Quando o GOB era Socialista e a guinada maçônica brasileira ao Conservadorismo

1 – A promotora do Ensino Laico…

Muitos dos maçons brasileiros da atualidade, tão tolerantes, para não dizer concordantes, com discursos e argumentos considerados reacionários, quando não pró-ditadura, talvez não imaginem que o GOB – Grande Oriente do Brasil por anos defendeu oficialmente a bandeira socialista.

Isso ocorreu em decorrência das ações sociais maçônicas promovidas durante a última década do século XIX e as duas primeiras do século XX, quando, após a Proclamação da República, a Maçonaria resolveu colaborar para o desenvolvimento de um estado laico, focando principalmente no ensino laico, que foi levado tão a sério a ponto do Grande Oriente do Brasil, em 1915, decretar que:

O ensino primário da língua nacional é obrigatório para todos os filhos de maçons entre sete e doze anos. (…) Em todos os orientes onde não houver escolas gratuitas mantidas pelo governo no país, ou por associação leiga de qualquer natureza, as Lojas e os maçons aí residentes são obrigados a suprir essa falta e a essa missão. (…) As escolas assim criadas serão públicas. (GOB. Decreto No. 513 de 23/12/1915).

O resultado dessa política obrigatória foi computado em uma pesquisa interna realizada pelo GOB em 1922, quando se tinha o registro de 132 escolas maçônicas públicas e 22 bibliotecas maçônicas públicas. A maioria dessas escolas era noturna e técnica, voltada a trabalhadores adultos analfabetos (BARATA, 1999).

No entanto, juntamente com a promoção do ensino laico e a formação de profissionais em suas escolas técnicas, surgiu no Grande Oriente do Brasil uma preocupação quanto a exploração desses trabalhadores. E a única literatura que combatia tal exploração naquela época era a socialista. Por essa razão, o Grande Oriente do Brasil apresentou em seus boletins, entre 1892 e, pelo menos, 1917, uma série de manifestações oficiais a favor da implementação do socialismo no Brasil. Afirmava acreditar “no dia da vitória da causa socialista” (Boletim do GOB, No. 12, 1892), e que “devemos concluir que a maçonaria e o socialismo têm numerosos pontos de contato” e os maçons brasileiros deveriam “cooperar com o socialismo para o triunfo definitivo de seus bons e sagrados ideais” (Boletim do GOB, No. 5, 1917).

Fato é que, naquela época, ocorreram inúmeras “conferências maçônico-socialistas” no Brasil, promovidas pelo GOB e suas Lojas, e o discurso socialista no âmbito maçônico só diminuiu o tom quando a revolução soviética triunfou e começaram a chegar as notícias de perseguição à Maçonaria na Rússia e em outros países (MOREL; SOUZA, 2008).

Você pode estar agora se perguntando: mas o que levou à Maçonaria brasileira a essa guinada, de socialista a reacionária?

2 – De perseguida na Ditadura Varguista…

Depois de ter sua chama socialista abafada pela perseguição soviética à Maçonaria, a Maçonaria brasileira passou praticamente toda a década de 20 vivenciando os atos que culminaram na grande cisão maçônica de 1927, que originou as Grandes Lojas Estaduais brasileiras (PIRES, 2015). O cenário maçônico brasileiro então iniciou a década de 30 polarizado. De um lado o Grande Oriente do Brasil tentando se reestruturar do caos gerado pela cisão. Do outro, as recém-criadas Grandes Lojas Estaduais tentando se estruturarem e criar novas Grandes Lojas nos Estados que ainda não havia. A busca pela felicidade da sociedade brasileira teria que esperar. Mas, pelo menos, o Presidente da República, Washington Luís, era maçom!

No entanto, este nono Presidente da República maçom, dentre os 13 primeiros Presidentes que houve no Brasil, sofre, em 24 de outubro de 1930, um golpe militar. Assume o poder Getúlio Vargas, que acaba sinalizando favoravelmente ao discurso antimaçônico dos integralistas, tão comum nas ditaduras. Trata-se da crença na teoria da conspiração judaico-maçônica-socialista, promovida pela Igreja Católica, dentre outras instituições.

Ao decretar, em 1937, estado de guerra interna, Vargas determina o fechamento de todas as Lojas Maçônicas, pela suspeita das Lojas terem comunistas infiltrados. Considerando as conferências maçônico-socialistas e os boletins oficiais do GOB na década anterior, isso não era de se estranhar.

Durante a Ditadura de Vargas, Octávio Kelly, que havia sido Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil no período da cisão, foi nomeado para o Supremo Tribunal Federal, posto que ocupou de 1934 a 1942. Mas, enquanto muitas lideranças maçônicas da época esperavam nessa nomeação a salvação da Maçonaria brasileira contra o fechamento sumário de suas Lojas, Octávio Kelly não realizou qualquer pronunciamento contra o fechamento das Lojas enquanto
ministro do STF, traindo assim a Maçonaria. Para os apoiadores de Mário Behring, o qual falecera em 1933 como o maior desafeto de Octávio Kelly, isso era o mínimo que se podia esperar de alguém que colocava o interesse por cargos e títulos acima do interesse da instituição.

Nessa época, o GOB, então governado por um General, optou por se submeter e colaborar com o novo regime em detrimento de seus próprios membros (entre eles alguns comunistas) e dos ideais maçônicos (de Liberdade, por exemplo). O Decreto 1.519 de 03 de março de 1938, tratou de substituir o lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, então considerado muito “revolucionário”, por “Ordem, Fraternidade e Sabedoria” (pasmem); enquanto que o Decreto 1.579, de 02 de junho de 1938, determinou a expulsão automática, sem efeito suspensivo de recurso, de maçons que “professarem ideologias contrárias ao regime político-social brasileiro” (CASTELLANI, 2003, p. 25).

Mas, sejamos justos: a colaboração com a Ditadura de Vargas não ficou restrita ao GOB, sendo também observada no Supremo Conselho de Behring e por algumas Grandes Lojas. O retorno oficial da Maçonaria brasileira e a reabertura de suas Lojas somente veio ocorrer em novembro de 1939.

Apesar do retorno oficial, a ditadura varguista não aliviou para a Maçonaria. O local das reuniões e suas datas tinham de ser informados aos delegados da Ordem Pública, assim como os nomes completos e dados de todos os membros de cada Loja. E não era raro um Venerável Mestre ser intimado a depor se um ou outro membro de sua Loja era comunista ou simpatizante.

Cabe registrar que também foi na Era Vargas, mais precisamente em 1935, que o Grande Oriente do Brasil opta por voltar atrás na decisão tomada anteriormente pelo patriota Lauro Sodré (que, em 1912, havia garantido a soberania nacional maçônica), abrindo as portas para a criação de uma Grande Loja Distrital da Grande Loja Unida da Inglaterra em território brasileiro e concedendo Lojas a essa Grande Loja Distrital, em troca de que a Grande Loja Unida da Inglaterra não reconhecesse suas novas concorrentes, as Grandes Lojas Estaduais que surgiram da cisão de 1927 (ISMAIL, 2014).

3 – A defensora da Ditadura Militar…

Nas duas décadas seguintes, de 40 e 50, o mundo viveu o medo, guerras e consequências da Guerra Fria, polarizada entre comunismo e capitalismo. E já no início da década de 60, o Grande Oriente do Brasil, aquele mesmo que, por muitos anos defendeu em seus boletins oficiais o socialismo, passa a condenar, mais especificamente em 1963, o movimento grevista sindical.

Nessa época o Brasil começa a sofrer com a pressão da classe média e dominante contra o proletariado, simbolizado, principalmente, pela “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, ocorrida no início de 1964 e promovida por senhoras católicas de classe média e alta, que pediam pela deposição do presidente da República. Em muitas localidades, a marcha contou com o apoio de Lojas Maçônicas.

As preces das carolas foram escutadas pelos militares, que mobilizaram, em 31 de março de 1964, tropas rumo ao Rio de Janeiro, iniciando assim a ditadura militar. Três dias depois, o GOB já se manifestava oficialmente a favor do golpe (ou seria revolução?), que “neutralizou os perigos do comunismo e do caos” (MOREL; SOUZA, 2008, p. 231). Essa foi a primeira de muitas outras manifestações formais e públicas em favor do governo militar, realizadas nos anos seguintes.

Sem realizarmos qualquer juízo de valor, é curioso observar que a obediência maçônica que censurara as Lojas paulistas que apregoaram a proclamação da República no final do século XIX, por estarem se manifestando politicamente, o que era contra os princípios maçônicos; é a mesma que se manifestou por anos a favor do socialismo e em defesa dos direitos dos trabalhadores no início do século XX, mesmo isso indo contra os tais princípios maçônicos; e passa então a se manifestar a favor da ditadura e contra o comunismo, na segunda metade do século XX. Qual a razão para isso? Não podemos ignorar o fato, explicitado anteriormente, da Ditadura Varguista ter fechado as Lojas Maçônicas. Diante de uma nova ditadura militar, pode-se supor que fora uma simples estratégia de sobrevivência, como muitos pesquisadores assim defendem. O que se tem registrado é que esse discurso pró-ditadura militar foi acompanhado de incontáveis condecorações e homenagens maçônicas concedidas a militares e civis postos no poder por vias não democráticas.

Dois manifestos públicos foram divulgados pelo GOB durante a Ditadura Militar. O primeiro apontava as razões da incompatibilidade entre o comunismo e a Maçonaria (sim, pela mesma Obediência que, em 1917, havia concluído oficialmente que “a Maçonaria e o Socialismo têm numerosos pontos de contato”). No segundo manifesto, no período mais duro da Ditadura, o de Médici (1969-1974), o GOB ataca diretamente os críticos às Forças Armadas, ao dizer que esses críticos estavam “ignorando deliberadamente o seu relevante papel histórico na unificação e integração nacional ou apontando-a como opressora do povo, quando, ao contrário, o seu papel em 31 de março de 1964 foi, justamente, o de libertadora da nação”. Esse manifesto foi publicado justamente no cume de prisões, torturas, exílios, desaparecimentos e mortes do regime militar, o que não pegou muito bem para o Grande Oriente do Brasil.

4 – E, por fim, baluarte do conservadorismo

A ditadura militar, enfim, acabou, na década de 80. E como a Maçonaria saiu desse período e assistiu ao fim do século XX? Uma dúzia de anos antes do fim da ditadura, o GOB havia sofrido sua segunda grande cisão, por questões eleitorais (SOBRINHO, 1998). Já externamente, segue aqui uma pequena reflexão de Morel e Souza (2008, p. 237) a respeito:

Finda a ditadura, em 1985, a maçonaria brasileira precisaria, novamente, repensar seus valores, reaver seus princípios originais. Toda autoanálise, porém, não conseguiria fazer com que a ordem retomasse uma trajetória que, há quase um século, havia sido abandonada. Já era fato consumado que, de liberal e crítica no século XIX, passando pelo servilismo ao estado varguista nos anos 1930 e 1940, a maçonaria brasileira chegara ao fim do século XX como baluarte do conservadorismo. (GRIFO NOSSO)

A reflexão dos autores Morel e Souza condiz com o estranhamento que alguns críticos apresentam ao se depararem com os postulados maçônicos que afirmam se tratar de uma instituição “progressista”, enquanto assistem a Lojas, e até mesmo Obediências Maçônicas, realizando menções honrosas ao período da Ditadura Militar e condecorando acusados de tortura.

Enfim, o Brasil atravessou o final do século XX reexperimentando a democracia direta e contando com uma Maçonaria brasileira dividida basicamente em três vertentes (isso sem contar as cisões menores vivenciadas por essas), sem qualquer expressão política em nível nacional, sem a maioria das escolas e bibliotecas públicas que havia criado no final do século XIX e no início do XX, sem relevantes projetos sociais permanentes, sofrendo mais de um século de ataques da Igreja Católica e de outras denominações religiosas que adotaram posteriormente o mesmo discurso preconceituoso. Uma Maçonaria vivendo do passado, de sua glória no período entre 1822 e 1930, sem qualquer ação relevante nas décadas seguintes (apenas algumas um tanto quanto constrangedoras).

Durante a década de 90, num país que, aos poucos, passava a ser governado principalmente pelos perseguidos e aquelas lideranças estudantis que sofreram a ditadura militar, a Maçonaria brasileira se viu condenada por boa parcela da sociedade brasileira economicamente ativa, não sendo mais atrativa aos novos intelectuais, lideranças e formadores de opinião como havia sido anteriormente.

