Ramsay e os Graus Superiores – uma visão diferente

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Todo estudante da Maçonaria Europeia, principalmente se estiver interessado no desenvolvimento dos graus superiores e da Cavalaria na Maçonaria, encontrará o nome de Andrew Michael Ramsay. Esta figura enigmática ainda ganha atenção e sua suposta influência foi, por exemplo, um dos principais temas para workshops e trabalhos na Segunda Conferência Mundial sobre Fraternidade, Maçonaria e História em Paris, em maio de 2017. Ramsay merece a posição que historiadores lhe reservaram como uma peça-chave no desenvolvimento dos rituais Maçônicos. No entanto, sou da opinião de que os pedaços disponíveis sobre Ramsay, e o que se sabe sobre seu trabalho, bem como a época em que ele viveu, pode ser organizado para formar uma visão alternativa, que mostra que sua influência hoje é considerada um tanto exagerada.

Quem foi Ramsay?

Este não é o lugar para uma visão completa da vida de Ramsay, mas para os interessados, biografias detalhadas estão disponíveis em outros lugares[1]. No entanto, alguns eventos devem ser mencionados: Ramsay era filho de um ministro episcopal em Edimburgo e foi provavelmente nascido em Abbotshall, em Fife, em meados de junho de 1693. Completou sua educação na Universidade de Edimburgo em 1707 e foi empregado como tutor em uma família nobre em 1708. Posições semelhantes também devem ter sido o seu sustento mais tarde.

Por volta de 1710, ele deixou a Escócia, para a França, e poucos meses após sua chegada, se converteu à fé católica devido à influência do arcebispo Fénelon. Ramsay voltou para Escócia em 1715 para se juntar ao exército jacobita, foi capturado após a Batalha de Preston em novembro do mesmo ano, mas escapou e fugiu de volta para a França[2].

Em 1716, chegou a Paris, onde residiria até sua morte em 1743. De 1717 a 1722 trabalhou novamente como tutor. Seu empregador em Paris era um dos conselheiros mais próximos do regente francês, e há motivos para supor que esse relação foi fundamental para que fosse nomeado Cavaleiro em 20 de maio de 1723 da L’ordem de Saint- Lazare de Jérusalem, pelo qual adquiriu o direito de usar o título de “Chevalier” (Cavaleiro)[3].

Ramsay, no entanto, aspirava glórias maiores. Em Paris, ele fez contato com a alta cúpula jacobita, e em várias ocasiões expressou sua lealdade ao exilado James Edward Stuart (James III) como o legítimo rei da Grã-Bretanha[4].

Não está claro se Ramsay ainda era um defensor da causa Stuart, ou se ele apenas achou oportuno explorar as circunstâncias. No entanto, James Edward parece ter adquirido grande estima sobre ele. Quatro dias depois de ser Cavaleiro na França, ele recebeu a confirmação do pretendente de que era de família escocesa nobre e, em em 1724, foi chamado à corte dos Stuarts em Roma como professor do filho de James Edwards, Charles Edward, que tinha cerca de quatro anos de idade. No entanto, foi uma empreitada malsucedida, e Ramsay retornou a Paris em poucos meses. Continuou, no entanto, a manter contato com a comunidade jacobita e em 1735 James Edward o elevou a Barão Escocês. Ramsay também foi autorizado a passar seus últimos anos em Saint-Germain-en-Laye, o palácio dos Stuarts perto de Paris.

O Maçom Ramsay

Em 1727, Ramsay publicou com sucesso o romance Les Voyages de Cyrus. Em meados de 1729, viajou para a Inglaterra em conexão com a publicação da tradução de seu livro e ficou no país por cerca de um ano. Durante seu tempo na Inglaterra, foi nomeado Doutor em Direito em Oxford e eleito Membro da Royal Society. Em março de 1730 foi iniciado na Maçonaria. Isso aconteceu no Horn Lodge. Talvez o Loja mais prestigiada de Londres, onde Desaguliers e outras figuras-chave dentro da Royal Society eram membros[5].

Depois que Ramsay retornou a Paris de sua estadia na Inglaterra, há apenas informações indiretas sobre suas atividades como maçom. Em uma carta datada de 02 de agosto de 1737, Ramsay afirma que havia servido como orateur (Orador) durante várias iniciações maçônicas em Paris, e um de seus contemporâneos confirma que Ramsay era conhecido por fazer discursos em tais “Iniciações”. Acredita-se que o conteúdo de um manuscrito com o título 1736 Discours de M Le Cher de Ramsay prononce a la Loge de St Jean le 26 Xbre (Discursos do Cavalheiro Ramsay, pronunciados na Loja de São João, em 26 de Dezembro), preservados na biblioteca da pequena cidade francesa de Epernay, é esse discurso apresentado por Ramsay para novos irmãos. Supõe-se ainda que o discurso tenha sido usado repetidamente (pelo menos em oito ocasiões), mas pouco ou nada se sabe sobre quando e onde isso aconteceu, exceto em 26 de dezembro de 1736, como especificado no cabeçalho do documento[6].

No entanto, um documento semelhante está localizado na Bibliothèque municipale de Toulouse (Biblioteca Municipal de Toulouse), intitulado discours prononce à la réception des Francs-Macon (discurso sobre a recepção dos Franco-Maçons), por M. de Ramsay, grand orateur de l’orders (Grande Orador da Ordem). Este manuscrito (e versões posteriores impressas) segue o mesmo esboço como o documento de Epernay, mas a versão de Toulouse é cerca de 20% mais longa. Além disso, algumas partes são expandidas enquanto outras são reduzidas. A versão do texto também é conhecida em dois outros manuscritos, bem como em pelo menos quatro edições impressas no período de 1738 a 1743[7].

Como esse texto mais longo foi o mais distribuído, é razoável sugerir que foi a última de duas versões que foram produzidos e que a versão mais longa se baseia na primeira, mais curta. Cyril Batham acredita que esta segunda versão foi feita porque Ramsay foi convidado a falar em uma reunião na Grande Loja Parisiense em 21 de março do mesmo ano[8]. Apoio essa visão de que que Ramsay reformulou seu texto durante os primeiros meses de 1737, e existem argumentos que dão apoio a isso e que listo abaixo, mas também demonstrarei que as razões poderiam ter sido outras, além de uma reunião na Grande Loja.

A Maçonaria encontra oposição

Durante a última metade de 1736, a consciência pública sobre a Maçonaria começou a aumentar em Paris. Vários relatos descrevem a oposição do rei Luís XV a esse novo movimento, que atraiu vários jovens da nobreza muito ansiosos, e que mantinha reuniões em segredo de forma organizada (e, portanto, de conteúdo incontrolável). A pressão das autoridades estava aumentando, e o cardeal Fleury, ministro-chefe do rei, e Hérault, Lieutenant General de Police (tenente-general de Polícia), em Paris, começaram a procurar contramedidas. A campanha anti-maçônica parece ter começado com Hérault publicando o texto Reception d’un frey-Macon (A recepção de um franco-maçom), que supunha ser a revelação de um ritual maçônico, e tinha a intenção expressa de ridicularizar o Ordem[9]. Em 17 de Março de 1737 passou a ser considerado uma ofensa criminal oferecer instalações aos maçons e, em maio, maçons foram enviados para a prisão, embora muitos membros franceses estivessem protegidos de processos por sua alta posição social. Enquanto a polícia conduzia ataques contra Lojas, o conhecido Coustos-Villeroy Lodge, recebeu visitantes não convidados durante o verão de 1737 e, em setembro do mesmo ano, um dono de estalagem foi multado por hospedar uma Loja. Somente após a morte do cardeal Fleury, em 1743, essas condições melhoraram[10].

Ramsay entra em ação

Com essa situação em mente, pode ser plausível que Ramsay tenha editado seu discurso em uma tentativa de afastar a oposição que ele entendia estar sendo criada. Ramsay enviou sua nova versão ao cardeal Fleury apenas três dias após a proibição da atividade Maçônica entrar em vigor, e isso pode apoiar tal teoria. O mesmo pode ser dito para as mudanças no conteúdo do discurso: enquanto a primeira versão pode ser descrita como uma representação imaginativa da história maçônica, complementada pela iluminação filosófica e ênfase nas qualidades que eram esperadas dos maçons, a versão revisada parece ter outro propósito. Neste texto em particular, Ramsay é mais focado em apresentar os maçons como cidadãos leais dentro da comunidade, e que eles estavam trabalhando para melhorar os costumes e promover a virtude e a ciência[11]. Segundo Ramsay, um maçom, era obrigado a:

[…] Proteger seus irmãos por sua autoridade, iluminar por suas luzes, edificá-lo pelas vossas virtudes, ajudá-lo em suas necessidades; sacrificar todo ressentimento pessoal e procurar tudo o que possa contribuir para a paz, concórdia e união na sociedade.[12]

Esta segunda versão também tem um caráter claramente mais cristão do que a primeira, e as passagens frequentemente citadas que ligam a Maçonaria aos cruzados medievais podem ser vistas como um instrumento usado por Ramsay para corroborar que o ofício não estava apenas de acordo com cristianismo ortodoxo, mas também de acordo com a Santa Igreja Católica Romana. Ele abordou o tema cruzado na primeira versão, mas em seu retrabalho Ramsay expande o tema de uma maneira que pode dar ao leitor a impressão de que a Maçonaria contemporânea se via como herdeira desses antigos guerreiros em serviço da Igreja[13].

A maneira pela qual Ramsay conclui sua segunda versão também é significativa:

[…] A Arte Real está agora repassando para a França, sob o reinado daquele mais amável dos reis, cuja humanidade anima todas as suas virtudes e sob o ministério de um Mentor que realizou tudo o que poderia ser imaginado como fabuloso.[14]

Esse texto pode muito bem ser percebido como um chamado ao Rei para se juntar aos maçons e se tornar seu líder, bem como um convite semelhante a Fleury, que foi denominado como o “Mentor” no texto. Mais tarde, no mesmo ano, Ramsay revelou qual era o objetivo que ele realmente pretendia alcançar:

Se o cardeal tivesse durado mais um mês, eu teria o “mérito” de discursar para o rei da França, como chefe da confraria e ter iniciado Sua Majestade em nossos mistérios sagrados.[15]

Se esse discurso fosse proferido em uma assembleia da Grande Loja ou não, traria poucas mudanças. O objetivo principal era alcançar o rei com uma mensagem. Quando Ramsay envia o seu manuscrito para Fleury em 20 de março de 1737, ele está se referindo a uma informação planejada, pretexto para garantir uma resposta rápida, como ele pede ao Cardeal, para adaptar o texto como ele deseja e, assim, apoiar o trabalho de Ramsay na organização. Em sua carta a Fleury, Ramsay não mostra nenhuma consciência das restrições que haviam afetado a Maçonaria três dias antes, mas pode-se suspeitar que ele foi informado e isso o instigou a entrar em contato com o cardeal.

A resposta de Fleury não sobreviveu, mas dificilmente pode ter sido positiva. Ramsay agiu rápido para limitar o dano e, apenas dois dias após sua primeira carta, ele escreveu novamente para o Cardeal, afirmando que acabara de tomar consciência do ressentimento das autoridades contra a Maçonaria e pediu conselhos sobre como se comportar de acordo e, além disso, se ele ainda estava autorizado a participar de reuniões maçônicas. A resposta sucinta de Fleury é famosa: “Le roi ne le veut pas” (não é o desejo do rei). A conclusão das palavras do Cardeal devem ter sido óbvias, e Ramsay provavelmente se manteve no anonimato  no que diz respeito às suas atividades maçônicas nos anos seguintes.

Se a reunião na grande loja onde Ramsay deveria fazer seu “discurso” realmente foi planejada, ela deve ter sido adiada de 21 para 24 de março. Dada a difícil situação, parece que a reunião foi cancelada e não há vestígios de reuniões na Grande Loja naquele ano. Assim, o discurso revisado provavelmente nunca foi realizado[16]. Ao contrário do que foi assumido até agora, Ramsay não renunciou à Maçonaria após este episódio. Em conversa com dois alemães que visitam Paris em março de 1741, Ramsay se apresentou como o Grand Chancelier (Grande Chanceler) Maçônico da França e falou com entusiasmo sobre a Maçonaria[17].

A influência de Ramsay e seus discursos

Já foi discutido neste artigo que a segunda versão, a revisada, do discurso de Ramsay não foi concebida como um discurso a ser feito na Grande Loja, mas que foi criado apenas para convencer o Rei e seu ministro de que o movimento maçônico era benéfico para a sociedade e retratou os maçons como fiéis adeptos da Igreja e da Coroa. Depois que essa tentativa foi inútil, Ramsay e a Ordem Francesa esperaram discretamente alguns anos de repressão. No entanto, muitas vezes se afirma que o texto de Ramsay teve ótima – alguns diriam crucial – importância no desenvolvimento dos graus superiores da Maçonaria e das lendas cavalheirescas. Com base nas evidências históricas disponíveis, e não na lenda maçônica, é necessário desafiar algumas das verdades estabelecidas em relação a este tópico. A intenção não é a depreciação geral de Ramsay e a influência de seus textos.

No entanto, removendo mitos, pesquisas desatualizadas e conclusões infundadas, podemos obter uma imagem mais clara do que poderia ter sido sua contribuição, em vez de apenas redistribuir uma lenda. A seguir, quatro questões diferentes serão discutidas.

  • As lendas óbvias: Ramsay estava, em um estágio inicial, associado à invenção de novos graus maçônicos. Isso não deve surpreender, pois as versões impressas de seu discurso foram algumas das poucas fontes disponíveis para os primeiros estudiosos, e é compreensível que eles escolheram colocar suas teorias nos poucos nomes e documentos conhecidos. Já em 1802, Fessler afirmou que Ramsay introduziu outros graus em Londres em 1728, e isso foi repetido por Thory em 1815. Isso foi refutado mais tarde, no mesmo século, por Schiffman e Gould como alegações infundadas, mas a chama ainda existe[18]. Ramsay também foi associado à criação do Arco Real e do Rite Ancien de Bouillon (Rito Antigo de Bouillon), afirmações que da mesma maneira foram convincentemente rejeitadas[19]. Reivindicações não documentadas como esta, no entanto, ao longo dos séculos, estabeleceram uma forte conexão mítica entre Ramsay e a Maçonaria dos altos graus que se pode suspeitar que serviram de base subconsciente para pesquisadores mais recentes;
  • Os primeiros graus superiores – novas ideias: Até recentemente, a visão predominante entre estudiosos era que o conceito de graus superiores foi concebido na França na década de 1740. Nesse cenário, o discurso de Ramsay era como uma faísca que acendia o movimento écossais (Escocês), mas essa cadeia de eventos foi recentemente desafiada por novos fatos. As fontes disponíveis agora indicam que o primeiro grau superior foi trabalhado em Londres pelo menos já em 1733, e que esse grau (Mestre Escocês) foi introduzido em Berlim em 1742. Não antes do final de 1743 que se tem menção desse grau em documentos franceses, e então é claramente considerado como um ponto recém-formado[20]. Assim, se o berço do primeiro grau superior estava em outros lugares fora da França, as possíveis influências iniciais de fontes francesas como os discursos de Ramsay não são tão óbvias quanto antes;
  • O desenvolvimento de novos graus: Quando a ideia de graus além dos Graus Simbólicos acabou sendo introduzida na França, esse país tornou-se um ponto central para o desenvolvimento de novos rituais. Homens que se propuseram a desenvolver novo material ritualístico poderiam ter ouvido o discurso de Ramsay em uma ou mais ocasiões antes de 1737. O discurso também poderia ter sido realizado algumas vezes durante os anos seguintes, apesar de Ramsay provavelmente ter aparecido menos em público com suas conexões maçônicas neste período. Em teoria, ele poderia ter influenciado formadores de graus dessa maneira, mas se Ramsay veio a servir de inspiração para novos graus, é mais provável que isso tenha sido transmitido através das versões impressas dos discursos. A primeira versão de seu discurso parece ter sido impressa pela primeira vez em 1738 e conhecemos reimpressões e outras edições nos anos seguintes[21]. No que diz respeito ao conteúdo dos primeiros graus superiores, que tratavam principalmente do período imediato após a morte do Mestre Construtor, nenhuma das duas versões oferece tanto material quanto influência. A menção a Zerubbabel (Zorobabel) e “o misterioso livro de Salomão”[22] parece ser a parte mais relevante para novos graus, mas depois encontramos apenas os primeiros graus conhecidos no final da década de 1740 como, por exemplo, o grau Knight of the East (Cavaleiro do Oriente)[23].

