Por que você é maçom?

Eu cresci em um lugar onde a Maçonaria era ilegal – proibida. Poderia significar até mesmo prisão. Às vezes se cochichava cautelosamente que esse grande poeta ou aquele escritor, filósofo ou figura de destaque na história era membro de uma loja, sem entrar em detalhes sobre o que isso significava. Isso deixou minha mente jovem, curiosa – embora não houvesse lugar onde procurar respostas. Além disso, eu não vinha de uma família com a formação habitual de ser maçom. Meus ancestrais eram principalmente camponeses da Transilvânia, comerciantes, pequenos empresários, pessoas simples, trabalhadoras – e os maçons na Europa Oriental, tradicionalmente, eram intelectuais, aristocratas, burgueses ricos, profissionais, artistas. Nunca trabalhadores sem nome! Por acaso, este filho de um comerciante habilidoso e neto de camponeses tornou-se um membro notável dessa classe conhecida como “intelligentsia “: o primeiro graduado universitário de toda a grande família; e o primeiro homem a ganhar a vida através do trabalho intelectual: ensinando, escrevendo jornais, escrevendo e traduzindo livros.

Com o passar do tempo, aprendi mais e mais sobre a história da Arte na minha Transilvânia natal, e na Hungria (para onde me mudei no final dos anos oitenta). Em meus anos de jornalista, uma vez entrevistei o Grão-Mestre da Grande Loja Simbólica da Hungria – eu simplesmente não sabia com quem estava falando na época. Foi, provavelmente, um dos primeiros artigos de jornal falando abertamente sobre maçons na época do colapso dos regimes comunistas no Bloco do Leste Europeu [1]. Para meu interesse pessoal, até consegui alguns folhetos “reimpressos” para aqueles que buscavam a luz, mas não agi de acordo com eles. Pensando bem, eu não estava pronto.

Durante um jantar de feriado nacional [2] em Budapeste, sentei-me ao lado do marido da diretora do Concerto Festivo no teatro da cidade. O homem usava um pequeno broche na lapela. Quando olhei de perto, ele me disse que era um maçom. E ele me colocou em contato com o mais maravilhoso mentor e professor maçônico que alguém poderia desejar, um ex-Grão-Mestre da Grande Loja [3], Ir. István Galambos. Eu tinha centenas de perguntas e ele era um baú do tesouro em se tratando de conhecimento maçônico; ele podia conversar e dar palestras sobre tópicos maçônicos em pelo menos quatro idiomas. Além disso, teve a paciência de responder todas as minhas perguntas bobas, incentivando minha busca e dando um exemplo de estimular o buscador de luz e (mais tarde) o novato Aprendiz e Companheiro Maçom.

Eu sou um aficionado por história e um pensador racional, eu acho. Como percebi mais tarde, todas as camadas românticas, ocultistas e pomposas do século XIX que foram introduzidas em muitos ramos da “maçonaria” por diferentes autores com grande imaginação (reivindicando raízes antigas e conhecimentos mágicos) poderiam ter me afastado sem ter a chance de conhecer a beleza da simplicidade das lojas maçônicas. Por outro lado, os ideais originais estabelecidos na Era do Iluminismo, muito antes da existência de “Antigos” e “Modernos” (e da reunião décadas depois) entre as grandes lojas e sistemas e rituais ingleses rivais, aqueles ideais de razão, conhecimento, ciência, liberdade e igualdade de homens, representavam uma “coisa” irresistível – eu queria fazer parte daquilo! Meu antigo mentor entendia perfeitamente o que me atraía. Ele me deu livros e então eu conversava com ele sobre o que aprendi com a leitura daquelas obras; ele aproveitou o tempo para se sentar comigo para longas discussões sobre a história muito complicada da Maçonaria Húngara e as diferentes tradições que herdamos de diferentes épocas e, acima de tudo, ele foi um exemplo perfeito de tolerância, bondade, conhecimento e virtude maçônicos.

Na primeira vez, fui ao meu futuro mentor com uma intenção maluca de me inteirar sobre o que é a maçonaria (decidirei mais tarde, disse a mim mesmo). O exemplo do sábio irmão mais velho, como maçom, homem íntegro, seu jeito de ser, deu-me o último impulso; se os maçons são como este homem, eu quero ser um! Além disso, o que eu já sabia sobre tantos grandes luminares da nossa história, que eram maçons. É difícil até mesmo tentar explicar em uma língua estrangeira esse sentimento estranho e orgulhoso para aqueles que não estão familiarizados com minha origem (húngara): tornar-se membro de uma loja maçônica, que foi proibida pelos regimes de extrema direita e esquerda [4] e ditaduras dos últimos duzentos anos, e tornar-se descendente virtual desses grandes homens que moldaram a história e a cultura de nossa nação, tentando trazer uma pequena e humilde contribuição para a conclusão do edifício que começaram a construir.

Uma primeira tarefa mundana que me foi dada, por sugestão de meu querido mentor, foi catalogar a pilha de livros e o número cada vez maior de revistas maçônicas que a nova Grande Loja estava recebendo de lojas fraternas amigáveis ​​e mais ricas e irmãos do exterior. De alguma forma, eles perceberam que minha clássica bolsa de estudos me predestinava a trabalhar com livros (em muitas línguas), então comecei a cumprir meu dever. E duas coisas inesperadas aconteceram: do nada, fui nomeado “Grande Bibliotecário” e, logo depois, passei mais tempo lendo e aprendendo do que catalogando o material impresso em nossa biblioteca. Eu nem sabia que existia tal título ou cargo, e me senti completamente desajeitado entre todos aqueles ilustres senhores mais velhos que mantiveram a luz secretamente viva durante os 40 anos no deserto (como carinhosamente chamavam os anos de ilegalidade), todos os oficiais importantes da Grande Loja – e eu, um Companheiro recém-elevado, mal terminei meu ano de aprendizado, sentado com eles ao redor da mesa nas reuniões da Grande Loja. Ah, a gente tinha que ficar pelo menos um ano em cada curso para aprender as coisas, não tinha pressa… mas eles levavam a igualdade a sério! Provavelmente, não serei lembrado como o notável bibliotecário de todas as coisas maçônicas. Mas não tenho palavras para agradecer a tarefa que me deram de catalogar e organizar todas essas publicações. Era minha “universidade” maçônica – um dia passei horas lendo e tentando entender tudo, no dia seguinte visitei meu bom e velho irmão homônimo e o bombardeei com perguntas. Espero que ele tenha ficado orgulhoso, visto que meu conhecimento continuou crescendo, meu entendimento se aprofundando e, esperançosamente, meu jeito de ser mais maçom.

Enquanto era Companheiro, viajei para terras estrangeiras, assim como os companheiros medievais iam de guilda em guilda, e mais tarde um dia desembarquei no Canadá, já como Mestre Maçom, onde continuei minha jornada maçônica em outro idioma com novos irmãos, mas no mesmo espírito. Ainda uso um broche na lapela porque quero dar a chance a qualquer um que possa ter um interesse genuíno e a disposição de se tornar um maçom, de ter alguém a quem perguntar. Ainda penso com frequência no meu mentor (que partiu para o Grande Oriente) quando tenho que tomar uma decisão na minha vida e fora da loja. Eu nem sonho em conseguir o que ele fez, mas posso tentar ser um maçom digno.

Sou maçom porque nunca conheci homens melhores do que maçons. Sou maçom porque quero viver como maçom.

Autor: Istvan Horvath
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: The Other Mason

*Horvath é Mestre Maçom, Maçom do Arco Real, membro da Philaletes Society, do Quatuor Coronati Correspondence Circle e da Scottish Rite Research Society. 

Notas

[1] – 1989-1990 

[2] – 23 de outubro: em 1956 a revolta antissoviética começou neste dia 

[3] – A Grande Loja Simbólica da Hungria foi reconstituída em 27 de dezembro de 1989 e seu primeiro Grão-Mestre foi o Ir. Istvan Galambos.

[4] – A primeira loja no Reino Húngaro foi formada na cidade de Brassó/Brașov/Kronstadt (nomes Hu/Ro/De) na Transilvânia no ano de 1749. O imperador José II então baniu a Maçonaria em 1795 em todo o território dos Habsburgo Império. Em 1868, uma loja foi oficialmente estabelecida em Budapeste, que foi reconhecida pela UGLE no ano seguinte. A Maçonaria na Hungria teve sua ‘idade de ouro’ entre 1886-1919, quando se tornou ilegal novamente. Após a Segunda Guerra Mundial, foi reiniciada em 1945, mas as novas autoridades comunistas proibiram sua atividade logo após cinco anos em 1950 e foi proibida até 1989. 

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O vício

Não convém embandeirar demasiadamente porque, aprendi em criança, “cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém…” e na verdade os portugueses “desconfinaram”, mas o Coronavírus não. Ou pelo menos eu estou convencido que “ele” continua por aí. É, de resto, a opinião expressa pelos técnicos de saúde que nestes tempos de pandemia pululam as televisões, rádios, jornais, …

Alguma coisa pode ser aproveitada nestes tempos de ócio pandémico e não havendo nada para fazer ocupei alguns momentos a refletir sobre a vida maçônica.

Isto de refletir é, obviamente, uma boa ocupação quando não há mais nada para fazer.

Estamos claramente em tempo de “vacas magras” (alguma vez não estivemos?).

Empresas (de todas as dimensões) a ressentirem-se da paragem da economia mundial, muitas a fecharem portas e a desaparecerem do mercado, desemprego a aumentar inevitavelmente, famílias inteiras em gravíssimas dificuldades e a esperança em melhores dias, sendo a última coisa a morrer (como de costume), mantém-se muito tênue.

Direi que é maior a desconfiança e o medo do que a esperança em recuperação rápida.

