O Simbolismo da Roda – Capítulo 2 (2ª Parte)

Outras Modalidades do Símbolo da Roda

Com nossa ótica cultural contemporânea, estamos acostumados a visualizar o espaço e o tempo como homogêneos, sem fissuras. A antiguidade não pensava o mesmo. E estabelecia em distintos lugares geográficos, especialmente escolhidos, e em datas calendáricas precisas, seus espaços e tempos rituais. E esses são precisamente, na trama invisível da vida, os pontos de junção (ensamble, nós ou ligaduras), ou de interconexão com outros planos ou mundos[15].

Nesse sentido, é interessante destacar a simbologia dos povos peregrinos, que em uma viagem através dos anos (tempo) e dos distintos lugares (espaço), encontram seu ser ao se solidificarem, concentrarem ou cristalizarem como um povo, ou nação, em determinada circunstância temporal e espacial[16]. Ressaltada esta circunstância pelos sacerdotes, os sábios e os chefes, o povo se assenta nessa paragem e nesse tempo, e cria dessa maneira uma cultura. A vida nova de um grupo. Um plano, ou meio que, por irradiação de um centro, como no modelo da roda cósmica, tem que estruturar as concepções, emoções, sentimentos, de uma comunidade. Ou o que é o mesmo, sua razão de ser como tal.

Assistimos a uma RE-criação do mundo, à instauração de uma cosmogonia, que faz possível a vida desse grupo, e que o mesmo povo conforma ao atuá-la. Essa “cosmificação” de um ponto espaço-temporal da circunferência – ou periferia da roda – seria um raio da roda, um reflexo da unidade central, e um verdadeiro centro para os adstritos a ela [cultura]. Nesse sentido, devemos recordar uma vez mais, que à energia centrífuga ou de expansão, corresponde a energia centrípeta ou de contração. E que ambas conjuntamente realizam o rito da vida e da morte, dessa ou de qualquer outra comunidade, assim como de qualquer coisa criada, que está sujeita a determinante causa-efeito, como tudo o [que está] incluído no mundo manifestado. Assim, ao instaurar um espaço e um tempo significativo, na massa do amorfo e indeterminado[17], este é sacralizado[18] e realçado por sua qualidade intrínseca, em detrimento do menos significativo ou profano, nitidamente vinculado com o relativo, com o o múltiplo e com o artificial.

Desta maneira, mediante este rito, nasce um povo que começa a contar seu tempo, sua história, desse momento em diante. Sendo suas origens, desta perspectiva, míticas ou não temporais. Igualmente toma consciência de si, de seu ser, e se visualiza como protagonista, “centro do mundo”, ou “povo eleito”. O que é o mesmo que dizer que tem um nome[19].

Esse mesmo nome, ou cor, ou número, ou particularização químico-genética, ou impressão digital, é absolutamente pessoal. E se expressa mediante uma marca ou signo, que outorga ao ser sua individualidade dentro de um conjunto de seres. E que –paradoxalmente – é ao mesmo tempo o anúncio de sua própria morte, na limitação (causa-efeito) de qualquer plano de existência. Já que é claro que aquilo que nos dá a vida, por esse mesmo expediente, está nos assinalando com a morte.

Vimos então, como o nascimento de um ser – por exemplo, uma cultura – cria simultaneamente um novo espaço e um novo tempo, onde se desenvolve esse ser; e que tal desenvolvimento não é senão esse próprio ser. Ou dito de outra maneira: que toda criação renova as possibilidades espaço-temporais, arquetípicas, da criação original, e não é mais que uma modalidade dessa mesma criação, ao atualizar as possibilidades daquilo que no universo manifestado deu lugar às coordenadas espaço-temporais. Para uma civilização tradicional, as festas sagradas são pontos significativos na circunferência do ciclo calendárico, que garantem a comunicação com a energia invisível do centro, reflexo da verticalidade[20]. O mesmo acontece com o vasto espaço que, como o ano, apresenta pontos e situações de junção, de comunicação de energia através de distintos planos ou níveis[21]. Elas estão dadas em circunstâncias geográficas precisas, nos lugares onde se estabelecem as cidades, fundam-se os templos, ou se instala a casa habitação[22].

Estes pontos significativos (sagrados), estão claramente hierarquizados com relação aos insignificantes (profanos), embora intimamente relacionados com eles, já que não poderiam existir uns sem os outros[23].

Nesta perspectiva, o centro do modelo simbólico da roda corresponderia à origem. E seu desdobramento manifestado ao samsara (para empregar um termo hinduísta-budista), do qual, e graças a uma concentração de energias, retornar-se-ia à unidade nirvânica simultânea dos seres e das coisas, da qual estes não saíram jamais, senão em forma ilusória e sucessiva, de acordo com os padrões dialéticos da mente dual. Por outra parte, terá que se destacar que esta divisão hierárquica entre o nirvânico e o samsárico, e deste modo entre o sagrado e o profano, o simultâneo e o sucessivo, é por certo relativa. E válida só do ponto de vista do samsárico, do profano e do sucessivo. Quer dizer, do discursivo, que trata de expressar um só fato e uma só realidade, que em si mesma compreende a gama indefinida de todas as possibilidades de manifestação, sejam estas o que forem. Da periferia ao centro se estabelecem essas hierarquias, sendo o centro mesmo a máxima hierarquização, como símbolo no plano da unidade original vertical, que produz por graus todas as coisas, e à qual necessariamente elas retornam de forma sucessiva. Se uma gota d’água cai em um lago, forma um campo de irradiação que chega a seus próprios limites. Do ponto de vista de um ser situado nesse limite, e portanto, um ser sucessivo, o retorno a sua fonte original se realizaria através da ruptura dos diversos círculos concêntricos, que lhe apresentariam como imagens de mundos ou estados espaço-temporais diferentes, como escalonados, os quais impedem deste modo sua fusão com o centro. Ou envolvem e ocultam essa gota original, essa semente primitiva, que se vislumbra como anterior no tempo.

A figura simbólica de um círculo[24] que contém outros círculos internos, considerada do ponto de vista de sua expansão (ad-extra), é a sucessão de degraus intermédios que tornam possível a existência de qualquer criação[25]. Tomada do ponto de vista da periferia, é a viagem hierarquizada (ad-intra), ou a escala sucessiva que se percorre ao se pretender a fusão com o centro primitivo[26]. Assim, no modelo de uma cidade tradicional (ou civilização), os limites da mesma emolduram um espaço significativo. Fora desta ordem, tudo é incerteza, confusão, barbárie ou selvageria. Mas esta cidade se acha hierarquizada. Em sua periferia vive a grande massa[27]. Um grau adentro (ou mais alto), acha-se um número menor de pessoas que se dedicam a atividades mais específicas. Outro grau ou passo mais adentro ou acima, encontra-se um grupo ainda menor, a nobreza, e acima dela, sozinho, o imperador, como encarnação do poder real e, sobretudo, do conhecimento ou sabedoria sacerdotal[28]. Esta é a verdadeira ideia de aristocracia, sempre ligada à hierarquia espiritual, e ao conhecimento que ela entranha, sem ponto em comum com as versões às quais estamos geralmente habituados – degradação e inversão – próprias “deste mundo”.

No simbolismo construtivo, a arquitetura do templo se levanta do plano quadrangular da base (terra), até a semiesfera da cúpula (céu), escalonada hierarquicamente em planos ou níveis sobrepostos. Este templo, em sua planta, ou plano horizontal, reproduzirá as mesmas Hierarquias verticais de sua estrutura, e a passagem árdua e hierarquizada através delas. A rua representaria o mundo do confuso e do aleatório. A ela se abre a porta (símbolo de passagem de um espaço a outro espaço, ou de um estado a outro estado) do templo, que estabelece propriamente o limite entre o sagrado e o profano. Ao transpô-la, e em seguida da passagem pela área onde se acha a pia batismal (símbolo da regeneração pela água, ou novo nascimento), penetra-se no recinto propriamente dito: e se percorre o caminho[29] que leva ao centro do templo[30]  onde se encontra o altar, como projeção, no plano, da verticalidade da cúpula. E sobre a pedra de sacrifício, relacionada com o fogo, o sacrário[31], um recinto ou recipiente vazio capaz de recolher os eflúvios celestes, que se derramam sobre este ponto como emanações, e que bem poderia ser chamado o “coração” do templo.

Dali em diante, as hierarquias são verticais, e para as perceber terá que morrer novamente, e ressuscitar ou regenerar-se no fogo. Enquanto as águas batismais estão relacionadas com os nascidos de ventre de mãe (embora façam jejuns, penitências, sejam ascetas, ou pratiquem a castidade como João Batista), o batismo de fogo está relacionado com a pedra de sacrifício, o sangue e o vinho cerimonial; com Cristo, e os que já virtualmente não têm nenhum condicionamento humano, nem mesmo o impreciso sinal da determinação do nascimento, por isso não se encontram identificados com sua pessoa, nem inclusive com seus mesmos atos relativos. Quer dizer, os que já conhecem por intuição direta os estados supra-individuais do ser, dos quais se diz já não perceberem exclusivamente pelos sentidos, e se acham em condições de empreender então uma nova viagem, desta vez vertical. Esta mesma significação (dos círculos contidos uns nos outros, hierarquizados com respeito a sua aproximação a um centro ou eixo) dão-na os hebreus, quando dizem que Sião é a terra escolhida, que dentro dela se acha a cidade sagrada de Jerusalém, no interior desta, seu templo, e oculto no coração deste último, o Sancto Sanctorum.

