O homem que plantava árvores

Para que o caráter de um ser humano revele qualidades verdadeiramente excepcionais, devemos ter a sorte de observar a sua ação por um longo período. Se esta ação é desprovida de todo o egoísmo, se a ideia que a dirige é de generosidade inqualificável, se é absolutamente certo que não buscou recompensa em nenhum lugar, e se além disso deixou marcas visíveis no mundo, então estamos inquestionavelmente a lidar com um personagem inesquecível.

Há cerca de quarenta anos, fiz uma longa caminhada, por colinas absolutamente desconhecidas dos turistas, naquela região muito antiga onde os Alpes penetram na Provença.

Esta região é limitada a sudeste e sul pelo curso médio do Durance, entre Sisteron e Mirabeau; a norte pelo curso superior do Drôme, desde a sua nascente até ao Die; a oeste pelas planícies de Comtat Venaissin e os arredores de Mont Ventoux. Inclui toda a parte norte do Departamento de Basses-Alpes, o sul de Drôme e um pequeno enclave de Vaucluse.

Na época em que fiz a minha longa caminhada por essa região deserta, ela era composta por terras áridas e monótonas, a cerca de 1200 a 1300 metros acima do nível do mar. Nada lá crescia, exceto lavanda selvagem.

Eu estava a atravessar este país na sua parte mais larga e, depois de caminhar por três dias, encontrei-me na mais completa desolação. Estava acampado ao lado das ruínas de uma aldeia abandonada. Tinha usado a minha última água no dia anterior e precisava encontrar mais. Embora estivessem em ruínas, estas casas todas amontoadas e parecendo um velho ninho de vespas fizeram-me pensar que, em algum momento, devia ter havido ali uma fonte ou um poço. Havia de fato uma fonte, mas estava seca. As cinco ou seis casas sem teto, devastadas pelo sol e pelo vento, e a capelinha com o campanário caído, estavam ordenadas como as casas e capelas das aldeias vivas, mas toda a vida tinha desaparecido.

Era um belo dia de junho com muito sol, mas naquelas terras sem abrigo, lá no alto, o vento assobiava com uma brutalidade insuportável. O seu rosnar nas carcaças das casas era como o de uma fera perturbada durante a sua refeição.

Eu tive que mudar o meu acampamento. Depois de cinco horas de caminhada, ainda não tinha encontrado água, e nada me dava esperança de encontrar. Em todos os lugares havia a mesma secura, as mesmas plantas duras e lenhosas. Pensei ter visto ao longe uma pequena silhueta negra. À sorte, fui em direção a ela. Era um pastor. Cerca de trinta cordeiros descansavam perto dele no chão escaldante.

Deu-me um gole da sua cabaça e um pouco depois levou-me até à sua cabana de pastor, localizada numa ondulação do planalto. Ele tirou a sua água – excelente – de um buraco natural, muito profundo, sobre o qual tinha instalado um molinete rudimentar.

Este homem falava pouco. Isto é comum entre os que moram sozinhos, mas ele parecia seguro de si e confiante nessa segurança, que parecia notável nesta terra despojada de tudo. Ele não morava numa cabana, mas numa verdadeira casa de pedra, de cuja aparência era claro que, com o seu próprio trabalho, tinha restaurado as ruínas que encontrara à sua chegada. O seu telhado era sólido e estanque. O vento batia nas telhas com o som do mar rebentando na praia.

A sua casa estava em ordem, os seus pratos lavados, o seu chão varrido, a sua espingarda lubrificada; a sua sopa fervia no fogo. Percebi então que ele também estava recém-barbeado, que todos os seus botões estavam solidamente costurados e que as suas roupas eram remendadas com tanto cuidado que tornavam os remendos invisíveis.

Ele dividiu a sua sopa comigo e, quando depois lhe ofereci a minha bolsa de tabaco, ele disse-me que não fumava. O seu cachorro, tão silencioso quanto ele, era amigável sem ser bajulador.

Ficou imediatamente combinado que eu passaria a noite ali, pois a aldeia mais próxima ainda estava a mais de um dia e meio de distância. Além disso, compreendi perfeitamente o caráter das raras aldeias daquela região. Há quatro ou cinco delas dispersas umas das outras nos flancos das colinas, em bosques de carvalhos brancos nas extremidades das estradas transitáveis ​​por carruagens. São habitadas por lenhadores que fazem carvão. São lugares onde a vida é pobre. As famílias, apertadas e unidas por um clima extremamente severo, tanto no verão como no inverno, lutam cada vez mais egoisticamente umas contra as outras. A disputa irracional cresce além de todos os limites, alimentada por uma luta contínua para escapar daquele lugar. Os homens levam o carvão para as cidades nos seus caminhões e depois voltam. As qualidades mais sólidas quebram-se sob este perpétuo chuveiro escocês. As mulheres despertam amargura. Há competição em tudo, desde a venda de carvão até aos bancos da igreja. As virtudes lutam entre si, os vícios lutam entre si, e há um incessante combate geral entre os vícios e as virtudes. Além de tudo isto, o vento, igualmente incessante, irrita os nervos. Há epidemias de suicídios e inúmeros casos de insanidade, quase sempre homicidas.

O pastor, que não fumava, pegou num saco e derramou uma pilha de bolotas sobre a mesa. Começou a examiná-las uma após outra com muita atenção, separando as boas das más. Fumei o meu cachimbo. Ofereci-me para a ajudar, mas ele disse-me que era um assunto seu. De fato, vendo o cuidado que ele dedicou a este trabalho, não insisti. Esta foi toda a nossa conversa. Quando ele tinha na pilha boa um bom número de bolotas, contou-as em grupos de dez. Ao fazer isto, eliminou mais algumas bolotas, descartando as menores e as que apresentavam até mesmo a menor rachadura, pois examinou-as muito de perto. Quando tinha diante de si cem bolotas perfeitas, parou e fomos para a cama.

A companhia deste homem trouxe-me uma sensação de paz. Perguntei-lhe na manhã seguinte se poderia ficar e descansar o dia inteiro com ele. Ele achou isso perfeitamente natural. Ou mais exatamente, ele me deu a impressão de que nada poderia perturbá-lo. Este descanso não era absolutamente necessário para mim, mas fiquei intrigado e queria saber mais sobre este homem. Soltou o seu rebanho e levou-o para o pasto. Antes de partir, embebeu num balde de água o saquinho com as bolotas que escolhera e contara com tanto cuidado.

Notei que ele carregava como uma espécie de bengala, uma haste de ferro da espessura do seu polegar e cerca de um metro e meio de comprimento. Saí como quem passeia, seguindo um caminho paralelo ao dele. O seu pasto de ovelhas ficava no fundo de um pequeno vale. Ele deixou o seu rebanho aos cuidados do seu cachorro e subiu em direção ao local onde eu estava. Tive medo de que ele me viesse censurar pela minha indiscrição, mas nem um pouco: era a sua própria rota e convidou-me para o acompanhar, se eu não tivesse nada melhor para fazer. Continuou por mais duzentos metros colina acima.

Tendo chegado ao lugar para onde estava indo, começou a bater com a sua barra de ferro no chão. Isto fez um buraco no qual ele colocou uma bolota, após o que ele cobriu o buraco novamente. Ele estava a plantar carvalhos. Perguntei-lhe se a terra lhe pertencia. Ele respondeu que não. Sabia ele de quem era aquela terra? Não sabia. Supunha que era terra comunal, ou talvez pertencesse a alguém que não se importava com ela. Ele próprio não se importava em saber quem eram os donos. Desta forma ele plantou as suas cem bolotas com muito cuidado.

Após o almoço, começou mais uma vez a colher as suas bolotas. Devo ter insistido bastante nas minhas perguntas, porque ele respondeu. Já fazia três anos que vinha plantando árvores dessa maneira solitária. Ele tinha plantado cem mil. Destes cem mil, ficaram vinte mil. Contava perder metade para os roedores e para tudo o mais imprevisível nos desígnios da Providência. Isto deixava dez mil carvalhos que cresceriam neste lugar onde antes não havia nada.

Foi neste momento que me comecei a perguntar sobre a sua idade. Ele tinha claramente mais de cinquenta. Cinquenta e cinco, disse-me ele. O seu nome era Elzéard Bouffier. Tinha uma fazenda nas planícies, onde viveu a maior parte da sua vida. Ele tinha perdido a seu único filho, e depois a sua esposa. Tinha-se retirado para esta solidão, onde tinha prazer em viver lentamente, com o seu rebanho de ovelhas e o seu cachorro. Ele tinha concluído que o país estava a morrer por falta de árvores. Acrescentou que, não tendo nada mais importante para fazer, resolveu remediar a situação.

Levando como levava na época uma vida solitária, apesar da juventude, sabia tratar com delicadeza as almas das pessoas solitárias. Ainda assim, cometi um erro. Foi precisamente a minha juventude que me obrigou a imaginar o futuro nos meus próprios termos, incluindo uma certa procura da felicidade. Eu disse-lhe que em trinta anos estas dez mil árvores seriam magníficas. Ele respondeu muito simplesmente que, se Deus lhe desse a vida, em trinta anos ele teria plantado tantas outras árvores que estas dez mil seriam como uma gota de água no oceano.

Ele também tinha começado a estudar a propagação de faias e tinha perto da sua casa um viveiro cheio de mudas de nogueiras. As suas pequenas mudas, que ele tinha protegido das suas ovelhas por uma cerca de tela, estavam a crescer lindamente. Também estava a considerar bétulas para o fundo do vale onde, segundo me disse, a humidade estava adormecida a apenas alguns metros abaixo da superfície do solo.

Despedimo-nos no dia seguinte.

No ano seguinte veio a guerra de 14, na qual estive envolvido por cinco anos. Um soldado de infantaria mal conseguia pensar em árvores. Para dizer a verdade, a história toda não me impressionou muito. Achei que fosse um hobby, como uma coleção de selos, e esqueci-a.

Com a guerra para trás, encontrei-me com um pequeno bônus de desmobilização e um grande desejo de respirar um pouco de ar puro. Sem nenhuma noção preconcebida para além disto, voltei a percorrer as trilhas por aquela região deserta.

A terra não mudou. No entanto, além daquela aldeia morta, percebi ao longe uma espécie de neblina cinzenta que cobria as colinas como um tapete. Desde o dia anterior eu pensava no pastor que plantava árvores. Dez mil carvalhos, disse a mim mesmo, devem ocupar muito espaço.

Eu tinha visto muitas pessoas morrerem durante estes cinco anos para não poder imaginar facilmente a morte de Elzéard Bouffier, especialmente porque quando um homem tem vinte anos, pensa num homem de cinquenta como um velho para quem nada resta senão morrer. Ele não estava morto. Na verdade, continuava muito ágil. Tinha mudado de emprego. Agora só tinha quatro ovelhas, mas para compensar isso tinha cerca de cem colmeias. Tinha-se livrado das ovelhas porque elas ameaçavam a sua colheita de árvores. Disse-me (como de fato eu pude ver por mim próprio) que a guerra não o tinha perturbado em nada; continuara imperturbavelmente com o seu plantio.

Os carvalhos de 1910 tinham agora dez anos e eram mais altos do que eu e que ele. O espetáculo era impressionante. Fiquei literalmente sem palavras e, como ele próprio não falava, passamos o dia inteiro em silêncio, caminhando pela floresta. Estava dividida em três seções, onze quilômetros de comprimento total e, no seu ponto mais largo, três quilômetros de largura. Quando considerei que tudo isto tinha nascido das mãos e da alma deste único homem – sem ajuda técnica -, ocorreu-me que os homens podem ser tão eficazes quanto Deus noutros domínios que não a destruição.

Ele tinha seguido a sua ideia, e as faias que chegavam até aos meus ombros e se estendiam até onde a vista alcançava testemunhavam isso. Os carvalhos eram agora bons e espessos, e haviam passado da idade em que estavam à mercê de roedores; quanto aos desígnios da Providência, destruir a obra que tinha sido criada exigiria doravante um ciclone. Mostrou-me admiráveis plantações de bétulas que datavam de cinco anos atrás, ou seja, de 1915, quando eu lutava em Verdun. Tinha-as plantado no fundo do vale onde suspeitara, corretamente, que havia água perto da superfície. Elas eram tão ternas quanto meninas, e muito determinadas.

Esta criação tinha, aliás, o ar de funcionar através de uma reação em cadeia. Ele não se preocupou com isso; continuou obstinadamente com a sua simples tarefa. Voltando para a aldeia, vi água a correr em riachos que, na memória viva, sempre foram secos. Foi o avivamento mais impressionante que ele me mostrou. Estes riachos já tinham trazido água antes, em tempos antigos. Algumas das tristes aldeias de que falei no início do meu relato foram construídas sobre os sítios das antigas aldeias galo-romanas, das quais ainda restam vestígios; os arqueólogos que escavavam ali tinham encontrado anzóis em lugares onde em tempos mais recentes eram necessárias cisternas para ter um pouco de água.

O vento também estava a trabalhar, espalhando certas sementes. Quando a água reapareceu, também reapareceram os salgueiros, vimes, prados, jardins, flores e uma certa razão para viver.

Mas a transformação ocorrera tão lentamente que fora dada como certa, sem causar surpresa. Os caçadores que subiam as colinas em busca de lebres ou javalis tinham notado a extensão das pequenas árvores, mas atribuíam-no à maldade natural da terra. É por isso que ninguém tinha tocado na obra desse homem. Se suspeitassem dele, teriam tentado frustrá-lo. Mas ele nunca foi suspeito: quem entre os aldeões ou os administradores suspeitaria que alguém pudesse mostrar tamanha obstinação em realizar este magnífico ato de generosidade?

A partir de 1920 não deixei passar mais de um ano sem visitar Elzéard Bouffier. Nunca o vi vacilar ou duvidar, embora só Deus possa dizer quando a própria mão de Deus está numa coisa! Não disse nada das suas decepções, mas pode-se facilmente imaginar que, para tal feito, era necessário vencer a adversidade; que, para assegurar a vitória de tal paixão, era preciso lutar contra o desespero. No ano ele havia plantado dez mil áceres. Todos morreram. No ano seguinte, ele desistiu dos áceres e voltou para as faias, que se saíram ainda melhor do que os carvalhos.

Para se ter uma ideia real deste caráter excepcional, não se deve esquecer que ele trabalhou em total solidão; tão total que, no final da vida, perdeu o hábito de falar. Ou talvez ele simplesmente não visse a necessidade disso.

Em 1933 recebeu a visita de um guarda florestal atônito. Este funcionário ordenou-lhe que parasse de fazer fogueiras ao ar livre, por medo de pôr em perigo esta floresta natural. Era a primeira vez, disse-lhe aquele homem ingênuo, que se observava que uma floresta crescia sozinha. Na época deste incidente, estava a pensar plantar faias num local a doze quilômetros da sua casa. Para evitar as idas e vindas – porque na época tinha setenta e cinco anos – planeava construir uma cabana de pedra onde estava a plantar; fez isso no ano seguinte.

Em 1935, uma verdadeira delegação administrativa foi examinar esta “floresta natural”. Havia um importante personagem das Águas e Florestas, um deputado e alguns técnicos. Muitas palavras inúteis foram ditas. Decidiu-se fazer alguma coisa, mas felizmente nada foi feito, exceto uma coisa realmente útil: colocar a floresta sob a proteção do Estado e proibir qualquer pessoa de lá ir para fazer carvão. Era impossível não se encantar com a beleza destas jovens árvores em plena saúde. E a floresta exercia os seus poderes de sedução até no próprio deputado.

Eu tinha um amigo entre os chefes florestais que estavam com a delegação. Expliquei-lhe o mistério. Num dia da semana seguinte, saímos juntos para procurar Elzéard Bouffier. Encontramo-lo a trabalhar duro, a vinte quilômetros do local onde a inspeção tinha sido realizada.

Este chefe florestal não era meu amigo à toa. Ele entendia o valor das coisas. Ele sabia ficar calado. Eu ofereci alguns ovos que trouxera comigo como presente. Dividimos o lanche em três partes e passamos várias horas em contemplação muda da paisagem.

A encosta de onde viemos estava coberta de árvores de seis ou sete metros de altura. Lembrei-me da aparência do lugar em 1913: um deserto… O trabalho pacífico e constante, o ar vibrante da serra, a sua frugalidade e, sobretudo, a serenidade da sua alma deram ao velho uma espécie de boa saúde solene. Ele era um atleta de Deus. Perguntei a mim mesmo quantos hectares ele tinha ainda que cobrir com árvores.

Antes de partir, o meu amigo fez uma sugestão simples sobre certas espécies de árvores para as quais o terreno parecia ser particularmente adequado. Ele não foi insistente. “Pela razão muito boa”, disse-me depois, “de que este sujeito sabe muito mais sobre este tipo de coisa do que eu”. Depois de mais uma hora de caminhada, tendo este pensamento viajado com ele, acrescentou: “Ele sabe muito mais sobre este tipo de coisa do que ninguém – e encontrou uma maneira muito boa de ser feliz!”.