Esta reflexão trouxe-me para os meses do calendário que, para muitos, ficam cada vez “mais compridos” enquanto os vencimentos ficam cada vez mais curtos, obrigando a prodígios de imaginação para a manutenção do dia a dia das famílias. As dificuldades com as obrigações pecuniárias mensais foram em muitos casos disfarçadas, durante estes quase 2 anos de “fechamento”, por efeito das moratórias que a banca promoveu com o apoio estatal. Só que este sistema acabou ou está em vias de acabar com o regresso das prestações a terem de ser cumpridas sob pena de sofrerem as penas previstas nos contratos acordados na época em que ninguém podia prever a pandemia, nem as dificuldades que arrastou. 

Estas dificuldades são evidentemente generalizadas tocando também, e em muitos casos fortemente, alguns Irmãos.

Sabe-se que a admissão na nossa obediência implica uma “contratualização” com o cumprimento de um conjunto de regras comportamentais, morais e éticas, às quais se juntam outras de caráter pecuniário.

Nada a obstar em termos regulamentares. O candidato, enquanto candidato, fica a conhecer as regras que irão balizar a sua existência maçônica se admitido e quando admitido. Mas a vida dá muitas voltas, como bem se constata, e nenhum de nós está livre de ser apanhado por uma qualquer dessas voltas que lhe altere a situação financeira deixando-o em dificuldades no cumprimento dos seus deveres materiais. Todos nós sabemos que as propaladas vantagens de toda a ordem que a Maçonaria proporciona aos seus membros são uma ficção e os Maçons estão tão sujeitos às condições do mercado de trabalho como qualquer outro cidadão. E se, entre os Maçons, há quem viva com o conforto suficiente para não sentir, ou sentir muito pouco, estas dificuldades, também há os que as sentem com todo o peso do sofrimento arrastado pelo desemprego e/ou pela redução dos seus ganhos mensais.

Há, pois, Irmãos em dificuldade e a há que ter em atenção o que se passa com os mais vulneráveis. É um trabalho que compete às Lojas e em particular ao Irmão Hospitaleiro, inteirar-se do que acontece com cada membro da loja, sentir os sinais de dificuldade e movimentar os meios práticos para amenizar essas situações.

“Quem não tem dinheiro não tem vícios” é provérbio antigo e até sou capaz de aceitar esta “boca” com alguma razoabilidade.

Vício (do termo latino “vitium”, que significa “falha” ou “defeito”) é um hábito repetitivo que degenera ou causa algum prejuízo ao viciado e aos que com ele convivem.

Fui buscar esta definição à Wikipédia. Não é grande “coisa”, mas serve para o efeito que pretendo neste momento.

No mundo da Maçonaria os integrantes são escolhidos e reconhecidos como Maçons por quem já é Maçom. Digamos que a integração na Maçonaria, sendo um ato voluntário individual não o é só.

É também, e muito, a vontade de quem já ganhou o reconhecimento de Maçom e reconhece agora, também, naquele outro, as qualidades humanas necessárias para integrar o conjunto dos seus Irmãos.

A responsabilidade do cumprimento dos deveres maçônicos não é exclusivamente individual, é também responsabilidade de quem convidou, desafiou, reconheceu o “outro” para integração na Ordem Maçônica.

E esta responsabilidade deve ser verdadeiramente assumida por toda a Loja, em Irmandade (é esse um dos seus deveres) e em particular pelo seu Padrinho. Por isso, e para isso há “Padrinhos”, na Maçonaria tal como na vida civil corrente, no registo do nome do recém-nascido, no casamento, no batizado… Sempre alguém que se corresponsabiliza pelo bom resultado do ato que é celebrado.

Ora bem, misturar a integração Maçônica com os “vícios” é, pelo menos, leviano!

Tenho para mim que seria muito bom que as causas, os princípios da Maçonaria, se tornassem verdadeiros vícios para todos, mesmo para os não Maçons, daqueles vícios que se agarram à pele, que se integram no sangue correndo pelas veias enchendo o coração e o cérebro. É minha convicção que a Humanidade teria muito a ganhar.

Mas “quem não tem dinheiro não tem vícios” aplicado à Maçonaria, não!

A Maçonaria não é um vício, tal como não é, não pode ser, um degrau de promoção individual, seja ela social ou financeira. Ou ambas…

Autor: JP Setúbal

Fonte: Blog A Partir Pedra

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O Orgulho, a Vaidade e a Ira no “Meio Maçônico”

O PECADO é uma atitude humana contrária às leis divinas tendo sido definido pela Igreja Católica, no final do século VI, durante o papado de Gregório Magno que anunciou para o mundo profano, os sete pecados capitais provenientes da natureza humana: avareza, gula, ira, luxúria, preguiça, soberba e vaidade.

Posteriormente, no século XIII, foram definitivamente incorporados e firmados pelo teólogo São Thomás de Aquino. Por questões práticas, no sentido de alcançar o nosso objetivo relativamente ao tema destacado, trataremos apenas dos três pecados capitais que permeiam com maior realce no nosso meio.

Neste sentido, necessário se faz que definamos cada pecado ou pelo menos identifiquemos suas principais características. Usamos o termo meio maçônico, entre aspas, no título deste artigo para destacar o antagonismo existente entre a postura que deve ser adotada nesse meio e os pecados capitais ou vícios de conduta citados, os quais, infelizmente, os percebemos.

Um dos sete pecados capitais que se manifesta nas pessoas na forma de ORGULHO e ARROGÂNCIA é a SOBERBA, termo que provém do latim –  superbia, é um sentimento negativo caracterizado pela pretensão de superioridade sobre as demais pessoas, levando à manifestações ostensivas de arrogância, por vezes sem fundamento algum em fatos ou variáveis reais.

As manifestações de soberba podem ser demostradas de forma individual ou em grupo. Nos casos de grupos, escolhidos ou eleitos, se firma na crença de que é superior.

A manipulação da soberba, do orgulho e da pretensão de superioridade de um grupo pode mobilizar conflitos sociais, onde os sentimentos de uma massa humana pouco crítica servem aos interesses políticos, econômicos, ideológicos de seu líder.

O soberbo quer superar sempre os outros, mas quando é superado, logo se deixa dominar pela inveja. Quando se sente ameaçado, atingido, procura depreciar os outros e vangloriar-se, sem que para isso se estruture para se superar ou até fazer uma avaliação da vida, dando-se em determinado momento por satisfeito.

O soberbo produz desarmonia na sociedade como estratégia para manter a soberba e se colocar sempre em evidência. A sociedade se tornando harmônica, com todos os indivíduos sendo e vivendo de maneira igual, liberta e fraterna, não propiciará espaço para a soberba.

Agindo com humildade se consegue combater a soberba nas suas mais diversas formas, evitando a ostentação, contendo as vaidades e fazendo com que o soberbo olhe o mundo não apenas a partir de si, mas principalmente ao redor de si.

O orgulho como uma das formas de manifestação da soberba se traduz pela satisfação incondicional do soberbo ou quando seus  próprios valores são superestimados, acreditando ser melhor ou mais importante do que os outros, demostrando vaidade e ostentação que em limite extremo transforma-se em arrogância.

A arrogância é uma outra forma de manifestação da soberba. É o sentimento que caracteriza a falta de humildade. É comum conotar a pessoa que apresenta este sentimento como alguém que não deseja ouvir os outros, aprender algo de que não saiba ou sentir-se ao mesmo nível do seu próximo.

O orgulho excessivo e a vaidade sem limites que se traduz na arrogância,  se mostra na forma de luta pelo poder econômico, pela posição social e pela perpetuação no poder.

Quando chega a ocupar cargo eletivo ou de nomeação busca impressionar os incautos, realçando o despotismo que trata  os súditos como escravos.

Diferentemente da ditadura ou da tirania, o despotismo não depende de o governante ter condições de se sobrepor ao povo, mas sim de o povo não ter condições de se expressar e autogovernar, deixando o poder nas mãos de apenas um, por medo e/ou por não saber o que fazer.

No Despotismo, segundo Montesquieu, apenas um só governa. É como não houvesse leis e  regras, arrebata tudo sob a sua vontade e seu capricho.

A VAIDADE humana, como um dos sete pecados capitais, se manifesta nas pessoas pela preocupação excessiva com o aspecto físico para conquistar a admiração dos outros, pela posição social que busca ocupar na sociedade ou através de ocupação de cargos.

Uma pessoa vaidosa pode ser gananciosa, por querer obter algo valioso, mas é só para promover ostentação perante os outros.

Um ser humano invejoso, por sua vez, identifica com bastante facilidade um ser humano vaidoso, pois os dois vícios se complementam, um é objeto do outro.

Nos Ensaios de Montaigne há um capítulo sobre vaidade. Um escritor brasileiro, Flávio Gikovate, tem se dedicado a analisar a influência da vaidade na vida das pessoas e seus impactos na sociedade.

Uma das abordagens da vaidade na literatura é feita por Oscar Wilde no livro “O Retrato de Dorian Gray”, onde o principal tema é a vaidade do personagem Dorian, onde o jovem é ao mesmo tempo velho, e o velho é ao mesmo tempo novo.

Por fim, trataremos da IRA como pecado capital.

A ira é uma atitude que às pessoas manifestam pelo sentimento de vingança, de ódio, de raiva contra seus semelhantes ou às vezes até contra objetos.

É uma emoção negativa que aniquila a capacidade de pensar e de resolver os problemas que a originam.

Sempre que projetamos a ira a outro ser humano, produz-se a derrubada de nossa própria imagem e isto nunca é conveniente no mundo das inter-relações.

A ira combina-se com o orgulho, com a presunção e até com a autossuficiência. A frustração, o medo, a dúvida e a culpa originam os processos da ira. A ira humana facilmente se torna pecaminosa.

Quando começamos a defender nosso Ego, quando atacamos alguém ao invés de atacar o erro dele, quando a chama da ira é alimentada, ela se torna um fogo que destrói.

