Protegido: A Iniciação Real e a Morte do Ego – Parte II (exclusivo para os apoiadores do blog no Apoia.se)

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Virtudes e Vícios

The Choice of a Boy between Virtue and Vice – Paolo Veronese (1528–1588)

“Vencer minhas paixões
levantando Templos à Virtude e
cavando masmorras ao vício,
eis o que viemos aqui fazer.”
Do Caos à Ordem; Da Obscuridade à Luz”

Seria tarefa simples falar de virtude e vício em sentido literal, bastaria para isso dar o sentido filológico; mas falar de virtude e vício em sentido filosófico e maçônico já se torna uma tarefa nada fácil.

A Maçonaria não é uma religião, nem um partido, nem uma igreja; todavia ela põe no caminho, ela desperta. Não oferece a nós, membros, uma verdade definitiva, imutável, dogmática, fazendo representar o livre exercício da tolerância. Assim, aprendemos a nos interrogar, recolocarmo-nos em questão. Graças a esse fator de progresso descobrimos não só o caminho do conhecimento, mas também da ordem que deve reinar, tanto no domínio material como espiritual, facilitando assim, com que o homem desenvolva suas virtudes. E é por meio dos processos (rituais; contatos humanos, conhecimento, disciplina, etc.) que o homem adquire sua real personalidade.

A virtude é uma passagem da paixão para ação e meditação, uma externa e a outra interna, onde o homem se revela a si mesmo, ultrapassando seus próprios limites, seu eu. O ser interno, nossos sentimentos, atos e pensamentos. 

Capacidade ou potência própria do homem de desenvolver suas qualidades naturais. Entendo que virtude é uma característica de valoração positiva do indivíduo, uma disposição geral e constante da prática do bem, isto não quer dizer que um homem de virtudes seja altruísta ou filantropo, embora tenha uma tendência de o ser. Um homem de virtudes tem o hábito de cumprir as leis e obedecer aos costumes da sociedade em que vive; ser socialmente correto, honesto, justo, paciente, sincero, compreensivo, generoso, prudente, possuir coragem e perseverança.

Portanto, Maçonaria para mim é uma escola, pois permite-nos controlar nossas paixões, fazendo com que tenhamos o domínio do nosso “EU” e respeitemos o próximo.

Toda virtude tem seu mérito próprio, porque todas indicam progresso na senda do bem. Mas não basta falarmos, temos que experimentá-la. Os mais variados tipos de virtude têm que ser experimentados, vividos… compreendidos, pelo menos intelectualmente. Assim como Spinoza, “não creio haver utilidade em denunciar os vícios, o mal. Para que acusar? Isso é a moral dos tristes e uma triste moral.” A primeira e fundamental parte da virtude é a verdade, como dizia Montaigne, “A verdade condiciona todas as outras e não é condicionada, em seu princípio, por nenhuma.”.

A virtude não precisa ser generosa, suscetível de amor ou justa para ser verdadeira, nem para valer, nem para ser devida, ao passo que amor, generosidade ou justiça só são virtudes se antes de tudo forem verdadeiras. Aqui surge uma outra virtude, a boa-fé, que como fato é a conformidade dos atos e palavras com a vida interior, ou desta consigo mesma. É o respeito à verdade. Virtude sem boa-fé é má-fé não é virtude. A boa-fé como todas as virtudes é o contrário do narcisismo, do egoísmo cego, da submissão de si a si mesmo.

Não devemos confundir dever com virtude. O dever é uma coerção, a virtude, uma liberdade, ambas necessárias. O que fazemos por amor, não fazemos por coerção nem, portanto, por dever. Quando o amor e o desejo existem, para que o dever? Não amamos o que queremos, mas o que desejamos. O amor não se comanda e não poderia, em consequência, ser um dever.

Nietzsche dizia: “O que fazemos por amor sempre se consuma além do bem e do mal”.

A virtude não é um bem, mas é a força para ser e agir na prática do bem.

Autor: Wagner Veneziani Costa

Fonte: Teoria da Conspiração

Nietzsche e a morte de Deus

As doutrinas esotéricas sugerem que nos primórdios da criação, a humanidade compartilhava dos mesmos símbolos arquetípicos, razão pela qual havia uma unidade cultural que unificava os grupos humanos e os fazia partícipes de um mesmo destino. Nesses áureos tempos, havia uma língua universal, falada por todos os povos, e a humanidade vivia em paz, sob os olhares de deuses bondosos e complacentes.

Foi a partir da multiplicação das línguas que tudo mudou, e nesse dia o mal entrou na terra. Isso é o que dizem as antigas tradições e a Bíblia, no episódio da Torre de Babel, atesta essa velha memória como sendo a experiência básica que destruiu a unidade da raça humana e implantou as diferenças que até hoje se observam.

É possível que o mal tenha realmente entrado no universo quando os homens começaram a “fazer” história, ou seja, a partir do momento em que passaram a compor exercícios semióticos variados, como consequência da multiplicidade de linguagens que se instalou na terra com a multiplicação das famílias humanas. Por essa razão os símbolos deixaram de ser comuns e Deus afastou-se dos homens, pois desse momento em diante, sua história não seria mais que um reflexo das suas próprias consciências, não mais refletindo a Consciência Dele.

É provável, também, que até certo momento na vida dos grupos que povoaram a terra, tivesse sido possível para os homens captar o reflexo da Consciência Divina e com isso interferir nas próprias ações da natureza. Mas isso, como se pode perceber, deixou simplesmente de acontecer a partir de certa época.

É certo que até os tempos de Josué, pelo menos a Bíblia está a indicar isso, Deus parecia estar bem presente na história humana. Grosso modo, parece que a intervenção divina, imobilizando o sol no firmamento para que os israelitas pudessem vencer os amorreus e depois marchar em volta das muralhas de Jericó para derrubá-las com o som de suas trombetas, foi uma das últimas ações diretas da Divindade na história dos homens. Depois dela as intervenções pessoais de Deus na terra escassearam e a partir de certa época não se falou mais nisso. Deus passou a falar com os homens através de seus profetas, isto é, não mais diretamente, como antes fazia, quando se manifestava em tudo e em todos, de tal forma que suas figurações eram tantas que se podia dizer que os antigos povos tinham mais deuses que população.

