O Mestre Maçom perante si próprio

Todo o maçom, desde o primeiro dia que adquiriu essa condição sabe que o seu maior inimigo é aquele que vê quando, de frente, olha para o espelho. Mas também sabe que a melhor maneira de acabar com o inimigo não é prendê-lo (pode sempre libertar-se…), ou matá-lo (pode dele fazer um mártir ou herói para outros, e assim afinal multiplicar os seus inimigos…). A melhor maneira de acabar com o seu inimigo é fazer dele seu aliado, seu amigo. A amizade tem mais força que a força…

Todo o maçom sabe, desde o dia em que adquiriu essa condição, que dentro de si convive o que potencialmente o destrói, o desvaloriza, o apouca – os seus vícios, os seus defeitos – e o que o engrandece – as suas virtudes e capacidades. Por isso aprende que é crucial cavar masmorras aos seus vícios e cultivar suas virtudes. Só assim aquele que vê quando, de frente, olha para o espelho deixará de ser o inimigo que arrasta para as sombras da depravação para passar a ser efetivamente o aliado amigo que acompanha no caminho para a Luz.

O Mestre Maçom, quando se coloca – o que deve fazer com frequência… – perante si próprio, deve sempre recordar-se que o esforço para ser melhor pode não necessitar de ser muito grande, mas inevitavelmente tem que ser contínuo. Tal como aquele que anda de bicicleta precisa de manter o movimento para não cair, assim aquele que cessa o esforço para melhorar verá degradar-se o que atingiu.

Assim, a palavra que, no meu entendimento, se deve utilizar para ilustrar o que se impõe ao Mestre Maçom perante si próprio é “persistência”.

Persistência no contínuo esforço de melhoria. Persistência em aprender e ensinar e em aprender ensinando. Persistência no Estar como meio para o Ser. Persistência em fazer, dia após dia, mês após mês, ano após ano, mais do mesmo, como forma de descobrir, afinal, que o mesmo continuamente se reinventa e, quando damos por ela, já é outro e melhor.

Persistência no trabalho mais importante que existe, o trabalho em si próprio, o trabalho que lhe permite reconhecer-se e ser reconhecido como aquilo de que se apelida, Maçom.

Persistência no lapidar da única obra que, apesar de todas as obras que construa ou que crie, afinal realiza durante o tempo que passa neste plano da existência, a sua verdadeira obra-prima, a sua vida e quem a vive.

Persistência na busca da forma de melhorar o que parece bom, mas pode sempre ser um pouco melhor – para descobrir que, após a melhoria, o que é melhor, pode ainda ser melhorado mais um pouco, desde que… persista no trabalho.

Persistência na lapidação da sua Pedra Bruta até conseguir dar-lhe a desejada forma de Pedra Cúbica. Persistência para polir essa Pedra Cúbica, face a face, para bolear bem as arestas, uma a uma, para que essa Pedra Cúbica seja capaz de ser encaixada onde deve, seja sólida para bem assegurar o seu papel, se enquadre harmoniosamente entre as demais, aumentando com o seu brilho o brilho das vizinhas.

Persistência para nunca se sentir satisfeito, para ter a noção de que é sempre possível fazer e ser um pouco melhor e para efetivamente agir para assim fazer e ser – e descobrir que continuar a lapidar uma Pedra Cúbica não a faz mais pequena, paradoxalmente engrandece-a.

Persistência em ser realmente e completamente aquilo que se reclama ser: Mestre Maçom!

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Era vulgar e Era da Verdadeira Luz

Era – do latim aera, substantivo feminino, designa, dentre outros, o ponto determinado no tempo, que se toma por base ou referência para a contagem dos anos. Exemplo: a Era Cristã.

Sob esse aspecto o termo também representa o número de anos provindos a partir de algum acontecimento notável, cuja expressão época sugere o momento primordial desse episódio. É o caso bastante apropriado, por exemplo, no que se refere ao próprio começo dos tempos, ou o princípio do mundo.

Embora essa concepção seja ainda hoje especulativa, é graças a ela que muitas civilizações e religiões adotaram a sua própria “Era” relacionada à criação do mundo. Dentre outros, os Judeus, por exemplo, concebem-na a partir do Pentateuco no primeiro livro de Gênesis, enquanto os Cristãos idealizam-na a partir do nascimento de “Jesus Cristo”.

Vulgar – do adjetivo latino vulgare, menciona dente outros o que é relativo ou pertencente ao vulgo; comum, trivial, usual.

O termo “vulgar” relacionado à “era” (tempo) está presente, segundo alguns autores, embora ainda discutível, desde que os judeus estabeleceram o título “Era Vulgar” em substituição ao “antes e depois de Cristo”, fato que viria servir de parâmetro para designar o mundialmente conhecido Calendário Gregoriano [1], já que a Era Cristã e a Era Vulgar por força das circunstâncias se tornariam análogas.

Em se tratando de Maçonaria e o seu particular calendário, neste, o primeiro ano rotulado que aparece em antigos documentos do século XVIII é o Ano da Verdadeira Luz, em latim Anno Lucis, tido como a “idade dos cortadores de pedra” (Age of Stonecutters).

Buscando dar uma classificação independente de religião, bem como também dar um caráter de universalidade à Ordem, James Anderson, autor da Constituição de 1.723, baseado nos cálculos do bispo irlandês anglicano James Usher que houvera desenvolvido um estudo relativo à criação do mundo conforme o Livro de Gênesis e nos comentários críticos da massorat [2]segundo os quais a criação do mundo teria ocorrido em 4.004 antes de Cristo, Anderson então cogitou no texto constitucional que o início da Era Maçônica havia se dado 4.000 anos antes da Era Vulgar ou Era Comum (antes de Cristo).

Embora se perceba um pequeno arredondamento de quatro anos entre o resultado proposto por Usher e o adotado por Anderson prevaleceria maçonicamente o acréscimo da constante de 4.000 anos somada à Era Vulgar [3], cujo ano teria a mesma duração do Gregoriano, com a diferença de que o ano maçônico começaria no dia 1º de março, tendo os títulos dos meses designados conforme o seu número ordinal correspondente. Exemplos: segundo Anderson, o dia 1.º de março de 2.014 da Era Vulgar (E.V.) corresponde ao dia 01 do mês 01 do ano de 6.014 da V.L.; dia 10 de junho de 2.014 da E.V. corresponde ao dia 10 do mês 04 do ano de 6.014 da V.L.

À bem da verdade essa inserção de Anderson não pode ser considerada como uma regra geral e única adotada pela Moderna Maçonaria (a partir de 1.717), até porque com a evolução e a proliferação de ritos e sistemas maçônicos, particularidades nesse sentido devem ser criteriosamente observadas, sobretudo sobre o ponto de vista cultural e até mesmo religioso que possa envolver o costume.

Assim é o caso, por exemplo, de uma grande parcela dos trabalhos inerentes ao franco-maçônico básico da Maçonaria anglo-saxônica, bem como o Rito Moderno, ou Francês que adotam o calendário da Verdadeira Luz conforme o anteriormente mencionado, enquanto que o Rito Adonhiramita (origem francesa) adota um calendário equinocial que, embora também mantenha a mesma constante de 4.000 acrescida à Era Vulgar, tem o ano maçônico iniciado – ao invés do dia 1º – em 21 (vinte e um) de março que corresponde ao primeiro dia do primeiro mês.

Já no caso do simbolismo do Rito Escocês Antigo e Aceito (também filho espiritual da França), provavelmente pela forte influência hebraica exercida sobre ele, adota para a Verdadeira Luz a constante de 3.760 [4] somada à Era Vulgar (gregoriana) entre os dias 1º de janeiro até 20 de setembro e 3.761 entre 21 de setembro e 31 de dezembro. Nesse caso o ano maçônico tem início em 21 de março no equinócio de primavera no hemisfério Norte o que por certo aspecto até se confunde com o calendário religioso hebraico (judaico) que é lunar e geralmente começa também no ponto vernal que ocorre na meia-esfera boreal do Planeta, cujo primeiro mês tem o nome de Nissan. Assim no simbolismo do Rito Escocês o dia 21 de março de 2.014, por exemplo, corresponde ao 1º dia do 1º mês Nissan do ano de 5.774 da Verdadeira Luz (2.014 + 3.760 = 5.774), enquanto o dia 21 de setembro de 2.014 corresponde ao 1º dia do 7º mês Tishrei ou Tishri do ano de 5.775 da V.L. (2.014 + 3.761 = 5.775).

A explicação para a diferença de constantes (3.760 ou 3.761) é porque o ano civil hebraico (judaico) geralmente quase coincide no seu princípio com o início da estação do outono no hemisfério Norte (21 de setembro). Assim o calendário hebraico (judaico) se constitui pelo ano religioso e pelo ano civil, cujos respectivos inícios se dão muito próximos aos equinócios de primavera e outono no Norte. O religioso no mês Nissan próximo a 21 de março e o civil no mês Tishrei ou Tishri conexo a 21 de setembro.

Vale a pena mencionar que é no sétimo mês (Tishrei) que ocorre o Rosh Hashaná [5], o Yon Kippur [6] e o Sucot [7].

A título de ilustração, em se tratando de Rito Escocês Antigo e Aceito e citando como exemplo os seus Supremos Conselhos norte-americanos, em linhas gerais eles adotam o termo Ano do Mundo (Anno Mundi) em lugar do título Verdadeira Luz e usam também a constante de 3.760 somada à Era Vulgar, porém a partir de 1º de janeiro até 31 de agosto e 3.761 a partir de 1º de setembro até 31 de dezembro. Nesse particular o ano se inicia em primeiro de setembro do ano em curso e se encerra em trinta e um de agosto do ano seguinte. Os meses são designados por numeração ordinal, assim setembro é o primeiro mês, enquanto agosto, por exemplo, é o décimo segundo e último mês.

Também na Maçonaria e conforme os costumes e práticas ainda pede-se encontrar outros cálculos inerentes ao calendário, todavia os até aqui mencionados são os principais e os que mais aparecem dentro do franco-maçônico básico.

Em resumo a Era da Verdadeira Luz pode ser encontrada nos conceitos maçônicos adicionando-se as constantes de 4.000, 3.760 ou 3.761, conforme o caso, ao ano da Era Vulgar (calendário Gregoriano).

Antes de dar por concluídas as considerações, vale a pena aqui mencionar que o ideário relacionado aos calendários maçônicos e a sua afinidade com fatos históricos e lendas religiosas do passado é apenas e tão somente simbólica, não incentivando ninguém a imaginar a existência da Maçonaria junto ao princípio do mundo. O conceito provavelmente foi idealizado no intuito de simbolizar uma antiguidade para pragmática maçônica, e não a idade da Sublime Instituição que verdadeiramente possui aproximados oitocentos anos de história.