Se o templo for um modelo do cosmos, os eflúvios divinos têm que se encontrar de forma imanente no mais oculto dele mesmo. Se o corpo humano for também um templo e um modelo, ou miniatura do cosmos, estes eflúvios também se têm que encontrar em forma virtual, ou em potência, no fundo do coração. No modelo cósmico da roda se achará o ponto central (invisível), que articula suas irradiações ou vibrações graduais de energia, até chegar a seus próprios limites, ou suas formas superficiais. Mas: a) o templo não é a soma de seus tijolos, nem o inventário quantitativo que se poderia fazer em qualquer direção de seu conjunto, ou de suas partes; b) deste modo o homem não é a soma de suas células, nem o catálogo de seus inumeráveis componentes; e, c) por outra parte, no modelo simbólico que estamos estudando: “trinta raios convergem para o cubo da roda, mas é o vazio do centro o que faz útil à roda”[32]. Na realidade, o que verdadeiramente interessa, é o espaço interno e suas qualidades diferentes, significativas, sagradas, e não a sucessão quantitativa de janelas e colunas do templo, ou músculos e poros do homem, ou lugares indefinidos por onde passa, tenha passado ou passará a roda. Na verdade, esse lugar interno, é a morada do silêncio, ou do mistério. O coração é a clave (chave) do ser. Pois nele se acha a possibilidade da ascensão vertical. A salvação messiânica, ou a saída definitiva do samsara ao nirvana, ou estado de “iluminação”[33].

Esta liberação, obtém-se através de um caminho gradual, por estações, que no caso da tradição extremo oriental, enumeram-se da periferia ao centro, como Tao do homem, Tao da terra, Tao do céu, e o Tao de Taos, ou Tao abstrato. Na tradição judaica (e também da periferia ao centro), como Olam ha’asiyah, ou mundo da realidade materializada, Olam hayetsirah, ou mundo das formações cósmicas, Olam haberiyah, ou plano da criação e Olam ha’atsiluth, mundo das emanações. Este caminho espiral ascendente, que vai do mais baixo ao mais alto[34], do mais grosso ao mais sutil, do múltiplo ao sintético, e vincula vários planos entre si, de maneira sucessiva, é o que descreve Dante na Divina Comédia. E é bem sabido que essa via é chamada de iniciação nos mistérios. O que equivale à transmutação da consciência do aprendiz ou aluno, a ampliação de todas suas possibilidades latentes ou adormecidas, o qual [o aprendiz], através de um processo arquetípico, realiza uma “viagem”, ou caminho sucessivo; a aventura do conhecimento, que finalmente termina na obtenção do buscado. Este achado é chamado licor de imortalidade, elixir de longa vida, paraíso, tesouro, vida eterna, ou Santo Graal.

No centro arquetípico, ou no eixo vertical, está esse lugar que todos os seres desejam, até sem sabê-lo. E ali é onde o encontram os homens da ciência, ou filósofos, ou artistas, como se denomina os alquimistas medievais. É por outra parte, nesse lugar invisível, apenas virtual, onde os sábios de todos os povos e de todas as tradições o acharam unanimemente. Pois conhecem que o que é maior em um sentido, é menor em outro, e vice-versa. Assim, o que é maior em uma ordem elevada (céu), é quase imperceptível em uma ordem baixa (terra). E o que é maior em uma ordem baixa (terra), é menor em uma ordem alta (céu). Estes personagens procuram então o pequeno, o imperceptível, o invisível, o sutil, porque sabem que ali se acha em potência toda a possibilidade do poder. E não o buscam para em seguida utilizá-lo com ânimo prático. Nem tampouco manipulam este conhecimento como uma “fórmula” literal. Mas sim, experimentando em si mesmos, reconhecem ou encarnam a verdade destas asserções, nitidamente invertidas com relação à educação ilusória recebida no mundo profano, que faz do quantitativo e do maior o mais poderoso, quando a realidade é precisamente o contrário, pois qualquer ato está incluído em sua potência.

Em todo caso, esse “caminho”, ou “viagem”, é análogo ao da criação de um mundo ou cosmos. É também a reintegração da alma a seus planos superiores, tanto depois da morte física, como da morte iniciática. E em ambos os casos, a alma que detém seu andar na “viagem” divina do ser, deve necessariamente descer e reencarnar novamente, se se tratar da morte física, e de limitar-se a um nível do caminho fixado por suas próprias convicções ou condicionamentos, se nos referirmos à iniciação. Não terá conseguido, então, ser reabsorvida na sua origem, e se verá impelida a errar, uma vez mais, através de inumeráveis estados do ser universal, tendo perdido a oportunidade que representava o estado humano, sem que isto implique a condenação definitiva[35], senão a dificuldade da realização espiritual, e as “provas” necessárias para o “polimento da pedra”, ou seja: a infeliz passagem de um estado a outro estado (morte-ressurreição, desatar-atar), até a imobilidade do princípio sempre presente.

Neste sentido, devemos anotar que o homem “progressista”, “vitorioso” e “de ciência”, conforme é concebido pela sociedade moderna contemporânea – quer dizer, por nós ao sermos filhos da programação condicionada que nos coube –, não chegou ainda, aos olhos de uma sociedade tradicional, a ser homem. Segundo esta concepção, existimos ordinariamente em um estado infra-humano, e devemos atualizar, mediante um intenso trabalho, nossas potencialidades latentes ou adormecidas, até chegar ao estado edênico, virginal ou primordial[36], que em nosso modelo da roda é o ponto central, original, o tabernáculo do templo, o coração do ser, espaço vazio no qual podemos ser fecundados pelo espírito. Dar-se-ia, então, a possibilidade do nascimento do Cristo interno – anunciado por João e Elias[37] – que, por sua vez, através de sua paixão e morte, pudesse finalmente identificar-se com o Pai, em forma direta, o que lhe permite a ressurreição e a vida eterna. Neste último caso, chegar-se-ia à fusão com a deidade – sem confusão –, à união no eixo vertical representado pela árvore da cruz. Quer dizer, aos estados supra-humanos, ou supra cósmicos, e à possibilidade da transcendência absoluta, que nenhuma linguagem ou código poderá jamais expressar, mas que pode ser vivenciada pelo verdadeiro homem, em seu caráter intermediário.

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

Notas

[15] – A série numérica e a escala musical são dois códigos descontínuos, e seus componentes não são homogêneos. Daí vem os paradoxos aritméticos e os semitons musicais.

[16] – No caso dos astecas, logo depois de uma peregrinação de um número preciso (mágico) de anos, estes acham seu momento ou a maturação necessária ou a cisão temporal adequada, que se corresponde com um fato espacial: o descobrimento de uma ilha entre as águas, símbolo tradicional do centro; e de uma pedra, miniatura da montanha, que junto com a árvore –neste caso um nopal– é emblema do eixo.

[17] – Por exemplo, o esquema circular ou quadrangular de uma cidade (ou civilização), em meio da confusão das selvas ou dos campos selvagens. Por outra parte, os templos ou locais de culto de forma circular são próprios dos povos nômades, enquanto que os de base quadrangular correspondem aos sedentários.

[18] – O sagrado não tem relação com o “religioso” tal qual hoje é entendido vulgarmente.

[19] – Recordar a potestade criativa e intermediária que possui o homem, outorgada a Adão no paraíso: a de nomear todas as coisas. Por outra parte, os nomes não são senão as formas simbólicas do inominável. E já se sabe que o nome expressa a essência da “coisa”.

[20] – Ou raios, no modelo da roda do cosmos. Estes “raios”, cuja relação com o celeste resulta óbvia, são emissários que unem a terra com o céu. No caso do círculo são os “raios” que vinculam o centro à circunferência.

[21] – Como já se indicou, cada um dos indefinidos pontos da periferia constitui uma “individualização” e uma imagem refletida do ponto arquetípico; desta forma, esta [individualização] corresponderá a uma sociedade ou a um ser humano.

[22] – Estes termos são equivalentes e intercambiáveis. O altar da casa é o lar, opater familias é o sacerdote. Nos povos nômades se leva um poste ritual, símbolo do eixo, que se assenta no lugar onde deve acampar esse povo. Outros peregrinos levam esse mesmo centro dentro de si.

[23] – Na vida (ciclo) de um homem, esses pontos significativos, nos quais se estabelece comunicação direta ou vertical, com outros tempos ou espaços, ou melhor, onde se atualizam outras leituras ou vivências, das coordenadas espaço-temporais nas quais estamos enquadrados (crucificados), podem ser visualizados como estados especiais da consciência e muitos deles se recordam como significativos ou como evocações ou “recordações”, no sentido que Platão atribuía a esse termo.

[24] – Ou seu equivalente quadrangular.

[25] – Jacó, andando pelo deserto, deita-se em um lugar determinado e com uma pedra, símbolo do eixo (miniatura da montanha), como travesseiro, “sonha” com “anjos”, que “descem” e “sobem” por uma escada, do céu à terra e da terra ao céu. Esta irrupção do vertical no horizontal, é equivalente à irradiação do centro ou ao raio de uma roda, que comunica o movimento à periferia, como já vimos.

[26] – Assim, Dionisio Areopagita, falando das linhas retas que convergem ao centro, diz-nos que na medida em que elas estão mais próximas deste, a união é mais íntima. E, pelo contrário, quanto mais afastadas estão dele, maior é a separação.

[27] – O que poderíamos dizer, a base, se damos tridimensionalidade ou relevo a este modelo plano da cidade. De fato, círculos ou quadrados sucessivos, uns dentro dos outros, dão-nos a ideia, no plano, do que é a pirâmide ou o zigurat, no espaço. Que vai da base numerosa, à culminação do ponto único final.

[28] – Observe-se que a série expansiva (ad-extra) poderia ser expressa assim: 1 + 2 + 3 + 4 = 10 (número de totalidade). Enquanto a série contrativa (ad-intra) seria: 10 = 4 + 3 + 2 + 1, conforme a conhecida tetraktys pitagórica.

[29] – Neste percurso se encontra o “labirinto” (como em Chartres e em outras catedrais e templos), símbolo da peregrinação na busca do conhecimento e do perigo de “perder-se”, do qual se terá que encontrar, arduamente, a saída, para a própria salvação.

[30] – Em algumas igrejas, em especial nas catedrais góticas, este centro não se acha no “meio” da forma arquitetônica, mas sim no centro da cruz, que é o esquema do plano construtivo. Como se sabe, a cruz cristã não tem os braços iguais.

[31] – O santuário ou arca da aliança é, por sua vez, outra miniatura do cosmos.

[32] – Lao Tsé: Tao Te King 11.