Foi graças aos esforços deste chefe florestal que a floresta foi protegida e, com ela, a felicidade deste homem. Ele designou três guardas florestais para a sua proteção e aterrorizou-os a tal ponto que eles permaneceram indiferentes a qualquer jarro de vinho que os lenhadores pudessem oferecer como suborno.

A floresta não correu nenhum risco grave, exceto durante a guerra de 1939. Naquela época, os automóveis eram movidos a álcool de madeira e nunca havia madeira suficiente. Começaram a cortar alguns dos talhões dos carvalhos de 1910, mas as árvores ficavam tão longe de qualquer estrada útil que o empreendimento acabou por ser ruim do ponto de vista financeiro, e logo foi abandonado. O pastor nunca soube nada sobre isso. Ele estava a trinta quilômetros de distância, continuando pacificamente a sua tarefa, tão despreocupado com a guerra de 39 quanto com a guerra de 14.

Vi Elzéard Bouffier pela última vez em junho de 1945. Tinha então oitenta e sete anos. Eu tinha mais uma vez iniciado a minha caminhada pelas regiões selvagens, apenas para descobrir que agora, apesar da confusão em que a guerra tinha deixado todo o país, havia um autocarro a circular entre o vale do Durance e a montanha. Atribuí a este meio de transporte relativamente rápido o fato de já não reconhecer os pontos de referência que conhecia das minhas visitas anteriores. Parecia também que a rota estava a levar-me por lugares inteiramente novos. Tive que perguntar o nome de uma aldeia para ter certeza de que estava de fato a passar por aquela mesma região, outrora tão arruinada e desolada. O autocarro deixou-me em Vergons. Em 1913, esta aldeia de dez ou doze casas tinha três habitantes. Eram selvagens, odiando-se uns aos outros e ganhando a vida com armadilhas. Física e moralmente, pareciam homens pré-históricos. As urtigas devoravam as casas abandonadas que os cercavam. A vida deles era sem esperança, era só esperar que a morte chegasse: uma situação que dificilmente predispõe à virtude.

Tudo isto tinha mudado, até o próprio ar. No lugar das rajadas secas e brutais que me saudaram há muito tempo, uma brisa suave sussurrou para mim, trazendo odores doces. Um som como o de água corrente veio das alturas acima: era o som do vento nas árvores. E o mais surpreendente de tudo, ouvi o som de água real correndo numa poça. Vi que tinham construído um chafariz, que estava cheio de água, e o que mais me tocou, ao lado dele tinham plantado uma tília que devia ter pelo menos quatro anos, já engrossada, símbolo incontestável de ressurreição.

Além disto, Vergons mostrou os sinais de trabalhos para os quais a esperança é um requisito: a esperança deve, portanto, ter retornado. Limparam as ruínas, derrubaram as paredes quebradas e reconstruíram cinco casas. A aldeia agora contava com vinte e oito habitantes, incluindo quatro famílias jovens. As novas casas, recém-rebocadas, eram cercadas por jardins que continham, misturados entre si, mas ainda cuidadosamente dispostos, vegetais e flores, repolhos e roseiras, alho-poró e bicas-de-leão, aipo e outras plantas. Agora era um lugar onde qualquer um ficaria feliz em viver.

De lá continuei a pé. A guerra da qual mal saímos não permitiu que a vida desaparecesse completamente, e agora Lázaro estava fora do seu túmulo. Nos flancos mais baixos da montanha, vi pequenos campos de cevada e centeio; no fundo dos vales estreitos, os prados começavam a ficar verdes.

Levou apenas os oito anos, que agora nos separam daquela época, para que todo o país ao redor floresça com esplendor e facilidade. No local das ruínas que eu tinha visto em 1913 existem agora quintas bem cuidadas, sinal de uma vida feliz e confortável. As velhas nascentes, alimentadas pela chuva e pela neve, agora retidas pelas florestas, voltaram a fluir. Os riachos foram canalizados. Ao lado de cada fazenda, no meio de bosques de áceres, os charcos das fontes são cercados por tapetes de hortelã fresca. Pouco a pouco, as aldeias foram reconstruídas. Yuppies vieram das planícies, onde a terra é cara, trazendo consigo juventude, movimento e espírito de aventura. Caminhando pelas estradas encontram-se homens e mulheres em plena saúde, e rapazes e raparigas que sabem rir, e que recuperaram o gosto pelas tradicionais festas rústicas. Contando tanto os antigos habitantes da área, agora irreconhecíveis de viver em abundância, quanto os recém-chegados, mais de dez mil pessoas devem a sua felicidade a Elzéard Bouffier.

Quando considero que um único homem, contando apenas com os seus simples recursos físicos e morais, foi capaz de transformar um deserto nesta terra de Canaã, estou convencido de que, apesar de tudo, a condição humana é verdadeiramente admirável. Mas quando levo em conta a constância, a grandeza de alma e a dedicação desinteressada que foi necessária para realizar esta transformação, fico cheio de um respeito imenso por esse camponês velho e inculto que soube realizar um trabalho digno de Deus.

Elzéard Bouffier morreu pacificamente em 1947 num lar em Banon.

Autor: Jean Giono
Traduzido por: António Jorge

Fonte: Freemason

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A Ressonância Schumann

Em inúmeras ocasiões ouvimos as pessoas dizendo que o “tempo está curto”, que não têm tido tempo para fazer todas as suas atividades, ou seja, que precisam que o dia tenha mais horas para fazermos todas as nossas tarefas.

Notamos esse frenesi no trânsito, nas pessoas andando apressadas, na falta de paciência para com os mais lentos e até quando temos que ouvir um irmão com mais atenção.

Percebemos pessoas dizendo que dormiram pouco, pois precisaram trabalhar ou estudar até a madrugada para dar conta de suas tarefas, que o ano passou rápido demais.

Pois bem. Em 2004, o teólogo Leonardo Boff escreveu um artigo para o Jornal do Brasil (5 de março de 2004) teorizando sobre o porquê dessa noção de que os dias aparentemente possuem menos horas do que realmente precisamos. Ele atribuiu a essa percepção humana a ocorrência de um fenômeno da física denominado “Ressonância Schumann”.

W.O. Schumann foi um físico alemão que, em 1952, constatou que o nosso planeta é cercado por um campo eletromagnético poderoso, que se forma entre o solo e a parte inferior da ionosfera. Para aqueles que não se lembram, a biosfera terrestre (a parte habitável de nosso planeta), é a área da atmosfera aonde podemos ir sem proteção especial e que tem na ionosfera o seu limite superior.

Assim, Schumann enunciou que essa área do planeta, entre o solo e a ionosfera, forma um escudo que nos protege das radiações siderais, e, como todo fenômeno eletromagnético, possui uma frequência, uma espécie de ritmo ou pulsação. Schumann determinou em 1952 que a frequência dessa cavidade protetora em que vivemos era de 7,83 Hertz.

Leonardo Boff em seu artigo, afirmou que essa frequência é uma espécie de marca-passo planetário e uma referência para todos os seres vivos da biosfera terrestre. Inferiu que 7,83 Hz era o valor da frequência natural dos seres humanos e que nossas vidas eram influenciadas pela frequência planetária, ou mais especificamente, pela Ressonância Schumann.

Disse que a partir dos anos 80, o marca-passo planetário acelerou passando de 7,83 Hz para 13 Hz. Com isso, os organismos vivos submetidos a essa ressonância ou magnetismo, tenderam a alinhar-se com esse novo batimento, ou seja, atribuiu o frenesi da sociedade atual ao aumento dessa frequência planetária.

Boff diz ainda que o coração da Terra disparou levando o planeta a mais atividades vulcânicas, degelo das calotas polares, “El Niños” mais severos, furacões mais frequentes, etc. Afirmou que devido ao aumento dessa frequência nossa jornada de 24 horas passou a ser de fato de 16 horas e, portanto, a percepção de que tudo está passando rápido demais não é ilusória, mas teria base nessa alteração da Ressonância Schumann.

Teoriza também que o único meio para que esse fenômeno se reverta é que os seres humanos busquem a serenidade e o seu equilíbrio interior, vivendo com mais amor, pois o amor é uma energia essencialmente harmonizadora.

Buscando agora o que dizem nossos cientistas, verificou-se que de 1952 até os dias de hoje a variação na frequência foi de praticamente 0,1 Hz devido às explosões solares, atingindo apenas o valor máximo de 7,9 Hz, não muito diferente de 7,83 Hz. Podemos comprovar também que não houve alteração na passagem do tempo a partir do lançamento de satélites localizados após a ionosfera, ou seja, fora da influência da Concha de Schumann, e que possuem relógios atômicos que após anos ainda estão perfeitamente sincronizados com os relógios que ficaram na Terra.

Mas de onde vem então essa percepção de todos nós de que o tempo passa mais rápido? A resposta está em nós mesmos! Se formos a um interior longínquo da Região Amazônica, ainda encontraremos cidades pequeninas que mal possuem energia elétrica.

Veremos lugares onde as pessoas possuem o hábito de fazer rodas de conversas, de observar a chegada da “Estrela D’Alva”, o planeta Vênus, que depois da Lua é o corpo celeste mais brilhante de nosso firmamento e que sempre chega junto ao alegre cantarolar dos grilos. Nesses interiores tudo é perto e o tempo passa deliciosamente devagar.

O que de fato aconteceu conosco nas grandes cidades é que recebemos diariamente um bombardeio de “inputs”, ou seja, de informações que chegam e que precisam ser respondidas com rapidez. Estamos envolvidos nesse ritmo, nessa roda insana de nossa sociedade conectada.

Mas como reverter essa situação que nos gera tantos desgastes, males físicos e mentais?

Segundo Siddharta Gautama (2003), talvez a resposta esteja no “caminho do meio”, assim como nos ensinou Buda… “Nem tanto ao céu, nem tanto a Terra”.

Temos que dar uma cadência às nossas vidas… parando nos momentos certos, buscando a organização mental, a serenidade em nossas ações… temos que buscar a harmonização. Pessoas com equilíbrio conseguem transmitir sensações de paz e de bem-estar. Torna-se prazeroso estarmos próximos a pessoas equilibradas energeticamente.

Lembremos da régua de 24 polegadas que nos serve de referência, lembremos de meditar, de buscar a organização mental para conduzir nossas tarefas e nosso dia.

Lembremos que como disse Boff, na parte de seu texto que nos servirá como ajuda, que temos em alguns momentos em nosso dia que sermos “menos cultura” e “menos competitivos”.

Temos que ser mais seres humanos, mais amorosos e mais fraternos. Temos que ser um pouco menos reativos e mais humanos… olhar estrelas, como faziam nossos antigos mestres egípcios, apreciar a beleza das flores, conversar, confraternizar… dar boas risadas!

Só agindo desta forma, conseguiremos realmente atingir o nosso equilíbrio físico e mental que nos defenderá do ritmo alucinante de nossa sociedade urbana, para que a paz e a tranquilidade estejam de fato entre os seres que habitam este lindo planeta azul.

Autor: Cézar Furtado

* Cézar é VM da Loja de Estudos e Pesquisas Acácia Canoense, 252, filiada à GLMERS – Oriente de Canoas, Rio Grande do Sul.

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Referências

Jornal do Brasil – RJ – Coluna do Teólogo Leonardo Boff – 5 de março de 2004

GAUTAMA, S. A Doutrina de Buda. São Paulo: Martin Claret, 2003. p.19

Material eletrônico, artigo de revista eletrônica:

Artigo Científico – A ressonância Schumann e a disparada do coração da Terra – Alberto Gaspar (Dr. Pela USP e Prof. Física da UNESP-Guaratinguetá) – Autor da Ática, 2006.
http://www.aticaeducacional.com.br/htdocs/secoes/atual_cie.aspx?cod=751

O lado sombrio de Hiram Abiff

Introdução

O século 19 viu florescer uma enormidade de graus e sistemas, a maioria dos quais acabou não sobrevivendo. Seria possível passar décadas escrevendo sobre eles e a maioria traz apenas variações em cima dos mesmos temas. Leia-se: Mudam os personagens e os cenários, mas as lições são fundamentalmente as mesmas.

Nessa profusão de graus, contudo, um deles chama muito a atenção: O grau de Mestre Marcado. Pouco se sabe sobre esse grau, exceto pelo fato de que ele surgiu no século 18, supostamente na Escócia, chegando a ser praticado também nos EUA.

Esse grau fazia parte de um sistema de 44 graus, chamado de Early Grand Rite of Scotland, algo como “Grande Rito Primitivo da Escócia”, que não deve ser confundido com um homônimo posterior criado por Ambelain. Hoje extinto, alguns graus desse sistema sobrevivem na Allied Masonic Degrees (AMD) e entre os Knight Templar Priests (KTP). Não se sabe, contudo, se o grau é originário desse sistema, ou apenas foi a ele agregado.

O que torna o grau diferente?

Mas o que o diferencia dos demais graus é o fato de ser o único que traz o que chamo de lado sombrio de Hiram Abiff, apresentando-o como invejoso, negligente e responsável por homicídio culposo!

E, por se passar num período anterior à sua morte, acaba por trazer uma interpretação totalmente diferente para o grau 3. Para os maçons que receberam o grau, certamente serviria como um “twist” no estilo dos filmes hollywoodianos que os faria pensar que isso muda tudo. Abaixo, passo a narrar a lenda desse grau:

A lenda de Hiram e Cavelum

O grau se passa no começo das obras do Templo de Salomão. Nessa época, Hiram Abiff teria ido a Jerusalém para participar da construção do Templo de Salomão, achando que ele seria o Mestre-Construtor.

Ao chegar, contudo, deparou-se com o fato de que um parente do rei Salomão, denominado Cavelum[1], havia sido apontado para supervisionar a obra. Hiram Abiff teria sentido inveja de Cavelum e, indignado por não ter recebido a honraria que esperava e ter sido relegado a um papel de menor importância, teria ficado amargurado.

A amargura de Hiram teria atrapalhado na condução de seus trabalhos.

Certo dia, Hiram inspecionava os trabalhos sobre o portão norte do complexo do Templo. Totalmente absorvido por seus sentimentos, Hiram não percebeu que uma das pedras estava mal fixada. Hiram acabou deslocando essa pedra, que caiu justamente sobre Cavelum, matando-o.

Profundamente entristecidos pelo acidente, Hiram Abiff e o rei Salomão mandaram fechar o portão norte.

Observações

O leitor que conhece a lenda de Hiram Abiff imediatamente perceberá que o fechamento do portão norte teria impacto direto sobre a lenda do terceiro grau, que o autor do artigo evitará de comentar por zelo maçônico.

O objetivo central dessa lição era a ideia de que a falta de domínio sobre nossas paixões pode levar a consequências desastrosas, mesmo que essa não seja a nossa intenção.

Mas, mais do que isso, o grau pretendia fazer com que o recipiendário visse a lenda de Hiram como parte de um ciclo de causa e efeito, provocando-o a pensar se as injustiças sofridas não seriam decorrentes de ações anteriores, por nós desconhecidas.

Problemas de aceitação

Todavia, para ensinar essas lições, o grau sacrificava a reputação de Hiram Abiff. O que nos leva ao comentário de Arthur Edward Waite:

“Por um lado, a lenda do Mestre Marcado o representa como em primeira instância subordinado a Cavelum, um dos parentes reais, que estava encarregado das operações antes da chegada daquele artista cuja genialidade e fidelidade encheram o mundo da Maçonaria com louvor para sempre. Essa é a anomalia na superfície; mas o que se segue, também na superfície, é pior, pois é uma mancha na reputação do Construtor. Ele é descrito como descontente e invejoso por causa de sua posição inferior; e sua negligência conduziu a uma fatalidade que tem quase um aspecto homicida.” (1911)

Teria sido esse sacrifício ousado demais, mesmo que a lição simbólica, abaixo da superfície, seja nobre?

Nos dias atuais, isso seria encarado com relativa naturalidade, pois nossa sociedade se acostumou com o fato de que até os super-heróis são às vezes reportados como tendo lados obscuros, sombrios e, por muitas vezes, recheados de esqueletos no armário.

Semelhantemente, nenhum maçom minimamente esclarecido nos dias de hoje acredita que a lenda de Hiram Abiff seja uma história literal.

Porém, se até hoje em dia as pessoas reagem mal quando não gostam de um dado desdobramento na história de um personagem de um filme ou série, quanto mais um personagem tão central para um sistema filosófico, como é o caso de Hiram Abiff na Maçonaria.

Assim sendo, não é improvável supor que a ousadia na lenda desse grau tenha causado aversão a muitos maçons no passado.

Teria sido essa amarga impressão um dos motivos pelos quais acabou deixando de ser praticado? Ou, talvez, a razão pela qual outros graus foram preservados por outros corpos e esse acabou sendo deixado de lado?

O último registro que se tem de qualquer coisa referente a esse grau ocorre numa alusão à sua lenda, feita num jornal neozelandês datado de 1937, o que dá a entender que o grau pode ter se espalhado por mais países.

Embora não seja mais praticado, pelo menos não pelos corpos maçônicos convencionais, o grau conserva ainda grande curiosidade por ter a distinção de ser singular na releitura que faz de um personagem tão importante para a Maçonaria.