Graças ao ufanismo de alguns somados às falsas interpretações do calendário por outros é que no Brasil arrumaram uma data equivocada para a independência do Brasil dentro da Loja Comércio e Artes como sendo no dia 20 de agosto e ainda por cima sacramentaram mais tarde o erro histórico constituindo para falsa data o Dia do Maçom. Pelo calendário equinocial usado pela Maçonaria na época da Independência, 20º dia do 6º mês (início do sexto mês em 21 de agosto) correspondia no calendário gregoriano dia 09 de setembro da E.V. (Boletim do GOB datado no ano 1.874 da E.V.). No dia 20 de agosto da E.V. nem mesmo houve sessão no GOB, fato que pode ser verificado nas suas próprias atas de ouro concernentes à época.

Autor: Pedro Juk

Fonte: Blog do Pedro Juk

Notas

[1] – O Calendário Gregoriano é um calendário de origem europeia, utilizado oficialmente pela maioria dos países. Foi promulgado pelo Papa Gregório XIII (1.502–1.585) em 24 de fevereiro do ano 1.582 pela bula “Inter gravissimas” em substituição do calendário Juliano implantado pelo líder romano Júlio César (100 – 44 a.C.) em 46 a.C. Como convenção e por praticidade o Calendário Gregoriano é adotado para demarcar o ano civil no mundo inteiro, facilitando o relacionamento entre as nações. Essa unificação decorre do fato de a Europa ter, historicamente, exportado seus padrões para o resto do globo.

[2] – Massorat – conjunto dos comentários críticos e gramaticais acerca da Bíblia – sobretudo o Velho Testamento – feitos por doutores judeus – os massoretas.

[3] – Era Vulgar, Era Comum ou Era Cristã correspondem ao ano pertinente no calendário gregoriano.

[4] – 3.760 – De acordo com a tradição judaica, a contagem é feita a partir da criação de Adão o primeiro homem (a Torá hebraica – primeiro livro de Gênesis). Para o cálculo do ano judaico, basta acrescentar 3760 ao ano do calendário gregoriano (levando em consideração que nos meses de setembro/outubro, começo do ano civil judaico, se acrescenta um a mais ao ano corrente).

[5] – Rosh Hashaná – é o nome dado ao Ano-Novo judaico e significa literalmente “cabeça do ano”. Rosh Hashanáocorre no primeiro dia do mês de Tishrei, primeiro mês do ano no calendário judaico rabínico, sétimo mês no calendário religioso e nono mês no calendário gregoriano.

[6] – Yon Kippur ou Ioum Quipúr é o Dia do Perdão, uma das datas mais importantes do Judaísmo. No calendário judaico começa no crepúsculo que inicia o décimo dia do mês hebreu de Tishrei (que geralmente coincide com setembro/outubro), continuando até ao seguinte pôr do sol. Os judeus tradicionalmente observam esse feriado com um período de jejum de 25 horas e oração intensa.

[7] – Sucot (do hebraico sukkot, cabanas) é um festival judaico que se inicia no dia 15 de Tishrei de acordo com o calendário judaico. Também conhecida como Festa dos Tabernáculos ou Festa das Cabanas ou, ainda, festa das colheitas visto que coincide com a estação das colheitas em Israel, no começo do outono. É uma das três maiores festas, conhecidas como Shalosh Regalim, onde o povo de Israel peregrinava para o Templo de Jerusalém. Nos dias de hoje multidões se reúnem na oportunidade aos pés do Muro das Lamentações.

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A Maçonaria Operativa e o seu trabalho – Parte II

Labirinto da Catedral de Chartres, França.

O simbolismo nas catedrais góticas

Este trabalho apresenta a atuação dos maçons operativos, os artífices da cantaria e a colocação em prática de todo o estudo matemático e filosófico para o desenvolvimento do pedreiro livre que atuava nas guildas, também destaca o simbolismo praticado nas construções dos grandes templos, desde os fundamentos até o acabamento das obras e que ficou de herança para observação depois da construção das catedrais góticas que são um exemplo de trabalho dos construtores da chamada baixa Idade Média na França do século XII.

3 – O trabalho do maçom operativo

Qual a finalidade das construções tão bem traçadas, o que significa cada elemento da fachada das catedrais, os vitrais que inundam as igrejas de luz e cores tinham um significado mais profundo dentro de uma filosofia oculta, quais ferramentas foram empregadas, como estes trabalhadores livres iniciaram obras tão belas, difíceis e de longa duração e mantiveram a exatidão dos trabalhos para a sagração de um templo com requintes fortes e uma engenharia tão complexa, ao longo deste trecho vamos observar tudo isto e aprofundar a visão do maçom operativo, como este homem se fortalecia ao mesmo tempo em que mantinha o foco em uma construção tão imponente.

Podemos contar com o manuscrito de Villard de Honnecourt da Picardia, na França escrito no século XIII (FILHO, 2005). Honnecourt, foi um importante mestre pedreiro e ele deixou documentos registrados sobre o trabalho de construção das catedrais góticas, ainda hoje seus trabalhos são estudados por historiadores para entender como a arte da cantaria se desenvolveu na Europa, especialmente na França construção com tamanha perfeição e dotada de elementos que passam informações que mesmo aparentes, estão ocultas dos olhares profanos, cabendo o entendimento somente para aqueles iniciados na arte real, é impressionante o requinte de instruções que Villard organizou, tudo baseado na geometria, arquitetura, estereotomia [1], geometria aplicada, mnemotécnica [2], companheirismo e em outros elementos importantes para os maçons operativos da época das grandes construções na França durante a baixa Idade Média em torno já do século XIII onde as grandes catedrais se proliferam por toda a Europa.

Fica evidente que o estudo para a confecção das obras é de grande qualidade e a intenção é de elevação da mentalidade dos iniciados nestas guildas, eles estão praticando na verdade uma retomada de orientações da geometria que era uma tradição da antiguidade clássica, com isto tentam fazer uma ligação do céu com a terra ao buscar a harmonia com as leis da natureza, tentando aplicar sempre uma linguagem simbólica em suas construções, nada é feito por acaso existe ali uma transmutação humana, em uma alusão aos estudos da alquimia para a busca de uma perfeição que pode ser inserida na arquitetura para os desígnios de Deus o Grande Arquiteto, mas para sua evolução, onde a própria igreja em suas diferentes ordens propõe o estudo para o entendimento do mundo.

E foi com o compasso que o próprio Deus veio a ser representado na arte e literatura gótica, na qualidade do Criador que compôs o universo segundo as leis geométricas. É apenas observar essas mesmas leis que a arquitetura se torna uma ciência no sentido agostiniano. E ao submeter-se à geometria, o arquiteto medieval sentiu que estava a imitar a obra do seu divino mestre (SIMSON, 1991, p. 50).

Existia o entendimento que os maçons operativos com seus estudos poderiam aplicar na dimensão terrestre a dimensão celestial, usando as leis da natureza, manifestando na materialidade teriam como desenvolver a geometria sagrada aquela que poderia ser observada na construção de tudo que estava disposto no universo em que vivemos, assim poderiam entender melhor suas razões e buscar sua evolução, não para contrariar, mas para dignificar o Grande Arquiteto, mostrando que o avanço da sua construção era a vontade de seu criador mantendo uma simetria, proporção e um sentido criado anteriormente para que o pedreiro pudesse seguir aprendendo.

A ciência do arquiteto é ornada de muitas disciplinas e de vários saberes, estando a sua dinâmica presente em todas as obras oriundas das restantes artes. Nasce da prática e da teoria. A prática consiste na preparação contínua e exercitada da experiência, a qual se consegue manualmente a partir da matéria, qualquer que seja a obra de estilo cuja execução se pretende. Por sua vez, a teoria é aquilo que pode demonstrar e explicar as coisas trabalhadas proporcionalmente ao engenho e à racionalidade […] A geometria, por sua vez, proporciona à arquitetura muitos recursos. Em primeiro lugar, logo a seguir às linhas retas, ensina o uso do compasso, com o qual se efetuam muito mais facilmente as representações gráficas dos edifícios nos seus próprios locais, juntamente com a ajuda dos esquadros, dos níveis e dos direcionamentos de linhas. Em segundo lugar, porque, através da óptica, se orientam corretamente os vãos de iluminação nas construções, a partir de determinadas zonas da abóbada celeste. E, por último, porque, através da aritmética, se calculam as despesas dos edifícios, se define a lógica das medidas e se encontram soluções para as difíceis questões das comensurabilidades através da lógica e de métodos geométricos (VITRÚVIO, 2008, p. 63).

Deste modo o mestre construtor partia para o trabalho onde seguia algumas etapas dominadas por ele, aplicando assim conceitos de geometria plana, estudo de astronomia, alquimia e matemática aplicada, iniciava com a escolha do local e depois de organizar o espaço partia para a delimitação de um eixo vertical, seria importante colocar um mastro e com isto seria delimitado um círculo, para delimitação do espaço sagrado de construção, podemos notar aí o ponto e o círculo como um elemento importante de uso no canteiro de construção, logo depois seria o momento de usar os elementos da natureza para a marcação da obra, usando os pontos cardeais.

É importante entender que a orientação para a delimitação era feita com o uso do sol, o rito solar de característica da alquimia indica uma ação celeste para uso do terrestre, aí está a necessidade de dominar as datas de solstícios e equinócios, os dias mais longos para a delimitação da sombra no mastro, dando as indicações dos eixos da obra, no sentido Leste para Oeste desde o nascer do sol se marca o ponto decumanus [3] quando projeta a sombra no mastro até o círculo delimitado, durante o zênite na Europa o sol projeta a sombra para o Norte promovendo assim a formação do cardus [4], indicando assim os eixos de ligação e o ponto zero da obra.

Depois de criar a orientação espaço tempo o mestre partia para a delimitação dos padrões das bases, fazendo direto no chão os riscos e depois indicando com linhas os quadrados geométricos para a colocação dos pilares da catedral, iniciando pelo quadrado celeste e depois o quadrado terrestre, isto levava a uma organização de módulos geométricos que seriam riscados na prancha de delinear do mestre da obra para depois colocar os pedreiros nos diferentes setores do trabalho, a orientação deste evento era constante e deveria seguir uma filosofia, era Theo tocando o Caos e gerando a ordem, designando a figura do cosmos para a contemplação do homem.

Durante todo o processo de elevação do espaço os construtores eram instruídos e assim a guilda ia se organizando e novos pedreiros eram recebidos nos locais de trabalho, uma obra deste porte demorava muitos anos para ser concluída, obviamente os que ali passavam e se destacavam eram aos poucos instruídos e ganhavam mais espaços, podendo até ensinar novos aprendizes, assim funcionava toda a estrutura do grupo de maçons operativos que se dedicava a arte da construção.

Todos os instrumentos eram feitos de madeira, nos relatos de Villard, somente os dentes da serra e nada mais, eram de metal, além disto contavam nas construções com elementos variados como alavancas, corda reboque e engrenagens para elevadores, usados para levantar materiais mais pesados dentro das obras.

