A Maçonaria Operativa e o seu trabalho – Parte II

Labirinto da Catedral de Chartres, França.

O simbolismo nas catedrais góticas

Este trabalho apresenta a atuação dos maçons operativos, os artífices da cantaria e a colocação em prática de todo o estudo matemático e filosófico para o desenvolvimento do pedreiro livre que atuava nas guildas, também destaca o simbolismo praticado nas construções dos grandes templos, desde os fundamentos até o acabamento das obras e que ficou de herança para observação depois da construção das catedrais góticas que são um exemplo de trabalho dos construtores da chamada baixa Idade Média na França do século XII.

3 – O trabalho do maçom operativo

Qual a finalidade das construções tão bem traçadas, o que significa cada elemento da fachada das catedrais, os vitrais que inundam as igrejas de luz e cores tinham um significado mais profundo dentro de uma filosofia oculta, quais ferramentas foram empregadas, como estes trabalhadores livres iniciaram obras tão belas, difíceis e de longa duração e mantiveram a exatidão dos trabalhos para a sagração de um templo com requintes fortes e uma engenharia tão complexa, ao longo deste trecho vamos observar tudo isto e aprofundar a visão do maçom operativo, como este homem se fortalecia ao mesmo tempo em que mantinha o foco em uma construção tão imponente.

Podemos contar com o manuscrito de Villard de Honnecourt da Picardia, na França escrito no século XIII (FILHO, 2005). Honnecourt, foi um importante mestre pedreiro e ele deixou documentos registrados sobre o trabalho de construção das catedrais góticas, ainda hoje seus trabalhos são estudados por historiadores para entender como a arte da cantaria se desenvolveu na Europa, especialmente na França construção com tamanha perfeição e dotada de elementos que passam informações que mesmo aparentes, estão ocultas dos olhares profanos, cabendo o entendimento somente para aqueles iniciados na arte real, é impressionante o requinte de instruções que Villard organizou, tudo baseado na geometria, arquitetura, estereotomia [1], geometria aplicada, mnemotécnica [2], companheirismo e em outros elementos importantes para os maçons operativos da época das grandes construções na França durante a baixa Idade Média em torno já do século XIII onde as grandes catedrais se proliferam por toda a Europa.

Fica evidente que o estudo para a confecção das obras é de grande qualidade e a intenção é de elevação da mentalidade dos iniciados nestas guildas, eles estão praticando na verdade uma retomada de orientações da geometria que era uma tradição da antiguidade clássica, com isto tentam fazer uma ligação do céu com a terra ao buscar a harmonia com as leis da natureza, tentando aplicar sempre uma linguagem simbólica em suas construções, nada é feito por acaso existe ali uma transmutação humana, em uma alusão aos estudos da alquimia para a busca de uma perfeição que pode ser inserida na arquitetura para os desígnios de Deus o Grande Arquiteto, mas para sua evolução, onde a própria igreja em suas diferentes ordens propõe o estudo para o entendimento do mundo.

E foi com o compasso que o próprio Deus veio a ser representado na arte e literatura gótica, na qualidade do Criador que compôs o universo segundo as leis geométricas. É apenas observar essas mesmas leis que a arquitetura se torna uma ciência no sentido agostiniano. E ao submeter-se à geometria, o arquiteto medieval sentiu que estava a imitar a obra do seu divino mestre (SIMSON, 1991, p. 50).

Existia o entendimento que os maçons operativos com seus estudos poderiam aplicar na dimensão terrestre a dimensão celestial, usando as leis da natureza, manifestando na materialidade teriam como desenvolver a geometria sagrada aquela que poderia ser observada na construção de tudo que estava disposto no universo em que vivemos, assim poderiam entender melhor suas razões e buscar sua evolução, não para contrariar, mas para dignificar o Grande Arquiteto, mostrando que o avanço da sua construção era a vontade de seu criador mantendo uma simetria, proporção e um sentido criado anteriormente para que o pedreiro pudesse seguir aprendendo.

A ciência do arquiteto é ornada de muitas disciplinas e de vários saberes, estando a sua dinâmica presente em todas as obras oriundas das restantes artes. Nasce da prática e da teoria. A prática consiste na preparação contínua e exercitada da experiência, a qual se consegue manualmente a partir da matéria, qualquer que seja a obra de estilo cuja execução se pretende. Por sua vez, a teoria é aquilo que pode demonstrar e explicar as coisas trabalhadas proporcionalmente ao engenho e à racionalidade […] A geometria, por sua vez, proporciona à arquitetura muitos recursos. Em primeiro lugar, logo a seguir às linhas retas, ensina o uso do compasso, com o qual se efetuam muito mais facilmente as representações gráficas dos edifícios nos seus próprios locais, juntamente com a ajuda dos esquadros, dos níveis e dos direcionamentos de linhas. Em segundo lugar, porque, através da óptica, se orientam corretamente os vãos de iluminação nas construções, a partir de determinadas zonas da abóbada celeste. E, por último, porque, através da aritmética, se calculam as despesas dos edifícios, se define a lógica das medidas e se encontram soluções para as difíceis questões das comensurabilidades através da lógica e de métodos geométricos (VITRÚVIO, 2008, p. 63).

Deste modo o mestre construtor partia para o trabalho onde seguia algumas etapas dominadas por ele, aplicando assim conceitos de geometria plana, estudo de astronomia, alquimia e matemática aplicada, iniciava com a escolha do local e depois de organizar o espaço partia para a delimitação de um eixo vertical, seria importante colocar um mastro e com isto seria delimitado um círculo, para delimitação do espaço sagrado de construção, podemos notar aí o ponto e o círculo como um elemento importante de uso no canteiro de construção, logo depois seria o momento de usar os elementos da natureza para a marcação da obra, usando os pontos cardeais.

É importante entender que a orientação para a delimitação era feita com o uso do sol, o rito solar de característica da alquimia indica uma ação celeste para uso do terrestre, aí está a necessidade de dominar as datas de solstícios e equinócios, os dias mais longos para a delimitação da sombra no mastro, dando as indicações dos eixos da obra, no sentido Leste para Oeste desde o nascer do sol se marca o ponto decumanus [3] quando projeta a sombra no mastro até o círculo delimitado, durante o zênite na Europa o sol projeta a sombra para o Norte promovendo assim a formação do cardus [4], indicando assim os eixos de ligação e o ponto zero da obra.

Depois de criar a orientação espaço tempo o mestre partia para a delimitação dos padrões das bases, fazendo direto no chão os riscos e depois indicando com linhas os quadrados geométricos para a colocação dos pilares da catedral, iniciando pelo quadrado celeste e depois o quadrado terrestre, isto levava a uma organização de módulos geométricos que seriam riscados na prancha de delinear do mestre da obra para depois colocar os pedreiros nos diferentes setores do trabalho, a orientação deste evento era constante e deveria seguir uma filosofia, era Theo tocando o Caos e gerando a ordem, designando a figura do cosmos para a contemplação do homem.

Durante todo o processo de elevação do espaço os construtores eram instruídos e assim a guilda ia se organizando e novos pedreiros eram recebidos nos locais de trabalho, uma obra deste porte demorava muitos anos para ser concluída, obviamente os que ali passavam e se destacavam eram aos poucos instruídos e ganhavam mais espaços, podendo até ensinar novos aprendizes, assim funcionava toda a estrutura do grupo de maçons operativos que se dedicava a arte da construção.

Todos os instrumentos eram feitos de madeira, nos relatos de Villard, somente os dentes da serra e nada mais, eram de metal, além disto contavam nas construções com elementos variados como alavancas, corda reboque e engrenagens para elevadores, usados para levantar materiais mais pesados dentro das obras.

4 – Simbolismo

Na medida que as catedrais foram sendo erigidas os maçons operativos foram se aprofundando em estudos variados como cabala ou alquimia, então colocam elementos fortes na configuração de tais obras, não só na engenharia, mas na própria arte, tudo isto para continuar evidenciando sua elevação como maçom, como destaca Eco (1991, p. 16) o simbolismo na arte são figuras a que associamos em conceitos, por exemplo a cruz ao cristianismo.

Era importante para os maçons operativos utilizar os espaços como um grande centro de organização de saber, o canteiro de trabalho se torna uma grande “loja” e aos poucos as instruções vão sendo desenvolvidas com grande requinte de qualidade, os estudos advindos das escolas antigas de matemática e filosofia eram ali colocados em prática, existiam entre eles uma grande organização de companheirismo, onde usavam palavras, sinais, ainda mais, ali nos canteiros de obras tinham tradições e uma ritualística para iniciar os irmãos e depois em caso de necessidade um sistema de solidariedade como aponta os documentos deixados por Villard de Honnecourt.

Isto demonstra que desde o momento de formação da maçonaria operativa já era importante um estudo profundo de informações que deveriam permanecer ocultas, e aparentes somente para aqueles que dominavam tais estudos, naquele momento o aspecto além de ser filosófico era também sobre o trabalho e a produção de materiais e como destaca Macnulty (2007, p. 101) a simbologia é uma forma de transmissão do conhecimento e que a maçonaria especulativa deriva a maior parte de seus símbolos da arte operativa.

Quando o mestre de obras fazia a designação dos espaços e traçava os planos ele na verdade estava usando uma grande simbologia de estudos para a construção, usando a relação do tempo que movimenta o espaço acaba recriando através daquela delimitação física, ou tenta recriar, os ciclos do universo, dia, mês e ano, vida e morte, sendo uma grande designação do cosmos, elemento importante na obra que é feita pela mão do criador e naquela dimensão terrestre pode ser copiada aplicando a geometria sagrada.

Iniciando pelo altar no ponto ao Leste a referência seria o Oriente onde representa a formação da criação, onde nasce o sol, ali o nascente, a infância, ou
dos elementos da natureza seria a primavera, representação da cor verde nos vitrais, depois se dirige para o Sul onde seria o mundo manifestado e a plenitude da vida, o elemento terra ou o verão a maturidade ou fase adulta a cor dos vitrais seria o amarelo, local de maior quantidade de sol, seguindo sua jornada iria para a parte Oeste ou ocidente, região do sol poente, a velhice, indicando o período do outono, final dos tempos, o tom dos vitrais seria o vermelho, local da entrada do templo, onde ficam as portas principais, por fim o Norte o mundo oculto espiritual, indicando a noite ou o céu, representa a estação do inverno e sua cor nos vitrais seria o azul escuro, local de menor quantidade de sol no templo.

Este simbolismo empregado de grande representatividade parece indicar que todos que procuram uma catedral estão na verdade buscando por uma evolução, passam por um estudo da vida, a disposição do espaço pelos construtores tenta criar uma consciência naqueles que conseguem ler os elementos, fazendo assim uma jornada para sua renovação, indicando que ao entrar pela porta principal estão indo em direção ao altar para se renovar, saindo de um mundo exterior e rumando para outro de instruções para evolução de consciência.

O uso de elementos cardeais com relação a jornada da vida ou ainda com os ciclos do ano são também uma clara indicação de que tudo está conectado, céu e terra e que a passagem deve ser feita com uma finalidade, para que possam despertar novas possibilidades de saber, viver e conhecimento, mas obviamente tudo isto estava oculto e colocado à disposição para quem quiser ver, como destaca Saint-Exupéry (1989, p. 56) Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.

Outro elemento simbólico um tanto forte colocado nas catedrais e que pode ser visto logo no momento da entrada no átrio inicial são os labirintos, dispostos na parte leste indicam que ao entrar este procura um caminho, está desorientado, ao rumar por este local ele pode ir até o fundo de si mesmo, jogando aos poucos luz no que é importante, este labirinto pode representar a saga humana em busca dos elementos fundamentais e que todo o ser que estuda o simbolismo procura em si e no universo, o que pode ser a salvação, sabedoria, felicidade, dependendo das suas referências elementares.

Podemos lembrar que o elemento labirinto já faz parte do estudo mitológico grego, Teseu mata o Minotauro e depois sai deste local para regressar para sua vida plena, o uso destes elementos de simbolismo pode ser aplicado nas construções de estilo gótico como uma clara interpretação de iniciação dos trabalhadores, não se pode afirmar com categorização, mas lembrando que no trabalho da maçonaria operativa nada era aleatório, ou fora de uma conexão, podemos interpretar que os pedreiros estudavam muito os simbolismos antigos e com a construção destes espaços poderiam agora materializar seus estudos, o espaço arquitetônico ou urbanístico era a chave para ligar a ação de Theo o grande arquiteto na figura do sagrado com o Chaos o terreno e material, formando assim o cosmos na união dos elementos para o estudo do maçom operativo.

De toda forma a questão mais importante é que os maçons operativos conseguem desenvolver uma gama de conhecimentos fundamentais e são eles os responsáveis por elevar grandes templos, a idealização de um espaço sagrado foi feita e edificada, todos podem ver e tocar, frequentar, com uma nobreza e paz que só podia vir de Deus.

Agora, essa visão descera do Céu a Terra. As paredes dessas igrejas não eram frias e intimidativas. Eram formadas de vitrais policromos, que refulgiam como rubis e esmeraldas. Os pilares, nervuras e rendilhados despediam cintilações douradas. Tudo o que era pesado, terreno e trivial foi eliminado. Os fiéis entregues à contemplação de toda essa beleza podiam sentir que estavam mais próximos de entender os mistérios de um reino além do alcance da matéria (GOMBRICH, 1993, p. 141).

Elementos matemáticos, estudos filosóficos, o trabalho manual, o uso de alegorias, tudo isto era possível, o estudo aprofundado, a instrução simbólica aplicada na arte da cantaria estava pronta, estes maçons operativos faziam a análise dos conceitos clássicos, instruíram outros irmãos, mas o fundamental é que continuavam a edificação de seu templo interior com dignidade e humildade.

5 – Considerações finais

Ao longo deste trabalho podemos notar que a ação dos pedreiros operativos buscava a formação de catedrais com uma arquitetura especializada, isto seria fruto de uma tentativa de conexão filosófica e ao mesmo tempo material, buscavam uma evolução e ligação entre o céu e a terra, o humano na sua construção seria o elo com o sagrado, enquanto constrói ele pode evoluir em si naquela busca pelo saber que é a essência da vida para o maçom que se dedica.

A proporção áurea ou secção áurea que os gregos empregavam na arquitetura dos templos são estudadas pelos pedreiros e os padrões geométricos e matemáticos recorrentes na natureza são amplamente usados na arquitetura gótica, a intenção é fazer das igrejas um espaço de religação do profano com o sagrado pela construção, buscando uma evolução, e o ponto zero ou seu pináculo seria a marcação do local de início da obra, referenciando que ali seria o dedo de Deus indicando a sua sagração para o uso do espaço.

Podemos dizer que a França foi a pioneira na organização da arte gótica e que o Abade Suger com a catedral de Saint-Denis deu todo o direcionamento para que o estilo pudesse seguir com força total, mas historicamente quando ocorre uma transformação nos estilos arquitetônicos os historiadores indicam que existe um período de adaptação, em alguns casos em torno de até trezentos anos para que se diminua a interferência de um e se torne forte a estruturação de outro estilo, mas isto não ocorreu com o gótico, podemos notar que surgiu no século XII na França e já foi dominando e finalizando as ações do estilo românico, em uma clara demonstração que ele já se coloca maturado, indicando assim que ao ser colocado em prática existiam outros estudos sobre sua forma de uso, seria então no oriente, onde os monges estiveram e conseguem aprender sobre as bases de construção para depois colocar em prática assim que voltar para a França.