A doutrina cristã sugere que Deus deixou de falar com o homem “face a face”, como fazia nos tempos bíblicos, em virtude de Ele ter mandado à terra seu próprio filho, que seria o primeiro e último verdadeiro enviado divino, o Cristo. Depois da vinda de Jesus, Deus não precisou mais falar com os homens diretamente, pois toda comunicação entre o céu e a terra seria feita pela Igreja que ele fundou. Esse postulado encontraria fundamento nas palavras de Jesus: “Ninguém vem ao Pai senão por mim” e na tese que fundamenta as pretensões da Igreja de Roma, segundo a qual Jesus teria dado a Pedro a incumbência de ligar a terra ao céu, e esse prerrogativa ele teria repassado ao Papa.

Aos ouvidos de Nietszche tudo isso soava como uma grosseira usurpação. Entendia ele, que a partir do momento em que os hebreus se apropriaram do conceito de Deus e fizeram de si mesmos os seus eleitos sobre a terra, na verdade eles “mataram” a verdadeira divindade ─ ou seja, a ideia da existência de uma energia que formata e organiza o universo ─ e a substituíram por uma Entidade amorfa e mesquinha que reflete o homem em sua mais abjeta condição. Assim, o Deus judaico-cristão, no entender do polêmico filósofo alemão, nada mais era do que uma cópia modelada no velho patriarca dos antigos clãs, que refletia suas virtudes e defeitos, enquanto as deidades dos antigos povos, que viam a divindade nas forças da natureza, especialmente o sol, eram bem mais representativas e estavam muito mais próximas da ideia que se deve ter de um verdadeiro Deus.

Assim, a partir da oficialização de uma religião como sendo a única verdadeira na face da terra, tudo acontece como se a divindade se desinteressasse do destino dos homens, provocando uma ruptura entre os dois estratos que formam o universo: o divino e o profano. Então matéria e espírito também se separam em duas realidades diferentes e às vezes antagônicas, cada uma vivendo em substratos diversos, com necessidades que muitas vezes se chocam. Dai o surgimento das moléstias psíquicas, causadas por esse descompasso. E também a ansiedade do homem moderno para voltar a esse mundo de harmonia, beatitude e paz que havia antes da queda, ansiedade essa que ele reflete na multiplicidade de religiões e teorias que ele inventou para tentar falar novamente com Deus face a face.

Mas para que Deus se daria ao trabalho de se comunicar com os homens se Ele agora tem emissários oficiais para isso? Assim, a partir do advento das religiões reveladas, a presença de Deus entre os homens foi considerada desnecessária e por isso o Zaratustra de Nietzsche pode dizer: “Deus morreu. Eu vos anuncio o Super-Homem.”[1]

Sim, porque o pensamento de Nietzsche era exatamente esse. O homem, se quisesse voltar à era dourada dos seus primeiros tempos teria de abandonar a crença estereotipada que a religião judaico-cristã lhe impusera. Por que essas crenças haviam criado um homem fraco, senil, subserviente e incapaz de cuidar de si mesmo. Esse era o homem do Velho Testamento, que vivia sob o tacão de um Deus cruel, ciumento e injusto, que era capaz de fazer seletivas entre a própria família que Ele criou, privilegiando uns e relegando todo o resto a uma cruel exclusão. E tudo isso culminou depois numa outra crença mais limitante ainda, que levou os homens a se transformarem em vermes do seu próprio cadáver. Essa crença foi o Cristianismo, com sua falsa noção de valores, socializando a fraqueza, a fome, a servidão e a covardia. Por isso, diz Nietzsche, os cristãos eram vermes e o seu deus um pastor de larvas. Essa foi a crítica mais ácida e contundente do irrequieto filósofo alemão, e foi esse pensamento que encantou Hitler e seus “guerreiros do fogo”. E desse ponto de vista é possível entender o Holocausto que ele provocou, especialmente em relação aos judeus.

Autor: João Anatalino

Nota

[1] – Friedrich W. Nietzsche- Assim Falava Zaratustra, Ed Hemus, São.Paulo,1979. Evidentemente, essa é uma opinião do próprio Nietzsche, que desprezava as doutrinas judaico-cristãs. O Zaratustra histórico (Zoroastro) jamais diria uma coisa dessas, pois na verdade, a doutrina que ele pregava (O Mazdeímo) era altamente espiritualista e em nossa opinião, foi a precursora do Cristianismo. Sobre esse assunto ver a nossa obra “Mestres do Universo”, publicada pela Biblioteca 24×7. Nietzsche era o filósofo favorito dos nazistas e dos anti-semitas que os precederam.

Apareço, logo existo: o mundo das aparências por Bauman, Nietzsche e Shakespeare

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O mundo contemporâneo é regido pelo estratagema da comunicação, provavelmente este seja o maior pilar erguido pela era da informação. Bauman, contextualizando Descartes, versa que para que haja existência – neste mundo tenebroso – é preciso, sobretudo, aparecer; propagandear-se, por assim dizer. Apareço, logo existo”. Quem não está presente nas Redes Sociais é como uma esponja, um sujeito paupérrimo, possivelmente um eremita. É preciso que se diga: o Facebook, muito mais do que refletir a nossa imagem, cria outro ser, indiferente ao que somos geralmente na vida tangível. A internet é um paraíso digital no qual podemos selecionar um mundo só nosso: somos mais bonitos, mais pacientes e mais inteligentes. Para fugir do inferno dantesco que é a realidade, basta uma espaçonave para o mundo digital. Quem topa a viagem?

Hamlet talvez seja o personagem que mais ojerizaria o mundo contemporâneo das aparências”, afinal, como asseverou o historiador Leandro Karnal, Hamlet é o anti-facebook.  O personagem de Shakespeare odeia o mundo dos seres falastrões, indivíduos que se regozijam com o personagem que eles mesmo criam e chamam de eu”; a prova disso era o seu desprezo ao personagem mais falso da peça: Polônio. Nietzsche, também um assíduo leitor de Shakespeare, chama atenção para o descaso que nós temos conosco mesmos, a recusa que temos em conhecer o nosso interior, de tal maneira que não suportamos mais ficar sozinhos e erigimos, dessa forma, um cárcere sobre nós mesmos.