4 – Simbolismo

Na medida que as catedrais foram sendo erigidas os maçons operativos foram se aprofundando em estudos variados como cabala ou alquimia, então colocam elementos fortes na configuração de tais obras, não só na engenharia, mas na própria arte, tudo isto para continuar evidenciando sua elevação como maçom, como destaca Eco (1991, p. 16) o simbolismo na arte são figuras a que associamos em conceitos, por exemplo a cruz ao cristianismo.

Era importante para os maçons operativos utilizar os espaços como um grande centro de organização de saber, o canteiro de trabalho se torna uma grande “loja” e aos poucos as instruções vão sendo desenvolvidas com grande requinte de qualidade, os estudos advindos das escolas antigas de matemática e filosofia eram ali colocados em prática, existiam entre eles uma grande organização de companheirismo, onde usavam palavras, sinais, ainda mais, ali nos canteiros de obras tinham tradições e uma ritualística para iniciar os irmãos e depois em caso de necessidade um sistema de solidariedade como aponta os documentos deixados por Villard de Honnecourt.

Isto demonstra que desde o momento de formação da maçonaria operativa já era importante um estudo profundo de informações que deveriam permanecer ocultas, e aparentes somente para aqueles que dominavam tais estudos, naquele momento o aspecto além de ser filosófico era também sobre o trabalho e a produção de materiais e como destaca Macnulty (2007, p. 101) a simbologia é uma forma de transmissão do conhecimento e que a maçonaria especulativa deriva a maior parte de seus símbolos da arte operativa.

Quando o mestre de obras fazia a designação dos espaços e traçava os planos ele na verdade estava usando uma grande simbologia de estudos para a construção, usando a relação do tempo que movimenta o espaço acaba recriando através daquela delimitação física, ou tenta recriar, os ciclos do universo, dia, mês e ano, vida e morte, sendo uma grande designação do cosmos, elemento importante na obra que é feita pela mão do criador e naquela dimensão terrestre pode ser copiada aplicando a geometria sagrada.

Iniciando pelo altar no ponto ao Leste a referência seria o Oriente onde representa a formação da criação, onde nasce o sol, ali o nascente, a infância, ou
dos elementos da natureza seria a primavera, representação da cor verde nos vitrais, depois se dirige para o Sul onde seria o mundo manifestado e a plenitude da vida, o elemento terra ou o verão a maturidade ou fase adulta a cor dos vitrais seria o amarelo, local de maior quantidade de sol, seguindo sua jornada iria para a parte Oeste ou ocidente, região do sol poente, a velhice, indicando o período do outono, final dos tempos, o tom dos vitrais seria o vermelho, local da entrada do templo, onde ficam as portas principais, por fim o Norte o mundo oculto espiritual, indicando a noite ou o céu, representa a estação do inverno e sua cor nos vitrais seria o azul escuro, local de menor quantidade de sol no templo.

Este simbolismo empregado de grande representatividade parece indicar que todos que procuram uma catedral estão na verdade buscando por uma evolução, passam por um estudo da vida, a disposição do espaço pelos construtores tenta criar uma consciência naqueles que conseguem ler os elementos, fazendo assim uma jornada para sua renovação, indicando que ao entrar pela porta principal estão indo em direção ao altar para se renovar, saindo de um mundo exterior e rumando para outro de instruções para evolução de consciência.

O uso de elementos cardeais com relação a jornada da vida ou ainda com os ciclos do ano são também uma clara indicação de que tudo está conectado, céu e terra e que a passagem deve ser feita com uma finalidade, para que possam despertar novas possibilidades de saber, viver e conhecimento, mas obviamente tudo isto estava oculto e colocado à disposição para quem quiser ver, como destaca Saint-Exupéry (1989, p. 56) Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.

Outro elemento simbólico um tanto forte colocado nas catedrais e que pode ser visto logo no momento da entrada no átrio inicial são os labirintos, dispostos na parte leste indicam que ao entrar este procura um caminho, está desorientado, ao rumar por este local ele pode ir até o fundo de si mesmo, jogando aos poucos luz no que é importante, este labirinto pode representar a saga humana em busca dos elementos fundamentais e que todo o ser que estuda o simbolismo procura em si e no universo, o que pode ser a salvação, sabedoria, felicidade, dependendo das suas referências elementares.

Podemos lembrar que o elemento labirinto já faz parte do estudo mitológico grego, Teseu mata o Minotauro e depois sai deste local para regressar para sua vida plena, o uso destes elementos de simbolismo pode ser aplicado nas construções de estilo gótico como uma clara interpretação de iniciação dos trabalhadores, não se pode afirmar com categorização, mas lembrando que no trabalho da maçonaria operativa nada era aleatório, ou fora de uma conexão, podemos interpretar que os pedreiros estudavam muito os simbolismos antigos e com a construção destes espaços poderiam agora materializar seus estudos, o espaço arquitetônico ou urbanístico era a chave para ligar a ação de Theo o grande arquiteto na figura do sagrado com o Chaos o terreno e material, formando assim o cosmos na união dos elementos para o estudo do maçom operativo.

De toda forma a questão mais importante é que os maçons operativos conseguem desenvolver uma gama de conhecimentos fundamentais e são eles os responsáveis por elevar grandes templos, a idealização de um espaço sagrado foi feita e edificada, todos podem ver e tocar, frequentar, com uma nobreza e paz que só podia vir de Deus.

Agora, essa visão descera do Céu a Terra. As paredes dessas igrejas não eram frias e intimidativas. Eram formadas de vitrais policromos, que refulgiam como rubis e esmeraldas. Os pilares, nervuras e rendilhados despediam cintilações douradas. Tudo o que era pesado, terreno e trivial foi eliminado. Os fiéis entregues à contemplação de toda essa beleza podiam sentir que estavam mais próximos de entender os mistérios de um reino além do alcance da matéria (GOMBRICH, 1993, p. 141).

Elementos matemáticos, estudos filosóficos, o trabalho manual, o uso de alegorias, tudo isto era possível, o estudo aprofundado, a instrução simbólica aplicada na arte da cantaria estava pronta, estes maçons operativos faziam a análise dos conceitos clássicos, instruíram outros irmãos, mas o fundamental é que continuavam a edificação de seu templo interior com dignidade e humildade.

5 – Considerações finais

Ao longo deste trabalho podemos notar que a ação dos pedreiros operativos buscava a formação de catedrais com uma arquitetura especializada, isto seria fruto de uma tentativa de conexão filosófica e ao mesmo tempo material, buscavam uma evolução e ligação entre o céu e a terra, o humano na sua construção seria o elo com o sagrado, enquanto constrói ele pode evoluir em si naquela busca pelo saber que é a essência da vida para o maçom que se dedica.

A proporção áurea ou secção áurea que os gregos empregavam na arquitetura dos templos são estudadas pelos pedreiros e os padrões geométricos e matemáticos recorrentes na natureza são amplamente usados na arquitetura gótica, a intenção é fazer das igrejas um espaço de religação do profano com o sagrado pela construção, buscando uma evolução, e o ponto zero ou seu pináculo seria a marcação do local de início da obra, referenciando que ali seria o dedo de Deus indicando a sua sagração para o uso do espaço.

Podemos dizer que a França foi a pioneira na organização da arte gótica e que o Abade Suger com a catedral de Saint-Denis deu todo o direcionamento para que o estilo pudesse seguir com força total, mas historicamente quando ocorre uma transformação nos estilos arquitetônicos os historiadores indicam que existe um período de adaptação, em alguns casos em torno de até trezentos anos para que se diminua a interferência de um e se torne forte a estruturação de outro estilo, mas isto não ocorreu com o gótico, podemos notar que surgiu no século XII na França e já foi dominando e finalizando as ações do estilo românico, em uma clara demonstração que ele já se coloca maturado, indicando assim que ao ser colocado em prática existiam outros estudos sobre sua forma de uso, seria então no oriente, onde os monges estiveram e conseguem aprender sobre as bases de construção para depois colocar em prática assim que voltar para a França.

Ao observar as obras e suas alegorias encontramos muito do que ainda é aplicado em lojas maçônicas, principalmente naquelas que seguem os ritos de origem latina, obviamente agora podemos ter uma ideia de onde os maçons especulativos tiram alguns elementos alegóricos e vários simbolismos, já que os Ritos como o REAA e o Rito Adonhiramita são fruto das atividades da escola maçônica francesa de certeza, e para enumerar podemos observar o uso de elementos como mobília ou ainda instrumentos de trabalho que os maçons operativos aplicavam, mas uma questão que podemos destacar que é empregada de forma geral no ritual de iniciação são a corda reboque que já era empregada nos canteiros de obras e ganha um simbolismo e do metafórico do labirinto, pode ser que o maçom ao ser iniciado vendado esteja sim andando em um labirinto, seria aí a questão do uso deste elemento na entrada das igrejas, para fazer uma viajem de orientação para o iniciado.

O uso de pontos cardeais e a nomenclatura de alguns espaços da loja, os pontos norte, sul, leste e oeste, bem como a quantidade de luz dentro da igreja, tudo isto era estudado pelo maçom operativo e parece que de certa forma é aplicado pelas lojas simbólicas, sem falar na questão da divisão dos espaços, a colocação de colunas, tudo isto nos deixa uma clara noção que podemos interpretar ou que devemos retomar o entendimento da maçonaria operativa para que possamos evoluir na nossa atividade como maçom.

Por fim um dos pontos de maior destaque é que a arquitetura empregada vai refletir os valores de uma época e de uma sociedade, o seu simbolismo impregnado na materialidade das paredes, do piso e de todos os locais pensados para uso acabam marcando uma busca pela harmonia entre o humano e o celestial, entre o profano e o sagrado, ou seja, a evolução do saber alegórico se destaca na materialidade, aquele saber que ali fica visível para os iniciados é um saber do cosmos, feito pelo arquiteto superior e que o humano aprende a usar para dominar seus vícios e exaltar suas virtudes.

Autor: Adriano Viégas Medeiros

Fonte: Revista Ciência & Maçonaria

*Clique AQUI para ler a primeira parte do artigo.

Notas

[1] – Técnica de dividir científica e regularmente materiais de construção (pedras, madeiras, cantarias).

[2] – Arte de desenvolver a memória por meio de exercícios apropriados ou métodos específicos; mnemônica.

[3] – Do latim, decumanus era uma rua ou via, orientada Leste para Oeste nas povoações romanas.

[4] – Denota uma rua com orientação norte-sul.

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Referências

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A Maçonaria Operativa e o seu trabalho – Parte I

O simbolismo nas catedrais góticas

Este trabalho apresenta a atuação dos maçons operativos, os artífices da cantaria e a colocação em prática de todo o estudo matemático e filosófico para o desenvolvimento do pedreiro livre que atuava nas guildas, também destaca o simbolismo praticado nas construções dos grandes templos, desde os fundamentos até o acabamento das obras e que ficou de herança para observação depois da construção das catedrais góticas que são um exemplo de trabalho dos construtores da chamada baixa Idade Média na França do século XII.