Ao observar as obras e suas alegorias encontramos muito do que ainda é aplicado em lojas maçônicas, principalmente naquelas que seguem os ritos de origem latina, obviamente agora podemos ter uma ideia de onde os maçons especulativos tiram alguns elementos alegóricos e vários simbolismos, já que os Ritos como o REAA e o Rito Adonhiramita são fruto das atividades da escola maçônica francesa de certeza, e para enumerar podemos observar o uso de elementos como mobília ou ainda instrumentos de trabalho que os maçons operativos aplicavam, mas uma questão que podemos destacar que é empregada de forma geral no ritual de iniciação são a corda reboque que já era empregada nos canteiros de obras e ganha um simbolismo e do metafórico do labirinto, pode ser que o maçom ao ser iniciado vendado esteja sim andando em um labirinto, seria aí a questão do uso deste elemento na entrada das igrejas, para fazer uma viajem de orientação para o iniciado.

O uso de pontos cardeais e a nomenclatura de alguns espaços da loja, os pontos norte, sul, leste e oeste, bem como a quantidade de luz dentro da igreja, tudo isto era estudado pelo maçom operativo e parece que de certa forma é aplicado pelas lojas simbólicas, sem falar na questão da divisão dos espaços, a colocação de colunas, tudo isto nos deixa uma clara noção que podemos interpretar ou que devemos retomar o entendimento da maçonaria operativa para que possamos evoluir na nossa atividade como maçom.

Por fim um dos pontos de maior destaque é que a arquitetura empregada vai refletir os valores de uma época e de uma sociedade, o seu simbolismo impregnado na materialidade das paredes, do piso e de todos os locais pensados para uso acabam marcando uma busca pela harmonia entre o humano e o celestial, entre o profano e o sagrado, ou seja, a evolução do saber alegórico se destaca na materialidade, aquele saber que ali fica visível para os iniciados é um saber do cosmos, feito pelo arquiteto superior e que o humano aprende a usar para dominar seus vícios e exaltar suas virtudes.

Autor: Adriano Viégas Medeiros

Fonte: Revista Ciência & Maçonaria

*Clique AQUI para ler a primeira parte do artigo.

Notas

[1] – Técnica de dividir científica e regularmente materiais de construção (pedras, madeiras, cantarias).

[2] – Arte de desenvolver a memória por meio de exercícios apropriados ou métodos específicos; mnemônica.

[3] – Do latim, decumanus era uma rua ou via, orientada Leste para Oeste nas povoações romanas.

[4] – Denota uma rua com orientação norte-sul.

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Referências

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A Maçonaria Operativa e o seu trabalho – Parte I

O simbolismo nas catedrais góticas

Este trabalho apresenta a atuação dos maçons operativos, os artífices da cantaria e a colocação em prática de todo o estudo matemático e filosófico para o desenvolvimento do pedreiro livre que atuava nas guildas, também destaca o simbolismo praticado nas construções dos grandes templos, desde os fundamentos até o acabamento das obras e que ficou de herança para observação depois da construção das catedrais góticas que são um exemplo de trabalho dos construtores da chamada baixa Idade Média na França do século XII.

1 – O simbolismo: uma breve introdução

Os maçons operativos ao iniciarem suas atividades na construção das catedrais não fizeram somente um grande trabalho de engenharia e arquitetura, se trata na verdade de um simbolismo mais profundo onde as principais leis da natureza são empregadas, tais obras são ricas em elementos e os maçons operativos tiveram que estudar e dominar várias técnicas para chegar aos altos graus de requinte para construir estes espaços.

Desde a Grécia antiga estudiosos já se dedicavam ao reconhecimento de elementos fundamentais, tudo fala pela inspiração do universo segundo os grandes filósofos, e os ritos matemáticos, proporções, estruturas são princípios da natureza e a evolução humana tratava de seguir as chamadas leis naturais que eles iam aos poucos aprendendo, deste modo o ser humano foi adquirindo conhecimento, simbolismos e tradições desde os tempos mais antigos.

Deus geometriza constantemente destacava Plutarco e ainda para Platão Deus é o grande geômetra, geometriza sem cessar, por toda a parte existe Geometria segundo Lawlor (1994, p. 16), então devemos observar como as tradições antigas chegam pelas escolas de conhecimento empírico até as guildas dos pedreiros livres e deste ponto em diante eles ao mesmo tempo que elevam templos físicos para a religião estão estudando e evoluindo em seu templo interior.

A arquitetura Gótica também merece um destaque especial neste estudo, mais precisamente a sua história de formação, afinal de onde é advinda e como ganhou suas características fundamentais, qual a sua filosofia relacionada com as proporções matemáticas, se o grande pintor e arquiteto italiano Giorgio Vasari declarava que a palavra “gótico” é em referência aos godos, povo bárbaro germano, podemos observar que existe uma ligação com a construção árabe, relações de contato dos cruzados e troca de informações entre os pedreiros e outros grupos que iniciam suas atividades principalmente na França.

Também ao longo do texto será identificado a formação de um simbolismo na construção das catedrais francesas, associando estudos do cristianismo, obviamente a conotação teológica que deveria ser usada para fortalecer a fé e que durante o período românico não era tão vista, pelo menos em sua arquitetura, também a alquimia, alguns elementos de transmutação, o maçom operativo aplica técnicas de construção, arquitetura e ocupação do espaço em uma clara alusão ao antigo sistema de estudo dos alquimistas, obviamente que se tratando de uma relação dos antigos estudos feitos durante a alta Idade Média, e a astronomia também pode ser encontrada, os alinhamentos, formação de planos e linhas com as antigas orientações de estudo, tudo isto faz parte de uma nova observação de inquirição para os maçons operativos que estão elevando prédios e ao mesmo tempo seus conhecimentos para um novo patamar.

Ao final deste trabalho a ideia é elencar a formação de uma arquitetura sagrada, idealizada pelos maçons operativos, ligando o celestial e o territorial, dando origem ao simbolismo de uma geometria que pode filosoficamente nos elevar e evidenciar a ação humana, é quando o homem chega mais perto de Deus, quando ele tenta criar uma harmonia e assim erigir suas ações, estudando, observando, destacando em segredo as filosofias que ele acredita ter interpretado na natureza e tenta colocar em prática, assim segue seu caminho em busca das virtudes teologais na edificação da razão humana.

2 – Formação do gótico

Na história da Europa as catedrais são muito importantes, pois nelas podemos ver a transformação da identidade cultural, social, religiosa e a mentalidade do povo que foi se estruturando de acordo com as necessidades que foram surgindo, inicialmente as igrejas de estilo românicas não tinham o requinte arquitetônico, o motivo era simples, a sua construção era mais para fortificação e defesa dos religiosos e não para destacar a beleza e a arquitetura do espaço sagrado para a religião e ocupação territorial elevando o espaço para o uso diante de Deus.

A alta Idade Média ainda guardava nas construções religiosas uma clara alusão ao estilo românico e mesmo com a formação do feudalismo e o desenvolvimento da igreja cristã como maior doutrina na Europa, o estilo era de fortificação, não existia uma necessidade de ornamentar os templos, uma clara herança do período romano, a forma de vida era mais simples e ruralizada então era importante manter tudo em uma constante vigilância com paredes fortes e sob grande proteção, clausura e vida interna, recolhidos em oração ou trabalho para suas ordens monásticas.

Os templos religiosos apresentavam como característica de construção poucas aberturas, paredes sólidas, grossas, baixas, um templo muito horizontal com uma idealização introspectiva, levando os sacerdotes ao recolhimento, usando como base o arco pleno romano em sua entrada principal, sempre associados aos feudos e tentando se proteger dos saques contra igrejas onde se colocavam relíquias e obras de maior valor econômico.

Até o ano de 311 d.C. As igrejas eram salas de reuniões insignificantes, mas a igreja passou a ser o supremo do poder do reino, os lugares de culto não podiam adotar os modelos antigos. As igrejas não usaram o templo pagão, mas adotou o tipo amplo de salão de reuniões que nos tempos clássicos eram concebidos por Basílica “pórtico real” antes mercado e recinto para audiências públicas de tribunal (GOMBRICH, 1993, p. 94).

Os historiadores não trabalham com uma data de origem de formação do estilo gótico, mas de forma geral, com um período e com um local, acabaram determinando a baixa Idade Média e a França como a referência para a formação deste estilo, entre os séculos XII e XIV se desenvolve principalmente na região setentrional da França, sendo chamada de “opus francigenum”, ou “obra francesa” por muito tempo.

Segundo alguns autores, a origem da palavra gótico está associada aos godos ou aos povos bárbaros do Norte, não se sabe ao certo, sendo escolhida pelos italianos do Renascimento a fim de descrever essas construções de proporções descomunais que, em sua opinião, estavam um pouco fora dos critérios bem proporcionados da arquitetura (LYRA, 2008, p. 43).

Uma das questões que deve ser ressaltada é justamente a retomada das cidades e o avanço do comércio, com isto as corporações de ofício ou guildas se tornam importantes para a estruturação dos trabalhos nas cidades que voltam a se desenvolver, neste momento podemos observar o fortalecimento da ação dos maçons a guilda dos pedreiros livres com eles o desenvolvimento de uma grande formação de construções e o gótico está ligado ao processo de transformação da mentalidade.

A igreja foi a responsável por evidenciar este processo de crescimento da cidade, usa a territorialidade para designar o poder da fé e colocar Deus o Grande Arquiteto como o centro deste espaço que estava surgindo novamente, uma observação feita é que as ordens militares já tinham contato com povos do oriente e com isto muito da engenharia e da arquitetura árabe já era dominado por grupos europeus que tinham se formado principalmente na França, isto é um indício claro que pela ação dos cruzados e dos templários a arte gótica chega até os pedreiros de ofício e eles podem assim aplicar os estudos filosóficos e estruturais para seus trabalhos de elevação das catedrais.

Em meados do século XII, o prestígio dos grandes mosteiros era incontestável. Os religiosos e intelectuais mais influentes eram monges, como abade beneditino Surger e o organizador da Ordem Cisterciense, São Bernardo de Clairvaux. Os empreendimentos artísticos eram totalmente dominados e controlados pelos principais hierarcas monásticos, e era nos mosteiros que se encontravam as melhores oportunidades de trabalho (WILLIAMSON, 1998, Introdução).

O Abade Suger de Saint-Denis foi um grande diplomata, também foi o regente da segunda cruzada e é considerado o grande organizador da arquitetura gótica na França, já que graças ao seu trabalho na Basílica de Saint-Denis a arquitetura se espalhou pela Europa, segundo consta as três portas características das entradas das igrejas são uma inspiração do arco de Constantino em Roma e a ideia era permitir o movimento maior de pessoas nos pórticos de entrada e usar as paredes como espaço de demonstração das figuras de destaque do catolicismo como santos e religiosos em geral.

Assim, os ensinamentos da igreja acerca do objetivo final de nossa vida terrena foram consubstanciados nessas esculturas do pórtico de uma igreja. Essas imagens perduraram no espírito das pessoas ainda mais poderosamente do que as palavras do sermão do pregador (GOMBRICH, 1993, p. 134).

São Bernardo de Clairvaux o idealizador das regras dos Templários ajudou na elaboração de grandes conceitos religiosos, também conviveu com o Abade Suger no Oriente durante a segunda cruzada e aproveitaram para aprofundar seus estudos em matemática e outros temas, mas também em vários outros estudos artísticos para ser aplicados nos mosteiros do ocidente, uma evidência forte que a arte gótica da construção pode ter sido organizada desta mescla de saberes entre oriente e ocidente, mas seja como for, devemos observar que neste período a formação do gótico deu um salto e principalmente na França ela
ganha um destaque formidável, para depois se espalhar pela Itália, Alemanha e outros países onde inclusive templários e as guildas dos pedreiros foram progredindo em seu ofício.

A nova concepção e estudo de construção usa a verticalização, vitrais, espaços amplos, tudo isto pedia uma grande quantidade de trabalhadores especializados e novas técnicas de produção, são iniciados então novos processos que vão ser os ícones ou as grandes referências do gótico, as construções são verticais, altas e com duas torres ornamentadas e uma agulha central que delimita o ponto zero de início da construção da catedral, indicando assim a busca pelo celestial, nestas catedrais fazem o uso de grandes vitrais e rosáceas com muita luz interna, arco ogival e arcobotante, tudo composto de uma nave central com espaço lateral e abóbadas, contraforte e gárgulas nas fachadas.

Nas catedrais góticas não eram usados simples arcos, mas sim a criação de um novo tipo de arco, que ficou conhecido como o arco ogival. Esse novo estilo de arco consiste em ser a união de dois segmentos de arco, pois assim poderia fazer um arco mais profundo no vão existente entre dois pilares (GOZZOLI, 1986, p. 50).

Junto de toda estrutura de engenharia também empregaram um estilo de vitrais e rosáceas que marcaram profundamente o recurso gótico, mas um aspecto que chama muita atenção é o elemento chamado “tracery” que pode ser traduzido como um rendilhado, que na verdade é um dispositivo arquitetônico com características geométricas muito organizada e completa com vitrais, e o Abade Surger foi o responsável por iniciar o uso deste meio, tal recurso é muito parecido com os ornamentos arabescos encontrados nas mesquitas do Oriente Médio.

Continua…

Autor: Adriano Viégas Medeiros

Fonte: Revista Ciência & Maçonaria

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O esoterismo dos construtores de catedrais

Catedrais Medievais: A graça mística que agiu nos construtores das catedrais  medievais

A frase composta para o título consiste em três conceitos distintos: primeiro, o de esoterismo, em seguida, o de construtores e, finalmente, o das catedrais que são os monumentos mais grandiosos do catolicismo romano.

Estes três elementos justapostos refletem uma crença compartilhada por certos maçons: os construtores de catedrais praticavam entre eles, e gravavam nas pedras das igrejas, colégios e catedrais, mensagens e sinais de esoterismo, que para alguns autores do final do século XIX, se tornam pura heresia ou anticlericalismo se não ateísmo.

Vejamos rapidamente cada um desses conceitos separadamente, antes de compreender, porque é muito mais uma questão de compreender que de aderir.

O esoterismo

O esoterismo é uma maneira de pensar sobre a vida interior e que se manifesta na discrição, mesmo em segredo. Assim como o símbolo, de que só alguns podem entender o significado, escreve Marie-Madeleine Davy em sua indispensável “Introdução ao simbolismo romano”, publicado pela Editora Flammarion.

O esoterismo é uma forma universal de pensar, ao mesmo tempo no tempo e no espaço. Há esoterismo quando há conhecimento reservado a eleitos e revelado em segredo. Essa ideia remonta a tempos mais antigos. Ela é encontrada em abundância na Grécia. Em seguida, em Roma, com os celtas, os etruscos e os alemães, mesmo dentro do cristianismo com diversas tradições secretas ente as quais o gnosticismo; na Idade Média, com os cavaleiros templários, os cátaros, a lenda do Graal, os grandes poetas entre eles o maior, sem dúvida, Dante, com a alquimia, a adivinhação, a magia, a astrologia; no Renascimento com Paracelsus e um florescimento de pensadores e escritores esoteristas; no século XVII com os Rosacruzes, e no século XVIII com o ocultismo, a teosofia nascente; no século XIX, com ocultismo invasivo, a Teosofia e a escola de Papus; no século XX, com um resumo de todos os itens acima, usando o prefixo muito conveniente: neo.

