As Old Charges

 

I. O QUE SÃO AS OLD CHARGES

Acabo de ler um artigo em um dos mais obscuros periódicos maçônicos onde um irmão desconhecido se sai com esta observação muito familiar: “Quanto a mim, não estou interessado nos documentos antigos mofados do passado. Quero saber o que está acontecendo hoje.” O contexto deixa claro que ele tinha em mente as Antigas Obrigações. Uma resposta suficiente a este ignorante é que as Antigas Obrigações estão entre as coisas que estão “acontecendo hoje.” Elimine-­as da Maçonaria, como ela funciona hoje e nenhuma loja subordinada, ou Grande Loja, ou qualquer outro corpo maçônico regular poderia absolutamente operar; elas são o que a Constituição deste país é para o Governo dos Estados Unidos, e que seus estatutos são para cada estado da União. Todas as nossas constituições, estatutos, leis, normas, leis e regulamentos, de uma forma ou de outra se referem às Antigas Obrigações, e sem elas a jurisprudência maçônica, ou os métodos de governo e regulação dos assuntos jurídicos da Maçonaria, estariam pendurado, suspensos no ar. Na medida em que líderes maçônicos, Grãos-Mestres, Veneráveis e Comissões de Jurisprudência ignoram ou esquecem, ou não compreendem estes estatutos maçônicos, eles cometem loucuras, e levam a Maçonaria a todos os tipos de empreendimentos selvagens e não maçônicos. Se algum mago pudesse conceber um método pelo qual uma concepção clara das Antigas Obrigações e o que elas representam pudesse ser instalada na cabeça de cada maçom ativo na terra, ele salvaria todos nós de momentos de constrangimento e livraria as Grandes Lojas e outros organismos dos Altos corpos das despesas desnecessárias de centenas de milhares de dólares a cada ano. Se existe uma necessidade prática, uma necessidade básica na Maçonaria hoje, é uma compreensão geral lúcida das Antigas Constituiçõeslandmarks de nossa Ordem.

Entende-­se por Antigas Obrigações (Old Charges) os documentos antigos que chegaram até nós a partir do século XIV e, posteriormente, nos quais são incorporadas à história tradicional, as lendas e as regras e regulamentos da Maçonaria. Eles são chamados de diversas formas “Antigos Manuscritos”, “Antigas Constituições”, “Lendas da Ordem”, “Manuscritos Góticos”, “Antigos Registros”, etc., etc. Na composição física destes documentos são encontrados, às vezes, em forma de papel manuscrito ou rolos de pergaminho, cujas unidades são costuradas ou coladas, folhas escritas costuradas em forma de livro, e na forma impressa familiar de um livro moderno. Às vezes, elas se encontram incorporadas ao livro de atas de uma loja. Eles variam em data estimada, de 1390 até o primeiro quarto do século XVIII, e alguns deles são exemplares em bonita escrita gótica. O maior número deles está sob a guarda do Museu Britânico; a biblioteca maçônica de West Yorkshire, Inglaterra, tem em custódia o segundo maior número.

Como já foi dito, essas Antigas Obrigações (Old Charges – como é o nome mais familiar) formam a base das constituições maçônicas modernas e, portanto, da jurisprudência. Elas estabelecem a continuidade da instituição maçônica por um período de mais de cinco séculos e, ao mesmo tempo, em sinal de sua importância, prova a grande antiguidade da Maçonaria por documentos escritos, que é uma coisa que nenhuma outra ordem existente atualmente pode fazer. Esses manuscritos são tradicionais e lendários na sua essência e, portanto, não devem ser lidos como são as histórias, no entanto, um estudo cuidadoso e crítico deles baseado em provas internas, lança mais luz sobre os primeiros tempos da Maçonaria do que qualquer outra fonte.

Acredita-se que as Antigas Obrigações eram utilizadas na iniciação de um maçom nos tempos operativos; que elas serviram como constituições de lojas em muitos casos, e às vezes funcionavam como o que hoje chamamos de carta constitutiva.

