Vícios e Virtudes

O título desta Prancha decorreu de conversas com o meu Irmão padrinho, no trajeto de todas as quartas-feiras para a nossa Oficina, sobre a escolha de um tema complementar aos trabalhos que eu havia apresentado anteriormente a respeito da Terceira Instrução do Segundo Grau.

Repercutindo os temas complexos daquele trabalho, e aprofundando aspectos da filosofia iniciática, disse-lhe que havia me defrontado de uma forma embaraçosa com os questionamentos iniciais provocadores sobre “O que é a vida? Para que ela serve? Qual o seu fim?”, os quais lançam desafios ao livre pensador na direção da busca da “Verdade” e da necessidade de “Meditação” sobre a temática.

No processo de discussão, relatei-lhe que sempre retornava à minha mente aquelas perguntas do ritual de iniciação sobre o entendimento da Virtude e o que pensava ser o Vício, pois somente se pode trabalhar no sentido do aperfeiçoamento daquele e na desconstrução deste com o perfeito e justo entendimento dos respectivos limites de cada conceito e seus reflexos em nossa vida. Afinal, para isso eu entendia que meditar sobre a finalidade da vida seria um passo importante para começo de um plano de ação mais efetivo no sentido de dar concretude ao levantar templos à virtude e cavar masmorras ao vício, de forma a vencer paixões e submeter vontades, para o esperado aprimoramento espiritual.

Assim, recebi a sugestão do prezado Irmão para aprofundar o tema envolvendo Vícios e Virtudes.

Daí, deparei-me, na busca de literatura a respeito, com um texto anônimo, baixado da internet, sobre a “Finalidade da Vida”, que no processo de aquecimento preliminar apresentei no “Quarto-de-Hora de Estudos” do dia 09.06.10. No referido texto se afirma que ”a finalidade da vida terrena é o aprimoramento espiritual”. Prossegue o texto dizendo: “Tudo aqui na Terra são meios de se aprimorar espiritualmente. O estudo, o trabalho, o casamento, o lazer, etc., são meios de a pessoa evoluir”.

Não se pode olvidar que esse processo de evolução tem um ritmo diferenciado para cada indivíduo e, fazendo uma analogia com a mãe natureza, a profundidade das raízes que cultivamos, fortalecidas nos problemas enfrentados, nas penas e nas quedas, aí envolvida a construção dos nossos valores mais sagrados, nos dá forças necessárias para enfrentar a caminhada desafiadora de superação lançada pelo Grande Arquiteto do Universo, que sempre nos disponibiliza a inteligência como arma necessária para vencer as vicissitudes e romper as barreiras da ignorância.

Entretanto, esse aprimoramento espiritual passa por reflexões sobre o conhecimento que temos de nós mesmos, da consciência da nossa ignorância, que nos remete à inscrição do “conhece-te a ti mesmo” insculpida no Templo de Delfos, inspirada em Sócrates (470 ou 469 a.C.), onde se lembrava aos homens que eles não passavam de meros mortais e que nenhum homem pode fugir ao seu destino. Este lema Socrático estimula a consciência racional de si mesmo em cada ser humano, para organizar a própria existência, pois não somos o mesmo em todas as situações de nossa vida atribulada, “por isso chamamos o correto reconhecimento de si próprio de a essência da Sabedoria humana, pois o homem não cessa e não deve cessar nunca de aprender, de se formar e de evoluir”.

Ainda segundo Ubyrajara, “a psicologia nos ensina que quando uma pessoa amadurecida investe em se conhecer, liberta-se de certas restrições psicológicas arbitrárias impostas por sua educação e pela sociedade… o homem ignorante (Pedra Bruta) é uma presa fácil aos preconceitos… o conhece-te a ti mesmo é um chamamento ao homem para o despertar de suas Virtudes”.

Na sequência de seu raciocínio, aduz que “no contexto filosófico, a Maçonaria, através do convite para que o iniciado ‘visite o seu interior‘, procura despertar no Aprendiz o seu pensar em sua própria existência, alertá- lo de seus deveres morais para consigo mesmo; quando o homem se escraviza a dogmas, quando o homem se esquece de si próprio , está a negar-se como SER. O Aprendiz ainda muito próximo do mundo material deve começar a investir no “conhecimento de si mesmo‘ e através de uma transformação individual evoluir como SER”.

Essa evolução pressupõe o entendimento que o único bem a ser conquistado é a Virtude e esta consiste unicamente na coragem do homem de praticá-la, isto é, extirpar de si tudo que não for o bem. E para isso a primeira coisa é aprender a pensar, que demanda o saber ouvir com atenção. “Aprender a pensar é aprender a conhecer, é aprender a discernir, é aprender a concatenar os pensamentos, a aprender a falar”.

Pensar a Virtude é se conscientizar de todos os hábitos constantes que levam o homem para o bem, quer como indivíduo, quer como espécie, quer pessoalmente, quer coletivamente. Para Sócrates a Virtude é o fim da atividade humana e se identifica com o bem que convém à natureza humana. Platão (429-347 a. C.), que desenvolve a doutrina de Sócrates, apresenta a Virtude como meio para atingir a bem-aventurança. Aristóteles (384-322 a. C.) interpreta-a como qualidade ou disposição permanente do ânimo para o bem. Para ele, Virtude é um hábito bom. Santo Agostinho diz que “a virtude é uma boa qualidade da mente, por meio da qual vivemos retamente“. Santo Tomás de Aquino diz que “a virtude é um hábito do bem, ao contrário do hábito para o mal ou o vício“.

Esse aprendizado é estimulado no Aprendiz logo no ritual de iniciação quando o mesmo é instado a extinguir paixões, vícios e os preconceitos mundanos que possui, para viver com Virtude, Honra e Sabedoria. É-lhe ensinado que a Virtude é uma disposição da alma que induz à prática do bem e o Vício tudo aquilo que avilta o ser humano, o hábito desgraçado que arrasta para o mal. Esse processo de aperfeiçoamento é penoso e somente pode ser alcançado com muito trabalho para adaptar nosso espírito e regular nossos costumes pelos eternos princípios da moral, para darmos à nossa alma o equilíbrio de forças e de sensibilidade que constitui a “Ciência da Vida”.