Uma constatação geral: o esoterismo parece ser apanágio de intelectuais e pensadores pelo menos alfabetizados, ou seja, capazes de ler e escrever, e sobretudo livres para pensar à margem de quadros impostos.

A questão colocada acaba sendo saber se, em toda essa confusão omnidirecional, os construtores de catedrais puderam constituir um vetor de um ou outro desses diferentes sistemas secretos.

A existência de um esoterismo cristão é afirmada por alguns, incluindo, obviamente, Guenon que vê ali “o lado interior da tradição cristã”, mas que é rigorosamente rejeitado por outros e principalmente pela Igreja Católica Romana que nega absolutamente a existência de qualquer dimensão esotérica na doutrina cristã.

De fato, como conciliar afirmações contraditórias ‘tais como ’não deis pérolas aos porcos’, Mateus VII, 6, com ’O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia’, Mateus X, 27.

Mesmo assim, como conciliar a afirmação: “não se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire, mas sim sobre um lampadário para iluminar o dia” com o seu oposto absoluto “estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida, e poucos são os que o encontram” Mateus VII, 6.

No exame dos textos cristãos, tanto canônicos quanto apócrifos, podemos então recorrer a muitas referências que lhe eram totalmente contrárias. Por exemplo, de um lado, a crença em um esoterismo cristão proveniente do pensamento do próprio Jesus marcada por um significado supostamente oculto contido em suas parábolas, e, de outro, a completa ausência e mesmo a recusa desse modo de pensar a doutrina que ele pregava.

Os construtores, ou maçons operativos

Portanto, se existe um esoterismo cristão, ou vestígios de qualquer outro pensamento esotérico que tenha uma origem diferente dentro do cristianismo, os trabalhadores que construíram as catedrais maravilhosas constituíram o vetor? Vejamos, portanto, como eles eram, tanto espiritual quanto sociologicamente

No século XII, a arte da construção é dirigida pelo mestre de obras, que é ao mesmo tempo arquiteto e engenheiro, e até mesmo empresário. Seu status social é frequentemente muito importante. Ele possui casas, às vezes um castelo. Com frequência ele assinava suas obras. Ganhando até vinte vezes o salário de um trabalhador qualificado, ele está perto do poder de quem depende sua sorte, e compartilha muitos privilégios. É também chamado Mestre Pedreiro. É ele quem tem uma formação emprestada de Pitágoras e de Euclides particularmente. Devemos encontrar vestígios disso em nosso grau de companheiro maçom…

Quanto ao patrão da obra, ele é muitas vezes constituído por uma comunidade religiosa, mosteiro, claustro ou capítulo de cânones. Ele inclui os únicos estudiosos da época, o clero secular que conheceu em diversos momentos de um estado vizinho à decadência. Os monges são muitas vezes eles mesmos, ao mesmo tempo mestres da obra e mestres de obra. Há outras escolas ou colégios de construtores que conhecem formas diferentes e hierarquizadas de organizações corporativas, e tudo isso ao longo da Idade Média. Estes trabalhadores trabalham por conta de cânones e capítulos constituídos em conselhos particulares para os bispos. A mão de obra abundante e não qualificada é recrutada na classe dos desenraizados: servos em fuga, filho de camponeses, filhos de famílias numerosas, além de trabalhadores especializados tais como pedreiros e canteiros. Esta última categoria inclui tanto os “desbastadores de pedras” (canteiros de pedras brutas) que os escultores-talhadores (pedreiros livres, abreviado como freemasons ou frimaçons sob o Cardeal Fleury), a noção contemporânea e distinta de artista sendo então desconhecida e inexistente.

Todo esse pessoal era analfabeto. As contas de salários estavam cheias de erros de soma, que não enganariam uma criança de 10 anos em nossos dias.

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As marcas lapidares, de transporte e sinais de posse, são grafites rudimentares compensando a ignorância generalizada do alfabeto.

Esta mão de obra analfabeta é profundamente católica romana, assim como toda a sociedade da época. A cultura estava exclusivamente nas mãos dos clérigos. A composição de imagens religiosas parte de princípios impostos pela Igreja Católica, precisamente codificados e de que qualquer desvio era punido. Os escultores contam a história sagrada aos fiéis, eles também analfabetos, de acordo com uma tradição cristã onde os monges e os mestres de obra são os depositários exclusivos e vigilantes.

Havia um segredo dos Pedreiros? Vários regulamentos corporativos revelam que no final da Idade Média, compromissos deviam ser assumidos de não revelar “certos truques do ofício” e nada mais. Esta obrigação de segredo não estava ligada particularmente ao oficio de construção, mas estava relacionada com a maior parte dos ofícios organizados como sindicatos. Os sapateiros e ferreiros tinham os seus…

Knoop e Jones, antes da escola francesa, estudaram a fundo o conjunto das Antigas Obrigações inglesas. Todos estes manuscritos, tipos de regulamentos ou constituições profissionais defendem rigorosamente isso: “o primeiro dever do Pedreiro é fugir da heresia, e também amar a Deus, à Santíssima Trindade, à Virgem Maria, os santos e a Santa Igreja, não brigar e ser discreto”.

Existe mais de uma centena desses manuscritos, que vão de 1389 a 1722. Os principais textos são: Ms Regius, datado de 1389; o Ms Cooke, do início do século XV; o Ms Plot datado de 1686; o Ms Grand Lodge datado de 1583; o Ms. Roberts datado de 1722. Eles nada contêm, absolutamente, que seja de natureza esotérica, observam Knoop e Jones. Eles foram escritos por alguns monges piedosos e eram destinados a serem lidos em grandes ocasiões a “trabalhadores totalmente analfabetos, profundamente crédulos e supersticiosos” assim os descreveu Bernard Jones.

A catedral

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Monumento grandioso e manifesto explosivo da dogmática romana, a catedral é o símbolo vivo da onipotência da Igreja, mas também da mais autêntica espiritualidade cristã. A catedral é símbolo. Sua própria função é de ordem simbólica, em uma sociedade teocrática e teocêntrica, onde tudo tem um significado espiritual e simbólico que remete a Deus. Ela é também ensino.

Marie-Madeleine Davy escreveu que “a fé penetra a existência, ou melhor, ela É a existência”. Os monges e ninguém mais, também preservaram, de alguma forma, pedaços de tradições simbólicas vindas da Mesopotâmia, do Egito, da Pérsia, da China, da Índia e da Palestina, todas as regiões de onde vêm elementos exóticos que às vezes adornam as capitéis e pórticos.

A alquimia tem ali o seu lugar, muito pouco esotérico, no sentido moderno do termo. Ela é integrada ao universo simbólico da catedral. Alguns prelados se apropriam da Arte Real, enquanto outros a ela se opõem e a rejeitam. Mas, no século XII, a alquimia é uma disciplina, ao mesmo tempo natural e hermética, o que não é absolutamente um pecado. A Alquimia serve para lembrar aos fiéis, entre outras imagens alegóricas, que ela é o templo de Deus; ela é considerada uma ciência “sacramental”.

A Igreja não é, contudo, unânime em considerar que o povo precisa de imagens edificantes e assustadoras. São Bernardo, por exemplo, critica com ironia, mas com firmeza todo este material de monstros ridículos “que os monges devem considerar como estrume”, escreveu este homem santo que não era brando com isso.

Em conclusão, como, sob estas condições, admitir a tese de romancistas anticlericais do século XIX, argumentando que os nossos trabalhadores analfabetos e devotos teriam constituído o veículo de tais ou quais tradições esotéricas do culto de Isis ou de Druidas celtas? E a se supor por um momento que se tal fosse o caso, seria preciso reconhecer que esta transmissão secreta foi exercida somente através dos mestres de obras, o que implica que ela foi infiltrada à revelia dos capítulos de cânones, à revelia dos bispos muito vigilantes e financistas desses projetos caríssimos. Que ela fosse, ainda mais exercida à revelia dos trabalhadores ingênuos e supersticiosos encarregados de sua execução revela, uma vez mais, pensamento ilusório.

Ou ainda, infinitamente mais absurdo ainda, com sua cumplicidade herética em tudo? E, finalmente, questão determinante, a intenção de quem receberá esta “mensagem”, o público presente nas igrejas católicas sendo composto de praticantes sinceros, mas ingênuos, incapazes de compreender o alcance escondido de alusões ditas esotéricas? A mensagem da Igreja sempre foi exclusivamente exotérica.

Mas a resposta a estas objeções é bem conhecida, e ela floresce mesmo em alguns círculos maçônicos, permeáveis a fábulas e mitos. A Tradição Esotérica seria então transmitida para o uso exclusivo somente dos “iniciados”.

Talvez, mas iniciados em que? No culto de Ísis, sob São Luis? Nas práticas dos Druidas, sob Filipe, o Belo? E existe um único documento irrefutável que permita apoiar cientificamente estas extravagâncias imaginativas? A resposta é claramente, não.

Conclusão

Por que, e quem propagou esta imagem ridícula do Maçom anticlerical, que ainda existe nos dias de hoje, e até mesmo em uma certa maçonaria? Quem é o inventor da imagem anticlerical, e com que finalidade?

Por duas razões, em minha análise, que levam ao conceito francês de uma maçonaria nacionalista e política, quando ela afirma:

A Maçonaria nasceu na França e não na Inglaterra ou na Escócia. Ela mesma foi exportada da França para a Inglaterra, originalmente! Ela descende em linha reta dos construtores de catedrais, que praticavam uma espécie de esoterismo de natureza anticlerical, herética, à margem da Igreja Católica, em filiação direta dos Grandes Iniciados egípcios, dos Collegia Fabrorum Romanos, dos druidas celtas, seguidos pelos Templários, os Rosacruzes, os Alquimistas e alguns outros “Atlantes”. Em suma, observemos, por um conjunto eclético de adversários pré-históricos do papado.

Esta filiação herética e anticlerical é reivindicada ao final do século XIX pelos maçons franceses em ruptura com a tradição maçônica. A intrusão da política em loja, por volta de 1860, que coincidirá com a ejeção do GADU e da Bíblia, leva a nova instituição secular a inventar uma justificativa e uma ascendência nobre, tanto histórica quanto espiritual: a do canteiro de pedras, do pedreiro, da imagem anticlerical, Grande Iniciado e detentor de segredos extraordinários, apesar de todo o poder espiritual e temporal da Igreja. Sabemos o destino que reservou a Santa Inquisição a esse tipo de pessoas.

Este construtor de catedrais puramente imaginário é, portanto, o ancestral sonhado do maçom “comedor de padres”: inimigo da Igreja Católica, mas ao mesmo tempo detentor de tradições e mistérios antigos genuínos, ou seja, que não se originam do judaico-cristão. Ele é o arquétipo da Tradição Autêntica (vamos lá com as guenonices capitalizadas!), que vem de todos os lugares, exceto de Roma e de Jerusalém.

E esta concepção surpreendente encontrou ecos cúmplices em alguns círculos intelectuais. E garante tiragens gigantescas ou faraônicas a autores populares.

Para alguns, trata-se de um sonho. Não os culpamos por escolher esta opção, muitas vezes fascinante porque mais suave e consoladora que a dura realidade.

“Eu sou bela, ó mortais, como um sonho de pedra …

Meu trono é o azul como uma esfinge misteriosa …

Porque eu tenho o que fascina estes amantes dóceis

Espelhos puros que fazem mais belas todas as coisas:

Meus olhos, meus olhos enormes, de claridades eternas …”

Para outros, esta opção calmante é um cálculo ideológico. Como tal, ela é lícita, justa e salutar de denunciar, como todas as fraudes moral e intelectual. Eu jamais me privaria disso. O sono da Razão produz monstros.

Autor: Jean van Win

Tradução: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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Bibliografia

Altamente recomendável:

** Initiation à la Symbolique romane, M. M. Davy, Champs, Flammarion.

** L’Esotérisme, Pierre A. Riffard, Robert Laffont.

** Images et Symboles, Mircea Eliade, TEL, Gallimard.

Muito interessantes:

L’Ordre corporatif dans la Belgique ancienne, André Frantzen, D. De Brouwer,1941

Le Moyen Age, Christian Papeians. Ed. Artis-Historia, Bruxelles.

Chateaux et Cathédrales, Marcel Brion, Edito Service, Genève.

Les Bâtisseurs de cathédrales, Jean Gimpel, Seuil.

Freemason’s Guide and Compendium, Bernard E. Jones, Harrar & Compagnie Ltd, London.

Signs & Symbols in Christian Art, George Ferguson, Hesperides Book, New York-Oxford University. (Prescriptions iconographiques de l’Eglise).

La Bible et les Saints, Gaston Duchet, Guide iconographique, Flammarion.

Textes politiques. Saint Bernard de Clairvaux. 10/18, Union générale d’éditions.

La Franc-Maçonnerie opérative, Louis Lachat, Ed. Figuière, Paris.

Questionável e tendencioso:

Les origines religieuses et corporatives de la Franc-Maçonnerie, Paul Naudon, Dervy

Delirante e imaginário:

Le Message des constructeurs de cathédrales, Christian Jacq, Rocher.

Maçonaria moderna: o legado escocês – Parte I

20 curiosidades sobre a Escócia - Viagens à Solta

A moderna Maçonaria, que tem como referência o ano de 1717[1] (ou 1721 para os puristas), não surgiu repentinamente como um raio em céu azul, como tentam argumentar alguns empoderados críticos internos da Ordem. Sem querer induzir ou convencer, vejamos os fatos históricos.

Entre os séculos X e XV, a Europa passou por diversas transformações sociais, políticas, econômicas e científicas, sobretudo, com o declínio do sistema feudal e o crescimento comercial e urbano, intensificado pelas Cruzadas e a expansão das rotas marítimas comerciais. A terra e o trabalho camponês perderam seu papel como única fonte de riqueza.

Nesse período houve um grande crescimento das atividades comerciais, oriundas dos trabalhadores que viviam numa sociedade agrária e estamental (que não permitia ou dificultava a ascensão social e antecedeu a Sociedade Industrial), os feudos, e passaram a comercializar os excedentes nos arredores das cidades, quando se deu o renascimento comercial e urbano.

Com o deslocamento de muitos trabalhadores para os burgos (antigas cidades medievais amuralhadas), o sistema feudal e agrário logo foi substituído por um capitalismo primitivo e urbano, fortalecido pelo surgimento da burguesia, formada por comerciantes, artesãos, alfaiates, sapateiros, ferreiros, carpinteiros, tanoeiros, marceneiros, artistas, mercadores, produtores têxteis etc.

Assim, com a necessidade de organizar e regulamentar determinadas profissões originou-se uma espécie de associações sindicais com o intuito de proteger interesses, de forma a melhorar o desenvolvimento da atividade laboral desde a distribuição dos produtos, garantir a qualidade e preços, bem como lidar com o mercado e seus concorrentes externos. Famílias mercadoras reuniram-se em guildas e assumiram a autoridade em muitas cidades, munidas de alvarás, como corporações municipais.

Nas cidades medievais, as instituições econômicas básicas eram as corporações de mercadores e as corporações de ofício com uma estrutura civil e administrativa, formada por pessoas de uma mesma profissão, de uma mesma orientação religiosa e que mantinham uma relação de proteção mútua. Por sua vez, o poder pessoal e universal dos senhores feudais foi gradativamente sendo substituído pelo poder centralizador dos soberanos, dando origem às monarquias nacionais centralizadas.