O estudo sistemático desses manuscritos começou em meados do século passado, altura em que a existência de apenas alguns entre eles era conhecida. Em 1872, William James Hughan listava 32. Em grande parte devido aos seus esforços, muitos outros foram descobertos, de modo que, em 1889, Gould pode listar 62, e o próprio Hughan em 1895, tabulou 66 cópias manuscritas, 9 versões impressas e 11 versões perdidas. Esse número foi tanto cresceu nos últimos anos que em “Ars Quatuor Coronatorum”, Volume XXXI, página 40 (1918), o irmão Roderick H. Baxter, hoje Venerável Mestre da Loja Quatuor Coronati, listava 98, número que incluía tanto as versões dadas como perdidas. A lista do Irmão Baxter é peculiarmente valiosa na medida em que ela oferece dados a respeito de quando e onde esses manuscritos foram reproduzidos.

Por uma questão de ser mais capaz de comparar uma cópia à outra, o Dr. W. Begemann classificava todas as versões em quatro “famílias” gerais: A Família Grande Loja, a Família Sloane, a Família Roberts, e a Família Spencer. Estes grupos de famílias, ele subdividia em ramos, e acreditava que a Família Spencer era um desdobramento da Família Grande Loja e a Família Roberts um ramo da Família Sloane. Desta forma geral de agrupamento, o médico erudito foi seguido por Hughan, Gould e seus colegas, e sua classificação ainda se mantém em geral; tentativas têm sido feitas nos últimos anos para alterá-la, mas sem muito sucesso. Um dos melhores gráficos, com base em Begemann, é aquele feito pelo irmão Lionel Vibert, uma cópia do qual será publicada numa edição futura do The Builder.

A primeira referência impressa conhecida dessas Antigas Obrigações foi feita pelo Dr. Robert Plot, em sua História Natural de Staffordshire publicada em 1868. O Dr. A.F.A. Woodford e William James Hughan foram os primeiros a realizar um estudo científico. As Antigas Obrigações de Hughan é até hoje o trabalho padrão em inglês. O capítulo de Gould em sua História da Maçonaria provavelmente seria classificado em segundo lugar em valor, enquanto que os volumosos escritos do Dr. Begemann, com que ele contribuiu para o Zirkelcorrespondez, órgão oficial da Grande Loja Nacional da Alemanha, se eles tivessem sido traduzidos para inglês, nos dariam o tratamento mais exaustivo do assunto jamais escrito.

As Antigas Obrigações são peculiarmente inglesas. Nenhum desses documentos jamais foi encontrado na Irlanda. Sabe-se que os manuscritos escoceses têm origem inglesa. Findel e outros escritores alemães sustentaram certa vez que a versão em inglês, em última análise, derivava-se de fontes alemãs, mas isso foi desmentido. O único ponto conhecido de semelhança entre as Antigas Obrigações e tais documentos alemães, como as Portarias Torgau e as Constituições de Colônia é a Lenda dos Quatro Mártires Coroados, e essa lenda é encontrada entre as versões em inglês apenas no Manuscrito Regius. Como bem diz Gould, o MSS britânico “não têm antecessores, nem rivais”; eles são as coisas mais ricas e raras em todo o campo de escritos maçônicos.

Quando as Antigas Obrigações são colocadas lado a lado, vê-­se imediatamente que na sua narração da história tradicional da Ordem, elas variam em grande número de detalhes, no entanto, elas parecem ter derivado de alguma origem comum, e em geral elas contam a mesma história, que é tão interessante como a história de fadas dos irmãos Grimm. Será que o original da narração tradicional veio de algum indivíduo ou nasceu de uma tradição flutuante, como os contos folclóricos dos povos antigos? As autoridades divergem muito neste ponto. Begemann não só declarou que a primeira versão da história origina­-se de um indivíduo, mas até mesmo definiu o que ele considera serem as fontes literárias utilizadas por esse Grande Desconhecido. Os argumentos do doutor são poderosos. Por outro lado, outros afirmam que a história começou como uma vaga tradição oral geral, e que com o passar do tempo foi reduzida a texto escrito. Em todo caso, por que a história foi escrita? Com toda certeza, uma resposta a essa pergunta nunca será direta, mas W. Harry Rylands e outros eram de opinião que as primeiras versões escritas foram feitas em resposta a um Writ for Return emitido em 1388. As palavras de Rylands podem ser citadas: “Parece-me não de todo improvável que muito, se não tudo da lendária história foi composto em resposta à Writ for Return emitida para as corporações em todo o país, no ano duodécimo de Ricardo II, 1388 d.C.”. (A.Q.C. XVL página 1).

