Buscadores da Verdade…sois mesmo? (Parte III)

4 – Primeiras Considerações

O leitor atento já percebeu que o caminho no sentido à verdade não só é sinuoso como possui armadilhas que podem levar ao retrocesso.

Primeiramente eu quero reforçar a atenção sobre um ponto a partir da sequência da apresentação das ferramentas: a dialética; o silogismo; as quaestio disputata; indução vs dedução; e, método científico. Para discorrer sobre silogismo foi necessário recorrer à dedução (tema só apresentado posteriormente), mas para definir dedução foi necessário recorrer à noção de silogismo … há, pois, uma aparente circularidade. Ademais, as hipóteses, mais exploradas no MC, são partes integrantes do silogismo … Trago essas questões para chamar a atenção que, tal como um maestro, o buscador deve combinar os diferentes instrumentos necessários à harmonia sinfônica que encanta – a verdade.

Algumas das chamadas “ferramentas”, a exemplo das Questões Disputadas (QD), em razão da sua estrutura são, efetivamente e antes de tudo, organizadoras do pensamento, facilitam e promovem o entendimento da realidade; constituem uma efetiva plataforma para voos mais altos. A citação de Haskins, a seguir, oportuniza chamar a atenção para o fato de que as Questões Disputas eram exercitadas no contexto do desenvolvimento das Artes Liberais que, lembre-se, eram obrigatórias e antecediam os estudos mais especializados e avançados. Infelizmente, o que hoje se observa na Maçonaria é que as Artes Liberais não merecem mais do que uma tênue menção, não mais do que, en passant, e distribuídas por entre os Graus simbólicos, tendo-se perdido, completamente, o seu potencial formador, organizador e transformador:

[…] igualmente notável é a grande importância dada à lógica ou a dialética. Os primeiros estatutos das universidades, ou seja, aqueles de Paris em 1215, exigem que se estudem todos os escritos de Aristóteles que versem sobre lógica, um material que durante toda a Idade Média permaneceu como espinha dorsal do curso de artes […] a lógica não era assunto de estudo que tinha importância apenas por si mesmo, mas também permeava todas as outras disciplinas como um método, ao mesmo tempo em que dava à mente medieval um tom e um caráter peculiares. Silogismos, disputas, a disposição ordenada de argumentos a favor e ou contra teses específicas, eis o hábito intelectual da época […] (HASKINS, 2015, p. 48-9).

E não custa lembrar que as observações de Haskins dizem respeito ao ensino do que hoje corresponde ao II Grau, portanto, o nível médio.

Ademais é preciso estar atento, pois se de um lado a dialética tende a vir carregada de juízo de valor, o que não raro embota a apreciação crítica e objetiva, de outro chama a atenção para o fato de que a verdade, de algum modo parece convergir à unidade (senão não seria “a” verdade), a uma síntese que se não for desvelada (pela filosofia natural) deve ser construída (pela filosofia moral) ainda que a partir de contrários aparentes.

Por oportuno, cabe observar que desde a Antiguidade os homens têm estabelecido paralelos entre as verdades apreendidas no mundo natural e as verdades criadas (algumas também na forma de leis) para regular a vida em sociedade. Trata-se de uma indução forçada, pois as primeiras estão sob o domínio e são desveladas pela filosofia natural, enquanto as últimas, produtos da engenharia política e social, estão sob o domínio da filosofia moral. Nay (2007) deixa muito claro a conexão entre os dois domínios:

A nova legislação pretende claramente pôr fim aos conflitos pela realização de um equilíbrio entre as classes e a sociedade ateniense […] transpondo assim, no espaço da cidade, a concepção do universo simétrico difundido no mesmo momento pelos filósofos de Mileto (p. 27).

Adiante, referindo-se a Cícero, esclarece que:

Suas duas obras políticas maiores, De Republica e De Legibus, são fortemente influenciadas pelo pensamento “naturalista” dos estóicos […] Cícero recorda a importância da “lei natural” em política, a necessidade de recorrer à razão e ao conhecimento como instrumentos de governo […] (p. 64).

Finalmente, em apreciação histórica, Yates (1990, p. 490-1) sintetiza:

O séc. XVII é o período criativo da ciência moderna […] a filosofia mecanicista da natureza introduziu a hipótese, e o desenvolvimento da matemática proporcionou um instrumento próprio à primeira vitória decisiva do homem contra a natureza. Pois “todo o magnífico movimento da ciência moderna é essencialmente consistente, e seus posteriores ramos biológico e sociológico adquiriram da mecânica, já vitoriosa, os seus postulados básicos”.

Cumpre esclarecer que essas iniciativas são subprodutos e consequências lógicas da crença (que à época era a melhor resposta, a ciência de então, para as questões em aberto) da existência de dois mundos de algum modo interligados: o micro e o macrocosmo – enquanto primeiro referia aos fenômenos naturais, o segundo possuía elementos sobrenaturais -, e este, de algum modo (a ser descoberto), afetava aquele. Nem sempre devidos, como Marco Aurélio (o imperador filósofo) alertara já na Antiguidade, esses paralelos resistiram até o Renascimento, quando então, pouco a pouco foram ruindo (ROSSI, 1992). Todavia, a emergência da moderna física clássica – a mecânica newtoniana, que deu origem à “filosofia mecanicista” referida por Yates -, deflagrou uma nova onda de paralelos entre a ordem natural e a ordem social. E mais recentemente (início do séc. XX), tanto a Mecânica Quântica quanto a Teoria da Relatividade têm sido instrumentalizadas para fundamentar (ao atribuir status de verdade científica), indevidamente, generalizações que se estendem às construções sociais – aos comportamentos e valores. Baseado na Teoria da Relatividade, por exemplo, tenta-se mesmo fazer crer que “tudo é relativo”! Sobre o tema vale a pena ler “Pura Picaretagem: como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a ciência para te enganar. Saiba como não cair em armadilhas!”, de Bezerra e Orsi (2013).

Parece-me já claro que, se de um lado há ferramentas que auxiliam o buscador da verdade, estas mesmas ferramentas, por desconhecimento ou má fé, podem ser utilizadas para encaminhar no sentido contrário, afastando-nos da verdade, o que ficará ainda mais claro a partir da próxima seção.

5 – Falácias e sofismas

Sobre o tema não me deterei em demasia porque já está desenvolvido em Pinheiro (2021) e com vários exemplos aplicados à Ordem. Ademais, ao leitor interessado em leitura enriquecedora eu sugiro O Sofista (PLATÃO, 2013), e ao mais pragmático, o Guia das Falácias, de Stephen Downes. Entretanto, cumpre ora observar que o tema merece atenção e é relevante porque se coloca como um obstáculo, um dos principais, àquele que busca a verdade, sobretudo nos assuntos do cotidiano, mais próximos aos objetivos da Ordem. Enquanto a falácia é um erro de raciocínio por desconhecimento, o sofisma é grávido de dolo induzido pelo retor. E como a falácia dialoga com as ferramentas apresentadas? Japiassu e Marcondes (op. cit.) esclarecem:

Falácia (do lat. fallax: enganoso). Argumento envolvendo uma forma não-válida de raciocínio, no qual a conclusão é deduzida das premissas de acordo com as regras do silogismo. Argumento errôneo, que possui a aparência de válido, podendo levar à sua aceitação. (p. 94)

Sofisma (lat. e gr. sophisma). Raciocínio que possui aparentemente a forma de um silogismo, sem que o seja, sendo usado assim de modo a produzir a ilusão de validade, e tendo como conclusão um paradoxo ou um impasse. Ex.: este cão é meu, este cão é pai; logo este cão é meu pai (p. 227).

