intelectual e prático, uma vez que as ações de patrocínio de escolas e bibliotecas representava um importante modelo no interior do conjunto de ideias defendido pela maçonaria para o desenvolvimento humano e social.

Para Alfredo Freire, somente através da educação seria possível construir um processo de qualificação da república, uma vez que com o desenvolvimento de indivíduos mais educados que tivessem acesso à escola, as escolhas políticas seriam melhor realizadas, pois com acesso ao conhecimento colaboraria para impregnar “o espirito de nossos filhos, futuro eleitores, de intelligencia que os habilite a votar com acerto”.[16]

Ao demonstrar o possível papel transformador da educação, o intelectual pernambucano apresentava de forma comparativa o atraso do Brasil no processo de fundação de escolas, para ele instrumento essencial para combater as trevas da ignorância, pois a sua permanência só colabora para que a república se dissolva numa “desastrosa decepção”.[17]

Ao apresentar as dificuldades na estruturação de uma nação livre e desenvolvida, onde a preocupação por parte do estado se materialize com um forte processo de fundação de escolas, sobretudo aquelas voltadas a garantir o acesso dos brasileiros as primeiras letras, compreendido pelo educador pernambucano como o primeiro degrau neste processo de instrução em massa, será, na avaliação de Alfredo Freire, muito difícil que o país consiga desenvolver-se e ter posição de destaque no concerto das nações ocidentais. Para Freire, o fomento à educação primária seria condição indispensável para a consolidação de uma república de fato e uma nação desenvolvida.

As intervenções promovidas pelos intelectuais maçons, vinculados ao Archivo Maçonico, não tratavam apenas de temas que se relacionavam à política, desenvolvimento da nação e à importância da educação, bandeiras que poderiam circunscreverem-se dentro de um campo intelectual, a partir da intervenção das análises efetuadas ao longo deste artigo, como da defesa de princípios liberais e democráticos.

No campo dos costumes parece que essa identificação que poderia ser identificada numa perspectiva mais progressista, parecia que não se materializava com a mesma proporção, quando o assunto era o feminismo. Em artigo publicado na edição do mês de maio de 1912, o colaborador do Archivo Maçonico, o reconhecido intelectual Mario Melo, historiador, jornalista e membro de várias entidades cientificas e culturais, possuía uma leitura a respeito deste movimento extremamente crítico, atacando-o por considerá-lo como desarticulador dos supostos papéis existentes entre homens e mulheres. Neste sentido é possível percebermos os limites que o ideário da defesa das liberdades condensava, pois pelo que é possível entrever nos argumentos do ilustre intelectual pernambucano, a liberdade e igualdade, divisas formadoras da maçonaria ocidental, parecia que se aplicava apenas aos homens.

A visão cultivada por Mario Melo inseria-se dentro da perspectiva patriarcal que orientava a formação intelectual e as sensibilidades masculinas, atitude que ainda perpassa a nossa sociedade. A visão de feminino defendida pelo autor do artigo é a de que o seu espaço de atuação devia ser o do recolhimento ao lar, desempenhando as suas funções, quase que nas entrelinhas percebendo que seus argumentos se sustentavam dentro de uma concepção essencialista, onde as mulheres teriam características que, apesar de serem sociais, seriam quase que da sua natureza, no sentido de que elas nasceriam com tais atribuições pois, para Mario Melo:

Que encantos para nós teria a mulher – obra prima do criador – no dia em que os papeis se mudássemos e fossêmos obrigados a cuidar dos interesses da cozinha, remendar as vestes, acalentar os filhos, quando nossas mães, nossas espôzas, nossas irmãs abandonassem o lar para comparecer a um comício ou sair em excursão eleitoral?[18]

A postura do intelectual pernambucano denota, de maneira evidente, as concepções que havíamos anteriormente abordado e que se encontravam sintonizadas com uma visão idealizada do que deveria ser a mulher e quais as suas reais atribuições, inclusive destacando quando avançamos mais na leitura do seu artigo de que as concepções promovidas pelo feminismo, ideologia que avançava em vários países do mundo ocidental, e Mario Melo não deixa de denunciar tal expansão, colaboravam para que os supostos laços e papéis socioculturais desempenhados pelas mulheres fossem corrompidos.