II. OS DOIS MANUSCRITOS MAIS ANTIGOS

Em 1757, o Rei George II apresentou ao Museu Britânico, uma coleção de cerca de 12.000 volumes, o núcleo da qual tinha sido organizado pelo rei Henrique VII e que veio a ser conhecida como a Biblioteca Real. Entre esses livros estava um manuscrito raramente belo escrito à mão em 64 páginas de pergaminho, com cerca de quatro por cinco polegadas, que um catalogador, David Casley, registrou como n º 17 A­1, sob o título: “Um poema de Deveres Morais: aqui intitulado Constitutiones Artis Geometrie Secundem”.

Somente após o Sr. J.O. Halliwell, F.R.S. (depois Halliwell-­Phillipps), um não maçom, “descobri-lo”, é que o manuscrito passou a ser conhecido como um documento maçônico. O Sr. Phillipps leu um artigo sobre o manuscrito diante da Sociedade de Antiquários, em 1839, e no ano seguinte publicou um volume intitulado História Antiga da Maçonaria na Inglaterra (ampliada e revisada em 1844), em que ele incorporava uma transcrição do documento, juntamente com algumas páginas em fac-símile.

Este importante trabalho pode ser encontrado incorporado à conhecida Biblioteca Maçônica Universal, nas rústicas encadernações em pele de carneiro enferrujadas que chamam a atenção em quase todas as prateleiras de livros maçônicos. Este manuscrito ficou conhecido como “O Halliwell”, ou como “Halliwell-Phillipps” até cerca de cinquenta anos atrás, até que Gould o rebatizasse, em honra à Biblioteca Real, em que se encontra, como “Regius”, e desde então este tem sido o apelido mais familiar.

Poema Regius

David Casley, um estudioso especializado em velhos manuscritos, datou o “Regius” como originário do século XIV. E.A. Bond, outro perito, o datou como de meados do século XV. O Dr. Kloss, especialista alemão, colocou-­o entre 1427 e 1445. Mas, a maioria concordou com 1390 como a data mais provável. “É impossível chegar a uma certeza absoluta quanto a este ponto”, diz Hughan, cujas Antigas Obrigações deveriam ser consultadas, exceto que ele provavelmente não é mais velho do que 1390, mas pode ser de uns vinte anos ou mais tarde. O Dr. W. Begemann realizou um estudo do documento que nunca foi igualado quanto ao rigor, e chegou a uma conclusão que pode ser expressa em suas próprias palavras: ele foi escrito “por volta do final do século XIV, ou pelo menos no início do século XV (não em Gloucester em si, por ser muito ao sul) no norte de Gloucestershire, ou vizinhos ao norte de Herefordshire, ou possivelmente até mesmo ao sul de Worcestershire”. (A.Q.C. VII, página 35).

Em 1889, um fac-símile exato deste famoso manuscrito foi publicado no Volume I do Antigrapha produzido pela Loja de Pesquisa Quatuor Coronati, e foi editado pelo então secretário daquela loja, George William Speth, ele próprio uma autoridade brilhante, que forneceu um glossário indispensável para o estudante amador. Com ele foi publicado um comentário de R.F. Gould, um dos mais importantes entre todos os seus trabalhos maçônicos, embora seja irritante por suas divagações e falta geral de conclusividade.

O Manuscrito Regius é a única entre todas as versões a ser escrita em métrica, e pode ter sido composto por um padre, a julgar por algumas evidências internas, embora a questão seja controversa. Há cerca de 800 linhas do poema, a parte estritamente maçônica chegando ao final na linha 576, depois da qual começa o que Hughan chama de um “sermão” sobre deveres morais, no qual existe uma grande veia católica romana, com referências aos “sete pecados”, “a doce senhora” (referindo-se à Virgem) e à água benta. Não há tal Mariolatria específica em qualquer outra versão das Antigas Obrigações, embora a grande maioria delas expresse lealdade à “Santa Igreja” e todos eles, até mesmo a versão familiar de Anderson, sejam especificamente cristãos, até onde a religião esteja em causa.

