Pequena História da Maçonaria no Brasil – Parte V

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A Revolução de 1930

Enquanto o Grande Oriente do Brasil passava por essa convulsão interna, o País, depois do agitado período de Arthur Bernardes, iria conhecer um tempo de relativa tranquilidade, com a ascensão, à Presidência da República, do maçom Washington Luís Pereira de Sousa, em 1926. O governo de Washington Luís seria tranquilo até 1929 quando a grande crise mundial, desencadeada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York, trouxe problemas econômicos ao País, com o grande aumento dos estoques de café, em uma situação agravada pela recusa do governo em auxiliar, financeiramente, a lavoura em crise.

O ano de 1930 começava, para todo o Brasil, sob o signo da intranquilidade. A par da grande depressão econômica, oriunda da crise mundial de 1929, havia grande perturbação nas esferas políticas, em decorrência da crise que o País atravessava, com a violenta queda da estrutura econômica, baseada na exportação do café.

Deste o início da República até 1930, São Paulo partilharia, com Minas Gerais, sua influência na política e na administração do País. Já antes da crise de 1929, a política de valorização do café, do governo de Washington Luís, encontrava adversária dentro do próprio Partido Republicano Paulista PRP, que reunia a burguesia cafeeira de São Paulo.

Ao se aproximarem as eleições para a Presidência, o PRP indicava, para suceder a Washington Luís, o ex-presidente do Estado, líder do governo na Câmara e maçom Júlio Prestes de Albuquerque, deixando de lado dois nomes de projeção nacional: Borges de Medeiros, ex-presidente do Rio Grande do Sul, e Antonio Carlos Ribeiro de Andrada, presidente de Minas Gerais. Este, então, passou à franca oposição, estabelecendo, com o Rio Grande do Sul, 50 uma coligação política denominada “Aliança Liberal”, que lançaria a chapa Getúlio Vargas-João Pessoa, para combater a de Júlio Prestes-Vital Soares.

A 1º de março de 1930, realizadas as eleições, vencia como era esperado, a máquina eleitoral do PRP, tendo, em ambos os lados, funcionado a fraude eleitoral. A oposição, então, começou a conspirar para promover o levante armado contra o governo, e tendo, o estopim da revolta sida o assassinato de João Pessoa, a tiros, por João Duarte Dantas, por simples questões familiares da Paraíba – Estado presidido por Pessoa – e sem nenhuma conotação política, mas que foi muito explorado pelos rebeldes.

Eclodida a revolta, em Porto Alegre, a 3 de outubro de 1930, ela culminaria com a deposição do presidente constitucional, Washington Luís, e a entrega do poder a Getúlio Vargas, que governaria durante 15 anos, primeiro como chefe do governo provisório, depois, como presidente constitucional e, finalmente, como ditador absoluto, até sua deposição, em 1945. O golpe de 1930 e a ascensão de Vargas ao poder teriam grande repercussão na Maçonaria brasileira, proporcionando-lhe um período de estagnação e, até, de involução, do qual está até hoje se recuperando.

No Grande Oriente, Octavio Kelly, desencantado com a insistente oposição e as perseguições que lhe moviam, deixava o cargo, a 17 de junho de 1930, só retornando a 3 de julho, depois de promulgada a nova Constituição do GOB, a 19 de junho. Em outubro de 1930, diante da convulsão social e política, causada pelo golpe de 24 de outubro, com implantação de estado de sítio e fechamento dos bancos, muitas Lojas suspenderam seu funcionamento, até por dificuldades de ordem financeira. No mesmo ano de 1930, o Grande Oriente do Brasil havia participado do Congresso de Bruxelas, realizado pela AMI (Associação Maçônica Internacional), sendo reconhecido como única Potência Simbólica no Brasil.

De 1930 até a Transferência da Capital

Da Revolução de 1930 até a transferência da capital do Brasil do Rio de Janeiro para Brasília, inaugurada pelo Presidente Juscelino Kubitschek em 1960 poucos fatos estratégicos foram dignos de nota na Maçonaria brasileira. Dentre estes podem ser citados o Tratado do GOB com a Grande Loja Unida da Inglaterra em 1934, pelo Grão-Mestre general Moreira Guimarães. A partir do de 1935, o ambiente político-social do País iria ser, mais uma vez, agitado, envolvendo evidentemente o Grande Oriente do Brasil, representante ainda de uma parcela ponderável e atuante da sociedade brasileira, apesar de ter perdido a característica de elite estratégica do país. Os extremismos de direita e esquerda passam a fazer parte do ideário político de parcelas ponderáveis da elite brasileira.

Driblando as escaramuças ideológicas Vargas, por meio da docilidade do Congresso, não tardou a dar o golpe de Estado. E este aconteceu a 10 de novembro de 1937, quando era dissolvido o Congresso, extintos todos os partidos, extinta a Constituição de 1934 e publicada uma nova Constituição de cunho autoritário. Estava implantada a ditadura do Estado Novo. Isso iria repercutir em todas as instituições sociais brasileiras, não sendo, o Grande Oriente do Brasil, uma exceção. O fechamento da Maçonaria foi aconselhado ao governo, a 25 de novembro de 1937, 15 dias após o golpe.

Em 1941, as Lojas maçônicas que haviam permanecido fechadas desde a implantação do Estado Novo, em 1937, procuravam voltar à sua normalidade, embora sob a mira dos beleguins da ditadura, infiltrados na própria instituição, e embora sob o peso de decretos maçônicos castradores da liberdade de manifestação do pensamento. A 22 de agosto de 1942, em vista da série de torpedeamentos dos navios mercantes por submarinos alemães, o Brasil, por nota ministerial, reconheceu o estado de guerra com os países do Eixo, pensando-se então no envio, à Europa, de uma Força Expedicionária Brasileira.

Em todo o desenrolar da guerra, como acontecera durante o primeiro conflito mundial, havia intensa movimentação e comunicação maçônicas entre Obediências. Em abril de 1943, atendendo à solicitação do governo, o Grande Oriente recomendava, às Lojas, que adquirissem bônus de guerra, para auxiliar o esforço bélico dos países aliados. Com o fim da guerra, o ditador Getúlio Vargas era deposto por um golpe de estado, a 29 de outubro de 1945.

Em 24 de junho de 1953, foi eleito Grão-Mestre o almirante Benjamin Sodré, filho do ex-Grão-Mestre Lauro Sodré, tendo como Adjunto Cyro Werneck de Sousa e Silva, que seria GM a partir de 1955. A matriz positivista ainda dava as cartas no GOB. Vargas voltaria ao poder por eleições diretas em 1950. Em meados de 1954, o Brasil passava por um dos grandes traumas de sua existência, o qual propiciaria uma grave crise política e institucional. Surgiram denúncias e mais denúncias de escândalos administrativos, aproveitados pela oposição, à frente da qual se destacava o jornalista e deputado Carlos Lacerda, filho do político e maçom Maurício de Lacerda. No dia 4 de agosto de 1954, ao retornar de uma conferência, Lacerda foi vítima de um atentado a tiros, no qual foi morto um oficial da Aeronáutica; e a situação iria se tornar extremamente grave quando o inquérito, então instalado, mostrou que o assassino era dirigido por um áulico do presidente. Este, a 23 de agosto, crendo que venceria a crise, com um pedido de afastamento temporário, viu na manhã seguinte que isso não satisfazia a oposição. Sem poder, então, contornar a crise, suicidou-se, nesse dia 24, com um tiro no coração.

Assumindo em meio à crise e ao trauma gerado pelo gesto de Vargas, o vice-presidente João Café Filho presidiu a eleição do novo presidente da República. Foi eleito, então, o ex-governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek de Oliveira, tendo como vice-presidente João Goulart. O qual da que tomaram posse a 31 de janeiro de 1956. Em 1957, O Grande Oriente do Brasil participava como Obediência internacionalmente reconhecida, do Congresso Maçônico Internacional de Haia, na Holanda. Na exposição, então apresentada, o Grão-Mestre Cyro Werneck fala da história do Grande Oriente e dos reconhecimentos internacionais de que ele desfrutava, naquela época.

No governo da República, o presidente Juscelino Kubitschek, programando uma série de metas a ser atingidas, tinha como fundamental a mudança da capital federal do Rio de Janeiro para o Planalto Central, aspiração que, embora fosse muito antiga – lembrada, já, na Constituinte do Império, de 1823, e registrada na Constituição republicana de 1891 –, jamais fora levada avante. Em decorrência, entretanto, da firmeza do governo, lançando as bases de Brasília, a nova capital, no Planalto Central, várias entidades – e, entre elas, o Grande Oriente – começaram a planejar a futura mudança de sua sede central para o novo Distrito Federal.

O ano de 1961 começava, para o Brasil, com a posse de um novo presidente da República, Ir. Jânio Quadros que durou apenas 7 meses no poder, tendo renunciado em agosto de 1961. Isso desencadeou uma crise política sem precedentes na história republicana, envolvendo, também, o Grande Oriente do Brasil –, pois, depois de o cargo ser entregue, na forma constitucional, ao presidente da Câmara Federal, Pascoal Ranieri Mazzilli, já que o vice-presidente João Goulart estava viajando pela Ásia, os ministros militares, considerando perigosa a entrega do poder a Goulart, pediam ao Congresso a declaração de seu impedimento.

Seguiram-se alguns dias de apreensões, com vários segmentos da sociedade defendendo a intangibilidade do mandato do vice-presidente. O Grão-Mestre Cyro Werneck, em nome do Grande Oriente do Brasil, manifestou-se publicamente pelo respeito à Constituição, com a consequente posse de Goulart na Presidência.

Continua…

Autor: William Almeida de Carvalho

William Carvalho foi diretor da Biblioteca do Grande Oriente do Brasil e Secretário de Educação e Cultura do GODF-GOB. Autor de diversos livros sobre a Maçonaria no Brasil. Membro da Loja de Pesquisas Quatuor Coronati de Londres, da Scottish Rite Research Society. Presidente da Academia Maçônica de Letras do DF. Tesoureiro da Academia Maçônica do Brasil e da Academia Maçônica de Letras da Paraíba. Doutor em Ciência Política pela Panthéon-Sorbonne.

Fonte: Revista de Estudios Históricos de la Masonería Latinoamericana y Caribeña

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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2 respostas para Pequena História da Maçonaria no Brasil – Parte V

  1. Hercilio Caetano disse:

    Fiquei contente em poder ter ampliado meus conhecimentos sobre a nossa sublime instituição. Fraternalmente meus agradecimentos. Hercilio Caetano

    Curtido por 1 pessoa

  2. Pingback: Pequena História da Maçonaria no Brasil – Parte V — O Ponto Dentro do Círculo | PELOTAS OCCULTA

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