O falso amor de si mesmo transforma a solidão em prisão. Friedrich Nietzsche

O filósofo Esloveno Slavoj Zizek entende que cada vez mais a modernidade alimenta o mundo das aparências, de tal maneira que hoje não basta irmos a casa da vizinha que odiamos e dizer bom dia, é preciso pairar uma aparência de jubilo e felicidade. Não basta sorrirmos para uma foto em um dia em que preferimos ter uma corda pra nos enforcarmos, é indubitavelmente importante que seja um sorriso sincero. A vida nos prepara para sermos atores em um mundo sem roteiro, em que tudo que sabemos é que precisamos comprar e sorrir. A frase trágica de Macbeth, personagem mais trágico de Shakespeare, traduz essa inconstância:

“A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre cômico que se empavona e agita por uma hora no palco, sem que seja, após, ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muita barulheira, que nada significa.”

Faríamos qualquer coisa para conseguir a aceitação dos outros? Um pacto com o demônio, um eu te amo” dissimulado, uma foto mostrando uma vida totalmente diversa da nossa? As perguntas são flechas certeiras que acertam o nosso peito. E se a psicanálise estiver certa e formos mesmo seres da falta”, então, porventura estamos perdidos? Não podemos viver sem ter que penhorar as nossas vidas à igreja, às drogas, à hipocrisia. Precisamos mesmo de um mecanismo de fuga, para que não lembremos de nossa limitação e da morte que nos persegue a cada dia? Cada um com a sua caverna escura e sombria.

Viver é ter de carregar nas costas os cadáveres de nosso passado: as inúmeras pessoas que já fomos e que hoje se perderam em uma memória cada vez mais escassa, aqueles amigos que foram e nunca mais voltaram, os que morreram biologicamente e os que morreram pra dar lugar a outro ser completamente diferente. Ficar sozinho é acender uma vela a cada um destes seres moribundos, que balbuciam em nossas costas, pedindo misericórdia e rezando para que tudo volte a ser como era antes. Não há mais volta, e nós dois sabemos disso, caro leitor.  Mesmo que você remarque encontros com os amigos de infância, ao encontrá-los, você perceberá que não são mais os mesmos que brincavam com seus brinquedos no Jardim de Infância. Os desenhos não têm a mesma graça de quando éramos crianças. Talvez isso revele o porquê de querermos ficar sempre em multidões, temos medo do que podemos encontrar dentro de nós, medo desses cadáveres do passado. E, assim, nos tornamos uma presa fácil a um mundo de fingimento.

Falar muito de si mesmo também pode ser uma forma de ocultar-se, a frase é do Filósofo Bigodudo (Nietzsche), e ela revela a mais profunda ideia de manipulação, pois, quando falamos de nós mesmos, também estamos selecionando o que falar, portanto, escondendo as margens diabólicas de nossas vidas para evitar qualquer possível apedrejamento físico ou mental. Desconfie de pessoas que passam muito tempo falando de suas próprias vidas e de suas virtudes, elas provavelmente fazem isso por medo de que descubram a faca que as suas mãos seguram por detrás de suas costas. E voltando à peça de Shakespeare, Macbech, uma frase proferida por um de seus personagens é bastante elucidativa para concatenar os pontos:

“Não existe arte que ensine a ler no rosto as feições da alma.”

A menos que tenhamos habilidades similares às do Professor Xavier, não poderemos entender o que se passa na cabeça das pessoas. O que os olhares e sorrisos escondem por dentro – às vezes lágrimas, às vezes ódio – qualquer disfarce que nos furta o entendimento do que há por dentro das cascas sorridentes. Eu sugiro uma visita ao Oráculo de Delfos e uma leitura da frase pleonástica esculpida em sua entrada: “Conhece-te a ti mesmo”, frase socrática que nos convida a embarcar em um mundo perigoso, todavia, necessário – o mundo que há dentro de nós. E só depois tentar entender o significado dos sorrisos vazios.

Fonte: Pensador Anônimo

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O Maçom e o Super-Homem de Nietzsche

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A maçonaria não é religião. A crença no Grande Arquiteto do Universo na maçonaria é uma realidade filosófica, e não dogmática. Traduz uma ideia de entidade dinâmica, um foco social que evolui enquanto se mescla a moralidade e as necessidades da época, moldando e guiando o maçom em seu processo evolutivo de construção de um novo homem. Para a maçonaria a  ideia de Deus resulta da consciência, e as exteriorizações do seu culto, não passam de um sentimento íntimo que se  pode traduzir nas mais diversas maneiras. Ao mesmo tempo, a maçonaria não se prende a um determinado sistema filosófico porque isso seria tirar de seus adeptos a liberdade de interpretação de seus símbolos, alegorias e mitos, os obrigando a seguir um determinado caminho, o que seria negar a sua própria pregação de liberdade de pensamento.

Utilizando o pensamento de Nietzsche, em sua obra Assim falou Zaratustra, podemos deduzir que objetivando não criar sectarismo, a maçonaria apresenta como verdade provisória ao seu recém-iniciado, ainda fortemente influenciado por suas convicções religiosas pré-concebidas e mistificadas ao longo dos anos, a crença no Grande Arquiteto do Universo como sinônimo de Deus “das religiões”, crença que ele deverá corrigir aos poucos, à medida que ele sobe os degraus da escada da sabedoria, e deverá, gradativamente, “matar esse Deus”, convertendo-o para o Deus “nas religiões”, até chegar, no último grau, ao descobrimento de seu “deus interior” – o conhecimento de si mesmo e de sua Essência – transmutando-o em um ‘homem superior’, perfeitamente identificável com o “Übermensch”, o “super-homem”.

A “morte de Deus”, segundo Nietzsche, representa a desconstrução do padrão de Deus que a metafísica clássica ocidental construiu: o de ser absoluto e supremo. Esse conceito de Deus deveria morrer na consciência do ser humano enquanto mantenedor do sistema tradicional de valores morais e éticos. Como resultado disso, alguém deveria ocupar o seu lugar – o próprio homem, pelo seu autoconhecimento. Entretanto, Nietzsche, entendia que a proclamação da “morte de Deus”, desestabilizaria emocionalmente o homem arraigado em suas crenças metafísicas, pois ela acentua a natureza do medo e da dramaticidade existencial, uma vez que pensar na ausência de Deus assinalaria o declínio da esperança e o estabelecimento da incerteza. O anúncio da “morte de Deus”, portanto, não se trata de propagar ideias anti-teístas. Não pretende ser a disseminação do ateísmo. Mas em erigir um novo conceito sobre o homem e sobre Deus.