Autor: Luis Felipe Moura

Fonte: O Prumo de Hiram

*Luis Felipe é M∴ M∴, membro da ARLS Conde de Grasse-Tilly 301 (Grande Oriente Paulista/COMAB). É bacharel em Letras (Inglês), mestre em Teologia e em Psicanálise, atualmente trabalha como psicanalista e professor de Bíblia Hebraica.

Nota

[1] – O nome Cavelum não é bíblico. E há duas hipóteses etimológicas: Pode ser que venha do latim cavellum, que significa um pequeno buraco ou lugar oco, talvez aludindo à pedra posta sobre o portão norte. Ou pode ser que faça alguma alusão à cavalaria, já que vários autores e rituais se empenharam em fazer conexões entre a cavalaria e a lenda da construção do Templo.

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Referências

CAMPBELL, WM. The Stone of Destiny. The New Zealand Herald, Auckland, 28 jan. 1937, p. 13.

HUGHES, Paul T. Old Legends of Hiram Abiff. Tucson: Southern Arizona Research Lodge, 1982.

WAITE, Arthur E. A New Encyclopedia of Freemasonry, vol. II: Mark Masonry. Nova Iorque: Cosimo, 1921.

WAITE, Arthur E. The Secret Tradition in Freemasonry and an Analysis of the Inter-Relation Between the Craft and the High Grades, vol. I. Londres: Rebman Limited, 1911.

SMITH, M.A. Common Words with Curious Derivations: Cavil. Londres: Bel and Daldy, 1865.

ARCHITECT. Grand Council – Allied Masonic Degrees. Disponível em: <http://www.amdusa.org/degrees/ARC.html>. Acesso em: <29/12/2019>.

HISTORY. The Grand College of America – Holy Royal Arch Knight Templar Priests. Disponível em: <http://www.hraktp.org/history.html>. Acesso em: <29/12/2019>.

EGSR: The Early Grand Rite of Scotland. Disponível em: <http://ecossais.net/index.html>. Acesso em: <29/12/2019>.

O Inefável da Maçonaria

“O mistério gera curiosidade e a curiosidade é a base do desejo humano para compreender” (Neil Armstrong)

Na Grécia antiga, à iniciação aos mistérios do sagrado denominava-se mistagogia, que é uma palavra composta de duas partes: mist + agogiaMist relacionado a mistério, mysterium; agogia, agein, ligado a conduzir, guiar. Portanto, guiar para dentro dos mistérios; iniciar ao conhecimento, à interpretação dos mistérios. Daí o mistagogo, o sacerdote que iniciava os neófitos nos mistérios; o guia (mentor/mestre) que orienta desde os primeiros passos.

Por sua vez, mysterium vem da palavra muein, que significa “fechar os olhos e a boca”, enxergar o segredo e calar-se. O conteúdo é um segredo acessível somente às pessoas que estão sendo iniciadas e que serão guiadas por um caminho que as leva do mundo perceptível, real, envolvendo a vida, os símbolos e ações rituais, em direção a seu significado escondido. Diz o Aurélio: o segredo é o que se oculta à vista, ao conhecimento, que não se divulga. Portanto, o mistério está estreitamente ligado a silêncio, prudência e segurança.

Na Antiguidade Clássica, as escolas não tinham os contornos como hoje compreendemos, pois a cultura era adquirida pela forma iniciática e com um sentido de sabedoria sagrada revelada. Os sacerdotes da alta hierarquia dos mistérios da Grécia e do Egito (hierofantes) e os legisladores (arcontes) excitavam a curiosidade das pessoas e ocultavam as verdades sob o véu de alegorias encorajando dedicação e estudos. Os “Mistérios” eram dramatizações que exibiam alguma lenda significativa das mudanças da natureza. Cada centro de ensinamento possuía uma história simbólica que servia de base a toda concepção dos mistérios onde divindades eram reveladas.

Não obstante o passar do tempo, como as pessoas gostam de contar histórias, que crescem e se multiplicam de fogueira em fogueira, os mistérios se renovam e os exemplos e narrativas se frutificam sempre envoltos em diferentes roupagens e denominações. Conforme ensinou Gustav Meyrink, escritor, dramaturgo, tradutor e banqueiro austro-húngaro, que escreveu principalmente dentro do gênero literatura fantástica,

“Quem não tem a intuição suficiente para descobrir por si mesmo o mistério, não é digno de possuí-lo por outros meios.”

A Ciência existe no mistério e o que não faltam são fenômenos que fogem à compreensão comum e intrigam pesquisadores, sendo a origem da vida, surgida há não mais que 4,2 bilhões de anos, o mais desafiador deles. E a pergunta que sempre intrigou os cientistas é exatamente porque as coisas são do jeito que são. E o ser humano, de modo geral, diante da morte, se enche de medo. É a dúvida sobre o mistério da transformação.

Hoje temos a difusão da moderna tecnologia, na iminência da geração de um “ser artificial e inteligente”, com contornos de algo fascinante e misterioso, mas tratando-se apenas e tão somente de uso intensivo da informática, que em breve tornará muito difícil separar o que é real do digital. Com o avanço das pesquisas sobre prevenção e tratamento de doenças, vislumbra-se mesmo a criação de um ser pós-humano, o que é bem mais assustador.

Na sua obra “2001 – Uma odisseia no Espaço”, Arthur Clark dizia que “qualquer tecnologia suficientemente avançada parece ser mágica”, e como sempre, poucos são os “iniciados” nessa seara e despertam curiosidade quanto à aura mística, ao simbolismo e linguagem cifrada através da qual se comunicam e protegem seus conhecimentos e descobertas, aí incluindo segredos militares, empresariais e de Estado, em muitas situações protegidos por legislações e estratégias digitais de segurança específicas. A guerra ora em andamento na Ucrânia acontece também no espaço cibernético, com sites oficiais sendo atacados e sanções sendo aplicadas às plataformas de notícias estatais russas. Nessa guerra híbrida, a tecnologia já é considerada um novo tipo de “soldado”. Cibercrime e invasão de privacidade estão aí para ficar.

Todo negócio tem o seu segredo e, concordemos ou não, todas as disciplinas (economia, matemática, física…), religiões, governos, associações etc., têm lá seus mistérios e uma linguagem própria, carregada de jargões, que não é clara para os leigos e é acessível apenas para os iniciados e pertencentes às respectivas bolhas.

Conforme ensina a doutora em teologia Ione Buyst (2011),

“O mistério é uma realidade tão rica, complexa, abrangente e profunda que é impossível expressá-la ou explicá-la racionalmente. O mistério não é irracional, mas ultrapassa nossa razão. Por isso, só temos acesso a ele por um caminho feito de experiência e de sabedoria, que valoriza o conhecimento simbólico.”

Nos registros do Concílio Vaticano II, NA 2, consta:

“Desde os tempos mais remotos até aos nossos dias, encontra-se nos diversos povos certa percepção daquela força oculta presente no curso das coisas e acontecimentos humanos; encontra-se por vezes até o conhecimento da divindade suprema ou mesmo de Deus Pai.”

Como principal instrumento pedagógico, a Maçonaria veicula em seus símbolos, mitos e alegorias, mensagens que estimulam reflexão sobre a espiritualidade, somente acessíveis aos iniciados que conhecem a linguagem e decodificam os seus sentidos, de acordo com a capacidade interpretativa de cada um, protegidos por compromissos e juramentos de discrição, favorecendo a identificação e a coesão do grupo. A interpretação e a compreensão de suas verdades é que farão o diferencial na percepção do mundo e na prática das virtudes a eles vinculadas. Por cultuar a razão, a Maçonaria não possui dogmas[1], porém usa essas ilustrações como um caminho para o autoconhecimento. Seus símbolos não são objetos de adoração, mas se constituem em ícones que veladamente encerram Verdades.

Esse “Iniciado” distingue-se do “Profano”[2] (do latim: pro=ante + fanum=templo). O primeiro, tendo ingressado no Templo simbólico da Maçonaria, conhece-o por dentro; o segundo, popularmente referenciado como leigo, fica fora dele, fora do Templo da Sabedoria ou de um real conhecimento da Verdade e da Virtude, das quais reconhece unicamente os aspectos profanos ou exteriores que constituem a moeda corrente do mundo.

Nas religiões e escolas filosóficas antigas (egípcios, persas, gregos, judeus, romanos, celtas e escandinavos), homens e mulheres de qualquer posição e cultura podiam solicitar sua iniciação nos diversos mistérios. Os ensinamentos ministrados aos iniciados, ou discípulos, denominavam-se esotéricos (do grego, esoterikós – interno) ou Mistérios Maiores. E aqueles transmitidos ao público em geral, sem restrições, conhecidos como exotéricos (do grego, exoterikós – exterior) ou Mistérios Menores.

Para Buyst (2011),

“Quem olha de fora, ou quem está dentro sem ter sido iniciado, não conseguirá captar este ‘mistério’ e ser transformado por ele”. “O conhecimento esotérico aliado ao aprendizado permite estabelecer a diferença entre teoria e realidade, consubstanciando-se a experiência pessoal na condição essencial para discernir a opinião da verdade, que é o conhecimento interior.”

Nos evangelhos reconhecemos essa forma de ensinamento. Quando perguntado por seus discípulos por que usava parábolas para falar ao povo, Jesus disse: “Porque a vocês foi dado conhecer os mistérios do Reino do Céu, mas a eles não” (Mt, 13,11). “Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que ele revela seus mistérios” (Eclo, 3,20). “A vós foi dado o mistério do Reino de Deus: aos de fora, porém, tudo acontece em parábolas, a fim de que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam” (Mc 4, 10-12). Para os Cristãos, o mistério de Deus se revela na pessoa de Jesus.

Anatalino (2013) afirma que todo Maçom, ao ser iniciado nos augustos Mistérios da Arte Real (outra denominação para a Maçonaria) está na verdade penetrando no Reino da Enteléquia, vocábulo este que significa a qualidade de ser que tem em si mesmo a capacidade de promover seu próprio desenvolvimento. Essa passagem do estado de não iniciado para iniciado se dirige mais à mente inconsciente do Aprendiz do que à sua consciência. Na Loja, o simbolismo permite ao não Maçom que vivia nas trevas da ignorância encontrar a luz, representada pelo conhecimento, renascer tal como uma semente depositada na terra para uma nova vida, a vida maçônica, que aprimorando o caráter o torna capaz de exercer na sociedade um papel diferenciado, como um agente cidadão.

Esse mistério da cerimônia de iniciação marca o fim de um ciclo e início de outro, como uma “morte” seguida de uma aparente ressurreição ou renascimento simbólico dentro de uma nova família bastante numerosa, simbolizando renovação ou rejuvenescimento, mediante encenação de testes alegóricos, contemplando ritualísticas próprias do ofício de construtor e os conhecimentos esotéricos a elas vinculados, com um simbolismo arquitetônico introduzido não para servir às crenças, porém ligado aos mistérios da edificação do templo interior, com foco no despertar da consciência, visando a promover no homem a busca do conhecimento de si mesmo, ao gerar uma visão de sua própria estrutura mental[3].

A experiência da iniciação é individual, cada um absorve de uma forma muito particular, por isso se diz que é inefável. Tão simples e considerada “um mistério!”. Devemos nos lembrar de que passamos por várias “iniciações” ou “rituais de passagem” em nossa vida, como aniversários, formaturas, casamentos etc.

Na sequência de sua recepção como Aprendiz, o neófito (planta nova) passa a ser instruído nos primeiros mistérios que somente a ele caberá desvendar, sendo apresentado a uma sequência de instruções e instrumentos simbólicos que o ajudarão nessa empreitada para desbastar a pedra bruta da sua personalidade, numa escalada de graus sobre os quais passará a refletir e trabalhar, paulatinamente tomando ciência dos segredos a que aspira conhecer, e que se resumem na vivência dos princípios maçônicos, os quais não podem ser considerados mistérios na sua essência e sim um farol a iluminar o caminho do aperfeiçoamento pessoal.

Esses assim chamados “Mistérios Maçônicos” são constituídos de todas as verdades morais, ocultas sob a forma de alegorias, expressas por sinais, palavras, números, fórmulas, lendas e cerimoniais, que funcionam como auxiliares de memória. Mas, é importante que fique bem claro, a Maçonaria não é detentora de nenhum segredo oculto, fórmulas mágicas ou poderes escondidos. O considerado “Mistério” maior e pouco compreendido é representado pela magia que encerra o amor entre os irmãos, uma verdadeira forma da União, que purifica a amizade e as relações fraternais.

A recepção ou aceitação de um novo membro na Ordem deve ser entendida como o ingresso em um novo estado de consciência, e num modo de ser interior, do qual a vida exterior é efeito e consequência. Pressupõe, no entanto, o compartilhamento, no seio de uma comunidade iniciática, de um “segredo” por meio de símbolos e instruções expressos por um ritual que fará de um candidato um autêntico iniciado ao grau de Aprendiz Maçom. Nicola Aslan ensina que “não existem segredos na maçonaria para aqueles que se propõem a estudar”. Ademais, esses supostos segredos podem ser vistos por qualquer um, mas por estarem no fundo dos corações dos obreiros não são desvendados pelos olhos ou sentidos, e sim pelo estudo, pesquisa e o silêncio da meditação.

Porém, o que mais se destaca é a questão do “segredo” e que é própria de todos os grupos e organizações que desenvolvem algum conhecimento corporativo com linguajar próprio e por isso representam a garantia de que os Maçons não estão sós no mundo e abandonados à própria sorte, pois aprendem a se reconhecer em qualquer ambiente. A necessidade de manter esses “segredos” de reconhecimento mútuo, tratados nos recintos das Lojas, que funcionam como um canteiro simbólico, e restrito aos seus membros, vem de uma tradição de cuidados que deviam ser mantidos em um ambiente de intolerância e repressão que a Ordem sofreu ao longo da história, quando uma simples indiscrição podia custar prisão, tortura ou até mesmo morte, e por isso se mantinha “invisível”.

A principal causa do ódio e perseguição contra os cristãos primitivos na sociedade romana devia-se ao estilo de vida diferenciado. A humanidade sempre olhou com suspeita para aqueles que são diferentes.

“A conformidade, não a distinção, é o caminho para uma vida livre de problemas, e quanto mais os cristãos primitivos levaram sua fé a sério, mais eles corriam o risco da reação da multidão.”

E eles ainda foram vítimas de calúnias, como a suspeita de que as reuniões cristãs fossem orgias sexuais e disfarce para todo tipo de crime, inclusive com acusação de canibalismo, no sentido de que alguém era comido, com referências às palavras de Jesus: “Este pão é meu corpo, este cálice é meu sangue”. Os pagãos entendiam que os cristãos deveriam estar comendo carne humana e bebendo sangue humano. Essas acusações provavelmente surgiram de um fato característico da natureza humana: o segredo gera desconfiança (Shelley, 2018).

No caso da Igreja Católica, até o século VI, as catequeses eram dadas depois da celebração dos sacramentos da iniciação cristã, porque naquele tempo era praticada a chamada ‘disciplina do arcano’, que mandava guardar segredo a respeito dos ‘mistérios’ da fé, seja da doutrina, seja dos sacramentos. Não se podia revelar nada disso aos não batizados, para evitar mal-entendidos, gozações e até perseguições.

“E, assim, havia para os batizandos o ’elemento psicológico da surpresa’ que destacava de certo modo ‘a eficácia da experiência espiritual’ do sacramento” (Buyst, 2011).

A Maçonaria tem os seus segredos, mas não é uma organização secreta, tem endereço e personalidade jurídica registrada nos órgãos competentes (Estatuto, Regimento Interno e CNPJ). Porém, os seus detratores distorcem esse entendimento. Caso não fossem verdadeiros e consistentes seus propósitos, já teria desaparecido há muito. Fort Newton destaca:

“Quando todos os homens praticarem seus preceitos simples, os segredos inocentes da Maçonaria serão postos de lado, pois sua missão estará cumprida e seu trabalho terminado.”

Na Maçonaria Operativa, os pedreiros livres se reuniam em lugares fechados para discutir questões de trabalho e problemas de interesse da corporação, sendo tratados como secretos todos os assuntos. Inclusive, em épocas de perseguições na maçonaria moderna, chegou a ser adotado o uso de um nome simbólico no intuito de o obreiro ocultar o seu verdadeiro nome, prática essa ainda mantida simbolicamente em alguns ritos.

É consenso na história da Maçonaria que, se a sua essência e aparência fossem claros aos não iniciados em seus alegados mistérios, a Ordem já teria desaparecido, sucumbindo a pressões de impérios e ideologias. O seu glamour é exatamente esta aura de segredo e mistério, que nada mais é do que um véu que cobre certos aspectos a serem preservados através da tradição. Essa aura de mistérios e segredos foi reforçada a partir de 1717, em Londres, com o nascimento da Moderna Maçonaria, quando James Anderson inseriu exposições lendárias em suas “Constituições”, publicados nos diários londrinos da época, com o fito de agregar novos adeptos e com isso chamar atenção com fatos tidos como misteriosos segredos guardados pela Maçonaria. Porém, conforme contido no art. 1º da referida “Constituição”, o foco era que a Maçonaria se tornasse “o centro de união e o meio para estabelecer uma amizade sincera entre homens que de outra forma permaneceriam separados para sempre”.

