A grande viagem: conhece-te a ti mesmo

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A temática da viagem tem uma importância fundamental na maçonaria. O compromisso maçônico é visto como um percurso. E sem grande exceção, não de grau, de lendas aferentes, sem ideia de encaminhamento, de viagem em stricto sensu, de busca … O maçom, especialmente a partir do segundo grau é convidado a ir ao encontro do outro, que muitas vezes é apenas ele mesmo. Mas é toda a vida que passa por uma grande jornada desde o nascimento até a morte … e talvez além. Uma grande viagem com suas provas, seus objetivos, suas alegrias, suas dores, respondendo a esquemas narrativos constantes cuja consideração assegurará o sucesso do percurso: o confronto consigo mesmo provavelmente passando por uma – ou várias – transformação).

Alguns puderam fazer da viagem do primeiro – se não único – modelo do mito. Este é notavelmente o caso conhecido do mitógrafo Joseph Campbell e seu conceito de monomito[1], que ele desenvolveu em seu best-seller “O herói de mil faces”[2]. E mesmo que seu esquema possa às vezes ser contestado, ele não deixa de ser uma referência e sua estrutura será um bom ponto de partida para abordar o lado iniciático-transformador da viagem.

Sobre a ideia da viagem em maçonaria … e em outros lugares

Essa dimensão transformadora da viagem é, logicamente, um elemento importante da maçonaria, em cada acesso a um novo grau, como ela o são quase todas as mitologias ou lendas fundadoras do mundo. Vale a pena mencionar, entre muitas outras histórias de jornadas iniciáticas, o livro bíblico de Êxodo, a Odisseia de Homero – cujos nomes são agora sinônimos de grandes viagens – mas ainda a viagem de Bran / Saint Brendan, as sagas escandinavas, o épico de Gilgamesh, as grandes viagens ao mundo dos mortos (Osíris, Orfeu, Enéas, Balder …), o asno de ouro de Apuleio, as histórias do Caminho de Santiago (o “Campo da Estrela”), as gestas Arturianas com sua busca pelo Graal, até o Mapa de Tendre do século XVII, de Gulliver e Pinóquio, bem como os contos de fada, a Viagem ao centro da Terra de Verne, ao Senhor dos Anéis de Tolkien, à Viagem profundamente iniciático-transformadora ao Oriente de Herman Hesse, até mesmo ao Alquimista de Paulo Coelho e mesmo Tintin[3].

Se encontramos em algumas dessas histórias, um eco das grandes migrações originais de povos nômades, de caçadores-coletores, elas são principalmente evocações de metamorfoses de personagens em busca de algo para finalmente encontrarem a si mesmos. Será que nos surpreenderá que a maioria dos maiores “iniciados” – alguns dos quais são exaltados na maçonaria – sejam também caminhantes: Jesus, Buda, Maomé, Aristóteles? Esse processo de transformação não é sem paralelo com a abordagem hermético-alquímica, que subjaz a certos ritos maçônicos.

Escreve J.E. Bianchi:

“Sobre a tradição hermética, reteremos o significado que nossos ancestrais nos deram desde a Antiguidade até a Renascença incluída. Trata-se de um ensinamento secreto, iniciático, conhecido até na China, já praticado pelos gregos e os árabes. Esse ensinamento veio até nós sob a forma de uma “técnica”: a Alquimia, onde o Aprendiz Maçom encontra os símbolos pela primeira vez na Câmara de Reflexão (pelo menos no Rito Escocês Antigo e Aceito).”[4]

“A alquimia não pode ser classificada como ciência física, mas (…) deve ser entendida antes como um conhecimento estético da matéria, situado entre a poesia e a matemática. Ela empresta seus princípios da metafísica e, tradicionalmente, também encontra seu lugar entre o universo dos símbolos e o mundo dos números sagrados. Simbolicamente, pode-se dizer que os materiais reais teriam se transformado em ouro se tivessem permissão para “crescer”, à medida que o iniciado crescesse espiritualmente através do trabalho sobre si mesmo.”[5]