Pelo que pudemos perceber, a leitura que o intelectual maçom realizava sobre as transformações incentivadas pelo ideário feminista dissolveriam uma realidade conservadora no interior das relações humanas que incidiam diretamente sobre as fórmulas que se encontravam estabelecidas. Nesta perspectiva, a defesa do ideário liberal não conflitava completamente, com tais argumentos, partindo do princípio que parte deste campo intelectual no qual a sensibilidade de Mario Melo e outros maçons movimentava-se pode ser localizado dentro da tradição conservadora liberal que, no tocante a questões relacionadas à moral, não avançava de maneira profunda como em outras dimensões da experiência humana.

Considerações Finais

Como foi possível acompanhar ao longo do texto, diferente do que foi posto pela historiografia de maneira geral, mesmo a partir do advento da República a maçonaria, através dos seus intelectuais que atuavam tanto no interior das lojas quanto através dos debates promovidos por estes recintos ou na imprensa mais ligada à maçonaria, seja no espaço público, identificado por eles como profano. Travaram debates intensos sobre questões que agitavam a sociedade brasileira e passavam por temas que se relacionavam à política, educação, questão social e costumes.

A crença destes intelectuais relacionava-se à compreensão de que a maçonaria possuía uma função social, uma vez que se constituía, enquanto uma sociedade que tinha se forjado no processo de construção de valores consagrados pela modernidade, como a defesa das liberdades e a compreensão de que somente através do exercício do conhecimento seria possível a construção de uma sociedade desenvolvida, não deixando de tal forma de vincular-se a utopia moderna de progresso social.

Autor: Augusto César Acioly Paz Silva

Fonte: REHMLAC

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Notas

[1] – Alexandre Mansur Barata, Maçonaria, sociabilidade ilustrada e independência do Brasil (1790-1822) (Juiz de Fora, São Paulo: Editora UFJF, Annablume, Fapesp, 2006), 1-338. Alex Moreira Andrade, A maçonaria no Brasil. 1863-1901. Poder, cultura e ideias (São Paulo: Annablume, 2006), 370.

[2] – Moreira Andrade, A maçonaria no Brasil.

[3] – Maurice Agulhon, “As sociedades de pensamento”, en Michel Volvelle, França Revolucionária (1789-1799) (São Paulo: Brasiliense, Secretaria de Estado da Cultura, 1989).

[4] – Michel Goulart da Silva (Org.), Maçonaria no Brasil: história, política e sociabilidade (Jundiaí, São Paulo: Paco Editorial, 2015). Marco Morel e Françoise Jean de Oliveira Souza, O poder da maçonaria: a história de uma sociedade secreta no Brasil (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008).

[5] – Luiz do Nascimento, História da imprensa em Pernambuco (1821-1954). Vol. 7, Periódicos do Recife: 1901-1915 (Recife: Universitária, 1975), 192-193.

[6] – Tânia Regina Luca, “História dos, nos e por meio dos periódicos”, en Carla Bassanezi Pinsky (org.), Fontes históricas (São Paulo: Contexto, 2005).

[7] – Marco Morel, As transformações dos espaços públicos: imprensa, atores políticos e sociabilidades na cidade imperial (1820- 1840) (São Paulo: Editora Hucitec, 2005).

[8] – Termo maçônico utilizado para referir-se a tudo que não se encontra vinculado institucionalmente a maçonaria.

[9]Archivo Maçonico, “Protestemos!” (1906): 3.

[10]Archivo Maçonico, “Protestemos!” (1906): 3-7

[11] – “Protestemos!”, em Archivo Maçonico, (1906): 3-7

[12] – Caetano Andrade, “Política e Maçonaria”, Archivo Maçonico, no.18 (1908): 19-23.