Essa busca deve começar no fundo do coração e pode aparentar-se inicialmente muito fácil. Para isso vale trazer para reflexão a Lenda do Deus Brahma (criador da trindade Hindu), também conhecida como a Lenda dos Devas.

Conta a lenda que, após criar nosso Universo, preparando-o para toda forma de vida que surgiria em seu devido tempo, o deus Brahma deparou-se com grande problema: onde esconder o segredo da chama da criação divina? Pergunta aos demais deuses e recebe de imediato a resposta: – Esconda-o no mais alto dos céus. Brahma pensa e responde: – Não! Haverá de surgir seres inteligentes, que chamarão a si mesmos de humanos, e estes irão construir pássaros maiores dos que criei e descobrirão o segredo. O grupo medita e fala: – Esconda-o no mais profundo dos oceanos. Brahma, novamente, pensa e propõe: – Não! Um dia esse mesmo ser construirá peixes que em pouco tempo encontrarão o segredo. O grupo faz mais uma tentativa e, depois de longa introspecção, sugere: – Esconda-o nas profundezas da Terra. Brahma, responde de imediato: – Também não adiantará! Eles chegarão lá em pouco tempo e terão o segredo em suas mentes. Finalmente Brahma diz ao grupo: – O segredo da chama divina da criação deverá ficar escondido dentro do coração de cada um destes seres que estão por vir. Nada entendendo, perguntam do por que da escolha deste lugar tão fácil de ser achado, a que Brahma responde: – Estes seres que estão por vir jamais procurarão nada no fundo de seus próprios corações.

Então, se podemos facilitar, por que complicar? Para todo veneno temos um antídoto. Numa visão dualista, se o vício “é o oposto da virtude e sendo algo inato ao homem ele deverá ser combatido com o desenvolvimento da virtude através do autoconhecimento”. “O triunfo da virtude é a vitória do homem sobre suas paixões, conquistando a harmonia interior, quando se torna senhor de si”. Quando o homem compreender que o vício é incompatível com sua própria felicidade e até mesmo com sua própria segurança mais ele sentirá a necessidade de combatê-lo e será levado a agir assim por seu próprio interesse na busca da felicidade”.

Para ajudar a humanidade não afeita aos estudos filosóficos e meditações transcendentais, as religiões e assemelhados sempre ocuparam esse espaço procurando definir os contornos dos conceitos de vícios ou pecados a serem evitados e das virtudes necessárias a uma boa orientação para a vida em coletividade.

Os nossos conhecidos sete pecados capitais são quase tão antigos quanto o cristianismo. Mas eles só foram formalizados no século VI, quando o papa Gregório Magno, tomando por base as Epístolas de São Paulo, definiu como sendo sete os principais vícios de conduta: gula, luxúria, avareza, ira, soberba, preguiça e inveja. Mas a lista só se tornou “oficial” na Igreja Católica no século XIII, com a Suma Teológica, documento publicado pelo teólogo são Tomás de Aquino (1227-1274). No documento, ele explica o que os tais sete pecados têm o que os outros não têm. O termo “capital” deriva do latim caput, que significa cabeça, líder ou chefe, o que quer dizer que as sete infrações são as “líderes” de todas as outras.

E, do ponto de vista teológico, o pecado mais grave é a soberba, afinal é nesta categoria que se enquadra o pecado original: Adão e Eva aceitaram o fruto proibido da árvore do conhecimento, querendo igualar-se a Deus. A Igreja até tentou oferecer soluções para os pecados capitais, criando uma lista de sete virtudes fundamentais – humildade, disciplina, caridade, castidade, paciência, generosidade e temperança -, mas os pecados acabaram ficando mais famosos. Afinal, notícia boa não repercute.

Outras religiões, como o judaísmo e o protestantismo, também têm o conceito de pecado em suas doutrinas, mas os sete pecados capitais são exclusivos do catolicismo.

Assim, se conclui que ”desde que o homem começou a ter as primeiras noções de moral, vem-lhe sendo repetido que deve ser bom, que deve elevar sua vida e ser melhor. Entretanto, foi-lhe ensinado positivamente como fazer para alcançar semelhante desiderato?”. Respondendo a este questionamento, González Pecotche afirma que não foi ensinado ao homem como ser melhor, por falta de conhecimento daqueles que pretenderam fazê-lo, ao inculcar no semelhante, desde a mais tenra idade, pensamentos e sugestões incompatíveis com sua razão e sensibilidade. Prossegue, afirmando que sempre se buscou o fácil, o ilusório e sedutor, a fim de conquistar adeptos para uma ou outra seita religiosa ou tendência filosófica.

Na concepção daquele educador, o caminho passa pelo conhecimento, pelo bloqueio e na ação de debilitar e anular todas as deficiências psicológicas que afetam a criatura humana. Ressalta que “é preferível conhecer que inimigos temos dentro, para combatê-los com lucidez mental, a ignorá-los, enquanto ficamos à mercê de sua influência despótica, suportando docilmente a maioria dos desgostos e depressões que diariamente nos acarretam”. Com isso, assegura Pecotche, aquela citação de que “pau que nasce torto morre torto” torna-se inconsistente, pois que, ao modificar as causas que determinam a defeituosa configuração psicológica do indivíduo, modifica-lhe também a vida na totalidade de seu conteúdo.