A narrativa de uma possível transição de Maçonaria Operativa para Especulativa ou dos Aceitos e, em seguida, para a Especulativa por excelência ou Moderna[4], formada então por homens espiritualizados, teria absorvido e adaptado conhecimentos em voga na sua época áurea, atraindo intelectuais de diversas correntes de pensamentos, que agregaram elementos místicos e ocultistas, muitos inspirados na Bíblia, relativamente à época da construção do Templo de Jerusalém, além de elementos da Cabala, do hermetismo, da astrologia e de antigas religiões e processos iniciáticos históricos. Assim, a Maçonaria se assumia como guardiã (alguns dizem “legatária”) de determinados conhecimentos arcanos oriundos de fontes bastante amplas, que seriam comunicados aos membros nas iniciações e nos diversos graus.

Registre-se que ocultismo não é temática maçônica. Mas, isso já é tema para discussões acaloradas entre os defensores da “Maçonaria Autêntica” e da “Maçonaria Romântica”, que desvirtua o sentido dos objetivos primordiais da Maçonaria.  O glamour da Maçonaria ao qual nos referimos anteriormente, que deu a ela uma conotação diferenciada em relação aos clubes sociais vigentes à época de sua estruturação moderna, foi o conteúdo iniciático e esotérico introduzido no século XIX por obreiros provenientes da Ordem Rosa-Cruz. Segundo Rizzardo da Camino (2017), a Rosa-Cruz seria a legítima promotora da Maçonaria Simbólica. Sem essa influência, afirma ele, a Maçonaria teria permanecido até hoje na Inglaterra como corporação puramente profissional[5].

No entanto, dizer que ela é mística tem o condão apenas de afirmar que não é materialista (vide nota 1 acima), pois alimenta o entendimento da existência de um princípio criador, que é Deus, e na imortalidade da alma, “e que todas as formas vivas e belas são símbolos de coisas mais sublimes do que elas”. “Não sendo religião, no sentido do culto litúrgico, aceita e amplia todos os conceitos religiosos, extraindo deles lição de que necessita para orientar seus filiados” (Camino, 2017).

Quanto a dizer que teria na sua origem elementos ocultistas, vale dizer que tal tendência se desfez ao longo do tempo com os modernos recursos de difusão de informações e conhecimento, pelo progresso no campo científico com o surgimento de novas ciências como a psicologia e a parapsicologia no campo experimental, aliados à evolução do comportamento e do pensamento humano, restando ao mundo ocultista o plano esotérico e espiritual. A absoluta liberdade de consciência e o racionalismo se constituem nos efetivos pilares da Maçonaria.

É sabido que vários escritores maçônicos imaginosos dotaram seus símbolos históricos e tradicionais de significados que nunca tiveram, além de introduzirem dramatizações descabidas e que somente os verdadeiros iniciados vislumbram as diferenças e não repercutem essas lorotas. Alguns evocam uma suposta egrégora em Loja, que não faz parte da tradição maçônica que prima pela razão, e ainda fazem mise-en-scène para plateias desinformadas ou pose de maçons misteriosos exatamente por não estudarem e usam de subterfúgios para camuflar a ausência de conhecimentos. Parodiando a escritora e teósofa Annie Besant, ensinam o que não sabem, como seguro refúgio de sua ignorância.

Fort Newton ensina: “aquele que professa uma religião, que não seja somente teoria ou forma, é um místico, existindo entre ele e os grandes místicos apenas uma diferença de Grau”. Acrescenta ainda, “misticismo não é patrimônio exclusivo de um grupo de adeptos para ser encarado como um segredo …. Qualquer homem que se curve numa oração, ou eleva seu pensamento ao céu, é um Iniciado no misticismo eterno, que é a força e o consolo da vida humana”. O misticismo diferencia os seres humanos dos animais e a vida se manifesta por meio de atos místicos. Importante, ainda, refletir sobre o pensamento de Joseph Campbell:

“Mitologia é nome que damos à religião dos outros.”

Conforme ensina Camino (2017), “o homem necessita sempre de um amparo vindo do Alto, do mistério extraterreno, do Infinito, poderoso e que atenda a seus caprichos”. Ao fim e ao cabo, é com o autoconhecimento, olhando para dentro, que misteriosamente encontramos o que tanto procuramos alhures. Cícero afirmava que “nos Mistérios, nós percebemos os princípios reais da vida e aprendemos a viver de maneira feliz, mas principalmente a morrer com uma esperança mais justa.”

“Por que é que o cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga”. (Clarice Lispector)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da Loja Maçônica Águia das Alterosas Nº 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte; Membro Academia Mineira Maçônica de Letras e da Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras; Membro da Loja Maçônica de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda; Membro Correspondente Fundador da ARLS Virtual Luz e Conhecimento Nº 103 – GLEPA, Oriente de Belém; Membro Correspondente da ARLS Virtual Lux in Tenebris Nº 47 – GLOMARON, Oriente de Porto Velho; colaborador do Blog “O Ponto Dentro do Círculo”.

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Notas


[1] Sobre a alegada inexistência de dogmas, pergunta-se o que seria a crença em um “Princípio Criador” e na imortalidade da alma, presente em alguns Ritos.  O Rito Sueco, mais praticado nos países escandinavos (Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia, além da Islândia), e em muito menor escala nos Países Baixos e na Alemanha, com origem a partir de 1759, tem sentido profundamente cristão. Conclui-se, assim, que não existe uma Maçonaria, mas Maçonarias e inúmeros Ritos, cada um com suas tradições, usos e costumes inerentes à sua estrutura iniciática e que podem variar entre as Potências.

[2] Infelizmente, o termo “profano”, dentre seus vários significados, somente é referenciado como aquele que deturpa ou viola coisas sagradas. Essa é uma situação que constrange e que poderia ser substituída, no caso da Ordem, pela expressão “não maçom”, muito mais palatável. Guénon (1947) ensina que a palavra “clero” significa “instruído”, e se opõe ao “secular”, que se refere ao homem do povo, ou seja, o vulgar, assimilado ao ignorante ou ao “profano”, de quem só se pode pedir para acreditar no que não se pode compreender, porque só assim se faz participar da tradição na medida de suas possibilidades.

[3]  Ver o Artigo “A alegoria do Templo e a Iniciação Maçônica”, em: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2019/03/12/a-alegoria-do-templo-e-a-iniciacao-maconica/

[4] https://opontodentrocirculo.com/2021/04/23/maconaria-moderna-o-legado-escoces-parte-i/

[5]  Ver Influência da Bíblia na Maçonaria em: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2018/08/28/a-influencia-da-biblia-na-maconaria/

Referências:

BUYST, Ione. O Segredo dos Ritos: ritualidade e sacramentalidade da liturgia cristã. São Paulo: Paulinas, 2011.

CAMINO, Rizzardo da. Simbolismo do Terceiro Grau. São Paulo: Madras, 2017.

CONCÍLIO VATICANO II: NA 2 – declaração Nostra Aetate sobre a igreja e as religiões não-cristãshttp://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decl_19651028_nostra-aetate_po.html, acesso em 09.02.2020.

OLIVEIRA FILHO, Denizart Silveira de. Da Iniciação rumo à Elevação. Londrina: Ed. “A Trolha”, 2012.

FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio. Dicionário de Maçonaria: seus mistérios, ritos, filosofia, história. São Paulo: Pensamento, 2016.

GUÉNON, René. Autoridade Espiritual e Potência Temporal (1947), disponível em https://docero.com.br/doc/cxv5vx1. Acesso em 20.01.2022.

KRIWACZEK, Paul. Babilônia: a Mesopotâmia e o nascimento da civilização. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

NEWTON. Joseph Fort. Os Maçons Construtores: uma história e um estudo sobre a Maçonaria. Londrina: Ed. Maçônica “A Trolha”, 2000.

RODRIGUES. João Anatalino. O Tesouro Arcano – a maçonaria e seu simbolismo iniciático. São Paulo: Madras, 2013.

SHELLEY, Bruce L. História do Cristianismo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2018.

XAVIER, Arnaldo. Saiba o que são Maçonarias. Belo Horizonte: Label Artes Gráficas, 2010.

O que é Cabala e qual sua verdadeira relação com a Maçonaria?

O que é Cabala?

Cabala é o esoterismo judaico. Existe o esotérico e o exotérico. O exotérico é o conhecimento ensinado ao povo, enquanto o esotérico é o conhecimento oculto no exotérico, restrito aos escolhidos, aos iniciados.

Trata-se de um sistema de simbologia e numerologia de origem judaica que teoricamente serve para desvendar os segredos ocultos na Torá.

Apesar dos cabalistas acreditarem que a Cabala foi transmitida pelo próprio Deus a Moisés, vários historiadores concordam que sua origem é nórdica, baseada na lenda de Odin. Por coincidência, a Capela de Roslin, considerada por muitos como um verdadeiro Templo Maçônico do século XV, possui a lenda de Odin com sua árvore sagrada ilustrada na chamada “Coluna do Aprendiz”.

O alfabeto hebraico possui 22 letras, enquanto a Cabala possui 22 caminhos que ligam às 10 esferas (sefirás) que formam sua estrutura, comumente chamada de “árvore da vida”. A árvore da vida é de uma certa maneira formada por triângulos, quadrados e círculos, três formas geométricas muito comuns na Maçonaria.

Qual sua relação com a Maçonaria?

Muitos são os trabalhos, estudos e livros relacionando a Cabala com a Maçonaria. Alguns chegam a inventar que existe a Cabala Operativa e a Cabala Especulativa, para aproximá-la ainda mais das raízes da Maçonaria. Porém, nenhum autor faz o favor de citar um fato ou documento histórico que liga a Cabala à Maçonaria ou mostrar onde há Cabala na Maçonaria. Tudo é muito vago ou, como alguns preferem, está tudo “oculto”, “entre linhas”.

A verdade é que a Cabala se popularizou entre os intelectuais do século XVIII e XIX. E se poderiam haver ensinamentos ocultos na Torah, muitos acreditavam que também poderia haver na Bíblia, nos rituais antigos, etc. A busca pelo oculto se tornou obsessão para a classe intelectual dessa época, aproveitando a onda de decadência da Igreja e das Monarquias e o fortalecimento da massa crítica da sociedade. Nessa época, Maçonaria era moda na Europa e várias outras sociedades secretas brotavam nas cidades, prometendo conhecimento oculto. Somente na Maçonaria Francesa, mais de 1.000 graus maçônicos surgiram dentro de dezenas de Ritos, todos com supostas origens honrosas como Egito Antigo, Palestina, Templários, celtas, Antiga Grécia e outras. O conteúdo e costumes nascidos da Maçonaria Operativa tentavam sobreviver em meio a essa avalanche de novas histórias, crenças, símbolos e práticas, todas novas, mas se autointitulando como “antigas”.

Os “criadores” dos Ritos e rituais chamados “Superiores” necessitavam de conteúdo para criar tantos graus. Ora, a Maçonaria sempre teve uma relação com o Templo de Salomão, com uma Palavra Perdida. Não há misticismo mais próximo disso do que a Cabala, a moda do momento! A origem judaica e a busca por um conhecimento que se perdeu nas brumas do tempo e pode estar oculto é um prato cheio para aqueles sedentos por conteúdo para enxertar na criação de dezenas de novos graus de um sistema.

Dessa forma, a Cabala foi introduzida na Maçonaria quando da criação dos Ritos Maçônicos, entre eles, o Rito de Heredom, sistema de 25 graus, que deu origem ao Rito Escocês.

Onde pode ser visto a Cabala no REAA?

Sua presença mais evidente está no Templo do Rito Escocês: o Templo e suas mesas e altar seguem a famosa Árvore da Vida.

Nos templos originais do REAA, o trono do 2º Vigilante ficava no lado ocidental da Coluna do Sul, paralelo ao trono do 1º Vigilante, assim como ainda é mantido nos Graus Superiores do REAA. A mudança do 2º Vigilante para o centro da Coluna do Sul, como podemos observar nas Lojas Simbólicas atuais, somente ocorreu pela influência dos templos ingleses e do Rito de York.

Observando o formato original do Templo do REAA, o mesmo formato em que a Loja de Perfeição é organizada, vê-se claramente a formação da Árvore da Vida:

O Átrio, onde os candidatos aguardam para serem iniciados, é onde se inicia a senda maçônica. É o ponto intermediário, que separa o profano do sagrado. Em seguida há a Porta do Templo, no Ocidente, que dá acesso à Luz, a partir de onde se inicia o trabalho. Os tronos dos dois Vigilantes seguem paralelos, em suas extremidades, representando o VM no governo de suas Colunas. Tem-se o Altar dos Juramentos no Centro. Observe que o Altar é o único ponto da Árvore em que todos os outros pontos têm caminho direto, menos o Átrio de onde só há acesso ao Altar após atravessar a Porta. Isso mostra que todos estão ligados por meio do GADU, representado pelo Livro da Lei no Altar. Seguindo, vê-se as mesas do Chanceler e o Tesoureiro, paralelas. A partir daí, inicia-se o Oriente, onde se vê as mesas do Secretário e do Orador nas laterais e, por fim, a cabeça da Árvore da Vida, ponto mais alto da Sabedoria da Cabala, o trono do Venerável Mestre.

Essa herança da Cabala se faz presente nos Templos do Rito Escocês e demais Ritos de origem francesa. Já nos templos ingleses (Rituais ingleses modernos, pós 1813) e nos templos americanos (Rito de York, a partir de 1797), não se vê tal característica, visto os templos serem mais próximos do chamado “Antigo Ofício”, ou seja, dos costumes da Maçonaria Operativa, exatamente por não terem sofrido essa influência “ocultista” ou “esotérica” que a maçonaria da Europa Latina (França, Portugal, Espanha e Itália) sofreu.

A Maçonaria Simbólica brasileira, por desconhecimento, promoveu com o passar dos tempos diversas adaptações em seus templos do REAA, desfigurando a Árvore da Vida pela influência de outros Ritos e Rituais. Porém, ela encontra-se preservada através dos Graus Superiores, ainda inviolados.

Por que não há registros explícitos disso?

Porque os criadores e líderes dos Ritos na época buscavam a atração e aceitação de seus adeptos através de afirmações de que o Rito surgiu de uma expedição de Napoleão ao Egito, ou dos escritos de um antigo Imperador, ou de um pergaminho protegido por um cavaleiro templário que sobreviveu à Inquisição. Era mais interessante do que confessar que se tratava de um trabalho um pouco mais recente, fruto de uma miscelânea de história, parábola, símbolos, com uma pitada de Cabala e outros misticismos.

Autor: Kennyo Ismail

Fonte: No Esquadro

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As três Grandes Luzes da Maçonaria, a Moral e a Ética

As três grandes luzes da Maçonaria são o Compasso, o Esquadro e o Livro da Lei Sagrada.

Talvez o mais conhecido dos símbolos da Maçonaria seja o que é constituído por um esquadro, com as pontas viradas para cima, e um compasso, com as pontas viradas para baixo.

Como normalmente sucede, várias são as interpretações possíveis para estes símbolos.

É corrente afirmar-se que o esquadro simboliza a retidão de caráter que deve ser apanágio do maçom. Retidão porque com os corpos do esquadro se podem traçar facilmente segmentos de reta e porque reto se denomina o ângulo de 90 º que facilmente se tira com tal ferramenta. Da retidão geométrica, assim facilmente obtida, se extrapola para a retidão moral, de caráter, a caraterística daqueles que não se “cosem por linhas tortas” e que, pelo contrário, pautam a sua vida e as suas ações pelas linhas direitas da Moral e da Ética. Esta caraterística deve ser apanágio do maçom, não especialmente por o ser, mas porque só deve ser admitido maçom quem seja homem livre e de bons costumes.

É também corrente referir-se que o compasso simboliza a vida correta, pautada pelos limites da Ética e da Moral. Ou ainda o equilíbrio. Ou a também a Justiça. Porque o compasso serve para traçar circunferência, delimitando um espaço interior de tudo o que fica do exterior dela, assim se transpõe para a noção de que a vida correta é a que se processa dentro do limite fixado pela Ética e pela Moral. Porque é imprescindível que o compasso seja manuseado com equilíbrio, a ponta de um braço bem fixada no ponto central da circunferência a traçar, mas permitindo o movimento giratório do outro braço do instrumento, o qual deve ser, porém, firmemente seguro para que não aumente ou diminua o seu ângulo em relação ao braço fixo, sob pena de transformar a pretendida circunferência numa curva de variada dimensão, torta ou oblonga, assim se transpõe para a noção de equilíbrio, equilíbrio entre apoio e movimento, entre fixação e flexibilidade, equilíbrio na adequada força a utilizar com o instrumento. Porque o círculo contido pela circunferência traçada pelo instrumento se separa de tudo o que é exterior a ela, assim se transpõe para a Justiça, que separa o certo do errado, o aceitável do censurável, enfim, o justo do injusto.