1 – O simbolismo: uma breve introdução

Os maçons operativos ao iniciarem suas atividades na construção das catedrais não fizeram somente um grande trabalho de engenharia e arquitetura, se trata na verdade de um simbolismo mais profundo onde as principais leis da natureza são empregadas, tais obras são ricas em elementos e os maçons operativos tiveram que estudar e dominar várias técnicas para chegar aos altos graus de requinte para construir estes espaços.

Desde a Grécia antiga estudiosos já se dedicavam ao reconhecimento de elementos fundamentais, tudo fala pela inspiração do universo segundo os grandes filósofos, e os ritos matemáticos, proporções, estruturas são princípios da natureza e a evolução humana tratava de seguir as chamadas leis naturais que eles iam aos poucos aprendendo, deste modo o ser humano foi adquirindo conhecimento, simbolismos e tradições desde os tempos mais antigos.

Deus geometriza constantemente destacava Plutarco e ainda para Platão Deus é o grande geômetra, geometriza sem cessar, por toda a parte existe Geometria segundo Lawlor (1994, p. 16), então devemos observar como as tradições antigas chegam pelas escolas de conhecimento empírico até as guildas dos pedreiros livres e deste ponto em diante eles ao mesmo tempo que elevam templos físicos para a religião estão estudando e evoluindo em seu templo interior.

A arquitetura Gótica também merece um destaque especial neste estudo, mais precisamente a sua história de formação, afinal de onde é advinda e como ganhou suas características fundamentais, qual a sua filosofia relacionada com as proporções matemáticas, se o grande pintor e arquiteto italiano Giorgio Vasari declarava que a palavra “gótico” é em referência aos godos, povo bárbaro germano, podemos observar que existe uma ligação com a construção árabe, relações de contato dos cruzados e troca de informações entre os pedreiros e outros grupos que iniciam suas atividades principalmente na França.

Também ao longo do texto será identificado a formação de um simbolismo na construção das catedrais francesas, associando estudos do cristianismo, obviamente a conotação teológica que deveria ser usada para fortalecer a fé e que durante o período românico não era tão vista, pelo menos em sua arquitetura, também a alquimia, alguns elementos de transmutação, o maçom operativo aplica técnicas de construção, arquitetura e ocupação do espaço em uma clara alusão ao antigo sistema de estudo dos alquimistas, obviamente que se tratando de uma relação dos antigos estudos feitos durante a alta Idade Média, e a astronomia também pode ser encontrada, os alinhamentos, formação de planos e linhas com as antigas orientações de estudo, tudo isto faz parte de uma nova observação de inquirição para os maçons operativos que estão elevando prédios e ao mesmo tempo seus conhecimentos para um novo patamar.

Ao final deste trabalho a ideia é elencar a formação de uma arquitetura sagrada, idealizada pelos maçons operativos, ligando o celestial e o territorial, dando origem ao simbolismo de uma geometria que pode filosoficamente nos elevar e evidenciar a ação humana, é quando o homem chega mais perto de Deus, quando ele tenta criar uma harmonia e assim erigir suas ações, estudando, observando, destacando em segredo as filosofias que ele acredita ter interpretado na natureza e tenta colocar em prática, assim segue seu caminho em busca das virtudes teologais na edificação da razão humana.

2 – Formação do gótico

Na história da Europa as catedrais são muito importantes, pois nelas podemos ver a transformação da identidade cultural, social, religiosa e a mentalidade do povo que foi se estruturando de acordo com as necessidades que foram surgindo, inicialmente as igrejas de estilo românicas não tinham o requinte arquitetônico, o motivo era simples, a sua construção era mais para fortificação e defesa dos religiosos e não para destacar a beleza e a arquitetura do espaço sagrado para a religião e ocupação territorial elevando o espaço para o uso diante de Deus.

A alta Idade Média ainda guardava nas construções religiosas uma clara alusão ao estilo românico e mesmo com a formação do feudalismo e o desenvolvimento da igreja cristã como maior doutrina na Europa, o estilo era de fortificação, não existia uma necessidade de ornamentar os templos, uma clara herança do período romano, a forma de vida era mais simples e ruralizada então era importante manter tudo em uma constante vigilância com paredes fortes e sob grande proteção, clausura e vida interna, recolhidos em oração ou trabalho para suas ordens monásticas.

Os templos religiosos apresentavam como característica de construção poucas aberturas, paredes sólidas, grossas, baixas, um templo muito horizontal com uma idealização introspectiva, levando os sacerdotes ao recolhimento, usando como base o arco pleno romano em sua entrada principal, sempre associados aos feudos e tentando se proteger dos saques contra igrejas onde se colocavam relíquias e obras de maior valor econômico.

Até o ano de 311 d.C. As igrejas eram salas de reuniões insignificantes, mas a igreja passou a ser o supremo do poder do reino, os lugares de culto não podiam adotar os modelos antigos. As igrejas não usaram o templo pagão, mas adotou o tipo amplo de salão de reuniões que nos tempos clássicos eram concebidos por Basílica “pórtico real” antes mercado e recinto para audiências públicas de tribunal (GOMBRICH, 1993, p. 94).

Os historiadores não trabalham com uma data de origem de formação do estilo gótico, mas de forma geral, com um período e com um local, acabaram determinando a baixa Idade Média e a França como a referência para a formação deste estilo, entre os séculos XII e XIV se desenvolve principalmente na região setentrional da França, sendo chamada de “opus francigenum”, ou “obra francesa” por muito tempo.

Segundo alguns autores, a origem da palavra gótico está associada aos godos ou aos povos bárbaros do Norte, não se sabe ao certo, sendo escolhida pelos italianos do Renascimento a fim de descrever essas construções de proporções descomunais que, em sua opinião, estavam um pouco fora dos critérios bem proporcionados da arquitetura (LYRA, 2008, p. 43).

Uma das questões que deve ser ressaltada é justamente a retomada das cidades e o avanço do comércio, com isto as corporações de ofício ou guildas se tornam importantes para a estruturação dos trabalhos nas cidades que voltam a se desenvolver, neste momento podemos observar o fortalecimento da ação dos maçons a guilda dos pedreiros livres com eles o desenvolvimento de uma grande formação de construções e o gótico está ligado ao processo de transformação da mentalidade.

A igreja foi a responsável por evidenciar este processo de crescimento da cidade, usa a territorialidade para designar o poder da fé e colocar Deus o Grande Arquiteto como o centro deste espaço que estava surgindo novamente, uma observação feita é que as ordens militares já tinham contato com povos do oriente e com isto muito da engenharia e da arquitetura árabe já era dominado por grupos europeus que tinham se formado principalmente na França, isto é um indício claro que pela ação dos cruzados e dos templários a arte gótica chega até os pedreiros de ofício e eles podem assim aplicar os estudos filosóficos e estruturais para seus trabalhos de elevação das catedrais.

Em meados do século XII, o prestígio dos grandes mosteiros era incontestável. Os religiosos e intelectuais mais influentes eram monges, como abade beneditino Surger e o organizador da Ordem Cisterciense, São Bernardo de Clairvaux. Os empreendimentos artísticos eram totalmente dominados e controlados pelos principais hierarcas monásticos, e era nos mosteiros que se encontravam as melhores oportunidades de trabalho (WILLIAMSON, 1998, Introdução).

O Abade Suger de Saint-Denis foi um grande diplomata, também foi o regente da segunda cruzada e é considerado o grande organizador da arquitetura gótica na França, já que graças ao seu trabalho na Basílica de Saint-Denis a arquitetura se espalhou pela Europa, segundo consta as três portas características das entradas das igrejas são uma inspiração do arco de Constantino em Roma e a ideia era permitir o movimento maior de pessoas nos pórticos de entrada e usar as paredes como espaço de demonstração das figuras de destaque do catolicismo como santos e religiosos em geral.

Assim, os ensinamentos da igreja acerca do objetivo final de nossa vida terrena foram consubstanciados nessas esculturas do pórtico de uma igreja. Essas imagens perduraram no espírito das pessoas ainda mais poderosamente do que as palavras do sermão do pregador (GOMBRICH, 1993, p. 134).

São Bernardo de Clairvaux o idealizador das regras dos Templários ajudou na elaboração de grandes conceitos religiosos, também conviveu com o Abade Suger no Oriente durante a segunda cruzada e aproveitaram para aprofundar seus estudos em matemática e outros temas, mas também em vários outros estudos artísticos para ser aplicados nos mosteiros do ocidente, uma evidência forte que a arte gótica da construção pode ter sido organizada desta mescla de saberes entre oriente e ocidente, mas seja como for, devemos observar que neste período a formação do gótico deu um salto e principalmente na França ela
ganha um destaque formidável, para depois se espalhar pela Itália, Alemanha e outros países onde inclusive templários e as guildas dos pedreiros foram progredindo em seu ofício.

A nova concepção e estudo de construção usa a verticalização, vitrais, espaços amplos, tudo isto pedia uma grande quantidade de trabalhadores especializados e novas técnicas de produção, são iniciados então novos processos que vão ser os ícones ou as grandes referências do gótico, as construções são verticais, altas e com duas torres ornamentadas e uma agulha central que delimita o ponto zero de início da construção da catedral, indicando assim a busca pelo celestial, nestas catedrais fazem o uso de grandes vitrais e rosáceas com muita luz interna, arco ogival e arcobotante, tudo composto de uma nave central com espaço lateral e abóbadas, contraforte e gárgulas nas fachadas.

Nas catedrais góticas não eram usados simples arcos, mas sim a criação de um novo tipo de arco, que ficou conhecido como o arco ogival. Esse novo estilo de arco consiste em ser a união de dois segmentos de arco, pois assim poderia fazer um arco mais profundo no vão existente entre dois pilares (GOZZOLI, 1986, p. 50).

Junto de toda estrutura de engenharia também empregaram um estilo de vitrais e rosáceas que marcaram profundamente o recurso gótico, mas um aspecto que chama muita atenção é o elemento chamado “tracery” que pode ser traduzido como um rendilhado, que na verdade é um dispositivo arquitetônico com características geométricas muito organizada e completa com vitrais, e o Abade Surger foi o responsável por iniciar o uso deste meio, tal recurso é muito parecido com os ornamentos arabescos encontrados nas mesquitas do Oriente Médio.

Continua…

Autor: Adriano Viégas Medeiros

Fonte: Revista Ciência & Maçonaria

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A Lenda do Ofício – análise crítica: conclusão

Feita a viagem pelos caminhos da Lenda do Ofício, com paragens nos vários apeadeiros que o fluir do tempo foi proporcionando, é tempo de fazer o balanço do que se aprendeu com a jornada, recolhendo esses ensinamentos para uso no prosseguimento da exploração da vereda de nossa vida.

Já em vários dos específicos comentários aos diversos trechos da Lenda chamei a atenção para uma das suas caraterísticas: o aparecimento frequente de anacronismos históricos, no entanto explicáveis por refletirem concretizações de arquétipos, personificações de fatos praticados por anônimos, reflexos de evoluções coletivas.