[33] – É curioso destacar que muitas pessoas pensam que a iluminação é algo que se produz com coros sentimentais de violinos e harpas ou com uma música grave e solene, em um mundo cinematográfico autocompassivo e pomposo. Outros acreditam que chega de casualidade ou como algo fulminante. Em ambas as versões, deve notar-se que esta “iluminação” vem de fora e ilumina o sujeito em questão. Ou seja, que há um sujeito que ilumina e um objeto iluminado. Bem pelo contrário, a iluminação se refere a um estado de consciência, onde as coisas e nós somos uma só identidade, sem confusão de nenhuma espécie. E onde uma iluminação distinta abrange todos os objetos, que simultaneamente brilham à nova luz de um estado, que se acaba de descobrir, e que se traduz nesse conhecimento.

[34] – Apesar de que suas primeiras e longas etapas sejam descritas, muitas vezes, como um descida aos infernos, uma viagem ao inframundo, ao interior da terra.

[35] – Por um ato de arrependimento do presente, ou seja, uma reatualização, apagam-se os “pecados” do passado. O eixo da roda se mantém imutável, enquanto é próprio da mobilidade a mudança permanente.

[36] – Saber que não somos nada, que nada devemos saber, destituirmos o vão orgulho da ignorância oficializada e nossa falsa segurança.

[37] –  Este seria, propriamente, o estado humano. E corresponderia, então, à função mediadora do homem entre céu e terra. A título adicional, diremos que é bem conhecida a identificação entre Adão e Cristo. Esta situação central é chamada tifereth na cabala hebraica e corresponde ao centro de onde o sol extrai sua energia, que manifesta, repitamo-lo, através de seus raios ou os raios da roda.

O Simbolismo da Roda – Capítulo 2 (1ª Parte)

Alguns Aspectos do Simbolismo da Roda

Dos numerosos símbolos que aparecem em uma ou outra tradição, ou civilização, afastadas no espaço (geográfico) ou no tempo (histórico) e que são idênticos, merece especial atenção o símbolo da roda. Não só porque este se dá em todas as culturas das quais temos notícia, mas também pelas inumeráveis possibilidades que brinda, a diversidade de campos que abrange, e a ação concentradora que exerce no estudo e no ordenamento indispensável em qualquer investigação séria.

Por outra parte, as relações de todo tipo a que se presta este símbolo parecem indefinidas, assim como suas conexões com outros pantáculos igualmente tradicionais[1]. De fato, sendo o símbolo da roda a expressão do movimento e da multiplicidade, também o é da imobilidade original e da síntese. É, do mesmo modo, a expressão simbólica da expansão e da concentração. Da energia centrífuga, que parte do centro à periferia, e da energia centrípeta, que retorna a seu centro, eixo ou fonte. Para voltar a se estender uma vez mais, seguindo uma lei universal à qual obedecem as marés (fluxo e vazante) e a terra (condensação, dilatação). Assim como a diástole e a sístole, a aspiração e a expiração do homem ou do universo, quer dizer, tanto do microcósmico, quanto do macrocósmico.

Este símbolo é, também, a manifestação daquilo que, sendo apenas virtual (o ponto), gera um espaço ou plano (que delimita a circunferência)[2]. E está obviamente ligado, portanto, com o espaço e com o tempo, e associado ou unido a qualquer ideia de cosmogonia e criação. Neste mesmo sentido, o movimento superficial da roda, ou externo, estaria vinculado com a manifestação, enquanto a virtualidade, a imobilidade do ponto central ou eixo, achar-se-ia conectada com o imanifestado[3]. As modalidades especiais do símbolo da roda surgem pela irradiação, ou pela “atualização”, das “potencialidades” do ponto central, que se faz “presente” no tempo, criando um campo espacial. Vimos que um ponto gera um plano, quer dizer, um espaço. Esse ponto central é um eixo na tridimensionalidade. Portanto, o símbolo da roda está estreitamente ligado com todo símbolo axial e vertical. E deste modo, com todas as projeções da vertical, quer dizer, com a criação de planos ou espaços horizontais, articulados através de um eixo ao qual refletem, sendo um deles o perímetro limitado de nosso mundo, ciclo, ou qualquer campo definido em relação com as coordenadas espaço-temporais.

Entre os símbolos que manifestam a verticalidade, ou o eixo, devem ser destacadas: a árvore (associada, por certo, à vida e à geração cíclica), a montanha (ou a pedra como “Miniatura” daquela) e do mesmo modo o homem. Pelo que concerne a este último –tal qual hoje o encontramos–, extraiu seus conhecimentos, toda sua cultura, de um modelo simbólico revelado, que é a projeção da energia vertical ao criar um plano horizontal (uma civilização, por exemplo), que em seu movimento cíclico, rotativo, é reintegrada a seu não ser primitivo. A cidade, o sistema social, o templo, o lar, os objetos de uso cotidiano, os costumes, a arte, as lendas, os mitos, o artesanato, a agricultura, os trabalhos domésticos, assim como os ritos religiosos, civis ou pessoais, ou as normas de ordenamento, leis e pautas de comportamento atuais, foram aprendidas de civilizações tradicionais anteriores em pleno processo de degradação. Essas estruturas, que constituíram por séculos a forma do ordenamento social e pessoal (hoje completamente desvirtuadas), reconheciam como antecedentes o mito, o supracósmico, supra-individual e divino, destacando suas origens sagradas.

Quanto a outras modalidades deste pantáculo (pequeno todo), ao qual estamos nos referindo, assinalaremos sua identificação com a ideia de ciclo ou de espaço fechado sobre si mesmo; seja o ciclo do sol em um ano, ou seu movimento aparente em um dia, ou represente a vida inteira de um ser humano (desde seu nascimento até sua morte), ou um período histórico nessa existência, ou na existência do mundo em geral (ex.: um século). É interessante neste sentido associá-lo ao estudo do movimento, os calendários, os períodos vinculados com a agricultura, o conhecimento da harmonia dos céus e a terra, e todo o concernente à ciência dos ritmos.

É, pois, o símbolo da roda, um protótipo ou modelo da ideia arquetípica que o cosmos íntegro não faz senão manifestar. E ao ser um modelo do cosmos, bem poderia ser qualificado como universal na acepção mais ampla deste termo. Por isso chama poderosamente a atenção, que sendo de tão singular importância, não se lhe preste a dedicação devida, ainda que apareça como um legado fundamental, em unânimes formas tradicionais.

Isto se deve, em grande parte, ao fato de que a simbologia aparece, aos olhos de nossos contemporâneos, como uma ciência nova, no sentido historicista deste término. Sendo que tanto os antecedentes desta ciência, como sua razão de ser, remontam-se precisamente ao símbolo, ou seja, à possibilidade de toda manifestação –atual ou pretérita–, relacionando-se com as origens não-históricas ou atemporais de qualquer expressão. Já que esta expressão não faz senão modelar a energia essencial através de uma forma substancial. Entretanto, nunca foram mais citados que hoje em dia os autores que se ocuparam, no passado ou no presente, com relação aos temas da simbólica, que entusiasma o investigador atual, e nos quais este vê uma possibilidade nova, ou uma maneira de acessar o conhecimento (não à soma de informação ou ao enciclopedismo estéril) autêntico.

De todas maneiras, não é demais sublinhar o fato de que, ainda entre estes autores, o tema não foi tratado especificamente, mas tão somente foi incluído entre outros estudos e ensinos simbólicos[4]. Tampouco é demais ressaltar certa dificuldade na compreensão da linguagem simbólica por parte do leitor corrente, não familiarizado com o método analógico e com a utilização da síntese e não da análise. É importante, por outro lado, destacar que muitas destas dificuldades se devem às diversas terminologias, ou palavras, que se empregam com distintas acepções, em tal ou qual contexto, em um mesmo ou em diferentes códigos; às vezes com sentidos ou entonações completamente alheias aos originais, quando não invertidos, como é o caso da leitura “literal”, ou “sentimental”, de qualquer texto, símbolo, rito, mito ou lenda. Ou da própria existência, sem ir mais longe.

Em todo caso, diremos que o símbolo é a expressão de uma energia oculta, que se manifesta através da própria estrutura simbólica. A essa energia o símbolo deve sua razão de ser, pois sem ela este nada estaria simbolizando. É, portanto, o recipiente no qual se molda sua própria forma, e o transmissor de uma energia que, ao configurá-lo, expressa a si mesmo. Nesse sentido dissemos que, em termos gerais, qualquer expressão é simbólica. E a manifestação inteira é um símbolo de algo que está por trás, ou além dela. Ou melhor, de algo que é imanente nela, ou daquilo que se acha oculto, ou que é virtual ou potencial em seu ser. Deve haver, pois, uma correlação muito definida e analogias muito precisas (embora sejam invertidas) entre o simbolizado e o símbolo. Assim, estas são tomadas do ponto de vista do simbolizado, como energia atuante que cria o símbolo e se manifesta através dele, ou do ponto de vista do símbolo, como mediador de uma energia-força que o transcende e que ele não faz senão manifestar. Sem esta correlação seria impossível que qualquer símbolo, palavra ou gesto, expressasse algo. Ou se chegaria à confusão de línguas, onde as palavras, os gestos ou os símbolos, carecessem de todo sentido. O caos, a negação da ordem, a torre de Babel.

Nesta desordem, os símbolos[5] teriam perdido sua energia e não atuariam como transmissores da ideia-força, pois teria sido rompida sua conexão com o simbolizado, ao serem isolados de sua fonte de vida e tratados analiticamente ou de maneira literal. Entretanto, em forma potencial, estes símbolos conservam a vibração que os criou, e basta com que sejam atualizados para que recuperem seu vivificante trabalho mediador, e se convertam no veículo, ou na estrutura necessária, que nos vai levar para além de si mesmo, a um plano ou nível diferente de compreensão. Neste ponto, deverão ser dissipados rapidamente alguns equívocos. O primeiro é o de confundir alegoria com símbolo, e dar a este um valor como de algo provável ou possível, na “esfera” do “como se fosse”. Quer dizer, fazendo-o “simbólico”, na versão degradada que hoje em dia temos deste termo. Portanto, negando-lhe toda possibilidade real, didática ou atuante. Ou o que é o mesmo, negando-o simplesmente[6]. O segundo é tratá-lo como algo do passado. Algo já morto e que nada significa. Ou tomar o que este diz como uma coisa “superada”. Todo dia da criação é o primeiro e todo símbolo expressa hoje, a sua maneira, uma ideia arquetípica, universal, simultânea e eterna. O terceiro é o crasso engano de confundir o símbolo com o simbolizado, do qual a idolatria e a literalidade dão bons exemplos.

Do mesmo modo, deve recalcar-se que todas as tradições atribuíram a seus símbolos e códigos simbólicos o caráter de revelações, ou de origem supra-humano; ao qual se deve adicionar a coincidência de que os símbolos fundamentais estão presentes em todas as tradições de maneira manifestamente idêntica, até em suas aplicações secundárias, ou em suas formas derivadas e folclóricas. E assim, estes dois simples fatos: a) a observação da identidade assombrosa entre as simbólicas de todas as tradições (vivas ou mortas); e b) que todas elas atribuíssem a essas simbólicas um caráter não humano e revelado. [Tais fatos] devem ser para nós tanto um tema de meditação, quanto um incentivo para o estudo e a compreensão destas simbologias e tradições, as quais poderemos acessar graças ao veículo simbólico, tomado como a estrutura de uma ideia. Desde esta perspectiva, há que se visualizar o símbolo como um gesto pelo qual se expressa uma ideia-força: ou seja, o arquétipo em ação. Do “fogo aos fogos”, do sintético ao múltiplo. Do mesmo modo, inversamente, trocando o ponto de vista, do múltiplo ao sintético. Dos inumeráveis fogos, ao fogo arquetípico.

No que se refere especificamente ao símbolo tratado nestas páginas, interessa-nos, fique claro, sua relação com duas energias complementares, que chamamos vertical e horizontal, e que também podem ser designadas –fazendo uma transposição analógica– como essencial e substancial. O eixo central (vertical) enlaça uma cadeia de mundos, ou de planos de manifestação (horizontais), um dos quais é nosso mundo ou nossa vida, na variedade indefinida de mundos e vidas. De ciclos dentro de ciclos. Não é necessário dizer que o ponto que gera o plano é invisível, como qualquer ponto no espaço. E que o eixo, que é a razão de ser de qualquer espaço tridimensional (na arquitetura por exemplo), permanece oculto e imperceptível, expressando-se só de forma reflexa, nas inumeráveis manifestações às quais ele dá lugar. Tal como o espaço vazio, com relação às paredes, às colunas, estruturas ou ornamentos, que constituem sua roupagem substancial. O mesmo poderia ser aplicado à arquitetura universal. Também deve dizer-se que este eixo central, que vincula dois ou mais planos entre si, leva implícita a ideia de movimento, como no caso das rodas de um carro, veículo simbólico (como o cavalo), que expressa a possibilidade de uma viagem, o trasladar de um ponto a outro ponto, ou a conexão de um plano com outro plano. A associação óbvia deste símbolo com o movimento, se expressa em distintas tradições pela ideia de um carro solar, ou pela roda calendárica de um tempo cíclico, reiterado por suas próprias limitações (no caso do sol por seus dois solstícios e dois equinócios). Que não são senão as mesmas limitações (enquadramento, ordem) de todo o manifestado.

É assim, então, que o ponto central em um plano horizontal (ou o que é o mesmo, o eixo vertical, no volumétrico), deve-se relacionar com a potência essencial do ilimitado, enquanto que sua expressão manifesta, quer dizer a circunferência, deve-se vincular com a limitação do ato, que forma as superfícies periféricas ou substanciais da figura. Por outra parte, esta inversão que faz do horizontal um reflexo do vertical, e de toda manifestação substancial uma projeção da imanifestação essencial, diz-nos muito a respeito da ilusão de tudo o que se move, do relativo. O que tem princípio e fim, ou está sujeito a causa-efeito. Por isso mesmo nos fala também da realidade daquilo que sendo um (o centro como projeção da vertical), não tem par. Daquilo que permanecendo imóvel (o absoluto), não está subordinado a nenhum processo dialético[7]. Por outra parte, este esquema da roda é o modelo do ciclo. Na vida que nos rodeia, da qual fazemos parte, tudo são ciclos que, existindo simultaneamente, se inter-relacionam, como podem ser o do átomo incluído no [ciclo] maior da molécula, e este no da célula, e a célula no do organismo humano; ou como o ciclo do dia, incluído no [ciclo] da semana, e este no do mês, e o mensal no do ano, etc. Tudo o que reconhece princípio e fim, causa e efeito, nasce e morre em forma indefinida, enquanto o incriado, o não dual, é infinito e eterno.

Há no plano manifestado uma energia (centrífuga) que parte da origem virtual até o limite de suas possibilidades, e que retorna ao mesmo ponto original (centrípeta), para continuar perenemente este percurso. Estes dois aspectos são também os de dilatação ou expansão, e contração ou concentração, simbolizados respectivamente pelo círculo e pelo quadrado. Ambas as figuras –como símbolos de um espaço ou campo limitado– são equivalentes. E tanto o círculo quanto o quadrado representaram para a antiguidade idêntica perspectiva simbólica. Às vezes, uma mesma tradição utilizou com preferência uma dessas formas, em tal ou qual período, ou as duas de maneira conjunta[8]. As tradições do extremo Oriente simbolizam estes dois aspectos[9] com o Yin e o Yang, que atuam como forças permanentes e equilibradoras de todo ciclo ou processo. No caso do ciclo do homem, haveria também uma energia ascendente relacionada com a infância e a juventude, e outra descendente equiparada com a maturidade e a velhice. Em rigor, esta divisão binária do ciclo é muito importante e parte em dois o nosso modelo da roda. Se fosse a porção oriental a ascendente, e a ocidental a descendente, corresponderia, desde este ponto de vista, a primeira ao símbolo do círculo (energia centrífuga), e a segunda ao do quadrado (energia centrípeta).

Mas, antes de seguir, devemos esclarecer que o modelo simbólico da roda é válido não só para um ciclo em particular, qualquer que este seja, mas também é o protótipo de uma ideia arquetípica, e pode ser aplicado a qualquer ciclo, mesmo que se trate de um ciclo de ciclos, etc., em sucessão indeterminável. Neste sentido não é demais recordar que, para a antiguidade, a ideia de cosmos é uma só. Não há vários mundos ou cosmos, mas sim a soma de todos esses mundos ou cosmos, galáxias ou estrelas indefinidas, é a que constitui a ideia de cosmos ou mundo, em sua acepção mais ampla. Não há, portanto, nada “fora” do cosmos. Nem tampouco nada que não esteja sujeito às leis desse cosmos, nem a seu ordenamento cíclico[10]. Isto o souberam todos os povos civilizados do mundo, e de sua concepção do cosmos extraíram toda sua cultura. Ao fixar seus próprios limites espaciais e temporais deram lugar a sua cidade. Ao criá-la, quer dizer, ao solidificá-la ou cristalizá-la, e ao estabelecer as marcas reincidentes dos períodos agrícolas, conseguiram alimento necessário para a satisfação de suas necessidades básicas. No plano horizontal do mundo, tudo está aqui e agora. E todas as evasões das evasões, são também ilusões.

Entretanto –e segundo a feliz frase do Paul Eluard, “há outros mundos, mas estão neste”– nos oferece através do modelo tradicional, a possibilidade de escapar do movimento reiterativo, sempre constante, da “roda cósmica” ou “roda das encarnações”. Pois a solução, ou salvação, está presente em forma imanente, nessa mesma roda, de maneira oculta, como se encontra na semente toda a potencialidade da nova árvore, e no ovo a “origem do ser”[11]. Portanto, o ordenamento cultural, todas as estruturas de uma civilização, não são senão o reflexo de um centro invisível, que se manifesta, ou se revela, através destes. Pois elas não são senão suportes, ou símbolos, de uma realidade muito mais vasta, não sujeita à mudança. E tudo isto que se acaba de dizer, referido à cultura e a suas estruturas, poderia ser aplicado a qualquer ordem. A tal ou qual organismo vivo. Pois assim como qualquer objeto visível tem uma estrutura interna fundamental, graças a qual este se faz reconhecível como tal, também os símbolos, pelos que se manifestam externamente as coisas –que não são senão simbólicas–, têm que ter alguma estrutura interna. Estas estruturas dos símbolos tradicionais[12], não são senão ideias, ou jogos de ideias, que eles mesmos plasmam com suas formas. O que levaria a pensar que o universo tem uma estrutura precisa, e leis, e jogos de módulos prototípicos. Quer dizer, um modelo que se expressa simbolicamente, através de números e formas geométricas, dando lugar às ciências correspondentes.

Na realidade, toda estrutura tem uma forma. No caso da urdidura e trama dos tecidos, da rede de pesca ou caça, ressalte-se quanto ao entrelaçamento do vertical com o horizontal, por meio de interligações ou contexturas, formando um reticulado. Este desenho simbólico de ordem, dado pelo quadriculado de qualquer plano, poderia expressar também a própria ideia de estrutura, seja a da casa-templo, da cidade, da agricultura, ou da cultura. E os limites mesmos desse quadriculado (o enquadramento final sob a mesma forma), a ideia prototípica de um ciclo de ciclos ou, o que é o mesmo, da unidade e da multiplicidade coexistindo de maneira simultânea. O fato de que um número limitado de formas (o quadriculado), seja emoldurado em uma forma prototípica (o quadrado ou tabuleiro de xadrez), permite às definidas peças do jogo (sejam reis ou peões), uma quantidade indefinida de movimentos e jogadas múltiplas. Se o total do tabuleiro simbolizasse o cosmos[13], o quadriculado expressaria uma ordem dentro desse plano ou campo, perfeitamente delimitado, graças ao qual existem as leis (do jogo), que permitem às diferentes peças protagonizar suas próprias jogadas, ou conjuntos de jogadas[14].

Esta estrutura é a expressão de uma ordem ou de uma inteligência universal, que permanecendo secreta e invisível, é o protótipo de tudo o que pode ser chamada ordem ou inteligência. Por outro lado, essas mesmas leis expressas em medidas e pesos quantitativos, e definidas a nível espaço-temporal, referem-nos também a uma estrutura invisível do cosmos. Ou a um equilíbrio e harmonia universal, que configuram uma linguagem articulada, relacionada com outra “visão” do espaço e do tempo.

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

Notas

[1] – A esfera é na tridimensionalidade o que o círculo é no plano. Sabido é que o símbolo da roda é representado graficamente como um ponto e a circunferência a que dá lugar pela irradiação de suas possibilidades. Enquanto o ponto central (ou eixo da roda) permanece fixo e imutável, a periferia se move e gira ao redor dele.

[2] – É curioso observar que o ponto central e a circunferência, “que juntos conformam a figura do círculo”, constituem o emblema astrológico do sol, que é o pai da vida, a que produz por irradiação de sua energia até seus próprios limites.

[3] – Na nomenclatura alquímica, o ponto e a circunferência e às vezes só um círculo (simbolizado pelo Uróboro, a serpente que morde a própria cauda), são imagens da vida e de sua origem, da sucessão e da simultaneidade. E também do ouro entendido como rei dos metais ou símbolo da perfeição mineral. Recorde-se que a alquimia sustenta que a energia dos astros nos céus cristaliza-se na dos minerais, sendo ambas análogas entre si. Isto é o mesmo que dizer que existe uma reciprocidade entre céu e terra e vice-versa. É desnecessário adicionar que estas relações estão invertidas uma com relação à outra e que a perspectiva ou visão varia conforme se tome um ponto de vista ou o oposto. O mesmo acontece com o ponto central e a circunferência a que dá lugar. Sendo estes termos complementares, estão, entretanto, hierarquizados. O mais alto é o céu, o mais baixo, a terra. O homem acata as leis da terra, a terra acata as leis do céu” (Tao Te King 25). É imprescindível um ponto central ou eixo para que a circunferência ou a roda existam, não o inverso. Há uma inter-relação, mas também uma preeminência com respeito à metade superior (céu) e na metade inferior (terra) de uma esfera.

[4] – Depois de haver-se publicado estes artigos o autor conheceu o excelente trabalho de Maryvonne Perrot, Le Symbolisme de la Roue que trata extensamente do tema, embora de uma perspectiva distinta –e convergente– a estes textos.

[5] – Quando se fala aqui de símbolos leia-se também mitos e ritos, lendas e textos sagrados.

[6] – O mesmo acontece com o mito ou a lenda. Na linguagem corrente passaram a ser sinônimo de “contos”.

[7] –  A expressão natural do conceito que o ponto geométrico manifesta no plano, é a unidade aritmética, geradora de toda a série ou código ou campo ou mundo numérico. Terá que se esclarecer também que a unidade aritmética é só uma imagem da não dualidade metafísica. Ao ser o primeiro número é também a primeira determinação. O mesmo ocorre com o ser, com referência ao não-ser, e ambos com respeito à não dualidade. Nesse sentido, o ponto central “criador” do espaço, ou o que é o mesmo, o “ser” desse espaço horizontal, é por sua vez o reflexo do não-ser, ou da imanifestação vertical, e ambas da “não dualidade”.

[8] – Ressalte-se que o círculo tem 360º e que a soma dos 4 ângulos retos do quadrângulo (90º x 4 = 360º) é a mesma. Além disso, 360 = 3 + 6 + 0 = 9. O 9 (número cujos múltiplos sempre se reduzem a ele mesmo), é o número do ciclo. Também o é da circunferência, que somada à unidade central (9 + 1 = 10), dá-nos a totalidade das possibilidades do ciclo numérico e da tetraktys pitagórica. Também, a do retorno à origem (10 = 1 + 0 = 1).

[9] – O movimento centrífugo ou o que vai do centro à periferia, tem relação, como se já se disse, com a expansão. Este movimento deve ser transposto no plano circular do ciclo, situando-o ao norte, originando a circunferência e correspondendo esta energia na metade ascendente da roda do dia, quer dizer, a que partindo do Norte, identificada com a zero hora, chega ao Sul ou meio-dia. A porção descendente do ciclo (que vai do Sul ao Norte, quer dizer, que retorna a seu ponto original) está então relacionada com a contração ou concentração centrípeta ou entardecer e noite. Algumas culturas, em distintos lugares e épocas, dividiram o ciclo de forma aparentemente diferente, o que está em relação direta com a razão de ser dessas civilizações. Assim, não se localiza o Norte sempre acima nem o Sul obrigatoriamente abaixo. Tampouco o movimento é visto, necessariamente, da esquerda à direita –quer dizer, no sentido dos ponteiros do relógio–, mas sim o considera em forma retrógrada. Estes dois exemplos podem encontrar-se nas culturas pré-colombianas e extremo orientais.

[10] – E um dos enganos contemporâneos mais comuns é o de conceber um infinito finito. A soma indefinida de finitos (ou ciclos) não pode constituir o infinito. Este, por definição, é o que não é finito. Ou seja, o que não está sujeito a finitude. É o mesmo que fazer de um relativo, ou da soma de inumeráveis relativos (ou circunstâncias), algo absoluto.

[11] – A tradução da palavra sânscrita chakra é precisamente roda ou disco. A “abertura” dos chakras ou sua expansão geradora, estaria vinculada com a ampliação do plano da consciência, simbolizada pela flor de lótus (que se abre à manhã e se fecha de noite). No Ocidente, esta flor seria a rosa. Em particular aROSA MUNDI, idêntica à ROTA MUNDI.

[12] – Talvez fosse oportuno estabelecer aqui, uma diferença entre significado e signo. O significado é a essência ou ideia universal que o signo cria (ou encarna), que deve ser como a forma ou a roupagem do significado, adequado à relatividade espaço-temporal. O significado de um signo é o que este significa não seu rol significante. O simbolizado é aquilo que o símbolo expressa verdadeiramente, sua razão de ser, não sua capacidade transmissora. O mito é realmente a ideia expressa no personagem mítico, e através dele, não as andanças e aventuras computáveis dos heróis e dos deuses. O rito não é só uma cerimônia comemorativa de sentido social, mas sim a correspondência de energias entre um plano de realidade –ou de consciência– e outro desconhecido. Ao outorgar-se os a estes termos uma leitura linear, os degrada fazendo-os incompreensíveis. As acepções dadas às palavras e às coisas em certos lugares ou durante determinadas épocas, não só nos ilustram sobre a mentalidade dessas sociedades, mas também muitas vezes constituem exemplos evidentes de inversão. Desgraçadamente na atualidade se toma o significado do símbolo como se este significado fosse sua função significante. O significado dos antigos sinais (ou milagres) era o da revelação sobrenatural; jamais o efeito que esses sinais produziam na população. Por outra parte, haveria uma distinção entre símbolos naturais e símbolos tradicionais (iniciáticos) precisos, desenhados especialmente para produzir uma comunicação direta com o princípio. Estes últimos teriam uma função “didática”, obviamente relacionada com o ensino e o com conhecimento.

[13] – Conhecido é que o jogo de xadrez tem origens astrológicas.

[14] – A ideia de desenrolar dos céus, quer dizer, a de criar o cosmos, ou o que é o mesmo, o plano ou tabuleiro onde este se manifesta, está em estreita relação com o símbolo do pano de fundo, que se abre na caixa (cubo) de cena [N.T.: palco.] e onde se começa a representar uma obra ilusória, com papéis e róis [N.T.: textos, falas.]. Especialmente o teatro de bonecos. E também o cinematógrafo, que mediante uma inversão da visão óptica, projeta na tela ou plano, indefinidas imagens, episódios ou “histórias”.

O Simbolismo da Roda – Capítulo 1 (2ª Parte)

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Reiterando o ato criativo, que nasce da pureza indiferenciada, sem mescla, do qual não é nem um polo nem outro, mas sim o que é em si mesmo, regeneramo-nos e ao universo, constituindo o homem no símbolo central, do único, que é o mesmo que dizer do ser, do amor, ou do conhecimento.

Compreendendo a identidade entre o ser universal, o todo e o si mesmo, a total manifestação dos princípios nos apresenta como uma revelação. Chega-se então a conhecer a unidade do ser, que é igual ao si mesmo, sem divisão nem extensão de nenhum tipo, motivo pelo que não pode ter par. Entretanto, essa realidade que a nível cósmico é a mais alta, não é mais que um ponto afirmado nas possibilidades infinitas do não ser. Por isso o ser é um ponto na infinitude do não ser (ou do supracósmico, ou do supra-ser ou do hipertheos realmente incondicionado) e inversamente o não ser é um ponto presente em tudo o que é. A unidade atua como símbolo e conecta à unidade aritmética (que será geradora da série numérica) com a unidade metafísica, que também pode ser sinalizada com o zero aritmético.

Isto, caso se considere o símbolo como o que realmente é, ou seja aquilo que possibilita qualquer manifestação, até levando-a a sua instância mais alta, quer dizer, a de considerar simbólica à própria triunidade de princípios universais que constituem o ser. Pois tanto o ser como o símbolo expressam-se primeiro como princípios e, em seguida, em três níveis no discurso da manifestação. O mesmo acontece com a unidade, que pode ser conhecida em três graus, e também em seu princípio.

Outra coisa é o que acontece na sociedade atual, que considera o símbolo, no melhor dos casos, a nível de alegoria. Ainda que, às vezes, nem sequer leve em conta sua forma literal, mas a desconsidere de plano pelo próprio fato de ser “simbólica”, tendo em vista que entenda ser este fato tal como uma fraude, como a substituição daquilo realmente é e que, por isso, não pode ser [real]. E, portanto, esse signo ou símbolo tem que ser uma falsificação e uma suposição arbitrária. Ou pelo menos uma invenção, quando não uma fábula. Com o mito acontece o mesmo, até o extremo de que, ao se chamar alguém mitômano, seria uma forma educada de lhe dizer que é um mentiroso.

É claro que esta confusão e esta ignorância, por razões cíclicas, são próprias do homem contemporâneo, que é o expoente mais nítido da estultícia generalizada, que vem incubando-se desde muito tempo atrás. Vale um exemplo: no universo tudo é sexuado. Esta verdade, evidente por si mesma, entretanto, é apresentada ao contemporâneo como uma extraordinária novidade no pensamento humano, um grande descobrimento moderno, fruto das investigações científicas dos sexólogos, intérpretes e analistas, e uma conquista dos movimentos sexuais de distintas vertentes. O uso “correto”, ou “livre”, do sexo, parece ser um dos postulados axiomáticos desta sociedade progressista. Visualiza-se o sexo como algo que o homem não conhecia a respeito de si mesmo ou do mundo. Um tema no qual não havia reparado completamente até nossos dias. Como se não tivéssemos estado sempre nus debaixo de nossas roupas, ou como se a natureza tivesse ocultado este fato de alguma forma. O mais ridículo neste caso é que, além disso, esta “descoberta” não se refere ao cosmos em sua totalidade, todo ele sexuado –ou diferenciado em um par de opostos que se atraem ou se repelem– mas considera que só o ser humano “conquistou” este direito. Pois supõe que os próprios animais fazem apenas um uso limitado da genitalidade, enquanto que os vegetais virtualmente não a possuem e no reino mineral é nula. Tudo isto referido só ao plano mais estritamente material, pois é óbvio que se ignora a presença real dos mundos sutis, e não se tem nem ideia da existência dos arquétipos. Esta visão antropomórfica do sexo, como atributo pessoal do ser humano, que as demais criaturas pareceriam ter apenas, além disso[3], se vê agravada pelo fato de que o sexuado, para a mentalidade progressista, não excede o erótico-genital. E seu desconhecimento a respeito é tal, que se acredita que a realização sexual é em si mesmo um fim, tão avançado e moderno como a moda. Uma panaceia universal aprovada com certificado, inventada recentemente pela ciência, para a tranquilidade e o conforto psíquico dos cidadãos.[4]

Portanto, quando dizemos que o universo é sexuado, com segurança que estamos nos referindo a outra coisa do que vulgarmente se entende por isso. Estamos afirmando, como o têm feito todas as tradições, que na criação, na vida, há sempre pressente duas correntes cósmicas de energia. E que cada uma delas representa um sexo, uma polaridade, que a genitalidade humana também manifesta em inumeráveis seres e coisas. Unanimemente, a antiguidade outorgou à sexualidade e seus mistérios uma importância fundamental. A tal ponto, que se considera a energia sexual não só como geradora, mas também como regeneradora. Como o suporte e o impulso que permite a realização e o conhecimento. Posto que utilizando sua polaridade –que é a mesma dualidade de todas as coisas– se pretende a união (onde a oposição não existe), compreendendo-a como um meio de realização, de transmutação, que vai do mais grosseiro ao mais sutil, empregando-se muitas formas “práticas” para se chegar a este objetivo. Por outra parte, e voltando ao tema, diremos que é impossível definir o símbolo, pois ele e a criação perene não toleram limites conhecidos em seu desenvolvimento linear e quantitativo. Sendo o símbolo o suporte do Conhecimento, suas possibilidades são ilimitadas. Ele é em si mesmo sua própria definição, posto que sua função é seu ser. É sempre idêntico a si, e mutável com as mudanças dos seres individualizados, das formas e dos estilos que o refletem. O acha presente em todas as tradições, porque se encontra na trama da vida, da manifestação e do homem. Este último é muito mais e muito menos do que ele atualmente imagina. Muito mais em profundidade, no sentido vertical do não formal, muito menos quanto a suas indefinidas possibilidades horizontais de mutação que ele e as formas personalizam.[5] E o mesmo acontece com sua concepção da vida, sua visão do mundo, e sua compreensão do símbolo.

Dissemos que o símbolo é o ponto de conexão entre uma vertical e uma horizontal de energia, como a figura do esquadro, ou da letra grega gama, e participa de ambas as naturezas. Nós também afirmamos que o poder vertical é ao mesmo tempo descendente e ascendente, porque ele vai do simbolizado ao símbolo e deste ao simbolizado, como um moto-perpétuo. Além disso, que a energia horizontal se difunde e se irradia indefinidamente gerando seu próprio plano, ou campo de ação. Devemos acrescentar que o sentido ascendente ou descendente que damos a esta energia, não só se manifesta em função do caminho de ida ou vinda vertical que percorre, como também é “benéfica” ou “maléfica” – por assim dizer. Benéfica enquanto o símbolo é tal, e como tal é compreendido, ou seja, quando normalmente desempenha a sua mediação; maléfica se ele é considerado apenas como uma convenção arbitrária, ou uma mera invenção humana, e por isso é levado, motivo pelo qual não é revelador de nenhum outro nível que não seja o psiquismo do homem. Neste último caso, a degradação do símbolo seria um evento muito perturbador, que só a compreensão e a vivificação do simbolismo podem equilibrar. Isto também estaria representado pela figura da cruz, em que os braços horizontais formam o campo ou plano de manifestação do símbolo, e os braços superior e inferior estariam expressando sua energia ascendente-descendente, ou benéfica-maléfica, respectivamente.

No símbolo específico da roda cósmica, imagem e modelo da criação, um eixo fixo constitui um centro que irradia sua energia para o exterior, difundindo-se em proporção direta ao quadrado das distâncias. Na concentração, ou retorno ao centro interior da periferia, a energia percorre inversamente esse quadrado das distâncias. Uma e outra energia são exatamente proporcionais entre si e ambas coexistem permanentemente. A primeira expressa a vontade da expansão indefinida, e a outra, a contração necessária a toda manifestação. Se a primeira fosse o fluir das emanações até seu próprio limite, esse limite estaria imposto pela contração da segunda e sua atração para o centro arquetípico.[6] Estas duas energias seriam representadas geometricamente por duas espirais, uma evolutiva e a outra involutiva. Tem-se em conta que são simultâneas, e que constituem a estrutura do ovo do mundo, sendo elas a expressão simbólica dos princípios dos quais este ovo primitivo deriva.

Convém deste modo fazer uma distinção entre os símbolos naturais e os símbolos específicos da Ciência Sagrada, ou tão somente Ciência. Estes últimos são os portadores sintéticos, conscientes e didáticos, de um conhecimento ou verdade, e nos foram transmitidos através do próprio homem.[7]

Isto posto, estivemos vendo que toda expressão ou manifestação é por si mesma simbólica. Sem que isto deixe de ser certo em nenhum momento, convém esclarecer que há determinados jogos de símbolos, mitos e ritos –que por outra parte se dão em distintas formas em todas as tradições– que foram especificamente cunhados como veículos do conhecimento pelos sábios e os inspirados dos inumeráveis povos. Estes gestos rituais, revelados pelos deuses aos mortais, incluem o ensino de uma cosmogonia e a possibilidade de compreender novos mundos, ou novos estados do ser, que constituem a verdadeira realidade do que é o homem e o universo. Esta possibilidade sempre é ensinada; o ser humano em seu estado ordinário não a conhece, nem pode realizá-la por si só, ainda que o queira, e necessita sempre de um espelho onde se olhar e se reconhecer, e da palavra que o resgate do mundo dos mortos, ou dos ignorantes, e lhe insufle a possibilidade de uma nova vida, de encarnar o homem novo. Esse espelho é, em primeira instância, o exercício da simbólica, que têm que ser aprendida e ensinada, para se obter um imprescindível estado de virgindade. Posteriormente, essa mesma simbólica é ordenadora, e quem a transmite também a conhece porque, outrossim, a ensinou. Esta cadeia iniciática tradicional nos faz remontar à origem, tanto a histórica quanto a atemporal, ao final do que nos encontramos sempre com a mesma pergunta: quem?[8] Quem os revelou aos sábios e aos homens? Segundo a tradição, sua origem é não humana, por ser supracósmica. De fato, todos os povos coincidem na fonte mítica, produzida na noite da história, além do tempo. Ademais é unânime a ideia de um deus civilizador e ordenador, ou a de um herói liberador e instrutor. Os símbolos precisam ser ensinados, para que haja uma compreensão real das forças que concentram. A energia que permanece oculta no símbolo em estado potencial, requer ser ativada. Mediante o rito da aprendizagem, do estudo e da meditação, se desperta para o símbolo e este opera. A relação é mútua. A energia-força que este expressa vem a nós, e nós a projetamos sobre ele, estimulando sua própria essência. Evoca-se então, além disso, a energia de todos os que conheceram, compreenderam e irradiaram o símbolo. E essa mesma entidade, ou estrutura arquetípica, atualiza os princípios universais, fazendo com que estes vertam-se em nós e nós participemos deles, graças à identificação com o símbolo e à mediação simbólica, reativada por uma exegese ritualística, que é aquela que com o passar do fio da história manteve viva a possibilidade da regeneração ou, o que dá no mesmo, a que faz factível que tudo sempre seja novo e verdadeiro.

Temos que ver agora as relações entre símbolo, mito e rito, e devemos então afirmar que esses vocábulos designam de distinta maneira uma coisa em três formas operativas. Diz-nos Mircea Eliade que: “O mito é a explicação e a justificação da irrealidade da existência”. Ele constitui um eixo fixo que articula o que constantemente acontece, o perecível, o ilusório. É uma verdade tangível, um “modelo exemplar”, periodicamente encarnado pela comunidade, ou por alguns de seus membros, e possibilita a regeneração coletiva estabilizando a ordem necessária para o desenvolvimento. Ele expressa as origens e a renovação da vida, harmonizando e assegurando a continuidade dos povos. Os mitos da criação do universo e os trabalhos dos heróis são o testemunho revelado de uma possibilidade diferente, da realidade do além, ao nível da compreensão do homem. São eles os que, ao transmitir este conhecimento, outorgam à vida um sentido coerente e a enriquecem com a opção salvadora da realização espiritual. O mito é necessário. É um motor vivo e constante na vida das sociedades. Ele nucleia as tradições orais e consagra os valores do coletivo e do individual. Promove as ações e educa os homens ao lhes ensinar o que não poderiam saber se não fosse por seu intermédio. Os mitos são para esses homens toda a realidade e toda a verdade, e a dura existência cotidiana ocupa frente a eles um lugar secundário ou derivado, como as sombras com respeito à luz.

Deve-se também sublinhar a carga emotiva do mito e a ressonância imediata que encontra no homem. Do mesmo modo, não tem que passar-se por alto sua função mnemotécnica, pois a “lembrança” é uma força constitutiva da vida e sempre a antiguidade considerou a memória como uma deidade. Em uma concepção onde o universo é um conjunto de partes solidárias, indissolúveis e inter-relacionadas, o cosmos também tem mente e memória. Os períodos de “sono” no universo, correspondem aos momentos de esquecimento dos povos, na sua desintegração. O mito faz com que estes despertem e se produza a reintegração e a “lembrança”. No homem acontece o mesmo, e graças ao mito, liberamo-nos do tempo relativo e ordinário, e retornamos a outro tempo, onde tudo é verdade, a um momento sem duração cronológica, a um estado “mítico” original, perfeitamente experimentável, no qual as coisas e as concepções cotidianas passam a ser completamente outras coisas e outras concepções, pois o ângulo de visão foi alterado pelo conhecimento do supra-histórico e do sobre-humano.

É importante destacar que a forma normal de transmitir um mito é através da poesia[9] e sua recitação rítmica reiterativa, a que junto com o gesto e com o movimento configura e encena a estrutura do rito. Trata-se de dar expressão aos grandes ritmos cósmicos e naturais que se transferem aos acontecimentos e aos personagens no tempo de uma história, em um estado particular. Esta cosmogonia repete magicamente a situação original, tornando o presente efetivo, atual e renovador, por obra do poder concentrado da energia do mito e sua ritualização.

A etimologia da palavra “rito” provém do latim ritus, que significa cerimônia religiosa. Deriva da raiz sânscrita rt, que conforma o nome ritli: ida, marcha, encaminhar-se, adiantar ou progredir, uso, etc., e também a voz Rita: ordem. Tratar-se-ia, pois, de um uso ou andar ordenado, tal qual a marcha dos dias, e especialmente das cerimônias no tempo circular do calendário ritual, e sua cristalização ou atualização no espaço do templo, ou casa cultual.

Devemos deixar bem estabelecido que quando nos referimos aqui às cerimônias religiosas, fazemo-lo no sentido mais amplo do termo. Por um lado, estas cerimônias jamais foram “religiosas” no sentido que se atribui hoje em dia ao termo, e tampouco “cerimônias”, como as que vulgarmente conhecemos. Os ritos de fecundação, de regeneração e de iniciação, não têm nenhuma relação com o devoto-ortodoxo, piedoso-sentimental, moral-justo, ou com a solenidade afetada, características que são próprias da sociedade contemporânea e que constituem um derivado disforme das virtudes do sagrado, do heroico e do metafísico. Por outra parte insistimos em que a compreensão moderna do que é uma cerimônia, acha-se vinculada a ideias assépticas relativas ao laicismo, à comemoração, ou à pompa exterior, quando não são atividades supostamente mágico-fenomênicas, que não excedem o nível literal. Toma a forma cerimoniosa como um fim em si mesmo, ou como uma comédia antiquada, ou um fato mecânico-institucional de corte digno.

Se o cosmos for a fixação de um gesto, ou a solidificação da inflexão de um som, ou a dança de um bailarino supracósmico, é, portanto, um rito primitivo que se acha implícito em todo o manifestado. A reiteração deste rito é uma perene atualização desse fato efetuada a nível sensível. Exige por isso o conhecimento do evento cosmogônico original para que seja “verdadeira”, no sentido de que obtenha adequadamente seus propósitos. Ou se precisa para isto, ao menos, uma disposição tal de ânimo, que torne possível paulatinamente esse conhecimento e sua complementar realização efetiva. O rito é liberador; ao imitar conscientemente e com a devida disposição harmônica o ritmo da estrutura cósmica, permite-nos sair dela por seu intermédio, encontrando assim a possibilidade de transcendê-la ao vivenciá-la, e compreendê-la no coração. Esta liberação não é nenhum “milagre”, pois verdadeiramente a estrutura cósmica é nada mais –e nada menos– que um suporte do incriado, e o homem um simples estrangeiro, como exilado nesta terra. Este é um fato normal, tal qual o retorno a nossa autêntica casa, ou a nossas origens não humanas. E o rito iniciático, uma via ordenada para efetuá-lo.[10]

Na realidade, a vida mesma é o maior dos ritos. Uma cerimônia permanente, o rito por excelência, onde a perfeição finita de cada símbolo ou gesto esconde e contém uma perfeição infinita. Neste enquadramento, a vida é uma simbólica, e seu conhecimento constitui a ciência dos ritmos e dos símbolos. E é através da ciência dos símbolos, quer dizer, por meio do conhecimento da simbólica, que se realiza a passagem do cósmico ao supracósmico, do criado ao incriado, do humano ao não humano.

Continua…

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

Notas

[3] – A sociedade moderna não só tem uma visão antropomórfica a respeito deste tema, mas também o derrama sobre todas as coisas. Começando por sua concepção de Deus. Tudo o “humaniza”, e projeta em tudo sua psicologia, supondo ainda que o homem universal, é como ele um progressista ocidental do século XX, um hipotético homem “científico”. A concepção do mundo contemporânea é antropomórfica e psicologista e, para terminar, presume ser objetiva.

[4] – A supervalorização do erótico-genital impede de ver no comportamento humano as inumeráveis formas de penetração e recepção.

[5] – Às quais a tradição bramânica e a budista designam com o nome de roda das reencarnações.

[6] –  No mundo do homem, que depende da atmosfera, esse papel lhe corresponde à gravitação –graças à qual o sangue não escapa pelos poros– que comprime e solidifica o criado.

[7] – Fazendo a ressalva de que este não os inventou, e que não se trata de uma simples convenção, como seria o caso das modernas técnicas da comunicação, notação ou sinalização, ou o uso que faz delas a publicidade, a ciência, e também sua utilização pelas políticas a qualquer nível de sugestão que seja ou com qualquer finalidade.

[8] – Esta é também a última pergunta da cabala hebraica: mi?

[9] – Hoje mesmo em dia, os mitos profanos se propagam através da canção.

[10] – Para dar só um exemplo dos indefinidos possíveis, diremos que o rito da dança –no qual as coreografias cosmogônicas circulares são unânimes– assegura um meio de transformação e transfiguração espiritual, para aquele que compreendeu seu significado e sua natureza, em relação com o conhecimento de si mesmo e do universo.

O Simbolismo da Roda – Capítulo 1 (1ª Parte)

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Dos Símbolos e da Simbólica

Todos os seres e coisas expressam uma realidade oculta neles mesmos, que pertence a uma ordem superior, à qual manifestam, e são o símbolo de um mundo mais amplo, mais realmente universal, que qualquer enfoque particular ou literal, por mais rico que este seja. Na verdade, a vida inteira não é mais que a manifestação de um gesto, a solidificação de uma Palavra, que contemporaneamente cristalizou um código simbólico. Esse é o livro da vida e do universo, no qual está escrito nosso nome e o de todos os seres e coisas, e os distintos planos em que convivem e se expressam, comunicando-se perpetuamente, inter-relacionando-se através de gestos e símbolos. A trama inteira do cosmos é, na verdade, um símbolo em que cada uma de suas partes se expressa à sua maneira.

E se toda a manifestação é simbólica e o universo uma linguagem, um código de signos, nós somos também símbolos e conhecemos e nos relacionamos através deles. Tudo passa então a ser significativo e cada coisa está representando outra de ordem misteriosa e superior à qual deve a vida, sua razão de ser[1]. Então os símbolos estão vivos e emitem suas mensagens, e interagindo uns com os outros também recebem e retransmitem inumeráveis sinais e constituem grupos, conjuntos, sinais ou estruturas dos quais são partes. Os indefinidos códigos simbólicos estão manifestando um só modelo universal, a arquitetura da terra e do céu, enquadrada nos limites do espaço e do tempo.

Os símbolos são, pois, inevitáveis, consubstanciais ao ser humano. E eles, como os gestos, geram os limites em que nos encontramos, promovendo todas as ações, não só as que aconteceram e as futuras, mas também as do presente, as do agora. Se com a linguagem se podem nomear todas as coisas, todas as coisas estão implícitas na linguagem. Se o numerável tiver signo, nesses signos está toda a possibilidade do numerável. Graças ao símbolo revelamos a nós mesmos, pois em virtude deste se forma a inteligência, cria-se nosso discernimento e se ordena a conduta. Pode-se dizer que ele é a cristalização de uma forma mental, de uma ideia arquetípica, de uma imagem. E ao mesmo tempo seu limite; o que possibilita o retorno ao ilimitado através do corpo simbólico, que permite assim as correspondentes transposições analógicas entre um plano de realidade e outro, facultando o conhecimento do ser universal nos distintos campos ou mundos de sua manifestação, já que expressa o desconhecido por sua aparência sensível e conhecida.

O símbolo configura continuamente o preexistente, estabelece uma perpétua conexão conosco e uma vinculação constante com o cosmos, do qual é solidário. O gesto simbólico, ou o rito cósmico, é a permanente possibilidade da reciclagem do ser e da cadeia dos mundos. É revelador, sempre dá a conhecer algo. Tem também poderes transformadores. Por seu intermédio algo abstrato se concretiza, e inversamente algo concreto se abstrai. É ambivalente, pois é aquilo que ele expressa e simultaneamente o expresso. Sua função mediadora constitui um ponto de conexão onde se produz a transição entre duas realidades, participando de ambas: como sujeito dinâmico, ou como objeto estático.

Sua função intermediária como sujeito, poderia ser representada geometricamente com a vertical, que percorre duas direções: ascendente-descendente-ascendente. E a sua função como um objeto estático poderia ser ilustrada com a horizontal, que é um reflexo da força vertical no plano da realidade sensível na qual aquela se expressa. E onde também sua ambivalência ocorre, gerando assim as leis da simetria, a esquerda e a direita no cosmos.

Esta polarização está presente em tudo o que é assinalado pelo espaço e pelo tempo, e se refere ao passado e ao futuro, ao passivo e ao ativo, à concentração e à expansão, à atração e à repulsão, e à toda dualidade complementar de opostos que possibilita a ordem e o equilíbrio cósmico, e que o símbolo testemunha sem fazer exclusões.

A simpatia, ou a sintonização de uma onda ou vibração rítmica comum, faz com que duas coisas se correspondam, pois o similar atrai o similar e se une a ele. A atração produz a complementaridade e a fecundação, a divisão adota a ruptura e a expulsão. Para que duas coisas se atraiam mutuamente é necessário que haja em uma parte da outra, e nesta algo daquela.

Estas situações se dão em distintos níveis de profundidade e planos de relação. E é necessário que exista afinidade para que a harmonia rítmica se produza. Deste modo se requer que a disposição ou a forma dos entes associados se corresponda para que se dê a conjunção harmônica. Isto quer dizer que estejam “desenhados” de tal ou qual maneira para que o acoplamento seja possível; que estejam invertidos uns quanto aos outros. Tal o passivo e o ativo (a taça e o líquido que a enche), o côncavo e o convexo (a matriz e aquilo que se plasma nela).

A analogia é a relação entre um objeto e outro objeto, entre um plano e outro plano, que vibram na mesma frequência. Tem-se dito que a analogia é correspondência rítmica. E o símbolo é a unidade analógica entre um plano e outro plano, ou entre um objeto e outro. Também pode-se dizer que ele é o mensageiro de uma energia-força, que lhe dá forma, e que atua magicamente através dele.

De fato, todas as formas se reduzem a escassas estruturas primárias, que estão na base prototípica de qualquer manifestação. Este conjunto de módulos e imagens se acha também simbolizado ordenadamente pelas representações geométricas em correlação com o denário numeral, as quais, conjuntamente, tornam possíveis todas as construções matemáticas[2]. No código da linguagem alfabética-fonética, as letras e as sílabas têm essa mesma função sintetizadora-geradora, seja olhando do ponto de vista da manifestação verbal para suas origens, ou contrariamente, desde sua fonte original para sua solidificação ou concreção em palavras ou orações. O símbolo, ao sintetizar em si todas as possibilidades expressivas, está manifestando em nossa ordem sensível e sucessiva a simultaneidade do conhecimento, que se traduz na pluralidade de seus significados. A analogia é uma lógica fundamentada nos mecanismos de associação. O universo é uma malha de estruturas interdependentes, incessantemente relacionadas umas com as outras. Estímulos e respostas que, por sua vez, têm que gerar novas respostas.

Também os povos em sua história realizam esta constante esquemática comunicando-se pelo intercâmbio e pela guerra. E este fluxo e refluxo forma parte da estrutura do mundo. Duas correntes, telúrica e cósmica, que são a própria tessitura do universo, que ao se atraírem, unem-se, e ao se expelirem, rechaçam-se, opondo-se, para voltar a juntar-se em uma associação que materializa a possibilidade e a continuidade da vida, assegurando sua difusão; já que estas correntes se buscam simultaneamente, pois cada uma delas tem em sua constituição duas partes que, ao se oporem, complementam e, inversamente, um núcleo que ao se refletir, polariza.

É graças à cadência inefável da linguagem simbólica, e sua reiteração ritual, que se geram os códigos e se repete o modelo cósmico presente em cada uma de suas partes constitutivas, pois elas pertencem ao corpo simbólico e reiteram o arquétipo de que têm que derivar todos os modelos possíveis. Da arquitetura do cosmos às arquiteturas particulares e, contrariamente, das arquiteturas particulares à arquitetura cósmica. Esta é a maneira viva e permanente do que, expressando-se a si mesmo, manifesta a lei em que se criam, transformam e conservam os seres e as coisas. Em uma metamorfose constante, que não vai nem vem, pois constitui um circuito perpétuo, um todo contínuo, que se regenera conjuntamente com o nascimento diário do sol, e que se revela corretamente com o tempo.

Mas é necessário, para que esta ordem horizontal indefinida de multiplicação, morte e retorno, tenha sentido, que exista alguma inter-relação em profundidade volumétrica, a qual se representa no plano horizontal pela vertical, como símbolo de outro plano ou mundo, o que chega a constituir um sistema de coordenadas que nos dá conta do alto e do baixo –para equilibrar desta forma a imagem fugaz do devir, fazendo-a significativa e hierarquizando-a, completando assim o enquadramento onde as coisas se buscam a si mesmas, em seus distintos planos de existência e modos de realidade e onde se conjugam com outras que a sua vez imitam a mesma estrutura. É esta interação a que dá lugar ao espaço tridimensional, que se apresenta como um sólido, produto das tensões e dos ritmos internos, do entrecruzamento multidimensional das coordenadas, que criam um sistema coerente, uma rede ou um quadriculado, que é a base a partir da qual se possibilitam as formas e a substância em que elas aparecem manifestadas. Esta ordem é um delicado equilíbrio permanentemente instável, que se refere uma e outra vez a si mesma, sendo sua identidade a afirmação de seu ser na temática “vida, morte, ressurreição”, configurando um ciclo ou roda, que volta para suas origens depois de realizar um percurso completo. Constitui, pois, um entrecruzamento vertical-horizontal de dois planos ou energias simultâneas, que se reciclam indefinidamente, como uma roda dentro de outra roda, ou como o símbolo plano da cruz de braços iguais inscrita em uma circunferência. Mas para que este projeto ficasse assegurado era indispensável que uma coisa fosse o símbolo e outra o simbolizado. Que o valor de um e de outro fosse determinado não só por sua correspondência harmônica, mas também pela situação de primazia que faz com que um simbolize o outro, e não o contrário, apesar da analogia que os faz solidários, mas invertidos, enquanto que um reflete a energia do outro, reconvertendo-a, e a difunde fazendo-a inteligível.

No simbolismo, o de ordem menor está simbolizando o maior, e não o inverso. A roda simboliza o movimento universal, e não este movimento se encontra simbolizando a uma roda específica, individualizada. Uma imagem ou um modelo do cosmos, simbolizam ao universo e não é este universo o símbolo de um modelo ou imagem particular; assim, quer se trate do modelo da roda, ou o da cruz tridimensional, ou o da árvore da vida sefirótica. O mesmo quando se diz que uma pessoa nascida sob o influxo zodiacal de Leão está relacionada com o sol, não se diz que Leão, e menos o sol, são os símbolos de tal ou qual pessoa concreta. Sem esta condição, o símbolo nada simbolizaria e não teria razão de ser, e a simbólica seria uma mera constatação de formas aparentadas. É a revelação de um alto segredo cognitivo, manifestado por uma forma inteligível, o que caracteriza uma transmissão de energias ordenadora, que faz possível, por outra parte, o fluir de seu discurso existencial.

A regeneração é a possibilidade de que tudo seja sempre novo e agora, de que a existência seja real e não um vago teatro de sombras indetermináveis e flutuantes. O símbolo é o ponto de contato entre a realidade que ele cristaliza e a roupagem formal com o que se veste para fazê-lo. Esta vestimenta tem que ser agradável e correlativa com a ideia que expressa, para que esta possa ser compreendida na verdade. Então manifestará cabalmente a energia-força que o conformou e poderá transmiti-la no contexto adequado, que ele mesmo condicionará, pela atualização de sua potência. Inversamente se pode dizer que esta energia inteligente transcende ao símbolo considerado como mero objeto estático, ou suporte de conhecimento. E sendo assim, ele nos permite passar por seu intermédio de um plano de consciência a outro, constituindo-nos em protagonistas do conhecimento, vale dizer, do ser, já que existe uma identidade entre o que se é e o que se conhece. Atualizam-se, então, as potências imanentes do símbolo, e a ideia-força do simbolizado se compreende em todo seu esplendor, já que foi manifestada adequadamente. Através da identificação com o símbolo e com o conhecimento paulatino nascido da reiteração ritual e revivificante de sua energia acontece o simbolizado, que esteve oculto na estrutura simbólica, e que esta não deixou nunca de expressar. Toda linguagem inclui uma metalinguagem, e na verdade não haveria linguagem sem metalinguagem ou translinguagem. A translinguagem metafísica se expressa pelo modelo do universo, ou plano da criação. Quer dizer, a níveis inteligíveis e sensíveis, em razão de que a linguagem e o físico existem para este fim, constituindo códigos simbólicos de manifestação e revelação.

Conhecer é apreender aquilo que se conhece. É realizar uma síntese, de tal forma que a união do sujeito e o objeto do conhecimento seja o conhecer. Que o que conhece, seja idêntico à coisa conhecida. Trata-se então de uma conjunção de opostos, graças à qual se produz o conhecimento. Esta união complementar é a mesma que se obtém em e pelo amor, produzida também pela atração de oposições que se conjugam e que dessa forma recriam a unidade originária –qualquer seja o nível em que aconteça–, estabilizando o equilíbrio geral, além do particular. É por meio da unidade e sua irradiação que se atualiza perenemente o ato criativo. Isso se pode ver em qualquer código, série, agrupamento ou estrutura. Repete-se um esquema no qual estão implícitas suas modalidades de desenvolvimento e conservação, e também seu próprio fim através da multiplicação de suas possibilidades. Até que estas se sintetizem novamente no essencial, para então voltar a difundir-se, e passar novo hálito ao ritmo vital. A unidade é o símbolo mais alto de todos, o símbolo por excelência, porque leva em si a potencialidade do simbolizável. O princípio ontológico é a razão de ser do símbolo; e a unidade, sua manifestação simbólica. O Ser, Ele mesmo, mesmo sendo incriado, é a origem da emanação que dará lugar à concreção material.

Continua…

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

Notas

[1] – Deve haver, portanto, um parentesco, uma relação mútua entre estas duas coisas para que uma possa simbolizar a outra. Sobretudo quando se tem em conta que a de ordem menor deve sua forma à de ordem secreta, à qual expressa.

[2] – Nas civilizações que utilizavam o 5, 10 ou 20 como base de sua numerologia.

 

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