A segunda versão do discurso de Ramsay foi impresso pela primeira vez em 1742. As principais contribuições inspiradoras nesta versão são, obviamente, as referências a “Nossos ancestrais, os cruzados”[24], a suposta união com os Cavaleiros de São João, como as primeiras Lojas foram criados por nobres que retornavam da Cruzada, e em especial como a Escócia era considerada como a conservadora na preservação das tradições[25]. Isso aponta para os graus cavalheirescos e tenho que admitir que a palestra encontrada no grau de Chevalier Elu (Cavaleiro Eleito), descoberta em Quimper e datado de 1750, mostra alguns paralelos com a segunda versão do discurso de Ramsay[26]. Um estudo mais detalhado dos primeiros rituais manuscritos pode revelar outras ligações mais detalhadas de Ramsay, mas em um nível meramente superficial.

  • Poucas ideias originais: O último fator a ser considerado ao discutir a questão do potencial de influência de Ramsay nos graus maçônicos é que uma quantidade considerável de seus textos consiste em plágios. Alain Bernheim analisou isso com mais detalhes e mostrou várias fontes de Ramsay que, por direito próprio, poderiam ter lhe inspirado[27]. Pode-se argumentar que Ramsay foi influente na montagem de material de diferentes fontes e, posteriormente, colocá-lo em um contexto maçônico, mas novamente, é preciso considerar que uma das fontes que ele mais utiliza é o Livro das Constituições de Anderson de 1723 que deve ter sido de conhecimento de grande parte da audiência de Ramsay.

Vale ressaltar também que John Coustos, depois de passar um tempo na prisão a partir de outubro 1742, deu o seguinte testemunho à Inquisição em Lisboa em março de 1743:

… quando ocorreu a destruição do famoso templo de Salomão, foi encontrado abaixo da Primeira Pedra uma tábua de bronze sobre a qual estava gravada [uma familiar Palavra bíblica que significava] ‘Deus’, dando assim a entender que esse Tecido e o Templo foi instituído e erigido em nome do dito Deus a quem era dedicado, esse mesmo Senhor, o começo e o fim de uma obra tão magnífica, e, como no Evangelho de São João, são encontradas as mesmas palavras e doutrinas que elas, por esse motivo, faça o Juramento naquele lugar.[28]

Esta lenda é certamente da história da igreja por Philostorgius (Filostórgio), e Coustos provavelmente está apenas explicando por que os maçons fazem seus juramentos no evangelho de São João. Bernheim, no entanto, mostrou que Filostórgio é uma das fontes de Ramsay (embora através de Claude Flery). O testemunho de Coustos, portanto, nos fornece o que possivelmente é uma tradição maçônica independente baseada nas mesmas fontes que Ramsay usava. O que parece ser inspiração de Ramsay em graus recém-formados pode, portanto, confiar em outras fontes também.

Epílogo

O objetivo deste ensaio não é uma tentativa de provar que Ramsay e sua obra maçônica foi insignificante ou sem influência. No entanto, acho peculiar que Ramsay regularmente recebe um lugar tão importante no desenvolvimento dos graus superiores, sem se raciocinar ou fornecer argumentos. Isso é notável mesmo em trabalhos acadêmicos, e parece que a importância de Ramsay é considerada um axioma. A posição de Ramsay como parte essencial da história da Maçonaria pode ser merecida, mas considerando novos conhecimentos e pesquisa, não podemos mais ver isso como tão evidente, e até que novas fontes sejam descobertas, o significado de Ramsay deve, na melhor das hipóteses, ser considerado indeterminável.

Autor:  Leif Endre Grutle
Tradução: Rodrigo Menezes

Publicado originalmente na  The Plumbline Volume 24, No. 2 (verão de 2017). – Revisado em março de 2018 e fevereiro de 2019.

Fonte: Ritos e Rtuais

Notas

[1] – Ver, por exemplo, CN Batham, ‘Chevalier Ramsay. Uma nova visão’, Ars Quatuor Coronatorum 81 (1968) e L. Kahler, “Andrew Michael Ramsay e seu Manifesto Maçônico”, Heredom 1 (1992).

[2] – C. Powell, ‘Novas evidências sobre o início da vida do cavaleiro Andrew Michael Ramsay’, Ars Quatuor Coronatorum 131 (2018).

[3] – Ordo Militaris e Hospitalis Sancti Lazari Hierosolymitani foi uma das ordens cavalheirescas fundadas durante as Cruzadas, tendo como principal tarefa cuidar dos leprosos. A Ordem tinha poucos recursos e estava prestes a ser dissolvida após a derrota final dos cruzados na Terra Santa em 1291. O rei Filipe da França ofereceu proteção à Ordem em 1308, ironicamente, apenas um ano depois que ele iniciou a perseguição aos Cavaleiros Templários. A ordem de Lázaro era, portanto, na época de Ramsay, uma ordem real da França, que também gozava de autorização apostólica do papa.

[4] – A. Bernheim, Alain, ‘Ramsay e seus discursos revisados’, Acta Macionica 14 (2004). Este artigo foi mais tarde expandido e publicado como livro em francês: A. Bernheim, Ramsay et ses deux discours (Paris: Edições Télètes, 2011).

[5] – Os membros proeminentes da Loja fizeram com que suas atividades fossem divulgadas na imprensa, e é um aviso de jornal que nos fornece os detalhes da iniciação de Ramsay. Batham, ‘Chevalier Ramsay. Uma nova visão ‘, 285 e RLD Cooper, The Rosslyn Hoax? (Hersham: Lewis Masonic, 2006), 39-43. A Loja se reunia originalmente na estalagem Rummer and Grapes em Channel Row, Westminster, e foi uma das quatro que uniram forças para formar a primeira Grande Loja em Londres. O Loja ainda é o número quatro na lista da Grande Loja Unida da Inglaterra e agora é chamado Royal Somerset House e Inverness Lodge . C. N. Batham, ‘A Grande Loja da Inglaterra (1717) e suas Lojas Fundadoras’, Ars Quatuor Coronatorum 103 (1991), 30-32, cfr. R. Berman, Schism. A Batalha que Forjou a Maçonaria (Brighton: Sussex Academic, 2013), 124-125.

[6] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova visão’, 291-292 e Bernheim, Ramsay et ses deux discours , 17-23.

[7] – Bernheim, Ramsay et ses deux discours , 20-22, e G. Lamoine, ‘Oração do Chevalier de Ramsay, 1736-37: Maçonaria na França ‘, Ars Quatuor Coronatorum 114 (2002), 233.

[8] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova visão’, 288.

[9] – AJB Milborne, ‘As primeiras exposições continentais e sua relação com os Textos Ingleses Contemporâneos’, Ars Quatuor Coronatorum 78 (1965), cfr. H. Carr, Harry (org.). As primeiras exposições francesas (Londres: 1971), 1-8.

[10] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova visão’, 305, W. McLeod,’ John Coustos: suas lojas e seu Livro ‘, Ars Quatuor Coronatorum 92 (1979), 116, J. Mandleberg, Rose Croix Essays (Hersham: Lewis Maçônico, 2004), 26.

[11] – Lamoine, ‘A Oração do Cavalheiro Ramsay, 1736-37: Maçonaria na França’, 234-235.

[12] – Lamoine, ‘A Oração do Cavalheiro Ramsay, 1736-37: Maçonaria na França’, 231

[13] – As duas versões podem ser encontradas dispostas paralelamente no francês original em Bernheim, Ramsay et ses deux discursos , 67-91. Para tradução para o inglês, consulte Batham, ‘Chevalier Ramsay. Uma Nova Visão’, 298-304 (reimpresso em Heredom 1 , 49-59). Veja Lamoine, ‘A Oração do Chevalier de Ramsay, 1736-37: Early Alvenaria na França ‘para uma tradução anotada.

[14] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova Visão’, 304.

[15] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova Visão’, 291. É concebível, no entanto, que a iniciativa de Ramsay teve o efeito oposto, e o conteúdo do documento enviado à Fleury pode ter influenciado o processo que terminou com a bula do papa contra a Maçonaria em 1738. A. Piatigorsky, Quem tem medo dos maçons? (Londres: The Harvill Press, 1997), 116.

[16] – A. Bernheim, ‘Letter to the Editor’ (Carta ao Editor), Heredom 5 (1996), 9-10.

[17] – R. Markner, Conversas de Anton von Geusau com Ramsay: Um Exame de seu Diário Original (Documento apresentado na Conferência Mundial sobre Fraternidade, Maçonaria e História , Bibliothèque Nationale, Paris, 27 de maio de 2017). Publicado como R. Markner, ‘Les conversations entre Anton von Geusau et Ramsay: Recherches sur l’original of son journal of voyage ‘, Renaissance Traditionnelle N o 189 (2018), 54-61.

[18] – Bernheim, Ramsay et ses deux discours , 33-35.

[19] – WJ Hughan, Origem do Rito Inglês da Maçonaria (Leichester: Lodge of Research, No. 2429, 3a ed. JT Thorp, 1925), 80-82, e BE Jones, o Livro do Maçom do Arco Real  (Londres: George G. Harrap & Company Ltd, 1965), 41-43.

[20] – A. Bernheim, ‘Early’ High ‘ou Écossais Graus Originam-se na França?’, Heredom 5 (1996), 96-102. O manuscrito Kloss XXV-334, afirma que o grau Écossais Anglais (Escocês Inglês) ou Parfait maître Anglais (Perfeito Mestre Inglês) era pouco conhecido na França antes de 1740, e foi introduzido pelos maçons ingleses. Este é provavelmente o mesmo grau mencionado em 1743. Veja: L. Trebuchet, De l’Écosse à léscossisme. Tomo 2 – Volume 2 (Marselha: Ubik edições; 2015), 223-225. Recentemente, mostrei que é altamente improvável que o sueco Carl Fredrik Scheffer poderia ter sido iniciado em graus superiores em Paris em 1737, embora essa seja uma afirmação frequentemente repetida. LE Grutle, «Frimureriske høygrader – myter og fakta», Acta Masonica Scandinavica 17 (2014), 296-297.

[21] – Bernheim, Ramsay et ses deux discours , 42-44.

[22] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova Visão’, 302.

[23] – Trebuchet, De l’Ecosse à léscossisme. Tomo 2 – Volume 2 , 371ss.

[24] –  Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova Visão’, 299.

[25] – Batham, Chevalier Ramsay. Uma nova Visão’, 303

[26] – A. Bernheim, ‘A Figura do Cavaleiro Kadosch na na França e em Charleston’, Heredom 6 (1997), 164-165. Veja também: P. Mollier, ‘Maçonaria e Templarismo’, Handbook of Freemasonry (Leiden: Brill, 2014), 88-89.

[27] – Bernheim, Ramsay et ses deux discours (Ramsay e seus discursos), 23-32.

[28] – Jones, O Livro do Maçom do Arco Real, 43-44

Decoração e simbologia egípcia nos templos maçônicos

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Não resta dúvida que o costume de utilizar desmedidamente agregados simbólicos penitentes à cultura egípcia se tem feito presente na decoração de muitos templos maçônicos pelo mundo. Todavia isso se dá mais por efeito decorativo do que iniciático, pois a história autêntica já comprovou inúmeras vezes a inexistência na Ordem Maçônica nos tempos do Antigo Egito.

É bem verdade que houve inclusive personagens embusteiros que criaram ritos maçônicos exaltando uma suposta maçonaria egípcia (Memphis-Misraim), mas que mais tarde foram desmascarados por fraude – dentre outros a respeito, vide apontamentos sobre in Dictionnaire des Franc-Maçons et de la Franc-Maçonerrie, Alec Mellor, Belfond, Paris, 1971-1979.

Sob o aspecto da Maçonaria documental (autêntica), a Sublime Ordem comprovadamente possui aproximados 800 anos de história[1], sendo os seus ancestrais as guildas de construtores da Idade Média. Assim, a Instituição Maçônica não nasceu e nunca existiu nos tempos do Egito Antigo, portanto é preciso antes compreender que para construção do seu arcabouço doutrinário especulativo muitas lendas passariam a fazer parte nesse contexto. Contudo, reafirma-se que são lendas introduzidas com o desiderato de, como alegorias, aplicar lições de moral, ética e sociabilidade e não como elementos comprobatórios relacionados à existência verdadeira de fatos e acontecimentos ao ponto de aparecerem decorando paredes de templos maçônicos.

Assim compreendido, cita-se por exemplo a Lenda do 3º Grau como parte desse arcabouço lendário que fora retirado dos cultos solares da Antiguidade, cujo qual, por esse viés, possui palpável consonância com a lenda de Osíris, Ísis e Hórus, entretanto esse não é um fato histórico, mas lendário, assim não autoriza qualquer afirmativa no sentido de que lendas da antiguidade usadas pela Maçonaria sirvam para comprovar sua existência naqueles idos tempos – muito menos arrumar justificativas se construir templos maçônicos copiando arquitetura egípcia.

Lendas são lendas e não afiançam autenticidade aos fatos que constituem o mosaico da História. Infelizmente essa não é uma lição que tenha sido aprendida por muitos imaginosos autores que, em detrimento de citações lendárias associadas ao ufanismo maçônico, semeiam suposições que não têm qualquer compromisso com a verdade. James Anderson, por exemplo, carregou algumas páginas da Constituição de 1723 com essas elucubrações, geralmente retiradas do Old Charges que traziam forte apelo religioso, especialmente pela forte influência da Igreja sobre as corporações de ofício da Idade Média. Sob o aspecto prático, é compreensível que Anderson tenha inserido essas exposições lendárias já que a “nova ordem”, amparada pela Royal Society e que compunha a Moderna Maçonaria, surgida em 1717 em Londres, carecia de agregar novos adeptos e com isso chamar atenção com fatos tidos como “misteriosos segredos guardados pela Maçonaria”. Isso sem dúvida ajudou a Premier Grand Lodge reforçar suas Colunas, principalmente com membros atraídos pela curiosidade despertada, sobretudo quando publicados nos diários londrinos da época. Lawrence Dermott, por exemplo, para atrair adeptos para a sua Grande Loja, a dos Antigos (1751), criou o Real Arco afirmando que nele havia o encerramento e a explicação da Lenda do 3º Grau. Artifício inteligente que até hoje faz com que adeptos da Ordem acreditem na existência de um 4º grau maçônico advindo dos tempos imemoriais, fato que também não se sustenta, pois comprovadamente a Maçonaria de antanho trabalhava com apenas duas classes de trabalhadores, vindo a surgir o 3º Grau especulativo somente na Moderna Maçonaria surgida no final do primeiro quartel do século XVIII.

