O Orgulho, a Vaidade e a Ira no “Meio Maçônico”

O PECADO é uma atitude humana contrária às leis divinas tendo sido definido pela Igreja Católica, no final do século VI, durante o papado de Gregório Magno que anunciou para o mundo profano, os sete pecados capitais provenientes da natureza humana: avareza, gula, ira, luxúria, preguiça, soberba e vaidade.

Posteriormente, no século XIII, foram definitivamente incorporados e firmados pelo teólogo São Thomás de Aquino. Por questões práticas, no sentido de alcançar o nosso objetivo relativamente ao tema destacado, trataremos apenas dos três pecados capitais que permeiam com maior realce no nosso meio.

Neste sentido, necessário se faz que definamos cada pecado ou pelo menos identifiquemos suas principais características. Usamos o termo meio maçônico, entre aspas, no título deste artigo para destacar o antagonismo existente entre a postura que deve ser adotada nesse meio e os pecados capitais ou vícios de conduta citados, os quais, infelizmente, os percebemos.

Um dos sete pecados capitais que se manifesta nas pessoas na forma de ORGULHO e ARROGÂNCIA é a SOBERBA, termo que provém do latim –  superbia, é um sentimento negativo caracterizado pela pretensão de superioridade sobre as demais pessoas, levando à manifestações ostensivas de arrogância, por vezes sem fundamento algum em fatos ou variáveis reais.

As manifestações de soberba podem ser demostradas de forma individual ou em grupo. Nos casos de grupos, escolhidos ou eleitos, se firma na crença de que é superior.

A manipulação da soberba, do orgulho e da pretensão de superioridade de um grupo pode mobilizar conflitos sociais, onde os sentimentos de uma massa humana pouco crítica servem aos interesses políticos, econômicos, ideológicos de seu líder.

O soberbo quer superar sempre os outros, mas quando é superado, logo se deixa dominar pela inveja. Quando se sente ameaçado, atingido, procura depreciar os outros e vangloriar-se, sem que para isso se estruture para se superar ou até fazer uma avaliação da vida, dando-se em determinado momento por satisfeito.

O soberbo produz desarmonia na sociedade como estratégia para manter a soberba e se colocar sempre em evidência. A sociedade se tornando harmônica, com todos os indivíduos sendo e vivendo de maneira igual, liberta e fraterna, não propiciará espaço para a soberba.

Agindo com humildade se consegue combater a soberba nas suas mais diversas formas, evitando a ostentação, contendo as vaidades e fazendo com que o soberbo olhe o mundo não apenas a partir de si, mas principalmente ao redor de si.

O orgulho como uma das formas de manifestação da soberba se traduz pela satisfação incondicional do soberbo ou quando seus  próprios valores são superestimados, acreditando ser melhor ou mais importante do que os outros, demostrando vaidade e ostentação que em limite extremo transforma-se em arrogância.

A arrogância é uma outra forma de manifestação da soberba. É o sentimento que caracteriza a falta de humildade. É comum conotar a pessoa que apresenta este sentimento como alguém que não deseja ouvir os outros, aprender algo de que não saiba ou sentir-se ao mesmo nível do seu próximo.

O orgulho excessivo e a vaidade sem limites que se traduz na arrogância,  se mostra na forma de luta pelo poder econômico, pela posição social e pela perpetuação no poder.

Quando chega a ocupar cargo eletivo ou de nomeação busca impressionar os incautos, realçando o despotismo que trata  os súditos como escravos.

Diferentemente da ditadura ou da tirania, o despotismo não depende de o governante ter condições de se sobrepor ao povo, mas sim de o povo não ter condições de se expressar e autogovernar, deixando o poder nas mãos de apenas um, por medo e/ou por não saber o que fazer.

No Despotismo, segundo Montesquieu, apenas um só governa. É como não houvesse leis e  regras, arrebata tudo sob a sua vontade e seu capricho.

A VAIDADE humana, como um dos sete pecados capitais, se manifesta nas pessoas pela preocupação excessiva com o aspecto físico para conquistar a admiração dos outros, pela posição social que busca ocupar na sociedade ou através de ocupação de cargos.

Uma pessoa vaidosa pode ser gananciosa, por querer obter algo valioso, mas é só para promover ostentação perante os outros.

Um ser humano invejoso, por sua vez, identifica com bastante facilidade um ser humano vaidoso, pois os dois vícios se complementam, um é objeto do outro.

Nos Ensaios de Montaigne há um capítulo sobre vaidade. Um escritor brasileiro, Flávio Gikovate, tem se dedicado a analisar a influência da vaidade na vida das pessoas e seus impactos na sociedade.

Uma das abordagens da vaidade na literatura é feita por Oscar Wilde no livro “O Retrato de Dorian Gray”, onde o principal tema é a vaidade do personagem Dorian, onde o jovem é ao mesmo tempo velho, e o velho é ao mesmo tempo novo.

Por fim, trataremos da IRA como pecado capital.

A ira é uma atitude que às pessoas manifestam pelo sentimento de vingança, de ódio, de raiva contra seus semelhantes ou às vezes até contra objetos.

É uma emoção negativa que aniquila a capacidade de pensar e de resolver os problemas que a originam.

Sempre que projetamos a ira a outro ser humano, produz-se a derrubada de nossa própria imagem e isto nunca é conveniente no mundo das inter-relações.

A ira combina-se com o orgulho, com a presunção e até com a autossuficiência. A frustração, o medo, a dúvida e a culpa originam os processos da ira. A ira humana facilmente se torna pecaminosa.

Quando começamos a defender nosso Ego, quando atacamos alguém ao invés de atacar o erro dele, quando a chama da ira é alimentada, ela se torna um fogo que destrói.