Deve-se levar em consideração que a Maçonaria, anteriormente às democracias
contemporâneas, já praticava uma forma de governança democrática, na qual o voto já era bem do indivíduo e não por propriedade ou localidade (JACOB, 1991), o que reforça a teoria da Maçonaria como uma instituição emancipadora do indivíduo e uma das precursoras do ideal democrático. Um dos vários exemplos que relacionam Maçonaria e democracia é a indiscutível participação da instituição na independência dos Estados Unidos (BULLOCK, 1996), tida como a primeira nação democrática do mundo moderno.

Torna-se, assim, plausível a proposição de que a Maçonaria, munida do mais profundo princípio de igualdade entre os homens, realmente colaborou, por intermédio da liderança libertadora de seus membros, para a implementação dos primeiros regimes democráticos. E no Brasil não foi diferente, tendo a mesma colaborado para a proclamação da república. Entretanto, a postura foi outra durante as duas ditaduras vividas pelo país no século XX, um século em que a Maçonaria brasileira praticamente não pôde viver seus princípios (o que significaria lutar pela democracia), mas apenas garantiu sua própria sobrevivência, ensinando lições que mal praticava enquanto instituição.

Autor: Kennyo Ismail

Fonte: No Esquadro

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Referências Bibliográficas

BARATA, A. M. Luzes e sombras: a ação da maçonaria brasileira (1870-1910). Campinas: editora Unicamp, 1999.

BULLOCK, S. C. Revolutionary Brotherhood: Freemasonry and the Transformation of the American Social Order, 1730–1840, Chapel Hill, 1996.

CARVALHO, W. A. Pequena História da Maçonaria no Brasil. REHMLAC, Vol. 2, No.1, 2010, p. 31-58.

CASTELLANI, J. Fragmentos da Pedra Bruta. Londrina: Editora A Trolha, 2003.

CASTELLANI, José. Do Pó dos Arquivos, Vol. III. Londrina: Editora Maçônica A trolha, 2003.

COSTA, Cruz. O Positivismo na República. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956.

ISMAIL, Kennyo. A colonização maçônica inglesa: na contramão dos princípios maçônicos. Revista C&M, Vol. 2, n.2, 2014, p. 97-104.

JACOB, M. C. Living the Enlightenment: Freemasonry and Politics in Eighteenth-Century Europe. New York: Oxford University Press, 1991.

LINHARES, Marcelo. A Maçonaria e a Questão Religiosa do Segundo Império. Coleção Ruy Santos. Brasília: Senado Federal, 1998.

MORAIS, Efraim; CAVALCANTI, Mozarildo. O Senado e a Maçonaria: Uma coletânea de discursos. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008.

MOREL, Marco; SOUZA, Françoise Jean de Oliveira. O poder da maçonaria: a história de uma sociedade secreta no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

PIRES, Joaquim da Silva. A Cisão Maçônica Brasileira de 1927. Londrina: Editora Maçônica “A Trolha”, 2015.

SILVA, M. J. D. Maçonaria e laicismo republicano na imprensa católica cearense. Revista C&M, Vol. 1, n.1, 2013, p. 7-19.

SOBRINHO, Octacílio Schüler. Uma Luz na História: o sentido e a formação da COMAB. Florianópolis: Ed. O PRUMO, 1998.

SOUSA, Octávio Tarquínio de. Fatos e Personagens em Torno de um Regime. São Paulo: Editora USP. 1988.

SUPREMO Conselho do Brasil. Revista Astréa de Estudos Maçônicos, Rio de Janeiro: Ano: II, Nº 04, 1928.

SWANSON, P. A História da Maçonaria Simbólica ‘Craft’ no Brasil. Rio de Janeiro: Comp. Litho Ferreira Pinto, 1928.

O sentido da vida

Todo o ser humano, mais tarde ou mais cedo, mais ou menos frequentemente, se interroga sobre o sentido da vida. As religiões resultam, em última análise, dessa primordial interrogação, procurando cada uma delas dar resposta à mesma. 

Confrontado com a crença religiosa que a sua cultura lhe disponibiliza, o indivíduo tem, basicamente, uma de três reações. Ou aceita essa doutrina, ou a rejeita ou aceita elementos, ainda que modificando-os, dessa tradição, mas busca ir mais além e mais fundo.

Se o indivíduo aceita a doutrina da crença religiosa que a sua cultura lhe disponibiliza, o seu problema está resolvido: o sentido da sua vida contém-se nos princípios dessa doutrina, cumpre, ou procura cumprir, os preceitos dessa religião e busca a Salvação ou a Evolução que a doutrina da sua religião preconiza. Sabe qual é o seu lugar e a sua função no mundo e na vida. Não precisa de se questionar mais.

Se o indivíduo rejeita a crença religiosa que a sua cultura lhe disponibiliza, das duas, uma: ou fá-lo porque se identifica com outra doutrina religiosa, a que se converte, ou, pura e simplesmente não crê. Na primeira hipótese, o seu problema de responder à interrogação primordial sobre o sentido da vida fica resolvido, em termos semelhantes à situação anterior. 

Se a rejeição da crença religiosa ocorre porque, pura e simplesmente, não crê, o seu problema fica também resolvido, mas com outra resposta: não existe qualquer sentido na vida, a vida, como o Universo, resulta de uma combinação de fatores físicos e químicos, tudo se resume ao mundo material, onde se nasce, vive-se o melhor que se pode e um belo dia morre-se e nada de nada resta, para além do que se enterra ou é cremado, para dar lugar a outros que, sucessivamente, nascerão, viverão e morrerão, sem que deles nada reste também, para além do que se enterra ou é cremado, até que um dia uma qualquer combinação de fatores físicos e químicos a tudo ponha fim – do começo ao final nada faz sentido, tudo sucede, sucedeu e sucederá por acaso, por mecânica combinação de uma miríade de fatores físicos e químicos.

Se o indivíduo, confrontado com a crença religiosa da sua cultura, aceita, ainda que modificando-os, elementos dessa tradição, mas busca ir mais além e mais fundo, esse é o que mais longa e persistentemente se debate com a interrogação sobre o sentido da vida. A resposta institucional não o satisfaz, a opção no ateísmo materialista também não. Esse rejeita que tudo sucedeu por acaso, por mera consequência de fatores físicos e químicos e que a vida não tenha sentido. Esse considera que existe, sim, um sentido na vida, ainda que ele o desconheça, mas entende que existe um Propósito, um Objetivo, na existência do Universo e, principalmente, da Vida. O que materialmente vê e sente é apenas uma parte do quadro da Vida. Acredita que outros planos de existência ocorrem, que a passagem por este plano material tem um propósito, simplesmente não se satisfaz plenamente com as respostas dadas pela religião da sua cultura – nem com as respostas dadas pelas demais religiões.

Esse, ou se conforma com o desconhecimento e vive segundo os preceitos da sociedade em que se insere, ainda que porventura os não aceitando plenamente, ou busca, por si, com a sua Razão, resposta ou caminhos para resposta suscetível de o satisfazer. É crente, mas não se identifica com nenhuma religião em concreto. É crente porque a sua Razão o conduz a que o seja, mas, por isso mesmo, procura as respostas por si mesmo. É o que se denomina de deísta.

Há ainda os que – talvez a maioria – vão evoluindo ao longo da sua vida, em resultado do seu crescimento, das suas experiências, dos seus encontros e desencontros com pessoas, ideias e ideais. O mesmo indivíduo pode, ao longo da sua vida, passar por mais do que um – no limite, até por todos – dos estádios acima referidos.

Cada um é como cada qual. A pergunta – qual o sentido da vida? – é a mesma, impõe-se a todos, mas cada um dá-lhe a resposta que entende ou que pode dar e, se muda os termos dessa resposta, uma ou várias vezes, é porque a sua natureza o impele a assim fazer.

Muitos, a maioria, interrogam-se sobre o sentido da vida na solidão do diálogo consigo próprio ou podem apenas obter as respostas institucionalizadas da sua tradição religiosa. Outros confrontam a sua interrogação com as similares interrogações de outrem, e daí resultam apostasias, conversões, mas também lutas, por vezes ferozes, ou indiferenças perante as diferenças.

Há uns quantos, porém, que têm a possibilidade de colocar essa interrogação em conjunto com outros, sem confrontos, com aceitação das respostas de cada um, com partilha de pontos de vista e de experiências, pondo todos em comum o que cada um tem, de forma a que cada um retire do todo posto em comum o que necessite para ir mais além e mais fundo, na sua busca pessoal de resposta à interrogação primordial que o venha a satisfazer.

Esses são os maçons!

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

O maçom e o conflito

O conflito faz parte das nossas vidas. Quer queiramos, quer não. Existem interesses divergentes, quantas vezes inconciliáveis. Quando tal sucede, várias formas de lidar com o assunto existem: a força, a imposição de poder, a desistência, a conciliação, a cooperação, a hierarquização, etc.

Os maçons também vivem e estão sujeitos a conflitos. Tanto como qualquer outra pessoa vivendo em sociedade.

Mas os maçons aprendem a lidar melhor com o conflito. Desde logo, porque aprendem, interiorizam e procuram praticar a Tolerância. Esta postura não elimina, obviamente, os conflitos, nem leva quem a pratica a deles fugir, ou a ceder para os evitar. Pelo contrário, ensina e possibilita a melhor gerir o conflito. E melhor gerir um conflito não é procurar ganhar a todo o custo. Melhor gerir um conflito consiste em detectar e obter a melhor solução possível para ele. Por vezes, “vencer” o conflito pode parecer a melhor solução no curto prazo, mas revelar-se desastrosa depois.

O maçom aprende a gerir o conflito, desde logo treinando-se a fazer algo que, sendo básico, é muitas vezes esquecido: ouvir! Ouvir o outro, as suas razões, pretensões. Ouvir o outro não é apenas deixá-lo falar. É prestar efetivamente atenção ao que diz e como o diz. Para procurar determinar porque o diz e para que o diz. E assim lobrigar exatamente em que medida existe realmente conflito de interesses entre si e o outro – ou se existe apenas uma aparência de conflito de interesses, por deficiente entendimento, de uma ou das duas partes, de propósitos, intenções, objetivos.

Ouvir o outro é o primeiro exercício prático da Tolerância, da verdadeira Tolerância. Porque esta não é o ato de, condescendentemente, admitir que o outro tenha uma posição diferente da nossa e permitirmos-lhe, “generosamente”, que a tenha. A verdadeira Tolerância não é um ponto de chegada – é uma base de partida. A verdadeira Tolerância resulta do pressuposto filosófico de que ninguém está imune ao erro. Nem nós – por maioria de razão. Portanto, tolerar a opinião do outro, a exposição do seu interesse, porventura conflituais com a nossa opinião e o nosso interesse, não é um ato de generosidade, de condescendente superioridade. É a consequência da nossa consciência da Igualdade, fundamental entre nós e o outro. Que implica o inevitável corolário de que, sendo diferentes as opiniões, se alguém está errado, tanto pode ser o outro como podemos ser nós. A Tolerância não é um ponto de chegada – é uma base de partida. Não é demais repeti-lo.

Porque a consciência disto possibilita a primeira ferramenta para a gestão do conflito: a disponibilidade para cooperar com o outro, para determinar (1) se existe verdadeiramente divergência entre ambos; (2) existindo, qual é ela, precisamente; (3) em que medida é essa divergência, superável, total ou parcialmente; (4) ocorrendo superação parcial da divergência, se o conflito se mantém e, mantendo-se, se conserva a mesma gravidade; (5) finalmente, em que medida é possível harmonizar os interesses conflituantes: cada um abdicando de parte do seu interesse inicial? Garantindo ambos os interesses, seja em tempos diferentes, seja em planos diversos?

Treinando-se na prática da Tolerância, o maçom aprende a lidar melhor com o conflito, porque é capaz de, em primeiro lugar, determinar se existe mesmo conflito, em segundo lugar predispõe-se para cooperar na superação do conflito e finalmente adquire a consciência de que existem várias, e por vezes insuspeitas, formas de superar, controlar, diminuir, resolver, conflitos – quantas vezes logrando-se garantir o essencial dos interesses inicialmente em confronto.

E tudo, afinal, começa por saber ouvir e por saber tolerar (o que implica entender) a posição do outro.

Por isso o primeiro exercício que é exigido ao maçom é a prática do silêncio. Para que aprenda a ouvir, para que se aperceba do que realmente é dito, para que reflita sobre a melhor forma de resolver os problemas que ouça expostos.

Através do silêncio, aprende o maçom a sair de si e a atender ao Outro. Através da Tolerância da posição do Outro, aprende o maçom a descobrir a forma de harmonizá-la com a sua. Através da busca da Harmonia, aprende o maçom a gerir os conflitos. Através da gestão dos conflitos, torna-se o maçom melhor, mais eficiente, mais bem sucedido.

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

A Ressonância Schumann

Em inúmeras ocasiões ouvimos as pessoas dizendo que o “tempo está curto”, que não têm tido tempo para fazer todas as suas atividades, ou seja, que precisam que o dia tenha mais horas para fazermos todas as nossas tarefas.