Feitas as devidas considerações sobre o conjunto de alguns vícios da conduta humana ou pecados capitais, vamos nos transportar para o meio maçônico e estabelecer uma relação de homomorfismo para que possamos fazer uma reflexão sobre algumas práticas que constatamos no nosso cotidiano.

O comportamento de um maçom, segundo os ditames da nossa Sublime Ordem, deve ser irreparável.

Não se deve, nem se pode, adotar ação alguma que realce soberba, vaidade e ira, sobretudo quando essa ação é praticada por irmão que é autoridade maçônica, que ocupa cargo maçônico eletivo ou de nomeação.

Em caso de comportamento ou ação que comprometem a imagem da nossa ordem e atentam contra os postulados universais da Maçonaria.

Deve seu autor ser alertado por qualquer irmão que perceba o desvirtuamento no sentido de que o mesmo possa proceder a correção do seu comportamento ou ação.

O Irmão alertado deve receber a observação de forma natural entendendo que o irmão que o alertou o fez no sentido de promover a sua melhoria, o seu crescimento.

Nunca deve reagir com ira.

A excelência da Maçonaria se ergue sobre o suporte da Fraternidade e não do Ódio.

O irmão deve ter humildade suficiente para compreender o reparo. Não deve ser soberbo nem vaidoso e receber a crítica como construtiva, principalmente pelo fato de ocupar cargo maçônico.

Não há demérito para a autoridade maçônica quando é alertada por um irmão hierarquicamente inferior. Em primeiro lugar está o irmão maçom não a autoridade maçônica.

O Maçom tem por dever cavar masmorras aos vícios em todas as suas formas, inclusive aos vícios de conduta aqui anunciados, pois assim, estará levantando templos às virtudes e, por conseguinte, fazendo novos progressos.

As atitudes que expressam, com clareza, esses pecados capitais, esses sentimentos pífios e inconsequentes, que levam ao desânimo àqueles maçons que podem afirmar com toda propriedade “MEUS IRMÃOS COMO TAL ME RECONHECEM”, devem ser banidas do nosso meio.

As autoridades Maçônicas constituídas têm que asseverar a hierarquia sim, mas não cometer excessos.

Tem que conhecer, e conhecer bem a disciplina.

A disciplina e a hierarquia são sustentáculos da Maçonaria, logo, o verdadeiro Maçom deve ser um homem disciplinado e que respeita a hierarquia.

O  Maçom disciplinado é instruído, não é propenso a soberba, nem a vaidade e nem a ira.

O Maçom não tem orgulho, tem honra. O Maçom não tem vaidade, tem felicidade. O Maçom não tem ira, tem irresignação.

A disciplina se constitui de um conjunto de ações planejadas e coordenadas que obedecem regras, leis.

Portanto, para exercitar a disciplina precisamos nos deter aos ensinamentos maçônicos contidos na Prancheta de Traçar, na régua de 24 polegadas, no esquadro e no compasso.

Não podemos agir de forma desordenada, indisciplinada e exigirmos que os outros façam de forma diferente. Os nossos atos falam mais do que as nossas próprias palavras.

A Pior coisa que existe é o Maçom dar um bom conselho e em seguida um mal exemplo.

Valendo-me das sábias palavras do meu pranteado pai, que dizia: “meu filho se você quiser saber quem é a pessoa, não preste atenção o que ela diz, preste atenção o que ela faz”, pelo direito hereditário que me assiste, vou plagiar a máxima do meu velho e dizer: “meus irmãos se quiseres saber quem é o maçom, não preste atenção ao que ele diz e escreve, preste atenção ao que ele faz”.

O verdadeiro maçom se faz ser reconhecido, não pelas suas palavras, mas sim, pelos seus atos.

A maior autoridade é o exemplo. Quando recebemos críticas, sobretudo críticas construtivas, precisamos ser disciplinados para ouvi-las, processá-las, fazer uma autoavaliação e uma reflexão para melhorar nossos procedimentos, adequando-os as regras do bom convívio.

Precisamos dar bons exemplos, principalmente, para Aprendizes e Companheiros, eles precisam de bons ensinamentos, eles precisam serem bem instruídos, eles precisam de referência para defenderem a nossa Sublime Instituição.

Um Maçom disciplinado, instruído, é um maçom humilde, dedicado, útil, competente nos Augustos Mistérios.

Não é soberbo, não tem vaidade e não tem ira.

Nunca oportunista e inconsequente, nunca com comportamento de desrespeito aos Irmãos e aos nossos Templos Sagrados. Temos que fazer de nossos Templos, além do natural relicário da Fraternidade, centros operativos de Cultura e Civismo, na sustentação dos supremos fins de Liberdade, Justiça e Paz.

Um Maçom disciplinado, instruído, dificilmente será manipulado para se tornar massa de manobra e se deixar levar por ofertas de medalhas, títulos, cargos e elogios.

Um Maçom disciplinado e instruído ao ocupar cargos maçônicos jamais se transformará em um déspota.

Um Maçom disciplinado respeita às autoridades constituídas e os seus irmãos outros por entender, na essência, o estado democrático de direito, a importância administrativa e política desses cargos e o papel de cada um desses irmãos no processo de democratização da sociedade.

O maçom disciplinado entende que a livre expressão do pensamento como direito fundamental do homem em qualquer seguimento da sociedade moderna, sobretudo em uma sociedade maçônica, deve ser exercido na sua plenitude para transformação da sociedade na busca de melhores dias.

Um maçom disciplinado e instruído ver na autoridade maçônica, primeiro um irmão, não um superior hierárquico, e por este fato, exige comportamento maçônico deste.

As autoridades constituídas, mais que os demais irmãos maçons que não ocupam cargos, tem por obrigação dar bons exemplos.

A hierarquia e a disciplina, sobretudo a disciplina, têm levado a nossa Sublime Ordem a obter a confiança e o respeito da sociedade em todo orbi terrestre, contudo, é necessário que se saiba que de quando em vez nos deparamos com alguns irmãos que atropelam os limites e passam a claudicar no exercício do seu desiderato, promovendo a desarmonia, provocando a discórdia e, consequentemente, gerando a indisciplina.

O maçom pode e deve discordar de uma autoridade maçônica constituída quando esta não desempenha o seu cargo com dignidade, probidade, humildade e competência.

Logicamente, é ´preciso que seja feito dentro dos padrões de civilidade e de urbanidade, sem ira, com contestações fundamentadas e nunca levianas, uma contestação responsável que exija dessa autoridade o fiel cumprimento dos encargos que o cargo lhe impõe por estrita obrigação do dever.

O respeito à hierarquia deve acontecer visando servir à instituição e não à pessoas.

A nossa capacidade de opinar sobre a vida política e administrativa da nossa Obediência obtém maior expressividade no ato do voto, que é secreto, quando elegemos nossos representantes, quando elegemos um irmão para um cargo maçônico.

Lamentamos que os membros dos tribunais maçônicos, ainda, não sejam eleitos pelo povo maçônico.

ORGULHO, VAIDADE e IRA, essa trilogia não é nossa. Precisamos bani-la do nosso meio. Só depende de você, só depende de nós.

Autor: Otacílio Batista de Almeida Filho

*Mestre Instalado, membro da ARLS Obreiros da Justiça n.º 3209, Oriente de Campina Grande – PB

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O homem que plantava árvores

Para que o caráter de um ser humano revele qualidades verdadeiramente excepcionais, devemos ter a sorte de observar a sua ação por um longo período. Se esta ação é desprovida de todo o egoísmo, se a ideia que a dirige é de generosidade inqualificável, se é absolutamente certo que não buscou recompensa em nenhum lugar, e se além disso deixou marcas visíveis no mundo, então estamos inquestionavelmente a lidar com um personagem inesquecível.

Há cerca de quarenta anos, fiz uma longa caminhada, por colinas absolutamente desconhecidas dos turistas, naquela região muito antiga onde os Alpes penetram na Provença.

Esta região é limitada a sudeste e sul pelo curso médio do Durance, entre Sisteron e Mirabeau; a norte pelo curso superior do Drôme, desde a sua nascente até ao Die; a oeste pelas planícies de Comtat Venaissin e os arredores de Mont Ventoux. Inclui toda a parte norte do Departamento de Basses-Alpes, o sul de Drôme e um pequeno enclave de Vaucluse.

Na época em que fiz a minha longa caminhada por essa região deserta, ela era composta por terras áridas e monótonas, a cerca de 1200 a 1300 metros acima do nível do mar. Nada lá crescia, exceto lavanda selvagem.

Eu estava a atravessar este país na sua parte mais larga e, depois de caminhar por três dias, encontrei-me na mais completa desolação. Estava acampado ao lado das ruínas de uma aldeia abandonada. Tinha usado a minha última água no dia anterior e precisava encontrar mais. Embora estivessem em ruínas, estas casas todas amontoadas e parecendo um velho ninho de vespas fizeram-me pensar que, em algum momento, devia ter havido ali uma fonte ou um poço. Havia de fato uma fonte, mas estava seca. As cinco ou seis casas sem teto, devastadas pelo sol e pelo vento, e a capelinha com o campanário caído, estavam ordenadas como as casas e capelas das aldeias vivas, mas toda a vida tinha desaparecido.

Era um belo dia de junho com muito sol, mas naquelas terras sem abrigo, lá no alto, o vento assobiava com uma brutalidade insuportável. O seu rosnar nas carcaças das casas era como o de uma fera perturbada durante a sua refeição.

Eu tive que mudar o meu acampamento. Depois de cinco horas de caminhada, ainda não tinha encontrado água, e nada me dava esperança de encontrar. Em todos os lugares havia a mesma secura, as mesmas plantas duras e lenhosas. Pensei ter visto ao longe uma pequena silhueta negra. À sorte, fui em direção a ela. Era um pastor. Cerca de trinta cordeiros descansavam perto dele no chão escaldante.

Deu-me um gole da sua cabaça e um pouco depois levou-me até à sua cabana de pastor, localizada numa ondulação do planalto. Ele tirou a sua água – excelente – de um buraco natural, muito profundo, sobre o qual tinha instalado um molinete rudimentar.