No aspecto prático da sua doutrina Pecotche chama de deficiência ao pensamento negativo (dominante ou obsessivo) que, enquistado na mente, exerce forte pressão sobre a vontade do indivíduo, induzindo-o de modo contínuo a satisfazer seu insaciável apetite psíquico. Ilustra o autor que essas deficiências, em alguns casos, têm tanta influência na vida do ser humano e se evidenciam de tal maneira, que este é apelidado pelas suas características, tais como: vaidoso, rancoroso, egoísta, teimoso, intolerante e, em outros casos, de presunçoso, hipócrita, fátuo (vaidoso, pretensioso), intrometido, obstinado, néscio, etc. Nesse sentido, é trabalhoso descobri-las e convencer-se de sua realidade e enfrentar a tarefa de erradicá-las da nossa vida.

Para corrigir essas deficiências ou vícios, Pecotche criou a figura da “antideficiência”, que seria a virtude em ação ou forma de pensamento específico para opor-se a elas, para anular o despotismo que o pensamento-deficiência exerce sobre o mecanismo mental, sensível e espiritual do homem, vigiando, repreendendo e paralisando o vício.

Nesse desiderato, o trabalho de localizar e compreender cada deficiência demanda perseverança na vigilância sobre ela. Nessa senda, é indispensável manter-se firme no propósito de superação e adaptação à “antideficiência”. Para ilustrar essa necessidade de perseverar e cuidar, Pecotche traz a metáfora do fazendeiro que tem suas terras invadidas por feras, as quais, após assolar seus campos e sedentas de sangue, se lançam contra sua vivenda, com o objetivo de acabar com ele. Nesta imagem, alguém faz chegar ao fazendeiro armas de fogo para a defesa de sua vida e de seus bens, mas ele não sabe como usá-las. No início as feras se assustam com os estampidos, mas quando não vêm os resultados e se acostumam a eles voltam a atacar.

Nesse contexto, Pecotche afirma que as deficiências ou vícios são feras mentais que destroem os pensamentos e projetos úteis, como acontece com o pessimismo, a obstinação, o descuido, a irritabilidade, a veemência, etc. Essas deficiências afetam a vida psíquica, tal como fazem as enfermidades em relação ao corpo. Ainda segundo ele, não devemos nos iludir acreditando que uma deficiência, por leve ou inofensiva que pareça, possa permanecer em nossa mente sem prejudicar-nos. Para ilustrar novamente, cita o caso do camponês que levou dois filhotes de tigre para criar, presumindo que cresceriam mansos e inofensivos ao seu lado. Certo dia, já crescidos, esqueceu-se de levar-lhes alimento e os mesmos, impelidos pela fome, atiraram-se sobre ele e o devoraram. Vícios, como feras, enquanto não eliminados, serão sempre risco latente.

Portanto, devemos estar alertas e operantes no sentido de vencer as deficiências generalizadas no ser humano, dentre aquelas mais conhecidas e que retirei do rol apresentado por Pecotche, quais sejam: vaidade, falsa humildade, soberba, presunção, impaciência, egoísmo, cobiça, verborragia, rancor, intolerância, teimosia, hipocrisia, negligência, rigidez, petulância, etc. Assim, para quem se propõe a superar essas deficiências deve substituí-las por uma eficiência como objetivo a ser alcançado, onde deverá ser colocado o máximo de empenho. Portanto, na seqüência acima, teríamos a modéstia, sinceridade, humildade, paciência inteligente, desprendimento, honestidade, concisão, bondade, tolerância, docilidade, veracidade, diligência, flexibilidade, cordura (ser cordato), etc.

Além dessas e de outras deficiências e “antideficiências”que enumera, Pecotche destaca ainda uma série de pensamentos negativos que se manifestam esporadicamente e exercem pressão sobre a vontade e promovem um relaxamento circunstancial do juízo, denominados propensões. Estas devem ser também enfrentadas com a firme determinação de vencê-las, tais como as propensões a: adular, prometer, dissimular, iludir, isolamento, exagero, desalento, desespero, desatenção, confiar no acaso, pessimismo, licenciosidade, descuido, etc.

É preciso, pois, acabar com tais deficiências e pensamentos antes que eles acabem conosco, perseverando e assumindo uma condução consciente da vida, tornando-nos seres humanos mais plenos, persistentes no caminho do bem, não postergando a necessária e inadiável evolução interna nesta jornada material do aprimoramento do espírito, efetiva finalidade da vida, conforme avocado no início deste trabalho. Enfim, para uma reflexão mais profunda, vale o alerta do educador, escritor e naturalista norte-americano David Starr Jordan, “sabedoria é saber o que fazer, virtude é fazer”.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Fontes de pesquisa

Ritual e Instrução Grau 2 – R∴E∴A∴A∴ e Manual de Instruções – Grau 1-  R∴E∴A∴A∴

Souza Filho, Ubyrajara. Cognições e Evolução dos Rituais Maçônicos, Londrina (PR): Editora “A Trolha”, maio 2010

González Pecotche, Carlos Eduardo. Deficiências e Propensões do Ser Humano. São Paulo: Logosófica, 11ª Ed, 2005.

Revista Mundo Estranho – site: http://mundoestranho.abril.com.br/religiao/pergunta_287783.shtml

O Maçom Vaidoso e Arrogante

Baixa auto-estima e complexo de inferioridade

Nenhum ditador provocou ou vem provocando tanto dano à Maçonaria quanto o maçom vaidoso, esse sapador inveterado, este Cavalo de Troia que a destrói por dentro sem o emprego de armas, grilhões, ferros, calabouços e leis de exceção. Ele é indiscutivelmente o maior inimigo da Maçonaria, o mais nefasto dos impostores, o principal destruidor de lojas. Ele é pior do que todos os falsos maçons reunidos porque se iguala a eles em tudo o que não presta e raramente em alguma virtude.

Uma característica marcante que se nota neste tipo de maçom, logo ao primeiro contato, é a sua pose de justiceiro e a insistência com que apregoa virtudes e qualidades morais que não possui. Isso salta logo à vista de qualquer um que comece a comparar seus atos com as palavras que saem da sua boca. O que se vê amiúde é ele demonstrar na prática a negação completa daquilo que fala, sobretudo daquilo que difunde como qualidades exemplares do maçom aos Aprendizes e Companheiros, os quais não demora muito a decepcionar. Vaidoso ao extremo, para ele a Maçonaria não passa de uma vitrine que usa para se exibir, de um carro de luxo o qual sonha um dia pilotar. E, quando tem de fato este afã em mente, não se furta em utilizar os meios mais insidiosos para tentar alcançá-lo, a exemplo do que fazem nossos políticos corruptos.

Narcisismo em um dos extremos, e baixa auto-estima no outro, eis as duas principais características dos maçons vaidosos e arrogantes. No crisol da soberba em que vivem imersos, podemos separá-los em dois grupos distintos, porém idênticos na maioria dos pontos: os toscos ignorantes e os letrados pretensiosos.

A trajetória dos primeiros é assaz conhecida:

Por serem desprovidos do talento e dos atributos intelectuais necessários para conquistarem posição de destaque na sociedade, eles ingressam na Maçonaria em busca de títulos e galardões venais, de fácil obtenção, pensando com isso obter algum prestígio. Na vida profana, não conseguem ser nada além de meros serviçais, de mulas obedientes que cedem a todos os tipos de chantagem. Por isso, fazer parte de uma instituição de elite (isso mesmo, de elite!) como a Maçonaria produz neles a ilusão de serem importantes; ajuda a mitigar um pouco a dor crônica que os espinhos da incompetência e da mediocridade produzem em suas personalidades enfermas.

O segundo em quase tudo se equipara ao primeiro, porém com algumas notáveis exceções:

Capacitado e instruído, em geral ele é uma pessoa bem sucedida na vida. Sofre, porém, desse grave desvio de caráter conhecido pelo nome de “Narcisismo”, que o torna ainda pior do que o seu êmulo sem instrução. Ávido colecionador de medalhas, títulos altissonantes e metais reluzentes, este maçom é uma criatura pedante e intragável, que todos querem ver distante. No fundo ele também é um ser que se sente rejeitado; sua alma é um armário de caveiras e a sua mente um antro habitado por fantasmas imaginários. Julgando-se o centro do Universo, na Maçonaria ele obra para que todas as atenções fiquem voltadas para si, exigindo ser tratado com mais respeito do que os irmãos que atuam em áreas profissionais diferentes da dele. Pobre do irmão mais jovem e mais capacitado que cruzar o seu caminho, que ousar apontar-lhe uma falta, que se atrever a lançar-lhe no rosto uma imperfeição sua ou criticar o seu habitual pedantismo! O seu rancor se acenderá automaticamente e o que estiver ao seu alcance para reprimi-lo e intimidá-lo ele o fará, inclusive lançando mão da famosa frase, própria do selvagem chefe de bando: “Sabe com quem está falando!!!” Desse modo ele acaba externando outra vil qualidade, que caracteriza a personalidade de todo homem arrogante: a covardia.

O número de irmãos que detesta ou despreza este tipo de maçom é condizente com a quantidade de medalhas que ele acumula na gaveta ou usa no peito. Na vida profana seus amigos não são verdadeiros; são cúmplices, comparsas, associados e gente que dele se acerca na esperança de obter alguma vantagem. E nisso se insere a mulher com a qual vive fraudulentamente. Todos os que o rodeiam, inclusive ela, estão prontos a meter-lhe um merecido chute no traseiro tão logo os laços de interesse que os unem sejam desfeitos. O seu casamento é um teatro de falsidades e o seu lar um armazém de conflitos. Raramente familiares seus são vistos em nossas festas de confraternização. Quando aparecem, em geral contrariados, não conseguem esconder as marcas indeléveis de infelicidade que ele produz em seus rostos.

Em sua marcha incessante em busca de distinções sociais que supram a sua insaciável necessidade de auto-afirmação, é comum vermos este garimpeiro de metais de falso brilho farejando outras organizações de renome, tais como os clubes Lyons e Rotary, e gastando nessas corridas tempo e dinheiro que às vezes fazem falta em seu lar. A Maçonaria, que tem a função de melhorar o homem, a sociedade, o país, e a família, acaba assim se convertendo em uma fonte de problemas para os seus familiares; e ele, em uma fonte de problemas para a Maçonaria.

Um volume inteiro seria insuficiente para catalogar os males que este inimigo da paz e da harmonia pratica, este bacilo em forma humana que destrói nossa instituição por dentro, qual um cancro a roer-lhe as células, de modo que limitar-nos-emos a expor os mais comuns.

Comportamento em Loja

Incapaz de polir a Pedra Bruta que carrega chumbada no pescoço desde o dia em que nasceu, de aprimorar-se moral e intelectualmente, de lutar para subtrair-se das trevas da ignorância e dos vícios que corrompem o caráter; de assimilar conhecimentos maçônicos úteis, sadios e enobrecedores, para na qualidade de Mestre poder transmiti-los aos Aprendizes e Companheiros, o que faz o nosso personagem? Simplesmente coloca barreiras em seus caminhos, de modo a retardar-lhes o progresso!

Ao invés de estudar a Maçonaria, para poder contribuir na formação dos Aprendizes e Companheiros, de que modo ele procede? Veda a discussão sobre assuntos com os quais deveria estar familiarizado, fomentando apenas comentários sobre as vulgaridades supérfluas do seu cotidiano! Ao invés de encorajar o talento dos mesmos, de ressaltar suas virtudes e estimular o seu desenvolvimento, o que faz ele? Procura conservá-los na ignorância de modo a escamotear a própria! Ao invés de defender e ressaltar a importância da liberdade de expressão e da diversidade de opiniões para a evolução da humanidade, como ele age? Censura arbitrariamente aqueles cujas ideias não estejam em harmonia ou sejam contrárias às suas! Ao invés de fomentar debates sobre temas de importância singular para o bem da Loja em particular e da Maçonaria em geral, como age ele? Tenta impedir a sua realização por carecer de atributos intelectuais que o capacitem a participar deles! E, nos que raramente promove, como se comporta? Considera somente as opiniões daqueles que dizem “sim” e “sim senhor” aos seus raramente edificantes projetos!

Tal como o maçom supersticioso, este infeliz em cujo peito bate um coração cheio de inveja e rancor nutre ódio virulento e indissimulado pela liberdade de expressão, que constitui um dos mais sagrados esteios sobre os quais repousam as instituições democráticas do mundo civilizado, uma das bandeiras que a Maçonaria hasteou no passado sobre os cadáveres da intolerância, da escravidão e da arbitrariedade.

Dos atos indecentes mais comumente praticados por este falsário, o que mais repugna é vê-lo pregando “humildade” aos irmãos em Loja, em particular aos Aprendizes e Companheiros, coberto da cabeça aos pés de fitões, jóias e penduricalhos inúteis, qual uma árvore de natal. Outro é vê-lo arrotando, em alto e bom som, ter “duzentos e tantos anos de Maçonaria” e exibindo o correspondente em estupidez e mediocridade. O terceiro é vê-lo trajando aventais, capas, insígnias, chapéus e colares, decorados com emblemas que lembram tudo, exceto os compromissos que ele assumiu quando ingressou em nossa sublime e veneranda instituição.

Cego, ignorante e vaidoso, nosso personagem não percebe o asco que provoca nas pessoas decentes que o rodeiam.

Como já foi dito, a Maçonaria serve apenas de vitrine para ele. Como não é possível permanecer sozinho dentro dela sem a incômoda presença de outros impostores –os quais não têm poder suficiente para enxotar–, ele luta ferozmente para afastar todo e qualquer novo intruso, imitando alguns animais inferiores aos humanos na escala zoológica, que fixam os limites de seus territórios com os odores de suas secreções e não toleram a presença de estranhos. Qualquer irmão que comece a brilhar ao lado desta criatura rasteira é considerado por ela inimigo. A luz e o progresso do seu semelhante o incomoda, fere o seu ego vaidoso. Por este motivo tenta obstaculizar o trabalho dos que querem atuar para o bem da loja; por isso recusa-se a transmitir conhecimentos maçônicos (quando os possui) aos Aprendizes e Companheiros, sobretudo aos de nível intelectual elevado, ou os ministra em doses pífias, para que futuramente não sejam tomados como exemplos e ofusquem ainda mais a sua mediocridade. Um maçom exemplar, íntegro, que cumpre rigorosamente os compromissos que assumiu quando ingressou em nossa Instituição, não raro converte-se em alvo de suas setas, pois seus olhos míopes não conseguem ver honestidade em ninguém; sua mente estragada o interpreta como potencial “concorrente”, que nutre interesses recônditos semelhantes aos seus.

O maçom arrogante mal conhece o significado de nossas belas e simples alegorias. Se as conhece, as despreza. Sua mente acha-se preocupada unicamente com o sucesso de suas empreitadas, em encontrar maneiras de estar permanentemente ao lado das pessoas cujos postos ambiciona. Fama e poder são os seus dois únicos objetivos, tanto na vida maçônica, como na profana. As palavras Liberdade, Igualdade e Fraternidade, que compõem a Trilogia Maçônica, não fazem parte do seu vocabulário, e com freqüência é visto pisoteando os valores que elas encerram. A história, a filosofia e os objetivos de nossa Veneranda Instituição não lhe despertam o menor interesse, pois é frio, calculista, e não tem sensibilidade nem conhecimento para compreendê-los e assimilá-los. Ele é diametralmente oposto ao que deve ser o maçom exemplar, em todos os pormenores. É a antítese de tudo o que a Maçonaria apregoa e deseja de seus membros : uma criatura vil e rasteira que semeia a discórdia, afugenta bons irmãos, e termina por destruir ou fragmentar a Loja (ou lojas), resultado às vezes de anos de trabalho árduo, caso ela teime em não se colocar sob a sua batuta ou se mostre contrária às suas aspirações egoístas.

A insolência desse tipo de maçom – e também o asco que destila –, vai crescendo conforme ele vai “subindo” nos altos graus (ou graus filosóficos). Sentindo-se importante por ter sido recebido em determinado grau, com a pompa digna de um rei, ele passa a considerar-se superior aos irmãos de graus “inferiores”, em particular aos Aprendizes e Companheiros, ignorando o que reza o segundo Landmark, que estabelece a divisão da Maçonaria Simbólica em apenas três graus. Mas reservar um tempo para dedicar-se à sua Loja, um momento para confraternizar com irmãos íntegros e honestos, ler algo de útil que possa servir de instrução a si e aos demais, essas são as suas últimas preocupações. O seu tempo disponível ele o reserva inteiramente às festinhas fúteis, nas quais pode ser notado e lisonjeado, onde pode ajuntar-se a outros maçons falsos e vulgares, prontos para enterrar-lhe um punhal nas costas na primeira oportunidade que surgir.

Perceba o leitor com que velocidade esse “irmão” deveras atarefado arruma tempo quando é chamado para arengar em um tablado representando a Maçonaria! Note a pontualidade com que chega na passarela onde vai desfilar e ser fotografado com os seus paramentos. Observe como ele fica cheio de si quando é agraciado com uma rodela de lata qualquer ou vê o seu lindo rosto estampado nas páginas de alguma revista maçônica! Perceba como se curva aos pés dos que tem mais prestígio e poder do que ele! Note como ele os bajula!

Este prevaricador vagabundo não trabalha e não deixa os outros trabalhar para não ter de arregaçar as mangas também. Quando se mete a ministrar instruções aos Aprendizes e Companheiros ele o faz de modo precário, sem estar familiarizado com elas. Raramente sabe responder questões que os irmãos lhe dirigem. Tergiversa sempre com a mesma resposta: É preciso pesquisar! Ele não faz nada porque não sabe fazer nada, não quer aprender nada, e no íntimo não gosta da Maçonaria e não ama seus irmãos! Nossas “reuniões” são para ele um fardo. Nas vezes que comparece em loja, exige ser ouvido e jamais dá atenção aos que falam aos demais, obrando para que a sua palavra sempre prevaleça nas decisões a serem tomadas. Quando o seu nome não consta na Ordem do Dia – o que significa que não terá a oportunidade de exibir a sua hipocrisia ou arengar as suas imposturas –, retira-se antes da “reunião” terminar ou, quando permanece, o faz com o olhar fixo no relógio.