Notamos esse frenesi no trânsito, nas pessoas andando apressadas, na falta de paciência para com os mais lentos e até quando temos que ouvir um irmão com mais atenção.

Percebemos pessoas dizendo que dormiram pouco, pois precisaram trabalhar ou estudar até a madrugada para dar conta de suas tarefas, que o ano passou rápido demais.

Pois bem. Em 2004, o teólogo Leonardo Boff escreveu um artigo para o Jornal do Brasil (5 de março de 2004) teorizando sobre o porquê dessa noção de que os dias aparentemente possuem menos horas do que realmente precisamos. Ele atribuiu a essa percepção humana a ocorrência de um fenômeno da física denominado “Ressonância Schumann”.

W.O. Schumann foi um físico alemão que, em 1952, constatou que o nosso planeta é cercado por um campo eletromagnético poderoso, que se forma entre o solo e a parte inferior da ionosfera. Para aqueles que não se lembram, a biosfera terrestre (a parte habitável de nosso planeta), é a área da atmosfera aonde podemos ir sem proteção especial e que tem na ionosfera o seu limite superior.

Assim, Schumann enunciou que essa área do planeta, entre o solo e a ionosfera, forma um escudo que nos protege das radiações siderais, e, como todo fenômeno eletromagnético, possui uma frequência, uma espécie de ritmo ou pulsação. Schumann determinou em 1952 que a frequência dessa cavidade protetora em que vivemos era de 7,83 Hertz.

Leonardo Boff em seu artigo, afirmou que essa frequência é uma espécie de marca-passo planetário e uma referência para todos os seres vivos da biosfera terrestre. Inferiu que 7,83 Hz era o valor da frequência natural dos seres humanos e que nossas vidas eram influenciadas pela frequência planetária, ou mais especificamente, pela Ressonância Schumann.

Disse que a partir dos anos 80, o marca-passo planetário acelerou passando de 7,83 Hz para 13 Hz. Com isso, os organismos vivos submetidos a essa ressonância ou magnetismo, tenderam a alinhar-se com esse novo batimento, ou seja, atribuiu o frenesi da sociedade atual ao aumento dessa frequência planetária.

Boff diz ainda que o coração da Terra disparou levando o planeta a mais atividades vulcânicas, degelo das calotas polares, “El Niños” mais severos, furacões mais frequentes, etc. Afirmou que devido ao aumento dessa frequência nossa jornada de 24 horas passou a ser de fato de 16 horas e, portanto, a percepção de que tudo está passando rápido demais não é ilusória, mas teria base nessa alteração da Ressonância Schumann.

Teoriza também que o único meio para que esse fenômeno se reverta é que os seres humanos busquem a serenidade e o seu equilíbrio interior, vivendo com mais amor, pois o amor é uma energia essencialmente harmonizadora.

Buscando agora o que dizem nossos cientistas, verificou-se que de 1952 até os dias de hoje a variação na frequência foi de praticamente 0,1 Hz devido às explosões solares, atingindo apenas o valor máximo de 7,9 Hz, não muito diferente de 7,83 Hz. Podemos comprovar também que não houve alteração na passagem do tempo a partir do lançamento de satélites localizados após a ionosfera, ou seja, fora da influência da Concha de Schumann, e que possuem relógios atômicos que após anos ainda estão perfeitamente sincronizados com os relógios que ficaram na Terra.

Mas de onde vem então essa percepção de todos nós de que o tempo passa mais rápido? A resposta está em nós mesmos! Se formos a um interior longínquo da Região Amazônica, ainda encontraremos cidades pequeninas que mal possuem energia elétrica.

Veremos lugares onde as pessoas possuem o hábito de fazer rodas de conversas, de observar a chegada da “Estrela D’Alva”, o planeta Vênus, que depois da Lua é o corpo celeste mais brilhante de nosso firmamento e que sempre chega junto ao alegre cantarolar dos grilos. Nesses interiores tudo é perto e o tempo passa deliciosamente devagar.

O que de fato aconteceu conosco nas grandes cidades é que recebemos diariamente um bombardeio de “inputs”, ou seja, de informações que chegam e que precisam ser respondidas com rapidez. Estamos envolvidos nesse ritmo, nessa roda insana de nossa sociedade conectada.

Mas como reverter essa situação que nos gera tantos desgastes, males físicos e mentais?

Segundo Siddharta Gautama (2003), talvez a resposta esteja no “caminho do meio”, assim como nos ensinou Buda… “Nem tanto ao céu, nem tanto a Terra”.

Temos que dar uma cadência às nossas vidas… parando nos momentos certos, buscando a organização mental, a serenidade em nossas ações… temos que buscar a harmonização. Pessoas com equilíbrio conseguem transmitir sensações de paz e de bem-estar. Torna-se prazeroso estarmos próximos a pessoas equilibradas energeticamente.

Lembremos da régua de 24 polegadas que nos serve de referência, lembremos de meditar, de buscar a organização mental para conduzir nossas tarefas e nosso dia.

Lembremos que como disse Boff, na parte de seu texto que nos servirá como ajuda, que temos em alguns momentos em nosso dia que sermos “menos cultura” e “menos competitivos”.

Temos que ser mais seres humanos, mais amorosos e mais fraternos. Temos que ser um pouco menos reativos e mais humanos… olhar estrelas, como faziam nossos antigos mestres egípcios, apreciar a beleza das flores, conversar, confraternizar… dar boas risadas!

Só agindo desta forma, conseguiremos realmente atingir o nosso equilíbrio físico e mental que nos defenderá do ritmo alucinante de nossa sociedade urbana, para que a paz e a tranquilidade estejam de fato entre os seres que habitam este lindo planeta azul.

Autor: Cézar Furtado

* Cézar é VM da Loja de Estudos e Pesquisas Acácia Canoense, 252, filiada à GLMERS – Oriente de Canoas, Rio Grande do Sul.

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Referências

Jornal do Brasil – RJ – Coluna do Teólogo Leonardo Boff – 5 de março de 2004

GAUTAMA, S. A Doutrina de Buda. São Paulo: Martin Claret, 2003. p.19

Material eletrônico, artigo de revista eletrônica:

Artigo Científico – A ressonância Schumann e a disparada do coração da Terra – Alberto Gaspar (Dr. Pela USP e Prof. Física da UNESP-Guaratinguetá) – Autor da Ática, 2006.
http://www.aticaeducacional.com.br/htdocs/secoes/atual_cie.aspx?cod=751

A casa está queimando…

Eu simplesmente não consigo entender o incêndio criminoso de três templos maçônicos na área de Vancouver. Servimos nossas comunidades e nosso país por séculos por meio de caridade, auto sacrifício e boas ações. W Bro. Syd Schatzker[1]

Por mais triste que seja este momento, talvez possamos usá-lo para repensar nossas estratégias de comunicação, nossos esforços de construção de imagem e – mais importante – nossas práticas de educação e mentoria.

Deixe-me ser franco:

Para servir a sua comunidade, você não precisa ser um maçom. Basta ir e ser voluntário em qualquer organização de serviço comunitário.

Para servir nosso país você não precisa ser maçom. Basta ir e se inscrever no exército (ou pior cenário: entrar na política pública com honestidade).

O auto sacrifício não é um conceito ensinado em nossa educação maçônica. [Embora eu tenha lido nos últimos dias uma “constituição” de uma defunta obediência maçônica do século 18, onde eles costumavam colocar o candidato em um julgamento para testar sua vontade de auto sacrifício.]

Fazendo boas ações …? Qualquer religião é mais óbvia e significativa sobre tais ações – e mesmo se fizermos “boas ações” – não é a ideia (apontando para o auto sacrifício) que não se espera receber carinho por fazer boas ações? Se fizermos boas ações para obter “boa reputação” como recompensa… estava vindo do coração ou apenas uma simples troca comercial?

Agora, talvez, seja hora de parar e pensar sobre nós mesmos, nosso lugar no mundo, o significado da Maçonaria e a imagem que criamos de nós mesmos. E as perguntas que fiz acima.

Há – fora da nossa fraternidade – autores de ficção e lunáticos, em igual quantidade, que escrevem sobre os maçons, suas origens, seus rituais, seus objetivos e suas atividades presumidamente “secretas”. O público em geral, e muitas vezes também os maçons, não conseguem discernir a diferença entre o real e o imaginário. O motivo: falta de educação e orientação.

Durante séculos, seguindo a postura da Maçonaria Inglesa, todas as Grandes Lojas permaneceram silenciosas e indiferentes a tais exercícios mentais exibidos por obras literárias ou malucos adeptos de teorias de conspiração. Enquanto a única mídia a atingir as massas foi a impressa, que não era acessível para tais “escritores”, talvez essa atitude oficial tenha se justificado. No entanto, o século XXI trouxe grandes mudanças também neste campo: a internet, a Web 2.0 (introduzindo a interatividade), as mídias sociais, os e-books etc. De repente, os grafomaníacos obcecados ganharam um meio de fácil acesso, uma plataforma mundial para espalhar suas fantasias… e as Grandes Lojas estavam, e ainda estão, à margem, como se isso não as afetasse. Talvez devêssemos questionar a validade dessa posição. A torre de marfim pode não funcionar desta vez. Para uma analogia, olhe para a economia: a disrupção tornou-se a norma. As velhas maneiras de fazer as coisas são obsoletas e não são eficazes.

A internet e a mídia cheia de conspiração não é apenas mais uma “exposé” como as iniciadas na década de 1730… não é apenas mais uma farsa impressa como a de Taxil… misteriosa Maçonaria. É um ataque com esforços concentrados (embora não cometamos o mesmo erro: não é uma conspiração mundial dirigida por um cérebro central!). Mesmo que não tenha origem em só lugar – está convergindo em uma única direção: contra nossa Sublime Ordem.

Devido aos nossos mais de 300 anos de silêncio e ao sigilo real e percebido, perdemos há muito tempo a chance de controlar nossa própria imagem pública. Quando mais de uma geração de maçons cresceu (e envelheceu) sem ser capaz de comunicar de forma coerente, nem mesmo para suas próprias famílias, o que é a Maçonaria e por que ela é importante na vida de um homem… perdemos o barco. Se nós, como maçons, não fomos capazes de comunicar às nossas amadas famílias o que é a Maçonaria – como esperamos convencer as massas paranoicas sobre as qualidades de nossa fraternidade?

(Antes que você se oponha nervosamente a essa ideia: pense em todos aqueles jovens anunciando publicamente que seu pai ou avô era maçom, mas eles nunca disseram uma palavra à geração mais jovem… eles podem dizer por que nunca foram orientados e educados adequadamente sobre a Arte Real!)

Fazer doações para instituições de caridade e/ou distribuir pacotes de alimentos para os necessitados – não é Maçonaria. É, sem dúvida, uma intenção nobre e uma ideia nobre ajudar os menos afortunados e contribuir para causas nobres. Mas quando a Maçonaria, para o iniciado, termina aí, ou, eventualmente, adicionando algumas cervejas com os “camaradas” … aí a Maçonaria acaba também.

Mentes brilhantes, como Thomas W. Jackson, o conhecido estudioso e maçom de longa data que viajou extensivamente ao redor do mundo, escreveu que distinguia cinco estilos de maçonaria: filosófico, social, sociológico, político e caritativo. Definitivamente, os exemplos destacados do Charitable Style são a América do Norte, tanto o Canadá quanto os EUA. O que significa que perdemos todo o resto … Como o Ir. Jackson colocou: nós “nos afastamos mais de suas raízes do que qualquer Maçonaria no mundo”.

Poderíamos citar muitos de seus artigos, e de muitos outros estudiosos maçônicos. Também poderíamos dar uma dica do nosso próprio programa de Grão-Mestre: Ritual, Educação, Mentoring. Sem isso, que tipo de “maçonaria” você tem? Vindo de um lugar onde a Maçonaria manteve vivo seu “estilo” filosófico e raízes, onde a elite intelectual costumava ser e ainda é atraída pelos ideais da Maçonaria, fiquei amargamente chocado quando um jovem maçom canadense não muito brilhante se opôs veementemente ao uso da palavra “elite” em conexão com a Arte. Ele pensou que era algum tipo de palavrão… e quando as pessoas podem associar com a palavra apenas os infames 1% mais ricos do país e nada mais, é um triste retrato de como fomos negligentes em nossa obrigação de orientar e educar nossos membros. Enquanto não mudarmos isso, não conseguiremos atrair a “elite”, nenhum tipo de elite.

Muitos maçons respeitam o autor John J. Robinson (pelo motivo errado, devo acrescentar, porque ele não é um historiador qualificado do Ofício). No entanto, todos podemos concordar com esta afirmação dele: “O problema com a Maçonaria é que ela não pratica mais a Maçonaria”.