Feitas as devidas considerações sobre o conjunto de alguns vícios da conduta humana ou pecados capitais, vamos nos transportar para o meio maçônico e estabelecer uma relação de homomorfismo para que possamos fazer uma reflexão sobre algumas práticas que constatamos no nosso cotidiano.

O comportamento de um maçom, segundo os ditames da nossa Sublime Ordem, deve ser irreparável.

Não se deve, nem se pode, adotar ação alguma que realce soberba, vaidade e ira, sobretudo quando essa ação é praticada por irmão que é autoridade maçônica, que ocupa cargo maçônico eletivo ou de nomeação.

Em caso de comportamento ou ação que comprometem a imagem da nossa ordem e atentam contra os postulados universais da Maçonaria.

Deve seu autor ser alertado por qualquer irmão que perceba o desvirtuamento no sentido de que o mesmo possa proceder a correção do seu comportamento ou ação.

O Irmão alertado deve receber a observação de forma natural entendendo que o irmão que o alertou o fez no sentido de promover a sua melhoria, o seu crescimento.

Nunca deve reagir com ira.

A excelência da Maçonaria se ergue sobre o suporte da Fraternidade e não do Ódio.

O irmão deve ter humildade suficiente para compreender o reparo. Não deve ser soberbo nem vaidoso e receber a crítica como construtiva, principalmente pelo fato de ocupar cargo maçônico.

Não há demérito para a autoridade maçônica quando é alertada por um irmão hierarquicamente inferior. Em primeiro lugar está o irmão maçom não a autoridade maçônica.

O Maçom tem por dever cavar masmorras aos vícios em todas as suas formas, inclusive aos vícios de conduta aqui anunciados, pois assim, estará levantando templos às virtudes e, por conseguinte, fazendo novos progressos.

As atitudes que expressam, com clareza, esses pecados capitais, esses sentimentos pífios e inconsequentes, que levam ao desânimo àqueles maçons que podem afirmar com toda propriedade “MEUS IRMÃOS COMO TAL ME RECONHECEM”, devem ser banidas do nosso meio.

As autoridades Maçônicas constituídas têm que asseverar a hierarquia sim, mas não cometer excessos.

Tem que conhecer, e conhecer bem a disciplina.

A disciplina e a hierarquia são sustentáculos da Maçonaria, logo, o verdadeiro Maçom deve ser um homem disciplinado e que respeita a hierarquia.

O  Maçom disciplinado é instruído, não é propenso a soberba, nem a vaidade e nem a ira.

O Maçom não tem orgulho, tem honra. O Maçom não tem vaidade, tem felicidade. O Maçom não tem ira, tem irresignação.

A disciplina se constitui de um conjunto de ações planejadas e coordenadas que obedecem regras, leis.

Portanto, para exercitar a disciplina precisamos nos deter aos ensinamentos maçônicos contidos na Prancheta de Traçar, na régua de 24 polegadas, no esquadro e no compasso.

Não podemos agir de forma desordenada, indisciplinada e exigirmos que os outros façam de forma diferente. Os nossos atos falam mais do que as nossas próprias palavras.

A Pior coisa que existe é o Maçom dar um bom conselho e em seguida um mal exemplo.

Valendo-me das sábias palavras do meu pranteado pai, que dizia: “meu filho se você quiser saber quem é a pessoa, não preste atenção o que ela diz, preste atenção o que ela faz”, pelo direito hereditário que me assiste, vou plagiar a máxima do meu velho e dizer: “meus irmãos se quiseres saber quem é o maçom, não preste atenção ao que ele diz e escreve, preste atenção ao que ele faz”.

O verdadeiro maçom se faz ser reconhecido, não pelas suas palavras, mas sim, pelos seus atos.

A maior autoridade é o exemplo. Quando recebemos críticas, sobretudo críticas construtivas, precisamos ser disciplinados para ouvi-las, processá-las, fazer uma autoavaliação e uma reflexão para melhorar nossos procedimentos, adequando-os as regras do bom convívio.

Precisamos dar bons exemplos, principalmente, para Aprendizes e Companheiros, eles precisam de bons ensinamentos, eles precisam serem bem instruídos, eles precisam de referência para defenderem a nossa Sublime Instituição.

Um Maçom disciplinado, instruído, é um maçom humilde, dedicado, útil, competente nos Augustos Mistérios.

Não é soberbo, não tem vaidade e não tem ira.

Nunca oportunista e inconsequente, nunca com comportamento de desrespeito aos Irmãos e aos nossos Templos Sagrados. Temos que fazer de nossos Templos, além do natural relicário da Fraternidade, centros operativos de Cultura e Civismo, na sustentação dos supremos fins de Liberdade, Justiça e Paz.

Um Maçom disciplinado, instruído, dificilmente será manipulado para se tornar massa de manobra e se deixar levar por ofertas de medalhas, títulos, cargos e elogios.

Um Maçom disciplinado e instruído ao ocupar cargos maçônicos jamais se transformará em um déspota.

Um Maçom disciplinado respeita às autoridades constituídas e os seus irmãos outros por entender, na essência, o estado democrático de direito, a importância administrativa e política desses cargos e o papel de cada um desses irmãos no processo de democratização da sociedade.

O maçom disciplinado entende que a livre expressão do pensamento como direito fundamental do homem em qualquer seguimento da sociedade moderna, sobretudo em uma sociedade maçônica, deve ser exercido na sua plenitude para transformação da sociedade na busca de melhores dias.

Um maçom disciplinado e instruído ver na autoridade maçônica, primeiro um irmão, não um superior hierárquico, e por este fato, exige comportamento maçônico deste.

As autoridades constituídas, mais que os demais irmãos maçons que não ocupam cargos, tem por obrigação dar bons exemplos.