Por volta dos séculos XI, sob o manto da Igreja Católica, nasceu a Maçonaria Operativa ou de Ofício, que dominava a arte de construir, por intermédio das corporações ou confrarias dos mestres construtores de catedrais, abadias e mosteiros, que recebiam instrução e evangelização dos frades e protegiam os ensinamentos secretos da arquitetura e os interesses corporativos. Atribui-se o impulso das edificações de catedrais em louvor a Deus em virtude da não concretização da previsão apocalíptica dos fins dos tempos na virada do ano 1000.

A arquitetura medieval teve nas Igrejas a sua maior representatividade, com o desenvolvimento dos estilos românico e o gótico.  O românico, fruto da criação das comunidades rurais dos monges, típicas da Alta Idade Média (século V ao X) assinalou o seu apogeu no século XI, aparecendo em mosteiros, castelos e igrejas, com uma construção maciça, pesada, de linhas retas, com traços predominantemente horizontais e interiores sombrios. O florescimento do gótico, originário da região de Paris, esteve ligado à prosperidade da economia urbana e ao desenvolvimento do conhecimento, concebendo nas catedrais a obra da cidade e dos artífices das corporações de ofício, refletindo a mentalidade da Baixa Idade Média (século XI ao XV).

As catedrais góticas, banhadas de luz e calor, decoradas com pinturas e esculturas, significavam mais do que um templo de orações, eram utilizadas também como escolas, bibliotecas, galerias de arte, além de ponto de encontro de uma próspera sociedade. A burguesia também nelas se reunia em suas confrarias para realizar assembleias civis, funcionando como uma casa do povo e do poder da igreja.

Com as corporações ou confrarias surgiram os regulamentos na forma de cartas e constituições, descrevendo os compromissos dos membros, bem assim os conhecimentos e instruções morais e religiosas, de conteúdo explicitamente cristão, formando os “Antigos Deveres”, “Antigas Constituições” ou “Manuscritos”, delineando um sentido espiritual e material aplicáveis aos obreiros construtores, inspiradores da Moderna Maçonaria. O Museu Britânico e a biblioteca maçônica de West Yorkshire guardam vários desses documentos, que formam a base das constituições maçônicas.

Como não existia um organismo central que tomasse decisões para a totalidade das guildas de ofício, cada uma conservava sua autonomia e usava um manuscrito dos “Antigos Deveres” que melhor lhes aprouvesse e sobre os quais os juramentos eram prestados. Os mais famosos são o “Poema Regius” ou “Manuscrito Halliwell”, provavelmente de 1390, o mais antigo documento inglês sobre a Maçonaria, e o “Manuscrito de Cook”, estimado de 1450.

Alguns autores advogam a precedência da Carta de Bolonha, de 1248, como o primeiro documento maçônico operativo conhecido. Também referenciado como os “Estatutos de Bolonha”, sob os auspícios da Igreja Católica, o documento estabelecia a existência jurídica de uma associação no qual constavam a denominação e forma de eleição dos constituintes, com o objetivo de “proteger o ofício tanto no plano financeiro quanto no ético moral”. A proteção aos associados, tanto profissional quanto assistencial, incluía até as viúvas. O referido documento já fazia menção a “não operativos”, cuja lista de matrícula, datada em 1272 e ligada à “Carta de Bolonha”, consta “371 nomes de Mestres Maçons (Maestri Muratori), dos quais 2 são escrivães públicos, outros 2 são freis e 6 são nobres”, conforme registros no Arquivo de Estado da Bolonha.

Esta situação prevaleceu por 142 anos, até 1390, quando surgiu o “Poema Regius”, oportunidade em que foi introduzida a história de como Euclides de Alexandria simulou a geometria e traçadas normas de conduta ética e moral, alertando que a Maçonaria e o Maçom não devem ter um comportamento hipócrita (Hic incipiunt constituciones artis gemetriae secundum Eucyldem – Art. XV). O Manuscrito de Cook (1450), escrito em prosa, continha repetições dos anteriores, e, após uma prece de ação de graças de abertura, o texto enumera as Sete Artes Liberais (Gramática, Retórica, Lógica, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia), dando prioridade à geometria, a qual é equiparada à Maçonaria.

Passados mais 208 anos do Poema Regius, em 1598, até então sob a proteção da Igreja, apenas com modificações administrativas, alteração significativa foi aquela introduzida na Escócia por William Schaw (1550-1602), Mestre das Obras da Coroa e Vigilante Geral dos Pedreiros, na área de construção de castelos e palácios, com larga experiência adquirida em cargos ocupados no reinado de Jaime VI. Segundo Nicola Aslan, “a maçonaria escocesa não possuiu ‘Old Charges’ como a sua congênere inglesa”, mas, do período operativo, afirma, destacam-se outros documentos como as Cartas de Saint-Clair (uma de 1601 e outra de 1628) e, principalmente, os Estatutos Schaw, que nenhum outro supera.

William Schaw mantinha estreitos laços com personalidades da elite do império, além de filósofos, políticos e livres pensadores. Reorganizou a profissão de pedreiro ao incluir alterações estruturais nas Lojas, entre elas as de fundo cultural e histórico, com manutenção de arquivos com registros de todos os acontecimentos relevantes e envolvendo a maçonaria do passado e perspectivas para os tempos vindouros.

Tais medidas abriram caminhos para que “não operativos”, pertencentes ao círculo de influência de William Schaw, então se constituindo em um novo protetor da Maçonaria (especulativa de transição), pudessem ser atraídos, não apenas para introduzir conhecimento humanístico e sim para inserir as Lojas nos meios políticos. Os dois regulamentos promulgados (1598 e 1599) definiam a organização territorial das lojas por cidades e por regiões, impondo a eleição anual dos Oficiais. Por ter lançado as condições que mais tarde se transformariam, no território escocês, na Maçonaria Especulativa, Schaw é considerado por muitos como o inventor da Maçonaria Moderna.

A mudança significativa, mal compreendida e criticada pelos puristas e chamada de teoria de transição, à míngua de documentação comprobatória, teria ocorrido no final do século XVI, em vista do declínio das antigas corporações medievais de construtores, quando, em número cada vez maior, os denominados “Maçons Livres e Aceitos”, homens que não eram pedreiros, substituíram os trabalhadores, transformando-se em sociedade de auxílio mútuo e num espaço para a livre manifestação do pensamento, com seleção dos membros “entre os homens conhecidos pelos seus dotes culturais, pelo seu talento e pela sua condição aristocrática, que poderiam dar projeção a elas, submetendo-se, todavia, aos seus regulamentos” (Castellani, 2007).

Em análise de David Stevenson (2009), historiador não maçônico, a evolução da Maçonaria na Escócia no século XVII surgiu em muitos sentidos da Renascença, mas sua evolução também foi profundamente influenciada pela Reforma, podendo ser vista como uma reação contra algumas das mudanças que o advento do Protestantismo trouxe ao país, envolvendo não apenas uma mudança em crenças religiosas, mas em todo o conceito do que era religião, antes vista como um método ritual de viver e não um conjunto de dogmas. “Com a vinda do Protestantismo, a ênfase mudou do comportamento e das ações para as crenças abstratas e a fé individual”. A reforma promovida pelos calvinistas liderados por John Knox (conhecidos como presbiterianos na Escócia), que aboliu o catolicismo romano em 1560, significou a completa abolição do lado religioso da fraternidade-guilda, levando ao desaparecimento daquelas organizações que funcionavam apenas como fraternidade. Restaram elementos de ritual e cerimônia em ocasiões como a admissão novos membros.

As medidas introduzidas por William Schaw, com a organização das lojas, ensejou um sistema no qual os rituais poderiam desenvolver-se, avalia Stevenson (2009), suprindo um vácuo deixado pela Reforma, como uma possível explicação por que tantos indivíduos de fora quiserem entrar para as lojas no século XVII, possivelmente de forma que fossem atendidos desejos de satisfazer o anseio humano por ritual, que a igreja reformada da Escócia ignorava.

Continua…

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Nota


[1] Para melhor entendimento, recomenda-se a leitura do artigo “1717? 1721? Por enquanto, ainda 1717…”, no Blog “O Ponto Dentro do Círculo”, em https://opontodentrocirculo.com/2016/09/22/1717-1721-por-enquanto-ainda-1717/

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O enigma das catedrais góticas

Basílica de Saint-Denis - Horário, preço e localização em Paris

Catedrais Góticas, gigantescas paredes de vidro num caleidoscópio de cores rodeadas por uma teia de alvenaria e coroadas com gárgulas assustadoras. Esses arranha-céus de pedras dominaram as paisagens por quase mil anos. Como, na idade média, sem o uso da tecnologia e de ferramentas modernas, os engenheiros construíram as catedrais góticas? Agora os peritos estudam uma nova teoria, um código matemático oculto, tirado das páginas da bíblia, que foi usado como modelo. Mas para desvendar os códigos da catedral os investigadores precisam analisar essas mega estruturas medievais nos mínimos detalhes.

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As Sete Artes e Ciências Liberais – Parte II

Isidoro de Sevilha e as artes liberais | Ensaios e Notas

Usos, costumes, tradições e antigas obrigações da maçonaria medieval relembrados na maçonaria atual

Entre os maçons medievais, o segredo era norma respeitada e sujeita à juramentos sobre a Bíblia ou os Evangelhos. O mesmo se dava com a promessa de não revelar a estranhos os sinais, toques e palavras de reconhecimento mútuo entre os companheiros. O compromisso envolvia a obrigação de cumprir os regulamentos, as tradições e as regras de fraternidade exigidas pela agremiação.

Quando as corporações medievais chegaram a adquirir maior importância política e econômica, até as representações teatrais passaram aos seus domínios. Os dramas da época, as antigas peças gregas, por vezes mal traduzidas, outras deturpadas, eram representadas para os associados. Os temas referentes a cada profissão eram enaltecidos ao gosto dos congregados e assistentes levados ao sentido épico. Até os antigos “mistérios” eram declamados ou encenados, ao lado das narrativas e passagens de religião.

Cada corporação tinha o seu santo padroeiro e protetor. Os maçons operativos veneravam São João Batista, ou este santo e João Evangelista, aos quais dedicavam reuniões e festas especiais. Os obreiros de Estrasburgo se chamavam Irmãos de S. João.

Nota ao Aprendiz – A Maçonaria operativa ignorava a existência de São João de Jerusalém, ou S. João Esmoler ou Hospitaleiro, lendária figura de príncipe, filho do rei de Chipre, no tempo das Cruzadas. Conta-se que ele teria renunciado aos seus direitos de herdeiro do trono, com o propósito de se dedicar à caridade, socorrer guerreiros e peregrinos. Teria fundado também um hospício.

A figura desse lendário santo foi levada à Maçonaria especulativa por maçons que quiseram impor a ideia de que a Sublime Instituição seria originária dos Cruzados. O Barão de Tschoudy viria a adotar S. João de Jerusalém, no seu Rito Adoniramita. Outros maçons passaram a identificar S. João Hospitaleiro com S. João d’Escócia, figura que jamais existiu, embora seja sempre referida em rituais do escocismo, por diversas conjecturas.

Maçons do passado, magoados com os insultos e perseguições clericais, principalmente partidas dos jesuítas, repeliam a norma de se admitir João, o Batista, como padroeiro da Sublime Instituição. A verdade é que estavam a repelir a realidade histórica e uma tradição haurida dos antigos Pedreiros-Livres e Canteiros.

Essa represália pouco adiantou. João, o Batista, continua sendo o padroeiro, com o seu par tradicional, que é João Evangelista. E em toda parte do mundo o dia 24 de junho é uma data maçônica e o verdadeiro dia da Instituição.

A Maçonaria operativa medieval possuía também os Quatro Coroados, santos da profissão, os quais eram Severo, Severiano, Carpóforo e Vitorino. Contava-se que esses quatro santos teriam sido mortos a vergastadas, por ordem de Diocleciano, eis que se teriam recusado a esculpir imagens destinadas à adoração pagã. A Igreja chegou a confundi-los com outros cinco mártires – Cláudio, Castor, Sinforiano, Simplício e Nicostrato, artistas que teriam repelido a imposição do mesmo imperador, que encomendara a imagem de um ídolo. Os cinco artífices, por esse motivo, teriam sido condenados e asfixiados dentro de um barril carregado de material pesado e atirados ao mar (ano de 237).

Outras lendas de enaltecimento da profissão eram contadas pelos maçons medievais e havidas como patrimônio da corporação.

Como ensina a psicologia social, todo agrupamento humano definido tende a ser enaltecido por seus próprios componentes. Os maçons medievais, naquela época, pouco esclarecidos, não fugiram à regra. Acreditavam que a Maçonaria vinha dos tempos de Adão e que este havia ensinado a Geometria a seus filhos. Mal fundados em vários textos da Bíblia e maus conhecedores da história, fantasiavam uma complicada narrativa da profissão, envolvendo reis, patriarcas, sábios, filósofos e geômetras. Desse modo, chamavam de “maçons” a Abraão, a Nemrod, o rei caçador, a Nabucodonosor, a Pitágoras (“Peter Gower”), a Euclides e outros. Até as épocas das narrativas eram desencontradas.

Nota ao Aprendiz – Ainda hoje há irmãos maçons que costumam sustentar mitos semelhantes, pretendendo levar a origem da Maçonaria a tempos imemoriais. Outros procuram convencer que toda e qualquer personalidade ilustre seja ou tenha sido maçom.

Já no século passado, os estudos de Findel e outros abalaram todos os mitos pelos quais a Maçonaria seria originária do Egito, da Grécia, do Templo de Salomão, dos Essênios, dos cretenses e de outras fontes “antiquíssimas”. A maioria dos Corpos Maçônicos deste século já não admite as supostas “derivações” da Maçonaria, muitas delas engendradas pelos “maçons aceitos” de quando iniciou a Maçonaria especulativa.

Por esse motivo, e também por apresentarem como “segredos” muitas lições vulgares da história da filosofia, muitas instruções anexas a rituais foram abolidas. A regra a cumprir, para com os maçons iludidos ou mitômanos, é a tolerância, mas sem prejuízo do constante esclarecimento.

A par de tais lendas que liam para os recipiendários, os maçons operativos mantinham seus regulamentos profissionais e tradições.

As “obrigações” (“old charges”) deviam ser integralmente respeitadas, bem como os preceitos da ética do oficio. Várias dessas obrigações se conservaram até na Maçonaria especulativa e se tornaram “landmarks” ou lindeiros. A palavra “landmark” significa limite entre países ou territórios, mas entre os maçons veio a significar marco ou regra instransponível e imutável.

A legitimidade das antigas obrigações foi revelada mediante referências históricas, leis, bulas, papeis, inclusive decretos governamentais e clericais que tinham por escopo perseguir os maçons e proibir as reuniões das Lojas. Além desses recursos da história, havia os antigos “manuscritos”. Vários desses documentos eram reproduções ou cópias de escritos mais antigos. Outros eram realmente falsificados. A “velha Constituição de York, do ano de 925”, outorgada numa Convenção convocada pelo príncipe Edwin, filho do rei Athelstan, não passou de mistificação, que o maçom Findel e outros viriam a desmascarar.