Também é muito comum a referência de que o esquadro simboliza a Matéria e o compasso o Espírito, aquele porque, traçando linhas direitas e mostrando ângulos retos, nos coloca perante o facilmente perceptível e entendível, o plano, o que, sendo direito, traçando a linha reta, dita o percurso mais curto entre dois pontos, é mais claro, mais evidente, mais apreensível pelos nossos sentidos – portanto o que existe materialmente. Por outro lado, o compasso traça as curvas, desde a simples circunferência ao inacabado (será?) arco de círculo, mas também compondo formas curvas complexas, como a oval ou a elipse. É, portanto, o instrumento da subtileza, da complexidade construída, do mistério em desvendamento. Daí a sua associação ao Espírito, algo que permanece para muitos ainda misterioso, inefável, obscuro, complexo, mas simultaneamente essencial, belo, etéreo. A matéria vê-se e associa-se assim à linha direita e ao ângulo reto do esquadro. O espírito sente-se, intui-se, descobre-se e associa-se, portanto, ao instrumento mais complexo, ao que gera e marca as curvas, tantas vezes obscuras e escondendo o que está para além delas – o compasso.

Cada um pode – deve! – especular livremente sobre o significado que ele próprio vê nestes símbolos. O esquadro, que traça linhas direitas, paralelas ou secantes, ângulos retos e perpendiculares, pode por este ser associado à franqueza de tudo o que é direito e previsível e por aquele à determinação, ao caminho de linhas direitas, claro, visível, sem desvios. O compasso, instrumento das curvas, pode por este ser associado à subtileza, ao tato, à diplomacia, que tantas vezes ligam, compõem e harmonizam pontos de vista à primeira vista inconciliáveis, nas suas linhas direitas que se afastam ou correm paralelas, oportunamente ligadas por inesperadas curvas, oportunos círculos de ligação, improváveis ovais de conciliação; enquanto aquele, é mais sensível à separação entre o círculo interior da circunferência traçada e tudo o que lhe está exterior, prefere atentar na noção de discernimento entre um e outro dos espaços.

E não há, por definição, entendimentos corretos! Cada um adota o entendimento que ele considera, naquele momento, o mais ajustado e, por definição, é esse o correto, naquele momento, para aquela pessoa. Tanto basta!

O conjunto do esquadro e do compasso simboliza a Maçonaria, ou seja, o equilíbrio e a harmonia entre a Matéria e o Espírito, entre o estudo da ciência e a atenção às vias espirituais, entre o evidente, o científico, o que está à vista, o que é reto e claro e o que está ainda oculto ou obscuro. O esquadro é sempre figurado com os braços apontando para cima e o compasso com as pontas para baixo. Ambas as figuras se opõem, se confrontam: mas ambas as figuras oferecem à outra a maior abertura dos seus componentes e o interior do seu espaço. A oposição e o confronto não são assim um campo de batalha, mas um espaço de cooperação, de harmonização, cada um disponibilizando o seu interior à influência do outro instrumento. Assim também cada maçom se abre à influência de seus Irmãos, enquanto ele próprio, em simultâneo, potencia, com as suas capacidades, os seus saberes, as suas descobertas, os seus ceticismos, as suas respostas, mas também as suas perguntas (quiçá mais importantes estas do que aquelas…) a modificação, a melhoria, de todos os demais.

Quanto ao Volume da Lei Sagrada, este pode ser qualquer dos Livros de qualquer das religiões que acreditem na existência de um Criador, qualquer que seja a conceção que Dele se tenha, mais ou menos interventor no Universo ou mero Princípio Criador catalisador e e definidor do Universo.

O Livro da Lei Sagrada contém em si as normas básicas da atuação e convivência humanas, referencial para a conduta do homem de bem. Em suma, simboliza o conjunto de regras que a Sociedade determina aceitáveis para que a sã convivência entre todos seja possível, ou seja, A Moral inerente à Sociedade e que todos os que a integram devem respeitar e seguir.

Nas sessões de Loja, o Compasso e o Esquadro são colocados SOBRE o Volume da Lei Sagrada. Não porque se entenda que são mais importantes aqueles do que este, mas, pelo contrário, porque o Volume da Lei Sagrada simboliza a base Moral sobre a qual assenta a Ética de cada um.

Esta, a Ética, defini-a já como o conjunto de princípios que norteiam a determinação e utilização dos meios à nossa disposição para atingirmos os fins que nos propomos.

 O Esquadro traça, sobre o pano de fundo da Moral, as linhas éticas que o Homem deve definir para a sua atuação. O Compasso define os limites que essas linhas devem respeitar.

O conjunto de ambos simboliza, assim, também a Ética que, tal como eles assentam no Volume da Lei Sagrada, assenta na Moral sobre que esta se constrói.

Porque a ética sem Moral pode usar esse nome, mas não é verdadeiramente ética – ou então teríamos que aceitar como tal a “honra dos ladrões”, a dita “ética dos criminosos”. A Ética tem que necessariamente ser individualmente construída respeitando e assentando na Moral da Sociedade em que nos inserimos, pois nenhum homem é uma ilha podendo arrogar-se o direito de definir o seu conjunto de princípios fora da Moral da Sociedade em que se insere.

As Três Grandes Luzes da Maçonaria são, assim, o conjunto de símbolos que deve guiar a atividade de aperfeiçoamento do maçom, homem livre de escolher e determinar os Princípios que o norteiam, mas sempre harmoniosamente integrado na Sociedade em que se insere.

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Uma pedagogia através de símbolos e imagens simbólicas

A Maçonaria oferece uma maneira única de divulgar suas ideias entre os iniciados nessa organização. Esta epistemologia vem de várias fontes, mas em todas elas o símbolo, ainda mais a imagem simbólica, desempenha um papel central. Uma recente novidade editorial, Masonic Symbolism, de JJ García Arranz, estudou-o. Nas páginas seguintes, tentar-se-á delimitar um pouco em que consiste este método de comunicação de ideias, sobretudo na sua dimensão visual. Além disso, este número será aprofundado com base na já mencionada novidade editorial apresentada por García Arranz, bem como na resenha que publicou em REHMLAC +. 

No número 1 do volume 10 da REHMLAC+ (maio-novembro de 2018) foi publicada uma resenha sobre uma novidade editorial, Masonic Symbolism, escrita por José Julio García Arranz e publicada na Editorial Sans Soleil . A revisão foi realizada por Antonio Morales Benítez, pesquisador da Universidade de Cádiz.

Tanto o título do livro de García Arranz quanto a resenha de Morales Benítez enfatizam o valor dado à questão do simbólico. Assim, este artigo visa aprofundar esse aspecto, tomando como diretriz o estudo publicado por Sans Soleil, já que –como indica Morales Benítez em sua obra– o livro de García Arranz ocupa uma lacuna no mercado hispânico que era importante preencher[1]. Dada a importância dada à análise de García Arranz, toma-se o Simbolismo Maçônico como fonte principal, a ser complementada – sim – com outras referências bibliográficas.

No final de 2017, foi publicado pela editora Sans Soleil o referido livro sobre a dimensão simbólica da Maçonaria. García Arranz considera o simbólico como o eixo fundamental da epistemologia proposta pela fraternidade. De fato, o fato desta obra ter sido publicada em Sans Soleil é muito consistente, pois o simbólico e suas aplicações estéticas constituem um de seus principais eixos de divulgação. Aliás, a referida editora especializou-se na edição de alguns dos livros mais representativos das mais renomadas tendências da história da arte. Assim, em seu catálogo pode-se encontrar desde clássicos da iconologia (Panofsky, Gombrich) até grandes teóricos dos estudos visuais (Mitchell, Moxey) e estudos culturais (Haraway), além de alguns dos novos autores mais interessantes da disciplina na esfera hispânica, especialmente na academia espanhola. Entre eles, o professor García Arranz, com o referido estudo sobre a sociedade secreta.

As credenciais do professor José Julio García Arranz são importantes para entender sua perspectiva. É professor catedrático de História da Arte na Universidade da Extremadura, especializado em emblemática. Isso dá à sua pesquisa um viés claro para o aspecto visual da sociedade secreta. Consequentemente, e entre outras virtudes, o Simbolismo Maçônico compila um enorme número de imagens geradas pela sociedade secreta em sua história centenária.

Como Morales Benítez já relata em sua resenha, García Arranz foi o fundador da Sociedade Espanhola de Emblemática[2], fator a ser levado em conta pelo peso que esse modelo de transmissão logoicônica tem na história da fraternidade[3]. Aprofundando-se no exposto, além da emblemática, o professor também investigou o material visual relacionado ao imaginário hermético, alquímico, esotérico ou afins.

Quanto à abordagem do estudo de García Arranz, não será aquele que pretende fazer proselitismo para a causa maçônica. Nem a denegrir, transformando-a numa hidra que está na raiz de todas as revoluções (negativas) do mundo[4]. Apenas pesquisa acadêmica rigorosa é procurada. O livro está dividido em sete ensaios de extensão variável, aos quais se acrescenta a introdução, a conclusão e dois apêndices.

Entre as várias metodologias, o autor da obra resenhada optou por realizar um estudo de maçonologia —em homenagem à iconologia panofskyana. Portanto, aproveita as ferramentas das ciências humanas, evitando leituras partidárias, baseadas em fantasias, e realizadas por membros da fraternidade ou por detratores convictos, sem o domínio adequado das metodologias das disciplinas humanas[5]. Ou mesmo sem a necessária distância do objeto de análise, mediada por seu fervor. Devido a isso, esse tipo de pesquisadores maçônicos traçam conexões sem suporte empírico[6]. Pode-se dizer que, com tal decisão, García Arranz opta por uma leitura ética em termos de antropologia, externa ao grupo estudado.

Entre os ensaios, ele combina alguns de narração histórica com outros que funcionam como um dicionário de símbolos em uso, junto com alguns mais de tipo especulativo que – por exemplo – observam a evolução de certas ideias dentro do corpus teórico e visual maçônico.

As quatro primeiras seções — introdução e três capítulos próprios — do Simbolismo Maçônico são apresentadas como definições do assunto em questão, que vão desde uma apresentação geral até delimitações conceituais, uma indagação sobre o que é especificamente para a fraternidade ou os tipos de símbolos que podem existir, dependendo das origens, dada a natureza eclética das fontes maçônicas. Todos ensaísticos, os quatro textos constituem uma base incontornável sobre a qual se apoiará o restante, são reflexões sobre o papel do simbolismo e seu peso na história da fraternidade. Isso configurará o que Martín López chamou de “estética maçônica”, que – em sua opinião – é um rótulo melhor do que “estilo maçônico”[7].

Uma das características mais marcantes do aspecto epistemológico em que a fraternidade divulga suas ideias gira em torno de um ecletismo de fontes, o equivalente estético de seu sincretismo religioso – que bebe tanto do hermetismo quanto da alquimia, do Egito faraônico e do cristianismo. Segundo García Arranz, os símbolos de tantas religiões são retrabalhados em códigos maçônicos[8]. Na arte contemporânea dir-se-ia que a sociedade secreta se apropria de cada um deles.

Símbolo como fonte de conhecimento espiritual, mas também de ensino moral, cada um dos Ritos – mesmo cada uma das Lojas – decide qual das muitas tendências maçônicas prefere priorizar, uma escolha que terá consequências sobre como a faceta metafórica mais tarde será trabalhada. Portanto, para García Arranz, o simbolismo torna-se a espinha dorsal das lojas e da Maçonaria, pois cada obediência e cada rito têm uma abordagem parcialmente diferente em relação aos outros — o ritual apresenta mudanças, os templos são decorados com pequenas variações —, embora sempre compartilhando um fundo simbólico comum[9].

Mas antes de prosseguir, e dada a centralidade que a Maçonaria lhe confere, convém definir – na medida do possível – a que ideia de símbolo a sociedade secreta se refere. A irmandade passou a utilizá-los – segundo uma longa corrente de interpretação compartilhada, ao menos parcialmente, por simbolistas, românticos, herméticos ou neoplatônicos, que pensavam na imagem simbólica como algo que remetesse ao sagrado, metafísico ou mítico – como uma imagem que alude ao verdadeiro no sentido espiritual e que, mesmo em suas leituras mais espiritualistas — hinduísmo, religião egípcia durante os faraós ou certas correntes esotéricas — a imagem pode vir a ser a mesma[10].

Uma ideia expressa no catálogo que acompanhou uma das exposições mais interessantes de 2017, As Above, So Below: Portals, Visions, Spirits & Mystics, exibida no IMMA em Dublin, aprofunda esta ideia:

“Em tempos passados, a arte feita por humanos não representava apenas alguma coisa, ela era aquela coisa;  a divindade, espírito, humano ou animal continha a essência ou, se preferir, a alma daquela coisa.” [11]

Uma tendência já encontrada no hermetismo, um dos grandes horizontes culturais que influenciaram a fraternidade. Ficino, pensador vinculado às raízes renascentistas da referida corrente, havia teorizado sobre a capacidade do símbolo de tornar visível o invisível, orientar para a ideia e, simultaneamente, ao pensar sobre ela, reformar a mente. Devido a essas virtudes, gozaria de um alto poder heurístico[12].

No código maçônico, e como fundamento epistemológico, o símbolo maçônico alude à coisa sem perder seu caráter polissêmico: o mesmo objeto – compasso, esquadro ou qualquer outro – significa coisas complementares, mas não necessariamente iguais em diferentes graus. O compasso no grau de Aprendiz não será equivalente à mesma realidade que no de Mestre. Cada vez ele irá incorporar novas facetas. Isso pode chegar a vincular vários objetos de maneira diferente para cada série. Aí o símbolo possui uma multivalência polissêmica, cujos significados são potencialmente infinitos[13].

Por isso, a faceta lógica ou racional não se concentra exclusivamente nele, mas o que é representado se dirige à totalidade do psiquismo, tanto ao irracional quanto ao suprarracional. Ou seja, em todos os níveis que não são conscientes ou racionais, com uma natureza inevitavelmente misteriosa, ambígua, inefável ou ilimitada[14]. Assim, torna-se também uma ferramenta inestimável para compartilhar informações sobre o metafísico ou o sagrado[15].

Porém, isso não descreve completamente o uso do simbólico na fraternidade. Como muitas vezes aponta García Arranz, há dois polos hermenêuticos que vão da já mencionada forte leitura esotérica – sem lastro na documentação histórica – a uma leitura puramente racionalista que escapa à dimensão anterior. García Arranz trata desses dois polos em vários pontos do texto, com formas muito diferentes de compreender o corpus teórico e simbólico do grupo[16].

Geralmente, a leitura esotérica prefere refletir sobre uma dimensão mítica ou espiritual, uma interpretação ocultista que seguiria a tradição hermética, segundo a qual as verdades últimas do mundo inteligível são incorporadas em símbolos[17]. Por outro lado, as lojas que optam por filtrar os símbolos por um código moral mais didático preferem uma Maçonaria laica e racionalista, com prioridade para o político ou o sociológico, muitas vezes de forma progressista.

Essa dupla abordagem maçônica, com a sensibilidade mais metafísica por um lado e a histórico-sociológica por outro, lembra a dualidade com que Ernst Gombrich descreveu a hermenêutica do simbólico. Segundo o grande historiador da arte, em um estudo clássico, podem-se distinguir duas formas de abordar a interpretação dos símbolos. De um lado, a mentalidade que chamou de “intelectual aristotélica”, um método de definição visual baseado em associações de conceitos e imagens, algo que pode ser delimitado, estudado e estabelecido. No outro, o que chamou de “misticismo neoplatônico”, cuja origem é mais religiosa e em que, no que diz respeito à comunicação, o símbolo se torna expressão de algo inefável e que nunca pode ser completamente definido[18]. Assim, ao longo de sua história, a Maçonaria vem manifestando ambas as tendências em suas operações. É claro que, embora o autor destas linhas concorde com a apreciação de García Arranz, segundo a qual a Maçonaria utiliza ambas, dá a impressão –porém– que o uso original de seu método partiria do chamado neoplatônico místico, corrigido durante sua já longa história para a outra opção, mais racionalista.

De qualquer forma, a imagem simbólica apresenta sua informação superando a literalidade das coisas, sendo ela mesma (o compasso) e, ao mesmo tempo, sugerindo outras realidades, em um mostrar e esconder simultaneamente – um espetáculo de ocultação que, por outro lado, é a quintessência da arte. A atividade cognitiva gerada pelas imagens simbólicas ativa a imaginação — que é seu domínio —, provocando também a geração de sentimentos, o que explica em grande parte, pelo menos, sua eficácia como método pedagógico.

O quinto e muito curto capítulo do livro de García Arranz ainda mantém o tom ensaístico. Nele, o autor se pergunta justamente sobre a função dos símbolos, desdobrados em identificação mútua entre maçons, a difusão moral —com suas lendas e afins—, ou uma propedêutica filosófico-moral, considerando através de seu estudo como deve se comportar um verdadeiro maçom. Mas, além disso, observam-se também outras funções de natureza mais metafísica, como a possível união com uma realidade transcendente, graças a esses símbolos arquetípicos, transformados na encarnação do transcendental. Graças a eles, o maçom pode libertar-se do condicionamento[19].