A hierarquia e a disciplina, sobretudo a disciplina, têm levado a nossa Sublime Ordem a obter a confiança e o respeito da sociedade em todo orbi terrestre, contudo, é necessário que se saiba que de quando em vez nos deparamos com alguns irmãos que atropelam os limites e passam a claudicar no exercício do seu desiderato, promovendo a desarmonia, provocando a discórdia e, consequentemente, gerando a indisciplina.

O maçom pode e deve discordar de uma autoridade maçônica constituída quando esta não desempenha o seu cargo com dignidade, probidade, humildade e competência.

Logicamente, é ´preciso que seja feito dentro dos padrões de civilidade e de urbanidade, sem ira, com contestações fundamentadas e nunca levianas, uma contestação responsável que exija dessa autoridade o fiel cumprimento dos encargos que o cargo lhe impõe por estrita obrigação do dever.

O respeito à hierarquia deve acontecer visando servir à instituição e não à pessoas.

A nossa capacidade de opinar sobre a vida política e administrativa da nossa Obediência obtém maior expressividade no ato do voto, que é secreto, quando elegemos nossos representantes, quando elegemos um irmão para um cargo maçônico.

Lamentamos que os membros dos tribunais maçônicos, ainda, não sejam eleitos pelo povo maçônico.

ORGULHO, VAIDADE e IRA, essa trilogia não é nossa. Precisamos bani-la do nosso meio. Só depende de você, só depende de nós.

Autor: Otacílio Batista de Almeida Filho

*Mestre Instalado, membro da ARLS Obreiros da Justiça n.º 3209, Oriente de Campina Grande – PB

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Episódio 58 – O mito de Tântalo

(music: Slow Burn by Kevin MacLeod; link: https://incompetech.filmmusic.io/song/4372-slow-burn; license: https://filmmusic.io/standard-license)

Não é de hoje que o homem aspira a mais perfeita e elevada purificação. Como outrora, religiosos ferrenhamente devotados empreendem uma luta interior buscando alcançar o Olimpo, atingir o nirvana ou vivenciar o paraíso na terra.

O mito grego do rei Tântalo desvela a ambição de um mortal que, não satisfeito em ser notoriamente o “predileto dos deuses”, almeja transmutar-se num “deus” propriamente, incorrendo num erro brutal.

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Episódio 52 – Somos pó e em pó nos tornaremos

“Tu és pó e em pó te tornarás”; embora esta frase não seja recente e nem teve como signatário nenhum filósofo ou pensador carente de perdão Divina, nós a renegamos ou pelo menos não a abstraímos além de sua magnífica força expressiva. Esta frase milenar está grafada e é exposta na Sala de Reflexões, antes que façamos o nosso juramento de aceitação e ingresso na Ordem Maçônica, exatamente pela força que ela representa no ciclo nascimento vida e morte. (music: Slow Burn by Kevin MacLeod; link: https://incompetech.filmmusic.io/song/4372-slow-burn; license: https://filmmusic.io/standard-license)
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Episódio 39 – Iniciação na prática

A humildade muitas vezes procede da razão como vestimenta ou capa de proteção. Já ouvi dizer que a maior das vaidades está sob essa capa de humildade e pode irromper, como uma fera, a qualquer instante e à menor provocação. Por outro lado, a modéstia é decência, compostura, moderação e sobriedade, especialmente no falar.  (music: Slow Burn by Kevin MacLeod; link: https://incompetech.filmmusic.io/song/4372-slow-burn; license: https://filmmusic.io/standard-license)
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Episódio 24 – O que é “ser livre e de bons costumes” na concepção maçônica

O ideal dos homens livres e de bons costumes, que nossa sublime Ordem nos ensina, mostra que a finalidade da Maçonaria é, desde épocas mais remotas, dedicar-se ao aprimoramento espiritual e moral da Humanidade, pugnando pelos direitos dos homens e pela Justiça; pregando o amor fraterno; procurando congregar esforços para uma maior e mais perfeita compreensão entre os homens, a fim de que se estabeleçam os laços indissolúveis de uma verdadeira fraternidade, sem distinção de raças nem de crenças, condição indispensável para que haja realmente paz e compreensão entre os povos.

O medo de ser livre provoca o orgulho em ser escravo

O medo de ser livre, provoca o orgulho em ser escravo – NH News

“O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.” Os Irmãos Karamazov, Dostoiévski.

Há no homem um desejo imenso pela liberdade, mas um medo ainda maior de vivê-la. Algo parecido disse Dostoiévski, ou talvez eu esteja dizendo algo parecido com o dito pelo escritor russo. No entanto, como seres significantes que somos, analisamos as coisas sempre a partir de uma determinada perspectiva e, assim, passamos a atribuir-lhes valor. Dessa maneira, até conceitos completamente opostos, como liberdade e escravidão, podem se confundir ou de acordo com o prisma de quem analisa, tornarem-se expressões sinônimas, como acontece no mundo distópico de George Orwell, 1984, em que um dos lemas do partido – “Escravidão é Liberdade” – é repetido à exaustão.

Não à toa, as boas distopias têm como grande valor predizer o futuro. E em todas elas – 1984, Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451, Laranja Mecânica – há um ponto em comum: a liberdade dos indivíduos é tolhida e, consequentemente, convertida em escravidão. No entanto, através de mecanismos sócio-políticos a escravidão é ressignificada como liberdade, de modo que mesmo tendo a sua liberdade cerceada, os indivíduos entendem gozarem plenamente desta.