Outro aspecto nesse mesmo sentido (o da não existência de Maçonaria na antiguidade) é o que envolve a própria “arte de construir”.

Nesse sentido, não há como negar que a profissão de construtor é um ofício milenar, entretanto não como uma organização feito à Maçonaria.

A arte de construir, surgida principalmente pela necessidade de se proteger, fez com que o homem, ao deixar a vida sedentária das cavernas para viver em sociedade estratificada, começasse a edificar choupanas, vivendas e casebres para se abrigar das intempéries e se proteger dos perigos e agruras comuns ao ambiente que o envolvia.

Com isso davam-se os primeiros passos na arte e no ofício das construções, sendo, portanto, perfeitamente viável se afirmar que essa profissão é oriunda dos tempos imemoriais, entretanto isso não significa dizer que existiam guildas de construtores maçons naquela época, pois documentalmente se sabe que a Franco-Maçonaria somente viria florescer, sob a proteção da Igreja-Estado, no século XIII.

Como sociedade organizada de artesãos construtores, a Franco-Maçonaria, seguindo o curso da história e atendendo à necessidade surgida pela expansão dos domínios da Igreja, nascera em substituição, primeiro às Associações Monásticas e depois às Confrarias Leigas.

Longe e anterior a tudo isso está a civilização do Antigo Egito ocorrida no Antigo Oriente próximo ao norte da África há 3.100 a. C. Seu aparecimento no ideário maçônico, além daqueles motivados por lendas solares, provavelmente se reforçou por teorias de incautos e ufanistas que, usando da lei do menor esforço, não tardariam a imaginar as pirâmides sendo construídas por maçons, o que cientificamente é muito pouco provável, simplesmente porque não existe nenhuma prova ou indício que aponte para a existência da Maçonaria naquele período.

Saindo do Antigo Egito, mas seguindo esse mesmo viés, vem a construção do primeiro templo hebraico, o de Jerusalém, muito conhecido em Maçonaria como Templo de Salomão (o rei que reinou em Israel de 1010 a 970 a.C.).

Por ser a maior alegoria maçônica e ligado à lenda hirâmica, a construção desse Templo também não tardaria a despertar no fértil imaginário que foram os maçons os seus construtores, tudo obviamente em detrimento à Lenda do Terceiro Grau onde os personagens do Rei Salomão, Hiram – Rei de Tiro e Hiram Abif (Hiram meu Pai), de modo fictício, são descritos mitologicamente como maçons no sentido de estruturar a lenda introduzida em 1725 pelo aparecimento do grau de Mestre Maçom na Moderna Maçonaria.

Na realidade, a Lenda do Terceiro Grau é a adaptação de uma lenda Noaquita que envolve os personagens bíblicos de Noé e seus três filhos, Sem, Can e Jafé. Sem dúvida essa lenda, tal como a de Osíris, Ísis e Hórus, se estrutura nos cultos solares da Antiguidade, cujos quais serviram de base para a maioria das religiões que conhecemos.

Retomando a Lenda Hirâmica, ela, como qualquer outra lenda, não tem qualquer compromisso com a realidade histórica, portanto ela não afirma, mas apenas menciona figuradamente a Maçonaria na época da construção do primeiro templo hebraico – o de Jerusalém.

Infelizmente isso ainda não tem sido bem compreendido e faz com que muitos maçons não separem lenda – que é uma narrativa escrita ou oral no qual fatos históricos são deformados pela imaginação – de realidade histórica. Com isso, acabam muitos, até de modo infantil, disseminando inverdades tal como a de “achar”, por exemplo, que os templos maçônicos são edificados como cópias fiéis do lendário templo bíblico.

Embora alguns ritos maçônicos, por questões doutrinárias decorem seus templos estilizando mobiliários e partes do espaço de trabalho, relativizando-os às descrições imaginadas do lendário templo hebraico, por certo isso só pode ser tratado como característica de uma alegoria maçônica construída sob elementos figurados. Entenda-se que a sala da Loja, como uma oficina simbólica de trabalho, longe está de ser um modelo (arquétipo) do Templo de Jerusalém.

Não é cabível, portanto, que ainda existam maçons que não saibam discernir narrativas lendárias de fatos reais e continuem imaginando que foram os maçons os construtores do Templo de Jerusalém, ou mesmo os que construíram as Pirâmides do Egito.

Sem conclusões apressadas é mister mencionar que o primeiro templo maçônico somente viria surgir nos meados do século XVIII na Inglaterra após o advento do aparecimento da Moderna Maçonaria. Assim, sua disposição mobiliária copia a do Parlamento Britânico, principalmente no que diz respeito à acomodação do plenário e da great chair. No mais, por influência da Igreja sobre os ancestrais da Moderna Maçonaria, os templos maçônicos seguem o mesmo modelo de orientação das Igrejas, destacando que, por sua vez, essas últimas foram inspiradas no Tabernáculo hebraico, antepassado do Templo de Jerusalém.

Dado ao exposto, a Maçonaria deve ter seus templos decorados conforme o previsto no rito que a Loja pratica, não obstante existirem às vezes, em total desrespeito para com a originalidade e liturgia, muitos elementos decorativos que apenas possuem o desiderato de satisfazer o gosto e a imaginação de alguns.

Certo é que como exemplificado anteriormente, elementos decorativos tais como painéis pertinentes ao Antigo Egito, ou outros do gênero, não fazem nenhum sentido para o REAA, dentre outros, embora, como dito, eles equivocadamente muitas vezes apareçam no interior de alguns templos maçônicos.

Eu diria que essa decoração é mais apropriada para a AMORC (Antiga e Mística Ordem Rosa Cruz) do que para a Maçonaria. Como elementos associativos eles até podem aparecer no contexto das lendas, mas muito longe de se materializarem como símbolos aplicados pela doutrina maçônica.

É daí meu Irmão talvez o seu insucesso na procura de explicações sobre a simbologia egípcia na decoração dos templos maçônicos.

Em termos de decoração egípcia nos templos simbólicos do REAA, por exemplo, podem existir elementos pontuais, como é o caso, por exemplo, da decoração original das Colunas B e J. Essas, de estilo babilônico, comumente aparecerem decoradas com folhas de lótus (universalidade) e de papiros (eterna busca pelo transcendental). Explicam-se as suas presenças porque as Colunas Gêmeas são pilares solsticiais, portanto se relacionam diretamente com os cultos solares da Antiguidade. Assim, as folhas de lótus e papiros (símbolos egípcios), de modo pontual, remontam ao significado de uma alegoria reservada aos iniciados, porém nunca para mencionar a existência da Maçonaria nos tempos do Antigo Egito.

Cada símbolo traz consigo a sua originalidade, a despeito de que em Maçonaria ele geralmente aparece para chamar atenção do iniciado para uma verdade inserida numa mensagem oculta (esotérica).

Desse modo, outros elementos simbólicos pertencente às diversas civilizações também fazem parte de corolário emblemático maçônico, contudo eles não possuem o desiderato de explicar a presença da Ordem em períodos da História.

Concluindo, a simbologia maçônica é ampla e abrange inúmeros aspectos culturais e sociológicos que foram retirados do misticismo de muitas civilizações. A Ordem Maçônica, eclética por natureza, para montar seu arcabouço doutrinário se utilizou desse artifício. Cabe assim ao maçom entender que a simples presença de símbolos de antigas civilizações no corolário simbólico adotado pela Maçonaria não representa que Ordem possui caráter de existência milenar. Reitero, documentalmente a Maçonaria possui aproximados 800 anos de história, o resto… Bem, o resto é lenda.

Autor: Pedro Juk

Fonte: Blog do Pedro Juk

Nota do Blog

[1] – O autor se refere à Maçonaria Operativa. A Maçonaria Moderna tem pouco mais de 300 anos, tendo como marco a criação da Grande Loja de Londres e Westminster em 1717.

Enoque e a lenda da Palavra Perdida

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Enoque, o patriarca, entre os homens bons,
Ainda era vivo. Mas por Deus foi chamado
Para que fosse o primeiro entre os maçons,
Na sublime Arte do Demiurgo ser iniciado.
 
Então, pelos canteiros da obra divina viajou,
Com mestres-arcanjos servindo como guia;
E os dez céus do universo ele contemplou,
Com eles adquirindo essa magna sabedoria.
 
Viu que o mundo é como se fosse o edifício,
Que embora não tenha chão, parede e teto,
Nós o construímos como pedreiros de ofício,
 
Trabalhando nessa obra um pouco cada dia.
Tendo Deus como Grande Mestre-Arquiteto
Fazemos o que se chama de pura Maçonaria.

Quem foi Enoque

Enoque é o sétimo patriarca citado pela Bíblia na descendência direta de Adão e foi o bisavô de Noé, o da Arca. Entre os patriarcas antediluvianos foi o que menos viveu, sendo de 365 anos a sua idade quando, segundo a Bíblia, desapareceu.

O fato de o livro sagrado não se referir à sua morte, e dizer que ele “andou com Deus e Deus o levou”, tem feito muitos comentadores dizer que Enoque não morreu, mas sim, foi levado ao céu vivo, como acreditam os cristãos que Jesus também foi e os muçulmanos dizem ter acontecido a Maomé, que foi “arrebatado” da terra para o céu.

Lendas à parte, o fato é que esse Enoque é um dos mais misteriosos personagens da Bíblia e sua figura tem se prestado ao desenvolvimento de uma rica mitologia que tem resistido aos séculos. Essa mitologia provém em grande parte de dois escritos cabalísticos encontrados entre os chamados apócrifos – conjunto de livros antigos censurados pela Igreja e excluídos da literatura cristã acreditada – chamados O Livro de Enoque e o Livro dos Segredos de Enoque.

Esses livros, escritos provavelmente por um judeu de Alexandria em fins do século I, apresentam uma visão apocalíptica do mundo e do destino da humanidade. No Livro dos Segredos, Enoque passeia pelos dez céus da arquitetura celeste e vê o sofrimento a que são submetidos os que não alcançaram a salvação de Jesus Cristo. É uma visão semelhante à de Dante na Divina Comédia. No Livro de Enoque ele descreve a arquitetura cósmica, com seus anjos e toda a simbologia a eles associada. Mostra também, de forma apocalíptica, a escatologia do universo físico e da humanidade, numa visão semelhante à do Apocalipse de João.

As duas obras contém visões tão semelhantes que é difícil saber quem influenciou quem. Possivelmente ambas devem ter sido influenciadas pelos escritos essênios, já que tais visões eram próprias dos membros daquela seita.

Os escritos de Enoque são essencialmente cabalísticos, abusando de símbolos e metáforas muito a gosto dos cultores dessa tradição. Tanto é que na Cabala, Enoque tornou-se o arcanjo conhecido como Metraton.

É também na Cabala que encontraremos boa parte da inspiração maçônica para a sua visão da arquitetura celeste, que se funda na ideia de que o universo é uma estrutura pensada por Deus (que atua como se fosse o seu mestre arquiteto) e é construída por anjos e homens atuando como mestres e pedreiros. Essa cosmovisão encontra uma certa confirmação nas obras do personagem Enoque e vai ao encontro ás visões dos filósofos gnósticos e cabalistas que forneceram a base da Maçonaria espiritualista.

A lenda de Enoque

A lenda de Enoque, tal como é desenvolvida pela Maçonaria,  é uma alegoria sobre a qual se assentam os ensinamentos de dois graus do Rito Escocês Antigo e Aceito e também é cultivada em outros ritos, com algumas variantes. Sua melhor performance ocorre no Rito do Arco Real, que tem em Enoque um dos seus mais importantes arquétipos.

No Rito Escocês Antigo e Aceito essa lenda aparece no ritual de um de seus graus. Em resumo ela diz o seguinte:

Enoque, durante um sonho que teve, foi informado que Deus tinha um Nome Verdadeiro que aos homens não era lícito saber, porque se tratava de uma palavra de grande poder. Esse Nome, Deus comunicou aos seus ouvidos, mas proibiu que o divulgasse a qualquer outro homem. Deus lhe informou também sobre o castigo que iria ser lançado sobre a humanidade pecadora, através do dilúvio.

O Inefável Nome de Deus era a chave que poderia proporcionar aos homens todo o conhecimento secreto e um dia, quando fossem merecedores, ele seria revelado. Mas para que o Inefável Nome de Deus não fosse perdido após a catástrofe que destruiria a humanidade inteira através do dilúvio, Enoque gravou-o numa pedra triangular, numa língua só inteligível aos anjos e a ele próprio. Portanto, mesmo que alguém descobrisse um dia a grafia do Nome de Deus, isso de pouco adiantaria, pois pronúncia dessa Palavra Sagrada somente ele, entre os homens, seria capaz de dar.

Antes do dilúvio havia sobre a terra civilizações bastante desenvolvidas em termos de artes e ciências. Era uma civilização dos gigantes, filhos dos anjos caídos (os nefilins) com as filhas dos homens. Essa civilização era má, arrogante e descrente. Por isso Deus anunciou a Enoque que iria destruí-la. Para preservar os conhecimentos dessas antigas civilizações (a Atlântida, segundo a Doutrina Secreta, ou a civilização dos anunnakis segundo a literatura suméria), Enoque fez com que vários textos, contendo conhecimentos científicos fossem gravados em duas colunas, e em cada uma delas esculpiu o nome sagrado.

Uma delas era feita de mármore, a outra fundida em bronze. Essas colunas ele as pôs como sustentáculo em um suntuoso templo que mandou construir em um lugar subterrâneo, só dele e de alguns eleitos, conhecidos.  Esse templo tinha nove abóbadas, sustentadas por nove arcos. No último arco Enoque mandou gravar um Delta Luminoso, que simbolizava o Nome Inefável, e fez um alçapão onde guardou a pedra onde ele havia gravado esse nome sagrado.

Com a vinda do dilúvio, todas as antigas civilizações foram destruídas e seus conhecimentos científicos e artísticos foram perdidos. Noé e sua família, os únicos sobreviventes dessa catástrofe, nada sabiam das antigas ciências. Das colunas gravadas por Enoque, somente a de bronze pode ser recuperada pelos descendentes de Noé. Nela constava o Verdadeiro Nome de Deus, mas não a forma de pronunciá-lo, pois essa sabedoria estava escrita na coluna de mármore. Assim, essa pronúncia permaneceu desconhecida por muitos séculos, até que Deus a revelou a Moisés em sua aparição no Monte Sinai.

Mas Moisés foi proibido de divulgá-la, a não ser ao seu irmão Aarão, que seria, futuramente, o principal sacerdote do povo hebreu.