Porém, por esse fato não há que negar os maçons operativos narravam a lenda de Athelstan e seu filho Edwin. Essa lenda consta, por exemplo, do livro conhecido por “Poema Régio”, mas cujo nome verdadeiro e “Hic Incipiunt Constitutiones Artis Geometriae Secundum Euclydem” (Aqui principiam as constituições da arte da geometria, de acordo com Euclides, ou Princípios Constitucionais da Arte). James O. Halliwel, 1840, encontrou esse livro, escrito em pergaminho, na Real Biblioteca, do British Museum. Atribui-se a obra ao século XV. Trata-se de uma “constituição” à maneira adotada pelas fraternidades e organizações profissionais da época. O poema contém 794 versos, nos quais se constam as lendas da fraternidade de pedreiros, as regras morais da “boa geometria”, os deveres dos companheiros nas suas relações mútuas e para com os senhores e proprietários.

Euclides, “por inspiração de Cristo”, teria ensinado as sete ciências e, certa vez, teria sido contratado para ensinar a Geometria aos jovens da nobreza do Egito. A “arte” se espalharia pelo mundo e teria chegado à Inglaterra (Ilha dos Santos). Certa vez, o rei-arquiteto Athelstan teria promovido uma convenção, na qual se teriam promulgado quinze principais artigos e quinze pontos fundamentais. O documento menciona o martírio dos “Quatro Coroados”, santos conhecidos por essa denominação que, por sua vez, viria a ser um atributo da “arte” (“Ars Quatuor Coronatorum”). Seguem-se as lendas da Torre de Babel, “construída muito depois do dilúvio e, em certa ocasião, dirigida pelo rei Nabucodonosor”. “Os construtores da torre se tornaram tão vaidosos que o Senhor os castigou, enviando-lhes um anjo que lhes confundiu a linguagem”. Consta do documento os significados morais das sete ciências e as regras da fraternidade.

Outro documento relevante, embora de tradução infiel, é o dos regulamentos profissionais da Fraternidade de Pedreiros (talhadores e escultores de pedra) de Estrasburgo. Esses estatutos teriam sido aprovados em Spira, em 1464 e ratificados em Ratisbona cinco anos depois, trata-se de uma verdadeira constituição da Ordem, na qual se consignam as regras de ética profissional, a admissão dos aprendizes, o tempo de aprendizado, o respeito aos planos e aos contratos de obra. Na confraria só podiam ser admitidos homens livres e de boa formação moral e familiar. Era proibido aos mestres confiar trabalhos aos companheiros que viesse amancebado ou passasse “a viver desregradamente com mulheres”, ou fosse jogador a tal ponto que dele se pudesse dizer “que havia apostado as próprias vestes”. O dever religioso, inclusive os de confessar e comungar, era imposto aos obreiros.

Outro “documento”, a chamada “Carta de Colônia”, atribuída ora aos jesuítas, ora a Frederico de Nassau, não passa de mistificação. Entre os demais documentos citados pelos historiadores maçônicos, podem mencionar-se a lei do Conde de Santo Albano (1663), o manuscrito Harley (1670), existente no Museu Britânico e escrito por Randle Holmes e o “Velho Manuscrito”, assinado por William Bray e escrito por Robert Cleark (1686). Os Estatutos Shaw, da Maçonaria Escocesa, foram publicados no final do século XVI (1598-1599).

Do confronto de todos os documentos e regulamentos e, mais, do que se pode concluir das referências históricas, resulta uma síntese de várias regras que se impunham aos maçons, entre as quais:

I – a de cumprir os mandamentos da Igreja, respeitar os sacramentos e confessar e comungar periodicamente;

II – a de respeitar as leis e as autoridades constituídas e de nunca tomar parte em sedições;

III – a de seguir os preceitos da “moral da boa Geometria”, de modo a viver de acordo com os bons costumes, a não se entregar ao jogo e a outros vícios, a mulheres de vida fácil, ao adultério e ao concubinato;

IV – a de somente admitir nas corporações e confrarias candidatos livres, de boa família (no sentido moral) e de bons costumes e boas referências (“good reports”);

V – a de não se admitirem jamais candidatos portadores de defeitos físicos ou doentes;

VI – a de os obreiros cumprirem os contratos de construção, de modo a contentar os proprietários e senhores, seguindo suas as ordens e condições combinadas e cuidando de terminar e entregar a obra no tempo ajustado;

VII – a de não se admitirem novos companheiros sem a licença do mestre da circunscrição e sem prévia comunicação às lojas da região, mediante a fixação de um pergaminho a uma prancha ou tábua colocada de modo ostensivo;

VIII – a de dar conhecimento à assembleia geral dos fatos que interessavam à fraternidade, inclusive admissões;

IX – a de comparecer periódica ou anualmente à assembleia geral, para tomar conhecimento das resoluções e receber conselhos e instruções sobre a Arte, sobre os salários a serem pagos e sobre a maneira de bem servir aos mestres, aos senhores e aos proprietários;

X – a de eleger mestres entre os companheiros mais experimentados e mais versados na Arte;

XI – a de cumprir as regras de fidelidade e fraternidade entre os companheiros e reservar “troncos” para os necessitados;

NotaDe certos regulamentos se vislumbra que o “tronco” se referia também a honorários pagos na conclusão das obras.

XII – a de os aprendizes serem sujeitos a prestar serviços aos mestres durante um determinado número de anos (na Alemanha se exigiam cinco anos e na Inglaterra sete); e a de os companheiros (aspirantes) praticarem o ofício em várias obras (três, pelo menos) e viajarem, antes de conseguirem a plenitude de seus direitos.

Nota – Referências históricas demonstraram cabalmente que esses prazos não eram iguais em todos os lugares e que a habilidade profissional era levada em consideração, de modo a se encurtarem os “interstícios”. Porém, houve época em que os mestres das diferentes profissões artísticas prolongavam, a seu bel-prazer, o tempo de aprendizado e faziam outras exigências, aproveitando-se da situação privilegiada de que desfrutavam como principais contratantes nas encomendas, e das condições regulamentares para aprovar a concessão, de cartas, licenças ou franquias. Certos regulamentos exigiam que o companheiro, para ser admitido ao trabalho, exibisse ainda a carta de apresentação de mestres e companheiros experimentados.

Por outro lado, revela considerar a tradição universitária que a Maçonaria herdou no que tange ao seu humanismo e à sua filosofia. Os estudantes da Idade-Média também se reuniam em corporações. Pagavam os professores, contratavam os mestres e os despediam. Desse modo é que fundaram as universidades.

Na Itália, na Espanha e no sul da França, as universidades seguiam o padrão de Bolonha. Nessas instituições se ensinavam o “trivium” (Gramática, Retórica ou Dialética e Lógica) e o “quadrivium” (Aritmética, Geometria, Música e Astronomia), mais ou menos na seriação secular instituída por Boécio. Para o estudante conseguir a carta de “mestre” era exigido um curso que durava sete anos ou pouco mais, pois o “trivium” exigia quatro ou cinco anos e o “quadrivium” o tempo restante.

As sete ciências, porém, não tinham o sentido atual. O seu ensinamento era filosófico e humanístico, isto é, mais ou menos como ocorre na Maçonaria.

As sociedades secretas estudantis resultam de tradições das universidades. A Maçonaria, por sua vez, contém muita coisa das tradições das universidades, quer por se inspirar nas práticas dos antigos Pedreiros-Livres, para os quais a Geometria era também uma ciência moral, quer porque os maçons mais versados do passado, e depois os “aceitos”, cuidariam de manter os melhores princípios das corporações, inclusive os das universidades.

Essa conclusão resulta de qualquer livro de história, como, por exemplo o de McNall Burns, 1º vol., Parte 4.

Constituída a Grande Loja Inglesa, em 1717, os seus principais fundadores cuidaram de reunir os velhos regulamentos, as lendas e tradições dos maçons e as antigas “obrigações” (old charges).

Em 1718, George Payne é eleito Grão-Mestre da Grande Loja e manda consolidar os regulamentos, usos e obrigações constantes de velhas cópias. Em 1719 é eleito Grão-Mestre o reverendo João Teófilo Desaguliers, que ao lado de James Anderson, fora um dos principais fundadores da Grande Loja.

George Payne, novamente eleito para o grão-mestrado em 1720, manda completar as compilações iniciadas em 1718. Surgem e se definem, por conseguinte, as Trinta e Nove Regras Gerais (“General Regulations”) condensadas nos conhecidos Regulamentos Gerais. No mesmo ano, por motivos que se ignoram, foram queimados preciosos manuscritos da antiga Maçonaria. O fato foi lamentável, embora existissem velhas cópias nos museus e velhos documentos nas Lojas que ainda não pertenciam à Grande Loja Inglesa.

Nota – Vários maçons autênticos, inclusive os que não eram católicos, atribuíram essa queima de documentos à preocupação de se ocultar a origem clerical da Maçonaria, pois os fundadores da Grande Loja Inglesa eram protestantes, na sua maioria. Não há muito fundamento em tal suposição. No mais, seria impossível ocultar que os Pedreiros-Livres e Canteiros eram católicos e que a primeira fase da Maçonaria operativa medieval pertencia aos monásticos. Isso não quer dizer que a Maçonaria seja uma derivação de Igreja Católica, eis que releva ponderar muito mais as tradições das corporações e fraternidades do que as circunstâncias em que essas organizações vicejaram.

O ilustre maçom autêntico Albert Lantoine, autor de “Lês Societés Secretes actuelles em Europe et en Amérique” (Paris 1940), é um dos que abonam a insinuação.

As Regras gerais viriam a ser aprovadas na data de S. João de 1721. Aos 17 de janeiro de 1723 foi aprovado pela Grande Loja Inglesa o tradicional LIVRO DAS CONSTITUIÇÕES, impropriamente conhecido por Constituição de Anderson, pelo fato de este fundador da Grande Loja haver-se dedicado ao projeto e compilado as velhas lendas, usos, costumes e “antigas obrigações”, tudo acrescido às “Regras Gerais”.

Do confronto histórico resulta que o trabalho de Anderson não foi muito fiel a tudo quanto revelaram as velhas cópias. As lendas do passado, mais ou menos alteradas, se acrescentaram outras, principalmente aquelas inspiradas na Bíblia, como conviria a bons ministros e pastores protestantes.

Contudo, a modificação foi salutar, pois a Bíblia é um dos maiores monumentos morais do mundo.

A chamada Constituição de Anderson se impôs como padrão de qualquer organização maçônica regular, isto é, fundada nos princípios da Maçonaria Universal, da qual a Grande Loja da Inglaterra é a “alma mater”.

Cumpre lembrar que no tempo de Anderson ainda havia uma corrente católica, mais ligada à antiga Maçonaria Escocesa. Essa corrente era também política, pois era partidária dos Stuarts. O Cavaleiro Ramsay pertencia a essa corrente.

Mais tarde se operou a unificação da Maçonaria inglesa.

O atestado mais definido dessa unificação é o tradicional RITO DE YORK, condensado num livro denominado “Landmarks”, Leis Básicas e Cerimônias dos Três Graus Simbólicos da Arte Maçônica, chamada, às vezes, RITO DE IORQUE, por terem compiladas, elaboradas e organizadas por representantes de todas as Lojas consideradas regulares reunidas na cidade de Iorque, na Inglaterra, em 1815, tais como foram aprovadas, confirmadas e sancionadas pela Grande Loja da Inglaterra, em 1815. O ritual também é, chamado de Ritual dos Maçons Antigos, Livres e Aceitos.

Em 1813 já havia ocorrido a formal unificação da Maçonaria inglesa, com a constituição da Grande Loja Unida (27 de dezembro de 1813, data de S. João Evangelista). A união das Grandes Lojas inglesas governadas pelos duques de Kent e de Sussex tinha sido preparada desde o começo daquele ano. O duque de Kent renunciou ao grão-mestrado para facilitar a unificação. Assim, se consumou a união de “Antigos” e “Modernos”.

Já então a Maçonaria se havia espalhado pelo mundo, com suas Lojas, algumas abraçando regras mistas e outras seguindo ou escolhendo entre regras da Grande Loja da Escócia e as regras da Grande Loja Inglesa.

Surgiram, por sua vez, vários ritos e rituais.

A Grande Loja da Escócia foi fundada aos 15 de outubro de 1736, em Edimburgo.

O Grande Oriente de França foi fundado oficialmente aos 24 de dezembro de 1772, mas a Maçonaria francesa já existia desde muito antes, quer sob a égide da Grande Loja Inglesa, quer de maneira independente. Sabe-se que em 1730 já existia a “Grande Loja Inglesa de França”. Em Paris havia a “Ordem dos Franco-Maçons do reino de França”, fundada aos 27 de dezembro de 1735.

Na Alemanha, as Lojas trabalhavam sob o sistema da Grande Loja da Inglaterra. Em, 1766, um mágico profissional hábil, prestidigitador, artista genial e homem culto de nome Schröder, funda o “Capítulo de Antigos e verdadeiros Franco-Maçons” e, depois, cria o belíssimo rito que tem o seu nome, com os três graus do simbolismo sob o nome de “Rito Retificado de Rosa-Cruz”.

Em suma, a Maçonaria se pratica por vários ritos ou métodos. De um modo geral, esses métodos conduzem o maçom ao mesmo resultado de aperfeiçoamento moral. Como afirmava Pascal, os homens se aperfeiçoam e conquistam a verdade seguindo os ritos.

As Lojas do mundo os congregam em Grandes Orientes ou Grandes Lojas, governadas pelos respectivos Grão-Mestres. Por sua vez, esses Altos Corpos se relacionam como as nações, por meio de troca de representantes, correspondências, tratados de amizade e confirmações de relacionamento mútuo. Não há poder maçônico internacional. As reuniões universais se efetuam por meio de Congressos e Convenções.

O templo doutrinário da Maçonaria

Dir-se-ia, pois, que o Templo Maçônico foi erguido com o melhor material produzido pela humanidade. Ergueu-se com os alicerces da História. Suas paredes foram levantadas com tijolos e pedras iguais, que representariam a manifestação do espírito humano e o denominador comum de todas as crenças. Todos os componentes do edifício maçônico se entendem ligados com a argamassa da comunhão universal. Enfim, os ornamentos do Templo completariam a síntese de todas as ideias dirigidas para um mundo melhor.

E o melhor paradigma para o Templo Maçônico não podia ser outro que não o Templo de Salomão. A Davi, que manchara as mãos de sangue, não fora concedido erguer o Templo (Crônicas, 28/3), de cuja obra possuía os projetos (Crônicas, 28/11 a 21 e Cap. 29). A tarefa haveria de caber a seu filho Salomão, que apelou para Hirão, rei de Tiro, monarca suserano e aliado a Davi. O rei Hirão enviou a Salomão o artífice, metalista e arquiteto Hirão Abi, filho de uma viúva da tribo de Neftáli (Reis, I, caps. 5, 6 e 7 e Crônicas ou Paralipômenos, caps, 2, 3 e 4).

ObservaçãoNo Rito Adoniramita (Adon-Hiramita) é preferido Adonirão e Hirão-Abi (V. I-Reis, 5/14).

Assim, foi edificado o Templo de Jerusalém, com pedras já preparadas nas pedreiras, de maneira que nem martelo, nem machado, nem instrumento algum de metal se ouviram na casa, enquanto a construíam (I, Reis, 6/7). O mesmo se dá com a Loja maçônica dedicada à construção do mundo melhor. O seu trabalho não se ouve lá fora.

FINIS

Autor: Jeffson Magnavita Barbosa Filho

Fonte: página da ARLS De Campos Ribeiro, 51

Referências

Ritual do Aprendiz Maçom – Edição de junho/2006.

Curso de Maçonaria Simbólica – (I Tomo) Theobaldo Varoli Filho – Editora – A Gazeta Maçônica

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As Sete Artes e Ciências Liberais – Parte I

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As Sete Artes Liberais. Livro de registro da biblioteca da Universidade de Tübinger (séc. XV).