Conforme visto, é próprio da dialética a oposição dos contrários, o que, quando em jogo interesses estabelecidos, favorece ou mesmo estimula o comportamento oportunista, como bem explorado por Schopenhauer (1997) que identificou 38 estratagemas da dialética erística. Assim, a indução, o silogismo e a falácia, de mãos dadas, podem ser instrumentos úteis à conveniência dos interesses encobertos pela dialética erística, em especial nos temas que envolvem crenças, ideologias e, sobretudo, poder – política. Como subproduto desses embates as verdades são ressignificadas, não no sentido já esclarecido – pelo método racional, lógico, submetido à reiteradas provas transparentes e auxiliadas por ferramentas -, mas literalmente por imposição, seja doutrinária, psicológica e até mesmo física mediante coação, como bem explorado nas sátiras distópicas de Orwell (2005, 2007) e Huxley (2014). E é bom frisar, como alerta, que essas distorções são próprias do comportamento humano, daí antigas (insuperáveis?), como revela Jaulent (2006, p. 9) na apresentação ao Livro das Bestas, de Raimundo Lúlio (Llull em catalão), escrito no séc. XIII:

Servindo-se precisamente do simbolismo das bestas, Lúlio faz desfilar perante o leitor a intriga, a ideologia, o adultério, a mentira, enfim, todas as mazelas que amargam a sociedade dos homens quando estes, incoerentes com a sua condição racional, deixam-se subjugar pela sensibilidade cega.

O texto de Llull, que traz a natureza humana ao centro dos debates, convida à abordagem do tema – buscador da verdade – a partir de outra perspectiva que é muito própria à Maçonaria – a simbólica.

6 – Os níveis de análise

Ser livre e de bons costumes são exigências básicas para o ingresso na Maçonaria. A essas uma terceira condição completa os requisitos fundamentais à Iniciação: a crença no Grande Arquiteto do Universo [GADU] – o décimo nono landmark de A. Mackey -, mas que também pode ser depreendida do Artigo Primeiro das Constituições de Anderson – concernente a Deus e Religião -, de onde se extrai que “um maçom […] nunca será um ateu estúpido, nem um libertino irreligioso […]” (ANDERSON, 2012, p. 149).

Muita tinta e páginas já foram consumidas em análises críticas sobre o tema, mas quero aqui chamar a atenção para um desdobramento lógico da crença no GADU porque pertinente ao tema ora desenvolvido, uma cosmovisão particular, admitida por muitos, mas não por todos, qual seja: a existência de um plano transcendente à razão objetiva que, em princípio, é (seria) inatingível pelas ferramentas apresentadas. Isso implica na concepção do homem noético, também denominado de noopsônico (PONTES, 2012) que, em síntese, é constituído por matéria (físico), intelecto e espírito. Alguns, a exemplo de Smith (2002), identificam quatro dimensões: corpo, psique, alma e espírito; enquanto que Descartes se restringiu à dualidade corpo vs alma.

Até então o construto “verdade” vinha sendo abordado sobretudo no âmbito da dimensão física (ainda que invisível, por vezes não mais do que uma elaboração teórica, porém com resultados práticos), em que pese as noções de intelecto, psique e alma já há tempos serem objetos de estudo dos buscadores da verdade auxiliados pelas ferramentas apresentadas. Entretanto, a noção de “espírito” demanda uma abordagem diferenciada, em parte complementar, bem como ferramentas de outra natureza capazes de alcançar, então, a “verdade revelada”. Enquanto as ferramentas já vistas são instrumentos para a aproximação da verdade dita objetiva (racional) que constitui o corpus do conhecimento exotérico, a nova dimensão (esotérica) requer ferramentas capazes de proporcionar um novo tipo de experiências, de natureza mística que, por sua vez, levam à descoberta da revelação – a verdade esotérica.

E como é possível chegar à verdade revelada que, segundo estudos, requer estados diferenciados de consciência capazes de proporcionar o necessário senso de autotranscedência? A literatura sugere ferramentas que já têm sido objetos de estudo pela ciência (HAMER, 2005), a exemplo da ioga, da meditação, da gnose, da oração e da vida ascética, mas também o recurso às substâncias químicas.

Assim, tal como o Homem, a verdade também pode ser figurada em outro plano que, à primeira leitura, guarda semelhanças com o Mundo das Ideias já referido. E mais uma vez, por ser um tema demasiado amplo, não será possível, por ora, tecer considerações mais aprofundadas sobre a experiência mística, o conhecimento esotérico e a revelação; não obstante cabe ressaltar que esse domínio também vem sendo explorado a partir das ferramentas exotéricas (auxiliadas por novas tecnologias) e já constitui um campo próprio e crescente de conhecimento (PINHEIRO, 2021a).

E é fácil perceber a conexão metodológica entre os dois domínios: a experiência mística é uma vivência pessoal, portanto única e exclusiva; assim, o buscador reúne inúmeros casos, cataloga-os, classifica-os, procura regularidades, padrões, etc., tal como já esclarecido. Na sequência também se vale da indução para inferir, de hipóteses para deduzir resultados esperados, promove experiências cujos registros sistemáticos são submetidos à análise e testes estatísticos que corroborarão ou refutarão as hipóteses, etc. Enfim, reproduz, a partir dos insights pontuais e preliminares reportados pelos místicos (verdade que à primeira vista possui caráter essencialmente subjetivo) os mesmos procedimentos aplicados na busca da verdade objetiva. Note-se, também aqui, senão um esforço no sentido à unificação dos domínios de conhecimento, a tentativa de maior aproximação das duas vertentes: a da verdade adquirida e a da revelada. E, a rigor, a verdade revelada necessita ser desvelada, o que corresponde a ser descoberta; afinal, o que fazem os hermenêuticos, a exemplo dos cabalistas?

E sendo a crença no GADU uma conditio sine qua non, na Maçonaria só é possível admitir duas posturas: a deísta ou a teísta. Em linha de simplificação, tanto porque se trata de matéria amadurecida em vários textos, mas também para não me alongar e fugir em demasia do escopo, grosso modo, a Maçonaria deísta (a exemplo da praticada pelo Rito Moderno) segue a postura de R. Descartes, qual seja: Deus criou o mundo e o deixou por conta própria, análoga à célebre resposta de Laplace à Napoleão quando este o perguntou sobre como Deus se encaixava no seu esquema [de leis que regem o mundo]: “Senhor, não precisei dessa hipótese”. Já a postura teísta, assumida pelo Rito Escocês Retificado, admite a intervenção divina no cotidiano, o que explica a prática, por exemplo e entre outras, das orações de intercessão. Não é possível deixar de constatar que as diferenças são de tal ordem, assim como os desdobramentos lógicos e práticos, que chega mesmo a ser difícil reconhecer a ambos, entre outros Ritos, como espécies do mesmo gênero – a Maçonaria -; algo só tornado possível mediante a aplicação filtros seletivos (redutores) aos mínimos elementos constituintes.