Deus prometeu a Moisés, todavia, que mais tarde o poder desse Nome seria recuperado e transmitido a todo o povo de Israel. Segundo a tradição cabalística isso só aconteceu nos tempos de Shimon Ben Iohai, o codificador da Cabala, mas nem todo o povo de Israel compartilhou dessa sabedoria, uma vez que ela continuou sendo transmitida apenas aos rabinos que atingiam os graus mais altos na chamada Assembleia Sagrada.

Moisés, no entanto, conforme a lenda, havia mandado que o Nome Inefável, com a pronúncia correta, fosse gravado em uma medalha de ouro e guardado na arca da Santa Aliança juntamente com as tábuas da lei. Dessa forma, o Sumo Sacerdote, em qualquer tempo, poderia compartilhar dessa sabedoria e invocar o Grande Arquiteto do Universo na forma correta. Porém, a Arca da Aliança foi perdida numa batalha que os israelitas travaram contra os sírios. Mas, guardada por leões ferozes, os sírios nunca conseguiram abri-la e mais tarde ela foi recuperada pelos sacerdotes levitas. Durante as batalhas que o povo de Israel travou contra os filisteus pela posse da Palestina, a Arca foi perdida mais uma vez, sendo capturada pelo exército inimigo. Os filisteus, que não sabiam do poder que tinham nas mãos, fundiram a medalha de ouro com o Nome Inefável e a transformaram num ídolo dedicado ao Deus Dagon. Esse foi um dos motivos pelos quais O Grande Arquiteto do Universo instruiu Sansão para que este praticasse seu último ato de força no Templo dos filisteus em Gaza, matando um grande número deles.

Entretanto, de tempos em tempos, Deus comunicava a algum profeta o segredo dessa pronúncia, com a condição de que ele o mantivesse em segredo. Assim, durante longo tempo a forma de pronunciar o Nome Inefável ficou oculta, até que Deus o revelou a Samuel e este o transmitiu aos reis de Israel, Davi e depois a Salomão.

Após construir o Templo de Jerusalém, (que reproduzia a forma e a estrutura do templo construído por Enoque, inclusive com os nove arcos, onde, no nono se erguia o Altar do Santo dos Santos, no qual a Arca da Aliança estava depositada), Salomão determinou a Adoniran, Stolkin e Joaben a construção de um templo dedicado á Justiça. Estes, após escolher e preparar o terreno, verificaram que aquele era exatamente o lugar onde Enoque havia construído o antigo templo. Após demoradas pesquisas e árduos trabalhos escavando as ruínas do antigo templo, descendo a diversos níveis subterrâneos, os mestres destacados por Salomão, sob o comando de Adoniran, descobriram a coluna onde o sagrado Delta estava gravado.

Dessa forma, o Verdadeiro Nome de Deus foi recuperado e pode ser transmitido ao povo de Israel na sua forma escrita, mas a forma de pronunciá-lo permaneceu um segredo compartilhado por poucas pessoas, pois a coluna de mármore, onde estava essa sabedoria estava inscrita, foi destruída pelo dilúvio. Somente Salomão, o Rei de Tiro e os três mestres que desceram ao subterrâneo detinham esse conhecimento. Com o desaparecimento daqueles personagens, ficou perdida novamente a pronúncia da Palavra Sagrada.[1]

Esse é o conteúdo da lenda maçônica, que revela um conhecimento iniciático de grande relevância, pois o personagem Enoque não é exclusivo da tradição hebraica. Ele, na verdade, é um arquétipo presente na mitologia de vários povos antigos e cultuado como “mensageiro dos deuses” e arauto do conhecimento divino, transmitido aos homens na terra.

No Egito ele era associado ao deus Toth, que teria trazido aos homens o conhecimento da escrita, da metalurgia e da agricultura. Na Grécia foi conhecido como Hermes, o Senhor da magia e da ciência. Na tradição celta havia um personagem análogo, que ficou conhecido na mitologia daquele povo como Merlin, o mago, guardião dos portais do conhecimento. Entre os maias ele foi Quetzacoatal, o civilizador, que trouxe para aquele povo o conhecimento que ostentava aquela antiga civilização. Provavelmente foi nessa fonte da tradição maia que os autores da literatura mórmon se inspiraram para compor suas escrituras.

Em todas essas tradições, o personagem aparece como guardião das chaves do conhecimento, que antigas civilizações ostentaram e perderam em virtude do mau uso que fizeram deles.

O paralelo com a lenda mórmon

A lenda maçônica, tal qual ela aparece nos rituais, não será encontrada nos chamados apócrifos de Enoque. Ela provavelmente foi inspirada nos textos dessas obras, mas não consta textualmente delas. Vale registrar que ela encontra um curioso paralelo no Livro de Mómon, onde um personagem chamado Mórmon, referido como profeta-historiador, registra os conhecimentos de uma antiga civilização que teria sido a antecessora dos maias, astecas e incas, as grandes civilizações da América.

Um desses livros registra o ministério pessoal que Jesus Cristo teria desenvolvido junto aos índios americanos logo após a sua ressurreição, ensinamentos esses que teriam sido registrados por Mórmon, que os entregou ao seu filho Morôni, que os ocultou num Monte chamado Cumora. Durante cerca de dezoito séculos esses ensinamentos, que haviam sido gravados em placas de ouro, ficaram perdidos. Mas em 21 de setembro de 1821, Cumôni teria aparecido a um mórmon profeta de nome Joseph Smith, e mostrado o lugar onde as placas estariam escondidas. Depois ensinou ao mesmo Smith como decifrar e traduzir para o inglês os referidos escritos.

Assim nasceu o Livro de Mórmon, Bíblia da Igreja dos Santos dos Últimos Dias. Trata-se, como se vê, de uma curiosa versão da lenda maçônica das Colunas de Enoque, é não é possível saber no que uma influenciou a outra. Considerando que tanto o profeta-historiador Joseph Smith, quanto seu sucessor Brigham Young no comando da seita mórmon eram maçons, bem como um bom número de seus primeiros líderes, pode-se especular que eles tinham conhecimento dessa fonte e a utilizaram para compor o seu curioso trabalho.[2]

A interpretação da lenda

As instruções dos graus se referem às viagens que o iniciando tem que fazer, a exemplo dos três Mestres, para encontrar a Palavra Sagrada. Simbolicamente. Para o maçom essas viagens equivalem a uma descida dentro de si mesmo, a fim de liberar a luz que existe dentro dele. Aqui temos novamente a evocação, tão cara aos gnósticos e aos alquimistas, da necessidade de encontrar “dentro de si mesmo” aquela energia que faz o homem integrar-se à divindade.

Pois outra coisa não é a Palavra Perdida. O Inefável Nome de Deus é o principio que libera o espírito de suas amarras materiais e o torna livre para galgar as alturas e penetrar no reino da luz. Essa tradição frequenta a mística de todas as religiões do mundo, desde o Budismo tibetano até á Cabala, que a desenvolve através da metafísica dos números e suas relações com a divindade.

Diz a lenda que com a perda do verdadeiro significado, a Palavra foi substituída pelas iniciais IHVH que, depois de pronunciada, é coberta com três Palavras Sagradas, três sinais e três palavras de passe; somente após o cumprimento desse ritual se chega ao Nome Inefável. De acordo com a tradição maçônica, os cinco primeiros iniciados no grau de Cavaleiro do Real Arco foram os próprios reis Salomão e Hiram, rei de Tiro, e os três Mestres que descobriram o templo sagrado de Enoque. Um juramento de não pronunciar o Verdadeiro Nome de Deus em vão foi feito pelos mestres recém eleitos, juramento esse que se repete na elevação em um dos graus do REAA.

Diz ainda a lenda, que mais tarde outros Mestres foram admitidos no grau, até o numero de vinte e sete, sendo a cada um deles distribuído um posto. Outros Mestres, que tentaram obter o grau sem o devido merecimento receberam o justo castigo, sendo executados e sepultados no subterrâneo onde a pedra gravada com o Nome Inefável foi originalmente depositada.

A prece final de encerramento dos trabalhos do grau nos dá bem a significação do conteúdo iniciático da lenda.

Poderoso Soberano Grande Arquiteto do Universo. Vós que penetrais no mais recôndito dos nossos corações, acercai-vos de nós para que melhor possamos adorá-lo cheios de vosso santo amor. Guiando-nos pelos caminhos da virtude e afastando-nos da senda do vicio e da impiedade. Possa o selo misterioso imprimir em nossas inteligências e em nossos corações o verdadeiro conhecimento de vossa essência e Poder Inefável, e assim, como temos conservada a recordação de Vosso Santo Nome, conservar também em nós o fogo sagrado de vosso santo temor, principio de toda sabedoria e grande profundidade de nosso ser. Permiti que todos os nossos pensamentos se consagrem á grande obra de nossa perfeição, como recompensa merecida de nossos trabalhos e que a União e a Caridade estejam sempre presentes em nossas Assembleias, para podermos oferecer uma perfeita semelhança com a morada de vossos escolhidos, que gozam do vosso reino para sempre. Fortalecendo-nos com vossa Luz, para que possamos nos separar do mal e caminhar para o bem.Que todos os nossos passos sejam para o proveito da nossa aspiração, e que um grato perfume se desprenda no Altar de nossos corações e suba até vós. Ó Jeová, nosso Deus! Bendito sejais, Senhor. Fazei com que prospere a obra feita pelas nossas mãos, e que sendo vossa Justiça o nosso guia, possamos encontrá-la ao término da nossa vida. Amem”.[3]

Por fim, cabe considerar que a maçonaria cristã se apropriou dessa lenda para aproximá-la da tradição associada com o magistério de Jesus Cristo. Essa transposição iniciática foi feita pelos adeptos da filosofia rosa-cruz, que incorporaram nela a mística da paixão, morte e ressurreição de Cristo. Assim, a Palavra Perdida passou a ser soletrada pelas iniciais da inscrição que Pilatos mandou botar na cruz de Jesus: INRI.[4]

Autor: João Anatalino

Fonte: Recanto das Letras

Notas

[1] – Exerto da nossa obra Conhecendo a Arte Real- Madras, 2006.

[2] – O Livro de Mórmon- 1995.

[3] – Conforme o ritual do grau.

[4] – Sobre esse assunto veja-se o nosso trabalho publicado neste site, denominado A Rosa Mística.

Entrevista concedida ao site Pelotas Occulta

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Nessa semana tivemos a honra de receber o convite do site Pelotas Occulta para uma entrevista sobre o blog O Ponto Dentro do Círculo e outros temas relacionados à maçonaria e à sociedade em geral.

Confira no link abaixo.

Ver em: Entrevista com Luiz Marcelo Viegas

O Tesouro Oculto da Maçonaria

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“A maior parte só vê a casca, e cedo se desilude; não conhece a amêndoa gostosa que se oculta no interior e torna-se o prêmio reservado aos estudiosos, que os aproxima cada vez mais da Iniciação Real” (Nicola Aslan) 

Conta-se que um amigo do jornalista, contista, cronista e poeta brasileiro Olavo Bilac (1865-1918), abordou-o certa vez e pediu-lhe que redigisse um anúncio de uma chácara que pretendia vender e da qual o mesmo era conhecedor. Ali mesmo, o poeta apanhou um pedaço de papel e escreveu:

“Vende-se encantadora propriedade, onde cantam os pássaros ao amanhecer no extenso arvoredo. Cortada por cristalinas e marejantes águas de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda.

Tempos depois, reencontrando o amigo, Olavo Bilac perguntou-lhe se havia conseguido vender a propriedade. De pronto ouviu a resposta: “Nem pense mais nisso! Quando li o anúncio é que percebi a maravilha que tinha nas mãos”.

Eckhart Tolle, na sua obra “O Poder do Agora” (2002), narra a história de um velho mendigo (da fábula de Tolstói), que passou mais de trinta anos sentado no mesmo lugar, debaixo de uma marquise, pedindo moedas aos transeuntes. Um belo dia um estranho perguntou-lhe o que tinha dentro da caixa que era utilizada como assento em todo aquele tempo. Respondeu o mendigo que não sabia, mas que imaginava não ter nada. Insistiu o estranho para que o mendigo desse uma olhada. Ao abri-la, com certa dificuldade, descobriu o velho que o caixote estava cheio de ouro.

Em outro contexto, Malba Tahan (1895-1974), pseudônimo do professor, conferencista, matemático e escritor do modernismo brasileiro, Júlio César de Mello e Sousa, nos relata em “O Livro de Aladim“ (2001), uma fantástica história chamada “O Tesouro de Bresa”, sobre a experiência de um pobre e modesto alfaiate da Babilônia chamado Enedim, que alimentava o sonho de achar um fabuloso tesouro escondido em algum lugar e tornar-se rico e famoso.

Um dia parou em sua porta um velho mercador da Fenícia com uma infinidade de objetos. Entre elas ele descobriu um livro onde se viam caracteres estranhos e desconhecidos. O vendedor disse tratar-se de uma preciosidade. Após adquiri-lo, Enedim passou a examiná-lo com cuidado e conseguiu decifrar de uma legenda em complicados caracteres caldaicos o título: “O Segredo do Tesouro de Bresa”. Lembrou-se que ouvira falar alguma coisa a respeito e despertou a curiosidade para prosseguir na pesquisa, que se referia a uma fortuna enterrada por um gênio em uma caverna localizada em uma montanha chamada Harbatol.

Como as primeiras linhas eram escritas em caracteres de vários idiomas, Enedim foi obrigado a estudar os hieróglifos egípcios, o grego, os dialetos persas e a língua dos judeus. Isso o levou mais tarde a ocupar o rendoso cargo de intérprete do rei. Continuando a traduzir o livro, debruçou sobre várias páginas cheias de cálculos, números e figuras, o que o incentivou a instruir-se em matemática. Com isso desenvolveu habilidades para calcular, desenhar e construir uma grande ponte sobre o rio Eufrates. O rei nomeou-o então prefeito e ele se tornou um dos homens mais notáveis da cidade.

Continuando suas buscas sobre o segredo do tal livro, examinou as leis e princípios religiosos, o que o capacitou a dirimir uma velha pendência entre os doutores. Tornou-se primeiro-ministro. Passou a viver com luxo e riquezas e recebia os príncipes mais ricos e poderosos do mundo. Em consequência, o reino progrediu e Enedim se tornou o mais notável de seu tempo. Mas, o segredo ainda não tinha sido desvendado.

Certo dia, conversando com um imã, relatou suas buscas e descobertas e o religioso ao ouvir a ingênua confissão do agora grão-vizir, falou: “o tesouro de Bresa já está em vosso poder, meu senhor, graças aos conhecimentos que o livro lhe proporcionou”. “Bresa” significa “saber”, enfatizou o religioso, e “Harbatol” quer dizer “trabalho”. “Com estudo e trabalho pode o homem conquistar tesouros maiores do que os que se ocultam no seio da terra”, concluiu.

Refletindo sobre as três passagens acima, podemos extrair da primeira a nossa dificuldade em valorizar as coisas boas que dispomos, ou seja, os tesouros que estão ao nosso alcance, nossas famílias, amigos, trabalho, saúde e conforto, bem assim as inúmeras oportunidades em que nos perdemos em divagações e buscas, não se sabe do quê, sem nenhuma materialidade. Se pensarmos em termos de uma nação, entendemos como vários países ricos em potencial e tesouros incalculáveis em seus subsolos veem sua população na miséria e completa ignorância e dirigidos por incompetentes e/ou corruptos gestores do bem público.