Este homem falava pouco. Isto é comum entre os que moram sozinhos, mas ele parecia seguro de si e confiante nessa segurança, que parecia notável nesta terra despojada de tudo. Ele não morava numa cabana, mas numa verdadeira casa de pedra, de cuja aparência era claro que, com o seu próprio trabalho, tinha restaurado as ruínas que encontrara à sua chegada. O seu telhado era sólido e estanque. O vento batia nas telhas com o som do mar rebentando na praia.

A sua casa estava em ordem, os seus pratos lavados, o seu chão varrido, a sua espingarda lubrificada; a sua sopa fervia no fogo. Percebi então que ele também estava recém-barbeado, que todos os seus botões estavam solidamente costurados e que as suas roupas eram remendadas com tanto cuidado que tornavam os remendos invisíveis.

Ele dividiu a sua sopa comigo e, quando depois lhe ofereci a minha bolsa de tabaco, ele disse-me que não fumava. O seu cachorro, tão silencioso quanto ele, era amigável sem ser bajulador.

Ficou imediatamente combinado que eu passaria a noite ali, pois a aldeia mais próxima ainda estava a mais de um dia e meio de distância. Além disso, compreendi perfeitamente o caráter das raras aldeias daquela região. Há quatro ou cinco delas dispersas umas das outras nos flancos das colinas, em bosques de carvalhos brancos nas extremidades das estradas transitáveis ​​por carruagens. São habitadas por lenhadores que fazem carvão. São lugares onde a vida é pobre. As famílias, apertadas e unidas por um clima extremamente severo, tanto no verão como no inverno, lutam cada vez mais egoisticamente umas contra as outras. A disputa irracional cresce além de todos os limites, alimentada por uma luta contínua para escapar daquele lugar. Os homens levam o carvão para as cidades nos seus caminhões e depois voltam. As qualidades mais sólidas quebram-se sob este perpétuo chuveiro escocês. As mulheres despertam amargura. Há competição em tudo, desde a venda de carvão até aos bancos da igreja. As virtudes lutam entre si, os vícios lutam entre si, e há um incessante combate geral entre os vícios e as virtudes. Além de tudo isto, o vento, igualmente incessante, irrita os nervos. Há epidemias de suicídios e inúmeros casos de insanidade, quase sempre homicidas.

O pastor, que não fumava, pegou num saco e derramou uma pilha de bolotas sobre a mesa. Começou a examiná-las uma após outra com muita atenção, separando as boas das más. Fumei o meu cachimbo. Ofereci-me para a ajudar, mas ele disse-me que era um assunto seu. De fato, vendo o cuidado que ele dedicou a este trabalho, não insisti. Esta foi toda a nossa conversa. Quando ele tinha na pilha boa um bom número de bolotas, contou-as em grupos de dez. Ao fazer isto, eliminou mais algumas bolotas, descartando as menores e as que apresentavam até mesmo a menor rachadura, pois examinou-as muito de perto. Quando tinha diante de si cem bolotas perfeitas, parou e fomos para a cama.

A companhia deste homem trouxe-me uma sensação de paz. Perguntei-lhe na manhã seguinte se poderia ficar e descansar o dia inteiro com ele. Ele achou isso perfeitamente natural. Ou mais exatamente, ele me deu a impressão de que nada poderia perturbá-lo. Este descanso não era absolutamente necessário para mim, mas fiquei intrigado e queria saber mais sobre este homem. Soltou o seu rebanho e levou-o para o pasto. Antes de partir, embebeu num balde de água o saquinho com as bolotas que escolhera e contara com tanto cuidado.

Notei que ele carregava como uma espécie de bengala, uma haste de ferro da espessura do seu polegar e cerca de um metro e meio de comprimento. Saí como quem passeia, seguindo um caminho paralelo ao dele. O seu pasto de ovelhas ficava no fundo de um pequeno vale. Ele deixou o seu rebanho aos cuidados do seu cachorro e subiu em direção ao local onde eu estava. Tive medo de que ele me viesse censurar pela minha indiscrição, mas nem um pouco: era a sua própria rota e convidou-me para o acompanhar, se eu não tivesse nada melhor para fazer. Continuou por mais duzentos metros colina acima.

Tendo chegado ao lugar para onde estava indo, começou a bater com a sua barra de ferro no chão. Isto fez um buraco no qual ele colocou uma bolota, após o que ele cobriu o buraco novamente. Ele estava a plantar carvalhos. Perguntei-lhe se a terra lhe pertencia. Ele respondeu que não. Sabia ele de quem era aquela terra? Não sabia. Supunha que era terra comunal, ou talvez pertencesse a alguém que não se importava com ela. Ele próprio não se importava em saber quem eram os donos. Desta forma ele plantou as suas cem bolotas com muito cuidado.

Após o almoço, começou mais uma vez a colher as suas bolotas. Devo ter insistido bastante nas minhas perguntas, porque ele respondeu. Já fazia três anos que vinha plantando árvores dessa maneira solitária. Ele tinha plantado cem mil. Destes cem mil, ficaram vinte mil. Contava perder metade para os roedores e para tudo o mais imprevisível nos desígnios da Providência. Isto deixava dez mil carvalhos que cresceriam neste lugar onde antes não havia nada.

Foi neste momento que me comecei a perguntar sobre a sua idade. Ele tinha claramente mais de cinquenta. Cinquenta e cinco, disse-me ele. O seu nome era Elzéard Bouffier. Tinha uma fazenda nas planícies, onde viveu a maior parte da sua vida. Ele tinha perdido a seu único filho, e depois a sua esposa. Tinha-se retirado para esta solidão, onde tinha prazer em viver lentamente, com o seu rebanho de ovelhas e o seu cachorro. Ele tinha concluído que o país estava a morrer por falta de árvores. Acrescentou que, não tendo nada mais importante para fazer, resolveu remediar a situação.

Levando como levava na época uma vida solitária, apesar da juventude, sabia tratar com delicadeza as almas das pessoas solitárias. Ainda assim, cometi um erro. Foi precisamente a minha juventude que me obrigou a imaginar o futuro nos meus próprios termos, incluindo uma certa procura da felicidade. Eu disse-lhe que em trinta anos estas dez mil árvores seriam magníficas. Ele respondeu muito simplesmente que, se Deus lhe desse a vida, em trinta anos ele teria plantado tantas outras árvores que estas dez mil seriam como uma gota de água no oceano.

Ele também tinha começado a estudar a propagação de faias e tinha perto da sua casa um viveiro cheio de mudas de nogueiras. As suas pequenas mudas, que ele tinha protegido das suas ovelhas por uma cerca de tela, estavam a crescer lindamente. Também estava a considerar bétulas para o fundo do vale onde, segundo me disse, a humidade estava adormecida a apenas alguns metros abaixo da superfície do solo.

Despedimo-nos no dia seguinte.

No ano seguinte veio a guerra de 14, na qual estive envolvido por cinco anos. Um soldado de infantaria mal conseguia pensar em árvores. Para dizer a verdade, a história toda não me impressionou muito. Achei que fosse um hobby, como uma coleção de selos, e esqueci-a.

Com a guerra para trás, encontrei-me com um pequeno bônus de desmobilização e um grande desejo de respirar um pouco de ar puro. Sem nenhuma noção preconcebida para além disto, voltei a percorrer as trilhas por aquela região deserta.

A terra não mudou. No entanto, além daquela aldeia morta, percebi ao longe uma espécie de neblina cinzenta que cobria as colinas como um tapete. Desde o dia anterior eu pensava no pastor que plantava árvores. Dez mil carvalhos, disse a mim mesmo, devem ocupar muito espaço.

Eu tinha visto muitas pessoas morrerem durante estes cinco anos para não poder imaginar facilmente a morte de Elzéard Bouffier, especialmente porque quando um homem tem vinte anos, pensa num homem de cinquenta como um velho para quem nada resta senão morrer. Ele não estava morto. Na verdade, continuava muito ágil. Tinha mudado de emprego. Agora só tinha quatro ovelhas, mas para compensar isso tinha cerca de cem colmeias. Tinha-se livrado das ovelhas porque elas ameaçavam a sua colheita de árvores. Disse-me (como de fato eu pude ver por mim próprio) que a guerra não o tinha perturbado em nada; continuara imperturbavelmente com o seu plantio.

Os carvalhos de 1910 tinham agora dez anos e eram mais altos do que eu e que ele. O espetáculo era impressionante. Fiquei literalmente sem palavras e, como ele próprio não falava, passamos o dia inteiro em silêncio, caminhando pela floresta. Estava dividida em três seções, onze quilômetros de comprimento total e, no seu ponto mais largo, três quilômetros de largura. Quando considerei que tudo isto tinha nascido das mãos e da alma deste único homem – sem ajuda técnica -, ocorreu-me que os homens podem ser tão eficazes quanto Deus noutros domínios que não a destruição.

Ele tinha seguido a sua ideia, e as faias que chegavam até aos meus ombros e se estendiam até onde a vista alcançava testemunhavam isso. Os carvalhos eram agora bons e espessos, e haviam passado da idade em que estavam à mercê de roedores; quanto aos desígnios da Providência, destruir a obra que tinha sido criada exigiria doravante um ciclone. Mostrou-me admiráveis plantações de bétulas que datavam de cinco anos atrás, ou seja, de 1915, quando eu lutava em Verdun. Tinha-as plantado no fundo do vale onde suspeitara, corretamente, que havia água perto da superfície. Elas eram tão ternas quanto meninas, e muito determinadas.