Seguramente, com a alquimia, é uma questão de ciência, mas também, conforme observa Bianchi, de “poesia”. E alegorias de viagem não faltam, seja em formas literais ou sob o véu de algumas imagens subliminares, às vezes transmitidas por aquilo que muitos – a começar pelos alquimistas – chamavam de “linguagem dos pássaros” – a linguagem do céu na terra ou da terra ao céu (não podemos deixar de ver aqui uma correspondência direta com a sentença fundamental da Tábua de Esmeraldas de Hermes Trismegistus, “O que está em baixo assim como o que esta em cima”). Esta linguagem “hermética” joga com as palavras. Há exemplos bem conhecidos, como o famoso “O Mercúrio é um Sal” de Fulcanelli, que, por trás dessa evidência química, pode ocultar uma fórmula espagírica “Mercúrio-estanho-sal” ou um igualmente explícito e inspirador “O Mercúrio brilha”. Quanto a peregrinação à Compostela, como objetivo de viagem sagrada, se transforma em “componst-asa”: o composto de matéria-prima se transforma em volátil (pela alquimia da estrela). E já que estávamos falando sobre a Tábua de Esmeralda, essa linguagem volátil facilmente nos impressionará – e, com relação a nosso assunto – um “aime – (la) rode”, um apetite por rondar, navegar, buscar … (os jogos de palavra somente têm sentido em francês).

Para esta “linguagem secreta” os trovadores occitanos tinham um termo: trobar clus, a arte de trovar – sua arte poética – “fechada”. Mas se para os linguistas, o termo trovar – que deu “trovador” – pode ter significado, a partir do século XII, “compor [em verso]”, “inventar”, originalmente, e como seus equivalentes do Norte, os “Trouvères”, esse nome veio da raiz latino-occitana de “encontrar”, “descobrir”…

É aqui que, na nossa peregrinação poética e hermética, voltamos ao nosso tema da viagem. Porque a origem mítica desta sociedade de trovadores – que quase nos sentiríamos tentados a chamar de “alquímico-especulativa”, mas isso é ainda outra história – nos remete a uma das grandes narrativas de viagem: a de Jasão e os Argonautas partindo em busca do Velocino de Ouro. Segundo sua lenda, o primeiro trovador da história teria se chamado “Salvador”, que não é nada mais que o significado do nome grego, Jasão (ou ainda “Curandeiroc).

O Velocino de Ouro teria sido o supremo segredo iniciático que os trovadores, os “buscadores de ouro” da Occitânia, iam buscar e cujos mistérios eles ocultavam sob a alegoria de sua linguagem secreta. “A fábula do Velocino de Ouro”, escreveu Fulcanelli, “é um completo enigma do trabalho hermético que deve terminar na Pedra Filosofal. Na linguagem dos Adeptos, chama-se Velocino de Ouro o material preparado para a obra, assim como o resultado final.”[6] Em O Asno de Ouro de Apuleio (século II), já mencionado acima, nessa verdadeira viagem iniciática mascarada sob um passeio libertino, Psique é ordenada por Vênus a se apossar do Velocino de Ouro de ovelhas assassinas. Quanto a Newton, ele considerava em A Cronologia dos antigos reinos corrigida que muitas das constelações refletiam uma evocação da epopeia dos Argonautas. O que está acima é como o que está abaixo…

A viagem como elemento transformador

A lenda de Jasão, em seu aspecto particularmente arquetípico, fornece uma boa oportunidade para retornar a Campbell e seu monomito. Se seus trabalhos “narratológicos”, baseados no estudo de diferentes mitologias, inspiraram muitos autores, contadores de histórias e cineastas, de Georges Lucas para sua série Star Wars a Spielberg, passando por Coppola ou Georges Miller e muitos outros, ele mesmo se inscreve na esteira de Carl-Gustav Jung e sua psicanálise dos arquétipos.

De acordo com Campbell, é através do monomito da viagem que a transformação – até poderíamos dizer transmutação – do herói deve vai se manifestar. É um verdadeiro processo alquímico que ele define: “A aventura mitológica do herói segue um itinerário típico que é uma ampliação da fórmula expressa nos ritos de passagem: separação-iniciação-retorno, uma fórmula que poderia ser definida como a unidade nuclear do mito.[7] Separação(ou partida)–iniciação-retorno … Tem-se aí quase o ternário alquímico da Grande Obra entre Putrificação / Dissolução-Purificação-Rubificação / Sublimação. Mas, de uma maneira quase prática, também se pode imaginar a viagem através de um modelo simples pela busca arturiana:

  • Identificar o objetivo da busca;
  • Armar-se bem [encontrar um ou mais guias e adquirir qualidades físicas ou psíquicas usadas como armas ou armaduras];
  • Partir [esperar o momento certo];
  • A busca em si [associada às viagens e provas em geral triplas, visando o autocontrole, frequentemente apresentada em forma alegórica do domínio de um dragão [e claramente seu dragão interior]];
  • Encontrar.