O autor fornece uma lista de quinze “pontos” e quinze “artigos”, que são instruções bastante específicas sobre o comportamento de um artesão: esta parte é considerada por muitos como tendo sido as obrigações de um iniciado, utilizada no tempo do autor e, por isso, considerada a característica mais importante do livro como nos fornecendo um retrato da regulamentação da Ordem nessa época remota. A Ordem é descrita como tendo surgido como uma fraternidade organizada na “época do Rei Adelstoune”, mas nisso o autor se contradiz, pois ele se refere às coisas “escritas em livros antigos” (modernizei a ortografia das citações) e tem por certo a antiguidade da Maçonaria, que, como em todas as Antigas Obrigações, é sinônimo de Geometria, naqueles dias uma coisa muito diferente da ciência abstrata sobre a qual trabalhamos em nossos dias de escola.

O Poema Regius é, evidentemente, um livro sobre a Maçonaria, ao invés de um documento da Maçonaria, e pode muito bem ter sido escrito por um não maçom, embora não exista uma maneira em que possamos verificar essas teorias, especialmente vendo que nada sabemos sobre o documento, exceto que ele tem a nos dizer sobre si mesmo, que é muito pouco.

Em seu comentário sobre o Manuscrito Regius, R.F. Gould produziu um parágrafo que desde então tem servido como o pivô de um grande debate. Ele diz o seguinte e se refere ao “sermão”, a parte que trata de “deveres morais”: “Essas regras de decoro são lidas de maneira muito curiosa na época atual, mas a sua inaplicabilidade ao caso dos Maçons trabalhadores do século XIV ou XV é imediatamente evidente. Eles se destinavam aos senhores daquela época, e as instruções de comportamento na presença de um senhor – à mesa e em companhia de senhoras – que estava igualmente fora de lugar em um código de boas maneiras elaboradas para o uso de uma Guilda ou Ordem de Artesãos”.

O ponto principal disso é que deve ter existido entre os artesãos da época certo número de homens que não estavam envolvidos com o trabalho e, portanto, eram, como agora os descreveríamos, “especulativos”. Isso seria de imensa importância, se Gould tivesse defendido seu argumento, o que ele não foi capaz de fazê-­lo. As maiores mentes do período em questão dedicavam­-se à arquitetura, e não há nenhuma razão para não se acreditar que entre os artesãos existissem membros de boas famílias. Além disso, a Ordem estava em contato com o clero todo o tempo e, portanto, muitos de seus membros podem muito bem ter precisado de regras para a preservação do decoro em grandes casas e entre os membros das classes superiores. Desde Woodford até o presente momento, a grande maioria dos estudiosos maçons acreditou que as Antigas Obrigações foram utilizadas por uma ordem estritamente operativa, e é evidente que eles vão continuar a fazê-lo até que evidências mais conclusivas em contrário sejam mais diretas do que supunha Gould.

Depois do Regius, o manuscrito mais antigo é aquele conhecido como Cooke.

Ele foi publicado por R. Spencer, em Londres, em 1861 e foi editado por Mr. Matthew Cooke, daí o seu nome. No catálogo do Museu Britânico ele é listado como “Manuscrito adicional 23,198”, e foi datado por Hughan em 1450 ou por aí, uma estimativa com a qual a maioria dos especialistas concordou. O Dr. Begemann acreditava que o documento tivesse sido “compilado e escrito na parte sudeste da região das Midlands Ocidentais, por exemplo, em Gloucestershire e Oxfordshire, possivelmente, também no sudeste de Worcestershire e Warwickshire. O ‘Livro de Obrigações’, que constitui a segunda parte do documento é, certamente, do século XIV; a parte histórica, ou primeira parte, muito provavelmente do início do século XV.” (A.Q.C. IX, página 18).

O Manuscrito Cooke esteve certamente nas mãos do Sr. George Payne, quando de seu segundo mandato como Grão-­Mestre, em 1720, ele compilou os “Regulamentos Gerais”, os quais Anderson incluiu em sua própria versão das “Constituições” publicada em 1723. O próprio Anderson, evidentemente, utilizou as linhas 901­960 do Manuscrito.

A Loja Quatuor Coronati republicou o Cooke em fac-símile no vol. II da sua Antigraphaem 1890, e incluiu um ali um comentário de George William Speth que é, em minha humilde opinião, uma peça ainda mais brilhante que o Comentário de Gould sobre o Regius. Algumas das conclusões de Speth são de valor permanente.