[13] – José Simões Coelho, “O papel social da Maçonaria”, Archivo Maçonico, no. 59 (julho de 1911): 28-29.

[14] – Dr. Ferrer, “Democracia e República”, Archivo Maçonico, no.59, (julho de 1911): 29-32.

[15] – “Eleições e Maçonaria”, Archivo Maçonico (1912): 3-5.

[16] – Alfredo Freyre, “A Escola Primária (conferencia cívica realizada no teatro de Santa Isabel em 6 de março de 1912)”, Archivo Maçonico, no. 68 (1912): 10.

[17] – Freyre, “A Escola Primária…”, 11.

[18] – Mario Melo, “O feminismo”, Archivo Maçonico, no. 69 (maio de 1912): 5-7.

Fontes documentais e bibliografia

Archivo Maçonico. “Protestemos!”. 1906.

Andrade, Caetano. “Política e Maçonaria”. Archivo Maçonico, no. 18, 1908.

Coelho, José Simões. “O papel social da Maçonaria”. Archivo Maçonico, no. 59, julho de 1911.

Ferrer, Dr. “Democracia e República”. Archivo Maçonico, no. 59, julho de 1911.

Archivo Maçonico. “Eleições e Maçonaria”. 1912.

Freyre, Alfredo. “A Escola Primária (conferência cívica realizada no teatro de Santa Isabel em 6 de março de 1912)”. Archivo Maçonico, no. 68, 1912.

Archivo Maçonico. “Imposto de profissão”. no. 68, abril 1912.

Melo, Mario. “O feminismo”. Archivo Maçonico, no. 69, maio de 1912.

Bibliografia

Agulhon, Maurice. Pénitents et Francs-maçons de l’ancienne Provence: essair sur la sociabilité meridionale. París: Fayard, 1984.

Agulhon, Maurice. “As Sociedade de Pensamento”. França Revolucionária (1789-1799). Michel Volvelle. São Paulo: Brasiliense, Secretaria de Estado da Cultura, 1989.

Bloch, Marc. Apologia a História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

Casali, Alípio. Elite intelectual e restauração da Igreja Católica. Petrópolis: Vozes, 1995.

Ferrer Benimeli, José Antonio. El contubérnio Judeo-Masónico-Comunista. Del Satanismo al escándalo de la P-2. Madrid: Ediciones ISTMO, 1982.

Ferrer Benimeli, José Antonio, G. Caprile, V. Alberton. Maçonaria e Igreja Católica: ontem, hoje e amanhã. Trad. Valério Alberton. São Paulo: Paulinas,1983.

Ferrer Benimeli, José Antonio. La masonería. Madrid: Alianza Editorial, 2005.

Girardet, Raoul. Mitos e mitologias políticas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

Goulart da Silva, Michel. (Org.). Maçonaria no Brasil: história, política e sociabilidade. Jundiaí, São Paulo: Paco Editorial, 2015.

Kofes, Suely. Dilemas da Maçonaria Contemporânea: um experimento antropológico. Campinas, São Paulo: Editora Unicamp, 2015.

Luca, Tânia Regina. “História dos, nos e por meio dos periódicos”. Fontes históricas. Carla Bassanezi Pinsky. São Paulo: Contexto, 2005.

Mansur Barata, Alexandre. Maçonaria, sociabilidade ilustrada e independência do Brasil (1790-1822). Juiz de Fora, São Paulo: Editora UFJF, Annablume, Fapesp, 2006.

Moreira Andrade, Alex. A maçonaria no Brasil. 1863-1901. Poder, cultura e ideias. São Paulo: Annablume, 2006.

Morel, Marco. As transformações dos espaços públicos: imprensa, atores políticos e sociabilidades na cidade imperial (1820-1840). São Paulo: Editora Hucitec, 2005.

Morel, Marco, Oliveira Souza, Françoise Jean de. O poder da maçonaria: a história de uma sociedade secreta no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

Nascimento, Luiz do. História da Imprensa em Pernambuco (1821-1954). V. 7: Periódicos do Recife: 1901-1915. Recife: Universitária, 1975.