Como isso está relacionado aos incêndios criminosos de BC?, você pode perguntar. Reflita sobre isso: quem é responsável pela discrepância entre nossa autoimagem e a imagem que existe na sociedade em geral?

Autor: Istvan Horvath
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: The Other Mason

*Horvath é Mestre Maçom, Maçom do Arco Real, membro da Philaletes Society, do Quatuor Coronati Correspondence Circle e da Scottish Rite Research Society. 

Nota

[1] – O autor dessa citação se referiu ao caso de incêndio criminoso de 30 de março de 2021 em Vancouver, BC. Veja reportagens da mídia: https://www.cbc.ca/news/canada/british-columbia/north-vancouver-fires-1.5969506https://globalnews.ca/news/7731273/arson-charges-masonic-hall-vancouver/ 

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Tiradentes e a semente da independência: a quebra de dormência aconteceu em Minas (Parte I)

“… O primeiro compromisso de Minas é com a liberdade. Liberdade é o outro nome de Minas.…” (Tancredo Neves: discurso de posse no governo de Minas Gerais em 15 de março de 1983).

A expansão territorial do que viria a contribuir para a delimitação do domínio português na maior parte do Brasil como hoje conhecemos deu-se a partir dos séculos XVII e XVIII, por obra de vaqueiros, dos jesuítas e das entradas e bandeiras. Até então, a colonização se restringia à região costeira, onde vários fortes foram construídos para afastar os invasores provenientes das nações que foram excluídas do Tratado de Tordesilhas, que dividiu o Novo Mundo descoberto e por descobrir entre portugueses e espanhóis.

Até meados do século XVII, a autonomia política dos colonos era relativamente grande. O Brasil era um Estado da monarquia portuguesa, chamado de “Província do Brasil”. A partir da Restauração em 1668 – independência de Portugal em relação à Espanha, a soberania da nova dinastia governante foi estabelecida. Os colonos, sentindo-se explorados, mudaram a visão em face da dominação portuguesa, aflorando sentimentos de revolta contra a nova política para o Brasil.

Com a queda das exportações do açúcar nordestino, frente à concorrência da produção dos espanhóis e ingleses, e dos holandeses e franceses (expulsos do Nordeste) nas Antilhas, no final do século XVII, deu-se início ao chamado ciclo do ouro, gerando grande fluxo de pessoas do litoral nordestino e de Portugal para o garimpo na região produtora das minas, referenciado como montanhoso solo onde o ouro “se desprendia dos ricos veios e se derramava abundante pelos caldeirões e areias dos regatos”. Para custear suas importações, a Coroa portuguesa necessitava do ouro e prata de suas colônias. As primeiras descobertas de ouro ocorreram na região do atual Estado de Minas, em 1695, quando as bandeiras então se dirigiram para a área e, em seguida, para o Centro-Oeste.

Em 1702 foi criada a Intendência de Minas, com a função de controlar e fiscalizar a distribuição, o arrendamento e a produção das jazidas e cobrar o quinto, ou seja, os 20% da produção total. Com o contrabando do ouro em pó correndo solto, a Coroa criou as Casas de Fundição, em 1720. O ouro passou a ser fundido em barras, assegurando a cobrança do imposto. As descobertas de ouro e diamantes no Distrito Diamantino levaram o rei de Portugal, dom João V, a criar a Intendência dos Diamantes logo a partir de 1729, decretando o monopólio da Coroa.

Os primeiros conflitos já em fins do século XVII e nas primeiras décadas do século XVIII ainda não eram movidas pelo desejo de autonomia, mas por questões meramente regionais contra a política de exploração, do monopólio das privilegiadas companhias de comércio, além de conflitos entre senhores de engenho e comerciantes ou da disputa com os bandeirantes paulistas pelo domínio das minas. O Brasil era uma extensa e despovoada colônia, com regiões isoladas e sem comunicação.

A revolta de Beckman, no Maranhão em fevereiro de 1684, provocada pelos altos preços cobrados pelos produtos importados e os baixos valores pagos à produção local, culminou em prisões, degredos e o enforcamento do principal líder. Por sua vez, a chamada Guerra dos Mascates, movimento ocorrido em Pernambuco entre 1709 e 1710, colocou em lados opostos os senhores de engenho e os comerciantes portugueses moradores de Recife, tendo como uma de suas causas a crise açucareira. A rebelião terminou com a punição dos envolvidos e Recife permaneceu na condição de vila independente de Olinda. No mesmo período, entre 1709 e 1710, na região de Minas, então pertencente à Capitania de São Vicente, eclodiu o conflito pela disputa da posse de jazidas de ouro, que ficou conhecida como Guerra dos Emboabas. Vencido o conflito, a Coroa resolveu criar a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, desmembrada da Capitania de São Vicente, preservando a capacidade de fiscalizar a distribuição das jazidas e cobrar os impostos.

Aqui pelas bandas das Minas de Ouro merece destaque a Revolta de Vila Rica, também conhecida como Revolta de Filipe dos Santos, em 1720, que levou o nome do personagem à frente do movimento que se opunha ao fisco português com a criação das Casas de Fundição. Filipe dos Santos, tropeiro e rancheiro no povoado de Antônio Dias, liderou um motim de quase 2.000 mineiros. Acuado, o odiado governador português da região, sediado em Vila do Carmo (atual Mariana), o Conde de Assumar (Pedro de Almeida), negociou com os revoltosos prometendo o perdão e a suspensão da criação das Casas de Fundição. Tudo não passou de um artifício para ganhar tempo e articular a repressão aos rebeldes.

Com a desarticulação do movimento, foram presos os líderes e Filipe dos Santos foi enforcado em julho de 1720 e seu corpo atado a quatro cavalos, sendo dilacerado. Partes de seu corpo (cabeça, pernas e braços) foram colocadas em pedaços de madeira e espalhadas pela cidade, para mostrar à população o destino de quem desafiasse a Corte. Para justificar a justiça sumária contra portugueses perante o monarca, o Conde de Assumar, que não tinha jurisdição para tal ato, alegou que se tratara de crime de lesa-majestade e que o movimento encobriria ideal de liberdade e de formação de uma república. Indiretamente, e com a licença de puristas e céticos, uma semente de liberdade fora então lançada a terra. Sangue de mártir é semente.

A Revolta de Filipe dos Santos teve como consequência a cisão da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, materializando-se a autonomia administrativa da Capitania de Minas Gerais, por ato do rei Dom João V, em 2 de dezembro de 1720, com a capital em Vila Rica. Fora então criada mais uma Comarca: Serro Frio (com sede em Vila do Príncipe). Dessa forma, o território mineiro ficou dividido em quatro Comarcas: Vila Rica (Centro e Leste), Rio das Mortes (Sul), Rio das Velhas (Oeste) e Serro Frio (Norte/Nordeste).

Em 1735, a Coroa instituiu o “Imposto de Capitação”, por acreditar que o contrabando estaria comprometendo a arrecadação. O mecanismo consistia no pagamento, pelo minerador, de uma quantia de 17 gramas de ouro por cada um de seus escravos. Pelo Alvará de 3 de dezembro de 1750, foi alterada a cobrança com a imposição do pagamento de 100 arrobas anuais de ouro pela região de Minas. Com a queda da mineração e devido ao atraso, sob a ameaça de penhora de bens, foi instituída a “derrama”, em 1760. Outros impostos também recaiam sobre a região mineradora, como o das “entradas”, semelhante ao imposto sobre circulação de mercadorias. Pagava-se sobre a importação e a exportação de quaisquer produtos, mesmo de outras Capitanias e seu fato gerador era a entrada e saída do território mineiro. Havia ainda o “dízimo” como sua fonte de custeio e depois transformado num imposto sobre rendimentos de pessoa física e sobre a entrada e saída de mercadorias. Isso sem falar em outros impostos menores como o pedágio, taxas dos ofícios de justiça etc., onerando sobremaneira o custo de vida local.

Portugal não tinha nenhuma política colonial, tendo como única a estratégia de arrancar o máximo com o mínimo de despesas, indiferente ao bem-estar dos povos sujeitos ao seu domínio, impedindo de todas as formas que a população criasse riquezas e melhorasse as condições de vida. Naquele período, os contratadores da cobrança de tributos e comerciantes que vendiam a crédito tinham grandes valores a serem recebidos dos detentores das grandes fortunas. Essa situação deixava os contratadores comprometidos junto à Coroa. Na realidade, era uma economia de endividados cujos bens pessoais não eram suficientes para quitar as dívidas.

A dispersão da semente da liberdade ocorreu em outros momentos, pontos e locais da capitania de Minas Gerais, que fora ainda palco de outras sedições, desde a primeira metade do século XVIII, afrontando a imposição da soberania régia. Foi o caso da sedição do sertão do Rio São Francisco, ocorrida em 1736 e que se voltou contra as autoridades reais e a capitação — cobrança dos quintos reais realizada com base no número de escravos. Durante o reinado de D. José I (1750–1777), eclodiram inconfidências em locais isolados de Minas — Curvelo (1760-1763), Mariana (1768), Sabará (1775) e de novo Curvelo (1776) —, sempre em função de atritos com autoridades e seus aliados. Ao contrário da Inconfidência Mineira, esses motins anteriores implicavam manifestações concretas de violência, com a população na rua, arruaças, vivas à liberdade e referência a apoios de outras potências colonizadoras (Wikipédia).

Desde meados do século XVIII fazia-se sentir o declínio da produção aurífera na Capitania de Minas Gerais. A Comarca de Vila Rica havia se transformado, em poucos anos, graças ao ouro, na maior metrópole do Brasil. Em meados do Século XVIII, todo o território português possuía 2.900.000 habitantes, sendo 200 mil em Lisboa; na mesma época, só em Vila Rica havia 100 mil, ou seja, metade da população da capital do Reino. A Capitania contava com 320.000 habitantes em 1776. Dez anos depois, em 1786, a população de Minas Gerais era de aproximadamente 400.000 habitantes, sendo 206.000 livres e 190.000 escravos; a população do Brasil alcançava o número de 3.500.000, sendo 2/5 de escravos (JARDIM, 1989).

Por essa razão, na segunda metade desse século, a Coroa portuguesa intensificou o controle fiscal sobre a sua Província na América do Sul, proibindo, em 1785, as atividades fabris e artesanais, tendo em vista a necessidade de mais braços para a mineração, além de aumentar as taxas dos produtos vindos da metrópole.

Como visto, a partir da segunda metade do século XVIII, os valores do sistema colonial começaram a ser questionados, não só por pessoas de baixa condição social, mas também, com mais vigor, pelos grandes proprietários. Valores necessários à segurança do Estado absolutista português e da exploração colonial suscitavam controvérsias, como a ideia de bom pagador da Fazenda Real, o respeito à monarquia, a condição de vassalo zeloso, o direito divino do rei, que tinha o poder de vida e de morte sobre seus súditos. Temas como o luxo e a ostentação da Corte, grandes propriedades, escravidão, república, liberdade e separação de Portugal, ganharam relevo.

Com as transformações decorrentes da urbanização, cresciam a camada de comerciantes, funcionários públicos, professores, letrados, militares, artesãos e homens livres em geral, tornando a sociedade mais complexa. Embora precárias as comunicações, já se colhia um sentimento de incômodo com a prepotência das autoridades coloniais e a legislação metropolitana cada vez mais rígida e que dificultava a vida dos colonos.

Naquela quadra da história, constituía-se tradição as famílias abastadas enviarem seus filhos para estudar em Coimbra, cujo ensino havia sido reformado pelo Marquês de Pombal. Alunos também eram aceitos na França (Montpellier e Bordeaux) e no Reino Unido (Londres e Edimburgo). Na Europa tiveram a oportunidade de estudar o pensamento dos filósofos iluministas que combatiam o absolutismo, o mercantilismo e os monopólios, conhecidos como ideias francesas. Entre os anos de 1768 e 1788, vinte anos, portanto, 157 estudantes das diversas capitanias luso-brasileiras foram diplomados na Universidade de Coimbra (FERREIRA, 1972).

Nos portos brasileiros o contrabando trazia livros dos melhores autores e pensadores da época, como Rousseau, Voltaire, Montesquieu, enciclopedistas como Diderot e D’Alembert e Adam Smith, dentre outros. Naquele período, o Brasil não possuía universidades, imprensa e bibliotecas eram proibidas, a circulação de livros estava submetida a três instâncias de censura, de modo que os mecanismos de exploração e opressão não fossem fragilizados. A política oficial permitia o funcionamento das escolas religiosas, dominadas pelos jesuítas até suas expulsões, em 1759, depois assumidas por outros padres e mestres laicos. O ambiente sociocultural se apoiava nas realizações de caráter artístico, expressos através da religiosidade popular, da escultura, da música e da arquitetura. Em 1768, o Marquês de Pombal instalou a Real Mesa Censória, centralizando e organizando o trabalho da seleção do que podia ou não ser lido (DÓRIA, 2014). O direito de reunião era vigiado. De cada cem brasileiros, menos de dez sabiam ler e escrever.