Assim, Nietzsche observa que a “morte de Deus” é um acontecimento cultural e existencial. Significa, em outras palavras, matar o “dogma”, o “fanatismo”, o “conformismo”, a “superstição” e o “medo” e desenvolver-se pelo “autoconhecimento” e não aceitar mais a imposição de regras sedimentadas e impostas, que impossibilitam a superação e a auto-afirmação do ser humano que luta incansavelmente para libertar-se desses ‘vícios’ e elevar-se em sua saga existencialista.

Para Nietzsche, o homem deveria ele mesmo conduzir os seus próprios desígnios. Cabe somente a ele fazer as suas escolhas. E, acima de tudo, optar por uma delas, certa ou errada. Os valores arcaicos devem ceder espaço ao surgimento de novos valores. Não mais centrados em afirmações religiosas ou metafísicas, mas em sentenças redigidas pelo próprio homem, transmutado em um Übermensch (literalmente “homem superior” ou “super-homem”). Concretamente existencialista, que não promete a felicidade e gozos na vida futura, transcendental.

Nietzsche em sua obra apresenta um paradigma de humanidade que extingue e supera pelo autoconhecimento o modelo da religião piedosa dos fracos e oprimidos que se encaixa perfeitamente a proposta utópica da maçonaria de criar uma humanidade mais feliz através de “homens superiores”, livres de vícios, superstições e preconceitos.

Autor: Ubyrajara de Souza Filho

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O Devir, o Múltiplo e o Eterno Retorno em “Nietzsche”

O múltiplo já não é justificável do Uno nem o devir, do Ser. Mas o Ser e o Uno fazem melhor do que perder o seu sentido; tomam um novo sentido. Porque, agora, o Uno diz-se do múltiplo enquanto múltiplo (pedaços ou fragmentos); o Ser diz-se do devir enquanto devir. Tal é a inversão nietzscheana, ou a terceira figura da transmutação. Já não se opõe o devir ao Ser, o múltiplo ao Uno (estas mesmas oposições sendo as categorias do niilismo). Pelo contrário, afirma-se o Uno do múltiplo, o Ser do devir. Ou então, como diz Nietzsche, afirma-se a necessidade do acaso. Dionísio o jogador. O verdadeiro jogador faz do acaso um objeto de afirmação: afirma os fragmentos, os membros do acaso; desta afirmação nasce o número necessário, que reconduz o lançamento dos dados. Vemos qual é a terceira figura: o jogo do Eterno Retorno. Retornar é precisamente o ser do devir; o uno do múltiplo, a necessidade do acaso.

Assim é preciso evitar fazer do Eterno Retorno um Retorno do mesmo. Isto seria desconhecer a forma da transmutação  e a mudança na relação fundamental. Porque o Mesmo não preexiste ao diverso (salvo na categoria do niilismo). Não é o Mesmo que volta, já que voltar é a forma original do Mesmo, que apenas se diz do diverso, do múltiplo, do devir. O Mesmo não volta, é o voltar apenas que é o Mesmo daquilo que devém.

(…) O segredo de Nietzsche é que o Eterno Retorno é seletivo. E duplamente seletivo. Primeiro, como pensamento. Porque nos dá uma lei para a autonomia da vontade desgarrada de toda a moral: o que quer que eu queira (a minha preguiça, a minha gulodice, a minha covardia, o meu vício como a minha virtude) ‘devo’ querê-lo de tal maneira que lhe queira o Eterno Retorno. Encontra-se eliminado o mundo dos ‘semi-quereres’, tudo o que queremos com a condição de dizer: uma vez, nada senão uma vez. Mesmo uma covardia, uma preguiça que quisesse o seu Eterno Retorno torna-se-ia outra coisa diferente de uma preguiça, de uma covardia: torna-se-iam ativas e potências de afirmação.

E o Eterno Retorno não é só o pensamento seletivo, mas também o Ser seletivo. Só volta a afirmação, só volta aquilo que pode ser afirmado, só a alegria volta. Tudo o que pode ser negado, tudo o que é negação é expulso pelo próprio movimento do eterno Retorno. (…) O Eterno Retorno é a Repetição; mas é a Repetição que seleciona, a Repetição que salva. Segredo prodigioso de uma repetição libertadora e selecionante.

Fonte: G. Deleuze, “Nietzsche” (Edições 70)

O Eterno Retorno – Diálogo entre Nietzsche e Josef Breuer

O filósofo, filólogo, crítico cultural, poeta e compositor alemão Nietzsche (1844-1900) sempre foi alvo de muita admiração e de controvérsias. Há um número elevado de teses acadêmicas e livros acerca deste pensador. Seus livros carregam uma proposta ousada e polêmica: uma total inversão nos valores morais tradicionais e nas ideias cristãs e filosóficas nestes 2000 anos de história. O psiquiatra e escritor norte-americano Irvin D. Yalom escreveu um romance que trata do início da psicanálise e a essência das ideias de Nietzsche. O livro “Quando Nietzsche chorou” nos aponta uma fictícia amizade entre Breuer, mentor de Freud, e Nietzsche, construída a partir de uma casualidade. Neste vídeo é encenada uma das partes do livro, na qual os dois personagens centrais dialogam em um cemitério acerca da teoria do “Eterno Retorno” de Nietzsche.

A morte dos deuses

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“Deus está morto”, bradou Nietzsche em sua feroz crítica ao cristianismo, ao passo que o declínio da tragédia, também detectado pelo filósofo alemão, representou também uma passagem do pensamento mítico para o lógico.

Os gregos foram os responsáveis por espalhar pelo mundo a sabedoria acerca da ciência e da religião. Para eles a Grécia era o centro da Terra, e o Monte Olimpo[1], na Tessália, era a morada de todos os deuses, de onde eles comandavam a bel prazer o destino dos homens. Havia um deus para cada ato, para cada sentimento dos filhos da Grécia. Ares, deus da guerra; Eros, deus do amor; Afrodite[2], deusa da beleza; Apolo, deus da música; Dionísio, deus do vinho, entre tantos outros deuses que faziam parte e regiam a vida grega.