No caso específico do mendigo, a mensagem é mais concisa e pode se ajustar a qualquer pessoa incapaz de reagir frente a uma existência miserável, sobretudo a intelectual, estando ao mesmo tempo sentada sobre uma riqueza incalculável, apenas pela incapacidade de conceber, avaliar e laborar os recursos disponíveis ou mesmo os próprios conhecimentos e habilidades. Mais ou menos a imagem de uma pessoa que vive em uma biblioteca, sabe soletrar, ler e escrever, mas morre ignorante, sem ao menos remover a poeira dos livros que a abraçam. Ou mesmo, cercado por boa comida, morre de inanição com preguiça de levar comida à boca. Mais ainda, como ativista sentado em confortável sofá, espera o conhecimento chegar via mensagem de WhatsApp para democraticamente compartilhá-lo, sem ao menos confirmar a veracidade.

Na mesma linha, a lenda do Tesouro de Bresa demonstra as inúmeras conquistas que podem advir da superação da preguiça mental e dedicação ao estudo e ao trabalho, dependendo apenas de confiança, força de vontade, disciplina e foco. Basta o despertar para a busca do conhecimento que aparenta estar oculto e distante, mas grita bem perto de nossos surdos ouvidos.

A maçonaria, por meio de suas instruções, coloca à disposição dos obreiros todo um imenso tesouro onde se estudam várias ciências, como moral, arte, filosofia, psicologia, sociologia, política, história, lógica e metafísica, que levam ao aprendizado e ao progresso por meio da própria experiência e esforços individuais, que variam de acordo com as próprias competências e em face das vivências e descobertas proporcionadas pelos estudos e trabalhos realizados (ver artigo “A Instrução Maçônica”, em: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2016/02/23/a-instrucao-maconica/).

Ao não incrementar ou valorizar os temas para estudos e debates em nossas Lojas, restringimo-nos à perenidade da ritualística e expectativa da ágape que vem após as reuniões, deixando de explorar toda a base de conhecimentos e instruções disponíveis, que representam um grande tesouro colocado à disposição de todos. A leitura burocrática das instruções apenas para cumprir uma formalidade faz-nos lembrar frase do célebre Marques de Maricá: “Ler sem refletir é comer sem digerir”.

Assim agindo, com esse desdém, cometemos o erro de quem se julga na Maçonaria, mas não vê a Maçonaria, garantindo que continuaremos pobres e sentados em cima de um rico patrimônio cultural, fadados a ouvir, aplaudir e repetir bravatas de pseudointelectuais, justificando o ditado popular: “em terra de cego quem tem olho é rei”.

Mas, com o despertamento para as enormes potencialidades da cultura maçônica, faz sentido o pensamento de Nicola Aslan, cotado na abertura desta Prancha, bastante ilustrativo da realidade de muitas Lojas, onde o obreiro deixa escoar o tempo e não consegue vislumbrar e apropriar-se do tesouro oculto nas colunas da maçonaria, do sabor da amêndoa gostosa, do desvelamento da essência, da interpretação do simbolismo, enfim, dos ensinamentos, que ficam por conta do estudioso, do pesquisador que não se detém na superfície, que acumulará as riquezas garimpadas segundo a medida de sua capacidade, em conformidade com sua maturidade e preparo espiritual.

Um ladrão rouba um tesouro, mas não furta a inteligência. Uma crise destrói uma herança, mas não uma profissão. Não importa se você não tem dinheiro, você é uma pessoa rica, pois possui o maior de todos os capitais: a sua inteligência. Invista nela. Estude! (Augusto Cury)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Referências

TAHAN, Malba. O Livro de Aladim. Rio de Janeiro: Record, 2001;

TOLLE, Eckhart. O Poder do Agora: um guia para iluminação espiritual. Rio de Janeiro: Sextante, 2002.

A fixação da ritualística no inconsciente do maçom

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Muitas vezes são imperceptíveis, mas as pessoas estão cercadas de Ritos. Eles, inclusive, contribuem para o bem-estar dos indivíduos. “Os ritos e rituais vêm da antiguidade com a mesma função: servem acima de tudo para facilitar o encontro com nós mesmos, para não nos desviarmos dos nossos objetivos e metas que traçamos com sinceridade; são uma ferramenta para nos lembrar quem somos, o que estamos fazendo e como estamos fazendo”, segundo España (2017).

Utilizados de forma equilibrada, os ritos ajudam o ser humano a ter mais autocontrole, a estar mais centrado nas ações que desempenham, impedindo-o de desconectar dele mesmo, e por isso, podem e devem ser criados e respeitados, como forma de trazer um ganho geral, melhorando sua motivação e consequentemente tudo ao seu redor.

Por exemplo, a estratégia utilizada para chegar ao trabalho diariamente pode ser considerada um hábito próprio que condiciona uma pessoa a sair sempre no mesmo horário, seguir pelos mesmos trajetos e alcançar o destino sem maiores problemas. Assim, desde o simples escovar dos dentes até a forma de encarar e resolver problemas complexos podem ser reflexo de um acúmulo de experiências próprias.

Entretanto, o que torna essas ações cotidianas em ritos são os significados que se dão a elas. Se escovar os dentes depois da alimentação ou antes de dormir traz uma sensação de bem-estar que supera simples fato de manter a higiene bucal, influenciando na sua concentração, pode-se estar diante de uma ritualística. Quando uma alteração no transcorrer dessas ações cotidianas, como a mudança no trajeto para o trabalho, influencia no desempenho de uma pessoa ou a fazer crer que gerou um descontrole na sua performance rotineira, e até chega a atrapalhar todas as demais atividades que serão desenvolvidas em seguida, pode-se constatar que houve a quebra de um rito. O grau de importância e significação que se atribui a determinados atos é que os tornam ritualísticos.

Além das experiências pessoais, destacam-se as cerimônias grupais, como as festas, tradições, funerais e outros comportamentos sociais, que desempenham importante papel na vida de um grupo. A ausência de uma solenidade nessas ocasiões pode ser encarada como um desrespeito e anulando a importância da passagem ou transição, reduzindo a ocorrência de um acontecimento que estabelece distinções muitas vezes entre estilos e modos de vida, o antes e o depois. Além disso, a ritualística assume uma “importância simbólica no processo de elaboração e assimilação de uma realidade subjetiva, mas com implicações de ordem prática, uma vez que envolve valores e posturas, na forma de se ver e se colocar no mundo.” (Diário de Antropóloga, 2009).

A identificação entre os membros de um grupo pode estar ligada à prática de ritos predeterminados, que são realizados muitas vezes sem entendimento de seus significados, como forma de aceitação pela coletividade e permanência nela. Todavia, é importante compreender os ritos sugeridos e alcançar seus significados, até como forma de solidificação da inserção coletiva. “Quando a integração não acontece a contento, o grupo se enfraquece, assim como o ritual. Antes que afete sua identidade como um grupo, a coesão entre os membros é impactada e seus laços sociais e afetivos não são reforçados. A experiência ritual favorece os laços sociais e a coesão do grupo” afirma Ritter (2015), que leciona ainda que:

É na necessidade humana de simbolização que os ritos encontram o caminho para existir, quer na repetição de rituais estabelecidos, quer pela atualização ou construção de novos. O simbólico é funcional na medida em que propicia a expressar e compreender uma experiência, ou conferir sentidos às vivências e à existência, ou ainda para olhar além de si mesmo e conviver na esfera coletiva. Mesmo que se valha de hábitos ou comportamentos repetitivos, com frequência e insistência nascem rituais que nos levam além do nosso comportamento e além de nossa individualidade, agregando sentidos e significados à nossa existência.

Os seres humanos atribuíram ao longo da história importâncias e significados a determinadas ações, e se sentem bem em repeti-las individual ou coletivamente, criando os mais diversos ritos para eventos grandes, formais, pequenos, públicos ou privados. Para Aristóteles “somos o que fazemos repetidamente. A excelência, portanto, não é um ato, mas um hábito”.

Conceitualmente, rito é um método utilizado para transmitir ensinamentos, funciona como uma lei, e segundo Ismail (2013) “é um conjunto de preceitos e obrigações gerais que produz efeitos sobre aqueles que estão sob seu alcance. Assim como uma lei, um Rito reflete princípios que o orientam, possui elementos históricos, além de buscar um objetivo específico”.

O ritual “é como uma instrução normativa, um manual de procedimentos que determina e regulamenta como essa lei deve ser praticada e observada” (ISMAIL, 2013), um livro que contém tudo referente ao rito, ou seja, um conjunto de regras, a ordem e a forma das cerimônias, religiosas ou não, com as palavras e orações, que orientam os praticantes do rito.

Já ritualística é a prática do rito segundo o ritual, isto é, a ritualística é o desdobrar do rito e precisa ser sempre fiel a ele e ao que está contido em determinado ritual. O rito em ação é a ritualística, com o exercício continuado dos mistérios observando os símbolos, princípios, preceitos e representações.

Analisando a questão sob o aspecto maçônico, destaca-se o ensinamento de Mackey (1869):

A Maçonaria é um sistema de moralidade desenvolvido e inculcado pela ciência do simbolismo. Este caráter peculiar de instituição simbólica e também a adoção deste método genuíno de instrução pelo simbolismo, emprestam à Maçonaria a incolumidade de sua identidade e é também a causa dela diferir de qualquer outra associação inventada pelo engenho humano. É o que lhe confere a forma atrativa que lhe tem assegurado sempre a fidelidade de seus discípulos e a sua própria perpetuidade.

Neste sentido, afirma Figueiredo (1998) que:

A Maçonaria é um sistema sacramental que, como todo sacramento, tem um aspecto externo visível, consistente em seu cerimonial, doutrinas e símbolos, e acessível somente ao maçom que haja aprendido a usar sua imaginação espiritual e seja capaz de apreciar a realidade velada pelo símbolo externo.

Além disso, como a Maçonaria é uma sociedade iniciática adotou uma linguagem simbólica e ritualística para registro de seus ensinamentos, através de ritos, anotados em rituais, para que somente os iniciados em seus mistérios possam praticá-los, o que pode ser constatado desde os primeiros registros como o Manuscrito Regius de 1390 (FILARDO, 2015).

Constata-se, portanto, a importância pessoal, social e iniciática, especialmente para a Maçonaria, dos ritos e ritualísticas, mas “o mundo moderno, entretanto, rejeita os rituais”, afirma Freitas Neto (2016), e complementa que: Vemos com grande frequência o desdém com que os mais jovens e os mais velhos tratam os rituais maçônicos como meras fórmulas vazias, lidos e repetidos automaticamente, sem força e vitalidade.

Destaca-se as observações de Mckay e Mckay (Apud FREITAS NETO, 2016):

A superficialidade estéril do mundo moderno tem seu fundamento em muitas questões, como o consumerismo irrefletido, a falta de desafios significativos e a perda de valores e normas compartilhados, ou mesmo de tabus compartilhados contra os quais se rebelar.

Nosso mundo moderno está quase vazio de rituais – ao menos no modo em que tradicionalmente pensamos neles. Aqueles que restam – como os que estão nos entornos dos feriados religiosos – perderam boa parte do seu poder transformativo e são hoje mais suportados do que propriamente apreciados, dos quais participamos mais por convenção do que por convicção. Ritual, hoje, é algo associado ao que é podre, vazio, sem sentido.

O fato de que toda cultura, em toda parte do mundo, em todas as eras, tem seus rituais é sugestivo de que o ritual é parte fundamental da condição humana. Os rituais já foram chamados, inclusive, da forma mais básica de tecnologia; são um mecanismo pelo qual coisas podem ser mudadas, problemas podem ser resolvidos, certas funções podem ser desenvolvidas e resultados tangíveis, atingidos. A necessidade é a mãe da invenção, e rituais surgiram da perspectiva límpida de que a vida é intrinsecamente difícil e que uma realidade “pura” pode, paradoxalmente, parecer irreal. Por eras os rituais foram os instrumentos pelos quais os homens puderam liberar e expressar emoções, construir sua identidade pessoal e a identidade da tribo, trazer ordem ao caos, orientar-se no tempo e no espaço, produzir transformações reais e construir camadas de significado e consistência para suas vidas. Quando os rituais são arrancados de nossa vida e esta necessidade humana não é satisfeita a apatia, inquietação, alienação, tédio, a perda das raízes e a anomia são o resultado.

Na atualidade, para muitas pessoas a prática de ritualísticas tornou-se ultrapassada, e em muitos casos é vista com preconceito e desdém. A observação dos ritos, inclusive maçônicos, é realizada de forma superficial, e a ritualística realizada de forma mecânica, sem qualquer preocupação com o significado e importância das mensagens e conceitos que os símbolos, palavras e gestos acumulados ao longo de séculos de atividade, decorrente de uma exagerada racionalidade e cientificidade, que terminou por destacar o lado consciente do homem moderno, o que termina por acarretar consequências desastrosas para o desenvolvimento do inconsciente humano.

Conforme Tavares (2018, informação verbal)[1] os ritos, mitos, símbolos são importantes no desenvolvimento da Psique, que segundo os psicanalistas está envolvida com o inconsciente, e responsável pelo crescimento e libertação do homem, ajudando-o a se encontrar interiormente. Deve-se considerar que a Simbologia é uma das ciências mais antigas do mundo, que possui seus sinais e efeitos sobre a humanidade. O homem e seus símbolos tem uma relação profunda que consistem em metáforas e na construção de compêndios de um conhecimento sensivelmente elevados, externados e expressados através de arquétipos.

Um arquétipo rege um símbolo (TAVARES, 2018). O grande imã que une os arquétipos aos símbolos e seus significados é o próprio homem, sendo necessário praticar sempre, para evoluir e continuar a crescer intimamente como indivíduo, gerando uma situação de satisfação interna, pois os símbolos e gestos funcionam como catalizadores das ações humanas como uma força psicológica, em um processo contínuo que leva o indivíduo a um avanço moral e ético, buscando estar bem e fazer o bem. O rito é uma forma de transmitir ensinamentos básicos e organizar as solenidades, especialmente maçônicas, através de um processo de troca de energia e renovação, sendo necessário tocar o símbolo e ser tocado por ele. No rito maçônico há três estágios, sendo no 1º grau do Simbolismo, o aprendizado, no 2º estágio, o desenvolvimento do caráter, e no grau de Mestre, encontra-se a plenitude, auxiliando o iniciado a lidar com a ambivalência entre o consciente e o inconsciente. A ritualística auxilia no desenvolvimento do caráter, auxilia “o outro” que existe dentro do indivíduo, já identificado como Psique, envolvido com o inconsciente e o instinto, e que ajuda o sujeito a lidar com seu consciente.

A racionalização do mundo atual, que reduz a importância da ritualística, termina por causar prejuízo ao inconsciente, e contribuindo para que o ego, ligado ao consciente, enfraqueça e adoeça. Para Jung (2017):  O homem moderno não entende quanto o seu “racionalismo” (que lhe destruiu a capacidade de reagir a ideias e símbolos numinosos) o deixou à mercê do “submundo” psíquico. Libertou-se das “superstições” (ou pelo menos pensa tê-lo feito), mas nesse processo perdeu seus valores espirituais em escala positivamente alarmante. Suas tradições morais e espirituais desintegraram-se e, por isso, paga agora um alto preço em termos de desorientação e dissociação universais.