Campeão em faltas e em delitos, quando este falso maçom comparece à Loja ele o faz para dar palpites indevidos, censurar tudo e todos, propor projetos mirabolantes e soluções inconsistentes com os problemas que surgem em nossas relações. Jamais faz uso de críticas sadias e construtivas, aquelas que apontam erros e sugerem soluções para os mesmos.

Comportamento na Sociedade

Passemos agora à exposição do comportamento deste detestável impostor na sociedade, outra praia onde adora se exibir, embora poucos o notem.

Ele circula pelas ruas do bairro onde vive de nariz empinado, cheio de empáfia, tentando vender a todos, sobretudo aos mais humildes, a falsa imagem de alguém assaz importante. Ostentando correntes, anéis, gravatas, broches e outros adereços maçônicos – alguns com peso suficiente para curvar o tórax –  tão logo se acerca de uma roda de amigos, ou melhor, de gente com paciência para aturá-lo, ele passa a ensejar conversas maçônicas desnecessárias, fazer alarde de sua condição de maçom e de ser membro de uma poderosa “gangue”, com o único propósito de colocar-se acima deles. Quando, porém, um profano lhe dirige algumas perguntas a respeito de nossa instituição, movido por uma sadia e natural curiosidade, ele responde geralmente o que não sabe, fitando-o de cima para baixo, com desprezo, como se estivesse encastelado sobre um pedestal de ouro.

Como o caracol, este tipo de maçom costuma deixar um rastro visível e brilhante por onde trafega, tornando muito fácil a identificação sua e do seu paradeiro, que é o que ele efetivamente deseja, embora afirme o contrário. Mas, para a sua infelicidade, pouca gente dá importância aos seus recados vaidosos. O automóvel, o lar e o local onde trabalha correspondem ao exoesqueleto deste animal, ao passo que os adereços e os objetos maçônicos que ele usa e espalha por todos os lados à gosma que libera. Impulsos provenientes das regiões recônditas do cérebro onde se alojam o seu complexo de inferioridade e a sua baixa auto-estima dizem a ele onde derramá-la.

Do mesmo modo que prostitui nossa instituição, transformando- a em templo da vaidade, ele corrompe também a natureza de muitos objetos inanimados, desvirtuando os propósitos para os quais foram concebidos. Os vidros do automóvel não servem para proteger os passageiros do vento e da chuva, mas para ostentar adesivos maçônicos escandalosos que avisam os transeuntes e os motoristas dos carros que estão na retaguarda que “alguém muito importante” maneja o volante. As paredes da sua casa não servem como divisórias, mas de outdoors para a colagem de diplomas maçônicos que levam o seu nome. O isqueiro ele usa para tentar acender um cigarro que talvez nem fume ou sabendo que ele não funciona mais (o importante é as pessoas notarem o compasso e o esquadro colados nele!). A caneta com compasso encravado na tampa ele usa para mostrar que é maçom àquele que está perto do papel no qual finge estar escrevendo alguma coisa. O relógio da sala não serve para mostrar a hora certa, mas para dizer aos visitantes que o seu dono é maçom. As estantes da sala não servem para acomodar bons livros, mas para armazenar troféus, medalhas, placas comemorativas, mimos e tudo o mais que avise que há um maçom por ali. O mesmo vale para pratos, talheres, lenços, gravatas, bonés, bolsas, bonecos, malas, bengalas e, pasmem, até revólveres e espingardas! Enfim, qualquer objeto que possa lhe servir de propaganda ele o corrompe.

Prejuízo

O maçom arrogante sabe muito bem que é um desqualificado moral, que carece das virtudes necessárias para dirigir homens de caráter, mas mesmo assim quer assumir o cargo de Venerável e nele perpetuar-se. Insolente, julga-se o único com aptidão para empunhar o malhete, menoscabando a capacidade dos demais irmãos. Sempre que pode procura manobrar as eleições para que os cargos em loja sejam preenchidos por integrantes de sua medíocre camarilha, que, uma vez empossada, vai aprovar seus atos malsãos e alimentar a sua vaidade. Dessa maneira ele trava as rodas da Loja, impedindo-a de progredir, de desfraldar as suas velas.

Nosso personagem costuma mais faltar do que comparecer às reuniões, como já foi dito. Quando o faz, é quase sempre para tentar colocar-se em destaque, humilhar alguém, violar regulamentos, e fazer prevalecer os seus caprichos pessoais.. É claro que ele não age só, pois se assim fosse a sua eliminação seria fácil e sumária. Ele conta com o respaldo de pequenos grupelhos de gente sórdida e submissa, que aprova suas ações, que corrompe e deixa-se corromper. Às vezes conta até com a cumplicidade dissimulada de alguns delegados, que, por motivos políticos ou de ordem pessoal, fazem vista grossa aos seus insidiosos manejos e prevaricam no que constitui uma das mais importantes missões dentro da Maçonaria.

Terminado o período de sua administração como Venerável este impostor passa a meter o nariz em assuntos que não mais lhe dizem respeito, usurpando funções de outros irmãos da loja, incluindo as do seu sucessor. Quer mandar mais do que os outros, quer ser o dono da Loja; quer admitir candidatos sem escrutínio para engrossar a sua camarilha; quer manobrar a todos e violar leis. Expõe os Aprendizes e Companheiros a constantes querelas com outros Mestres, quase sempre motivadas pela vaidade e pela sede de poder.