O mundo grego era sagrado. E essa estreita ligação com os deuses igualmente permitia uma profunda união com a natureza, propiciando o que seria para eles uma vida harmoniosa e equilibrada, graças a duas potências cósmicas: Dionísio e Apolo. Porém, ocorreu um distanciamento em algum ponto da história grega, que acabou por causar o que Nietzsche chamaria de decadência do modo de viver grego, a tragédia havia sido esquecida, a morte precoce da Filosofia teria sido então anunciada, segundo o filósofo, por culpa da dialética socratiana. Nietzsche expõe claramente em suas obras esse conflito e esse distanciamento entre homens, deuses e natureza, dois mundos artísticos e antagônicos que uniam homem e natureza, cada um em seu mundo, um de sonhos e de beleza onírica, outro de uma profunda realidade. No entanto um deles havia morrido para o mundo.

Mas, seria possível relacionar a ideia da “Morte de Deus” em Nietzsche com a morte do deus grego e, consequentemente, da tragédia na Grécia, buscando na passagem do pensamento mítico para o pensamento lógico um dos pontos principais e que teria sido o causador da decadência dos deuses gregos, já que parece ocorrer uma perda maior na crença em Dionísio nessa transição, tal como se o autor dissesse que a metafísica platônica do mundo sensível e o mundo das ideias, que subjetivamente iremos comparar a Apolo e Dionísio ou da necessidade de um deus, houvesse perdido qualquer sentido de existir dentro de uma nova racionalidade que, para Nietzsche, havia sido decretada por Sócrates?

Deus está morto, a tragédia está morta!

Essa importância dos deuses na Grécia é narrada em o Nascimento da Tragédia, que foi publicado em 1872. Nele Nietzsche fala sobre a oposição entre o apolíneo e o dionisíaco, entre a razão e a emoção, dois deuses cultuados pelos gregos, duas pulsões cósmicas poderosas e diferentes entre si. De um lado, Dionísio, deus do vinho, inebriador dos sentidos humanos, tomando-os de prazer e libertando-lhes os instintos, o coro da tragédia grega, no entanto, libertos de Dionísio, retornariam os homens ao estado apolíneo, da razão cotidiana. Apolo, deus da música e da arte que, diferentemente de Dionísio, é um deus mais racional, intelectual, estético e moderado. A dialética entre esses dois deuses é que permitia aos gregos viverem em equilíbrio. Toda a vida grega era retratada nesse modo de viver equilibrado, na alternância das pulsões cósmicas desses dois deuses, o que teria permitido o surgimento da cultura trágica na sociedade grega, sendo que essas duas potências transitavam na ética, na estética e na religião dos gregos.

Para Nietzsche, os seres humanos eram a ligação entre essas duas potências e jamais deveriam ter se afastado delas. Foi esse afastamento que teria causado o desequilíbrio dos dias atuais, muito mais ligado às ações racionais do que às ações inebriantes; para ele o culpado desse afastamento teria sido Sócrates, que teria feito com que a natureza acabasse por ser humanizada e racionalizada ao extremo.

“(…) A grande tragédia grega se apresenta como característica do saber místico da unidade da vida e da morte, nesse sentido, constitui uma ‘chave’ que abre o caminho essencial do mundo. Mas Sócrates interpretou a arte trágica como algo irracional, algo que apresenta efeitos sem causas e causas sem efeitos, tudo de maneira tão confusa que deveria ser ignorada […] Segundo Sócrates a tragédia desvia o homem do caminho da verdade: ‘uma obra só é bela se obedece à razão’.” (Pensadores,1999,p.9)

As antigas religiões gregas, bem como seus deuses, desapareceram ao deixarem de ser cultuados pelos seres humanos, a razão socrática venceu, os deuses morreram.

Vejamos como Nietszche anuncia em seu aforismo 125, A Gaia Ciência[3], a morte divina:

O Insensato – Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: ‘Procuro Deus! Procuro Deus?!’ – E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? Perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? Disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? – gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. ‘Para onde foi Deus?’, gritou ele, ‘já lhes direi! Nós o matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós, ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para trás, para os lados, para frente, em todas as direções? Existem ainda ‘em cima’ e ‘em baixo’? Não vagamos como que através de um andar infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele ainda mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodreceram! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e o mais sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará esse sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer digno dele? Nunca houve um ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa deste ato, a uma história mais elevada que toda a história até então!’ Nesse momento silenciou o homem louco, e novamente olhou para seus ouvintes: também eles ficaram em silêncio, olhando espantados para ele. ‘Eu venho cedo demais’, disse então, ‘não é ainda meu tempo. Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisa de tempo, os atos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos. Esse ato ainda lhes é mais distante que a mais longínqua constelação – e, no entanto, eles o cometeram!’ – conta-se também que no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas, e em cada uma entoou o seu Requiem aeternam deo. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: ‘O que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus’?

Não se deve compreender o aforismo acima através de uma visão ateísta, mas deve-se compreendê-lo tal como é analisado por Nietzsche: a morte dos deuses gregos, na verdade a morte dionisíaca, o afastamento da emoção pela razão extrema, o desequilíbrio entre homens e natureza, a perda do equilíbrio entre duas pulsões cósmicas que permitiam e forneciam aos homens a vontade de viver. O que teria de semelhante a morte desses deuses com a morte do deus nietzscheniano?

A princípio pode-se questionar: Quem anuncia no aforismo a morte de deus? O Insensato, o homem louco, aquele que estava mais próximo à natureza, que ainda consegue ver em tudo o verdadeiro conceito do realmente sagrado, do trágico. Quem questiona sobre a morte de deus bem pode ser o homem dionísico, com seu lado desmedido e cheio de uma vontade de viver embriagante, aquele mais ligado à Physis que conhecia e não temia os trágicos momentos do existir, assim como a religiosidade em torno deste que bem poderia ser o epicentro da religião grega, Dionísio havia morrido, o Deus que havia igualmente sido morto e enterrado pelos homens era igualmente procurado por ele, pelo Insensato, pelo louco.