As “Sete Ciências Liberais” da Antiguidade e sua significação Maçônica e, a reminiscência monástica introduzida na Maçonaria.

Na Maçonaria se mencionam muito as sete ciências liberais da antiguidade: Gramática, Retórica, Lógica, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia. Os pedreiros-livres medievais enalteciam essas artes, nos seus regulamentos, envolvendo-as de lendas “secretas”. Numa época de menor divulgação da cultura, anterior à deste século, os maçons, ingenuamente, acreditavam também que essa arcaica seriação de ciências e artes fosse um mistério incomunicável a profanos, quer porque tivesse relação com o número sete, quer porque, de acordo com a opinião de “entendidos”, podiam representar os degraus que levam o maçom até o trono do Oriente, desde a Grade, como também poderiam ser o significado de certas escadas simbólicas.

A verdade é que as “sete ciências” ou “ artes” eram tudo quanto conheciam os antigos, ainda que os gregos se tivessem referido à física, à filosofia (Pitágoras) e a química fosse desconhecida, pois era praticada já no antigo Egito.

Ocorreu que Boécio (470-525), poeta e filósofo, secretário de Estado ou ministro do monarca ostrogodo Teodorico e, por ordem deste rei, condenado e decapitado, criou a divisão “trivium et quadrivium”, estabelecendo a seriação pela qual as três primeiras ciências deveriam ser a Gramática, a Retórica e a Lógica, e as quatro restantes a Aritmética, a Geometria, a Música e a Astronomia.

Boécio foi autor da Consolação da Filosofia, na qual ensinava a vencer as paixões para conquistar a paz de espírito, a felicidade e a comunhão com Deus. Seu contemporâneo, o macróbio Cassiodoro (468-561 ou mais), depois de ser ministro de Teodorico, retirou-se para um convento que resolvera fundar numa sua propriedade da Apúlia, na Itália, e ordenou aos monges que passassem a copiar os manuscritos antigos e a estudar e praticar as “sete artes liberais”.

Essa prática passou a ser seguida pelos beneditinos, monges da Ordem de São Bento, fundada em 529, em Monte Cassino, cujo célebre mosteiro viria a ser destruído pelos lombardos, em 580.

Os beneditinos foram os principais divulgadores da cultura na Europa medieval. Dedicavam-se ao arroteamento de terras e a vários ofícios e, ao mesmo tempo, entregavam-se aos estudos e à religião. Construíam seus próprios conventos e assim a constituir a Maçonaria monástica (ver nota, mais adiante).

Quando passaram, em parte, a dedicar-se às construções, os beneditinos disseminaram a arte românica. Depois criaram a própria arte beneditina. Congregando como irmãos (frates), nas oficinas que dirigiam os profissionais leigos da arte da construção, chegaram a monopolizar a edificação até o advento da arquitetura gótica, preferida para as catedrais.

A Ordem beneditina criou outras corporações monásticas.

Em 910, beneditinos dispostos a recuperar a severidade monástica, então em decadência, fundaram a célebre abadia de Cluny.

E, 1098 foi fundada a Ordem de Cister, no retiro de Dijon, perto de Citeaux, na França. Entre os monges cistercienses haveriam de surgir operosos construtores e seguidores do exemplo dos beneditinos, seus antecessores e fundadores. Ainda hoje há exemplos de monastérios construídos pelos atuais cistercienses, entre os quais há o Irmão Arquiteto.

Porém, os artistas leigos da construção, seguidores de uma profissão nobre e de velhíssima origem, não ficariam muito tempo sob a total dependência dos monásticos.

Entretanto, quando passaram a construir a Maçonaria-Livre, os profissionais da construção, católicos de religião, haveriam de conservar vários ensinamentos monásticos. Desse modo, as sete artes liberais continuaram a figurar nos seus códigos e regulamentos. Quanto às sete artes, a Maçonaria atual conserva o simbolismo moral e disciplinar que a elas emprestavam os obreiros medievais.

A Gramática, sistematização dos fatos da linguagem, a Retórica, arte da boa expressão e norma de eloquência, e a Lógica, ciência do método, ou da investigação da Verdade, ensinam que o maçom deve aperfeiçoar-se no falar e escrever, manifestar-se de maneira clara e dizer sempre a Verdade. Em suma, o maçom deve falar pouco e dizer muito.

A Aritmética, ciência das propriedades dos números e a Geometria, medida da extensão, ensinam ao maçom o dever de contar e medir as próprias ações e palavras. Essa regra se aplica principalmente àqueles obreiros que comparecem às Lojas para mostrar os seus dotes oratórios e cansarem a assistência com os seus discursos carregados de rançoso lirismo. Entre esses maçons há aqueles que se entregam a dar conselhos que ninguém pede e a recomendar aos aprendizes o dever de frequentar as sessões. A Maçonaria não é qualquer instituição acaciana e, muito menos, uma ordem que precisa mendigar o comparecimento de seus obreiros.

A Música lembra, em primeiro lugar, a harmonia que deve reinar entre os obreiros e os acordes de consonância. Lembra, mais, que o som afinado corresponde a uma frequência exata ou número certo de vibrações por segundo.

A Astronomia demonstra, antes de tudo, a perfeição da obra do Grande Arquiteto do Universo. Ensina, mais, o movimento aparente dos astros, a rotação e a translação da Terra, a lei da atração universal (Newton) e tudo quanto mais a ciência dos astros possa proporcionar ao simbolismo e ensinamentos maçônicos.

Nota – Fundação da Ordem de São Bento.

Fundada por São Bento, em 529, a Ordem Beneditina teve por berço o afamado mosteiro de Monte Cassino, na Itália. A própria Ordem construiu o mosteiro que em 580 viria a ser destruído, pela primeira vez, pelos lombardos.

A cultura medieval é, de um modo geral, privativa das ordens monásticas, principalmente a dos beneditinos, havidos como os “únicos eruditos” da Idade Média. Os beneditinos mais versados sempre se distinguiram nas letras e nas ciências e depois nas artes, inclusive a de construir. Os demais se dedicavam ao arroteamento de terras e ao plantio.

Foram os beneditinos que transcreveram, traduziram e interpretaram as obras gregas e romanas, bem como escritos e documentos do Oriente. Disseminaram a cultura medieval europeia e serviram de exemplo a outras ordens religiosas que surgiriam posteriormente. Encarregaram-se da missão de converter “pagãos” por toda a Europa. Na arte de construção, passaram a monopolizar e a dirigir a maçonaria operativa. Começaram pelo estilo românico. Depois implantaram na arquitetura as próprias características beneditinas e, mais tarde, também se dedicaram à Arquitetura Gótica. Associados aos pedreiros e canteiros fundaram autênticas organizações fraternais, as quais, por ordenamentos, costumes e certas cerimônias, seriam uma espécie primitiva de Lojas maçônicas.

Foi em 597 que os beneditinos se dirigiram à Inglaterra, (chamada Ilha dos Santos) e fundaram a abadia (não a catedral gótica) de Cantuária (Canterbury). No século VII, espalhando-se pela Alemanha, fundaram a abadias de Ettenheim, Lauresheim, Prüm, Monse, Hirschfeld, Fulda e outras. Da Alemanha passaram à Dinamarca, depois à França, pátria do estilo gótico e, enfim a quase toda Europa.

OS CISTERCIENSE – A Ordem de Cister, instituída, em 1098, foi fundada pelo abade De Molésme, no retiro de Citeaux, perto de Dijon, França. A princípio os cistercienses, como os beneditinos, seus inspiradores, se dedicaram ao ensino gratuito e à agricultura. Posteriormente, por seus mestres e arquitetos, passaram a erigir grandes catedrais e grandes construções, seguindo o exemplo dos beneditinos, seus mestres e fundadores.

AS CATEDRAIS – Na Idade Média a catedral não era uma simples sede religiosa ou uma igreja comum. Era realmente o centro das comunicações. Quase sempre abrangia uma escola gratuita, biblioteca e até uma sede de câmara municipal. O povo contribuía para a construção de grandes igrejas e havia, entre os habitantes de várias cidades, a emulação no sentido de construir catedrais maiores, mais altas e mais imponentes do que as outras.

Nota ao Aprendiz – Na Maçonaria atual ainda se preconiza o exemplo das antigas catedrais. Recomenda-se às Lojas para que se esforcem no sentido de se tornarem o centro social de todos os assuntos de seu “Oriente”.

Continua…

Autor: Jeffson Magnavita Barbosa Filho

Fonte: página da ARLS De Campos Ribeiro, 51

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Considerações sobre o Poema Regius, do século XIV

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O presente texto tem como objetivos:

  • situar, brevemente, um poema do final do século XIV – conhecido como Poema Régio – entre documentos denominados Old Charges (Antigas Obrigações);
  • explicar as características básicas do texto;
  • oferecer uma tradução sintética do seu conteúdo e,
  • contextualizar os dados considerados mais relevantes para a compreensão mais acurada de determinados aspectos da história da nossa Ordem.

I

A História mais antiga da nossa Ordem está cercada, de um lado, de imprecisões e lacunas e, de outro lado, de muitos dados fantasiosos, sem qualquer comprovação, geralmente arrolados ao léu. Falta, de modo habitual, conhecimento de metodologia de pesquisa científica a inúmeros daqueles autores que acabam elaborando teses mirabolantes e, assim, desejam recuar os primórdios da instituição a tempos imemoráveis, não-documentados e míticos. Contudo, entre suposições e dados documentais há enorme distância.

Parece evidente, no entanto, que haja vínculos estreitos entre a organização da nossa Ordem e a estrutura de algumas corporações de ofício medievais e que também a instituição tenha herdado traços diversos de outras ordens iniciáticas, sobretudo no que respeita ao embasamento filosófico, em especial das correntes neopitagóricas, neoplatónicas e similares. Todavia, este tema, em especial, é complexo o suficiente para gerar um outro trabalho. No ocaso da Idade Média, a corporação dos editores (sem dúvida, posterior ao ano de 1455, data em que Johan Gutenberg teria iniciado a reprodução mecânica de textos impressos) também mostra uma organização assemelhada em diversos aspectos à dos construtores medievais.

Desde três séculos para cá, existem documentos baseados em fatos históricos comprovados, sobretudo depois da constituição da Grande Loja de Londres, em 1717. No entanto, há outros, mais antigos, que têm importância seminal para compreender diversos fatos históricos relacionados com a nossa Ordem. As chamadas Old Charges (Antigas Obrigações) são manuscritos do final da Idade Média e do início da Idade Moderna usados pelas corporações dos Maçons Operativos Talhadores de Pedra e que foram encontrados, basicamente, na Inglaterra e na Escócia, e recobrem um período que vai do final do século XIV ao ano de 1748. Na verdade, os antigos manuscritos que, grosso modo, fazem referência tanto à Maçonaria Operativa medieval, quanto à Maçonaria Especulativa moderna, eram contabilizados, em 1872, por William James Hughan, como um total de 32 documentos. Em 1889, já se mencionavam 62, e o próprio Hughan, em 1895, falava da existência de 66 manuscritos, mais nove versões impressas e onze desaparecidas, num total de 86 documentos. No começo do século passado, em 1918, o Ir∴ Roderick H. Baxter, V∴ M∴ da Loja Quatuor Coronati, listou nada menos de 98 , incluindo as versões em falta.

Entre outros, fazem parte do que se denomina Old Charges:

  • o Poema Regiuscirca 1390;
  • Manuscrito de Cooke, de 1410, descoberto por Matthew J. Cooke, divulgado sob forma impressa em 1861, redigido em prosa de 930 linhas; 19 artigos sobre a história da Arquitetura e Geometria, quatro relativos à vida social dos maçons, nove conselhos de ordem religiosa e moral; o historiador Wilhelm Begemann indica a cidade inglesa de Gloucester como provável origem do documento e também há quem o date de 1430 ou 1440;
  • os Estatutos de Schaw, de 1598, referem-se a estatutos promulgados por William Schaw, na Escócia, a quem se faz menção como “mestre dos maçons” (Maister o’ Work Warden General o’er a’ the masons), na Loja Kilwinning, em Ayrshire, e cujos registos parecem remontar a 1140;
  • Manuscrito de Aitchison´s Haven, de 1598, no Condado de Midlothian, Escócia, contém um livro de balaústres da Loja de Edimburgo;
  • Manuscrito de Inigo Jones, de 1607, que, nomeado mestre dos maçons, na Inglaterra, organiza lojas no estilo das academias italianas e incentiva a ingressar na instituição personagens desejosos de adquirir cultura;
  • Manuscrito de Melrose, de 1674, balaústres da Loja Melrose Saint John, de Newstead, na Escócia, 258 páginas, que contam a história das reuniões de 1674 até 1792; o brasão de armas da Loja Melrose , gravado em madeira, remonta a 1156.

II

O chamado Poema Regius, datado supostamente de 1390, parece ser um dos elos mais antigos capazes de ligar, em definitivo, a Maçonaria Operativa à Maçonaria Especulativa. Trata-se de um manuscrito de 64 páginas, em pergaminho, de autor anônimo, que se encontra hoje no Museu Britânico. Foi catalogado como A Poem of Moral Duties: here entitled Constitutiones Artis Geometriae secundum Euclydem (Um Poema de Obrigações morais, aqui intitulado como as Constituições da Arte da Geometria, segundo Euclides), com metade do título em inglês e outra metade, em latim. O rei inglês George II, em 1757, apresentou-o à nação e mandou depositá-lo na abadia de Westminster. O antiquário James Orchard Halliwell-Phillips (1820-1889), um renomado especialista em Shakespeare, revelou o real sentido do manuscrito redigido em inglês medieval. Entre 1838-39, apresentou à Sociedade dos Antiquários de Londres um trabalho intitulado On the Introduction of Freemasonry in England (Sobre a Introdução da Franco-Maçonaria na Inglaterra) e, com isto, chamou à atenção de muitos Irmãos nossos (interessados em pesquisa séria sobre a História da Ordem) para as reais ligações entre maçons operativos e especulativos. Em 1844, Halliwell revisou e ampliou o seu texto e acrescentou-lhe uma cópia fac-simila do original. No ano de 1889, um fac-simile exato foi publicado no volume primeiro das Antigrapha da Lodge Quatuor Coronati, editado pelo secretário da Loj∴, Ir∴ George William Speth, com glossário indispensável e comentários do Ir∴ R.F. Gould.

Poema Regius está composto de quinze artigos e quinze pontos, alguns comentários introdutórios e uma longa peroração final. Trata-se de um poema – mas com rimas pobres-, com 794 linhas, redigido em inglês arcaico, contemporâneo a Geoffrey Chaucer [1]. Supõe-se que o manuscrito tenha sido copiado de um texto mais antigo e há indícios de que, ou o copista, ou o autor do texto original. tenha sido um padre, face às alusões que faz à cristandade, à necessidade de frequentar a igreja –

“o próprio Cristo ensinou-nos que a sagrada igreja é a casa de Deus, feita para nada mais do que para rezar, como nos ensina o Livro”- [(…) For Christ hymself, he techet ous/ That holy churhe ys Goddes hous,/That ys y-mad for nothynge ellus/but for to pray yn, as the bok tellus, linhas 87: 90, no original].

