Orfeu, Orfismo e Mistérios Órficos

Orfeu e o Orfismo | CEFE

Orfeu (descendo do morro para a cidade [o inferno]) :

“Não sou daqui, sou do morro. Sou o músico do morro. No morro sou conhecido – sou a vida do morro. Eurídice morreu. Desci à cidade para buscar Eurídice, a mulher do meu coração. Há muitos dias busco Eurídice. Todo mundo canta, todo mundo bebe: ninguém sabe onde Eurídice está. Eu quero Eurídice, a minha noiva morta, a que morreu por amor de mim. Sem Eurídice não posso viver. Sem Eurídice não há Orfeu, não há música, não há nada. O morro parou, tudo se esqueceu. O que resta de vida é a esperança de Orfeu ver Eurídice nem que seja pela última vez”.

Orfeu da Conceição – Vinícius de Moraes

Introdução

O mito de Orfeu exerce uma atração fascinante no imaginário da cultura ocidental, tanto no passado como no presente. A primeira ópera conservada até hoje em sua totalidade é o L’Orfeo de Cláudio Montiverdi, estreada em Mântua em 1607. O primeiro balé alemão – Orpheus und Eurydice – foi criado por Heinrich Schütz em 1638. Glück, no século XVIII, criou Orfeo ed Eurídice. No século XIX, Offenbach, não nos legou somente Os Contos de Hoffmann, mas também um Orfeu no Inferno. Orfeu foi tema para os seguintes musicistas: Liszt, Benda, Paer, Milhaud, Malipiero, Casella, Krenek, Birtwistle e Stravinsky. O cinema, no século XX, apresentou-nos os dois Orfeus (Orpheus [1949] e Le Testament d’Orphée [1959]) de Jean Cocteau e o carnavalesco Orfeu Negro (1959) de Marcel Camus, premiado com a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar em Hollywood, baseado na peça de Vinícius de Moraes – Orfeu da Conceição, testemunhando a modernidade do tema. Folheando-se os jornais hoje (maio/1999), depara-se com o último filme de Cacá Diegues – Orfeu – e o último livro de Salman ”Versos Satânicos” Rushdie – O Chão Que Ela Pisa – que, segundo a crítica, é um mergulho no universo pop e traz à tona o mito de Orfeu. Já que se passou para a literatura, não se pode deixar de citar o maior poeta lírico grego – Píndaro; Platão na República, no Górgias e no Banquete; as Geórgicas de Virgílio (principalmente o Livro IV); o Paradise Lost (Canto VII) e o L’Allegro (145) de Milton; as Pastorals de Pope; o romântico Novalis e o nosso brasileiríssimo e monumental poema barroco (no dizer de Murilo Mendes) de Jorge de Lima: Invenção de Orfeu (1952). Na pintura, o poeta Guillaume Apollinaire, em 1912, criou um termo – cubismo órfico – que influenciou Robert Delaunay, Fernand Léger, Francis Picabia e Marcel Duchamp.

O porquê desta orfeumania é o que se tentará enfocar neste artigo.

Lendas sobre Orfeu

Numerosas fontes históricas relatam a existência dos mitos órficos. Tudo leva a crer que não era conhecido de Homero (antes de 700 a. C.) mas, já no século VI, aparece em algumas tradições. O primeiro escritor grego a fazer menção ao “célebre Orfeu” foi Ibykos em meados do século VI. a. C. A lenda de Orfeu coloca-o como um dos principais poetas e músicos da época heroica, ao lado de Homero e Hesíodo. Determinou a existência de uma religião especial – o orfismo – e de uma seita – os órficos – que se expandiu por todo o mundo grego e a Itália meridional.

Encontram-se alusões ao mito em Píndaro, Ésquilo, Eurípedes, Empédocles etc. É, contudo, o já citado Platão que o entroniza na República em plena época clássica (século IV a. C.). Ele e os neoplatônicos influenciaram vigorosamente o pensamento cristão. A humanidade herdou três obras completas, numerosos fragmentos e uma longa lista de obras, efetuadas pelo lexicógrafo grego Suidas, atribuídas ao próprio Orfeu.

Orfeu, do grego Oρφεύς, é um herói lendário grego dos tempos antigos com extrema habilidade na música, no canto e na poesia e que se tornou o patrono de um movimento religioso ritualizado por um corpus de escritos sagrados que teria sido composto pelo próprio.

Remanescem dúvidas se Orfeu teria sido um personagem histórico. A lenda, contudo, reza que teria nascido na Trácia e era filho de uma Musa (provavelmente Calíope, patrona da poesia épica e a mais importante das musas) e Eagros, rei da Trácia. Outra versão, apresenta-o como filho do próprio Apolo.

Orfeu é considerado como o maior músico da antiguidade, não só pela música como pelo canto. Todos os poetas antigos celebraram sua lira e sua cítara, pois, até mesmo esta, teria sido inventada ou aperfeiçoada por ele, pois aumentou-lhe o número de cordas, de sete para nove, numa homenagem às Nove Musas. Seus acordes eram tão melodiosos que os homens e os animais quedavam paralisados para o escutar. Os animais ferozes deitavam-se a seus pés como cordeiros; as árvores vergavam para melhor escutá-lo; os homens mais coléricos sentiam-se penetrados de ternura e bondade. Educador da humanidade, conduziu os trácios da selvageria para a civilização. Iniciado nos ‘mistérios’, completou sua formação religiosa e filosófica viajando pelo mundo. Ao retornar do Egito, divulgou na Hélade a ideia da expiação das faltas e dos crimes, bem como os cultos de Dioniso e os mistérios órficos, prometendo, desde logo, a imortalidade a quem neles se iniciasse.