Se Dionísio trazia em si, como refere Nietzsche, aquela potência que permitia aos homens arrebatar-se pelo êxtase, transformando-os muitas vezes em algo para além de si mesmos – do homem do dia a dia, com suas elucubrações e deveres – sua morte seria inevitável diante da racionalidade apolínea, tal como o deus morto. Tal como a racionalidade socrática matou os deuses, a racionalidade humana havia matado Deus, não havia mais espaço para a divisão entre o mundo das ideias e o mundo sensível, por isso o anúncio “deus está morto”.

Se Nietzsche teve coragem de proclamar que Deus estava morto, teve ainda mais coragem de dizer que a decadência da Filosofia e dos seres humanos havia ocorrido no exato momento em que ele, o ser humano, decidira romper com o equilíbrio entre ele e a natureza. Esse rompimento com a natureza é de onde viria a verdadeira força vital dos seres humanos segundo Nietzsche, era expressa na visão de Tragédia, responsável pela unidade entre vida e morte e com o qual os gregos viveram durante anos.

E assim como o louco que diz: “‘Para onde foi Deus?’, gritou ele, ‘já lhes direi! Nós o matamos – vocês e eu.’” (Nietzsche), podemos dizer que para Nietzsche, a superação da razão encontrada na pulsão apolínea matou não somente os deuses gregos, mas o deus morto por Nietzsche ao separar Mythos e Logos, e esse ato trágico é bem claro na frase do louco que mais uma vez questiona:

“Que fizemos nós, ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós?” (Nietzsche).

Separação entre Apolo e Dionísio

Que fizeram os seres humanos ao separar o dionisíaco do apolíneo? Ao matar aquilo que era mais sagrado e que, nas mãos dos seres humanos, sangrou? Seria necessário reaprender a viver com o peso desse assassínio, já que nos afastamos, por opção, do equilíbrio com a natureza. A verdade que buscávamos no Logos, com a morte de deus virou ficção e sequer nos apercebemos disso. Assim também, a morte dionisíaca não nos levou à verdade que Sócrates esperava, mas acabou por nos levar a viver uma farsa de uma natureza que não nos pertence: “Abolimos o mundo verdadeiro: o que nos restou? O aparente, talvez?… Não! Com o mundo verdadeiro abolimos também o mundo aparente”. (Nietzsche). Um mundo meramente aparente que carregamos como um mundo verdadeiro, não morrem apenas os deuses, mas morre também a natureza trágica humana, não apenas a grega.

Preciso é também, nos atentarmos a quem o louco, o Insensato pergunta sobre deus:

“E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? Perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? Disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? – gritavam e riam uns para os outros.” (Nietzsche)

O louco pergunta por deus àqueles que não mais acreditavam nele. Nós que aqui estamos, não mais acreditamos em Mythos, nos habituamos ao Logos como se fosse ele nossa única razão de viver, nosso único modo de vida. Temos medo de experimentar o dionisíaco, de nos deixarmos ser o que realmente somos, por isso somos todos razão, questionados por um louco sobre nosso equilíbrio com a natureza, equilíbrio este que antes existia, mas que nossa razão fez desaparecer e dia a dia enterramos os deuses, ao manter essa cisão:

“Com tua espada de fogo, despedaçaste o gelo da minha alma, e esta já corre ao mar da alta esperança como corre a torrente impetuosa… deslumbrante de alegria e liberdade.” (Nietzsche).

O culto dionisíaco deixou de existir na Grécia, sua ação inebriante que exaltava o lado humano, considerado por Nietzsche o mais puro e o melhor, foi esquecido e enterrado, o mito sucedia assim à lógica. O que no leva a relembrar o aforismo 124 de Nietzsche em A Gaia Ciência:

No horizonte do infinito – Deixamos a terra firme e subimos a bordo! Destruímos a ponte atrás de nós, e mais, destruímos todos os laços com a terra atrás de nós. E agora, barquinho, toma cuidado! Junto a ti está o oceano, é verdade que nem sempre ele ruge; e estende-se às vezes como sede e ouro, e um sonho de bondade. Mas, virão horas em que reconhecerás que ele é infinito e que não existe nada que seja mais terrível que o infinito. Ah, pobre pássaro, que te sentias livre e que esbarras agora contra as grades desta gaiola! Pobre de ti se fores dominado pela nostalgia da terra, como se lá tivesse havido mais liberdade… agora, já não há mais “terra”! (Nietzsche,2007,p.115)

A morte de deus é mais uma vez a superação da metafísica, pois a compreensão de deus como Arché[4] e Telos de todas as coisas, e tal como a separação entre o que era apolíneo e dionisíaco, a morte de deus ou no caso dos gregos a morte da tragédia, deixou a todos nós sem um rumo a seguir, não há mais a mesma estabilidade de outrora ou fundamentos que nos permitam enxergar mais adiante, sua morte roubou nossa referência.

A morte de deus em Nietzsche é uma clara crítica ao cristianismo platônico, porém a morte da tragédia é também a morte a Dionísio e a sua pulsão na natureza humana. A tragédia, ao contrário do que dissera Sócrates, não tinha a função de iludir os homens, mas de mostrar-lhes toda a profundeza do mundo no qual existiam, para que percebessem a verdadeira natureza, fosse ela maravilhosa ou terrível dentro da existência dos homens, o certo é que ela só era possível se houvesse equilíbrio entre o apolíneo e o dionisíaco, sem um ou outro, a tragédia se findaria:

“Eis a nova contradição: o dionisíaco e o socrático, e por causa dela a obra de arte da tragédia grega foi abaixo.” (Nietzsche)

Com o fim da ideia platônica de mundo sensível e mundo das ideias, a morte de Deus igualmente havia sido decretada, não havia espaço para ele na realidade humana, tal como não havia mais espaço para a tragédia e para Dionísio na vida dos gregos, os deuses assim vencidos pela razão humana, morreram.

Autora: Simone Nardi Grama

*Simone é graduada em Filosofia e especialista em Filosofia Contemporânea e História pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp).