As duas seções seguintes são as centrais dentro do Simbolismo Maçônico. Para começar, elas expandem o formato do ensaio para propor uma exibição como verbetes do dicionário. E fazem isso para duas áreas maçônicas fundamentais. Na primeira, os mitos da fraternidade e os objetos para explicar suas ideias. No segundo, os espaços do templo. Embora o tema varie, a estrutura de ambos os capítulos é compartilhada. E em termos de extensão, essas seções ultrapassam a metade do estudo.

O primeiro de ambos – o sexto capítulo – descreve um a um, alguns dos símbolos e mitos mais comuns das Lojas. Esta é a seção mais variada e complexa, baseada na constituição dos mitos da fraternidade. Ao contrário dos capítulos anteriores, do tipo ensaio, focados no desenvolvimento de um tema unitário, nesta passagem todos esses conceitos – e mais alguns – são explicados como verbete de dicionário. Combina alguns dos elementos cruciais do léxico da corrente iniciática ligada ao trabalho de construção – como o compasso, o cinzel e os demais exemplos – com reflexões sobre a geometria sagrada de inspiração pitagórica, como o Delta do Oriente, a Estrela Flamejante, o hexagrama, o ponto e a circunferência ou outras figuras semelhantes.

O longo capítulo também explica algumas das histórias fundadoras extraídas do legado bíblico. Ele esclarece muitas delas, oriundas de fontes do Antigo Testamento, lidas como germe de ensinamentos morais ou por suas analogias com a instrução da irmandade, como a de Hiram Abif, arquiteto do templo de Salomão — tema básico da bagagem de uma fraternidade com uma figura chamada Grande Arquiteto do Universo[20] —, tudo relacionado ao referido templo, as colunas Jakim e Boaz, a construção da Torre de Babel, a construção da arca de Noé ou escada de Jacó, entre outros episódios, personagens e objetos relevantes da Bíblia.

Nessa mesma epígrafe, o autor faz um exercício semelhante com influência esotérica, pegando uma série de temas e desenvolvendo-os. Entre eles, o templário e o espírito cavalheiresco que derivou de seu exemplo, o rosacrucianismo, a alquimia, os cultos de mistério ou a arte da memória. García Arranz sai da exaustividade do dicionário de termos para voltar ao ensaio reflexivo. Com ele, levanta-se o que há de factual nessa suposta herança ou – pelo menos – transferência do oculto.

Na minha opinião, García Arranz minimiza um pouco seu peso. A Maçonaria tornou-se um dos redutos tradicionais da corrente esotérica ocidental. Sua influência é percebida tanto no tipo de epistemologia — a necessidade de ritual, o uso de símbolos e, portanto, a tentativa de evitar o literal, o uso neoplatônico de exemplos morais para aprender o comportamento…— como no conteúdo mitológico — o próprio uso dos mitos e do pensamento mítico, a Rosacruz, o Templário, até mesmo partes dos rituais—. Sem esquecer, muitos dos elementos simbólicos em que ressoa o hermetismo-esoterismo, a tríade enxofre-mercúrio-sal, o pavimento em mosaico… relacionado com a sociedade secreta 

Além disso, se traçarmos as origens de alguns símbolos, e como exemplo, a alquimia serviu de referência na exibição visual dentro das lojas. Por exemplo, nas imagens da loja e no material visual encontrado nos livros de gravuras da ciência de Hermes (alquimia). Mas, na minha opinião, a influência nesse sentido é menor. Embora seja verdade que os emblemas alquímicos possam inspirar nos casos em que se representa uma combinação heterogênea de elementos de múltiplos significados — como acontece nos painéis dos graus de Aprendiz e Companheiro —, a influência é muito menor no que diz respeito às gravuras com cenas –muitas vezes mitológicas– e que devem ser decodificadas, comparando-as com os processos observados no ritual. Contudo, este tema é complexo e merece pesquisas futuras focadas nele.

Se voltarmos ao estudo de García Arranz, o capítulo termina no mesmo tom especulativo, pensando na lenda e na realidade do papel maçônico na Revolução Francesa. Apesar da heterogeneidade da Maçonaria, composta por atitudes muito diversas – até opostas –, os teóricos da conspiração acusaram a fraternidade de ter desencadeado o movimento revolucionário e o consequente terror, o que teria significado uma vingança templária contra seus inimigos monárquicos. Mas nem as Lojas reagiram unanimemente a esses acontecimentos — muito pelo contrário —, nem o lema revolucionário, com as três virtudes (Liberdade, Igualdade, Fraternidade) tão cruciais dentro do ritual da ordem, foi um empréstimo maçônico, sendo que o que aconteceu foi justamente o contrário do ronda o senso comum.[21]

O sétimo capítulo, “Os lugares da imagem-símbolo”, continua com o formato do dicionário. Mas, neste caso, para descrever os elementos simbólicos do templo, o pavimento em mosaico, os locais de assento do Aprendiz, Companheiro e Mestre, os painéis da Loja…, assim como as luzes em várias variantes e significados. Sendo a Maçonaria uma corrente iniciática especialmente interessada no simbolismo da luz, pode-se deduzir o valor dado a esta parte do léxico da fraternidade.

No último capítulo, García Arranz retoma o tom ensaístico para refletir sobre uma de suas áreas de especialização: a forma artística dos emblemas, tão relevante sobretudo nos séculos XVI e XVII. Para forjar sua forma logoicônica, ou seja, a combinação de informações textuais com outros gráficos, uma mistura emblemática para a qual era importante a teoria dos hieróglifos que existia naqueles séculos, assim como as fantasias que gerava[22]. Muitos dos motivos dos livros de emblemas serviram de inspiração para a rica herança simbólica da sociedade secreta.

Sobre a capacidade de revelação da imagem no sentido hermético, convertida no que pensavam ser um hieróglifo no século XV ou XVI, o professor Díaz-Urmeneta aponta um argumento que pode ser estendido à fraternidade e seu uso do simbólico:

Esta é a afirmação da magia renascentista. Partindo do pensamento árabe, de algumas de suas recepções pela escola e de escritos herméticos, o Renascimento busca uma imagem efetiva que tenha a força que o tempo atribuiu aos hieróglifos dos antigos egípcios. Tal imagem não procura significar ou comunicar, mas tornar presente. Traga aqui a força oculta na natureza. Ao despertar assim a virtude de qualquer ser, encerrado em seu nome ou em sua figura, os homens poderiam intervir no curso dos eventos naturais. O hieróglifo era a linguagem das coisas que, roubadas da natureza, continham a eficácia manifesta ou oculta das próprias coisas. [23]

No uso de imagens com valências hieroglíficas, a Maçonaria está ligada a um clássico da utopia do século XVII, Cidade do Sol , escrito por Campanella, autor muito próximo do pensamento hermético. Neste romance utópico, o antigo anseio renascentista pela linguagem através de imagens, hieróglifos e significado pedagógico é fabulado. O personagem Sin, que na cidade ideal se encarrega da ciência, mandou pintar murais e cortinas da cidade com desenhos de estrelas, matemática, minerais, metais, bebidas, animais, ervas, árvores ou países do mundo, com os quais ilustram visualmente os cidadãos.

O conjunto relatado no romance utópico segue o ideal hermético da instrução por imagens hieroglíficas, tendo os afrescos como lição, numa combinação de imagem e palavras, já que os professores os utilizam para instruir. Além disso, as várias representações se entrelaçam como em uma tapeçaria, para mostrar como funciona a teoria das correspondências, tendência também próxima da Maçonaria. A finalidade pedagógica dos murais da Cidade do Sol é aplicada a partir dos três anos de idade. Esse fator torna-se o enredo da história utópica justamente no momento em que franciscanos e jesuítas catequizaram com imagens, quando se buscaram significados esotéricos para hieróglifos ou quando imagens e versos foram combinados em emblemas[24].

García Arranz aplica a união logoicônica à leitura das pinturas da loja, nas quais se fundem graficamente os principais elementos simbólicos maçônicos. Mas, na minha opinião, essas pinturas de loja carecem do componente textual, essencial para que uma forma visual seja emblemática. Em vez disso, encontra-se neles a densidade simbólica e alegórica da parte visual dos emblemas.

De qualquer forma, eles também se aproximariam de exemplos um pouco mais avançados de livros de emblemas alquímicos, nos quais a informação textual desaparece quase completamente, com o exemplo por excelência do Mutus liber, intitulado como o Livro Mudo, que tentou alcançar a tradução hermética ideal de ideias a imagens para pensar através delas. E, assim, contornar as limitações do logos e sua linguagem verbal[25].

Que sim, como já se antecipou um pouco acima, é claro que, entre os membros das sucessivas gerações de maçons, podem ser contados vários que tinham consciência dessa bagagem cultural e que seu próprio discurso – bem como a ideologia de a fraternidade – foi influenciado por ele.

Essa influência é perceptível de forma mais clara naqueles emblemas que contêm elementos simbólicos compartilhados pela Maçonaria, como o compasso, o esquadro e outros. Mas, na visualidade maçônica, em suas imagens, quase sempre falta o aspecto textual, essencial para que a forma do emblema aconteça. Provavelmente, isso se deve ao fato de a instrução maçônica ser constituída por imagens, mas também por recitações dos rituais, aspecto que deve ser sempre levado em consideração ao se analisar a epistemologia da fraternidade[26].

Sobre os rituais, os tratados do antropólogo Víctor Turner podem lançar luz sobre essa parte da Maçonaria. Turner praticamente se especializou no pensamento simbólico e no performativo como derivado do ritual. Ele também estudou cuidadosamente os fundamentos do ritual, bem como sua evolução na forma de teatro em sociedades cada vez mais complexas. O antropólogo afirmou que tinha vínculos com o teatro, era como uma performance, a consumação de um ato que tem um componente religioso constitutivo[27]. Ambos os tipos de ações estão ligados às crises daqueles que as vivenciam, o que implica uma mudança de status social para eles[28]. Mas isso não afeta apenas eles. Os rituais coletivos nas sociedades pré-industriais atraem toda a comunidade, dizem respeito ao grupo que compartilha a cultura. Toda narração desse tipo resulta em um drama social para aquele todo, uma experiência liminar, uma transição de um estado para outro ou uma experiência limiar, que significa limen em latim, na terminologia de Turner[29].

A conclusão do livro de García Arranz constitui outro capítulo de ensaio. Investiga a preferência maçônica por não estabelecer uma leitura oficial e ortodoxa de sua simbologia, mas também ficar sempre dentro dos canais estabelecidos pela tradição de sua história, por onde fluem os diversos afluentes que dão conteúdo à Maçonaria, como o Templário, o Rosacruz, a emblemática alquímica… É através da constante meditação sobre os símbolos, uma reflexão que se reflete nos trabalhos apresentados em loja, na medida que se forma o maçom. Assim, os símbolos tornam-se substrato pedagógico para o ensino, no duplo aspecto comentado que se encontra dentro da Maçonaria: aquele que os interpreta de forma mais esotérica e aquele que o faz uma forma mais próxima de um ensino moral explicável em termos racionais.

O livro termina com dois anexos. Um dedicado a animais e plantas usados ​​para fins metafóricos. E, o outro, às cores. Amostras fiéis dos dois estilos que caracterizam o texto: o primeiro esmiúça, como um dicionário, o uso do pelicano, do galo ou da rosa em rituais, enquanto o segundo opta pela outra estratégia, já levantada anteriormente. Ou seja, o estilo ensaístico para pensar como as cores são usadas em vários rituais.

Em suma, a abordagem de García Arranz em seu livro, o fato de combinar ensaios com verbetes de dicionários, permite que seu trabalho seja usado tanto como ferramenta de trabalho para buscar breves análises de elementos simbólicos, quanto para refletir mais detalhadamente sobre questões centrais para a epistemologia da Maçonaria. E o valor da pesquisa se dá pelo papel central que esse aspecto mantém dentro da fraternidade, bem como pela escassez de estudos sobre ele no âmbito hispânico, para o qual – nas palavras de seu revisor Morales Benítez – o simbolismo maçônico começa a preencher uma lacuna nesse campo linguístico[30].

Um objeto que se tentou manter neste artigo, que tomou a obra de García Arranz e a resenha em REHMLAC + como percussores, graças ao qual refletir sobre a dimensão simbólica e sua tradução em imagens dentro da Maçonaria, com suas peculiaridades. epistemológica e pedagógica, uma vez que existem poucas outras organizações no presente cujo sistema de transmissão de conhecimento é baseado em símbolos em tal medida. Essa especificidade maçônica tornou necessário um estudo como o de García Arranz.

Autores: Ventosa Roger Ferrer
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: REHMLAC 

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Notas

[1] Antonio Morales Benítez, “Revisão do Simbolismo Maçônico. História, fontes e iconografia de José Julio GarcíaArranz”, REHMLAC+ 10, no. 1 (2018): 394,          https://doi.org/10.15517/rehmlac.v10i1.331

[2] Morales Benítez, “Reseña de Symbolismo masónico”, 392. Foi também secretário dessa sociedade.

[3] Logoicônico como a união de uma informação textual com outra visual que caracteriza e singulariza a forma emblemática. Mais sobre isso em Fernando R. de la Flor, Emblemas. Leituras da imagem simbólica (Madri: editorial da Alianza,1995), 22. O professor Rodríguez de la Flor é outro dos grandes especialistas da esfera hispânica em relação aos emblemas.

[4] Um exemplo desta última tendência difamatória seria encontrado em Los masones de César Vidal.

[5] Abordagem valorizada como “sucesso” na resenha de Morales Benítez, 393, boa avaliação que compartilho.

[6] José Julio García Arranz, Simbolismo Maçônico. História, fontes e iconografia (Vitoria-Gasteiz: SansSoleil, 2017), 24. Como exemplo dessa tendência, podemos citar uma obra editada por Arturo de Hoyos e S. Brent Morris, Freemasonry in Context. História, Ritual, Controvérsia, escrito por e para Maçons, ou Maçonaria: A Tradição Esotérica , de Fabio Venzi, que também acrescenta uma guenoniana. Do lado oposto, o já citado César Vidal. O problema reside, então, no fato de sua abordagem não pertencer ao campo acadêmico mais ou menos objetivo, interessado na própria coisa como objeto de análise.

[7] David Martín López, “Arte e Maçonaria: considerações metodológicas para seu estudo”, REHMLAC+1, no. 2 (dezembro de 2009 a abril de 2010): 19-20,https://revistas.ucr.ac.cr/index.php/rehmlac/article/view/6615/6304

[8] García Arranz, “Simbolismo maçônico”,19.

[9] García Arranz, “Simbolismo maçônico”, 20-21.

[10] Fernando R. de la Flor, Emblemas. Leituras da imagem simbólica(Madri: Editorial Alliance, 1995), 188. Roger Ferrer Ventosa, “O ovo e o zero: do nada ao infinito”, Revista Sans Soleil- Estudios de la imagen 8 (2016): 89. A imagem que ocupa o lugar do que é representado: E H Gombrich, Imagens simbólicas. Estudos sobre a arte do Renascimento, 2(Madrid: Debate, 2001),124-125 e 177.

[11] Mark Pilkington, “The Active Surface: Art as Magical Technology”, em As Above, So Below: Portals, Visions, Spirits & Mystics, eds. Rachel Thomas e Sam Thorne (Dublin: Museu Irlandês de Arte Moderna, 2017): 43-44, 43.

[12] Juan Bosco Díaz-Urmeneta Muñoz, A terceira dimensão do espelho: um ensaio olhar renascentista (Sevilha: Universidade de Sevilha, 2004), 243.

[13] R. de la Flor, “Emblemas. Leituras da imagem simbólica”, 166.

[14] Mircea Eliade, Mefistófeles y el andrógino (Barcelona: Labor, 1984), 273. Também Ferrer Ventosa, “O ovo e o zero: do nada ao infinito”, Revista Sans Soleil– Estudios de la imagen8 (2016) : 96 .

[15] Ferrer Ventosa, “Imagens como uma encarnação do sagrado” , em Interpreting Sacred Stories(Wallingford: Cabi, no prelo).

[16] Por exemplo, García Arranz, “Simbolismo maçônico”, 63-70.

[17] Eugenio Garin, A Revolução Cultural Renascimento (Barcelona: Crítica, 1981), 149.

[18] Gombrich, Symbolic Images,13 e 179.

[19] García Arranz, “Simbolismo maçônico”, 101-106.

[20] García Arranz especula que a ideia platônica do demiurgo, artesão divino, poderia ser encontrada no ponto de partida do Grande Arquiteto do Universo (García Arranz, “Simbolismo maçônico”, 167).

[21] García Arranz, “Simbolismo maçônico”, 243-246.

[22] Para aprofundar esta questão, Ferrer Ventosa. “Pensando em Imagens Hieroglíficas: Da Tradição Hermética no Renascimento à Vanguarda à Arte Contemporânea”, Art, Individual and Society 30, no. 2 (2018): 311-328.

[23] Juan Bosco Díaz-Urmeneta Muñoz, A terceira dimensão do espelho: um ensaio olhar renascentista (Sevilha: Universidade de Sevilha, 2004), 46.

[24] Tommaso Campanella, A Cidade do Sol (Madri: Tecnos, 2007).

[25] Ferrer Ventosa, “Pensando em imagens hieroglíficas”, 311-328, 321-323.

[26] Junto com isso, a Maçonaria foi inspirada no memento mori, bem como em outros emblemas cristãos da arte alegórica moralista: (García Arranz, “Simbolismo maçônico”,300 e ss.).

[27] Victor Turner, Do Ritual ao Teatro. The Human Seriousness of Play (Nova York: PAJ Publications, 1982), 79-80.

[28] Turner, “Do Ritual ao Teatro”, 24.

[29] Turner, “Do Ritual ao Teatro”,24 e 41.

[30] Morales Benítez, “Review of Masonic Symbolism”, 392-294, 394. 

Bibliografia

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Díaz-Urmeneta Muñoz, Juan Bosco. La tercera dimensión del espejo: ensayo sobre la mirada renacentista. Sevilla: Universidad de Sevilla, 2004.

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Morales Benítez, Antonio. “Reseña de Simbolismo masónico. Historia, fuentes e
iconografia de José Julio García Arranz”. REHMLAC+ 10, no. 1 (2018): 392-294.
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Venzi, Fabio. Freemasonry: The Esoteric Tradition. Addlestone: Lewis Masonic, 2016.

Vidal, César. Los masones. Barcelona: Planeta, 2005.

Características do templo na sua decoração e as Colunas Zodiacais

M33 - Primeira Sessão no Novo Templo da Loja Progresso da Humanidade nº  3166 - GOB/RS Porto Alegre/RS

No tocante aos rituais anglo-saxônicos e a decoração da Sala da Loja (é assim que é chamado o espaço de trabalho na corrente inglesa), não se trata de uma decoração desnuda propriamente dita, mas diferente, talvez mais simples, das de ritos de outras vertentes maçônicas – tanto sob o aspecto decorativo, quanto no aspecto topográfico, cujo qual não adota separação e elevação do quadrante oriental da Loja.

Compreenda-se que o conjunto simbólico primordial do grau está o Quadro da Loja, conhecido na vertente inglesa como a Tábua de Delinear (Tracing Board).

Ainda sobre a vertente anglo-saxônica e a decoração do espaço de trabalho, não existe uma regra apropriada para ela, senão a de que o espaço comporte os trabalhos maçônicos de acordo com o costume, portanto, é comum se observar na vertente anglo-saxônica uma variedade decorativa, variedade essa que é tomada ipisis litteris como decoração ou arranjo, onde muitos desses elementos nem mesmo fazem parte do relicário simbólico do working – são portanto meramente elementos decorativos que nem constam nos catecismos e regulamentos maçônicos.

Essa característica é bastante comum na vertente anglo-saxônica de Maçonaria, não existindo, contudo, uma decoração elaborada para a abóbada como acontece no REAA, por exemplo. Também não há cor determinada para a pintura das paredes, etc.

De comum mesmo é a posição dos principais Oficiais e as Luzes Menores conforme o working, assim como alguns elementos que são de uso universal da Maçonaria, independente do rito ou trabalho, como é o caso do Livro da Lei, do Compasso e do Esquadro (Luzes Maiores).

Já a vertente latina de Maçonaria possui outra característica, provavelmente pela sua constituição histórica construída a partir do Grande Oriente da França no século XVIII com o Rito dos 7 Graus, além do sistema conhecido como escocesismo caracterizado pelos altos graus.

A característica da vertente latina e a decoração dos seus Templos (assim conhecidos na Maçonaria Francesa), a despeitos dos elementos universais utilizados, foi construída conforme os ideais dos seus ritos, principalmente no caso do Rito Francês, ou Moderno (à época conhecido por Rito dos 7 graus), assim como os Ritos Adonhiramita e Escocês Antigo e Aceito originário da corrente escocesista em França a partir de 1649.

Conforme a história de cada um desses ritos é que foram construídas as respectivas decorações dos seus templos, em particular o REAA que veio ter o seu primeiro ritual para o simbolismo em 1804 na França, mas que já em 1820/21 esse ritual sofreria modificações devidas à constituição das Lojas Capitulares.

Nesse sentido a vertente latina de Maçonaria, criou atributos próprios, como o da topografia da Loja trazendo o Oriente elevado e dividido para assim acomodar o santuário Rosa-Cruz.

Essa forma capitular do Grande Oriente dirigir todos os graus até o Capítulo, logo veio, como já mencionado, alterar inclusive o ritual original do REAA que não possuía essa distinção e com isso sofreu alteração quando o Grande Oriente o adotou fazendo para tal adaptação para o sistema capitular.

Assim, o REAA passava a seguir a mesma topografia (oriente elevado e dividido) do Rito Francês (7 Graus) e do Adonhiramita, originalmente com 12 Graus. Note que o ápice da escalada iniciática desses ritos era sempre o Grau Rosa-Cruz e todos eles eram dirigidos pelo Grande Oriente da França. Seguindo esse mesmo parâmetro o REAA teria no Grande Oriente as suas Lojas Capitulares cujo ápice era o 18º Rosa-Cruz e o dirigente da Loja era o Athersata que era também o Venerável Mestre, enquanto que os demais graus, acima do 18º, ficavam como o II Supremo Conselho, o da França.

Nesse contexto, os Ritos Francês e Adonhiramita adotavam a cor azul para as paredes dos seus templos, enquanto que o REAA por influência da Loja Mãe Escocesa (extinta em 1816) adotava a cor encarnada associada ao escocesismo, por extensão aos “Stuarts” e ao catolicismo (vermelho – a cor do cardeal). A cor encarnada do Rito seria oficializada no Conselho de Lausanne, realizado na Suíça em 1875.

No que concerne à Maçonaria Brasileira, não se trata bem de ser uma corrente maçônica, mas a de ser uma Maçonaria filha espiritual da França, pois os primeiros ritos praticados no Grande Oriente Brasílico (depois do Brasil) foram os ritos Moderno e Adonhiramita, em seguida oficialmente, a partir de 1832, o REAA. Obviamente que as características de cada um desses ritos seriam aqui também implantadas, contudo, o que também houve de fato, foi uma mistura de procedimentos de uns em outros ritos – coisas da Maçonaria latina e particularmente a brasileira.

Sob essa óptica, a Maçonaria Brasileira teve uma formação básica latina, embora não se possa negar que de há muito tempo também já se praticava por aqui a Maçonaria anglo-saxônica e anglo-americana.

O que de fato não se pode negar na história da Maçonaria Brasileira foi a infeliz mistura de práticas ritualísticas decorrente da profusão de rituais no contexto social da época na Maçonaria Tupiniquim (é preciso conhecer essa história).

Acrescente-se a isso ainda a existência, no decorrer do tempo, de três Obediências regulares brasileiras, tendo cada qual o seu elenco de rituais que, a priori, acabaram ganhando suas próprias características, sobretudo pelas práticas muitas vezes enxertadas de uns em outros ritos.

Especificamente sobre as Colunas Zodiacais na decoração dos Templos do REAA, essa construção alegórica associada a um rito solar teve sua origem nas Lojas Mães Escocesas, depois Loja Geral Escocesa. Não as colunas propriamente ditas, mas as doze constelações zodiacais como marcos do movimento imaginário do Sol na sua eclíptica.

Na sua decoração inicial iam apenas as constelações do Zodíaco, fixadas ou desenhadas na base da abóbada, posteriormente seria adotado o uso de colunas encravadas nas paredes Norte e Sul para indicar o caminho iniciático do maçom. Nesse sentido, vale a pena mencionar que no princípio essas colunas nem mesmo existiam, só se tornando definitivas com a evolução dos rituais a partir do final do século XIX e começo do século XX.

O que se pode dizer a respeito é que as Colunas Zodiacais são elementos alegóricos originais do REAA, sobretudo porque explicam uma doutrina iniciática que tem por desiderato comparar a evolução (transformação) do elemento homem com a transformação da Natureza operada pela revolução anual e aparente do Sol formando os ciclos da Natureza (estações do ano).

Desse modo, outros ritos que porventura as adotem, o fazem por pura enxertia, pois esses elementos emblemáticos não se coadunam com o arcabouço doutrinário de outros ritos latinos e muito menos ainda com os trabalhos anglo-saxônicos.

Vale mais uma vez mencionar que essa alegoria natural é originária da Loja Mãe Escocesa, loja criada em outubro de 1804 para elaboração do primeiro ritual simbólico do REAA na França. Assim, essa Loja Mãe, que seria extinta em 1816 por motivos capitulares, originalmente deu ao REAA a abóbada estrelada e decorada com astros e constelações, das quais, inclusive, as zodiacais figuradas na sua base, além da cor encarnada do Templo; a posição original das Colunas Solsticiais B e J, norte e sul respectivamente; e a aclamação Huzzé como saudação ao Sol.

Enfatizo que tudo isso é contribuição da Loja Mãe Escocesa que, diga-se de passagem, nada tem a ver com outros ritos que não o do escocesismo.

Assim, rituais que porventura mencionem Colunas Zodiacais, fora do REAA, fatalmente estão bastante equivocados, não passando de elementos de enxertos que nada contribuem para a compreensão da essência iniciática de cada rito ou trabalho. Originalmente, o Rito Francês, ou Moderno, o Adonhiramita e o próprio Rito Brasileiro, não trazem na sua estrutura simbólica as Colunas Zodiacais – essa é a verdade.

Eram esses os meus breves comentários a respeito, destacando que esse é um assunto complexo e precisa ser entendido na sua essência, caso contrário certamente as conclusões podem deixar muito a desejar.

Autor: Pedro Juk

Fonte: Blog do Pedro Juk

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REAA: avental vermelho ou azul?

A cor distintiva do REAA sempre foi vermelha encarnada, cujas origens primitivas são devidas aos Stuarts, reis católicos da Inglaterra. 

Em 1649 após a revolução puritana de Cromwell e a seguinte decapitação do Rei Carlos I em janeiro daquele ano, o reinado deposto da Inglaterra receberia exílio na França. Sob a capa de algumas Lojas maçônicas em solo francês (Guardas Irlandesas) seria urdida a retomada do trono perdido na Inglaterra. 

Essa influência “jacobita” (católicos) e a sua simbólica cor vermelha (do cardeal) viria influenciar a organização desse movimento maçônico “stuartista” alcunhado em território francês como “escocês”, devida a sua origem católica. Assim, sob a influência religiosa dos Stuarts, o matiz “encarnado” se consolidou paulatinamente no Rito Escocês.

Entretanto, nesse sentido ainda existe outro aspecto que é merecedor de consideração. 

No ano de 1801 nos Estados Unidos da América do Norte, já estando o Rito organizado e titulado como Escocês Antigo e Aceito com a fundação do seu Primeiro Supremo Conselho (Mãe do Mundo) em Charleston na Carolina do Sul, apareceria no ano de 1804, em Paris, sob a égide do Segundo Supremo Conselho e sob a tutela do Grande Oriente da França, o primeiro ritual simbólico para o REAA. Até então o Rito Escocês Antigo e Aceito não possuía graus simbólicos (ia apenas do 4º ao 33º). A lacuna dos três primeiros graus simbólicos era preenchida utilizando-se das Lojas Azuis norte-americanas.

Com o aparecimento em 1804 do primeiro ritual em território francês, ainda no primeiro quartel do século XIX, também apareceriam as hoje extintas Lojas Capitulares, predominantemente “vermelhas”, cujas quais ficariam sob a tutela do Grande Oriente da França. Em síntese, essas Lojas acomodavam os graus simbólicos e os demais até o 18º, enquanto que do 19º em diante ficavam sob a égide do Segundo Supremo Conselho (da França).

Embora o formato de Lojas Capitulares não vingasse por muito tempo, pois logo as coisas retomariam os seus devidos lugares, ficando o simbolismo com o Grande Oriente e os demais com o Supremo Conselho, mesmo com a extinção dessas Lojas, muitos resquícios do Capítulo permaneceriam arraigados no simbolismo do Rito Escocês, como é o caso, dentre outros não menos importantes, do da cor capitular que é predominantemente vermelha, cuja qual se somaria ao original encarnado cardeal jacobita.

Assim, primariamente sob a influência stuartista jacobita (católica) e, por extensão, mais tarde pela influência das Lojas Capitulares (de alcance religioso cristão católico e templário) o Rito Escocês Antigo e Aceito consolidaria a cor encarnada (vermelha) como matiz identificador do seu simbolismo, o que seria sacramentado em 1875 na Suíça por ocasião do Conselho de Lausanne que reunia oficialmente os Supremos Conselhos do Rito para instituir uniformidade e outras medidas necessárias.

Em se tratando da cor azul, que na contramão da história assola o Rito Escocês em boa parte da Maçonaria brasileira, embora muitos não aceitem esse argumento verdadeiro, a principal razão para tal vem de acontecimentos ocorridos na cisão de 1927 no GOB e capitaneados pelo Irmão Mário Marinho Behring, fundador das Grandes Lojas Estaduais Brasileiras.

Naquela oportunidade Behring, buscando reconhecimento para a Obediência que acabava de florescer, se aproximou das Grandes Lojas Estaduais dos Estados Unidos da América do Norte. 

Não obstante a procura de reconhecimento; é sabido que as Grandes Lojas norte-americanas praticam o seu simbolismo pelo sistema dos “Antigos” da Segunda Grande Loja de 1751 inglesa, cujo qual foi organizado em solo norte-americano por Thomas Smith Webb ainda no século XVIII. 

As Lojas Azuis, ou o Craft Americano, ficaram conhecidos aqui no Brasil como Rito Americano, ou Rito de York (alusão aos antigos), embora no GOB se pratique o Ritual inglês, também conhecido como York ou os Trabalhos de Emulação.

Cabe lembrar que essas Lojas Azuis (americanas) são as mesmas que deram origem ao primeiro ritual do escocesismo simbólico em 1804 quando, naquela oportunidade, maçons franceses de regresso à França, influenciariam a sua construção pelo no modo “Antigo” (1751), já que a França da época desconhecia esse sistema, pois naquele período a prática maçônica francesa estava intimamente ligada aos “Modernos” ingleses da Primeira Grande Loja de 1717. O termo “Antigo” que compõe o título do Rito Escocês se deve a influência antiga anglo-saxônica.

Por outro lado, é amplamente conhecido que os aventais de Mestre do Craft norte-americano, ou Lojas Azuis, coincidentemente também são de gradação azul e foi assim que Behring, em busca de reconhecimento no Craft norte-americano para as suas Grandes Lojas Estaduais Brasileiras, trouxe para Rito Escocês Antigo e Aceito no Brasil, provavelmente para promover um agrado, a cor azul em substituição à original cor vermelha do avental do Mestre no escocesismo.

Na verdade não foi só o avental do Mestre que sofreu essa equivocada mudança no escocesismo, mas também foram azuladas as paredes dos templos e outros adereços de decoração, tudo na contramão daquilo que se encontra oficializado desde 1.875 no Conselho de Lausanne, onde o avental do Mestre, as paredes, toalhas, estofos e decoração do Templo são inquestionavelmente “vermelhos”.

Infelizmente o Grande Oriente do Brasil viria também mais tarde a “azular” os aventais e templos escoceses – isso nos anos aproximados de 1.965, principalmente por influência de Irmãos oriundos das Grandes Lojas Estaduais que ingressaram no GOB.

Na verdade aventais azuis cabem tradicionalmente ao Rito Moderno ou Francês, ao Adonhiramita, ao York (inglês ou americano) e ao Schröder, dentre os ritos mais conhecidos, diferenciando-se por razões históricas apenas o REAA que originalmente, repito, possui a cor vermelha.

Atualmente, em se tratando das três Obediências brasileiras, apenas a COMAB tem se mantido na verdadeira e tradicional cor encarnada no simbolismo do REAA.

Em síntese essa e a razão da ambiguidade que envolve o vermelho e o azul no Rito em questão aqui no Brasil, sobretudo por determinadas “carcaças de dinossauro” que ainda são ferrenhamente defendidas por determinados articulistas que se arvoram em difundir velhos rituais anacrônicos editados no Brasil. 

A realidade, entretanto é que a cor predominante no Rito Escocês Antigo e Aceito é a encarnada, embora ainda vivamos – como já mencionado – na contramão da história atendendo rituais “azulados”, mas que estão em vigência, o que nos dá a obrigação de cumpri-los irrestritamente, mesmo que contraditórios.

Lembro àqueles Irmãos que estão, ou já estiveram colados no Grau 18 do REAA, que atentem para a cor predominante no Sublime Capítulo R+ e, ao mesmo tempo, façam a sua correlação com as extintas Lojas Capitulares dos tempos de antanho onde o Athersata era o mesmo Venerável da Loja Simbólica. 

Do mesmo modo sugiro sejam perscrutadas as origens do escocesismo a partir da revolução puritana de Cromwell em 1649 na Inglaterra. 