Há trechos que aludem, de modo transparente, à visão esposada pela igreja católica – os sete pecados capitais e o culto a Maria (que aparece somente no Poema Regius e em nenhum outro manuscrito das Old Charges). Nos versos finais, há claras instruções a respeito da maneira de se comportar dentro da igreja, como proceder durante a missa, como se ajoelhar, etc. Aparecem, ainda, menções ao pensador Santo Agostinho (354-430 d.C.), a personagens bíblicas, aos procedimentos a serem adotados na presença de nobres, às boas maneiras à mesa e nas ruas.

Há trechos em latim medieval, com evidentes erros de ortografia e/ou transcrição e, a certa altura, o texto faz menção ao rei inglês Athelstan [2], insinuando que teria sido ele o responsável pela regulamentação da Maçonaria (Operativa) na Inglaterra. A primeira linha do poema está em latim (já se notam os erros mencionados) e reza o seguinte: 

Hic incipiunt constituciones artis gemetriae secundum Eucyldem [sic] (Aqui começam as constituições da Arte da Geometria, segundo Euclides).

O texto menciona, na parte final, personagens bíblicos, como é o caso de Noé, refere-se à torre da Babilónia, ao rei Nabucodonosor II [3], ao dilúvio, à perda dos conhecimentos relativos à construção e ao fato de o erudito Euclides [4], muitos anos depois, ter ensinado novamente a arte da Geometria (recuperando, portanto, o conhecimento perdido) e, ao todo, as sete ciências, ou seja, as Sete Artes Liberais do mundo antigo. O narrador, em primeira pessoa, afirma que a Gramática é a primeira ciência de que tem conhecimento e, a seguir, enumera as outras seis: Dialética, Retórica, Música, Astronomia, Aritmética e Geometria; assevera, também, que a Geometria

“pode separar a falsidade da verdade” [ (…) con deperte falshed from trewthe, linha 574, no original].

III

Em linhas gerais, é possível concluir que o texto faz referência explícita à Maçonaria Operativa medieval, na medida em que menciona “grandes senhores” aos quais os Mestres Maçons estariam ligados, o que permite supor, corretamente, que tenham sido os nobres que contratavam a construção de castelos, catedrais, fortalezas, etc. Há uma série de alusões marcantes ao ambiente socioeconómico, político e cultural da Idade Média europeia e, particularmente, inglesa, como, por exemplo, a figura do xerife de um condado. No entanto, levando-se em conta uma sociedade, como a medieval, em que as classes sociais eram estanques e separadas, o papel da nobreza e da igreja era preponderante, não deixa de ser surpreendente ler, no Ponto Nono do texto que “todos os homens devem ser igualmente livres” e que a equidade no comportamento deveria ser observado tanto em relação a homens, quanto a mulheres.

A partir do texto, não fica muito claro se, de fato, os construtores medievais consideravam a existência de três graus diferentes na escala de conhecimentos, ou seja, Aprendiz, Companheiro e Mestre, uma vez que o texto cita a figura do Aprendiz (que devia ser subordinado a um Mestre), a do Mestre e, em sucessivas passagens, refere-se a Companheiros, mas não há clareza quanto ao fato de o termo significar, literalmente, “companheiro” ou referir-se a “todos os integrantes da confraria”. Convém lembrar que com o surgir da Grande Loja Unida de Inglaterra, em 1813, quando os Antigos e Modernos concordaram em trabalhar sob comando único, estabeleceu-se em definitivo, que

fica declarado e promulgado que a pura Antiga Maçonaria consiste de três graus e não mais , isto é, Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom, incluindo a Suprema Ordem do Sagrado Real Arco”.

A simples leitura dos quinze artigos do Poema Regius permite, no entanto, perceber inúmeras e claras interrelações entre operativos e especulativos e a existência de um rígido código ético.

É interessante mencionar que, em 1968, Henry Carr [5] afirmava o seguinte:

“Insisto, contudo, que a nossa Franco-Maçonaria atual, especulativa, é descendente direta da maçonaria operativa, cujos princípios podemos fazer retroceder aos mais antigos registos referentes à organização entre construtores, em 1356”.

Uma década mais tarde, Carr voltaria a dizer:

“A transição da maçonaria operativa para a especulativa não representou a substituição de uma atividade antiga sob nova direção. Era a atividade antiga, que, gradualmente, alterou o caráter, segundo as necessidades da sua época, mas com continuidade perfeita” [6].

Todavia, ao longo do século XX, nada menos que dez teorias diferentes desfilaram nas páginas do Ars Quatuor Coronatorum, publicação oficial da Loja Quatuor Coronati [7], muitas delas contraditórias entre si.

McLoughlin [8], por seu turno, lembra que documentos históricos autênticos mostram a existência, durante a Idade Média, de construtores de catedrais e outras obras que eram chamados de “Free and Accepted Masons” (Maçons Livres e Aceitos), chamados de operativos, e a designação recobria vários profissionais, inclusive carpinteiros. Aos poucos, prossegue, burgueses, nobres e até mesmo reis foram iniciados, gradualmente, como “especulativos”. Sublinha a existência de inúmeras lojas na Europa, nos séculos XV, XVI e XVII e menciona as atas, de 1599, da Loja Maçónica de Edimburgo nº 1.

IV

Segue, abaixo, resumo traduzido do texto, na ordem em que estão relacionados os artigos, pontos e outros dados no poema:

  • Artigo 1º – o Mestre Maçom deve ter segurança absoluta no conhecimento da Geometria e deve pagar os Companheiros corretamente;
  • Artigo 2º – todo Mestre Maçom deve comparecer às assembleias da Ordem;
  • Artigo 3º – um Mestre Maçom não deve aceitar qualquer Aprendiz, a menos que tenha certeza de que poderá conviver bem durante sete anos com ele e se estiver seguro de que o Aprendiz será capaz de aprender o ofício;
  • Artigo 4º – o Mestre Maçom deve supervisionar o trabalho do Aprendiz que, por sua vez, deve ter boa índole;
  • Artigo 5º – o Aprendiz não pode ser deformado para não fazer a Ordem passar vergonha porque faria mal à instituição e deve ser um homem forte;
  • Artigo 6º – o Mestre Maçom, convém sublinhar, deve ser perfeito na sua Arte e deve transmitir absolutamente tudo ao Aprendiz;
  • Artigo 7º – um Mestre Maçom não deve, em hipótese alguma, dar abrigo a ladrões ou assassinos, a fim de não envergonhar a Ordem;
  • Artigo 8º – um Mestre Maçom deve substituir, imediatamente, qualquer membro da Ordem que não corresponder às expectativas e necessidades;
  • Artigo 9º – o Mestre Maçom deve ser sábio e forte e deve ser útil à Ordem, onde quer que vá;
  • Artigo 10º – todos devem ter ciência, acima e abaixo (na hierarquia), que nenhum Mestre Maçom deve tentar suplantar o outro, mas deve comportar-se como um Irmão e deve terminar o seu trabalho de modo correto;
  • Artigo 11º – nenhum Maçom deve trabalhar à noite;
  • Artigo 12º – um Mestre Maçom, onde quer que esteja, deve zelar para que nada possa depravar os seus Companheiros;
  • Artigo 13º – se o Mestre Maçom tiver um Aprendiz, deve instruí-lo o necessário para que ele se torne útil à Ordem, onde quer que vá;
  • Artigo 14º – nenhum Mestre Maçom deve tomar Aprendiz, a menos que seja capaz de instruí-lo e responder por ele;
  • Artigo 15º – o Mestre Maçom deve ser um instrutor amigo, não deve prestar falso juramento e jamais deve envergonhar a Ordem.

Ponto Primeiro – onde se congregarem Mestres Maçons, devem demonstrar amor a Deus e também aos seus Companheiros;

Ponto Segundo – o Mestre Maçom deve trabalhar dedicadamente, para merecer o descanso;

Ponto Terceiro – o Aprendiz deve levar a sério os conselhos do Mestre Maçom e dos seus demais Companheiros também, e nada do que vir ou ouvir em Loja poderá contar a qualquer homem no mundo;

Ponto Quarto – nenhum homem deve mostrar-se falso em relação à Ordem, ou prejudicar os Mestres Maçons e Companheiros, e todos devem obedecer às leis;

Ponto Quinto – o Maçom deve receber pagamento do Mestre, que deve avisá-lo, até o meio-dia, se não precisar dele depois [desse horário];

Ponto Sexto – se surgir inveja ou ódio entre Maçons, cabe a outro Maçom corrigi-los, para que convivam segundo as leis de Deus;

Ponto Sétimo – o Maçom deve respeitar a esposa do Mestre e do Companheiro;

Ponto Oitavo – o Maçom sempre deve ser um mediador positivo entre o Mestre Maçom e os Companheiros;

Ponto Nono – o Maçom deve servir aos seus Companheiros, dia após dia, sem buscar quaisquer vantagens e todos os homens devem ser igualmente livres; deve pagar todos os homens de modo correto e deve ser justo com todos os Companheiros, todos os homens e todas as mulheres e também deve registar o bem que os Companheiros fizerem;

Ponto Décimo – o Maçom deve viver corretamente, para não fazer recair sobre a Ordem vergonha alguma e, se cometer algo impróprio, será chamado à Assembleia para explicar-se diante dos seus iguais; e, se não aparecer, será punido conforme a lei que vem de tempos antigos (that was y-fownded by olde dawe, no original);

Ponto Décimo-Primeiro – o Maçom, se vir um Companheiro executar um trabalho de forma incorreta, deve admoestá-lo com palavras dóceis;

Ponto Décimo-Segundo – no local em que se realizar a Assembleia, deve haver Mestres Maçons e Companheiros (Ther schul be maystrys and felows also, linha 409, no original), e outros grandes Senhores, e o prefeito da localidade e o xerife do condado (There schal be the scheref of that contré / And also the meyr of that syté, /Knytes and sqwyers ther schul be,/ linhas 411;13, no original) cavaleiros também; e, se houver qualquer acusação contra eles (Mestres e Companheiros?), devem tomá-los sob a sua custódia;

Ponto Décimo-Terceiro – o Maçom deve jurar que jamais roubará e jamais ajudará falsos Obreiros;

Ponto Décimo-Quarto – o Maçom deve jurar, perante Mestres Maçons e Companheiros, que obedecerá ao seu rei e também deve prestar o juramento dos Maçons sobre todos os pontos anteriores, e saber que será responsabilizado, se faltar com a palavra;

Ponto Décimo-Quinto – se os Maçons atentarem contra a Ordem, não poderão retornar a ela e o xerife poderá encarcerá-los e tomar-lhe os bens e o gado e colocá-los à disposição do rei, e deixar que ele lhes decida o destino (?).

Alia ordinacio artis gemetriae (sic) [Outras ordenações da Arte da Geometria]

Afirma o texto que, a cada ano, uma Assembleia deverá corrigir as falhas encontradas na Ordem e, a cada três anos, todos devem comparecer para corrigir os erros e manter os estatutos concedidos à Ordem pelo rei Athelstan.

Ars quatuor coronatorum [Arte dos Quatro Coroados]

“Rezemos, ao Deus Todo-Poderoso e à sua Mãe bendita para que todos estes artigos possam ser conservados como o fizeram os quatro mártires – que são grande honra para o Ofício -, (Pray we now to God almyht, / And to hys moder Mary bryht, / That we mowe keepe these artyculus here, / And these poynts wel al y-fere, / As dede these holy martyres fowre, /That yn thys craft were of fret honoure, / linhas 497:502, no original) foram bons Maçons, escultores e gravadores – e eles amaram a Deus e serviram e viveram segundo as leis de Deus”, reza o poema.

A seguir, faz menção à punição que os Quatro Coroados sofreram. Menciona que são festejados no oitavo dia após Alle Halwen (sic), ou seja, Hallow-e´en (Here fest wol be, withoute nay, /After Alle Halwen the eyght day. /, linhas 533:34, no original).

Parte significativa do conteúdo do Poema Regius reaparece nas Constituições dos Pedreiros Livres (The Constitutions of the Free-Masons), de James Anderson, editadas em 1723 [9]. É extremamente interessante, segundo nos parece, a linha de raciocínio ético que perpassa o texto e coincide com preceitos que sobreviveram até aos nossos dias dentro da nossa Ordem. A principal contribuição de Anderson foi o fato de subtrair do documento que redigiu referências explícitas ao denominacionalismo e, com isto, conferiu, em definitivo, caráter universal à nossa Ordem, que aceita a Iniciação de pessoas de qualquer confissão religiosa. No entanto, isto também já é tema suficiente para outro trabalho.

O longo Poema Regius merece uma tradução completa, cuidadosa e comentada para o português, tarefa que representa um desafio múltiplo não somente devido aos inúmeros problemas linguísticos que o texto oferece, às circunstâncias históricas que precisam ser elucidadas, mas, sobretudo, em decorrência da necessidade de identificar muitas fontes documentais corretas.

Autor: Aleksandar Jovanović

Fonte: Freemason

* O Poema Regius pode ser consultado AQUI

Notas

[1] – Geoffrey Chaucer (1343-1400), filósofo, diplomata, tradutor e poeta, autor dos Canterbury Tales (Contos de Cantuária), considerado o Pai da Literatura Inglesa, porque modernizou o idioma, inclusive devido aos conhecimentos que possuía de latim, francês, italiano, etc. e das respectivas literaturas.

[2] – Athelstan ou Æþelstān, o Glorioso (895-939), rei inglês (saxão), submeteu Constantino II, rei dos escoceses, na Batalha de Brunanburh, em 937, e, por isso, foi o primeiro a ostentar o título de rex totius Britanniae (rei da Bretanha inteira).

[3] – Nabucodonosor II (c. 632 a.C. – 562 a.C.), o mais conhecido imperador do Império neobabilônico. Ficou famoso pela conquista do Reino de Judá e pela destruição de Jerusalém e o seu Templo, em 587 a.C., além das monumentais construções na cidade de Babilônia e, entre elas, os Jardins Suspensos, conhecidos como uma das sete maravilhas do Mundo Antigo.

[4] – Euclides de Alexandria (360 a.C. – 295 a.C.), professor, matemático e escritor de origem desconhecida, criador da Geometria Euclidiana. Teria estudado em Atenas e teria sido discípulo de Platão. Foi convidado por Ptolomeu I a compor o quadro de docentes da Academia, que tornaria Alexandria o centro do saber, durante muito tempo. Euclides foi o mais importante matemático da Antiguidade: publicou os Stoikhía (Os Elementos), em 300 a.C., obra em treze volumes, a respeito de Geometria Plana, números, teoria das proporções, etc.

[5] – Carr, Henry. 600 years of Craft Ritual. Ars Quatuor Coronatorum, 81 (1968): 200.

[6] – Carr, Henry. Ars Quatuor Coronatorum, 91 (1978), passim.

[7] – Os Quatro Coroados (Quatuor Coronatis, em latim) eram, segundo reza a tradição, escultores de Sirmium (hoje Srem, região da Sérvia, ao norte de Belgrado), que se recusaram a esculpir uma estátua pagã para o imperador romano Diocleciano (243-305), porque se tinham convertido ao cristianismo. Por isto, foram aprisionados, martirizados com uma coroa de pregos agudos de ferro que lhes foi martelada no crânio. Foram eles Castório, Nicóstrato, Cláudio e Sinfrónio; Simplício, um quinto, morreu com eles, mas não há explicações claras a respeito. Aos Quatro Coroados está dedicada uma capela, erigida em 619, em Canterbury, Inglaterra. São venerados na Maçonaria inglesa e a Loja Quatuor Coronati Lodge No. 2076 ostenta, inclusive, o título de The Premier Lodge of Masonic Research (A primeira loja de pesquisa maçônica), e, de fato, é a mais importante Loja de pesquisas maçônicas, consagrada em 12 de Janeiro de 1886. A Ars Quatuor Coronatorum (A Arte dos Quatro Coroados) é a publicação regular da Loja de pesquisa Quatuor Coronati.