Especialista em apontar erros nos outros, o maçom arrogante jamais admite um erro seu. Quando, porém, as circunstâncias tornam isso impossível, ele o faz rangendo os dentes e disparando setas em todas as direções, muitas vezes ferindo os poucos irmãos que o querem bem. Além de tudo é um indivíduo vingativo. Caso sofra uma contrariedade qualquer, ou veja descartada uma irracional conjectura sua, ele passa a fomentar intrigas e provocar cismas na loja. Aquele que for investigar as causas que levaram uma determinada oficina a abater colunas notará em seus escombros a marca indelével de sua mão, que muitas vezes deixa impressa com orgulho!

Elemento altamente desestabilizador e perigoso, o maçom vaidoso é o principal responsável pelo enfraquecimento das colunas de uma loja, pela fuga em massa de bons irmãos, e pela decadência da Maçonaria de uma forma geral. Quanto maior for o seu número agindo no corpo da Maçonaria, mais fraca, enferma e suscetível à contração de outros males ela se torna, mais exposta a escândalos e prejuízos ela fica. Sua eliminação é, portanto, condição sine qua nom para a conservação da saúde de nossa Sublime Instituição.

Autor: Ricardo Vidal

Como Matar a sua Loja

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• Não frequente as reuniões, mas quando for lá procure algo para reclamar;

• Se comparecer a qualquer atividade procure falhas nos trabalhos de quem está lutando pela Instituição;

• Nunca aceite uma incumbência;

• Lembre-­se que é mais fácil criticar do que realizar;

• Se a diretoria pedir a sua opinião sobre um importante assunto, responda que não tem nada a dizer e depois espalhe como deveriam ser feitas as coisas;

• Não faça mais do que o absolutamente necessário, porém quando os IIr.’. estiverem trabalhando com boa vontade e com interesse para que tudo corra bem, afirme que sua Loja está dominada por um grupinho;

• Não leia o boletim oficial e muito menos os Informativos; jornais e comunicados da sua Loja;

• Afirme que eles não publicam nada de interessante;

• Se for convidado para qualquer cargo, recuse alegando falta de tempo e depois critique com afirmações do tipo: “Essa turma quer é ficar para sempre nos cargos”;

• Quando tiver divergências com um Ir.’., procure com toda intensidade vingar-se da Instituição. Faça ameaças de abrir processo ético e envie cartas aos membros do quadro com acusações pesadas à diretoria;

• Sugira, insista e cobre a realização de congressos, cursos e palestra;

• E, quando a Loja realizá-­los, não se inscreva, nem compareça;

• Se receber um questionário da Loja solicitando sugestões, não preencha e se os IIr.’. da diretoria não adivinharem as suas ideias e pontos de vista, critique e espalhe a todos que é ignorado;

• Após toda essa “colaboração espontânea” quando cessarem as publicações, o lazer e todas as demais atividades, enfim, quando sua Loja morrer, estufe o peito e afirme com orgulho “EU NÃO DISSE?”.

Autor: Edson Fernando da Silva Sobrinho – M.’.I.’.
ARLS Acácia Sertaneja – GOB
Oriente de Feira de Santana – BA
Adaptação livre do texto publicado na Revista Tecnopan, nº 217

A Vaidade

“A vaidade dos outros é insuportável por ferir a nossa.” (ditado popular)

A mitologia grega registra a história de Narciso, um jovem que se julgava tão belo a ponto de considerar-se semelhante a uma divindade. Foi amaldiçoado e condenado a fixar-se de forma doentia à sua própria imagem refletida na água de um lago por ter rejeitado o amor e causado a morte da ninfa Eco. Impossibilitado de materializar sua paixão, dá cabo à sua vida por afogamento atraído pela sua beleza ao se olhar na água.

Para os gregos, Narciso representava a vaidade e o símbolo da individualidade ou egoísmo. Em contexto mais recente, a atitude tem uma conotação de apego às aparências, vontade de ser aceito, querido e notado, considerar-se melhor que os demais, com uma necessidade pessoal incontrolável de se exibir, receber admiração e aprovação em tudo.

No Livro do Eclesiastes ou do Pregador, Capítulo 1:2, lemos “Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade”. O Livro é atribuído a Salomão, que nele relata sua angústia ao procurar significado e propósito na vida, apesar de todos os prazeres mundanos que desfrutava.

Do ponto de vista teológico, a vaidade é considerada o pecado mais grave, pois é nesta categoria que se enquadra o pecado original: Adão e Eva aceitaram o fruto proibido da árvore do conhecimento, querendo igualar-se a Deus.

No caso vertente, a vaidade tem o seu oposto na humildade ou modéstia. Para Aristóteles, a virtude é a equidistância entre dois vícios: um por excesso, outro por falta. Ele nos alerta sobre a necessidade de sermos prudentes e buscarmos o equilíbrio, o justo meio, onde se situa o respeito próprio, como síntese da perfeição de nossas atitudes e comportamentos.

Não é fácil identificar a vaidade em nós mesmos e os julgamentos da espécie devem considerar atitudes hipócritas que levam à analogia de quem consegue ver um cisco nos olhos dos outros quando tem algo bem maior no próprio olho, conforme advertido no “Sermão da Montanha”.

Mas, condenações e julgamentos à parte, a vaidade é transparente quando os observados demonstram um comportamento de se situar acima dos demais, por quaisquer atributos, sejam estéticos, intelectuais, materiais ou outros que ensejam uma atitude de atrair admiração. Pode ainda se manifestar de uma forma disfarçada, de acordo com objetivos a atingir. Aprofundar nessas perspectivas não é o nosso objetivo, mas dizem os especialistas que muitas vezes o vaidoso o é naturalmente, sem perceber, e vive desempenhando um personagem que escolheu e com os conflitos de encontrar-se a si mesmo.

A forma mais visível da vaidade é identificada em pessoas em postos de comando que, ao se julgarem superiores aos demais, demonstram empáfia, orgulho arrogante e presunção da verdade. Tal vício de conduta gera, muitas vezes, problemas de ordem interna nas instituições e disputas desnecessárias.

