Os Maçons e o Movimento Republicano (1870-1910) – 1ª Parte

Resultado de imagem para movimento republicano no brasilRevista Illustrada – 9 de junho de 1888

Este artigo apreende e resgata a atuação da maçonaria brasileira entre 1870 e 1910, período marcado pelos intensos debates que procuravam estruturar uma nova identidade nacional. Buscava-se a civilização e o progresso, encarnados na defesa da liberdade de consciência, na abolição do trabalho escravo e na República. Marcada por uma estrutura organizacional peculiar, a maçonaria brasileira conheceu, no período, um importante crescimento das suas atividades em todo o território nacional. Aglutinando setores expressivos da sociedade, a “sociabilidade” proporcionada pelas lojas maçônicas acabou por transformá-las em importantes centros de divulgação do projeto republicano.

“Para a cólera que espuma da sogra (Cachorrão! Coitada da minha filha…”), repugnância das cunhadas (“Pobre de nossa irmã, casada com bode preto!”), consternação de minha Mãe (“Nossa Senhora, que pecado!”) e escândalo da Cidade (“Pobre moça! Também casar com nortista…”) e animado por nosso Primo Mário Alves da Cunha Horta, pedreiro livre emérito, meu Pai ousara tripingar-se! Primeiro, Cavaleiro Rosa Cruz. Depois, da Águia Branca e Negra. E frequentava noitantemente a casa maldita, sempre escura, de janelas e portas herméticas. Lembro-me bem: quando passava em frente, com minha Mãe, ela descrevia uma curva prudente, largava o passeio e tomava a sarjeta para distanciar-se dos óculos gradeados do porão onde, diziam, havia um negro caprino cevado com carne podre de anjinhos e cujo bafo enxofrado era fatal!” (Pedro Nava – Baú de Ossos)

Introdução

A década de 20 do século passado conheceu um importante processo de reflexão sobre os caminhos da pesquisa histórica. Ao questionar a hegemonia da História política na produção historiográfica francesa, os historiadores dos Annales passaram a defender uma nova concepção de história onde o econômico e o social ocupavam lugar fundamental.

Nos anos 60, com o crescimento do marxismo nos meios acadêmicos, acentuou-se na pesquisa histórica a marginalização dos estudos políticos.

Contudo, este quadro vem se modificando. O crescente diálogo entre a História e as outras ciências sociais (Ciência Política, Sociologia, Linguística) contribuiu para que a dimensão política voltasse a ocupar um espaço fundamental nos estudos históricos, num processo que R. Remond chamou de “renascimento da história política”[1].

É, portanto, neste contexto de renovação historiográfica e de crescimento nos estudos políticos que as reflexões deste artigo se inserem. Nosso objetivo é repensar  a atuação da instituição maçônica no final do século XIX e início do século XX no Brasil, período marcado pelos grandes debates que procuram estruturar uma nova identidade nacional, tentando compreender a especificidade da “sociabilidade” pelas lojas maçônicas  que acabou por transformá-las em importantes centros de divulgação e discussão do ideário liberal, a despeito dos cuidados que devem ser guardados de sua identificação simplista.

A Maçonaria e a Ilustração Brasileira

A partir de 1870, a sociedade brasileira conheceu profundas transformações. A crise do escravismo e o crescimento da propaganda republicana, aliados ao surto de “ideias novas”, como se referiu Sílvio Romero, possibilitaram a maior consciência dos problemas do país, bem como a busca pela definição de um novo padrão de identidade nacional. Para Roque Spencer Maciel de Barros, este período viu surgir uma elite intelectual que se propunha a “ilustrar” o país, a liberalizar de fato as instituições e que, portanto, acreditava no poder das ideias – da ciência – como único mecanismo legítimo de transformação do país. Em síntese, buscava-se a colocação do país ao “nível do século”.

(…)estes homens buscaram instrumentos capazes de integrar-nos, de vez, na grande comunidade euro-americana.; ao invés de se entregarem a uma suposta realidade brasileira, procuram criá-la pela ação educativa da lei, da escola, da imprensa, do livro, (…) Certamente, (…) as ideias que triunfam são exatamente aquelas que melhor servem ao propósito de integração do país na cultura ocidental, confundida com a humanidade; são as doutrinas que nos trazem uma filosofia progressista da história e que dão um sentido ecumênico aos acontecimentos que se verificam no país.[2]

Repensar a identidade nacional, para esta geração de intelectuais, era um “esforço de universalização” e de consequente negação do passado marcado pela herança ibérica, pelo escravismo, pelo colonial, pelo singular. Nicolau Sevcenko destaca que a palavra de ordem  da “geração modernista de 1870” era condenar a sociedade “fossilizada” do império e pregar as grandes reformas redentoras: a abolição, a república e a democracia[3].

Segundo Roque Spencer, o liberalismo brasileiro do final do século XIX enfrentava uma luta semelhante à vivida pelo liberalismo do século XVIII europeu. Seu conteúdo era jurídico-político, e era em nome do direito natural que condenava a escravatura e a ordem imperial. Todavia, para realizar a sua tarefa precípua de liberalizar de fato as instituições do período, a “Ilustração brasileira” encontrou, na Igreja Católica, baluarte do conservadorismo, importante obstáculo.