Ribeiro Francisco, Renata. A maçonaria e o processo de abolição em São Paulo. São Paulo: Tese (Tese de História), Universidade de São Paulo, 2018.

Uma loja maçônica não é uma tertúlia (Parte II)

De tertulias y tertulios, 1 | Letras Libres

Dois grandes fatores de distinção entre uma tertúlia e uma loja maçônica são o objetivo e forma da intervenção de cada um. Numa tertúlia as intervenções sucedem-se, e cada um vai tomando a palavra repetidamente tantas vezes quantas queira (ou lho permitam…), sucessivamente acrescentando ao que disse antes, refutando os argumentos deste ou daquele, e fortalecendo – ou alterando – a sua posição de cada vez que se dirige aos demais. Cada um vai tentando fazer prevalecer a sua posição através de argumentos e contra-argumentos ao que foi dito antes, esperando-se que, a partir de um certo ponto, se tenha atingido um equilíbrio em que já tudo foi dito e cada um (re)construiu já a sua posição face ao assunto em debate.

Numa loja maçônica, porém, as coisas não poderiam ser mais diferentes. Começa por que, no que respeita cada assunto, cada um pode fazer apenas uma única intervenção – e só muito excepcionalmente poderá fazer uma segunda, sempre muito curta, e apenas se absolutamente impreterível, como por exemplo para clarificar algo que não tenha sido dito da forma mais inteligível. Esta imposição obriga a que se tenha um cuidado multiplicado com aquilo que se diz, de forma a dizê-lo bem à primeira.

Há uma ordem estrita a ser seguida. Primeiro começa-se pelas colunas (do Sul e do Norte), para que os mestres maçons que aí se sentam possam, querendo, pedir a palavra. Depois de não haver mais pedidos de intervenção, os dois Vigilantes podem pedir a palavra para si mesmos, primeiro o 2º Vigilante e depois o 1º Vigilante. É então dada a indicação de que não há mais intervenções nas colunas, e esta passa ao Oriente, onde residem o Venerável Mestre, o Secretário, o Orador, o ex-Venerável e eventuais visitas a quem tenha sido dada essa distinção. A palavra é dada, no Oriente, a quem quiser dela fazer uso, e o Venerável Mestre é o último a intervir. Caso esteja em causa uma decisão, esta poderá ser tomada pelo Venerável Mestre de imediato, ou este poderá consultar a Loja através de uma votação. De qualquer modo, a intervenção do Venerável Mestre deve ser sempre no sentido de procurar encontrar uma conclusão que seja harmoniosa para a loja, e com que a maioria se identifique.

Para além da forma, já exposta, há o objetivo. Idealmente, cada intervenção destinar-se-ia a que cada um, na medida em que considerasse ser isso útil, apresentasse a sua posição ou opinião a respeito do assunto em causa, e sem que o seu conteúdo fosse condicionado por ser a primeira ou a última intervenção a ser efetuada. O que se diz não deve ser dirigido a ninguém em particular, mas a toda a Loja, e não deveria sequer referir-se alguma intervenção anterior, mas apenas fazer-se referência ao tema que esteja em discussão. Não deve haver interpelações, refutações ou contraditório, uma vez que isso colocaria em desvantagem aquele que já fez a sua intervenção e não pode agora responder. Pretende-se, assim, que cada um possa dar a conhecer a sua posição, sem que tente impô-la aos demais, e sem que explicitamente contrarie alguma posição já exposta, e por outro lado que cada um tenha a oportunidade de ser confrontado com opiniões alheias – porventura distintas das suas – num tom e numa postura que não ameacem a posição com que cada um se identifica.

A Maçonaria cria, deste modo, um contexto que induz cada um a confrontar-se com opiniões e posições distintas da sua, num ambiente de boa fé, entre iguais, sem que ninguém possa impor a ninguém nenhuma obrigação, mas em que cada um possa, querendo, tomar para si as palavras do outro, seja como as recebeu seja na forma que as queira incorporar naquilo que constitui a sua identidade.