Esta criação tinha, aliás, o ar de funcionar através de uma reação em cadeia. Ele não se preocupou com isso; continuou obstinadamente com a sua simples tarefa. Voltando para a aldeia, vi água a correr em riachos que, na memória viva, sempre foram secos. Foi o avivamento mais impressionante que ele me mostrou. Estes riachos já tinham trazido água antes, em tempos antigos. Algumas das tristes aldeias de que falei no início do meu relato foram construídas sobre os sítios das antigas aldeias galo-romanas, das quais ainda restam vestígios; os arqueólogos que escavavam ali tinham encontrado anzóis em lugares onde em tempos mais recentes eram necessárias cisternas para ter um pouco de água.

O vento também estava a trabalhar, espalhando certas sementes. Quando a água reapareceu, também reapareceram os salgueiros, vimes, prados, jardins, flores e uma certa razão para viver.

Mas a transformação ocorrera tão lentamente que fora dada como certa, sem causar surpresa. Os caçadores que subiam as colinas em busca de lebres ou javalis tinham notado a extensão das pequenas árvores, mas atribuíam-no à maldade natural da terra. É por isso que ninguém tinha tocado na obra desse homem. Se suspeitassem dele, teriam tentado frustrá-lo. Mas ele nunca foi suspeito: quem entre os aldeões ou os administradores suspeitaria que alguém pudesse mostrar tamanha obstinação em realizar este magnífico ato de generosidade?

A partir de 1920 não deixei passar mais de um ano sem visitar Elzéard Bouffier. Nunca o vi vacilar ou duvidar, embora só Deus possa dizer quando a própria mão de Deus está numa coisa! Não disse nada das suas decepções, mas pode-se facilmente imaginar que, para tal feito, era necessário vencer a adversidade; que, para assegurar a vitória de tal paixão, era preciso lutar contra o desespero. No ano ele havia plantado dez mil áceres. Todos morreram. No ano seguinte, ele desistiu dos áceres e voltou para as faias, que se saíram ainda melhor do que os carvalhos.

Para se ter uma ideia real deste caráter excepcional, não se deve esquecer que ele trabalhou em total solidão; tão total que, no final da vida, perdeu o hábito de falar. Ou talvez ele simplesmente não visse a necessidade disso.

Em 1933 recebeu a visita de um guarda florestal atônito. Este funcionário ordenou-lhe que parasse de fazer fogueiras ao ar livre, por medo de pôr em perigo esta floresta natural. Era a primeira vez, disse-lhe aquele homem ingênuo, que se observava que uma floresta crescia sozinha. Na época deste incidente, estava a pensar plantar faias num local a doze quilômetros da sua casa. Para evitar as idas e vindas – porque na época tinha setenta e cinco anos – planeava construir uma cabana de pedra onde estava a plantar; fez isso no ano seguinte.

Em 1935, uma verdadeira delegação administrativa foi examinar esta “floresta natural”. Havia um importante personagem das Águas e Florestas, um deputado e alguns técnicos. Muitas palavras inúteis foram ditas. Decidiu-se fazer alguma coisa, mas felizmente nada foi feito, exceto uma coisa realmente útil: colocar a floresta sob a proteção do Estado e proibir qualquer pessoa de lá ir para fazer carvão. Era impossível não se encantar com a beleza destas jovens árvores em plena saúde. E a floresta exercia os seus poderes de sedução até no próprio deputado.

Eu tinha um amigo entre os chefes florestais que estavam com a delegação. Expliquei-lhe o mistério. Num dia da semana seguinte, saímos juntos para procurar Elzéard Bouffier. Encontramo-lo a trabalhar duro, a vinte quilômetros do local onde a inspeção tinha sido realizada.

Este chefe florestal não era meu amigo à toa. Ele entendia o valor das coisas. Ele sabia ficar calado. Eu ofereci alguns ovos que trouxera comigo como presente. Dividimos o lanche em três partes e passamos várias horas em contemplação muda da paisagem.

A encosta de onde viemos estava coberta de árvores de seis ou sete metros de altura. Lembrei-me da aparência do lugar em 1913: um deserto… O trabalho pacífico e constante, o ar vibrante da serra, a sua frugalidade e, sobretudo, a serenidade da sua alma deram ao velho uma espécie de boa saúde solene. Ele era um atleta de Deus. Perguntei a mim mesmo quantos hectares ele tinha ainda que cobrir com árvores.

Antes de partir, o meu amigo fez uma sugestão simples sobre certas espécies de árvores para as quais o terreno parecia ser particularmente adequado. Ele não foi insistente. “Pela razão muito boa”, disse-me depois, “de que este sujeito sabe muito mais sobre este tipo de coisa do que eu”. Depois de mais uma hora de caminhada, tendo este pensamento viajado com ele, acrescentou: “Ele sabe muito mais sobre este tipo de coisa do que ninguém – e encontrou uma maneira muito boa de ser feliz!”.

Foi graças aos esforços deste chefe florestal que a floresta foi protegida e, com ela, a felicidade deste homem. Ele designou três guardas florestais para a sua proteção e aterrorizou-os a tal ponto que eles permaneceram indiferentes a qualquer jarro de vinho que os lenhadores pudessem oferecer como suborno.

A floresta não correu nenhum risco grave, exceto durante a guerra de 1939. Naquela época, os automóveis eram movidos a álcool de madeira e nunca havia madeira suficiente. Começaram a cortar alguns dos talhões dos carvalhos de 1910, mas as árvores ficavam tão longe de qualquer estrada útil que o empreendimento acabou por ser ruim do ponto de vista financeiro, e logo foi abandonado. O pastor nunca soube nada sobre isso. Ele estava a trinta quilômetros de distância, continuando pacificamente a sua tarefa, tão despreocupado com a guerra de 39 quanto com a guerra de 14.

Vi Elzéard Bouffier pela última vez em junho de 1945. Tinha então oitenta e sete anos. Eu tinha mais uma vez iniciado a minha caminhada pelas regiões selvagens, apenas para descobrir que agora, apesar da confusão em que a guerra tinha deixado todo o país, havia um autocarro a circular entre o vale do Durance e a montanha. Atribuí a este meio de transporte relativamente rápido o fato de já não reconhecer os pontos de referência que conhecia das minhas visitas anteriores. Parecia também que a rota estava a levar-me por lugares inteiramente novos. Tive que perguntar o nome de uma aldeia para ter certeza de que estava de fato a passar por aquela mesma região, outrora tão arruinada e desolada. O autocarro deixou-me em Vergons. Em 1913, esta aldeia de dez ou doze casas tinha três habitantes. Eram selvagens, odiando-se uns aos outros e ganhando a vida com armadilhas. Física e moralmente, pareciam homens pré-históricos. As urtigas devoravam as casas abandonadas que os cercavam. A vida deles era sem esperança, era só esperar que a morte chegasse: uma situação que dificilmente predispõe à virtude.

Tudo isto tinha mudado, até o próprio ar. No lugar das rajadas secas e brutais que me saudaram há muito tempo, uma brisa suave sussurrou para mim, trazendo odores doces. Um som como o de água corrente veio das alturas acima: era o som do vento nas árvores. E o mais surpreendente de tudo, ouvi o som de água real correndo numa poça. Vi que tinham construído um chafariz, que estava cheio de água, e o que mais me tocou, ao lado dele tinham plantado uma tília que devia ter pelo menos quatro anos, já engrossada, símbolo incontestável de ressurreição.

Além disto, Vergons mostrou os sinais de trabalhos para os quais a esperança é um requisito: a esperança deve, portanto, ter retornado. Limparam as ruínas, derrubaram as paredes quebradas e reconstruíram cinco casas. A aldeia agora contava com vinte e oito habitantes, incluindo quatro famílias jovens. As novas casas, recém-rebocadas, eram cercadas por jardins que continham, misturados entre si, mas ainda cuidadosamente dispostos, vegetais e flores, repolhos e roseiras, alho-poró e bicas-de-leão, aipo e outras plantas. Agora era um lugar onde qualquer um ficaria feliz em viver.

De lá continuei a pé. A guerra da qual mal saímos não permitiu que a vida desaparecesse completamente, e agora Lázaro estava fora do seu túmulo. Nos flancos mais baixos da montanha, vi pequenos campos de cevada e centeio; no fundo dos vales estreitos, os prados começavam a ficar verdes.

Levou apenas os oito anos, que agora nos separam daquela época, para que todo o país ao redor floresça com esplendor e facilidade. No local das ruínas que eu tinha visto em 1913 existem agora quintas bem cuidadas, sinal de uma vida feliz e confortável. As velhas nascentes, alimentadas pela chuva e pela neve, agora retidas pelas florestas, voltaram a fluir. Os riachos foram canalizados. Ao lado de cada fazenda, no meio de bosques de áceres, os charcos das fontes são cercados por tapetes de hortelã fresca. Pouco a pouco, as aldeias foram reconstruídas. Yuppies vieram das planícies, onde a terra é cara, trazendo consigo juventude, movimento e espírito de aventura. Caminhando pelas estradas encontram-se homens e mulheres em plena saúde, e rapazes e raparigas que sabem rir, e que recuperaram o gosto pelas tradicionais festas rústicas. Contando tanto os antigos habitantes da área, agora irreconhecíveis de viver em abundância, quanto os recém-chegados, mais de dez mil pessoas devem a sua felicidade a Elzéard Bouffier.

Quando considero que um único homem, contando apenas com os seus simples recursos físicos e morais, foi capaz de transformar um deserto nesta terra de Canaã, estou convencido de que, apesar de tudo, a condição humana é verdadeiramente admirável. Mas quando levo em conta a constância, a grandeza de alma e a dedicação desinteressada que foi necessária para realizar esta transformação, fico cheio de um respeito imenso por esse camponês velho e inculto que soube realizar um trabalho digno de Deus.

Elzéard Bouffier morreu pacificamente em 1947 num lar em Banon.

Autor: Jean Giono
Traduzido por: António Jorge

Fonte: Freemason

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O maçom e o conflito

O conflito faz parte das nossas vidas. Quer queiramos, quer não. Existem interesses divergentes, quantas vezes inconciliáveis. Quando tal sucede, várias formas de lidar com o assunto existem: a força, a imposição de poder, a desistência, a conciliação, a cooperação, a hierarquização, etc.