Por fim sugiro consultas sobre esse assunto em obras e escritos de autores como José Castellani, Xico Trolha, Hercule Spoladore, Theobaldo Varolli Filho, Frederico Guilherme da Costa, dentre outros autênticos e comprometidos com a verdade.

Autor: Pedro Juk

Fonte: Blog do Pedro Juk

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Simbolismo da Escada

Jacob's Ladder (La escala de Jacob), 17th century, Frans Francken II
A Escada de Jacó – Frans Francken II (1581-1642)

O simbolismo da escada está totalmente relacionado com a relação entre o céu e a terra. Por excelência, a escada é o símbolo da ascensão e da valorização, associada também ao simbolismo da verticalidade. No entanto, a escada simboliza uma via de comunicação nos dois sentidos, tanto ascendente quanto descendente. Tudo que simboliza um progresso de valor está relacionado à subida e ao crescimento, e tudo que simboliza uma perda de valor associa-se à descida. Na arte, por exemplo, a escada frequentemente aparece como um suporte imaginativo da ascensão espiritual. A linha do qualificativo e da elevação é vertical, por isso associa-se à simbologia da escada.

Um símbolo ascensional desta natureza indica uma hierarquia, um movimento. No princípio, temos a condição terrena; à chegada, o estado angélico. Entre os dois, os andares, com as suas etapas provisórias, que assinalam a beleza vislumbrada, a paz que começa a tranquilizar o viajante e que o encoraja a prosseguir o caminho, a fazer face às lutas que ele tem de aceitar.

A escada é também o símbolo da progressão em direção ao saber. Quando se eleva em direção ao céu, trata-se do conhecimento do mundo material ou espiritual. Quando penetra no subsolo, trata-se do saber oculto e das profundezas do inconsciente. Símbolo ascensional clássico, pode designar não só a subida no conhecimento, mas também uma elevação integrada de todo o ser.

O caminho de todos nós, aprendizes da vida, e principalmente dos adeptos das ciências ocultas, consiste no aprendizado. Devemos aprender como as coisas funcionam em nós e no universo e por meio da observação, aprender as causas e os efeitos de tudo em nossa vida. 

Entretanto, esse aprendizado na maioria das vezes é gradual, obtido com um passo de cada vez, ou ainda, degrau por degrau. É então que nos vemos diante da escada que nos levará ao topo, onde está nossa recompensa. Infelizmente, muitos adeptos das ciências ocultas perdem-se no caminho porque ignoram a importância de ir degrau por degrau, em cada um aprendendo o que ele lhe reserva. Como o alquimista que precisa de pausas na realização da Grande Obra, todos nós precisamos absorver de cada etapa do desenvolvimento aquilo que nos proporciona, e no tempo necessário.

Significado espiritual da escada

A escada comunica o céu e terra, possui vários degraus que representam os diferentes níveis de consciência. Por essa razão, é um símbolo ascensional. Enquanto o discípulo ou iniciado conseguir ir até o mais alto degrau, o profano cheio de apegos mundanos mal consegue subir alguns poucos degraus.

Apesar de representar uma “subida para o céu”, é interessante observar que este símbolo está associado a uma vida de comunicação que ocorre nos dois sentidos: ascendente e descendente. Nesse sentido, tudo aquilo que está associado a um progresso de valor está ligado à subida, enquanto perdas de valor estão associadas à descida.

A escada também está relacionada ao simbolismo da verticalidade. Costumo pensar que a escada é o caminho do adepto. Como ela pressupõe ascensão, cada degrau representa um nível, pontos de passagem. Partimos da terra em direção ao céu.  A escada é um símbolo carregado de significados, tanto espirituais, como mentais. Com seus muitos degraus simboliza os planos da mente e os planos de existência.

A descida ao inconsciente e a ascensão sobre o consciente. através dela é possível tanto subir, como descer. Assim como também é possível permanecer parado no mesmo degrau, sendo apedrejado pelos pilares do sedentarismo mental e/ou espiritual. A escada nos dá uma escolha, de subir ou não, de buscar ou não, de aprender ou não. O caminho do crescimento e pessoal.

Simbolismo da escada na Bíblia

Na Bíblia, grande livro simbólico, a menção ao simbolismo da escada é feita em Gênesis:

“E Jacó seguiu o caminho desde Bersba e dirigiu-se a Harã, com o tempo atingiu certo lugar e se preparou para ali pernoitar, visto que o Sol já se tinha posto. Tomou, pois, uma das pedras do lugar e a pôs como apoio para a sua cabeça e deitou-se naquele lugar. E começou a sonhar, e eis que havia uma escada posta da terra e seu topo tocava nos céus; e eis que anjos de Deus subiam e desciam por ela. E ficou temeroso e acrescentou; “Quão aterrorizante é este lugar” Não é senão a casa de Deus e este é seu portão de entrada”

Como mencionado na passagem bíblica acima, a escada caracteriza-se como meio empregado pelos anjos para subir e descer dos céus. Essa escada com anjos subindo e descendo foi revelada em sonho por Jacó. Tão marcante para o povo judeu e cristão já que também é interpretada pelos cristãos como a prefiguração de Jesus Cristo, pois ele dá acesso ao Pai em um Espírito (Efésios 2.18), que é o único “mediador entre Deus e os homens” a escada encontra analogia em todas as antigas iniciações.

Simbolismo da escada na Iconografia

Na alquimia a escada também representa ascensão, o caminho espiritual do alquimista. 

A organização como que escalonada do macrocosmo correspondem, no homem, diversas faculdades do conhecimento ― percepção sensorial, imaginação, razão e análise. O último degrau é a compreensão direta da palavra divina pela meditação. A escada não vai mais além, porque o próprio Deus não pode ser entendido. (Alexander Roob – Alquimia e Misticismo)

Na imagem, o intelecto encontra-se na base da escada da criação, que, partindo do reino mineral, e através de vários níveis das plantas, animais, homens e anjos, sobre até Deus, onde a Sophia, a sabedoria construiu a sua morada. A figura que simboliza o intelecto segura o instrumento que lhe permitirá subir e descer, um disco de ars generalis do filósofo catalão e místico cristão Rámon Llull (1235 – 1316). Llull concebeu este ‘conhecimento universal’ com o propósito de converter as duas religiões concorrentes do Cristianismo, o Judaísmo e o Islã, provando-lhe a superioridade das doutrinas Cristãs. (Alexander Roob – Alquimia e Misticismo).

O Alquimista anda extraviado até que a lebre mercurial fugidia lhe indique a matéria original exata, por detrás de cujo aspecto rude, e atravessando os sete degraus do processo, um palácio será revelado. Aqui, os princípios do Sol e da Lua unem-se para formar o lápis, o mercúrio filosofal, que coroa a cúpula sob a forma de uma fênix. O Zodíaco indica que a obra começa em maio, no signo de Touro. Cada signo zodiacal corresponde a uma substância química. (Alexander Roob – Alquimia e Misticismo).

Por enquanto, é o que temos sobre o simbolismo da escada. Obviamente não é nem o começo, dada às diversas tradições que carregam esse símbolo nos seus mistérios. Mas, esperamos que a leitura tenha sido útil e instrutiva.

São João Clímaco e a escada do Paraíso

O que a vida e a obra de um monge eremita do século VI têm a ensinar ao homem do século XXI?

No último dia 30 de março, a Igreja no mundo inteiro recordava a memória de São João Clímaco. Do século VI, esse monge do Oriente é conhecido especialmente por sua obra “Escada do Paraíso”, na qual explica a vida monástica, desde o abandono do mundo até a perfeição na caridade.

João tornou-se monge no monte Sinai, onde foi discípulo do sábio abade Martírio. Aí, entregue à oração e aos cuidados deste mestre espiritual, pôde dedicar-se ao ofício de sábio, àquele que Santo Tomás identifica como “o mais perfeito, o mais sublime, o mais útil e o mais bem-aventurado” de todos os estudos humanos.

Entretanto, se é verdade que “é necessário passar por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus” ( At 14, 22), a “escada do Paraíso”, antes de ser subida pelos homens, foi descida pelo próprio Deus. Foi o Senhor quem se inclinou ao homem e inclinou a escada dos céus, para que ele a pudesse subir mais facilmente. Ele, que “humilhou-se, fazendo-se obediente até a morte, e morte de Cruz” (Fl 2, 8). De fato, antes que o homem desse o primeiro passo em direção ao Altíssimo, Ele mesmo saiu dos altos céus e veio em seu auxílio, com a Sua graça. Por isso, a resposta do homem a essa misericórdia de Deus só pode ser o amor – o amor de quem sobe uma escada firmando os “braços cansados” e “os joelhos vacilantes” (Is 35, 3), com o coração ansioso em contemplar o Senhor e possui-Lo plenamente na eternidade. A “escada do Paraíso” é o itinerário para todos os cristãos, chamados que são ao amor. Que São João Clímaco, do Céu, ajude o homem do século XXI a atingir o clímax da caridade, como ele alcançou.

Simbologia da Escada de Rá

A simbologia da escada de Ra está profundamente ligada à intermediação entre o Céu e a Terra, à ascensão e à evolução de natureza espiritual. Os seus degraus sãos as várias etapas a ultrapassar para se atingir o divino, associadas a metais diferentes ou a vários tipos de exercícios espirituais ou a provas de iniciação esotérica Sinônimo de verticalidade, reatando uma harmonia que foi quebrada pela separação na gênese do mundo, a escada é um meio ou instrumento de evolução pessoal e de ascensão espiritual. 

No Egito, a escada do deus Ra ligava o Céu à terra segundo o Livro dos Mortos. O exemplo da escada também pode ser encontrado sob a forma de método na Igreja cristã, e que consiste numa série de trabalhos espirituais que têm de ser ultrapassados como degraus de uma escada.

O mais sublime de todos os sentimentos

O motivo de nossa existência

O sentido da vida e da morte

Razão pela qual praticamos 

a temperança, a fortaleza, a

prudência, a justiça, a fé e a esperança

O estágio mais elevado da evolução o amor

O último degrau da escada de Rá.

Simbologia da Escada na Maçonaria

A Escada de Jacó foi extraída de Gênesis 28:10-19. Pelo relato bíblico, essa escada significava o caminho que conduzia à morada de Deus e, de forma análoga, a Escada de Jacó presente no Painel, representa o caminho sagrado, o caminho do aperfeiçoamento moral e espiritual, o caminho da perfeição, que leva ao Grande Arquiteto do Universo.

Na Maçonaria, assim como, na vida, nos encontramos em planos diferenciados de evolução, somos muitos em várias potências e obediências, mas não formamos um só corpo, não formamos uma escada, não formamos uma unidade. Os caminhos para o aperfeiçoamento são vários, são constituídos por vários acessos: Instituições filosóficas, instituições filantrópicas, religiões, escolas, etc. Temos que ter consciência que não existe o certo e o errado, existem caminhos mais curtos e mais longos, não existe o “regular” e o “irregular”, todos levam a apenas um objetivo final o Aperfeiçoamento.

Variadas são as interpretações do sonho de Jacó, e, especialmente sobre o significado da Escada. A mais comum é que cada degrau simboliza o esforço que ao Maçom cumpre executar para ascender até a Perfeição. Etapas vencidas e iniciações ganhas. Os degraus simbolizam os diversos planos do Universo. No Rito Escocês Antigo e Aceito, a Escada teria 33 degraus, correspondendo cada degrau a um Grau Maçônico.

Ainda de acordo com aquele Ritual, as três principais virtudes são a Fé, a Esperança e a Caridade, representadas nos degraus da Escada de Jacó, respectivamente, pela Cruz, pela Âncora e pelo Cálice ou Taça com a mão em atitude de a alcançar.

A Fé representa o primeiro degrau da escada de Jacó, pois ela é a sabedoria do espírito, sem a qual o Homem nada levará a termo.

A Esperança representa os degraus intermediários, pois ela ampara e anima o espírito nas dificuldades encontradas no caminho.

A Caridade representa o último degrau, que só será atingido praticando-a, pois ela é a própria imagem dos mais puros sentimentos humanos, onde no seu ápice uma estrela de sete pontas.

A subida dos degraus da Escada de Jacó é penosa e lenta, os degraus estão em níveis e espaços variados, mas, o importante é que eles estejam unidos por duas hastes laterais bem fortes, que possam lhes dar sustentação, a escada, por sua formação é um símbolo de união. Somente quando pudermos entender isso, e pudermos viver em paz, harmonia e união, poderemos nos considerar como uma unidade, estaremos assim, cavando masmorras aos vícios e levantando templos às virtudes, só então, tudo estará Justo e Perfeito.

Interpretação Rosa Cruz da Escada de Jacó

O Rosa Cruz nos apresentam os degraus da escada como se cada um deles estivesse relacionado com uma montanha que aparece em sete episódios históricos vividos pelo povo judeu. Melhor dizendo, a história judaica, desde o episódio de Noé até a chegada de Jesus, teria requerido dos povos judeus sete grandes esforços evolutivos, que todo homem tem que passar em sua existência.

Os degraus corresponderiam aos montes Ararat, Moriá, Sinai, Tabor, Gólgota e Oliveiras.    No primeiro degrau, depois de um dilúvio devastador, Noé, reuniu todos os seus bens e chegou ao monte Ararat, onde encontra refúgio. Dali soltou depois uma pomba que voltou com um ramo de oliveira no bico. Isto lhe revelava: As terras não estavam mais cobertas pelas águas, estavam lhe esperando para fazer um novo plantio.

Também nós quando, por erros nossos passamos por problemas devastadores, recebemos de Deus uma nova oportunidade de recomeçarmos levando conosco os bens espirituais que já tenhamos conquistado.  Depois, Abraão dirigiu-se ao monte Moriá. Neste episódio lhe era requerido por Jeová um sacrifício. Sacrificar num holocausto seu único filho Isaac. Ele o pôs então sobre o altar do sacrifício, mas, por sua grande Fé, Deus o poupou. Este é o degrau da fé em Deus, da certeza de que os nossos sacrifícios serão compensados.   O terceiro degrau da escada evolutiva refere-se ao episódio de Moisés subindo o monte Sinai. Ali ele receberia o Decálogo, um código de leis. Ninguém se adianta se não tiver disciplina, da obediência.  Geralmente quando, falamos em obediência não sabemos o que é sermos obedientes aos princípios divinos. Como exemplo, poderíamos citar o que fazemos com um animal que tem demasiada energia, tem capacidade para correr em grande espaço.

 Então, desobedecendo as leis de seu corpo, o pontos numa jaula minúscula onde ficará cerceado de sua verdadeira natureza.  No quarto degrau encontramos os judeus, após atravessarem o deserto, vindos de uma escravidão no Egito, chegando ao monte Carmelo. Ali encontraram verdadeiros e falsos profetas. Como distinguir os falsos?

É o degrau dos conflitos íntimos entre as nossas duas vozes internas Ele são nossos verdadeiros e falsos profetas. É o degrau do discernimento. Como exemplo podemos citar a dificuldade que os estudantes esotéricos encontram em distinguir entre psiquismo e espiritualidade.    Só após passar o degrau do discernimento poderemos subir o monte Tabor.

Ele é o monte da Transfiguração de Jesus. È o degrau do nascimento espiritual. Neste monte Jesus leva consegue representa a obediência aos princípios divinos, Tiago representa a valentia e João é o amor. Depois desta transfiguração, onde transcendeu todas as diferenças religiosas e culturais, o homem terá que subir o monte do Gólgota. É o calvário da sua solidão, da incompreensão por parte de todos que o cercam. Mesmo estando em meio a um grande grupo, se sentirá só. Terá que persistir em seu ideal sem ajuda.

È o teste de sua persistência e a renúncia a reconhecimentos. Como exemplo, temos o caso de Jesus seus discípulos Pedro, Tiago e João. Para transportá-lo somos ajudados por 3 forças superiores simbolizadas nas características dos discípulos. Pedro subindo sozinho o Calvário, incompreendido e abandonado.    Porém, o último degrau refere-se aos momentos de maior paz e felicidade que um homem pode atingir. É o momento da entrega total. É Jesus no Monte das Oliveiras, onde ele se abastecia na unidade com Deus.

Autor: Sandro Pinheiro

* Sandro é Mestre Maçom da ARLM Flauta Mágicado Rio de Janeiro, nº 170, do oriente do Rio de Janeiro, jurisdicionada à Grande Loja Maçônica do Estado do Rio de Janeiro.

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Referências

http://www.maconaria.net/portal/index.php

https://lidianefranqui.com.br/qual-o-simbolismo-da-escada/

https://www.dicionariodesimbolos.com.br/escada/

https://misericordia.org.br/formacoes/sao-joao-climaco-e-a-escada-do-paraiso/

http://ocultafilosofia.blogspot.com/2014/02/o-simbolismo-das-escadas.html

http://ordemrosacruzjequie.blogspot.com/2014/07/a-escada-de-ra-os-sete-degraus.htmlhttp://sendadomestre.blogspot.com/2017/08/a-escada-de-jaco-interpretacao-rosa.html

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