A viagem do herói (+ imagem de Ulisses)

Campbell decorticou a “viagem do herói” em 17 etapas (que, mais ou menos, ecoam os mitemas de Claude Lévi-Strauss), divididas entre essas três fases ou “atos” antropo-alquímicos:

Fase Partida

O herói recebe o chamado; ele está relutante, mas receberá ajuda, particularmente de um mentor, para cruzar o primeiro limiar e permanecer na matriz fundadora.

  1. O chamado da aventura (problema ou desafio a revelar);
  2. A recusa da aventura (medo do desconhecido);
  3. A ajuda sobrenatural (geralmente um sábio mentor, suprimento de armas mágicas);
  4. A transição do primeiro limiar (ponto de não retorno até o sucesso);
  5. O ventre da baleia (pausa matricial antes da prova)[8].

Fase Iniciação

Depois de cruzar o limiar, ele entra em outro “mundo”, onde enfrentará provas, com ou sem ajuda, até a última prova, a Apoteose, na caverna central, para alcançar seu propósito, sua transformação, seu “Elixir”, seu Graal.

  1. O caminho das provas;
  2. O encontro com a deusa (uma ajuda);
  3. A mulher tentadora (ameaça);
  4. O encontro com o pai (outra imagem do mentor no “outro lado”);
  5. Apoteose (a prova final, enfrentando a morte);
  6. O dom supremo (a recompensa, o objeto da busca, o elixir ou uma resposta).

Fase Retorno

  1. A recusa do retorno (hesitação em retornar a um mundo imperfeito);
  2. A fuga mágica (perseguida pelos guardiões do tesouro);
  3. A libertação vinda de fora (ajuda externa);
  4. A passagem do limiar no retorno;
  5. Mestre dos dois mundos (herói realizado em duas dimensões, “o que está acima e o que está abaixo”;
  6. Livre frente à vida (o herói transformado é capaz de melhorar a vida de seu mundo original).

Para ter sucesso na busca, é preciso ter-se transformado, corrigido, “curado”. Ao curar o rei mutilado [“ferido”], graças às boas perguntas que ele lhe faz, Percival deve se curar por um efeito de espelho.

O Fim do Caminho?

“Visite o interior da terra e, por retificação, encontrarás a pedra oculta”, diziam então os alquimistas [e agora os maçons], que eles sintetizaram na sigla VITRIOL. Muitas buscas ou viagens alegóricas partem do reino da morte, chegam lá ou pelo menos passam por ele. No curso transformador da jornada, existe, em todos os sentidos, uma ideia de morte e renascimento, sob uma forma ou de outra, que é também uma das fontes do percurso maçônico, em diferentes estágios de progresso – da partida até os cruzamentos de limite.

No paradoxal Atanor estático de transformação do ser que é a loja, o maçom parte como o herói viajante, passa por crises, provas que ele deve vencer para se transformar… Mas de onde ele retorna depois seu percurso? A viagem é uma jornada? Um retorno ao ponto de partida, o que sugeriria uma abordagem alquímica?

“O grande princípio do ensino hermético é a Unidade: “Um e Todo”, que contém em si o começo e o fim, que se opõe a qualquer divisão como a de eu e não-eu ou o ser interior e o ser exterior. O símbolo que a representa é o círculo, ou a cobra que morde a cauda: o “Ouroboros”, que ao mesmo tempo representa a Grande Obra, em outras palavras, a realização total do homem por meio da alquimia espiritual.[9] Essa singularidade alquímico-espiritual está no coração da viagem, e em particular da grande jornada vida-morte, que o mito de Er [narrado por Platão na República, Livro X] traduz: “A história da Er nos diz que o cosmos é uma unidade e que somos parte de um grande Todo que evolui de acordo com leis ordenadas e harmoniosas neste vasto sistema organizado. A morte é apenas uma etapa no continuum do grande Um “.[10]

Em muitas narrativas, o verdadeiro termo da busca não é o sucesso da busca em si, a realização do objetivo, a aquisição do tesouro visado [ou sua destruição, se é o propósito redentor invertido, como em O Senhor dos Anéis], mas a capacidade de retornar ao ponto de partida. O indivíduo deve ser transformado para voltar a transformar o aqui e agora de seu mundo de origem. O mito de Er, precisamente, ilustra até que ponto, escalar e ascendente ou descendente conforme possa ser o caminho, sempre se chega a um momento em que o ser deve operar o caminho oposto.