As ideias revolucionárias que por aqui aportaram propiciaram grande crescimento cultural e tinham relevo nas reuniões e saraus musicais e literários então promovidos pelas famosas academias. Por isso, as academias se revestiram de alguma importância cultural e mesmo política. Nesse meio, os livros passavam de mãos em mãos. Seus rituais acadêmicos eram uma maneira de passar o tempo de forma mais agradável nas cidades provincianas como Salvador, Vila Rica e Rio de Janeiro.

Sem dúvida, naqueles eventos discutiam-se poesias, literatura, e, claro, filosofia e política. Em meados do século XVIII, surgiu a primeira escola literária brasileira – o Arcadismo. “Nessa época, portugueses e jesuítas deixaram de monopolizar a cultura. Liam-se também, principalmente em Minas Gerais, autores franceses e ingleses que eram críticos do absolutismo, do mercantilismo e da intolerância religiosa, louvadores da natureza, do progresso e da liberdade” (CÁCERES, 1995).

Efetivamente, o movimento árcade se desenvolveu no Brasil com a fundação, em Vila Rica, no ano de 1768, da “Arcádia Ultramarina”, tendo como referência a publicação, por Cláudio Manuel da Costa, de suas “Obras Poéticas”, constituindo o embrião de uma geração literária brasileira. Além de Cláudio Manuel, vários escritores se destacaram no Arcadismo brasileiro, como Tomás Antônio Gonzaga (autor de “Cartas Chilenas” e “Marília de Dirceu”), Frei José de Santa Rita Durão (autor do poema “Caramuru”), Inácio de Alvarenga Peixoto (autor de “A poesia dos inconfidentes: poesia completa”), José Basílio da Gama (autor de “O Uruguai”), Manuel Inácio da Silva Alvarenga (autor de “O Desertor das Letras”, “Glaura – Poemas Eróticos”). (GOMES, 2016).

No campo das expressões artísticas, Minas atingiu um dos mais altos pontos de sua civilização. “Só a arquitetura é um atestado indiscutível das proporções do progresso daquela sociedade, o que desmente a tendência preconceituosa de diminuir as possibilidades do movimento revolucionário de 1789 baseadas na existência de capacidade para a construção de um novo país” (JARDIM, 1989). Outra premissa falsa é a de que sendo o interior brasileiro uma região extremamente atrasada, de arraiais incipientes, não poderia comportar um movimento político de importância considerável.

O pensamento iluminista de caráter burguês e anticlerical pregava conceitos considerados subversivos pela Corte Portuguesa, por envolverem “abomináveis ideias francesas” ligadas a separatismo, república e legitimidade do poder, por considerar que a finalidade do governo era a de atender ao bem comum. Os iluministas defendiam a liberdade como elemento fundamental e inalienável para a realização do destino humano. Tinham como meio de difusão as Academias, a Enciclopédia, a Maçonaria, os Clubes, Cafés e Salões e as Universidades.

Em virtude da situação política, econômica e social, em especial dos interesses dos grandes proprietários de terras, minas e escravos, deu-se início à articulação do movimento que passou à história como a Inconfidência Mineira, como o primeiro a “compreender e criticar a exploração do sistema colonial e fazer a ligação entre essa exploração e a decadência das minas dos grandes proprietários. A Conjuração Mineira foi o primeiro movimento a propor objetivamente o rompimento do pacto colonial, ao tentar criar uma nação independente e a ver nessa independência um futuro de progresso” (CÁCERES, 1995). Neste movimento, em Vila Rica, podemos vislumbrar a quebra de dormência da semente da independência que fora lançada por ocasião do suplicio de Filipe dos Santos, germinando na mesma região, onde encontrou o terreno fértil como na parábola do semeador.

Continua….

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Loja de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda, da Academia Mineira Maçônica de Letras e, para nossa alegria, um colaborador do blog.

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

A maçonaria, intelectuais e pensamento político nas décadas iniciais do século XX

Simbolo da Maçonaria Compasso e esquadro no Elo7 | Artes Marinhas (95C15E)
Este artigo é de autoria de Augusto César Acioly Paz Silva, publicado originalmente na REHMLAC.

O presente texto procura responder questões referentes ao processo de estruturação a maçonaria nas décadas iniciais do século XX, posicionando-se de maneira crítica à tese veiculada por Sergio Buarque de Holanda, o qual defendia que, com a instauração da República, a maçonaria teria saído de cena e dado lugar ao ideário positivista. O que foi possível observar ao diferente da perspectiva veiculada por Buarque de Holanda, esse ideário não se efetiva na prática, pois a atuação intelectual dos maçons demonstra a dinâmica e vivacidade que a instituição usufruía ao longo das décadas iniciais da república.

Introdução

A maçonaria, no Brasil, ainda se constitui numa instituição pouco estudada, tanto no campo da historiografia quanto da cultura política e da própria história do pensamento brasileiro nas décadas iniciais do século XX. Devido a estes aspectos, o nosso trabalho tem como preocupação central discutir esta invisibilidade, ao mesmo tempo em que procuramos destacar quais as concepções e campos de ação que tal instituição atuava, lançando luzes sobre os temas que norteavam a ação de parte da maçonaria, procurando enfocar Pernambuco, mas construindo relações com as discussões mais gerais que faziam parte da maçonaria brasileira. Aliar estas discussões ao que era pensado e divulgado nos seus órgãos de imprensa ou produção intelectual fornece uma possibilidade importante para que seja possível desconstruir as imprecisões que se colocam sobre esta instituição.

Conseguimos, através do seu campo de ideias e posições, dar um “rosto” aos maçons e à maçonaria, apresentando quais os ideários e culturas políticas que se encontravam veiculadas e eram por ela defendidas. Sendo assim, através deste texto procuraremos superar os estereótipos de estigmas, além de pensar a ação dos seus intelectuais na apresentação de alguns ideários que circulavam no ambiente maçônico e que se constituíam em vinculações que eram realizadas sobre a maçonaria, principalmente nas décadas inicias do século XX. Outra dimensão importante reside no fato de superar uma compreensão e representação historiográfica que tendem a reforçar uma visão desta sociedade como sendo “sem expressão política” nas décadas iniciais do século passado colaborando, assim, para moldar uma concepção da maçonaria enquanto uma instituição representada por ações episódicas ao longo da nossa História.

Ao longo da sua História em terras brasileiras, momento que remonta às décadas iniciais do século XIX, é possível observar a participação de vários intelectuais que circulavam em espaços de discussão e estruturação de projetos em âmbito nacional como Saldanha Marinho (1816-1895); Rui Barbosa, que participou ativamente da loja América (1849-1923); Benjamim Constant (1836-1891) e Joaquim Nabuco (1849-1910).

Em muitos casos é possível observar que a atividade intelectual misturava-se com a participação de muito deles em causas políticas, como a defesa do fim da escravização dos africanos e seus descendentes, o combate às ideias que expressavam uma posição compreendida por setores da sociedade brasileira como vinculando-se dentro do campo da intolerância, principalmente, as relacionadas à defesa de liberdade religiosa e pensamento, conjunto de demandas intelectuais que mobilizou parte da maçonaria brasileira, aqueles setores que identificavam com posições de raiz ilustrada e liberal.[1]

Com relação a alguns destes personagens, é importante pontuar que, do ponto de vista da formação intelectual, ela foi forjada dentro do ideário intelectual sintonizado com o pensamento do liberalismo e, no caso de parcela deles, do positivismo. Existe uma tese clássica de Sérgio Buarque de Holanda que, ao tratar o maçonismo como um ideário intelectual, defendeu a perspectiva da sua substituição pelo positivismo. Tal perspectiva, apresentada pelo historiador paulista, reúne alguns problemas: o primeiro deles, a visão de que a maçonaria, ao longo do período republicano, havia desaparecido, uma vez que o ideário positivista havia tomado o seu lugar. Ao estabelecer tal associação é possível, ainda, deixar evidente a falta de conhecimento de Holanda sobre o que seria tal instituição.

Uma segunda dimensão, que merece ser ponderada, reside no fato de que ele trata a passagem da maçonaria ao positivismo como sendo, às vezes, sinônimos e ao mesmo tempo sem apresentar, pelo menos do ponto de visto daquilo que ele denomina de maçonismo, a complexidade do que tal perspectiva no campo das ideias e da mobilização intelectual significava, ou seja, parece que tais ideários seriam estanques.

Isto que Buarque de Holanda denomina, de maneira monolítica, como sendo maçonismo reunia, no seu corpo de ideias, matizes de pensamento que circulavam, como foi referenciado em alguns parágrafos anteriores, dentro de pressupostos como apresenta Alex Andrade, no campo da circulação de ideias vinculadas ao projeto iluminista, posicionando-se dentro da defesa do ideário liberal. Alguns, flertando com o republicanismo; outros, não; o que demonstra a complexidade do que significa ser maçom. Procurar explicar o campo intelectual maçônico, no interior desta transição entre o século XIX e o século XX, de maneira mais especifica, é o caso do nosso artigo.[2]

Na qualidade de sociedade de pensamento[3] é importante perceber que, mesmo que alguns intelectuais e perspectivas intelectuais circulem no interior da maçonaria, respeitando, como destacamos, a sua complexidade, é importante destacar que muitas bandeiras, que de forma geral localizavam-se dentro do que poderíamos denominar de ideário liberal, encontravam-se fomentadas no interior dos círculos maçônicos. Como prova de que o positivismo não afetou a maçonaria, enquanto instituição, pode ser constatado de forma prática na defesa de demandas que se constituíam em símbolos de defesa daquilo que poderia ser identificado como ideias maçônicas e privavam de defesa por parte dos intelectuais vinculados à maçonaria nas décadas iniciais da República, que se constituíam na promoção de uma mentalidade na qual a criação de escolas, bibliotecas e a defesa de princípios republicanos e da liberdade de culto e de pensamento, apresentavam-se na qualidade de temas que se encontravam nos artigos assinados por intelectuais que colaboravam na imprensa maçônica, e que nos ajuda a pensar quais as ideias e proposições defendidas por determinados círculos, por mais que seja intricado verificar os limites entre o pensamento institucional, a posição oficial da instituição e como tais ideias inspiravam as atitudes individuais maçônicas. Acreditamos que esta questão se constitui numa variável importante, mas que foge na sua completude aos objetivos deste texto.

Por isso, procuraremos nas páginas seguintes, partindo da intervenção pública de alguns intelectuais maçons, de maneira mais especifica entre aqueles que atuavam na revista Archivo Maçonico, publicação que circulou na primeira década do século XX, no estado de Pernambuco, analisar como alguns temas que inseriam-se no interior deste corpo de pensamento, que poderíamos delimitar como sendo defendidos pela maçonaria, eram tratados por personagens como Manoel Arão, Mario Melo, Caetano Andrade e Vicente Ferrer, que, além de maçons atuantes, ainda contribuíam, como no caso dos dois primeiros, na imprensa e participavam de outras instituições que mobilizavam o fazer intelectual: a Academia Pernambucana de Letras e o Instituto Histórico, Arqueológico e Geográfico de Pernambucano.

Os intelectuais e a circulação de ideias na imprensa maçônica pernambucana nas décadas iniciais do século XX (1906-1913)

O trabalho intelectual define-se a partir do processo de leitura, reflexão e divulgação das ideias. Existe toda uma historiografia que apresenta o potencial e a importância da atividade intelectual maçônica no sentido de publicizar os pontos de vista e as supostas matrizes sobre as quais tal conjunto de visões encontram-se assentadas. Desta forma o conceito de maçonaria, enquanto sociedade de pensamento, colabora para que a dimensão do trabalho identificado com o de matriz intelectual fique bem dimensionado.[4]

A atividade intelectual maçônica se apresenta, além da produção de livros que procuravam remontar às raízes históricas da maçonaria, passando por questões mais especificas e pertinentes, com as que se orientavam sob aspectos relacionados à dimensão ritualística. É importante observar o lugar que é veiculado, pelo menos do ponto do discurso, o que implica a necessidade de ler e debater para que seja possível avançar dentro da estrutura hierárquica maçônica.

Pensando de maneira mais pontual os processos de divulgação utilizados pelos intelectuais maçônicos que foram citados, é possível constatar que um dos espaços utilizados na promoção e apresentação de reflexões a respeito de questões, sejam elas vinculadas à realidade do país ou mesmo vinculadas aos costumes, terão lugar de destaque nas páginas da imprensa. No caso deste artigo da revista denominada Archivo Maçonico, por uma questão estilística, decidimos manter a grafia original.