Nas histórias supracitadas, embora a maior parte da população esteja acomodada e aceite com enorme facilidade absurdos, existem indivíduos que se permitem compreender as suas reais situações e ousam lutar contra a ordem estabelecida. Esse processo é, todavia, extremamente doloroso, uma vez que é muito mais fácil se acomodar a enfrentar a realidade e todas as consequências dolorosas que enfrentamos invariavelmente quando decidimos sair da caverna, para lembrar Platão.

Posto isso, há de se considerar que ser verdadeiramente livre requer a responsabilidade de encarar o mundo sem fantasias, ou seja, tal como ele é. Dessa forma, existe no homem grande suscetibilidade a aceitar o irreal como real, a fantasia como verdade, a Matrix como o mundo real. Sim, Matrix é um grande exemplo do medo que possuímos de encarar a realidade. No personagem de Cypher (Joe Pantoliano) encontramos o maior expoente desse comodismo, já que sendo a realidade um mundo destruído, um caos constante, é muito melhor viver na Matrix, onde ele “pode ser o que quiser”, ainda que não passe de uma grande mentira.

Em outras palavras, Cypher representa a ideia de que sendo a realidade algo tão assustador, a ignorância é uma benção, pois sendo ignorante, pode-se comprar mentiras como verdades facilmente, bem como, aceitar a Matrix como realidade e a escravidão como liberdade.

As realidades apresentadas no mundo das artes (ficções, que ironia), refletem a nossa própria realidade, em que, assim como Cypher, temos preferido viver vidas fantasiosas, cercadas de superficialidade e aparências, determinadas pelo hedonismo da sociedade de consumo e, consequentemente, o nosso egoísmo ganancioso buscando galopantemente realizar todos os desejos que impedem de acordarmos de um sonho ridículo.

Apesar de tudo isso, pode-se considerar que de fato é melhor ser um escravo feliz do que um ser livre, triste, inconformado e amedrontado. No entanto, a problemática ganha corpo na medida em que se entende que há coisas que só podem ser feitas sendo o sujeito livre, uma vez que a gaiola é sempre limitadora, sobretudo, aos desejos mais intrínsecos e, portanto, mais latentes e verdadeiros no ser. Assim, por mais que a escravidão seja ressignificada, fantasiada e “transformada” em liberdade, sempre haverá pontos em que o indivíduo sentirá necessidade de alçar voos mais altos, os quais, obviamente, não poderão ser realizados, haja vista a limitação das gaiolas, o que implica a insatisfação, ainda que tardia, da condição escrava em que o indivíduo se encontra.

Sendo assim, constatamos que “O medo de ser livre provoca o orgulho em ser escravo”, posto que para gozar a liberdade é preciso coragem para se arriscar no terreno das incertezas e da luta. E, assim, temos preferido permanecer na caverna, orgulhosos das nossas sombras, já que lembrando outra vez Dostoiévski – “As gaiolas são o lugar onde as certezas moram”. Entretanto, como disse, mais hora, menos hora, nos enxergamos e percebemos que o que nos circunda é falso, de tal maneira que desejamos sair, correr, voar, ser livres.

O grande problema nisso é que quando se acostuma a viver em uma gaiola, quando se é livre perde-se a capacidade de voar, pois as correntes que nos prendem são criadas pelas nossas mentes, de forma que mesmo fora da caverna, continuamos prisioneiros de uma mente que se acostumou a ser covarde e preferiu acreditar na contradição de que ser escravo era o maior ato de liberdade.

Autor: Erick Morais

Fonte: Obvious

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Precisa-se de escravos!

Uma definição bíblica de vícios - ABCB

Você é um escravo. Eu também sou. Todos somos servos dos nossos hábitos condicionados, sejam eles quais forem. A neurociência, com a teoria do “Cérebro Trino”, de Paul MacLean, contava na década de noventa que temos 03 cérebros: reptiliano, mamífero e racional. A parte mais primitiva visa nossa sobrevivência e perpetuação: comida, bebida, sono, abrigo, defesa, reprodução, repouso, associações estratégicas correlatas. Para isso, o cérebro primitivo é forte, predominante e extremamente simples, não classifica os hábitos como vícios ou virtudes. Isso é pauta para o cérebro racional ou neocortex.

Assim que se satisfaz do básico, o cérebro primitivo relaxa e se sente recompensado. Atribui essa recompensa ao evento estimulante que o levou à ação relaxante. Essa “deixa para agir” é cravada na mente como gatilho. Gatilho, Ação e Recompensa: Esse o triângulo do hábito, como explica Charles Duhigg em sua obra “O Poder do Hábito”. O gatilho gera um anseio, ou seja, o pensamento se adianta, obrigando o corpo a reagir antes do fato acontecer. Cheiro de comida gera salivação. Atração gera tesão.

Estimulado uma segunda vez pelo mesmo gatilho, o instinto busca apenas em repetir a ação que o levou à última sensação de recompensa. Esse automatismo é inconsciente e, quando em descontrole, sobrepõe-se aos nossos esforços por moderação, lealdade e honestidade. Impondo-se o primitivo, somos reféns desses motores comportamentais em todas as dimensões da vida. O triângulo do hábito parece inexpugnável. Gatilho, ação e recompensa formam os grilhões de nossa servidão.

A boa notícia: o escravo pode mudar de senhores. Um “gatilho” pode ser identificado e, dessa deixa, partir para novas ações. Todavia, não se empolgue demais. Podemos ter melhores hábitos, senhores menos destrutivos, mais saudáveis, mas teremos que lutar por eles.

A par de nossa dimensão primitiva, merece homenagem uma instituição corajosa nessa “troca de senhores”: Os Alcóolicos Anônimos. O AA enfrenta o terrível e destruidor alcoolismo com a mesma simplicidade e eficácia de sempre, desafiando a própria ciência e também a “pseudociência” e sua prateleira de produtos “milagrosos”.