Alegórica e literalmente, o significado da viagem mudou hoje em dia. Agora em diante “ignora-se o que estamos almejando. Ignora-se porque somos movidos.”[11] Isto é explicado pelo fato de que “toda a comunicação entre a zona consciente e a zona inconsciente da psique humana foi quebrada e estamos cortados em dois”. Mas se o “sentido” da viagem mudou, sua razão de ser fundamental permanece: “O ato a ser executado pelo atual herói não é mais o mesmo que nos dias de Galileu. Lá onde reinava a escuridão encontra-se hoje a luz; mas também lá onde a luz estava hoje se encontram as trevas. A proeza do herói moderno é tentar trazer de volta à luz esta Atlântida perdida que é a nossa alma reunida.”[12]

Autor: Francis Moray
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

Publicado inicialmente na Revista FM-Franc-Maçonnerie Magazine

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Notas

[1] – Um termo emprestado de James Joyce, que ele usa em Finnegans Wake.

[2] – Robert Laffont, 1977 (ed original: O Herói com Mil Faces, 1949).

[3] – A misteriosa estrela, para citar apenas uma, supostamente reproduz a lenda de Jasão e os Argonautas. Sobre esoterismo – em particular alquímico – de Hergé, ver em particular Bertrand Portevin, O mundo desconhecido de Hergé, Dervy, 2001, e O demônio desconhecido de Hergé, Dervy, 2004, e Étienne Badot A chave alquímica do trabalho de Hergé, The Philosopher’s Stone, 2016.

[4] – Jean-Émile Bianchi, Simbolismo Tradicional e Busca Espiritual, Edições PF, 2017, p. 92

[5] – Ibid, p. 92-93

[6] – O Mistério das Catedrais, Pauvert [ed. original, 1926] p. 194.

[7] – Op. Cit., P. 50 [paginações são levadas aqui da edição de bolso J’ai Lu, 2014]

[8] – “A ideia de que a passagem do limiar mágico permite o acesso a uma esfera de renascimento é representada pela imagem simbólica do ventre, vasto como o mundo, da baleia” Campbell, p. 128.

[9] – Bianchi, op. cit., p. 93.

[10] – Liz Greene & Juliet Sharman-Burke, Viagem ao coração dos mitos: mitos como guias da nossa vida, Dervy, Paris, 2013, p. 291

[11] – Campbell, p. 515

[12] – Ibid.

Anais do Colégio Invisível – X – Os Novos Deuses

Imagem relacionadaApollo and Daphne, Nicolas Poussin, 1625

X

Os Novos Deuses

No final do século XIII, a tentativa de impor uma civilização cristã na Europa estava consumada. As catedrais góticas e as igrejas irradiavam sua influência sobre cada comunidade, grande ou pequena. As ordens mendicantes como os franciscanos não só pregavam o Evangelho, mas passavam sua vida compartilhando a pobreza de seus mais humildes ouvintes. As universidades floresciam com um plano de estudos realizado sobre as Sete Artes Liberais (Gramática, Lógica, Retórica, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia) coroado pela Teologia. Os cultos aos santos e às suas relíquias, com peregrinações aos seus santuários, eram fruto de interminável variedade e interesse, e de um reconhecimento para com os espíritos do lugar. Uma crescente devoção pela Virgem Maria oferecia um enfoque feminino para o amor e a oração que até então era ausente no monoteísmo. Poucas pessoas na Europa tinham alguma dúvida acerca da existência do Céu, do Purgatório e do Inferno e de como ir a parar em cada um desses lugares.