A vida do Archivo Maçônico desenvolveu-se entre os anos de 1906 até 1913. Não possuímos dados mais concretos sobre o principal motivo da sua extinção. A coleção, que foi localizada nas dependências da Loja Maçônica Segredo e Amor da Ordem, chegava até o ano de 1912. Segundo informações de Luiz do Nascimento[5], contidas na sua História da Imprensa de Pernambuco, o fim das atividades do Archivo Maçônico aconteceu no seu número 86 do mês de outubro de 1913. Essas informações são fornecidas pelo autor, com base nos números encontrados por ele na Biblioteca Nacional e na Biblioteca Pública do estado de Sergipe.

Os motivos para a finalização das suas atividades não são ainda muito claros. Trabalhando no campo das hipóteses, através das leituras feitas de todo esse conjunto documental, é possível supor, através da análise de alguns dos seus números, que o encerramento de sua publicação ocorreu devido a problemas de ordem financeira, já que era comum, nos últimos números, avisos publicados pela gerência da revista no sentido de solicitar, aos assinantes, que entrassem em contato com a direção do Archivo para que as dívidas fossem saldadas, possibilitando, dessa forma, a continuidade da publicação sem maiores entraves.

Como destaca Lucca[6], a utilização das fontes jornalísticas e da imprensa como elementos importantes na prática da pesquisa histórica com a finalidade de ajudar na construção de um determinado olhar sobre o passado é, de certa forma, recente, como nos informa Tânia Regina Luca. Ela discute o processo de utilização da imprensa e dos jornais como objeto e fontes, e as formas como tais recursos passaram a figurar enquanto meio importante no desenvolvimento da pesquisa e do pensamento histórico.

De toda forma, é importante assinalar a função que uma publicação periódica representa no processo de construção e difusão das ideias, pelo motivo de que, a partir da modernidade, e pensando de maneira mais específica, os séculos XVIII-XIX, o periodismo institui-se na qualidade de espaço importante de sociabilização das ideias e consequentemente de campo de debate intelectual.[7]

A imprensa, e no caso que nos debruçaremos ao longo deste texto, a revista maçônica produzida com a presença de intelectuais que possuíam ação na imprensa “profana”[8], apresenta-se como um lugar interessante para que possamos perceber quais as estratégias intelectuais e concepções que eram forjadas nas páginas deste veículo que se constituía num importante meio de circulação intelectual.

Sob o título “Protestemos!” o autor do artigo retoma um fato acontecido na cidade de Caruaru que denota, de maneira evidente, as discussões travadas pela maçonaria e seus intelectuais sobre o respeito à liberdade religiosa. Segundo o artigo, veiculado na porta de uma igreja na cidade, bíblias, consideradas falsas, possivelmente, tratava-se de bíblias protestantes que foram queimadas, como destaca o artigo, sob as ordens do provincial carmelita.[9]

A indignação do autor residia no fato de que esta seria uma prática reiterada e que deveria ser combatida, pois afrontava diretamente a lei republicana expressada na constituição federal, localizada no parágrafo 3º artigo 72, no qual a defesa aos indivíduos em praticar qualquer culto religioso constituía-se numa cláusula pétrea, principalmente num estado que, desde 1889, considerava-se laico. Além de não respeitar a laicidade, sentimento que deveria ser cultivado na sociedade, este episódio incitava, na população, o desenvolvimento de sentimentos e comportamentos que, além de materializarem-se na falta de respeito às liberdades constituídas, consistia em crime passível de punição, uma vez que se encontrava tipificado no artigo 185 do código penal brasileiro.[10]

Outra dimensão usada pelo autor, no sentido de construir uma maior efetividade a respeito do seu discurso, foi o de que, ao estimular nos fiéis queima de livros e atos de irracionalidade e violência, os religiosos católicos estariam relembrando um momento triste da história ocidental, que seria os tempos da “sagrada inquisição”. De tal sorte, tal prática promovia consequências graves, uma vez que

Esse crime de queima de bíblias – pouco importa ao caso que ellas fossem mentirosas ou não às idéas religiosas do catolicismo -, esse fanatismo exagerado enervante que dominou em um dado momento meia dúzia de espíritos fracos, inclusive o do vice-prefeito do convento da penha, longe de fazer proselytos, conquistar partidários, “recolher ao aprisco as pobres ovelhinhas desgarradas”, na própria phrase deles, demonstrou bem claramente que atravéz dos tempos, ainda, hoje eles se sentem impressionados de uma certa saudade dos tempos da sagrada inquisição![11]

Ao considerar a atitude tomada pelos religiosos e o seu séquito de fiéis como um retrocesso, o articulista do Archivo Maçonico destacava o cuidado que era necessário estabelecer com relação ao respeito àqueles que praticavam religiões diferentes, o reforço de uma atitude de defesa da liberdade religiosa e do real estabelecimento de um estado laico e que se respeitasse aqueles que não fossem católicos, por mais que esta ainda fosse a religião praticada pela maioria da população brasileira. Outro aspecto, que merece ser destacado dentro da sua análise, é o da temeridade em incentivar a queima de livros, símbolo que depositava uma forte representação, com a dimensão do conhecimento e do trabalho intelectual. Desta forma, queimar livros significava destruir o conhecimento e, neste caso especifico de livros religiosos, um atentado a crenças que, na concepção de muitos intelectuais maçons, como o Manoel Arão e o Caetano Andrade, demostrava não apenas intolerância, mas obscurantismo.

Além do tema clássico, o da defesa ao estado laico e tolerância religiosa que mobilizava o trabalho intelectual maçônico, principalmente pelo fato de que vivíamos num estado laico e republicano, no qual o privilégio de determinado culto era proibido. É possível percebermos, ao longo da leitura das edições do Archivo Maçonico, a ocorrência de outros assuntos que estimulavam as avaliações intelectuais dos organizadores deste periódico. Dentre estes, a política, e uma avaliação a respeito de como tal dimensão desenvolvia-se nos anos iniciais do regime inaugurado em 1889, sempre aparecia como ponto de reflexão.

Através de uma série de quatro artigos, denominados Política e Maçonaria, Caetano de Andrade, assíduo colaborador do Archivo Maçonico, realizava uma série de reflexões a respeito do sistema político e qual o lugar da maçonaria no interior deste cenário ao longo desses quase 20 anos de implementação deste regime político.

É possível perceber, no autor e na sua pena, uma postura de questionamento a respeito da fórmula republicana adotada pelo Brasil. O seu argumento a respeito das limitações da nossa forma republicana residia no fato de que o nosso regime assumiu uma postura que não preservou os direitos democráticos, vivenciados de maneira muito limitada, o que, consequentemente, construiu uma lógica pouco republicana.

Ao constatar tal perspectiva, Andrade observava que o defeito não seria da República, enquanto sistema político, mas da maneira como a nossa república tinha sido conduzida e estruturada. Desta forma, o autor revisou – e defendia – como havia sido proposto em 1903, 14 anos após o início do sistema republicano no Brasil, um processo de revisão do sistema através de um manifesto proposto por lideranças republicanas locais que identificavam, àquela altura, um desvirtuamento dos significados encetados pela República no Brasil. Este espirito de revisão, de reordenamento do sistema deveria, como apontava Caetano de Andrade, ser posto de forma urgente, uma vez que tal processo só garantiria a sua efetividade através de um processo que revisasse a nossa constituição para que fosse possível, nas palavras de Andrade:

Proclamar princípios novos de democracia, mas venha hoje si a constituinte revisora pode nascer, incorruptível como um juiz, do choque das facções, dos mystificadores processos eleitoraes, do conclave dissoluto de chefes, da inercia, da incompetência dos que votam, dos que votariam por ella, analfabetos, inconscientes da própria responsabilidade, sem temor de que essa delegação sua fosse estabelecer um contracto mercantil, entre olygarchias, para exploração da indústria de reinar![12]

A defesa veemente de Caetano, ao longo dos quatro artigos publicados no Archivo, orientava-se por uma revisão imediata do nosso texto constitucional, e neste particular, no uso dos seus argumentos intelectuais, ele procurava destacar que tal programa podia e devia ser encampado e fomentado por uma instituição como a maçonaria, que defendia uma posição de estabelecimento de um sistema no qual a liberdade religiosa e a defesa de um estado laico, a escolha livre e democrática dos representantes e do incentivo à instrução e ao conhecimento entre todos os setores, orientava-se como uma base importante de ação.

Esta concepção de que a maçonaria possuía um papel social e político, que deveria ser materializado através de iniciativas institucionais, pode ser percebido na defesa intelectual em outros artigos veiculados pelo Archivo Maçonico, como os publicados por José Simões Coelho, que apresentava o papel social da maçonaria, defendendo que tal ação não poderia ser confundida como beneficência e filantropia. O argumento defendido pelo maçom português é o de que as ações que movimentavam a atuação social da maçonaria deveriam orientarem-se pelo auxílio mútuo e não pela beneficência/filantropia, ações que, segundo ele, eram apenas caritativas. Na sua argumentação, o auxilio mútuo é a solidariedade humanizada que está para além do socorro material e, neste aspecto, a maçonaria deve exercer a sua função de instituição inserida na sociedade, não estando alheia aos problemas sociais.[13]

Ao apresentar que a maçonaria é uma instituição que, mesmo possuindo suas características especificas, deve exercer uma função na sociedade, José Coelho advoga e posiciona-se dentro de compreensão de que a maçonaria possui e deve animar-se para defender posições na sociedade que, de alguma maneira, colaborem para que as questões sociais sejam preservadas pelos maçons, como possibilidade de contribuir com o desenvolvimento da sociedade.

Abordando, de maneira mais detalhada, as discussões promovidas pela maçonaria, no que diz respeito às questões vinculadas à política e à sociedade, é possível localizar um conjunto de textos que procuram evidenciar tal debate. Dentre eles, o artigo escrito pelo maçom pernambucano, Dr. Ferrer, que versa sobre a relação entre Democracia e República, partindo da observação de que, mesmo que o conceito de república apresente uma compreensão de que, dos sistemas políticos pensados, a república figuraria quase que automaticamente, enquanto um regime no qual a democracia e as liberdades surgiriam automaticamente como uma espécie de essência.

Porém, a avaliação empreendida pelo autor conduziu-se dentro da perspectiva de que “infelizmente, ocorre enorme distância entre o desejo e a realidade!”14 Ao procurar estabelecer uma leitura cética em relação à maneira com que a relação entre república e democracia apresenta-se ao redor dos sistemas que adotaram tal regime, dentre eles o Brasil, Ferrer, a partir de uma leitura e análise que procurou empreender uma visão geopolítica, realizando um recorte a respeito dessas relações no continente americano, constatou que, parte das concepções e representações como a ideia de que república e democracia seria sinônimo de eleições livres, maior distribuição de renda, progresso econômico e leis que protegessem a liberdade dos indivíduos, não se efetivou, na prática, em muitas das repúblicas americanas de norte a sul do continente.

Muitas vezes tal discurso, que se encontrava irradiado através da política externa americana materializada na doutrina Monroe, na verdade, a partir da avaliação do autor do artigo, podia ser percebida muito mais a nível do discurso do que na prática, seja através da maneira como o poder era executado nos EUA que, muitas vezes, ao invés de defender a liberdade do povo, governava para um número especifico de americanos, além de apresentar, através da referida doutrina, um mecanismo pelo qual, sob a desculpa da defesa dos interesses americanos, destitui governos e age de maneira imperialista em toda a América.

As avaliações produzidas por Ferrer, a partir do seu exercício intelectual que foi o de construir um longo e abrangente artigo com o qual dialogava sobre aspectos da geopolítica e da teoria política, procurando examinar a influência americana e o seu poder imperialista, além de reconstruir concepções idealizadas a partir do sistema político, apontando que tais perspectivas só poderiam ser reordenadas na medida em que a eleições fossem realmente livres e o progresso econômico estivesse relacionado com uma maior distribuição de renda e defesa das liberdades.

De alguma maneira, as críticas efetivadas pelo Ferrer inserem-se numa tradição de alguma forma inaugurada por Eduardo Prado no livro: A ilusão americana, no qual ele fazia uma dura crítica ao nascente imperialismo norte-americano. Uma diferença, que é importante ponderar, reside no fato de que, ao contrário do pensador paulista que era monarquista convicto, o Dr. Ferrer identificava-se com o ideário republicano, porém ambos podem ser inseridos dentro de uma concepção que se identifica, através da crítica ao imperialismo norte-americano, ao nacionalismo. É possível perceber isto, observando a forma como o maçom encerra o seu artigo, evidenciando que um dos nossos problemas seria o caráter vacilante e fraco, sem patriotismo. Ao evidenciar a falta de tais aspectos, a solução está posta nas entrelinhas, a de fortalecer o nacionalismo e combater a corrupção que grassava a nação brasileira, a impedindo de viver plenamente a conexão entre república e democracia.