Os anacronismos detectados constituem, evidentemente, entorses (ou quiçá mesmo valentes caneladas…) em relação à verdade histórica. É por isso que se trata da Lenda do Ofício, não da História do dito. Mas, se essas entorses existem e são visíveis, pudemos verificar que normalmente corresponderam, porém, a artifícios de narrativa condizentes com o plano de fundo da evolução histórica. Cobriu-se, várias vezes, a nudez forte da Verdade Histórica com o manto diáfano da Fantasia, embelezando, compondo, agrinaldando, imaginando o que mais seco, duro, quiçá desinteressante, ou até não perfeitamente conhecido, realmente terá ocorrido.

Enfim, a Lenda não é, seguramente História, mas reflete-a. A modos que um Romance Histórico. Todos, ao lê-lo, sabemos que não constitui a exata Verdade Histórica, mas com ela se aparenta, dela flui e com ela se relaciona. E, afinal, há horas para tudo: horas para ler e estudar a História pura e dura e horas para ler e apreciar Lendas, Narrativas e Romances, que bem sabemos não corresponderem inteiramente à verdade factual, mas que apreciamos pela acrescida graça e pelo estímulo da nossa fantasia e imaginação. Não sabemos exatamente como as coisas se passavam no lugar X, no tempo Y, com a pessoa Z, mas porventura terá sido assim, nas circunstâncias assado, com a atuação frito e os resultados cozido. Não sabemos se é exatamente correto, mas, pelo menos é mais nutritivo para a nossa Imaginação…

Outra caraterística a realçar na Lenda é a progressiva concretização e focalização que dela decorre. Adverti que, para os maçons operativos medievais, era comum utilizar-se Maçonaria como sinônimo de Geometria, pura ou aplicada em Arquitetura, por si ou concretizada em Construção.

Mas se verificarmos bem, não só o termo Maçonaria é, na Lenda, sucessivamente utilizado com esses significados, como evolui na sua utilização ao longo dela, das épocas mais distantes para as mais recentes e à medida que a narrativa se aproxima do lugar da sua criação, a Inglaterra.

É assim que, no início da narrativa, dedicado aos tempos antediluvianos, Maçonaria é sinônimo de Geometria, e assim continua até à narrativa de Euclides. Quando se chega à narrativa da edificação do Templo de Salomão, o termo Maçonaria começa a ser utilizado com o significado de Arquitetura e construção. E, com a entrada da narrativa pela Europa, cada vez mais o termo se refere a Construção, pura e dura e já nem sequer tanto a Arquitetura. Quando a narrativa desagua na Inglaterra, é já, claramente, este o uso do termo, detendo-se então a Lenda na descrição da criação da organização das regras da arte de construir, da organização do agrupamento profissional dos construtores “oficiais”, regras e deveres que deviam cumprir.

Lenda evoluiu da Antiguidade mais longínqua para os tempos mais recentes, com um similar movimento de evolução da utilização do termo Maçonaria do geral para o particular do ofício da construção propriamente dito.

Finalmente, ressalta de toda a narrativa o Orgulho que constituía para os construtores em pedra o estarem integrados num grupo profissional organizado, com regras, com princípios, com conhecimentos recebidos e acrescentados e aperfeiçoados desde tempos imemoriais.

Lenda do Ofício foi a narrativa de exaltação de uma associação de profissionais e da sua atividade. Com a evolução da Maçonaria Operativa para a Maçonaria Especulativa, deixando as Lojas de serem locais de trabalho, ou de regulação do trabalho ou das respetivas regras, e passando a ser locais de convívio fraterno e de trabalho, já não de construção de coisas, mas de construção e aperfeiçoamento dos autores das coisas, de Homens, esse legítimo Orgulho dos maçons operativos não é esquecido.

E a Lenda do Ofício continua a ser lembrada pelos Maçons modernos, especulativos, como narrativa respeitante a um ofício que foi, mas sobretudo como símbolo da evolução humana. Na Lenda fala-se de conhecimentos para construir palácios e templos, castelos e cidades, muralhas e torres. E com ela aprendemos que também similar evolução existiu, ao longo dos tempos, na ética dos Homens, que idênticos princípios de cooperação e organização podem inspirar o trabalho de aperfeiçoamento de cada Homem, que também a construção do Templo dentro de cada um de nós se faz, embora sem pedras nem ferramentas para as aparelhar e pousar, com regras, com o cumprimento dos deveres que aprendemos e apreendemos serem imanentes aos homens justos e leais e de bons costumes.

Ofício será porventura já de outra natureza; mas a Lenda, essa, permanece e continua a ser motivo de Orgulho para todos nós, maçons, como lembrança do que a Humanidade foi e do que cresceu, e do que evoluiu e esperança do que, melhorando cada um de nós a si próprio, a Humanidade melhorará e evoluirá.

A Cadeia de União entre os maçons é constituída pelos elos existentes em todo o globo, mas vem sendo forjada e aperfeiçoada desde tempos imemoriais – desde os tempos em que analfabetos trabalhadores construíam, por suas mãos, incríveis edifícios, que hoje nos espantam como puderam ser construídos sem os meios técnicos hoje conhecidos.

Nós, os maçons, orgulhamo-nos de descender desses construtores de antanho. De todos, desde os mais sabedores aos mais rudes e incultos.

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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A Lenda do Ofício – análise crítica: o Templo de Salomão

Do Egito, a Lenda salta para a Judeia e para a construção do Templo de Salomão. Recorde-se o texto da Lenda do Ofício, nesta parte:

Muito depois deste tempo, quando os filhos de Israel chegaram à Terra Prometida, que agora é chamada entre nós de Jerusalém, o rei David iniciou a construção do Templo que é chamado entre nós de Templo de Jerusalém. E o rei David apreciava os maçons e tratava-os bem e dava-lhes bom salário. E deu-lhes os Deveres pela forma que tinha aprendido no Egito, dada por Euclides, e outros deveres de conduta de que ouvirão falar mais tarde. E depois da morte do rei David, Salomão, que era filho de David, concluiu o Templo que o seu pai começara; e mandou vir maçons de diversos países e várias terras; e juntou-os, de forma a ter 40.000 trabalhadores em pedra e chamou-lhes maçons. E escolheu de entre eles 3.000 que determinou fossem Mestres e responsáveis pelo trabalho. E, para além disso, havia um rei de outra região que os homens chamavam Hiram, que era amigo de Salomão e que lhe deu madeira para a sua construção. E ele tinha um filho chamado Aynam (hoje designado por Hiram Abif) e ele era Mestre de Geometria e foi o Mestre Chefe de todos os maçons e foi o Mestre de todos os aparelhamentos e gravações das pedras e de toda a espécie de Maçonaria que dizia respeito ao Templo; e isto é testemunhado pela Bíblia, no Livro dos Reis, capítulo terceiro. E Salomão confirmou, quer os Deveres, quer as disposições que o seu pai tinha dado aos maçons. E assim foi a valiosa ciência da Maçonaria confirmada na terra de Jerusalém e em muitos outros países.

Em primeiro lugar, importa relembrar o anacronismo, já anteriormente denunciado, de na Lenda se datar a construção do Templo de Salomão de muitos anos depois do tempo de Euclides, quando é a inversa que é historicamente verdadeira.

Mas, excetuado este anacronismo, esta passagem da Lenda reproduz, com razoável exatidão, o texto bíblico constante do primeiro Livro dos Reis. Segundo este texto, o Templo de Salomão foi construído ao longo de sete anos (1 Reis 6:37, 38). Em troca de trigo, cevada, azeite e vinho, Hiram, rei de Tiro, forneceu madeira do Líbano e operários especializados em madeira e em pedra. Ao organizar o trabalho, Salomão convocou 30.000 homens de Israel, enviando-os ao Líbano em equipas de 10.000 em cada mês. Convocou 70.000 dos habitantes do país que não eram israelitas, para trabalharem como carregadores, e 80.000 como cortadores (1 Reis 5:15; 9:20, 21; 2 Crónicas 2:2). Como responsáveis pelo serviço, Salomão nomeou 550 homens e, ao que parece, 3.300 como ajudantes. (1 Reis 5:16; 9:22, 23). O templo tinha uma planta muito similar à tenda ou tabernáculo que anteriormente servia de centro da adoração ao Deus de Israel. A diferença residia nas dimensões internas do Santo e do Santo dos Santos, sendo estes, no Templo, maiores do que as do tabernáculo. O Santo tinha 40 côvados (17,8 m) de comprimento, 20 côvados (8,9 m) de largura e 30 côvados (13,4 m) de altura. (1 Reis 6:2) O Santo dos Santos era um cubo de 20 côvados de lado. (1 Reis 6:20; 2 Crónicas 3:8). Os materiais aplicados foram essencialmente a pedra e a madeira. Os pisos foram revestidos a madeira de junípero ou cipreste (conforme as traduções da Bíblia) e as paredes interiores eram de cedro entalhado com gravuras de querubins, palmeiras e flores. As paredes e o teto eram inteiramente revestidos de ouro. (1 Reis 6:15, 18, 21, 22, 29).

Para a época, era indubitavelmente um Templo imponente, embora não particularmente grande nas suas dimensões. Aliás, a sua edificação não foi especialmente demorada – apenas sete anos.

Escusado é relembrar que, na época da criação da Lenda, o texto bíblico era aceite e considerado como fonte histórica.

Mais uma vez se assume o conceito de Maçonaria como Geometria, em particular Geometria aplicada à construção, isto é, Arquitetura. A referência na Lenda ao Templo de Salomão assume particular importância, em virtude de, pela primeira vez, se aludir expressa e especificamente à construção de um edifício de culto religioso, em ligação com a forma de organização dos construtores. A Maçonaria Operativa da Idade Média desenvolveu-se, não totalmente, mas significativamente, mediante a construção de catedrais, por essa Europa fora, pelos pedreiros livres, isto é, os profissionais da construção em pedra (canteiros, mas também escultores, cinzeladores, mestres projetistas, etc..) livres de amarras feudais, com autorização para trabalharem onde muito bem entendessem.

Neste sentido, compreende-se que os maçons operativos tenham dado lugar de destaque ao episódio da construção do Templo de Salomão na sua Lenda do Ofício. Afinal de contas, aí remonta o primeiro registro, comummente conhecido na sua época, de construção de um edifício de culto…

Embora este episódio tenha um lugar de destaque na Lenda, sendo o último episódio dedicado à Antiguidade, dele se prosseguindo para a introdução da Maçonaria=Geometria=Arquitetura na Europa, desconhece-se ainda hoje, mesmo entre os investigadores maçônicos, a relevância que este episódio da construção do Templo de Salomão efetivamente teve, em termos simbólicos, para a Maçonaria Operativa – se é que alguma de especial teve. Sabe-se apenas que no mais antigo manuscrito maçônico conhecido, o Manuscrito Halliwell, nenhuma referência lhe é feita. Só depois, no Manuscrito Cooke, deparamos com a primeira, e desenvolvida, referência ao Templo de Salomão e à sua inclusão na Lenda do Ofício – situação que se repete nos manuscritos posteriores.