[8] – McLoughlin, Emmett. An Introduction to Freemasonry. In: Waite, Arthur E. [1970] A New Encyclopedia of Freemasonry and cognate instituted mysteries: their rites, Literature and History. New York: Weathervane Books. p. xxxiii.

[9] – James Anderson (1679-1739), escocês nascido em Aberdeen, foi ministro presbiteriano e membro da Grande Loja de Londres. Escreveu as Constituições, que ficaram conhecidas como A Constituição de Anderson. Em 1734, o nosso  Ir∴ Benjamin Franklin reproduziu e editou a obra, o primeiro livro maçônico impresso no que são hoje os Estados Unidos da América. A obra é considerada um dos marcos fundamentais da nossa Ordem.

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Referências

  • Anderson, James. The Constitutions of the Free-Masons containing the History, Charges, Regulations, &c of that most Ancient and Right Worshipful Fraternity. Digital Commons, University of Nebraska, Lincoln. 2006. Edição fac-similar electrónica..
  • Ars Quatuor Coronatorum. [1968]: 81.
  • Ars Quatuor Coronatorum. [1978]: 91.
  • DAVIES, Norman [1996] Europe. Oxford: New York. Oxford University Press. 1996.
  • WAITE, Arthur E. [1970] A New Encyclopedia of Freemasonry and cognate instituted mysteries: their rites, Literature and History. New York: Weathervane Books.

O desenvolvimento da arquitetura gótica a partir da filosofia escolástica – Parte Final

Alegorismo medieval, arquitetura gótica e a Iconologia de Panofsky – Arte,  Arquitetura e História
Saint Denis

V. Um registro em pedra e vidro

Quando Rossi fala na individualidade de um fato urbano[33], nos sentimos tentados a analisar a origem da arquitetura gótica justamente por sua ligação estreita com o urbanismo medieval da Baixa Idade Média, conforme visto anteriormente. São colocadas pelo autor as questões que envolvem a origem deste fato urbano, no sentido de se procurar o acontecimento que o deflagrou e o signo que o fixou no tempo. O acontecimento, aqui, em se tratando da arquitetura gótica, parece-nos ser o surgimento da filosofia escolástica, que promoveu uma nova esquematização do pensamento que se estendeu para toda a sociedade, tendo decisiva importância aí o processo de urbanização e de estabelecimento de centros de estudos nas cidades. O signo desta mudança histórica está expresso na nova forma de arquitetura, que representa tanto uma nova espiritualidade quanto uma nova relação entre a fé e a razão. Victor Hugo diz em seu livro Notre Dame de Paris[34], não por acaso um romance que tem a famosa catedral gótica como personagem, que nenhum pensamento ou ideal humano até o século XV deixou de ser gravado na pedra, na arquitetura. Diz que “nos seis mil primeiros anos do mundo, desde o pagode mais imemorial do Indostão até a catedral de Colônia, a arquitetura foi a grande escritura do gênero humano” [35]. Neste sentido, não podemos deixar de refletir na grandiosidade da arquitetura gótica em promover este registro. Tantos séculos depois que a última cidade romana deixara de existir, ao menos como uma cidade romana, a Europa ocidental e cristã, e mais que cristã, católica, voltava a se movimentar em direção ao urbanismo. De igual maneira, o pensamento até então mais obscurantista passava agora a flertar com a razão, sem, no entanto, desprezar a religião, muito pelo contrário. O desejo dos clérigos escolásticos é legitimar ainda mais o seu credo pelo argumento filosófico. Estes movimentos intensos não poderiam deixar de ser registrados, e, como bem disse Hugo, “até Gutenberg, a arquitetura é a escrita principal, a escrita universal” [36]. A catedral gótica é o signo claro e eloquente do que estava acontecendo naquele período e naquele lugar:

A arquitetura foi até o século XV o registro principal da humanidade; fato é que neste intervalo não apareceu no mundo pensamento um pouco complicado que não se tenha feito edifício; que toda a ideia popular, como toda a lei religiosa, tem tido os seus monumentos; que o gênero humano, enfim, não tem pensado nada importante que o não tenha escrito em pedra. E por quê? Porque todo o pensamento, quer religioso, quer filosófico, tem interesse em se perpetuar; porque a ideia que agitou uma geração quer agitar outras e deixar vestígios. Ora, que precária imortalidade a de um manuscrito! Como um edifício é um livro bem mais sólido, duradouro e resistente![37]

É impossível não pensar na opulência de uma catedral gótica, com suas formas inovadoras e tamanho descomunal, atuando exatamente como a ideia de Victor Hugo de que o livro de pedra é muito mais eloquente e eterno do que um simples manuscrito que perecerá em algumas décadas. Se concordarmos com o autor, perceberemos que neste caso o pensamento a se preservar é mais poderoso ainda, pois é, ao mesmo tempo, filosófico e religioso. A arquitetura gótica foi produzida pela filosofia escolástica, que, por sua vez, teve sua razão de existir na religião que procurava pensar, religião esta que já estava há mais de dez séculos produzindo edifícios que inscreviam de forma
duradoura, na história, as suas doutrinas.

Neste mesmo sentido, podemos afirmar que uma religião que tem a “necessidade da lembrança como tarefa religiosa fundamental” [38], seja pela repetição festiva da paixão de Cristo, seja pelo simples estudo bíblico, que afinal de contas trata do exame de fatos do passado descritos literariamente que estão na origem da própria Igreja, também se utiliza do expediente arquitetônico, tanto para reproduzir esta lembrança quanto para enviar sinais aos fiéis. Vejamos o que diz Maiolino, a respeito da forma dada às catedrais:

A planta da igreja gótica era em forma de cruz latina. Sua implantação era feita de forma que a nave e a capela-mor se situassem no braço longitudinal no sentido Leste-Oeste. Assim o altar-mor ficaria a Leste, onde nasce o sol, o que costumou-se chamar de cabeceira. A fachada ocidental ficaria preferencialmente a Oeste, onde o sol se põe, numa nítida alusão à necessidade do homem de percorrer um longo caminho para chegar até Deus. Desta forma, o braço do transepto ficaria no sentido Norte-Sul, sendo o lado do Evangelho para o Norte e o lado da Epístola para o Sul. A parte inferior do braço longitudinal da cruz era normalmente dividida em três naves, sendo a central maior que as outras duas, tanto em altura quanto em largura.[39]

É interessante notar como a arquitetura pode conjugar estas duas formas de comunicação e de contato entre presente, passado e futuro. Há, em uma mesma obra arquitetônica, conforme a descrição de Maiolino, a recordação das escrituras sagradas, um ideal de comportamento expresso na direção da construção e a perenização do símbolo máximo do cristianismo, que é a cruz, plantada naquele local para toda a eternidade, à vista de todas as gerações vindouras.[40]

Segundo Pignatari, “nem toda arquitetura é apenas pedra, nem toda música é apenas som” [41], o que nos faz imaginar uma certa consciência e racionalidade que se expressam através da construção de uma catedral gótica. Fazendo a análise de alguns dos fatores que abordamos neste trabalho como, por exemplo, a filosofia escolástica, a recordação característica da religião católica e a necessidade de se preservar em monumentos o pensamento filosófico e religioso, percebemos que faz muito sentido a afirmação do autor de que:

[…] a mensagem arquitetônica – especialmente quando entendida como mensagem de massa: o assentamento humano, a cidade – é endereçada, antes de mais nada a não-arquitetos, ou seja, a receptores e interpretantes cujo código principal não é o arquitetônico, mas que, no entanto (de maneira leiga, digamos), só podem absorver a mensagem decodificando-a, em primeiro lugar, segundo o código arquitetônico.[42]

Mesmo com toda a consciência com que os mestres-construtores aplicaram os princípios escolásticos em suas obras, na verdade o mais importante ainda é a mensagem que a construção vai levar adiante àqueles que são leigos, no caso, o imenso público fiel que vai fazer o uso efetivo da construção durante as missas e outras celebrações religiosas. Daí a importância de simbolizar e de significar para os habitantes daquele espaço urbano, que vão utilizar as dependências da catedral, a cruz, o caminho que o homem deve percorrer para ser mais justo, a mudança de uma estrutura militante românica para uma triunfante obra gótica. Representa-se aqui, além de uma mudança de gosto, uma grande e importante modificação mental daqueles homens e mulheres que viveram na Europa nos séculos XII e XIII. O signo destas mudanças foi expresso, com toda a sua complexidade – histórica, filosófica, religiosa, urbana e social – na arquitetura gótica, surgida não somente como uma substituta da arquitetura românica, mas como uma etapa posterior, diretamente ligada aos sentimentos humanos, cada vez mais urbanos, daquela sociedade em transição. E aí está a importância da arquitetura como fonte historiográfica, pois é do “confronto histórico e dialético, que permanece mesmo depois que os emissores e receptores originais já tenham desaparecido há séculos ou milênios, que flui o significado da arquitetura” [43]. A obra arquitetônica, por seu caráter de permanência, dialoga não só com aquelas gerações que a viram nascer, como com todas as outras que vêm a conhecê-la, e, desta forma, segue enviando sua mensagem continuamente, com todas as ressignificações que ela possa ter.

VI. Considerações finais

As transformações mentais ocorridas durante a Idade Média, no período de avanço do urbanismo, em uma Europa que havia passado quase mil anos apenas com raras e medíocres cidades, tiveram forte impacto sobre as estruturas materiais desta sociedade, incluída aí a nova forma de arquitetura desenvolvida, que veio a ser chamada “gótica”.

Mas o que constituem exatamente estas transformações mentais?

O desenvolvimento das cidades neste período provocou alterações profundas em todos os âmbitos da sociedade. Como temos por objetivo neste trabalho analisar a arquitetura gótica, que está intimamente ligada ao fator religioso, pois surge como a arquitetura de catedrais, devemos atentar para o caráter religioso da sociedade e para as transformações que o impactam diretamente.

Em primeiro lugar, podemos afirmar que, com o deslocamento do ensino, até então exclusividade dos mosteiros mais isolados, para as cidades, houve uma expansão do conhecimento e da atividade intelectual para um maior espectro da sociedade; ao menos, as reflexões que se produziam eram mais facilmente percebidas pela população leiga, embora esta, em sua grande maioria, permanecesse iletrada. Houve então o aparecimento da filosofia escolástica, que pretendia conjugar a fé com a razão, usando a última para legitimar a primeira. Este fenômeno, que tem as suas características metodológicas específicas, tais como clareza, esquematização, conciliação de interpretações conflitantes de autoridades filosóficas ou teológicas, promoveu uma nova forma de pensar – ou uma nova forma de organizar o pensamento – que não se restringiu a quem estava dentro das escolas ou diretamente ligado ao ministério da Igreja. Esta nova visão filosófica do mundo e da religião passou a se estender também às camadas populares, como ocorre, por exemplo, hoje em dia: mesmo um leigo no assunto utiliza termos como internet, e-mail, iPOD, embora não necessariamente saiba como funcionam, ou até nunca tenha utilizado de maneira profissional qualquer uma destas ferramentas tecnológicas. A filosofia escolástica ecoou por toda aquela sociedade urbana medieval.

No entanto, ela sem dúvida teve influência direta sobre aqueles que eram obrigados, por força de seu ofício, a trabalhar diretamente com aqueles que produziam e reproduziam estes conhecimentos; falamos aqui dos mestres-construtores em contato direto com os clérigos que os instruíam acerca da construção de uma nova igreja ou da produção iconográfica a ser utilizada. Esta influência se deu, como visto neste trabalho, na organização dos elementos constitutivos de uma obra arquitetônica gótica, conforme os preceitos escolásticos que a princípio eram aplicados aos seus tratados. Portanto, temos aqui uma revolução arquitetônica que está estreitamente ligada a um novo fator de entendimento teológico.

Com a revolução urbana, houve o desenvolvimento e divulgação da filosofia escolástica que tornou possível a criação da arquitetura gótica. De igual maneira, e tendo em mente o caráter visual do homem medieval que apreendia o novo através da visualização direta, talvez em boa parte pelo baixo grau de alfabetização que era o estado comum da maioria das populações, excetuados os clérigos, os quais tinham acesso à leitura e à escrita, concluímos que as catedrais góticas representaram simultaneamente os preceitos escolásticos, a influência da filosofia na arquitetura e a transição de gosto e de mentalidade que ocorria naquele instante histórico.

Como religião direta e essencialmente influenciada pela recordação, o cristianismo medieval inscreveu na pedra os ensinamentos da religião e sinalizou aos fiéis estes ensinamentos através das formas externas e internas de uma catedral gótica. Da mesma forma que uma obra arquitetônica não pode ser transposta para outro lugar, justamente por surgir a partir das especificidades culturais, religiosas, sociais e mentais do local onde é erguida, podemos compreender que a arquitetura gótica, nos séculos XII e XIII, época de seu apogeu, representou a mentalidade daquela sociedade em transição. Passava-se do românico ao gótico porque se passava da Igreja militante para a Igreja triunfante. A luta contra o mal, de antes, dá lugar a uma nova relação, mais metafísica, do homem com Deus. Uma relação de transcendentalidade, expressa de maneira eloquente e inequívoca na verticalidade gótica que eleva aquilo que é terreno ao âmbito celestial.

Finis

Autor: Eduardo Pacheco Freitas

Fonte: Revista Nuntius Antiquus

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Notas

[33] – Cf. Rossi, op. cit., p. 151.

[34] – Notre Dame de Paris é um romance de Victor Hugo publicado em 1831. No entanto, quando saiu a primeira edição foram suprimidos três capítulos que haviam sido perdidos pela gráfica durante o processo de produção do livro. Posteriormente, os cadernos contendo estes capítulos foram encontrados e foram incluídos nas novas edições. É exatamente um destes capítulos que trata, filosoficamente, desta questão da arquitetura ter sido a mais importante forma de registro humano até o século XV, quando surge o livro impresso. Para Hugo isto [o livro impresso] há de matar aquilo [a
arquitetura]
.

[35] – Cf. Hugo, op. cit., p. 221.

[36] – Cf. Hugo, op. cit., p. 225.

[37] – Cf. Hugo, op. cit., p. 227.

[38] – 8 Cf. Le Goff, op. cit., 1994, p. 444.

[39] – Cf. Maiolino, op. cit., p. 12.

[40] – Esta constatação é ainda mais importante quando temos em mente que o conhecimento, para os historiadores medievais, era entendido como a apreensão imediata de um dado. Conhecer significava ver com os próprios olhos, tocar com a próprias mãos e ouvir com os próprios ouvidos (cf. Rui, op. cit., p. 214). Nada mais adequado para a promoção desta experiência cognitiva que a solidez de uma catedral, aliada à música religiosa, às iconografias, à estatuária, aos vitrais e à sua luz de aspecto celeste. A união de todos estes elementos em um mesmo edifício certamente é capaz de marcar indelevelmente o entendimento acerca da cristandade em um indivíduo inserido em um contexto profundamente religioso como a sociedade medieval.

[41] – Cf. Pignatari, op. cit., p. 155.

[42] – Cf. Pignatari, op. cit., p. 155.

[43] – Cf. Pignatari, op. cit., p. 156.

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