Neste processo de comportar-se na qualidade de sociedade de pensamento, a partir da ação intelectual, mas também de uma atitude prática, a maçonaria, mesmo com a ascensão de outros personagens importantes no interior do debate público e político brasileiro, procurava apresentar-se como uma alternativa viável no processo de transformação para a nossa sociedade. Neste tocante, o artigo eleições e maçonaria, procurava capturar, no interior dos projetos possíveis de transformação política para o Brasil, a necessidade de eleger irmãos maçons, quando estes se apresentassem na qualidade de candidatos. Ao defender tal proposição, podemos perceber que a preocupação com a política, na prática, continuava a ser uma das legendas promovidas pela maçonaria. A justificativa para tal envolvimento, orientava-se dentro do princípio de que a própria maçonaria, enquanto instituição, constituía-se num espaço privilegiado de formação moral e de caráter identificados com os princípios liberais, que na avaliação do autor constituíam-se num remédio importante para combater os partidarismos estéreis e as paixões que não conseguem produzir uma nação que se desenvolva.[15]

Ao colocar-se na condição de alternativa para combater os desvirtuamentos que faziam com que o Brasil não trilhasse o caminho de desenvolvimento, a que ele estaria predestinado, os maçons, através dos seus intelectuais, procuravam na verdade propor uma outra história e possibilidade, colocando-se, desta forma, na qualidade de uma instituição que poderia ser compreendida como um agente histórico possível de transformar a realidade nacional. Tal discurso apresenta uma contraposição à tese defendia por Buarque de Holanda, ao sinalizar que, com a República, a maçonaria teria deixado de existir, no sentido de não propor uma avaliação ou projetos para a nação. O que percebemos nos artigos abordados pelos articulistas intelectuais é que o Brasil e sua realidade ainda se encontrava no seu horizonte institucional.

A política não se constituía um dos únicos meios, na avaliação dos intelectuais maçons que colaboravam para o progresso da jovem república sul-americana, e cujas ideias se encontravam expostas nas páginas do Archivo Maçonico. A preocupação com a educação num país que, nos anos iniciais do século XX, possuía ainda altas taxas de analfabetismo, além de uma frágil estrutura organizacional do ponto de vista das escolas. É importante pontuar que a educação era compreendida pelos intelectuais maçons como possibilidade real de transformação, uma vez que seria possível, através do conhecimento, construir uma sociedade menos desigual.

Ao apresentar uma importante visão a respeito da realidade educacional do Brasil das décadas iniciais do século XX, Alfredo Freire publica uma conferência que tinha proferido no teatro de Santa Isabel, na cidade do Recife, por conta da comemoração de aniversário da Revolução de 1817. Mesmo sem figurar como data magna no Estado e a sua bandeira ainda não havia sido oficialmente escolhida para representar o estado de Pernambuco, o movimento conhecido como revolução dos padres, congregava uma forte carga simbólica, por ter sido, na visão e versão histórica produzida pelo maçons e até mesmo reconhecido pela historiografia não maçônica, enquanto um movimento inspirado e que teve a participação de personagens maçônicos, que se utilizaram inclusive das redes de sociabilidades promovidas pelas lojas para amadurecer o movimento.

A escolha da data não era fortuita, uma vez que pensar a instrução primária e defender a necessidade da educação constituía-se, como já destacamos, numa bandeira importante para o ideário maçônico no contexto republicano, do ponto de vista intelectual e prático, uma vez que as ações de patrocínio de escolas e bibliotecas representava um importante modelo no interior do conjunto de ideias defendido pela maçonaria para o desenvolvimento humano e social.

Para Alfredo Freire, somente através da educação seria possível construir um processo de qualificação da república, uma vez que com o desenvolvimento de indivíduos mais educados que tivessem acesso à escola, as escolhas políticas seriam melhor realizadas, pois com acesso ao conhecimento colaboraria para impregnar “o espirito de nossos filhos, futuro eleitores, de intelligencia que os habilite a votar com acerto”.[16]

Ao demonstrar o possível papel transformador da educação, o intelectual pernambucano apresentava de forma comparativa o atraso do Brasil no processo de fundação de escolas, para ele instrumento essencial para combater as trevas da ignorância, pois a sua permanência só colabora para que a república se dissolva numa “desastrosa decepção”.[17]

Ao apresentar as dificuldades na estruturação de uma nação livre e desenvolvida, onde a preocupação por parte do estado se materialize com um forte processo de fundação de escolas, sobretudo aquelas voltadas a garantir o acesso dos brasileiros as primeiras letras, compreendido pelo educador pernambucano como o primeiro degrau neste processo de instrução em massa, será, na avaliação de Alfredo Freire, muito difícil que o país consiga desenvolver-se e ter posição de destaque no concerto das nações ocidentais. Para Freire, o fomento à educação primária seria condição indispensável para a consolidação de uma república de fato e uma nação desenvolvida.

As intervenções promovidas pelos intelectuais maçons, vinculados ao Archivo Maçonico, não tratavam apenas de temas que se relacionavam à política, desenvolvimento da nação e à importância da educação, bandeiras que poderiam circunscreverem-se dentro de um campo intelectual, a partir da intervenção das análises efetuadas ao longo deste artigo, como da defesa de princípios liberais e democráticos.

No campo dos costumes parece que essa identificação que poderia ser identificada numa perspectiva mais progressista, parecia que não se materializava com a mesma proporção, quando o assunto era o feminismo. Em artigo publicado na edição do mês de maio de 1912, o colaborador do Archivo Maçonico, o reconhecido intelectual Mario Melo, historiador, jornalista e membro de várias entidades cientificas e culturais, possuía uma leitura a respeito deste movimento extremamente crítico, atacando-o por considerá-lo como desarticulador dos supostos papéis existentes entre homens e mulheres. Neste sentido é possível percebermos os limites que o ideário da defesa das liberdades condensava, pois pelo que é possível entrever nos argumentos do ilustre intelectual pernambucano, a liberdade e igualdade, divisas formadoras da maçonaria ocidental, parecia que se aplicava apenas aos homens.

A visão cultivada por Mario Melo inseria-se dentro da perspectiva patriarcal que orientava a formação intelectual e as sensibilidades masculinas, atitude que ainda perpassa a nossa sociedade. A visão de feminino defendida pelo autor do artigo é a de que o seu espaço de atuação devia ser o do recolhimento ao lar, desempenhando as suas funções, quase que nas entrelinhas percebendo que seus argumentos se sustentavam dentro de uma concepção essencialista, onde as mulheres teriam características que, apesar de serem sociais, seriam quase que da sua natureza, no sentido de que elas nasceriam com tais atribuições pois, para Mario Melo:

Que encantos para nós teria a mulher – obra prima do criador – no dia em que os papeis se mudássemos e fossêmos obrigados a cuidar dos interesses da cozinha, remendar as vestes, acalentar os filhos, quando nossas mães, nossas espôzas, nossas irmãs abandonassem o lar para comparecer a um comício ou sair em excursão eleitoral?[18]

A postura do intelectual pernambucano denota, de maneira evidente, as concepções que havíamos anteriormente abordado e que se encontravam sintonizadas com uma visão idealizada do que deveria ser a mulher e quais as suas reais atribuições, inclusive destacando quando avançamos mais na leitura do seu artigo de que as concepções promovidas pelo feminismo, ideologia que avançava em vários países do mundo ocidental, e Mario Melo não deixa de denunciar tal expansão, colaboravam para que os supostos laços e papéis socioculturais desempenhados pelas mulheres fossem corrompidos.

Pelo que pudemos perceber, a leitura que o intelectual maçom realizava sobre as transformações incentivadas pelo ideário feminista dissolveriam uma realidade conservadora no interior das relações humanas que incidiam diretamente sobre as fórmulas que se encontravam estabelecidas. Nesta perspectiva, a defesa do ideário liberal não conflitava completamente, com tais argumentos, partindo do princípio que parte deste campo intelectual no qual a sensibilidade de Mario Melo e outros maçons movimentava-se pode ser localizado dentro da tradição conservadora liberal que, no tocante a questões relacionadas à moral, não avançava de maneira profunda como em outras dimensões da experiência humana.

Considerações Finais

Como foi possível acompanhar ao longo do texto, diferente do que foi posto pela historiografia de maneira geral, mesmo a partir do advento da República a maçonaria, através dos seus intelectuais que atuavam tanto no interior das lojas quanto através dos debates promovidos por estes recintos ou na imprensa mais ligada à maçonaria, seja no espaço público, identificado por eles como profano. Travaram debates intensos sobre questões que agitavam a sociedade brasileira e passavam por temas que se relacionavam à política, educação, questão social e costumes.

A crença destes intelectuais relacionava-se à compreensão de que a maçonaria possuía uma função social, uma vez que se constituía, enquanto uma sociedade que tinha se forjado no processo de construção de valores consagrados pela modernidade, como a defesa das liberdades e a compreensão de que somente através do exercício do conhecimento seria possível a construção de uma sociedade desenvolvida, não deixando de tal forma de vincular-se a utopia moderna de progresso social.

Autor: Augusto César Acioly Paz Silva

Fonte: REHMLAC

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Notas

[1] – Alexandre Mansur Barata, Maçonaria, sociabilidade ilustrada e independência do Brasil (1790-1822) (Juiz de Fora, São Paulo: Editora UFJF, Annablume, Fapesp, 2006), 1-338. Alex Moreira Andrade, A maçonaria no Brasil. 1863-1901. Poder, cultura e ideias (São Paulo: Annablume, 2006), 370.

[2] – Moreira Andrade, A maçonaria no Brasil.

[3] – Maurice Agulhon, “As sociedades de pensamento”, en Michel Volvelle, França Revolucionária (1789-1799) (São Paulo: Brasiliense, Secretaria de Estado da Cultura, 1989).

[4] – Michel Goulart da Silva (Org.), Maçonaria no Brasil: história, política e sociabilidade (Jundiaí, São Paulo: Paco Editorial, 2015). Marco Morel e Françoise Jean de Oliveira Souza, O poder da maçonaria: a história de uma sociedade secreta no Brasil (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008).

[5] – Luiz do Nascimento, História da imprensa em Pernambuco (1821-1954). Vol. 7, Periódicos do Recife: 1901-1915 (Recife: Universitária, 1975), 192-193.

[6] – Tânia Regina Luca, “História dos, nos e por meio dos periódicos”, en Carla Bassanezi Pinsky (org.), Fontes históricas (São Paulo: Contexto, 2005).

[7] – Marco Morel, As transformações dos espaços públicos: imprensa, atores políticos e sociabilidades na cidade imperial (1820- 1840) (São Paulo: Editora Hucitec, 2005).

[8] – Termo maçônico utilizado para referir-se a tudo que não se encontra vinculado institucionalmente a maçonaria.

[9]Archivo Maçonico, “Protestemos!” (1906): 3.

[10]Archivo Maçonico, “Protestemos!” (1906): 3-7

[11] – “Protestemos!”, em Archivo Maçonico, (1906): 3-7

[12] – Caetano Andrade, “Política e Maçonaria”, Archivo Maçonico, no.18 (1908): 19-23.

[13] – José Simões Coelho, “O papel social da Maçonaria”, Archivo Maçonico, no. 59 (julho de 1911): 28-29.

[14] – Dr. Ferrer, “Democracia e República”, Archivo Maçonico, no.59, (julho de 1911): 29-32.

[15] – “Eleições e Maçonaria”, Archivo Maçonico (1912): 3-5.

[16] – Alfredo Freyre, “A Escola Primária (conferencia cívica realizada no teatro de Santa Isabel em 6 de março de 1912)”, Archivo Maçonico, no. 68 (1912): 10.

[17] – Freyre, “A Escola Primária…”, 11.

[18] – Mario Melo, “O feminismo”, Archivo Maçonico, no. 69 (maio de 1912): 5-7.

Fontes documentais e bibliografia

Archivo Maçonico. “Protestemos!”. 1906.

Andrade, Caetano. “Política e Maçonaria”. Archivo Maçonico, no. 18, 1908.

Coelho, José Simões. “O papel social da Maçonaria”. Archivo Maçonico, no. 59, julho de 1911.

Ferrer, Dr. “Democracia e República”. Archivo Maçonico, no. 59, julho de 1911.

Archivo Maçonico. “Eleições e Maçonaria”. 1912.

Freyre, Alfredo. “A Escola Primária (conferência cívica realizada no teatro de Santa Isabel em 6 de março de 1912)”. Archivo Maçonico, no. 68, 1912.