O Manuscrito é uma transcrição de um documento ainda mais antigo e foi escrito por um maçom. Havia diversas versões das Obrigações de um maçom em circulação na época. O Manuscrito está em duas partes; a primeira delas é uma tentativa de se fazer história da Arte, a último é uma versão das Obrigações. Desta parte, Speth escreve que é “de longe a versão mais antiga e mais pura das ‘Antigas Obrigações’ que possuímos.” O Manuscrito menciona nove “artigos”, e estes, evidentemente, eram obrigação legal na época, e nove pontos não eram provavelmente juridicamente vinculantes, mas o eram moralmente. Congregações de maçons foram realizadas aqui e ali, mas nenhuma “Assembleia Geral” (ou “Grande Loja”); Grão-Mestres existiam de fato, mas não com esse nome e somente presidiam uma reunião de uma congregação. “Muitos de nossos costumes atuais podem ser rastreados em sua forma original até este artigo.”

III. AS CONSTITUIÇÕES DE ANDERSON E OUTRAS VERSÕES IMPRESSAS

Uma das mais importantes de todas as versões das Antigas Obrigações não é, absolutamente, um original antigo, mas uma edição impressa emitida em 1722, e conhecida como Roberts, embora se acredite ser uma cópia de um documento antigo. Sobre ela, escreve WJ Hughan: “A única cópia conhecida foi comprado por mim na venda de obras maçônicas pelo Irmão Spencer, etc. (Londres, 1875), por £8 10s, em nome do falecido irmão R.F. Bower, e está agora na magnífica biblioteca da Grande Loja de Iowa, nos EUA.” Este pequeno volume é, sem dúvida, a mais valiosa propriedade literária maçônica na América, e foi publicada como fac-símile exato pela Sociedade Maçônica Nacional de Pesquisa, com uma introdução eloquente pelo Dr. Joseph Fort Newton, em 1916. O reverendo Edmund Coxe editou uma famosa reimpressão em 1871. Ela é uma versão que merece estudo mais cuidadoso por parte do estudante maçom, porque ela teve uma influência decisiva sobre a literatura e a jurisprudência da Ordem, após a sua aparição inicial. Ela apareceu em um dos períodos mais interessantes e importantes da Maçonaria especulativa moderna, ou seja, nos anos entre a organização da primeira Grande Loja em 1717 e o surgimento da Constituição de Anderson em 1723. É a primeira versão impressa das Antigas Obrigações a existir.

Outra versão impressa conhecida é a que foi publicada em 1724 e conhecida como Briscoe.

Esta foi a segunda publicação do gênero. A terceira versão impressa foi publicada em 1728-9 por Benjamin Cole, e conhecida como a Edição Cole. Esta versão é considerada uma joia literária em que o corpo principal do texto é todo gravado no mais belo estilo. Uma edição especial deste livro foi feita em Leeds, em 1897, cujo valor foi realçado por uma das famosas apresentações de W.J. Hughan. Para nossos propósitos modernos e práticos, a mais importante de todas as versões jamais feitas foi aquela compilada pelo Dr. James Anderson em 1723 e conhecida em todos os lugares familiarmente como “Constituição de Anderson.” A segunda edição apareceu, muito alterada e ampliada em 1738; uma terceira por John Entick em 1756, e assim por diante algumas vezes; até 1888, vinte e duas edições tinham sido publicadas. O Reverendo A.F.A. Woodford, colaborador de Hughan editou uma edição de O Livro Constituição de 1723 como Volume I da Biblioteca Arqueológica Maçônica de Kenning, com data de 1878. Esta é uma reprodução correta e detalhada do livro exatamente como Anderson a publicou pela primeira vez, e é importante nesse sentido.

A Página-título de Anderson é uma leitura interessante:

“A CONSTITUIÇÃO, História, Leis, Obrigações, Ordens, Regulamentos e Usos da Venerável e Direita FRATERNIDADE de MAÇONS LIVRES E ACEITOS; coletados a partir de seus REGISTROS gerais, e as suas fiéis TRADIÇÕES de muitas Eras. Para ser lida na Admissão de um NOVO IRMÃO, quando o Mestre ou Vigilante iniciará, ou pedirá a algum outro Irmão que leia o seguinte, etc. “

Após a palavra “seguinte” a própria versão de Anderson da história maçônica começa com esta afirmação surpreendente:

“Adão, nosso primeiro Pai, criado à imagem de Deus, o Grande Arquiteto do Universo, deve ter tido as Ciências Liberais, particularmente a Geometria, inscritas em seu Coração, etc.”.