Por fim, é costume – se bem que não creia haver nenhuma regra escrita a esse respeito – serem públicos os louvores e privados os reparos. Quando um bom trabalho é apresentado, é frequente que, nas palavras proferidas por cada um, sejam manifestadas palavras públicas de louvor e de encorajamento. Quando, porém, foi dito algo passível de ser interpretado como menos bom ou menos correto, a correção fraterna – que raramente falha – surge quase sempre em voz baixa diretamente ao ouvido do “prevaricador”. A franqueza e honradez manifestadas, de mão dada com a genuína preocupação que os maçons têm uns com os outros, levam a que seja frequente surgirem amizades muito fortes entre irmãos da mesma loja – e mesmo entre irmãos de lojas diferentes. A este respeito não me sai da cabeça uma frase que li há tempos numa entrevista em que alguém dizia: “A maçonaria é a única organização em que se faz amigos de infância aos 40 anos”. Não sei se é a única, mas que se faz, faz.

Autor: Paulo M.

Fonte: Blog A Partir Pedra

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Uma loja maçônica não é uma tertúlia (Parte I)

A última tertúlia - Homem de Palavra

“Tenho um grupo, que com as vicissitudes da vida se foi afastando, mas que durante uns bons 15 anos formou uma tertúlia que se encontrava quase todos os dias. Tivemos incontáveis debates e polêmicas. Aprendemos todos muito uns com os outros. Hoje, ainda continuamos todos amigos. Não há necessidade de proibições no que toca a troca de ideias.” (Diogo, num comentário recente)

Este comentário explica, quase por si mesmo, porque é que uma Loja Maçônica não é – nem pode ser – uma tertúlia. Ora comecemos, como quem analisa, escrutina e disseca um texto numa aula de Português.

Ter um grupo “… que com as vicissitudes da vida se foi afastando…” é uma das coisas que se pretende evitar numa Loja. Pertencer a uma Loja é como que um casamento. Não é forçosamente para toda a vida, pode-se ter “outras” ao mesmo tempo (se bem que seja difícil de gerir) mas, mesmo quando isso acontece há sempre uma que é a “principal”; pode-se cortar os laços com essa, e ou arranjar outra “principal” ou mesmo passar a não ter nenhuma, mas ambas são situações dolorosas. Uma Loja é como que uma família. Uns nascem, outros morrem, mas a família é a mesma – se não se extinguir; numa Loja, são iniciados uns, adormecem ou partem para o Oriente Eterno outros, mas a Loja permanece – se não abater colunas. Há lojas várias vezes centenárias, e esse vínculo a algo que existia antes de nós e continuará a existir depois é uma das coisas boas que a Maçonaria nos proporciona; ao mesmo tempo que nos reduz à nossa pequenez de meros “passadores de testemunho” dá-nos a satisfação de saber que pertencemos a essa cadeia de continuidade.

Pertencer a um grupo “…que se encontrava quase todos os dias” deve ser algo de muito exigente, e pouco consentâneo, suponho, com os deveres conjugais, laborais e parentais. Claro que isso é questão que só se põe a quem esteja sujeito a esses deveres… Por outro lado, encontros diários não serão, como dizia Shakespeare, “too much of a good thing”? Não terão esgotado em 15 anos conversa que dava para uma vida inteira? Em contraste, a maçonaria alerta os seus membros de que os seus principais deveres são para com a família, para com o Criador (qualquer que seja a conceção que dele se faça), e para com o país; a maçonaria vem depois.

Dizer-se, ao fim de 15 anos, que “ainda continuamos todos amigos” implica ter-se começado por aí: pela amizade enquanto vínculo genitor. Ora, quando se ingressa uma loja é-se integrado num grupo de desconhecidos; as amizades que surjam são paralelas ao grupo, não são condição prévia do mesmo. Os nossos amigos são pessoas que nós conhecemos e cujo contato decidimos manter e aprofundar, e com quem nos identificamos mais; numa loja, pelo contrário, não se escolhe nada; um pouco como a família  do cônjuge, fica-se com o que nos calha na rifa. A um amigo perdoa-se mais, aceita-se mais e tolera-se mais do que a um desconhecido; por isso, as regras e os pressupostos de uma loja e de um grupo de amigos não podem deixar de ser diferentes, pois que numa loja a diversidade é maior do que num grupo de amigos.