O Triângulo do vício do alcóolatra começa no gatilho mais comum: tentar mascarar dores e tristezas ou prolongar prazeres e alegrias o máximo possível. A ação de beber pode ficar involuntária, parte do cérebro primitivo. As recompensas, em geral, são a desinibição e um suposto companheirismo, geralmente o do primeiro que aparecer.

A “Iniciação” do AA são “noventa encontros em noventa dias”, uma prova do novato de enfrentamento constante do ego e do seu quadro de adoecimento. No Triângulo do “Iniciado no AA”, o gatilho segue como sendo o trato das emoções, principalmente nos momentos mais críticos: aquela noite mais escura da alma ou as infinitas fugas, nas quais a mente humana é tão profícua em criar. A ação a ser implementada e repetida incansavelmente é lembrar da sua impotência e procurar a escuta do padrinho ou quem lhe faça as vezes o mais rápido possível. As recompensas são a desinibição emocional e a companhia, agora do padrinho e/ou dos companheiros de luta.

Você não leu errado: havendo quase nada a se fazer na recompensa, resta focar no gatilho e, a partir da “deixa”, partir para novas ações, reforçadas pela rotina, até mitigar os antigos reflexos condicionados.

É nessa hora que entra a egrégora coletiva. Por ela se materializa nossa habilidade de formarmos associações estratégicas de longo prazo, traço marcante que nos conferiu nosso sobrenome “sapiens”, como escreveu Harari. É pela prática coletiva que se cultiva a solidariedade e força para se desiludir e desistir de tentar mascarar as dores/tristezas ou tentar prolongar os prazeres/alegrias indefinidamente. Um coletivo comprometido com a evolução cria o espaço e a escuta propícios para a entrega e o enfrentamento das emoções. Todavia, falta ainda algo quase inexplicável, que faz de certas instituições campeãs na geração de valor para uma sociedade cada dia mais adoecida.

Havendo confiança e entrega, consegue-se fechar um triângulo entre o Falante – a Palavra – o Ouvinte. Dentro dessa egrégora, algo quase mágico está em vias de acontecer.

A entrega pela “palavra” ao sistema de troca de experiências é seguida de uma confiança no padrinho e nos companheiros. É crucial primeiro reconhecer ser impotente perante as ações automatizadas, um escravo assumido. Os registros e relatos pessoais permitem, ao seu turno, identificar os avanços, por menores que sejam, mas capazes de gerar gratidão à jornada, aos Irmãos de luta, ao Invisível e Supremo. “Entrego, confio, aceito e agradeço”, etapas da real jornada de autoconhecimento e auto atualização.

Cria-se confiança primeiro no padrinho. É quem está mais próximo ao recém-iniciado. Depois surgem a fé no programa e nessa Força misteriosa que a tudo conduz. Ao fim, o que começou com uma rendição e morte simbólica da arrogância e do ego, culmina no renascimento de um “amor próprio” capaz de resistir aos velhos hábitos, mesmo nos momentos mais estressantes da vida. Nesse momento, afilhado vira padrinho; aprendiz vira mestre; iniciado vira iniciador. O ciclo de destruição do ego e construção de templos de Confiança, Fraternidade e Fé então se repete e se multiplica. Não é Pedagogia, pois não educa crianças, mas “Andragogia”, a educação da consciência dos Iniciados.

A eficiência do AA serve-nos como espelhamento para a missão sagrada de qualquer Escola Iniciática perante seus Iniciados: enfrentar com honestidade e coragem nossa mente primitiva. Cabe ao Iniciado reconhecer sua dimensão animal e irracional. Sem isso, não há êxito em transformar velhos hábitos, prevalecendo os impulsos egóicos, mesmo estando “de corpo presente na Oficina”.

A pedra que foge do cinzel resiste em permanecer bruta.

É por causa da humildade em assumir sua impotência que o Iniciado busca se transformar. Sua marca principal é não se cansar de buscar. É um escravo buscador de novos senhores, novos hábitos, novas posturas. Ele não o faz porque se acha evoluído, mas justamente porque se reconhece como primitivo e impotente.

É desse desbaste voluntário e contundente da pedra bruta interior que se lapidam os autênticos mestres, provados ao longo das grandes crises, da ignorância e da estupidez humana, tal como o momento crucial que a humanidade atravessa no início do século XXI. Reconhece-se a espada pela temperatura da forja a que foi submetida.

As Escolas Iniciáticas devem acolher esses servidores. São servos que buscam incansavelmente se transformarem por novos hábitos. Eles se equipam com humildade, confiança e fé para cavar masmorras aos vícios. Sem esses jardineiros da consciência, qualquer terra é seca e estéril. Sem eles, espaços que seriam de evolução e aperfeiçoamento humano se rendem a “igrejismos” ultrapassados, repetições inúteis e “jornadas vazias” de toda sorte, nas quais o ego e vaidade se esbaldam.

Sair dos velhos condicionamentos é difícil. Conhecer a si mesmo também é difícil. Escolher o seu difícil é o que vai determinar quais serão seus senhores, seus hábitos.

Certo é que a evolução planetária segue seu curso. Iludidos pelos nossos vieses de confirmação, acreditamos que até um relógio parado esteja certo, ao menos duas vezes ao dia. Logo, a realidade, por mais dura que seja, é melhor que qualquer fantasia e, com isso, é imperativo vencer a inércia e a mente primitiva, já que seguem em frente “as pedras que rolam”, como cantou Bob Dylan. Os novos tempos demandam Oficinas repletas de servidores de novos pensamentos, palavras e ações, enfim, de escravos de melhores hábitos.

Autor: Luciano Alves

* Luciano é professor, analista judiciário e Mestre Maçom da A.R.L.S. Jacques DeMolay nº 22 da GLMMG.

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À Porta! (a função do Cobridor)

Por que a maçonaria inspira tantas teorias da conspiração

Para um Venerável Mestre, quando “desce” do cargo, essa descida não se limita ao seu aspecto ritualístico e se traduz em uma série de vantagens e desvantagens, cuja  natureza varia, em nossa opinião, dependendo da personalidade de cada um.

Para começar, gostaria de dizer que, para o futuro ex-Venerável Mestre, é necessário ter de considerar o exercício desta função, e eu encontrei diversos Veneráveis Mestres que, longe de serem os mais narcisistas, não desejavam ocupar o cargo de Cobridor. Pode sempre, certamente, existir várias razões para não assumir uma função, mas no ritual de instalação  do colégio de oficiais é dito que é geralmente o ex-Venerável Mestre que ocupa essa posição; é que alguma parte da instrução maçônica se baseia discretamente na necessidade Iniciática que ele teria de passar por esta etapa. É também a única articulação semântica direta que faz o referido ritual entre duas funções da loja: para as outras funções, o ritual se contenta em esclarecer a função em si, sem maiores digressões e sem referência a uma outra função.

O ritual lembra a humildade necessária que o ex-Venerável deve ter, ou pelo menos aprender com a migração de uma posição mais solar para a posição dita a mais humilde. Assim, a função de Cobridor é bem menos comum e, portanto, menos humilde do que se possa pensar: primeiro tem-se que deixar algumas migalhas de privilégio ao pobre ex-Venerável, às vezes adoçar um pouco a sua angústia, e é por isso que o Cobridor pode se dirigir diretamente ao Venerável Mestre sem passar pelos Vigilantes. Mais a sério, é uma forma simbólica de afirmar sua capacidade de não precisar de uma transmissão de palavra triangulada, portanto, dominar suficientemente aquilo que precisa ser dito, como dizer, e não precisar mais adquirir a temperança necessária para esta abordagem.

Bem entendido, estas virtudes acordadas ao Cobridor originam-se tanto de sua função quanto da real capacidade daquele que a ocupa de ter superado ou não este obstáculo. Além disso, durante a cerimônia de posse, o Cobridor presta juramento no Altar, na mesma condição dos principais oficiais da Loja, e não é apenas nomeado entre as colunas. Sua instalação não se faz “por último”, como se se atribuísse uma lógica linear ao desenrolar  da cerimônia, mas “sob cobertura” dos outros oficiais tendo jurado, uma posição que confirma sua qualidade de defensor da loja e de seus ocupantes, mas igualmente suas prerrogativas de ex-Venerável Mestre.

Há, portanto, uma pequena ambivalência, mas esta é necessária; no ritual de instalação entre o espírito e a letra, a letra quase qualifica o Cobridor como recluso, e o espírito que lhe empresta, ao contrário das prerrogativas, um papel menos visível, mas também estrutural. Convém atentar para esta ambivalência quando queremos entender melhor a progressão maçônica: de fato, a ambivalência de um fato não é a transformação de um significado, ela é adicionada por aquele que teria evoluído para outro significado possível.

Quanto ao restante, não passam de questões de caráter, mas nada, em todo caso, será definitivo. Esta separação aparente entre as funções de Venerável Mestre e de Cobridor, muito distante, é até mesmo um pouco caricatural em sua formalização moralista, tal como vista no ritual, não terá de igual, na minha opinião, a não ser a diversidade e a nuance de comportamentos diante desta tradução simbólica desde o Oriente em direção ao Ocidente. Falamos somente de tradução e não apenas de descida, porque o Cobridor normalmente está localizado no ocidente de sua loja, mas também deslocado em direção ao norte e não no centro ou em direção ao sul. Podemos ver nisso um meio de se apoiar sobre o caráter discreto, de contenção necessária, que o novo Cobridor deve, a partir de agora, aplicar quanto à sua influência sobre a loja, posição ao norte que lhe permite meditar sobre a  relatividade das coisas. Vemos aqui a necessidade de, desculpem o neologismo, não “frontalizar” a relação entre o Venerável Mestre atual  e o Cobridor, e “suavizar” esta ligação se isso for necessário. Já observamos, de fato, em lojas de diferentes graus e de todos os gêneros, a atitude latente de um Cobridor cioso de suas antigas prerrogativas, de desafiar a autoridade do Venerável Mestre através de intervenções tão numerosas quanto inúteis.

A espada que o Cobridor possui não deve ser dirigida para o interior da loja, mas para fora e, usando  uma metáfora um pouco simplista, lutar contra demônios externos, porque agora estamos em um ambiente fechado, onde as divergências, se tiverem que existir, devem permanecer ligadas ao exercício iniciático, e não são, portanto, de responsabilidade do irmão Cobridor. A espada não é realmente portada pelo cobridor, a não ser quando ele se levanta, se aproxima da porta da loja, seja para sair da loja para verificar a regularidade da abertura dos trabalhos, ou a regularidade de  um irmão que chega.

O Cobridor está, assim, de certa forma armado para um eventual combate contra elementos capazes de perturbar o bom andamento dos trabalhos. Ele pode passar instantaneamente do meio sagrado ao ambiente profano, o que demonstra, nele, a necessidade de maturidade iniciática. É algo, acreditamos, sobre o que se deve meditar, em relação à constância com que um iniciado deve fazer prova diante da variabilidade de seu ambiente.

Encontramos, no colar usado pelo irmão Cobridor, aquilo que no ritual de instalação significa um elo existente entre o Venerável Mestre e o Cobridor, ou seja, uma espada flamejante, uma relíquia do passado recente, em que todos os outros oficiais carregavam o emblema da sua função do momento.