A dificuldade para apreender a última dimensão (a espiritual) não é a única, mas está na raiz dos motivos para uma característica central à Maçonaria: o largo emprego do simbolismo. Considerando que essa matéria foi desenvolvida com maior profundidade em Pinheiro (2020), deste trago apenas alguns excertos à guisa de ilustração e em síntese: • A reunião das três chaves auxiliares à análise simbólica em um quadro (que se revela sinóptico) proporciona não apenas novos e importantes ensinamentos, como revela um efetivo padrão; e para deixar à evidência, ao lado das designações, em esforço de síntese, foram destacadas algumas expressões-chaves:

  • Em primeiro lugar, se vários autores apontam que existem níveis (graus) de percepção e entendimento da realidade apresentada, parece ser boa lição nunca se satisfazer com a primeira impressão pois “o que é ou pode ser” quiçá esteja encoberto por véus de ignorância superpostos. Do primeiro ao último nível há claramente um escalar de complexidade e abstração. Se o primeiro nível está relacionado à base (matéria, concretude), o último sugere o topo (o espírito, a abstração). É possível, também, tecer conjecturas acerca dos progressivos graus de certeza insertos em cada modalidade interpretativa e submetê-los à testagem.
  • Grosso modo, enquanto as primeiras interpretações têm como fonte e repercutem nos limites do universo primário de significados de cada indivíduo, o aprofundamento (mas que também corresponde à elevação) ao nível tropológico demanda considerações a partir de um novo marco: o dos relacionamentos, assim, o conjunto de valores pessoais deve ser sopesado aos códigos sociais, isto é, se cada iniciativa vai ao encontro ou de encontro às expectativas, ao que é aceito, valorizado ou, ao contrário. Finalmente, o nível anagógico volta a ter de caráter absolutamente pessoal, pois a descoberta (o desvelar do véu da ignorância) de regra se dá a partir do acúmulo de conhecimentos assim como da experiência, algo que ninguém pode adquirir ou fazer por outro. Analogamente o mesmo se verifica com a elevação e com a revelação, eis que ambas exigem pré-qualificações. Todavia, tanto a descoberta quanto a elevação e a revelação são experiências transformadoras, isto é, depois de tê-las vivenciado não é possível retornar ao estágio anterior; assim, e desde então, o agente passa a ser movido por outro código de valores, novas visões de mundo e padrões de relacionamento. E fecha-se, assim, o ciclo: o indivíduo, inicialmente a partir de um dado nível de conhecimento (inferior) relaciona-se com o coletivo, ascende a novos estágios (superiores) de conhecimento que possibilitam que estabeleça relacionamentos influenciando o seu habitat a partir de novas métricas e padrões, e assim sucessivamente até o último estágio idealizado: a revelação.

Por fim, cumpre chamar a atenção para uma situação sui generis mas que se apresenta aos buscadores da verdade, notadamente aos maçons:

  • conforme visto, é prática antiga e nem sempre apropriada, a transposição por analogia de entendimentos extraídos do mundo natural para o mundo social que, juntos, grosso modo, constituem o que ora se denomina de microcosmo – o mundo exotérico;
  • ademais, explicar determinados fenômenos verificados no microcosmo como decorrentes da vontade (leis, ainda que desconhecidas) proveniente do macrocosmo também faz parte das tradições. Vale lembrar que a magia, que nada tem a ver com a acepção contemporânea do termo, já foi a melhor explicação científica para os fenômenos observados, a exemplo da influência dos astros sobre o clima, a agricultura, a saúde e o comportamento dos seres vivos, etc.;

a) – conectar esses dois mundos (o micro, exotérico, científico; e, o macro, esotérico, gnóstico) chega a ser sedutor como chama a atenção Yates (op. cit., p. 496): “Pois não é toda ciência uma gnose, uma visão íntima da natureza do Tudo, que ocorre por meio de sucessivas revelações?”;

b) – nem mesmo R. Descartes, esclarece a autora, em momentos de dúvidas e angústias intelectuais escapou à tentação do pitagorismo hermético;

  • aos poucos, a magia e a ciência tomaram caminhos diversos a partir da melhor delimitação dos seus domínios. Todavia, a ausência de respostas definitivas pela ciência a incontáveis fenômenos e o surgimento de inusitadas questões, mantêm viva e mesmo estimulam a forte presença da magia, a identificação de paralelos, bem como a percepção (para alguns uma certeza) da existência de vínculo entre os dois mundos, como visto, entre outros, em Capra (1993); assim,
  • deve ser redobrada a cautela na busca pela verdade na esfera social, no mundo das relações cotidianas, pois ela sofre as influências de duas fontes que embora diversas somam as suas contribuições para desviar o foco e levar a enganos. E efetivamente parece ser o que mais ocorre.

7 – Considerações Finais

Conforme visto, ser um buscador da verdade corresponde a dedicar-se a empreendimento que comporta diferentes níveis de complexidade, seja pela variedade de instrumentos que requerem algum grau de domínio, quanto pela natureza fugidia do próprio objeto da busca. Contudo, não há qualquer dificuldade que com estudo, treino, orientação e passo a passo, não possa ser superada para alcançar os níveis mais elevados de conhecimento – aproximações da verdade.

E para aqueles que antecipam desânimo frente às dificuldades e também pelo reconhecimento apriorístico de que a verdade absoluta é uma miragem, cabe lembrar que o que efetivamente importa não é a linha de chegada, mas antes o caminho, os ganhos contabilizados ao longo da trajetória. É por sucessivas tentativas e erros que nos aproximamos da verdade. É o exercício continuado para atingir a verdade que proporciona o aperfeiçoamento físico, cognitivo, moral e espiritual.

Em tempos de disseminação viral de fake news, da primazia das pós-verdades na abordagem das questões do cotidiano, e intransigência no trato das mais diversas matérias (comportamentos, valores, opções políticas, crenças, etc.), o que leva à maior dificuldade no reconhecimento da integralidade do outro, s.m.j., talvez mais até do que no passado, revela-se indispensável exercitar a condição de ser um efetivo buscador da verdade.

A Maçonaria, instituição que não sem motivos regimentalmente afasta das Lojas o debate político-partidário e religioso, parece revelar-se como o ambiente apropriado para a realização de tais exercícios. Como? Muito simples! Para começar, dado qualquer tema, ao invés de iniciar com a enumeração de um rol de opiniões sem fundamento e descompromissadas com qualquer noção que possa ser considerada “verdade”, habituar-se a refletir antes de falar, bem como justificar as declarações emitidas. Em dúvida, ou se não tem o que dizer, o silêncio também é sinal de sabedoria; busque esclarecimentos, senão em Loja aberta, quando fechada, retornando ao tema no momento oportuno para refinar e compartilhar o novo grau de conhecimento, a nova aproximação da verdade.

Todas as ferramentas disponibilizadas estão ao alcance de qualquer um e de todos, claro que em diferentes de graus de complexidade ajustados às idiossincrasias e contingências particulares. Entretanto, o que eu observo, amplamente disseminado na Ordem, são lições, ou melhor, tentativas de se aproximar ou mesmo ensinar “a verdade”, como se fosse possível, essencialmente a partir de aforismos, notadamente de ordem moral… de fato uma prática (à época uma ferramenta) muito em voga na Grécia… anterior a Tales, o mais notável dentre os pré-Socráticos.

Xico Trolha (2019, p. 9) destacou que “O Maçom, por si só, é um pesquisador nato, é um crítico abalizado que não costuma aceitar qualquer verdade como “verdade” (DESTAQUE NO ORIGINAL)”, ao que ora eu acrescento: não se chega à “verdade”, ou minimamente próximo a ela apenas com meros aforismos que não resistem minimamente ao pensamento crítico porque não passam de falácias encobertas pelo argumento da autoridade conferida aos chamados gurus.

Isto é, sem reflexão, estudo, orientação e troca de ideias que permitam ir à essência subjacente às matérias trazidas à lide, são reduzidas, para não dizer inexistentes, as possibilidades de os Iniciados virem a ser efetivos buscadores da verdade.

E pode não demorar muito para que alguns percebam Lojas que mais se assemelham aos clubes sociais-recreativos do que às Escolas Iniciáticas, a exemplo das de Pitágoras, Platão e Aristóteles (sempre reverenciados na Maçonaria, mas raramente lidos), nas quais alcançar a verdade era o objetivo de e com todos.

Nesse quadro, aqueles que se tornam cientes do que já foi, deveria, e que hoje a Maçonaria se autoafirma ser, tendem à desmotivação, seguida da baixa frequência que culmina com a evasão devido a percepção da falta de sentido, pois, afinal, no que então o maçom se distinguiria dos não Iniciados? Por que então pagar (por vezes elevadas) taxas para Iniciação, Elevação, Exaltação, mensalidades, trajes próprios, deslocamento, etc.?

Autor: Ivan A. Pinheiro

* Ivan é membro da Loja Mário Juarez de Oliveira nº. 4547, jurisdicionadas ao Grande Oriente do Brasil – Rio Grande do Sul.

Fonte: Revista Ad Lucem | São Luís, V. I, n. 2, p. 14-28, maio/ago, 2021.

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Referências

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Buscadores da Verdade…sois mesmo? (Parte II)

3 – Ser um buscador

Assim, grosso modo, buscar a verdade pela via da ciência corresponde a eleger a primazia da dúvida (por vezes apresentada como curiosidade, ceticismo), seguida da observação (coleta de dados) sistemática da realidade (mais precisamente o fenômeno objeto de estudo), da catalogação (organização) dos registros, da realização de análises longitudinais, comparações (identificando as semelhanças, os contrastes), cruzamento entre as variáveis para verificar a existência de relações (associações positivas, exclusões mútuas), etc., tudo, é claro, planejado detalhadamente. Em síntese muito resumida, submeter um determinado fenômeno a esses procedimentos, para melhor conhecê-lo, descrevê-lo e explicá-lo corresponde a tratá-lo cientificamente, e como resultado tem-se um conhecimento admitido como verdadeiro, ainda que temporário, isto é, até que novas investigações autorizem a revisão do entendimento estabelecido.

Entre tantas, merecem destaque: a dialética (tese, antítese e síntese); o silogismo (premissa maior, premissa menor e conclusão); quaestio disputata; indução vs dedução; o método científico; e, como tópicos complementares: os níveis de análise e a cautela frente às falácias e sofismas.

3.1 – A dialética

Japiassu e Marcondes (1990, p. 71-2) descrevem o verbete “dialética” em perspectiva histórica, no que resultam 4 (quatro) acepções: a de Platão; a de Aristóteles; a de Hegel; e, a de Marx. Por ora excluo as de Aristóteles e Marx porque as demais estão mais próximas ao tema específico desta empresa:

1. Em Platão, a dialética é o processo pelo qual a alma se eleva, por degraus, das aparências sensíveis às realidades inteligíveis ou ideias. Ele emprega o verbo dialeghestai em seu sentido etimológico de “dialogar”, isto é, de fazer passar o logos na troca entre dois interlocutores. A dialética é um instrumento de busca da verdade, uma pedagogia científica do diálogo graças ao qual o aprendiz de filósofo, tendo conseguido dominar suas pulsões corporais e vencer a crença nos dados do mundo sensível, utiliza sistematicamente o discurso para chegar à percepção das essências, isto é, a ordem da verdade.

O texto remete ao que já havia sido comentado sobre a Teoria das Ideias, de Platão (séc. V a.C.), bem como chama a atenção para aspectos importantes: a) a verdade está associada à essência e a esta se chega ao longo de um processo, degrau por degrau; b) os sentidos e as pulsões, como Descartes já apontara, podem iludir a percepção da realidade; por fim, c) à verdade se chega pelo diálogo, mais pelo contraste de ideias do que pela reafirmação. Mas mesmo na ausência de um interlocutor, as mentes mais brilhantes, a exemplo da de A. Einstein, desenvolvem autonomamente experimentos mentais sem prejuízo à crítica.

2. Em Hegel, a dialética é o movimento racional que nos permite ultrapassar uma contradição […] é um movimento conjunto do pensamento e do real […] movimento racional superior em favor do qual esses termos na aparência separados (o ser e o nada) passam espontaneamente uns nos outros, em virtude mesmo daquilo que eles são, encontrando-se eliminada a hipótese de sua separação.

O estudo da dialética pode ser tão complexo e profundo quanto se queira, não sendo esta, aqui, a intenção. Da dialética hegeliana se diz que é a unidade dos contrários, pois é do diálogo (embate) entre os opostos (a tese ou situação inicial vs antítese ou oposição à tese) que se deve chegar à síntese (nova situação ou realidade resultante dos elementos presentes na tese e na antítese) que, por sua vez, no momento subsequente se constitui em nova tese que necessariamente faz surgir a sua antítese e, assim, em espiral sucessiva e indefinida. Reforça-se, aqui, a ideia de que a verdade tem caráter dinâmico, histórico, o que não pode passar desapercebido aos agentes sob pena da exacerbação permanente do estado de conflito.

3.2 – O silogismo

É o método dedutivo que permite extrair uma conclusão a partir de duas premissas – uma chamada maior e, a outra, menor -, por implicação lógica. Aristóteles, a quem é atribuída a primazia da sua formulação, esclarece que: “o silogismo é um argumento em que, estabelecidas certas coisas, resulta necessariamente delas, por serem o que são, outra coisa distinta do anteriormente estabelecido” (ARISTÓTELES apud JAPIASSU e MARCONDES, op. cit., p. 224). Em outras palavras, o silogismo é o raciocínio no qual, de determinadas coisas afirmadas, segue-se inevitavelmente outra afirmativa em caráter conclusivo. Um exemplo, certamente bastante conhecido, permite melhor identificar os elementos do silogismo:

  • Premissa maior: todos os homens são mortais;
  • Premissa menor: Sócrates é homem;
  • Conclusão: logo, Sócrates é mortal.

“Todo o mecanismo silogístico repousa no papel desempenhado pelo chamado termo médio (homem), que fornece a razão do que é afirmado na conclusão: porque é homem, Sócrates é mortal” (NOVA CULTURAL, 2000, p. 18). Todavia, é preciso cautela (razão pela qual se afirmou que as ferramentas devem ser utilizadas de modo combinado), pois também é possível construir silogismos a partir de premissas falsas, como é o caso do silogismo anterior e agora ligeiramente modificado:

  • Premissa maior: todos os homens são imortais;
  • Premissa menor: Sócrates é homem;
  • Conclusão: Sócrates é imortal.

3.3 – As quaestio disputata

Da lavra de Nougué (2017, p. 235) se extrai que a quaestio disputata:

[…] se divide em artigos, que por sua vez se dividem em etapas ou partes fixas. Em primeiro lugar, formula-se a pergunta ou questão de que se tratará. Em segundo lugar, apresentam-se o mais perfeitamente possível as objeções à doutrina sustentada no artigo […]. Em terceiro lugar dão-se os “mas contrariamente”, que argumentam contra essas objeções, e que podem coincidir ou não com a doutrina do artigo. Em quarto lugar, vem o corpus, no qual a doutrina do artigo ou se demonstra ou, excepcionalmente, se mostra apenas como a mais provável. Em quinto lugar solucionam-se as objeções à doutrina do artigo. E, em sexto lugar, se e quando necessário, solucionam-se as argumentações postas contrariamente às objeções.

A complexidade e a dificuldades são apenas aparentes. Em síntese, o procedimento enumera as etapas para solução da disputa em torno de uma questão que encerra polêmicas, admite pontos vista controversos, razão pela qual demanda análise crítica a partir de todas as perspectivas. Além disso, chama a atenção para o fato de que as respostas não devem ser buscadas de modo isolado, mas no âmbito de uma tradição, de uma doutrina mais alargada e que orienta o entendimento.

As quaestio disputata foram largamente empregadas durante a escolástica medieval, tendo sido, infelizmente, abandonada em que pese a sua contribuição ao desenvolvimento da cognição lógica. Sobre os usos e os costumes no ambiente universitário medieval Haskins (2015) revela que:

As preleções formais, por mais importantes que tenham sido numa época em que não havia laboratórios e em que os livros eram escassos, não eram de maneira alguma os únicos meios de instrução. Um exame cuidadoso do ensino universitário também precisaria levar em conta as preleções menos formais […] as revisões e repetições […] e as disputas que preparavam o estudante para a aprovação final, aquele momento em que teria de defender publicamente a sua tese de graduação (p. 62-3); Cantai ao senhor um cântico novo […] pois o vosso filho teve uma disputa gloriosa, na qual esteve presente um grande número de professores e estudantes. Ele respondeu todas as perguntas sem cometer um erro, e ninguém foi capaz de resistir aos seus argumentos […] Inception designa a cerimônia em que o estudante era aceito com um mestre nas universidades medievais […] Primeiro o candidato participava de uma disputa formal chamada vésperas, que seguia um formato um tanto complexo (p. 67).

Penso que essas brevíssimas citações deixam à evidência a mudança que, desde então, se operou; se para o bem ou para o mal é questão envolta por controvérsias (que exigem uma disputa!) pois os indícios são inconclusos – a contabilidade registra ganhos, mas também perdas.

O maior expoente no método das Questões Disputadas foi, sem dúvida, Sto. Tomás de Aquino (1225-1274), cuja monumental Suma Teológica foi totalmente escrita neste estilo. Ciente de que a matéria é desconhecida da maioria dos leitores, para maior clareza a seguir eu transcrevo, ainda que em redundância à citação de Nougué, a Apresentação (PETRÔNIO, 2015, p. 7) de “O Bem – questões disputadas sobre a verdade”, de Tomás de Aquino:

Neste método, Tomás inicia com uma pergunta [questão] e a desenvolve em artigos. Cada questão disputada pode conter diversos artigos. Cada artigo considera uma parte da questão mediante uma pergunta, estando composto por argumentos pró e contra e uma conclusão, na qual aparece a resposta do autor à pergunta elaborada na forma de artigo, que, por sua vez, compõe a questão. Em cada artigo Tomás procede da seguinte maneira: ante a pergunta proposta num artigo da questão, ele a afirma ou nega, expondo em contrário diversos argumentos. Em seguida, toma um ou mais argumentos fortes, que são contrários àqueles diversos raciocínios que se seguiram à pergunta inicial. Então, logo após esses argumentos, ele inicia uma resposta, em conformidade com o que pretende demonstrar, escrevendo no corpo do artigo uma conclusão, que é simultaneamente resposta à pergunta feita inicialmente, e termina esclarecendo as dificuldades ou contradições dos primeiros argumentos expostos.

Com efeito, na sequência o tema (“O Bem – questões disputadas sobre a verdade”) é desenvolvido em 6 (seis) artigos e cada um observa a seguinte estrutura tomando por base o Artigo I: 1) primeiro, pergunta-se se o bem acrescenta algo ao ente; depois, 2) seguem os argumentos a favor (e parece que sim); 3) os em contrário; 4) as respostas aos argumentos em contrário; e, finalmente, 5) as conclusões.

Ao leitor menos versado sugere-se que, no primeiro momento, não se atenha aos detalhes, mas antes perceba a essência da estrutura das Questões Disputadas: não é possível chegar à verdade acerca de qualquer matéria sem antes esclarecer e eliminar todas as objeções que contra ela se levantam.

Por fim, o leitor escolarizado já terá percebido que as Questões Disputadas estavam na antessala do Método Científico, senão introduzido, consolidado na Modernidade. Atualmente poderiam ser equiparadas à Revisão da Literatura exigida na maioria dos trabalhos universitários, em vários empreendimentos profissionais (a exemplo de grandes projetos), bem como em algumas atividades profissionais, como a persecução criminal e a prestação jurisdicional.

3.4 – Indução vs Dedução

Indutivo, na expressão popular mais difundida, é o raciocínio que conduz de enunciados (resultados, observações, etc.) particulares para enunciados gerais, como são as teorias. Já o raciocínio dedutivo transita no caminho inverso: parte dos pressupostos de uma teoria (ou hipótese) geral e infere sobre possíveis resultados particulares que devem ser submetidos à confirmação (ou não) em experimentos. Assim, como se diz, o primeiro “conduz do particular para o geral” enquanto que o segundo no sentido inverso, “do geral para o particular”.

Em termos mais formais:

É comum dizer “indutiva” uma inferência, caso ela conduza de enunciados singulares (por vezes também denominados também enunciados “particulares”), tais como descrições dos resultados de observações ou experimentos, para enunciados universais, tais como hipóteses ou teorias (POPPER, 1989, p. 27).

Já há tempos que o raciocínio indutivo não é mais aceito como método para chegar à verdade. D. Hume (1711-1776), após ter-se debruçado sobre o tema, declarou o que ficou conhecido como o Problema de Hume:

[…] nada há em qualquer objeto, considerado em si mesmo, que nos possa oferecer uma razão para tirar uma conclusão além dele […] mesmo após a observação da frequente ou constante conjunção de objetos, não temos razão para extrair qualquer inferência concernente a qualquer objeto além daqueles com os quais temos tido experiência. Não há, pois, segundo Hume, justificativa lógica para a indução (FREIRE-MAIA, 1995, p. 50).

E por que, então, continuamos tentados a, de casos particulares, a generalizar? “A resposta é simples: porque mesmo sem justificativa lógica, em geral dá certo (isto é, há uma justificativa pragmática)” (id., ibid., p. 50). Ao esclarecimento do autor eu acrescentaria outro que o acompanha muito próximo: a falta de conhecimento, seja do autor ou por parte de um do interlocutor, o que estimula as partes a generalizar à sua conveniência, e nem sempre por motivos confessáveis.

O hábito da indução é um dos mais generalizados nos debates sobre os mais variados assuntos do cotidiano, e também causador de desavenças e mesmo injustiças. Todavia, o exemplo já mencionado do Cisne Negro é a evidência de que se trata de procedimento sujeito a erro. A esse, outros tantos extraídos do diário de bordo de C. Darwin, confirmam o acerto de Hume.

Já a dedução é:

o raciocínio […] Em outras palavras, operação lógica consistindo em concluir de uma ou várias proposições, postas como verdadeiras, ou uma ou várias proposições que se seguem necessariamente. O modelo da dedução é o silogismo ou o raciocínio matemático (JAPIASSU e MARCONDES, 1990, p. 65).

Por oportuno, o silogismo já apresentado como exemplo, agora submetido às exigências da dedução, ganha nova proposição:

  • Premissa maior: se é verdade que os homens são mortais;
  • Premissa menor: e se é verdade que Sócrates é um homem;
  • Conclusão: deduz-se que Sócrates é mortal.

Como se percebe, a diferença entre o antecedente e este último é a condição de “ser verdade”, daí porque, para muitos, à frente Popper (op. cit.), só a dedução (e não a indução) merece o reconhecimento como procedimento científico que autoriza o estabelecimento de verdades – no caso acima, de duas verdades só pode (será?) decorrer outra verdade! -, ainda que temporárias, até que deem lugar a outras. Todavia, não se deve minimizar e tampouco desprezar o papel do raciocínio indutivo no empreendimento científico, pois ele se revela assaz importante em determinadas fases e modelagens da investigação ordenada à verdade.

3.5 – O método científico (MC)

Apesar de o MC já ter sido introduzido antes mesmo desta seção, a ele retorno porque se trata da “joia da coroa”, um conjunto de procedimentos que inclui objetivos, estratégias, táticas e ferramentas em desenvolvimento desde a Antiguidade. Aristóteles (384-322 a.C.) e até mesmo seus antecessores (Tales de Mileto, Anaximandro, Empédocles e outros), praticavam (em parte, é claro) o que ainda hoje constitui o MC: a observação sistemática da natureza ou da experimentação empírica. Todavia, o MC ganhou alavancagem a partir da Modernidade, quando entraram em cena N. Copérnico, F. Bacon, R. Descartes, G. Galilei e tantos outros.

Como já mencionado, a curiosidade humana é atávica, o desejo de saber e compreender o mundo que o cerca estão no seu no DNA e têm sido efetivos drivers ao longo da evolução da humanidade. Destarte, descobrir e explicar o que nos cerca, inclusive a razão da própria existência, não sem o intuito de prever e controlar os fenômenos, têm sido a atitude e o comportamento dominantes desde os nossos antepassados. Daí que o MC tem início com a observação dos fenômenos, a começar pelos naturais – movimento dos astros, clima, agricultura, comportamento dos animais, etc. Os deuses constituíram as primeiras explicações para o que à época era inexplicável à luz do conhecimento e da tecnologia disponíveis; é assim que Hesíodo, em Teogonia, apresenta a sua cosmogonia, bem como a índole e o comportamento dos Homens, ora irados, ora amorosos, sob a influência dos deuses.

É atribuída a Tales, nascido em Mileto (antiga colônia grega na Ásia Menor, área hoje correspondente à Turquia) a primazia de ter observado “e provado” que nem tudo, como se pensava, era dependente do humor dos deuses. E desde então, o ritmo das descobertas tem sido crescente e a trajetória parece ser interminável, bem como, contrário ao senso, não foi interrompida no medievo, reduzido o ritmo, sim.

A observação livre e sistemática dava (e dá) origem a um conjunto de registros que ao primeiro olhar podem parecer caóticos; todavia, quando classificados, ordenados e estratificados revelam o que o caos escondia: a informação que agrega e modifica o estado prévio do conhecimento.

(Detalhe importante: o que separa o dado (ou registro) da informação é o conhecimento anterior do buscador, pois para o leigo “tudo” é informação na sua acepção mais vulgar. Ex.: se ao leigo for dito que foi encontrada e atestada a autenticidade de uma Constituição Gótica datada do séc. IX, isto significará nada mais que uma mera anotação sem relevância, um registro que em nada alterará o seu status de conhecimento (mas reconhecerá como uma “informação”); já para um Iniciado e estudioso, isto corresponderá efetivamente a uma informação, algo que modifica por acréscimo o seu conhecimento, pois até o momento o documento mais antigo – a Carta de Bolonha – data do séc. XIII).

O passo subsequente corresponde à coleta de dados experimentais, o que não só agrega um novo nível de informações ao conhecimento como, em geral, abre novas perspectivas de investigação. E experimento, ressalto, não necessariamente guarda relação com laboratórios, tecnologias sofisticadas, especialistas, etc. Ao fazer uma pequena alteração em uma receita de culinária e comparar os resultados com a anterior está se procedendo a um experimento. Habitualmente não nos damos conta, mas o experimento e a indução estão mais presentes no cotidiano (familiar, profissional) do que reconhecemos à primeira vista.

O acúmulo organizado de registros permite a consecução de outro objetivo do empreendimento científico: a identificação de regularidades, padrões de comportamento que, reiterados, sugerem a existência de princípios e leis que regulam os processos em estudo. Já a partir do cruzamento de registros é possível identificar a existência ou não de algum tipo de relacionamento, a exemplo de causa-efeito, mútua exclusão ou associação em variados graus, o que pode ter grande aplicação com vistas à previsão e ao controle (direto e indireto) em variados domínios do conhecimento. Tomese, por exemplo, o caso da febre… equiparada à ponta de iceberg.

O ceticismo, conforme já mencionado, é característico do buscador da verdade, daí que, independentemente da sua certeza pessoal acerca do acervo de conhecimentos que detém, este deve ser permanentemente submetido a testes (empíricos, teóricos, estatísticos, etc.), idealmente por terceiros e mesmo desconhecidos (pela isenção) que intentem falsificá-lo ou identificar as suas fraquezas. Assim, a resistência a sucessivos testes implica na maior crença quanto a veracidade do fenômeno (teoria, hipótese, modelo) objeto de análise; já a identificação dos pontos fracos poderá levar ao abandono, ajustes temporários (ad hoc) ou ao aperfeiçoamento do enfoque sob tensão. E é esse ciclo, que no atual estado da arte é considerado como interminável, que permite progredir, etapa por etapa no sentido à verdade absoluta, isto é, pela aproximação mediante sucessivas verdades parciais ou temporárias.

O que atualmente se verifica no domínio da física contemporânea, a mãe de todas ciências, é ilustrativo do que ocorre em várias campos do conhecimento: considerando que há duas grandes teorias (por vezes referidas como modelos) que explicam a natureza, uma ao nível do microcosmo (atômico e subatômico), a outra ao nível macro, quais sejam: a Mecânica Quântica e a Teoria da Relatividade, o principal empreendimento científico da atualidade é a busca da chamada Teoria de Tudo (WEINBERG, 1996; MLODINOW, 2005; HAWKING e MLODINOW, 2011), tema também celebrizado no livro, já adaptado ao cinema, sobre a vida e obra de Stephen Hawking. Laszlo (2008), após constatar a perplexidade dos pesquisadores frente a várias ocorrências inusitadas (e mesmo exóticas) nos mais diversos campos do conhecimento, também reclama a emergência de um novo paradigma.

Concluindo, desde que o Homem se tornou um observador crítico da realidade, ele busca descrever, explicar e controlar o mundo que o cerca, o que não pode ser realizado sem método e instrumentos adequados. E ainda, em que pese a denominação “método científico”, é um equívoco pensá-lo com uma ferramenta exclusiva para o uso dos acadêmicos ou dos cientistas stricto sensu pois, tal como esclarecido para as quaestio disputata, hoje o MC só é uma ferramenta nos termos apresentados porque anteriormente revelou ser uma atitude frente ao desconhecido e mesmo às dúvidas do cotidiano, daí a relevância da sua larga aplicação na Maçonaria:

Procurar conciliar os estudos maçônicos com o método acadêmico, tem sido a nossa maior preocupação nestes dois anos de publicações. Preocupa-nos os “achismos”, assim como a falta de hermenêutica com relação aos textos que procuram historiar a Maçonaria. No lugar da interpretação, temos adornos sem maiores significados (COSTA, 1998, p. 85).

Continua.

Autor: Ivan A. Pinheiro

* Ivan é membro da Loja Mário Juarez de Oliveira nº. 4547, jurisdicionadas ao Grande Oriente do Brasil – Rio Grande do Sul.

Fonte: Revista Ad Lucem | São Luís, V. I, n. 2, p. 14-28, maio/ago, 2021.

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Episódio 48 – A Verdade é simples, mas nossa visão dela é complexa

A Verdade é uma busca comum para todos, incluindo os filósofos, os religiosos e os cientistas. Há quem diga que é impossível ao ser humano chegar à verdade visto que é limitado (imperfeito) e que a verdade reflete a Perfeição. A verdade nasce do julgamento da mente a respeito das realidades e é justamente aí que pode residir o erro, o equívoco ou a limitação. A realidade é anterior e posterior à ciência. Extrair a verdade da realidade é obter a razão da vida. Temos alguns estados da mente em relação à verdade: ignorância, dúvida, opinião e certeza. Mas, podemos ter certeza da verdade? (music: Slow Burn by Kevin MacLeod; link: https://incompetech.filmmusic.io/song/4372-slow-burn; license: https://filmmusic.io/standard-license)
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A Verdade nua e crua

Resultado de imagem para a verdade saindo do poçoA Verdade saindo do poço – Jean-Leon Gérôme (1896)

Uma investigação constante da Verdade

A "verdade de duas faces" de Fraga e o dogmatismo na política ...

“Os sábios antigos criam em que o homem não possuía a Verdade, senão quando esta se tornava parte do seu íntimo, um ato espontâneo de sua alma.” (Edouard Schuré)

Um dos maiores postulados da Maçonaria é garantir ao homem o direito de investigação constante da Verdade. Mas o que é a Verdade, afinal? Quando nos encontramos com o dono da verdade, vemo-nos numa situação desagradável. Felizmente, nossa Instituição ensina-nos igualmente o exercício do tolerância. Ao deparamos com alguém assim, ao invés de discutir com o homem que tem certeza, que afirma saber muito mais do que todos; que pensa que os outros não têm inteligência, só nos resta elevar nossos pensamentos ao Grande Arquiteto do Universo, pedindo-Lhe iluminar a mente de quem procura a Verdade na estrada errada, viajando em companhia da arrogância e do desrespeito a quem o ouve. Quem ama realmente a humanidade não tem outro sentimento com relação a tal pessoa senão o da compaixão, pois a Verdade é uma realidade multifacial e haverá sempre uma face dela a ser descoberta por nós. Por isso, serem os maçons sempre estimulados à sua investigação constante.

Se pudéssemos conversar com um elefante e lhe pedíssemos que nos descrevesse uma formiga, certamente que o paquiderme nos diria que a formiga é um inseto bem pequeno. Mas se nos fosse permitido inverter a situação e nos dirigíssemos a uma bactéria com o mesmo pedido, ela nos diria que a formiga tem um corpo imenso. Ambos estão sendo absolutamente sinceros, pelo que lhes foi possível perceber. Da mesma forma, haverá sempre alguém que nos poderá mostrar uma face da Verdade que lhe foi dado observar ou descobrir. A prudência e a humildade poderão ajudar-nos a reconhecer nos outros o direito de interpretação do que experimentaram. Reunindo-se entre pessoas de níveis culturais e de experiências de vida diferentes e podendo expressar livremente seus pensamentos, o maçom tem muito mais oportunidade de avançar no conhecimento de outras faces da Verdade.

Jesus Cristo disse: “Conhecereis a verdade e ela vos libertará!” O Divino Mestre não se referiu àquela verdade de conveniência, própria de um político. O importante não é o fato. É a sua versão! Jesus quis nos falar da verdade alimentada pela pureza de intenções, pelo.amor verdadeiro, pela sinceridade. No plano da Justiça Divina, como nos alerta a Maçonaria, nossas intenções e nossos esforços vão ser apropriadamente considerados na confrontação dos débitos e créditos. Então temos que nos preocupar com a auto-realização. Daí, ser importante para os maçons procurarem a Verdade na intenção do nosso aperfeiçoamento, captando bem uma das lições que Sidharta Gautama, o Buda, nos legou: “O conhecimento da verdade elimina todo o mal!”

A primeira verdade que o maçom procura conhecer é sobre si mesmo, examinando cuidadosamente seus hábitos, sua escala de valores, seus defeitos. Conhecê-los e dominá-los dá-nos o direito de prosseguirmos investigando a verdade. De maneira serena, de modo incansável, consciente de que a escada que nos leva à verdadeira sabedoria é infindável; pois quando chegarmos onde imaginamos ser seu fim, descobriremos que há muitos outros lances de degraus mais acima.

Nunca devemos nos utilizar do conhecimento de uma face da Verdade que possuirmos para afrontar a quem quer que seja. Nossa tarefa não está terminada com o pouco que aprendemos. A eternidade espera-nos para conhecermos muito mais. A verdade está num estado consciente e constante de observação e na janela que o tempo nos abre. Carl Gustav Jung ensinou-nos que há coisas que ainda não são verdadeiras, que ainda não adquiriram o direito de ser verdadeiras, mas que um dia poderão ser verdadeiras!

Autor: Pedro Campos de Miranda

Nota do Blog:

Uma justa homenagem ao saudoso Irmão sempre lembrado por seu espírito de fraternidade, por suas ações beneméritas, elevada cultura, abnegado estudioso da filosofia maçônica, respeitado jornalista e escritor, foi feita na escolha do título da loja de pesquisas da GLMMG, que leva o nome de Loja Maçônica de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda.

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A Verdade é simples, mas nossa visão dela é complexa

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Após acompanhar muitas discussões e até mesmo participar de algumas delas me ocorreu publicar algumas ponderações pessoais acerca da Verdade.

Mas, porque a Verdade? É que as discussões mais acaloradas ocorrem justamente pela defesa ferrenha de alguma ideia ou posição tida como verdadeira por um irmão, ideia ou posição esta que se contrapõe a outra verdade professada ou defendida por outro (quando ambos bem intencionados e bem fundamentados em suas argumentações).

Também, porque somos Buscadores da Verdade por princípio maçônico, queiramos isso ou não.

Bem, penso que um dos caminhos mais seguros a seguir atualmente é o científico, por mais limitado e preconceituoso que se mostre (este é assunto para outro debate).

Na ciência não existem negativas, somente afirmativas. Uma pesquisa sempre vai afirmar algo, ela é positiva. Não existe forma de se negar que algo não exista, mas somente que algo exista. Por exemplo, não há atualmente ferramental teórico ou técnico para afirmar que não existe alma, espírito, pensamento, etc. O que se pode dizer é que o corpo físico é comprovável e uma certeza universal. Mas, mesmo as certezas por vezes preconizadas pela ciência algumas vezes mudam, ou seja, aquilo que parecia verdade deixa de ser para abrir espaço para um conceito mais amplo e completo que o anterior. Isso, porém, sem garantias de que seja a verdade definitiva e absoluta. Foi o caso do conceito do átomo (última partícula indivisível da matéria, conceito que desmoronou com a Física Quântica). O mesmo ocorreu com a ideia de célula, menor corpo vivo ante às bactérias e vírus.

Aliás, para os positivistas praticamente só as ciências ditas “duras” são consideradas como ciência mesmo: matemática, física, engenharia, etc. As ciências ditas “humanas” são, via de regra, muito subjetivas e têm seus objetos não claros e concretos, além de comprovações duvidosas (segundo este conceito). Um absurdo interessante é o fato de que a Metodologia Científica nasceu no seio da Filosofia (que por sua vez se originou dos estudos da Mitologia, Religiões, etc.). Pela análise rígida da Metodologia, a Filosofia não pode ser considerada uma Ciência. Pode? Doido, né?

Bem, mas vamos voltar ao nosso assunto, a Verdade. Reproduzo abaixo um breve resumo de parte de meu livro Astrologia na Maçonaria.

A Verdade é uma busca comum para todos, incluindo os filósofos, os religiosos e os cientistas. Há quem diga que é impossível ao ser humano chegar à verdade visto que é limitado (imperfeito) e que a verdade reflete a Perfeição. A verdade nasce do julgamento da mente a respeito das realidades e é justamente aí que pode residir o erro, o equívoco ou a limitação. A realidade é anterior e posterior à ciência. Extrair a verdade da realidade é obter a razão da vida. Temos alguns estados da mente em relação à verdade: ignorância, dúvida, opinião e certeza. Mas, podemos ter certeza da verdade?

Nada na Criação está fixo e definitivo. Todo o universo se encontra em expansão, segundo a Física, tanto no macro como no microcosmo. Nada está parado, nem mesmo o interior daquela pedra do calçamento, dentro dela existe movimento e portanto vida.

De acordo com a ciência temos alguns graus de certeza: absoluta, hipotética, metafísica, moral, científica, religiosa e vulgar.

Aqui já podemos perceber pontos de tensão em discussões de nossos grupos. Por exemplo, quanto ao “nascimento” da Maçonaria. Dependendo da linha de raciocínio seguido pelo maçom sua certeza pode ser metafísica ou científica. Uma abordagem não invalida a outra e também não detém a verdade absoluta. Em absoluto!

As evidências constituem as “comprovações” das verdades retiradas da realidade. Mas, de que vale uma evidência filosófica para um pesquisador que busca provas físicas, materiais?

Para encerrar este resumo, quero lembrar aos Irmãos que na Cabala judaica temos quatro “Mundos” da Criação ou formas de manifestação do GADU:

  • Mundo da Ação (o físico) – onde pedra, por exemplo, é pedra e ponto final. Em Maçonaria poderíamos dizer que seja o nível dos “profanos”;
  • Mundo da Formação (abstrato, eu associo com as emoções) – onde esta pedra é um conjunto de partículas em movimento e um centro que pode ser energético. Em Maçonaria poderíamos dizer que seja o nível do “Aprendiz”, aquele que vê a vida com outros olhos além das evidências materiais e considera outros fatores mais sutis da vida social;
  • Mundo da Criação (abstrato, eu associo com as idéias) – onde esta pedra pode ser considerada um ser vivo, complexo. Em Maçonaria poderíamos dizer que seja o nível do “Companheiro”;
  • Mundo da Emanação (divino, eu associo com o espírito) – onde esta pedra é conceituada apenas como pedra e ponto final, sem especulações ou conceituações, porque ela é tida em seu sentido mais amplo e profundo; conceituar ou especular é querer limitar o ilimitado, definir o indefinível. Por isso este nível é o nível do segredo, do silêncio e da reflexão. Este é o nível do verdadeiro Mestre.

Por isso, penso que devemos respeitar as opiniões alheias, tentar entender de qual ângulo o irmão está olhando a questão e a nossa própria visão. Caso contrário, muitas discussões podem não contribuir para a busca da verdade e se mostrarem perda sem sentido de tempo, energia e amizade.

Autor: Juarez de Fausto Prestupa

Fonte: Ciência Estelar

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A Busca da Verdade

 

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O verdadeiro sábio, o pensador, o iniciado, rende-se à verdade que reconhece superior ao seu entendimento, com humildade. Ao iniciado cabe a constante busca da verdade.

Mas onde procurá-la?

As Instruções de nossa Ordem ensinam-nos que:

  • Devemos buscar a verdade dentro de nós mesmos.
  • Conhece a ti mesmo” – isto é, aperfeiçoa-te, consulta a tua consciência para descobrir quais são os fundamentos do teu comportamento; descobre o erro e livra-te dele.

A consciência da própria ignorância representa para o homem a verdadeira sabedoria, porque o espírito é libertado dos preconceitos adquiridos. Removendo o erro, a mente estará livre para buscar a verdade. Porém, ela jamais será completa, sendo, portanto, uma tarefa interminável.

O homem sábio é aquele que busca a verdade por toda a vida. Nessa tarefa estará se aperfeiçoando a cada dia. Mas, não é fácil descobrir essa verdade dentro de nós.

Os primeiros filósofos gregos, por exemplo, buscaram-na na Natureza. Os sábios de Mileto queriam encontrar a origem de todas as coisas. Na água, no ar, no fogo e na terra, elementos que entram na composição de todas as coisas materiais. Contudo, o tempo mostrou a ingenuidade de tais meditações. Sócrates foi quem nos convidou a olhar para dentro de nós mesmos, pois a verdade está dentro do nosso espírito. (Apologia, Platão).

O “Conhece a ti mesmo”, é, pois, o primeiro mandamento da filosofia antiga; a reflexão do homem sobre si mesmo.

A busca da verdade exige um esforço intelectual rigoroso e metódico, que nos obriga a eliminar os nossos preconceitos e medos, pois, não é fácil encarar a verdade encontrada, uma vez que ela desafia a nossa sensação de segurança.

A verdade nos obriga a olharmos fixamente diante do espelho e meditar sobre os fundamentos de nossas ações.

Muitas vezes notamos que nossos pensamentos, sentimentos e ações são confrontados com a verdade, gerando a sensação de perda. Contudo, a coragem pode superar esta fase. Esse trabalho intelectual exige coragem e humildade, uma vez que não é fácil admitirmos nossos próprios erros, criando um conflito que nos impede de alterá-los, sendo essa a primeira dificuldade para o homem que quer ter o espírito livre.

A verdade, esse mistério inatingível, que nos atrai com força irresistível, é muito vasta, muito vivaz, muito livre e muito sutil para deixar-se prender, imobilizar e petrificar na rigidez de um sistema filosófico. Devemos ter cuidado em não aceitar concepções apriorísticas sem antes utilizar a “maiêutica” para exames e conteúdo da verdade.

Devemos esquecer-nos de tudo aquilo que não nos é próprio e, em seguida, concentrarmo-nos, descendo ao âmago dos próprios pensamentos, a fim de aproximarmo-nos da fonte pura da Verdade, instruindo-nos, não só pelas sábias lições dos Mestres, mas, principalmente pelo exercício da Meditação.

Há de se ter consciência que NUNCA SABEREMOS, eis a VERDADE!

O Conhecimento

A busca da verdade requer conhecimento e saber, que envolve não só o uso da razão, mas, também, exige um pouco de intuição.

O verdadeiro pensador não é o que sabe muito, mas o que tem um espírito livre. É o que sabe pensar por si mesmo. É o que se esforça para ser cada dia melhor.

Conhecer-se a si mesmo” é só o primeiro passo que nos permite iniciar uma nova vida em busca do aperfeiçoamento. É um trajeto que não tem fim.

A Prática da Virtude

O “Conhece-te a ti mesmo” contém, ainda, um segundo mandamento: “Busca a verdade e pratica a virtude

O homem só atinge seus objetivos quando se liberta do erro e compromete-se com o ideal de vida. Busca a verdade e pratica o bem. Esse é o sentido pleno do “constrói-te a ti mesmo.

Diante do exposto chegamos à conclusão que existe uma identidade entre o saber e a virtude. O homem só pode ser virtuoso quando conhece a verdade. Quando consegue livrar-se dos temores será capaz de fazer o bem. O “Conhece-te a ti mesmo” tem, pois, um alcance moral. Somos convidados a rever os impulsos que desencadeiam as nossas ações e se estamos em conformidade com os princípios da moralidade e da justiça.

Ensinamento Simbólico

O homem livre é o resultado de um treinamento não-dogmático. Conhecer é uma viagem que nunca acaba. É um processo de constante e incessante busca. A história mostra que toda vez que o homem tentou alcançar a verdade através do dogma, a ideia atrofiou, e o tempo, para ele, estagnou. O dogma é a transformação da ideia – o que seria fecunda e libertadora – transforma-se em coisa morta ou nos leva à escravidão.

Mais uma vez o homem sábio precisa de toda a sua coragem para fugir da tentativa irracional que se interpõe no caminho de seu aperfeiçoamento. Ele sempre obterá recompensas e logo descobre que a verdade e a virtude estão associadas com a beleza, que propicia a harmonia, o equilíbrio e a consistência.

Não existe maior prazer do que a paz interior, a convivência fraterna e o diálogo iluminador.

Nos postulados de nossa Ordem estão assentes os valores da fraternidade e da tolerância como forma de aperfeiçoamento.

Por isso a preciosidade do ensino simbólico. Em seu conteúdo, os símbolos para serem desvendados; imagens que sugerem o despertar dos sentidos, no princípio, intuitivamente; ao longo do tempo será completado intelectualmente.

As imagens do Templo, as alegorias e as cerimônias se tornam sinais para aqueles que conseguem penetrarem seus múltiplos significados.

A educação simbólica por não ser dogmática, possibilita-nos múltiplas visões e criação de novas interpretações, contribuindo, assim para a realização da grande obra.

Conheça a si mesmo e pratica a virtude. Esse convite a uma vida bela resume a essência do pensamento filosófico. Isso também é obrigatório para guiar a vida ética e intelectual do homem sábio.

Autor: José Airton de Carvalho

Zé Airton é Mestre Instalado, membro da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, presidente da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, membro da Loja de Pesquisas Quatuor Coronati Pedro Campos de Miranda, e um grande incentivador do blog.

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