São considerados folclóricos os exemplos daqueles que se ufanam em demasia, minimizam suas limitações e, na sua falsa modéstia, dizem que o seu maior defeito é ser perfeccionista. Repercutem em conversas informais, com floreios de pilhéria, as situações de pessoas que estão sempre em busca de um destaque especial, como demonstrado em entidades tais como: clubes de serviço, organizações comunitárias, entidades filantrópicas, sindicatos e assemelhados, onde cargos são disputados apenas para que seu ocupante tenha o nome citado em eventos, conste de listas de convidados, nominatas, anuários ou receba chamado para compor mesas em solenidades, além de ser destinatário de homenagens, sentar em posições privilegiadas e outros mimos, saboreando os aplausos de praxe.

Algumas destas pessoas ficam furiosas quando os protocolos se confundem e não se fazem os devidos anúncios ou encaminhamento para posições privilegiadas na mesa principal, por vezes até abandonando o evento em questão.

Muitos se lembram do burburinho ocorrido em oportunidades em que a leitura do currículo de um palestrante ou orador toma proporcionalmente mais tempo do que a apresentação do tema proposto.

Não obstante, é evidente que sentimentos de repulsa e demonização de tudo o que diga respeito a disputas por cargos e funções não podem ser alimentados, seja em que circunstância for da vida em sociedade, pois existem pessoas verdadeiras e capacitadas, e portanto necessárias, que vislumbram projetos nobres e demonstram paixão e arte naquilo que se propõem a fazer. Afinal, recorrendo à sabedoria popular, tudo deve ser avaliado, com os devidos cuidados, para não se “lançar fora o bebê com a água do banho”, ou seja, ver além da simples aparência ou pretensões para não cairmos em vícios de avaliação prematura ou preconceituosa.

Por seu turno, sabendo que há aqueles que não resistem a um tapete vermelho e ao toque de trombetas, deixam-se levar por elogios, títulos, medalhas, cargos e desmancham-se ao serem ovacionados e aplaudidos, a natureza por sua vez deu asas àqueles que adoram paparicar e alimentar esse vício, sabendo do prazer que também a ação proporciona a esses agentes e dos dividendos que podem eventualmente ser colhidos.

Segundo François de La Rochefoucauld (1613/1680), escritor e moralista francês, um pessimista desencantado com o gênero humano, “a bajulação é a moeda falsa que só circula por causa da vaidade humana”.

Ocorre que sempre avaliamos as situações em que a vaidade se manifesta pelos excessos, pelo incômodo causado. Mas podem ocorrer situações em que se apresenta de forma dissimulada, revestida de certa modéstia, quando a pessoa enaltece boas ações praticadas, como caridade ou ajudas prestadas, como fruto de qualidades ou virtudes que nem sempre se tem, visando a receber aprovação pessoal. Para François de La Rochefoucauld “a necessidade de estima e de admiração está por trás de toda manifestação de bondade, sinceridade e gratidão”.

Por outro lado, a vaidade pode receber avaliação positiva, em especial quando não afeta os outros e está mais ligada à autoestima, como demonstrado em pessoas que querem estar sempre bem e se preocupam com o corpo e a aparência, mantendo-os em evidência. Nestes casos, como em contextos semelhantes, muitos nem chegam a se incomodar, podendo gerar, isso sim, certa concorrência não prejudicial. Afinal, evitando-se os excessos, a natureza do ser humano não pode ser suprimida, mas orientada para o bem.

No âmbito da Maçonaria, sabemos que possíveis vaidades, outros vícios e luxos decantados na vida profana são pacíficos de renúncia no bojo das decisões que fazemos como consequência da opção por sermos aceitos na Ordem, sustentada no tripé da Igualdade, junto à Liberdade e Fraternidade, visando ao bem comum. Contudo, é necessário que se tenha as cautelas necessárias para corrigir os desvios de modo a se evitar que algum Irmão, em nome da vaidade, ultrapassasse os limites e tente submeter sua vontade em detrimento da harmonia geral, provocando discórdia e indisciplina, com possibilidades de desagregar os trabalhos em Loja.

Se no mundo profano os vaidosos disputam posições de destaque, na Maçonaria o obreiro não deve pleitear cargos nem honrarias, realizando apenas e tão-somente os trabalhos que realcem o valor da Ordem, com foco na construção e fortalecimento de relações sinceras, leais e éticas, tendo a convicção de que a vaidade compromete a sustentação das colunas da Loja. A conduta dos Veneráveis e dos Mestres da Loja é a referência para os Aprendizes e Companheiros, que anseiam por bons ensinamentos a ser transmitidos com paciência, prudência e serenidade. Os Mestres precisam estar conscientes da necessidade de estudar e aprofundar as pesquisas e compartilhar seus conhecimentos com os Irmãos e trabalhar para o fortalecimento da loja e da Maçonaria Universal.

O importante para o legítimo Maçom é o seu crescimento espiritual, a sua regeneração e a sua superação sobre a vaidade e outros vícios. Porém, torna-se imprescindível ter em mente que a aceitação nos graus filosóficos não é motivo para ufanismo e pompas ou motivo para considerar-se superior aos demais, pois os mesmos não são exigidos, apenas recomendados, vez que o Grau de Mestre já confere a plenitude da qualidade de Maçom.

Enfim, à parte todos esses conflitos, e como não somos caras-de-pau ou carentes de verniz social, torna-se reconfortante a consciência de que podemos ser distinguidos por nossas qualidades pessoais, por nosso amor ao próximo, educação, gentileza e reputação ilibada, por coerência aos princípios que pregamos, pelos exemplos, pela fidelidade aos familiares e amigos e por não compactuarmos com as injustiças vigentes, manifestando sempre os nossos protestos e indignações quando a situação não se mostra justa e perfeita.

“A vaidade é um princípio de corrupção.” (Machado de Assis)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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