Archivo Maçonico. “Imposto de profissão”. no. 68, abril 1912.

Melo, Mario. “O feminismo”. Archivo Maçonico, no. 69, maio de 1912.

Bibliografia

Agulhon, Maurice. Pénitents et Francs-maçons de l’ancienne Provence: essair sur la sociabilité meridionale. París: Fayard, 1984.

Agulhon, Maurice. “As Sociedade de Pensamento”. França Revolucionária (1789-1799). Michel Volvelle. São Paulo: Brasiliense, Secretaria de Estado da Cultura, 1989.

Bloch, Marc. Apologia a História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

Casali, Alípio. Elite intelectual e restauração da Igreja Católica. Petrópolis: Vozes, 1995.

Ferrer Benimeli, José Antonio. El contubérnio Judeo-Masónico-Comunista. Del Satanismo al escándalo de la P-2. Madrid: Ediciones ISTMO, 1982.

Ferrer Benimeli, José Antonio, G. Caprile, V. Alberton. Maçonaria e Igreja Católica: ontem, hoje e amanhã. Trad. Valério Alberton. São Paulo: Paulinas,1983.

Ferrer Benimeli, José Antonio. La masonería. Madrid: Alianza Editorial, 2005.

Girardet, Raoul. Mitos e mitologias políticas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

Goulart da Silva, Michel. (Org.). Maçonaria no Brasil: história, política e sociabilidade. Jundiaí, São Paulo: Paco Editorial, 2015.

Kofes, Suely. Dilemas da Maçonaria Contemporânea: um experimento antropológico. Campinas, São Paulo: Editora Unicamp, 2015.

Luca, Tânia Regina. “História dos, nos e por meio dos periódicos”. Fontes históricas. Carla Bassanezi Pinsky. São Paulo: Contexto, 2005.

Mansur Barata, Alexandre. Maçonaria, sociabilidade ilustrada e independência do Brasil (1790-1822). Juiz de Fora, São Paulo: Editora UFJF, Annablume, Fapesp, 2006.

Moreira Andrade, Alex. A maçonaria no Brasil. 1863-1901. Poder, cultura e ideias. São Paulo: Annablume, 2006.

Morel, Marco. As transformações dos espaços públicos: imprensa, atores políticos e sociabilidades na cidade imperial (1820-1840). São Paulo: Editora Hucitec, 2005.

Morel, Marco, Oliveira Souza, Françoise Jean de. O poder da maçonaria: a história de uma sociedade secreta no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

Nascimento, Luiz do. História da Imprensa em Pernambuco (1821-1954). V. 7: Periódicos do Recife: 1901-1915. Recife: Universitária, 1975.

Ribeiro Francisco, Renata. A maçonaria e o processo de abolição em São Paulo. São Paulo: Tese (Tese de História), Universidade de São Paulo, 2018.

O caos da pós-verdade

Internet: Sob o domínio da pós-verdade | Guia do Estudante

Vivemos em tempos de relativismo absoluto, uma contradição em termos que engolfa a muitos no buraco negro da irracionalidade. O nome moderno para essa heresia cultural é “pós-verdade”, mote que permite aos maiores imbecis os cinco minutos de pseudo-genialidade pelos quais se matam. Incapazes de atingir os patamares mínimos de sanidade mental e de respeito à Civilização Ocidental greco-latino-judaica que os acolheu no berço – e à qual devem não só a liberdade de que gozam, mas até mesmo os padrões morfossintáticos da linguagem que porcamente usam -, optam por reduzir tudo que é belo à feiura de sua arte duvidosa, as verdades mais sublimes às suas opiniões de conveniência, a tragédia grega à novela global e o humor sutil ao deboche grotesco.

Ireneu de Lyon, por volta de 180 AD, escreveu em “Adversus Haereses” sobre os valentinianos:

“Em sua loucura, eles abandonam todas as inibições de tal modo que afirmam estar livres para cometer toda iniquidade e todo sacrilégio, pois o que alguém faz só é mau ou bom na opinião das pessoas” (Adv. Haer. I.25.4).

Eis que os valentinianos estão de volta – não é o que vemos? -, reencarnados como os pós-modernos da pós-verdade. Aí estão: falsos e feios, carentes da verdade e da beleza que desprezam. Revivem as heresias de que foram protagonistas, como no lógion do evangelho apócrifo de Tomé, 114: “pois toda mulher que se faz masculina entrará no reino dos céus”, pois para eles a mulher feminina não era digna dos céus, era indigna não pela mulher dever ou não ser feminina ou masculina, mas porque o feminino era, em si, indigno; como nos atos apócrifos de João, 101, em que põem na boca de Jesus a afirmação de que seu sacrifício foi uma farsa: “Não sou aquele na cruz…, portanto não sofri nada do que eles dirão sobre mim”.

Esquecem-se de Paulo em 1 Coríntios: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém”. O verso paulino é tão profundo, que transcende o restrito teor religioso de sua admoestação à comunidade cristã de Corinto e se expande como norma de conduta até mesmo na moderna sociedade aberta. Quando a lei não dita, existe ainda a ordem implícita pela qual as pessoas se regem por introspecção epistêmica: “Eu me comporto bem com você porque você se comporta bem comigo e vice-versa, mesmo que não haja uma lei escrita que dite nossa norma de conduta, de modo que, embora tudo me seja permitido, nem tudo, de fato, me convém”.

Aqueles foram tempos de confusão, de desordem e caos, pois tempos de transformação. Hoje também vivemos tempos de transformação. Como antes, agora também progrediremos, a despeito dos que tentam nos levar de volta à barbárie.

Ordo ab Chao.

Autor: Rodrigo Peñaloza

Fonte: Medium

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

O desvio

Resumos de artigos científicos: inspire-se em exemplos prontos

Certamente, a “presença” nas mídias sociais não pode ser interpretada como um indicador do nível intelectual de um grupo, seja formal ou informal, mas pode fornecer pistas sobre o que é considerado importante e aceitável para aquele grupo. Ou, pelo menos, para os executores das regras autoimpostas na plataforma de mídia social.

Sou membro de vários grupos, em diferentes meios de comunicação social, que se autodenominam “maçônicos” – todos eles interpretando essa afiliação de maneiras diferentes. Para a maioria de nós, isso é bastante normal, já que qualquer pessoa vagamente familiarizada com este tópico está ciente de que a Maçonaria “universal e monolítica” em todo o mundo é um mito (principalmente perpetuado por conspiradores antimaçônicos e maçons ignorantes também). Em vez disso, o que temos são muitos sabores e estilos e “ritos” da Maçonaria. Antigamente, uma coisa era comum a todos eles, a saber, a sede de conhecimento – buscar a “luz” na linguagem maçônica do Iluminismo – que estava de acordo com a busca humana universal de conhecer os mistérios ocultos da natureza e da ciência. .

Há alguns anos, tive o privilégio de apresentar em uma de minhas lojas favoritas uma palestra sobre nossa herança racional e científica na Maçonaria. O fato de que na mítica (e principalmente perdida) história passada da Ordem as raízes religiosas, mais exatamente cristãs, fossem elementos definidores, ninguém pode negar. As teorias de origem mais aceitas, aludindo a guildas medievais, incorporações, peças de mistério, todas apontam para aspectos religiosos cristãos. Não deveria ser uma surpresa, porque sabe-se que por muitos séculos a única estrutura intelectual-espiritual aceita e aceitável na Europa costumava ser o cristianismo. Exclusivamente católico romano no início, e ampliando mais tarde para abranger também as interpretações protestantes. Na palestra acima mencionada argumentei que paralelamente a essa herança, havia e ainda existe outra linha de “linhagem” intelectual. Começou, talvez, com o método baconiano, passando pela “revolução” científica da Royal Society e pela visão de mundo newtoniana…

Após a institucionalização do sistema da Grande Loja (após 1717), uma das figuras definidoras da Maçonaria inicial, e possivelmente a força principal por trás da introdução do terceiro grau, foi um certo John Theophilus Desaguliers, um colaborador próximo de Newton, que foi conhecido como professor de Filosofia Experimental. Desaguliers e seus primeiros oficiais e ideólogos da Grande Loja empurraram a Maçonaria para um caráter menos cristão, com o objetivo de torná-la um lugar universalmente aceitável para todos os credos e religiões. Este movimento pendular de descristianização e recristianização é uma característica permanente da Maçonaria… nós simplesmente não gostamos de falar sobre isso.

À luz de tudo o que foi escrito acima, pode-se pensar que um texto acadêmico filosófico contemporâneo, discutindo a relação entre religião e ciência, deveria ser de interesse para grupos maçônicos. Assim, quando encontrei no site Academia.edu uma “entrada para a Stanford Encyclopedia of Philosophy”, um artigo de Helen De Cruz, professora sênior de filosofia na Oxford Brookes University, compartilhei com entusiasmo para um grupo maçônico. O título do artigo é RELIGIÃO E CIÊNCIA. Em alguns minutos, ele foi excluído. O motivo, e estou citando o feedback exato recebido dos administradores:

Por favor, mantenha todas as postagens na página sobre ou diretamente relevantes para a Maçonaria sem desvio para tópicos que não fazem parte da Maçonaria como um todo.

Se recomendar um artigo acadêmico para leitura e, eventualmente, discuti-lo, é considerado “desvio” e “não faz parte da Maçonaria”… talvez eu devesse (re)considerar seriamente minhas opiniões sobre esta organização. Ou dos homens que afirmam representá-la.

P.S.: É verdade, não são permitidos debates religiosos e políticos nas Lojas, uma antiga referência às Old Charges, que pretendiam acabar com as discussões sectárias. Discussões acadêmicas entre homens instruídos – dentro e fora da loja – devem ocorrer o tempo todo, como parte de nosso avanço diário no conhecimento.

Autores: Istvan Horvath
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: The Other Mason

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

Não se chega muito longe sem uma tribo

Numa galáxia muito, muito distante…

… a ficha de um ex-caçador de recompensas um dia cai!

Pois bem, Sr. Boba Fett.

A sociabilidade sempre fez parte da natureza.

Como disse Aristóteles, a característica específica do homem em comparação com os outros animais é que somente ele tem o sentimento do bem e do mal, do justo e do injusto e de outras qualidades morais, e é a comunidade de seres com tal sentimento que constitui a família e a cidade.” (Política, I, 1253b, 15).

O individualismo pode impor réguas de sucesso e de felicidade. Mas sempre haverá quem questione os limites da ilusão.

É vital não confundir o individualismo materialista com a individuação do sujeito, o processo de se tornar um indivíduo psicológico, uma unidade autônoma, atingir a forma da sua unicidade mais íntima, como ensina Carl Jung, pai da psicologia profunda.

Pelas iniciações sucessivas, o Iniciado mergulha ao interior de si mesmo, de sua pedra bruta, numa rota cada vez mais atômica, visando aperfeiçoamento pessoal.

O Buscador almeja ser ponto.

Mas, pelo agrupamento associativo, o buscador almeja compartilhar saberes e experiências. Isso potencializa seu esforço em sabedoria para romper as fronteiras das dualidades ilusórias impostas. Sua percepção expande em ciclos, rumo ao infinito.

O buscador almeja também ser círculo.

Tudo é símbolo. E sábio é quem lê em tudo, como cunhou Plotino.

E o primeiro dever de todo Iniciado é apurar a interpretação do simbólico. Nesta senda, tal como a beleza da mandala, o Iniciado, em sua jornada, também é um ponto dentro do círculo.

Nessa curiosa correlação, a constatação de Boba Fett, na aridez do deserto de Tatooine[1], confirma o “animal social” proposto por Aristóteles: “não se chega muito longe sem uma tribo”. Descubra a sua.

Autor: Luciano Alves

* Luciano é Mestre Maçom da ARLS Jacques DeMolay n.º 22, do oriente de Belo Horizonte e jurisdicionada à Grande Loja Maçônica de Minas Gerais.

Nota

[1]O Livro de Boba Fett. Criação de Jon Favreau. Estados Unidos, 2021.  45min.  Série exibida pela Disney+. Temporada 1, episódio 4. Acesso em: 26/01/2022.

Screenshot_20200502-144642_2

Se você acha importante o trabalho que realizamos com O Ponto Dentro do Círculo, apoie nosso projeto e ajude a manter no ar esse que é um dos mais conceituados blogs maçônicos do Brasil. Você pode efetuar sua contribuição, de qualquer valor, através dos canais abaixo, escolhendo aquele que melhor lhe atender:

Efetuando seu cadastro no Apoia.se, através do link: https://apoia.se/opontodentrodocirculo

Transferência PIX – para efetuar a transação, utilize a chave: opontodentrodocirculo@gmail.com

%d blogueiros gostam disto: