JB News – todas as edições

O blog O Ponto Dentro do Círculo disponibiliza a seus leitores todas as edições do informativo JB News.

O JB News foi durante muitos anos produzido e editado por nosso saudoso irmão Jerônimo Borges, que muito contribuiu para a disseminação da cultura em nosso meio.

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Farinha do mesmo saco

Em tempos idos, depois da colheita e da debulha, tomavam os agricultores o seu grão que levavam ao moleiro para que o transformasse em farinha. Diversas variedades de grão davam origem a diversos tipos de farinha, que não se queriam misturados; afinal, farinha de trigo e farinha de centeio resultam em tipos de pão muito diferentes… Por isso, cada um dos vários tipos de farinha era cuidadosamente ensacado separadamente dos restantes. Ficava, assim, a farinha mais fina separada da mais grosseira, e a mais branca separada da mais escura.

O povo, pródigo em aforismos, terá visto nas várias qualidade de farinha uma metáfora para as qualidades humanas. Do latim nos chega, assim, a expressão ejusdem farinae (“da mesma farinha”), dizendo-se de vários indivíduos serem, como diríamos hoje, “farinha do mesmo saco”, quando apresentassem qualidades ou defeitos comuns. No fundo, a expressão dá a entender que os bons se juntam aos bons, enquanto os maus andam na companhia dos maus.

Não é segredo nenhum que os maçons procuram acolher no seu seio pessoas com determinadas qualidades. Sendo a maçonaria um instrumento cuja finalidade é o aperfeiçoamento do homem e do Homem não é de estranhar que seja essencial que o indivíduo que pretende ser maçom tenha esse desejo de se tornar numa pessoa melhor. Pretendendo-se, por outro lado, cultivar um ambiente de fraternidade obriga, igualmente, ao desenvolvimento de um proporcional sentido de tolerância. Por fim, e acima de tudo, nada disto pode ser conseguido por quem não seja uma pessoa de bem; a vileza de propósitos é absolutamente incompatível com os princípios da maçonaria.

Serão, então, os maçons uma massa homogénea – de espíritos elevados, dirão uns, ou de energúmenos, dirão outros? De modo algum. Antes do mais, porque não é isso o que se pretende; o respeito pela diversidade, mais do que acarinhado, é um dos pilares da maçonaria: a famosa “tolerância maçônica”. Por outro lado, porque os maçons nem sempre são tão eficazes quanto seria desejável no crivo pelo qual fazem passar os candidatos. Acabam, assim, por ser admitidos indivíduos que não deveriam sê-lo.

A maior parte destas admissões “por engano” acaba por se resolver num prazo curto. Não é inaudito alguém ser iniciado, aparecer a algumas sessões, e depois deixar de aparecer. Outros ficam mais tempo; no entanto, ao fim de um par de anos, chegados ao grau de Mestre, desaparecem como os primeiros. Uns e outros acarretam um desperdício de tempo e de esforço, quer dos próprios quer da Loja. No entanto, é sempre feito um esforço suplementar no sentido de se endereçar o que tenha corrido menos bem, e no sentido de se ajudar o irmão em causa a reconquistar o ânimo, a vontade, ou tão somente a disponibilidade.

Por fim, há os que vão ficando, pelo menos em corpo – mas não em espírito, em vontade ou em união com os demais. Bebem da fonte da maçonaria apenas o que lhes interessa, mas esquivam-se da reciprocidade que deles se espera – não reciprocidade material, mas de tempo, esforço e serviço. Mas como a maçonaria preza muito a liberdade de cada um, e a ninguém exige aquilo que não queira – ou não possa – dar, estes são, muitas vezes, metidos no mesmo saco dos “pouco disponíveis” ou, enfim, dos “pouco dotados”.

É inconcebível esperar que, entre milhares de pessoas, não haja um punhado de indivíduos dissimulados, de má índole, ou com uma agenda própria. E porque basta uma pequena contaminação para condenar todo um saco, se a maçonaria fosse um saco de farinha as autoridades sanitárias não nos poupavam: ia tudo pelo ralo.

Por mais que o queiramos – e que o ideal seja esse – a maçonaria real, feita de maçons de carne e osso, não é um impoluto saco de farinha fina e branca, imaculada como a neve. É, antes, uma irregular farinha de mistura de cereais diferentes, com pedaços de farelo e grão mal moído, a que não falta uma ou outra caganita de rato. Bem amassada com água e com o sal que tempera os nossos dias, submetida ao calor de um forno que a liberta dos efeitos nefastos das impurezas, obtém-se um pão saboroso e único – saboroso porque provém de todos, e único porque provém de cada um – para mais enriquecido com uma dose q.b. de elementos patogénicos para treinar o nosso sistema imunitário.

Há indivíduos na maçonaria que fazem coisas que não deveriam? Sem dúvida. E que, porventura, não deveriam ter sido recebidos maçons? Também. E que até já foram expulsos da maçonaria por causa do que fizeram? Incontestável. O que não é verdade é que sejam esses quem define o que é a maçonaria, ou o que esta deve ou não deve ser. Não basta, como fazem alguns, apontar-se um mau maçom – ou uma dúzia deles! – para descredibilizar, de imediato, toda a instituição.

Todo o pressuposto está errado. As pessoas não são farinha, as companhias não nos definem, e o mal não se propaga assim. Ou, como jocosamente disse Millôr Fernandes, “Diz-me com quem andas e dir-te-ei (que língua a nossa!) quem és. Pois é: Judas andava com Cristo. E Cristo andava com Judas.”

Autor: Paulo M.

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Como é sua Maçonaria? Como é sua Loja?

O Ponto Dentro do Círculo

Um irmão me escreveu um e-mail recentemente preocupado com a falta de interesse dos maçons em estudar.

Essencialmente os maçons, dizem, são a ‘nata’ da sociedade. Ler livros, estudar, pesquisar, questionar, defender princípios éticos e morais e agir seriam alguns dos preceitos estritamente elementares e básicos de uma comunidade formada pela ‘nata’ da sociedade.

Salvo melhor juízo, o que vemos, contudo, é um conjunto de pessoas, bem-intencionadas, boas de coração, mas completamente alienadas. Seguem o que mandam. Alguns, entretanto, abandonam o barco por se sentirem enganados pela ideia de que a Instituição lhe vendeu. Outros, que insistem, são tachados de encrenqueiros ou que “não deixaram a maçonaria entrar em seu coração”.

Avaliando tudo isso, podemos vislumbrar algumas questões.

São verdadeiras estas afirmativas?

Analisemos.

Onde começa a Maçonaria? Na Loja. Na Loja existe o ingrediente mais importante e basilar da Instituição: o maçom, o ser humano, o pensante, o agente.

Nas…

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As luvas e as cunhadas

Não é incomum um irmão perguntar sobre o uso das luvas por parte das cunhadas, visto que se propaga, em muitas lojas, a ideia de que essas luvas devem ser usadas como sinal de socorro em caso de necessidade, com alguns entendidos chegando até mesmo a indicar como deve ser feito um suposto sinal, seguido da troca de uma suposta senha entre a cunhada e o irmão maçom que vai ajudá-la. Consultado, sempre informo que tal procedimento não está previsto em nenhum ritual, não passando de uma invencionice que, infelizmente, tem persistido e passado como verdade para os novos iniciados.

Com o objetivo de trazer mais esclarecimentos sobre esse assunto, reproduzo abaixo texto do nosso irmão Pedro Juk, em que ele responde a um irmão que o questiona se esse tal uso das luvas é uma prática prevista nos rituais maçônicos, um mito, ou um invencionismo.

Vamos então à resposta que ele nos oferece.

Isso é o cúmulo da bobagem. Na realidade nada disso é verdade. É pura invenção de autoria de irresponsáveis que não compreendem nada das mensagens simbólicas na Maçonaria.

A entrega das luvas femininas ao neófito durante a cerimônia de Iniciação é costume da galante Maçonaria francesa – isso não é unânime na Maçonaria.

Nos ritos que utilizam essa prática, a sua entrega tem apenas o desiderato de destacar a liberdade no trato com aspectos da Ordem.

Nenhum ritual sério prevê a entrega de pares de luvas para que eles sejam obrigatoriamente destinados às Cunhadas, mas prevê sim que essas luvas sejam oferecidas àquela que mais tiver estima e afeto do Iniciado.

Evidentemente que essa liberdade de escolha é apenas do novo Aprendiz. É ele, ninguém mais, que destinará o par de luvas femininas. Por exemplo, conforme o seu desejo e quando ele quiser, as luvas podem ser oferecidas à sua filha, esposa, mãe, madrinha, ou qualquer outra pessoa do gênero feminino que para ele seja merecedora.

Nada dessa liberdade pode ser confundida com libertinagem. Não há como se confundir o ato como um incentivo para presentear pessoas advindas de relacionamentos extraconjugais (concubinas) e outros congêneres. Obviamente que não se faz crer que uma Loja seja capaz de iniciar alguém apreciador dos maus costumes – afinal, é para isso que existem as sindicâncias.

Assim, o par de luvas femininas é entregue conforme a consciência e desejo íntimo do Irmão, portando esse ato não deve ser conduzido conforme desejo alheio – da Loja, por exemplo. Isso é erro crasso.

Não existe, portanto, é irregular, o costume de se fazer como muitas Lojas fazem por aí, reunindo as cunhadas na Loja depois da Iniciação para que o novo Irmão entregue as luvas femininas para a sua esposa. Quem decide isso é ele, ratifico não a Loja.

Igualmente, em cima dessas barbaridades inventivas é que alguém imaginou um irregular gesto ou sinal de pedido de socorro com as luvas para as nossas cunhadas.

Não existe besteira maior! Coisa de quem não tem mesmo o que fazer!

Sugiro que, em vez disso, procurassem esses inventores estudarem em fontes limpas os propósitos da verdadeira Maçonaria.

Essa de deixar a luva cair e alguém perguntar “sois uma flor?” é mesmo d’escrachar, digna de uma comédia do tipo “pastelão”. Tal o tamanho dessa barafunda, ela que não merece nem comentário.

O que aqui comentei foi com base naquilo que é real e verdadeiro na Maçonaria, por conseguinte longe dos delírios inventivos.

Se algum ritual previr esse anacronismo, tenha certeza de que ele merece urgente reavaliação. Que me perdoem os defensores desses absurdos.

A propósito, em relação às luvas na Maçonaria, além do seu caráter histórico como vestimenta de proteção nos tempos operativos, na Moderna Maçonaria elas trazem a mensagem pela sua alvura de se manter as mãos constantemente afastadas das águas lodosas do vício.

Agora… Sinais com elas… É mesmo coisa rocambolesca.

Fonte: Blog do Pedro Juk

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Buscadores da Verdade…sois mesmo? (Parte III)

4 – Primeiras Considerações

O leitor atento já percebeu que o caminho no sentido à verdade não só é sinuoso como possui armadilhas que podem levar ao retrocesso.

Primeiramente eu quero reforçar a atenção sobre um ponto a partir da sequência da apresentação das ferramentas: a dialética; o silogismo; as quaestio disputata; indução vs dedução; e, método científico. Para discorrer sobre silogismo foi necessário recorrer à dedução (tema só apresentado posteriormente), mas para definir dedução foi necessário recorrer à noção de silogismo … há, pois, uma aparente circularidade. Ademais, as hipóteses, mais exploradas no MC, são partes integrantes do silogismo … Trago essas questões para chamar a atenção que, tal como um maestro, o buscador deve combinar os diferentes instrumentos necessários à harmonia sinfônica que encanta – a verdade.

Algumas das chamadas “ferramentas”, a exemplo das Questões Disputadas (QD), em razão da sua estrutura são, efetivamente e antes de tudo, organizadoras do pensamento, facilitam e promovem o entendimento da realidade; constituem uma efetiva plataforma para voos mais altos. A citação de Haskins, a seguir, oportuniza chamar a atenção para o fato de que as Questões Disputas eram exercitadas no contexto do desenvolvimento das Artes Liberais que, lembre-se, eram obrigatórias e antecediam os estudos mais especializados e avançados. Infelizmente, o que hoje se observa na Maçonaria é que as Artes Liberais não merecem mais do que uma tênue menção, não mais do que, en passant, e distribuídas por entre os Graus simbólicos, tendo-se perdido, completamente, o seu potencial formador, organizador e transformador:

[…] igualmente notável é a grande importância dada à lógica ou a dialética. Os primeiros estatutos das universidades, ou seja, aqueles de Paris em 1215, exigem que se estudem todos os escritos de Aristóteles que versem sobre lógica, um material que durante toda a Idade Média permaneceu como espinha dorsal do curso de artes […] a lógica não era assunto de estudo que tinha importância apenas por si mesmo, mas também permeava todas as outras disciplinas como um método, ao mesmo tempo em que dava à mente medieval um tom e um caráter peculiares. Silogismos, disputas, a disposição ordenada de argumentos a favor e ou contra teses específicas, eis o hábito intelectual da época […] (HASKINS, 2015, p. 48-9).

E não custa lembrar que as observações de Haskins dizem respeito ao ensino do que hoje corresponde ao II Grau, portanto, o nível médio.

Ademais é preciso estar atento, pois se de um lado a dialética tende a vir carregada de juízo de valor, o que não raro embota a apreciação crítica e objetiva, de outro chama a atenção para o fato de que a verdade, de algum modo parece convergir à unidade (senão não seria “a” verdade), a uma síntese que se não for desvelada (pela filosofia natural) deve ser construída (pela filosofia moral) ainda que a partir de contrários aparentes.

Por oportuno, cabe observar que desde a Antiguidade os homens têm estabelecido paralelos entre as verdades apreendidas no mundo natural e as verdades criadas (algumas também na forma de leis) para regular a vida em sociedade. Trata-se de uma indução forçada, pois as primeiras estão sob o domínio e são desveladas pela filosofia natural, enquanto as últimas, produtos da engenharia política e social, estão sob o domínio da filosofia moral. Nay (2007) deixa muito claro a conexão entre os dois domínios:

A nova legislação pretende claramente pôr fim aos conflitos pela realização de um equilíbrio entre as classes e a sociedade ateniense […] transpondo assim, no espaço da cidade, a concepção do universo simétrico difundido no mesmo momento pelos filósofos de Mileto (p. 27).

Adiante, referindo-se a Cícero, esclarece que:

Suas duas obras políticas maiores, De Republica e De Legibus, são fortemente influenciadas pelo pensamento “naturalista” dos estóicos […] Cícero recorda a importância da “lei natural” em política, a necessidade de recorrer à razão e ao conhecimento como instrumentos de governo […] (p. 64).

Finalmente, em apreciação histórica, Yates (1990, p. 490-1) sintetiza:

O séc. XVII é o período criativo da ciência moderna […] a filosofia mecanicista da natureza introduziu a hipótese, e o desenvolvimento da matemática proporcionou um instrumento próprio à primeira vitória decisiva do homem contra a natureza. Pois “todo o magnífico movimento da ciência moderna é essencialmente consistente, e seus posteriores ramos biológico e sociológico adquiriram da mecânica, já vitoriosa, os seus postulados básicos”.

Cumpre esclarecer que essas iniciativas são subprodutos e consequências lógicas da crença (que à época era a melhor resposta, a ciência de então, para as questões em aberto) da existência de dois mundos de algum modo interligados: o micro e o macrocosmo – enquanto primeiro referia aos fenômenos naturais, o segundo possuía elementos sobrenaturais -, e este, de algum modo (a ser descoberto), afetava aquele. Nem sempre devidos, como Marco Aurélio (o imperador filósofo) alertara já na Antiguidade, esses paralelos resistiram até o Renascimento, quando então, pouco a pouco foram ruindo (ROSSI, 1992). Todavia, a emergência da moderna física clássica – a mecânica newtoniana, que deu origem à “filosofia mecanicista” referida por Yates -, deflagrou uma nova onda de paralelos entre a ordem natural e a ordem social. E mais recentemente (início do séc. XX), tanto a Mecânica Quântica quanto a Teoria da Relatividade têm sido instrumentalizadas para fundamentar (ao atribuir status de verdade científica), indevidamente, generalizações que se estendem às construções sociais – aos comportamentos e valores. Baseado na Teoria da Relatividade, por exemplo, tenta-se mesmo fazer crer que “tudo é relativo”! Sobre o tema vale a pena ler “Pura Picaretagem: como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a ciência para te enganar. Saiba como não cair em armadilhas!”, de Bezerra e Orsi (2013).

Parece-me já claro que, se de um lado há ferramentas que auxiliam o buscador da verdade, estas mesmas ferramentas, por desconhecimento ou má fé, podem ser utilizadas para encaminhar no sentido contrário, afastando-nos da verdade, o que ficará ainda mais claro a partir da próxima seção.

5 – Falácias e sofismas

Sobre o tema não me deterei em demasia porque já está desenvolvido em Pinheiro (2021) e com vários exemplos aplicados à Ordem. Ademais, ao leitor interessado em leitura enriquecedora eu sugiro O Sofista (PLATÃO, 2013), e ao mais pragmático, o Guia das Falácias, de Stephen Downes. Entretanto, cumpre ora observar que o tema merece atenção e é relevante porque se coloca como um obstáculo, um dos principais, àquele que busca a verdade, sobretudo nos assuntos do cotidiano, mais próximos aos objetivos da Ordem. Enquanto a falácia é um erro de raciocínio por desconhecimento, o sofisma é grávido de dolo induzido pelo retor. E como a falácia dialoga com as ferramentas apresentadas? Japiassu e Marcondes (op. cit.) esclarecem:

Falácia (do lat. fallax: enganoso). Argumento envolvendo uma forma não-válida de raciocínio, no qual a conclusão é deduzida das premissas de acordo com as regras do silogismo. Argumento errôneo, que possui a aparência de válido, podendo levar à sua aceitação. (p. 94)

Sofisma (lat. e gr. sophisma). Raciocínio que possui aparentemente a forma de um silogismo, sem que o seja, sendo usado assim de modo a produzir a ilusão de validade, e tendo como conclusão um paradoxo ou um impasse. Ex.: este cão é meu, este cão é pai; logo este cão é meu pai (p. 227).

Conforme visto, é próprio da dialética a oposição dos contrários, o que, quando em jogo interesses estabelecidos, favorece ou mesmo estimula o comportamento oportunista, como bem explorado por Schopenhauer (1997) que identificou 38 estratagemas da dialética erística. Assim, a indução, o silogismo e a falácia, de mãos dadas, podem ser instrumentos úteis à conveniência dos interesses encobertos pela dialética erística, em especial nos temas que envolvem crenças, ideologias e, sobretudo, poder – política. Como subproduto desses embates as verdades são ressignificadas, não no sentido já esclarecido – pelo método racional, lógico, submetido à reiteradas provas transparentes e auxiliadas por ferramentas -, mas literalmente por imposição, seja doutrinária, psicológica e até mesmo física mediante coação, como bem explorado nas sátiras distópicas de Orwell (2005, 2007) e Huxley (2014). E é bom frisar, como alerta, que essas distorções são próprias do comportamento humano, daí antigas (insuperáveis?), como revela Jaulent (2006, p. 9) na apresentação ao Livro das Bestas, de Raimundo Lúlio (Llull em catalão), escrito no séc. XIII:

Servindo-se precisamente do simbolismo das bestas, Lúlio faz desfilar perante o leitor a intriga, a ideologia, o adultério, a mentira, enfim, todas as mazelas que amargam a sociedade dos homens quando estes, incoerentes com a sua condição racional, deixam-se subjugar pela sensibilidade cega.

O texto de Llull, que traz a natureza humana ao centro dos debates, convida à abordagem do tema – buscador da verdade – a partir de outra perspectiva que é muito própria à Maçonaria – a simbólica.

6 – Os níveis de análise

Ser livre e de bons costumes são exigências básicas para o ingresso na Maçonaria. A essas uma terceira condição completa os requisitos fundamentais à Iniciação: a crença no Grande Arquiteto do Universo [GADU] – o décimo nono landmark de A. Mackey -, mas que também pode ser depreendida do Artigo Primeiro das Constituições de Anderson – concernente a Deus e Religião -, de onde se extrai que “um maçom […] nunca será um ateu estúpido, nem um libertino irreligioso […]” (ANDERSON, 2012, p. 149).

Muita tinta e páginas já foram consumidas em análises críticas sobre o tema, mas quero aqui chamar a atenção para um desdobramento lógico da crença no GADU porque pertinente ao tema ora desenvolvido, uma cosmovisão particular, admitida por muitos, mas não por todos, qual seja: a existência de um plano transcendente à razão objetiva que, em princípio, é (seria) inatingível pelas ferramentas apresentadas. Isso implica na concepção do homem noético, também denominado de noopsônico (PONTES, 2012) que, em síntese, é constituído por matéria (físico), intelecto e espírito. Alguns, a exemplo de Smith (2002), identificam quatro dimensões: corpo, psique, alma e espírito; enquanto que Descartes se restringiu à dualidade corpo vs alma.

Até então o construto “verdade” vinha sendo abordado sobretudo no âmbito da dimensão física (ainda que invisível, por vezes não mais do que uma elaboração teórica, porém com resultados práticos), em que pese as noções de intelecto, psique e alma já há tempos serem objetos de estudo dos buscadores da verdade auxiliados pelas ferramentas apresentadas. Entretanto, a noção de “espírito” demanda uma abordagem diferenciada, em parte complementar, bem como ferramentas de outra natureza capazes de alcançar, então, a “verdade revelada”. Enquanto as ferramentas já vistas são instrumentos para a aproximação da verdade dita objetiva (racional) que constitui o corpus do conhecimento exotérico, a nova dimensão (esotérica) requer ferramentas capazes de proporcionar um novo tipo de experiências, de natureza mística que, por sua vez, levam à descoberta da revelação – a verdade esotérica.

E como é possível chegar à verdade revelada que, segundo estudos, requer estados diferenciados de consciência capazes de proporcionar o necessário senso de autotranscedência? A literatura sugere ferramentas que já têm sido objetos de estudo pela ciência (HAMER, 2005), a exemplo da ioga, da meditação, da gnose, da oração e da vida ascética, mas também o recurso às substâncias químicas.

Assim, tal como o Homem, a verdade também pode ser figurada em outro plano que, à primeira leitura, guarda semelhanças com o Mundo das Ideias já referido. E mais uma vez, por ser um tema demasiado amplo, não será possível, por ora, tecer considerações mais aprofundadas sobre a experiência mística, o conhecimento esotérico e a revelação; não obstante cabe ressaltar que esse domínio também vem sendo explorado a partir das ferramentas exotéricas (auxiliadas por novas tecnologias) e já constitui um campo próprio e crescente de conhecimento (PINHEIRO, 2021a).

E é fácil perceber a conexão metodológica entre os dois domínios: a experiência mística é uma vivência pessoal, portanto única e exclusiva; assim, o buscador reúne inúmeros casos, cataloga-os, classifica-os, procura regularidades, padrões, etc., tal como já esclarecido. Na sequência também se vale da indução para inferir, de hipóteses para deduzir resultados esperados, promove experiências cujos registros sistemáticos são submetidos à análise e testes estatísticos que corroborarão ou refutarão as hipóteses, etc. Enfim, reproduz, a partir dos insights pontuais e preliminares reportados pelos místicos (verdade que à primeira vista possui caráter essencialmente subjetivo) os mesmos procedimentos aplicados na busca da verdade objetiva. Note-se, também aqui, senão um esforço no sentido à unificação dos domínios de conhecimento, a tentativa de maior aproximação das duas vertentes: a da verdade adquirida e a da revelada. E, a rigor, a verdade revelada necessita ser desvelada, o que corresponde a ser descoberta; afinal, o que fazem os hermenêuticos, a exemplo dos cabalistas?

E sendo a crença no GADU uma conditio sine qua non, na Maçonaria só é possível admitir duas posturas: a deísta ou a teísta. Em linha de simplificação, tanto porque se trata de matéria amadurecida em vários textos, mas também para não me alongar e fugir em demasia do escopo, grosso modo, a Maçonaria deísta (a exemplo da praticada pelo Rito Moderno) segue a postura de R. Descartes, qual seja: Deus criou o mundo e o deixou por conta própria, análoga à célebre resposta de Laplace à Napoleão quando este o perguntou sobre como Deus se encaixava no seu esquema [de leis que regem o mundo]: “Senhor, não precisei dessa hipótese”. Já a postura teísta, assumida pelo Rito Escocês Retificado, admite a intervenção divina no cotidiano, o que explica a prática, por exemplo e entre outras, das orações de intercessão. Não é possível deixar de constatar que as diferenças são de tal ordem, assim como os desdobramentos lógicos e práticos, que chega mesmo a ser difícil reconhecer a ambos, entre outros Ritos, como espécies do mesmo gênero – a Maçonaria -; algo só tornado possível mediante a aplicação filtros seletivos (redutores) aos mínimos elementos constituintes.

A dificuldade para apreender a última dimensão (a espiritual) não é a única, mas está na raiz dos motivos para uma característica central à Maçonaria: o largo emprego do simbolismo. Considerando que essa matéria foi desenvolvida com maior profundidade em Pinheiro (2020), deste trago apenas alguns excertos à guisa de ilustração e em síntese: • A reunião das três chaves auxiliares à análise simbólica em um quadro (que se revela sinóptico) proporciona não apenas novos e importantes ensinamentos, como revela um efetivo padrão; e para deixar à evidência, ao lado das designações, em esforço de síntese, foram destacadas algumas expressões-chaves:

  • Em primeiro lugar, se vários autores apontam que existem níveis (graus) de percepção e entendimento da realidade apresentada, parece ser boa lição nunca se satisfazer com a primeira impressão pois “o que é ou pode ser” quiçá esteja encoberto por véus de ignorância superpostos. Do primeiro ao último nível há claramente um escalar de complexidade e abstração. Se o primeiro nível está relacionado à base (matéria, concretude), o último sugere o topo (o espírito, a abstração). É possível, também, tecer conjecturas acerca dos progressivos graus de certeza insertos em cada modalidade interpretativa e submetê-los à testagem.
  • Grosso modo, enquanto as primeiras interpretações têm como fonte e repercutem nos limites do universo primário de significados de cada indivíduo, o aprofundamento (mas que também corresponde à elevação) ao nível tropológico demanda considerações a partir de um novo marco: o dos relacionamentos, assim, o conjunto de valores pessoais deve ser sopesado aos códigos sociais, isto é, se cada iniciativa vai ao encontro ou de encontro às expectativas, ao que é aceito, valorizado ou, ao contrário. Finalmente, o nível anagógico volta a ter de caráter absolutamente pessoal, pois a descoberta (o desvelar do véu da ignorância) de regra se dá a partir do acúmulo de conhecimentos assim como da experiência, algo que ninguém pode adquirir ou fazer por outro. Analogamente o mesmo se verifica com a elevação e com a revelação, eis que ambas exigem pré-qualificações. Todavia, tanto a descoberta quanto a elevação e a revelação são experiências transformadoras, isto é, depois de tê-las vivenciado não é possível retornar ao estágio anterior; assim, e desde então, o agente passa a ser movido por outro código de valores, novas visões de mundo e padrões de relacionamento. E fecha-se, assim, o ciclo: o indivíduo, inicialmente a partir de um dado nível de conhecimento (inferior) relaciona-se com o coletivo, ascende a novos estágios (superiores) de conhecimento que possibilitam que estabeleça relacionamentos influenciando o seu habitat a partir de novas métricas e padrões, e assim sucessivamente até o último estágio idealizado: a revelação.

Por fim, cumpre chamar a atenção para uma situação sui generis mas que se apresenta aos buscadores da verdade, notadamente aos maçons:

  • conforme visto, é prática antiga e nem sempre apropriada, a transposição por analogia de entendimentos extraídos do mundo natural para o mundo social que, juntos, grosso modo, constituem o que ora se denomina de microcosmo – o mundo exotérico;
  • ademais, explicar determinados fenômenos verificados no microcosmo como decorrentes da vontade (leis, ainda que desconhecidas) proveniente do macrocosmo também faz parte das tradições. Vale lembrar que a magia, que nada tem a ver com a acepção contemporânea do termo, já foi a melhor explicação científica para os fenômenos observados, a exemplo da influência dos astros sobre o clima, a agricultura, a saúde e o comportamento dos seres vivos, etc.;

a) – conectar esses dois mundos (o micro, exotérico, científico; e, o macro, esotérico, gnóstico) chega a ser sedutor como chama a atenção Yates (op. cit., p. 496): “Pois não é toda ciência uma gnose, uma visão íntima da natureza do Tudo, que ocorre por meio de sucessivas revelações?”;

b) – nem mesmo R. Descartes, esclarece a autora, em momentos de dúvidas e angústias intelectuais escapou à tentação do pitagorismo hermético;

  • aos poucos, a magia e a ciência tomaram caminhos diversos a partir da melhor delimitação dos seus domínios. Todavia, a ausência de respostas definitivas pela ciência a incontáveis fenômenos e o surgimento de inusitadas questões, mantêm viva e mesmo estimulam a forte presença da magia, a identificação de paralelos, bem como a percepção (para alguns uma certeza) da existência de vínculo entre os dois mundos, como visto, entre outros, em Capra (1993); assim,
  • deve ser redobrada a cautela na busca pela verdade na esfera social, no mundo das relações cotidianas, pois ela sofre as influências de duas fontes que embora diversas somam as suas contribuições para desviar o foco e levar a enganos. E efetivamente parece ser o que mais ocorre.

7 – Considerações Finais

Conforme visto, ser um buscador da verdade corresponde a dedicar-se a empreendimento que comporta diferentes níveis de complexidade, seja pela variedade de instrumentos que requerem algum grau de domínio, quanto pela natureza fugidia do próprio objeto da busca. Contudo, não há qualquer dificuldade que com estudo, treino, orientação e passo a passo, não possa ser superada para alcançar os níveis mais elevados de conhecimento – aproximações da verdade.

E para aqueles que antecipam desânimo frente às dificuldades e também pelo reconhecimento apriorístico de que a verdade absoluta é uma miragem, cabe lembrar que o que efetivamente importa não é a linha de chegada, mas antes o caminho, os ganhos contabilizados ao longo da trajetória. É por sucessivas tentativas e erros que nos aproximamos da verdade. É o exercício continuado para atingir a verdade que proporciona o aperfeiçoamento físico, cognitivo, moral e espiritual.

Em tempos de disseminação viral de fake news, da primazia das pós-verdades na abordagem das questões do cotidiano, e intransigência no trato das mais diversas matérias (comportamentos, valores, opções políticas, crenças, etc.), o que leva à maior dificuldade no reconhecimento da integralidade do outro, s.m.j., talvez mais até do que no passado, revela-se indispensável exercitar a condição de ser um efetivo buscador da verdade.

A Maçonaria, instituição que não sem motivos regimentalmente afasta das Lojas o debate político-partidário e religioso, parece revelar-se como o ambiente apropriado para a realização de tais exercícios. Como? Muito simples! Para começar, dado qualquer tema, ao invés de iniciar com a enumeração de um rol de opiniões sem fundamento e descompromissadas com qualquer noção que possa ser considerada “verdade”, habituar-se a refletir antes de falar, bem como justificar as declarações emitidas. Em dúvida, ou se não tem o que dizer, o silêncio também é sinal de sabedoria; busque esclarecimentos, senão em Loja aberta, quando fechada, retornando ao tema no momento oportuno para refinar e compartilhar o novo grau de conhecimento, a nova aproximação da verdade.

Todas as ferramentas disponibilizadas estão ao alcance de qualquer um e de todos, claro que em diferentes de graus de complexidade ajustados às idiossincrasias e contingências particulares. Entretanto, o que eu observo, amplamente disseminado na Ordem, são lições, ou melhor, tentativas de se aproximar ou mesmo ensinar “a verdade”, como se fosse possível, essencialmente a partir de aforismos, notadamente de ordem moral… de fato uma prática (à época uma ferramenta) muito em voga na Grécia… anterior a Tales, o mais notável dentre os pré-Socráticos.

Xico Trolha (2019, p. 9) destacou que “O Maçom, por si só, é um pesquisador nato, é um crítico abalizado que não costuma aceitar qualquer verdade como “verdade” (DESTAQUE NO ORIGINAL)”, ao que ora eu acrescento: não se chega à “verdade”, ou minimamente próximo a ela apenas com meros aforismos que não resistem minimamente ao pensamento crítico porque não passam de falácias encobertas pelo argumento da autoridade conferida aos chamados gurus.

Isto é, sem reflexão, estudo, orientação e troca de ideias que permitam ir à essência subjacente às matérias trazidas à lide, são reduzidas, para não dizer inexistentes, as possibilidades de os Iniciados virem a ser efetivos buscadores da verdade.

E pode não demorar muito para que alguns percebam Lojas que mais se assemelham aos clubes sociais-recreativos do que às Escolas Iniciáticas, a exemplo das de Pitágoras, Platão e Aristóteles (sempre reverenciados na Maçonaria, mas raramente lidos), nas quais alcançar a verdade era o objetivo de e com todos.

Nesse quadro, aqueles que se tornam cientes do que já foi, deveria, e que hoje a Maçonaria se autoafirma ser, tendem à desmotivação, seguida da baixa frequência que culmina com a evasão devido a percepção da falta de sentido, pois, afinal, no que então o maçom se distinguiria dos não Iniciados? Por que então pagar (por vezes elevadas) taxas para Iniciação, Elevação, Exaltação, mensalidades, trajes próprios, deslocamento, etc.?

Autor: Ivan A. Pinheiro

* Ivan é membro da Loja Mário Juarez de Oliveira nº. 4547, jurisdicionadas ao Grande Oriente do Brasil – Rio Grande do Sul.

Fonte: Revista Ad Lucem | São Luís, V. I, n. 2, p. 14-28, maio/ago, 2021.

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Referências

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Buscadores da Verdade…sois mesmo? (Parte II)

3 – Ser um buscador

Assim, grosso modo, buscar a verdade pela via da ciência corresponde a eleger a primazia da dúvida (por vezes apresentada como curiosidade, ceticismo), seguida da observação (coleta de dados) sistemática da realidade (mais precisamente o fenômeno objeto de estudo), da catalogação (organização) dos registros, da realização de análises longitudinais, comparações (identificando as semelhanças, os contrastes), cruzamento entre as variáveis para verificar a existência de relações (associações positivas, exclusões mútuas), etc., tudo, é claro, planejado detalhadamente. Em síntese muito resumida, submeter um determinado fenômeno a esses procedimentos, para melhor conhecê-lo, descrevê-lo e explicá-lo corresponde a tratá-lo cientificamente, e como resultado tem-se um conhecimento admitido como verdadeiro, ainda que temporário, isto é, até que novas investigações autorizem a revisão do entendimento estabelecido.

Entre tantas, merecem destaque: a dialética (tese, antítese e síntese); o silogismo (premissa maior, premissa menor e conclusão); quaestio disputata; indução vs dedução; o método científico; e, como tópicos complementares: os níveis de análise e a cautela frente às falácias e sofismas.

3.1 – A dialética

Japiassu e Marcondes (1990, p. 71-2) descrevem o verbete “dialética” em perspectiva histórica, no que resultam 4 (quatro) acepções: a de Platão; a de Aristóteles; a de Hegel; e, a de Marx. Por ora excluo as de Aristóteles e Marx porque as demais estão mais próximas ao tema específico desta empresa:

1. Em Platão, a dialética é o processo pelo qual a alma se eleva, por degraus, das aparências sensíveis às realidades inteligíveis ou ideias. Ele emprega o verbo dialeghestai em seu sentido etimológico de “dialogar”, isto é, de fazer passar o logos na troca entre dois interlocutores. A dialética é um instrumento de busca da verdade, uma pedagogia científica do diálogo graças ao qual o aprendiz de filósofo, tendo conseguido dominar suas pulsões corporais e vencer a crença nos dados do mundo sensível, utiliza sistematicamente o discurso para chegar à percepção das essências, isto é, a ordem da verdade.

O texto remete ao que já havia sido comentado sobre a Teoria das Ideias, de Platão (séc. V a.C.), bem como chama a atenção para aspectos importantes: a) a verdade está associada à essência e a esta se chega ao longo de um processo, degrau por degrau; b) os sentidos e as pulsões, como Descartes já apontara, podem iludir a percepção da realidade; por fim, c) à verdade se chega pelo diálogo, mais pelo contraste de ideias do que pela reafirmação. Mas mesmo na ausência de um interlocutor, as mentes mais brilhantes, a exemplo da de A. Einstein, desenvolvem autonomamente experimentos mentais sem prejuízo à crítica.

2. Em Hegel, a dialética é o movimento racional que nos permite ultrapassar uma contradição […] é um movimento conjunto do pensamento e do real […] movimento racional superior em favor do qual esses termos na aparência separados (o ser e o nada) passam espontaneamente uns nos outros, em virtude mesmo daquilo que eles são, encontrando-se eliminada a hipótese de sua separação.

O estudo da dialética pode ser tão complexo e profundo quanto se queira, não sendo esta, aqui, a intenção. Da dialética hegeliana se diz que é a unidade dos contrários, pois é do diálogo (embate) entre os opostos (a tese ou situação inicial vs antítese ou oposição à tese) que se deve chegar à síntese (nova situação ou realidade resultante dos elementos presentes na tese e na antítese) que, por sua vez, no momento subsequente se constitui em nova tese que necessariamente faz surgir a sua antítese e, assim, em espiral sucessiva e indefinida. Reforça-se, aqui, a ideia de que a verdade tem caráter dinâmico, histórico, o que não pode passar desapercebido aos agentes sob pena da exacerbação permanente do estado de conflito.

3.2 – O silogismo

É o método dedutivo que permite extrair uma conclusão a partir de duas premissas – uma chamada maior e, a outra, menor -, por implicação lógica. Aristóteles, a quem é atribuída a primazia da sua formulação, esclarece que: “o silogismo é um argumento em que, estabelecidas certas coisas, resulta necessariamente delas, por serem o que são, outra coisa distinta do anteriormente estabelecido” (ARISTÓTELES apud JAPIASSU e MARCONDES, op. cit., p. 224). Em outras palavras, o silogismo é o raciocínio no qual, de determinadas coisas afirmadas, segue-se inevitavelmente outra afirmativa em caráter conclusivo. Um exemplo, certamente bastante conhecido, permite melhor identificar os elementos do silogismo:

  • Premissa maior: todos os homens são mortais;
  • Premissa menor: Sócrates é homem;
  • Conclusão: logo, Sócrates é mortal.

“Todo o mecanismo silogístico repousa no papel desempenhado pelo chamado termo médio (homem), que fornece a razão do que é afirmado na conclusão: porque é homem, Sócrates é mortal” (NOVA CULTURAL, 2000, p. 18). Todavia, é preciso cautela (razão pela qual se afirmou que as ferramentas devem ser utilizadas de modo combinado), pois também é possível construir silogismos a partir de premissas falsas, como é o caso do silogismo anterior e agora ligeiramente modificado:

  • Premissa maior: todos os homens são imortais;
  • Premissa menor: Sócrates é homem;
  • Conclusão: Sócrates é imortal.

3.3 – As quaestio disputata

Da lavra de Nougué (2017, p. 235) se extrai que a quaestio disputata:

[…] se divide em artigos, que por sua vez se dividem em etapas ou partes fixas. Em primeiro lugar, formula-se a pergunta ou questão de que se tratará. Em segundo lugar, apresentam-se o mais perfeitamente possível as objeções à doutrina sustentada no artigo […]. Em terceiro lugar dão-se os “mas contrariamente”, que argumentam contra essas objeções, e que podem coincidir ou não com a doutrina do artigo. Em quarto lugar, vem o corpus, no qual a doutrina do artigo ou se demonstra ou, excepcionalmente, se mostra apenas como a mais provável. Em quinto lugar solucionam-se as objeções à doutrina do artigo. E, em sexto lugar, se e quando necessário, solucionam-se as argumentações postas contrariamente às objeções.

A complexidade e a dificuldades são apenas aparentes. Em síntese, o procedimento enumera as etapas para solução da disputa em torno de uma questão que encerra polêmicas, admite pontos vista controversos, razão pela qual demanda análise crítica a partir de todas as perspectivas. Além disso, chama a atenção para o fato de que as respostas não devem ser buscadas de modo isolado, mas no âmbito de uma tradição, de uma doutrina mais alargada e que orienta o entendimento.

As quaestio disputata foram largamente empregadas durante a escolástica medieval, tendo sido, infelizmente, abandonada em que pese a sua contribuição ao desenvolvimento da cognição lógica. Sobre os usos e os costumes no ambiente universitário medieval Haskins (2015) revela que:

As preleções formais, por mais importantes que tenham sido numa época em que não havia laboratórios e em que os livros eram escassos, não eram de maneira alguma os únicos meios de instrução. Um exame cuidadoso do ensino universitário também precisaria levar em conta as preleções menos formais […] as revisões e repetições […] e as disputas que preparavam o estudante para a aprovação final, aquele momento em que teria de defender publicamente a sua tese de graduação (p. 62-3); Cantai ao senhor um cântico novo […] pois o vosso filho teve uma disputa gloriosa, na qual esteve presente um grande número de professores e estudantes. Ele respondeu todas as perguntas sem cometer um erro, e ninguém foi capaz de resistir aos seus argumentos […] Inception designa a cerimônia em que o estudante era aceito com um mestre nas universidades medievais […] Primeiro o candidato participava de uma disputa formal chamada vésperas, que seguia um formato um tanto complexo (p. 67).

Penso que essas brevíssimas citações deixam à evidência a mudança que, desde então, se operou; se para o bem ou para o mal é questão envolta por controvérsias (que exigem uma disputa!) pois os indícios são inconclusos – a contabilidade registra ganhos, mas também perdas.

O maior expoente no método das Questões Disputadas foi, sem dúvida, Sto. Tomás de Aquino (1225-1274), cuja monumental Suma Teológica foi totalmente escrita neste estilo. Ciente de que a matéria é desconhecida da maioria dos leitores, para maior clareza a seguir eu transcrevo, ainda que em redundância à citação de Nougué, a Apresentação (PETRÔNIO, 2015, p. 7) de “O Bem – questões disputadas sobre a verdade”, de Tomás de Aquino:

Neste método, Tomás inicia com uma pergunta [questão] e a desenvolve em artigos. Cada questão disputada pode conter diversos artigos. Cada artigo considera uma parte da questão mediante uma pergunta, estando composto por argumentos pró e contra e uma conclusão, na qual aparece a resposta do autor à pergunta elaborada na forma de artigo, que, por sua vez, compõe a questão. Em cada artigo Tomás procede da seguinte maneira: ante a pergunta proposta num artigo da questão, ele a afirma ou nega, expondo em contrário diversos argumentos. Em seguida, toma um ou mais argumentos fortes, que são contrários àqueles diversos raciocínios que se seguiram à pergunta inicial. Então, logo após esses argumentos, ele inicia uma resposta, em conformidade com o que pretende demonstrar, escrevendo no corpo do artigo uma conclusão, que é simultaneamente resposta à pergunta feita inicialmente, e termina esclarecendo as dificuldades ou contradições dos primeiros argumentos expostos.

Com efeito, na sequência o tema (“O Bem – questões disputadas sobre a verdade”) é desenvolvido em 6 (seis) artigos e cada um observa a seguinte estrutura tomando por base o Artigo I: 1) primeiro, pergunta-se se o bem acrescenta algo ao ente; depois, 2) seguem os argumentos a favor (e parece que sim); 3) os em contrário; 4) as respostas aos argumentos em contrário; e, finalmente, 5) as conclusões.

Ao leitor menos versado sugere-se que, no primeiro momento, não se atenha aos detalhes, mas antes perceba a essência da estrutura das Questões Disputadas: não é possível chegar à verdade acerca de qualquer matéria sem antes esclarecer e eliminar todas as objeções que contra ela se levantam.

Por fim, o leitor escolarizado já terá percebido que as Questões Disputadas estavam na antessala do Método Científico, senão introduzido, consolidado na Modernidade. Atualmente poderiam ser equiparadas à Revisão da Literatura exigida na maioria dos trabalhos universitários, em vários empreendimentos profissionais (a exemplo de grandes projetos), bem como em algumas atividades profissionais, como a persecução criminal e a prestação jurisdicional.

3.4 – Indução vs Dedução

Indutivo, na expressão popular mais difundida, é o raciocínio que conduz de enunciados (resultados, observações, etc.) particulares para enunciados gerais, como são as teorias. Já o raciocínio dedutivo transita no caminho inverso: parte dos pressupostos de uma teoria (ou hipótese) geral e infere sobre possíveis resultados particulares que devem ser submetidos à confirmação (ou não) em experimentos. Assim, como se diz, o primeiro “conduz do particular para o geral” enquanto que o segundo no sentido inverso, “do geral para o particular”.

Em termos mais formais:

É comum dizer “indutiva” uma inferência, caso ela conduza de enunciados singulares (por vezes também denominados também enunciados “particulares”), tais como descrições dos resultados de observações ou experimentos, para enunciados universais, tais como hipóteses ou teorias (POPPER, 1989, p. 27).

Já há tempos que o raciocínio indutivo não é mais aceito como método para chegar à verdade. D. Hume (1711-1776), após ter-se debruçado sobre o tema, declarou o que ficou conhecido como o Problema de Hume:

[…] nada há em qualquer objeto, considerado em si mesmo, que nos possa oferecer uma razão para tirar uma conclusão além dele […] mesmo após a observação da frequente ou constante conjunção de objetos, não temos razão para extrair qualquer inferência concernente a qualquer objeto além daqueles com os quais temos tido experiência. Não há, pois, segundo Hume, justificativa lógica para a indução (FREIRE-MAIA, 1995, p. 50).

E por que, então, continuamos tentados a, de casos particulares, a generalizar? “A resposta é simples: porque mesmo sem justificativa lógica, em geral dá certo (isto é, há uma justificativa pragmática)” (id., ibid., p. 50). Ao esclarecimento do autor eu acrescentaria outro que o acompanha muito próximo: a falta de conhecimento, seja do autor ou por parte de um do interlocutor, o que estimula as partes a generalizar à sua conveniência, e nem sempre por motivos confessáveis.

O hábito da indução é um dos mais generalizados nos debates sobre os mais variados assuntos do cotidiano, e também causador de desavenças e mesmo injustiças. Todavia, o exemplo já mencionado do Cisne Negro é a evidência de que se trata de procedimento sujeito a erro. A esse, outros tantos extraídos do diário de bordo de C. Darwin, confirmam o acerto de Hume.

Já a dedução é:

o raciocínio […] Em outras palavras, operação lógica consistindo em concluir de uma ou várias proposições, postas como verdadeiras, ou uma ou várias proposições que se seguem necessariamente. O modelo da dedução é o silogismo ou o raciocínio matemático (JAPIASSU e MARCONDES, 1990, p. 65).

Por oportuno, o silogismo já apresentado como exemplo, agora submetido às exigências da dedução, ganha nova proposição:

  • Premissa maior: se é verdade que os homens são mortais;
  • Premissa menor: e se é verdade que Sócrates é um homem;
  • Conclusão: deduz-se que Sócrates é mortal.

Como se percebe, a diferença entre o antecedente e este último é a condição de “ser verdade”, daí porque, para muitos, à frente Popper (op. cit.), só a dedução (e não a indução) merece o reconhecimento como procedimento científico que autoriza o estabelecimento de verdades – no caso acima, de duas verdades só pode (será?) decorrer outra verdade! -, ainda que temporárias, até que deem lugar a outras. Todavia, não se deve minimizar e tampouco desprezar o papel do raciocínio indutivo no empreendimento científico, pois ele se revela assaz importante em determinadas fases e modelagens da investigação ordenada à verdade.

3.5 – O método científico (MC)

Apesar de o MC já ter sido introduzido antes mesmo desta seção, a ele retorno porque se trata da “joia da coroa”, um conjunto de procedimentos que inclui objetivos, estratégias, táticas e ferramentas em desenvolvimento desde a Antiguidade. Aristóteles (384-322 a.C.) e até mesmo seus antecessores (Tales de Mileto, Anaximandro, Empédocles e outros), praticavam (em parte, é claro) o que ainda hoje constitui o MC: a observação sistemática da natureza ou da experimentação empírica. Todavia, o MC ganhou alavancagem a partir da Modernidade, quando entraram em cena N. Copérnico, F. Bacon, R. Descartes, G. Galilei e tantos outros.

Como já mencionado, a curiosidade humana é atávica, o desejo de saber e compreender o mundo que o cerca estão no seu no DNA e têm sido efetivos drivers ao longo da evolução da humanidade. Destarte, descobrir e explicar o que nos cerca, inclusive a razão da própria existência, não sem o intuito de prever e controlar os fenômenos, têm sido a atitude e o comportamento dominantes desde os nossos antepassados. Daí que o MC tem início com a observação dos fenômenos, a começar pelos naturais – movimento dos astros, clima, agricultura, comportamento dos animais, etc. Os deuses constituíram as primeiras explicações para o que à época era inexplicável à luz do conhecimento e da tecnologia disponíveis; é assim que Hesíodo, em Teogonia, apresenta a sua cosmogonia, bem como a índole e o comportamento dos Homens, ora irados, ora amorosos, sob a influência dos deuses.

É atribuída a Tales, nascido em Mileto (antiga colônia grega na Ásia Menor, área hoje correspondente à Turquia) a primazia de ter observado “e provado” que nem tudo, como se pensava, era dependente do humor dos deuses. E desde então, o ritmo das descobertas tem sido crescente e a trajetória parece ser interminável, bem como, contrário ao senso, não foi interrompida no medievo, reduzido o ritmo, sim.

A observação livre e sistemática dava (e dá) origem a um conjunto de registros que ao primeiro olhar podem parecer caóticos; todavia, quando classificados, ordenados e estratificados revelam o que o caos escondia: a informação que agrega e modifica o estado prévio do conhecimento.

(Detalhe importante: o que separa o dado (ou registro) da informação é o conhecimento anterior do buscador, pois para o leigo “tudo” é informação na sua acepção mais vulgar. Ex.: se ao leigo for dito que foi encontrada e atestada a autenticidade de uma Constituição Gótica datada do séc. IX, isto significará nada mais que uma mera anotação sem relevância, um registro que em nada alterará o seu status de conhecimento (mas reconhecerá como uma “informação”); já para um Iniciado e estudioso, isto corresponderá efetivamente a uma informação, algo que modifica por acréscimo o seu conhecimento, pois até o momento o documento mais antigo – a Carta de Bolonha – data do séc. XIII).

O passo subsequente corresponde à coleta de dados experimentais, o que não só agrega um novo nível de informações ao conhecimento como, em geral, abre novas perspectivas de investigação. E experimento, ressalto, não necessariamente guarda relação com laboratórios, tecnologias sofisticadas, especialistas, etc. Ao fazer uma pequena alteração em uma receita de culinária e comparar os resultados com a anterior está se procedendo a um experimento. Habitualmente não nos damos conta, mas o experimento e a indução estão mais presentes no cotidiano (familiar, profissional) do que reconhecemos à primeira vista.

O acúmulo organizado de registros permite a consecução de outro objetivo do empreendimento científico: a identificação de regularidades, padrões de comportamento que, reiterados, sugerem a existência de princípios e leis que regulam os processos em estudo. Já a partir do cruzamento de registros é possível identificar a existência ou não de algum tipo de relacionamento, a exemplo de causa-efeito, mútua exclusão ou associação em variados graus, o que pode ter grande aplicação com vistas à previsão e ao controle (direto e indireto) em variados domínios do conhecimento. Tomese, por exemplo, o caso da febre… equiparada à ponta de iceberg.

O ceticismo, conforme já mencionado, é característico do buscador da verdade, daí que, independentemente da sua certeza pessoal acerca do acervo de conhecimentos que detém, este deve ser permanentemente submetido a testes (empíricos, teóricos, estatísticos, etc.), idealmente por terceiros e mesmo desconhecidos (pela isenção) que intentem falsificá-lo ou identificar as suas fraquezas. Assim, a resistência a sucessivos testes implica na maior crença quanto a veracidade do fenômeno (teoria, hipótese, modelo) objeto de análise; já a identificação dos pontos fracos poderá levar ao abandono, ajustes temporários (ad hoc) ou ao aperfeiçoamento do enfoque sob tensão. E é esse ciclo, que no atual estado da arte é considerado como interminável, que permite progredir, etapa por etapa no sentido à verdade absoluta, isto é, pela aproximação mediante sucessivas verdades parciais ou temporárias.

O que atualmente se verifica no domínio da física contemporânea, a mãe de todas ciências, é ilustrativo do que ocorre em várias campos do conhecimento: considerando que há duas grandes teorias (por vezes referidas como modelos) que explicam a natureza, uma ao nível do microcosmo (atômico e subatômico), a outra ao nível macro, quais sejam: a Mecânica Quântica e a Teoria da Relatividade, o principal empreendimento científico da atualidade é a busca da chamada Teoria de Tudo (WEINBERG, 1996; MLODINOW, 2005; HAWKING e MLODINOW, 2011), tema também celebrizado no livro, já adaptado ao cinema, sobre a vida e obra de Stephen Hawking. Laszlo (2008), após constatar a perplexidade dos pesquisadores frente a várias ocorrências inusitadas (e mesmo exóticas) nos mais diversos campos do conhecimento, também reclama a emergência de um novo paradigma.

Concluindo, desde que o Homem se tornou um observador crítico da realidade, ele busca descrever, explicar e controlar o mundo que o cerca, o que não pode ser realizado sem método e instrumentos adequados. E ainda, em que pese a denominação “método científico”, é um equívoco pensá-lo com uma ferramenta exclusiva para o uso dos acadêmicos ou dos cientistas stricto sensu pois, tal como esclarecido para as quaestio disputata, hoje o MC só é uma ferramenta nos termos apresentados porque anteriormente revelou ser uma atitude frente ao desconhecido e mesmo às dúvidas do cotidiano, daí a relevância da sua larga aplicação na Maçonaria:

Procurar conciliar os estudos maçônicos com o método acadêmico, tem sido a nossa maior preocupação nestes dois anos de publicações. Preocupa-nos os “achismos”, assim como a falta de hermenêutica com relação aos textos que procuram historiar a Maçonaria. No lugar da interpretação, temos adornos sem maiores significados (COSTA, 1998, p. 85).

Continua.

Autor: Ivan A. Pinheiro

* Ivan é membro da Loja Mário Juarez de Oliveira nº. 4547, jurisdicionadas ao Grande Oriente do Brasil – Rio Grande do Sul.

Fonte: Revista Ad Lucem | São Luís, V. I, n. 2, p. 14-28, maio/ago, 2021.

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Buscadores da Verdade…sois mesmo? (Parte I)

Os maçons se reconhecem como buscadores da verdade; serão mesmo? Essa é a questão motivadora deste ensaio analítico-crítico alicerçado na literatura e que tem por objetivos: refletir sobre o tema, sobre os desdobramentos práticos à luz das reflexões apresentadas, bem como suscitar no leitor novas reflexões: a sua Loja está contribuindo em ordem à sua preparação para ser um buscador da verdade a ponto de diferenciá-lo dos não iniciados? É pressuposto que os buscadores necessitam, antes de tudo, conhecer o objeto da sua procura, razão qual, após problematizar o construto fundamental (verdade) são apresentadas e brevemente discutidas algumas “ferramentas”: a dialética, o silogismo, as quaestio disputata, indução vs dedução; e, o método científico. Entretanto, as próprias ferramentas, por desconhecimento ou má fé podem conduzir a destinos equivocados, o que levou à discussão sobre as falácias, sofismas e o estabelecimento de paralelos e analogias imediatas, e daí inapropriadas, entre o mundo natural e o mundo social. Não obstante, dado que a Maçonaria admite a existência de um plano metafísico-transcendente, se faz necessário ainda ampliar a noção do construto verdade, bem como oferecer ferramentas adicionais (meditação, ascese, oração, análise e interpretação simbólica) que possibilitem, senão atingi-la, dela considerar que se está próximo. A nova visão, conforme apresentado, também não é livre de armadilhas. Finalmente, apesar das diferenças entre as duas visões acerca da verdade, e mesmo a existência de armadilhas escamoteadas por entre as ferramentas, sugere-se que elas, as visões, não só apresentam semelhanças como estão mais próximas do que à primeira vista é dado perceber, ou melhor: só é (será) percebido por aqueles que se dedicarem a buscar a verdade.

1 – Introdução

Do maçom diz-se que é “um buscador da verdade”, expressão que no Rito Escocês Retificado, inclusive, integra a ritualística da Recepção (que corresponde à Iniciação) ao Primeiro Grau; já alguns autores preferem a expressão “investigador da verdade” que, em linguagem simbólica, pode também corresponder a “buscar a luz”. Lato sensu, de algum modo todos somos “buscadores da verdade” desde que adquirimos o senso da consciência, o que se dá ainda na primeira infância. O que, então, distingue os homens conforme o seu amadurecimento e dentre estes um conjunto particular, o dos maçons, que justifique o epíteto? Refletir sobre o tema, bem como sobre algumas questões decorrentes são objetivos deste texto.

Em se tratando de um ensaio analítico-crítico, o ponto de partida não poderia deixar de ser as considerações acerca duas expressões-título: “buscador”; e, “verdade”. Ambas são construtos polissêmicos, portanto, cada uma merecedora de um ensaio exclusivo, o que não é o caso, daí que o se segue é um recorte sumário para instigar novos estudos. O texto, então, explora cada expressão com o intuito de demonstrar a sua complexidade, o que, de imediato e per se já revela a dificuldade (quiçá impossibilidade) de chegar, por exemplo, ao que se pretende ser a verdade. De outro lado, a condição de ser um buscador sugere a utilização de instrumentos viabilizadores do empreendimento, razão pela qual o texto logo após a breve digressão sobre “verdade” apresenta algumas dentre as principais ferramentas utilizadas por aqueles que se dispõem a ser buscadores. Entretanto, como alertou o poeta, “Tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do aminho tinha uma pedra”, daí porque prossegue, a título de alerta, com a apresentação de alguns dos principais obstáculos levantados aos buscadores da verdade.

E considerando que a Maçonaria é gênero que abriga muitas espécies (tradições e Ritos), é preciso alargar ainda mais a noção de verdade para poder abraçar todas as espécies, o que, antecipo, gera nova ordem de dificuldades, pois há verdades que são propedêuticas, princípios orientadores, como é o caso das cosmovisões individuais, em ordem às demais verdades, neste prisma, vistas como consequentes lógicos, sequer necessitariam ser buscadas porque auto evidentes. Aos poucos, então, torna-se conveniente distinguir “a verdade” (por vezes adjetivada como absoluta) de “uma verdade”, esta então em caráter temporário ou mesmo precário. A solução à nova ordem chega a surpreender, pois se de um lado requer novas ferramentas, de outro revela que as primeiras têm sido utilizadas conjuntamente com estas últimas para, então, chegar a um novo significado do que seja a “verdade”.

Finalmente, como objetivo complementar, deixo à reflexão do leitor: se ser um buscador da verdade é empreendimento reservado ao Iniciado, é de se esperar que na sua Loja o tema seja ampla e exaustivamente debatido, com método, rigor e orientação, sobretudo das Luzes. E se tal não se verifica, com o tempo sendo despendido em questões sociais-recreativas, longas preleções históricas em meio a lendas que não disfarçam o intuito de tecer loas à Ordem, ou ainda em debates sobre as minúcias dos detalhes, parafraseando W. Shakespeare, em Hamlet, é possível que “haja algo de podre no reino da Dinamarca”.

2 – Sobre a Verdade

Como observa Freire-Maia (1995, p. 119): “Verdade é uma palavra que tem pelo menos três “dimensões”: a) passado: fidelidade ao que aconteceu […]; b) presente: exatamente o que se procurava […]; e c): futuro: digno de confiança […]”. Em outros termos, verdadeira é toda percepção pelos sentidos adequada à noção de realidade.

A ideia é muito clara, difícil de ser contestada, mas só se revela funcional se houver uma prévia noção de realidade, o que se dá com o tempo a partir e desde a infância. Assim, acostumado ao som e ao ritmo cardíaco desde o útero, entre tantas, de imediato o bebê se acalma ao acalento da sua verdadeira mãe. Essa primeira aproximação do que seja a verdade, em que pese a sua imediata aceitação, traz incontáveis dificuldades, uma delas diz respeito à amplitude da abrangência, pois abraça tanto os tangíveis quanto os intangíveis (princípios, valores, etc.), os fruíveis, os fungíveis… enfim, uma enorme e diferenciada gama de sujeitos e objetos referentes que pela acumulação na memória virão a constituir, na mente de cada um, o que é (ou não) realidade e, por contraste, verdadeiro (ou não) – por isso a referência anterior a “uma noção de realidade” ao invés de “a realidade”. Tempo e exposição à experiência são, pois, condições sine qua non à previa construção da realidade que, por contraste, atestará (ou não) o que é (ou não) verdadeiro.

A próxima dificuldade se já não está inserta deriva da anterior, eis que o primeiro nível de aprendizagem é essencialmente empírico e individual, o que traz nova ordem de obstáculos; assim, quem só teve a oportunidade de ver cisnes brancos terá dificuldade em reconhecer como verdadeira a afirmativa (e mesmo em condição de testemunho in situ) de que existem cisnes negros (TALEB, 2008); no máximo serão admitidas não mais do que semelhanças entre estes e aqueles. E assim, quantas verdades existem, mas que estão fora do nosso domínio devido à falta de experiência? Se não uma viagem, a leitura de um bom texto pode ser suficiente para revelar que realidades ordinárias para alguns se afiguram como inusitadas ou mesmo inverossímeis para outros. Ademais, qualquer limitação nos órgãos dos sentidos implicará em diferenças na percepção e, por conseguinte, na constituição da realidade-referência; o corolário é imediato: se não existem duas pessoas iguais … a rigor não é possível que dialoguem sobre a mesma realidade, se tanto, reconhecerão verossimilhança. E se a adequação à realidade é pressuposto para o reconhecimento de algo como verdadeiro…

Além da apreensão pelos sentidos, a realidade, é claro, pode vir a ser constituída (e sempre nas mentes individuais) a partir da aprendizagem teórica-abstrata a exemplo da formulada pelo sistema educacional também logo nos primeiros anos. E nesse caso é difícil contestar que pessoas com diferentes níveis de educação formal constituirão … diferentes realidades. Por analogia, recorro a um dos exemplos mais conhecidos, o Mito da Caverna (PLATÃO, 2000): o novo conhecimento amplia, ressignifica e mesmo altera a concepção do mundo, do até então admitido como real. É um caminho sem volta. O leitor interessado em saber como o cérebro cria a realidade e entender como funciona a mente, poderá ler, entre tantos, Damásio (2011), Nicolelis (2011) e também Macknik e Martinez-Conde (2011).

Passado o tempo, mas paralelamente, outras lentes, a exemplo das crenças, culturas e ideologias (sistemas de valores) serão utilizadas para modular a realidade em permanente construção, tendo, pois, uma dimensão histórica: varia no tempo e no espaço. E mesmo entre os cientistas, ou sobretudo entre estes, as perspectivas acerca da realidade são distintas porque provenientes de (pontos de partida) teorias (visões de mundo) divergentes. Hawking e Mlodinow (2011) referem que algumas teorias mais parecem ficção científica… mas não são, ao contrário, são bem fundamentadas (para quem entende, é claro), mas escapam ao senso comum. É notória a resistência e os embates de A. Einstein com os seus colegas teóricos precursores da mecânica quântica. No mundo da ciência há ainda outra concepção de realidade, de natureza probabilística, mas sobre esta não cabe, aqui, tecer maiores considerações, seja porque mais específica, mas sobretudo porque, de regra, distante do cotidiano. Mas simplesmente saber dessa existência (o que não nos exige conhecimentos aprofundados e específicos) já nos situa a partir de outra perspectiva valorativa frente à realidade e, por conseguinte, à verdade.

Penso que essas menções são suficientes para deixar claro que a tarefa dos que se propõem a conceituar a realidade – em definitivo – se equipara à de Sísifo, e se a adequação à realidade (pretérita ou presente) é critério para o reconhecimento da verdade, definir esta última acaba por ser tarefa, senão impossível, tão difícil quanto a do personagem mitológico.

Contudo, a vida em sociedade requer o estabelecimento de um acordo básico sobre o que é real (verdadeiro), e que, por extensão de entendimento (do concreto ao abstrato) será utilizado como baliza referencial para o reconhecimento da verdade, inclusive para a formação de juízos a exemplo de certo vs errado, bem vs mal, belo vs feio, igual vs diferente, vício vs virtude, etc. – base dos códigos morais (do que é permitido, valorizado, estimulado, etc.) que orientam e normatizam os relacionamentos, inclusive com os animais.

À guisa de ilustração, mesmo no domínio da Justiça, um dos temas mais salientes no seio da Ordem, orientado pela norma positiva firmada pelas maiorias nos Estados Democráticos e de Direito, não raro há dificuldades para se chegar à verdade dos fatos capaz de promover a justiça. Aliás, a própria noção de ato delituoso (e mesmo crime) varia no tempo e no espaço: tanto o que não era considerado pode vir a ser (ou até mesmo já é); quanto o que hoje não é, no futuro poderá vir a ser – ato delituoso ou crime. Ademais, no limite, a diferença entre o herói e o criminoso pode ser sútil, assim como as apreciações dos atos cometidos podem ser matizadas em razão do agente, se público ou privado, e frente às circunstâncias. No domínio da Justiça a verdade não só depende de provas, elementos factuais da realidade (o que à primeira vista é incontestável) como da observação da ritualística (o devido processo legal); todavia, não raro essas exigências abrem oportunidades para o projeto do crime perfeito – sem punição, seja pela ausência de provas ou pelo gerenciamento até a prescrição. Como se percebe, o tema é amplo e aberto a controvérsias; demanda permanente estudo e reflexão.

Até o momento, para registrar a complexidade que envolve a noção de “verdade”, adotou-se a atitude conhecida como realista, que admite a apreensão da realidade em si mesma; contudo, a matéria admite abordagem diversa: a do idealismo, que tem em Platão, se não a primeira, uma das mais conhecidas referências históricas. É provável que as dificuldades apontadas, entre outras no domínio do realismo, estejam por detrás da enorme acolhida à Teoria das Ideias (PLATÃO, 2000, 2011, 2013) que, impregnada nos corações e mentes, encontra-se miscigenada com inúmeras crenças que igualmente se propõem a encontrar a verdade em estado puro. E se essa não pode ser encontrada ao nível do microcosmo, o do nosso cotidiano, talvez possa no macrocosmo, bem como existir entre ambos uma via de comunicação.

Nesse caso, a realidade objetiva é tão somente uma sombra, imperfeita, apreendida e filtrada pelos sentidos, de uma realidade idealizada, perfeita. Trata-se de uma engenhosa construção conciliatória ajustada à natureza humana ávida por conhecimento, explicações. Assim, ao fim e ao cabo, a busca pela verdade é deslocada para um plano ainda mais elevado que muitos textos, a priori, referem como incognoscível, daí, inatingível, mas que no plano do microcosmo pode ser representada, em grande síntese, pelas chamadas 3 (três) questões fundamentais: de onde viemos, para onde vamos e qual a razão (o sentido) da existência? E é no curso da investigação ordenada a essas questões que as demais verdades com implicações mais pragmáticas serão descobertas. Por oportuno, é digno de nota que, nessa linha, para muitos as questões que no âmbito da Justiça não foram devidamente solucionadas no microcosmo ficam, então, adiadas para solução no plano do macrocosmo, tido como superior, o que faz deste comportamento uma atitude perante a vida.

E antes concluir esta breve introdução ao tema da verdade, importa salientar que, em que pesem as dificuldades apontadas, somente superadas por convenções sociais, nunca em termos absolutos, esta condição de impossibilidade tem sido extremamente útil e funcional à humanidade, pois a curiosidade, a dúvida, a eterna e inquietante busca para compreender a realidade estão na base dos empreendimentos que direta ou indiretamente, como que em reação em cadeia, proporcionaram a humanidade o atual estágio de desenvolvimento. Nesse contexto, os tipos ideais weberianos constituem um bom exemplo contemporâneo da importância do alvo móvel e inatingível: o fato de serem abstrações, nunca encontrados na sua plenitude, não implica redução da sua importância enquanto quadro de referência que motiva e cria sinergias nos agentes. Ainda que por tentativa e erro, o objetivo passa a ser, então, chegar o mais próximo possível (no caso, da verdade) mesmo que a priori se saiba que o alvo jamais será atingido.

3 – Ser um buscador

À primeira vista, a impossibilidade de chegar à verdade absoluta, corolário da exposição antecedente, implicaria no reconhecimento de que ser um “buscador da verdade” é contrário ao senso. Todavia, se assim fosse, sendo essa uma verdade antiga, há muito a humanidade teria de deixado de procurar… o que, por sua vez, claramente não é verdade. Após tanto buscar, a experiência, já constituída em sabedoria, revelou que independentemente da existência da verdade absoluta – o alvo -, dela é possível se acercar por aproximações sucessivas, algo como a verdade mais próxima ou temporariamente válida, atingível ou aceitável à luz das contingências. E como é possível saber, com maior certeza, que dela se está mais próximo? Pelos resultados alcançados no dia a dia, como, por exemplo: maior previsibilidade dos fenômenos naturais, controle de doenças e pestes, produção de alimentos, maior longevidade com qualidade de vida, menor número de conflitos internos e entre os grupamentos sociais, em meio a tantas outras evidências ora representadas pelos avanços científicos e tecnológicos (o hardware) só tornados possíveis pelo nível de cooperação das sociedades (o software), o desenvolvimento do que Von Hippel (2019) denomina de homo socialis.

E como é possível abeirar-se à verdade? Pelo uso do método, pois este é a alma da ciência (ROSSI, 1992).

A palavra método vem do grego, methodos, composta de meta: através de, por meio, e de hodos: via, caminho. Servir-se de um método é, antes de tudo, tentar ordenar o trajeto através do qual se possa alcançar os objetivos projetados.

A clareza, pelo menos desde o Renascimento, de que a verdade, hoje tão cara aos maçons não estava por completo revelada nos textos sagrados, foi determinante para o desenvolvimento da investigação metódica da natureza. As recomendações de R. Descartes (1596-1650) até hoje são válidas:

Em lugar, portanto, desse grande número de preceitos de que se compõe a lógica, julguei que me seriam suficientes os quatro seguintes, desde que tomasse a firme e inalterável resolução de não deixar uma só vez de observá-los. O primeiro era o de nunca aceitar alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal, ou seja, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção e de nada mais incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e distintamente a meu espírito, que não tivesse motivo algum de duvidar dele. O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu analisasse em tantas parcelas quantas fossem possíveis e necessárias, a fim de melhor resolvê-las. O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para elevar-me, pouco a pouco, como que por degraus, até o conhecimento dos mais compostos e presumindo até mesmo uma ordem entre aqueles que não se precedem naturalmente uns aos outros. E o último, o de elaborar em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir (DESCARTES, s.d., p. 26-7).

Quanto às vantagens e o alcance do método:

[…] efetivamente ouso dizer que a exata observação desses poucos preceitos […] tendo começado pelas mais simples e mais gerais e constituindo cada verdade que encontrava uma regra que me servia depois para encontrar outras, não somente consegui resolver muitas que antes considerava muito difíceis, como me pareceu também, perto do fim, que podia determinar, até mesmo aquelas que ignorava, por quais meios e até onde seria possível resolvê-las (op. cit., p. 28).

Assim, grosso modo, buscar a verdade pela via da ciência corresponde a eleger a primazia da dúvida (por vezes apresentada como curiosidade, ceticismo), seguida da observação (coleta de dados) sistemática da realidade (mais precisamente o fenômeno objeto de estudo), da catalogação (organização) dos registros, da realização de análises longitudinais, comparações (identificando as semelhanças, os contrastes), cruzamento entre as variáveis para verificar a existência de relações (associações positivas, exclusões mútuas), etc., tudo, é claro, planejado detalhadamente. Em síntese muito resumida, submeter um determinado fenômeno a esses procedimentos, para melhor conhecê-lo, descrevê-lo e explicá-lo corresponde a tratá-lo cientificamente, e como resultado tem-se um conhecimento admitido como verdadeiro, ainda que temporário, isto é, até que novas investigações autorizem a revisão do entendimento estabelecido. A ciência não é, pois, um caminho que leva a lugares definitivos. Para dar conta desse conjunto de iniciativas, várias técnicas foram desenvolvidas, algumas mais bem sucedidas e aprimoradas hoje correspondem a efetivas ferramentas disponíveis a quem quer que se proponha uma aproximação com a verdade em qualquer domínio do conhecimento, das ciências naturais às sociais. Na sequência, a apresentação sumária, pois a rigor cada tópico exige um texto específico, de algumas dessas ferramentas; umas mais outras menos apropriadas a este ou aquele caso (quanto a natureza da dúvida, das situações-problema, objetivos, etc.) e que, na maioria das vezes têm o efeito potencializado quando utilizadas conjuntamente, o que sugere o estabelecimento de uma estratégia a ser desenvolvida ao longo do processo de busca.

Entre tantas, merecem destaque: a dialética (tese, antítese e síntese); o silogismo (premissa maior, premissa menor e conclusão); quaestio disputata; indução vs dedução; o método científico; e, como tópicos complementares: os níveis de análise e a cautela frente às falácias e sofismas.

Continua…

Autor: Ivan A. Pinheiro

* Ivan é membro da Loja Mário Juarez de Oliveira nº. 4547, jurisdicionadas ao Grande Oriente do Brasil – Rio Grande do Sul.

Fonte: Revista Ad Lucem | São Luís, V. I, n. 2, p. 14-28, maio/ago, 2021.

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Da natureza e das funções do símbolo

Quando em maçonaria falamos de “rito”, podemos estar a referir-nos a duas realidades. Por um lado, ao Rito, maiusculizado, que identifica a tradição maçónica, ou, por outro, à dimensão vivencial, canónica, do que antropologicamente se define por rito. A minha breve comunicação centra-se nessa segunda dimensão em que é a natureza dos gestos, das palavras e dos locais que me interessa, não necessariamente as especificidades de uma tradição no que ela tem de diferenciador para com outras.

Na abordagem da ritualidade, perfilho a visão de que muito provavelmente a Humanidade começou por se exprimir religiosamente através da prática ritual, só depois veio a crença (Han, 2020). Ao tentar-se explicar primeiro a crença do que o rito, como fez Durkheim, por exemplo, está-se a encurtar a distância que separa a “atividade simbólica” da “atividade lógica” do homem (Durkheim, 2020). Ora, uma, a simbólica, alimenta a outra, a lógica; ou melhor, a lógica, qualquer que ela seja, parte de um quadro simbólico que define a forma de ler a realidade.

O poder do ritual está na força existente no seu conteúdo e na eficácia da sua comunicação (PINTO, 2020). A informação acerca do que compõe o ritual e, a interiorização dessa informação, é o motor de transmissão e de envolvimento do grupo nos símbolos do ritual.

E o fundamental, no que a uma prática ritual respeita, encontra-se, na minha leitura, na participação. Isto é, os ritos não são feitos para que a eles se assista, mas para que neles se tome parte (ELIADE, 1952). Quer dizer, só se compreende um determinado ritual participando nele; a simples observação de gestos e movimentos rituais numa lógica científica não permite aceder, de facto, à essência do ritual e da religião: trata-se de duas lógicas diferentes, mesmo que em igual suporte (a linguagem).

Quando um ritual é realizado e dirigido a uma assembleia, as mensagens rituais só poderão ser assimiladas pelo grupo se houver uma certa “doutrinação” sobre a matéria que está codificada, uma identificação automatizada, ou seja, a capacidade do ritual para atingir o seu objetivo junto daqueles a quem se dirige, a força de mobilização que é ou não capaz de transmitir, está essencialmente na competência da transmissão dessa mensagem e na preparação dos receptores para a entender.

Neste ponto, a nossa posição incide no valor intrínseco do texto do ritual, em si. Os textos consignados pelo tempo e pela cultura são património quase genético de todos os participantes no rito que neles se estrutura. Participar nesse texto, no texto declamado, ao vivenciar o ritual, na sua declamação e na sua audição, é recriar ciclicamente esse mesmo texto e os seus significados e sentidos.

Nesse momento, mais que perante um texto, com conteúdo, estamos perante forma, estamos perante uma linguagem que vale enquanto tal, pela sua natureza, pela comunicação e cognição que automaticamente se estabelece entre a comunidade que em torno desse texto se reúne. Talvez possamos falar de identidade narrativa, mais que de qualquer outra identidade individual, ou mesmo coletiva (RICOEUR, 1990). Tal como não se é maçom sozinho, mas se é reconhecido pelos Irmãos, também apenas se é maçom no quadro da participação em Loja, no Rito, em ritual.

No quadro do valor dos textos na sua relação com os gestos, recordo os distantes poemas homéricos, de mais de 2.500 anos de sentidos e de leituras. Num dos episódios mais marcantes dos poemas de Homero, um aedo é chamado a declamar, tal como sucederia em algumas noites num palácio, não maçónico, em que se reuniriam em torno do lume, os grandes, os nobres, os guerreiros e os aventureiros, aqueles que tinham novas para transmitir. O aedo, qual metáfora do poder do seu olhar, é cego neste episódio da Ilha dos Feaces da Odisseia. Mas fala, declama “novas”. É escutado.

E as “novas” poderiam ser plenamente novas ou não; aliás, a noção de Conhecimento seria, obviamente, muito diferente da nossa. Os mitos nasciam desse afastamento a um tempo concreto mediante a assunção de uma dimensão primordial, organizadora de uma ordem, de um sistema. Ouvir um aedo a declamar a sua poesia era, quer escutar novidades, num tempo em que o Saber era lento na transmissão, quer voltar a entrar dentro de conhecimentos ancestrais, já sabidos, em nada novos, mas constantemente rememorados e revalidados. Declamar a poesia era ritualizar o momento.

A poesia era verdadeiramente uma linguagem de códigos, de descoberta. Se a prosa descrevia o linear, os tratados, as contas, os registos; a poesia, com o seu ritmo, com a rima e a entoação que lhe era necessária, era o campo do que não podia ser apenas ouvido, mas tinha de ser sentido. A poesia era hermenêutica em potência, era abertura à interpretação, era convite a elaborar e a descobrir.

Não será obviamente por acaso que muitos Textos Sagrados se encontram nessa forma ritmada que faz entrar o leitor e o ouvinte numa dimensão fora da linguagem normal, num quadro de ritmicidade, numa valoração de ritual, de contacto com uma Verdade fora da compreensão imediata, uma Verdade que não advém de conhecimento por metodologia cartesiana.

A cegueira, que tradicionalmente se aplica à definição da justiça, retomando a imagem egípcia do equilíbrio da balança, não é mais que a necessidade de o conhecimento se criar sem os constrangimentos do que nos pode tolher o pensamento através dos sentidos. Ser cego não é não ver. Ser cego é ser capaz de olhar para dentro, procurando uma solidez que, sendo ilusória também ela, nos referência a ideias superiores ao tempo, em vez de ter como referência única o exterior, inevitavelmente volátil, móvel e em contínua mutação.

O Saber a que me refiro, enquadrado na realidade ritual, é em tudo próximo ao da poética: procura o que constantemente nos foge. Isto é, a capacidade de olhar para além do imediato. E o imediato é-nos dado por regras, por definições de interpretação fácil, por normas escritas numa linguagem depurada de interpretações, como se fossem elas que nos fizessem chegar a universais amplos e inquestionáveis de ética.

Se a prosa de um relatório se quer clara para que todos os leitores a absorvam exatamente da mesma forma, a poesia quer que o leitor seja o seu continuador, lendo o que a sua estética pedir e desejar, levando cada um a um novo poema que é completado no momento exato da fruição. Nada se repete, nenhum leitor é igual, nenhuma norma se sobrepõe à individualidade.

A forma como uma cor, uma forma, um gesto ou uma palavra toca em cada um de nós é exato instrumento de significação, de criação de sentidos, de intensidades e, por isso, modificador, criador, operativo.

Se a presença numa reunião com alta carga simbólica e ritual se justificasse pela alegria do reencontro de um grupo de amigos, então não seriam necessários paramentos, nem rituais de aberturas, nem de uma decoração do espaço muito própria (Han, 2020).

Participa-se num ritual porque, todos juntos, se repetem um grupo de gestos, participa-se num grupo de declamações, define-se uma noção de sacralidade centrada em princípios organizadores do mundo e da vida, uma verdadeira cosmovisão, sem que seja preciso ser religiosa, e, por isso, na assembleia é-se reconhecido pelos iguais como: Iguais (ELIADE, 1999).

Quando, por exemplo, na Maçonaria se espera que as Luzes do Templo iluminem no “mundo profano”, está-se a dar asas à mística operatividade do Rito que se espelha na vida social, familiar, profissional, mediante a hermenêutica que cada um faz dos símbolos e dos ritos, da leitura que cada um realiza dos textos, das palavras e até dos silêncios.

Obviamente, seguimos para aquilo que, ao ser reforçado nos textos constitutivos da Maçonaria é definidor do que é fundamental. Ao afirmar no artigo 2º das Constituições do Grande Oriente Lusitano, que “A forma da Maçonaria é ritualística”, está-se a fugir, em pleno quadro cultural positivista, a qualquer leitura que diga ser a maçonaria algo comparável a uma Religião, mas afirma-se a dimensão do ritual como definidora.

Chegamos o que eu julgo ser, de facto, o centro da definição da própria noção de si, fundamental na noção de sacralidade, por oposição à ideia de “profano”, na Maçonaria. E o essencial encontra-se, de facto, na dita ritualística.

Poderíamos dizer que o ritual dá a sacralidade através da definição de um tempo. O tempo do ritual tem gestos e palavras muito específicas que nos remetem para códigos e para a vivência de símbolos.

No limite, até poderíamos dizer que num ritual se define um espaço sagrado na forma se gere esse espaço, com que movimentos, com regras e com ritmos, qual declamação regida por uma métrica poética (PINTO, 2020). Mas não creio que seja essa a forma mais interessante de nos aproximarmos da ideia de sacralidade.

À semântica única que une quem participa num ritual, permitindo participar no rito, acresce a hermenêutica diversa que diferencia cada um como indivíduos. E esta dinâmica, esta tensão, é, ao mesmo tempo, coesão e diversidade. A Fraternidade é como que recriada em todo o momento em que se vivencia o ritual lado a lado, seja na Loja Maçónica, seja na oração em congregação numa Mesquita, nessa natureza em que o comum nos permite participar, entendendo, e o que nos é único nos dá a capacidade de liberdade, de entendimento irrepetível. No limite, o rito, na sua repetição, é uma máquina de fazer Igualdade que dilui as diferenças do tempo e do espaço fora do ritual, do profano.

Hermeneuticamente ficamos muitíssimo mais próximos, não apenas ao fazer gestos iguais, que nos ligam, mas ao definir entendimentos que o ritual consigna e tornam cada um mais forte. E é-se mais forte -no ritual fica-se mais forte-, porque em liberdade nos unimos e nos individualizamos dentro de uma noção de sacralidade. E esta máquina de fazer Fraternidade que é o ritual, é reforçada porque ele se alimenta semanticamente do símbolo, não apenas dogmatizado numa definição que todos assimilemos como única, mas numa liberdade de cada um ler esse momento com o seu entendimento, na sua racionalidade.

De fato, um ritual, ao definir uma leitura, pode dizer-nos, se a interpretação for pobre, que essa é a leitura correta; mas diz-nos, também, pela afirmação de um caminho, os sentidos que são todos os outros – no limite, uma regra é uma bengala para se perceber como a não seguir.

E, neste momento, caímos no que me parece ser o fundamental da relação entre a sacralidade possibilitada pelo ritual: a noção de Sabedoria. Os símbolos são, acima de tudo, vividos, seja na tal formulação padronizada, seja na Liberdade interpretativa de cada um (BATESON, 2008).

Este é o caminho para entender como o ritual é um momento e corresponde a um espaço de Sabedoria. Com uma semântica própria, com simbólica própria e vivida de forma única por cada um, no ritual conjugam-se o que de mais fundamental tem a vivência: a complexidade da junção de duas naturezas aparentemente distintas: a solidez do que está definido e não pode ser alterado, e o fluido que é a vivência individual. Se um ritual são um grupo de normas e de definições, participar num rito é viver essas normas mediante a leitura pessoal. E somos livres na possibilidade hermenêutica que surge na repetição do ritual (HAN, 2020).

O Conhecimento de um ritual não se faz por se decorarem as frases, quais deixas de teatro, ou por se terem os paramentos corretos. Também o é, mas não apenas. Conhece-se um ritual, como a Antropologia já o afirmou há muitos anos, vivenciando-o, sendo participante, sendo, no fundo, oficiante – ao participar, nem que seja com um único gesto num ritual, é-se já oficiante.

Autor: Paulo Mendes Pinto

* Paulo é Doutor em Estudos Culturais. Diretor Geral Acadêmico do Grupo Lusófona/Brasil. Coordenador da área Ciência das Religiões da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa/Portugal. Áreas de atuação: esoterismo, judaísmo, maçonaria, espiritualidades.

Fonte: Revista Relicário • Uberlândia • v. 8 n. 16 • jul./dez. 2021.

Referências

BATESON, Gregory. Vers une ecologie de l ́esprit. Paris: Essais, 2008. DURKHEIM, Émile. As Formas Elementares da Vida Religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 2000. ELIADE, Mircea. Historia de las creeencias y de las ideas religiosas II. De gaumata Buda al triunfo del Cristianismo.Barcelona: Paidos, 1999. ELIADE, Mircea. Images et symboles. Essais sur le symbolisme magico-religieux. Paris: Gallimard, 1952. HAN, Byung-Chul. Do desaparecimento dos rituais. Lisboa: Relógio d ́Água, 2020. PINTO, Paulo Mendes. Trabalhar a Pedra. Textos Maçónicos e de inspiração Maçónica.Lisboa: Europress, 2020. RICOEUR, Paul. Soi-mêmme comme un autre.Paris: Seuil, 1990.

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Perspectivas junguianas acerca de vivências na ordem maçônica (Parte II)

4 – Psicologia junguiana e a vivência maçônica

A Obediência Maçônica apresenta vários aspectos que permitem uma comparação, não necessariamente equivalente ou superior, mas no sentido de poder se aproximar de alguns conceitos junguianos, apesar de suas diferenças. Em conformidade com Maxence (2010), a psicologia junguiana pode contribuir para os estudos maçônicos que buscam uma ampliação da consciência, e, também, para o aperfeiçoamento da instrução nas sessões (trabalhos) da Maçonaria que é constituída de ritos e símbolos. Importante frisar que a psicologia junguiana não tem propósito de educar ninguém e nem servir de base ou ferramenta para doutrinação.

4.1 – A busca de sentido

Na contemporaneidade, o sentido da vida está relegado a um segundo plano de importância. Como consequência, o vazio existencial e a falta de sentido fazem com que o indivíduo procure um propósito que lhe preencha, trazendo maior motivação para vir a ser.

Começamos, no entanto a sentir as consequências deste atrofiamento da personalidade humana. Por toda a parte se levanta o problema de uma cosmovisão, o problema do sentido da vida e do mundo. Em nossa época, numerosas tem sido as tentativas de anular o curso do tempo e de cultivar uma cosmovisão de estilo antigo, ou seja, a teosofia, ou, para empregarmos um termo mais palatável, a antroposofia. Nós temos necessidade de uma cosmovisão; em todo caso tem-na a geração mais nova. Mas se não queremos retrogradar, qualquer nova cosmovisão deve renunciar à superstição da sua validade objetiva, e admitir que é apenas uma imagem que pintamos para deleite de nossa mente, e não um nome mágico com o qual tornamos presentes as coisas objetivas. A nossa cosmovisão não é para o mundo, mas para nós próprios. Se não formarmos uma imagem global do mundo, também não podemos nos ver a nós próprios, que somos cópias fiéis deste mundo. Somente quando nos contemplamos no espelho da imagem que temos do mundo é que nos vemos de corpo inteiro. Só aparecemos na imagem que criamos […] (JUNG, 2013b, p. 337).

Segundo Adoum (2011), o indivíduo que procura a iniciação na Ordem Maçônica tem a esperança de encontrar uma opção para suprir sua falta de sentido na vida. Os candidatos que serão admitidos na Ordem Maçônica são, geralmente, carentes de respostas sobre a vida, sobre a morte, são sedentos de um caminho de crescimento em liberdade, precisam de uma direção, necessitam de alguém que já percorreu o caminho para lhe passar o conhecimento, são indivíduos que querem respostas para seus questionamentos, que buscam uma conscientização maior. Importante destacar que as ausências do fanatismo, do egoísmo e, também, da vaidade (conforme será descrito adiante no presente artigo ao tratar do cerimonial de mestre maçom) são fundamentais para atingir um crescimento na vivência maçônica.

Para a Maçonaria a conscientização da finitude da existência desperta a importância de se ter um sentido de existir da criatura humana. Nascer, viver, morrer e, quem sabe, renascer, são etapas sucessivas e obrigatórias de passagem de todos os seres, elas visam uma construção. O maçom é, simbolicamente, alguém que vai passar por essas experiências nas participações ativas. Nas instruções dos graus maçônicos ao longo da aprendizagem que ocorre na ritualística simbólica da Maçonaria, é importante destacar que a perfeição nunca será alcançada. É algo que se busca sempre (CAMINO, 2015).

Edinger (2020), considera que as várias influências materiais do mundo ocidental aprisionam o indivíduo e o condicionam a um padrão de comportamento totalmente dependente de um contexto externo. Essa falta de liberdade leva o indivíduo a procurar o significado da vida nos objetos que possuem valor, no aspecto do capital e do reconhecimento externo.

Sanford (1998), nos mostra que a liberdade é o verdadeiro tesouro psicológico a ser conquistado, uma vez que ser livre, é ter a condição de se adquirir conscientização e de vivenciar um desenvolvimento de propósito no caminho que percorremos em nossas vidas. Tal opção não está necessariamente vinculada a uma direção pré-determinada, não existe um padrão ou fórmula mágica pronta.

Adoum (2010a), assevera que o ato de fazer parte da Obediência Maçônica, através do ingresso em uma cerimônia de Iniciação, com toda a ritualística e simbolismo característicos, proporciona a possiblidade de viver um renascimento, tal aspecto será apresentado mais adiante no presente estudo.

4.2 – Os Rituais

Jung (2014) descreve que os ritos serviram e, ainda, estão presentes no processo de desenvolvimento da cultura do ser humano. Eles muitas vezes são experienciados na transformação do indivíduo. Os ritos também se modificam ao longo do tempo, muitas vezes é determinado pelo contexto cultural presente.

Jung (2013c) nos instrui que o ser humano, desde os tempos remotos sente a necessidade de realizar rituais como apoio para tentar compreender o que lhe é desconhecido. Num mundo primitivo, não se deixa de acreditar nos deuses, nos espíritos, no destino e nas características fantasiosas do local e do tempo, que são referenciados com frequência nesses rituais.

De acordo com Jung (2013f), não há nada de novo em falar que as imagens arquetípicas são projetadas. Isso verdadeiramente tem de se manifestar, pois caso não, elas dominariam a consciência. O desafio consiste apenas em achar uma maneira que seja um recipiente próprio, adequado. A iniciação dentro de uma religião através do batismo é uma possibilidade para tal. No curso da diferenciação da consciência, a iniciação tem evoluído em suas manifestações ao longo do passar do tempo e do contexto que fazem parte.

Campbell (2008) afirma que o ritual permite a materialização de uma ocorrência ou projeção de um drama, visível e ativo de um determinado mito. Ao fazer parte de uma encenação através de um rito, o indivíduo se vincula no mito e este adentra ao sujeito, como se fizesse parte dele – desde que, é claro, seja influenciado significativamente pela imagem.

Jung (2012a) assevera que o simbolismo de alguns ritos, quando devidamente compreendido, vai além do aspecto simples e antigo, em direção àquela motivação psíquica presente em nosso interior, ou seja, inata, produto e armazém de toda a vida ancestral. É necessário destacar como é importante os ritos para a o ser humano. Se os ritos não produzissem nenhum efeito, não só teriam desaparecido como nem teriam originado.

Destaca-se para a compreensão do entendimento do significado de símbolo, tendo como referencial Jung (2013e), que se algo é um símbolo ou não vai necessitar, primeiramente, da atitude da consciência de quem observa. De acordo com o que aponta Jacobi (2016), essa compreensão vai depender de saber se um indivíduo tem a possibilidade e a capacidade de enxergar determinado fato, por exemplo: uma árvore não só em sua aparência física, mas também como expressão ou como imagem sensível de algo desconhecido. Portanto, é possível que o mesmo fato ou objeto seja representado para um ser como sendo um símbolo e para outra apenas um signo.

Nas mitologias dos primitivos, por exemplo, se você estuda as línguas primitivas, as palavras têm vinte sentidos, elas não são, de modo algum, fixas em um sentido. As palavras […] nas grandes palavras primitivas há todo um cosmo que é designado por essa palavra. Ainda é desse modo na visão do inconsciente, por assim dizer. O inconsciente tem uma visão sintética das situações, pode-se dizer. A essência do símbolo ainda é assim, segundo Jung. O símbolo não tem um sentido. Não se pode dizer: a cor verde é a esperança. Cada símbolo tem um sentido absolutamente complexo que não
se pode esgotar; de acordo com Jung não podemos jamais esgotar […] (FRANZ, 2018, p.27).

Sobre os rituais maçônicos, verifica-se uma influência diferenciada, no sentido psicológico, em um ambiente devidamente preparado, conhecido entre os integrantes como templo, local que possui características de contexto próprias no que se refere a possibilitar um cenário que apoia a reprodução da ritualística de acordo com as cerimônias da Ordem Maçônica.

4.3 – As imagens nos cerimoniais dos graus

A imaginação é a chave para que se consiga alcançar uma transformação, de modo que seja possível nascer de novo, de um jeito diferente. Ela tem a capacidade de dar acesso a um local intermediário no qual é possível o contato com uma nova revelação simbólica que terá uma presença significativa na realidade (STEIN, 2021).

De acordo com o estudo de Jung (2013b), os conteúdos do inconsciente são o produto da dinâmica funcional psíquica de toda a nossa ancestralidade. Em sua totalidade, eles formam uma representação natural do contexto, ou seja, do mundo, uma condensação de milhões de anos de vivência do ser humano. Essas imagens são míticas, ou seja, simbólicas, porque manifestam a sintonia do indivíduo que experimenta com o objeto experimentado. Certamente, toda mitologia e descobrimento tem origem nesse contexto de experiência e todas as nossas suposições futuras, a respeito da vida no mundo, terão como fonte original esse depósito existencial. Seria um engano crer que as imagens fantasiosas do inconsciente podem ser manipuladas diretamente como uma categoria de revelação conquistada. São apenas o material em estado rústico que necessita ainda de ser transformado para a compreensão na linguagem do presente. Se a tradução for eficiente, o contexto em que vivemos, tal qual o concebemos, será acoplado de novo à experiência primordial da humanidade através do símbolo de uma cosmovisão. O homem antigo e universal oferecerá ajuda ao homem individual recém surgido, será um modo de ser que chegará perto daquela do primitivo que se une ao seu ancestral por meio de um ritual.

4.3.1 Cerimonial de iniciação ao grau de Aprendiz

Adoum (2010a), apresenta os aspectos que caracterizam a cerimônia do grau de Aprendiz que ocorre no momento de entrada do profano, como é conhecido o candidato à Aprendiz Maçom, na Ordem Maçônica. Acontecimento que permite ao indivíduo que aspira fazer parte dos quadros da Maçonaria passar pela experiência simbólica na transposição das provas do ritual de iniciação. Dentre elas está a realização de percursos dentro dos rituais conhecidos como viagens.

Elas são dramatizadas no templo maçônico, local este, que é devidamente preparado para a encenação ritualística, tais como: a presença das pinturas nas paredes do templo maçônico das seguintes representações: o sol, a lua e os 12 signos zodiacais. As figuras ficam dispostas nas paredes laterais, no teto é pintado a abóbada celeste com a representação do cosmos, reproduzindo a galáxia do sistema solar. Há o delta luminoso localizado na parte frontal do interior do templo, simbolizando Deus ou Grande Arquiteto do Universo. Existe no local um livro sagrado, a bíblia ou outro livro (ADOUM, 2010a).

[…]

Segundo Jung (2013g), os instintos atuam com maior liberdade quando não há qualquer consciência que os detenha, ou quando uma consciência já presente está adaptada a eles. Mas este último estado está em enfraquecimento, pois sempre encontramos sistemas psíquicos que se opõem à impulsividade pura.

[…]

A sombra representa um obstáculo de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo. Ninguém é competente para adquirir consciência desta verdade sem grande esforço. Mas nessa conquista de conhecimento sobre a existência da sombra, reconhece-se as características obscuras da personalidade, tais como existem na vida real. Este procedimento é o fundamento essencial para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, em geral, ele se enxerga à frente de uma grande barreira resistente. Enquanto, por um lado, o autoconhecimento é um expediente terapêutico, por outro implica, muitas vezes, um esforço significativo que pode se propagar por um tempo longo (JUNG, 2013a).

[…]

Camino (2015), aponta que, fazendo uma comparação metafórica maçônica com o ofício de polir uma pedra em estado rústico e imperfeito, é possível observar em uma pedra bruta a própria imperfeição. O Aprendiz a submete à esquadra, retirando as pontas ou arestas, mas por melhor que execute seu ofício, que atravessa o tempo, sempre ocorrerá a presença de uma falha ou uma deficiência, fazendo-se necessário empregar com vontade e determinação muito esforço para eliminar as imperfeições, muitas vezes com mais sabedoria e técnica do que de força desproporcional.

Segundo Jung (2013a), com entendimento e força de vontade, a sombra pode ser integrada de alguma maneira na psique do indivíduo, enquanto alguns traços, oferecem uma enorme dificuldade para isso, fugindo assim a qualquer influência. De modo geral, estas dificuldades estão conectadas às projeções que não podem ser identificadas como tais e cujo conhecimento requer um dispêndio de trabalho sobre si mesmo muito grande que vai além das forças habituais do indivíduo e que requer perseverança e tempo significativo de transformação.

4.3.2 Cerimonial do grau de Companheiro

De acordo com o autor Adoum (2010b), atesta que nesse ritual, o Companheiro Maçom deve realizar viagens que possibilitarão a conquista progressiva da liberdade. Destaca-se ainda que é fundamental a reflexão, nesse grau, da seguinte pergunta: quem somos?

[…]

A pedra cúbica não serve ainda para a construção social. O que é essencial é conseguir uma pedra em perfeito esquadro em suas seis faces. O lapidar, constante, é uma necessidade do ser, para isso ele utiliza as seis faculdades espirituais: a vontade, o livre-arbítrio, a harmonia, o equilíbrio, a força e a sabedoria. Essas são simbolizadas pelas […] ferramentas utilizadas pelo Companheiro em suas viagens: […] (ADOUM, 2010b).

[…]

Em resumo: é mais vantajoso, e psicologicamente mais “correto”, considerar certas forças naturais que se manifestam em nós, sob a forma de impulsos, como sendo a “vontade de Deus”. Com isso nos pomos em consonância com o habitus da vida psíquica ancestral, isto é, funcionamos tal qual tem funcionado o ser humano em todos os lugares e em todas as épocas. A existência desse habitus demonstra sua capacidade de sobreviver, pois, se não a tivesse, todos os que o seguiram teriam perecido por não haverem se adaptado. Se estivermos em consonância com ele, existirá para
nós uma possibilidade racional de sobreviver. Se uma concepção tradicional nos garante tal coisa é porque não só não há motivo algum para considerar tal concepção como errônea como também temos toda razão de considerá-la “verdadeira” ou “correta”, precisamente no sentido psicológico. Verdades psicológicas não são conhecimentos metafísicos. São, pelo contrário, modos (modi) habituais de pensar, de sentir e de agir que se revelam úteis
proveitosos à luz da experiência (JUNG, 2013a, p.40).

No cerimonial descrito, simbolicamente, o Companheiro adquire conhecimento sobre o seu mundo interno, um processo de aumento de consciência de si próprio. Na próxima dramatização esse conhecimento será utilizado para um possível alcance da completude na vivência maçônica, conforme será apresentado logo adiante.

Kast (2013), nos traz a informação que uma fração importante da experiência da obtenção de nossa identidade é a conquista de uma parte da autonomia, pois ela não é totalmente incorporada ao longo da existência, mas nos tornamos, a cada tempo, um pouco mais livres. Podemos afirmar que a independência substitui o lugar da subordinação nos tornando mais livres. Percebemos estar, cada vez mais, como nós mesmos em nossa identidade. Sendo assim, deixamos de ser apenas o resultado da situação moldada, por nós mesmos, pelo outro e pelo meio.

4.3.3 Cerimonial do grau de Mestre

Adoum (2011), nos esclarece que os ensinamentos desta dramatização, conhecida como exaltação, tem como centro a Lenda de Hiram. Ela transmite a mensagem que a edificação do templo significa que o progresso se faz pelo uso da dedicação no trabalho com objetividade. Tal esforço busca a conquista da verdade e a prática desinteressada do bem. O templo de Salomão é a representação da estrutura física do corpo humano. Jerusalém, considerada cidade paz, é a configuração do mundo interno (ADOUM, 2011).

[…]

A experiência proporcionada pelo contexto ritualístico cria um ambiente com forte poder de despertar os conteúdos do inconsciente e são materiais a serem ressignificados e revividos, daí a importância da mitologia e dos rituais.

As poderosas forças do inconsciente manifestam-se não apenas no material clínico, mas também no mitológico, no religioso, no artístico e em todas as outras atividades culturais através das quais o homem se expressa. Obviamente, se todos os homens receberam uma herança comum de padrões de comportamento emocional e intelectual (a que Jung chamava arquétipos), é natural que os seus produtos (fantasias simbólicas, pensamentos ou ações) apareçam em praticamente todos os campos da atividade humana (FRANZ, 2016, p.207).

Conforme Adoum (2011), ao atingir o terceiro grau, conhecido como o grau de Mestre, o maçom passa a ter uma conduta que é influenciada por um duplo sentido: individual e coletivo — inseparáveis — como tópicos que pertencem ao seu mundo interior e que encontra abrigo no contexto em que se vive, aquilo que é feito passa a ter uma influência na vida de toda a humanidade. É imprescindível ter conhecimento para poder passar esse saber e tornar-se capaz de contribuir para o contexto em que está inserido, de modo que possa auxiliar na evolução de todos.

Aquilo que mantém as coisas juntas, é adesivo, razão pela qual, na alquimia, cola, goma e resina, são sinônimos da substância transformadora: essa substância semelhante à força vital (vis animans) é comparada por outro comentador, com a cola do mundo (glutinum mundi), o espaço intermediário entre a mente e o corpo e sua união. (EDINGER, 2006, p.239).

Stein (2007) afirma que ao passar pela experiência da separação e aceitar a transformação, a alma liberta-se das amarras de uma identidade antiga, através de um processo de conscientização das limitações da vida. Essa forma de separação é uma amostra experiencial de morte e um passo para uma nova vida mais consciente.

Segundo Zimmer (1998), nascimento, morte e renascimento, em ciclo infinito, materializam o caráter estável do processo da vida. Exemplificam-no os ciclos do ano e do dia, a passagem das gerações e as metamorfoses do ser humano durante a etapa de uma existência. Este é o mais antigo romance da alma, implementado pelo aspecto mítico que é capaz de atingir nossa intuição com significado para os enigmas da existência.

4.4 – Individuação e vivência maçônica

Conforme Maxence (2010), a individuação é, em diversas ocasiões, confundida com a conquista de consciência do Eu. O Eu é então posto como sendo o Si-mesmo, ocasionando equívocos nos conceitos. Logo, a individuação não seria senão egocentrismo ou autoerotismo. O Si-mesmo é mais amplo do que um simples Eu. Assim, o Si-mesmo é um conceito, um arquétipo central que deve ser bem assimilado para melhor entender que é realmente uma individuação em processo. O Si-mesmo é uma figura da totalidade psíquica.

O conceito de individuação desempenha papel não pequeno em nossa psicologia. A individuação, em geral, é o processo de formação e particularização do ser individual e, em especial, é o desenvolvimento do indivíduo psicológico como ser distinto do conjunto, da psicologia coletiva. É, portanto, um processo de diferenciação que objetiva o desenvolvimento da personalidade individual. É uma necessidade natural; e uma coibição dela por meio de regulamentos, preponderante ou até exclusivamente de ordem coletiva, traria prejuízos para a atividade vital do indivíduo […] (JUNG, 2013e, p.467).

Nise da Silveira (1981), nos esclarece que a evolução das capacidades do ser humano pode ser proporcionada por forças de origem inatas, inconscientes. Além disso, é notório destacar que esse ser humano tem uma condição de adquirir consciência desse crescimento. Esclarecendo que indivíduo é possuidor de energia capaz de influenciar na aquisição desse desenvolvimento. Tal possibilidade é obtida, justamente, no embate do inconsciente com o consciente, na disputa ou na união entre ambos, permitindo que os inúmeros integrantes da personalidade se conscientizem e juntem-se em um todo, numa síntese, ou seja, na realização de um indivíduo específico e inteiro.

Individuação não quer dizer perfeição. Aquele que procura individuar-se não tem o menor desejo de se tornar perfeito e sim de evoluir para um indivíduo melhor, no sentido de completar-se, situações que são totalmente diferentes. Em busca desta completude, será necessário conhecer e entender as forças psíquicas opostas que agem dentro de si e no universo, tais como: bem ou mal e claro ou escuro. Outro equívoco, seria confundir individuação com individualismo. Observa-se que o processo de individuação leva em consideração os integrantes do inconsciente coletivo (SILVEIRA, 1981).

Boucher (2015), argumenta que a verdadeira iniciação maçônica é uma participação prática que pode produzir efeitos em si mesma, depois de serem vencidos e vividos os degraus de: Aprendiz, Companheiro e Mestre. O iniciado adquire a capacidade de estar acima dos rótulos e das amarras que o limitam no saber, sendo capaz de ultrapassar o racionalismo estéril para atingir a sabedoria. Da mesma forma que o movimento se faz pela ação, tal como o caminhar, a Maçonaria procura fazer uso do simbolismo na instrução de seus integrantes de forma disciplinada e organizada, amparada em seus regulamentos, estatutos, manuais e rituais. Tais dramatizações podem despertar a imaginação em seus membros através dos rituais que ocorrem nos templos devidamente preparados para as encenações. Tudo de acordo com os graus dos rituais e suas ritualísticas que são vividas na prática dos trabalhos.

A vivência de uma ocorrência na vida, de maneira muito significativa, pode oferecer elementos essenciais (a prima matéria alquímica) para as etapas que se
seguem rumo ao conhecimento e a totalidade na obra de individuação (STEIN, 2020). Essas experiências precisam, em diversas oportunidades, continuar sendo trabalhadas no processo terapêutico.

Stein (2021) pontua que comparando os diversos avanços na tomada de consciência do indivíduo e levando em consideração os diversos contextos que se desenvolveu essa conscientização, a individuação é um conceito que também está presente em outras culturas e em outras possibilidades de ocorrência.

A individuação não passa apenas pela consciência e, por conseguinte, não está associada a uma intencionalidade ou busca de uma divindade sagrada. Ela é a conscientização e a integração dos níveis somático, psicológico e espiritual do ser humano, nos aspectos individual e coletivo (STEIN, 2020).

“O alvo do processo de individuação é obter uma relação consciente com o Si-mesmo” (EDINGER, 2020, p. 294). Esse caminho de conquista é uma viagem ao
encontro do desconhecido em si mesmo.

Para Camino (2015), a experiência proporcionada pelo ensino maçônico tem como metas: dar condições à convivência harmônica que se situe longe da polarização radical, permitir a busca por uma conscientização ampla, alcançar um sentido para a vida a fim de possibilitar a felicidade individual e reverberar tais conquistas em benefício do contexto social.

Gennep (2012) enfatiza que ao considerarmos os grupos, ou os seus integrantes individuais, o fato de existir é constantemente marcado pela ação de decompor-se e compor-se novamente de maneira diferente, em novo estado e forma, morrer e renascer, transformar-se e transformar. É necessário trabalhar arduamente, parar, esperar, repousar, recomeçar a peleja em seguida, de uma maneira diferente, mais eficiente. A certeza de novos desafios a vencer, verão ou inverno, dia ou noite, nascimento, adolescência, idade madura, velhice, morte e limiar da outra vida – para os que alimentam essa esperança.

5 – Considerações finais

A psicologia arquetípica possui fundamentos que estão contidos na literatura de Jung e, também, em importantes estudiosos que seguem os postulados junguianos, como os que fazem parte das referências do presente estudo, dentre
outros. Eles podem nos ajudar a compreender a jornada do indivíduo rumo à realização pessoal e à aquisição de uma totalidade, sem estar ligada ao dogmatismo, estando fora da ortodoxia.

A psicologia profunda, como também é conhecida, possui base conceitual que pode apoiar no desenvolvimento mais amplo da compreensão dos significados simbólicos e ritualísticos da Ordem Maçônica. A busca pelo aprimoramento é uma necessidade na mesma, sendo fundamental evidenciar que o sentido de se chegar à perfeição é algo inalcançável para o ser humano, seja ele maçom, junguiano ou de outras escolas de pensamento.

A imaginação despertada nas participações ativas nos rituais da Maçonaria tem a possibilidade de fazer emergir os conteúdos inconscientes adormecidos e negados. Eles poderão ser compreendidos e vivenciados de uma maneira consciente e com novo significado. Tal aspecto pode dar acesso ao desenvolvimento da tolerância, atributo essencial, que é sempre considerada para os trabalhos de aprimoramento individual e coletivo na Ordem Maçônica. A conquista supracitada é obtida como algo que está em um patamar superior ao das forças contrárias que se polarizam e trazem atraso no alcance da completude ou totalidade.

Entre os principais aspectos, comuns em diversos simbolismos, estão as imagens arquetípicas, tais como: o sol, a lua, os pontos cardeais, o cosmos, a pedra bruta a ser trabalhada, o fogo, o ar, a terra, a água, o delta luminoso, a cripta (caverna) de reflexão, tão presentes nos cenários de dramatização ritualística na Maçonaria. A codificação de significados simbólicos na ritualística maçônica é um ponto de afastamento em relação aos ensinamentos junguianos, pois o símbolo é algo que possui uma significação viva e singular ao indivíduo.

A Ordem Maçônica pode aprender com os ensinamentos da psicologia profunda no que se refere a ampliação da consciência pelo conhecimento dos preceitos junguianos. A psicologia profunda tem sua independência e não é ferramenta de apoio a nenhuma forma codificada de ensinamento, mas isso não impede que o maçom considere seus fundamentos em sua própria conscientização. Esse apoio não é uma doutrina, nem é uma máxima, pois não existe, com certeza, um percurso único e uniforme para todos, não há conhecimento de uma fórmula pronta para encontrar a individuação, uma vez que ela pode ser encontrada em diferentes contextos que comungam perspectivas simbólicas e respeitam a singularidade de cada um.

Autores: Claudiney Rodrigues Calsavara e Paulo Ferreira Bonfatti

Fonte: Cadernos de Psicologia, Juiz de Fora, v. 3, n. 6, p. 542-567, jul./dez. 2021.

Nota do Blog

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Referências

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2007. STEIN, Murray. Sincronizando tempo e eternidade: Ensaios sobre psicologia junguiana. São Paulo: Cultrix, 2021. WARD, J.S.M. Quem foi Hiram Abiff? São Paulo: Madras, 2010. ZIMMER, Heinrich. A conquista psicológica do mal. Compilado por Joseph Campbell. Trad. Marina da Silva Telles Americano. São Paulo: Palas Athenna, 1998.

Perspectivas junguianas acerca de vivências na ordem maçônica (Parte I)

A psicologia junguiana, através do conceito de individuação, pode oferecer uma possibilidade de compreensão do entendimento dos símbolos, mitos e rituais, ajudando no aperfeiçoamento e na busca de sentido para a jornada daquele que inicia na Ordem Maçônica. Ao longo dos séculos, a Maçonaria vem realizando os seus trabalhos com base em aspectos históricos, progressistas, filosóficos, iniciáticos, mitológicos, ritualísticos e simbólicos. A procura de um propósito para a vida, a princípio, é o motivador para aqueles que desejam a iniciação na organização. A vivência dos estudos maçônicos tem como meta oferecer a oportunidade para que o maçom trabalhe nesse objetivo que pode ser reverberado para a sociedade. O processo de evolução dentro da Obediência Maçônica é uma possibilidade de conscientização. Algo parecido com um aprimoramento na direção de uma totalidade, uma vez que há um trabalho constante que visa o progresso do próprio indivíduo, sem deixar de dar o devido valor ao contexto que lhe é característico. Tem como parâmetro o esforço árduo e singular na meta de adquirir maior conhecimento da presença das forças opostas, tais como: sombra e luz, mal e bem e ativo e passivo. A individuação não passa apenas pela consciência e, por conseguinte, não está associada a uma intencionalidade ou busca de uma divindade sagrada. Assim há possibilidade, não garantia, de ocorrer nos trabalhos maçônicos uma ampliação da consciência. Para isso, foi utilizada a revisão narrativa de caráter exploratória, tendo como foco produções bibliográficas de autores junguianos e maçônicos.

1 – Introdução

O presente estudo traz aspectos da vivência maçônica experienciados pelos integrantes da Maçonaria, conhecidos como maçons, que seguem e estudam os ensinamentos que estão contidos nos regulamentos, rituais, cerimoniais, símbolos, alegorias e instruções normativas dessa organização.

É-se levado a considerar que essa experiência pode proporcionar uma modificação no sentido de ampliar a consciência de seus integrantes, não na meta de chegar à perfeição ou com a finalidade de obter uma fórmula mágica que garanta o sucesso. Mas algo que está em uma possível sintonia com o resultado proporcionado por um processo de individuação, conceito presente na psicologia junguiana que tem como meta levar a um processo de transformação psicológico na busca de uma totalidade psíquica.

Os principais conceitos da psicologia analítica junguiana e da Obediência Maçônica, relacionados ao processo de individuação e a vivência maçônica, servirão de referência para o presente artigo, o qual, em seus estudos, tomou como base uma revisão de narrativa de caráter exploratória.

A necessidade de se ter uma abordagem que procura entender o que traz sentido à vida, faz parte dos instintos inatos do ser humano e de seus impulsos profundos fundamentais. Jung (2013d) coloca que o ser humano apresenta, sem variações notáveis, pontos de entendimento filosóficos e religiosos sobre o sentido da existência e de sua própria experiência vivencial. Alguns se gabam de não se enquadrarem nisso. Porém são raros entre a maior parte dos seres humanos; carece-lhes uma função fundamental que já foi constatada como necessária à psique humana.

A crença maçônica no Grande Arquiteto do Universo deixa cada maçom livre para escolher como crer em sua manifestação na existência. Segundo Maxence (2010), esse termo seria a maneira que os maçons se referem a Deus. Seu significado não é imposto como um objeto de veneração ou de crença. Ele é algo significativo e representativo. Não sendo colocado como dogma redutor e é o representante de uma dimensão que perpassa o homem.

Buscar o sentido da vida permanece uma necessidade da humanidade como um todo, e, especificamente, do maçom na Ordem Maçônica. Considerar a compreensão da mitologia é uma possibilidade para encontrar esse propósito, tendo em vista que, juntamente com o simbolismo, ela está presente nos rituais e cerimoniais de iniciação da maçonaria auxiliando nessa procura (MAXENCE, 2010).

Jung (2012b) nos proporcionou estudos sobre o que é o inconsciente. A psique possui aspectos individuais e coletivos, não é apenas um produto da experiência pessoal, uma vez que envolve, ainda, uma dimensão muito maior que se manifesta em padrões e imagens universais, tais como os que se podem encontrar em mitologias e crenças diversas (EDINGER, 2020).

Importante destacar que essas imagens estão presentes nos cerimonias da Ordem Maçônica, estes serão descritos, em suas partes essenciais, ao longo do presente artigo. Na sequência, serão apresentados conceitos da psicologia profunda que permitirão uma melhor compreensão da perspectiva junguiana que está particularmente relacionada à vivência maçônica em seus aspectos fundamentais.

2 – Conceitos da psicologia junguiana

Segundo Sanford (2020), um termo de muita importância na psicologia profunda é o conceito de individuação e entender o seu significado é essencial para a compreensão da psicologia junguiana. A Individuação é a identificação dada ao processo de transformação psíquico que ocorre constantemente em nós e que tem como fim o desenvolvimento de uma personalidade completa. Esse processo não é aquilo que queremos fazer com consciência, mas uma necessidade imperativa que tem origem espontânea na nossa psique.

A individuação, seguindo o estudo de Stein (2020), tem como material a ser trabalhado as forças opostas, como por exemplos: bem e mal, luz e sombra, ativo e passivo, dentre outras. Para ser alcançada é fundamental a integração desses componentes divergentes pelo indivíduo em sua consciência.

Tendo como referencial Stein (2020), o processo de individuação não se limita a uma especificação simples da maneira como um indivíduo se desenvolve ao longo da infância e da juventude, vivenciando, então, essa forma de ser construída que se apresenta como adulto. O processo de individuação pode ser caracterizado quando o ego-consciência vai além de suas características e hábitos pessoais determinados. Ele ultrapassa as atitudes contextuais introjetadas e pode chegar a um maior autoconhecimento e totalidade.

Outro importante conceito da psicologia profunda, conforme Jacobi (2016), é o conceito de complexos que podem ser considerados como sendo energias psíquicas desconhecidas de forte carga afetiva que estão em raízes profundas da psique, sendo possíveis de conscientização. Tal conquista de consciência, pode ser alcançada através do método analítico da psicologia junguiana, por exemplo. (JACOBI, 2016).

Esclarece a autora supracitada, especificamente, que os arquétipos são fatores e temas que organizam elementos psíquicos, formando determinadas imagens que são percebidas pelas consequências que trazem no comportamento do ser humano ao longo de sua vida. O arquétipo é sempre atualizado de acordo com a vida interior e exterior do indivíduo.

Em sintonia com os esclarecimentos de Stein (2020), os arquétipos podem ser considerados como não necessariamente presentes no passado ou no tempo, são a-históricos e atemporais. Eles materializam estruturas genéricas e motivos de vida. A identificação com um arquétipo é algo totalmente inconsciente em seu processo. Somente para alguns é possível perceber claramente essa ocorrência.

As diversas ocorrências culturais estão em nosso mundo exercendo mudança de comportamento em diversos grupos sociais e transformando as suas visões de mundo. Da perspectiva da psicologia profunda, argumentamos que diversas manifestações do saber cultural são comportamentos com ligações aos arquétipos universais que continuam a exercer influência com o passar do tempo, tais como: persona, sombra, mãe e pai (STEIN, 2021).

Ainda em conformidade com Jacobi (2016), o arquétipo se manifesta no aqui e agora do espaço e do tempo. Caso pudermos percebê-lo na consciência de alguma maneira, então falaremos de símbolo. Isso quer dizer que cada símbolo é, também, ao mesmo tempo, uma expressão de um arquétipo, de maneira que seria um desenho básico arquetípico imaginado.

Edinger (2020) observa que o homem é carente de uma vida constituída de símbolos, assim como necessita de um contexto contendo os signos. Para melhor compreensão é importante deixar claro que o signo é uma unidade de significado que materializa algo de nosso entendimento, exemplificando: a língua é um sistema de signos, e não de símbolos. O signo veicula um significado abstrato e objetivo. Ele é morto. Já o símbolo, por sua vez, é vida. Ele é uma imagem ou representação que nos mostra o desconhecido, algo subjetivo, ele é dotado de um dinamismo que exerce sobre o indivíduo uma poderosa atração e um poderoso fascínio.

Um símbolo que impõe a sua natureza simbólica, ainda não é necessariamente vivo. Pode atuar, por exemplo, apenas sobre a compreensão histórica ou filosófica. Desperta interesse intelectual ou
estético. Um símbolo é vivo só quando é para o observador a expressão melhor e mais plena possível do pressentido e ainda não consciente. Nessas condições operacionaliza a participação do inconsciente. Como diz Fausto: Quão diferente é a atuação deste sinal em mim […] (JUNG, 2013e, p. 489).

Jung (2013d) instrui que o símbolo está presente ao longo dos anos em nossa civilização. Ele participa em diversos processos da evolução da humanidade. O desenvolvimento do indivíduo é muitas vezes alcançado pela vivência, singular, do significado simbólico.

De acordo com Edinger (2020), a psicologia junguiana nos traz o conhecimento de que a psique arquetípica conta com um princípio estruturador ou organizador de conteúdos arquetípicos: o Si- mesmo. O Si-mesmo pode ser identificado, na psicologia junguiana, como a divindade empírica interna e equivale à imago Dei, a imagem de Deus e não Deus. Observemos a explicação seguinte de Carl Gustav Jung:

A imagem divina decorrente de um ato de criação espontâneo é uma figura viva, uma entidade que existe de per si e por isto se torna autônoma com relação a seu aparente criador. Como prova disto lembramos que a relação entre o criador e sua obra é dialética e, de acordo com a experiência, não raro é a obra que fala a seu criador. Certa ou erradamente, o homem comum conclui daí que não foi ele quem a criou, mas que ela se moldou dentro dele – uma possibilidade que crítica alguma pode refutar, pois o vir a ser desta figura é um processo natural orientado para um determinado fim, no qual a causa antecipa a finalidade. Como se trata de um fenômeno natural, fica em aberto se uma imagem divina é criada ou se cria a si mesma. O homem comum não consegue negar esta independência e desenvolve na prática seu relacionamento dialético. Assim, em todas as situações difíceis ou perigosas apela para sua presença, com o intuito de deixar a seu cargo as dificuldades aparentemente insuportáveis e esperar a sua ajuda […] (JUNG, 2013g, p. 82-
83).

Edinger (2020) complementa nos trazendo a informação que o Si-mesmo é o ordenador e unificador da psique total, consciente e inconsciente, assim como o ego é o centro da personalidade consciente. O ego está ligado a identidade subjetiva, ao passo que o Si-mesmo à identidade objetiva.

Segundo Sanford (2020), por intermédio da relação entre o ego e o Si-mesmo é que começa o processo de conscientização. O ego é o componente de nós com o qual estamos estreitamente ligados e identificados. Devido a isso, é comum se entender que a personalidade não vai além da divisa do ego, ainda que, de fato, a parte significativa da psique esteja contida no inconsciente. O Si-mesmo é o nome que Jung deu à psique em sua totalidade na seguinte descrição: “A este cabe funcionalmente o significado de um Senhor do mundo interior, isto é, do inconsciente coletivo” (JUNG, 2013g, p. 433). Jung aqui se expressa metaforicamente, tanto que utiliza a palavra “significado” e o pronome indefinido “um”. Ele não diz que o Si-Mesmo “é” o Senhor do mundo interior.

O Si-mesmo pode ser visto como nossa personalidade plena. O Si-mesmo é composto tanto pelo consciente quanto pelo inconsciente numa totalidade paradoxal. Ele está presente dentro de nós a partir do início da vida como uma força com potencialidade (SANFORD, 2020).

Ainda conforme Sanford (2020), caso a individuação vir a ser, a experiência do Si-mesmo precisa realizar-se através da vida que participamos realmente. Para isso, é imprescindível o trabalho conjunto entre o ego e o Si-mesmo, porque o ego precisa tornar-se uma espécie de recipiente através do qual o Si-mesmo é realizado e manifesto.

Neumann (2021) coloca que o conceito junguiano de persona se refere a uma veste psíquica utilizada pelo indivíduo. Por detrás dessa, podem, muitas vezes, estar presentes as sombras, aquilo que está fora do que se considera certo, algo que está secreto ou é misterioso, dentre outras possibilidades.

O bem e o mal são forças psíquicas opostas que nos acompanham, tanto individualmente quanto no ambiente externo ou contextualmente. Assim sendo, a conscientização de suas presenças permite o desenvolvimento ao longo da vida de uma possível totalidade de consciência. A negação da existência do mal leva a sua manifestação sem controle, tais como podemos observar nas diversas guerras pelo mundo, nas inúmeras formas de agressões, no fanatismo religioso e instabilidades no meio que vivemos (NEUMANN, 2021).

Franz (2018) argumenta que a abordagem do sentido do mal em qualquer indivíduo é o problema da sombra; do mal que lhe é característico. Todos temos uma fuga no sentido a não atentar para a nossa sombra ou a utilizar uma suavização através do uso de eufemismos e justificá-la em determinados conjuntos de ideias. Sem o reconhecimento de nossas deficiências ou daquilo que nós negamos, não se pode desenvolver um processo de individuação com progresso rumo à totalidade.

3 – Conceitos da Maçonaria

A Maçonaria, contemporaneamente, não pode ser considerada tão secreta como outrora, pois é uma instituição civil que possui registro nos livros dos cartórios, tendo personalidade jurídica, estando assim, sob a obediência das Leis Constitucionais. No Brasil, a Ordem Maçônica tem progredido multiplicando suas representações locais, conhecidas entre os maçons como lojas maçônicas. Nelas são recepcionados novos adeptos que comporão seus quadros pessoais. Elas possuem seus templos e suas características próprias para a ritualística (CAMINO, 2015).

Conforme nos ensina Boucher (2015), a Obediência Maçônica preserva tradições presentes nos ensinamentos iniciáticos e na simbologia maçônica. O símbolo possui a capacidade de fazer adquirir certos detalhes que podem estar fora da ciência, mas que nem por isso é menos importante. O símbolo, na perspectiva maçônica, é uma possibilidade ou espécie de descobrimento e de esclarecimento (BOUCHER, 2015).

Camino (2015), aponta que a Ordem Maçônica se manifesta por intermédio de reuniões que buscam uma referência ao Ser Supremo, conhecido como Grande Arquiteto do Universo. Ela faz uso dos ritos e dos símbolos. Um exemplo do simbolismo no templo é a presença no interior do ambiente de um livro considerado sagrado. Ele simboliza a palavra divina, o verbo ou verdade suprema, escrita em nosso arquivo da memória, é a lei natural.

Para os países de predominância católica e protestante é representado pelo uso de uma Bíblia, mas em outros credos pode ser o Livro dos Mortos, o Vedas, o Torah ou o Alcorão. Evidencia-se na Ordem o culto ao amor fraterno, a liberdade e a igualdade que são reconhecidos como valores importantes (CAMINO, 2015).

Segundo Boucher (2015), a Maçonaria tem como grande meta abrir o caminho à conscientização do Aprendiz maçom que se inicia na Ordem. Para isso, faz uso da dramatização ritualística nos cerimoniais de iniciação dos diferentes graus e conta com instruções ministradas pelos Mestres maçons. Além disso, faz uso da simbologia maçônica que está contida nos diferentes ritos, manuais, na decoração e harmonia do interior dos espaços de reuniões. A maneira de agir do maçom depende muito da afinidade, da capacidade cognitiva de aprendizagem e principalmente da dedicação de seus integrantes.

A tolerância é um atributo importante no processo de conscientização dos maçons, a aceitação das diferentes visões de Deus presentes nos integrantes da Obediência Maçônica é respeitada. Para ser admitido na organização, há a necessidade de se crer em Deus, pois os ensinamentos são baseados na existência de um Ser Supremo (CAMINO, 2015).

A crença em uma Força Superior na Ordem Maçônica materializa um significado de algo muito maior e muito mais complexo, muito além da capacidade de compreensão da inteligência humana. Ele é conhecido na Ordem como “Grande Arquiteto do Universo”. Existe na vida maçônica a liberdade de crer, sem ortodoxia ou dogmatismo (CAMINO, 2015).

A estruturação ou organização da Ordem Maçônica se baseia em três graus de simbolismo maçônico, grau 1 ou de Aprendiz, grau 2 ou de Companheiro e grau 3 ou de Mestre (CAMINO, 2015).

Seguindo o estudo de Adoum (2010b), no grau de Aprendiz a meta é o estudo de onde se origina o ser. Já no grau de Companheiro, que é o segundo grau, o foco é buscar uma resposta à pergunta: Quem Somos? No grau de Mestre, fica evidente a efemeridade da vida com a percepção da morte a nos aguardar em um futuro inevitável.

Segundo Camino (2015), a aprendizagem do maçom na Ordem não é uma fórmula pronta, não é um gabarito para se chegar a um padrão de excelência e ausência de defeito, sendo destaque, entender que a singularidade de cada um é imprescindível para o aumento da conscientização do ser. Além disso, a compreensão dos postulados simbólicos da Maçonaria, a capacidade de transformar em prática para si mesmo e reverberar esse progresso para o contexto social são fundamentais.

Continua…

Autores: Claudiney Rodrigues Calsavara e Paulo Ferreira Bonfatti

Fonte: Cadernos de Psicologia, Juiz de Fora, v. 3, n. 6, p. 542-567, jul./dez. 2021.

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