Os liberais clássicos, tipo dominante na “Ilustração brasileira”, segundo Roque Spencer, fundados em uma visão jurídica do homem, possuíam, como ponto de partida teórico, a crença fundamental na liberdade humana. Se discordavam quanto à forma de governo (república ou monarquia constitucional) mais adequada para realização do ideal liberal, todavia eram unânimes na critica à excessiva centralização do sistema imperial brasileiro via Poder Moderador, na defesa da abolição do trabalho escravo e na defesa da livre manifestação do pensamento. “Sua tarefa era libertar o trabalho, a consciência e o voto.”[4]

Sérgio Buarque de Holanda, ao analisar este período assinalou o declínio da instituição maçônica, o que, de certa maneira, teria possibilitado o crescimento da doutrina positivista. Se, nos anos 20 e 30 do século XIX, ser maçom era sinônimo de ser patriota, nos anos finais do Império generalizou-se a crença na regeneração da Humanidade pela Ciência, viga mestra da filosofia de A. Comte[5].

Mesmo sem apresentar as razões desse declínio, a posição do autor vem sendo corroborada pela historiografia, que insiste em considerar a maçonaria como uma instituição que atuou de forma mais efetiva apenas durante o processo de emancipação brasileira, possuindo, posteriormente, uma presença inexpressiva. Minha proposta de repensar o papel desempenhado pela maçonaria no final do século XIX e início do século XX, procurando vinculá-la à “Ilustração brasileira”, visa justamente questionar essa posição comum à historiografia brasileira. Evidentemente, esta perspectiva não busca excluir a atuação dos positivistas na estruturação e na legitimação do regime republicano, como bem demonstraram José Murilo de Carvalho e Roque S. M. de Barros.  Entretanto, ela quer destacar a necessidade de se levar em consideração o inegável crescimento organizacional maçônico e o seu papel na formação de uma expressiva parcela da elite política no período[6].

Resgatar a maçonaria como uma instituição formadora de opinião implica na necessidade de pensá-la, antes de mais nada, como uma forma específica de sociabilidade que possui no caráter secreto/fechado um elemento definidor, mas que, ao mesmo tempo, impõe um forte limite às suas ações. Esta limitação diz respeito às dificuldades em administras as divergências entre seus membros, evitando as constantes cisões e o consequente enfraquecimento da instituição. Tal risco, entretanto, não pressupões que ela não possuísse um projeto de ação, como bem expressou Quintino Bocaiuva, em 1897, por ocasião de sua posse no cargo de Grão-Mestre Adjunto do Grande Oriente do Brasil. Embora longa, a citação é exemplar:

“(…) se nós nos limitássemos a fazer a caridade, a dar pensões, a ser sociedade de beneficência, cairíamos no ridículo de uma organização tão complicada e tão aparatosa, com cerimonial tão minucioso de palavras, sinais, toques e passos, com sessões noturnas secretas, tão prolongadas, para fins tão insignificantes plenamente preenchidos, sem tantas formalidades, por quantas associações, estrangeiras ou nacionais, que se acham, para esse fim, estabelecidas entre nós. É esta a contraprova da asserção, tantas vezes por mim afirmada nesta Assembleia. – A Maçonaria é uma associação altamente política. Mas qual é essa política? Tendes o direito de perguntar-me. Responderei, começando por definir os termos da controvérsia: – Política é a arte de educar o povo e dirigi-lo nas vias do progresso e do engrandecimento, até a consecução dos seus fins no seio da humanidade. É isto que nós maçons chamamos de “alta política”; tal qual delineada na nossa constituição. (…) A nossa política, tão grande como a nossa instituição, é aquela que nos faz amar o cristianismo, e detestar o jesuitismo, que nos impele a estudar e ouvir socialistas e rebater anarquistas; que nos obriga a aceitar e manter a República e repelir a monarquia; que nos dá a diferença profunda entre o jacobirismo e o patriotismo; pois este é um sentimento de amor, e é aquele um mal sentimento de ódio, contrário ao nosso lema de fraternidade universal, dos homens  e dos povos.”[7]

Assim, torna-se fundamental perceber o grau de penetração que o ideário maçônico possuía junto aos grandes debates que sacudiram a sociedade brasileira do período, ou seja, perceber sua ação enquanto grupo de pressão política e instrumento de controle ideológico. Destacar, portanto, a instituição maçônica enquanto um importante mecanismo de intermediação de interesses que se constitui na relação entre o Estado e a sociedade.

Continua…

Autor: Alexandre Mansur Barata

Fonte: Locus, Revista de História

*Alexandre é professor de História da Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil. Pesquisador do Núcleo de Estudos em História Social da Política (NEHSP) e do CEO/PRONEX/CNPQ-Faperj “Dimensões e fronteiras do Estado brasileiro no século XIX”. Pos-doutorado (2012/2013) na Universidad Pablo de Olavide (Spain) com apoio financeiro da CAPES (Ministério da Educaçao – Brasil). Livros publicados: Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada e Independência do Brasil (1790-1822), publicado pela Editora Annablume (São Paulo-Brasil); Luzes e Sombras: a ação da maçonaria brasileira (1870-1910), publicado pela Editora da Unicamp (Campinas-Brasil).

Para o artigo na íntegra, clique AQUI

Notas

[1] – REMOND, R. Por que a história politica? Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v. 7, n. 13, 1994, p. 7-19.

[2] – BARROS, Roque S. M. A Ilustração brasileira e a ideia de Universidade. São Paulo: Convívio/Edusp, 1986, p. 13.

[3] – SEVCENKO, N. Literatura como missão. 3 ed. São Paulo: Brasiliense, 1989. p. 78.

[4] – BARROS, Roque op. cit., p. 81.

[5] – HOLANDA, Sérgio B. de “Da Maçonaria ao Positivismo”. In: – História Geral da Civilização Brasileira. 4 ed. São Palo: Difel, 1985. t II , v. 5. p. 289.

[6] – Ver: CARVALHO, José Murilo de, A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 120; BARROS, Roque op. cit., p. 107-195

[7] – Ver: Boletim do Grande Oriente do Brasil. Rio de Janeiro, 22(3-4): 144, mai-jun/1897

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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