Assim fez o Dr. Anderson ao lançar sua narrativa agora três vezes familiar da história da Maçonaria, uma narrativa que, salvo nas mãos do mais experiente antiquário maçônico, produz qualquer fato histórico confiável, mas que, devido ao prestígio de seu autor, veio a ser aceita por gerações como uma história de boa-fé da Ordem. Muitos anos ainda passarão até que os maçons em geral aprendam que a “história” do Dr. Anderson pertence ao reino da fantasia em sua maior parte, e nunca foi aceita como qualquer outra coisa por quem tem algum conhecimento.

Os fatos apurados sobre a própria história particular do Dr. Anderson incluem um registro quase tão breve quanto os breves e simples anais dos pobres. O Irmão J.T. Thorp, um dos mais destacados veteranos entre os estudiosos ingleses maçônicos vivos deu-nos um excelente resumo:

“Sobre este distinto Irmão sabemos muito pouco. Acredita-se que ele tenha nascido, educado e iniciado na Escócia, posteriormente estabelecendo-se em Londres como ministro presbiteriano. Ele é mencionado pela primeira vez nos Procedimentos da Grande Loja de Inglaterra em 29 de setembro de 1721, quando foi nomeado para revisar as antigas Constituições Góticas – esta revisão foi aprovada pela Grande Loja de Inglaterra em 29 de setembro de 1723, ano em que Anderson era Segundo Grande Vigilante sob o Duque de Wharton – ele publicou uma segunda edição do Livro das Constituições em 1738, e morreu em 1739. Isto é tudo o que se sabe dele”. (A.Q.C. VII, página 9)

Em sua edição de 1738, Anderson tornou tão ilegível a sua narração da fundação da Grande Loja, e contradisse sua própria história anterior de tal forma, que R.F. Gould estava inclinado a crer que ele tinha se tornado descontente e cheio de melancolia, ou então suas faculdades mentais estavam deterioradas. Seja o que for, as páginas históricas Anderson devem ser lidas com extrema cautela. Sua própria Constituição, ou a parte que trata dos princípios e regulamentos da Ordem é, certamente, uma compilação feita de extratos de outras versões das Antigas Obrigações bastante misturadas com suas próprias ideias sobre as premissas, e de tal forma em desacordo com os costumes anteriores, que sua adoção oficial teria causado muita discórdia entre as lojas, e pode ter tido algo a ver com a ruptura que, finalmente, levou à formação da Grande Loja dos “Antigos” de 1751 ou por volta desta época.

O “Anderson” deste último corpo, que com o tempo tornou-se poderoso, foi Laurence Dermott, um irlandês genial, que, como Grande Secretário era o líder das “Antigas” forças por muitos anos, e que escreveu para o corpo a sua própria Constituição, chamada Ahiman Rezon, título enigmático que se acreditava por alguns significar “Digno Irmão Secretário”. A primeira edição desta versão importante foi preparada em 1756, uma segunda em 1764, e assim por diante até 1813, quando uma oitava foi publicada. Uma coleção completa de todas as edições está na Biblioteca Maçônica na Filadélfia. Algumas de nossas Grandes Lojas, Pensilvânia entre elas, continuam a chamar seu Livro das Constituições, de Ahiman Rezon.

O próprio Anderson ainda está na prateleira da crítica. Irmãos cultos estão verificando suas afirmações (ver artigo do Irmão Vibert no The Builder de agosto), peneirando suas páginas e não deixando pedra sobre pedra, a fim de avaliar corretamente suas contribuições para a história maçônica. Mas não há tanta discórdia sobre a Constituição. Naquele documento, que não satisfez muitos quando de sua aparição, Anderson, como bem disse o irmão Lionel Vibert, “construiu o melhor que pode”, porque ele produziu um documento que até hoje serve como base de quase todas as Constituições de Grandes Lojas com jurisdição sobre a Maçonaria Simbólica, e de uma vez por todas para toda a Maçonaria Especulativa em uma base separada, e sem caráter sectário, tanto da religião quanto da política. Por todos os seus defeitos como historiador (e estas falhas eram tanto provocadas pela sua idade quanto por suas próprias deficiências), Anderson é uma grande figura em nossos anais, e merece um estudo cuidadoso e reverente na mão de cada estudante.