No passado, sistemas comparáveis de crenças e controle social perduraram por milhares de anos, como testemunham as civilizações da China, Egito, Peru e as da Europa dos construtores megalíticos. Em todos os casos conhecidos a hierarquia estava encabeçada por um rei sagrado, a quem os seletos membros serviam de ordem administrativa. Eles possuíam conhecimentos científicos e cosmológicos que incorporaram nos monumentos de pedra e, sem dúvida, em outras formas mais efêmeras. A vida das massas estava estruturada com base em rituais e obrigações religiosas, que se transformavam, gradual e insensivelmente, na lei e ordem secular.

Assim era na Idade Média. Idealmente, o Sacro Imperador Romano era o rei sagrado cuja autoridade era respeitada por todos os governantes regionais. A hierarquia da igreja, ajudada pelas ordens monásticas, proporcionou o aparato administrativo. Mas, diferentemente das velhas teocracias, nem bem este edifício havia sido concluído, rachaduras começaram a aparecer em sua estrutura. Claro que há indivíduos aos quais pode se atribuir culpa pela autodestruição da civilização cristã. Mas, fazendo uma retrospectiva, parece impossível perceber valores eternos em uma idade que alguns designam com o termo hindu Kali Yuga ou, segundo o esquema cíclico grego, Idade de Ferro. Nada parece durar por muito tempo.

O século XIV começou sua triste história de decadência com a dissolução brutal da Ordem dos Cavaleiros do Templo, e a terminou com a rivalidade entre dois papas. Logo viria o cisma final entre as igrejas Católica e Ortodoxa, depois a Reforma e a Contrarreforma, as Guerras Religiosas, o chamado Iluminismo e o desconsolador e desalmado estado conhecido como a Modernidade. Mas essa história não é a que nos interessa. Estamos procurando traçar a influência daqueles que sempre zelaram pelo estado espiritual de nossa civilização, e não os encontraremos de um lado ou de outro dessas disputas.

As imagens, os símbolos, mitos e arquétipos são o que verdadeiramente designam uma cultura, mais que a teologia e a fé em coisas invisíveis. Na Idade Média, estes coincidiram; no Renascimento, se separaram, e os séculos XV e XVI viram uma troca de revolucionárias dimensões no imaginário europeu. As imagens cristãs não desapareceram, mas acoplaram a elas um grupo de imagens rivais, renascidas da antiguidade greco-romana, com as quais conviviam de má-vontade.

Uma vez, na Siena medieval tardia, uma estátua romana de Vênus foi desenterrada. Isto aconteceu em 1345, em uma época na qual o nu não era utilizado gratuitamente na arte, mas só quando o realismo requeria, como nas representações de Adão e Eva. A estátua, exemplo do cânone clássico de beleza, foi montada sobre um pedestal na praça e foi admirada pelo povo. Mas os dois anos que se seguiram, foram cheios de catástrofes para a cidade. Temendo que sua idolatria houvesse ofendido a Deus e à Virgem, os piedosos sieneses baixaram a sua Vênus e a desfizeram em pequenos pedaços, que enterraram. Este instrutivo relato, contado por Titus Burckhardt em seu livro sobre Siena, ilustra a natureza ambígua das imagens do mundo pagão: eram tremendamente atrativas, mas traziam consigo um sopro de enxofre. Havia uma forte tradição teológica de que os deuses pagãos eram apenas os demônios caídos do bando de Satã, que haviam se divertido antes da vinda de Cristo inventando falsas religiões para ludibriar a humanidade.

No século seguinte o perigo foi esquecido. A adulação à Antiguidade se difundiu por todas as partes e os modelos greco-romanos foram ansiosamente imitados por escultores, pintores, arquitetos, poetas, dramaturgos e filósofos. Mas estes artistas não pararam de produzir obras sobre temas sagrados, como sabe qualquer um que já se aborreceu com as intermináveis virgens com seu menino dos museus de arte italianos. Não obstante, uma crescente moda na vida secular, que começou com as artes decorativas e se estendeu à escultura e arquitetura, favoreceria os temas clássicos. Logo, eles se tornaram a norma, junto com a educação em latim e grego, preferida pelos humanistas. As casas da aristocracia foram adornadas rapidamente com a iconografia da Metamorfose de Ovídio e da Eneida de Virgílio, com deuses e deusas pagãos, e, coisa que não carece de significado, com figuras desnudas.