Fonte: Revista Filosofia

Notas

[1] – Mais alta montanha da Grécia, com 2.917 metros de altitude, o Monte Olimpo ao qual se refere o texto fica próximo ao Mar Egeu, na Tessália, local que, de acordo com a mitologia grega, seria a morada dos principais deuses do panteão. No entanto, o nome é comum na Grécia e há diversos lugares com essa denominação. E até o planeta Marte tem o seu Monte Olimpo: em 1971, a sonda espacial da NASA Mariner 9 detectou um vulcão extinto em Marte, o maior do sistema solar, que sendo batizado com o nome Olympus Mons.

[2] – Amor, beleza, sexualidade… Eis os atributos, para a mitologia grega, de Afrodite, a deusa de tantos amantes. Em outras tradições míticas e culturais, há deusas com características análogas, como a Cypris (no Chipre) e Hátor (Egito), além, é claro, da deusa romana Vênus.

[3] – Lançado em 1882, A Gaia Ciência (Die fröhliche Wissenschaft) foi escrito no estilo aforismático característico de Friedrich Wilhelm Nietzsche. Nessa obra, Nietzsche mencionou pela primeira vez Zaratustra, o profeta persa, personagem central de seu livro mais famoso, Assim Falou Zaratustra.

[4] – Arché é a expressão utilizada pelos filósofos pré-socráticos para designar a origem das coisas, ou melhor, o princípio que rege o início e o desenvolvimento da vida. Tales de Mileto considerava a “água” o arché; Xenófanes, a terra etc.

O amor filosófico e o puro prazer

Filosofia - E.E. "João XXIII": O amor filosófico e o puro prazer

Segundo Platão, o amor é a busca da beleza, da elevação em todos os níveis, o que não exclui a dimensão do corpo. No entanto, será que essa concepção ainda faz sentido em tempos de exagerado culto à coisificação do prazer?

Parece estranho e contraditório falar do amor filosófico em uma época desapaixonada, como esta em que vivemos. Na verdade, esta nossa época carece tanto de sentimento quanto de razão, pois ela pretende ser apenas a encarnação de um tempo hedonista, extravagante, dominado pelos sentidos.

Conforme Platão (427 a.C. – 347 a.C.), o amor é a busca da beleza. Embora tenha início da realidade física, deve alcançar a sua forma universal, não permanecendo prisioneiro da matéria. É lugar comum confundir o amor platônico com o amor não correspondido ou desprovido de interesse sexual. Na realidade, o filósofo não exclui o amor carnal, porém o vê como um primeiro degrau que pode levar a outros mais elevados.

As várias faces de Eros revelam-se nos discursos que ilustram O Banquete, obra-prima da literatura ocidental. O livro narra um encontro na casa do poeta Agáton[1], do qual tomam parte Sócrates, Fedro, Alcebíades e outras figuras atenienses. O encontro tem como objetivo comemorar a premiação de uma peça teatral do anfitrião, e os presentes escolheram Eros como tema inspirador dos discursos da noite.

No prólogo do livro, utilizando-se de um artifício literário, o narrador esclarece que não tomou parte, propriamente, daqueles acontecimentos, mas ouviu detalhes da sua história em colóquio com outro personagem. Após os convivas concordarem que deviam beber com moderação, pois haviam se excedido na noite anterior, dá-se então início aos discursos sobre o amor.

No relato de Pausânias aparecem duas formas de amor, geradas por Afrodite, deusa grega da fecundidade e da beleza. Afrodite tem dupla face, ou, de acordo com os estudiosos da mitologia, são duas Afrodites: a Celestial, filha de Urano; e a Popular, filha de Zeus e Dione.

Aristófanes[2], personagem conhecido entre os atenienses pela sua dramaturgia, defende que o amor é a busca da outra metade que se perdeu por castigo dos deuses. Havia no mundo três tipos de seres humanos: um formado só de duplos elementos masculinos, outro só de duplos femininos e por último um misto de elementos masculino e feminino. Esta era uma figura andrógina. Os seres duplos transgrediram a ordenação dos deuses e foram divididos ao meio. Por isso, o amor é a busca da outra metade que se perdera, o que revela a incompletude humana.

Como acontece em outras narrativas platônicas, Sócrates surge como o personagem que realiza a síntese das ideias e sentimentos do autor. N’O banquete ele inspira-se em Diotima de Mantineia[3], sacerdotisa do amor, para ilustrar o seu discurso. Não se sabe ao certo se ela é uma criação de Platão ou personagem da mitologia, mas deste entrelaçamento surgem as mais belas páginas da literatura grega.

Eros é aí descrito como um daimon, intermediário entre os homens e as coisas divinas.

“Ao gênio cabe interpretar e transmitir aos deuses o que vem dos homens, e aos homens o que vem dos deuses; de uns, as súplicas e os sacrifícios, e dos outros as ordens e as recompensas pelos sacrifícios; e como está no meio de ambos, ele os completa, de modo que o todo fica ligado todo ele a si mesmo. (…) E esses gênios, é certo, são muitos e diversos, e um deles é justamente o Amor.”

Rumo ao amor essencial

Na escalada rumo ao amor essencial, outros estágios se fazem necessários. Do amor às formas físicas belas à própria beleza, independente da forma. Há ainda o amor ao conhecimento e às boas práticas, o que pode ser interpretado como uma adesão aos princípios éticos. A sacerdotisa Diotima associa o amor à imortalidade e afirma, no diálogo com Sócrates, que o amor é o “desejo de procriação no belo”.

Apesar da visão fulgurante contida nessa narrativa, o idealismo platônico deprecia o corpo e o mundo real. Ele concebe os seres humanos como se estes fossem anjos caídos em um mundo degradado.

A dívida da Filosofia para com Sócrates/ Platão é enorme. Para Sócrates, especialmente, o diálogo levava ao conhecimento da verdade. Ele contava com um método próprio para analisar os variados assuntos que lhe eram apresentados: a dialética (arte do diálogo), que se juntava a outro artifício intelectual criado por ele, a maiêutica (parto das ideias).

A razão socrática, contudo, é acusada de servir à repressão dos instintos. Nietzsche postulou a questão de uma racionalidade repressiva ao observar que esta está a serviço da ordem e da moral, que representa uma coerção ao indivíduo autônomo. A moral, de acordo com as suas palavras, transforma-se em “instrumento do instinto de rebanho.” Como se pode ver, a razão tornou-se má conselheira, e um veículo da repressão aos instintos mais verdadeiros.

De outra forma, Freud concluiu que o embate do indivíduo com a sociedade é irreconciliável. A isso ele chamou de “mal estar da civilização.” A razão que foi construída a partir dos gregos quer guiar o mundo conflagrado onde habitamos. Este mundo não tem governo. Mas não existe outro onde possamos viver, a não ser o mundo da desrazão. Pode-se argumentar que a razão, seja ela grega ou moderna, é sempre repressora: é da sua natureza, se assim se pode dizer.

O amor e o prazer em nosso tempo

O amor da nossa época pretende ser puro prazer; deve encerrar-se aí onde teve início, no próprio corpo. Ele torna-se dejeto logo após o gozo. Mas, de toda forma, isso não deve ser considerado apenas negativamente, levando-se em conta que se trata de um tempo em que o amor às pessoas foi substituído pelo amor às coisas.

Seria uma tarefa inglória comparar a antiguidade clássica com a modernidade[4]. A própria modernidade já se diferencia de si mesma em diversos aspectos. Apesar disso, a filosofia e o amor platônicos transcendem as barreiras do tempo. Não faltam contestadores da sua filosofia, contudo, todos estão de acordo com uma verdade inequívoca: Platão foi um pensador de gênio.

No Fedro ele mostra que o exagerado apetite dos prazeres corporais e das coisas materiais não levam a bom termo. E, como acontece em outras ocasiões, ele cria ou serve-se da narrativa de um mito para ilustrar o seu pensamento.

No mito da “parelha alada”, o cavalo de mau gênio representa a concupiscência – o vício, a cobiça e as práticas sexuais exacerbadas. Na sua corrida indômita, ele desvia-se do caminho reto, levando junto o cocheiro e o outro cavalo. Nessa alegoria, o cocheiro representa o intelecto, que oscila entre os impulsos antagônicos dos dois cavalos: um obediente, que simboliza a coragem; o outro, rebelde, que guia-se pela extravagância dos sentidos.

Na concepção dos gregos antigos, o amor não devia tornar-se prisioneiro do corpo, mas elevar-se gradativamente, até o cimo, onde havia as essências absolutas: a verdade, o belo, o bem.

Essa passagem do corpo ao espírito é a expressão da dialética ascendente de Platão. Na parte inferior havia o mundo das sombras, produtor de ilusões, e os objetos sensíveis. No outro extremo, o mundo inteligível. Todo processo de conhecimento dá-se em uma ascensão do mundo obscuro, das sombras, ao luminoso mundo das ideias.

O corpo paira sobre a moral do seu tempo. Inventa uma nova erótica, elege os seus novos parceiros: as academias que redefinem as suas formas, os sex shops que coisificam o seu prazer, a moda que veste, o marketing que o alimenta com produtos miraculosos

Tudo o que a nossa época deseja é poder celebrar as conquistas pontificadas pela ciência, pelas tecnologias, pelo conhecimento emancipador da modernidade. Evidentemente, as ditas conquistas se fazem acompanhar de uma libertação espiritual e moral sem precedentes. O indivíduo contemporâneo não quer saber de enigmas, ele aspira a uma vida material que preencha todos os mistérios, todas as faltas. E a libertação moral a que chegou serve bem ao seu plano de realização dos desejos, tomando como centro de tudo o próprio corpo. É aí que se dá a encenação do seu teatro.

Até já se imaginou que as coisas se resolvessem em um cenário político, mas as utopias se dissiparam. A política teve a sua fase erótica, motivadora dos desejos revolucionários. A sedução política do corpo deu lugar a uma celebração do puro prazer sem reivindicações. Tudo já se encontra aí, em abundância. Contudo, é o corpo que dita as regras do jogo. Ele diz se está ou não satisfeito. E a presunção de que seria massacrado pela exploração capitalista, felizmente, não chegou a termo, pois, como o próprio capitalismo, ele também sofreu as suas metamorfoses.

O corpo paira sobre a moral do seu tempo. Inventa uma nova erótica, elege os seus novos parceiros: as academias que redefinem as suas formas, os sex shops que coisificam o seu prazer, a moda que veste, o marketing que o alimenta com produtos miraculosos. Não se pode negar a sedução do vestir, mas ele quer desnudar-se.

E tudo então retorna ao templo sagrado do corpo que ama, antes de mais nada, a si mesmo. Venceu o cavalo de mau gênio. É ele que dirige a parelha alada, obcecado pelo prazer, o sexo, o consumo e a matéria.

Na alegoria platônica que ilustra os dias atuais, o cocheiro (intelecto) perdeu o controle do seu carro. O corpo flana em uma fauna de prazeres, enquanto a razão desce as escarpas.

Autor: Márcio Salgado

Fonte: Revista Filosofia

* Marcio Salgado é escritor, pesquisador, doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ).

Notas

[1]Poeta ateniense, Agáton (447 a.C.- 401 a.C.) aparece em obras de Aristóteles (Anteu), Aristófanes (As Convocadas) e Platão (O Banquete).

[2] – Embora tenhamos poucas informações sobre a vida do dramaturgo Aristófanes (448/447 a.C. – 385-380 a.C.), sabe-se que ele foi um grande mestre da comédia antiga, autor de diversas peças com sátiras políticas e sociais, sendo uma de suas mais conhecidas Assembleia de Mulheres.

[3] – Escreve Zygmunt Bauman no livro Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos (Zahar, 2004, pg. 21): “No Banquete de Platão, a profetisa Diotima de Mantineia ressaltou para Sócrates, com a sincera aprovação deste, que ‘o amor não se dirige ao belo, como você pensa: dirige-se à geração e ao nascimento do belo’. (…) Em outras palavras, não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra seu significado, mas no estímulo a participar da gênese dessas coisas. O amor é, enfim, à transcendência”.

[4] – O sociólogo britânico Anthony Giddens escreveu uma obra interessante para se pensar o amor, a sexualidade e a intimidade no mundo moderno: A Transformação da Intimidade: Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades Modernas (Unesp, 2000)

Referências Bibliográficas

Platão. O Banquete. In: Platão/Diálogos. Tradução e notas: José Cavalcante de Souza. 5ª Edição. São Paulo: Nova Cultural, 1991, p. 32-101 (Os pensadores).
_______. Fedro. Tradução: Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2007.