Há, portanto, sem insistir demais sobre este ponto, alguma coisa no estabelecimento da ligação virtual com o Venerável Mestre – Cobridor que se origina da vigilância e da intemporalidade e, portanto, de uma possível abertura sobre o espiritual incorporada à temporalidade necessária de outras funções. Um último ponto é o sentimento subjetivo e variável, inclusive em um mesmo indivíduo, que desperta o local ou o assento do Cobridor. É o sentimento de ser o irmão mais isolado da loja, não só do Venerável Mestre, mas também do conjunto de irmãos, a posição ocupada pelo Mestre de Harmonia variando de uma loja para outra.

Existe um duplo aspecto relacionado com este sentimento: primeiro, um lado incontestável de “descanso do guerreiro” acampado no fundo, ou à entrada da loja, dependendo como isso é entendido e que permite abarcar o conjunto da loja; depois há também, e este é certamente o que provoca às vezes intervenções excessivas de parte do Cobridor, um sentimento de “aposentadoria” compulsória.

O amplo espaço de movimentação diante do Cobridor, aliado a esta incontrolável impressão de estar preso ao Ocidente poderia levar a se pensar em um esplêndido sentimento de isolamento.

É verdade que a posição do Cobridor pode ser sentida como uma espécie de exílio, se ele considera que a sua terra natural era o Oriente, mesmo que, nós maçons, saibamos não sermos proprietários de nenhuma das  funções simbólicas.

O exílio evoca um estado de “aposentadoria” e pode, portanto, levar ao fortalecimento de todos os instintos, com o risco de vê-los exacerbados. Esta necessidade favorece a interiorização daquilo que se conheceu, seja favorecendo a idealização dessa mesma lembrança, e é lá onde está o perigo.

Voltemos ao Antigo Testamento: tanto o Êxodo quanto o Exílio nos dão a imagem de uma fuga sem retorno, ambos devem ser abordados como um todo, como dois pontos ligados por um traço; o antes e o depois. Assim, o Exílio pode exacerbar as ligações pelas lembranças de uma pertença roubada e pela esperança de um retorno, o que não corresponde, é claro, ao que se precisa esperar dessa função.

Autor: Didier Thierry

Tradução: José Filardo

Fonte: Revista BIBLIOT3CA

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A eventual promiscuidade entre Maçonaria e poderes, sejam eles políticos, ou outros…

Autoindustrie: Trend zu immer größeren Fusionen und Übernahmen - autohaus.de

Qualquer sociedade dos tempos modernos é sujeita, de forma clara ou não, à influência de grupos organizados que, intencionalmente ou não, procuram influenciar “a sua trajetória” em função dos seus interesses. Se um desses grupos puder ter um nome, e esse nome for uns dos tradicionalmente identificados como “de risco”, então está criada uma mistura delicada, até porque será certamente visada pela comunicação social.

Assumo que sou maçom… e faço-o com a duplicidade de quem se sente orgulhoso de o ser, e de quem sente que quer dar… unicamente dar, sem estar a pedir que lhe deem. Infelizmente, a nossa sociedade parece não conseguir visualizar uma coisa sem a outra… possivelmente é a isto que chamam a sociedade materialista, traduzida naquela “famosa” frase – ninguém dá nada a ninguém.

Toda a polêmica que ocorre periodicamente, relacionando políticos com maçons ou maçons com interesses obscuros e/ou ilegais, é um claro sinal dos tempos em que vivemos – perdemos valores, perdemos a nossa capacidade crítica, engolimos tudo o que nos impingem, mas preferimos centrar-nos em identificar culpados, de preferência “culpados de estimação” – aqueles que podem sempre ser os responsáveis, até porque estão tão ocupados em fazer bem, que não têm tempo para se defender.

… e nada vende mais jornais do que uma boa “conspiração” orquestrada por uma organização de quem se sabe quase tudo, mas de quem se ignora quase tudo. A Maçonaria é uma dessas organizações: somos discretos, não fazemos alarde do que fazemos de bem, toda a gente acredita que temos uns segredos, que não temos; em resumo – é para desconfiar…

Não pretendo afirmar que todos os maçons são “impolutos”. Por mais apertado que seja o nosso método de seleção, procurando identificar homens cuja prioridade seja crescerem e tornarem-se Homens, haverá sempre alguns erros de “casting”… pessoas que usam o que for preciso para seu benefício pessoal. Contudo, esta incapacidade de ler as pessoas na sua totalidade, identificando as suas reais intenções, não deve e não pode levar a confundir o trigo com o joio.

Um maçom, que o é de verdade, procura melhorar, ajudar, dar a mão… contribuir para um homem melhor e para uma sociedade melhor. Compete-nos assegurar que assim é, e compete-nos impedir que a Arte Real seja utilizada para projetos individuais ou coletivos que nada tenham a ver conosco e com os ideais que defendemos.

Autor: António Jorge

Fonte: Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues

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Magnificência – a virtude de saber-se digno de honra

Os Sete Magníficos (1960) | A Grande Ilusão
Os Sete Magníficos (1960)

“(…) olhar menos à verdade do que à opinião dos outros, é próprio de um covarde. ” (Aristóteles)

Segundo Aristóteles, megalopsykhia (a magnanimidade, o apreço, o alto apreço) é a postura correta em relação ao maior dos bens exteriores, a saber, a honra.

Franco e verdadeiro, levando os outros em consideração, magnânimo é quem age de acordo com a areté (excelência).

Versemos sobre essa disposição de caráter que, quando em falta, revela indevida humildade, quando em excesso, demonstra vaidade.

Sendo a honra, a finalidade comum de todas as virtudes, indubitavelmente honroso, o magnificente inspira o que tantos desejam, a saber, admiração.

Comumente, deter poder e riqueza confere distinção, e é na explicitação (no uso e emprego) disso que vários intentam angariar admiração. Muitos honram quem possui poder e riqueza, mas só merece ser honrado o ser humano bom, pois dispor desses atributos sem ser virtuoso não têm por que alimentar a pretensão de fazer jus ao epíteto de “magnânimo”, o que implica numa virtude perfeita.

Quanto às posses, as atitudes em relação aos gastos têm sido reveladoras dos princípios e dos valores que permeiam a vida dos indivíduos.

Extravagantes, os vaidosos se exibem, não por terem em vista a honra, mas por pensar que ao ostentar riquezas serão admirados. Ponderemos o quão longe estão da genuína magnanimidade.

Espíritos que têm a si mesmo em altíssimo apreço não ambicionam as coisas vulgarmente acatadas, pois, dotados de um caráter que basta a si mesmo, a pessoa verdadeiramente magnânima se arroga o que corresponde aos seus méritos, ao que não pode ser comprado, que sequer tem preço, mas elevado valor.

Altivo, possuidor de bom e nobre caráter, seria indecoroso para um indivíduo magnânimo fugir ao perigo, praticar atos vergonhosos, incorrer em injustiça.

É sobretudo por honras e desonras que o magnânimo se interessa, e as honras que forem grandes e conferidas por homens bons, ele as receberá com moderado prazer, mas as honras que procedem de pessoas quaisquer e por motivos insignificantes, ele as desprezará, visto não ser isso o que merece.

Quem aspira à magnanimidade irá se conduzir com moderação no que diz respeito ao poder, à riqueza e a toda boa ou má fortuna que lhe advenha, e não exultará excessivamente com a boa fortuna nem se abaterá com a má sorte.

O homem magnânimo despreza respaldado em julgamento justo, mas os ordinários o fazem sem que haja motivo sério.

É magnânimo saber que há condições em que não vale a pena viver. É também característico de quem faz jus à magnanimidade não pedir nada ou quase nada, mas prestar auxílio de muito bom grado. E adotar uma atitude digna em face das pessoas que desfrutam de alta posição e são favorecidas pela boa fortuna.

É coisa difícil e grande marca de altivez mostrar-se superior aos de classe elevada, embora seja fácil com os de classe mediana.

Sem dúvida, uma conduta altiva ao se relacionar com pessoas superiores em poder e riqueza não é sinal de má educação, mas altivez diante dos humildes é vulgar, afirma o Estagirita.

À magnanimidade convém sermos francos em nossos ódios e amores, falarmos e agirmos abertamente:

“(…) ocultar os seus sentimentos, isto é, olhar menos à verdade do que à opinião dos outros, é próprio de um covarde. ”.

A franqueza do magnânimo provém de certo desdém por miudezas.

Por não ser escravo de ninguém, é incapaz de fazer com que sua vida gire em torno de outro (coisa de aduladores, que sequer respeitam a si próprios) e não guarda rancor por ofensas que lhe façam, prefere relevá-las.

É avesso a maledicências e conversas fúteis, pois não fala sobre si mesmo nem sobre os outros e tampouco fica alardeando seus feitos. Também não sucumbe aos elogios que lhe fazem. A tranquilidade paira sobre as atitudes, a fala e o modo de portar-se de uma pessoa verdadeiramente magnânima, pois quem costuma levar poucas coisas a sério em nada se apressa.

Como afirmamos no início, quem está aquém da magnanimidade é indevidamente humilde, e quem o ultrapassa é vaidoso. Ponderemos sobre esses extremos.

As pessoas vaidosas aventuram-se a honrosos empreendimentos que não tardam a denunciá-las pelo que são. Adornam-se com belas roupas, ares afetados e coisas que tais, desejam que suas boas fortunas se tornem públicas, tomando-as para assunto de conversa, como se desejassem ser honrados por causa delas.

É vaidoso aquele que se julga digno de grandes coisas sem possuir qualidades para tanto. Desdenhosos e insolentes, sem virtude não é fácil carregar com elegância os bens da fortuna, pondera o filósofo.

Vaidosas, exibidas, essas pessoas costumam se julgar superiores aos demais, desprezando-os, proceder como virtuosos está fora de seu alcance, embora imitem o homem magnânimo, excedem em relação aos méritos próprios.

Em contrapartida, é indevidamente humilde, diz Aristóteles, o homem que se julga menos merecedor do que realmente é. Se comparado às pretensões do magnânimo, a pessoa indevidamente humilde revela-se deficiente em confronto com os seus méritos próprios.

O que é digno de coisas boas e ainda assim, indevidamente humilde, está roubando de si mesmo daquilo que merece, e parece ter algo de censurável porque – excessivamente modesto –  não se julga digno de boas coisas e também parece não se conhecer, do contrário desejaria as coisas que merece.

Ambas disposições de caráter são típicas de tolos, no entanto, são vícios que, ainda que equivocados e um tanto indecorosos, não desonram ninguém, até porque nem são nocivas aos demais. Contudo, a humildade indébita se opõe ainda mais à magnanimidade do que a vaidade, tanto por ser mais comum como por ser ainda pior:

“Quem se considera indigno de nobreza e riqueza irá se abster de ações e empreendimentos nobres.”

Mas a pessoa verdadeiramente magnânima, visto merecer mais do que os outros, deve ser boa no mais alto grau, pois o melhor sempre merece mais, e o melhor de todos é o que mais merece, conclui o filósofo.

Autora: Luciene Felix Lamy

Fonte: Blog Conhecimento sem Fronteiras

Referência

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco.

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