Imagine-se a diferença entre passar os impressionáveis anos da infância vendo a iconografia da igreja e os Livros de Horas, e crescer entre paredes pintadas com os Amores de Júpiter e os Trabalhos de Hércules! Não importava que os mitos clássicos fossem conhecidos como pura ficção e suas divindades consideradas, no melhor dos casos, como alegóricas: as imagens eram poderosas e memoráveis. Uma razão para isso é que, pela primeira vez em muitos séculos, o erotismo havia se tornado um tema aceitável para as artes visuais. Isso continuaria assim através da hipocrisia puritana do século XIX, quando os temas clássicos serviram de pretexto para que os artistas pudessem continuar, sem ser molestados, com sua prática favorita de retratar corpos sensuais desnudos.

Ainda que a imaginação cristã e pagã coabitassem nas oficinas dos artistas, destinadas, respectivamente, ao uso sagrado e ao secular, os usuários devem ter percebido sua incompatibilidade. Alimentada principalmente na mente inconsciente, esta incompatibilidade explodiu em fervor religioso, fanatismo e conflito, como se as verdadeiras crenças das pessoas tivessem que ser protegidas a todo custo. E, verdadeiramente, os valores cristãos estavam sob fogo, pois poucos (e menos ainda os papas e cardeais do Renascimento) escolheriam voluntariamente o caráter abnegado dos Evangelhos em detrimento das coloridas e heroicas virtudes de Hércules, Enéas e dos romanos históricos.

Se o Renascimento constituiu um avanço ou retrocesso em comparação com a era medieval é uma pergunta à qual se pode responder segundo o gosto pessoal e os dogmas de cada um. A escola tradicionalista (Guénon, Coomaraswamy, Schuom, Burckhardt, etc.)[1] viu o Renascimento, com todas as suas glórias, como o princípio do fim da civilização europeia, devido o abandono aos princípios sagrados. Seguramente, para os camponeses, trabalhadores de ofício e serventes, que constituíam a maioria da população da Europa, o colapso da síntese medieval foi o primeiro passo da sua degradação, desde os seres humanos com a esperança do céu, ao proletariado urbano e, finalmente, aos consumidores.

Isso basta quanto aos efeitos exotéricos dos novos deuses. No campo esotérico, tiveram um efeito igualmente revolucionário.

*
*  *

No segundo artigo, já citado, intitulado “Zoroastro”, mencionava Jorge Gemistos Pleton, enviado de Mistra ao Concílio de Florença em 1438-39, e sua noção de uma antiga teologia ensinada por uma cadeia de iniciados pré-cristãos. Entre os presentes de Pleton aos florentinos, segundo D. P. Walker, estava o canto dos hinos Órficos às divindades clássicas. Com isso, Pleton plantou a semente que Marcílio Ficino, tradutor das obras de Platão, Plotino e Hermes Trismegisto, cultivou com um efeito espetacular na tradição mágica europeia.

A magia de Ficino foi acrescentada a uma tradição existente de magia medieval que, por sua vez, havia derivado de origens árabes, tais como o famoso manual de evocação dos espíritos chamado Picatrix. A ideia fundamental era a doutrina das correspondências, que ensina que tudo no universo corresponde a outras coisas em níveis mais altos ou mais baixos de ser. Assim, por exemplo, o corpo humano corresponde às doze constelações do zodíaco, que regem seus doze órgãos principais. Os sete planetas têm sua correspondência no reino mineral como os sete metais, enquanto que no reino vegetal são regidos por distintas plantas e assim sucessivamente. O princípio da magia natural consiste em que, manipulando algo em um determinado nível, são atraídas as influências daquilo que lhe é correspondente em outro nível. Dessa maneira, para dar um exemplo simples, usar um anel de ouro atrai as nobres qualidades do Sol, enquanto que uma pulseira de cobre atrai as influências amáveis de Vênus.

As fontes árabes também falavam da magia operada através de agentes conscientes, anjos ou demônios, cujas categorias são ordenadas segundo as leis de correspondência e aos quais se pode dar ordens mediante o ritual apropriado. Mas os perigos de negociar com demônios (que poderiam até assumir a personalidade de anjos) faziam desta uma atividade igualmente arriscada tanto para cristãos quanto para muçulmanos.