Juntou-se à expedição dos Argonautas, assim chamados por causa do navio Argos no qual embarcaram para a Cólquida em busca do Tosão de Ouro. Este célebre navio transportou a fina flor da mocidade grega, cerca de 55 heróis, dos quais cita-se: Jasão, promotor e chefe da empresa, Héracles (que participou só no começo da missão), Argos, Castor e Pólux, Deucalião, Glauco, Laertes, pai de Ulisses, Oileu, pai de Ajax, Peleu, pai de Aquiles, o nosso poeta Orfeu e muitos outros. Teve participação expressiva, pois salvou-lhes a vida em diversas oportunidades: seja acalmando o mar encapelado; seja dando cadência, com a sua música, aos remadores; seja entorpecendo o dragão da Cólquida, o guardião do Tosão de Ouro, ao som de sua cítara; seja recobrindo a música maléfica das Sereias com o som de seu instrumento. Passaram pelo Helesponto, pelo Ponto Euxino, pelas Ciâneas (recifes móveis) também chamadas de Simplégades, por Cila e Caribdes etc. No tocante as Simplégades, seria interessante relacionar seu simbolismo aos ritos de iniciação. Spencer diz que:

“As Simplégades, eram duas rochas em luta, na entrada do Mar Negro, e por entre as quais Jasão e os Argonautas tinham de passar em seu barco. As Simplégades simbolizam a passagem para um outro mundo e têm uma tripla significação: elas representam o guardião do umbral; representam o terror do umbral e a ameaça de deixar a familiar condição mundana; quando a passagem é realizada, elas representam a união dos opostos. Quando o homem deseja transferir-se deste mundo para outro, ele deve passar através de um intervalo sem dimensão e sem tempo, que divide duas forças relacionadas porém contrárias. No momento real da passagem, o herói abraça ambas as forças e deste modo anula os opostos. Nesse preciso momento ele se encontra no outro mundo.” (Spenser, pg.31).

Mircea Eliade também dedica grandes parágrafos ao simbolismo iniciático das Simplégades (Eliade, 1975, pg. 108).

Ao regressar da expedição dos Argonautas, casou-se com a ninfa Eurídice a quem amava perdidamente. Acontece que no dia de suas núpcias, o apicultor Aristeu tentou violar a esposa de Orfeu. Eurídice, ao fugir de seu perseguidor, pisou em uma serpente que a picou, causando-lhe a morte. Possuído por um desgosto inconsolável, o poeta deixa de cantar e tocar e permanece em silêncio soturno pela morte da esposa. Resolveu, então, descer às profundezas do Hades, para trazê-la de volta ao mundo dos vivos. Orfeu desce aos infernos, nos versos imortais de Virgílio e, com sua cítara e sua voz divina, encantou de tal modo o mundo plutônico que a roda de Exíon parou de girar; o rochedo de Sísifo deixou de oscilar; Tântalo esqueceu a fome e a sede e as Danaides descansaram de sua faina eterna de encher os tonéis sem fundo. Às margens do Styx, tange de tal modo sua cítara que Caronte e Cérbero deixam-no atravessar o rio. Comovidos com tamanha prova de amor, Plutão e Perséfone concordaram em devolver-lhe a esposa. Impuseram-lhe, contudo, uma condição penosa: ele seguiria à frente e ela lhe acompanharia os passos. Enquanto caminhassem pelas trevas infernais, acontecesse o que fosse, Orfeu não poderia olhar para trás, até que o casal transpusesse os limites do império das sombras. Orfeu aceita a imposição e inicia a sua peregrinação. Estava quase alcançando a Luz quando uma dúvida lhe assalta o cérebro: e se tudo não fosse uma enganação dos deuses? E se sua amada não estivesse atrás dele? Acutilado pela incerteza, olhou para trás, transgredindo a ordem dos deuses. Ao voltar-se, viu Eurídice, esvaindo-se para sempre, “morrendo pela segunda vez…”. Tentou ainda retornar, mas o barqueiro Caronte foi implacável na sua recusa.

Inconsolável, tomado de amor pela sua musa, o vate passa a repelir todas as mulheres da Trácia. Por causa disso, uma vertente da lenda rezava que Orfeu foi estraçalhado pelas enfurecidas mulheres do seu torrão. A outra vertente, afirmava que tinha sido esquartejado pelas Mênades por ter abandonado o culto de Dioniso pelo de Apolo. Sintomático é que em ambas as versões, nota-se uma certa similaridade com o esquartejamento de Osíris e a junção dos pedaços por Ísis no Antigo Egito. É o tema da degradação do ovo original.

Sua cabeça foi lançada ao rio Hebro, cantando e recitando em versos órficos, o nome de sua amada. Desgostosos com esse crime, os deuses resolveram castigar o país com uma grande peste. Consultado o oráculo de como acalmar a ira divina, foi dito que o flagelo só terminaria quando se encontrasse a cabeça de Orfeu e lhe fossem prestadas honras divinas. Após longas buscas, um pescador encontrou a cabeça na embocadura do rio Meles, na Jônia, onde foi erguido um templo em homenagem a Orfeu, cuja entrada era proibida às mulheres. Se a lira do poeta foi parar na ilha de Lesbos, berço principal da lírica grega, pespegaram-na também no firmamento onde se tornou a Constelação da Lyra, que tem Vega como uma das estrelas de primeira grandeza.

Comentários sobre o Mito

Orfeu dirigiu-se ao Hades para buscar Eurídice morta. E aqui convém salientar que pela cultura cristã, imagina-se o Hades, o mundo inferior, como o inferno. No orfismo, a topografia do Hades está divida em três regiões:

  • o Tártaro, a parte mais abissal, profunda, ou seja, infernal, pois os castigos eram cruéis e violentos;
  • o Érebo, com castigos não tão horrendos como o Tártaro; e
  • os Campos Elísios, destinados àqueles que, tendo passado pelos horrores dos dois primeiros, aguardavam o retorno.

Ao descer à mansão do Hades, Orfeu teria trazido Eurídice de volta ao mundo dos vivos se não tivesse olhado para trás, ou seja, mostrou estar ainda preso ao passado, à matéria, enfim, a Eurídice.

“Um órfico autêntico, segundo se verá mais adiante, jamais ‘retorna’. Desapega-se, por completo, do viscoso do concreto e parte para não mais regressar. Certamente o citaredo da Trácia ainda não estava preparado para a junção harmônica e definitiva com sua anima Eurídice. Seu despedaçamento pelas Mênades, supremo rito iniciático, o comprova. Como Héracles, que, apesar de tantos ritos iniciáticos e até mesmo uma catábase [ida] ao mundo das sombras, somente escalou o luminoso Olimpo após uma morte violenta numa fogueira no monte Eta. Orfeu olhou para trás, transgredindo o tabu das direções. Estas, bem como os lados e os pontos cardeais, possuíam, nas culturas antigas, um simbolismo muito rico.” (Brandão, vol.II, pg. 144).

Convém comparar essa parte do mito com o Gênesis (19, 17-26) quando os dois anjos recomendam a Lot que não olhasse para trás quando fugisse com sua família da destruição de Sodoma e Gomorra. Ao fugirem, a esposa de Lot olhou para trás e foi transformada numa estátua de sal. Este olhar para trás dela representa a volta ao passado, o apego a uma cidade do pecado. A desobediência, tanto a Javé como a Plutão, causa a desgraça do infiel.

Na macumba, após o despacho na encruzilhada, quem elabora nunca deve olhar para trás. As culturas tradicionais sempre privilegiaram o silêncio e o interdito do olhar para trás: seja o agricultor ao plantar; a mulher ao fiar o tecido; o coveiro ao abrir a sepultura; os desfilantes ao acompanhar o cortejo fúnebre.

Com a harmonia (em grego, harmonia significa junção das partes) perdida ou rompida, Orfeu não mais podia tanger a lira e o seu canto perdeu a magia. Perdeu tudo: Eurídice, a música, o canto, ele mesmo.

O despedaçamento de Orfeu está ligado a ritos antiquíssimos, pois como se sabe, o neófito ou iniciado, despedaçava um animal e o comia, para significar seu renascimento em Dioniso ou algum deus tribal. O rito frenético de Dioniso, executado pelas bacantes, reflete a originalidade do deus no panteón bem comportado da religião estatal grega. A participação das bacantes demonstrava que Dioniso era um deus das mulheres. Tanto assim que uma delegação de mulheres atenienses, a cada três anos, se dirigia ao campo para serem possuídas pelo charme e a ‘folia’ do deus, longe das cidades, corriam e dançavam ao som de uma flauta, sobre as montanhas e as florestas.

A cabeça de Orfeu sendo lançada ao rio Hebro também tem um significado lapidar. A cabeça sempre foi considerada, nas mais diversas culturas, como uma das partes mais nobres e sagradas do ser humano, pois hospedava a alma. Possuir a cabeça de um inimigo, quanto maior a hierarquia maior a honra; era um troféu digno de um rei ou de um chefe tribal. Os deuses somente deram descanso aos mortais depois que foi encontrada a cabeça de Orfeu e lhe foram prestadas honras fúnebres. Mesmo decapitada, a cabeça continuava a viver, pois é o símbolo da voz, do verbo, da imortalidade.

Orfismo

Possui-se hoje uma visão razoável do orfismo através dos diversos escritos, principalmente os textos de Platão e Virgílio que o integraram no seio de suas obras. O orfismo é um movimento religioso complexo onde se detectam influências dionisíacas, pitagóricas, egípcias, apolíneas e obviamente orientais.

O orfismo oscila entre Dioniso, que sempre desejou romper a camisa de força da religião tradicional da pólis grega, e Apolo, que corrigia os excessos e os desvarios dionisíacos. Esta aproximação que Orfeu faz dos dois deuses antagônicos tem um certo sentido: segundo Eliade, o espírito grego exprime por ela sua esperança de encontrar uma solução às crises desencadeadas pela ruína dos valores das religiões homéricas.

Rejeita daquele os ritos, nos quais os iniciados despedaçavam a vítima viva e ainda palpitante, e a consumação imediata da carne e do sangue do animal, pois eram radicalmente vegetarianos. A antropologia órfica tem como consequência o crime dos Titãs, contra Zagreu, o primeiro Dioniso, a mando da ciumenta Hera. A mitologia conta que Dioniso-Zagreu era filho de Zeus com Sêmele, uma mortal que, aconselhada pela deusa esposa Hera, pediu a Zeus que o queria ver com os olhos mortais, o que era um verdadeiro suicídio. Ao se apresentar a Zeus, a mortal não pôde suportá-lo em toda a sua radiante epifania. Morreu carbonizada e o feto foi recolhido por Zeus e agasalhado em sua coxa até o nascimento. Mais tarde, os Titãs, ainda a mando de Hera, após raptarem Zagreu, mataram-no e cozinharam-no num caldeirão. Em seguida, o devoraram-no. Zeus, possesso, fulminou os Titãs, transformando-os em cinzas. Dessas cinzas, nasceram os homens, com sua dupla natureza: o mal advindo de sua natureza titânica e o bem, representado pelo menino Dioniso-Zagreu que os Titãs tinham devorado. A chispa do divino, que o homem carrega dentro de si, advém pois de Dioniso, deus da fertilidade e também da morte. Na religião dionisíaca, inexiste, contudo, esperança escatológica, enquanto o orfismo é essencialmente soteriológico. Além do mais, o êxtase dionisíaco manifestava-se de modo coletivo tanto quanto o orfismo é, por princípio, individual.

De Apolo, herdou uma componente da catarsis, ou seja da purificação, tão praticada no oráculo apolíneo de Delfos, mas era radicalmente contra a weltanschauung de Apolo. Este comandou a religião estatal com mão-de-ferro, freando qualquer inovação que significasse um rompimento com o métron, tão conhecidos na lição apolínea por excelência: ‘conhece-te a ti mesmo’ e ‘nada em demasia’. A inteligência, a ciência e a sabedoria são consideradas pelos epígonos de Apolo como modelos divinos. A serenidade apolínea tornou-se, para o homem grego, o emblema da perfeição. A divergência residia até mesmo na catarsis, enquanto em Apolo, esta visava prioritariamente a purificar o homicídio. Os órficos purificavam-se nesta e na outra vida, visando libertar-se do ciclo das existências. A religião apolínea era o bem viver; a órfica, o bem morrer.

Os órficos substituíram a ‘folia’ dionisíaca pela catarsis apolínea. Através da prece e da oferenda, a purificação – catarsis – é um dos ritos principais das religiões antigas. Tudo que é impuro provoca a repulsão dos deuses e, por impuro, entende-se tanto a alma quanto o corpo. Convém notar que, por purificação, entende-se tanto a individual como a coletiva. Na antiguidade grega, quando se cometia um crime, o castigo recaía não só sobre o criminoso como sobre todo o seu clã. Assim, uma pretensa purificação de um crime, tinha que ser não só individual como coletiva. Ao contrário dos cultos dionisíacos, os apolíneos eram públicos, pois rejeitavam os mistérios das iniciações e dos ritos secretos. Por sinal, conhece-se muito pouco destes ritos secretos e destas iniciações órficas. Eliade nota uma semelhança entre os ritos apolíneos e os xamânicos, pois ambos procuram o conhecimento, a sabedoria e a exaltação do espírito, ao contrário das histerias (no sentido grego) e das possessões dionisíacas. Os órficos resolveram o problema da culpa de forma original na cultura grega: a culpa é sempre de responsabilidade individual e por ela se paga aqui; quem não conseguiu purgar-se nesta vida, pagará por suas faltas no além e nas outras reencarnações até a catarsis final.

A semelhança entre o orfismo e o pitagorismo, nos aspectos religiosos, é por demais sintomática: o dualismo corpo-alma, a crença na imortalidade da alma, a metempsicose, a punição no Hades, a glorificação final da psiqué nos Campos Elísios, o vegetarianismo, o ascetismo e a importância das purificações. Por outro lado, o orfismo era menos elitista do que o pitagorismo, menos esotérico e não se imiscuía em política.

Orfeu é essencialmente um reformador. O orfismo quebra com a religião homérica, principalmente no tocante à sua teogonia. Salienta-se que a teogonia de Homero foi transmitida pelos rapsodos gregos. Sumariamente, a teogonia órfica afirma o seguinte: na origem estava Cronos (o Tempo) e dele saíram o Éter e o Caos que geraram o Ovo Cósmico, um ovo de prata imenso (daí a proibição de se comerem ovos). Desse Ovo surgiu o deus andrógino Fanes, mais tarde chamado de Eros. Após seu nascimento, a parte superior do ovo tornou-se o céu e a parte inferior, a terra. Fanes criou a lua e o sol, o outros deuses e o mundo. Zeus, contudo, engole Fanes e toda a criação. Houve a produção de um mundo novo, tornando-se, a partir daí, o criador único. Um papiro, descoberto em 1962, revela uma teogonia ainda mais radical: um verso, atribuído a Orfeu, proclama que “Zeus é o começo, o meio e o fim de todas as coisas”. A seguir, Zeus criou um numeroso panteão no qual é preciso salientar Dioniso-Zagreus que terá realce fundamental no culto do orfismo.

É importante aqui salientar o caráter monoteísta dessa teogonia que representa uma ruptura importante com os mitos olímpicos advindos dos rapsodos homéricos. O orfismo propugna por uma noção de um deus criador, soberano, simbolizando a vida universal. Contudo, o rompimento mais radical com o mito homérico é na parte escatológica, ou seja, na ciência dos fins últimos do homem, naquilo que deverá seguir à vida terrestre. A descida ao Hades, simboliza a vida após a morte. A concepção órfica da imortalidade advém de um crime primordial: a alma está enterrada no corpo como se fosse um túmulo (soma-sema, que significa em grego corpo-túmulo). Como consequência, a existência encarnada se assemelha mais a uma morte e o falecimento constitui o começo da verdadeira vida. Esta verdadeira ‘vida’ não é obtida automaticamente; a alma será julgada segundo as suas faltas e os seus méritos. Após um certo período, ela reencarna. A influência egípcia – julgamento de Osíris e reencarnação – é insofismável no orfismo. Nessa via crucis de reencarnação em reencarnação, até mesmo em corpo de animais, a alma vai se purificando. Nesses intervalos reincarnacionistas, a alma chega a demorar uns 1000 anos no castigo do inferno, onde sofre um ciclo de pesadas penas. Quando completamente purificada, sai desse ciclo de gerações para reinar entre os heróis. O destino, obviamente, não será o mesmo para os iniciados órficos e os profanos. O mortal comum, profano, deverá percorrer dez vezes o ciclo antes de escapar.

São outro artefato importantíssimo no orfismo as lamelas órficas ou orfo-pitagóricas. Lamelas são pequenas lâminas ou placas de ouro descobertas na Itália meridional e na Ilha de Creta, e em túmulos órficos. São, também, todas marcadas com o sinal secreto Y, até hoje um mistério. Delgadas e elegantes, enroladas sobre si mesmas, eram depositadas em pequenas placas hexagonais. Estas, presas a correntes de ouro, eram colocadas no pescoço dos iniciados, como talismãs, à maneira de passaporte para a eternidade.

Numa das lamelas encontradas, estão incrustados versos de aconselhamento à alma do morto para sua viagem em direção ao Hades. Em lá chegando, deve escolher entre um caminho da direita e um da esquerda.

“À esquerda da morada do Hades, tu encontrarás o Lago da Memória, e os guardiões estarão lá. Diga-lhes… eu sou o menino da Terra e do Céu estrelado, mas estou morrendo de sede. Dá-me rapidamente a água fresca que flui do Lago da Memória.”

Para a alma que deve retornar à Terra para reencarnar-se essa água do Lethes tem por função não esquecer sua existência terrestre mas eclipsar a recordação do mundo pós-morte. O orfismo assim reverte a função da água do Esquecimento pela nova doutrina da transmigração. O esquecimento não simboliza mais a morte, mas o retorno à vida. A alma que teve a imprudência de beber na fonte do Lethes reencarna e será novamente projetada no ciclo do devir.

Para aquelas almas que não precisam mais se reencarnar é aconselhado evitar a água do Lago da Memória e passar ao caminho da direita. E esta escrito numa das lamelas: “Venho de uma comunidade de puros, ó puro soberano dos Infernos”. Ao que Perséfone replica: “Saúdo-te, toma o caminho da direita em direção aos prados sagrados e aos bosques de Perséfone”.

A sede da alma, comum a tantas culturas, configura não apenas o refrigério pelo longo caminhar da mesma em direção a outra vida, mas, sobretudo, simboliza a ressurreição, no sentido da passagem definitiva para um mundo melhor. Se para os gregos “os mortos são aqueles que perderam a memória”, o esquecimento para os órficos não mais configura a morte, mas o retorno à vida.

Conclusão

Orfeu não morreu com a Grécia antiga. A sua figura continuou a ser reinterpretada pelos teólogos, tanto judeus quanto cristãos. Nos afrescos das catacumbas romanas, encontram-se imagens de Orfeu tangendo sua lira no meio de animais simbolicamente cristãos: carneiros, ovelhas, cachorros, pombas. Noutros, encontram-se duas ovelhas: uma simbolizando Orfeu e outra o Cristo. Nos mosaicos do mausoléu de Gala Placídia, em Ravena, é representado como Bom-Pastor. Uma antiga cena de crucificação chega mesmo a chamar Cristo de “Orfeu báquico”.

A semelhança dos simbolismos são flagrantes: o crime primordial dos Titãs e o pecado original de Adão e Eva, a consumação do corpo do deus cristão e do deus grego, Cristo como filho de Deus assim como Orfeu era filho de Apolo, são pontos comuns entre as duas doutrinas religiosas, numa visão simplista.

Para os filósofos da Renascença até Pope, para os poetas do seicento, passando pelos hermetistas até os dias atuais, o Mundo Ocidental teima em não esquecer Orfeu. Se pouco restou dos mistérios órficos, a figura de Orfeu tem cadeira cativa no inconsciente coletivo de nosso mundo.

Autor: William Almeida de Carvalho

Fonte: Pietre-Stones – Review of Freemasonry

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Anais do Colégio Invisível – III – Orfeu

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III

Orfeu

Costuma-se recordar duas coisas acerca de Orfeu: que foi músico e que desceu ao Submundo em busca de sua esposa Eurídice. Sua história é o mito arquetípico do poder da música. Com a lira, presente de Apolo, Orfeu podia comover tudo na criação, desde pedras, árvores e animais até seres humanos, demoníacos e divinos. Armado tão só com seus cantos, subjugou os guardiões do Hades e persuadiu Plutão e Perséfone a lhe permitirem levar Eurídice de volta.

Orfeu foi um príncipe de Trácia, terra ao norte de Grécia. Sua mãe foi Calíope, a Musa da poesia épica. Alguns dizem que seu pai foi Apolo, e certamente Orfeu ficava sob a tutela deste deus. Apolo também era relacionado com o norte, seja porque vinha de “Hiperbórea” ou porque visitou essa longínqua terra depois de seu nascimento na ilha de Delos. Onde era localizada essa Hiperbórea? Como se dizia que tinha um templo circular dedicado ao sol, alguns a identificaram com a Bretanha e a este Templo com Stonehenge, um monumento mais antigo que qualquer outro da Grécia.

Stonehenge e o povo que o construiu eram Apolíneos no sentido de que foram dedicados ao sol, à astronomia, à matemática e à música. As inspiradas investigações de John Michell e Jean Richer descobriram uma rede de lugares Apolíneos alinhados geometricamente, ao longo de todo o caminho que vai da Bretanha ao Mar Egeu. Ademais, Michell seguiu a pista do mito dos “coros perpétuos” mantidos em santuários antigos com o propósito do que ele chama de “encantar a paisagem”. Com isso, emerge o panorama de uma elevada e ordenada civilização europeia no terceiro milênio a. C., da qual os arqueólogos não conhecem quase nada.

Esse encantamento da paisagem é exatamente o que se diz que Orfeu fazia com sua música, lançando um benigno feitiço sobre a natureza e trazendo a paz aos homens. Como parte de sua missão, reformou o culto a Dionísio (Baco) e tratou de persuadir seus seguidores de que abandonassem seus sacrifícios sangrentos. Em lugar das orgias dionisíacas, Orfeu fundou os primeiros Mistérios da Grécia. O propósito deles, até onde podemos dizer, foi transmitir algum tipo de conhecimento direto que ajudasse a enfrentar a perspectiva da morte.

A viagem de Orfeu ao Submundo em busca de Eurídice deve ser entendida dentro do contexto dos Mistérios. Nas primeiras versões deste mito, Orfeu teve êxito restituindo Eurídice à vida. Só mais tarde o episódio foi adornado pelos poetas para que terminasse tragicamente pois, no último momento, Orfeu desobedeceu a proibição de olhar para sua esposa antes de haver alcançado a superfície da terra e a perdeu de novo para sempre. Orfeu foi originalmente um psicopompos com o poder de resgatar almas da condição cinzenta, semelhante ao sonho, que em tempos arcaicos se acreditava que era o inevitável destino dos mortos. O encontro de Ulisses com os espectros de sua mãe e dos heróis gregos (Odisseia, livro XI) é um exemplo primário disso. Os iniciados nos Mistérios recebiam a garantia de que esse não seria seu destino e de que, como Eurídice, seriam salvos do desconsolador reino de Plutão. Essa foi a primeira vez que se falou em solo grego sobre a imortalidade da alma, iniciando-se uma tradição à qual Pitágoras, Sócrates e Platão fariam acréscimos, cada um a sua maneira.

A maior parte do que conhecemos do Orfismo provém de muito depois destes filósofos. Sob o Império Romano, ao redor da época do início do Cristianismo, houve um forte ressurgimento do Orfismo como religião de Mistérios. Os Hinos Órficos, uma série de encantamentos mágicos dirigidos a vários deuses e demônios, datam deste renascimento. Longe de descartar a adoração a Dionísio, o Orfismo fez dele o verdadeiro centro de sua doutrina.

Um dos mitos de Dionísio relata que, quando era menino, foi capturado pelos Titãs (os rivais dos Deuses) que o desmembraram e o comeram. Afortunadamente, Zeus foi capaz de salvar o coração de seu filho. O engoliu ele mesmo e, no devido tempo, deu a Dionísio um segundo nascimento. Os Titãs foram vencidos e dos seus restos surgiram os seres humanos. Consequentemente, cada ser humano contém um pequeno fragmento de Dionísio.

É fácil reconhecer neste mito a doutrina, mais familiar agora do que jamais foi naquela época, de que cada pessoa não é só um composto de corpo e alma, mas também possui uma centelha de absoluta divindade. As religiões que mantêm essa doutrina incentivam buscar, reviver e eventualmente atualizar essa centelha, seja em vida ou depois da morte. Efetivar isso –”tornar isso realidade”– é tornar a si mesmo deus, portanto imortal. Esta é a última promessa dos Mistérios. Para os não iniciados, só há a perspectiva do Hades, um lugar não de tormento exceto para os muito maus, mas também não de prazer, mesmo para os melhores dos homens. Eventualmente a alma lá se debilita e morre, liberando a centelha divina para reencarnar em outro corpo e alma.

O iniciado supostamente está livre deste ciclo de nascimento e morte, e capacitado para prosseguir em um destino mais glorioso entre os deuses. Os iniciados Órficos não eram enterrados com bacias de alimentos e utensílios, como recordação, senão queimados e enterrados com folhas de ouro, com inscrições em grego. Estas levavam orações e instruções do que se devia dizer e fazer ao despertar depois da morte. Devia-se evitar a todo custo beber do Lago de Leteo (o esquecimento), e em lugar disso dobrar à direita, para o Lago de Mnemosina (a memória), e dirigir-se a seus guardiões com estas belas palavras:

“Sou o filho da Terra e do estrelado Céu. Isto também vós o sabeis. Me acho ressecado pela sede e estou perecendo. Vem, dá-me imediatamente a fresca água que brota do Lago da Memória”.

Ou, ao encontrar-se com os que governam o Hades, diria:

Venho puro dentre os puros, rainha do Submundo, Eucles, Euboleus, e todos os outros deuses! Pois eu também reclamo ser de vossa raça.

Na época romana a figura do próprio Orfeu havia se tornado trágica. Não só perdeu Eurídice pela segunda vez, mas ele mesmo sofreu uma morte cruel. Diz-se que regressou para a sua Trácia natal para mudar seus habitantes, mas caiu em desgraça por causa das Mênades, mulheres seguidoras dos ritos não regenerados de Dionísio. Gritando para silenciar seus mágicos cantos, o esquartejaram membro por membro. Mas sua cabeça flutuou para o mar e se abrigou em uma rocha da ilha de Lesbos, onde continuou cantando. Foi absorvido por seu pai Apolo e sua lira foi exaltada nos céus como a constelação de Lira.

Com esta versão de seu mito, Orfeu ocupou seu lugar entre os outros salvadores sofredores cujos cultos eram populares na Roma cosmopolita: Dionísio, Átis, Adonis, Hércules, Osíris e Jesus de Nazareth. Estes seres divinos ofereciam uma relação pessoal com seus devotos que muita gente julgava mais satisfatória que a dos distantes deuses olímpicos. O que ficava implícito é que, assim como eles próprios haviam sofrido, morrido e regressado a seu céu natal, seus seguidores também o fariam.

Alguns dos primeiros cristãos consideravam Orfeu como uma espécie de santo pagão, e até confundiam sua imagem com a de Jesus. Os dois salvadores eram semideuses de ascendência real que buscaram remodelar uma religião existente para o bem da humanidade. Ambos desceram ao Hades para resgatar seres queridos da morte eterna. Suas religiões ensinavam a imortalidade potencial da alma, dependendo das ações de cada um na vida. Ambos sofreram mortes trágicas como sacrifício em altares da religião que tentavam reformar: Orfeu, como a vítima desmembrada da orgia dionisíaca; Jesus, na imagem do Cordeiro degolado para a ceia Pascal. Suas relações com a religião de origem foram extremamente ambíguas. Jesus, embora reconhecesse o Deus judeu Yahvé como seu pai celestial, era considerado pelos teólogos conservadores como tendo sido morto para apaziguar a ira de Yahvé contra a humanidade. Orfeu foi assassinado pelos sectários de Dionísio, em uma imitação da morte deste.

A importância dada à vida futura alentou tanto órficos como cristãos a adiar os prazeres que usufruiriam nela. Ambos os grupos desejavam viver uma vida de castidade e abstinência (os órficos eram vegetarianos), o que era bastante incongruente com a sociedade que os rodeava. Também era causa de surpresa que ambos praticassem a amizade para com os estranhos, e não somente para com gente de sua própria raça e credo, como os gregos e judeus tendiam a fazer. Mas esta era uma conclusão natural do princípio de que cada pessoa era, em essência, divina. Consequentemente, o Orfismo foi a primeira religião na Europa e, talvez, em todo mundo, a pregar o que entendemos hoje por virtudes “cristãs”, a prometer uma vida posterior cuja qualidade dependia de sua prática, e a instituir mistérios como um preâmbulo do futuro destino da alma.

Os órficos haviam sido os primeiros filósofos da Grécia e os ancestrais espirituais das escolas pitagórica e platônica, renomadas por seu ascetismo e sua crença na imortalidade da alma. Agora, no ressurgimento Órfico, imprimiram seus princípios à nova religião. Através de uma codificação numérica de palavras-chaves e frases no (Novo) Testamento grego, a Cristandade foi vinculada à tradição Pitagórica, na qual a música e o número eram os primeiros princípios do universo. Mas esse conhecimento não era para consumo geral: era esotérico. O Orfismo foi a primeira religião esotérica em dois aspectos: primeiro, impôs o selo dos Mistérios, de maneira que os ensinamentos compartilhados na iniciação não eram revelados a estranhos; segundo, deu uma interpretação mais profunda, simbólica, a mitos existentes tais como a Teogonia (genealogia dos deuses Greco–Romanos). Desde então, os Mistérios e o conhecimento de significados ocultos nas escrituras foram duas das principais marcas do esoterismo.

O impulso Órfico sobrevive até hoje, não tanto na religião mas nas artes, das quais Apolo é o patrono tradicional e as Musas as inspiradoras. Estas “artes” eram originalmente disciplinas mais próximas, em certos sentidos, ao que nós chamamos de ciências: incluíam história e astronomia, além de dança, música, poesia e drama. Seus efeitos eram calculados, até no sentido literal de serem governados pelas matemáticas. O que é óbvio no caso da astronomia e da música. Mas a poesia, também, tem sua expressão controlada pelo número rítmico. A dança é movimento rítmico e geométrico; o drama e a história ajustam as lembranças soltas e os rumores sobre eventos terrenos e divinos, e os transformam em lições morais e filosóficas. Qualquer que seja a condição das artes hoje em dia, o papel das Musas não era originalmente o de entreter as pessoas, mas de civilizá-las, utilizando técnicas deliberadas e altamente desenvolvidas baseadas, em sua maior parte, em números. Isto nos devolve às elaboradas matemáticas de Stonehenge e outros monumentos pré-históricos, e à visão de John Michell de uma civilização conservada em estado de graça mediante o incansável cantar de uma canção mântica, com sua música regida pelo número e pela proporção.