Os antropólogos descreveram, muitas vezes, o que acontece a uma sociedade primitiva quando seus valores espirituais sofrem o impacto da civilização moderna. Sua gente perde o sentido da vida, sua organização social se desintegra e os próprios indivíduos entram em decadência moral. Encontramo-nos agora em condições idênticas. Mas na verdade não chegamos nunca a compreender a natureza do que perdemos, pois os nossos líderes espirituais, infelizmente, preocuparam-se mais em proteger suas instituições do que em entender o mistério que os símbolos representam. Na minha opinião, a fé não exclui a reflexão (a arma mais forte do homem); mas, infortunadamente, numerosas pessoas religiosas parecem ter tamanho medo da ciência (e, incidentalmente, da psicologia) que se conservam cegas a essas forças psíquicas numinosas que regem, desde sempre, os destinos do homem. Despojamos todas as coisas do seu ministério e da sua numinosidade; e nada mais é sagrado.

Em épocas remotas, quando conceitos instintivos ainda se avolumavam no espírito do homem, a sua consciência podia, certamente, integrá-los numa disposição psíquica coerente. Mas o homem “civilizado” já não consegue fazer isso. Sua “avançada” consciência privou-se dos meios de assimilar as contribuições complementares dos instintos e do inconsciente. E esses meios de assimilação e integração eram justamente os símbolos numinosos tidos como sagrados por um consenso geral.

À medida que aumenta o conhecimento científico, diminui o grau de humanização do nosso mundo. O homem sente-se isolado no cosmos porque, já não estando envolvido com a natureza, perdeu a sua “identificação emocional inconsciente” com os fenômenos naturais. E estes, por sua vez, perderam aos poucos as suas implicações simbólicas (…). Acabou-se o seu contato com a natureza, e com ele foi-se também a profunda energia emocional que esta conexão simbólica alimentava.

A racionalidade e a cientificidade não são prejudiciais ao desenvolvimento humano, mas não devem ser encarados de forma maniqueísta, anulando o lado mítico e simbólico da humanidade, até mesmo porque a acompanha desde sua fase embrionária, e ainda está presente nos dias atuais, apesar de mitigada sua importância. Os ritos tradicionais que alimentavam o inconsciente humano perderam espaço e deram lugar a novos que “não dão sustança ao espírito e não satisfazem”, como uma “cultura do confete” (MCKAY; MCKAY, apud FREITAS NETO, 2016).

Desta forma, a sociedade “moderna” está carente dos mecanismos que antes ajudavam a lidar com a morte e situações difíceis de perda e dificuldade, bem como auxiliavam no desenvolvimento individual e na descoberta interna e do mundo, por novos “rituais” que eliminam os problemas e somente apresentam o lado lúdico, “brilhante e colorida, que facilita o consumo passivo e rejeita o exame aprofundado das assunções” (MCKAY; MCKAY, apud FREITAS NETO, 2016). Destarte, não é difícil encontrar pessoas com complicações na vida pessoal e no enfrentamento dos problemas sociais e de relacionamento, em proporções maiores que em tempos mais remotos.

Na Maçonaria, os ritos ainda sobrevivem às mudanças da “atual civilização”, e sua prática constante reforça o lado inconsciente do Maçom, que deve ser trabalhado segundo seus preceitos filosóficos, auxiliando-o na convivência da Psique com a consciência, através da preservação dos conceitos éticos e morais gerais e iniciáticos, que devem reger sua vida como homem livre e de bons costumes, devendo encarar a simbologia de forma mais intensa.

Não cabe a este texto discutir as teses de como se chegou a este estágio social, mas fazer um alerta para o fato da racionalidade ampliar o consciente em detrimento do conhecimento íntimo, com reflexo estrutural da personalidade do profano ou iniciado, alterando seu amadurecimento e na forma de encarar a vida em comunidade, e para despertar sobre a importância do rito e da ritualística maçônica para o inconsciente do Maçom e conhecimento próprio.

Autor: Eduardo Albuquerque Rodrigues Diniz

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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Nota

[1] – Palestra proferida pelo psicólogo Lázaro Tavares, com o tema: Psique e Rituais Maçônicos: efeitos e sinais, na SESSÃO CONJUNTA DAS LOJAS MAÇÔNICAS DO PALÁCIO DA ARTE REAL, em Teresina – PI, no dia 04 de outubro de 2018, conforme registrado em Ata da Sessão Conjunta da Aug e Resp Loj Simb Liberdade Teresinense, nº 1314.

Referências

CARR, Harry. O Ponto Dentro do Círculo. Seis Séculos de Ritual Maçônico – 1ª Parte, traduzido por FILARDO, José. Publicado em 2 de outubro de 2015. Disponível em: <https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2015/10/02/seis-seculos-de-ritual-maconico-1a-parte/&gt;. Acesso em 28.12.18.

Diário de Antropóloga – Diversidade Cultural. Cidadania. Cultura Popular. Semiótica e Interpretação. Rituais da Vida e Ritos do Cotidiano. Publicado em 3 de junho de 2009. Disponível em: <http://diariodeantropologa.blogspot.com/2009/06/rituais-da-vida-e-ritos-do-cotidiano.html&gt;. Acesso em 28.12.18.

ESPAÑA. Danilo. Ritos no dia a dia trazem motivação!. Publicado em 18 de novembro de 2017. Disponível em: <https://exame.abril.com.br/blog/o-que-te-motiva/ritos-no-dia-a-dia-trazemmotivacao/&gt;. Acesso em 28.12.18.

ISMAIL, Kennyo. No Esquadro. O que é rito e o que é ritual. Publicado em 18 de fevereiro de 2013. Disponível em: <https://www.noesquadro.com.br/termos-e-expressoes/o-que-e-rito-e-o-que-eritual/&gt;. Acesso em 28.12.18.

JUNG, Carl G. O homem e seus símbolos, traduzido por PINHO, Maria Lúcia. 3ª Edição Especial. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil. 2016.

MACKEY, Albert Galatin. Encyclopedia of Freemasonry. New York: Clark and Maynard, 1869.

MCKAY, Brett; MCKAY, Kate. O poder do Ritual, parte 1 – A necessidade do homem por rituais e os ritos de masculinidade, traduzido por FREITAS NETO, Edgard Costa. Publicado em 21 de fevereiro de 2016. Disponível em: <http://york.blog.br/poder-ritual-parte-1-a-necessidade-do-homempor-rituais-e-os-ritos-de-masculinidade/&gt;. Acesso em 28.12.18.

Riter, Ettore. Ritos e Rituais da vida diária – PensarAção. Publicado em 12 de Fevereiro de 2015. Disponível em: <http://www.pensaracao.com.br/ritos-e-rituais-da-vida-diaria/&gt;. Acesso em 28.12.18.

O círculo, o ponto e as paralelas tangenciais

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1 – Introdução

Na profusão da edição de rituais e instruções maçônicas no Brasil, muitas questões têm se apresentado que ainda clamam por uma solução ou explicação satisfatória nesse particular, sobretudo pela inserção de instruções que não pertencem a esse ou aquele Rito e sua correspondente doutrina iniciática, levando-se em conta à vertente na qual pertença o costume maçônico.

É o caso, por exemplo, de uma questão que envolve, dentro da simbologia maçônica, o conjunto composto pelo Círculo, pelo Ponto e pelas Paralelas Tangenciais e ainda no contexto acrescido do Livro da Lei e da Escada de Jacó. Indiscriminadamente esse conjunto alegórico, em não raras vezes, tem habitado as instruções para o Aprendiz emanadas em alguns rituais brasileiros do Rito Escocês Antigo e Aceito como o exemplo do que segue:

“Em Loja Maçônica Regular, Justa e perfeita, existe um ponto dentro de um circulo, que o verdadeiro Maçom não pode transpor. Este círculo é limitado, ao Norte e ao Sul, por duas linhas paralelas, uma representando Moisés e outra o rei Salomão. Na parte superior deste círculo, fica o Livro da Lei Sagrada, que suporta a Escada de Jacó, cujo cimo toca o céu. Caminhando dentro deste círculo sem nunca o transpor, limitar-nos-emos às duas linhas paralelas e ao Livro da Lei Sagrada, e, enquanto assim procedermos, não poderemos errar”.

O conteúdo acima foi motivo de consulta perpetrada por um Respeitável Irmão da COMAB, no que assim se manifestava naquela oportunidade: “Este texto tem gerado inúmeras discussões em Loja sem jamais chegarmos a uma interpretação adequada ou mesmo o seu significado filosófico”.

2 – Comentários

2.1 – Vertente inglesa da Maçonaria

Embora o Círculo entre as Paralelas Tangenciais seja um conjunto simbólico eminentemente genérico na Maçonaria universal, a sua composição com o Altar, com a Escada de Jacó e com o Livro da Lei Sagrada, além da menção aos personagens bíblicos de Moisés e de Salomão, é um conjunto alegórico pertencente à Tábua de Delinear[1] inglesa do Primeiro Grau, portanto não são componentes do Painel do Grau de Aprendiz do Rito Escocês Antigo e Aceito, rito esse de vertente francesa, a despeito de que em se tratando do conteúdo simbólico de ambos (da Tábua e do Painel), aparecem significativas diferenças.

Devido à existência dessas distinções litúrgicas e ritualísticas entre os dois principais sistemas doutrinários maçônicos (embora o escopo seja único – o de reconstruir e aprimorar o Homem) – surgem então às anfibologias e as incompreensões sobre esse conteúdo, sobretudo quando pertinente às instruções e catecismos maçônicos se equivocadamente generalizados.

Na concepção inglesa (teísta), por exemplo, esse conjunto no momento em que é composto pelas paralelas tangenciais, pelo círculo e pelo ponto, dentre outros, representa também a Lei (do patriarca Moisés) e a Sabedoria (do rei Salomão).

À bem da verdade, esse conjunto simbólico é fruto haurido da Moderna Maçonaria e sacramentado através das Lições Prestonianas (William Preston[2]), além de outras interpretações relacionadas à mencionada alegoria, efetivamente a partir do primeiro quartel do Século XIX, inclusive quanto à alusão aos personagens bíblicos do Antigo Testamento, Moisés e Salomão, já que os nomes dessas personalidades se dariam em substituição aos tradicionais santos patronais João, o Batista e João, o Evangelista devido à decisão da Grande Loja em transformar a Maçonaria em uma instituição não sectária na Inglaterra, nesse particular sob o ponto de vista religioso[3].

Naquela oportunidade então é que seria recomendado, na medida do possível, que as novas Tábuas de Delinear não contivessem símbolos associados ao Cristianismo. Nesse sentido, por exemplo, é que o título Bíblia seria designado simplesmente como o “Volume das Sagradas Escrituras”. Essa aparente descristianização dos catecismos maçônicos seria um dos motivos principais que levaria às escaramuças entre os Antigos e os Modernos relativos às duas Grandes Lojas rivais à época na Inglaterra.

Obviamente que ao longo desses acontecimentos, longe da unanimidade, muitos símbolos cristãos ainda assim permaneceriam como integrantes desse corolário alegórico particular à Maçonaria Inglesa. É o caso da Cruz que identifica a Fé como virtude teologal, colocada no primeiro lance da Escada de Jacó em direção ao céu, sobejamente conhecida na composição do “Tracing Board” (Tábua de Delinear) do primeiro Grau do Craft inglês nos Trabalhos de Emulação (equivocadamente chamado no Brasil como Rito de York).

Nesse conjugado alegórico o Círculo entre as Paralelas Tangenciais é exposto na Tábua de Delinear aparecendo como uma espécie de base, alicerce ou arrimo que dá apoio ao Volume da Lei Sagrada que, por sua vez, é o sustentáculo da Escada de Jacó.

Dentre outras exegeses pertinentes para esse conjunto alegórico, a mais comum encontrada é a que se destaca a seguir:

O Círculo entre as paralelas expressa os limites impostos pela Sabedoria daquele que cumpre a Lei. Essa é a base (Altar) onde descansa o código de moral e ética (Volume das Sagradas Escrituras), cujo caminho avulta a ascensão do Obreiro ao aperfeiçoamento. É o que sugere a Escada em cujo topo aparece uma Estrela de Sete Pontas (sete – a Fé, Esperança e Caridade somadas à Justiça, Prudência, Temperança e Coragem). O interior do Círculo representa o espaço limitado pelos ditames da obediência à Lei exarada no Volume da Lei Sagrada. Em linhas gerais denota que aquele que segue os ditames da Lei, não pode errar.

Para ilustrar essa interpretação, também fica aqui transcrito um trecho do livro Master Key de autoria de John Browne datado de 1802 com perguntas e respostas pertencentes à Primeira Preleção com base Prestoniana que serve de apoio para justificar de onde fora retirado o conteúdo textual mencionado no ritual da COMAB citado na introdução desse arrazoado e que é o motivo principal desses apontamentos. Esse mesmo texto também pode ser encontrado no livro Simbolismo na Maçonaria, de Colin Dyer, publicado no Brasil pela Madras Editora, São Paulo, 2006.

Perg: Qual é o primeiro ponto da Maçonaria?

Resp: O joelho esquerdo despido e dobrado.

Perg: No que incide esse primeiro ponto?

Resp: Na posição ajoelhada me foi ensinado a amar o meu Criador. Sobre o meu joelho esquerdo nu e dobrado eu fui iniciado na Maçonaria.

Perg: Existe algum ponto principal?

Resp: Sim, o de podermos fazer um ao outro feliz e ainda transmitir aquela felicidade para outro.

Perg: Existe algum ponto central?

Resp: Sim, um ponto no interior do círculo, do qual o Mestre e os Irmãos não podem materialmente errar.

Eis aí então a origem dessas citações nas instruções maçônicas, lembrando sempre que elas realmente se adequam aos catecismos da vertente inglesa da Maçonaria.

Ilustrando ainda mais, segue a sequência do texto mencionado nesse catecismo conforme a mesma obra citada:

 – Explicai esse ponto no interior do Círculo.

R. Nas Lojas regulares de Francomaçons existe um ponto no interior de um círculo, ao redor do qual o Mestre e os Irmãos não podem materialmente errar. O círculo é limitado ao Norte e ao Sul por duas linhas perpendiculares paralelas: a no Norte representa São João Batista, e a do Sul simboliza São João Evangelista. Nos pontos de cima destas linhas e no perímetro do circulo, está colocada a Bíblia Sagrada, sobre a qual se apoia a Escada de Jacó, que alcança as nuvens do céu. Aí também estão contidos as Ordens e os Preceitos de um Ser que é Infalível, Onipotente e Onisciente, de tal forma que, enquanto estivermos no seu interior e obedientes a Ele, como foram João Batista e João Evangelista, seremos levados a Ele e não nos decepcionaremos nem O frustraremos. Portanto, ao nos mantermos assim circunscritos será impossível a que venhamos errar materialmente”.