Na Maçonaria Especulativa, desenvolvida e sistematizada a partir dos finais do século XVII, início do século XVIII, o episódio da edificação do Templo de Salomão e a interação de vários personagens nela envolvidos tem um papel simbólico central. Mas esta importância não decorreu necessariamente de desenvolvimento de igual tendência já prosseguida pela Maçonaria Operativa.

Continua…

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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A Lenda do Ofício – análise crítica: Euclides

Chegados ao Egito, a Lenda do Ofício apresenta uma história tão desenvolvida e pormenorizada que bem merece uma autonomização como a Lenda de Euclides. Relembremo-la, tendo em consideração que imediatamente antes da passagem ora transcrita, se introduziu Euclides, que aprendeu bem e foi Mestre das sete ciências liberais:

E no seu tempo, sucedeu que o senhor e os nobres do reino tinham tido muitos filhos, alguns das suas mulheres, outros de outras senhoras do reino; porque aquela terra é uma terra quente e propícia a gerar. E eles não tinham encontrado modos de vida satisfatórios para os seus filhos, de que muito gostavam, e então o rei do país convocou um grande Conselho e Parlamento para decidir como poderiam encontrar um modo de vida honesto para os nobres seus filhos, e não conseguiram encontrar boa maneira. E então anunciaram por todo o reino que se houvesse algum homem que os informasse, então deveria comparecer perante eles e seria recompensado pelo seu trabalho, de forma a deixá-lo satisfeito.

Depois que este pregão foi feito, veio então o valoroso Euclides e disse para o rei e todos os seus nobres: “Se me entregarem os vossos filhos para que eu os governe e lhes ensine uma das sete ciências, de forma que eles possam viver honestamente como nobres, deverão dar-me a mim e a eles uma carta-patente, de que eu tenho o poder de lhes determinar o modo como essa ciência deve ser regulada.” E o rei e o seu Conselho concederam-lhe isso e selaram a sua carta-patente. Então o valoroso Doutor levou consigo os filhos dos nobres e ensinou-lhes a ciência da aplicação da Geometria ao trabalho de construção em pedra de igrejas, templos, castelos e palácios; e deu-lhes Deveres da seguinte forma.

O primeiro era que deviam ser verdadeiros para o Rei e para o Senhor de quem dependiam. E que deveriam gostar de estar juntos, ser verdadeiros uns com os outros. E que deviam chamar-se uns aos outros Companheiro ou Irmão, não por servo, ou escravo, ou outros nomes tolos. E que deveriam merecer o salário pago pelo Senhor ou pelo Mestre que servissem. E que deveriam designar o mais sábio deles para Mestre do trabalho e não deixar que essa designação fosse afetada por linhagem, riqueza ou favor, pois então o senhor seria mal servido e eles desonrados. E que deveriam tratar o responsável pelo trabalho por Mestre, durante o tempo em que trabalhassem com ele. E muitos mais deveres de conduta que seria longo contar. E a todos estes Deveres fez jurar um grande juramento que naquele tempo se usava; e determinou que deveriam receber salários razoáveis, com os quais pudessem viver honestamente. E que deveriam reunir-se anualmente, para discutir como poderiam trabalhar melhor e melhor servir o seu senhor, para ganho dele e deles próprios; e para corrigirem no seu próprio seio aquele que tivesse errado contra a ciência. E assim ali foi implantada a ciência; e o valoroso senhor Euclides deu-lhe o nome de Geometria. E agora é chamada em toda esta terra por Maçonaria.

Euclides viveu entre 360 e 295 antes de Cristo. Teria sido educado em Atenas e frequentado a Academia de Platão. Foi convidado por Ptolomeu para integrar o quadro de professores da recém-fundada Academia de Alexandria, a segunda maior cidade egípcia, tornou-se o mais importante autor de matemática da Antiguidade greco-romana e talvez de todos os tempos, com seu monumental Stoichia (Os elementos), uma obra em treze volumes, sendo cinco sobre geometria plana, três sobre números, um sobre a teoria das proporções, um sobre incomensuráveis e os três últimos sobre geometria no espaço. Escrita em grego, a obra cobria toda a aritmética, a álgebra e a geometria conhecidas até então no mundo grego e sistematizava todo o conhecimento geométrico dos antigos. Intercalava os teoremas já conhecidos então com a demonstração de muitos outros, que completavam lacunas e davam coerência e encadeamento lógico ao sistema por ele criado. Após sua primeira edição foi copiado e recopiado inúmeras vezes e, traduzido para o árabe, tornou-se um influente texto científico. Depois da queda do Império Romano, os seus livros foram recuperados para a sociedade europeia pelos estudiosos muçulmanos da Península Ibérica. Escreveu ainda sobre a ótica da visão e sobre astrologia, astronomia, música e mecânica, além de outros livros sobre matemática.

Como se vê desta resenha, a Lenda do Ofício de novo se apropria de um personagem histórico comprovadamente existente, mas coloca-o em tempo e circunstâncias diferentes dos que efetivamente foram os seus. Embora residindo e ensinando no Egito, na academia de Alexandria, Euclides não foi propriamente um mestre da cultura egípcia, antes um produto da cultura helenística.

Também a sua introdução como personagem da Lenda sofre de um duplo anacronismo: por um lado, coloca-o como contemporâneo de Abraão, que o antecedeu em dois milénios; por outro, coloca-o em tempo anterior à edificação do Templo de Salomão, quando viveu em tempo bem posterior, cerca de seiscentos e cinquenta anos depois de tal edificação, e até cerca de dois séculos depois da destruição do dito Templo por Nabucodonosor, em 586 a. C.

Este enxerto da obviamente fantasiosa Lenda de Euclides na Lenda do Ofício ter-se-á devido essencialmente a dois fatores: por um lado, a óbvia importância enquanto Mestre de Geometria de Euclides, bem conhecida na Idade Média, época de criação da Lenda; por outro, o reconhecimento da existência de algumas semelhanças entre o método de ensino existente entre os maçons operativos e o método esotérico de ensino seguido pelos sacerdotes do Antigo Egito.

Assim, mais do que um relato factual historicamente consistente, devemos interpretar esta passagem da Lenda do Ofício como o repositório amalgamado de crenças realmente tidas pelos maçons operativos da Idade Média:

– Que a Geometria é a base da Maçonaria;

– Que Euclides foi o maior dos Mestres de Geometria;

– Que os sacerdotes do Antigo Egito utilizavam um método esotérico de transmissão de conhecimentos similar ao método utilizado pelos maçons operativos.

Neste aspeto, a Lenda simboliza o bem conhecido fato de que, no Antigo Egito, existia uma íntima conexão entre a ciência da Geometria e o sistema religioso daquela sociedade, que esse sistema religioso incluía também a transmissão de instrução científica, de forma secreta e apenas após uma iniciação.

Esta analogia entre o sistema religioso do Antigo Egito e a maçonaria operativa da Idade Média, mais do que esta enviesada referência na Lenda do Ofício, acabou por, já na fase da Maçonaria especulativa, dar origem a ritos de inspiração egípcia e teorias – a meu ver, fantásticas e inconsequentes – que colocam a origem da Maçonaria nos Antigos Mistérios Egípcios.

Como se vê, os rudes e menos incultos do que se poderia pensar trabalhadores da construção em pedra medievais não eram tão diferentes assim dos seus cultos e conhecedores de história e filosofia sucessores dos séculos XVIII, XIX e XX…

Continua…

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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A Lenda do Ofício – análise crítica: Nimrod

Depois da Torre de Babel, mas continuando por terras entre o Tigre e o Eufrates, prossegue a Lenda do Ofício:

E o rei da Babilônia, que se chamava Nimrod, era ele próprio um maçom; e amava bem a ciência, e isto é dito pelos mestres em História. E quando a cidade de Nínive e outras cidades do Oriente foram construídas, Nimrod, o rei da Babilônia, enviou para lá três mil maçons a pedido do rei de Nínive, seu primo. E, quando os enviou, deu-lhes um Dever do modo seguinte: Que deveriam ser verdadeiros uns com os outros e que deviam gostar de estar uns com os outros e que deviam servir lealmente o seu senhor em troca do seu salário (…). E outros deveres de conduta lhes deu. E esta foi a primeira vez que aos Maçons foram impostos Deveres da sua ciência.

Nimrod é referido na Bíblia (Gênesis, 10:8 e 1 Crónicas, 1:10) como o primeiro poderoso na Terra. É identificado como filho de Cush, neto de Cam, bisneto de Noé. O seu reino incluía as cidades de Babel, Arac, Acad e Calene, na Babilônia. Dominou também a Assíria e aí construiu Nínive, Reobote-Ir, Calá e Resem.

O historiador da Antiguidade Josephus não o descreve de forma agradável. Declara-o um tirano e imputa-lhe a decisão da construção da Torre de Babel, como um desafio a Javeh, pois seria tão alta que nenhum novo Dilúvio a poderia inundar. O plano correu-lhe mal…

Seja como seja, o desafiador e rebelde Nimrod (escritos rabínicos defendem que o nome Nimrod deriva do verbo hebraico ma-rádh, que significa “rebelar”; Nimrod seria então aquele que se rebelou contra o Deus de Noé… e sobreviveu, mesmo derrotado no seu projeto) criou o primeiro império referenciado na Bíblia, unificando sob o seu domínio as terras da Babilônia e da Assíria.

Lenda não lhe assaca, porém, a faceta de conquistador. Pelo contrário, declara-o cooperante com o seu primo, rei de Nínive, na Assíria, enviando-lhe três mil trabalhadores (maçons) para o auxiliarem na construção desta e de outras cidades. Afasta-se a Lenda da fonte bíblica de que é tão manifestamente tributária? Nem por isso. A Bíblia não apoda Nimrod de conquistador, apenas refere que ele estendeu o seu domínio à Assíria e aí construiu Nínive e as outras cidades. Se aquele território foi conquistado ou povoado, é matéria omissa. Se o rei de Nínive era seu vassalo ou aliado, também nada nos esclarece.

Curiosamente, a Lenda acaba por ser mais esclarecedora – mantendo-se na esteira do que se registou na Bíblia.

A denominação de Assíria deriva de Assur. E quem foi Assur? Foi filho de Sem. E Sem foi filho de Noé, irmão de Cam. Assur e Nimrod foram então primos (Assur foi primo direito de Cush, pai de Nimrod e, logo, segundo primo deste).

Eis como o relato da Lenda confere com o ensinamento bíblico!

Que Nimrod terá sido um grande construtor (de várias cidades), confirma-o a Bíblia e o historiador da Antiguidade. Claro que não foi pessoalmente um trabalhador da construção. Foi quem ordenou, financiou, organizou, a construção das cidades. A referência da Lenda de que foi ele próprio um maçom não quer dizer que tivesse sido um construtor ou arquiteto, antes que tenha sido o patrono, o patrão das construções. Teremos oportunidade de ver que mais vezes a Lenda atribui ao patrono de construções a designação de maçom. No fundo, maçom aceito, como, séculos mais tarde, veio a realmente suceder, originando a transição da Maçonaria Operativa para a Especulativa…

Mas a Lenda vai bem mais longe. Nimrod não foi apenas quem decidiu construir, não foi apenas um maçom aceito. Foi efetivamente o primeiro Grão-Mestre! É que a Lenda expressamente refere que foi por ele que aos maçons foram pela primeira vez impostos Deveres da sua ciência. Ora, quem tem o Poder de impor deveres aos maçons é unicamente o Grão-Mestre…

Lenda prossegue na sua senda de encarar – como era usual na época medieval da sua criação – a Bíblia como fonte histórica. E realça algo que só a Ciência Histórica moderna veio a apurar: que a Ciência, enquanto tal, nasceu na Caldeia – a região que venho designando por Babilônia.