IV. CONCLUSÃO

Ao concluir este esboço muito breve e inconclusivo de um grande assunto, volto à minha primeira afirmação. Em todo o círculo de estudos maçônicos não há, para nós, americanos, de qualquer modo, qualquer assunto de tamanha importância quanto este das Antigas Obrigações, especialmente na medida em que elas têm a ver com nossas Constituições e Regulamentos, e isso realmente vale muito. Muitas falsas concepções da Maçonaria podem ser diretamente relacionadas com uma má interpretação inculta ou intencional das Antigas Obrigações, o que elas são, o que significam para nós, e qual é sua autoridade. Neste país, a jurisprudência é um problema de suprema importância, e de certa forma não muito bem compreendida por nossos irmãos em outras partes, que muitas vezes eu me pergunto por que deveríamos ser tão obcecados com ela. Temos quarenta e nove Grandes Lojas, cada uma das quais é soberana em seu próprio estado, e todas devem manter relações fraternas com dezenas de Grandes Corpos estrangeiros, assim como umas com as outras. Estas Grandes Lojas se reúnem a cada ano para legislar sobre a Ordem e, portanto, na verdadeira natureza das coisas, a organização e governo da Ordem é para nós americanos uma coisa muito mais complicada e importante do que ela pode ser em outros países. Saber o que são as Antigas Obrigações, e entender a lei e a prática constitucional Maçônica é para os nossos líderes e legisladores uma necessidade primordial.

Autor: H.L. Haywood
Tradução: José Filardo

LIVROS CONSULTADOS NA PREPARAÇÃO DESTE ARTIGO

Gould’s History of Freemasonry, Vol. 1, começando na página 56; A.Q.C., I, 127; A.Q.C., I, 147; A.Q.C., I, 152; A.Q.C., IV, 73; A.Q.C., IV, 83; A.Q.C., IV, 171; A.Q.C., V, 37; A.Q.C., IV, 201; A.Q.C, IV, 36,198; A.Q.C., VII, 119; A.Q.C., VIII, 224; Hughan, Old Charges; A.Q.C., IX, 18; A.Q.C., IX, 85; A.Q.C., XI, 205; A.Q.C., XIV, 153; A.Q.C., XVI, 4; A.Q.C., XVIII, 16; A.Q.C., XX, 249; A.Q.C., XXI, 161, 211; A.Q.C., XXVIII, 189; Gould’s Concise History, capítulo V; Gould, Collected Essays, 3; Stillson, History of Freemasonry and Concordant Orders, 157; A.Q.C., XXXIII, 5; The Masonic Review, Vol. XIII, 297; Edward Conder, Records of the Hole Craft and Fellowship of Masons; Vibert, Story of the Craft; Vibert, Freemasonry Before the Era of Grand Lodge; Findel, History of Freemasonry; Hughan, Cole’s Constitutions; Fort, Early History and Antiquities of Freemasonry; Pierson, Traditions, Origin and Early History of Freemasonry; Hughan, Ancient Masonic Rolls: Waite, New Encyclopedia of Freemasonry; Clegg, Mackey’s Revised History; Ward, Freemasonry and the Ancient Gods: A.Q.C., Antigapha, todos os volumes.

REFERÊNCIAS SUPLEMENTARES

Mackey’s Encyclopedia (Revised Edition): Ahiman Rezon, 37; Antients, 55; Ars Quatuor Coronatorum, 80; Arts, 80; Benjamin Cole, 157; Charges of 1722, 143; Congregations, 174; Cooke’s Manuscript, 178; Dr. James Anderson, 57; Dr.Robert Plot, 570; Four Crowned Martyrs, 272; George B.F. Kloss, 383; Gothic Constitutions, 304; Halliwel l Manuscript, 316; John Entick, 246; Laurence Dermott, 206; Legend, 433; Legend of the Craft, 434; Old Charges, 143; Old Manuscripts, 464; Old Records, 612; Old Regulations, 527; Operative Masonry, 532; Parts, 544; Plot Manuscript, 569; Points, 572; Regius Manuscript, 616; Roberts’ Manuscript, 627; Speculative Masonry, 704.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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