Como se pode notar, o texto tem a intenção de explicar a instrução onde o termo “circunscrito” representa o limite imposto pelo Círculo, cujo “ponto central” é a origem donde o Maçom por primeiro dobrou o joelho esquerdo apoiando-o no chão e se sujeitando no ato à “obrigação” (também conhecida na vertente latina como juramento) de cumprir os deveres impostos e à promessa perpetrada – o Livro da Lei é o Código de Moral e Ética; o Círculo é o limite; o Ponto é a origem e a Escada o caminho para o aperfeiçoamento[4]. Assim, isso significa que se bem observada a Arte e ressalvados os limites da Lei, o Maçom não pode errar.

Ainda em relação ao texto acima mencionado, há que se notar também que à época ainda era citado na Inglaterra a Bíblia Sagrada, assim como os nomes dos santos patronais cristãos, muito embora já no primeiro quartel do Século XIX não tardariam esses títulos a serem substituídos – a Bíblia seria denominada como o Volume da Lei Sagrada, e cada santo padroeiro passariam a ser um dos personagens bíblicos do Antigo Testamento – Moisés e Salomão.

2.2 – REAA – Vertente francesa da Maçonaria

Dadas essas considerações, entra finalmente na questão o Rito Escocês Antigo e Aceito que, embora até possua em muitas das suas características influências históricas anglo-saxônicas (o título Antigo, por exemplo), sobretudo porque o seu simbolismo sofrera influência direta das Lojas Azuis norte-americanas que praticam o Craft oriundo da Grande Loja dos Antigos da Inglaterra, vale a pena lembrar que mesmo assim o Rito Escocês é historicamente originário da vertente francesa da Maçonaria.

Sob essa óptica, o arcabouço doutrinário francês de Maçonaria, principalmente aquele relativo ao simbolismo do Rito Escocês Antigo e Aceito, nele envolve o aperfeiçoamento humano que é simbolicamente representado pela alegoria da ressurreição e morte da Natureza, bem como a sua constante renovação (cultos solares da Antiguidade).

Assim, o simbolismo do Rito Escocês aborda e encena a evolução da Natureza. Nesse particular teatro iniciático aparecem representados na sua liturgia e ritualística os solstícios e os equinócios, os ciclos Naturais ou as estações do ano, as Colunas Zodiacais, as Colunas Solsticiais B e J (marcam a passagem dos trópicos de Câncer e Capricórnio), assim como as Colunas do Norte e do Sul que são separadas no Templo pelo eixo imaginário do Equador.

Nesse particular, o REAA por ser um Rito de origem francesa, não usa o título distintivo de Tábua de Delinear, entretanto faz uso no seu lugar do nome de Painel da Loja que fica situado e exposto originalmente em Loja aberta no centro do Ocidente. Entretanto, se faz mister observar que no conteúdo simbólico desse Painel da Loja do REAA não existe a figura da Escada de Jacó e nem aparece o Círculo com o Ponto ao centro entre as Paralelas Tangenciais, daí não combinar qualquer instrução que porventura possa fazer menção a esses símbolos relacionados ao franco maçônico básico do escocesismo – essa conduta doutrinária, se por acaso mencionada, além de equivocada não faria mesmo qualquer sentido.

Devido a não observação correta desses particulares – já que nem tudo o que reluz é ouro – é que, em busca do significado simbólico, ainda existem referimentos como:

“Este texto tem gerado inúmeras discussões em Lojas sem jamais chegarmos a uma interpretação adequada ou mesmo o seu significado filosófico.”

Desse modo, infelizmente, é verdadeiro comentar que alguns autores e ritualistas brasileiros, talvez por mera falta de atenção, ainda insistem inadvertidamente em misturar procedimentos de vertentes maçônicas distintas nas suas instruções.

Assim, se explica que a falta de sentido dessa inferência é que faz com que jamais se chegue a uma interpretação adequada ou mesmo o seu significado filosófico (é a queixa de muitos).

Essas ilações ainda são o sustentáculo para a propagação, através de certos autores imaginosos, de verdadeiras pérolas do faz-de-conta, geralmente suportadas por palavras bonitas que em superficial análise acabam por não fazer sentido algum – palavras mais palavras e palavras… vazias ao vento.

Não obstante a toda essa aleivosia histórica e ritualística, ainda existe outra classe – a daqueles que “acham bonito”, ou que simplesmente “copiam” rituais anacrônicos imaginando-os como fontes primárias e fidedignas. É o caso, por exemplo, do enxerto da Tábua de Delinear, que é da doutrina inglesa, no Rito Escocês que possui sabidamente preceito francês.

Daí, como se o Sol pudesse ser tapado com a peneira e na tentativa de se justificar toda essa aberração se utilizando a lei do menor esforço, identificou-se o intruso objeto como o tal do “Painel Alegórico”, o que só fez aumentar ainda mais a cinca, oferecendo absurdamente para o escocesismo simbólico a existência equivocada de “dois painéis” – um legítimo (o da Loja) e o outro como produto de enxerto oriundo de outra vertente maçônica (o tal justificado como Alegórico).

Ora, isso evidentemente não existe e é produto de mera enxertia imposto por “achistas”, já que o Rito Escocês genuinamente possui apenas o Painel da Loja no centro do Ocidente e não mais outro painel que, ainda por cima, seja denominado de “alegórico” (sic).

Para que não pairem dúvidas, evidentemente o estudante de Maçonaria deve conhecer o Painel da Loja (sistema Francês) e a Tábua de Delinear (sistema Inglês). Em linhas gerais, no grau de Aprendiz, o primeiro é aquele que, dentre outros símbolos, destaca-se por apresentar um pórtico ladeado pelas Colunas B e J (vide ritual do GOB, edição 2009, por exemplo). Enquanto que a segunda (a Tábua) é aquela que destaca dentre outros símbolos, três Colunas, tendo ao centro uma Escada em direção ao firmamento em cujo topo se apresenta uma Estrela Heptagonal (vide ritual de Emulação).

Nesse sentido, quando misturados os conteúdos simbólicos, a mixórdia acaba por trazer consigo instruções inglesas para dentro da doutrina francesa de Maçonaria. Aliás, esse é um fator deveras importante que todo o estudante da Ordem precisa saber distinguir: existem duas vertentes principais de Maçonaria – uma inglesa e outra francesa. Embora o objetivo da Sublime Instituição seja um só, os métodos doutrinários se diferem conforme a respectiva vertente – tanto pela visão social, quanto pela visão cultural.

Retomando essa questão, embora nos três Graus simbólicos do Rito Escocês cada respectivo Painel da Loja não apresente literalmente o símbolo do Círculo entre as Paralelas Tangenciais, a doutrina por si só ao mencionar a alegoria da evolução da Natureza, de modo abstrato acaba, sem mostrar os símbolos, por se referir ao Sol (Círculo) e aos trópicos de Câncer ao Norte e Capricórnio ao Sul (limites solsticiais).

Explica-se: como as datas solsticiais de 24 de junho e 27 de dezembro aludem respectivamente aos solstícios de inverno e de verão no hemisfério Norte (origem do Rito) ainda, por extensão, coincidem por influência da Igreja com as datas comemorativas a João, o Batista (verão no Norte) e com João, o Evangelista (inverno no Norte).

Assim, essa alegoria maçônica no Rito envolve toda a evolução da Natureza associando-a as etapas da vida humana – Primavera, Verão, Outono e Inverno, ou o nascimento, a infância, a juventude, e a maturidade, tudo distribuído de modo iniciático nos Graus de Aprendiz (puerícia), Companheiro (puberdade) e Mestre (maturação).

Por assim ser, mesmo de modo oculto, o Círculo entre as Paralelas Tangenciais pode representar também o Sol entre os Trópicos indicando que, conforme os solstícios, o Astro Rei, sob o ponto de vista da Terra, estando mais ao Norte ou mais ao Sul nunca ultrapassará na sua eclíptica anual o limite indicado pelos os trópicos.

Sob essa óptica, não significa de maneira alguma que esses símbolos careçam estar literalmente expostos no Painel relativo ao arcabouço doutrinário francês.

Simbolicamente, no Templo o Sol também é o centro (onde existe a circulação) que fica entre as Colunas do Norte e do Sul, cujo limite deste deslocamento, seja ele austral ou boreal, está representado pela marcação da passagem abstrata (sem base material) dos trópicos de Câncer e Capricórnio. Daí as Colunas B e J, também conhecidas como “solsticiais”, serem os marcos toponímicos que marcam a passagem dos aludidos Trópicos no Templo – sob o ponto de vista da porta de entrada para o Oriente, ao centro está a linha imaginária do Equador, à esquerda, marcada pela Coluna B, está a linha imaginária correspondente ao Trópico de Câncer e à direita, balizada pela Coluna J, a correspondente ao Trópico de Capricórnio.

O Sol, ao tangenciar o limite de Câncer (solstício de verão no Norte), corresponde à data comemorativa ao santo padroeiro João – o Batista, enquanto que ao tangenciar o limite de Capricórnio (solstício de Inverno no Norte), corresponde à data comemorativa ao Santo padroeiro João, o Evangelista.

Essa alegoria sugere no Rito em questão que a consciência do Homem, limitando-se tal qual às Leis da Natureza, é inviolável, já que ele, o Homem, é também parte integrante dessa Ordem Natural perpetrada pela Criação (um conceito deísta).

No escocesismo, a Loja simbolicamente representa um segmento do globo terrestre situado sobre o Equador, cuja largura vai do Norte ao Sul ou vice-versa e o seu comprimento de Leste para o Oeste ou vice-versa. A sua altura vai da Terra (Pavimento Mosaico) ao Céu (Abóbada).

É sobre esse espaço (Oficina) que a Terra simbolicamente fica viúva do Sol uma vez por ano (inverno). À bem da verdade, é o processo da evolução da Natureza a partir do seu renascimento na Primavera até a sua morte no Inverno para novamente renascer na Primavera (Lenda de Hiran). Assim, comparativamente e de modo iniciático, tal como a Natureza que morre para renascer como a fênix revivida, também o Homem profano fenece para renascer iniciado na Luz – da câmara de Reflexão à Exaltação do Mestre (a senda iniciática).

3 – Considerações finais

Em linhas gerais essas são as interpretações que envolvem a alegoria composta pelo Círculo entre as Paralelas Tangenciais nos dois sistemas de Maçonaria abordados. Todavia, somente ficam passíveis de uma explicação racional se devidamente separadas conforme as suas tradições, usos e costumes nos diversos rincões terrenos onde se apresenta a Sublime Instituição – cada coisa no seu devido lugar ou haverá o caos no Canteiro.

É oportuno aqui mencionar uma contradição que não raras vezes aparece no escocesismo quando muitos Irmãos, de modo anacrônico, ainda insistem em comparar a evolução dos Graus com os “degraus da Escada de Jacó” que, diga-se de passagem, nem mesmo aparece como elemento simbólico na doutrina do Rito Escocês.

Pior ainda é querer definir o número de degraus que formam essa Escada quando nem mesmo na Bíblia, essência da doutrina moral como Livro da Lei, essa quantidade é mencionada.

É o caso, por exemplo, quando alguém congratulação menciona o ultrapassado jargão: “parabéns por teres conseguido alcançar mais um degrau da Escada de Jacó”.

Ora, sem apelar para o preciosismo, não existe nada mais contraditório do que comparar a ascensão aos Graus com os degraus de uma escada que nem mesmo é parte integrante da doutrina simbólica do escocesismo.

Diferente do Círculo e das Paralelas que, mesmo de modo abstrato, chegam a fazer sentido no corolário doutrinário do Rito Escocês, a Escada, nem mesmo em caráter contemplativo, é mencionada na alegoria dos Painéis do verdadeiro escocesismo.

Autor: Pedro Juk

Fonte: Blog do Pedro Juk

Notas

[1] – O Painel na Inglaterra denomina-se Tabual de Delinear ou de Traçar (Tracing Board). Já na França é denominado como Painel do Grau. O conteúdo simbólico entre ambos aparecem sensíveis diferenças. Alguns autores acreditam que o nome “Tábua de Delinear” se derive como uma corruptela do antigo “cavalete” (tressel) ou Prancha de Traçar (Tracel ou Tracing Board) geralmente usada nas Lojas no final do século XVIII que objetivava apresentar os hieróglifos maçônicos, cuja Prancha ou Tábua muitas vezes nas Lojas ficava disposta sobre um cavalete no centro.

[2] – Willian Preston (1.742 – 1.818) – Nascido em Edimburgo na Escócia, foi iniciado em Londres no ano de 1.763. De carreira maçônica fecunda e brilhante assumiu o veneralato da Loja Antiquity nº 1 (atualmente nº 2) considerada à época como “Loja dos Tempos Imemoriais”. À Preston e dado o título simbólico de ter sido ele o primeiro professor de Maçonaria, permanecendo ainda ligado aos seus Ilustrations of Freemansonry (Esclarecimentos sobre a Franco-Maçonaria), cuja primeira edição data de 1.772. Essa importante obra teve dezessete edições, das quais doze durante a vida do autor. Falecido em 1.818 foi sepultado na Catedral de São Paulo em Londres. Os Ilustrations of Freemansonry se constituem de uma coletânea de conferências eruditas e de alto valor literário para uso das Lojas. É devida ainda a William Preston a autoria das famosas Prestonian Lectures (Lições Prestonianas) que permanecem atuais e são base para conferência de notáveis sobre assuntos instrutivos de interesse maçônico. A coletânea das Lições Prestonianas é publicada pela Quatuor Coronati Lodge, 2.076 de Londres. As dissertações sobre o conteúdo das Tábuas de Delinear inglesas se baseiam nas mensagens Prestonianas. O termo “Prestoniano” deriva-se em homenagem a Preston.

[3] – Além da disposição contrária ao sectarismo religioso, a Grande Loja se posicionava também contrária ao sectarismo político. Essa é a origem da proibição de discussões que envolvam política e a religião nos Templos e em nome da Maçonaria presente até os dias atuais na imensa maioria das Constituições das Obediências Maçônicas.

[4] – A ascensão ou subida dos degraus dá a ideia de evolução e aperfeiçoamento.

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Referências

DYER, Colin – Simbolismo na Maçonaria, Editora Madras, São Paulo.

CARVALHO, Francisco de Assis – Símbolos Maçônicos e Suas Origens, Volumes I e II, Editora Maçônica A Trolha, Londrina – Pr.

LOMAS, Robert – O Poder Secreto dos Símbolos Maçônicos, Editora Madras, São Paulo.

MELLOR, Alec – Dicionário da Franco Maçonaria e dos Franco Maçons, Editora Marins Fontes, São Paulo.

JUK, Pedro – Exegese Simbólica para o Aprendiz Maçom – Tomo I, Editora Maçônica A Trolha, Londrina, Paraná.

JUK, Pedro – Topografia e Simbolismo do Templo REAA, Ensaios, Diário JB NEWS, Florianópolis, Santa Catarina.

JUK, Pedro – São João e os Solstícios na Maçonaria, Ensaios, Diário JB NEWS, Florianópolis, Santa Catarina.

Take my hand; follow me.

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When I was a young man, a long time ago,
The secrets of Masonry I wanted to know.
Of a Mason I asked what those secrets might be.
He replied,”First, we talk, then we will see.”

A petition he granted and ordered it filled
To be read at a meeting and a judgment be willed.
Then questions I answered about God and home;
Of habits and friends; a wife or alone.

In time I was summoned – a date to appear
Before an assembly of men gathered near.
I entered the building and looked up the stair;
Does pleasure or pain await me up there?

A hazing by paddle, taunting by joke?
My petition accepted or maybe revoked?
Introductions and handshakes welcomed me there
And lessons symbolic, an aid to prepare

For a journey in darkness, a predestined plight
To a Holy of Holies, the source of all light.
How well I remember what I heard someone say,
To enter God’s Kingdom there is but one way;

Be ye naked and blind, penniless and poor;
These you must suffer ‘fore entering that door.
The journey ahead is not yours to know,
But trust in your God wherever you go.

Then assurance from the darkness whispered tenderly,
“My Friend, be not afraid;
TAKE MY HAND;
FOLLOW ME.”

With nervous attention a path I then trod;
A pathway in darkness to the altar of God.
With cable-tow and hoodwink, on bare bended knee,
A covenant was made there between God and me.

Charges and promises were made there that night.
Dispelling the darkness and bringing me light.
Mid lightening and thunder and Brethren on row!
Cast off the darkness! And cast off the tow!

In the company of men, a man you must be,
Moral in character, the whole world to see.
Trust in your God, promise daily anew
To be honest and upright in all things you do.

Each man is a brother in charity to share
With those suffering hunger, pain or despair.
The widow and orphan and brother in pain
Depend on your mercy their welfare to gain.

The secrets of Brethren keep only in mind.
To the ladies of Brethren be noble and kind.
Go now, my brother, your journey’s begun
Your wages await you when your journey is done.

That journey I started, Oh, so long ago
And I’ve learned of those things I wanted to know.
I’ve learned of the secrets, not secret at all,
But hidden in knowledge within Masons’ hall.

Childhood yields to manhood, manhood yields to age,
Ignorance yields to knowledge, knowledge yields to sage.
I’ve lived all my life the best that I could,
Knowing full well how a good Mason should.

I know of those times when I slipped and then fell.
What’s right and what’s wrong were not easy to tell.
But a trust in my God and a true brother’s hand.
Helped raise me up and allowed me to stand.

I’ve strode down the old path, Masonically worn
By all Mason’s raised for the Masons unborn.
But this tired old body, once young and so bold,
Now suffers the afflictions of having grown old.

The almond tree’s flourished; the grinders are few.
The housekeepers tremble; desires fail too.
The locusts are a burden; fears are in the way.
The golden bowl is breaking, a little every day.

Mine eyes are again darkened, my sight again to fail;
I sense the Master’s presence mid my family’s silent wail.
I’ve laid aside my working tools, my day is nearly done.
For long I’ve played the game of life; the game’s no longer fun.

Life’s pathway ends before me. I see what’s meant for me;
An acacia plant is growing where a beehive used to be.
The Ethereal Lodge has summoned from beyond the wailing wall
And I vowed that I must answer when summoned by a call.

Again I stand bewildered at the bottom of the stair
In nervous apprehension of what awaits me there.
Once again, and now alone, I stand without the door.
With faltering hand, I slowly knock as once I did before.

I pray again to hear those words,
whispered tenderly,
“My son, be not afraid.
TAKE MY HAND;
FOLLOW ME.”

Autor: Sir Knight Alvin F. Bohne, P.M.

Especulações a respeito das Iniciações no futuro

11 previsões ousadas para a tecnologia da próxima década

Se projetarmos nossa mente para daqui a cem anos, e através da especulação, da imaginação, utilizando os conhecimentos que temos no presente com relação a evolução da ciência e do avanço do pensamento humano quando houver profundas alterações de valores éticos e morais, dos costumes, reavaliações de princípios, quando o homem conseguir vencer os monstros do seu subconsciente e se tornar bom, enfim, quando souber gozar todo o maravilhoso progresso alcançado nos últimos dois séculos, muitas perguntas nos vêm à cabeça.

Existirão igrejas? Sobreviverão tantas denominações religiosas quanto as que temos no presente? Haverá a necessidade de templos? Qual será a moderna concepção do GADU? A Maçonaria sobreviverá se não mudar e se não se adaptar? As mulheres farão parte da Maçonaria Tradicional? Quando? Existirão doenças incuráveis? E as guerras?Continuarão a ser um dos flagelos da humanidade? E a mente humana como se comportará? Haverá mais Amor, mais Perdão, mais Tolerância nos corações dos Homens? E o paranormal? Conseguirá transpor facilmente a barreira dos cinco sentidos?

Se a civilização nos últimos cem anos, à mercê do avanço tecnológico incrível e fantástico, das invenções que mudaram a história da humanidade, através de uma maior liberdade de expressão e do pensamento, teve um progresso chegando a atual posição, houve pelo menos uma pálida coerência, entre a ciência e a humanidade ainda aceitando os princípios cartesianos que valorizam o racionalismo e o dualismo metafísico. Não estuda um fenômeno como um todo, estuda-o simplesmente em si, em separado. Hoje já se fala na Teoria Holística, onde tudo faz parte do todo.

Entretanto, com o advento da Informática, Internet, Realidade Virtual e outras tantas invenções maravilhosas que estão aparecendo a cada dia, o futuro parece que escapou de vez das previsões dos homens, porque pelo cartesianismo eles não conseguem mais explicar os fatos. No caso, estamos usando a imaginação.

Se analisarmos a revolução que o mundo digital em rede mundial, está provocando, não se tem condições de explicar o que acontecerá daqui há dez anos, o que dirá daqui há cem anos!

Atualmente, já é realidade a projeção através de chips de holografias em qualquer superfície.

Já existe um grupo de cientistas que fazem parte de um movimento chamado Terceira Cultura (The Third Culture) que se dedica a refletir e estudar modelos coerentes com relação à sociedade do futuro. Deveria ter um grupo de maçons fazendo a mesma coisa com relação à Ordem. Como será o seu porvir?

Parece que atualmente, depois da moderna concepção da Teoria da Relatividade e da Física Quântica, a qual já está tendo seus princípios, por analogia, aplicados a outros segmentos da humanidade e não tão somente à Física subatômica ou corpuscular, nos traz no momento maior confusão. Estes princípios são aplicados a fenômenos não visíveis, e onde se coloca tudo como sendo um todo, como uma rede onde o Homem faz parte desta malha. Uma das características dos princípios da mecânica quântica é que temos que primeiro esperar acontecer o fenômeno para depois explicá-lo. É muito importante a maneira como o observador vê e sente o fenômeno. Parece que a realidade virtual se enquadra nesta semelhança.

Como será a parceria do maçom com a Informática já que, ele acostumado a aceitar ensinamentos que há mais de um século não sofreram uma atualização adequada, e agora sem que ele queira ou não, terá à sua disposição um volume inimaginável de informações que receberá, e o que fazer com elas? Como diferenciá-las e usá-las para o seu próprio bem? Esta situação nunca foi cogitada ou imaginada no passado. E ainda considerando-se que a maioria dos maçons do momento atual não está muito interessada na Informática?

Como serão as Iniciações neste futuro que já está entre nós?

Sabemos que já existem recintos cibernéticos onde o indivíduo é introduzido, podendo mover-se livremente sem capacete ou mesmo luvas, usando apenas óculos polarizados num angulo de 360 graus com vários projetores colocados em vários locais. Ele terá uma experiência tridimensional totalmente virtual frente ao programa que está conectado. No caso, digamos que seria esta programação de uma Iniciação. Os maçons atuais já pensaram nisso? Ressalte-se que o cada dia surge mais novidades no mundo digital e que ainda descobertas mais incríveis e espantosas estão por vir.

Imaginem a integração com os elementos da natureza, com os mundos e com o infinito. O neófito viverá uma experiência tão grande que se identificará com tudo isso. A sua aproximação com Deus, ou uma Força Criadora será muito maior.

Teremos Templos ou Centros Cibernéticos de Iniciações? A aproximação com o Uno não será muito maior e mais rápida? Será que o tempo para se chegar mais perto Iniciação real ou virtual (?) será mais breve? Será que a Iniciação virtual não se tornará muito mais real que a Iniciação que hoje temos como tal? A Iniciação virtual não será quase que instantânea? Ficam estas indagações no mente de cada um.

Dizem os enólogos que o vinho fabricado ritualisticamente pelos europeus há milênios, com segredos de fabricação passados de pais para filhos, sendo conservado em tonéis especiais de madeira durante anos para ficar no ponto exato de ser ingerido, sofreu por parte das vinícolas americanas um avanço tecnológico extraordinário. Os americanos fabricam atualmente tonéis de alumínio adaptados pela tecnologia moderna, que conseguem envelhecer a bebida em poucas horas. Ressalte-se que a qualidade dos vinhos americanos é boa e aceitável. Imaginem um velho vinicultor europeu que aprendeu através de muitas gerações de seus antepassados a fabricar vinho daquela maneira artesanal, aceitando tal fato. Ele jamais aceitará. É cultural para ele aquela forma de produzir vinhos. No entanto o moderno processo de rápido envelhecimento de vinho existe e, é uma realidade que não se pode contestar.

Usamos esta analogia para tentar explicar como os maçons que insistem em não tomar conhecimento da Internet, ficarão para trás. Ela veio para ficar. Trouxe um avanço inesperado de vários séculos a frente, para a nossa atual civilização. Estamos perdidos no momento, pois ela está fora do nosso controle, pois não sabemos o que irá acontecer. Teremos que esperar e ver o que acontece.

Já existem Lojas virtuais. A Inglaterra foi o primeiro país a fundar uma Loja virtual, a Internet Lodge nº 9659, em 29/01/1998. Lembrem-se, também foi na Inglaterra em 1884 que foi fundada a primeira Loja de Pesquisas, a “Quatuor Coronati Lodge” n.º 2076 tão combatida no seu tempo, por causa da ousadia daqueles cientistas maçônicos em desfazer mitos, aberrações, invenções, erros, crendices etc. Os ingleses estarão errados?

No Brasil existem duas Lojas que temos conhecimento. A Loja “Futura” fundada em 20/09/1999 em Recife, Pernambuco. Reúne-se a cada dois meses em loja normal e quinzenalmente via Internet. Pertence ao Grande Oriente Independente de Pernambuco.

A outra Loja ‘Cavaleiros da Luz” fundada pelo pranteado Irmão José Castellani, em 13/05/2000 esteve parada um certo tempo e agora ressurge em Florianópolis e as reuniões são realizadas na sala “Loja Virtual” e nela somente ingressam Irmãos pré-cadastrados. A titulo de informação esta Loja “não inicia ninguém” e dela só fazem parte Irmãos da Obediência consideradas regulares. Participam Irmãos de várias partes do mundo.

Será que as lojas virtuais são completamente virtuais, ou terão que ter um suporte não virtual? Serão híbridas?

Atualmente já estão sendo planejados e construídos aparelhos capazes de projetar hologramas e enviá-los para qualquer lugar inclusive em qualquer superfície.

Imaginemos hologramas de Irmãos projetados para um espaço virtual (loja) onde todos os cargos estariam ocupados, todos se enxergariam tal qual uma loja real que estão acostumados a assistir. Impossível? Porque não sonhar?

Por outro lado, se existem Irmãos internautas sérios, será que a maioria dos maçons internautas está usando corretamente a Ética e a Moral que acreditamos que tenham aprendido em suas Lojas-Mãe?

Muitos Irmãos não perceberam que a Internet é um verdadeiro santuário do Saber, da Informação, um verdadeiro Inconsciente Coletivo Cibernético da Humanidade e, no entanto, nos enviam apenas mensagens pornográficas, piadas indecorosas, ao invés de trocarem mensagens inteligentes ou informações à respeito da Ordem?

Sonhando, imaginemos uma Iniciação daqui há cem anos, raciocinando dentro da nossa concepção atual, que a Maçonaria existirá como a imaginamos no momento. Acreditamos em princípio que a Ordem sobreviverá. Por quê? Porque ela sempre foi um corredor iluminado de toda a essência filosófica de todos os tempos. Ela sempre soube selecionar o que houve de melhor de toda sabedoria da humana, enfim, sempre teve uma ala progressista muito grande, que fez com ela continuasse a existir não contando com os retrógrados que se dizem tradicionalistas e que não sabem muito bem o que é Tradição, porque justamente não entenderam a ESSÊNCIA da Ordem.

A Ordem por todas as crises imagináveis e sobreviveu. Não irá sucumbir agora no século XXI.

Bem, joguemos nossa mente no futuro. Ninguém nos poderá impedir de sonhar, de especular, de imaginar, pois ainda não aconteceram os fatos, mas suponhamos que neste tempo vindouro, quinhentos candidatos que responderam a um anuncio na Internet resolvam ser maçons. Porque resolveram serem maçons? Ora, ainda deverá haver resquícios de religiões, e por certo, muitos homens Livres-Pensadores do futuro queiram pertencer a uma sociedade onde não haja o sentimento religioso como meio de desenvolvimento espiritual, mas sim a razão e o estudo para se chegar ao mesmo fim, ou seja, ao GADU. Acreditamos que não haverá mais necessidade de sindicância, pois ao responder ao anúncio da loja (?) ou Centro Cibernético Maçônico se terá imediatamente o perfil do candidato cadastrado. O qual será instantaneamente aprovado ou rejeitado. Todo cidadão será um número.

Como imaginaríamos então esta Iniciação? É claro que não será nos mesmos moldes hoje considerados tradicionais. Ela possivelmente demorará apenas alguns minutos, talvez segundos ou será quase que instantânea. Vamos imaginar que os candidatos se dirijam para tal Centro em horário previamente marcado para serem iniciados. Talvez nesta época, nem existirá mais a palavra Iniciação. O termo poderá ser “A expansão maçônica mente”, ou outro termo adequado para aquele tempo.

O candidato receberá um medicamento, uma pílula, uma psico droga a qual não causará qualquer tipo de efeito secundário, cuja ação medicamentosa terminará assim que o candidato vivencie o programa instalado. Este medicamento ajudará a causar uma expansão da mente, mais precisamente através das ondas “alpha”, seguidas das ondas “beta”. Dentro do recinto, onde tudo será virtual, a fantástica experiência impregnará de tal forma a mente do Iniciando que ele viverá uma integração total com a natureza e com o próprio GADU. Ele sentirá como se a natureza fosse ele próprio. Lá ele será fogo, será ar, será água será terra, será plasma chamado por alguns, como o quinto estado da metéria. E nessa aventura, nas profundezas da mente ele se sentirá uma partícula consciente do GADU. Andará por todo o Universo; caminhará por entre e as estrelas; visitará galáxias distantes; entrará no átomo; se sentirá no âmago de uma folha verde; será uma formiga; uma bactéria; aprenderá com os Sábios e encontrará o Conhecimento. Tudo isso acontecerá dentro de poucos minutos ou segundos. Ele será o dono, o senhor da ESSÊNCIA da própria vida e da própria alma, criação inequívoca do GADU. Será o maçom triunfante do futuro. Pena que eu não esteja lá. Nasci antes desse tempo, resta-me apenas o direito de imaginar. Mas gostaria de estar lá quando acontecer algo semelhante ao que eu estou vislumbrando. Coisas da imaginação.

Resta-me, pois, apenas o tímido consolo, ainda que ousado, de sonhar com a Maçonaria do futuro. Não quer dizer que ela será exatamente como eu estou imaginando, mas que continuará grandiosa, não tenho dúvidas. Teremos outros paradigmas.

Autor: Hercule Spoladore

Fonte: JB News

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