Diz-se que Orfeu, cantando acompanhado da lira de Apolo, tinha o poder de comover todos os tipos de corpos e almas. Podia forçar a separação de rochas que se entrechocavam, para que o barco dos Argonautas passasse a salvo entre elas; conseguia tocar os próprios corações dos deuses. Pedras que foram “movidas” e colocadas em ordem geométrica são a substância tanto de Stonehenge como dos templos gregos, monumentos que mesmo em sua ruína impõem reverente respeito e transmitem um sentido de sublime harmonia. A música, assim, ainda que não consista de outra coisa além de ar vibrando de acordo com leis matemáticas, teve sempre o inexplicável poder de tocar o coração e exaltar o espírito. Em uma civilização bem ordenada, as duas artes, arquitetura e música, trabalham unidas: a primeira, para proporcionar ambientes harmoniosos para o corpo e deleitar a vista; a segunda, para deleitar o ouvido e produzir harmonia na alma.

Este é o ideal Órfico e Apolíneo, manifestado em todas as obras de arte que chamamos de “clássicas”. Não são, de forma alguma, exclusivas da Grécia. Na China antiga, por exemplo, uma música hierática, acompanhada de cerimônias religiosas, foi reconhecida como o melhor meio para procurar a paz no império e o bom governo de seus cidadãos. Também o México conta com uma versão do classicismo apolíneo na arquitetura dos maias que, como os círculos de pedra europeus, estava geometricamente planejada e cosmicamente orientada. O Ocidente teve fases clássicas em todas as artes quando o auge de um certo estilo foi alcançado e, com ele, uma imagem de diversidade harmônica tão tranquilizadora como a passagem regular do sol através das estações.

Na música ocidental, as sete cordas da lira de Apolo ressoam como a escala diatônica (as notas brancas do piano). Sua manifestação mais “clássica” não se acha em Bach ou Mozart, mas no canto plano que serviu à Igreja Cristã por mil e quinhentos anos ou mais, antes de ser deslocado por tipos mais sofisticados de música e logo totalmente descartado. A recente popularidade do canto plano entre uma geração que nunca foi à igreja pode ofender os tradicionalistas porque a música e sua letra são separadas de seu contexto litúrgico. Mas o ressurgimento do canto plano demonstra que o poder tranquilizador, curativo e elevador do canto diatônico sem acompanhamento é sentido pela alma intuitivamente, tal como era nos tempos de Orfeu. O fato de ter sido empregado por algum tempo no culto cristão e que lhe tenham associado palavras em latim é um assunto secundário.

A música e a arte afetam diretamente a qualidade de uma civilização? Ninguém pode dizer com certeza se essa premissa órfica é correta, devido ao fato de que não foi posta em prática nos tempos modernos. Os governos totalitários ridicularizaram a ideia. Os nazistas proibiram a música atonal porque era incompreensível para seus padrões culturais, e o jazz, porque era negro de origem. Os comunistas russos proibiram a música atonal pela mesma razão, e o rock ‘n’ roll porque estava associado com o protesto e a influência ocidental. Estes foram os verdadeiros motivos para controlar a música de um povo. Mas os governantes em questão não eram filósofos–reis, os únicos dos quais se poderia esperar que levassem os interesses espirituais de seus súditos no coração, e tivessem o conhecimento de como fazê-los avançar.

Alguns de nossos políticos parecem ter o modelo do filósofo–rei em mente ao empreender um merecido ataque contra certas formas de cultura comercial e música popular. Mesmo se não forem estas as causas da decadência moral, refletem com exatidão o estado espiritual de muitas pessoas. Quando as artes são profanas e sem propósito, e vivem na feiura e no vício, pode-se estar seguro de que a alma da nação não goza de boa saúde. Se os Órficos estão corretos, este é um assunto tão sério quanto a subnutrição dos pobres em nossa civilização. O panorama é desolador para as almas alimentadas somente com a comida rápida e os aditivos venenosos da cultura popular. Como será para eles entrar no domínio da alma sem canções para cantar, e sem poesia para encantar Plutão e Perséfone?

A solução Órfica, assim como a Cristã, não é forçar as pessoas, mas persuadi-las suavemente para um caminho melhor. Isso pode ser visto nas ações de seus fundadores, quando tentaram reformar as tradições Dionisíaca e Mosaica. Também os fundadores da América, que absorveram os princípios Órficos através da Maçonaria, escolheram deliberadamente a liberdade, não o rigor, como escola para seus cidadãos. Com um otimismo que, nos dias bons, ainda podemos compartilhar, permitiam a cada pessoa regular sua própria vida, religiosa, estética e privada. O próximo ensaio desta série, sobre a Tradição Platônica, considerará a política contrária.

Autor: Joscelyn Godwin
Tradução: S.K.Jerez

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

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