Os maçons também vivem e estão sujeitos a conflitos. Tanto como qualquer outra pessoa vivendo em sociedade.

Mas os maçons aprendem a lidar melhor com o conflito. Desde logo, porque aprendem, interiorizam e procuram praticar a Tolerância. Esta postura não elimina, obviamente, os conflitos, nem leva quem a pratica a deles fugir, ou a ceder para os evitar. Pelo contrário, ensina e possibilita a melhor gerir o conflito. E melhor gerir um conflito não é procurar ganhar a todo o custo. Melhor gerir um conflito consiste em detectar e obter a melhor solução possível para ele. Por vezes, “vencer” o conflito pode parecer a melhor solução no curto prazo, mas revelar-se desastrosa depois.

O maçom aprende a gerir o conflito, desde logo treinando-se a fazer algo que, sendo básico, é muitas vezes esquecido: ouvir! Ouvir o outro, as suas razões, pretensões. Ouvir o outro não é apenas deixá-lo falar. É prestar efetivamente atenção ao que diz e como o diz. Para procurar determinar porque o diz e para que o diz. E assim lobrigar exatamente em que medida existe realmente conflito de interesses entre si e o outro – ou se existe apenas uma aparência de conflito de interesses, por deficiente entendimento, de uma ou das duas partes, de propósitos, intenções, objetivos.

Ouvir o outro é o primeiro exercício prático da Tolerância, da verdadeira Tolerância. Porque esta não é o ato de, condescendentemente, admitir que o outro tenha uma posição diferente da nossa e permitirmos-lhe, “generosamente”, que a tenha. A verdadeira Tolerância não é um ponto de chegada – é uma base de partida. A verdadeira Tolerância resulta do pressuposto filosófico de que ninguém está imune ao erro. Nem nós – por maioria de razão. Portanto, tolerar a opinião do outro, a exposição do seu interesse, porventura conflituais com a nossa opinião e o nosso interesse, não é um ato de generosidade, de condescendente superioridade. É a consequência da nossa consciência da Igualdade, fundamental entre nós e o outro. Que implica o inevitável corolário de que, sendo diferentes as opiniões, se alguém está errado, tanto pode ser o outro como podemos ser nós. A Tolerância não é um ponto de chegada – é uma base de partida. Não é demais repeti-lo.

Porque a consciência disto possibilita a primeira ferramenta para a gestão do conflito: a disponibilidade para cooperar com o outro, para determinar (1) se existe verdadeiramente divergência entre ambos; (2) existindo, qual é ela, precisamente; (3) em que medida é essa divergência, superável, total ou parcialmente; (4) ocorrendo superação parcial da divergência, se o conflito se mantém e, mantendo-se, se conserva a mesma gravidade; (5) finalmente, em que medida é possível harmonizar os interesses conflituantes: cada um abdicando de parte do seu interesse inicial? Garantindo ambos os interesses, seja em tempos diferentes, seja em planos diversos?

Treinando-se na prática da Tolerância, o maçom aprende a lidar melhor com o conflito, porque é capaz de, em primeiro lugar, determinar se existe mesmo conflito, em segundo lugar predispõe-se para cooperar na superação do conflito e finalmente adquire a consciência de que existem várias, e por vezes insuspeitas, formas de superar, controlar, diminuir, resolver, conflitos – quantas vezes logrando-se garantir o essencial dos interesses inicialmente em confronto.

E tudo, afinal, começa por saber ouvir e por saber tolerar (o que implica entender) a posição do outro.

Por isso o primeiro exercício que é exigido ao maçom é a prática do silêncio. Para que aprenda a ouvir, para que se aperceba do que realmente é dito, para que reflita sobre a melhor forma de resolver os problemas que ouça expostos.

Através do silêncio, aprende o maçom a sair de si e a atender ao Outro. Através da Tolerância da posição do Outro, aprende o maçom a descobrir a forma de harmonizá-la com a sua. Através da busca da Harmonia, aprende o maçom a gerir os conflitos. Através da gestão dos conflitos, torna-se o maçom melhor, mais eficiente, mais bem sucedido.

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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As três Grandes Luzes da Maçonaria, a Moral e a Ética

As três grandes luzes da Maçonaria são o Compasso, o Esquadro e o Livro da Lei Sagrada.

Talvez o mais conhecido dos símbolos da Maçonaria seja o que é constituído por um esquadro, com as pontas viradas para cima, e um compasso, com as pontas viradas para baixo.

Como normalmente sucede, várias são as interpretações possíveis para estes símbolos.

É corrente afirmar-se que o esquadro simboliza a retidão de caráter que deve ser apanágio do maçom. Retidão porque com os corpos do esquadro se podem traçar facilmente segmentos de reta e porque reto se denomina o ângulo de 90 º que facilmente se tira com tal ferramenta. Da retidão geométrica, assim facilmente obtida, se extrapola para a retidão moral, de caráter, a caraterística daqueles que não se “cosem por linhas tortas” e que, pelo contrário, pautam a sua vida e as suas ações pelas linhas direitas da Moral e da Ética. Esta caraterística deve ser apanágio do maçom, não especialmente por o ser, mas porque só deve ser admitido maçom quem seja homem livre e de bons costumes.

É também corrente referir-se que o compasso simboliza a vida correta, pautada pelos limites da Ética e da Moral. Ou ainda o equilíbrio. Ou a também a Justiça. Porque o compasso serve para traçar circunferência, delimitando um espaço interior de tudo o que fica do exterior dela, assim se transpõe para a noção de que a vida correta é a que se processa dentro do limite fixado pela Ética e pela Moral. Porque é imprescindível que o compasso seja manuseado com equilíbrio, a ponta de um braço bem fixada no ponto central da circunferência a traçar, mas permitindo o movimento giratório do outro braço do instrumento, o qual deve ser, porém, firmemente seguro para que não aumente ou diminua o seu ângulo em relação ao braço fixo, sob pena de transformar a pretendida circunferência numa curva de variada dimensão, torta ou oblonga, assim se transpõe para a noção de equilíbrio, equilíbrio entre apoio e movimento, entre fixação e flexibilidade, equilíbrio na adequada força a utilizar com o instrumento. Porque o círculo contido pela circunferência traçada pelo instrumento se separa de tudo o que é exterior a ela, assim se transpõe para a Justiça, que separa o certo do errado, o aceitável do censurável, enfim, o justo do injusto.

Também é muito comum a referência de que o esquadro simboliza a Matéria e o compasso o Espírito, aquele porque, traçando linhas direitas e mostrando ângulos retos, nos coloca perante o facilmente perceptível e entendível, o plano, o que, sendo direito, traçando a linha reta, dita o percurso mais curto entre dois pontos, é mais claro, mais evidente, mais apreensível pelos nossos sentidos – portanto o que existe materialmente. Por outro lado, o compasso traça as curvas, desde a simples circunferência ao inacabado (será?) arco de círculo, mas também compondo formas curvas complexas, como a oval ou a elipse. É, portanto, o instrumento da subtileza, da complexidade construída, do mistério em desvendamento. Daí a sua associação ao Espírito, algo que permanece para muitos ainda misterioso, inefável, obscuro, complexo, mas simultaneamente essencial, belo, etéreo. A matéria vê-se e associa-se assim à linha direita e ao ângulo reto do esquadro. O espírito sente-se, intui-se, descobre-se e associa-se, portanto, ao instrumento mais complexo, ao que gera e marca as curvas, tantas vezes obscuras e escondendo o que está para além delas – o compasso.

Cada um pode – deve! – especular livremente sobre o significado que ele próprio vê nestes símbolos. O esquadro, que traça linhas direitas, paralelas ou secantes, ângulos retos e perpendiculares, pode por este ser associado à franqueza de tudo o que é direito e previsível e por aquele à determinação, ao caminho de linhas direitas, claro, visível, sem desvios. O compasso, instrumento das curvas, pode por este ser associado à subtileza, ao tato, à diplomacia, que tantas vezes ligam, compõem e harmonizam pontos de vista à primeira vista inconciliáveis, nas suas linhas direitas que se afastam ou correm paralelas, oportunamente ligadas por inesperadas curvas, oportunos círculos de ligação, improváveis ovais de conciliação; enquanto aquele, é mais sensível à separação entre o círculo interior da circunferência traçada e tudo o que lhe está exterior, prefere atentar na noção de discernimento entre um e outro dos espaços.

E não há, por definição, entendimentos corretos! Cada um adota o entendimento que ele considera, naquele momento, o mais ajustado e, por definição, é esse o correto, naquele momento, para aquela pessoa. Tanto basta!

O conjunto do esquadro e do compasso simboliza a Maçonaria, ou seja, o equilíbrio e a harmonia entre a Matéria e o Espírito, entre o estudo da ciência e a atenção às vias espirituais, entre o evidente, o científico, o que está à vista, o que é reto e claro e o que está ainda oculto ou obscuro. O esquadro é sempre figurado com os braços apontando para cima e o compasso com as pontas para baixo. Ambas as figuras se opõem, se confrontam: mas ambas as figuras oferecem à outra a maior abertura dos seus componentes e o interior do seu espaço. A oposição e o confronto não são assim um campo de batalha, mas um espaço de cooperação, de harmonização, cada um disponibilizando o seu interior à influência do outro instrumento. Assim também cada maçom se abre à influência de seus Irmãos, enquanto ele próprio, em simultâneo, potencia, com as suas capacidades, os seus saberes, as suas descobertas, os seus ceticismos, as suas respostas, mas também as suas perguntas (quiçá mais importantes estas do que aquelas…) a modificação, a melhoria, de todos os demais.

Quanto ao Volume da Lei Sagrada, este pode ser qualquer dos Livros de qualquer das religiões que acreditem na existência de um Criador, qualquer que seja a conceção que Dele se tenha, mais ou menos interventor no Universo ou mero Princípio Criador catalisador e e definidor do Universo.