A afluência da antiga literatura filosófica e da sabedoria grega expandiu muito estes horizontes. Para Ficino, que não era um ingênuo diletante, os tratados herméticos e os escritos de Plotino esclareciam muitas coisas obscuras, como o mecanismo pelo qual a magia natural funciona. Uma vez mais, a chave era a imaginação. Era a energia imaginativa que abria a conexão entre um nível e outro, e quanto mais forte atuasse, mais certeiros seriam os resultados. O combustível com o qual funcionava era Eros (o amor ou o desejo), e a substância na qual seria impresso era o Spiritus, ou espírito sutil que penetra em todo o universo material.

Baseando-se nestes princípios, Ficino desenvolveu um tipo de magia planetária na qual o mago se rodeava de cores, olores, substâncias e música do tipo correspondente ao planeta cujas influências desejava atrair. Estes captariam as influências através de suas próprias correspondências e o ajudariam na concentração intensa de sua vontade e imaginação. Um ponto de discussão entre os magos do Renascimento era se o planeta deveria ser concebido como um objeto puramente natural, ou como um ser animado, provavelmente um anjo.

Poderia suscitar-se a questão de que, se o desejo da pessoa é lícito, por que não simplesmente rezar a Deus ou aos santos para isso? Executar uma operação mágica parece, para o crente conservador, um insulto à eficácia da oração e à Sabedoria de Deus, que pode atendê-lo ou não. O mago poderia argumentar que a magia é simplesmente uma operação no mundo natural, que opera com o conhecimento especializado da criação de Deus e que, portanto, não é mais ímpia que a agricultura. Além de tudo, os agricultores não seguem a recomendação de Cristo: “Não penseis no amanhã”, mas dependem de seu conhecimento das leis da Natureza e atuam em conformidade com elas. Mesmo quando o mago se dirige a um espírito ou anjo, isso é pior que fazer uma oração comum para um santo?

Como no caso da síntese medieval (ver artigo “As Artes da Imaginação”) a nova imaginação pagã do Renascimento operava em dois níveis, o exotérico e o esotérico. Os novos palácios e jardins, pinturas, esculturas, objetos decorativos, gravuras e livros, que eram a antítese das catedrais góticas e a arte cristã medieval, estavam sob domínio público. Ninguém podia evitar a influência do novo ambiente imaginal, e poucos queriam fazê-lo, já que abria os sentidos ao Eros da beleza terrena. Inadvertidamente, os europeus se tornavam platônicos: enquanto a corrente cristã principal desdenhava a beleza natural e a atração erótica, a filosofia de Platão as abraçava, como o primeiro sinal das asas sobre as quais a alma se elevaria, eventualmente, ao conhecimento da beleza intelectual.

Nos círculos mais esotéricos dos humanistas muito educados era igualmente impossível evitar a sedução da filosofia clássica e o desafio inerente que isso apresentava para a visão cristã do mundo. A linhagem de sábios pagãos de Pleton, adotada por Ficino e pelos humanistas florentinos, abriu uma visão do passado mais distante que era muito diferente do estreito sectarismo do Velho Testamento. Os egípcios, babilônios, persas, gregos e romanos já não eram classificados como gentios, fora do rebanho dos eleitos, mas como filhos de Deus, cada um dotado da sabedoria apropriada a seu tempo e lugar. Os recém-descobertos textos clássicos podiam ser explorados para fins de instrução e não apenas por curiosidade e para aprimorar o uso do latim e do grego.

Os habitantes das velhas cidades europeias ainda vivem no meio da evidência dessa imaginação dual; a catedral gótica e as igrejas de um lado, e os palácios do Renascimento com sua iconografia contrária, do outro. É uma rica – muito rica – combinação, mesclando duas visões de mundo que, com todos os esforços bem intencionados para reconciliá-las, continuam sendo um enigma sem solução na história da consciência. Moisés e Homero; César e Cristo; gostemos ou não, estas são as raízes gêmeas de nossa herança espiritual.

Autor: Joscelyn Godwin
Tradução: S.K.Jerez

Nota

[1] – Nota do tradutor. O autor se expressa desta maneira de acordo com a fachada da escola “tradicionalista” manipulada por Schuon e seus seguidores. Este erro é comum nos Estados Unidos e, em geral, na língua inglesa. Assim também em Alan Watts: ver o prefácio de A arte de Ser Deus, e outros autores. Ver igualmente SYMBOLOS Nº 11-12, 1996, págs. 253 e ss. Guénon, segundo seus próprios termos, se negou a ter discípulos e recusou a paternidade de qualquer escola.

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