Tertúlias como aquela de que o Diogo fala são próprias da adolescência e da juventude. Nos debates, frequentemente acesos, cada um tenta marcar a sua posição, convencer os demais, ensinar e impor o seu ponto de vista. Contudo, é normal que os seus membros, uma vez “crescidos”, tendo adquirido a sua própria individualidade e identidade fora do grupo, se afastem progressivamente; é normal que haja menos disponibilidade para um contato tão íntimo e envolvente, para uma exposição tão prolongada, para um desnudar-se tão profundo – até porque as ideias se vão cimentando e há cada vez menos temas novos a debater sem que o resultado do debate esteja determinado a priori. Assim, a maturidade acaba por estabelecer o limite. Em loja, pelo contrário, o objetivo não é “converter” ninguém a um determinado ponto de vista, mas permitir que cada um encontre o seu.

Autor: Paulo M.

Fonte: Blog A Partir Pedra

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

O desvio

Resumos de artigos científicos: inspire-se em exemplos prontos

Certamente, a “presença” nas mídias sociais não pode ser interpretada como um indicador do nível intelectual de um grupo, seja formal ou informal, mas pode fornecer pistas sobre o que é considerado importante e aceitável para aquele grupo. Ou, pelo menos, para os executores das regras autoimpostas na plataforma de mídia social.

Sou membro de vários grupos, em diferentes meios de comunicação social, que se autodenominam “maçônicos” – todos eles interpretando essa afiliação de maneiras diferentes. Para a maioria de nós, isso é bastante normal, já que qualquer pessoa vagamente familiarizada com este tópico está ciente de que a Maçonaria “universal e monolítica” em todo o mundo é um mito (principalmente perpetuado por conspiradores antimaçônicos e maçons ignorantes também). Em vez disso, o que temos são muitos sabores e estilos e “ritos” da Maçonaria. Antigamente, uma coisa era comum a todos eles, a saber, a sede de conhecimento – buscar a “luz” na linguagem maçônica do Iluminismo – que estava de acordo com a busca humana universal de conhecer os mistérios ocultos da natureza e da ciência. .

Há alguns anos, tive o privilégio de apresentar em uma de minhas lojas favoritas uma palestra sobre nossa herança racional e científica na Maçonaria. O fato de que na mítica (e principalmente perdida) história passada da Ordem as raízes religiosas, mais exatamente cristãs, fossem elementos definidores, ninguém pode negar. As teorias de origem mais aceitas, aludindo a guildas medievais, incorporações, peças de mistério, todas apontam para aspectos religiosos cristãos. Não deveria ser uma surpresa, porque sabe-se que por muitos séculos a única estrutura intelectual-espiritual aceita e aceitável na Europa costumava ser o cristianismo. Exclusivamente católico romano no início, e ampliando mais tarde para abranger também as interpretações protestantes. Na palestra acima mencionada argumentei que paralelamente a essa herança, havia e ainda existe outra linha de “linhagem” intelectual. Começou, talvez, com o método baconiano, passando pela “revolução” científica da Royal Society e pela visão de mundo newtoniana…

Após a institucionalização do sistema da Grande Loja (após 1717), uma das figuras definidoras da Maçonaria inicial, e possivelmente a força principal por trás da introdução do terceiro grau, foi um certo John Theophilus Desaguliers, um colaborador próximo de Newton, que foi conhecido como professor de Filosofia Experimental. Desaguliers e seus primeiros oficiais e ideólogos da Grande Loja empurraram a Maçonaria para um caráter menos cristão, com o objetivo de torná-la um lugar universalmente aceitável para todos os credos e religiões. Este movimento pendular de descristianização e recristianização é uma característica permanente da Maçonaria… nós simplesmente não gostamos de falar sobre isso.