O Livro da Lei Sagrada contém em si as normas básicas da atuação e convivência humanas, referencial para a conduta do homem de bem. Em suma, simboliza o conjunto de regras que a Sociedade determina aceitáveis para que a sã convivência entre todos seja possível, ou seja, A Moral inerente à Sociedade e que todos os que a integram devem respeitar e seguir.

Nas sessões de Loja, o Compasso e o Esquadro são colocados SOBRE o Volume da Lei Sagrada. Não porque se entenda que são mais importantes aqueles do que este, mas, pelo contrário, porque o Volume da Lei Sagrada simboliza a base Moral sobre a qual assenta a Ética de cada um.

Esta, a Ética, defini-a já como o conjunto de princípios que norteiam a determinação e utilização dos meios à nossa disposição para atingirmos os fins que nos propomos.

 O Esquadro traça, sobre o pano de fundo da Moral, as linhas éticas que o Homem deve definir para a sua atuação. O Compasso define os limites que essas linhas devem respeitar.

O conjunto de ambos simboliza, assim, também a Ética que, tal como eles assentam no Volume da Lei Sagrada, assenta na Moral sobre que esta se constrói.

Porque a ética sem Moral pode usar esse nome, mas não é verdadeiramente ética – ou então teríamos que aceitar como tal a “honra dos ladrões”, a dita “ética dos criminosos”. A Ética tem que necessariamente ser individualmente construída respeitando e assentando na Moral da Sociedade em que nos inserimos, pois nenhum homem é uma ilha podendo arrogar-se o direito de definir o seu conjunto de princípios fora da Moral da Sociedade em que se insere.

As Três Grandes Luzes da Maçonaria são, assim, o conjunto de símbolos que deve guiar a atividade de aperfeiçoamento do maçom, homem livre de escolher e determinar os Princípios que o norteiam, mas sempre harmoniosamente integrado na Sociedade em que se insere.

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Porquê “meu irmão”, e não “meu amigo”?

Os maçons tratam-se, entre si, por “irmão”, tratamento que é explicitamente indicado a cada novo maçom após a sua iniciação. Imediatamente após terminada a sessão de Iniciação é normal que todos os presentes cumprimentem o novo Aprendiz com efusivos abraços, rasgados sorrisos e, entre repetidos “meu irmão”, “meu querido irmão” e “bem vindo, meu irmão”, recebe-se, frequentemente, mais afeto do que aquele que se recebeu na semana anterior.

O que seria um primeiro momento de descontração torna-se, frequentemente, num verdadeiro “tratamento de choque”, num momento de alguma estranheza e, quiçá, algum desconforto para o novo Aprendiz. Afinal, não é comum receber-se uns calorosos e sinceros abraços de uns quantos desconhecidos, para mais quando estes nos tratam – e esperam que os tratemos – por irmão… e por tu! Sim, que outro tratamento não há entre maçons, pelo menos em privado – que as conveniências sociais podem ditar, em público, distinto tratamento.

O primeiro momento de estranheza depressa se esvai – e os encontros seguintes encarregam-se de tornar naturalíssimo tal tratamento, a ponto de se estranhar qualquer “escorregadela” que possa suceder, como tratar-se um Irmão na terceira pessoa… Aí, logo o Aprendiz é pronta e fraternalmente corrigido, e logo passa a achar naturalíssimo tratar por tu um médico octogenário, um político no ativo, ou um professor universitário. E de fato assim é: entre irmãos não há distinção de trato.

Não se pense, todavia, que todos se relacionam do mesmo modo. Afinal, não somos abelhas obreiras, e mesmo entre essas há as que alimentam a rainha ou as larvas, as que limpam a colmeia, e as que recolhem o néctar. Do mesmo modo, todos os maçons são diferentes, têm distintos interesses, e não há dois que vivam a maçonaria de forma igual. É natural que um se aproxime mais de outro, mas tenha com um terceiro um relacionamento menos intenso. Não é senão normal que, para determinados assuntos, recorra mais a um irmão, e para outros a outro – e podemos estar a falar de algo tão simples quanto pedir um esclarecimento sobre um ponto mais obscuro da simbologia, ou querer companhia ao almoço num dia em que se precise, apenas, de quem se sente ali à nossa frente, sem que se fale sequer da dor que nos moi a alma.

Mas não serão isto “amigos”? Porquê “irmãos”? Durante bastante tempo essa questão colocou-se-me sem que a soubesse responder. Sim, havia as razões históricas, das irmandades do passado, mas mesmo nessas teria que haver uma razão para tal tratamento. O que leva um punhado de homens a tratarem-se por “irmão” em vez de se assumirem como amigos? Como em tanta outra coisa, só o tempo me permitiu encontrar uma resposta que me satisfizesse. Não é, certamente, a única possível – mas é a que consegui encontrar. 

Quando nascemos, fazêmo-lo no seio de uma família que não temos a prerrogativa de escolher. Ninguém escolhe os seus pais ou irmãos de sangue; ficamos com aqueles que nos calham. O mais natural é que, em cada núcleo familiar, haja regras conducentes à sua própria preservação e à de todos os seus elementos, regras que passam, forçosamente, pela cooperação entre estes. É, igualmente, natural que esse fim utilitário, de pura sobrevivência, seja reforçado por laços afetivos que o suplantam a ponto de que o propósito inicial seja relegado para um plano inferior. É, assim, frequente que, especialmente depois de atingida a idade adulta, criemos laços de verdadeira e genuína amizade com os nossos irmãos de sangue, que complementa e de certo modo ultrapassa, em certa medida, os meros laços de parentesco.

Do mesmo modo, quando se é iniciado numa Loja – e a Iniciação é um “renascimento” simbólico – ganha-se de imediato uma série de Irmãos, como se se tivesse nascido numa família numerosa. Neste registo, os maçons têm, uns para com os outros, deveres de respeito, solidariedade e lealdade, que podem ser equiparados aos deveres que unem os membros de uma célula familiar. Porém, do mesmo modo que nem todos os irmãos de sangue são os melhores amigos, também na Maçonaria o mesmo sucede. Não é nenhum drama; o contrário é que seria de estranhar. Diria, mesmo, que é desejável e sadio que assim suceda, pois a amizade quer-se espontânea, livre e recíproca. E, tal como sucede entre alguns irmãos de sangue, respeitam-se e cumprem com os deveres que decorrem dos laços que os unem, mas não estabelecem outros laços para além destes. Pode acontecer – e acontece. Mas a verdade é que o mais frequente é que, especialmente dentro de cada Loja, cada maçom encontre, de entre os seus irmãos, grandes amigos – e como são sólidos os laços de amizade que se estabelecem entre irmãos maçons!

Autor: Paulo M.

Fonte: Blog A Partir Pedra

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O profano e o maçom

Dia do Maçom | Câmara Municipal

Exerce a Maçonaria influência sobre os seus membros, melhorando a sua atuação na Sociedade?

São os Maçons elementos moralmente capazes de, pelo exemplo, influir beneficamente sobre os profanos no meio em que vivem?

Estas são as questões que pretendemos responder hoje, dentro dos limites intelectuais que nos proíbem remígios mais altos na seara ampla e fértil da filosofia maçônica.

Achamos que a nenhum homem, normalmente dotado de sensibilidade, pode ser estranha a influência da Maçonaria quando, tendo transposto os degraus iniciais, é admitido nesta Câmara, porque não é possível deixar-se ficar indiferente, depois de vislumbrar os três aspectos – simbólico, filosófico e moral – com que a nossa Sublime Instituição avulta através dos séculos para vencer as trevas em que jaz o espírito humano.

Nenhum homem, dentro da precária perfectibilidade da espécie, pode jactar-se de ter ingressado na Maçonaria e permanecido tal qual havia sido até aquele evento.

Se existe esse homem, se existe quem dentro da Maçonaria não encontrou meios de aperfeiçoar-se moral, mental e espiritualmente, certamente deve tratar-se de uma aberração incorrigível, incapaz de captar as irradiações da Sabedoria, de sentir o magnetismo da força e de compreender os benefícios da serena contemplação da Beleza.

O mundo está todo inteiro na Maçonaria, configurado nos símbolos imortais e o homem, quando se torna Maçom, adquire o roteiro certo por onde dirigir os passos a fim de atingir o domínio de si mesmo e integrar-se conscientemente no Universo. Por isso compreende que, no ciclo evolutivo em que se encontra, não é senão pedra: Pedra Bruta que o Tempo, o Sofrimento e o Trabalho tornam Polida e Cúbica, através do refinamento espiritual da Civilização e da Ciência.

O Maçom sabe que deve corrigir-se, pois o anseio do Espírito é alcançar a perfeição.

“Sede perfeitos como meu Pai é perfeito”, não é mera advertência, mas, como tudo que nos vem do Cristo Deus, uma diretriz que bem representa o objetivo da passagem do Homem pela Terra.

Contrariamente ao que parece aos moralistas e céticos, o Homem não caminha do nascimento para a morte, mas da ignorância para o conhecimento, sabido é que o Grande Arquiteto do Universo não cria apenas para destruir.

O Maçom não é subserviente; não é hipócrita; não é dúbio; não é saliente; não é prepotente; não é usurpador.

É, isto sim, vertical nas atitudes para com o semelhante e horizontal na posição que ocupa na ganga social em que opera. É vertical como o seu esqueleto e horizontal como a superfície em que se apoia. Vertical como o Prumo e horizontal como o Nível – Homem e Terra formando o Esquadro, inflexível e correto.

O Maçom não é mesquinho nem misantropo. É generoso e magnânimo porque com o Compasso exprime a justa medida dos seus sentimentos, cujo esquema se obtém observando a abertura e fechamento das hastes.

Temos, assim, no Esquadro e no Compasso, a fórmula necessária à vitória moral no mundo profano. Fórmula de que só o Maçom é conhecedor e cumpre-lhe aplicá-la em todas as circunstâncias da vida.

A estabilidade das realizações humanas no plano físico exige a aplicação dos instrumentos de correção que indicam o grau de inclinação sobre o ponto de apoio. Se a perpendicular não estiver dentro dos índices tradicionais a obra terá a sua durabilidade ameaçada. Os princípios invioláveis que regem a técnica das construções não diferem daqueles em cuja bitola repousam as atividades do pano moral.

Assim, o Prumo e o Nível, o Esquadro e o Compasso, não são úteis apenas quando se constroem casas e pontes, mas também quando é necessário decidir e aquilatar da conduta humana. Se, pelas qualidades morais, pelo caráter imarcescível, pela prática da Fraternidade, pelo estudo honesto e investigação insuspeita, pelo desprezo ao preconceito, pelo desapego aos bens perecíveis, podemos emoldurar a personalidade de alguém com a expressão daqueles símbolos, teremos o Maçom em potencial, bastando apenas iniciá-lo nos sagrados mistérios da nossa Ordem, Se, pelo contrário, existissem iniciados que devêssemos afastar do nosso convívio em face de corrupção de caráter ou intransigência de princípio egoísticos que teimassem em impor a seus irmãos, nunca os encontraríamos iluminados por aquelas Luzes, porque por mais que se esforçassem em demonstrá-lo, não seriam reconhecidos Maçons.

O Maçom é virtuoso, e não é corruptível nem corrompe; é altivo e não é humilhante; é confiante e correspondente; é honrado e não desonra.

O Maçom é positivo pela maneira como age e os reflexos de sua ação mais insignificante atingem a periferia longínqua do seu meio ambiente.

O Maçom não se distingue pelo que tem, nem pelo que pode, nem pelo que sabe, mas pelo modo como vive entre os ditos profanos.

Diante do mosaico de raças, religiões, credos políticos e escolas filosóficas que formam a babel humana, é o Maçom a personificação da compreensão universal, catalisador das divergências sociais que dividem e infelicitam os homens. Condena os abusos dos déspotas tanto como os desatinos dos que se rebelam. Anima aquele que confia e honesta e diligentemente investiga a verdade, mas desmascara o impostor, combate e persegue o charlatão como inimigos falazes da espécie. Sabe que não há neutralidade entre o Vício e a Virtude, mas não castiga aquele que erra sem antes estudar as circunstâncias que o levaram ao erro e não louva o que vive na Virtude, para não despertar a vaidade, que condena.

O Maçom abomina a falsidade porque sabe que “nada há oculto que não seja descoberto”, segundo o Livro Sagrado da Lei.

Haverá sempre um ramo de Acácia, a indicar o lugar dos despojos; sempre soprará, leve como a brisa, persistente como as ondas, eloquente e inevitável como a eternidade, o som percuciente da voz interna que repete inconscientemente o mea culpa, denunciando o autor do delito.

A Palavra é a principal conquista do Espírito, que por seu intermédio, transmite às gerações nascentes o conhecimento adquirido ou conquistado; o Sentimento é a baliza que determina o aperfeiçoamento atingido e o Pensamento é a chama que resulta do choque entre a revelação da divindade e a ideia embrionária.

Sabe o Maçom que a Palavra é essencial ao progresso e nunca exercerá o seu poder para cerceá-la, se não for portadora de difamação e não atentar contra a moral: que o Sentimento deve ser desenvolvido e aprimorado, para que cesse a mútua incompreensão dos homens; que o Pensamento deve ser livremente difundido para que jorrem permanentemente sobre a humanidade as Luzes que lhe dão segurança e estabilidade. Entre os que fecham a boca do povo, matam o sentimento das massas e sufocam o pensamento que forceja por expandir-se, nunca estarão Maçons.

Os Maçons são livres e vivem na Verdade. Conheceram a Luz que, partindo do Grande Arquiteto do Universo, ilumina como Estrela Flamígera o Espírito e a Matéria e faz projetar ao solo a sombra dos maus e dos bons, para que todos conheçam os vícios de uns e a virtude dos ouros. Vícios e virtudes que se desprendem dos ossos e da carne do indivíduo físico, mas permanecem na composição do indivíduo moral dando-lhe o cunho que o classifica entre os congêneres.

É relevante a influência que a Maçonaria exerce sobre os seus Membros e a nenhum deles é lícito negá-la, porque a retransmitem beneficamente aos seus coevos.

Desde o início remoto das idades até o atual esplendor da Civilização, dentro dos escalões do progresso coletivo, coexistem os tarados e os santos, os estúpidos e os sábios, os gênios e os dementes, porém, desta amálgama amorfa, sempre foi possível distinguir o Maçom do profano, porque o Maçom é aquele que vive em constante luta contra os seus próprios defeitos.

Autor: Carlos Faria

*Texto lido durante o Tempo de Instrução na Loja Fraternidade, Oriente de Santos – SP, em dezembro de 1953.

Fonte: JB News

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Maçons, “livres pensadores”…

What's in your head? Just like in Nolan's 'Inception', brain tech can hack  your mind; 'neuro-rights' can keep you safe - The Economic Times

Aqui há uns tempos em conversa com um amigo sobre determinado tema, disse-lhe eu isto: “eu apenas te mostro o mapa, caberá a ti escolheres o caminho”. E de fato esta é a realidade em que temos de viver. Ou seja, nós somos as nossas “escolhas”, nós somos as “decisões” que tomamos e as ações que decidimos praticar.

Por mais que uns nos digam para irmos para a “esquerda”, outros para a “direita” e alguns inclusive nos digam para seguir pelo “meio”, a decisão final sairá de nós próprios, da nossa vontade, independentemente das indicações e dos conselhos que recebamos e que possam nos auxiliar na decisão a tomar.

Se decidirmos agir de certa maneira, coincidindo ou não com o que a generalidade ou somente com o que alguns considerem sobre tal, foi a nossa mente que o decidiu. Assim, todos nós, na nossa Vida, somos  – e seremos sempre – responsáveis por aquilo que decidirmos, sejam ações ou palavras e até mesmo pelos mais simples pensamentos. Fomos nós que os criamos/produzimos, logo somos nós responsáveis por eles, por inerência. Por mais influências que recebamos externamente, é o nosso íntimo, o nosso “Soi”, que irá efetuar a escolha do que concretamente iremos fazer.

Será a mais correta?!

Será a mais eficaz?!

Será a mais proveitosa?!

O que sabemos é que é a nossa decisão e apenas isso. Foi o que optamos por decidir. E que tal decisão seja sempre tomada em consciência com os princípios que advogamos e com os quais nos sintamos devidamente identificados. Sejamos honestos, íntegros e coerentes nas nossas decisões!

Os maçons, “livres-pensadores” como orgulhosamente se assumem, devem ter bem a noção de tal. Não bastará assumir algo ou determinada coisa para depois não se praticar isso na realidade. É sempre esperado que um maçom use o seu bom senso e os seus bons costumes para decidir, se possível sempre, da melhor forma possível face às situações que a vida lhe apresenta. Tem o dever de agir dessa forma!

O que poderá acontecer, e muitas vezes é inevitável tal, é que nem sempre as decisões tomadas possam ser as melhores ou mais corretas, uma vez que o maçom, tal como outro ser humano qualquer, também erra, mas como maçom tem a obrigação de aprender com esse erro e evitá-lo no seu futuro. E aqui assumo que os maçons também erram, infelizmente algumas vezes e talvez, digo eu, vezes demais. Mas como o maçom é alguém que busca evoluir espiritualmente, ele também estará suscetível a efetuar mudanças no seu comportamento; logo, também as suas decisões serão influenciadas pelas mudanças/transformações que sofrer e as suas atitudes se revelarão melhor no seu comportamento e caráter. Tudo isto em prol do seu autoaperfeiçoamento enquanto ser humano. Isso será o tal “polimento”, o tal “burilamento da pedra bruta” que na Maçonaria tanto se fala.

Os vícios ou erros comportamentais que possam ter existido na sua conduta no passado, deverão ficar aí mesmo, no passado. E “como de passado apenas vivem os museus” (como é usual se afirmar), no momento da Iniciação, no momento em que o recém neófito encontra a sua primeira centelha da Luz, nasce como uma nova pessoa, um “novo Homem”, e como tal terá acesso a “ferramentas sociais e espirituais” que poderá utilizar para melhor atingir o seu “nirvana”, por assim dizer. 

O que interessa por vezes não é o mapa mas o caminho que se seguiu. Mesmo para o nosso autoaperfeiçoamento, o que importa é que decidimos livremente as decisões que tomamos e que escolhemos sempre, mediante o que a vida nos vai apresentando e mediante as condições que temos, mas que foram  as melhores decisões que consideramos que podíamos e/ou devíamos tomar ou ter tomado. Isso sim, é o mais importante nisto tudo. Este caminho que seguimos é feito sozinho (somos nós que o temos que fazer) mas não é solitário (pois outros o fazem também) e temos ter a consciência e a noção disto.

Se olharmos para o lado veremos alguém a viver as mesmas situações ou outras, com decisões tomadas semelhantes ou completamente diferentes daquelas que, se fosse conosco, tomaríamos. A vida é isto mesmo, cheia de imponderáveis e é essa uma das mais valias de viver, a cada passo dado, a cada momento, nunca sabemos o que se seguirá, apenas o podemos tentar prever e nada mais.

O que concluindo posso afirmar é que, independentemente das decisões e escolhas que tomemos, somos nós que o deveremos fazer e não outrem. E por elas nos responsabilizarmos. São estas decisões que nos definem como pessoas!

A  grande diferença que temos em relação aos restantes seres vivos é a nossa “massa cinzenta” e é devido a ela que pudemos livremente pensar. É altura de a começarmos a valorizar mais e principalmente em a começar a usar de uma forma correta e eficiente. E posto isto, porque não… pensar?!

Autor: Nuno Raimundo

Fonte: Blog A Partir Pedra

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