Continua a confirmar-se que a Lenda é lenda – mas tem mais pontos de contato com a História do que se pensaria…

Continua…

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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A Lenda do Ofício – análise crítica: a Torre de Babel

No último texto, vimos como a Lenda do Ofício relata o achado por Hermes Trismegisto de um dos pilares contendo os ensinamentos de todas as ciências registados antes do Dilúvio e que este divulgou esses ensinamentos. Mas ainda estamos no domínio da teoria, da “ciência pura”. Só subsequentemente a Lenda nos confronta pela primeira vez com a aplicação prática desses ensinamentos. E fá-lo em grande estilo: nada mais, nada menos do que trazendo à colação a Torre de Babel.

O fragmento da Lenda a que hoje me dedico é singularmente pequeno, uma singela frase:

E na construção da Torre de Babel se fez o primeiro uso da Maçonaria.

No entanto, esta frase de catorze palavras apela a um dos mitos mais arreigados da Bíblia: a fantástica construção do primeiro “arranha-céus”, da Torre destinada a unir a Terra dos Homens ao domínio de Deus (ou dos deuses), a passagem do conhecido para o imaginado, a ligação entre o terreno material e o domínio do divino.

O mito bíblico da Torre de Babel culmina com o desagrado divino pela prosápia humana e com um castigo “exemplar”: para além da destruição da construção, a quebra do entendimento universal entre os humanos, mediante a sua separação em várias línguas.

O mito é interessante, na medida em que mostra a busca de uma explicação para algo que, manifestamente, intrigou os nossos longínquos antepassados: como coadunar a sua similitude essencial (e a pretensa origem única, no casal do Éden) com a variegada confusão de línguas e dialetos que os nossos antepassados distantes verificaram existir? Da unidade primitiva à multifacetada diferença, o caminho terá parecido óbvio: os estouvados humanos já então davam mostras do gênio criativo da espécie e, quais crianças insensatas, mais uma vez (a lição do Dilúvio foi rapidamente esquecida…) deram um passo maior que a perna e aspiraram para além do que deviam… E o Poder Divino, simultaneamente desagradado e temeroso (!), não se limitou a destruir o instrumento do atrevimento: tratou de minar o que, pelos vistos, seria uma ameaçadora força dos ex-símios, a sua capacidade de se entenderem e de cooperarem, condenando-os ao perpétuo desentendimento através de uma multitude de línguas. No fundo, dividir para reinar…

Esta percepção da relação do humano com o divino, embora reiterando o Poder do Inentendível, sofre do mesmo pecado que alegadamente teria sido punido e resolvido com a introdução da algaraviada de muitas línguas (sim, algaraviada, pois, embora os povos bíblicos desconhecessem ainda o Algarve, o seu Sol e praia e a mistura de línguas que por ali campeia no Verão, o Criador, omnisciente, dizem, já antecipava que lá por alturas dos séculos XX e XXI, a confusão multilingue, associada ao dialeto autóctone da região, originaria um substantivo que na perfeição ilustrava o resultado da sua punição pelo atrevimento do alçamento da Torre de Babel). Com efeito, o mito bíblico reduz o alegadamente Omnipotente ao (humilhante?) papel de se sentir ameaçado pela união humana e… ter necessidade de tomar providências!

O mito bíblico é, claramente, o resultado de uma tradição oral em que a Divindade é criada e descrita à luz da capacidade de entendimento humana, em que Deus, mais que Criador, é criatura criada pelas criaturas que terá criado, com as limitações e defeitos que a limitada inteligência das criaturas não pôde evitar…

Este mito porventura ter-se-á baseado numa difusa, desconhecida e limitada realidade, a construção de uma torre de tamanho nunca visto e o fracasso do projeto, por incapacidade técnica de o levar até à pretendida conclusão, quiçá com o recurso a mão-de-obra de diferentes paragens, tornando visível e aparente a diversidade de linguagens e o potencial de desentendimento que daí advinha, que impressionou um povo que, unilíngue, manifestamente não teria sido ainda seriamente confrontado com a diversidade linguística e os problemas daí decorrentes.

Note-se que o mito bíblico não é único, em termos de narrativa com contornos similares. Conforme se lê na Wikipédia em português, e cito, com pequenas alterações, na mitologia suméria, a rivalidade entre dois deuses, Enki e Elil, acaba por resultar, como que em subproduto das suas lutas, na confusão da Humanidade em diversas línguas. Também o Alcorão descreve uma história similar, mas alegadamente ocorrida no Egito de Moisés, em que o Faraó pede a Haman para lhe construir uma torre de barro para que ele possa subir até ao céu e confrontar o Deus de Moisés. Outra história, em Sura 2:96, menciona o nome de Babil, mas dá poucos detalhes adicionais sobre isso. Contudo, o conto aparece mais completo em escritos Islâmicos de Yaqut e de Lisan el-Arab , mas sem a torre: os povos foram varridos por ventos até à planície que foi depois chamada “Babil”, onde lhes foram designadas as suas línguas separadas por Alá, e foram depois espalhados da mesma forma. Na História dos Profetas e Reis, do historiador muçulmano Tabari, do século XIX, é dada uma versão mais completa: Nimrod faz a torre ser construída em Babil, Alá destrói-a, e a língua da humanidade, previamente o siríaco, é então confundida em 72 linguagens. Abu Al-Fida, outro historiador Muçulmano do século XIII, relata a mesma história, adicionando que o patriarca Éber (um antepassado de Abraão) tinha sido autorizado a manter a língua original, neste caso o Hebraico, porque ele não participava na construção.

Lê-se ainda no mesmo artigo da Wikipédia – e continuo a citar com pequenas alterações – que várias tradições similares à da Torre de Babel são encontradas na América Central. Uma diz que Xelhua, um dos sete gigantes salvos do dilúvio, construiu a Grande Pirâmide de Cholula para desafiar o Céu. Os deuses destruíram-no com fogo e confundiram a linguagem dos construtores. Outra lenda, atribuída pelo historiador nativo Don Ferdinand d’Alva aos antigos toltecas, diz que depois dos homens se terem multiplicado após um grande dilúvio, eles erigiram um alto zacuali ou torre, para se preservarem no caso de um segundo dilúvio. Contudo, as suas línguas foram confundidas e eles foram para diferentes partes da terra. Outra lenda ainda, atribuída aos Índios Tohono O’odham ou Papago, afirma que Montezuma escapou a uma grande inundação, depois tornou-se mau e tentou construir uma casa que chegasse ao céu, mas o Grande Espírito destruiu-a com relâmpagos. Rastos de uma história um pouco parecida também têm sido citados entre os Tarus do Nepal e do Norte da Índia; e, de acordo com David Livingstone, os africanos que ele conhecera e que viviam junto ao Lago Gnami, em 1879 tinham uma tradição assim, mas com as cabeças dos construtores a serem partidas pela queda da construção. Finalmente, o mito estônio do “Cozinhado das Línguas” também tem sido comparado com o mito bíblico, assim como a lenda australiana da origem da diversidade das falas.

Enfim, como referi na introdução a esta análise crítica,

“sucessos existem que estão marcados nas culturas de vários povos de muitos lugares. Os mitos primitivos, com algumas variantes, mais ou menos acentuadas, são comuns, na sua essência às culturas ocidentais como orientais, mediterrânicas como nórdicas, africanas, asiáticas ou europeias. Mesmo em alguns mitos dos povos primitivos do continente americano podemos reconhecer traços comuns com mitos do resto do globo.”

Mas este mito, do ponto de vista dos construtores, tinha ainda uma insuspeitada virtualidade: era a primeira referência “histórica” (recordemos que, para a mentalidade da Idade Média, a Bíblia era um documento histórico) a algo de grandioso construído em pedra. Empreendimento que não podia deixar de ter apelado ao uso dos conhecimentos da Geometria aplicados à Arquitetura e à Construção. Isto é: era a visível primeira aplicação da Maçonaria!

Não poderia, obviamente, a corporação medieval de construtores em pedra deixar de sublinhar tão insigne fato, referenciando-o na sua Lenda do Ofício!

Que a referência se tenha limitado a uma singela linha e menos de duas dezenas de palavras, não é, apesar de tudo, de admirar. Tenhamos em mente que a Torre de Babel, apesar de projeto ambicioso, revelou-se um fracasso… E, por outro lado, os mais auspiciosos inícios merecem ser recordados com a singeleza da simplicidade!

Mas importa reter que, nas insondáveis voltas do espírito medieval, duas certezas avultam: o episódio da Torre de Babel era considerado realidade histórica – e, mais uma vez, a Lenda do Ofício, continua, segundo a mentalidade e conhecimentos da época da sua criação, a basear-se em fatos históricos; e exprime-se a difusa, mas acertada, noção medieval de que a ciência aplicada nasce em terras de Babilônia (Babel), no berço de civilização que, entre os rios Tigre e Eufrates, foi denominada por Mesopotâmia – e hoje denominadas por Iraque. Voltas que a História dá!

Continua…

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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A Maçonaria, o Eu e a ideia de Morte

“Não se pode julgar da beleza da vida senão pela da morte (…)
Não se pode julgar da beleza da morte senão pela da vida.”
Isidore Ducasse – Conde de Lautrémonte, Poesias II

Segundo Deepak Chopra, o mundo é a vibração do infinito e é assim que ele existe na nossa imaginação. A filosofia vedanta afirma:

“Quando o infinito não vibra, os mundos parecem afundar-se”.

Tudo o que conseguimos pensar – uma cadeira, uma cor, uma montanha, um pensamento, um arco-íris – é apenas uma vibração diferente da nossa essência. Algo está a vibrar e a criar tudo e essa vibração está a acontecer na presença da alma. A alma vibra e cria os pensamentos. A alma vibra e cria o corpo. A alma vibra e cria todo o Universo. Todos, ao longo da Antiguidade, dos alquimistas egípcios aos filósofos gregos, afirmaram que a criação é vibração. Criar é trazer para o Ser ou para a existência. E, para criar algo de novo, é preciso morrer para o que já existe. Algo tem que morrer para que algo novo possa emergir. Assim, cada morte é um salto quântico de criatividade. Através da morte recriamo-nos a todos os níveis: ao nível do intelecto, do corpo e da personalidade. A cada morte armazenamos a sabedoria das nossas experiências desde o início dos tempos e efetuamos saltos quânticos de criatividade para que possamos olhar de novo para nós como se fosse a primeira vez. Ciclos de nascimento, transformação e morte mantêm-se frescos para que possamos imaginar novos reinos para a nossa existência.

Na Biologia há um termo denominado apoptose, que traduz a morte celular programada. Na ausência de apoptose, as células esquecem-se de morrer e esta condição é denominada por cancro. As células cancerígenas perderam a memória da morte e, na sua busca da imortalidade, matam o corpo hospedeiro do qual dependem para sobreviver. Assim, a morte é o bilhete para a vida e a morte está a ocorrer neste preciso momento no nosso corpo-mente. Nesse sentido, há algo que em nós sobreviva na morte? Antes do mais, a alma. E a personalidade, sobrevive? A personalidade não sobrevive sequer enquanto estamos vivos, porque o indivíduo que tomamos pelo “Eu” é diferente a cada momento, de hora para hora, de semana para semana, de ano para ano. Se a personalidade sobrevivesse de qual delas estaríamos a falar? A da nossa criancice, a da adolescência, ou a dos vários estágios de adultez?

A larva que morre para se tornar uma crisálida opera, efetivamente, uma transformação. Não uma morte efetiva. Também a morte, em si, é um processo de transformação, um movimento para outro lugar ou tempo, uma alteração na qualidade da nossa consciência. O mundo que experienciamos, com terra e céu, plantas e pessoas, Sol e Lua, é uma expressão particular da consciência a uma dada frequência. Estes estados de consciência são experiências vibratórias da consciência infinita, em que o Cosmos se movimenta e afirma a sua existência. É mais que certo que infinitas frequências de consciência existem e dá-se a presença simultânea de muitos planos de existência, de inúmeros universos paralelos.

Tudo na vida se revela passageiro e mutável, porque essa é a natureza do nosso mundo. Há quem procure, por natureza, resistir à mudança. Contrariar a própria natureza do universo em que vivemos parece ser um exercício de pura impossibilidade ou juízo de loucura. Contudo, quando se utiliza a autorreferência, esta mudança não se revela “adversa” (por contrária aos nossos desejos) mas positiva. No entanto, temos que ir além de uma mente positiva ou negativa para alcançarmos uma mente silenciosa, que se abstenha de julgamentos, análises ou interpretações. Por outras palavras, a paz com o “momento” só se consegue pela experiência da testemunha silenciosa, pela consecução do silêncio interior. Na pureza do silêncio, sentimo-nos ligados à nossa origem e a tudo o resto. As tendências que emergem desta ligação são evolucionárias e espontâneas. O reconhecimento do nosso universo dual, onde toda a experiência é feita por contrastes (luz-sombra, nascimento-morte, frio-calor, etc.), permite compreender que é possível “viver (e morrer) além do bem do e do mal”, como diria Nietzsche, no campo da pura potencialidade.

Quando um profano entra na Maçonaria, ou numa qualquer outra Ordem iniciática, ele dá, ainda que muitas vezes não tenha disso consciência, os seus primeiros passos naquilo que se considera uma via espiritual. Compreender essa via é lembrarmo-nos, a cada momento, que o nosso mundo é apenas uma parte visível, perceptível dos nossos sentidos, de um universo muito mais vasto, de um mundo espiritual de onde emana a realidade objetiva. Para o conjunto das religiões do mundo a realidade dissimula a realidade objetiva dum outro universo, o Reino de Deus ou dos Deuses, povoado de espíritos. “O visível é o reflexo do invisível”, diz o Zohar. É, assim, muito difícil ao homem comum, graduado na materialidade, perceber, e ainda menos compreender, esse outro mundo, muito mais real que o nosso, sem o qual o nosso simplesmente não existiria. Todavia, o Homem participa na realidade desses dois mundos, porque possui uma dupla natureza. Uma terrestre, material, temporal, mortal, e a outra celeste, espiritual, intemporal e imortal. Com a “Queda”, o Homem esqueceu a sua natureza divina e chegou ao ponto de crer que só a sua natureza terrestre existe. A via espiritual não mais é que o conjunto de meios que permite ao Homem operar o reconhecimento da sua natureza primeira.

A Iniciação, cerimônia eminentemente simbólica, visa provocar no candidato uma ruptura da representação condicionada e egóica do mundo para lhe abrir um acesso ao Real, ao espaço de liberdade da sua natureza plena. A natureza deste trabalho, uma profunda metanoia reflexiva – até porque o iniciado é confrontado com os caracteres da vida e da morte -, é levar ao questionamento mais profundo do “Quem sou eu?”. Serei este corpo? Serei o meu espírito ou a minha alma? Ou, ainda, serei a minha personalidade? A natureza humana é complexa e é evidente que o Homem não é o que ele pensa. Interpretamos vários papéis no teatro da vida e rapidamente nos identificamos com eles, que constituem, no seu conjunto, aquilo que classificamos como “pessoa”, a personalidade ou o nosso eu. Esta “mentalização” do mundo e de nós próprios tem pesadas consequências, sendo responsável, desde logo, pela criação da noção de tempo, tão fundamental na nossa época. É curioso notar que a noção de tempo evoluiu com a própria evolução da história e a natureza sociológica do homem e nunca, como hoje, essa noção foi tão premente e acelerada. Contudo, outra das fabricações da mente foi a elaboração do eu, que, de fato, não passa de uma ficção, de um fantasma. A ideia que temos de nós próprios é uma construção mental, uma inacreditável mistura de instintos, de condicionantes da nossa educação, das nossas experiências, da influência da sociedade, de sentimentos, de emoções, de pulsões mais ou menos controladas e de recordações acumuladas, às quais damos sentido através de uma narrativa. No quadro dessa artificialidade, o Eu pode tornar-se cambiante, turvo e dividido.

Como atrás referido, o que somos hoje é diferente do que fomos há 30 anos, 20 ou 10 anos atrás. Temos, todavia, a sensação de sermos sempre os mesmos. Essa sensação é sólida? Uma observação atenta permite compreender que não temos apenas um eu variável, mas antes uma multitude de “eus”, que muitas vezes, se opõem, se contrariam ou negoceiam mutuamente. Muito do nosso tempo é usado a gerir as nossas contradições e as nossas incoerências para as tornar suportáveis. Isto não seria dramático se, de maneira inconsciente, mas muito vibrante, não sentíssemos que o nosso “eu” é frágil, fragmentado, dividido, instável, e se não sentíssemos então a necessidade imperiosa de o afirmarmos, a fim de mantermos, a todo o custo, o que pensamos ser o “eu”. É esta identificação com o “eu” e a necessidade de manter essa falsa identidade que causam as manifestações mágicas do ego que afetam a vida de todos os seres humanos em graus diversos. Note-se que o medo de ver esse “eu” desaparecer torna a perspectiva da morte particularmente angustiante.

Em todos os Mistérios se congregou a ideia de uma alma espiritual no homem e uma vida para além da morte. Nesse conceito a alma seria preexistente, habitando num espaço astral, num mundo superior dos deuses e dos espíritos. Por ser uma visão tão subjetiva, a imortalidade da alma não se ajusta à visão prática da ciência e da sua evolução, ainda que a física quântica, no último quartel do século XX e entrada no século XXI tenha vindo a redefinir a questão. Ainda assim, milhões de pessoas testemunham o privilégio de terem vislumbrado uma realidade que abrange espaço e tempo como uma vasta bolha multidimensional. Algumas dessas pessoas parecem ter contactado este reino atemporal através de experiências próximas da morte. Outros, como Einstein, experimentaram episódios de completa libertação das fronteiras do espaço-tempo, através dum processo de ampla lucidez:

“Em tais momentos imagina-se que se está de pé em qualquer ponto desde pequeno planeta apreciando, deslumbrado, a fria e, mesmo assim, profundamente comovente beleza do eterno, do imperscrutável. Vida e morte fluem numa coisa só e não há evolução nem eternidade, apenas Ser.”

O medo da morte marca muito mais as nossas vidas do que as nossas mentes conscientes estão dispostas a admitir. Conforme escreveu David Viscott:

“Quando se diz que se tem medo da morte, na verdade está-se a dizer que se tem medo de não ter vivido a sua verdadeira vida. Este medo cobre o mundo de silencioso sofrimento.”

Na realidade, a morte não é força toda-poderosa que o nosso medo diz que é. Na natureza, a morte faz parte do ciclo maior do nascimento e da renovação. O ciclo interminável da renovação da vida não se situa além da morte – ela incorpora a morte, usando-a para um objetivo maior. Presumir que a morte existe é, de igual modo, uma meia verdade, pois há muitos níveis do nosso corpo que nem tomam conhecimento de algo designado como extinção. Os nossos átomos têm bilhões de anos de idade e ainda restam neles outros bilhões de anos de vida. Sabiamente, dizia Shakespeare:

“Nós somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos”.

Sim, como “afirmara” já o grande poeta inglês do século XVI, os átomos não passam de energia transformada, e se somos compostos por estes ingredientes imortais, porque não nos vemos à mesma Luz?

Também a morte – esta simbólica -, opera no processo iniciático maçônico uma tradição primordial. Quer no processo iniciático quer no processo de exaltação, a morte, nas suas várias interpretações alegóricas, é tida como um fator impressivo de aprendizagem. Como afirmou Fernando Schwarz:

“A morte é um valor essencial, e os valores morte e iniciação são interativos”.

A morte física acaba por ser assimilada a um rito de passagem a uma condição superior. Não podemos transformar o neófito num homem superior sem “matar” o homem inferior que nele existe. Esta, mais que a morte física, representa a morte do Ego. Não se trata de uma morte efetiva, mas sim de um processo de apaziguamento do nosso homem-animal, do aniquilamento possível dos nossos mecanismos egoístas. A morte é assim encarada como um processo de renascimento, de evolução do homem dentro do homem. A morte não é um fim, é sim um recomeço. A maçonaria transmite esse conhecimento imemorial que, para se renascer, física e simbolicamente, é preciso “morrer” primeiro. Esta, na sua conceção deísta-teísta, concebe a imortalidade da alma humana e crê – como via espiritual – na regeneração (em vida) do Homem. A vincada alegoria da morte no simbolismo maçônico é uma mensagem vivente de fé na imortalidade do Ser. Não de uma fé cega e dogmática, mas de uma fé prenhe de saber espiritual e racional. O mundo é vibração. O pensamento é energia. Tudo vibra na compleição da existência e a morte – estado vibratório pretensamente nulo-, só pode ser concebida como estado transitivo, porque tudo no universo “vive”. Mesmo a morte, por artificio poético, estético ou literário, só pode ser concebida como a antecâmara de mais vida, de mais sonho e de maior imaginação. O que existirá para além da morte? O que é a morte? Qual o sentido da morte? Há um eu na compleição da morte? Relatos de quase morte evidenciam esse plano ascensional como centro observatório. Será a morte a matéria inefável reveladora da consciência, dessa individualidade única forjada no momento da Iniciação final?

Autor: [Giordano Bruno], M∴M∴

Fonte: Academia.edu

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