À luz de tudo o que foi escrito acima, pode-se pensar que um texto acadêmico filosófico contemporâneo, discutindo a relação entre religião e ciência, deveria ser de interesse para grupos maçônicos. Assim, quando encontrei no site Academia.edu uma “entrada para a Stanford Encyclopedia of Philosophy”, um artigo de Helen De Cruz, professora sênior de filosofia na Oxford Brookes University, compartilhei com entusiasmo para um grupo maçônico. O título do artigo é RELIGIÃO E CIÊNCIA. Em alguns minutos, ele foi excluído. O motivo, e estou citando o feedback exato recebido dos administradores:

Por favor, mantenha todas as postagens na página sobre ou diretamente relevantes para a Maçonaria sem desvio para tópicos que não fazem parte da Maçonaria como um todo.

Se recomendar um artigo acadêmico para leitura e, eventualmente, discuti-lo, é considerado “desvio” e “não faz parte da Maçonaria”… talvez eu devesse (re)considerar seriamente minhas opiniões sobre esta organização. Ou dos homens que afirmam representá-la.

P.S.: É verdade, não são permitidos debates religiosos e políticos nas Lojas, uma antiga referência às Old Charges, que pretendiam acabar com as discussões sectárias. Discussões acadêmicas entre homens instruídos – dentro e fora da loja – devem ocorrer o tempo todo, como parte de nosso avanço diário no conhecimento.

Autores: Istvan Horvath
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: The Other Mason

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Não se chega muito longe sem uma tribo

Numa galáxia muito, muito distante…

… a ficha de um ex-caçador de recompensas um dia cai!

Pois bem, Sr. Boba Fett.

A sociabilidade sempre fez parte da natureza.

Como disse Aristóteles, a característica específica do homem em comparação com os outros animais é que somente ele tem o sentimento do bem e do mal, do justo e do injusto e de outras qualidades morais, e é a comunidade de seres com tal sentimento que constitui a família e a cidade.” (Política, I, 1253b, 15).

O individualismo pode impor réguas de sucesso e de felicidade. Mas sempre haverá quem questione os limites da ilusão.

É vital não confundir o individualismo materialista com a individuação do sujeito, o processo de se tornar um indivíduo psicológico, uma unidade autônoma, atingir a forma da sua unicidade mais íntima, como ensina Carl Jung, pai da psicologia profunda.

Pelas iniciações sucessivas, o Iniciado mergulha ao interior de si mesmo, de sua pedra bruta, numa rota cada vez mais atômica, visando aperfeiçoamento pessoal.

O Buscador almeja ser ponto.

Mas, pelo agrupamento associativo, o buscador almeja compartilhar saberes e experiências. Isso potencializa seu esforço em sabedoria para romper as fronteiras das dualidades ilusórias impostas. Sua percepção expande em ciclos, rumo ao infinito.

O buscador almeja também ser círculo.

Tudo é símbolo. E sábio é quem lê em tudo, como cunhou Plotino.

E o primeiro dever de todo Iniciado é apurar a interpretação do simbólico. Nesta senda, tal como a beleza da mandala, o Iniciado, em sua jornada, também é um ponto dentro do círculo.

Nessa curiosa correlação, a constatação de Boba Fett, na aridez do deserto de Tatooine[1], confirma o “animal social” proposto por Aristóteles: “não se chega muito longe sem uma tribo”. Descubra a sua.

Autor: Luciano Alves

* Luciano é Mestre Maçom da ARLS Jacques DeMolay n.º 22, do oriente de Belo Horizonte e jurisdicionada à Grande Loja Maçônica de Minas Gerais.

Nota

[1]O Livro de Boba Fett. Criação de Jon Favreau. Estados Unidos, 2021.  45min.  Série exibida pela Disney+. Temporada 1, episódio 4. Acesso em: 26/01/2022.

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Porque se vai à Loja

Nenhuma descrição de foto disponível.

A pergunta sobre as razões por que os maçons vão à Loja, gastando tempo que, não fora essa utilização, dedicariam à sua família, ao lazer ou a outras atividades a que se dediquem, tem tantas respostas quantos os maçons. Em boa verdade, cada um tem as suas razões para ir à Loja.

Uns vão em busca do conhecimento, dos ensinamentos que a Maçonaria proporciona.

Outros buscam o convívio, rever os seus Irmãos, com eles estar e partilhar um ágape, em amena cavaqueira.

Outros ainda procuram na Loja a estrutura que corresponde aos seus anseios de serem úteis à Sociedade e aos seus semelhantes, utilizando a Loja como meio de enquadramento da sua vontade de devolver à Sociedade um pouco do que esta lhes proporciona.

Também há os que vão à Loja simplesmente cumprir o seu dever de maçons, assegurar o cumprimento das obrigações que assumiram, efetuar as tarefas cuja execução assumiram.

Há também aqueles que, na Loja, no seu espaço, nos seus símbolos, no seu ritual, encontram espaços e tempos de comunhão com o Divino, com o Transcendente.

E existem também aqueles que anseiam por uns momentos de simples e pacata Paz, que procuram a companhia de seus Irmãos e a sua estada no espaço do Templo com confiança, encontrando um oásis de segurança e comunhão, que os compensam das agruras, dos desafios, da tensão da sua vida do dia a dia.

E outros buscarão coisas e estados e espaços diferentes.

O que a Loja tem afinal, de extraordinário, é uma infinita capacidade de proporcionar a cada um o porto de abrigo, o espaço de segurança, o caminho de busca, o tempo de convívio, a estrutura de atividade ou contemplação ou investigação ou busca que cada um necessita.

O que, no fundo, a Loja é, é um espaço de suprema Liberdade e Tolerância, em que cada um pode realizar-se e deixar os outros realizar-se, cada um à sua maneira e segundo as suas características e necessidades. É um espaço de cooperação, em que cada um contribui para a realização e melhoria dos outros, beneficiando ele próprio do contributo dos demais. É um ponto de encontro, simultaneamente ponto de partida e encruzilhada de variegados interesses individuais, que constituem um rico interesse coletivo. É a bissectriz do individual e do coletivo, de tal forma equilibrada que permite que ambos cresçam e cooperem e mutuamente se alimentem. É, em suma, a Utopia possível, a concretização do inconcretizável, equilíbrio instavelmente estável de múltiplos interesses e egoísmos, numa matriz que a todos enquadra satisfatoriamente. É um delicado bordado de mil linhas e infinitas cores, executado por inúmeras mãos, extraordinariamente resultando numa harmoniosa composição. É tudo isto e ainda mais o que cada um quiser, desde que respeite os interesses e anseios dos demais e do conjunto por todos constituído.

Esta singular plasticidade da Loja faz dela um duradouro cimento que une homens de diferentes temperamentos, de diversas gerações, de divergentes culturas, de separadas religiões, de conflituantes convicções, gerando laços de solidariedade e confiança que imutavelmente duram há centenas de anos.

É por isso que sempre se marca bem, sempre da mesma forma, sempre com o mesmo ritual, a abertura dos trabalhos, delimitando invisível mas sensivelmente o espaço e o tempo e a cumplicidade da Loja e dos seus elementos em relação a tudo e a todos que lhes é exterior. É por isso que, findos os trabalhos, de novo, sempre e da mesma forma, se executa um ritual de encerramento, que marca o fechar e preservar desse espaço e tempo e cumplicidade próprios e exclusivos, preparando cada um para voltar a atuar no mundo exterior, só que mais forte, mais sabedor, mais capaz de ver beleza onde o olhar comum nada de especial vê.

A Loja é um espaço onde cada um dá o que pode e vai buscar o que necessita.

É por isso que cada um sabe porque vai à Loja e, afinal, existem tantas razões para um maçom ir à Loja como maçons existem à face da Terra.

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

%d blogueiros gostam disto: